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Delito de Opinião

Jardins

Ana CB, 19.03.24

Hoje apetece-me a Primavera.

Não aquela do calendário, que por sinal me diz que ela está quase a chegar. Esta Primavera moderna – que antes começava sempre a 21 de Março (ou assim me parecia…) mas agora tem data flutuante, como flutuante parece ser tudo hoje em dia – tanto pode assemelhar-se à sua própria definição como vestir-se de Verão tropical, ou de Inverno polar. É agora, em tempos de alterações climáticas, uma estação de humores variáveis em demasia, por vezes quase inexistente, e que ainda por cima trará um avanço de hora que me desacerta o relógio interno.

O que me apetece da Primavera é o seu espírito. A mudança subtil, a renovação, o crescimento, a alegria do renascimento cíclico neste continuum a que chamamos vida – a minha, a nossa, a da natureza. A certeza de que nada é imutável, e a esperança de novas possibilidades, de outras perspectivas que abrem caminhos diferentes.

01 Primavera - Jardim de Akureyri.JPG

 

Haverá melhor lugar para sentir a Primavera do que um jardim?

Um jardim é a natureza à mão de semear. É o útil aliado ao belo: uma biblioteca viva, a preservação das espécies de mãos dadas com a estética, o apelo aos nossos sentidos. Lugar de descontracção, de sossego, ou de brincadeira e alegria, de meditação, de conversas, confissões e segredos.

E por falar em segredos, quem nunca namorou num jardim? Alguns têm recantos que parecem feitos para abrigar amores fora da vista dos outros. Ou, pelo menos, para uma conversa sem sobressaltos nem interrupções, seja para trocar confidências, transmutar sentimentos em palavras, ou deixar a emoção correr em forma de lágrimas.

02 - Jardim do Castelo de Sudeley.JPG

Nos dez jardins que rodeiam o Castelo de Sudeley, em Inglaterra, tranquilidade é algo que não falta, nem faltam recantos ideais para uma conversa fluida. Mas o mais intimista (e mais romântico) é sem dúvida o Jardim Secreto, um rectângulo de relva protegido por arbustos altos e coloridos, com um único banco estrategicamente colocado.

 

05 - Jardim do Palácio dos Ribera, Bornos.jpeg

Em Bornos, na Andaluzia, o jardim do Palácio dos Ribera também teve originalmente um jardim secreto, de que hoje só permanece uma piscina com nenúfares, resguardada por buxos. Neste jardim renascentista, que também tem um pomar, não há multidões e o sossego é dono do lugar.

 

 

No princípio era o jardim

A relação entre jardins e espiritualidade é ancestral. Por alguma razão chamaram Jardim do Éden ao paraíso original da tradição judaico-cristã: mais do que um simples espaço terreno para proporcionar sustento físico, é um símbolo da beleza e da comunhão entre o divino e o humano, onde a presença de Deus se manifestava de forma tangível. O Jannah, conceito muçulmano de céu ou paraíso, para onde os muçulmanos bons e fiéis vão depois do Dia do Juízo Final, é descrito como um jardim belo e tranquilo, onde corre água e são servidos alimentos e bebidas abundantes aos mortos e às suas famílias. Várias outras tradições religiosas, como é o caso do budismo zen, também valorizam os jardins como lugares de comunhão com a natureza, transcendência e paz interior, ideais para a meditação, a contemplação e a oração. Concebidos para reflectir a beleza e a simplicidade do que é natural, com arranjos minimalistas e simbólicos, a harmonia dos jardins que habitualmente apelidamos de “japoneses” tornou-os extremamente populares, e hoje em dia estão espalhados por todo o mundo. Sou uma admiradora confessa destes jardins e nunca perco a ocasião de os visitar, mas o meu preferido – talvez porque concentra todas as virtudes de um jardim zen num espaço mais reduzido – continua a ser o primeiro que visitei, e onde já estive mais vezes: o Kyoto Garden, em Londres.

10 - Kyoto Garden, Londres.JPG

Kyoto Garden, Londres

 

20 - Jardim Japonês, Buenos Aires.JPG

Jardim Japonês, Buenos Aires

 

15 - Jardim Pierre-Baudis, Toulouse.jpeg

 Jardim Pierre-Baudis, Toulouse

 

O próprio acto da jardinagem pode ser visto como uma prática espiritual de ligação à terra, uma forma de colaborar com a natureza, cultivar o solo e participar no ciclo de vida. Actividade por vezes associada à subsistência, como acontecia (e ainda acontece) nos mosteiros, não são poucas as pessoas que dizem encontrar paz e significado na criação e manutenção de jardins, seus ou de outros, ou a cuidar de hortas.

 

Jardins para dar cor à vida

Independentemente da beleza que têm noutras épocas do ano, é na Primavera que a maior parte dos jardins estão no seu auge. A culpa é das flores e da explosão de cor com que os pintam. Depois dos meses cinzentos e frios, em que muito do que há na natureza fica em estado de hibernação, o renascimento de um jardim é um hino à alegria que reflecte o nosso próprio desejo de nos libertarmos do peso do Inverno. Queremos luz e festa, entusiasmo, energia. E é por isso que a função ornamental de um jardim é uma das suas facetas mais importantes.

25 - Lystigarður, Akureyri.JPG

Em muitos países onde os rigores invernais são mais fortes, este amor pelos jardins é bem visível. Em Akureyri, a maior cidade do norte da Islândia, situada uns meros 50 km a sul do Círculo Polar Árctico, o encantador Jardim Botânico (Lystigarður) congrega mais de 7 mil espécies diferentes de plantas, das quais apenas 430 são nativas do país. Caminhos ondulantes, imaculadamente limpos, rodeiam canteiros com flores coloridíssimas, arbustos e árvores, zonas arrelvadas, pequenos lagos, e bancos para descanso dos visitantes.

 

30 - Rococo Gardens, Painswick, Inglaterra.jpg

Na região inglesa das Cotswolds, perto de Painswick, os Rococo Gardens são outro exemplo de jardim ornamental exuberante. Concebidos no séc. XVIII, espelham a alegria de viver da classe média-alta dessa época, quando a extravagância e a frivolidade reinavam. Têm uma atmosfera teatral, com elementos arquitectónicos que pouco mais são do que decorativos, secundados por uma profusão de flores de cores pastel. Um jardim repleto de pormenores deliciosos e surpreendentes.

 

35 - Kew Gardens, Londres.JPG

Os Jardins Botânicos Reais de Kew, situados na periferia de Londres, têm um valor tão grande como paisagem histórica que estão desde 2003 classificados como Património Mundial pela Unesco. Criados em 1759 pela Princesa Augusta, ilustram de forma ímpar os períodos característicos do paisagismo nos séculos XVIII a XX, com ambientes que reflectem as tendências artísticas da época, oriundas tanto da Europa como de regiões mais distantes.

 

No reino da originalidade

Certos jardins são como que uma bolha isolada da realidade que os rodeia. Passamos o seu limiar e somos transportados para outros lugares, outras eras, outros mundos. Recriam ambientes exóticos, utopias transformadas em realidade, ou nascem da excentricidade de quem os concebe, às vezes até por acaso. São oásis de fuga à rotina, portais para um universo onde as regras do comum não parecem aplicar-se.

40 - Jardins Monte Palace, Funchal.jpg

O Jardim Tropical Monte Palace é um pedacinho de paraíso na ilha da Madeira. Estende-se por uma área de 70.000 m2 e é povoado por milhares de espécies diferentes de plantas exógenas, em pacífica coexistência com as muitas outras que são típicas da floresta Laurissilva da Madeira. Está estruturado em vários ambientes diferentes entre si, todos igualmente encantadores. Os espaços mais exuberantes são o lago central, dominado por um grande espelho de água habitado por estatuetas e animais e alimentado por uma cascata copiosa, e os jardins orientais, onde a água e a vegetação densa predominam, decorados com esculturas, bancos, lanternas orientais em pedra, pagodes em várias versões e lagoas com peixes Koi.

 

45 - Jardins Majorelle, Marraquexe.jpg

Os Jardins Majorelle, em Marraquexe, foram criados pelo pintor francês Jacques Majorelle nas décadas de 1920-30, e mais tarde restaurados e desenvolvidos pelo estilista Yves Saint Laurent. O design meticuloso destes jardins é uma fusão ecléctica de estilos que combina elementos art deco, do artesanato berbere e da arquitectura mourisca. A paleta de cores vibrantes dos elementos construídos contrasta com o verde hegemónico das plantas e brilha sob o sol marroquino. Com palmeiras imponentes, cactos, buganvílias e uma variedade de plantas suculentas em harmoniosa coexistência, definindo cenários visualmente inesperados, estes jardins são uma mistura única de influências artísticas, botânicas e culturais, um oásis exótico e tranquilo no coração da cidade.

 

50 - Jardins do Arnado, Ponte de Lima.jpg

Em Ponte de Lima, os jardins do Parque Temático do Arnado são um patchwork de quatro estilos diferentes de jardins. Há um jardim romano, com piso de mosaicos e uma colunata de tijolo e pérgulas que rodeiam um lago ajardinado. No jardim barroco, o tema são as rosas, declinadas em várias cores, com canteiros delimitados por buxo ao estilo dos parterres franceses. O jardim labirinto desenvolve-se em torno de uma folly de metal, colocada numa zona mais elevada e ornamentada com jasmins, onde também crescem belos exemplares de ácer japonês. E no jardim Renascença há ciprestes e canteiros de azáleas e rododendros, e água que escorre por uma parede de pedra em socalcos. Aos jardins temáticos soma-se um horto botânico com uma estufa feita de ferro forjado cor de chumbo, que num dos lados está adjacente a dois lagos com nenúfares.

 

55 - Pátio dos cactos, Hervás, Espanha.jpeg

Num recanto do bairro judeu de Hervás, em Espanha, há uma surpreendente preciosidade: o pátio dos cactos. São mais de 6000 cactos de todos os géneros, que crescem nos suportes mais estranhos e originais que podemos imaginar, e cobrem completamente as paredes e boa parte do piso do minúsculo pátio de uma casa particular. É com imenso carinho e cuidado que o dono da casa conserva este invulgar jardim em miniatura, abrindo as suas portas aos visitantes.

 

Demonstrações de grandeza

Foram concebidos como símbolos de magnificência, destinados a exibirem ao mundo a riqueza dos seus promotores – monarcas, líderes políticos, nobres, comerciantes endinheirados. São os chamados jardins monumentais, de que existem inúmeros exemplos sobejamente conhecidos – como os de Versalhes, Schönbrunn ou Villa d’Este, só para citar alguns; ou ainda, entre os portugueses, o Jardim Episcopal de Castelo Branco, os do Palácio de Queluz, ou os do Solar de Mateus, em Vila Real. Estilos habituais nestes jardins são o renascentista italiano e o francês, demonstrativos das habilidades técnicas e da imaginação dos seus criadores. Locais de entretenimento e de socialização onde se cruzavam as elites intelectuais e artísticas, os jardins monumentais contribuíram ao longo dos séculos para o florescimento da criatividade e do intercâmbio de ideias.

58 - Jardins de Boboli, Florença.JPG

Os famosos Jardins de Boboli, em Florença, são um modelo exemplar de jardim renascentista italiano. Começados no séc. XVI e ampliados nos séculos seguintes, estendem-se por um plano inclinado com vistas amplas sobre a cidade, que lhes serve também de cenário. Cobrindo uma área de aproximadamente 45 mil metros quadrados subdividida de forma regular em socalcos, os espaços verdes são definidos por caminhos regulares e ornamentados por escadarias grandiosas, terraços panorâmicos, estátuas, grandes fontes, e cavernas artificiais decoradas com pinturas.

 

72 - Jardins do Palácio de Hampton Court, Inglaterra.jpeg

Nos arredores de Londres, aninhados numa curva do Tamisa, os jardins do Palácio de Hampton Court ocupam mais de 240 mil metros quadrados e albergam o labirinto mais antigo do mundo, uma vinha que bateu um recorde e três colecções nacionais de plantas. Mandados construir por Henrique VIII em 1528, estes jardins relativamente modestos transformaram-se, desde essa altura, em luxuosos jardins de lazer com canteiros, estátuas e fontes. O seu extenso canal foi mandado abrir por Carlos II para preparar a chegada da sua noiva, Catarina de Bragança. No século XVII, durante o reinado de Guilherme III e Maria II, os jardins de Hampton Court tornaram-se famosos pela sua beleza e requintado desenho barroco. Data desta altura a criação do labirinto, do Jardim Privado, e do Jardim da Grande Fonte original. Os teixos deste jardim foram domados até adoptarem a sua peculiar forma de cogumelos, e mantêm-se de pé há mais de 300 anos.

 

79 - Jardins da Casa da Ínsua.JPG

Tal como a vemos hoje, a Casa da Ínsua, em Penalva do Castelo, foi construída no último quarto do séc. XVIII a mando de Luís de Albuquerque e Mello Pereira e Cáceres, um fidalgo cavaleiro da Casa Real que foi o quarto governador e capitão-general da capitania de Mato Grosso, no Brasil. Únicos, tanto como pela sua dimensão como pela originalidade e variedade de espécies botânicas, os jardins oitocentistas da Casa da Ínsua dividem-se em vários espaços, cada um deles concebido de acordo com estilo e finalidade diferentes. Há o francês, com os seus parterre geométricos e um lago com flores de lótus indianas, que florescem entre Junho e Julho e só vivem 48 horas. Há o inglês, mais selvagem, com muitos arbustos e árvores de grande porte – sequóias, cedros, paus-brasil. Há o dos aromas, com flores e um canteiro onde estão plantadas videiras das castas usadas para os vinhos Casa da Ínsua. Há um tanque com patos e um cisne, e há fontes, mesas e esculturas em pedra.

 

Sejam modestos ou sumptuosos, concebidos por grandes paisagistas ou meramente nascidos como hobby de um qualquer cidadão anónimo, apenas frequentados pelos habitantes de um bairro ou visitados por milhares de turistas anualmente, os jardins são uma ponte entre as pessoas e a natureza, e revelam muito sobre a cultura de cada sociedade ao longo dos tempos. Mas o seu maior feito é, sem dúvida, contribuírem – imenso! – para a nossa felicidade.

Aldeias com histórias: Babe

Ana CB, 21.02.24

Há milhares de aldeias em Portugal. Algumas são conhecidas por toda a gente, quanto mais não seja de nome ou em fotografia. Muitas são visitadas durante praticamente o ano inteiro, divulgadas pela comunicação social, filmadas para documentários ou em directos televisivos, e até recebem a visita de altos dignatários do nosso país – o que, como é óbvio, em nada as desmerece. E no entanto, para cada uma destas há centenas de outras de que nunca se ouve falar, entre elas muitas que têm património antiquíssimo para conhecer, tradições que perduram desde há séculos, histórias que merecem ser contadas. É mais uma destas aldeias que hoje vos convido a visitar.

Babe (7)

Babe é uma aldeia transmontana a uns escassos 14 km para leste de Bragança. Sede de uma freguesia com apenas 25 km2 e pouco mais de 200 habitantes (a que também pertence a aldeia de Laviados), chamam-lhe “varanda da cidade”: à cota de 800 metros acima do mar, é um acesso ao planalto da Lombada e oferece-nos vistas panorâmicas sobre Bragança e a serra de Montesinho.

Babe - vista geral (1)

Em dias normais, o ambiente é tranquilo, até mesmo modorrento. No largo principal apenas está estacionado um carro. No grande bebedouro de granito, de aspecto muito antigo – provavelmente bem mais antigo do que a data de 1894 que está gravada numa pedra, a julgar pelo brasão dito seiscentista cravado no muro de pedra – não se vêem animais a matar a sede, e o diminuto parque infantil que fica ali mesmo ao lado está deserto. Não creio que haja em Babe muitas crianças. Em passeio pela aldeia, apenas vimos algumas idosas sentadas à porta de casa, sem dúvida a aproveitarem o calor breve do sol do meio-dia, brilhante num céu sem nuvens – que será decerto coisa rara nos Invernos da região. Mais adiante, três homens afadigavam-se à volta de uma maquineta agrícola. Passou um tractor, uma ou outra carrinha, uma moto-quatro. Consta que o pessoal da aldeia é adepto deste meio de transporte, vá-se lá saber por que mistério…

Babe - largo - fonte de mergulho

Babe - largo - bebdouro

Mas não foi sempre assim. Na verdade, o povoamento de Babe vem de época tão remota que nem se consegue definir. O castro da Sapeira, a sudoeste da aldeia, atesta a ocupação pré-histórica do local, e sabe-se que por ali passava uma via romana que ligava Bracara (Braga) a Asturica (Astorga), de que hoje resta um marco miliário. A freguesia de “Sancti Petri de Babi” é referida num documento com data de 1258 incluído nas “Inquirições” ordenadas por D. Afonso III, e supõe-se que a igreja primitiva já existisse pelo menos desde o século X. Mas foi no século XIV que ali ocorreu o momento mais marcante da longa história da aldeia: a assinatura do Tratado de Babe.

Babe - Igreja de São Pedro (4)

João de Gaunt, filho do rei Eduardo III de Inglaterra e Duque de Lencastre, foi casado em segundas núpcias com Constança de Castela, filha do defunto rei D. Pedro I de Leão e Castela, assassinado pelo seu irmão Henrique de Trastámara em 1369. Apesar de ser um dos homens mais ricos e influentes do seu país, o poder que João de Gaunt detinha não lhe parecia suficiente e por isso um belo dia decidiu avançar como pretendente à coroa castelhana, chegando mesmo a afirmar-se Rei de Castela. Aproveitando as pretensões do Duque e no seguimento do Tratado de Windsor (o tratado de apoio mútuo assinado entre Portugal e a Inglaterra em 1386, que ratificava a Aliança Anglo-Portuguesa de 1373 e dura até hoje, sendo por isso a aliança diplomática mais antiga do mundo ainda em vigor), o recém-entronado D. João I de Portugal propôs-se ajudá-lo a causar divisões nas forças militares de Leão e Castela. O encontro entre estes dois aliados deu-se em Ponte de Mouro (localidade entre Monção e Melgaço) em Novembro de 1386, quando estabeleceram um acordo que incluía, entre outras condições, o casamento de D. João com Filipa, uma das filhas do Duque. A boda acabou por se realizar em Fevereiro de 1387 no Porto, mas as tropas portuguesas só se juntaram às inglesas em Março, quando um impaciente João de Gaunt já tinha decidido encaminhar-se para Castela. Foi em Babe que instalaram os acampamentos, e foi aqui que D. João I de Portugal e o sogro assinaram, a 26 de Março de 1387, o Tratado em que o Duque de Lencastre abdicava de quaisquer direitos que pudesse eventualmente vir a ter sobre a coroa portuguesa. Foi também nesta altura, como reza a placa colocada na Igreja de São Pedro de Babe, que D. Filipa se despediu dos seus pais para assumir em pleno o papel de uma das rainhas portuguesas mais influentes da nossa História.

Babe - Igreja de São Pedro (3)

Visivelmente, a Igreja de São Pedro continua a ser o monumento mais importante da aldeia. Os primeiros registos de actos religiosos que chegaram aos nossos dias datam de inícios do século XVII, pelo que se supõe que o edifício actual tenha sido construído por essa altura, em substituição da antiga igreja. Nota-se que foi alvo de obras relativamente recentes: os muros que a cercam são de pedra de xisto aparada e têm cantarias de granito, a escadaria está em bom estado, com os espaços laterais cuidadosamente arranjados com relva e oliveiras, e o portão de ferro que guarda a entrada para o recinto tem ar de novo. A fachada da igreja é feita com blocos de granito e tem alguns elementos barrocos, embora simples, mas o corpo do edifício propriamente dito está rebocado, pintado de branco e coberto por telha. Este tipo de igrejas, em que a fachada inclui os sinos e aparenta ser um elemento independente, apenas com a espessura da sua pedra e “colado” ao resto da igreja, não é muito comum no nosso país e só aparece com alguma frequência nestas terras do norte – lembro-me de que quando visitei Babe pela primeira vez, há já bastantes anos, foi precisamente esta originalidade que me fez retê-la na memória.

