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Vinte anos

por Teresa Ribeiro, em 19.03.14

As contas são tão fáceis de fazer que qualquer eleitor percebe. Daqui até 2035 vão passar, números redondos, vinte anos. Quem tiver hoje quarenta, estará a poucos anos da reforma e um jovem de 25 anos chegará à meia idade antes que o ciclo económico mude. Mas 2035 é só a meta mais optimista. Muitos argumentam e bem que o mais provável é o fim da austeridade chegar quando estivermos quase todos mortos.

Tomar consciência disto é assimilar que não existem razões objectivas para acreditar no futuro. Não do país, mas no nosso. É por isso que na propaganda do governo é do país que se fala e não das pessoas. O país, dizem, está melhor apesar da vida das pessoas não ter melhorado. Para quem vive do "rendimento social de inserção", longe da realidade, faz sentido falar assim ao povo.

Na campanha eleitoral que se avizinha é o que vamos ter. Para galvanizar os eleitores nos comícios falar-se-á muito de Portugal (da imagem externa, do regresso aos mercados, das metas do défice e outros dados macro-económicos) e pouco dos portugueses. Só que em democracia este desfasamento entre a realidade das pessoas e o discurso político é estranho. Remete-nos para os cenários sinistros dos regimes autoritários em que à falta de melhor se alimenta o povo de retórica e estatísticas encomendadas. 


7 comentários

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De Luís Lavoura a 19.03.2014 às 11:42

Remete-nos para os cenários sinistros dos regimes autoritários

Exato. Remete-nos para o tempo de Salazar, em que Portugal tinha das maiores reservas de ouro da Europa mas o povo português passava fome.
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De Facilíssimo a 19.03.2014 às 15:48

É questão de sairmos do Euro e o paraíso está logo ali.
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De lucklucky a 19.03.2014 às 15:57

Este texto nem sequer está errado. É pior. Está fora da realidade.

Não tem noção que hoje é dos melhores períodos para se viver em Portugal desde sempre.
Não tem noção da evolução tecnológica que vai melhorar a vida das pessoas até 2035.

No essencial é um texto de alguém que:
-Não tem consciência que o que defende nos levou precisamente onde estamos.
-Não tem consciência que ninguém é obrigado a nos emprestar dinheiro.

E como parte da riqueza que tínhamos era emprestada ficamos mais pobres quando ninguém nos empresta. Ora que grande descoberta!

Não é preciso ser uma grande inteligência para perceber isso, é preciso é estar aberto ao mundo, usar a cabeça e não entrar numa tripe de sentimentalismo narcisista.


"Remete-nos para os cenários sinistros dos regimes autoritários"

A pobreza portuguesa no tempo da Ditadura tem muito pouco que ver com a Ditadura. Pelo contrário tem que ver com a falta de crescimento em todos os outros períodos excepto na Ditadura.
Um dos dramas Portugueses é que foi na Ditadura que mais se combateu a pobreza.
Pois foi o período em que mais se cresceu. Infelizmente é a verdade.
Isto não tem necessariamente que ver com a competência da Ditadura pois é muito influenciado pela evolução tecnológica.
Mas é claro que os outros períodos de estagnação se deveram a interferência política. Por exemplo perdemos 10 anos e muitas falências com as ideias totalitárias que vieram com o 25 de Abril.

Mas o Luís Lavoura e a autora gostam de reescrever a história.
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De Costa a 19.03.2014 às 18:09

Isso que escreve é verdade, embora como sabemos politicamente incorrecto. E não deixa de padecer da mesma espécie de contradição que afecta a ideia actual de que o país está melhor, mas as pessoas não. Isto é, a década de sessenta do século passado, terá sido irrepetível de industrialização e crescimento; mas reflectiu-se isso na vida das pessoas (tirando certa franja urbana)? Parece que não e que terá sido Marcello Caetano, já na transição para os anos setenta, a tentar timidamente que esse melhoramento do país se reflectisse, começasse a reflectir, nas pessoas.

Entre a primeira crise do petróleo, a incapacidade ou impossibilidade de Caetano ir mais longe, o fecho do regime sobre si próprio, o golpe de 25 de Abril de 1974 e o desvario que se lhe seguiu, todos sabemos o rumo que as coisas tomaram.

Em todo o caso, desvarios ou não, cultura de facilitismo e de direitos adquiridos ou não, e sabemos que em bem apreciável medida sim, será decerto de senso comum admitir que muito se evoluiu em termos de - chame-se-lhe assim - apoios básicos ao cidadão.

Mas tudo isso foi conseguido (esse "básico" e tudo o que acima disso foi concretizado), tantas vezes como se sabe em criminoso exagero ao serviço de descarada e impune venalidade, assente em alicerces de areia solta. Hoje tudo cai e cairá. E por muito que se berrem panaceias, quem vier a ocupar "o poleiro" (o tempo, as acções e as reputações justificam o termo pejorativo), aplicará sobre nós mais do mesmo. Seja em nome das pessoas, seja em nome da Europa, seja em nome dos amanhãs que cantam.

