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Vacinação: a única escolha civilizada

por João André, em 19.04.17

Li hoje, atrasado como costumo estar no que respeita a notícias vindas de Portugal, que uma jovem de 17 anos morreu devido a sarampo, contra o qual não estava vacinada. De permeio leio também que contraiu a doença devido ao contacto com uma bebé de 13 meses igualmente não vacinada. Aqui é importante realçar que nem a bebé nem a jovem foram vacinadas por motivos não pessoais: a jovem tinha tido uma reacção alérgica quando vacinada em criança e a família escolheu não mais avacinar. A bebé não foi vacinada por «motivos clínicos», de acordo com o hospital onde ainda está internada.

 

É importante fazer esta distinção. A reacção alérgica às vacinas é rara mas existe. Poderia provavelmente ter sido controlada e não significaria que a jovem não podia ser vacinada. Antes que a sua vacinação (provavelmente parcial) deveria ter sido acompanhada por um médico. Não sei se poderia ter sido protegida contra o sarampo, mas talvez pudesse ter tido outras protecções imunitárias. Não sabemos. No caso da bebé, os motivos clínicos são provavelmente devido a um sistema imunitário mais frágil e que não suporta mesmo as vacinas com os seus agentes em forma mais atenuada. A morte (e a doença da bebé) é um azar na sua mais pura forma mas não deixa de ser uma tragédia.

 

É no entanto uma tragédia que coloca o país a falar dos movimentos anti-vacinação. Estes movimentos argumentam muita coisa, mas baseiam-se essencialmente numa coisa: ignorância. Há o velho argumento (completamente falso) da ligação entre vacinas e autismo. Há o argumento do uso de químicos nas vacinas (até eu tenho reservas em relação ao uso de monóxido de dihidrogénio) que demonstram pura ignorância (e estupidez na forma como rejeitam argumentos) sobre aquilo que é química (tudo o que vemos é "químico"). E quando os argumentos são, todos eles e sem excepção, desmontados, os antivaxx simplesmente escolhem outro tema, usam argumentos ignorantes ou falsos e voltam a gritar.

 

Infelizmente isto está a causar um aumentos dos surtos de doenças que há muito tinham quase desaparecido. Sarampo, tosse convulsa e outras começam cada vez mais a reaparecer, quando estavam já a caminho de erradicação (pelo menos em determinadas áreas). Se há área da medicina onde o sucesso é completa e absolutamente indiscutível é o das vacinas. Sabemos porque razão as vacinas funcionam e sabemos porque razão a vacinação de uma população é eficaz. Os vacinados ficam protegidos (a quase 100%, dependendo da doença) e protegem-se uns aos outros e aos (idealmente muito poucos e por razões clínicas) que não são vacinados.

 

Não vacinar por opção não é só estupidez: é um acto potencialmente perigoso e mortal, não só para a criança não vacinada mas também para os outros. Ao não se vacinar uma população, as pessoas não vacinadas deixam de receber a protecção da vacina nem a imunidade colectiva, mas permitem aos agentes patogénicos trocar informação e adaptar-se à existência de vacinas. Ou seja, a não vacinação aumenta o risco de forma directa a quem não é vacinado, de forma indirecta a quem não pode ser vacinado e de forma mais subtil a toda a população, inclusive a vacinada.

 

É por isso que, ao contrário do Ministro da Educação, eu sou da opinião que as escolas deveriam exigir a vacinação aos seus estudantes. Um rastreio deveria obviamente ser feito para saber se a vacinação é possível, mas nos cerca de 99% dos casos em que o é, as crianças ainda não vacinadas deveriam sê-lo sob pena de não poder frequentar a escola.

 

Haverá muita gente que considerará isso um ataque à liberdade individual. Infelizmente tais pessoas demonstram igualmente ignorância. A vacinação, como expliquei acima, não é um escolha pessoal, que afecta apenas a pessoa não vacinada. É uma questão de saúde pública. Mais, a escolha não afecta directamente a pessoa que a faz, mas habitualmente os seus filhos. Da mesma forma que pais de uma criança que viage sem cinto no assento da frente de um carro podem ser responsabilizados criminalmente no caso de morte por acidente, os pais deveriam ser igualmente responsabilizados no caso dos filhos contraírem doenças contra as quais poderiam ser vacinados.

 

Poucas invenções fizeram tanto para melhorar o mundo. O lado da vacina é o da civilização inteligente e solidária. O lado anti-vacinação, seja pelas razões que for, é o da barbárie. É nosso dever lutarmos pela primeira. Por nós, pelos nossos filhos e por toda a gente que vemos.

 

Adenda importante:

Leitura complementar, obrigatória e muito melhor e mais informada: Moda anti-vacinas é chorar de barriga cheia, de David Marçal. A sério, leiam, fazem a vós mesmos um favor.


31 comentários

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De João André a 20.04.2017 às 13:00

Caro Vento, tanto disparate junto...

Boa alimentação é importante, mas apenas parte do bolo. Claro que para quem não tenha acesso a meios de saúde é melhor ter uma boa alimentação do que o contrário. No entanto fazer a equivalência entre vacinas e bons hábitos é um disparate.

