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Vislumbre da grande crise

por Luís Naves, em 22.07.15

IMG_3803.jpg

 

Fala-se muito dos problemas do euro e da Grécia, mas a crise mais dramática da Europa de hoje está provavelmente na vaga de refugiados em busca de segurança. No sábado, estive em Roszke, pequena vila húngara colada à fronteira com a Sérvia, nos arredores da cidade de Szeged, no sul da Hungria. A ocasião era o casamento da minha sobrinha, que decorreu no centro cultural da vila, um velho edifício em frente à torre da igrejinha católica na imagem*. O local da boda não foi a primeira escolha do casal: era o único que restava, num dia em que houve muitos casamentos.

Fomos para Roszke pela estrada principal, que conduz até à maior passagem para a Sérvia naquela parte do país e como havia por ali patrulhas da polícia não vimos colunas de refugiados. À vinda, às duas da manhã, em vez de seguirmos pela estrada curta, demos de novo a volta, atrás do carro de uns amigos, que disseram logo que escolhiam o caminho longo para evitar os peões que provavelmente caminhavam na via menos vigiada. À noite, disseram os meus amigos, havia grande perigo de acidente e ninguém queria arriscar um atropelamento.

No hotel em que fiquei, em Szeged, o único sinal da crise eram os jipes da polícia da Sérvia e da Roménia que estavam daquele lado da fronteira a cooperar com a polícia húngara, na tentativa de controlar o fluxo migratório. Vimos também patrulhas conjuntas e a situação contrastava um pouco com o cenário do Natal, quando nas noites geladas já eram visíveis grossas filas de gente a caminhar pelas estradas. Nessa altura, o policiamento pareceu-me mínimo, mas a maré de refugiados subia depressa, embora ainda ninguém falasse em erguer uma barreira.

 

A crise decorre agora em plena canícula. No domingo, o dia seguinte à boda, as notícias sublinhavam que na véspera tinham sido interceptados mais de 1300 ilegais na fronteira com a Sérvia. Não foi um dia excepcional. Estes refugiados precisaram de caminhar dezenas de quilómetros num calor insuportável, isto após a longa travessia dos Balcãs, de comboio, a pé e de autocarro, que os grupos fazem ao longo de dias ou até talvez semanas, ignorados pelas autoridades locais, que deixam passar a onda para se verem livres dela.

Na sua maioria, estas pessoas são vítimas da guerra da Síria, mas há numerosos afegãos, iraquianos e também africanos em fuga de zonas de conflito, nomeadamente Somália, Sudão ou Eritreia. As vagas de gente atravessam a Turquia, a Bulgária, muitos tentam entrar na Grécia, outros seguem pela Macedónia e Sérvia, até chegarem à fronteira húngara, que é também a fronteira do espaço Schengen, onde podem pedir asilo e, por lei, têm de ser protegidos e alimentados. De acordo com a regras europeias, o custo diário per capita para alimentar os refugiados ascende a 20 euros e o processamento dos pedidos de asilo pode durar meses. Isto introduz ainda maior desespero nos imigrantes, pois o seu destino final, em quase todos os casos, é a Alemanha ou a Áustria.

 

A dimensão do problema

Ninguém sabe ao certo quantas pessoas estão em movimento, mas há quem fale em 4 milhões, só no Médio Oriente, com 10% a chegarem aos países Schengen, nomeadamente Itália, Grécia e Hungria, o que permite calcular um número possível de 400 mil refugiados em 2015, sobretudo em duas rotas, uma pelo Mediterrâneo e outra pelos Balcãs. Alimentar estas pessoas, caso se confirmem os números, custará 8 milhões de euros diários (cerca de 3 mil milhões de euros anuais), sendo necessário construir campos e arranjar trabalho. A Hungria, com população semelhante à de Portugal, afirma ter quase 100 mil refugiados, pois só entre Janeiro e Julho chegaram 80 mil. Em Itália e Grécia, o número é semelhante, mas muitos passam pelas malhas da vigilância policial e são detectados apenas na Áustria e Alemanha: legalmente, têm de ser devolvidos ao primeiro país do espaço Schengen por onde passaram, o que cria conflitos adicionais. Entretanto, um plano da Comissão Europeia propôs a distribuição pelos restantes países da UE de uma pequena quantidade dos refugiados que entraram pela Grécia e Itália, aumentando as divisões sobre o assunto (a Hungria não foi incluída e leia-se, a propósito, este artigo).

Num desenvolvimento controverso, Budapeste aprovou recentemente a construção de uma vedação que está a ser contestada pelos parceiros europeus, apesar de já haver algo semelhante em Ceuta. O design encontra-se em fase de testes, mas poderá consistir numa cerca em arame, com altura de quatro metros e o topo em arame farpado, a instalar apenas na fronteira com a Sérvia, sobretudo em bosques e zonas rurais isoladas, no exterior das passagens oficiais, que são mais policiadas. Estão também a ser instaladas sofisticadas câmaras de vigilância, mas é provável que a vedação falhe o objectivo, pois os refugiados tentarão entrar na Hungria através da Roménia e da Croácia, que são membros da UE mas não pertencem ao espaço Schengen, passando depois pela fronteira húngara com estes países, muito mais extensa do que a fronteira com a Sérvia. Assim, ao chegar à cerca, a rota de migração em massa vai partir-se em duas menores, que tentarão flanquear o obstáculo. Na Hungria, o processo de construção da vedação é pacífico e só ouvi elogios; a oposição socialista foi inicialmente contra, mas entretanto calou-se.

