Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Vai chamar racista a outro

por Pedro Correia, em 19.02.20

clip_image003[1].jpg

Selecção nacional em 1966 com quatro moçambicanos: Hilário, Vicente, Eusébio e Coluna

 

Os habituais exageros à portuguesa fazem oscilar com frequência qualquer tema do oito para o oitenta. É o que tem vindo a acontecer nos últimos dois dias a propósito de um inaceitável episódio de cunho racista ocorrido no estádio do Vitória de Guimarães.

De todos os lados salta agora gente aos gritos proclamando o futebol português como coutada de racistas. Ignorando que durante décadas os maiores ídolos do desporto-rei, entre nós, foram grandes jogadores de tez morena. Espírito Santo, Coluna e Eusébio no Benfica, Hilário, Dinis e Jordão no Sporting, Matateu e Vicente no Belenenses, José Maria e Jacinto João no Vitória de Setúbal - só para citar alguns exemplos.

O inesquecível Mário Esteves Coluna, natural de Moçambique, chegou a ser durante anos capitão da selecção nacional de futebol e nessa qualidade foi um dos obreiros do extraordinário terceiro lugar alcançado pela equipa das quinas no Campeonato do Mundo de 1966 em Inglaterra.

 

Infelizmente, não falta por aí quem confunda a árvore com a floresta, pronunciando-se ao sabor dos ventos da correcção política enquanto se apressa a erguer novos pelourinhos na praça pública. Alguns, ultrapassando o tema do futebol, chegam ao ponto de aplicar a etiqueta "racista" a tudo quanto mexe, com proclamações absurdas deste género: «O racismo estrutural é uma das maiores falhas da sociedade portuguesa.»

Ao opinar, insistentemente, que «somos um país de racistas» e «Portugal sempre foi racista», quem assim se pronuncia - em nome do combate à estigmatização - acaba afinal por lançar um anátema ao país em que vive e à comunidade a que pertence. Estigmatizando todos os portugueses.

Associar este rótulo infame a um povo inteiro é uma intolerável demonstração de racismo na sua lógica intrínseca de exclusão.

A infâmia merece, portanto, ser devolvida à procedência. Com este aviso: vai chamar racista a outro.


50 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.02.2020 às 11:22

Toda a gente anda "à nora", não só em Portugal, mas em toda a Europa, com esta história do racismo no futebol, quando o futebol e as claques não passam de uma brincadeira de gente jovem e meio irresponsável, sabendo que o racismo na cabeça das pessoas é tão natural e tão profundo, que esta histeria, de parte a parte, por causa do futebol, é só para disfarçar a incapacidade de discutir o que é na realidade o racismo.

O verdadeiro racismo não é chamar publicamente preto ao preto ou macaco ao preto, ou chamar branco ao branco, ou macaco ao branco, isto até se pode chamar uma certa maneira de convívio, estúpido, mas convívio.

Se fosse só isto o racismo, resolvia-se facilmente o problema, umas palmadas bem dadas e no momento certo, e ficava tudo resolvido, e os meninos aprendiam.

Mas o verdadeiro racismo não é aos gritos numa bancada, na prática é mais discreto, mas cínico, mais disfarçado, mais «diplomático», mais silencioso e por um afastamento escondido (desprezo)

Os "Maregas" facilmente dão a volta a estes racistas de bancada, dificil é dar a volta aos anti-racistas de bancada.

Reaça e retornado de longa duração.
Sem imagem de perfil

De o cunhado do acutilante a 19.02.2020 às 12:22

Certeiro e contundente.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.02.2020 às 12:51

No ponto.
E esse racismo é lixado de combater.
Tanto mais que nem sabemos quem são os protagonistas.

Tenho sempre a sensação que piores do que aqueles que barafustam e são brutos, são aqueles que estão calados.

