Viagem a Bissau - 6
A Fundação João XXIII - II
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Centro Social de Ondame - Fundação João XXIII
Foto Nuno Rebocho
Soubemos também da história de uma mulher de um velho régulo local (chefe de tabanca). Ele não entendia português e por isso enviou-a ela para assistir a uma palestra organizada pela Diocese de Bissau com a colaboração da Fundação João XXIII. A palestra destinava-se a sensibilizar os régulos de diversas tabancas (aldeias) para que adoptassem e promovessem alguns hábitos de higiene e de saúde pública, e que comparecessem nas sessões de vacinação.
Ela assistiu à primeira sessão da palestra e voltou para a sua tabanca. Na sessão seguinte regressou novamente para assistir, mas no final pediu para falar com o padre e pediu-lhe ajuda. Explicou-lhe que era a mulher mais nova do régulo e tinha dois filhos dele. O régulo tinha uns setenta anos e tinha uma mulher da idade dele, outra dez anos mais nova e por aí a fora. De dez em dez anos acrescentava mais uma jovem esposa à família. A hierarquia entre elas, cinco ou seis no total, era estabelecida por idade. Por ser a mais nova tinha de trabalhar para todas as outras, que a exploravam e desprezavam. A ajuda que pedia era que a ajudassem a sair daquela vida infernal.
O padre e o responsável da Fundação foram assim postos perante o dilema de aceder ao pedido dela, desafiando nesse caso a autoridade do régulo. O padre ainda lhe disse: “Então queres fugir do teu marido, e vens pedir ajudar a um padre?” O representante da Fundação teve de ser rir pela pergunta do padre, mas não foi preciso ponderarem muito até combinaram a sua saída, e dos seus filhos, daquela tabanca.
Assim, chegado o dia, levaram-na para Bissau, arranjaram-lhe onde ficar e ajudaram-na a comprar o primeiro cabaz de peixe, que passou a vender pelas ruas. Às vezes, dão-lhe também algumas roupas usadas para vender, roupas essas oriundas dos donativos que recolhem em Portugal.
Um ou dois dias depois de ouvirmos esta história, acabamos por encontrar a senhora junto ao porto de Bissau. Ia com um alguidar de fruta à cabeça e quando viu o nosso cicerone, desviou-se do seu trajecto, e a sorrir, veio cumprimenta-lo.
Compramos-lhe quatro bananas, todas as que tinha, e demo-las a um miúdo que por ali passava. Ele, arregalou os olhos, e chamou outro para lhe dar duas. E nessa altura lembramo-nos dos miúdos de Saint Louis no Senegal, e de como já nos tinham dito, na Guiné partilha-se.
Biblioteca do Centro Social
Foto Nuno Rebocho
Na página da Fundação estão disponíveis os diversos projectos que lançaram e ali mantém. Além do Centro Social, dentro do qual funciona a Maternidade Bom Samaritano, a Rádio Comunitária Voz do Biombo e a Biblioteca (há fotos do seu interior na página), existem outros projectos que dependem da Fundação.
Aquando desta nossa viagem, um dos projectos que estava a ganhar forma era a construção de uma embarcação que pudesse servir a ilha de Pecixe. Esta ilha tem cerca de 6 mil habitantes da etnia Manjaco e o seu isolamento era então apenas interrompido por pirogas e embarcações tradicionais, insuficientes para marés adversas. Assim, a Fundação lançou-se na construção de uma embarcação a motor em Portugal e depois de pronta enviou-a num contentor para a Guiné. Até que tudo se concretizasse foi necessário ultrapassar várias barreiras e isso demorou vários anos, mas finalmente o barco-ambulância já está operacional e ao serviço da população de Pecixe.
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Foto Fundação João XXIII
Outro do projectos apoiados pela Fundação é a Cooperativa Escolar São José. Esta obra que foi lançada pelo Prof. Raúl Daniel em 1987, e durante vários anos as suas salas de aula tinham paredes de palha. Só em 1991, e desde logo com o apoio da Fundação, é que foi construído o primeiro pavilhão. A relação de cooperação entre esta instituição de ensino tem permitido que esta estrutura tenha conseguido oferecer boas condições de ensino e de forma regular num país em que o ensino público tem bastantes deficiências. Basta lembrar que após o golpe de estado de 2012, e até à nossa viagem em 2013, as aulas na escola pública foram interrompidas no país por falta de pagamento dos salários dos professores, para entender a importância desta Cooperativa de Ensino na Guiné-Bissau.
A Fundação encaminha os donativos de materiais didáticos, mas também de construção, que recebe em Portugal para a Cooperativa e assim ajuda-a manter o seu funcionamento e crescimento.
Alegro-me em saber que a fiel e robusta Nissan Vannete, em que, juntamente com outros amigos, fiz esta viagem, foi oferecida à Cooperativa e foi destinada ao transporte de alunos com limitações motoras.
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A nossa Nissan Vannete durante a viagem
Foto Nuno Rebocho
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A "nossa" Nissan Vannete ao serviço da Cooperativa de Ensino São José
Foto Nuno Rebocho

