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Vai fazer-nos muita falta

por Pedro Correia, em 22.02.20

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Vasco Pulido Valente era o melhor. Em quase tudo. Também na capacidade de inspirar epígonos que ia influenciando por geração espontânea e foram irrompendo como cogumelos - todos com menos talento que ele.
 
Era bom a pensar, a escrever, a polemizar.
Nunca lhe faltou a coragem para dar expressão pública ao pensamento. Nem vocação para escolher sempre as palavras mais adequadas à elegância formal que jamais cessou de procurar.
Sem atender a conivências nem a conveniências, criticou quase tudo e quase todos. Por vezes com um desassombro que alguns confundiam com arrogância ou cinismo. Por vezes com incoerências, naturais num percurso tão vasto, que se espraiou por seis décadas: era o comentador político português que exercia o ofício há mais tempo em permanência.
Vinha do pioneiro Almanaque, remontava ao antigo O Tempo e o Modo - publicações que hoje já quase ninguém sabe o que significaram na estreita sociedade portuguesa daquele tempo em que a censura estava inscrita no quotidiano mental das elites bem-pensantes.
Nem sempre fez os juízos certos sobre todas as figuras públicas que foi visando com a sua pena cáustica, pontualmente repassada de sarcasmo. Mas acertou na maior parte das vezes - em quase tudo quanto era essencial no catálogo de ideias que professava e foi sedimentando desde que estudou em Oxford, na primeira metade dos anos 70. A necessidade imperiosa de aproximar Portugal dos padrões de civilidade europeia, por exemplo.

Faltou-lhe escrever um romance. Ensaiou essa peça de ficção durante décadas, em versões diversas, mas era tão exigente com ele próprio que acabou por nunca publicar nenhuma.
Tentou uma aproximação ao género, com Glória, mas saiu-lhe afinal um ensaio histórico, aliás não destituído de brilhantismo. Com duas características essenciais: devolveu aos leitores o prazer do reencontro com a escrita narrativa, reaproximando a História da Literatura, e recuperou a biografia como peça fundamental da investigação histórica numa altura em que os cânones académicos menosprezavam o género.
No campo da historiografia, o título imbatível do seu legado foi o primeiro: O Poder e o Povo, que derrubou para sempre vários mitos beatíficos sobre a I República. Pena também esta investigação ter ficado incompleta, pois só abarca um período circunscrito deste ciclo histórico que antes dele era descrito com inúmeras omissões factuais.
 
Sentiu-se por duas vezes atraído pela política activa, nas décadas de 70 e 90, mas depressa concluiu que não era aquele o seu mundo e soube retirar-se muito a tempo. Também a comunicação radiofónica e televisiva estava longe de constituir o seu domínio de eleição, que era o da escrita.
O Henrique Raposo descreve-o muito bem neste parágrafo: «Na imprensa dos anos 70, antes (Cinéfilo) e depois (Diário de Notícias e Expresso) do 25 de Abril, as colunas de VPV eram especiais porque ele era o único grande cronista sem qualquer rasto do linguajar marxista. Foi ele que abriu espaço a uma linguagem política clássica, republicana e, sim, liberal (leia-se “liberal” no sentido de “democracia liberal”, por oposição a “democracia popular”). Quem acredita na liberdade deve muito ao colunismo político de VPV desta época.»
 
Tinha este dom - e soube exercê-lo. Graças a ele, ensinou muitos de nós a reflectir, a ponderar, a argumentar, a desafiar os bonzos da opinião, a questionar os dogmas soprados no vento, a ripostar sem medo.
Por vezes à custa de si próprio, pois consumiu-se sem remissão na contingente espuma dos dias, que lhe roubava tempo e paciência para outros projectos, mais adequados ao seu engenho.
Eis o fardo insustentável de um comentador - mesmo o melhor de todos, como VPV. Não vejo hoje ninguém que possa equiparar-se a ele. Vai fazer-nos muita falta.


20 comentários

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De Isabel Paulos a 22.02.2020 às 19:08

Diria mentira se dissesse que me era figura simpática. Encanitava (como tanto gostava de dizer), mas o respeito não nasce da simpatia. Comecei por o ler no Independente e percebi a seriedade. Mais tarde li o Glória, como quem lê um romance, e confirmei a diferença de ler quem estuda e investiga com seriedade. Era uma avis rara no País das ´ciências ocultas’.

Vai fazer falta para encanitar preguiçosos
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De ChakraIndigo a 22.02.2020 às 19:56

Permita-me fazer uma colagem de um artigo do VPV, acerca do famigerado Aborto Ortográfico
Embora extenso, e provavelmente demasiado tecnico para o comum dos mortais, é uma forma original de enterrar o AO.

«Muito barulho para nada»

«O dr. Vasco Graça Moura e outras pessoas sensatas fizeram o erro de atacar o Acordo Ortográfico luso-brasileiro em pormenor. A essência dessa monstruosidade acabou por se perder numa discussão técnica por que ninguém se interessa e que ninguém consegue seguir. A essência da questão é, no entanto, clara. A ortografia portuguesa e a ortografia brasileira são diferentes, porque a língua portuguesa e a língua brasileira são diferentes: a fonética, a sintaxe, a semântica. O brasileiro evoluiu e continua a evoluir de uma maneira, e o português, de outra. Este processo não vai evidentemente parar e vai reduzir a um triste exercício de futilidade qualquer acordo que os sábios de cá e de lá (e talvez depois de Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné) se lembrem de congeminar.