Babe - Igreja de São Pedro (1)Babe - Igreja de São Pedro (2)

Se o exterior é simples, o interior é tudo menos isso. Ali reina o barroco. Os altares estão primorosamente restaurados e o dourado domina sobre fundos brancos ou com padrões. O altar principal é encantador, com as suas cores e motivos harmoniosamente conjugados e um tecto de madeira onde estão pintadas figuras quase naif, as imagens dos santos principais bem integradas no conjunto. O resto do interior da igreja é mais discreto: paredes brancas, pias em pedra já desgastada pelo passar dos séculos, elementos estruturais em granito, chão e texto de madeira castanha envernizada, algumas outras imagens de santos esculpidas de forma menos rebuscada (e provavelmente mais antigas).

Babe - Igreja de São Pedro - interior (1)Babe - Igreja de São Pedro - interior (5)Babe - Igreja de São Pedro - interior (4)Babe - Igreja de São Pedro - interior (3)Babe - Igreja de São Pedro - interior (2)

Babe - Igreja de São Pedro - interior (8)

Babe - Igreja de São Pedro - interior (7)Babe - Igreja de São Pedro - interior (6)

A São Pedro de Babe esteve também associada uma importante Comenda da Ordem de Cristo – tão importante que foi dividida em duas, como o prova uma ordem real de D. Sebastião em documento do ano de 1561 (a outra Comenda daqui resultante foi para Nossa Senhora de Gimonde, aldeia que hoje é bem mais conhecida do que Babe). Um dos detentores mais conhecidos da Comenda de São Pedro de Babe foi António Cavide, monteiro do rei D. João IV. Mas o mais famoso de todos estes Comendadores foi certamente Domingos de Morais Madureira Pimentel, Fidalgo da Casa Real e Familiar do Santo Ofício, entre outros títulos, e proprietário em finais do século XVII da emblemática Casa do Arco em Bragança – foi, aliás, este fidalgo quem mandou construir o arco que caracteriza este edifício, ao fazer a ligação entre duas casas de que era proprietário.

Babe - Igreja de São Pedro - Torre sineira

Subi os vetustos e altos degraus que conduzem à torre sineira da igreja. Lá do alto avista-se quase toda a aldeia, uma amálgama de telhados em vários estados de conservação, reflexo das casas a que pertencem. Nota-se bem que a pedra foi substituída pelo reboco pintado de branco na maioria delas. Mas há também algumas com tijolo à vista, ou revestidas de cimento nu. As de pedra são poucas e dividem-se entre o xisto e o granito. No que toca à arquitectura, Babe é um pot-pourri de tendências: uma varanda com protecção de vidro aqui, umas portas modernaças em metal acolá, um beiral suportado por estacas de madeira numa casa meio arruinada mais à frente, janelas de madeira com tinta a descascar ao lado de outras com caixilharia de alumínio, escadas e alpendres, casas simples ou com vários volumes – entre a decrepitude e o kitsch de ideias nitidamente importadas de outros países, há de tudo um pouco por aqui.

Babe - vista geral (2)

Babe - vista geral (3)

Babe (4)

Babe (5)

Babe (3)

Babe (6)

Babe (2)

Babe (8)

Descendo a Rua da Igreja, cruzamo-nos com uma idosa vestida de negro da cabeça aos pés, lenço incluído, como hoje em dia já se vêem poucas. O cumprimento é obrigatório, e acabamos por ficar à conversa com ela durante um bocado. Fala-nos com orgulho da sua igreja e evoca o Doutor Belarmino, pároco da aldeia durante cerca de 20 anos, a quem tece os maiores elogios, para no final nos contar de lágrimas nos olhos que perdeu o filho num acidente. E ainda assim, notam-se nesta senhora uma força e um enorme prazer em conversar com duas estranhas que lhe passam à porta. Nestas terras ignoradas do nosso país, apesar de já serem na sua maioria facilmente acessíveis, qualquer pessoa de fora é uma novidade que quebra a rotina dos dias.

 

Nas minhas pesquisas posteriores vim a saber que o dito pároco, falecido em 2005 e que tantas saudades deixou em Babe, foi Belarmino Afonso, sacerdote e professor que dedicou a sua vida à cultura e às comunidades da região nordestina. Formado em História, entre outros cargos foi director do Arquivo Distrital de Bragança e provedor da Santa Casa da Misericórdia desta mesma cidade, desenvolveu trabalhos e escreveu obras nas áreas da antropologia e da etnografia, e foi por tudo isto condecorado em 2002 pelo Presidente da República com a Grã Ordem do Infante.

 

Foi precisamente pela mão do Doutor Belarmino Afonso que nasceu o Museu Etnográfico Rural de Babe. Num simples edifício branco, que acumula as funções de centro de dia, estão expostos vários artefactos usados em tempos idos pela população, recuperados por iniciativa daquele pároco e agora testemunhos de vivências passadas e costumes já quase desaparecidos: candeias e candeeiros a petróleo, engenhos agrícolas arcaicos, dobadouras, bem como utensílios usados pelos ferreiros da aldeia, que em tempos foram famosos. De facto, as facas produzidas por estes ferreiros de Babe eram reconhecidas em toda a região transmontana pela sua grande qualidade, tal como atestado pelo Abade de Baçal numa das suas obras.

Babe - Museu Etnográfico Rural

A religião tem, como é óbvio, um papel importante na vida dos habitantes de Babe. Além da igreja, existem na aldeia duas capelas: a de São Sebastião, que fica à entrada, e a de São José, que data de finais do século XVII e é mais singela, toda em pedra. Ambas estão restauradas. Há ainda uma Tulha das Almas, um edifício curioso não pelo seu aspecto, pois é um simples casinhoto de pedra, apenas identificado por uma mó e algo que parece ser parte de uma pequena roda de azenha, mas pela sua função: servir de armazém para as oferendas de cereal para “as almas”.

Babe - Capela de São José

Babe - Tulha das Almas

O pão é um dos alimentos mais importantes das gentes transmontanas, tal como em todas as outras regiões do nosso país, e por isso muitas das festas tradicionais que perduram até hoje, algumas oriundas de ritos pagãos, estão ligadas ao seu culto. Agregadas às celebrações religiosas da igreja católica, são sempre ocasiões importantes na vida das aldeias, e Babe não é excepção. É na época natalícia, entre a véspera da consoada e o dia de Reis, que aqui se celebra a Festa dos Rapazes, uma das mais importantes e animadas do ano, tanto que muitos emigrantes vêm nesta época à sua terra propositadamente para participarem. São protagonistas os rapazes maiores de 12 anos, cumprindo vários rituais que vão permitir-lhes o acesso ao mundo dos adultos. Há desfiles com gaiteiros e bombos, praxes que envolvem ovos e farinha, actuações de grupos musicais, e comida e bebida com fartura.

 

Para melhorar as condições destas celebrações comunitárias, em 2016 o espaço da antiga escola primária (já desactivada) foi reabilitado e convertido em centro de convívio e pavilhão multiusos, e é desde então um dos palcos principais das festividades que se realizam ao longo do ano. Ainda assim, há quem ache que as festas têm vindo a perder o encanto. Numa longa conversa com outra das habitantes da aldeia, muito mais jovem do que a anterior, ficámos a saber que muitas tradições já desapareceram, algumas delas bem interessantes. Havia a arrematação das roscas, com os pães preparados pelas mulheres e raparigas da aldeia a serem depois compostos em ramos com frutas e guloseimas para serem leiloados, os lucros da venda revertendo para a igreja. Outra festa comunitária tradicional era a lenha das almas de Todos os Santos, em que os jovens iam, com carros de bois ou tractores, “roubar” ou apanhar lenha, que depois era vendida no largo da aldeia. Ficavam assim algumas casas já aprovisionadas de lenha para uma parte do Inverno, e o dinheiro conseguido era destinado às missas rezadas ao longo do ano pelas almas dos defuntos. A festa continuava então, como não podia deixar de ser, com uma ceia partilhada por toda a gente.

 

Também a Páscoa é altura de celebração e festas em Babe, com muitos dos filhos da terra que estão emigrados a regressarem à aldeia para se reunirem aos seus familiares e amigos. Numa aldeia cada vez menos povoada, estas ocasiões são importantes para lhe insuflar mais ânimo e quebrar a rotina dos que a habitam em permanência. Babe é apenas mais um exemplo da vida de muitas das aldeias desconhecidas do Portugal profundo que ainda existe.

Babe (1)

(Adaptado de um post no blogue Viajar Porque Sim)

Um banco com vista: Cuenca

Ana CB, 24.01.24

Se existe um lugar na Espanha que desafia a gravidade e desperta a sensação de vertigem em cada esquina, esse lugar é Cuenca. Vista de cima, das redondezas do Castelo, a cidade parece uma montagem fotográfica. As casas são como que um prolongamento dos penhascos calcários, absolutamente verticais nas suas formas orgânicas que a erosão criou. São camadas de pedra e telha sobre camadas de rocha estratificada, suavizada até perder as suas arestas, e não se percebe onde acaba uma e começam as outras. Não se distingue a obra da Mãe Natureza da que foi feita por mão humana.

Banco com vista sobre Cuenca.jpeg

Lá em baixo corre o rio Huécar, tão fino que nem se vê, escondido pela altura, pela vegetação, ofuscado pela dimensão do antigo Convento de San Pablo, agora tornado Parador e centro cultural. Pairando acima da garganta sinuosa por onde desliza o rio e das estradas igualmente serpenteantes rasgadas na encosta, salta à vista o metal vermelho-escuro da ponte pedonal de San Pablo, que liga o casco antíguo à colina preenchida pela robustez das formas do convento.

 

Arquitectura em suspensão

 

Entre a mole de edifícios aglomerados sobre os penhascos destaca-se também a corpulência da Catedral, e só aqui de cima é que é possível perceber a sua verdadeira dimensão. Mais ao longe, a enganadoramente mudéjar Torre de Mangana e o seu relógio, e a cúpula azulada do Museo de las Ciencias de Castilla-La Mancha. Mais distantes ainda, adivinham-se os contornos dos edifícios da parte mais moderna da cidade, com a Serranía de Cuenca como cenário.

 

Sobre o abismo, como se tivessem sido coladas ao penhasco numa brincadeira de criança, as Casas Colgadas parecem flutuar no ar, contrariando as leis da física. Remontam aos séculos XIV e XV, período em que Cuenca teve um rápido desenvolvimento, e destacam-se pelos seus balcões suspensos, que se projectam para fora da borda do desfiladeiro rochoso sobre o qual a cidade está construída. Serviam originalmente como residências e armazéns para os comerciantes locais, com a sua posição proeminente a facilitar o acesso directo ao rio Huécar. Os balcões tornaram-se uma característica distintiva da arquitectura local, mas ao longo dos séculos algumas das casas foram modificadas e reconstruídas para satisfazer as necessidades dos proprietários. No início do século XX, as Casas Colgadas começaram a atrair a atenção de artistas e escritores, e tornaram-se um ícone da cidade. Por iniciativa do pintor Fernando Zóbel, em 1966 passaram a abrigar o Museo de Arte Abstrato Español, o que contribuiu significativamente para o reconhecimento e preservação destes singulares edifícios medievais. Por estranho que possa parecer alojar um museu dedicado às correntes mais modernas da arte nestes edifícios seculares, a parceria resulta: o intimismo singelo dos interiores, que mantêm alguns elementos arquitectónicos antigos, casa bem com a abstracção das obras expostas, e dá-lhes o relevo necessário, sem as abafar. E as janelas abertas sobre a vertigem da altura a que as Casas Colgadas estão suspensas são um bónus que não pode ser desprezado.

Cuenca 3-Casas Colgadas-Museu de Arte Abstracta.jpeg

 

Vertigem invertida

 

A vista a partir deste banco-miradouro esconde o outro lado da cidade, aquele onde corre o rio Júcar, de que o Huécar é um afluente. O Júcar define o flanco norte dos penhascos, a face mais sombria de Cuenca mas também a mais fresca, onde um parque e um percurso ordenado ao longo do rio são um refúgio abençoado nos dias quentes da região manchega. Ali a vertigem sente-se em sentido inverso, de baixo para cima, o olhar subindo pelas paredes de rocha e depois pelos edifícios que parecem perder-se nas alturas.

É à beira do Júcar que estão dois dos locais religiosos mais importantes da cidade. Junto à ponte de San Antón, mirando o rio, brilha a igreja barroca da Virgen de la Luz, “casa” da padroeira da cidade – uma virgem negra, cuja veneração remonta aos séculos XII-XIII por via de uma lenda associada à reconquista de Cuenca pelos cristãos. Seguindo o desfiladeiro para montante do rio, chegamos ao Santuário de Nuestra Señora de las Angustias, outra virgem muito popular entre os devotos conquenses. Não fossem as placas indicativas e o seu portal quase excessivamente barroco, esta ermida poderia passar despercebida, rodeada que está de arvoredo e quase encaixada no penhasco. Esta parte da cidade, onde a presença e a beleza do rio Júcar se impõem, tem uma atmosfera particularmente romântica.

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Marcos da História

 

Aninhada nas profundezas da região de Castilla-La Mancha, Cuenca foi fundada pelos mouros numa posição defensiva no coração do Califado de Córdova. Conquistada pelos castelhanos no século XII, a sua localização entre Madrid e Valência tornou-a um centro comercial estratégico durante a época medieval. O casco antíguo da cidade é um museu vivo, com as suas ruas labirínticas ladeadas por edifícios medievais e renascentistas bem preservados.

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A Catedral de Santa María e San Julián de Cuenca foi a primeira catedral gótica de Espanha, e um dos exemplos mais emblemáticos deste estilo arquitectónico no país. É um monumento invulgar, cuja fachada parece inacabada e tem a particularidade de exibir elementos gótico-normandos, com detalhes decorativos, incluindo esculturas religiosas e motivos ornamentais. Está situada na Plaza Mayor, de formato oblongo e dimensões modestas por comparação com as plazas homónimas de outras cidades espanholas, ocupada numa das extremidades pela Casa Consistorial, sede do Ayuntamiento de Cuenca e facilmente identificável por estar construída sobre os três arcos que dão acesso à Calle Alfonso VIII. Nesta rua esguia do bairro de San Martín, os edifícios altos e estreitos, colados uns aos outros e pintados de cores que não passam despercebidas, com as suas janelas-varandas adornadas de ferro forjado, fazem lembrar arranha-céus, e o olhar apenas distingue uma nesga de espaço acima deles.

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Cuenca é um daqueles lugares fora do comum, que deixam uma marca duradoura na memória pela sua singularidade. Mas é mais do que isso. Ao explorar a cidade, onde o orgânico e o construído se misturam sem atropelos, percebemos como é possível integrar e harmonizar a inventividade humana com o ambiente, em vez de irmos pelo caminho mais curto, subjugando-o aos nossos desejos. Cuenca é um exemplo inspirador de como a presença humana e a natureza não têm de puxar para lados opostos.

Aldeias com histórias: Fonte Arcada

Ana CB, 22.12.23

Talvez por ter nascido em Lisboa e vivido quase sempre nos seus arredores, durante boa parte da minha vida não senti grande apetência específica por visitar as nossas (ou quaisquer outras) aldeias. Os meus pais não eram lisboetas, mas nem eles nem os meus avós tinham casas na “terra”, pelo que até à idade adulta apenas fiz esporádicas visitas a uma ou outra morada de primos afastados que viviam em ambientes mais rurais, e que nada me diziam. Foi só quando passei a viajar com regularidade por Portugal que comecei a descobrir o encanto de algumas localidades mais pequenas. Ainda assim, são poucas as que me conquistam logo nos primeiros instantes. Fonte Arcada, de que vos vou falar agora, é uma delas.

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Ergue-se sobre a margem esquerda da Barragem de Vilar, que represa o rio Távora e é a maior barragem do distrito de Viseu. Esta localização privilegiada faz com que um dos maiores atributos de Fonte Arcada seja a fabulosa paisagem que dela se avista – ter um manto de água como cenário de fundo é sempre uma percentagem de beleza garantida. Mas este atributo é relativamente recente, pois a barragem só foi construída em 1965 e a história de Fonte Arcada vem de muitos séculos antes, ao que parece pelo menos desde a época da ocupação sueva ou visigótica. Com efeito, a fonte de mergulho que encontramos no lugar da Cova da Moura e dá nome à aldeia – por ter a forma de um arco ogival – data dos séculos XIII ou XIV, mas supõe-se que terá origens mais remotas, uma vez que nas suas proximidades passava uma via romana. Hoje, não fosse o letreiro e a protecção de vidro, não lhe atribuiríamos grande importância, pois os nossos olhos são atraídos para a fonte e o tanque mais recentes de onde corre a água, à distância de uns quantos degraus. A água é a mesma, mas o aparato é maior. Como é de bom-tom em qualquer aldeia vetusta e com pergaminhos, uma lenda associa esta fonte secular a uma jovem moura que ali se escondeu, chorosa, guardando um fabuloso tesouro. A ela se refere o Abade Vasco Moreira na sua obra “Terras da Beira – Cernancelhe e seu Alfoz” O imaginário português é fértil em lendas que envolvem mouras belas e infelizes …

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A aldeia é mencionada no século X no testamento de D. Flâmula Rodrigues, sobrinha da famosa Condessa Mumadona Dias (que fundou o Castelo de Guimarães), mas comprovadamente marcado na História é o foral que foi concedido a Fonte Arcada em 1193 por D. Sancha Vermuiz e a elevou a Vila e Concelho. Datará desta altura a construção da igreja, um edifício simples em granito que ainda mantém na sua porta principal o arco de volta perfeita característico do estilo românico, apesar das renovações de que foi alvo ao longo do tempo: no século XVI, quando lhe foram acrescentadas as capelas laterais, em finais do século XVII com a criação do retábulo-mor em talha dourada, e mais recentemente em 1978.

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Muito do casario de Fonte Arcada já é moderno e está pintado de branco, mas a pedra ainda reina. Apesar de ter visitado a aldeia num dia gélido de Inverno, o sol baixo da tarde já avançada quebrava a frieza do granito, que aqui já é amarelado por natureza, matizando-o de tons alaranjados. Espalhando-se por duas encostas suaves e um ligeiro vale entre elas, com ruas estreitas de traçado irregular, a aldeia torna-se aconchegante. Alguns pormenores das habitações denunciam as suas raízes medievais: varandas de madeira avançando sobre a rua, que contrastam com outras em pedra, e pisos inferiores das casas com grandes portadas, denotando as suas anteriores funções de curral ou armazém. Na orla da aldeia as casas são novas, mas no núcleo, tal como sucede na grande maioria das nossas aldeias mais remotas, há várias que estão em ruínas ou em vias disso. Talvez por serem acatitadas e sem terreno à volta, as pessoas parecem preferir construir de raiz a recuperar o que já existe, e assim vão decaindo algumas destas casas mais típicas e originais.

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Um edifício chama a atenção pelo seu ar robusto e maciço, quase de fortaleza. É o Paço da Loba, erguido a mando de Fernão Sanches, filho bastardo de D. Dinis e senhor destas terras no século XIII. O nome vem-lhe das duas imagens talhadas em granito que se encontram por cima da porta, por se assemelharem à cabeça de um lobo.

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Em 1400 D. João I doou Fonte Arcada a Gonçalo Vasques Coutinho, 2º Conde de Marialva. Fez parte da herança até ao 4º Conde e Meirinho-Mor do reino, D. Francisco Coutinho, que não teve descendência masculina. À filha, D. Guiomar Coutinho, em carta de 18 de Junho de 1504 D. Manuel I permitiu que herdasse o património dos seus pais, o que fez dela uma das mais ricas e cobiçadas herdeiras em Portugal, com um rendimento de cerca de 14 mil cruzados. Talvez por isso o rei tivesse achado boa ideia combinar desde cedo, com o Conde, o casamento de D. Guiomar com o seu filho D. Fernando. A boda só teve lugar em 1530, já no reinado de D. João III, pois entretanto a perspectiva deste matrimónio tinha sido contestada por D. João de Lencastre, Marquês de Torres Novas, que defendia ter casado em segredo com D. Guiomar. Sobre este conflito (que durou nove anos…!) escreveram vários cronistas, e foi à volta dele que Camilo Castelo Branco urdiu a trama da sua obra “O Marquês de Torres Novas”. Dos dois filhos do casal, um morreu à nascença e a outra aos três anos de idade, em 1534, o ano em que D. Guiomar e D. Fernando também faleceram, pondo assim um fim trágico ao Condado de Marialva. Consta que D. Fernando se terá refugiado, desgostoso, pouco tempo antes da sua morte, em Fonte Arcada, precisamente no Paço da Loba.

