Viagem à Venezuela - I
Há cerca de dez anos estive na Venezuela. Além de Caracas, visitei também a região do Orinoco, cuja bacia hidrográfica tem cerca de um milhão de quilómetros quadrados o que equivale aproximadamente a dez vezes a área terrestre de Portugal. Não é uma região muito falada, pois quando o assunto toca a florestas tropicais sul-americanas, todas as atenções recaem sobre o Amazonas.
Como é normal em todos os destinos, logo à chegada importa arranjar moeda local. Devido à impossibilidade de levantar dinheiro com cartões internacionais, a única hipótese era, e continua a ser, levar dinheiro vivo para trocar por bolivares. Já não me recordo em detalhe, mas o cambio oficial era cerca de dez vezes mais desfavorável do que o das ruas, pelo que escolhi o não oficial. O tipo com quem falei levou-me a outro e poucos minutos depois já estava sentado no banco traseiro de um carro estacionado no parque em frente ao aeroporto. O dealer dos câmbios disse também ser português da Madeira, embora o sotaque não o permitisse distinguir dos locais. Em troca de uma nota de cem euros entregou-me um tijolo de notas locais que mal conseguia segurar numa só mão. Há quem tenha as mãos maiores do que as minhas, por isso para ser mais rigoroso, e olhando para uma régua de escritório, era um volume com cerca de quinze centímetros de altura. Arqueei as sobrancelhas e coloquei aquela enorme quantidade de papel dentro da mochila. Quando já me preparava para sair, olhei para o banco da frente e vi um outro bloco de igual dimensão à minha espera. Cada calhamaço daqueles equivalia afinal a uma nota de cinquenta das nossas. Lembrei-me das aulas de iniciação à economia, onde a inflação era apenas mais um conceito a memorizar. O que acabara de ali assistir era a mais eficaz das visitas de estudo sobre aquela matéria.
Já abonado com papel-moeda, segui de táxi até ao Hotel Pestana. A viagem desde o aeroporto obriga à travessia da montanha que separa Caracas da costa. Além dos infindáveis cartazes evocativos da pátria, de Simón Bolivar e Hugo Chávez, vi este mural com um palavra que associava muito mais a Espanha que à Venezuela: “Juntos PODEMOS!”. Com o passar dos anos, através de notícias posteriores, concluí que aquela referência não era casual nem inocente.
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Com a aproximação da metrópole começaram a surgir as muito coloridas favelas caraquenhas, onde vive a maior parte da população.
Já dentro da malha da cidade, o condutor apontou para algumas da inúmeras filas, las colas, à frente das padarias. O quotidiano dos venezuelanos era, e continua a ser, assim. Horas e horas em filas para o pão. Achei que deveriam passar a chamar ao Presidente, Nicodelascolas Maduro. O taxista concordou, mas a moda não deve ter pegado. Foi uma pena porque lhe assentava bem.
E assim chegámos ao Hotel Pestana, que à entrada exibe uma brilhante placa metálica evocativa da sua inauguração.
Em conversa com o recepcionista disse-lhe que registava o detalhe de não terem designado o Sr. José Sócrates por engenheiro, mas ele não entendeu o alcance da conversa e encolheu os ombros. Disse-lhe também que a referida figura estava nesses dias encerrado na cela 44 do Estabelecimento Prisional de Évora. Riu-se e respondeu: Es un político... ¿qué esperabas? Senti o impulso de responder que a Europa não é a América Latina, mas a negação do meu argumento tinha sido o princípio da conversa.
Soube que mais tarde passaram a aceitar pagamentos em dólares, mas nessa altura era proibido aceitar pagamentos em moeda estrangeira, e por isso comecei logo a aliviar-me dos blocos de notas que me derreavam as costas. Mais tarde, para outros pagamentos, e depois de esbanjados os primeiros quilos de notas, foi o próprio recepcionista que, perante uma nota europeia cor de laranja, telefonou a alguém informando quantos euros é que eram para trocar. Em pouco mais de um minuto chegou alguém de mota, e o recepcionista disse-me para ir ter com ele para trocar o dinheiro. Observada e avaliada a nota que tinha, entregou-me outro grosso bloco de papel, que simplesmente me limitei a transportar até à recepção. E se cumpria a lei de defesa da economia da República Bolivariana da Venezuela, nem as padarias fazem vida sem uma ou duas máquina de contar notas.
Se me lembro do propósito desta foto, todos estes índios juntos (há tribos menos populosas) equivalia a cinco euros.
Um indicador do nível do hotel ou da riqueza do país, é a variedade das opções do pequeno-almoço. Um hotel fraco, num país rico, a escolha é curta. Tal e qual como um hotel bom, num pais pobre, mas o que ali encontrei foi mais um indicador da carestia do país. Não quero maçar o leitor com demasiados detalhes, mas nunca tinha visto um tabuleiro dos queijos fatiados, preenchido com fatias quadradas de queijo afastadas umas das outras à distancia das respectivas.
Continua

