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Vanguardismo de opereta

por Pedro Correia, em 21.01.15

Alguns apologistas do chamado acordo ortográfico defendem-no com zelo passional alegando que o fazem em nome do progresso. São incapazes de perceber que o progresso nada tem a ver com isto. Ou até terá, mas no sentido contrário ao que pretendem.

Progresso tem a ver com literacia. E as sociedades com maiores índices de alfabetização são precisamente aquelas que têm uma ortografia consolidada há séculos e jamais necessitaram de “reformas” unificadoras neste domínio. Britânicos e norte-americanos, por exemplo, nunca precisaram de acordo algum para limarem as suas notórias divergências ortográficas, que não constituem obstáculo para a compreensão mútua – pelo contrário, só enriquecem o inglês partilhado pelos compatriotas de Shakespeare e Mark Twain, cada qual com o seu sotaque.

Quanto mais estabilizada estiver a ortografia de uma língua, maior é o correspondente índice de alfabetização dos utentes desse idioma. E o inverso também se aplica em países como o nosso: Portugal produziu três profundas reformas ortográficas em menos de um século sem com isso deixar de ser um dos países com menores índices de literacia da Europa.

 

maquina_de_escrever[1].jpg

 

Pensei em tudo isto ao ler o mais recente comunicado da Procuradoria-Geral da República, alusivo à audiência que o director do Jornal de Notícias solicitou a Joana Marques Vidal. Neste comunicado, Afonso Camões é alternamente referido como “director” e “diretor” do referido matutino.

Se ao mais elevado nível das instituições estatais perdura a indefinição sobre a ortografia, não custa imaginar as incertezas do cidadão comum sobre este mesmo tema. Pouco admira, portanto, que tantas “reformas” acabem por fabricar legiões de analfabetos funcionais, incapazes de redigir o mais simples texto de acordo com o quadros normativo. Porque a norma, nesta matéria, continua a oscilar ao sabor de vontades políticas de ocasião: muda o regime, logo muda a ortografia.

Foi assim na transição da monarquia constitucional para a I República, e desta para o Estado Novo, e da ditadura para a democracia.

 

Os que insistem em abolir as chamadas consoantes mudas, arrancando as raízes etimológicas da escrita como se fosse um indício de progresso, estão afinal condenados a perpetuar os humilhantes padrões de iliteracia vigentes entre nós. O fosso entre o nosso idioma e as grandes famílias ortográficas europeias não é sintoma de avanço mas de retrocesso civilizacional.

Entretanto, os auto-intitulados “progressistas” que tanto se gabam de escrever “diretor”, como se fosse o último grito da moda, continuarão a escrever “director” em inglês, “director” em espanhol, “directeur” em francês e “direktor” em alemão.

O “progresso” ortográfico, à luz deste vanguardismo de opereta, termina algures na ligação rodoviária entre Elvas e Badajoz.


37 comentários

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De Escaravelho a 21.01.2015 às 18:09

Acho piada a, hoje em dia, ouvir-se invariavelmente "actor", com o "a" aberto, e "actriz", com o mesmo "a" fechado. Lógica batatal.
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De Pedro Correia a 21.01.2015 às 22:34

Quando se suprime a consoante da sílaba inicial, que tem valor diacrítico, 'atriz' lê-se como 'atrás'.
Aliás já o insuspeito professor Houaiss reconhecia esta importante característica das chamadas "consoantes mudas", que abrem o timbre da vogal precedente:
https://www.youtube.com/watch?x-yt-cl=84411374&v=DQUj4BvD9Gc&x-yt-ts=1421828030
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De Luís Lavoura a 22.01.2015 às 10:40

já o insuspeito professor Houaiss reconhecia esta importante característica das chamadas "consoantes mudas", que abrem o timbre da vogal precedente

A palavra "pactuar" lê-se com a fechado mas "pateta" lê-se com a aberto.

Estas regras que têm exceções são uma chatice.
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De Cavador a 22.01.2015 às 12:14

Patuá lê-se com a aberto.
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De Cavador a 22.01.2015 às 12:21

Patoá lê-se com a aberto. Patuá não era para aqui chamado.
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De Luís Lavoura a 21.01.2015 às 18:09

as sociedades com maiores índices de alfabetização

Quais? Atualmente há uma data de sociedades com índices de alfabetização de 100%. Nalgumas delas a ortografia já mudou, noutras não.

