Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Veia lírica

por Luís Naves, em 07.11.15

Portugal Camoes shipwreck.jpg

 

Uma característica da política portuguesa tem sido a irrupção de episódios líricos onde as nossas elites demonstraram elevada tendência para se desligarem da realidade. Vivemos um desses momentos. A comunicação social tem reagido de forma dócil à possibilidade de haver em Portugal um governo minoritário do Partido Socialista, que perdeu as eleições e será suportado por forças que sempre combateram o próprio PS. Considerando as ambíguas informações sobre o hipotético “acordo” da frente das três esquerdas, o programa económico que os socialistas tinham apresentado aos eleitores parece já estar enterrado.

A direita, por culpa própria, não tem imprensa nem intelectuais. Erguem-se vozes isoladas a denunciar uma golpada política que seria improvável numa democracia madura, mas é tudo suave, gerando nas redes sociais vagas de insultos dos charlies de serviço. O país do facebook não tem nada que ver com o país que votou a 4 de Outubro. E quando surgir de novo a perda de credibilidade externa ou a segunda falência consecutiva, todos dirão que não tiveram nada a ver com a aventura.

A intenção do PCP nas negociações parece lógica, considerando o preceito de Napoleão de não interromper o erro crasso de um adversário. De qualquer forma, os comunistas não estarão no governo. A posição do Bloco também faz sentido, pois este partido será o provável beneficiário da futura implosão socialista. Mas, no imediato, o desrespeito pelos eleitores é descarado, embora ninguém se vá lembrar disso quando regressarem as lágrimas de crocodilo sobre o aumento da abstenção.

O lirismo destas soluções de regresso ao passado é quase patético, como se a economia estivesse pujante, como se não houvesse desemprego de longa duração em larga escala, como se a devolução dos cortes provocasse mágico crescimento, sem levar a desequilíbrio externo ou défice orçamental. E Portugal não tem o luxo do tempo, como tinha a Grécia quando negociou com os credores. A um país que se financia nos mercados, o garrote aperta depressa: perda de credibilidade, degradação do rating da dívida, BCE sem possibilidade de intervir, aumento das taxas de juro. Um governo sem legitimidade política, apoiado apenas por dois partidos que passarão o tempo a afiar as facas ou a fazer chantagem, terá apenas a ilusão de governar e de bater o pé aos credores. Haverá muitos sonetos épicos, chinfrineira e bravata, mas o país já antes viveu filmes como este: no fim da monarquia, no estertor da primeira república, no apodrecimento do estado novo, no gonçalvismo.

 

Como existe vida para além do défice, convido os leitores a visitarem este sítio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:


Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D