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Vilar Joli

por José Meireles Graça, em 05.08.20

Estamos na estação tola, mas não se nota muito porque a comunicação social tem vindo a ficar tola todo o ano, de modo que as diferenças são cada vez menos evidentes.

As notícias consistem na evolução da Covid, que nunca é positiva, nos desmandos de Trump, que num dia são ridículos e noutro perigosos, na última grosseria de Bolsonaro, em mais um caso de violência doméstica, e nuns quantos detidos porque beberam ou desobedeceram. Isto e pouco mais, salvo, a benefício das férias, alguns artigos enlatados, de refugo, sobre cuidados a ter com o sol, a alimentação, as viagens e os melhores remédios caseiros para fungos nos pés.

Onde foram, e o que fazer, os membros da Situação que felizmente nos rege, isso é que nunca se pode perder, férias ou não. E ficamos assim a saber que Costa está no Algarve, onde foi fotografado a comer uma bola de Berlim, presume-se que no intervalo de brincar nas pocinhas; e Marcelo foi para uma das praias da linha, onde um instantâneo o capturou num momento raro em que estava calado. Não ponho aqui as imagens daqueles passos íntimos para não dar má nota ao blogue.

Mas ficaram as segundas figuras, das quais há dúzias. E destas três exemplares foram a Vilar Formoso (o querido Vilar Joli dos emigrantes) prodigalizar conselhos aos nossos compatriotas que vêm de férias.

Isto é fantástico.

Todos os dias o mais alto magistrado da Nação se alivia de  opiniões, invariavelmente optimistas se o assunto for o futuro, de fingida severidade  se se tratar de pedir responsabilidades a alguma autoridade por alguma coisa, hiperbólicas se estiver a honrar um falecido, e irremediavelmente vulgares sempre porque aquele bestunto nunca albergou um pensamento original que não fosse uma rodilhice, uma ideia sobre política internacional que não fosse uma banalidade, e um raciocínio sobre soluções para os nossos problemas que não fosse tributário do mais consensual e chão que se pode encontrar na nossa opinião, quase sempre social-democrata ou socialista por tradição e interesse, ignorante por falta de leituras, e estúpida por fatalidade.

Todos os dias responsáveis da Saúde atordoam quem ainda os consegue ver com a desnorteada histeria covidiana. E a legislação sobre o que se pode e não pode fazer, mais as instruções avulsas de autoridades públicas menores, incluindo a abominável figura dos autarcas, que os próprios e os munícipes ingénuos imaginam depositários das maiores virtudes na gestão da coisa pública, ocupa já mais espaço que as Ordenações Filipinas. No processo vários direitos e liberdades constitucionais foram já pontapeados, as polícias dão aqui e ali sinais de abusos sortidos, e de modo geral o cidadão é incentivado a usar a sua liberdade para pensar e fazer a mesma coisa que o vizinho, que pensa e faz o que as autoridades estimam indispensável para continuarem a sentar o rabo à mesa do Orçamento, que é no que consiste o progresso da grei tal como o entendem.

Já hoje é tido como normal que entidades como a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil enviem mensagens para o telemóvel de cidadãos indefesos com conselhos inanes sobre o risco de incêndios, embrulhados em ameaças sobre o último diktat administrativo; e sei por experiência que, exigindo a supressão do número, vêm com a cantilena de ele não figurar em nenhuma base de dados, respeitando portanto a legislação. E todos os dias, a pretexto dos incêndios, ou da chuva, ou do vento, ou do frio, ou do calor, têm a sua cor de alerta, por distritos, e a sua lista de recomendações, que um esquadrão anónimo de burocratas diligentemente nos enfia pelos olhos, ou os ouvidos, para justificar os lugares miseráveis que a sua inutilidade ocupa.

Pois bem: os emigrantes fugiram deste local infecto para irem para mais verdes pastagens. E regressam nas férias aos lúgubres lugares de onde partiram, para tomarem um banho do passado em que eram mais novos, e se certificarem do muito que progrediram, por vezes esfregando ruidosamente esse progresso na focinheira invejosa de familiares, amigos e desconhecidos.