Compreendo que se olhe com inveja para o inglês que se escreve, com ligeiras variantes, da mesma maneira em metade do mundo. Mas quem inveja esta «universalidade» ao inglês não percebe com certeza em que base ela assenta. Assenta no protestantismo e na tradução da Bíblia de 1611, a King James Bible, que por todo o mundo foi o centro do culto e o livro em que se aprendia a ler. Durante séculos não ocorreu a nenhum cristão a ideia sacrílega de lhe alterar uma letra e esse respeito passou inevitavelmente para a vida profana. De resto, houve sempre uma literatura clássica, de Shakespeare a T. S. Eliot e de Hawthorne a Fiztgerald, que era considerada património comum e em que, por isso mesmo, não se tocava. Apesar da multiplicação de idiomas, ficou até hoje esse ponto de referência. Como sucedeu, em menor grau, com o castelhano.

Ao Acordo Ortográfico luso-brasileiro, planeado com o fim «económico» da «expansão» e da «internacionalização» da língua, falta o fundamento. Não existe uma tradução da Bíblia geralmente reconhecida. Não existe também uma tradição literária comum ou perto disso. Camões, sendo um nacionalista português, não é um autor que se partilhe. Nem António Vieira. Camilo escreveu sobre o Brasil como quem escreve sobre o Porto. E Eça é demasiado indígena, pior ainda, lisboeta. Ao contrário, pouca gente conhece em Portugal Machado de Assis, para já não falar de Guimarães Rosa (um nativista) e de Drummond de Andrade. Sobram Pessoa, uma exportação difícil, e Jorge Amado, que se popularizou pela política. Não chega. O Acordo Ortográfico nasce no ar e morrerá depressa. Como de costume, muito barulho para nada."

A reter, "O Acordo Ortográfico nasce no ar e morrerá depressa".

Um homem brilhante.

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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 23:06

Excelente texto. Agradeço que o tenha reproduzido aqui.
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De Anónimo a 22.02.2020 às 20:31

Um país hoje mais pobre - mas que não se apercebe e, se se apercebesse , não se importaria...
Ele sabia-o.



JSP
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De Isabel s a 22.02.2020 às 22:19

Concordo com tudo e concordaria ainda com mais. Só acho que dizer que «Glória » não é destituído de brilhantismo, é curto. Nunca vi um livro sobre história levar a melhor quando comparado com muitos óptimos romancistas e simultaneamente definir tão bem os comportamentos típicos que caracterizavam no século XIX e continuam a caracterizar as limitações e os vicios da sociedade portuguesa.
Saber que não haverá mais obra de VPV é sentirmo-nos mais pobres. Consola-nos o triste facto de que poderemos sempre ir relendo as suas crônicas, tão frequentemente corrosivas, e ter o sentimento que poderiam ter sido escritas nas actualidades que nos esperam.
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De Dutra a 23.02.2020 às 00:07

"Faltou-lhe escrever um romance. Ensaiou essa peça de ficção durante décadas, em versões diversas, mas era tão exigente com ele próprio que acabou por nunca publicar nenhuma."

Consequentemente, Eça, Aquilino, Saramago, Lobo Antunes, Tomaz de Figueiredo, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires, etc., não eram exigentes com eles próprios.
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De Pedro Correia a 23.02.2020 às 00:32

O que tem uma coisa ver com outra? VPV porventura nunca se considerou com capacidade suficiente para ser romancista. Tão simples como isso.

(Lobo Antunes está vivo, felizmente. É prematuro falar dele no passado.)
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De Zeca D. a 23.02.2020 às 11:01

Foi o único a ter coragem para escrever que Greta devia, depois de o planeta rebentar, ir parar a Saturno. O que muito me agradou.
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De Anónimo a 23.02.2020 às 12:38

Adeus meu caro Senhor!
Que pena a nossa sociedade perder mais um elemento limpo, transparente, irritável, integro e autêntico; eloquente e rigoroso.
Restam pouquíssimos exemplares destes…
Que pena.
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De Anónimo a 23.02.2020 às 16:50

Vasco Pulido Valente é um dos maiores pensadores e historiadores portugueses - não deste ou daquele período, mas de toda a história da cultura portuguesa.

No "Glória" há uma obra-prima que necessita de ser editada.
Porventura, perante o gigantismo intelectual de VPV, o editor não exerceu o seu múnus.
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De Costa a 23.02.2020 às 17:32

Elegante, o texto de H. Raposo. E serenamente fundamentado, mesmo quando dele se discorde. Pena a cretina forma ortográfica adoptada e que priva a sua leitura do simples gosto formal de ler algo bem escrito.

Do snobismo de VPV, nesse texto uma e outra vez invocado, seja; ninguém é perfeito. Mas folheia-se o Retratos e Auto-Retratos, lê-se isto: "(...) achei genericamente que sair de casa, fosse para eleger o dr. Soares ou o sr. Justerini Brooks me fazia bem" e é impossível não dar graças a Deus, ou ao que seja, por esse snobismo.

Ficou cá. Para ler e reler.

Costa
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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 23:05

O nosso Nelson Rodrigues, o nosso Javier Marías. Se escrevesse romances, teria sido o nosso Evelyn Waugh.
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De Makiavel a 24.02.2020 às 11:35

Tempo houve em que lia as suas crónicas com bastante prazer, no DN e mais tarde no Público.
De tanto querer ser contra-corrente, chegava a defender o indefensável.
Era O Cronista.
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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 23:03

Merece esse emblema, agora sem titular.

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