A sociedade que atingiu primeiramente a alfabetização total foi o Japão, que a atingiu ainda no século 19. Não sei ao certo, mas julgo que a ortografia do japonês já sofreu diversas alterações de então para cá.
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De da Maia a 22.01.2015 às 21:18

Deve ser isso Luís, aos ideogramas japoneses interessa bastante a literalidade fonética.
Não é que ache que sejas velho, mas parece-me que não aprendeste mais línguas.
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De Luís Lavoura a 23.01.2015 às 09:20

Não aprendi japonês, de facto, mas não é preciso aprendê-lo para saber que a ortografia do japonês já sofreu diversas reformas. Veja
http://en.wikipedia.org/wiki/Japanese_script_reform
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De Luís Lavoura a 21.01.2015 às 18:12

arrancando as raízes etimológicas da escrita

Quais raízes etimológicas nem qual carapuça. Trata-se de orotgrafia tradicional, não de ortografia etimológica. Por exemplo, já se escreveu "he" o que atualmente se escreve "é", já se escreveu "mãi" o que agora se escreve "mãe", já se escreveu "bibliotheca" o que agora se escreve "biblioteca", e nada disso tem a ver com qualquer etimologia. Há uma carrada de palavras em português que se escrevem diferentemente do seu étimo latino.
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De Costa a 21.01.2015 às 21:43

Enfim, o étimo de biblioteca é grego... E o que está aqui em causa é a evolução natural - pelo uso respaldado nas boas regras da ciência - por oposição à ruptura por decreto, o mudar por mudar, porque isso é que é "moderno" (e um grande negócio), ainda por cima com fórmulas que se algo fazem é anular os (paternalistas e presunçosos, quando não colaboracionistas no mais pejorativo sentido do termo) alegados objectivos bondosos, ainda que absolutamente inúteis ou inalcançáveis, dessa ruptura.

Mas tudo serve para defender o indefensável.

Costa
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De Luís Lavoura a 22.01.2015 às 09:17

o étimo de biblioteca é grego

Pois é. E em grego escreve-se com um "theta", que é uma letra grega. Não se escreve com "th", até porque essas são letras que não existem em grego.

por oposição à ruptura por decreto, o mudar por mudar, porque isso é que é "moderno"

Qual moderno! Já foi feito em 1911, em 1945 e em 1973. E você hoje em dia escreve de acordo com a ortografia imposta por decreto em 1973. Não escreve de acordo com a ortografia usada por Camões nem por Fernão Lopes. Escreve seguindo uma ortografia "moderna" imposta por decreto em 1973 (seguindo outras imposições por decreto anteriores).
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De Costa a 22.01.2015 às 13:24

Notará que eu só invoquei o étimo grego porque você, invocando a questão etimológica, citou como exemplo de latinidade genérica da língua portuguesa (e seus desvios), um que era na verdade grego. Convém, ao recorrer a um argumento - mais ainda se for para se questionar a sua dignidade - fazê-lo com alguma solidez.

Como bem diz, a letra que refere não existe no alfabeto latino. Pois bem, consagrou-se em sua substituição, dentro do que esse alfabeto oferece, o uso de "th". Já nós, sempre na vanguarda destas coisas de reduzir a língua, escrita e falada, a uma mera ferramenta de uso absolutamente pragmático, nos bastamos com o "t". Que isso de legados culturais e históricos ínsitos num idioma é preocupação ociosa de pedantes, bondosamente chamados de (alegados) velhos do Restelo.

Quanto a isso, e como agora tão elegantemente se diz: "tá-se bem". Ou apenas "tá-se ". Ou será tásse ", ou "táce", ou o que for (desde que se perceba basta; e simples, claro!).

É verdade que escrevo de acordo com os ditames de decretos. O que não significa que não censure boa parte do que neles é imposto. Fui educado neles (quando surge o de 1973 já a forma como escrevo estava, aliás, largamente consolidada), mas não por eles intelectualmente castrado e reduzido à apologia de tudo o que é moderno, como se isso fosse um bem superior em si mesmo.

