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Virar a página da austeridade

por Diogo Noivo, em 15.11.18

1. Sou passageiro da CP há pouco mais de duas décadas. Exceptuando os períodos em que residi no estrangeiro, fui sempre utilizador dos caminhos de ferro nacionais. Nunca os vi tão mal. Os atrasos e as supressões de comboios na área metropolitana de Lisboa são diários (pelo que leio, no resto do país é igual). Consequentemente, os comboios que circulam vão a rebentar pelas costuras, sendo cada vez mais normal não conseguir entrar e ter de esperar pelo comboio seguinte. Perante a falência real do serviço prestado, aqueles que têm responsabilidades políticas falam na redução do preço dos títulos de transporte, demonstrando assim que estão completamente alheados das dificuldades diárias do cidadão comum.

 

2. No que respeita à segurança de pessoas e bens também não há memória de uma época tão lamentável. Os fogos florestais mataram como nunca e no rol de causas consta o fracasso técnico do Estado (do fracasso político é melhor não falar). O roubo de Tancos é em tudo semelhante: fracasso técnico do Estado e do fracasso (e desfaçatez) político é melhor não falar. As Forças de Segurança, PSP e GNR, atravessam um momento de carência especialmente duro, como ficou bem ilustrado num trabalho recente da SIC. Já o trabalho notável do Ministério Público e da Polícia Judiciária será recompensado com um corte orçamental no próximo ano.

 

3. A carga fiscal não diminuiu, apenas foi organizada de forma diferente. Estamos com a carga fiscal mais elevada dos últimos 22 anos.

 

4. A prometida descentralização é destratada com medidas ad hoc a raiar da infantilidade, algo de resto patente na novela Infarmed. Sobre o estado da arte das assimetrias regionais vale muito a pena ler este artigo de Luís Aguiar-Conraria.

 

5. O ano de 2017 foi o annus horribilis dos Hospitais com cerca de 300 milhões de euros em EBITDA negativo. A falta de profissionais no sector é gritante, as listas de espera vergonhosas e a ineficiência do Serviço Nacional de Saúde atingiu um patamar do qual já não havia memória. Além dos problemas sistémicos existem problemas graves de dignidade plasmados na vergonha sem nome de ter uma ala pediátrica com serviço de oncologia a funcionar num contentor.

 

6. Mais assuntos podem ser acrescentados, mas estes bastam para demonstrar que o “virar da página da austeridade” e a “queda do muro” não nos deixaram melhor. Pelo contrário. Por isso, é de perguntar onde andarão as vozes corajosas que entoaram “grandoladas” entre 2011 e 2015, onde andarão os indignados, onde andarão os que gritavam “as pessoas primeiro”. Não quero acreditar que a revolta do passado fosse apenas um produto artificial gerado por convicções puramente ideológicas.

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9 comentários

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De Psicogata a 15.11.2018 às 14:14

A revolta do passado era incitada pela oposição, pela comunicação social e pelas conversas das pessoas, austeridade passou a ser a palavra de ordem, não se falava de outra coisa, gerou-se uma onda de negativismo e as pessoas só sabiam reclamar da austeridade porque toda a gente reclamava.
Hoje, as pessoas continuam a acreditar no que se diz e a mensagem que se passa é que a austeridade ficou no passado, supostamente vivemos dias prósperos e o otimismo é geral, mas se perguntarmos o motivo das pessoas acharem que estão melhor, não sabem responder, acham que estão simplesmente porque lhe dizem que estão.
A juntar a estes factos existem outros que se começam a notar lentamente, o mercado interno está a abrandar, as pessoas começam a retrair-se, as empresas começam a ter menos encomendas, é uma questão de tempo para que se perceba que não estamos bem financeiramente.
Entretanto até lá é esperar que o dano não seja grande e ter esperança, tenho pouca, que a próxima crise traga as reformas que tanto necessitamos.
O povo engana-se com papas e com bolos e nunca esta expressão fez tanto sentido em Portugal.
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De Anónimo a 15.11.2018 às 14:16

Se o caixote de lixo televisivo não as mencionar, estas situações vergonhosas, e calamitosas , "não existem", pura e simplesmente.
O ruído do pão e circo dos Romanos, devidamente adaptado aos nossos tempos, acrescido daquilo que passa por "informação" ( deligentemente transmitida pela prostituição que inundou as redacções ) funciona como anestesiante de um povo que nunca deixou de ser " do caldo das portarias dos conventos.

