Viagem à Venezuela - III
Mais de duas horas depois e após algumas paragens nos cais palafíticos que serviam as povoações ribeirinhas, abandonamos o canal principal do rio e subimos um afluente de menor largura. A escolha por passagens cada vez mais estreitas foi-se sucedendo até que praticamente se deixou de ver o céu sem que fosse cruzado pela vegetação. O sentimento de estar num labirinto era total e fez-me lembrar do início de “A Selva” de Ferreira de Castro.
A vida selvagem nunca se inibe. Os estranhos ali somos nós.
O ambiente era mesmo o que se pode imaginar como floresta chuvosa tropical. Sempre que imagino ou oiço falar de uma selva chuvosa, recordo-me daqueles dias no delta do Orinoco.
O lodge era composto por um grupo de cabines individuais à beira da água, assentes em estacas que as deixavam a seco mesmo com a subida do nível das águas. Tudo construído com materiais da selva e até a cobertura era feita de vegetação. A circulação entre a casa principal, onde eram servidas as refeições e estava o gerador que permitia iluminar todo o conjunto de cabine, fazia-se sobre um passadiço madeira assente sobre estacas. Imagino que apesar da distância até à foz ainda ser de umas boas dezenas de quilómetros, a subida e descida da água resultasse dos efeitos das marés.
![]()
![]()
Outra coisa que está sempre presente são os ruídos da natureza. O que sobressai são os pássaros, mas também os insectos e os macacos, os monos que durante a noite gritam a plenos pulmões e que, juntamente com o calor e a humidade, complicam a necessidade de descansar.
O gerador desligava-se cedo e com ele a iluminação eléctrica. Ouvir os sons da natureza durante tanta hora acabou por se tornar cansativo.
A cama tinha uma rede anti-mosquito que, mais tarde quando me deitei, me fez a sorrir ao ouvir tantas melgas e mosquitos. A alegria foi curta e terminou quando entendi que a rede estava tão rota e com buracos tão grandes que me fizeram sentir ser o banquete de uma festa de casamento. Com conhecimento de causa, posso garantir que é muito melhor estar à mesa do que na ementa.
A comida dos três dias que se seguiram andou sempre à volta de peixe do rio frito, principalmente piranha, cujo sabor recomendo vivamente. É um peixe muito branco e pouco gordo, que não fosse pelo tamanho podia ser palmeta.
Os filhos do guia viviam por ali e eram eles que tratavam da pescaria. Uma ponta de um pau, dois ou três metros de fio de nylon, um anzol e um pedaço de carne eram o suficiente para abastecer a cozinha. Tentei a minha sorte, mas acabava sempre por ficar sem isco. Tal como durante a noite, descobri que eu tinha jeito mas era para alimentar a bicharada.
![]()
![]()
continua

