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Verniz de civilização

por Luís Naves, em 25.05.19

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Num dos melhores episódios da série clássica Twilight Zone, O Abrigo, de 1961, conta-se a história de algumas famílias abastadas numa rua suburbana da América. No início, vemos a amizade desse grupo de vizinhos, na festa de aniversário em casa de um deles, médico; em conversa, o anfitrião é criticado pelo esforço e dinheiro que investiu na construção de um abrigo anti-nuclear. De súbito, a confraternização é interrompida pelo anúncio de rádio, que dá conta de um suposto ataque inimigo, com explosões dentro de 15 minutos. Rapidamente se instala o pânico, que vai crescendo até uma histeria criminosa, pois todos querem ter acesso ao abrigo anti-nuclear e acham injusto que só haja lugar para três sobreviventes. O episódio está muito bem escrito e resolvido, tem excelentes actores, e esta história continua a ser certeira. Já não há ameaça credível de extinção global em 15 minutos, mas existem outras formas de possíveis colapsos com culpa humana, porventura mais lentas, igualmente inexoráveis. As ameaças são evidentes: a insustentabilidade de uma economia de crise que atropela as pessoas, o sonambulismo da política, toda a nossa vida baseada em níveis de consumo irrealistas. E, no entanto, persiste uma espécie de alheamento, que nos faz rir de quem tenta construir abrigos contra catástrofes no futuro (não são os abrigos físicos, como no filme, mas soluções difíceis, que as sociedades travam com palavreado vazio). Se nada mudar, um dia não vamos tolerar o abrigo do vizinho, o que significa o estalar do verniz civilizacional naquele momento em que as pessoas perceberem que vem aí uma grande mudança e nem todos se salvam.


4 comentários

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De Anonimus a 25.05.2019 às 13:40

Uma das séries de Sempre, poucos episódios eram fracos
Recomendo também The Monsters Are Due on Maple Street.
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De Vorph Valknut a 25.05.2019 às 16:11

Bom texto, Luís. Bom fim de semana

Fica aqui uma sugestão:


https://youtu.be/RAbELlpAxe8
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De Anónimo a 25.05.2019 às 19:02

"a insustentabilidade de uma economia de crise que atropela as pessoas"

...que tal ler uma história da economia? regresse ao tempo em que não havia crédito...e descubra a pilhagem...


"toda a nossa vida baseada em níveis de consumo irrealistas."

Baseado em quê? palpite?

lucklucky
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De Vento a 25.05.2019 às 22:36

O Homem (Nikita Kruchtchev) que lançou os fundamentos da Coexistência Pacífica, e que também destruiu a lenda estaliniana, não mereceu na morte as honras de Chefe de Estado. Acabando enterrado em um obscuro túmulo em Novodevichy.
Sabendo disto por antecipação, lançou livro de suas memória; e deixo um em particular que tem o título de " O Testamento Final" com tradução de Isaac Piltcher (da versão em língua inglesa de Strobe Talbot)
É uma recomendação tendo em conta a foto deste post.

Putin, em versão menos exuberante que Nikita, mas bem mais efectivo em seus objectivos, foi e é uma espécie de messias em torno do verniz que subjaz em forma de metáfora nesta excelente precognição que nos deixa; e que tenho também antecipado em meus últimos comentários.

A "ordem" histórica tem-nos revelado que em todos os momentos cruciais desta o descalabro pré-anunciava-se por um conjunto de fórmulas corruptas, onde se inclui a moral e os valores. Estas fórmulas corruptas de governar e de legislar apresentavam-se precisamente como manobras para desviar o foco de outros aspectos que importavam não ser falados. Até que não mais se podia esconder a miséria, sendo esta o combustível usado para as mais diversas intenções.

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