O pessoal anda preocupado com o Ventura, mas a mim quem me mete medo é o Costa.
O Ventura é fácil chamar-lhe racista, aos outros, simplesmente não tenho provas. E se as tivesse, vendo como está o Pinto, estava bem tramado.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.02.2020 às 14:33

O capachinho, ou capachega, meteu a viola no saco, depois de começar a cantar aquela do síndroma da Joacine: ...não há racismo...lálálá....
E levou uma grande maregada e não se fala mais nisso, q'a até lá por fora não falam noutra coisa.
Uma coisa é gritar, num campo de futebol, 'ó boi preto abre os olhos' referindo-se ao arbitro quando se equipa de preto, outra coisa é grunhir macacadas quando o Marega festejou o golo marcado, vaiando o jogador por este ter ido para o FCP.
Como seria manifestada a mesma animosidade se o jogador fosse branco? Com certeza ficava-se pelo 'filho da puta' sem um urros e saltos de ramo em ramo.
O problema é este. Sim é um problema, por poder extravasar para a via pública e de repente todos os pretos são maregas e desacatos entre brancos e pretos é rastilho incendiado.
E o capachega foi cantar pra outra freguesia com aquela da factura da luz da GNR, ao menos esperava que a luz fosse cortada ah!ah!ah!.
E o Costa mete medo, ui que susto. E o Pinto tem muita gracinha/parolice nunca saber aonde ficam os sítios: o fulano quando foi convocado par depor no caso, nem se lembrou de perguntar pra que lado fica a Galiza.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.02.2020 às 15:12

Podem discordar do Ventura, mas queria ver quem está disposto a ter os míudos a estudar na mesma escola onde estão ciganos, ou morar ao pé deles. Falam muito, mas estão todos quentinhos no seu condomínio fechado.

O Rui Pinto, só pelo caso Luanda Leaks, já deve ter um alvo nas costas.
Este, nunca mais vai ter uma vida normal. Tenho pena, podia aprender umas coisas com o Salgado, que apesar de tudo, leva uma vida tranquila com uma reforma choruda.

O Costa é um político habilidoso e conseguiu equilibrar-se com a esquerda (se bem que com troca de favores), mas no caso dos incêndios, tancos entre muitos outros, não soube estar ao nível. Mas safou-se e cá anda. Se fosse com o Passos Coelho, já o governo tinha ido abaixo há muito. Chama-se a isso controlar a opinião pública. E isso, faz ele com uma perna às costas.

E só agora é que descobriram que havia racismo no futebol...???
Outros que cantam coisas como "Lisboa a arder" estavam só a ser iónicos porque estava frio quando vieram à capital.
E chamar um preto de macaco é pior que chamar a um branco filho da puta?
Sem imagem de perfil

De O sacerdote comediante a 19.02.2020 às 16:59

De facto se fosse branco era só chamado de filho da puta. Mas se fosse branco e baixote, era filho da puta anão. Se fosse branco e tivesse os dentes para fora, era filho da puta castor, ou coelho, ou outra alusão qualquer à característica física do jogador. Este é preto, chamam-lhe macaco. Mas é difícil ver as coisas como elas são? Só mesmo quem quer arranjar um problema é que anda a meter esteróides neste assunto, para o transformar na maior tragédia portuguesa do século XXl.
Se chamar macaco a um preto é racismo, então mandar a mulher à merda é violência doméstica. Colocar o filho de castigo, é maus tratos a menor. Puxar a orelha a um aluno é tentativa de homicídio.
Sobre a fatura da luz da GNR, custa-me a acreditar que se fale no assunto tão levianamente. Por dois motivos, primeiro porque arriscar uma polícia a ficar sem luz, é uma irresponsabilidade e um risco, depois porque pomo-nos a pensar que se não se paga a luz da GNR, que é uma entidade vital, imagine-se a quantidade de entidades com dívidas idênticas.
O Ventura falou e falou bem, e discordo quanto a esperar que se corte a luz, isso seria de enorme irresponsabilidade e negligência. É que ainda bem que falou, porque se não falasse, se calhar era mesmo cortada.
Quanto ao racismo, há racismo, mas racismo não é gozar com um preto, ou com um chinês, por uma característica física, isso é um insulto. A joacine é gaga, mas se fosse branca e gaga, era gozada na mesma.
Racismo era humilhar a senhora, era inferiorizar por ser preta, era desprestigiar por ser preta.
Mas não é isso que acontece. Ela é gozada por ser gaga, criticada por ser incompetente e avaliada negativamente por ser pouco humilde.... se fosse branca, era exatamente igual.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.02.2020 às 17:53

