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Vai chamar cobarde a outro

por Pedro Correia, em 23.06.17

Prossegue em velocidade acelerada a estratégia de contenção de danos políticos por parte do Governo. Com a ministra da Administração Interna, antes tão discreta, agora a desdobrar-se em declarações - aparentemente mais preocupada com a gestão da própria imagem do que com a clarificação dos diversos pontos ainda demasiado obscuros da tragédia de Pedrógão, o 11.º incêndio mais mortífero à escala mundial desde 1900.

"Era fácil demitir-me, rolava uma cabeça e o problema continuava. Teria sido cobarde fugir da adversidade", declarou a ministra em entrevista à RTP. Sem pensar que com esta frase estava a chamar cobarde ao seu companheiro de partido Jorge Coelho, que com inatacável hombridade, na noite da tragédia de Entre-os-Rios (em que morreram 59 pessoas, menos cinco do que agora em Pedrógão) anunciou ao País a sua demissão da pasta do Equipamento Social. "A culpa não pode morrer solteira", justificou na altura o governante. E muito bem.

Gesto cobarde? Nem por sombras, senhora ministra. Pelo contrário, foi um gesto adequado a quem faz questão de preservar a ética republicana, o bom nome das instituições políticas e a dignidade do Estado. Aliás o próprio Jorge Coelho, embora sem mencionar expressamente Constança de Sousa, aproveitou a sua intervenção de ontem à noite na Quadratura do Círculo para deixar a seguinte recomendação: "Aconselho os agentes políticos, todos aqueles que têm responsabilidades, a falar pouco. Não se preocupem muito em estar a dar entrevistas. Não é época para isso. É época para resolver os problemas."

Espero que a ministra tome a devida nota deste bom conselho.

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46 comentários

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De Alexandre Policarpo a 23.06.2017 às 15:02

Pedro, seria fácil considerar "um gesto de inatacável hombridade" a demissão de Jorge Coelho nessa fatídica noite do acidente de Entre-os-Rios, se Coelho não estivesse implicado no adiamento da construção da ponte em 1996.
Com efeito, é sabido que o governo do Cavaco deixou o projecto aprovado para o concurso da construção da nova ponte que seria lançado no 4º trimestre de 1995, prevendo que a construção começasse em 1996 e a nova ponte entrasse em funcionamento em 1998. O governo do Guterres mandou suspender tudo, e isso não poderia ser feito sem o conhecimento de Jorge Coelho, que era na prática o nº2 do governo.
Na minha modesta opinião, ele demitiu-se pela calada da noite, eram 3 horas da manhã, para não ter de responder a perguntas muito, muito incómodas. Quando os media quiseram falar com ele sobre o assunto, ele respondeu que já tinha assumido as suas "responsabilidades politicas" e por isso não tinha mais nada a dizer. A isto caro Pedro, chama-se sacudir a água do capote.
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De Anónimo a 23.06.2017 às 15:28

Muito bem.
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De Pedro Correia a 23.06.2017 às 15:37

Discordo. Se ele estivesse implicado em algo directamente relacionado com a ponte, o gesto não seria optativo: tornar-se-ia de imediato obrigatório. Eventualmente não apenas com responsabilidades políticas, mas também penais. Forçando inclusive a abertura de um inquérito pela Procuradoria-Geral da República, para o qual seria irrelevante o facto de JC permanecer ou não com assento no Conselho de Ministros. Ora essa investigação nunca aconteceu. O adiamento do lançamento de uma obra pública é uma decisão governativa que pode ser ditada pelas mais diversas razões - técnicas ou financeiras - e ocorre com todos os Executivos. Sem ser possível estabelecer qualquer nexo causal entre esse adiamento e a queda da velha ponte.
O gesto deve ser valorizado precisamente pelo motivo inverso: JC não tinha qualquer obrigação de o fazer, mas naquela noite trágica valeu pelo seu simbolismo e pela frase "a culpa não morre solteira" apelando desde logo à responsabilidade dos decisores políticos muito para além da circunstância concreta.
Na altura, recordo, recebeu aplauso unânime. E hoje é ainda mais de valorizar: a passagem do tempo confirmou que se tratou de uma atitude rara na vida política em geral - e na política portuguesa em particular.
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De Alexandre Policarpo a 23.06.2017 às 16:29

Pedro, you miss the point! além disso, a patética investigação acabou na acusação e julgamento de um modesto engenheiro da extinta JAE, que já estava reformado e tudo. As razões que levaram o governo do PS a ter adiado sem nenhuma justificação, a construção da ponte de Entre-os-Rios, nunca foram investigadas sabe-se lá porquê, até porque os factos que eu relatei no meu comentário, não os ouvi numa conversa de café, foi na SIC, que na época falou sobre o assunto e depois se calou. O Pedro há-de desculpar-me, mas ouvir que "a culpa não morre solteira" da boca do Jorge Coelho, serve apenas para a gente se rir.
Quanto ao resto, parece-me inatacável que se em 1995 o governo planeou construir uma nova ponte para substituir outra que já era centenária, foi porque ela era necessária, como também me parece inatacável que se a nova ponte entrasse ao serviço em 1998, não teriam morrido 50 e tal pessoas no ano 2000 na queda da ponte velha, que então já deveria estar desactivada.
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De Pedro Correia a 23.06.2017 às 16:41

