Viagem à Venezuela - V
De regresso a Caracas, precisei de comprar um adaptador para uma ficha eléctrica, uma vez que usam a tomadas idênticas aos EUA. Indicaram-me o Centro Comercial Sambil, onde, sinais de outros tempos, existe até um Hard Rock Café. Dentro da ferreteria (loja de ferragens) do Shopping encontrei o adaptador que procurava. Quando me preparava para ir pagar, vi uma fila que começava no caixa, fazia todo o comprimento da loja, ao fundo virava noventa graus à esquerda, contornando todo o perímetro do estabelecimento. Isto é a fila para pagar?, perguntei ao funcionário. Não. Estão à espera que cheguem as lâmpadas porque ontem chegou um barco da China com elas.
Quando regressava de táxi ao Hotel e já na rua de sentido único que lhe dá acesso, a uns vinte metros à nossa frente, saiu um carro de uma garagem a andar de marcha-atrás, bloqueando assim a nossa passagem. O que seria algo absolutamente normal noutras paragens, ali fez com que o condutor, num gesto instintivo, esticasse o braço direito até ao porta-luvas e dali tirasse uma pistola. Sem dar por isso, empurrei as costas contra o assento durante uns instantes à espera de ver o que se seguia. O carro que entrara na rua arrancou e seguiu o seu caminho. Depois de respirar fundo, o taxista fez regressar a arma ao seu lugar. Explicou-me que quando viu o carro a bloquear a passagem, pensou logo que era um assalto, Pero, gracias a Dios no fue nada.
A sete cêntimos de Bolivar cada litro de combustível, o funcionamento das estações de serviço depende de subsídios do estado.
Outra nota que sobressai de Caracas é a sua dimensão e a concentração de capital que ali existiu. São bastantes as avenidas com seis faixas de rodagem e com quilómetros de extensão. Prédios com dezenas de pisos são inúmeros. Apesar da situação de pobreza dos venezuelanos, nada ali se assemelha a, por exemplo, Bissau com a sua meia dúzia de ruas alcatroadas das quais se “desce” à altura de um palmo para as ruas de terra ou lama conforme a época do ano. Falei disso com um local que me respondeu que os prédios e as avenidas só lá continuam porque os chavistas não os conseguiram roubar.
![]()
Já referi o colorido das favelas que faz delas muito diferentes das do Rio de Janeiro. Uma estatística que sobressai da cidade respeita ao nível da criminalidade, onde ocupa o topo mundial, o que explica que todas as moradias e condomínios sejam murados com arame farpado e corrente eléctrica. Soube de uma particularidade interessante. Quando chove, sai-se menos de casa e ocorrem menos crimes.
![]()
Uma outra nota sobre uma bebida local que vi no bar do Hotel e que foi o ron da marca Castro. O slogan era todo um tratado. Cuba Libre, solo con Castro! O barman explicou que era ron venezuelano mas que com a carestia do país a produção da marca tinha sido transferida para a República Dominicana. Quando se diz que o PIB per capita venezuelano, que nos anos 70 superou o da Holanda, caiu 75 pontos percentuais desde o descalabro chavista, é também de coisas destas que estamos a falar.
Uma nota também para a excelência da engenharia portuguesa. Seguem algumas fotos dos prédios construídos pelo tristemente famoso Grupo Lena, que tantas más memórias nos causam.
Na capital decorriam nessa altura várias manifestações de repúdio ao um qualquer decreto de Obama, que classificara o regime venezuelano como uma ameaça. Mais cartazes, mais manifestações de rua, muito barulho, onde nunca faltavam as bandeiras e os slogans dos amanhãs que cantam.
![]()
![]()
A sinistra personagem Diosdado Cabello tinha, e parece que continua a ter, um longo programa diário na televisão. O nome é sugestivo, Con el mazo dando, em que se dirige a todos os que se atrevam a não aplaudir as maravilhas do regime. O que poderíamos descrever como uma moca de Rio Maior é sempre o mote da conversa.
![]()
Além do Orinoco, um mundo à parte, o que vi sobre o estado, o regime e a vida das pessoas comprova aquilo que já imaginava, mas com muito mais detalhe e colorido. Desde então, a minha surpresa prende-se com o modo como um grupo de criminosos, que tomou conta de um país rico, se conseguiu manter no poder durante tanto tempo. Os venezuelanos que conheci depois disso, que já aqui referi, confirmaram a boa opinião que tive daquela gente e entendo bem como agora festejam. Ainda há dias o César me disse que o carro dele avariou, mas que nem isso lhe tira a alegria de ver o Maduro preso. Recordo-me bem das várias vezes em que me disse que aqueles bandidos não roubaram apenas a Venezuela, roubaram a dignidade aos venezuelanos. Gente que não tem medo do trabalho, que vive com uma alegria latina sul-americana, a ter de mendigar para sobreviver e a fugir do país para tentar recuperar a dignidade que lhe foi tirada. É disso que se trata quando falamos no chavismo.
A azia dos que agora, por razões ideológicas e por ignorância, protestam e "exigem" o regresso à situação anterior, mostra como é falso o seu discurso humanista e enviesada a solidariedade que dedicam apenas àqueles que têm o Ocidente por inimigo. De cada vez que um ditador é derrubado, quem ama a liberdade salta e rejubila e por isso termino com uma das frases que se ouve nas festas dos venezuelanos espalhados pelo mundo. Chaves y Maduro ¡Que ardan en el infierno, cábrones!