JSP
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De lucklucky a 15.11.2018 às 14:47

Os padres, quem nos dita a moral e que no presente se auto-designam como jornalistas dizem-nos que a austeridade acabou, logo acabou. Não se fala, não existe.

Tal como os mortos por infecções apanhadas nos hospitais não existem.
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De WW a 15.11.2018 às 16:19

Uma marcha de coletes amarelos impõe-se.

WW
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De Anónimo a 15.11.2018 às 17:10

Posso falar com conhecimento do ponto 1.
Sou (era) utilizador diário do serviço de longo curso da CP. Que é uma desgraça. Atrasos, supressões. Os comboios sujos, a/c avariado, o célebre WiFi gratuito nunca funciona. O Serviço de apoio ao cliente é uma comédia. Informações a sério, só indo presencialmente aos postos de Lisboa ou Porto. Reclamações feitas, meses e meses passam sem resposta.
Entretanto, e por recreação, fui (e outros fizeram o mesmo) contactando diversa imprensa. Ninguém respondeu, ninguém mostrou interesse nos casos apresentados.
Por altura do Verão, a CP entrou na ordem do dia. Notícias diárias.
Passou a onda... alguém fala novamente da CP? Da qualidade de serviço? Dos horários desasjustados, dos atrasos (ainda hoje o meu patrão se "queixou" de chegar atrasado a uma reunião devido a uma atraso de mais de 40 minutos no Alfa) e supressões? Claro que não. Porém, os problemas mantêm-se.

PS: não posso deixar de comentar o serviço público da RTP, via Pros e Contras. O estado da ferrovia. Com grande impacto nas graínhas das uvas.
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De Luís Lavoura a 16.11.2018 às 09:33

Os fogos florestais mataram como nunca

Na Califórnia só este novembro (!) a contagem já vai em 63 mortos. Deve ser derivado ao fracasso técnico e político da Califórnia.

Ou não será devido à seca?
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De Costa a 16.11.2018 às 13:16

Para lá de tudo o resto (onde se impõe incluir a extraordinária perversão do seu carácter, Lavoura, que não hesita em contabilizar friamente mortes, justificando, branqueando, a incompetência, a demonstrada paralisia e inoperância de uns com o número de mortos dos outros), basta comparar a dimensão dos fogos. E com isso ainda se torna mais intolerável o número de vítimas dos incêndios em Portugal, a pretexto dos quais você tão prontamente culpou taxativa e inapelavelmente as vítimas e cuidou de desresponsabilizar tão ansiosa e insistentemente o poder.

Você lá sabe os fretes que entende ter que fazer.

Incêndios como esses da Califórnia, ocorrendo por cá, teriam provavelmente gerado um número de vítimas muito superior. Teriam quem sabe devastado cidades de considerável dimensão. Talvez Lisboa. Talvez deixássemos de ter que o aturar, Lavoura.

Mas a que preço...

Costa
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De Luís Lavoura a 16.11.2018 às 15:04

Incêndios como esses da Califórnia, ocorrendo por cá, teriam [...] quem sabe devastado cidades de considerável dimensão.

Na Califórnia devastaram a cidade de Paradise, que tinha 25 mil habitantes - comparável a Castelo Branco ou Portalegre. Cá em Portugal nunca houve um incêndio que devastasse, sequer, uma vila. No ano passado o fogo rodeou Oliveira do Hospital e Mação (e outras vilas de talvez 5 mil habitantes cada), mas as vilas não ficaram devastadas, aliás, pouco foram afetadas. Em Paradise ardeu tudo até ao chão. Em Portugal apenas ardem casas isoladas.
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De lucklucky a 17.11.2018 às 22:43

"Deve ser derivado ao fracasso técnico e político da Califórnia."

Qual a dúvida que a California é um fracasso?

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