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Não vos queria deprimir

por Luís Naves, em 01.09.18

Tenho lido numerosos artigos sobre a Hungria com graves erros de interpretação, a ponto de não haver, neste momento, qualquer coincidência entre a realidade e a percepção da nossa opinião pública. Com a lenda à solta, torna-se difícil explicar factos básicos.
Estive recentemente um mês na Hungria, atento ao que se conversava e publicava. O acontecimento mais relevante foi o anúncio, pela BMW, da intenção de construir em Debrecen uma grande fábrica de automóveis. Em 2016, existia no país uma única fábrica automóvel de grande dimensão (Daimler-Benz) e três médias (Audi, Opel e Suzuki). Entretanto, a Audi alargou a sua unidade, que já é maior do que a da Mercedes, e esta última marca começou a construir uma nova fábrica, separada e da mesma dimensão, ao lado da primeira. Com a da BMW, haverá quatro Auto-Europas na Hungria. A partir de 2020, serão exportados mais de um milhão de automóveis por ano, eléctricos e convencionais.
Há seis mil empresas alemãs na Hungria. As razões para este interesse são diversas. O famoso regime ‘iliberal’ do primeiro-ministro Viktor Orbán inclui IRC de 9%, impostos baixos, energia barata, trabalhadores qualificados, ética de trabalho, escolas de engenharia de qualidade, a taxa social única que em Portugal quase derrubou um governo; também se introduziu por lá um flat tax, combateram-se as rendas excessivas, há pouca burocracia, justiça célere, pleno emprego e grande facilidade em despedir. O país está perto dos mercados e muitos trabalhadores falam alemão. Outro factor é a estabilidade: a classe média nunca esteve tão satisfeita, a economia cresce a ritmo superior a 4% e algumas das políticas mencionadas estão na Constituição.
Os fundos comunitários não foram gastos apenas em projectos nacionais, mas têm servido para construir ligações que permitem integrar depressa toda a região. Refiro-me a autoestradas, ferrovias, aeroportos, redes eléctricas, gasodutos, englobando Áustria, Croácia, Eslovénia, Roménia, Eslováquia e Polónia (também Sérvia e Ucrânia). É evidente que dentro de dez anos estaremos a falar de uma zona com mais de cem milhões de consumidores, que irá de Varsóvia a Atenas, de Viena a Istambul, de Milão a Kiev; ou, se quiserem, do Adriático ao Báltico e ao Mar Negro. Isto não são sonhos, mas planos concretos, já em andamento.
Também tive a oportunidade de ver uma lista das cinquenta maiores empresas (muitas são subsidiárias de multinacionais; a Audi, por exemplo, estava em segundo e a Mercedes em terceiro). Havia nesta lista um indicador que considerei extraordinário, o de aumento de capital em 2017: dessas 50, 21 tiveram aumentos de dois dígitos, portanto, mais de dez por cento, e só onze empresas diminuíram o volume de negócios. A lista incluía uma dezena de produtores de componentes de automóvel, onde ainda não estavam as duas gigafábricas de baterias em construção; o resto era indústria farmacêutica, química e energia, muito pouco de serviços, ou seja, tudo muito ‘iliberal’ e ‘putinista’. Julgo que estes dados permitem afirmar que, em Portugal, há comentadores que estão a ver o filme errado.


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