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Outro marco importante neste mesmo século foi a concessão de um foral manuelino em 1514, devidamente assinalado pelo pelourinho em granito que sobreviveu até aos nossos dias, agora quase “abafado” pelas construções que o rodeiam. Fica na minúscula Praça Pádua Correia e, apesar do seu aspecto geral muito simples, tem quase cinco metros de altura e uma base octogonal com sete degraus.

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Mas foi no século XVII que a localidade conheceu os seus tempos mais prósperos ao ser qualificada como Viscondado, que D. Pedro II atribuiu a Pedro Jacques de Magalhães, herói da Guerra da Restauração. São desta época as casas solarengas mais bonitas que existem em Fonte Arcada. Num dos extremos do largo a que chamam da Igreja, o Solar dos Condes da Azenha é uma dessas casas, facilmente identificável pelas armas afixadas em alto-relevo no seu pórtico (que está a precisar de obras urgentes de manutenção).

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Outra destas grandes mansões é o Solar dos Gouveias, mais conhecido por Casa dos Brigadeiros porque os varões da família desempenharam sempre altos cargos militares. Situado numa rua que desemboca ao lado da igreja, tem um muro alto e longo com variados elementos decorativos que causam grande impacto visual. É bem óbvia a importância que este edifício teve e continua a ter na aldeia.

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Fonte Arcada é palco de uma das maiores romarias do concelho de Sernancelhe, que tem lugar no terceiro domingo de Páscoa. A ela ocorrem habitualmente milhares de pessoas para participarem na procissão em honra da Senhora da Saúde. O Santuário ocupa o topo de uma colina, miradouro de onde se avista toda a aldeia até ao Távora. A capela branca e simples, que terá as suas origens em finais do século XVIII ou inícios do seguinte, está situada no centro de um enorme terreiro que inclui parque de merendas e um coreto. A procissão sai da igreja de Fonte Arcada com os andores (que antigamente eram puxados ladeira acima por carros de bois) a serem rebocados por tractores – excepto o que transporta a Senhora, pois este continua a ser carregado em ombros. O passo é marcado pelos bombos dos Zés-pereira e pelos sons de uma banda de música. A festa prolonga-se por uma semana com uma feira montada na avenida paralela à capela.

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Com a tarde a chegar ao fim, subi ao cerro do Castelo, que na verdade não tem castelo nenhum mas sim uma torre sineira. A Torre do Relógio é o ex libris de Fonte Arcada, e parece pairar sobre ela. Não é grande nem vistosa, mas atrai o olhar desde longe. À falta de adjectivo melhor, só posso dizer que é “diferente”, e imprime à aldeia um cunho muito particular e original. Terá servido desde o século XVI como local de vigia, e o seu sino ressoava umas vezes como aviso à população, outras como convocatória de assembleias. Na parede frontal tem degraus e uma porta descentrada, noutra parede há uma minúscula janelinha quadrada, no cimo o campanário com o sino, que agora cumpre a função de relógio, e uma cornija com gárgulas de canhão. Nada mais tem, e nada mais faz falta.

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É aqui o melhor sítio para ver o sol a recolher-se para lá das águas calmas da barragem, rodeada de oliveiras e campos de cultivo. Caudas de fumo saíam das chaminés, uma leve neblina alastrava sobre o vale como um véu fino, os raios de sol imprimiam auréolas vermelhas à terra castanha, em contraste com o céu ainda muito azul típico dos nossos dias frios de Inverno. O final perfeito para uma visita a esta aldeia memorável.

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(Adaptado de um post no blogue Viajar Porque Sim)

Blogue da semana

Ana CB, 17.12.23

Quase tão grande como a minha paixão pelas viagens – e mais antiga, por sinal – é a que tenho pelos livros e pela leitura (aliás, se tivesse de escolher entre estes dois amores, iria ser uma das decisões mais difíceis da minha vida). Descobri este blogue há uns bons anos, e ficou logo nos meus favoritos: gostei da escrita da Patrícia, da forma clara como expõe as suas opiniões, e do facto de não ter medo de tocar em temas polémicos. Quis o acaso que uns tempos depois eu acabasse por ser convidada (por outra amiga) a juntar-me ao clube de leitura de que ela já fazia parte, e até hoje continuamos a encontrar-nos com alguma regularidade, que nem a pandemia quebrou aos membros do clube esta vontade de nos juntarmos para umas horas de boa conversa e muitas gargalhadas.

A Patrícia escreve muito bem, seja sobre as suas leituras ou qualquer outro tema que lhe apeteça, sempre com os livros como pano de fundo. Não se coíbe de dizer o que pensa, seja por escrito ou ao vivo, e essa é uma das suas virtudes. As opiniões que dá são mesmo sentidas, não compactua nem faz favores, e adora uma bela discussão, principalmente se ela estiver na contracorrente, como é muitas vezes o caso. É ecléctica nos seus gostos, pese embora tenha alguns autores favoritos. Os seus posts são leves mas incisivos, e é um prazer lê-la.

Se gostam de livros, este é um blogue que vale muito a pena seguir: Ler por aí.

Nos passos de Vlad Dracul

Ana CB, 27.10.23

Uma das personagens mais evocadas nesta época de Halloween (importação que parece ter vindo para ficar) é sem dúvida o Conde Drácula, o famoso vampiro à volta de quem gira a história do livro homónimo de Bram Stoker. Para criar o seu protagonista o escritor inspirou-se vagamente na figura de Vlad Dracul, que foi voivode (príncipe) da Valáquia no séc. XV. Mas sabiam que Stoker escreveu o seu livro sem nunca ter postos os pés na Roménia? E quem foi realmente Vlad Dracul? Entre o mito e a realidade, os factos confirmados e aqueles cuja genuinidade permanece incerta, vou contar um pouco da sua história, numa visita guiada pelos locais que permanecem ligados à sua memória.

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SIGHIŞOARA

 

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Sighişoara é uma das cidades mais bonitas da Roménia, e presume-se que foi nesta casa situada no coração do centro histórico que Vlad Dracul III nasceu, algures entre 1428 e 1431, e viveu até aos quatro anos de idade. Deram-lhe o mesmo nome do pai, apesar de ser o segundo filho. Dracul significa “dragão”, sobrenome que o seu pai recebera ao tornar-se membro da Ordem do Dragão, uma Ordem fundada pelo Imperador Segismundo em 1408, na Transilvânia, para proteger o Cristianismo no leste europeu.

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P1480214 assin.jpgA casa é actualmente um restaurante, sempre muito concorrido devido ao “folclore” que existe à volta da figura histórica de que foi berço, mas consta que a qualidade da comida não é exactamente proporcional à sua fama.

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TÂRGOVIȘTE

 

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Târgoviște era na época a capital do voivodato da Valáquia, razão pela qual a família Dracul se mudou para aqui quando Vlad Dracul pai conseguiu ascender ao trono da Valáquia, em 1436. Foi por isso aqui que Vlad filho viveu grande parte da sua infância.

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Depois de o seu pai e irmão mais velho terem sido assassinados, Vlad reclamou para si o principado, mas apenas conseguiu mantê-lo durante dois escassos meses em 1448 até ser obrigado a refugiar-se fora da região. Em 1456 voltou a atacar a província e retomou o trono da Valáquia. Correu entre os habitantes o rumor de que era o seu pai que tinha regressado do mundo dos mortos para os proteger, e presume-se que seja esta a origem provável do mito da imortalidade de Vlad Dracul. Desta vez conseguiu manter o seu domínio durante seis anos. A Valáquia era disputada pela Hungria e pelos otomanos, pactos e alianças faziam-se e desfaziam-se à velocidade da luz, e as traições eram constantes. A violência era moeda corrente na época, mas consta que os métodos de Vlad para instigar respeito e terror excediam o habitual. Quando o exército do sultão Mehmet II entrou em Târgoviște em meados de 1462, a cidade estava deserta mas o cenário com que depararam era dantesco: milhares de cadáveres de homens, mulheres e crianças estavam empalados em grandes estacas cravadas no chão, formando uma floresta macabra de carcaças em estágios de decomposição variados. A sua brutalidade valeu-lhe o nome pelo qual passou a ser depois conhecido: Vlad Țepeș (Vlad, o Empalador).

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Do palácio real (Curtea Domnească) de Târgoviște restam hoje apenas ruínas. Mas o conjunto monumental que pode agora ser visitado tem outros motivos de interesse, sendo um deles o actual ex libris da cidade: a torre Chindia, que foi mandada construir pelo próprio Vlad Dracul III.

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FORTALEZA DE POENARI (CETATEA POENARI)

 

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O castelo de Poenari tem as suas origens no séc. XIII, mas encontrava-se em ruínas quando Vlad Țepeș decidiu aproveitar o seu potencial defensivo e transformá-lo numa fortaleza quase inexpugnável. Quase, mas não completamente, pois nem ela conseguiu resistir aos avanços dos Otomanos no final do seu segundo reinado, tendo Vlad sido obrigado a fugir por uma passagem secreta com acesso às montanhas a norte. Diz a lenda que a sua mulher se suicidou atirando-se das muralhas, apavorada pelo receio de ser selvaticamente maltratada pelos turcos – a violência desmedida não era um exclusivo do seu marido. Situada perto de Arefu (em pleno coração da fabulosa Transfăgărășan), a 860 metros de altura, a fortaleza de Poenari é basicamente uma muralha – e em termos práticos, um “ninho de águia” que obriga a subir mais de 1400 degraus para lá chegar. Só para corajosos…

 

CURTEA VECHE

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Na Roménia, Vlad Țepeș é considerado um herói nacional. Em flagrante contraste com a imagem sanguinária descrita na maioria dos textos da época que sobreviveram até aos nossos dias – escritos por saxões e turcos, há que notar, que eram os seus maiores inimigos – as narrativas tradicionais romenas apresentam-no como um apoiante dos camponeses contra os traiçoeiros boiardos e um intrépido defensor do seu principado contra o Império Otomano. É provavelmente por isso que o encontramos representado em bustos esculpidos um pouco por todo o lado – e Bucareste não é excepção.

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O Palácio Real Velho fica mesmo no centro histórico de Bucareste e foi mandado construir de raiz por Vlad II Dracul. Vlad Țepeș, que era o seu segundo filho, ocupou-o durante o segundo reinado, entre 1456 e 1462. A partir dessa altura passou a ser a residência real oficial, estatuto que só perdeu no séc. XVIII. Hoje em dia funciona como museu, fazendo parte do núcleo do Museu Municipal de Bucareste.

 

CASTELO DE BRAN

 

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É irónico que o local na Roménia mais associado ao Drácula de Bram Stoker seja aquele que menos (ou talvez mesmo nada) tem a ver com Vlad Dracul III. Stoker nunca visitou a Roménia, e presume-se que tenha aproveitado uma ilustração do castelo de Bran mostrada num livro de Charles Boner para descrever o castelo do Conde Drácula, uma vez que mais nenhum castelo romeno se lhe assemelha.

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Situado a poucos quilómetros da turística cidade de Brașov, na Transilvânia, o castelo de Bran está construído – como seria de esperar – no topo de uma elevação junto à localidade com o mesmo nome, rodeado de vegetação. A Transilvânia só passou a fazer parte da Roménia depois da Primeira Guerra Mundial, e em 1920 os cidadãos de Brașov decidiram unanimemente oferecer o castelo de Bran à Rainha Maria, que o restaurou e passou a usar como residência real.

A ténue ligação que o castelo de Bran talvez possa ter com Vlad Țepeș remonta a 1462, quando o príncipe foi capturado pelo exército do rei húngaro e, segundo consta (mas não está provado sem sombra de dúvida), ali terá ficado encarcerado durante dois meses.

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MOSTEIRO DE SNAGOV

 

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Vlad voltou a conquistar a Valáquia novamente em 1476, mas também desta vez o seu reinado foi de curta duração. Mais uma vez atacado pelos turcos, foi morto perto de Bucareste em Dezembro do mesmo ano. A História diz que a sua cabeça foi enviada a Mehmet II, em Constantinopla. Já quanto ao local onde foi sepultado, a controvérsia mantém-se até aos nossos dias – outra coisa não seria de esperar um homem cuja vida deu azo a tanta celeuma. A versão mais difundida é que foi enterrado no mosteiro de Snagov, situado numa ilhota no lago que leva o mesmo nome.

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O lugar é tranquilo e muito bonito. A apenas cerca de 40 km a norte de Bucareste, é um local privilegiado de veraneio para os habitantes da capital.

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Recentemente, os historiadores levantaram a hipótese de Vlad Țepeș ter de facto sido sepultado no Mosteiro de Comana, por se encontrar mais próximo do local onde ocorreu a batalha em que foi morto.

 

Do que não restam dúvidas é que o príncipe da Valáquia morreu mesmo, embora a memória colectiva se tenha encarregado de o guardar para a posteridade. Por mera coincidência ou ironia do destino, o Drácula de Bram Stoker terá certamente dado uma “ajudinha”.

 

(Post já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Aldeias com histórias: Juízo

Ana CB, 11.10.23

Era uma vez uma aldeia beirã, dessas como há tantas no nosso Portugal profundo. Pequena, longe de tudo, com gentes que viviam da agricultura de subsistência e trabalhavam de sol a sol para sobreviver. A sua história é idêntica à de muitas outras: viu os jovens partirem em busca de melhores condições de vida, a população residente envelhecer, as suas casas e património ruírem aos poucos, a desertificação a aproximar-se.

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Só que… talvez por se chamar Juízo, talvez por ser bonita, talvez por sorte, a história desta aldeia tem um final feliz – ou, melhor dizendo, uma continuação feliz, porque o fim não está nem à vista.

 

A aldeia

 

Podemos dizer o mal que quisermos do turismo – que é poluidor, consumidor de recursos, descaracterizador, incomodativo e tudo o mais que é habitual dizer para o denegrir (e com alguma parcela de razão) – mas a verdade é que toda a actividade que se desenvolve em torno desse tipo de lazer constitui parte de uma solução para insuflar vida (e alguma prosperidade) a lugares que de outro modo já teriam sido completamente abandonados. Por muito que doa, esta é a realidade dos nossos dias, mais de um quinto já passado deste século XXI.

A aldeia do Juízo é disto um excelente exemplo. Povoada desde a época da Península Ibérica pelos romanos, habitada em tempos por um juiz (de quem lhe vem o nome), tem hoje em dia uma população permanente de apenas 15 habitantes, que felizmente é agora “engrossada” com alguma frequência pelos visitantes que a escolhem para passar um fim-de-semana ou uns dias de férias.

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E escolhem muito bem. Encarrapitada num planalto entre as serras da Estrela e da Marofa e com um troço da GR22 a passar-lhe à porta (o percurso entre Castelo Rodrigo e Marialva da Grande Rota das Aldeias Históricas), é uma aldeia desafogada, rodeada de belíssimas vistas sobre os verdes e castanhos da paisagem serrana da Beira Alta, e muito acolhedora. Apesar de fora das rotas turísticas habituais, está centralmente localizada em relação a muitos locais de interesse e é, ela própria, um riquíssimo baú de vestígios históricos e cultura popular.

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As ruas da aldeia enrolam-se umas nas outras, passando entre casas de granito amarelo ou com cores desmaiadas – algumas recuperadas, outras desabitadas e meio em ruínas. Em cada recanto encontramos pormenores rústicos e deliciosos: canteiros de pedra com flores, uma pipa sobre uma carreta de ferro, um tanque daqueles já quase desaparecidos, uma alminha, uma fonte com uma frase divertida, um antigo sinal do posto dos correios, pedras com gravações centenárias. E as cores de Outono das folhas caídas e das vinhas despojadas dos seus frutos condizem bem com esta aldeia.

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As ruas têm placas novas com os seus nomes. A bonita casa que em tempos foi uma escola está também renovada; tem um portão de ferro forjado pintado de verde-escuro e na entrada há hortênsias e um loendro. Na aldeia há um cemitério bem arranjado e duas capelas. Uma delas, a do Juízo, foi já completamente restaurada. Tem um altar novo de granito com linhas depuradas mas o Cristo na cruz que está pendurado por cima, com ar de sofrimento, é naif e muito antigo.

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Esta é uma terra rica em amêndoa, azeite e vinho; na verdade, é a região com maior número de vinhas da Beira Interior. Mas há mais. Há colmeias e há rebanhos de ovelhas, e um lindíssimo bosque de azinheiras que tem o nome de Carrascal do Juízo – porque aqui chamam carrascos às azinheiras. Um passeio pelo Carrascal desvenda-nos as poldras da ribeira do Porquinho (que praticamente não tem água, depois deste Verão tão seco), onde uma mó sobrevivente mostra que houve ali um moinho em tempos já idos. O Carrascal é zona protegida, tem árvores com líquenes tão antigos que já foram objecto de estudo, árvores fantasmagóricas, esqueléticas e belas, que parecem pertencer a uma outra dimensão.

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Daqui avista-se uma paisagem infinda de serrania, com algumas aldeias dispersas. Das aldeias históricas, Marialva é a mais próxima, cerca de 12 quilómetros a noroeste. Trancoso fica a 25 quilómetros, Castelo Rodrigo a 30, Almeida está a 45 e até Castelo Mendo são 47 quilómetros. A aldeia do Juízo é o local ideal de onde partir para as visitar a todas.

 

As Casas do Juízo

 

O recente renascimento da aldeia deve-se ao facto de algumas das casas recuperadas estarem a ser disponibilizadas como alojamento turístico rural. São as Casas do Juízo, adaptadas e geridas com empenho e bom gosto pelo Sr. José Guerra e pela D. Isabel, que velam pelo bem-estar dos seus hóspedes até ao mínimo pormenor. São já oito as casas renovadas, cada uma com um nome que evoca as suas antigas funções, todas elas mantendo a traça original e a rusticidade mas totalmente equipadas e dotadas do conforto que hoje em dia não dispensamos. O complexo, dividido em dois núcleos que funcionam como condomínios fechados, tem capacidade para alojar até 30 pessoas e oferece várias outras comodidades: uma piscina coberta, estufa com produtos biológicos, sala para eventos e diversos espaços de lazer. Associado às Casas existe um restaurante, a Taberna do Juiz, que serve petiscos e pratos tradicionais confeccionados na sua maior parte com produtos da aldeia e da região.

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Melhor anfitrião que o Sr. José não pode haver. Conhece todos os segredos da aldeia e das redondezas, leva-nos em passeio, conta histórias locais cheias de graça, chama a atenção para pormenores curiosos – como a oliveira que já pertenceu a dez pessoas ao mesmo tempo, a sepultura antropomórfica que agora é canteiro de flores, ou a inscrição numa pedra que puxa pela nossa imaginação para percebermos o que é. E além das caminhadas há várias actividades tradicionais da aldeia que se mantêm vivas e nas quais os hóspedes das Casas podem participar, dependendo da altura do ano.

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No largo principal da aldeia, uma das fontes sugere que umas quantas cabeçadas são maneira garantida de ganhar juízo. Será? Fica o desafio para irem até lá verificar se a presunção se comprova.

 

(Adaptado de um post no blogue Viajar Porque Sim)

 

Blogue da semana

Ana CB, 08.10.23

Começaram por ser dois, com o objectivo de darem a volta ao mundo durante um ano. A viagem acabou por ter de ser encurtada, mas o blogue ficou e cresceu. Tal como cresceu a família, e hoje já são três, embora a mais pequena ainda não escreva nem fotografe.

Como já perceberam, é um blogue de viagens. Os autores são a Raquel e o Tiago, e a pendura chama-se Maria. Nas muitas dezenas de posts já publicados desde 2017, o 365 dias no mundo conta as experiências desta família pelo mundo fora, entre roteiros, sugestões, opiniões sobre experiências, conselhos, preocupações e outras histórias.

