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Vergílio: a luz da escrita

por Pedro Correia, em 28.01.16

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«Não deixes que te abandone o milagre de escrever. Não deixes que a miséria do teu corpo escureça com a sua sombra a pequena luz da tua escrita.»

Vergílio Ferreira, Escrever

 

É confrangedor verificar a facilidade com que hoje se desfazem as bibliotecas familiares. Encontro vestígios dispersos destas colecções organizadas nos alfarrabistas que frequento e procuro recolher tudo quanto posso: não é raro encontrar pequenas pérolas desbaratadas por gente que não fazia a menor ideia do que deitava fora.

Anoto isto para realçar a importância das bibliotecas familiares na formação de quem teve o privilégio de beneficiar com elas. Recordo o respeito quase solene com que pela primeira vez entrei na biblioteca do meu avô, já era criança crescida, e como demorei os olhos a decifrar as letras das lombadas. Recordo o convívio familiar com os volumes acumulados na biblioteca do meu pai ("o escritório", assim chamávamos àquela divisão) e as longas horas que lá passei. Cada um daqueles livros era uma janela aberta sobre o mundo.

De início, era eu miúdo, o Pai incentivava-me a permanecer ali encarregando-me de uma tarefa que desempenhei com zelo: abrir as páginas dos livros que vinham por guilhotinar da tipografia, como naquele tempo tantas vezes sucedia. Exerci com gosto essa função durante alguns anos, sempre que um novo título ali entrava - e eram muitos, de vários géneros.

 

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Foi assim, munido de um corta-papéis com cabo de ébano, que tive pela primeira vez nas mãos uma obra de Vergílio Ferreira. O nome, Cântico Final, nada me dizia.

Mas senti uma curiosidade adolescente de espreitar as linhas iniciais. E logo essa prosa me arrebatou como se nenhuma outra eu tivesse lido até então.

«Por uma manhã breve de Dezembro, um homem subia de automóvel uma estrada de montanha. Ma­nhã fina, linear. O homem parou um pouco, enquanto o motor arrefecia, e olhou em volta, fatigado. Aqui estou. Regressado de tudo. Pelo vale extenso até a um limite de neblina, viam-se aqui e além indícios brancos de aldeias, brilhando ao sol. Que dia é hoje?

Pelos campos perpassava uma alegria estranha, tal­vez do sol e daquele fundo silêncio a toda a volta, sem uma voz repentina das que sobem e vibram nas manhãs de trabalho. E de súbito lembrou-se: para o fundo do vale, ouviu o dobre dos sinos do Freixo. Manhã de domingo, manhã de infância, sinos de ou­trora.»

 

Nunca me tinha acontecido com nenhum escritor, raras vezes voltou a acontecer: Vergílio Ferreira conquistou-me com aquelas primeiras linhas. Peguei no livro editado pela Portugália e percorri-o com a mesma sensação de enamoramento pelo nosso idioma que voltaria a sentir com todos os outros que dele fui lendo ao longo dos anos: Aparição, Manhã Submersa, Vagão J, Alegria Breve, Mudança, Estrela Polar, Nítido Nulo, Rápida, a Sombra, Para Sempre, Até ao Fim, Na Tua Face, Em Nome da Terra.

 

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Nem todos me conquistaram: Rápida, a Sombra e Nítido Nulo, por exemplo, sempre me pareceram romances falhados. Mas a sedução da prosa do autor de Escrever - que viria a prolongar-se na sua escrita ensaística e diarística, sem esquecer os contos - jamais deixou de me tocar.

Prosa poética, no mais profundo e visceral sentido da expressão, tantas vezes abastardada. Prosa limpa, límpida, luminosa. Prosa de um escritor maior, que nunca solucionou um conflito íntimo entre a razão e a emoção capaz de o sobressaltar a cada passo e que transparecia da sua escrita.

Prosa que não deixei de ler como um rito iniciático a esta língua que nos serve de traço identitário e nos elevou através dos séculos desde os humildes confins da tribo à nobre condição de povo.

Prosa incapaz de nos deixar indiferentes. E à qual sempre regresso em eventuais crises de inspiração. Vergílio Ferreira - cujo centenário hoje evocamos, como a Isabel Mouzinho já assinalou aqui - merece ser lido e relido. Felizmente tem uma editora apostada em tratar o seu espólio literário com o carinho e o respeito que merece: a Quetzal acaba de lançar as 1000 Frases de Vergílio Ferreira (obra organizada pelo nosso Luís Naves) e lançará em 2016 novos títulos da sua obra completa. Incluindo o segundo romance, Onde Tudo Foi Morrendo, com as alterações introduzidas pelo autor à versão inicial, da década de 40, e o "meu" Cântico Final, também há longos anos ausente dos escaparates.