O Ventubracejante, como deputado, deveria ter questionado o Governo por qual razão o responsável do Posto da GNR ainda não tinha pago a factura da luz e se alguma vez a luz foi cortada por falta de pagamento nalgum Posto da GNR.
Assim, vai-se a ver e nada, tudo aceso e o único apagão foi o síndroma Joacine.


Sem imagem de perfil

De Guarda Serôdio a 19.02.2020 às 18:30

Caro anónimo, apenas lhe respondo para o elucidar.
O comandante do posto da GNR não pagou a luz, porque não lhe compete a ele pagar.
As faturas da luz, da água ou do gás, são enviadas ao titular do contrato e o titular do contrato é o comando geral da GNR. Nenhuma fatura é enviada para pagamento ao comandante do posto.
Acrescento que o comandante do posto não paga absolutamente nada, pois todas as contas são pagas pelo comando superior, desde a luz, à água, às oficinas de automóveis, ou ao fornecedor da ração para os cavalos.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.02.2020 às 22:36

Desculpe-me sr.Guarda
Então, como é que se sabe que a luz, daquele Posto, ia ser cortada por falta de
pagamento.
E ainda, alguma vez houve um corte de luz, num Posto, por falta de pagamento?
Sem imagem de perfil

De Guarda Serôdio a 19.02.2020 às 23:00

Sabe-se porque a GNR recebeu o aviso... agora, como é que o aviso chegou ao dito deputado, não faço idéia.
E não se sabe se aquela fatura diz respeito a um posto, a vários postos, a todos os postos, oi até apenas ao comando geral.
Quanto ao corte de luz não sei. Mas a água já aconteceu e o gás, que em muitos sítios é em botija, também já foi negado o abastecimento.
Sem imagem de perfil

De O Sacerdote Comediante a 19.02.2020 às 18:33

Está explicado.

O seu caso não é racismo.... é preconceito.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.02.2020 às 11:50

Por acaso, ou mesmo sem ele, não julgo que haja assim tanto racismo no futebol, ainda que seja mundo que pouco conheço e não esteja, portanto, à altura de ajuizar com verdade. E no entanto julgo que somos racistas, sim. Se o somos em minoria que no entanto avulta, pode até ser verdade. Se não é a maioria dos portugueses...ora ainda bem. Porque desconheço onde começa o número ou quantidade que dá o salto de a maioria, para todos, mas suponho que se dissermos que os portugueses são afáveis para com os estrangeiros não mentimos. E, no entanto, há muito bom português que o não é. Eu diria que o nosso racismo é mitigado, não somos de criar clubes só de brancos e de segregações desse género. Mas se um preto nos tira o emprego, não se livra de umas exclamações racistas. Mesmo que seja em jogada limpa.
O que me parece é que somos inteligentes o suficiente para entender que um homem seja qual for a cor da pele é homem e merece respeito; e já nos vai ficando mal exibir certos comportamentos retrógrados, coloniais e sem cabimento.
Imagem de perfil

De Vorph "Girevoy" Valknut a 19.02.2020 às 11:56

Penso que em Portugal existe racismo. Penso que o racismo é-nos inato enquanto humanos (ler o estudo científico, https://www.google.com/amp/s/www.wsj.com/amp/articles/how-our-brains-respond-to-race-1452094579)

Basicamente postos perante imagens de pessoas de diferentes raças activamos sem disso darmos conta uma estrutura designada Amigadala, associada ao medo e agressão. Portanto biologicamente somos intrínsecamemte racistas, contudo não é uma fatalidade sermo-lo para o resto da vida e aí entra a cultura e educação.