São uma chatice dos meses de Verão, fazendo subir os preços, entupindo supermercados e romarias, e pontilhando as estradas com os seus automóveis recentes, que por vezes conduzem de forma amadorística. Ou pelo menos era assim. Que agora emigra cada vez mais caco e menos músculo, e está longe de certo que a ambição dos novos emigrantes seja regressar, sobretudo quando do país só ouvem dizer que não cresce, não há empregos, e os que há são mal pagos.

Chatice é como quem diz. Que na realidade toda a gente sabe que trazem dinheiro e, melhor ainda, mandam-no. Pessoalmente, tenho por eles uma estima toda abstracta, porque em concreto quero distância, mas tenho a desculpa de também a querer da generalidade das pessoas. Quem lhes rói na pele é que não tem desculpa nenhuma porque o país precisa deles, mas eles não precisam de Portugal, como demonstram onze meses por ano.

Daí que os representantes do Poder que os expulsou (que ao fim de quase 50 anos do regime uma parte da juventude tenha de emigrar é a prova, se fosse precisa, de que o país é mal governado) devessem ter a delicadeza, e a vergonha elementar, de não aparecer na fronteira para lhes dar conselhos “sobre cuidados a ter para evitar incêndios, acidentes rodoviários e contágio por covid-19”.

Não consta que nos países de onde vêm haja mais acidentes rodoviários, generalizada ignorância sobre a Covid, e gestão desastrada das florestas. E é até provável que os pobres diabos que abriram as janelas dos automóveis para “dialogar” com um dos governantes tenham ficado lisonjeados.

O que compõe um quadro doloroso: a Patrícia, a Berta e o João, os três ajudantes de ministro que foram à fronteira desempenhar este papel grotesco, bem poderiam, se tivessem a mais remota consciência da sua verdadeira importância e da responsabilidade do aparelho a que pertencem, fechar a matraca e apenas segurar um cartaz onde estivesse escrito: Perdoem-nos.


7 comentários

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De V. a 05.08.2020 às 11:24

Acho que toda a gente devia evitar utilizar o "aliviar-se de opiniões". É horrível. Tem algo de Pulido Valente bêbedo. Mais vale dizer um palavrão daqueles mesmo filhadaputas.
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De Costa a 05.08.2020 às 11:52

"(...) se tivessem a mais remota consciência da sua verdadeira importância e da responsabilidade do aparelho a que pertencem, fechar a matraca e apenas segurar um cartaz onde estivesse escrito: Perdoem-nos."

E ainda que o fizessem, nada mais seria que um vómito de hipocrisia, indiferente e irresponsável, lançado sobre quem passasse a fronteira (sobre quem cá vive, e não vive do estado, não é vómito, é torrente). As coisas estão muito bem assim, como sabemos. E se o que aí vem trouxer ainda mais dependência do estado, da esmola apresentada como direito, e esportulada com cinismo por quem clama reconhecê-lo, melhor.

O Soberano gosta assim. Nada a fazer.
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De Vento a 05.08.2020 às 12:04

Muito boa essa iniciativa em Vilar Joli. Em Portugal antecipa-se o folclore e a promoção carnavalesca.

Quanto à política: o macho Trump é o único capaz de trabalhar em política. Ele é falado em todo o mundo. E como faz muito, todo o mundo olha para ele e fala dele.
Os chineses ficaram com os olhos mais rasgados e a ver navios. Eles não acreditavam que Trump fosse macho suficiente para enviar uma força naval considerável para o pacífico e para os mares do sul da China e reactivasse com notável mestria as forças navais japonesas, o seu poderio aéreo e balístico e também dos restantes aliados na região. Ao ponto das Filipinas preparem uma ilha que já acolhe um notável contingente de forças americanas.
Ainda com notável subtileza, é capaz de mobilizar as forças navais indianas, no índico, mas também atrair a simpatia dos russos para a sua causa.
Significa isto que os chineses encontram-se na eminência de levar uns sopapos quer dos americanos e destes seus aliados quer também da Rússia, que decidiu não entregar a encomenda dos S400 feita pela China.