Em todo o caso a obra destruidora que impuseram à língua portuguesa é bem menos gravosa do que a boçal radicalidade insensata e estéril - quando não objectivamente contraproducente à luz dos próprios critérios do AO90 - do Aborto Ortográfico de 1990.

Costa

Ps.: E o mais elementar bom senso manda aceitar que há coisas que carecem de estabilidade. Uma língua é um perfeito exemplo disso. Você coloca aspas ao considerar moderno o que decorre do decidido em 1973, decerto porque para si 1973 é um passado longínquo e essencialmente anacrónico e inaproveitável. Não é. Não num valor tão longevo e essencial como um idioma.

Aberrante é consagrar legalmente três - três! - suas revisões no espaço de um século.

Costa
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De da Maia a 22.01.2015 às 21:33

Costa:
Já perdi o meu latim e o meu grego, ambos muito escassos, com estas conversas.
Tendo acabado de ler o comentário do Luís sobre o Sun, acho que o problema pode ser afinal um boicote a thetas.
É inútil argumentar com quem até discute a equivalência tradicional entre uma letra grega e duas latinas. É um crash no processador - só tem espaço para um carácter e aparecem dois caracteres. Modelo antigo, sem DBCS.
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De Costa a 23.01.2015 às 18:42

É capaz de ser isso, de facto: um tal boicote anatómico. Eu se já me achava conservador acabei por ter nessa resposta uma confirmação dessa minha orientação. Com mais uns textos e comentários sobre a fêmea da espécie e seus atributos, um dia destes ainda me descubro marialva e fadisteiro.

Nunca imaginei...

Costa

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De Isabel A. Ferreira a 23.01.2017 às 12:07

E por acaso o senhor sabe por que já se escreveu "he" e actualmente se escreve é.... etc., etc., etc.,?

É que tudo isso tem uma lógica linguística.

Suprimir consoantes mudas, apenas porque sim... dá jeito, é mais fácil, afasta a ortografia da ortografia do colonizador... não são motivos científicos. Não seguem qualquer lógica linguística.

E quando se quer defender o AO90, e vem à baila a pharmácia... nem sequer se dão conta o quanto estão a ser ignorantes.
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De Prisemplo a 21.01.2015 às 18:22

Eu cá escrevo ônibus e premiê.
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De Me dei mal a 21.01.2015 às 18:46

E presidenta, que é porreta.
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De Pedro Correia a 22.01.2015 às 21:50

Eu escrevo camondongo em vez de rato.
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De Carlos de Jesus a 21.01.2015 às 21:17

Os seus argumentos contra o N.A.O. são muito fracos para não dizer falaciosos. Essa da etimologia, dá para rir.
Eu que vivo no Canadá digo ‘director’ em inglês e ‘directeur’ em francês, mas pronuncio o ‘C’ em ambos os casos, e não vejo nenhum contrassenso com o ‘diretor’ português.
Como percebe sou apologista do novo acordo, mas com um pequeno senão, é que ele não foi corajoso até ao fim da sua lógica. Por quê guardar o ‘h’ mudo, como em ‘hoje’ ou em ‘homem’? Os italianos já há muito que o tiraram (oggi, uomo). Mas acredito que no dia em que tirarem o H ao homo lusitanus ele vai sentir-se capado…
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De Pedro Correia a 21.01.2015 às 21:53

A erudição dos seus argumentos deixou-me esmagado. Abaixo a etimologia reaccionária, viva a transcrição fonética.
Só lamento que assine o seu nome de forma tão antiquada. Para ser coerente tem de alterar essa grafia, 'Ka-lus Jɐ'zus.

O omo já existe. Dizem que lava mais branco.
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De Carlos de Jesus a 21.01.2015 às 23:30

A ironia está para a inteligência como a injúria para a estupidez.
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De Pedro Correia a 21.01.2015 às 23:46

Ui. Falei-lhe em omo, sentiu-se injuriado. Já vi que prefere outro detergente.
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De Carlos de Jesus a 22.01.2015 às 04:44

Há quase meio século que saí de Portugal. Era do tempo da ‘outra senhora’. Eu tinha 30 anos e um futuro cinzento às riscas à minha espera. O que me liga ainda ao alfobre natal é a língua que tenho procurado conservar ‘malgré tout’. Passei muitos anos sem me interessar pelo que se passava por aí. E, pelos vistos, também não tive muito a perder… ‘Just for the record’
https://www.facebook.com/carlosalvesdejesus
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De Direttore a 22.01.2015 às 10:59

Note que em italiano escreve "direttore" com dois "tt", assim como pode não ter "h" em "oggi" mas tem dois "g".
Os caçadores de consoantes podem usar o italiano para caçar o "h", mas por aí apanham com as duplas consoantes, que abolimos há muito.