Hoje somos um casal com uma filha que não quer parar de viajar, mas que sabe que uma criança muda o ritmo. Se é ela que nos comanda? Não diríamos, mas os nossos relógios sintonizaram com o seu bater de coração e somos felizes só por estarmos juntos.

E é também por isto que escolhi o 365 dias no mundo para blogue da semana.

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Caminhar

Ana CB, 21.08.23

Contava-me a minha mãe que comecei a andar muito cedo, e que agarrava todas as oportunidades para sair de casa. Confrontada com a condição de poder acompanhá-la desde que não pedisse colo, habituei-me desde pequenina a caminhar, por vezes distâncias que certamente pareceriam enormes para as minhas pernas de criança. Mais tarde, em viagens com o meu pai – para quem andar a pé era o modo de locomoção preferido – percorri quilómetros infindos em Nova Iorque, Londres ou Paris quase sem entrar num transporte público. Usar o autocarro ou o metro ficava reservado para o final do dia (e só às vezes…), se os pés já acusassem o cansaço.

 

Mesmo depois de entrar na “era das quatro rodas”, ou seja, quando passei a ter carro e autorização para conduzir, nunca deixei completamente de gostar de caminhar, pese embora durante uns bons anos só o fizesse quando não tinha outra alternativa. O frenesim diário da minha vida implicava deslocações rápidas, e a rapidez implica, em distâncias para lá de curtas, um veículo motorizado.

 

Fosse em Portugal ou lá fora, as minhas férias sempre envolveram caminhadas mais ou menos extensas – e nem o meu filho escapou, com uns meros cinco anos de idade, aos oito quilómetros a pé entre La Défense e o Museu do Louvre, seguidos de mais alguns a percorrer várias das enormes salas do museu. O gene de viajante que tem passado de geração em geração na minha família parece ser gémeo siamês do gene de caminhante.

 

Na verdade, sou daquelas pessoas que acha que andar a pé é a melhor maneira de conhecer um lugar, e este meu gosto por caminhar tem vindo a crescer com os anos. Concedo que é estranho: agora que tenho menos energia e estou em pior forma, aumentou a minha apetência pelas caminhadas. E aumentou de tal maneira, que algumas das viagens que tenho feito nos últimos anos têm propositadamente incluído uma boa fatia de trilhos pedestres. Hoje em dia, para mim, caminhar é tanto um gosto como uma necessidade, um contraponto físico e mental a uma vida que sinto (e é, sobretudo por questões profissionais) mais sedentária.

 

Caminhar = forma de locomoção natural

Há qualquer coisa como quatro milhões de anos, ou perto disso, os nossos antepassados da tribo Hominini tornaram-se exclusiva e definitivamente bípedes. Segundo alguns biólogos, a bipedia será até anterior ao aumento da capacidade craniana, e a libertação dos membros anteriores para outras actividades que não o apoio à deslocação terá sido um avanço de extrema importância e contribuído para esse crescimento. Várias fases evolutivas depois, o homo sapiens continua a ser bípede, e a ser um dos dois únicos mamíferos que adoptaram exclusivamente este tipo de locomoção (o outro é o canguru).

 

O desenvolvimento cognitivo da nossa espécie levou a que inventássemos outras maneiras de nos deslocarmos que não sobre os nossos membros inferiores. No entanto, caminhar continua a ser a forma de locomoção mais natural, simples e humana que existe. Mais ainda do que isso, o acto de colocar um pé à frente do outro, intrínseco à nossa natureza e frequentemente considerado simples e rotineiro, transcende a mera locomoção e revela-se um fascinante e multifacetado fenómeno quando explorado através de diversas perspectivas.

03 Erg Chebbi, Merzouga, Marrocos.JPGCaminhar nas dunas do Erg Chebbi, em Marrocos

 

Caminhar = andar numa determinada direcção

Embora o acto de caminhar seja satisfatório por si só – por ser um hábito saudável, porque é propício à reflexão, e porque por vezes o caminho é mais importante do que o destino – uma caminhada tendo em vista um objectivo final traz-nos um propósito definido. Há uma motivação forte, um ponto no mapa que é preciso atingir, e desistir não é opção, mesmo quando o caminho se torna mais difícil e o cansaço já pesa. Sucedeu-me isso recentemente ao percorrer uma parte do Cotswold Way, na região central de Inglaterra, num dia particularmente difícil que envolveu subidas longas, um engano que implicou uma volta maior, e uma hora de chuva torrencial no final da caminhada. Saber que me aproximava do objectivo – chegar ao alojamento, poder secar-me e descansar – deu-me “asas nos pés” e, à chegada, a sensação de ter conseguido esticar mais uma vez os meus limites.

Caminhar na região das Cotswolds, em Inglaterra 

 

Caminhar = explorar sensorialmente diferentes ambientes

Quando caminho, os meus sentidos ficam mais despertos. A percepção do ambiente à minha volta é mais imersiva: os sons, os cheiros, as texturas do solo, as variações na luminosidade, tudo é absorvido de forma mais imediata e vívida. A forma como caminho é influenciada pelo lugar em que estou. Cada cenário imprime a sua marca na minha maneira de andar, uma simbiose única entre mim e o ambiente que me acolhe momentaneamente.

06 Torres del Paine, Chile.JPGTrilho Mirador Cuernos, Parque Nacional das Torres del Paine, na Patagónia chilena

 

Numa cidade vibrante como Londres, a energia que parece fluir de todo o lado acelera os meus passos. A cabeça gira de um lado para o outro na ânsia de absorver todo aquele movimento, paro para tirar uma fotografia (ou muitas!), ver uma montra, esperar que um semáforo mude de cor para que eu possa atravessar, desvio-me das pessoas apressadas que se cruzam comigo. Em época de Natal, fico contagiada pela alegria das luzes coloridas e dou por mim a sorrir sem ser por nada. Já uma vila toscana como Montepulciano ou Lucca têm em mim o efeito contrário: a pedra antiga dos edifícios faz-me sossegar, como que em reverência, observar com calma, saborear os pormenores. Veneza e Bolonha pedem-me que ande ao acaso e me perca nas suas ruas, que explore os seus becos e volte para trás, que ande em círculos para ir desaguar no sítio de onde parti.

07 Veneza, itália.JPGCaminhar nas ruas escondidas de Veneza
Caminhar nas ruas íngremes das vilas toscanas
Caminhar à sombra das arcadas de Bolonha

 

Caminhar num ambiente natural é toda uma outra experiência. Fico mais relaxada e automaticamente em sintonia com a tranquilidade da natureza ao meu redor. Uma floresta é para mim como um casulo, sinto-me protegida e confortável. Um trilho numa montanha deslumbra-me constantemente. As irregularidades do piso marcam o compasso da caminhada. A minha atenção está focada no momento: na atmosfera em que estou inserida; no obstáculo que é preciso contornar; na respiração que tenho de controlar quando a subida é mais exigente. À beira-mar, as sensações entram pela pele: a frescura da água nos pés, a textura da areia, a brisa que vem do mar e agita o cabelo. O passo é desigual, os pés enterram-se no chão, por vezes é preciso fugir de uma onda mais atrevida.

12 Bosque de Chavanod, França.JPGO tranquilo Bosque de Chavanod, perto de Annecy, França
13 El Chaltén, Argentina.JPGEl Chaltén, a capital do trekking na Argentina
14 Parque Grená, São Miguel.JPGSubir ao Miradouro do Poço do Salto da Inglesa no Parque Grená, em São Miguel
lhéu das Rolas, São Tomé                                                                                                  Menorca, Espanha

Percorrer ambientes diversos é uma tecelagem dinâmica de experiências e caminhar, mais do que um acto físico, torna-se um veículo de exploração que me liga ao mundo que me rodeia e o traz para dentro de mim.

 

Caminhar = sentir a mutabilidade da natureza

Viver na correria da cidade desliga-nos em grande medida dos ritmos naturais da vida e das transformações a que a natureza está sujeita ao longo do ciclo das estações do ano. É certo que sentimos o frio e o calor, e apercebemo-nos de quando os dias crescem ou encolhem, vemos as folhas desaparecerem de certas árvores e as flores que às vezes desabrocham quase de um dia para o outro. Mas não vamos muito mais longe do que isso.

 

Percorrer a pé um mesmo trilho ou uma mesma região em épocas diferentes do ano oferece-nos toda uma outra perspectiva (muito mais abrangente) do mundo em que vivemos. Se o Minho que visito no Verão é brilhante e colorido, no Outono é maravilhoso, com as árvores pintadas em tons de ferrugem e o aroma do mosto que se espalha pelas aldeias. No Inverno, caminhei nas Fragas do Eume, na Galiza, quase sempre com o rio à vista por entre os ramos despidos dos carvalhos; no Verão, as águas do Eume ouvem-se mais do que se vêem, escondidas pela cortina frondosa que se estende ao longo das suas margens. Fazer o percurso pedestre que liga o Piódão a Foz d’Égua na Primavera é encher os olhos de paisagem colorida pelas giestas, urzes e árvores em flor, enquanto no Inverno é o cinzento que domina.

O Inverno nas Fragas do Eume, em Espanha, e o Minho no Verão
Primavera: cerejeiras em flor no Vale do Jerte, em Espanha, e giestas no Piódão
21 Buçaco.JPGOutono no Buçaco

 

Caminhar ao longo das estações do ano sintoniza-nos com a natureza cíclica da vida e desperta-nos para a importância de aceitar as mudanças e transformações – as do mundo à nossa volta, e as nossas.

 

Caminhar = estimular a criatividade

Quando caminho sozinha num ambiente pouco distractivo, tenho tendência a divagar. E não são poucas as vezes em que noto que me surgem pensamentos mais fora do comum. Ou, se tenho alguma questão a resolver, que me é mais fácil ordenar ideias e tomar uma decisão. Caminhar actua sobre mim como uma espécie de catalisador da criatividade, de facilitador de soluções ou projectos. A cadência dos meus passos influencia o meu estado mental, como que regulando o ritmo do meu cérebro – uma espécie de meditação em movimento, de onde tudo parece surgir mais claro e descomplicado.

22 Esmoriz.pngPassadiços da Barrinha de Esmoriz

 

Caminhar = sentir a mudança

Embora eu não faça caminhadas com uma regularidade fixa, tento andar a pé sempre que possível: se tenho tempo e a distância ou o peso não são incomportáveis, esqueço o carro ou os transportes públicos e vou a pé. As vantagens são mais que muitas, e caminhar tem-me ajudado até em alturas mais complicadas da minha vida: é uma terapia barata e eficaz, um estimulante natural do humor e um mitigador da tensão. Além dos óbvios benefícios para a saúde física, andar mais a pé e considerar a caminhada como uma das minhas principais actividades de lazer tem provocado algumas mudanças em mim.

 

Caminhar desacelera o tempo, e agora dou mais prioridade ao vagar. Neste mundo em que a pressa é uma constante, caminhar sabe-me a pausa e cada vez gosto mais de observar o que me rodeia ao ritmo dos meus passos. Andar a pé é também uma celebração da simplicidade, e tenho vindo progressivamente a tentar simplificar a minha vida, dando mais espaço (temporal e mental) ao que é realmente importante para mim. E é uma lição de humildade: quando me desloco pelos meus próprios meios apercebo-me melhor da minha pequenez na ordem natural do universo.

23 Drave.JPGCaminhar até à aldeia desabitada da Drave

 

A ligação entre o movimento físico e a nossa mente é mais profunda do que parece. Caminhar ajuda-me tanto a reflectir como a tomar consciência do que existe à minha volta, e conduz-me a revelações profundas sobre mim própria e o nosso mundo. É a melhor maneira de me lembrar que as respostas que procuro estão frequentemente mais próximas do que pensava, e que para encontrar o extraordinário basta – tantas vezes! – olhar para o que é comum.

Blogue da semana

Ana CB, 23.07.23

O nome do blogue engana. “Contos Alfacinhas” parece ser (e também é!) sobre Lisboa, mas é muito mais do que isso. É o lugar de escrita da Filipa, “histórias de uma alfacinha em Lisboa, e de uma Lisboeta no Mundo”, nas suas próprias palavras. E, qualquer que seja o tema, a Filipa escreve tão bem…! Nas descrições, sempre muito pessoais, das viagens que tem feito e das suas experiências, sente-se que escreve com o coração, muitas vezes de forma poética. Lê-la é um enorme prazer, e nunca cansativo.

Contando as suas histórias neste blogue “feito de pequenos momentos em grandes viagens e momentos enormes ao virar da esquina”, a Filipa tem como objectivos maiores inspirar-nos a sair de casa, mas também levar-nos a pensar sobre as nossas atitudes em viagem e em relação às viagens de um modo geral, sobre “o nosso impacto ambiental e social” e a responsabilidade que temos para com o mundo e as pessoas que nos rodeiam, seja em que lugar for.

É um dos meus blogues de viagens favoritos, e é a minha escolha para blogue da semana – porque merece muito ser lido.

A ponte 516 Arouca, passadiços, baloiços e afins

Ana CB, 27.06.23

Eu, pecadora, me confesso: já percorri a ponte 516 Arouca. E gostei da experiência. Quer isto dizer que sou fã de pontes suspensas, passadiços, baloiços e todas as demais infra-estruturas cuja intenção principal é apenas serem chamariz para o turismo? Claro que não. Devemos riscar do nosso mapa e votar ao esquecimento todos estes equipamentos que têm crescido que nem cogumelos um pouco por todo o nosso país? É óbvio que também não. A polémica está instalada e avoluma-se na proporção do aumento destes locais, que atraem cada vez mais atenções e pessoas. Não sou nem me considero tecnicamente habilitada para emitir juízos sobre o assunto. Apenas posso falar sobre o que vejo e sinto, e reflectir sobre o assunto. Que é precisamente o que vou fazer.

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Deixem-me, antes de mais, contar-vos como foi a minha experiência. Fim-de-semana combinado com amigas para ir conhecer Cinfães e uma parte da margem sul do Douro, o facto de nenhuma delas ainda ter ido aos passadiços do Paiva fizeram-nos decidir aproveitar a proximidade geográfica e reservar um dia para este passeio.

A ponte tem duas entradas, uma em Alvarenga e outra no Areinho, e optámos pela primeira porque a do Areinho obriga a subir (e depois descer, obviamente) a escadaria inicial de acesso aos passadiços, e no grupo há uma pessoa que tem uma certa fobia a descidas. Além disso, o plano era também ir depois provar o célebre bife de Alvarenga, uma sugestão à qual não consegui resistir – há já vários anos que evito comer carne de qualquer tipo, mas não sou fundamentalista e abro excepções quando estou em viagem, principalmente quando os outros pratos não me agradam por aí além; e constato, com muita pena minha, que continuo a gostar imenso de um belo bife de vaca. Mas adiante…

O carro ficou estacionado junto ao cemitério de Alvarenga, onde uma seta indica o acesso à ponte por um caminho pedonal que atravessa uma parte da aldeia e segue depois por um belo trilho de terra batida entre árvores.

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As entradas na ponte são com hora marcada, porque é preciso limitar o número de pessoas que acedem, e porque cada grupo leva um guia. As torres onde estão fixados os extremos da ponte são uns mamarrachos altos que desfeiam a paisagem, e só não é pior porque ao longe ficam meio escondidas pelas árvores, sobretudo a da entrada de Alvarenga.

No início, e também quando chegamos ao lado oposto, o guia dá algumas explicações sobre a ponte, a envolvente, e a fauna e flora da região. São explicações curtas e nada maçadoras, pois já se sabe que quem ali está quer mesmo é passar pela experiência sem ter de ouvir grandes dissertações. E atravessar a ponte é, de facto, uma experiência diferente de tudo o resto que podemos ver e fazer no nosso país. A paisagem é lindíssima, como não podia deixar de ser, com a Cascata das Aguieiras a despenhar-se pela encosta abaixo e as vistas sobre quilómetros da Garganta do Paiva de ambos os lados da ponte (e por baixo!), o rio a correr lá bem no fundo. Mas o que mais me impressionou foi mesmo a sensação de estar a uma grande altura tendo em volta um espaço completamente aberto e a perder de vista – quase como se estivesse a pairar. O gradeamento da ponte nem sequer nos chega aos ombros e não serve de grande bloqueador visual, e os cabos de suporte são praticamente invisíveis, mais ainda num dia em que o céu estava da mesma cor. A somar a isso, a ligeira vibração da ponte contribuiu para a impressão de que não estava a pisar chão firme, quase como se estivesse num barco.

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Depois de terminar a primeira travessia houve quem continuasse para os Passadiços, mas a maioria dos visitantes voltaram para trás pelo mesmo caminho, incluindo nós. Já tínhamos mesa marcada para o famoso bife, que não defraudou as expectativas. O restaurante, um dos vários que há na localidade, é grande mas estava a abarrotar, e havia fila de espera. Não creio que a maioria dos clientes estivesse ali por causa da ponte ou dos passadiços… Nós, portugueses, somos capazes de fazer dezenas (às vezes centenas) de quilómetros para ir comer qualquer coisa de especial que nos apeteça, só porque sim.

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A manhã tinha estado chuvosa, mas quando saímos do almoço o mundo estava diferente, sol brilhante numa tarde calma e quase sem nuvens. Aproveitámos para ir até Espiunca, onde deixámos o carro, e fomos percorrer passadiços durante três ou quatro quilómetros, voltando depois para trás. Um passeio muitíssimo agradável, relaxante, que me deu a oportunidade de ver o rio a uma outra luz, pois da primeira vez que os percorri (podem ler tudo neste post) o tempo estava chuviscoso.

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Já passei por algumas outras experiências “radicais”, mas atravessar a 516 Arouca foi na verdade diferente. Não estou a dizer que tenha sido a mais fantástica de todas – até porque me sentia incomodada com a chuva, que a certa altura caiu com alguma intensidade e começou a encharcar-me, apesar do impermeável. No entanto, embora já tenha cruzado outras pontes suspensas, esta foi de facto única no género, pelo menos até agora.

 

O que é que me levou a querer ir à 516 Arouca? Pois a curiosidade, está claro. De conhecer uma coisa nova, querer saber como é em vez de só ouvir pela boca dos outros, que cada um tem uma perspectiva diferente consoante a sua própria experiência. E, sobretudo, de querer pôr-me à prova, numa situação única e que não é, de maneira nenhuma, para todos. Não sou medricas, não tenho fobia de alturas, nem sofro de vertigens. Mas também não sou propriamente uma supermulher, e há situações que impõem respeito, ou mexem com os meus terrores de criança (e alguns de adulta…). Gosto de saber até onde consigo ir, conhecer os meus limites e tentar esticá-los mais um bocadinho. Já passei por situações que achei irem ser favas contadas e depois não foram, e por outras que pensei serem mais difíceis e ultrapassei sem grandes problemas. É com estas experiências que me vou conhecendo melhor.

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Aqui há uma meia dúzia de anos, descobriu-se que o turismo podia ser uma galinha dos ovos de ouro para Portugal. Acontece que o turismo é um “produto” com tantos outros e, nos tempos que correm, para vender há que apostar no marketing. Se os primeiros passadiços de madeira instalados no nosso país tinham como finalidade proteger os cordões dunares da nossa costa, não tardou muito até que alguém percebesse que seriam também uma forma de tornar acessíveis às pessoas comuns, para fins de lazer, zonas que habitualmente exigiam algum nível de agilidade para serem visitadas, bem como outras de acesso praticamente impossível. Quase de um dia para o outro, passámos a poder andar, correr ou pedalar em áreas de floresta, ria, pântano, areia, rocha, e tudo o mais que as edilidades autárquicas se têm lembrado de aproveitar para atrair visitantes aos seus territórios. Nalguns casos, a madeira veio substituir ou alternar com trilhos de terra batida pré-existentes, noutros simplesmente criou percursos novos onde apenas havia terra ou água.

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A fórmula resultou: portugueses e estrangeiros aderiram em massa a estas novas oportunidades de estarem mais facilmente em contacto com pedaços de natureza que até então lhes estavam praticamente vedados, e muitas localidades desconhecidas (ou quase) começaram a florescer com este aumento de atenção. Mais gente significa mais cafés, mais almoços, mais dormidas na região, mais uma “lembrança” que se compra. Mas também significa mais barulho, mais intrusão, mais lixo, mais impacto ambiental. Negativo, ou nem tanto? Fizeram-se estudos antes de tomar as decisões? Segundo o que tenho lido, parece que não – e também parece que não estão a ser avaliadas quaisquer potenciais alterações que tenham ocorrido ao longo dos anos de utilização de várias destas estruturas.

