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Delito de Opinião

Viagem a Bissau - 7

Paulo Sousa, 15.07.21

Memórias da Guerra Colonial

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Cozinha do antigo quartel de Teixeira Pinto
Foto Paulo Sousa

Ainda não falei do Sr. João, um dos membros da caravana. O Sr. João serviu na Guiné, no quartel de Teixeira Pinto, actual Cachungo. Por isso, por ele e pelas suas memórias, esse teria de ser um dos pontos da viagem. E assim foi.
Após a independência o antigo quartel foi transformado na escola primária do Cachungo, o que até seria uma metáfora feliz, não fora o atraso de um ano no pagamento dos salários dos professores ter levado ao encerramento da mesma.

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Refeitório do quartel de Teixeira Pinto, actual escola primária do Cachungo
Foto Paulo Sousa

Visitamos o local, e ouvimos as estórias do Sr. João. Levou-nos a ver um tubo metálico enferrujado espetado no chão. Era o furo de água, cuja análise era da sua responsabilidade, e a partir do qual era abastecido o quartel. Mostrou-nos a padaria, os dormitórios, a messe, o bar, e todos os recantos.
Metro após metro, passo após passo, e lá saia disparada mais uma recordação e o relato de mais um episódio. Olhando em toda a volta, para aquele abandono e falta de manutenção, entendemos claramente que, de tudo o que ali se tinha passado, o que se encontra em melhor estado são as memórias que ele dali guarda, dos seus camaradas, das cervejas frescas, das gargalhadas e da sua juventude.
Meteu-se com uns rapazes que por ali andavam e contou-lhes que tinha vivido e sido soldado naquele quartel. Eles encolheram os ombros, riram-se todos e despediram-se com um aperto de mão.

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Foto Paulo Sousa

O poilão que fazia sombra ao lado do quartel, e que já era enorme durante a Guerra Colonial, está agora bem maior e igualmente indiferente ao que por ali se passa. É uma árvore notável, um colosso mesmo entre outros colossos que por lá vimos.

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O poilão notável
Foto Nuno Rebocho

 

Outra das paragens que prevíamos fazer era ao cemitério militar de Bissau. A Guiné foi o cenário mais difícil da Guerra do Ultramar e, independentemente das mudanças que ocorreram desde então, cá e lá, havia uma vontade em homenagear os portugueses que ali serviram e cumpriram o que lhes foi exigido. Assim, agendamos com a Embaixada Portuguesa uma visita ao seu talhão militar. E lá fomos, acompanhados pelo o adido militar da embaixada. O que encontramos não foi o que esperávamos, pois as sepulturas daquele talhão são de soldados de campanhas do Sec. XIX e início do Sec. XX e não da Guerra Colonial.

Existe igualmente uma capela da Liga dos Combatentes, mas pelo que entendi ali estarão apenas uma pequena fracção dos militares que não regressaram a casa. Perguntamos se havia algum levantamento sobre os corpos de soldados que tenham sido deixados no campo de batalha e cujos restos mortais não tenham sido recuperados. A resposta não foi muito conclusiva e pela falta de objectividade, entendi a confirmação daquilo sobre o qual já tinha lido. De facto de alguns dos corpos nossos compatriotas não puderam ser recuperados e foram deixados no mato, onde tombaram. Alguns terão sido enterrados à pressa, sem qualquer cerimónia, sem direito a lápide a nada que identifique os restos do que foram. Outros nem isso. Abandonados à sua sorte foram também os milhares de soldados portugueses de origem guineense.
Mais uma vez o Estado Português fez jus às palavras de Padre António Vieira.

Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”

Continua

Início da viagem

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