Julgo que sobre esta matéria existem outros piores, nomeadamente a civilizada Europa do Norte
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 19.02.2020 às 16:28

Viva, caro Vorph.
Eu acho que existe racismo em todas as regiões do planeta. O racismo como o refere o caro Vorph. Racismo instintual, aversivo, epidérmico. Aquele que nos leva à desconfiança quase tribal perante o estranho, exótico, de quem desconfiamos e receamos os mores. Esse racismo sensível, inelutável e verdadeiro, não é extirpável da alma dos indivíduos, e os esforços nesse sentido têm sido colossais, com campanhas na media e nos objectos comuns da cultura popular (Há quem tenha aversão sensível a muitas coisas. Eu, por exemplo, tenho aversão a quem come peixe grelhado com Ketchup. É gente que está muito enferma da cabeça e do papo).
Este tipo de racismo é tragável no sentido em que não obsta a que os indivíduos racistas, reciprocamente, se determinem segundo um padrão de tratamento formal neutral de civilidade e obstativo à injúria ou à agressão expressiva. (O Zizek tem uma crítica muito interessante a esta posição de matriz liberal, dos vários espaços comuns, multiculturais, com um espaço comum de tolerância da matriz neutral liberal. É insustentável, diz Zizek, e a história universal secunda-o.) (A propósito, Macron, hoje, secunda Le Pen e todas as vozes críticas do multiculturalismo. Mas a media portuguesa não liga nada a isso)
Ora, este tipo de racismo não é, ainda, o objecto fundamental da quezília política nem da agenda de um certo movimento político em todo o ocidente. (Mas lá chegarão a esse ponto, de querer tirar o vício do corpo aos racistas instintuais. Da mesma forma que uns quantos entendem querer tirar o vício do corpo aos homossexuais).
Apontam, estes movimentos de ruptura política, no sentido de ocuparem as instituições, o racismo institucional, que será o único, actualmente, inexistente, no ocidente, pelo menos!!
A abstracção das leis e a cegueira formal das instituições impedem-nas de exercerem a discriminação racial. Desta feita o que pretendem os movimentos políticos "anti-racistas"? Um racismo institucional invertido.
Para esse fim qualquer argumento, ainda que impressivo, será útil.
Um bem haja,


Imagem de perfil

De Vorph "Girevoy" Valknut a 19.02.2020 às 17:04

Fosga-se, alguém que cita Zizek merece um Robalo. Abraço amigo

Já agora, vale a pena :

Jordan Peterson vs Zizek :

https://youtu.be/lsWndfzuOc4
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 19.02.2020 às 17:31

Magnífico!! Esse não debate foi extraordinário, impossível não apreciar dois cérebros que funcional a 300kmh em concordância. Um bem haja,
Imagem de perfil

De Vorph "Girevoy" Valknut a 19.02.2020 às 18:26

Ainda bem que gostou. Peterson ficou baralhado com Zizek, porque julgava-o um Marxista tradicional e construiu todo o seu debate-argumentação com base nesse preconceito. A meio, Peterson disse, surpreendido, que Zizek era um "marxista" estranho. . Zizek é Zizek e Peterson, uma boa cabeça embora a sua psicologia /filosofia seja carente de afectos. Talvez por uma infância trágica. Peterson recupera, presentemente, na Rússia, de uma dependência em benzodiazepinas (a filha tem uma grave doença do foro reumatóide e à mulher foi diagnosticado um cancro). Oxalá recuperem rapidamente
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 19.02.2020 às 19:37

Pelo contrário, pensava que seria um marxista actualizado. (Também estranhei o Peterson não ter estudado a fundo o Zizek, perceberia, talvez, que têm os mesmos inimigos e detratores e muito mais em comum...)
Zizek é um pensador sui generis, um marxista “tradicional” mas que se não esgota no marxismo para a explicação de todos os eventos e fenómenos, e, mais das vezes, contrario ao marxismo originário. Genial, que, em ponto morto, funciona a 7000rpm. O peterson tem um olhar trágico indisfarcavel que explica muita coisa. Tal como Zizek, funciona a uma velocidade estonteante. O Zizek, como é um sedutor brincalhão desarma qualquer um.
Um bem haja
Sem imagem de perfil