Também eu tive sarampo, papeira (estas duas ao mesmo tempo, veja lá) e varicela. Tudo antes da idade de ser vacinado. Isso não significa que eu prefira que os meus filhos tenham essas doenças a ser vacinados. A imunização contraíndo a doença é de facto mais eficaz, mas mais perigosa. Além disso abre espaço a outras pessoas, cujos sistemas imunitários sejam menos fortes (os de bebés são altamente agressivos) possam contrair a doença com riscos muito mais elevados.

Note: no passado havia centenas de milhares de mortes por ano só por sarampo. Hoje em dia, das doenças para as quais há vacinas com boa eficácia, todas juntas não chegaremos nem a uma fracção desse valor. Que tal para "imunidade natural"?
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De Vento a 20.04.2017 às 13:38

Disparate é o seu.
Porque não diz o João a percentagem de mortes que havia no passado relativamente à densidade populacional.
A imunização natural não é um risco. Acontece que existem pessoas, crianças e adultos, cujo sistema não reage perante essas ameaças; e também os que reagem bem mal quando vacinados.
Está em condições para dizer-nos como se pode fazer uma selecção de quem tem capacidade para se deixar imunizar de forma natural e os que não possuem condições e devem ser submetidos a vacinação?

Se sim, por que razão apresenta uma proposta de vacinação sem nexo para todos?

Mais, a vacinação não é garantia que não possa contrair o vírus e desenvolver a enfermidade.
O que defendo são argumentos racionais que contrariam a histeria fundamentalista, em nome da civilização ou dos "civilizados", que disparam em todas as direcções.
Você que anda em química certamente que conhece a razão da existência de patentes. Se não conhece, eu explico-lhe:
Ninguém pode patentear - e/ou está interessado em fazê-lo - um produto farmacêutico que exista na natureza. E se reparou, quando se patenteia um medicamento e ele sai para o mercado surge com uma bula com uma bateria de contra-indicações e efeitos colaterais.
E existem essas contra-indicações porque o produto patenteado possui uma molécula artificial, isto é, que não existe na natureza e não é reconhecida pelo organismo. São essas moléculas a causa dos efeitos colaterais. E os efeitos colaterais existem pelo facto do organismo não reconhecer a existência dessas moléculas. E quando começa a reconhecê-las pode não ter capacidade para desenvolver as defesas naturais, assumindo essas como suas. Até que se esgota.

Antes de disparar tem de avaliar todas as circunstâncias. Vai um havano ou uma cigarrilha?
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De João André a 20.04.2017 às 14:19

Lamento mas continua a disparar disparates, caro Vento. Ao fim de tanto comentário interessante teria que haver algum disparatado. Eu tenho um taxa de sucesso inferior.

Aqui, no entanto, está completamente errado em múltiplos casos.

1. Percentagem de mortes em relação à densidade populacional? No passado morriam muito mais pessoas com uma população muito menor. 1-0 (deveria ser uns 30-0) para as vacinas.
2. A imunização natural é um risco indiscutível. O risco de morte devido a vacinas é tão baixo que é completamente irrisível. O risco de morte devido a imunização natural (ie, contraindo a doença) é demonstrado pelo número de mortes nos últimos anos.
3. A má reação a vacinas é baixíssima e controlável. E normalmente não se manifesta em sintomas piores que uma gripe. A má reacção à doença é bem pior. E a do sarampo é das mais simpáticas.
4. Capacidade para se imunizar de forma natural? Não faço selecção. Todos são à partida imunizáveis por vacinas onde estas existem. Não faço escolhas que não têm qualquer sentido.
5. Não, a vacinação não garante que não se possa contrair o virús (ou bacilo ou outro agente patogénico). Tem no entanto uma eficácia muitíssimo alta e associada à imunidade de grupo dá garantias elevadíssimas que a doença nunca será contraída.
6. As moléculas naturais não são patenteáveis. Só que há poucas que encontrem o seu caminho para medicamentos. Isso não é por causa das patentes, ao contrário do que se pensa, mas porque dos triliões de triliões de moléculas que existem na Natureza, é impossível estar a encontrar quais são úteis e para quê. A descoberta de moléculas como a penicilina é um acaso. A escolha vai habitualmente para moléculas sintéticas cuja acção pode ser prevista mais facilmente.
Ainda assim, quando as moléculas naturais são usadas, há sempre muitas patentes que podem ser usadas, mas relacionam-se com o processo de purificação da mesma. Estas patentes protegem a empresa que produz o medicamento e são frequentemente mais importantes que a molécula em si.
Por último, o facto de uma molécula existir na Natureza não quer dizer que seja reconhecida pelo organismo. O corpo humano não produz penicilina. Se a dose for muito elevada poderá causar problemas de saúde muito graves ao causar disrupções no bioma humano. Se o corpo humano conhecesse a molécula talvez a pudesse produzir. Assim sendo, não pode. Neste aspecto a penicilina é tão "natural" para o corpo humano como o timerosal.
7. As vacinas são os próprios agentes patogénicos, atenuados ou mortos. O objectivo é que sejam reconhecidos.

