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Vícios privados, públicas virtudes

por José António Abreu, em 09.06.16

Brada-se há quase uma década (o tempo voa, mesmo quando não nos divertimos) contra o salvamento dos bancos pelos contribuintes. Justificadamente, admita-se. Os erros de gestão foram gigantescos, quando não criminosos. Todavia, a irritação pareceu e parece dirigir-se apenas ao salvamento dos bancos privados. Pouca ou nenhuma comoção se detectou ou detecta na sequência dos aumentos de capital da Caixa Geral de Depósitos, igualmente realizados à custa dos contribuintes (como se sabe, o próximo é de 4 mil milhões de euros). Ora a CGD até constitui o banco-refúgio dos portugueses; imagine-se a situação em que estaria sem todos os depósitos que esse estatuto lhe proporcionou. Ainda assim, e ao contrário do que se passou no BPN, no BES e no BANIF, cenários de venda ou de resolução encontram-se afastados e os actos da gestão não irritam vivalma nem (cruz credo) constituem fundamento para inquérito parlamentar. Sem grande oposição, o governo propõe-se até subir os ordenados dos administradores.

Mas não espanta. Em 2011 como nos anos seguintes, também ninguém pareceu irritar-se com o salvamento da totalidade do sector público, tão mal gerido e tão falido como os bancos, pelos contribuintes. Fica evidente que a má gestão privada desagrada muito mais do que a má gestão pública - certamente porque a primeira é motivada pelo lucro enquanto a segunda (ouvem violinos?) decorre quase sempre de boas intenções. (Na verdade, nem sequer se trata de desagradar mais ou menos; imensa gente defende com entusiasmo a gestão pública ruinosa: basta ver o que se passa em torno da «geringonça».) E, claro, fica também (ainda mais) evidente a diferença no nível de respeito suscitado pelos trabalhadores de um e outro sector. Como já se viu com pessoal do têxtil, da construção civil ou da restauração, bancários de bancos privados atirados para o desemprego (muitos foram-no, outros estão a sê-lo) geram infinitamente menos empatia do que professores, enfermeiros ou maquinistas de comboio forçados a trabalhar com supressão de regalias e cortes moderados em salários globalmente simpáticos.

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11 comentários

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De Costa a 09.06.2016 às 18:32

Isto dá vontade de morrer, disse alguém.

Costa
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De lucklucky a 10.06.2016 às 03:53

Se a família Espirito Santo perdeu o BES o Estado deve perder a CGD.

Assim os 4 Mil Milhões de Euros que os Contribuintes vão injectar na CGD devem classificados como acções da CGD e distribuídas por todos os Portugueses.

E o mesmo se deve fazer ao dinheiro injectado pelos mesmos contribuintes nos outros Bancos.
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De Diogo Moreira a 09.06.2016 às 20:27

Para se poder questionar se o custo de alguma coisa vale ou não a pena, temos que nos interrogar para que serve essa coisa.

Assim, pergunto directamente ao José António Abreu que sector público é que considera ser relevante. Isto é, quais as funções que entende que são necessárias serem supridas por oferta pública (em exclusividade ou não).

Bem sei que pode argumentar que apenas lhe interessa o valor total que é cobrado (em impostos actuais e em impostos futuros, para pagar este défice, os próximos e os juros com eles relacionados). No entanto, posso já contrapor que seria muito melhor um devedor deixar de comer e, assim, mais facilmente poupar dinheiro para pagar as suas dívidas - mas, postas assim as coisas, isto parece simplesmente estúpido, não parece?
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De Vento a 09.06.2016 às 22:11

Mariana Mortágua adquiriu os tiques do capitalismo no que diz respeito à comparação e resolução dos salários dos gestores públicos e privados. Para ela a questão do funcionalismo público e dos gestores públicos resolve-se com a política neoliberal dos salários dos gestores. Mas, para parecer que não é tanto assim, lá vem dizer que existe uma disparidade entre salários de gestores e trabalhadores. Será, Mariana, que a luta contra esta disparidade só diz respeito aos assalariados do público? Porra, será que o BE não tem tusa para alterar as coisas no privado? Ou será que por ter o dinheiro mais à mão, isto é, nos cofres do estado, é mais fácil resolver a questão?

Mas a questão da recapitalização tem uma outra componente, que é cumprir também os rácios de solvabilidade exigidos por Bruxelas. Sabendo que a CGD atravessou-se aquando da implosão do BPN admito a necessidade desta injecção de capital. Porém, a injecção de capital não implica necessariamente que seja feita totalmente por via do estado.


"Acredito que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades do que o levantamento de exércitos. Se o povo americano alguma vez permitir que bancos privados controlem a emissão de moeda, primeiro pela inflacção, e depois pelas deflacção, os bancos e as empresas que crescerão à roda dos bancos despojarão o povo de toda a propriedade até os seus filhos acordarem sem abrigo no continente que os seus pais conquistaram."
Thomas Jefferson
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De lucklucky a 10.06.2016 às 03:50

Esta é hilariante se não fosse trágica.

Um socialista como Vento favorável à desvalorização da moeda, contra a austeridade a queixar-se da inflação?
Fantástico. Estamos no nível 1984.


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De Vento a 10.06.2016 às 12:09

Valeu a pena celebrar este 10 de Junho. Nem imagina o contentamento com que me presenteou por saber que consegui devolver-lhe os momentos hilariantes que tem provocado com seus comentários.

Eu já sabia que a sua visão dos acontecimentos está sempre ao nível do passado. Não desespere. Há por aí uma propaganda a uns comprimidos que diz ser capaz de devolver a alegria a quem já não tem presente. Deve experimentar.
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De lucklucky a 10.06.2016 às 13:38

Ou seja sem argumentos para justificar as contradições.
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De Vento a 10.06.2016 às 16:38

Sim, para alucinações não há argumentos.
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De lucklucky a 11.06.2016 às 16:45

Eu apontei a contradição. Estás contra e a favor da Inflação.

Ah pois se for feita pelos teus é boa, se for feita pelos outros é má. Será isso?
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De Vento a 12.06.2016 às 12:23

Como você demonstra ser cego e lento de raciocínio, proponho que procure um comentário meu, num texto de Pedro Correia, com o debate entre mim e ele a propósito da Grécia, onde encontrará minha posição a respeito do que aponta.

Decidi, a partir de agora, e desta forma, fazer engoli-lo as taralhouquices de seus comentários.
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De jo a 10.06.2016 às 12:43

Ainda assim há uma certa diferença entre salvar o que já é nosso e nacionalizar as dívidas de bancos que, quando tiveram lucros, tiveram redução nos impostos por serem muito importantes para a economia (viu-se).

A ANA a REN a EDP a PT, só para citar algumas não eram empresas deficitárias. Os alguns dos bancos que o Estado nacionalizou recentemente para não falirem já tinham sido públicos e não tinham falido por isso.

O Estado é mau gestor, por isso privatizaram-se bancos que davam lucro. Os gestores privados faliram os bancos por isso nacionalizam-se os bancos para o contribuinte pagar a conta.

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