De Zé a 19.02.2020 às 17:46

"Penso que o racismo é-nos inato enquanto humanos" Sim, eu acho que racismo e xenofobia são reacções imediatas ao desconhecido que representa, ou pode mesmo ser, perigo. Mas pode ultrapassar-se com a razão.
Sem imagem de perfil

De marina a 19.02.2020 às 11:58

Isso mesmo. De vez em quando há um tema de moda e pronto , temos isto.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 19.02.2020 às 22:52

De vez em quando é assim: dias e dias com imensa algazarra. Até vir a algazarra seguinte e já ninguém se lembrar da algazarra anterior.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.02.2020 às 12:00

Infelizmente a Comunicação Social, dominada, na sua maioria, pelo benfiquismo, ignora ou deturpa as declarações de Pinto da Costa. Ele ontem disse de forma bem clara que não achava sequer que se tratou de um caso de racismo mas sim um caso de estupidez. Sublinhou até, que os adeptos do Vitória, não podem ser racistas, porque têm atletas seus no clube que são de cor e nunca os discriminaram. E, acrescentou que o clube não deve ser sancionado, mas sim os adeptos que insultaram estupidamente o Marega. Não se pode ser mais claro que isto. Contudo, não houve repercussão quase nenhuma na CS, vá lá saber-se porquê...
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.02.2020 às 15:33



WW
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.02.2020 às 15:34

A 100% de acordo Pedro Correia

WW
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 19.02.2020 às 22:54

Alguma vez havíamos estar de acordo.
Sem imagem de perfil

De João Brito Levandeira Silva a 19.02.2020 às 12:32

In vino, veritas.
In futebol, veritas.
Os mesmos, que chamam nomes aos negros adversários, adoram os negros da sua equipa.
Logo, não é uma questão de racismo.
É uma questão de rivalidade.
De resto, eu, que joguei futebol e que acompanhei um filho meu (que, por acaso, foi juvenil no FCP e da Seleção Nacional e júnior do Leixões) e acompanho agora dois dos meus 7 netos, não conheço ambiente onde haja mais amizade e solidariedade entre brancos e negros como no seio das equipas de futebol.
É um perfeito absurdo e uma tremenda injustiça misturar racismo e futebol.
O maior dirigente do futebol em Portugal, Pinto da Costa (sou benfiquista) foi claro e lapidar - "... não são racistas, são estúpidos...".

