Viagem à Venezuela - II
O ponto de acesso ao Orinoco é a Ciudad Guayana, onde cheguei num voo doméstico de cerca de uma hora. Por um motivo técnicos, quando estávamos a poucos minutos do destino e já avistávamos a imensidão da barragem de Guri, o avião teve de regressar ao aeroporto de partida. Aterrou, foi reparado e na segunda tentativa tudo correu pelo melhor.
Em conversa com o vizinho do assento do avião que me calhou nesse segundo voo, soube que a capacidade hidroeléctrica daquela barragem fazia dela a segunda maior da América do Sul. Imediatamente ao seu lado, existia uma fábrica com oito fornos para a fundição de alumínio. Este é um tipo de industria que consome muita energia e por isso aquele era um sítio privilegiado e que lhe permitiria exportar muitas toneladas deste metal. Disse-me que depois de a economia ter sido nacionalizada, os melhores técnicos tinham abandonado o país, o que juntamente com a falta de manutenção, fazia com que apenas um dos fornos estivesse em funcionamento.
Vista aérea da fábrica
Chegado ao aeroporto, esperava-me um condutor que me iria levar até à selva. Seguiram-se algumas horas de carro a atravessar imensas planícies onde se criava gado. Segundo o condutor, era um negócio que nesse tempo pouco ia para além da subsistência dos seus proprietários.
Uma coisa que nunca falhou em toda a viagem, foram as inúmeras pinturas patrióticas e alusiva aos seus excelsos líderes, Bolivar, Chaves e Maduro.
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Finalmente cheguei ao porto de rio, perto de Tucupita, e pude sentar-me na pequena embarcação de madeira que me levou até ao ecolodge Orinoco Queen.
A viagem rio abaixo, demorou mais de um par de horas. Quando estava em deslocação deixei de ouvir fosse o que fosse, uma vez que o motor de dois tempos que tocava o barco era ensurdecedor.
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Nas paragens que foram acontecendo ao longo das povoações por onde íamos passando, ouviam-se os outros barcos, rio abaixo e rio acima, desde grande distância. Nos cais em madeira descarregava-se materiais vários, sendo que o mais vulgar eram jarricans de gasolina. Bem baratos por sinal. Um de quarenta litros custava menos que uma garrafa de água.
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Ainda antes de ter embarcado e a rede de telemóvel já tinha ficado para trás. Quando me lembrei de enviar uma última mensagem antes de passar vários dias dentro da selva, já era tarde de mais. O Orinoco é um bom sítio para fazer um desmame de telemóvel.
Pouco tempo depois de zarparmos começou a chover. Àquela velocidade os grossos pingos tropicais, além de nos poderem encharcar muito rapidamente, faziam doer. A chuva passou a aparecer várias vezes por dia. Mais ou menos intensa, mais ou menos duradoura, mas o calor fazia que depois desta terminar, tudo secasse muito rapidamente. No barco o resguardo era uma grossa cobertura de plástico tipo estufa. Nessa viagem partilhei-a com o outro passageiro, um índio Guarau que tinha ido às compras. Abrigado, fiquei impedido de apreciar a vista. O barqueiro tapou-se também, deixando apenas uma parte do rosto de fora para poder continuar a governar o barco.
A velocidade foi sempre a máxima que o motor conseguiu imprimir, mas sempre que se avistava um barco no sentido contrário, o condutor desacelerava para conseguir vencer a onda provocada pelo rasto do outro, sem nunca arriscar que virássemos.
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E o gajo aparecia mesmo em todo o lado
Continua

