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Watu Wote

por Diogo Noivo, em 01.02.18

WatuWote4.jpg

 

A furgoneta viajava de Nairobi para Mandera, uma cidade queniana junto à fronteira com a Somália. Já próxima do destino, é atacada por um pequeno grupo da organização terrorista al-Shabab. Se dúvidas houvesse, a abordagem inicial dos jihadistas clarificou o propósito da ofensiva: após metralharem a furgoneta, entraram no veículo e exigiram aos passageiros muçulmanos que sinalizassem os cristãos a bordo. Foi em Dezembro de 2015. No ano anterior, em Novembro, a organização terrorista perpetrara um atentado em tudo semelhante na mesma região e no qual foram executados 28 não-muçulmanos.

Contudo, desta feita o desfecho foi menos trágico. Ainda antes dos jihadistas entrarem a bordo, os muçulmanos ofereceram vestes islâmicas aos cristãos e, já perante os terroristas, negaram-se a delatar os seus “irmãos e irmãs”. Temendo a chegada da polícia – estas viagens são normalmente escoltadas pelas forças de segurança locais – e surpreendidos pela resistência dos passageiros, a célula do al-Shabab abandonou o local (não sem antes, lamentavelmente, matar duas pessoas e ferir seis).

A história deste atentado tem agora adaptação cinematográfica com Watu Wote (Todos Nós), uma produção de quenianos e alemães dirigida pela realizadora Katja Benrath, um filme nomeado para Melhor Curta-Metragem na edição dos Óscares deste ano.  Mais do que uma história de solidariedade e bravura, o atentado e o filme que o retrata são um tratado sobre identidade comunitária. Em Identidade e Violência, Amartya Sen defende que a violência política hodierna é sustentada pela ideia de que as pessoas se definem mediante uma identidade única, segregadora e frequentemente beligerante. De acordo com Sen, a arrumação do mundo em civilizações tende a obscurecer a pluralidade de identidades de cada ser humano, subjugando-os a traços singulares, em regra étnicos ou religiosos. Esta é a lógica do jihadismo, que pretende impor uma só forma de Islão, totalitário, incompatível com identidades nacionais, com identidades locais, com lealdades familiares, com preferências culturais. Em tom humorístico, escreve Amartya Sen que a “mesma pessoa pode ser, sem qualquer contradição, um cidadão americano de origem caraibense, com antepassados africanos, um liberal, uma mulher, um vegetariano, um maratonista, um historiador, um professor, um romancista, um feminista, um heterossexual, um defensor dos direitos dos homossexuais, um amante de teatro, um activista ambiental, um entusiasta do ténis, um músico de jazz e alguém profundamente convicto de que existem seres inteligentes no espaço”. Todos temos um conjunto de identidades, que coexistem. Pertencemos simultaneamente a várias comunidades e compete-nos decidir a cada momento qual a mais importante. São muitos os muçulmanos que percebem isto – a maioria, na verdade. Felizmente, alguns viajavam de Nairobi para Mandera em Dezembro de 2015.

 

O trailer pode ser visto aqui.

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8 comentários

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De Luís Lavoura a 01.02.2018 às 10:42

E onde é que isto vai ser exibido, para que possamos ver?
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De Diogo Noivo a 01.02.2018 às 11:18

Esteve em alguns festivais de cinema - como o de Arroios ou o Caminhos Mundiais. Dada a nomeação ao Óscar, é provável que conste do cartaz de festivais semelhantes. É ficar com atenção.
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De Vlad, o Emborcador a 01.02.2018 às 10:59

Deveremos ter a liberdade de sermos quem queremos ser sem nunca impor o nosso modelo a ninguém. O nosso Reino deverá estar dentro de nós.

A guerra acabará quando fizermos da Humanidade a nossa identidade. E é apenas neste aspecto que a Globalização poderá ter mérito.

Se conseguimos, ao longo de milenios, pela História/folclore e pela Cultura/Religião, construir Nações- laços identitários para lá do parentesco biológico - apenas necessitamos de uma História Maior , de uma Maior Imaginação, para fazermos do outro o nosso irmão de pai diferente.

Que o novo lema seja cooperação e não competição . Só assim sobreviveremos
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De Lucklucky a 02.02.2018 às 11:05

Falso. A competição é que permite modelos diferentes. Modelos diferentes é que dão redundância para sobreviver.
Se formos todos iguais morreremos da mesma coisa.

"Deveremos ter a liberdade de sermos quem queremos ser sem nunca impor o nosso modelo a ninguém."

Implica que devemos resistir quem nos impões modelos. E como é que se resiste sem impor modelos? resistiu-se ao nazismo como?
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De Vlad, o Emborcador a 02.02.2018 às 11:47

https://www.sciencedaily.com/releases/2016/05/160512100708.htm

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De Lucklucky a 03.02.2018 às 20:51

Haha. Darwin está enterrado, mas ninguém é acusado de anti ciência...

A competição faz-se também com cooperação. É um mercado de transações. Claro que um cientista escrever isto já não recebe subsídio.
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De Anónimo a 01.02.2018 às 11:40

Não há situações perfeitas.
Nem completamente imperfeitas.
E assim são os povos.
A nós, portugueses, não nos afetam muito fatores civilizacionais.
Não somos muito dados a nacionalismos, a radicalismos militantes, a grandes arroubos pela identidade.
Somos um povo macio, até com baixa autoestima, abertos à novidade, ao consumo da moda, facilmente colonizáveis pelo marketing.
Nunca, a nosso propósito, alguém se lembraria de escrever um texto assim.
João de Brito
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De André Miguel a 02.02.2018 às 19:06

https://www.goodreads.com/book/show/442918.The_First_Global_Village

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