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Delito de Opinião

Vivemos num mundo meio assim

Paulo Sousa, 11.01.21

Uma vez explicaram-me o ponto óptimo como sendo um valor matemático. Trata-se de um valor em que se conseguem equilibrar duas realidades com comportamentos distintos. Quantas horas demora um operário a abrir um buraco no chão? Se em vez de um, recorrermos a dois operários o buraco será feito mais rapidamente. É óbvio. Mas se aumentarmos repetidamente o número de operários chegará um momento em que nenhum se conseguirá movimentar. Então definir o ponto óptimo deste problema passa por saber até que ponto vale a pena enviar mais operários para que o buraco seja feito mais rapidamente.

Neste conceito existe uma racionalidade que podemos transportar para a nossa vida pessoal, e não só. Faz sentido procurar estes equilíbrios, embora que, em questões pessoais, cada um terá a sua própria equação de valores, estímulos e tolerâncias.

Mas não será esta procura de pontos de equilíbrio, também uma fuga aos factos e às consequências de cada escolha?

Queremos uvas sem grainha, batatas-fritas sem gordura, café sem cafeína, partos sem dor, coca-cola sem açúcar e de caminho acabamos por aceitar que os políticos digam meias-verdades e a acreditar que conseguem equilibrar as contas sem fazer cortes. Uma “leslatura” é um mandato de quatro anos, e em caso de abusos podemos recorrer à “Constuição”. Agora é assim.

No final do ano passado, juntamente com dois amigos, pude regressar à Serra da Estrela. Em meia dúzia de horas subimos pela vertente norte do vale glaciar de Alvoco da Serra até à Torre, e regressamos pela vertente sul. Chegamos ao carro ao anoitecer, o que confirmou que foi um bom plano.

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No primeiro quilómetro o gelo quase não existia, mas em poucas centenas de metros tudo mudou. Longe de se tratar de uma escalada, ganham-se mil metros de altitude em menos de três quilómetros de deslocação. Não podemos dizer que o declive seja uma meia inclinação, e o ponto de equilíbrio passa por ficar em casa. Ali a realidade é tão inteira como a manhã do dia 25 no poema de Sophia. Ali não há meias medidas, nem meias verdades, nem perguntas a que se responda: “Sei lá”!

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O frio, o vento, o ruído do vento, a luz que consegue trespassar a neblina, o gelo acumulado nos vincos da roupa, as mariolas de pedras, o peso do gelo que verga as giestas, tudo é efectivo e real.

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Vivemos num mundo onde se cortam as curvas, onde se limam as arestas e onde se sofre por antecipação da dor. Por isso é bom sair umas horas das rotinas desta vida, desta coisa em forma de assim.

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