Alguns artigos portugueses sobre o tema fazem comparações absurdas, por exemplo com o muro de Israel erguido nos territórios ocupados ou a equivalência com a Cortina de Ferro, que visava manter pessoas dentro, não de as impedir de entrar**. O governo português também fez considerações politicamente correctas, mas assumindo parte limitada de responsabilidade por um problema que obviamente é europeu. Veremos o que será dito quando a crise se agravar, enquanto não existe vedação e ainda estiver bom tempo, tornando-se inevitável que os números aumentem e seja necessário partilhar o esforço de receber estas pessoas. Em tudo isto, há apenas uma certeza: a massa humana que caminha na direcção da Europa está em desespero e não tem mais nenhum sítio para onde ir***.

 

* foto da minha autoria

**Esta equivalência é particularmente absurda, pois foi exactamente na Hungria que começou a ser desmantelada a Cortina de Ferro, iniciando uma transição onde o actual primeiro-ministro Viktor Orbán teve um papel corajoso.

*** Este texto não é reportagem nem crónica. Resulta de impressões dos poucos dias em que estive em Szeged, sobretudo na qualidade de tio mais preocupado com assuntos de família.

 

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9 comentários

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De lucklucky a 22.07.2015 às 17:57

É claro que têm sítio para onde ir.
Podem começar por resolver os problemas no seu próprio país. Ou criar mesmo um outro país em parte desse território.

Como os bons que não fazem parte de uma "causa" aprovada pelos jornalistas não podem ter armas porque assim deixam de ser bons, restam os maus com armas.

Tal como as primaveras árabes ficaram nas mãos de quem tem vontade de usar a violência para se defender e/ou atacar.
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De Claudio a 05.08.2015 às 17:56

A Líbia actual é um exemplo do maravilhoso e eficaz plano que você propõe. É um país dividido em pelo menos dois estados, onde impera a lei da faca e de onde, caso não saiba, partem quase todos os barcos com imigrantes ilegais. Quer mais Líbias, é isso?
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De Sérgio de Almeida Correia a 22.07.2015 às 18:00

Excelente apontamento, a dar bem a ideia do estado em que a Europa está em pleno século XXI, 25 anos depois da queda do Muro.
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De Retornado a 22.07.2015 às 18:41

Todas as grandes capitais africanas, são milhões de jovens, a olhar para a Europa (sua mãe),como única prespectiva de vida.
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De Desconhecido Alfacinha a 22.07.2015 às 20:57


É Kafkiano ler este Post para de seguida ver na SIC que a crise humanitária são os Bebés abandonados nos Hospitais Gregos...
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De Velho do Restelo a 22.07.2015 às 22:16

Quem semeou os ventos da Guerra no Iraque, da primavera Árabe, dos Governos Africanos Corruptos que defraudam os recursos naturais dos seus países a troco de comissões (miseráveis diga-se) das grandes empresas multinacionais (públicas e privadas) mundiais, que se aguente agora com a bronca das tempestades.

Na Europa já temos dois estados falhados (Ucrânia e Grécia) e uma proto-ditatura (Hungria) que até tem forte apoio do povo, um desemprego crescente e degradação das condições de vida da larga maioria dos Europeus, além desta crise dos refugiados que põe a nu a hipocrisia com que esta UE tem sido construída nos últimos anos, isto se a crise grega já não o tivesse mostrado para quem ainda não o queria ver.

P.S. - O Naves como fiel ao MESTRE que é tinha logo de dar os pormenores do quanto custa manter os refugiados, que é o que são, fogem da Fome e da Guerra e ainda tem a lata de dizer que foi por motivos pessoais, se queria descrever uma situação trágica de modo pessoal ao menos não referia esses pormenores que só os encontrou porque pesquisou.
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De Luís Naves a 23.07.2015 às 00:45

Existe uma proto dentadura na Hungria? Não me diga... Desconhecia esse tipo de prótese...
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De Justiniano a 23.07.2015 às 09:51

"...mas a crise mais dramática da Europa de hoje está provavelmente na vaga de refugiados em busca de segurança" Sem dúvida, caro Naves!! Uma tragédia anunciada. Comunidades inteiras deambulam, com destino mas sem destino, pela Europa. A compaixão é frágil e treme ante a abstracção dos números!! Condescendência inconstante! A fina tolerância será o modo entre a indiferença e a aversão! O que devemos saber e o que devemos fazer para que o mérito da bondade não seja falho pela oportunidade!? Cultuar virtudes em excesso é um vício, como ensinava Aristóteles. Multiplico por dois, divido por três e é evidente que não chega. Há-de, certamente, haver outra maneira da salvação!! Assim pensava Almada sabendo-se profundamente escasso, em tudo e para tudo!! Temo pelo futuro e espero, sinceramente, estar a exagerar!!
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De cheia a 24.07.2015 às 22:23

Sou totalmente contra quaisquer muros. Os muros não resolvem nenhum problema, porque nem o mediterrâneo impede que tentem chegar à Europa. As pessoas estão desesperadas, e nós no lugar deles faríamos o mesmo. O problema já não é deste, nem daquele, é um problema Mundial. Por isso é bom que todos, em conjunto, o tentem minorar, uma vez que o condomínio fechado não o resolve.

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