O seu argumentário tem demasiado "ses".
E parece-me simétrico àqueles que agora apontam o dedo acusador a Cavaco Silva, atribuindo-lhe a culpa pela tragédia de Pedrógão, sem repararem no absurdo dessa acusação.
Eu gostava que estes temas - sobretudo quando estão em causa dezenas de vidas humanas entretanto perdidas - pudessem ser debatidos sem clubite partidária.
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De Anónimo a 23.06.2017 às 16:30

"Na altura, recordo, recebeu aplauso unânime." É verdade, hoje muita gente detesta a política e os políticos e, por isso, ficam muito satisfeitos se podem tramar um político ou se, simplesmente, vêem um em dificuldades. Gozam. Não acho isso saudável. Não lhe quero chamar populismo porque esta palavra, de tanto usada, já não significa quase nada.
Até o António Vitorino quando arranjou (suponho, não tenho a certeza, que combinado com jornalistas) um pretexto ridículo para sair de Ministro da Defesa e ir para negócios que não podia perder, foi muito aplaudido.
Não gosto de ver deserções de postos de responsabilidade. E não esqueçam, para os que não têm carreira política (caso de Constança) é facílimo sair e dizer: arranjem-se que eu vou governar a minha vida. Ou vou para férias.
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De Pedro Correia a 23.06.2017 às 16:34

Aplaude portanto a lógica salazarista, a da ausência total da ética da responsabilidade.
Quanto ocorreram as dramáticas cheias de Novembro de 1967 na região de Lisboa, com cerca de 700 vítimas mortais, nem uma demissãozinha despontou no horizonte.
Deus mandou chover - e a natureza, inclemente, cumpriu a vocação para que estava predestinada.
'No pasa nada' - foi a palavra de ordem.
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De Anónimo a 23.06.2017 às 22:19

Pergunta por mera curiosidade: quando, há uns anos, um vulcão na Islândia com nome impronunciável, interrompeu a circulação de aviões na Europa, alguém se demitiu no governo islandês? Se calhar nem há Ministro dos Vulcões, ou haverá? E os países que ficaram com aeroportos onde nenhum avião podia aterrar ou com linhas aéreas que não podiam voar? Houve demissões? A Theresa May vai demitir-se por causa do incêndio? Onde o descuido foi muito maior que em Portugal? Quando houve um incêndio na Madeira e, uns anos antes, inundações, o Alberto João Jardim demitiu-se? Ou alguém pediu a demissão dele?
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De Pedro Correia a 23.06.2017 às 22:49

Essa comparação que faz com o vulcão na Islândia, em 2010, não faz qualquer sentido. Desde logo porque não houve uma só vítima mortal.
Como é possível ignorar que nesta tragédia de Pedrógão morreram 64 pessoas?

Faço minhas as palavras insuspeitas do ex-ministro socialista Vera Jardim, à Rádio Renascença: «"Quando os serviços falham, quem responde é o responsável máximo.» E o responsável máximo, em cada área sob tutela governativa, é o ministro.
http://rr.sapo.pt/artigo/86813/pedrogao_grande_ha_responsabilidade_politica_a_tirar

Quanto ao Bloco de Esquerda, agora tão silencioso, tem um enorme historial de exigência de demissões de ministros em casos de muita menor relevância e incomparavelmente menos dramáticos.
Estes, por exemplo:
http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2014-09-18-Bloco-de-Esquerda-exige-a-demissao-da-ministra-da-Justica
(visando a ministra da Justiça, por falhas no sistema informático dos tribunais)
http://www.tvi24.iol.pt/politica/nuno-crato/bloco-de-esquerda-pede-a-demissao-do-ministro-da-educacao
(visando o ministro da Educação, por ter submetido professores contratados a um concurso "inútil")
http://www.sabado.pt/ultima-hora/detalhe/Bloco-pede-demissao-de-ministro
(visando o ministro da Economia, por "inadaptação ao cargo")
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De Einsturzende neubauten a 23.06.2017 às 23:37

Sendo eu do Bloco incomoda-me o seu silêncio.
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De Pedro Correia a 23.06.2017 às 23:38

O Bloco, alegado paladino da superioridade moral, tem afinal indignações muito selectivas.
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De Nebauten a 24.06.2017 às 00:37

Como todos nós.
Se o Bloco é paladino de alguma coisa é -o da juventude. E como tudo o que é jovem é idealista e põe no discurso e na agenda idéias. Ao contrário dos partidos velhos do sistema que em nada mais acreditam, inclusive na capacidade que as ideias e a política têm para mudar o que não está bem.
Deprimente
é ver esses Veros que fazem do berro ôco uma ideia. Beto Jardim há bem pouco tempo erguia o báculo em nome de José Sócrates. Penso que Vero Jardim, depois do governo, saltou para a banca

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