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Delito de Opinião

Viajar em tempos de Covid

Cristina Torrão, 18.10.20

Faz hoje duas semanas que regressámos à Alemanha, depois de uma estadia de três semanas e meia em Portugal. Não fomos obrigados a fazer quarentena, mas confesso que, enquanto não passaram estes quinze dias, não me quis pronunciar. Afinal, atravessámos meia Europa de carro, com quatro noites dormidas em França (duas na ida e outras duas na volta).

Não foi fácil decidir viajar. Mas há dois anos que não via os meus pais, de 83 e 78 anos. Por motivos pessoais, não pudemos viajar, em 2019. Contávamos poder compensar a falha em 2020. E, depois de termos cancelado, em cima da hora, os planos de uma Páscoa passada na aldeia, confraternizando com parentes e amigos que raramente vejo, ficou difícil prescindir das férias em Setembro.

Em fins de Agosto, como se sabe, a situação começou a piorar, se bem que os números diários de novas infecções fariam inveja aos de agora: a Alemanha registava cerca de 1.200, Portugal andava pelos 300/400. Fizemo-nos à estrada e passámos cinco fronteiras sem qualquer controlo: Holanda, Bélgica, França, Espanha, Portugal.

Como acima referi, pernoitámos duas vezes em França. Confesso que, quando chegámos ao primeiro hotel, em Compiègne (cerca de 50 km a norte de Paris), senti um certo receio, até porque Paris já se encontrava em situação complicada. Mas todas as regras de higiene eram cumpridas: uso de máscara, lotação do hotel a menos de metade (com quartos vazios entre os ocupados), bom arejamento, desinfectante à disposição, distância social respeitada, etc. Além disso, íamos prevenidos com toalhinhas desinfectantes para superfícies, interruptores e maçanetas. Mas ficam sempre dúvidas: pairavam ainda aerossóis perigosos no quarto? Alguém infectado teria dormido naquelas camas? (Noutros lençóis, é claro, mas sabe-se lá do que o vírus é capaz…).

Enfim, como em tudo, o que custa é começar. Confesso que, depois de mais um dia na estrada, não senti tanto receio na segunda noite, em Bayonne (País Basco). Acresce dizer que, durante toda a viagem, não fomos ao restaurante, nem comprámos nada para comer, ou beber. Levámos de casa tudo o que precisávamos.

Chegados a Portugal e, depois de constatar que a situação piorava de dia para dia, decidimos ficar na nossa região transmontana e cancelámos vários planos, que incluíam uma ida ao Porto, com visita à Feira do Livro. Mesmo condicionados, adorei estar finalmente em Portugal, ouvir falar português e, claro, poder enfim conversar pessoalmente com os meus pais, embora com alguns cuidados. Valeu-nos o bom tempo, que nos permitia instalar-nos no jardim, achando, ainda assim, conveniente cumprir as distâncias. Os meus pais encontram-se bem de saúde e esperemos que assim continuem.

Para o regresso, tornámos a levar de casa comida e bebida suficientes para dois dias e meio. Apesar de a situação ter piorado (entretanto, a região da Grande Lisboa era já considerada de risco, na Alemanha, assim como toda a Espanha e várias regiões de França), pareceu-nos haver menos cuidado nos hotéis (que eram diferentes dos da ida). Dormimos a primeira noite nos arredores de Bordéus, num hotel muito frequentado, não se verificando quartos livres entre os ocupados. O quarto também nos pareceu pouco arejado e, numa altura em que o meu marido foi à recepção, deparou com uma enorme nuvem de fumo, por detrás do vidro protector. O funcionário fumava lá o seu cigarro electrónico!

Na manhã seguinte, partimos debaixo da tempestade Alex. Felizmente, não sentimos a sua máxima força, embora, durante cerca de 200 kms, debaixo de chuva e vento fortíssimos, a visão fosse uma desgraça e a auto-estrada se encontrasse completamente alagada, obrigando-nos a uns míseros 60 a 70 km/h. Cheguei a pensar que bem podíamos escapar ao vírus, mas seríamos levados na enxurrada. Valeu-nos avançar em direcção a Paris, enquanto a tempestade seguia outro rumo. Ao serão, em Valenciennes (perto da fronteira belga), vimos o noticiário da TF1 e pasmámos com a destruição nos Alpes franceses e italianos, havendo inclusive vítimas mortais a lamentar. No fundo, tivemos sorte…

Tornámos a passar todas as fronteiras sem o mínimo de controlo e, chegados a Stade, sem saber bem o que fazer (quarentena, teste?), resolvemos ligar para a linha de saúde local. Apesar de termos atravessado várias zonas de risco, explicaram-nos que só se aplicam medidas especiais, caso se passe mais de 48 horas numa dessas zonas (ou país).

Demos, então, início à nossa vida normal, continuando a respeitar as regras básicas: máscara, distanciamento, lavagem frequente das mãos. Estamos bem e esperamos assim continuar.

E vocês, aí desse lado, fiquem igualmente bem!

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