O que torna uma língua nova, não é o que muda, é o que se mantém, apesar das mudanças.
A escrita portuguesa em vigor não tem nada de especial, tirando ter sido bem pensada, e não feita por amadores em cima do joelho.
Manteve-se mais de 50 anos, algo que incomoda a comichão nacional.
Foi esse o português ensinado nos PALOPS, não foi o português do Brasil.
O acordo de 1990 pretendeu usar a herança, negando a herança. Por isso os PALOPS foram os que menos piada acharam ao novo colonialismo.
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De Carlos de Jesus a 22.01.2015 às 13:44

As duplas consoantes em italiano existem para evitar os acentos.
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De Direttore a 22.01.2015 às 16:55

Essa foi de espetador!
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De Pedro Correia a 22.01.2015 às 21:49

Fez muito bem em sair da sua zona de conforto e em dizer adeus à terrinha. Quando houver novas de "acordos ortográficos" da língua inglesa ou francesa nesse "alfobre" bilingue que tão generosamente o acolhe no seu seio não deixe de nos transmitir as novidades.
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De lucklucky a 21.01.2015 às 23:57

Mais um que quer o Governo a dirigir todos os aspectos da vida humana.
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De Pedro Correia a 22.01.2015 às 00:20

Da vida "umana", neste caso.
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De Aja Paxorra a 22.01.2015 às 08:45

No Quebeque acim como em Fransa escreve-se omme/ome. Eu vivo em Madri e aqui semos todos ombres.
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De Pedro Correia a 22.01.2015 às 09:19

À lá ienas e ipopótamos?
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De Luís Lavoura a 22.01.2015 às 10:47

Concordo completamente consigo.
Tal como em português escrevemos "Frederico" com um "r" mas os espanhóis escrevem "Federico" sem "r". Se não se diz "r", então ele cai.
E em português escrevemos "transporte" com um "n" mas em castelhano escreve-se "trasporte" sem "n". Se não se lê, não precisa de lá estar.
E concordo consigo, se os italianos, que são um povo avançado e descendentes diretos dos romanos, mandaram o "h" inicial às malvas, para que é que nós ainda o usamos?
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De Cavador a 22.01.2015 às 12:17

Já estive em otéis intalianus.
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De Costa a 22.01.2015 às 14:01

Omem (passa então a ser assim, não é? Nem discutamos se, sem "h", se deveria acentuar ou não o "o", porque isso é uma complicação perfeitamente dispensável e irrelevante como felizmente nos revelou o AO90 , por exemplo no caso de "para" ou... "para"), alegre-se. Na verdade por cá cada um já pode escrever como lhe der na real gana.

É isso o que se retira deste parecer da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República:

https:/ aventadores.files.wordpress.com /2014/02/0-parecer-da-i-comissao.pdf

todo ele, aliás, uma repugnante declaração de rendição incondicional aos mentores do infame AO90 , e onde, no nº 17, se escreve: "(...) mantendo-se a pronúncia e o uso das palavras inalteráveis, bem como a plena liberdade individual de utilização da grafia que pretender por parte de cada cidadão (matéria que retomaremos infra )."

Ou seja, cada um escreve como quer, posto que o texto citado, num belíssimo exemplo de "boa" técnica redactorial e jurídica, não elenca que grafias toma por legítimas. O que bem permite tomar como tal todas. Mesmo aquelas crivadas de erros, seja qual for a norma pela qual sejam aferidas. Porque verdadeiramente deixa de haver norma.

O que aliás nos deixa conversados sobre os objectivos de uniformização e simplificação que o AO90 para si reclama: passa a valer tudo, desde que se perceba o que se quer dizer (ou mesmo que não se perceba, na verdade), e é de capital utilidade para um objectivo estatístico de apresentar brilhantes dados de avaliação dos alunos no que à sua língua materna concerne.