Se resulta bem para uns, então também deve resultar bem para outros, e as “modas” pegaram. Primeiro foram os passadiços. Com o sucesso dos do Paiva (que, dizem os ambientalistas, não faziam falta nenhuma), começaram a surgir estruturas no género em tudo quanto é sítio – alguns nem sequer são passadiços propriamente ditos, são apenas escadas de madeira absolutamente redundantes, como é o caso, por exemplo, dos que instalaram nas Fragas de São Simão, que nada vieram acrescentar a não ser poluição visual, pois os acessos à praia fluvial já eram mais do que suficientes. Pelo contrário, aumentaram a pressão humana num local idílico, que já foi relativamente tranquilo e agora fica apinhado de gente mal o tempo aquece. Também os passadiços que estão (ou estiveram, porque a obra foi parada a meio e, tanto quanto consegui perceber, ainda não foi concluída) a ser construídos junto ao Pulo do Lobo, perto de Mértola, não fazem grande sentido num local que sempre foi de fácil acesso a partir de qualquer das margens. E estes são só dois exemplos.

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Depois foram os baloiços. Aos dois ou três mais antigos, juntaram-se recentemente tantos que já lhes perdi a conta. Embora não tenham o impacto ambiental dos passadiços, como são “instagramáveis” por natureza acabam por atrair hordas de pessoas ao local onde estão instalados – e quem diz pessoas diz carros, como é óbvio, e a consequente poluição. Alguns estão em sítios onde já existiam outras infra-estruturas de lazer, e por isso acabam por não fazer grande mossa, mas outros foram colocados em locais onde não há mais nada a não ser beleza natural.

Entretanto chegaram as pontes. As notícias da inauguração da 516 Arouca correram mundo (e a polémica de ser ou não a mais longa do mundo não a prejudicou, antes pelo contrário – é aquela coisa de não importar se dizem bem ou mal, o que interessa é que falem…) e visitantes não faltam, apesar das queixas do preço elevado (pode ser caro para o nosso nível de vida médio, mas para qualquer estrangeiro será uma pechincha). A ponte vem até insuflar vida nos próprios passadiços, que já têm demasiada concorrência. As torres estragam a paisagem, é verdade, mas a ponte em si, vista de longe, pouco se nota. Sobre o custo e o facto de alegadamente ter sido feita com dinheiros públicos, que poderiam ter sido usados para outro tipo de investimento, penso que é uma questão que deveria ser bem esclarecida e discutida. Com o sucesso da 516 fica uma porta aberta para que outras estruturas no género comecem a aparecer. E será que fazem falta? Esta é, quanto a mim, mais uma matéria discutível e que não deve ser apenas analisada do ponto de vista do turismo.

 

Devemos então pôr completamente de lado este tipo de infra-estruturas turísticas? Ou, indo mais longe, o turismo será mais nocivo do que vantajoso? Como é óbvio, não tenho qualquer idoneidade para dar uma resposta cabal as estas questões. Mas podemos olhar para o que é feito noutros países, seja de bom ou de menos bom, e tirar algumas conclusões. Bons e maus exemplos não faltam por esse mundo fora. O que pode eventualmente faltar é o discernimento para distinguir entre o que é apropriado para determinados lugares, e o que é exagero e mero exibicionismo.

Será que os benefícios económicos do turismo têm sempre como contraponto desvantagens ambientais e uma descaracterização cultural? Não forçosamente. Tudo depende, como é evidente, de como se olha para esta fonte de rendimento, dos limites que são (ou não) impostos ao seu desenvolvimento, e da forma como são geridas as questões mais complexas que o seu incremento sempre levanta. Bons exemplos há muitos. Organismos e associações regionais que optam por incentivar a continuação de modos de vida e de produção mais tradicionais (em vez de orientarem a maioria das pessoas para profissões padronizadas, como a restauração ou a hotelaria). Reinvestimento de lucros em soluções ambientalmente mais sustentáveis, tanto por parte de entidades privadas como públicas. Ou projectos que juntam a observação da vida selvagem com a sua conservação. Há muitas maneiras de levar a água ao moinho e fomentar o turismo sem desvirtuar o que já é positivo.

O turismo (e sobretudo a sua massificação) é, de facto e em muitos casos, fonte de grandes e variados problemas. Mas pode também, se “utilizado” de outras formas, fazer parte da solução. Independentemente do que nos é oferecido e da forma apelativa como essa oferta é feita, podemos sempre pesar os prós e os contras das nossas opções quando viajamos, e adoptar princípios e condutas que sejam menos danosos para o nosso mundo ou mesmo, idealmente, que contribuam para um desenvolvimento ponderado dos lugares que visitamos.

Mas voltando à questão mais comezinha que deu origem a este texto. Se por um lado é possível compreender o entusiasmo com que no nosso país actualmente se divulgam e acolhem todas as “novidades” turísticas que têm vindo a surgir nos últimos anos (mais ainda agora, quando toda a gente ficou sequiosa de voltar a usufruir de uma liberdade total), por outro lado parece-me ser importante – e antes que este frenesim descambe e depois seja mais difícil contê-lo – reflectir e ter algum espírito crítico em relação ao que está, ou não, a ser feito, e como está a ser feito.

Não é preciso cair no exagero de encarar pontes suspensas, passadiços, baloiços e afins como obras demoníacas, nem o turismo como um pecado, mas é de todo aconselhável ter a noção de que as nossas escolhas quando viajamos têm sempre algum impacto no mundo que nos rodeia.

 

(Adaptado de um post no blogue Viajar Porque Sim)

Pensamento da semana

Ana CB, 28.05.23

Precisamos de mais filosofia nas nossas vidas. Precisamos de aprender a pensar, a recusar adoptar o dogma “só porque sim”, porque é mais fácil, porque a ideia já nos aparece digerida, alinhada, bonitinha e aparentemente com sentido. Precisamos de compreender mais, e compreender melhor. Precisamos de pegar no que vemos, no que lemos, no que ouvimos e tentar isolar o que é verdadeiramente importante do que é só barulho. Olhar por outra perspectiva, e olhar para dentro de nós para perceber se o que defendemos ainda ressoa a verdade ou é só hábito, ou só preconceito.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

Porque hoje é o Dia Europeu dos Parques Naturais

Ana CB, 24.05.23

Nos cerca de quatro mil e quinhentos milhões de anos que a Terra supostamente terá, só existe presença de humanóides há seis milhões deles, e apenas há 200 mil na forma humana que é actualmente a nossa. Quanto àquilo que consideramos civilização, não tem mais de seis mil anos, e a revolução industrial, marco fulcral do nosso desenvolvimento tecnológico, só teve início na segunda metade do século XVIII.

 

Jovens que somos neste planeta, decidimos chamar-lhe nosso e fazer dele o que bem nos apetece. No início do século XX, o peso de tudo o que já tinha sido produzido pelo homo sapiens equivalia a apenas 3% da biomassa da Terra; no final do ano passado, a massa total do que já produzimos ultrapassou o peso das “coisas” vivas no nosso planeta. Bastou um século para irmos de 3 a 100%, e estima-se que em 2040 tenhamos triplicado esta diferença. Somos uma praga.

 

Se é certo que existe beleza em muito do que criamos, ainda assim não conseguimos produzir nada de tão belo e perfeito quanto o que a natureza concebe. Por muito sublimes que sejam o tecto da Capela Sistina, o Taj Mahal ou os Kelpies, não conseguem ultrapassar a grandiosidade e perfeição de qualquer obra da natureza – seja ela um floco de neve, uma barreira de coral, uma criança ou um gamo.

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A percepção de que é necessário definir limites à ocupação (e ganância) humana e proteger o maravilhoso capital natural do nosso planeta é muito recente. No mundo, a primeira área a ser definida como parque nacional foi Yellowstone, em 1872. Na Europa, em 1909 a Suécia criou nove parques nacionais, os primeiros do nosso continente, e é em homenagem a esta iniciativa que desde 1999 se comemora a 24 de Maio o Dia Europeu dos Parques Naturais. Com organização da Federação EUROPARC (Federação da Natureza e Parques Nacionais da Europa), neste dia celebram-se as áreas naturais protegidas do continente europeu, chamando a atenção para a necessidade de reflectirmos sobre as nossas atitudes para com o mundo que nos rodeia e para a importância que os parques naturais assumem tanto enquanto espaços de preservação de ecossistemas como – sem qualquer dúvida – fundamentais para a sobrevivência da raça humana.

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O tema que a EUROPARC escolheu para as celebrações de 2023 é “Construir a partir das nossas raízes”. Além disso, este é o ano em que a Federação comemora o seu 50º aniversário. Continuamos a estar de olhos postos no futuro, que é cada vez mais incerto e requer de nós um constante esforço de adaptação. E há uma premissa que parece cada vez mais inevitável: para evoluirmos precisamos de dar um passo atrás – ou, mais provavelmente, vários passos atrás. Precisamos de retomar a nossa ligação ao que é verdadeiramente essencial e relegar para segundo plano a perspectiva economicista pela qual olhamos para o mundo e para as nossas vidas.

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Passar mais tempo em contacto com a natureza no seu estado menos humanizado traz inúmeros benefícios à vida de cada um de nós, sobretudo se a nossa sobrevivência nos obriga a habitar em ambiente citadino – como é o meu caso. E é por isso que quando viajo, seja em Portugal ou extramuros, cada vez dou maior preferência a lugares onde posso ter esse contacto mais próximo. Não faltam, felizmente, tanto no nosso país como por essa Europa (e mundo) fora, áreas protegidas e parques naturais para conhecer, cada um com as suas características únicas, todos eles maravilhosos, vários deles verdadeiramente especiais para mim – como estes de que vos falo a seguir.

 

 

FJALLABAK (ISLÂNDIA)

 

A Reserva Natural de Fjallabak, situada no sul da Islândia, foi estabelecida em 1979 e tem uma área de 47 mil hectares. À cota de 500 metros acima do nível do mar, é uma região montanhosa, de origem vulcânica, onde a actividade geotérmica ainda se faz sentir na forma de fumarolas e nascentes de água quente. O local mais popular deste parque é Landmannalaugar, um vale entre montanhas pintadas com variações coloridas de amarelo, branco, castanho, azul e verde, com curvaturas suaves, em franco contraste com as formações agressivas do extenso campo de obsidiana negra de Laugahraun – formado pela lava resultante de uma erupção que ocorreu em 1477.

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Além de ter um parque de campismo e piscinas naturais de água quente, Landmannalaugar é ideal para quem gosta de caminhadas. É daqui que parte o trilho montanhoso mais percorrido da Islândia, o Laugavegur: 55 km até Thórsmörk, outro parque natural famoso e de muito difícil acesso. Há vários outros trilhos mais curtos e menos exigentes, perfeitos para percorrer em poucas horas e cujo grau de dificuldade é baixo ou médio.

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A pouca vegetação existente é tão rasteira que se torna quase imperceptível. Só vemos rocha negra e montanhas às manchas, por vezes o vapor que se solta da terra em grandes baforadas, ou um lençol de neve que se derrete num pequeno lago com água azul-turquesa brilhante. Num momento o trilho é de terra batida, a seguir temos de subir e descer sobre pedras, ou ziguezaguear entre formações de lava que ainda mostram arestas vivas. Mais adiante há um ribeiro que corre, com dificuldade mas determinado, por entre os obstáculos do terreno; a sua água é gelada e sabe demasiado a minerais. A sensação de estar noutro planeta é constante, o cérebro tem dificuldade em processar o que os olhos vêem, tudo parece estranho, irreal. Intocado pela mão humana, é um dos lugares mais belos onde já estive.

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Podem ler mais sobre a Islândia nos posts já publicados com o Diário de uma viagem à Islândia e Coleccionar paisagens surreais na Islândia.

 

 

MONTANHAS DE MARAMUREȘ (ROMÉNIA)

 

O Parque Natural das Montanhas de Maramureș é a maior zona protegida dos Cárpatos romenos. Fica no extremo do centro-norte do país, junto à fronteira com a Ucrânia (para lá da qual a região de Maramureș se estende), e abrange uma área de 1500 km2, cuja maior parte (70%) está incluída na Rede Natura 2000. Aqui, a floresta é rainha, sobretudo alpina, com predominância de carvalhos e abetos.

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O pico mais alto em território romeno é o Fărcăul, com quase 2 mil metros, em cuja base se formou um dos dois lagos glaciares do parque, o Vinderel. A fragmentação morfológica é uma das características mais marcantes desta região natural, que a torna única nos Cárpatos. Há substratos geológicos calcários, xistosos, basálticos e de dolomita cristalina, entre outros. Os dois rios principais, o Vaser e o Ruscova, dividem a área montanhosa em três áreas, separadas por vales encaixados entre encostas muito íngremes. O do Vaser, com cerca de 60 km, é considerado um dos mais belos vales dos Cárpatos Orientais, e uma das formas de o conhecer – porque não existem estradas – é a bordo de um pequeno comboio a vapor que percorre a mocăniță, uma linha férrea em funcionamento contínuo desde há quase 100 anos, usada sobretudo para transportar troncos de árvores cortadas – a exploração madeireira é uma das principais actividades económicas da região – e mais recentemente também para passeios turísticos.

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A linha férrea estreita acompanha o curso do rio, por vezes cruza-o, e o comboio vai seguindo lentamente o seu percurso entre a água e a floresta exuberante, tão cerrada que quase não deixa passar os raios de sol. O ar é frio e cheira a terra molhada e a húmus. Praticamente não se vêem pessoas, apenas alguns lenhadores ou uma guardadora de vacas acompanhada pelos seus animais. O passeio na mocăniță é uma espécie de viagem ao passado. Nas Montanhas de Maramureș, o tempo flui ao ritmo de um comboio vagaroso, e a tradição ainda é muito do que era.

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Podem ler mais sobre a Roménia nestes posts já publicados: Um roteiro na Roménia, 10 razões para visitar a Roménia, Nos passos de Vlad Dracul, Dois dias em Bucareste, O melhor segredo da Roménia e Peleș, o palácio a que chamam castelo.

 

 

FLORES (PORTUGAL, AÇORES)

 

Apesar de a ilha pertencer desde 2009 à Rede Mundial de Reservas da Biosfera da UNESCO, o Parque Natural das Flores só foi criado dois anos depois. Engloba cerca de um terço da área total da ilha, repartindo-se em zonas protegidas de vários tipos, reservas naturais, geossítios, áreas da Rede Natura 2000, um Sítio Ramsar e um Monumento Nacional. Para pouco mais de 140 km2 de área, isto quer dizer muito. Quer dizer, por exemplo, que aqui existem duas das plantas mais raras do mundo, entre as mais de 50 que são endémicas do arquipélago dos Açores. Que há na ilha duas espécies endémicas de aranhas e uma de escaravelhos. Que esta é a ilha açoriana onde existe maior número de maars, ou crateras de explosão, de que são exemplo as lagoas Rasa, Funda, Negra e Comprida. Entre outras particularidades igualmente relevantes.

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E no entanto, saber tudo isto não nos prepara para o deslumbramento que a ilha provoca, sobretudo na região a que convencionaram chamar área protegida da zona central e falésias da costa oeste. No planalto central está incluída a Reserva Natural do Morro Alto, onde se situam quatro das sete lagoas da ilha das Flores. Na costa oeste estão as paisagens mais dramáticas, que se estendem sobretudo entre a Rocha dos Bordões, a formação prismática que é o ex libris da ilha, e a Ponta da Fajã. O maciço central termina numa arriba fóssil abrupta que chega aos 300 metros de altura em alguns locais, separado do mar pelas faixas larga de terreno plano a que dão o nome de fajãs.

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Desta arriba precipita-se a água de vários ribeiros, mais ou menos caudalosos, mas sempre com grande efeito. Uma destas cascatas é a do Poço do Bacalhau, bem visível ao longe, caindo pela falésia imponente do alto dos seus 90 metros. Nas proximidades começam (ou terminam) dois trilhos pedestres, um que liga a Fajã Grande às lagoas do planalto e outro que segue a linha da costa até Ponta Delgada, no extremo norte da ilha.

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Também na costa oeste, perto da Fajãzinha, fica a cascata da Ribeira Grande, a maior corrente cristalina da ilha, composta por vários saltos, dos quais o último é o maior e mais impressionante. Muito perto, o Poço da Ribeira do Ferreiro. Já capturado em milhares de fotografias e filmes, nenhum consegue verdadeiramente transmitir-nos a beleza que tem ao vivo. É um cenário perfeito, uma parede verde, larga e muito alta, quase a pique, por onde caem dezenas de fios de água que se juntam numa lagoa extensa onde está reflectida toda a paisagem em volta. Embora esteja a uns meros 500 metros da estrada, esconde-se atrás de uma floresta. É o lugar mais bonito da ilha das Flores e, para mim, um dos mais bonitos do mundo.

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Podem ler mais sobre a ilha das Flores noutros posts já publicados.

 

 

FRAGAS DO EUME (ESPANHA)

 

Situado quase no extremo norte da Galiza, o Parque Natural das Fragas do Eume é uma das maravilhas desta província. Em galego, fraga significa floresta com árvores de diferentes espécies, e esta que rodeia o percurso do rio Eume tem carvalhos e castanheiros, freixos, amieiros e teixos, bétulas, medronheiros, azevinhos, loureiros e até mesmo sobreiros, a somar a mais de 20 espécies de fetos e 200 espécies de líquenes. São 90 km2 de floresta quase virgem e praticamente desabitada, cheia de maravilhosos segredos.

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O parque tem oito percursos pedestres marcados e é acessível por quatro entradas diferentes. A principal, onde se encontra o Centro Interpretativo, fica perto da vila costeira de Pontedeume e leva-nos até ao Mosteiro de San Xoán de Caaveiro, que terá as suas origens algures entre os séculos X e XII. Embora seja possível chegar até quase ao Mosteiro de carro (fora da época alta) ou de autocarro (na Semana Santa e no Verão), para apreciar verdadeiramente a maravilha da natureza que é este parque há que fazê-lo a pé, seguindo simplesmente pela estrada ou optando pelo Camiño dos Encomendeiros, mais desafiante em alguns troços.

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Seja qual for a opção, é um passeio que enche a alma, sempre junto ao rio e entre árvores, altíssimas algumas, outras já reduzidas a meros troncos cobertos de líquenes ou musgo, passando por ribeiros que se precipitam pela encosta, ruidosos, saltando sobre as pedras, ansiosos por se juntarem ao Eume.

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Junto ao Mosteiro passa o rio Sesín, ao qual acedemos por uma ladeira empedrada para chegar à vetusta ponte que o cruza e às ruínas de um antigo moinho. O Sesín desdobra-se em vários cursos de água, cada um escorrendo entre pedras diferentes, ou saltando sobre elas, e nessas pedras nascem árvores e fetos. O ambiente é o de uma floresta encantada, e quase esperamos que de repente nos apareça um duende, zangado por o estarmos a incomodar. Os sortilégios da Galiza são muitos…

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Podem ler mais sobre este parque natural no post Na Galiza, entre mosteiros e fervenzas.

 

 

LAGOS DE PLITVICE (CROÁCIA)

 

É unanimemente considerado um dos parques naturais mais belos do mundo, e basta olhar para uma qualquer fotografia para perceber porquê. Os lagos de Plitvice (ou Plitvička Jezera, na língua croata) estão inseridos na região calcária dos Alpes Dináricos, numa área relativamente perto da fronteira da Croácia com a Bósnia e Herzegovina. Devido a vários factores de ordem geológica e hidrológica, são um dos mais impressionantes conjuntos cársicos do mundo: uma área de floresta densa com quase 300 km2, onde diversos pequenos rios e ribeiros confluem para formar uma bacia de 8 quilómetros de comprimento com 16 lagos que se sucedem uns aos outros, separados por cascatas.

