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Voltar a recordar a história

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.09.15

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O Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados e alguns outros funcionários dessa entidade recordaram há dias o que aconteceu durante a crise de 1956 que levou mais de 200.000 húngaros a sair do seu país. Cerca de 180 000 fugiram através da Áustria e 20 000 pela Jugoslávia. Entre o fim-de-semana de 4 de Novembro e o final desse mês passaram 113 000. Na altura foram inúmeros os países que abriram as portas para receber e apoiar os húngaros que escapavam à repressão soviética. Começaram a sair de um dia para o outro para a Áustria, um país que ainda prestava apoio a 150 000 refugiados da II Guerra Mundial. E que apesar da sua pequenez, argumento que também tem sido abusivamente usado para justificar a acção do governo de Viktor Orbán, não fechou portas a quem se refugiava.

Não existiam os mecanismos de apoio e cooperação que hoje temos, e apesar de estar em vigor a Convenção de 1951, mesmo os estados que não eram parte não regatearam esforços para acolher os refugiados.

Entre os países que se prontificaram a acolher refugiados húngaros também estava o Portugal bem comportado e obediente de Salazar, que se predispôs a receber temporariamente um número até 7 000 crianças. 

Inclusivamente, e este é outro ponto que tem sido referido para defender a posição húngara em relação aos refugiados que procuravam dirigir-se para a Alemanha, quando em 1956 o representante da Arábia Saudita junto das Nações Unidas levantou a questão da falta de documentos dos que fugiam, o representante austríaco respondeu que essas questões deviam ser tratadas depois de serem satisfeitas as necessidades básicas dos refugiados. Como aqui se escreve, também nesse tempo muitos do que fugiam utilizaram traficantes para poderem fazê-lo, porque não tinham alternativa para escapar ao flagelo comunista. Não foi a falta de documentos de identificação que impediu a sua aceitação como refugiados e não foram erguidos muros. O paralelo que se tem tentado estabelecer entre os que fogem da guerra e os refugiados económicos que procuravam entrar por outros locais não tem comparação possível, apesar de merecer igualmente atenção. Como a própria chanceler Merkel sublinhou, uma coisa são os que fogem da guerra, outra os que procuram melhores condições de vida. As situações não são comparáveis.

Por outro lado, também já em 1956 o sistema de quotas foi discutido de maneira a que o peso do apoio fosse repartido por todos os países em função dos números das respectivas populações, face à diminuta capacidade da Áustria em acolher condignamente todos os que fugiam. No final, a Áustria foi aliviada do peso dos refugiados no seu território e reembolsada dos 12 200 000 USD que gastou pelas contribuições feitas por outros países, directamente ou através do Secretário-Geral da ONU e do ACNUR. 

E, já agora, convém deixar aqui alguns números sobre o destino final dos refugiados de 1956:

"First of all, most of the Hungarian refugees were relocated or resettled outside Austria. Eventually 410 refugees settled in Austria, the others left for 36 other states: Argentina (1,020), Australia (11,680), Belgium (5,850), Brazil (1,660), Canada (27,280), Chile (270), Colombia (220), Costa Rica (30), Cuba (5), Cyprus (2), Denmark (1,380), Dominican Republic (580), Ecuador (1), Federation of Rhodesia and Nyasaland (60), France (12,690), Germany (15,470), Iceland (50), Ireland (540), Israel (2,060), Italy (4,090), Luxembourg (240), Netherlands (3,650),New Zealand (1,090), Nicaragua (4), Norway (1,590), Paraguay (7), Portugal (4), Spain (19), Sweden (7,290), Switzerland (12,870), Turkey (510), Uruguay (37), Venezuela (780), Union of South Africa (1,330), United Kingdom (20,990), and the United States (40,650). Even more states had offered to accept Hungarian refugees: Bolivia had offered places for 500 families, Guatemala, Honduras and Tunisia had offered 100 places each, and Peru had offered 1,000 places." (Marjoleine Zieck, The 1956 Hungarian Refugee Emergency, an Early and Instructive Case of Resettlement).

Sasha Nagy lembrou o que aconteceu ao seu próprio pai em 1956, mas muitos mais exemplos haverá. Não será assim de admirar que havendo quem tenha sofrido  o drama de 1956 agora escreva que o que está a acontecer envergonha a Hungria

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5 comentários

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De Ali Kath a 17.09.2015 às 08:48

pode organizar um centro de acolhimento em sua casa e pago do seu bolso

não gosto que invadam o que é meu

o sapo do pântano também refugiado

Europa para sírios e africanos, já!
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De Sportinguistaateu a 17.09.2015 às 09:18

Também fugiram ao comunismo o Puskas o Boris e o Czibor a querm o Benfica ganhou aquelas taças com o Águas e o Eusébio.

Também o Sezabo se esquivou àquilo e gostava de treinar o Sporting.

Este homem veio a ser um bom português.

Em Fátima um húngaro, o padre Kondor rezou junto aos pastorinhos, para que a Rússia tivesse juízo.

Tem um largo com o seu nome em Fátima.

Os húngaros estavam todos identificados e mostravam a cara e não tinham barbas para se camuflarem.
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De Nuno a 17.09.2015 às 10:42

Deixar pessoas pagar milhares de euros a um traficante para serem levadas em condições desumanas até ao seu destino, passando pelo nosso território sem qualquer tipo de contolo não é trata-las bem.

Deixar centenas pessoas morrer atropeladas na autoestrada porque se recusam a passar no controlo fronteiriço, sendo que se evitarem o controlo não há qualquer garantia de que serão recebidas mais à frente, não é ser humano.

Trata bem as pessoas é criar pontos de acolhimento, por onde todas devem passar, receber os papeis que lhes certificam a condição de refugiados, e que lhes permitem fazer valer os seus direitos (ao acolhimento, à saúde, ao trabalho legal). É alimenta-las à chegada, fazer-lhes um checkup médico, eventualmente receberem vacinas, etc.

Pelos milhares de euros que os contrabandistas cobram por uma viagem, e que são desviados para organizações criminosas e/ou terroristas, é possível trazer muito mais gente em condições humanas.

Mas nada disso se faz com uma fronteira permeável ao tráfico de pessoas. Defender a fronteira aberta é defender que essas pessoas cá chegadas não devem ter acesso normal ao SNS (ou equivalente), poder trabalhar de forma legal, etc. Ou defender que a Hungria deve desresponsabilizar-se disso tudo e atirar para cima dos outros.

Se é essa a posição do Sérgio, sugiro que vá à Sérvia buscar famílias de refugiados e se responsabilize pessoalmente por os levar legalmente até ao seu destino.
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De lucklucky a 17.09.2015 às 15:49

O texto que compara coisas não comparáveis e nem tem a noção do desastre que vai provocar até tem esta pérola de lugar comum do regime do 25 de Abril...

"Entre os países que se prontificaram a acolher refugiados húngaros também estava o Portugal bem comportado e obediente de Salazar, que se predispôs a receber temporariamente um número até 7 000 crianças."

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De Justiniano a 18.09.2015 às 13:06

Caro Sérgio, conhece o mapa político da Europa? Conhece a convenção de 1951, relativa ao estatuto do refugiado?

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