Note que a observação "matéria que retomaremos infra ", é de facto retomada, no nº 27, mas em nada invalida o que escrevo aqui. Basta-me, quanto a isso, notar que a mim não curvará o estado e que quando por escrito me tiver que com ele me relacionar - exercício aliás por definição penoso e de desigualdade de armas - não me renderei a esta grafia de semi-analfabetos embrutecidos de que você se afirma, mais do que aceitante conformado, apologista.

Imagino como reagiriam os cidadãos do país que você escolheu para viver (e que eu muito, muito mesmo, admiro) se um dia destes se lhes fosse imposta uma qualquer uniformização ortográfica - ainda por cima em boa medida exógena - que à aberração, neste contexto, do conceito de uniformização em si mesmo, porque ainda que imposto na grafia nunca o conseguirá ser na sintaxe e no vocabulário, juntasse a contradição desse mesmo propósito, fizesse tábua rasa de consolidados princípios científicos e introduzisse afinal não poucas ambiguidades.

Costa
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De amendes a 21.01.2015 às 22:09

Editorial do "Jornal de Angola".

..." A Língua Portuguesa é património de todos os povos que a falam e neste ponto estamos todos de acordo. É pertença de angolanos, portugueses, macaenses, goeses ou brasileiros. E nenhum país tem mais direitos ou prerrogativas só porque possui mais falantes ou uma indústria editorial mais pujante.
Uma velha tipografia manual em Goa pode ser tão preciosa para a língua portuguesa como a mais importante empresa editorial do Brasil, de Portugal ou de Angola. O importante é que todos respeitem as diferenças e que ninguém ouse impor regras só porque o difícil comércio das palavras assim o exige.
Há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam, ou às "leis do mercado". Os afectos não são transaccionáveis. E a língua que veicula esses afectos muito menos.
Provavelmente foi por ter esta consciência que Fernando Pessoa confessou que a sua pátria era a Língua Portuguesa"...
Pedro Paixão Franco, José de Fontes Pereira, Silvério Ferreira e outros intelectuais angolenses da última metade do Século XIX também juraram amor eterno à Língua Portuguesa e trataram-na em conformidade com esse sentimento nos seus textos. Os intelectuais que se seguiram, sobretudo os que lançaram o grito "Vamos Descobrir Angola", deram-lhe uma roupagem belíssima, um ritmo singular, uma dimensão única. Eles promoveram a cultura angolana como ninguém. E o veículo utilizado foi o português. Queremos continuar esse percurso e desejamos que os outros falantes da Língua Portuguesa respeitem as nossas especificidades. Escrevemos à nossa maneira, falamos com o nosso sotaque, desintegramos as regras à medida das nossas vivências, introduzimos no discurso as palavras que bebemos no leite das nossas Línguas Nacionais.
Sabemos que somos falantes de uma língua que tem o Latim como matriz. Mas mesmo na origem existiu a via erudita e via popular.
Do "português tabeliónico" aos nossos dias, milhões de seres humanos moldaram a língua em África, na Ásia, nas Américas.
Intelectuais de todas as épocas cuidaram dela com o mesmo desvelo que se tratam preciosidades.

Queremos a Língua Portuguesa que brota da gramática e da sua matriz latina...."
...." Tal como o português que é falado no Alentejo, em Salvador da Baía ou em Inhambane tem características únicas. Todos devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP. A escrita é "contaminada" pela linguagem coloquial, mas as regras gramaticais, não. Se o étimo latino impões uma grafia, não é aceitável que, através de um qualquer acordo, ela seja simplesmente ignorada. Nada o justifica. Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, anates mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras"...


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De Miguel a 21.01.2015 às 23:15

Era bom que antes de se continuar a fantasiar sobre o Português como língua de trabalho na ONU, se lesse este excelente artigo de João Roque Dias:

https://www.facebook.com/notes/joao-roque-dias/nota-25-o-acordo-ortogr%C3%A1fico-o-portugu%C3%AAs-nas-na%C3%A7%C3%B5es-unidas-ou-uma-hist%C3%B3ria-muito/155288554493730?pnref=story
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De Pedro Correia a 21.01.2015 às 23:50

Um excelente artigo. Que desmente em toda a linha a enorme mistificação política em que assentou o AO90.

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