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É perturbador o caso da violação e assassinato da Irmã Tona por alguém que tinha acabado de ajudar. O "alegado" assassino e "alegado" violador é um toxicodependente recém saído da prisão.

O retrato escrito da vida da Irmã Tona fala de alguém que, mais do que tudo, era uma pessoa generosa ao ponto de dedicar a sua vida a ajudar com alegria os que mais precisam. Não era assistente social remunerada pela tutela, não seria beneficiária da ADSE, nem viu o seu horário de trabalho reduzido a 35 horas no inicio da legislatura que entretanto terminará.

Não quero aqui elaborar nenhuma teoria sobre os desgraçados dos drogados, nem sobre a reinserção social nem sobre os serviços públicos que lidam com esses casos, mas apenas sublinhar o silêncio que este caso mereceu na nossa imprensa e na boca dos que se advogam defensores das mulheres oprimidas e vitimas de violência.

Comparando o tratamento mediático que mereceu o assassinato de Marielle Franco e a ausência de qualquer reacção sobre este caso macabro, concluo que mesmo para as vítimas de violência sexual há tratamentos diferentes. A irmã Tona era uma irmã religiosa e isso colocou-a do lado errado da história.

Perante tal diferença como podemos avaliar a honestidade intelectual dos donos da nova moral e dos novos costumes?


2 comentários

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De Vorph Valknut a 18.09.2019 às 14:04

Também me parece que a comparação que faz entre as vítimas peca por falta de relação causal . Uma foi vítima, possivelmente, de um doente (não serão todos os toxicodependentes, de alguma forma, nalgum lado da sua vida, vítimas de algo, ou de alguém?). No outro tem um caso, claro, de assassinato político.
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De Costa a 18.09.2019 às 21:14

"(...) não serão todos os toxicodependentes, de alguma forma, nalgum lado da sua vida, vítimas de algo, ou de alguém?". Talvez o sejam, Vorph. Mas todos, ou quase, creio, fomos ou somos, na nossa vida, objecto de injustiças, revezes, prolongadas incertezas, abusos impunes e isso não nos legitima sem mais a opção por condutas censuráveis. Somos, isso sim, supostos ultrapassar esses obstáculos sem pôr em causa o bem-estar alheio.


Permita-me a analogia: a abjecta tirania do fisco, por exemplo, não fundamenta uma minha entrada aos tiros por uma repartição de finanças dentro, por muito que essa tirania (longe vá o agoiro, mas - e para qualquer um de nós, como bem se sabe - não é impossível e dentro da mais estrita legalidade) me arruíne o nome e a bolsa; e por demonstrado e paulatino erro do fisco.

A sociedade - desde logo os poderes instituídos e pelo menos formalmente de intocável legitimidade - espera que eu me sujeite a essa tirania com obediência e decoro, pague primeiro e proteste depois, pelos canais apropriados, gritantemente ineficazes que sejam e, se entender tudo isso insuportável, contra ela me manifeste; mas sempre civilizadamente, dentro dos estritos limites da lei, obedecendo aos poderes instituídos e desde logo sem pôr em causa a vida dos seus agentes.

Onde quero chegar é aqui: ao contrário, parece-me, de si (de si e do politicamente correcto destes tempos) não vejo por estes tempos que espécie de específica atenuante, pelo menos de apreciação social, antes mesmo da cominação jurídica, se possa invocar, a favor de alguém e da repercussão pública dos seus actos pelo facto de se ser toxicodependente.

Não me parece aceitável, neste tempo, que se invoque desconhecimento do potencial (e muito concretizável) inferno que pode ser desencadeado pelo consumo de drogas ilícitas. E não só estas, bem sei.

Não estamos já nesses tempos de aparente lenda das décadas de 60 e 70 do século passado. Isso é passado, goste-se ou não; por cada brilhante canção pop, ou qualquer outra manifestação de génio artístico, em cuja génese tenha estado, mais ou menos verdadeiramente, o consumo de drogas há uma imensidão de histórias de horror provocadas por esse consumo. E isso hoje é mais do que sabido; só o ignora quem quer. Não é concebível que alguém "se meta na droga" sem disso saber; um tal grau de ingenuidade não é crível.

Não me passa pela cabeça negar-lhes, aos toxicodependentes, a ajuda pública que como cidadãos - e cidadãos afligidos por uma especialmente perigosa condição - lhes é devida. Mas essa e nenhum outro estatuto de especial tolerância pelos seus actos (desde logo o acto primordial de algures no tempo terem começado a consumir e, como parece ser de esperar, a coisa ter ficado descontrolada), ou de menorização das consequências dos mesmos, ou de desconsideração da dignidade das suas vítimas e do horror que lhes foi imposto. Como não me passa pela cabeça negar o cuidado médico ao fumador afligido por um cancro ou ao alcoólico de fígado arruinado. Nem me passa isso pela cabeça, nem passa que um ou outro, apenas porque fumador ou alcoólico, eventualmente se sintam - e tal lhes seja até reconhecido - credores de especial consideração e prioridade no tratamento das doenças que tais hábitos há muito demonstradamente pelo menos ajudam a surgir e agravar-se. Nem creio que eles reclamem tal prioridade.

Em suma, e arriscando ser fulminado, não vejo o toxicodependente como um coitadinho. Nem o seu crime merecedor por isso de especial atenuação na forma como seja publicamente exposto

O resto, Vorph, é o habitual entre nós, entre os bem-pensantes de perene turno (parece que com algumas excepções, desde que recentemente se descobriram por cá, dir-se-ia que com verdadeiro estupor, a violência doméstica - mas desde que do homem sobre a mulher; e a poluição - mas desde que provocada pelos malditos automobilistas e produtores de carne bovina): ignorar a vítima (uma freira, por estes dias, dificilmente e por definição integraria a nova martirologia), desculpar o agressor (desde logo um toxicodependente; ainda se fosse um automobilista...), e culpar a sociedade (você, eu, todos, e que vai aceitando isso com tanto gosto que parece querer repetir e apurar a fórmula que a trouxe aqui).

Costa

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