Não fumo. Nada. Nunca fumei na minha vida. Não por qualquer razão de saúde (embora o hábito me incomode), mas porque nunca tive o mais pequeno resquício de vontade.
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De Vento a 20.04.2017 às 15:51

Mau caro João,

A primeira parte de sua explicação não é científica, é a olho.

Mas deixe-me agora centrar na questão das patentes, que são legítimas, e nas moléculas prescritas por médicos.
Como sabe, o médico não pode prescrever ao contrário do que lhe foi ensinado. É um imperativo da ordem. Significa isto que o médico só pode prescrever aquilo que aprendeu na sua formação. E o que aprendeu com a sua formação foi através da indústria farmacêutica. Não significa isto que o médico não possa ter opinião contrária. Ele pode, mas não pode agir contrariando a norma.
Por um outro lado, um nutrólogo pode efectivamente tornear a questão do receituário tradicional. E este certamente lhe indicará as múltiplas formas para reforçar "seu" organismo.
Eu posso usar antibióticos naturais; por exemplo, posso usar a propólis com resultados garantidos. Mas também outros produtos. Uma amiga, no Brasil, conseguiu que a propólis, diluída em água, eliminasse o problema de sua sinusite e rinite. Já lá vão 15 anos e nenhuma recidiva.
Sim, a penicilina G é um antibiótico natural. E os outros tipos de penicilina, com ela, possuem elementos em comum: o anel beta lactâmico que leva, entre outros, um grupo amino livre.
Sim, tudo quanto é em excesso pode causar lesões. É necessário conhecer a dose e a situação.

As vacinas não são só os agentes patogénicos, são também compostos que os envolvem e que não são naturais. São estes compostos que determinam as reacções.
Todavia, se diz que a vacina é um agente patogénico, somente, admite que a imunização natural, contraindo o vírus, possua o mesmo efeito.

Com certeza, há quem não possa comer laranjas. Mas isto é uma incompatibilidade com um de seus compostos. Todavia existem outros frutos que proporcionam os mesmos efeitos para o organismo sem causar incompatibilidade.

“Dietas, injecções, e injunções se combinarão, desde a mais tenra idade, para produzir o tipo de carácter e o tipo de crença que as autoridades consideram desejáveis, e qualquer crítica séria a esses poderes tornar-se-á psicologicamente impossível. Mesmo se todos forem miseráveis, todos se acreditarão felizes porque os governos assim lhes dizem que são”. Bertrand Russel, O Impacto da Ciência Sobre a Sociedade, pg 50, 1953) 2

Uma crónica para si:
http://drpaulomaciel.com.br/mortes-e-efeitos-colaterais-da-vacina-h1n1/

Nota: Estava quase tentado a dizer, sobre o fumo: que pena, João! Mas não, não digo. Respeito as suas opções.
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De Vento a 20.04.2017 às 23:28

Atenção, João, que este exemplo " Uma amiga, no Brasil, conseguiu que a propólis, diluída em água, eliminasse o problema de sua sinusite e rinite. Já lá vão 15 anos e nenhuma recidiva." é meramente indicativo e não possui outro significado para além da informação dada. Todos os casos devem ser acompanhados por especialistas competentes. A forma de diluição (%) e a toma, neste caso creio que gotas nasais, não estão reproduzidas no comentário.

São comentários genéricos que visam somente perceber ou fazer perceber que, quer haja os pró-vacinas ou os contra-vacinas, existem argumentos de ambas as partes que devem ser escutados e percebidos sem que haja o estigma de uns serem civilizados e outros não.
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De João André a 04.05.2017 às 12:46

Caro Vento,

aquilo que não parece perceber é que os argumentos anti-vacinação foram ouvidos e testados e foram completamente provados como inválidos (e/ou falsos).

Aquilo que faz sentido no jornalismo ou na filosofia ou em retórica ou..., não faz necessariamente sentido em Ciência. Dois argumentos só são igualmente válidos enquanto hipóteses. Depois de um deles ser provado inválido, deixa de ter qualquer valor num debate científico.

Quem não o percebe não está a ser verdadeiramente civilizado. Quem o faz colocando em risco a vida dos seus próprios filhos é bárbaro. Quem, além disto, o faz colocando os outros em risco, é também criminoso. Admira-se que os considere não civilizados nesta discussão?
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De João André a 04.05.2017 às 12:43

Lamento o atraso na resposta, não tive tempo na altura e só sai agora.

Propolis: há de facto estudos que corroboram efeitos positivos em alguns tratamentos. Não se sabe no entanto porquê. Não há evidência (tanto quanto percebi na minha - admito - curta busca) para dizer que é um antibiótico.

Dados sobre vacinação? Olhe, tome este: http://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/209448 (o pdf é livre).

Pode citar Russel à vontade. Não lhe li o livro. Não preciso de o aceitar.
Quanto ao link, reportar casos raros de reacções (que estavam já previstos e comunicados pela própria GSK) não explica nada. É puro "cherrypicking".

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