 

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Falta fazer regressar Vergílio Ferreira aos programas escolares, como a Isabel justamente também reclama. Essa seria a melhor homenagem que o País oficial poderia prestar-lhe em ano de centenário (e do 20º aniversário da sua morte, ocorrida a 1 de Março de 1996).

Para que adolescentes sem acesso a uma biblioteca familiar, neste tempo em que a memória é encarada como um estorvo e nos iludimos a todo o instante com a fugaz eternidade do "presente", se deixem também hoje seduzir por esta prosa ímpar. Tal como aconteceu comigo quando tinha essa idade propícia a todos os encantamentos.


34 comentários

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De João de Brito a 28.01.2016 às 15:22

"Falta fazer regressar Vergílio Ferreira aos programas escolares..."
Apoio.
Até para ver se toda essa gente que por aí escreve aprende a clareza, o ritmo e a graciosidade da frase curta.
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De Pedro Correia a 28.01.2016 às 15:30

Isso mesmo. Frases curtas no estilo mas nunca curtas de ideias.
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De Justiniano a 28.01.2016 às 15:47

A propósito de "Falta fazer regressar Vergílio Ferreira aos programas escolares..."!!
Quando é que V. Ferreira fez parte dos programas escolares!?
Eu desconheço os actuais programas escolares de língua portuguesa. Por razões familiares, fico-me, até hoje, pelo 6º ano.
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De Pedro Correia a 29.01.2016 às 11:22

Meu caro, segue excerto de notícia do 'Público' de Dezembro de 2002:
«Reforça-se o estudo de textos não literários e retiram-se da lista de escritores obrigatórios nomes como Gil Vicente, Bocage, Camilo, Antero, Vergílio Ferreira ou Sophia de Mello Breyner. Os alunos que em 2003/04 se matriculem no 10º ano terão sobretudo contacto com autores do século XX - o estudo de Camões lírico é a única excepção - e com textos informativos (artigos científicos, requerimentos ...), autobiográficos (diários, cartas...) e dos media.»
http://www.publico.pt/destaque/jornal/novo-programa-de-portugues-reforca-estudo-de-textos-nao-literarios-177737

Não admira que haja por aí tanta incultura à solta provocada por estes experimentalismos pedagógicos que transformam os estudantes em cobaias.
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De Justiniano a 29.01.2016 às 14:20

Caro Pedro Correia, mui grato pela informação.
A minha questão relevava da genuína curiosidade, e o meu caro compreendeu-a perfeitamente. Quedo-me ainda mais surpreendido. Gil Vicente!! Quedo-me pasmado!! Como é possível! Queriam produzir criaturas ahistóricas!? Resposta dada. Espero que, actualmente, tenham corrigido a coisa. E, por favor, digam-me que Aquilino e Torga são ainda parte do programa escolar.
Por outro lado, tenho a contraditória noção de que o conhecimento dos Lusíadas é impensável para, mais das vezes, menores de 25 anos. Há, caro Pedro Correia, professores de Português que não têm conhecimentos suficientes, da literatura e da história universal, para ensinar os Lusíadas, sem manual algum que lhes valha. Camões lírico é outra coisa, sim, próprio para menores de 25 anos. E Gil Vicente não é Lusíadas, é imperioso que se conheçam as tensões culturais e políticas da idade moderna que, de certo modo, Portugal inventou (não sei se em Espanha Pedro Calderon de la Barca e Lope de Vega são curriculares, mas surpreender-me-ia se o não fossem)!!
Quanto a V. Ferreira, não sei se caberá! Tem de lá caber o Camões, Eça, Pessoa e Saramago (o Saramago é evidente, para além do gosto pessoal) E, caro Pedro Correia, haveria de lá caber uma parte de dramaturgia portuguesa, nem que fosse por ter de ser, à falta de coisa mais ilustrativa, do Dantas, a Ceia dos Cardeais.
Um grande bem haja a todos,
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De Pedro Correia a 29.01.2016 às 16:31

O estudo de "textos não-literários" para não maçar muito os neurónios dos petizes é uma das muitas facetas do facilitismo educativo, cada vez mais apostado em nivelar por baixo.
Depois as mesmas sumidades que congeminam estas abóboras do Entroncamento abrem a boca de espanto ao verificarem como é galopante a iliteracia cá no burgo...

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