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Criado em 1949 e tornado Património Mundial da UNESCO em 1979, o Parque dos Lagos de Plitvice recebe anualmente mais de um milhão de visitantes. Os lagos estão divididos em dois grupos, 12 superiores e 4 inferiores. O desnível entre o primeiro (Prošćansko jezero) e o último (Novakovića brod) – que se situa cerca de 500 metros acima do nível do mar – é de 150 metros. As águas são cristalinas e têm cores que vão do cinzento ao azul e verde em todos os tons imagináveis, mudando consoante a posição dos raios solares ou os tipos e a quantidade de minerais que nelas se acumulam.

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As suas características especiais fazem deste parque um fenómeno único em termos de abundância e diversidade da flora, com 1267 espécies de plantas já identificadas (incluindo plantas carnívoras), várias delas raras e até em perigo de extinção. Quanto à fauna, foram até agora registadas 157 espécies de aves, entre elas o melro-d’água (Cinclus cinclus), um pássaro raro que depende de habitats com água absolutamente limpa. O Parque abriga também 50 espécies de mamíferos, tais como arganazes, musaranhos, ouriços, martas, javalis, morcegos de 20 tipos diferentes, lobos, veados, linces, lontras, e o mais famoso de todos: o urso pardo.

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Existem 18 quilómetros de passadiços de madeira e trilhos de terra batida que serpenteiam em volta dos lagos e sobre as águas. Cada volta do caminho oferece um quadro diferente, cenários de beleza natural sucedendo-se um após o outro, vegetação aquática alternando com bosques de árvores altíssimas. Nos meses mais quentes vêem-se borboletas e pássaros, e em certas zonas há peixes em abundância e patos. No Inverno o Parque torna-se branco de neve e as águas gelam em muitos pontos, mas o seu fascínio em nada diminui. Visitar o Parque dos Lagos de Plitvice é passar um dia no paraíso.

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Podem ler mais sobre este parque natural no post Os Lagos de Plitvice ou como passar um dia no paraíso.

 

 

RIA FORMOSA (PORTUGAL)

 

A Ria Formosa estende-se desde a praia do Garrão, perto de Faro, até Manta Rota e é uma das áreas mais fascinantes e ricas em biodiversidade do sul de Portugal, além de ser a zona húmida mais importante desta região. Apesar dos seus cerca de 180 km2, possui uma variedade incomum de habitats naturais, entre dunas e bancos de areia, sapais, áreas de pinhal, agrícolas e lagunares. Inclui cinco ilhas, que separam a ria do oceano, e a sua paisagem muda consoante as marés. É paraíso para um grande número de espécies de aves migratórias e terreno fértil para muitas actividades económicas, ligadas sobretudo ao meio aquático.

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Até há poucos anos foi o melhor segredo do Algarve, e conseguiu manter-se uma bolha de relativa tranquilidade mesmo no pico da época de veraneio. Entretanto, quase de repente, saiu do anonimato, sobretudo por causa daquela que é uma das mais bonitas aldeias portuguesas: Cacela Velha. A aldeia e a ria aos seus pés são um cartão-postal em tons de azul-verde com manchas de areia quase branca, onde nem sequer faltam apontamentos de cor viva dados pelos barcos tradicionais de madeira.

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Dos encantos da Ria Formosa fazem também parte outros lugares menos fotografados, mas não menos fascinantes: o recorte irregular e mutável das areias da Fuseta; a praia do Barril, com o seu cemitério de âncoras e o comboiozinho que nos transporta e parece de brincar; o casario tradicional de Olhão e os seus mercados; Tavira, o rio Gilão e as salinas; o peixe e marisco que fazem as nossas delícias. É rio que cheira a mar, e mar que às vezes parece rio e raramente se rebela. Mesmo que o céu esteja cinzento e a chuva ensope a areia, na Ria Formosa o Verão parece eternizar-se.

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Podem ler mais sobre esta região no post Um outro Algarve.

 

 

CAMARGA (FRANÇA)

 

No sul de França, ao desaguar no mar Mediterrâneo, o Ródano forma um delta que tem vindo a moldar, ao longo dos séculos, uma paisagem substancialmente plana. Este é o maior delta do território francês. Os seus ecossistemas têm uma riqueza biológica notável, e está situado no eixo migratório das aves que transitam do norte da Europa para África, constituindo um ponto de paragem vital para as mais de 150 mil aves por ali passam anualmente.

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Para proteger esta zona húmida de excepcional importância, classificada pela UNESCO como reserva da biosfera, foi criado em 1970 o Parque Natural Regional da Camarga, que se estende por mais de 1300 km2 (em terra e no mar), com 75 km de frente marítima. Região fértil e muito cultivada, protegida das grandes variações tanto do rio como marítimas por um longuíssimo dique construído para o efeito no final do século XIX (la digue à la mer), a paisagem da Camarga tem sido modelada tanto pela natureza como pela intervenção humana, que se nota sobretudo nos aglomerados populacionais (uns mais discretos do que outros), nos arrozais e nas salinas.

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Desta interacção entre o rio, o mar e o Homem resulta uma região pouco povoada, onde há mais animais do que pessoas, e com uma cultura muito própria. A maior parte da actividade económica (turismo excluído) está ligada às suas especificidades naturais: além da produção de sal e arroz, criam-se aqui cavalos e touros, apanha-se peixe e marisco.

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Um dos lugares mais extraordinários que é possível visitar na Camarga é o Parque Ornitológico de Pont de Gau – provavelmente o local onde existe a maior concentração de aves por metro quadrado, sobretudo flamingos. O parque tem duas lagoas, com trilhos pedestres fáceis de percorrer e devidamente sinalizados. A enorme colónia semi-permanente de flamingos ocupa um deles quase em exclusividade, e é fascinante observá-los e ouvir a sua “refilice” constante – parece que estão sempre zangados com qualquer coisa. Mas também conseguimos ver facilmente garças, milhafres, guinchos, pernilongos, pernas-verdes e alfaiates, além de patos e cisnes. Para lá da vertente turística, o parque funciona como centro de acolhimento e tratamento para aves selvagens feridas, cuidando de uma média de 600 aves por ano, das quais quase metade são devolvidas à liberdade após estarem curadas. Um verdadeiro santuário da vida selvagem.

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Podem ler mais sobre esta região no post Um cheirinho a sul de França - III - Camarga.

 

***

Poder usufruir hoje em dia de espaços como estes, que satisfazem a nossa necessidade de contacto próximo com o que é mais genuíno e original no planeta que habitamos, só é possível porque estão institucionalmente protegidos. E mesmo assim, tantos deles são frequentemente alvo de desrespeito, vandalizados, destruídos pelo fogo ateado por mão humana, descurados, ou devastados por motivos de ambição económica. É, por todas estas razões e muitas mais, imperativo que as gerações mais jovens sejam educadas a considerá-las como tesouros que urge preservar a todo o custo.

 

(Também publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Viagens e sustentabilidade

Ana CB, 24.04.23

Sustentabilidade: é uma das palavras do século, e certamente continuará a ser. Mas corre o risco, tão (e às vezes mal) usada que tem sido, de se tornar apenas “ruído” e acabarmos por não lhe dar a importância necessária ou, pior ainda, de nem sequer a ouvirmos.

 

Pensando no assunto de uma forma geral e sem complicar demasiado, qual é afinal a importância da sustentabilidade? À primeira vista, parece ser uma questão de poupar os recursos naturais do planeta, que suspeitamos serem finitos, de maneira a não pormos em causa a viabilidade das gerações futuras. No entanto, a História mostra que o engenho humano tem conseguido contornar este problema ao longo dos séculos, inventando e fabricando novas matérias que vão substituindo as que antes buscava na natureza — bastas vezes precisamente à custa da degradação do meio ambiente e da redução da diversidade biológica. E aqui estarão provavelmente as maiores questões de fundo: se continuarmos por este caminho, o que é que vai acontecer às outras espécies que existem na Terra? E mesmo que sobrevivamos à extinção, qual será a nossa qualidade de vida?

1 Reserva Laguna Nimez, El Calafate, Argentina.JPG

Depois, há ainda a argumentação esgrimida por quem só olha para o seu próprio umbigo e não está para se preocupar com teorias rotuladas de new age, nem quer abrir mão dos seus privilégios, por muito insignificantes que sejam: num universo de sete mil milhões de pessoas, os meus gestos são uma gota de água no oceano e não vão fazer qualquer diferença. Ou a versão “o planeta está condenado e já não há retorno, portanto não vale a pena o esforço”. Egoísmo puro disfarçado de lucidez, que esquece propositadamente outras verdades bem mais óbvias: o exemplo (para quem connosco convive e sobretudo para as crianças) deve começar por nós próprios; e se cada um fizer a sua parte, o resultado global terá forçosamente algum impacto. No limite, se outra razão não houver, resume-se a uma questão de coerência.

 

É claro que no actual contexto socioeconómico em que vivemos, e a não ser que queiramos tornar-nos eremitas, não é possível assumir posições radicais. Para sermos completamente “ecológicos” teríamos de adoptar o modo de vida dos caçadores-recolectores, e mesmo assim talvez o resultado não fosse o pretendido. O que funcionava há 20 mil anos para uns quantos milhares de homo sapiens talvez não funcionasse hoje assim tão bem para uma enorme quantidade de seres humanos.

 

Portanto, a partir do momento em que não nos limitamos a ficar quietinhos no nosso canto, e sobretudo quando decidimos ou temos de viajar, por razões profissionais, familiares ou de lazer, as viagens passam a constituir uma parte do problema, e está nas nossas mãos tentar diminuir o impacto negativo que a nossa decisão irá certamente ter.

 

Manter o básico

 

Uma viagem, sobretudo se for em “modo férias”, é uma oportunidade para sair da rotina e relaxar, mas não é desculpa para de repente esquecermos as boas práticas que adoptámos para a nossa vida diária.

2 Parque Tierra del Fuego, Ushuaia, Argentina.JPG

Comportamentos que já fazem parte dos nossos hábitos — como tentar poupar água e energia, fugir das compras por impulso, ser um consumidor consciencioso — não deixam de ser válidos só porque estamos num meio ambiente que não é aquele em que vivemos todos os dias, ou porque a intenção é descansar, ou porque os costumes locais são diferentes dos nossos. Se estou num sítio em que as ruas têm lixo por todo o lado, isso não justifica que eu passe a atirar papéis ou embalagens para o chão. Se reduzi o meu consumo de carne por causa da pesada pegada ecológica que a sua produção implica, não vou passar a comê-la a todas as refeições só porque estou noutra região ou país. Se em casa mudo a toalha de banho duas vezes por semana, não vou pedir que num hotel me disponibilizem toalhas novas todos os dias. Se levo os meus próprios sacos quando vou fazer compras ao supermercado no dia-a-dia, então também não custa nada meter na bagagem um ou dois saquinhos reutilizáveis para quando precisar de comprar comida ou qualquer outra coisa.

 

Viajar com consciência

 

Hoje em dia, cada vez dou mais importância à forma como viajo e aos destinos que escolho, e tento guiar-me por algumas regras (que são princípios, não espartilhos) globalmente reconhecidas como contribuindo para um turismo sustentável. O facto de algumas delas permitirem também uma redução nos custos das minhas viagens é um bónus que não desprezo.

 

- Não viajar de avião para distâncias inferiores a 600 km

- Pela mesma ordem de razão e sempre que possível, usar o comboio ou o autocarro para cobrir estas distâncias mais curtas

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- Nas localidades (mesmo que sejam cidades grandes), usar os transportes públicos e andar a pé, ou de bicicleta

- Optar por destinos menos pressionados pelo turismo de massas

- Se o destino for muito popular, tentar visitá-lo fora da época alta (a conta bancária agradece, e a ausência de confusão vai melhorar a experiência)

- Para as actividades e visitas guiadas, optar sempre que possível por pessoas ou pequenos operadores da própria localidade; privilegiar actividades que contribuem genuinamente para os residentes em vez das “armadilhas para turistas”

4 Rio Malanza, São Tomé.JPG

- Preferir alojamentos locais aos grandes hotéis; independentemente dessa opção, preferir alojamentos que assumem práticas sustentáveis

- Escolher restaurantes que propõem cozinha tradicional (em vez da omnipresente fast food), melhor ainda se forem de gestão familiar

- Para os souvenirs obrigatórios, dar preferência ao artesanato local ou às pequenas lojas

5 Gente d'Aqui (Ngê D'ai êê), Plano de Água Izé, São Tomé.jpg

- Viajar com pouca bagagem (menos esforço físico, menos peso no veículo de transporte, e consequentemente menos gasto de combustível — além da poupança no preço do bilhete, no caso dos voos low cost)

- Visitar parques e áreas protegidas (o preço da entrada reverte habitualmente para a conservação do lugar como habitat natural), e visitar locais que precisam de apoios para a sua recuperação (por exemplo, após um desastre natural)

6 Morro Peixe, São Tomé.JPG

Depois, há aqueles princípios essenciais tão divulgados que já nem deveria ser necessário falar neles, mas que ainda assim continuam a ser tantas vezes ignorados, como levar uma garrafa de água reutilizável e evitar bebidas e alimentos embalados em plásticos, ou não sair dos trilhos marcados quando fazemos uma caminhada na natureza, nem colher plantas ou minerais (sabiam que há inúmeros lugares de onde é proibido levar nem que seja um frasquinho com areia?). A não ser quando desejável ou solicitado, o objectivo será deixar o mínimo possível de vestígios materiais da nossa passagem por onde quer que seja.

 

Viajar devagar e tentar permanecer mais tempo num mesmo lugar, por oposição a colapsar uma grande quantidade de destinos visitados num roteiro de poucos dias, é outra forma de contribuir para a sustentabilidade de uma viagem — mais ainda se vamos para muito longe do lugar onde vivemos. É mais sustentável viajar menos vezes, mas durante mais tempo sem interrupção, do que muitas viagens curtinhas. Pessoalmente, cada vez tenho menos apetência por viajar com pressas, e mesmo com número limitado de dias de férias por ano opto por estadias mais longas num mesmo lugar, sempre que possível. Desacelerar maximiza o efeito de relaxamento e permite-me uma experiência mais imersiva. Tenho mais tempo para conhecer o sítio onde estou, descobrir qual é o meu café ou esplanada preferida, perceber como funcionam os transportes públicos, demorar-me num museu ou passar um dia inteiro num parque natural, começar a interagir com pessoas da vizinhança ou que estão alojadas no mesmo sítio. A experiência torna-se mais memorável para mim e traz mais benefícios para os pequenos negócios locais.

8 Casa Almada Negreiros, São Tomé.jpg

Uma viagem é também uma boa oportunidade para sair do registo “pré-programado” em que vivemos habitualmente, e ver os nossos gestos e intenções de uma outra perspectiva, com um novo olhar. Estar num lugar que nos é estranho dá-nos a possibilidade de trocar a atenção passiva que impregna as nossas rotinas por uma atitude efectiva de prestar atenção ao que fazemos e porquê. O encontro com outros ambientes, costumes, climas ou ritmos de actividade é ideal para nos pôr a pensar sobre as nossas próprias atitudes.

 

Ética e responsabilidade social

 

A sustentabilidade em viagem não se resume à mera redução da nossa pegada ambiental. Há outros factores a ter também em conta. O objectivo geral do turismo sustentável é conseguir um equilíbrio entre ambiente saudável, bem-estar humano e crescimento económico. Sendo certo que o turismo é um instigador da economia e, nessa perspectiva, beneficia as comunidades, há que procurar extrair o máximo dos seus efeitos positivos, ao mesmo tempo que se tenta reduzir o seu potencial impacto negativo.

 

Um dos temas mais abordados em discussões recentes tem a ver com a exploração animal para diversão turística. Há cada vez mais pessoas a recusarem actividades que impliquem de alguma forma o cativeiro e adestramento de animais que, por princípio, deveriam andar em liberdade e ser protegidos, em vez de usados para entretenimento ou como troféus fotográficos — e este é um passo em frente que, se tudo correr bem, dentro de alguns anos já não terá retorno. Mas, em muitos países, a indústria do turismo é implacável, e quem vive dela não vê com bons olhos esta perda de rendimento, sobretudo nos países mais carenciados. Aproveitando a corrente, “santuários” e “reservas” estão a surgir como cogumelos, na tentativa de substituir uma forma de fazer dinheiro por outra. Contudo, em muitos destes lugares as práticas de alojamento e tratamento dos animais não diferem grandemente das anteriores, e por isso temos de ser extremamente criteriosos na escolha deste tipo de locais a visitar.

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Por igual ordem de razão, em passeio por parques naturais e florestas, as regras mais importantes são respeitar a vida selvagem e interferir o mínimo possível: evitar a proximidade, não alimentar os animais, falar baixo para não os assustar. Nestes ambientes, está em causa não só o equilíbrio dos ecossistemas, mas também a nossa própria segurança.

10 Parque Tierra del Fuego, Ushuaia, Argentina.JPG

E no capítulo do respeito, ele é essencial também quando interagimos com pessoas de culturas diferentes da nossa. Respeitar as normas sociais e legais do lugar onde estamos, mesmo quando não concordamos com elas, é obrigatório. Tal como obrigatório é não tirar fotografias a pessoas sem lhes pedir autorização, ou ter a preocupação de saber antecipadamente se há gestos ou palavras que possam ser ofensivos em determinados países ou comunidades, mesmo que para nós não o sejam.

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Aprender algumas palavras da língua do país que visitamos é igualmente uma forma de respeito e de mostrar que temos interesse pela cultura do outro. E, como é óbvio, se visitar um qualquer local nos for interdito (por questões religiosas, por exemplo), ou se não for permitido fotografar ou filmar — e mesmo que o motivo por trás dessa impossibilidade seja apenas a exploração económica do turista — temos simplesmente de acatar a proibição, em vez de tentar contornar o sistema.

 

Em territórios onde os problemas financeiros se sobrepõem a tudo o resto, é comum os residentes habituarem-se a pedir dinheiro ou comida aos forasteiros, mesmo que a fome não seja o seu maior problema. Por trás da mendicidade como forma de vida podem estar questões várias que não terão a ver com necessidades básicas, e dar dinheiro, doces ou brinquedos é quase sempre contraproducente, pois perpetua uma conduta em vez de resolver o problema. Podemos até estar a contribuir para uma forma encapotada de tráfico humano. Em alternativa, o ideal será fazer um donativo a uma organização credível que apoie o desenvolvimento local, a educação ou a aquisição de competências, ou que dê assistência a grupos minoritários ou sectores mais desfavorecidos da população.

 

Procurar que as nossas viagens sejam mais sustentáveis é vantajoso a todos os níveis: oferece a quem viaja a possibilidade de experiências mais originais, significativas e culturalmente mais interessantes; incrementa as economias locais, apoiando tradições genuínas e instigando o desenvolvimento de infra-estruturas e padrões de vida; e ajuda a preservar o ambiente e a natureza.

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Pese embora a resolução das questões candentes associadas à sustentabilidade pareça uma tarefa hercúlea, possível e desejável é, pelo menos, termos consciência de que existe de facto um problema e é preciso fazer alguma coisa. E de que o que fazemos, por mínimo que pareça, é importante: pormenores aparentemente insignificantes podem constituir a diferença.

Pensamento da semana

Ana CB, 02.04.23

Viajar é, à partida, um bom antídoto contra a intolerância. Falo, é claro, das viagens mais imersivas, onde se contacta com a cultura e o modo de vida de cada local (e não de uma mera estadia num qualquer resort blindado contra a realidade que o rodeia). Mas viajar também cria por vezes em mim – como mulher, portuguesa, europeia, e produto do século XX – sensações de incompreensão, frequentemente associadas às de impotência.