João de Brito


Imagem de perfil

De Isabel Paulos a 19.02.2020 às 12:48

Concordo.
Sem imagem de perfil

De Guarda Serôdio a 19.02.2020 às 13:17

Existem pessoas na sociedade portuguesa que não têm a mínima noção da realidade. Vivem numa bolha, convivem com um núcleo seletivo de pessoas pertencentes a um determinado quadro, residem em locais privilegiados e depois de verem filmes como a cor púrpura, tempo para matar, ou Detroit, tornam-se motivados e seduzidos para opinarem sobre uma realidade que não tem nada a ver com os filmes de Hollywood.
Chamar macaco a um luso africano, no contexto de um jogo de futebol, ou até numa discussão de café, será racismo? Não é. Que ridículo. Racismo vai muito para além disso, no máximo será injúria e daí a ser crime, só o é se o visado se sentir ofendido na sua honra.
Recordo-me nos meus tempos de tropa, quando confraternizei mais de perto pela primeira vez, com pessoas do norte, nomeadamente do Porto.
Fiquei chocado com o vocabulário, com o insulto fácil, com as asneiras presentes em quase todas as frases. Não percebia como se chamavam fdp uns aos outros com tremenda facilidade e ninguém se importava, nem levava a mal. Acabei por perceber que lá é assim, é normal, é cultural. Era pessoal com um à vontade, com uma genuinidade absoluta, aquilo saía sem má intenção.
Lá no meio havia um rapaz de Setúbal, africano, chamava-se Pereira.
O Pereira andava sempre com eles e eles, tratavam-no como tratavam toda a gente.
Quem é que apagou a luz? Se vais para os comandos vais parecer um fósforo queimado, se fores para os rangers vais parecer um taxi (os taxis eram pretos e verdes antigamente).
Mas no fim, quando o Pereira não aguentava a marcor, ou a gam, lá vinha o pessoal do Norte carregar a sua mochila, a sua g3 e a ele também. Quando o Pereira fazia asneiras e era castigado com 50 flexões, o pessoal do Norte fazia com ele, sem ser obrigado. E agora? Eram racistas? Perguntem ao Pereira.
Sou polícia hoje e gostava de deixar aqui uma confissão sobre o que é que todo este espectro racista está a criar, diretamente a mim, no exercício das minhas funções.
Antes de tudo isto, quando numa operação stop se mandava parar um lusoafricano, era normal, passava-se a multa e era normal.
Hoje está mais difícil. Hoje dou por mim a mandar parar um lusoafricano e em cada vez mais ocasiões me dizem que só o mandei parar porque era preto. E não é fácil convencer que foi mandado parar porque cometeu uma infração. Depois é multado e volta a mesma história e todo o episódio está revestido de agressividade, o tom agressivo, magoado, revoltado em cada palavra, assusta-me cada vez mais.
Não sou racista, sou polícia e apenas tento fazer o meu trabalho, trato todos por igual, mas nota-se cada vez mais esta agressividade. Será que ninguém repara naquilo que está a acontecer? Claro que não, porque nos seus condomínios na expo, no conforto dos estúdios de televisão e na segurança do parlamento, não presenciam o que está a acontecer.
Sem imagem de perfil

De João Brito Levandeira Silva a 19.02.2020 às 13:59

Bom, impressivo, verdadeiro testemunho de vida!
É a vida contra o preconceito.

João de Brito (sou do norte)
Imagem de perfil

De Isabel Paulos a 19.02.2020 às 14:06

É um gosto lê-lo, uma vez mais, Guarda Serôdio.
Sem imagem de perfil

De Guarda Serôdio a 19.02.2020 às 18:09

Tenho duas filhas e luto desde o primeiro minuto do seu nascimento para as ensinar o humanismo, o respeito, a igualdade.
Mas hoje dou por mim a ter medo.
Medo de um dia ser chamado a intervir numa situação que envolva pessoas não brancas e isto nunca me aconteceu.
No contexto que hoje vivemos, sinto-me constrangido, mas não posso, tenho de ser aquilo que sempre fui, honrar o meu juramento como sempre honrei.
Mas imagino ser confrontado com uma situação envolvendo não brancos, onde se registe um crime, onde será necessário proceder a uma identificação, ou a uma detenção.
E imagino que a pessoa a deter ou a identificar, é um não branco.
Imagino depois que essa pessoa resiste. Não aceita a ordem legítima e legal... faço o quê?
Ora, faço aquilo que sempre fiz e que a lei me obriga a fazer, uso a força.
E como sempre fiz, uso a força adequada e proporcional, de forma a cumprir com aquilo que me é obrigado.
O problema é que as coisas não são perfeitas, o polícia não diz a uma pessoa: está detido, vamos para a esquadra. E ela lá vem, toda contente, ainda estende os braços para ser algemada e diz obrigado, senhor agente.
Não. A pessoa resiste e hoje resiste cada vez mais. A pessoa resiste e provoca, ameaça e coage, a pessoa usa tudo o que está ao seu alcance para ferir, para enervar, para escapar.
Mas eu tenho um dever a cumprir e vou cumprir. E uso a força e a pessoa resiste e eu uso mais força e a pessoa resiste mais.
E todo este episódio é filmado por um telemóvel.
Mais tarde chego a casa, cansado, dorido, a procurar a paz nos braços da minha mulher e nos beijos das minhas filhas e recebo um olhar de repúdio.
Questiono o porquê e deparo-me com aquele video, filmado com o telemóvel, que apenas registou uma parte de toda a situação, a passar repetidamente nos telejornais.
E enquanto passa, assisto a inúmeras figuras de reputada personalidade, do jornalismo à política, do teatro à música, a chamarem-me de racista.
E nessa altura percebo aquele olhar, um olhar de desilusão, de reprovação, de incredulidade.
Eu que sempre as ensinei os melhores valores, sou afinal um monstro que espanca pessoas de cor, apenas porque são de cor.
E poderia tentar explicar que, se fosse branco, faria exatamente da mesma maneira, mas a dúvida iria sempre persistir.
E durante dias, na escola, na vizinhança, no ballet, todos iriam comentar que o pai daquelas meninas é um racista que espanca pretinhos.
E ninguém ouviria a minha voz. Julgar-me-iam e sentenciar-me-iam na praça pública de imediato.
Ninguém iria tentar perceber porque é que aquilo aconteceu, nem se o procedimento policial adoptado era adequado.
Ninguém saberia que cada movimento, cada gesto, cada decisão do polícia se encontra estipulado num manual, que nenhum polícia inventa nada, tudo está escrito e documentado, que para cada situação existe um método de atuação.
Ninguém saberia, mas também não se importava, pois estas figuras mediáticas sabem tudo, percebem de tudo, são autênticos sobredotados. Sabem tudo política, de futebol, de direito e de táticas policiais. Ou então desvalorizam tanto a polícia, que acham que não existem táticas nenhumas, é cada um por sua cabeça e fé em deus.
E é isto que me assusta. Ver-me numa situação destas e ter aquele olhar à minha espera em casa.
E se o tiver, jamais o conseguirei esquecer.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.02.2020 às 18:16