Fraco consolo, por isso, a sua invocação do progresso tecnológico que aí virá. De que interessa o progresso na medicina, na generalidade dos bens de consumo ou bens duradouros, na generalidade de tudo o que rodeia e influencia a nossa vida e a sua qualidade, se se não tiver acesso a esses melhoramentos? Mais, se nem os padrões actuais ("actuais" de há uns anos atrás, entenda-se), se conseguir manter e, em vez disso, se decaír a cada dia, para alegadamente fazer subir o país?

Salazar deixou-nos ouro e, parece, fome. O ouro de Salazar já não o temos. A fome (de comida, de saúde, de paz de espírito, de justiça, de confortos já tidos por elementares: "de qualidade de vida", enfim) vai reaparecendo. E não há sinal de que abrande. Menos ainda de que retroceda.

Para que o país fique melhor.

Costa
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De lucklucky a 20.03.2014 às 14:23

Aqui a propósito está um quadro com a % de riqueza Portuguesa em relação aos 9 países (Alemanha, França, Reino Unido, Holanda, Itália, Noruega, Dinamarca, Suécia e Bélgica no sec XX.veja-se o desgraçado nível de onde partimos - no início do séc.XX a nossa riqueza era 30-40% e assim se manteve durante décadas inclusive as iniciais da Ditadura :

http://oinsurgente.org/2014/03/19/o-pais-empobreceu-com-salazar/

"Isto é, a década de sessenta do século passado, terá sido irrepetível de industrialização e crescimento; mas reflectiu-se isso na vida das pessoas (tirando certa franja urbana)?"

A franja urbana que parece desvalorizar não foi a maior população?
Você não pode esperar que a riqueza chegue a sítios onde não se tem produtividade. Onde comprar um tractor era a riqueza de muitos anos e o desconhecimento era significativo.
Hoje Portugal produz muito mais em agricultura que nos "tempos áureos" em que as "pessoas estavam na terra". Porque a produtividade aumentou significativamente.

É claro que tal coisa não fica bem numa burguesia socialista urbana e jornalista que fez o 25 de Abril que foi levada e ajudou a fazer crer que a Universidade e cursos de letras - tudo menos matemática - e arranjar emprego no Estado são a solução para prosperidade de um país.

Porque irrepetível? Tudo dependerá mais da evolução tecnológica e da existência ou não de interferência política nessa evolução.
Em vez do que o complexo político-jornalista nos quer fazer querer : que são eles que dirigem o nosso futuro.
Isso só o será na medida negativa.

Nos últimos 40 anos o que mais contribui para o aumento da qualidade de vida dos portugueses? Não foram os portugueses, foi o aumento de produtividade mundial, nova tecnologia que permite ter coisas que há 20 anos atrás nem sequer sonhávamos.
Nunca tivemos tantas coisas grátis como hoje, pois ao fim de anos de comercialização os custos de desenvolvimento tornam-se residuais, já não pagamos aquilo que custou um LCD a ser desenvolvido pela primeira vez.
E muitas mais teremos - excepto por guerra ou catástrofe natural daqui a 20 anos.

O grande problema é que há muita gente influenciada pelo complexo politico-jornalista que por esse motivo prefere investir na redistribuição politica do que em criar coisas novas para os outros. São socialistas anti-sociais.


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De Costa a 20.03.2014 às 22:45

"Irrepetível" porque nesses anos, de facto, não se enriquecia na política. Ideologias de lado, havia um sentido de decência na gestão da coisa pública que hoje parece estar irreversivelmente abandonado.

Haveria, parece, umas dezenas de famílias que alegadamente mandavam em Portugal e enriqueciam - ou mantinham-se ricas - também com isso. Essas famílias, admito manter-se-ão assim, aliás terão mesmo recomprado parte do seu património, depois do PREC .

Old Money ". Como tal, e para lá do justo ou injusto que lhe fosse inerente, discreto. E não se enriquecia na política, em consequência directa do exercício da política e da presença nos corredores do poder.

Por estes tempos, por estas últimas quatro décadas, parece ("parece" é diplomático eufemismo) que a todos os níveis - diria da mais ínfima freguesia ao governo central - pululam casos de quem chegou à política "com uma mão atrás e outra à frente" e em poucos anos estava rico.

New money ", arrogantemente vitorioso (e perante um povo afinal fundamentalmente ignorante, mesmo estúpido, que confunde progresso com cimento e alcatrão e achava isso muito bem. Que acha, aliás, muito bem que cada um "saque o seu" e quem vier depois que se amanhe). Gente que enriqueceu, sem mais e como natural e até meritória consequência desse exercício da política e dessa presença nos corredores do poder?

Com gente deste calibre moral e de noção de serviço público, sim: o que aconteceu na década de sessenta é irrepetível.

E vê você outra gente, por aí?

Costa
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De cristof a 19.03.2014 às 19:50

o post está certo que assim não vamos ter futuro para os bisnetos(os netos já foi). A unica mudança que desejamos é iniciativas estruturadas e crediveis para haver outro rumo. Como já se provou uma vez consegue-se ter entre 20a 30% de votos se aparecer uma luz ao fundo do tunel e que se mostrem capazes os maquinistas da composição. Claro que me parece que temos que mudar o sistema (separar a politica da gestão profissional) se não queremos triplicar os blocosEsq ou andar a fazer manifestações abaixo a troika de dois em dois anos e continuar na mesma ou pior.

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