Incompreensão ao constatar como o mundo parece girar a velocidades diferentes consoante a cultura em que estamos, como a pobreza corta (ou serve de desculpa para cortar) o acesso à educação mas não aos modelos de smartphone mais recentes, como a vaidade exterior consegue coabitar com o desleixo, o lixo, e até mesmo a falta de compaixão. Impotência por perceber que mesmo quando nos exprimimos numa língua comum, o fosso que me separa desses outros é tão grande que sou olhada como se falasse uma língua diferente, talvez alienígena, e não há entendimento possível.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Entroido galego

Ana CB, 21.03.23

Há poucos anos, indo eu a caminho de Allariz para conhecer o seu Festival Internacional de Xardíns, calhou fazer uma paragem técnica para almoço em Verín, terrinha galega que fica a menos de uma vintena de quilómetros de Vila Verde da Raia. Da refeição não ficou grande memória e a vila não parecia ter um interesse desmedido, mas depois de comer decidi dar uma volta pelo centro histórico – já que ali estava, mais valia aproveitar. Num pequeno largo onde desaguavam umas ruelas, deparei-me com uma escultura de tamanho considerável que reproduzia uma figura mascarada algo estranha. Nestas coisas de estátuas o tamanho anda geralmente a par da importância, por isso quando voltei a casa fiz umas pesquisas online e descobri que a personagem imortalizada em pedra tem o curioso nome de Cigarrón. E descobri também que o dito cujo é a figura típica do que, para minha grande surpresa na altura, percebi ser o mais famoso de vários Carnavais galegos que fazem parte das Festas de Interesse Turístico oficiais do país nosso vizinho.

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Na bela língua galega (adorável por ser tão ciciada e ter tantos “xis”, e também por ser tão parecida com o português), não há Carnaval mas sim Entroido. São muitas as terras da Galiza que celebram a preceito esta época, com as folias a começarem várias semanas antes da terça-feira calendarizada. A tradição tem raízes documentadas pelo menos desde o século XIII e ao longo do tempo as festas foram crescendo em duração, importância e diversidade. De celebração rural num único dia, os seus excessos pagãos admitidos pela fé católica em vésperas de Quaresma jejuadora, o Entroido transformou-se em festa máxima, repartida por vários fins-de-semana, preparada com brio e publicitada como chamariz turístico. Cada localidade desenvolveu os seus próprios hábitos, calendário e figuras particulares, mas persistem algumas tradições comuns. Há os dias dedicados aos “compadres” e às “comadres”, bonecos feitos habitualmente com roupas velhas que eram exibidos e disputados em guerras de sexos animadas*, e cuja designação se ampliou para incluir gente de carne e osso – eles e elas frequentemente com disfarces que imitam o sexo oposto. Há as batalhas de farinha, que não poupam ninguém. Há as charangas e os gaiteiros, que não se poupam a esforços para animarem os foliões. E há os desfiles, encabeçados pelas figuras típicas que cada localidade criou para se distinguir das demais.

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Os Entroidos galegos mais famosos são os de Verín, Xinzo de Limia e Laza. Dizem que a curiosidade matou o gato, e eu devo ter um gene felino porque o que li sobre estas festas deixou-me curiosa. Este ano decidi ir conhecer in loco as festividades carnavalescas de Verín e Xinzo, perceber se a publicidade que lhes é feita se justifica. E (spoiler alert!) diverti-me mesmo.

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Em Verín, o dia do desfile principal é o domingo. Com início previsto ao meio-dia, antes das 11 da manhã já os vários estacionamentos da localidade – e são muitos, todos gratuitos – estavam praticamente a abarrotar, e não paravam de chegar autocarros repletos de gente. Com a sorte que não costumo ter no que toca a estacionar, consegui milagrosamente arranjar um sítio onde deixar o carro num dos parques mais centrais. O movimento de gente desaguava na Avenida de Castilla, àquela hora já parcialmente cortada ao trânsito automóvel e policiada, com as pessoas a começarem a ocupar os passeios para terem a certeza de que não iriam perder pitada do desfile. A quantidade de mascarados era impressionante, desde aqueles que se limitavam a uma cabeleira ou uns óculos excêntricos até famílias inteiras fantasiadas a rigor, incluindo bebés de colo. Os disfarces mais populares eram sem dúvida os macacões com formas de animal que agora se usam como pijama – o que é perfeitamente compreensível e muito razoável quando a temperatura do ar está nos antípodas da do Brasil nesta época do ano. Mas havia também fantasias muitíssimo elaboradas, dignas de um Carnaval de Veneza.

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Não tenho muita paciência para ficar quieta à espera, por isso fui dar uma volta pelo centro histórico. Na Praza Garcia Barbón, o coração da localidade, um enorme painel publicitava o Cigarrón como “Figura central do mellor Entroido do mundo”, expondo imagens de uma centena de máscaras diferentes usadas pelas pessoas que encarnam a figura carnavalesca típica de Verín. A origem desta personagem é incerta mas, segundo alguns estudiosos, remonta ao século XVI e evoca a figura dos odiados cobradores de impostos: esbirros ao serviço dos senhores feudais, que percorriam as aldeias para colectarem as rendas devidas pelos vassalos e, para serem mais intimidantes, usavam máscaras demoníacas inspiradas nas dos indígenas peruanos e um chicote para açoitarem quem se recusasse a cumprir com o seu dever.

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Ser um Cigarrón é uma honra transmitida de pais para filhos. Com o seu látego, impõe a ordem entre o público e ninguém pode tocar-lhe nem faltar-lhe ao respeito. O “Baptismo do Cigarrón” é um dos momentos altos das festas, habitualmente realizado no sábado de Entroido em acto solene na Praza de Mercede, quando os jovens candidatos são empossados, aprendem a vestir-se correctamente e colocam, pela primeira vez em público, a careta (máscara) que irão usar. As máscaras são feitas artesanalmente de madeira e pintadas com um rosto naif em que sobressaem as rosetas vermelhas, sobrancelhas carregadas, um bigode retorcido, um sorriso descarado e uma barba falsa. Agarrada à máscara e em jeito de chapéu, uma mitra onde é pintada a imagem de um animal autóctone, diferente para cada membro da Associação. O traje é complexo: calções com borlas e meias arrendadas presas com ligas, jaqueta com fitas e galões coloridos, um pequeno xaile pelas costas e faixa larga de cor viva à cintura, sobre a qual usam um cinto com seis chocalhos pendurados na parte de trás**.

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É o ruído quase atroador destes chocalhos que anuncia o início do desfile, com muitas dezenas de Cigarróns em corrida ritmada a abrirem caminho para os comparsas e as charangas. Há-os de todas as idades, os mais pequenos sem máscara, os mais velhos todos do sexo masculino, várias raparigas e meninas a fazerem já parte dos grupos dos mais novos – prova de que a mudança é inevitável mesmo nas tradições mais antigas. Enquanto durou o desfile, os Cigarróns foram incansáveis, com idas e vindas em pequenos grupos ao longo da avenida, mantendo o público confinado aos passeios de forma a não se atravessarem no caminho dos que desfilavam. Lá como cá, nem sempre o respeito impera.

Os desfiles destes Entroidos são (felizmente!) simples e pouco sofisticados, mas muito cheios de imaginação. Não há grandes carros alegóricos nem meninas em biquíni, as lantejoulas e os brilhos não ferem os olhos, mas não faltam animação e originalidade. No de Verín houve gaiteiros pediatras e utentes de um lar, piratas e fadas dos bosques, irredutíveis gauleses da banda desenhada, Flinstones, esquimós e gente das Arábias, veículos improvisados e outros construídos com engenho, charangas mais ou menos afinadas e moçoilos com kilts tocando e dançando em estilo “zumba no ginásio”, crítica social e ofertas de trabalho, matrafonas e motards. Uns com mais energia e espírito folião do que outros, os comparsas vão avançando enquanto dançam, tocam, pedalam, revolteiam e animam o público durante cerca de uma hora bem passada.

 

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Ainda o desfile não estava terminado, a maior parte das pessoas começaram a debandar, enfiando-se pelas ruas perpendiculares à avenida. “Entroideira” de primeira viagem, quase não me apercebi a tempo do que aí vinha: a farinhada. Em poucos instantes, ao som do rufar dos bombos, o ar encheu-se com o branco da farinha atirada com genica pelos comparsas menos desejados do desfile. Mesmo tendo conseguido distanciar-me alguns metros da confusão, não me livrei de ficar meio empoeirada. O baptismo tradicional é com água, no Entroido de Verín é com farinha. E até que tem graça!

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Depois do desfile, os turistas foram peregrinar pelas ruas do centro histórico. São obrigatórias as fotos ao pé da estátua do Cigarrón, tal como com algum dos de carne e osso que continuam aos pulos de um lado para o outro mesmo após o desfile. Os habitués não perderam tempo com estas coisas, foram directos para a Garcia Borbón e atiraram-se à cerveja e a qualquer coisa que se comesse em pé, juntando-se em grupos palradores enquanto as charangas se iam instalando na praça e debitando cantoria à vez. Os restaurantes encheram-se com os cautelosos que tinham marcado mesa, e os incautos tiveram de esperar muito tempo à porta ou simplesmente não conseguiram comer. E a festa continuou pela tarde e noite adentro, com a música a ouvir-se a quilómetros de distância – mais propriamente no Castelo de Monterrei, que fica a um quilómetro e meio em linha recta (transformado em mais de quatro pela estrada), que eu e muitos outros optámos por visitar em alternativa.

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Após um dia de interregno para ver outras paisagens (que isto de folia carnavalesca para mim tem de ser em doses homeopáticas), terça-feira foi o dia de ir até Xinzo de Limia. Vila também sem interesse desmedido, é contudo aqui que se encontra o Museo Galego do Entroido, criado para preservar as tradições carnavalescas da região – as que se mantêm, e as que se perderam. Durante os quase quarenta anos de ditadura franquista em Espanha muitos festejos tradicionais foram proibidos, entre eles os Entroidos galegos. Alguns foram sobrevivendo à revelia e regressaram em força nos anos 80, outros acabaram por desaparecer completamente, e tenta-se agora que sejam recuperados.

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O Entroido de Xinzo arroga-se ser o mais longo de Espanha, com a animação a começar mais de um mês antes do Carnaval oficial. O programa das festas estende-se por cinco fins-de semana seguidos e este ano tiveram início em fins de Janeiro com o Sábado do Petardazo (música e dança até de madrugada) e o Domingo Fareleiro, uma farinhada colectiva que tem lugar ao fim da tarde na Praza Maior.

 

Em Xinzo de Limia, as figuras centrais do Entroido são os Pantallas. Sobre eles, existe a teoria de que a sua origem remontará à época celta, representando um druida agregador dos poderes religioso, judicial e social. Talvez por essa razão, a máscara típica destes ícones locais – que também é feita artesanalmente, em pasta de papel ligada com água e farinha – inclui um barrete com ponta curva que se enrola para frente, decorado com motivos astrais e geométricos. Por baixo, um rosto meio demoníaco, com olhos protuberantes, cornichos e um bigodinho torcido nos extremos que faz lembrar a personagem principal da novela gráfica “V de Vingança”. A fardamenta tem como base o branco da camisa e das calças, presas do joelho para baixo por polainas negras. O colorido fica por conta da capa, quase sempre vermelha (mas também as há em negro, azul, verde), com franjas, rosetas e fitas de cetim em várias cores, e da faixa na cintura, onde estão presos vários sininhos.

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Mas o barulho mais característico dos Pantallas é o que ouvimos quando fazem chocar as duas grandes bexigas de vaca cheias de ar que levam nas mãos. A ideia é assustarem o público, e acompanham as batidas com saltos, cabriolas e uns bramidos guturais. Manda a tradição que se encontrarem algum homem que não esteja mascarado, o rodeiem e obriguem a ir até um bar para pagar uma rodada de copos de vinho. Se for uma mulher, deverão dançar à sua volta, envergonhando-a.

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À espera do desfile, o momento ternurento ficou por conta de um miúdo bem pequenino, vestido a rigor com o traje dos Pantallas, que insistia em escapar-se aos adultos e correr pela avenida, abanando as suas bexigas de vaca – certamente já a preparar-se para exibições arrojadas em pleno desfile daqui por uns anitos.

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E por falar em desfile, o de Xinzo de Limia abriu com um buggy verde alface conduzido por um marinheiro e levando a bordo uma figura presidencial (quiçá real), atestando desde o início a solenidade da ocasião. Logo atrás vinham os Pantallas e a sua banda sonora de sininhos e batuques secos, seguidos por umas senhoras com gigantescas couves-galegas nas mãos, que insistiam em dar a provar (cruas!) aos espectadores, e depois por um grupo misto de gaiteiros com vestes vagamente medievais e barretes com cornos.

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A partir daí, foi sempre a subir em termos de diversão, e houve alturas em que chorei de tanto rir. Agricultores em greve que “emigraram” para Portugal; uma brigada de limpeza que trabalhava rente ao chão, às voltas, de barriga para baixo sobre placas de madeira com rodinhas; quatro irmãos travestidos de donas-de-casa, com mímicas engraçadas nas suas varandas móveis, sacudindo o pano do pó ou bebendo directamente de uma garrafa; cavaleiros de competição montados em póneis cheios de originalidade, revoluteando até desabarem no chão de cansaço; uma corrida de triciclos (perdão!) karts; um animado grupo de bem vestidas majoretes, na sua maioria barbadas, de sombrinhas coloridas nas mãos e um impecável esquema de desfile; uma divertidíssima mesa de snooker onde se disputava um jogo difícil… porque as bolas eram pessoas pouco obedientes e às vezes recusavam-se a entrar no buraco; um grupo de prisioneiros que decidiu fugir do seu carro alegórico/prisão; e até uma recriação bem-humorada de “O Resgate do Soldado Ryan”. Tudo isto intervalado com charangas, grupos elegantes de comparsas mascarados, e outros quadros figurativos representados com muita imaginação. No final, vários automóveis antigos, com os seus ocupantes também disfarçados a rigor.

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Em resumo: diversão a valer, e os músculos da cara doridos de tanto rir. A tradição carnavalesca na Galiza está de boa saúde e recusa os estereótipos importados de outras latitudes. As festas continuam a ser do povo e para o povo – gratuitas e abertas a todos, tanto participantes como público. Proibições ditatoriais não as mataram, e uma pandemia também não parece ter-lhes retirado força.

 

Por motivos profissionais, a minha escapadinha carnavalesca teve de ficar por aqui. Se tivesse ficado mais um dia poderia ter assistido ao Enterro da Sardinha, cerimónia “solene” que marca o final do Entroido e início da Quaresma. Há uma procissão nocturna, seguida da leitura do testamento da defunta (reproduzida em papel), que depois é queimada. Tal como na vida real, a cremação está a tornar-se mais popular do que o enterro. E o que é que uma sardinha, bicho capturado no Verão, está a fazer numa festa de Fevereiro? Também neste caso, as origens do costume são incertas, e há versões diferentes. Uma diz que se deve à confusão linguística de “sardiña” com “cerdín”, nome de um canal madrileno onde um porco era enterrado antes da Quaresma; outra diz que um rei mandou servir sardinhas nos festejos do fim do Entroido, mas estava muito calor e as sardinhas estragaram-se, por isso houve que enterrá-las para evitar o cheiro a peixe podre. Seja qual for o motivo, o costume pegou e dura até hoje. É mais uma das características peculiares dos Carnavais galegos.

 

O Entroido é celebrado em quase duas centenas de localidades galegas, com personagens e singularidades próprias em muitas delas. Algumas destas festas ganharam tanta popularidade que já são consideradas como muito importantes para o turismo do país. Os Entroidos de Verín e de Xinzo de Limia estão oficialmente classificados como “Festas de Interesse Turístico Nacional”, e outros cinco como “Festas de Interesse Turístico da Galiza”: os de Cobres, Laza, Viana do Bolo e Manzaneda, e os Xenerais da Ulla, que percorrem 30 lugares em oito concelhos da região.

 

De ritual pagão a festividade religiosa, em boa parte do mundo o Carnaval é uma das celebrações mais antigas, reflexo de características comuns a toda a raça humana: a alegria e a gratidão por existirmos neste planeta, e por aquilo que ele nos proporciona. Se isso não é motivo para festejar, não sei o que será.

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* Esta tradição também existe em Portugal e mantém-se pelo menos parcialmente viva. Neste fim-de-semana alargado por terras raianas, encontrei “comadres” e “compadres” em Pitões da Júnias, onde o Carnaval também estava a ser celebrado a preceito.

 

** O traje e a máscara dos Peliqueiros de Laza são, aos olhos de uma leiga como eu, idênticos aos dos Cigarróns. No entanto, os puristas mais entendidos dizem que há algumas pequenas diferenças.

Portugal, outras paisagens

Ana CB, 14.02.23

 

A geografia de Portugal é tão variada quanto o somos nós, portugueses, e a nossa cultura. Este pequeno rectângulo da Europa, com fronteiras delimitadas pelo mar e pelo seu povoamento, a que se juntam dois punhados de ilhas e ilhéus no Atlântico, tem uma diversidade paisagística tão imensa que surpreende até mesmo quem já lhe conhece mais ou menos bem os “cantos à casa”.

 

Conjunto de antigo e moderno, numerosas praias de macias areias e extensas campinas verdejantes, testemunho de uma história herdada dos seus antepassados fenícios, gregos, romanos e árabes: assim é Portugal, terra acolhedora, perfumada pelas flores.” – e é assim que o jornalista e escritor André Visson (1899-1971) começa o artigo que escreveu em 1954 sobre Portugal, com o título A Garden by the Sea (traduzido como Jardim da Europa à beira-mar plantado n’O Grande Livro das Viagens publicado pelas Seleccções do Reader’s Digest, e sobre o qual já falei no meu post O culpado). Quando Visson escreveu isto Portugal era apenas mais um país minúsculo e pobre num continente que ainda lambia as feridas da mais recente guerra, e este retrato permaneceu inalterado durante décadas. Milhares de rotações terrestres e terabytes de avanços tecnológicos depois, o nosso país passou de ilustre desconhecido a coqueluche do turismo mundial, e basta uma ligação à Internet para perceber que a oferta paisagística de Portugal vai muito além das praias de areias macias e campinas verdejantes. Milhões de fotografias, divulgadas em tudo o que é website ou rede social, testemunham a variedade e riqueza do nosso património geográfico e provam que uma viagem no nosso tão pequeno país é como olhar para dentro de um caleidoscópio – a cada curva do caminho, a paisagem muda, surpreende, e nunca nos aborrece.

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E no entanto, grande parte de toda a publicidade que é feita a Portugal parece focar-se essencialmente nos mesmos lugares, que são replicados fotografia atrás de fotografia com ligeiras variações, mais ou menos Photoshop, mais ou menos saturação de cor, luz matinal ou do entardecer, ângulo mais ou menos aberto… Não discuto aqui o merecimento destas escolhas, e de muitos deles também já falei noutros posts. Mas hoje apetece-me falar de outras paisagens portuguesas, igualmente inspiradoras, igualmente importantes, igualmente dignas de serem vistas mais uma vez, em fotografia e depois ao vivo, e que estão muito menos divulgadas. Cada uma delas tem características próprias, por vezes únicas, e contribui para enriquecer a diversidade deste país a que chamamos nosso. Estas são algumas delas, entre as muitas mais que Portugal oferece a quem faz questão de o conhecer.

 

Barragem de Santa Luzia

 

Escondida entre as serranias ondulantes da serra do Açor, a albufeira da Barragem de Santa Luzia é quase uma miragem: um deslumbrante lençol de água azul-eléctrico que surge de repente quando fazemos uma curva na estrada que vem da Pampilhosa da Serra. O contraste da paisagem cria no cérebro uma sensação de incongruência, parece impossível a coabitação entre a crista quartzítica maciça que se ergue do lado esquerdo, onde o muro de betão da barragem fecha o círculo e trava o passo ao rio Unhais, e o lago tranquilo rodeado de colinas arborizadas, que se transformam em picos acastanhados mais ao longe, com a serra da Estrela a espreitar entre eles, acinzentada pela distância.

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Esta é uma parte do nosso interior beirão que se mantém relativamente tranquila e é pouco explorada turisticamente, ofuscada por outras áreas em volta que são mais publicitadas. Tem no entanto uma oferta hoteleira razoável, sobretudo ao nível do alojamento local, excelentes praias fluviais – uma delas na própria albufeira da barragem, rodeada por uma bonita mata – e, como não podia deixar de ser, uma gastronomia excelente. Foi sobre esta região que escrevi o post Nas curvas da Pampilhosa.