Ó senhor guarda, com o devido respeito.
Tenho melhor experiência. Estive na guerra na Guiné e toda a minha Companhia era composta por soldados africanos, com excepção dos quadros. Que extraordinários homens, alguns muitos jovens, eram aqueles soldados e tinham um sentido de justiça muito apurado. Ficou-me na consciência uma admiração por todos eles que me fez olhar/lidar com um 'preto' sem reparar na cor da sua cara.
Julgo ter formação, para multar quem deve ser multado e saber julgar qualquer desculpa abonatória.
Mas, julgo que já pensou que multar um 'preto' ou um 'branco de Mercedes' é quase a mesma coisa: vão pensar que é pela cor ou pelo carro.
Penso que nunca lhe passou pela cabeça que o 'branco do Mercedes' pode ser advogado e ainda lhe arranja complicações ou o 'preto' pode afirmar que foi racista e ainda vai arranjar chatices. Julgo que não, por isso multe quem deve ser multado que está dentro da sua missão. Continuo a afirmar, por experiência, que os 'pretos' têm um grande sentido de justiça e ficam furiosos quando se apercebem de tratamento discriminatório.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.02.2020 às 13:41

Pedro Correia
Parabéns pela lucidez
Sem imagem de perfil

De Anonimus a 19.02.2020 às 14:23

Racistas? Somos todos, diria eu. A desconfiança (ou aversão) ao desconhecido é tão natural como o ser humano.
Quanto aos esteriótipos, o escuro "limitado" é censurável, mas não há problema em apelidar o americano de estúpido, ou o brasileiro de "gente boa". Ou o irlandês de bêbado e o inglês de fleumático.
Falamos muito do nosso passado colonialista (devemos até ser menos racistas que outros países DEVIDO a esse passado), mas experimentem ir à Escandinávia desenvolvida para verem o quão bem eles tratam os estrangeiros. Então de outras raças...
Quanto às bancadas, racismo lá está, não o vi, mas piadas ou insultos racistas, é o que havia mais. O branco que falhava um passe era coxo, vesgo, ou estúpido, já o afro, era simplesmente "preto".
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.02.2020 às 16:12

Tem razão.
Na Holanda, com um vasto passado colonial, nota-se não haver preconceitos raciais havendo grande variedade de casais preto-branco-asiático, pese embora ultimamente haver um certo afastamento e pouco inclusão geral em relação aos turcos/árabes.

Comentar post


Pág. 1/2



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D