Dito isto, e caso o PCC não tome juízo, estamos perante a possibilidade de se criar uma verdadeira festa com fogo de artifício que trará certamente consequências para o mundo, mas também uma enorme devastação à própria China. Ela será a maior perdedora neste cenário.

Em conclusão, o mundo necessita mais de Trump, um verdadeiro macho, e pouco ou nada de promotores carnavalescos.
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De Vento a 05.08.2020 às 14:35

O Encobrimento do Século (O que se Passou na China?):
https://www.youtube.com/watch?v=afnaqsZaUQk

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De António a 05.08.2020 às 14:34

“Perdoem-nos” não chega. E os imbecis que, por cá, continuam a votar nesta gente, sem qualquer consideração pelos filhos, pelos netos, nem vão perceber porque deveriam pedir, também, perdão. Interessante uma sondagem recente a caracterizar o votante médio do PS - funcionário público com 50 anos. Quando passarem à reforma continuarão obviamente na mesma linha, portanto teremos mais uns 30 anos garantidos deste pântano.
Li há pouco um interessante artigo de Henrique Neto, sobre algumas das razões porque temos a energia tão cara - está no Observador, mas poupo-vos o trabalho: contratos ruinosos feitos por Guterres, piorados por Sócrates, mantidos por Costa. A troika tentou pôr fim ao pagode, mas o Tribunal Constitucional barrou. O Tribunal Constitucional só devia barrar manteiga nas torradas, se tiver competência para tal.
Portugal é assim, um amigo meu levou uma multa por se ter atrasado a pagar uma SCUT. SCUT é o acrónimo de “sem custos para o utilizador”, para quem não saiba. Nada de novo num país onde quem está isento de qualquer coisa tem de pagar uma taxa de isenção.
O que Henrique Neto diz é que vamos pagar caro o hidrogénio verde, como pagamos, hoje, painéis solares a 380€, que, hoje, custam 20€.
Portugal é pioneiro em tudo o que dá prejuízo. Foi assim com as eólicas, com o solar, com os carregadores “gratuitos” que rapidamente ficaram obsoletos - a Tesla e outros se encarregarão de montar uma rede decente, se os deixarem...
Portugal é também o país das Grandes Exigências. Comprámos ventiladores à China - os que nunca mais chegam ou não funcionam - mas recusamos a certificação dos feitos cá, aos quais falta um imprescindível autocolante burocrático.
Os nossos cursos de medicina exigem médias estratosféricas, mas importamos médicos de países onde entram os nossos estudantes - que, uma vez lá fora, começam a perceber as coisas e nunca mais retornam.
Antes dos espanhóis forrarem o Alentejo com oliveiras, produzia-se trigo. Uma asneira, criada por Salazar, e que levou um turbo nos tempos do PREC, numa tentativa inglória de salvar as UCPs comunistas. O nosso trigo era considerado pelos agricultores de ministério como bom para panificação, ou ração. O mesmíssimo trigo era comprado a granel pelos nuestros hermanos, que não exigiam uma pureza de 99%, ensacado, certificado, e revendido para cá com a tarjeta CEE, a 20 vezes o preço.
Não, “Perdoem-nos” não chega. Infelizmente, nem é preciso.
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De jo a 05.08.2020 às 17:08

Anda para aí um complexito de inferioridade.

Quando alguém lhe lembra procedimentos de segurança, pode estar só preocupado consigo, não lhe está a chamar burro. Claro que poderia ignorá-lo e depois chamar-lhe besta se não cumprisse alguma das regras que estão em vigor em Portugal, mas isso seria pior. Como faz notar as regras são algo arbitrárias.

Se o país é uma choldra não são obrigados a voltar, dizer que deixaram o país porque é uma choldra cheia de cretinos e exigir que lhe peçam desculpa a seguir é um bocadinho demais.

Olhe que o facto de viver na estranja, por si só, não o torna mais inteligente.
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De Manuel Sousa a 05.08.2020 às 19:08

Excelente escrita. E opinião. Humor como se requer. Fora com os diáconos Remédios, flagrantes da vida real.

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