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Delito de Opinião

Vinhetas (31)

José Meireles Graça, 05.11.25

Ao Amigo disseram, num exame de rotina, que tinha um cancro no pâncreas. Não esperou: foi operado em Lisboa, retirou aquela glândula (mais umas adjacências) e seguiu-se o pós-operatório e depois quimio e depois rádio, ou ao contrário, com consultas e tratamentos em Lisboa e no Porto.

Foi informando o círculo chegado de amigos, com sobriedade. E, nos intervalos dos tratamentos, que o deixavam derreado por espaço de uma semana, organizava almoços, jantares ou passeios, às vezes a sítios improváveis nos quais comparecia num dos carros antigos da sua colecção – exactamente como fazia antes mas com mais frequência.

Sem dramas, sem queixumes e com inalterável boa disposição. E como numa longa carreira profissional fora obrigado com grande frequência a lidar com responsáveis políticos e altos cargos da Administração, tem uma excepcional capacidade de debitar discursos em que, com ar profundo, se engatilham aqueles frases empoladas do mundo oficial significando nada: As pessoas não são números, diz, o dedo em riste, quando se quer referir a uma patetice qualquer que estejamos a comentar de um responsável político de esquerda (isto é, quase todos). Ou, se a conversa for sobre gestão, informa do melhor método para um dirigente se dirigir a um subordinado que tenha apresentado um relatório medíocre: Está muito bom, mas pode ser melhorado.

Isto e muito mais fazia, e graças a Deus faz, com que um almoço, ou um jantar, ou um encontro sob qualquer outro pretexto, tenha a garantia de umas horas bem passadas. E, se a conversa for séria sobre assuntos sérios, podemos contar com opiniões sensatas, cultas e informadas, dentro do quadro geral (se a matéria for política ou social) de uma mundivisão solidamente de direita.

Todas as fases ultrapassadas, parece que o cancro foi vencido mas as sequelas implicam uma rigorosa vigilância através de um complicado (para mim – para ele simples) sistema de cuja vigilância os resultados aparecem permanentemente no telefone, incluindo alarmes.

Às refeições, acontece às vezes levantar-se e ir ao quarto-de-banho para dar umas injecções na barriga, acho que de insulina. Isto, é claro, implica um grande consumo de agulhas hipodérmicas.

Hoje foi comprá-las a uma farmácia. "Sim, sr. Fulano, são as de 5 milímetros na mesma mas estas são menos indolores, são novas", disse a dra.

Entupiu, agulhas menos indolores pareceu-lhe uma coisa ominosa. Mas trouxe-as e já estou ao corrente de que são exactamente a mesma merda.

É a geração mais bem formada de sempre, esclareceu-me. E eu concordei.

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