 

 

Buracas do Casmilo

 

Perto da aldeia de Casmilo, no Maciço de Sicó, o Vale das Buracas é um conjunto de formações geológicas resultantes do abatimento da parte central de uma colina, que deixou a descoberto as grutas que existiam no seu interior, escavadas pela água nas zonas calcárias mais porosas durante o período jurássico médio. Apesar de pouco profundas, algumas destas grutas têm uma dimensão considerável e o aspecto de todo o conjunto é magnífico e original, diferente de todas as outras formações geológicas que encontramos no nosso país.

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As grutas estão rodeadas de vegetação rasteira e oliveiras, e surgem como manchas cinzentas e negras entre o verde dominante. Na sua maioria são de fácil acesso, bastando subir um pouco pelos carreiros marcados pelos passos de muitos outros visitantes. Nota-se que algumas servirão regularmente de abrigo e local de reunião de grupos, a julgar pelos vestígios que ali são deixados, por vezes algo estranhos.

 

 

Carrascal do Juízo

 

Junto à aldeia do Juízo, num planalto meio desértico (e quase deserto) da Beira Alta, há um bosque de aspecto misterioso que poderia ser palco para o enredo de uma novela gótica. É o Carrascal do Juízo, um bosque de azinheiras onde os troncos das árvores fazem lembrar esqueletos retorcidos e estão cobertos de líquenes tão antigos que já foram objecto de estudo científico. É atravessado pela ribeira do Porquinho, que tanto pode estar quase seca como ser necessário cruzá-la sobre as poldras ali colocadas para facilitar a passagem. Quando saímos do bosque e chegamos ao ponto mais alto das redondezas, os olhos perdem-se nos muitos quilómetros da paisagem serrana que vai de Marialva a Trancoso.

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Sobre a aldeia do Juízo e o projecto de alojamento local que nela se desenvolve podem ler mais pormenores no post Juízo, uma aldeia que tem histórias.

 

 

Estuário do Sado

 

É uma das nossas Reservas Naturais e estende-se por vários quilómetros e municípios, alimentando pessoas e animais desde que há memória. As margens do Sado no seu estuário são essencialmente planícies aluviais, embora também haja algumas zonas dunares e de praia. A riqueza florestal e agrícola do estuário e a sua diversidade faunística fazem dele um local privilegiado tanto para trabalhar como para passear. Há inúmeros e variados pontos de interesse ao longo dos muitos quilómetros que rodeiam a extensão onde o Sado se encontra com o mar. Um dos meus favoritos é a zona de Alcácer do Sal a que chamam Amieira, mais noticiada por ser todos os anos invadida por flamingos em migração para outras paragens, mas que é permanentemente habitada por uma enorme quantidade de aves diferentes, desde cegonhas a garças, pernilongos, alfaiates e outras pernaltas, além das omnipresentes gaivotas, que gostam de perseguir em grande algazarra os tractores que preparam o solo para a semeadura do arroz.

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O meu local mais preferido no estuário do Sado é o cais palafítico da Carrasqueira, uma obra-prima da arquitectura popular com características únicas que o tornam verdadeiramente fora de série. Embora cada vez menos pescadores façam uso dele, tem-se mantido quase inalterado ao longo das décadas e tornou-se parte importante da paisagem cultural desta região, com o seu aspecto colorido, tosco, meio decrépito e absurdamente cheio de poesia.

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Podem conhecer mais um pouco sobre estes (e outros) locais no post 11 lugares a não perder em Portugal continental.

 

 

Estuário do Tejo

 

É uma das zonas húmidas mais importantes da Europa e ramifica-se em esteiros e mouchões de aluvião, sendo as suas margens em grande parte constituídas por campos de vasa e sapais, onde a vegetação é rasteira e predominam as gramíneas e os caniços. A importância do estuário do Tejo deve-se sobretudo ao facto de ser ambiente de permanência regular de inúmeras espécies de aves aquáticas (que chegam a atingir o impressionante número de 120 000 indivíduos), e um dos lugares onde podemos observar mais de perto muitas destas aves é o Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo, entre a Póvoa de Santa Iria e Alverca. Há inúmeros patos, as sempre presentes gaivotas, e uma enorme população de guinchos, pilritos, alfaiates e maçaricos-das-rochas, só para citar os que são mais facilmente visíveis. Nas ribeiras que desaguam no Tejo há felosas e galinhas-d’água, e no meio do verde da erva emerge de vez em quando o pescoço branco e comprido de uma garça-boieira, movendo-se com aquele balanço quase hipnótico tão típico delas.

 

Esta zona do estuário é em grande parte ocupada pelo vasto Mouchão da Póvoa, onde apenas vemos desenhadas as silhuetas de algumas árvores, e o Tejo que avistamos parece só um rio estreito e tranquilo, muito diferente das perspectivas mais reconhecíveis que dele temos em vários outros troços do seu percurso.

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Fanal

 

O Fanal é um caso à parte na Madeira, uma paisagem distinta de todas as outras que encontramos nesta ilha, sobretudo pelo seu bosque de tis centenários (o til é uma árvore endémica da Madeira e das Canárias), que aqui vivem desde antes dos Descobrimentos. Neste bosque encantado, os troncos rugosos e retorcidos das árvores velhíssimas parecem ir ganhar vida a qualquer momento, e imaginamos com facilidade que de repente vão começar a falar connosco numa voz roufenha e mal-humorada, perguntando-nos porque estamos a incomodá-las no seu sono. Uma pequena lagoa, entre a orla do bosque e uma escarpa, ajuda ao encantamento; e se estiver neblina, como tantas vezes acontece, a impressão de estarmos dentro de um filme é ainda maior. Ou então, e porque estamos a altitudes que rondam os 1100 metros, podemos ter a sorte de chegar a um miradouro e ver abaixo de nós um tapete de nuvens extenso e compacto, e sentimo-nos como que a voar. É um outro mundo.

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Guadiana

 

Apesar de ser o terceiro maior rio que corre em território português e fonte do imenso lago artificial criado pela Barragem de Alqueva, o Guadiana continua a ser um ilustre desconhecido para a maioria dos portugueses. Talvez isso se deva ao facto de a maior parte da sua extensão correr em Espanha, e muito do que sobra ser fronteira entre os dois países, ou talvez porque do lado de Portugal o seu curso se faz maioritariamente em zonas pouco povoadas. O certo é que este rio tem muito menos protagonismo do que vários outros do nosso país, e por isso mesmo ainda há muito por “descobrir” nas suas margens.

 

Pouco depois de passar a ser também nosso, uns quantos quilómetros abaixo da fronteira do Caia, o Guadiana é palco para as ruínas de uma ponte com muita história. A Ponte da Ajuda foi construída no séc. XVI para ligar Elvas à luso-espanhola Olivença, quando a questão da propriedade deste território ainda não suscitava dúvidas. Tinha 385 metros de comprimento, suportados por 19 arcos, e um torreão colocado no centro. Foi destruída e reconstruída várias vezes até 1709, quando o exército castelhano a fez explodir durante a Guerra da Sucessão Espanhola. Está em ruínas desde essa altura, e é bem visível a partir da bem mais recente ponte que faz parte da estrada entre Elvas e Olivença – e que tem uma placa a indicar Espanha na extremidade em que supostamente entramos no país vizinho, mas (compreensivelmente) nenhuma placa a indicar Portugal quando fazemos o trajecto em sentido contrário.

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Lagoa de Paramos

 

A Lagoa de Paramos, também conhecida como Barrinha de Esmoriz, é a maior área lagunar da região norte de Portugal e um local fascinante. Fica muito perto do mar e à sua volta corre um passadiço de madeira com oito quilómetros, um lugar privilegiado para passear ao sol, relaxar e observar aves de várias espécies. Dependendo da altura do ano, além das habituais gaivotas e de patos variados, é possível avistar guinchos, galeirões e galinhas-de-água, pernilongos e pilritos, garças, águias-sapeiras, e também alguns pássaros menos comuns como o bispo-de-coroa-amarela ou o chamariz. Rodeada de dunas e canaviais, em certos troços do passadiço avistamos os aglomerados de casas das povoações vizinhas, mas a maior parte do tempo é passada tendo apenas por companhia a água, a vegetação rasteira e os sons das aves.

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Situada numa região que tem muito para ver, incluí-a num roteiro que já aqui sugeri há algum tempo, e que podem encontrar no post Roteiro de fim-de-semana: entre a natureza e a História.

 

 

Meandros do Zêzere

 

Um dos troços mais admiráveis do rio Zêzere é o que serpenteia entre a aldeia de Dornelas e a barragem do Cabril, conhecido como Meandros do Zêzere. Atravessando esta zona extremamente montanhosa, o rio desbrava o seu caminho moldando-se ao relevo irregular e intenso que domina a paisagem, seguindo com calma, imperturbável, pelas curvas e contracurvas que a serrania o obriga a percorrer. Da N344, a estrada que vai para a Pampilhosa da Serra, há vários locais de onde podemos observar esta maravilha da natureza. Outro dos lugares privilegiados para apreciar os Meandros é a aldeia de Álvaro, estrategicamente situada ao longo de uma crista sobranceira ao rio, precisamente no ponto onde ele forma um cotovelo muito pronunciado. Sobre esta região já falei no post Nos meandros do Zêzere, e continuo a considerá-la como um dos melhores segredos do nosso país.

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Norte da ilha das Flores

 

Entre Santa Cruz das Flores e o Farol de Albarnaz, o ponto mais remoto da ilha, os olhos voltam-se para o mar. Aqui não há cascatas nem lagoas, mas sim miradouros sobre ilhéus rochosos com nomes tão díspares como Garajau, Álvaro Rodrigues, Furado ou Abrões. Ao longe, mais ou menos visível consoante o tempo, o Corvo marca presença, e se o dia estiver desanuviado conseguimos distinguir a olho nu a brancura das casas da Vila do Corvo, brilhando ao sol entre o verde-acinzentado que cobre a ilha. A estrada que nos leva por esta parte da costa das Flores é tudo menos linear e demora algum tempo a percorrê-la, principalmente porque não resistimos à tentação de parar de poucos em poucos quilómetros (podem perceber melhor porquê no post Na ilha das Flores - parte VI), mas tirar uma manhã ou tarde para conhecer esta zona menos divulgada da ilha é tempo bem empregue.

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Quando chegamos à ventosa Ponta do Albarnaz, a sensação é de que estamos no fim do mundo. Não fossem o farol e as vacas que por ali pastam, poderíamos pensar que a vida se tinha extinguido da face da Terra. Mas mesmo não estando no fim do mundo, estamos praticamente no fim de um continente: o ilhéu de Monchique, que é considerado o ponto mais ocidental da Europa, fica a uns meros quatro quilómetros de distância, em linha recta sobre o mar para sudoeste.

 

 

Pateira de Fermentelos

 

Classificada como Zona Húmida de Importância Internacional, fértil em riqueza biológica, e habitat de muitas espécies de aves, anfíbios e peixes, a Pateira de Fermentelos é além do mais um local com uma variedade de ambientes que mudam radicalmente consoante a hora do dia, as alterações climáticas e a perspectiva de onde a observamos. É um dos lugares mais românticos do nosso país, com os seus mirantes de madeira gémeos que evocam outras latitudes e outros tempos, os canaviais que ondulam ao vento, os barcos de fundo chato resguardados entre a vegetação das margens. Podem ler mais pormenores sobre esta belíssima lagoa, que ainda tanta gente desconhece, no post Pateira de Fermentelos, a lagoa tranquila.

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Pôr-do-sol no Alentejo

 

Os melhores pores-do-sol em Portugal são os da planície alentejana. Há neles uma magia especial que transforma o céu na paleta de um pintor, mesmo quando por vezes ele é atravessado por nuvens. A amplitude da paisagem, frequentemente desprovida de grandes árvores, mostra-nos silhuetas negras sobre campos amarelos à nossa volta, enquanto faixas cor-de-rosa e laranja se destacam num fundo azul brilhante por cima de nós. Outras vezes o céu fica vermelho berrante, incendiando a planície, as casas e as estradas, ou adquire a suavidade das cores pastel, como se filtradas por um vidro fosco – mas nunca, nunca se repete.

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Portal do Inferno

 

A estrada M567 percorre de forma irregular, como se estivesse embriagada, uma parte do Maciço da Gralheira, e num dos seus troços segue por uma crista muito estreita entre duas vertentes abruptas: é o Portal do Inferno, um dos miradouros mais fabulosos do nosso país. Estamos mil metros acima do nível do mar e de ambos os lados da estrada, lá muito no fundo, correm ribeiras, cada uma para seu lado (uma delas passa pela aldeia abandonada de Drave). Em volta desdobram-se as serras da Arada, de São Macário e da Freita, e as fundas linhas de água que as cortam verticalmente, vistas daqui, dão-lhes um aspecto característico a que chamam “garra”, por fazer evocar os dedos das patas de uma ave de rapina. É mais uma paisagem única no nosso país.

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Serra de São Macário

 

A altura certa para subir a São Macário é perto da hora do sol-pôr, em dia com poucas ou nenhumas nuvens. Quando as cores quentes do ocaso começam a derramar-se sobre as serranias percebemos porque é que lhes chamam Montanhas Mágicas. Nem a profusão de aerogeradores – esses gigantes esquálidos que desenham no horizonte o contorno das serras – estraga a atmosfera, antes parece chamar (ainda mais) a atenção para as formas caprichosas da paisagem que se avista em redor. Não estranho por isso a lenda do santo que dá o nome à serra, que diz-se terá escolhido este lugar para viver como eremita, penitenciando-se por ter acidentalmente morto o seu pai, pois para viver solitário não podia ter escolhido melhor. A gruta onde supostamente viveu é agora uma capela, mas desconfio que foi a beleza do entorno o verdadeiro motivo por trás da construção de uma outra capela, maior, mesmo no pico da montanha, rodeada de um muro que a protege das ventanias e (mal) acompanhada pelas torres de comunicações ali instaladas. Neste lugar de contemplação, é como se já estivéssemos a meio caminho do céu.

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Árvores queimadas

 

Todos os anos, nas várias viagens de carro que sempre faço em Portugal, deparo-me em algum lugar com uma paisagem de árvores queimadas. Em passeio na desolação de um pinhal ou floresta devastados pelo fogo não se ouve um som – não há pássaros a piar, nem folhas a sussurrarem ao vento, nem rumor de insectos. Apenas há silêncio.

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Os incêndios são um flagelo nacional que nos afecta brutalmente todos os Verões e parece aumentar com o passar dos anos, consumindo recursos e vidas. Os seus efeitos demoram anos a desaparecer da paisagem, e permanecem para sempre no coração e na memória de quem neles perdeu os entes queridos, ou a eles sobreviveu miraculosamente.

 

(Também publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Ruínas (e o meu fascínio por lugares abandonados)

Ana CB, 17.01.23

Mudas, contam uma história, às vezes misteriosa, outras polémica, nem sempre fácil de descobrir e frequentemente alimentada por boatos. Inertes, pedem criatividade para imaginar como seriam quando nelas havia vida. Já tiveram um propósito, talvez até mais do que um, do qual foram esvaziadas. Com sorte, servem agora algum outro, e com mais sorte ainda talvez um dia voltem à vida. São ruínas, não aquelas seculares e monumentais que se tornaram ímanes turísticos, nem as desenterradas por escavações arqueológicas, mas sim as que resultaram do simples abandono de um local, levando à sua degradação.

 

Se a memória não me falha, as primeiras ruínas deste género que fui propositadamente ver foram as da antiga Mina de São Domingos. Nessa altura, na era pré-Internet, ainda eram um local quase desconhecido e pouco visitado, e fiquei impressionada com a beleza alienígena do lugar – que continua a ser, ainda hoje, um dos meus sítios preferidos em Portugal. Junto à aldeia, agora mais famosa por ter uma das melhores praias fluviais da Europa, há algumas ruínas de edifícios usados em apoio exploração mineira do depósito pirítico de São Domingos (desenvolvida até 1966 pela empresa britânica Mason & Barry), nomeadamente das antigas oficinas ferroviárias. Há também uma enorme cratera cheia de água carregada de minérios, exposta entre camadas de rocha colorida. Mas o local de que mais gosto encontra-se poucos quilómetros mais a sul, na Achada do Gamo. O percurso até lá faz-se entre árvores, de um lado, e terra árida do outro, por vezes matizada de cores invulgares, resultantes da interacção dos resíduos minerais ainda presentes no solo. A meio do caminho, na margem oposta de um curso de água, vê-se o que resta do centro de britagem e queima da Moitinha. Depois surgem ao longe duas torres com aspecto pós-apocalíptico, e de repente somos como que teletransportados para um qualquer planeta sem vida: terra nua, num cinzento que vai do quase branco até ao negro-carvão; edifícios meio desfeitos, formas de um puzzle geométrico recortado contra um céu imaculado, paredes esboroadas, com cabos de metal oxidado que se projectam das suas entranhas como tentáculos de um animal intergaláctico moribundo, pedras manchadas pela ferrugem. E um silêncio quase total, apenas cortado pelo som da brisa que passa ou por um qualquer piar longínquo. Em todas as vezes que lá regressei, mesmo sem o factor surpresa, a emoção foi sempre a mesma: senti-me simultaneamente fascinada e comovida.

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Se tivesse conhecido este lugar quando a mina se encontrava em funcionamento, será que teria sentido o mesmo? Tenho sérias dúvidas. Máquinas em movimento, fumos, barulho, pessoas a trabalhar em condições que talvez não fossem as melhores… nada disso contribuiria para o que é agora a beleza do lugar. E aquilo que mais me comove é precisamente a fragilidade do que terá sido em tempos um grande empreendimento – fragilidade tóxica, é certo, cujos efeitos ainda perduram mesmo depois de tantas décadas de inactividade; mas também uma prova de que, se deixadas ao abandono, mesmo as maiores obras acabam por desaparecer, desgastadas pelo ar, pela água, pela terra. Tal como nós, seres humanos. Estes lugares arruinados são o espelho da nossa própria fragilidade e irrelevância.

 

Outro local que contribuiu para despertar o meu interesse por ruínas e pela sua história é o Bairro do Quelho, em Salzedas. Desta vez foi uma descoberta por puro acaso, também há já bastantes anos quando, depois de uma visita ao Mosteiro, entrei por uma ruazinha do bairro que está ao lado. Os edifícios que ficam na periferia estão recuperados e habitados, mas no coração do Bairro do Quelho existe uma zona meio arruinada, com ruelas labirínticas entre casas estreitas de pedra e madeira, com dois ou três pisos em altura, algumas unidas por alpendres suspensos, com a base feita troncos robustos. Há paredes forradas com escamas de ardósia, redes de arame que por trás de varandins toscos, janelas sem vidros e portas descaídas. É como se entrássemos no cenário de um filme passado em época medieval, um portal para o passado, mas um passado em que não há gente nem animais, apenas restos decadentes do que terá sido um bairro onde as pessoas viviam em estreita comunhão.

O passado do Bairro do Quelho, percebi-o entretanto, está envolto em mistério e polémica. Existe a teoria romântica de que terá sido uma judiaria, baseada em inscrições supostamente de simbologia judaica; outros defendem que é simplesmente um bairro de origens medievais, nascido em torno do Mosteiro, como tantos outros. O mistério adensa-lhe o encanto, e será certamente aproveitado para publicidade turística quando um dia for totalmente recuperado – se o for (sendo que a alternativa, a destruição para construir qualquer coisa sem graça, é bem menos desejável).

 

Em anos mais recentes, quando me interessei pela história dos avieiros e pela sua cultura, descobri a aldeia do Patacão. Os avieiros do Tejo, descendentes dos pescadores de Vieira de Leiria que procuravam neste rio o seu sustento durante os meses invernios, sempre viveram em aldeias minúsculas, muito isolados das vizinhas comunidades rurais. Nos anos 80 ainda existiam várias dezenas destas aldeias avieiras nas margens do Tejo, mas actualmente restam muito poucas. Algumas desapareceram totalmente, outras foram absorvidas pelos núcleos populacionais adjacentes, e outras estão em ruínas. O Patacão faz (infelizmente) parte deste último grupo. Com acesso a partir da vila de Alpiarça, não é fácil dar com o que resta dos dois núcleos de antigas casas de avieiros. Erguidas sobre pilares para sobreviverem às inundações, como é habitual nestas comunidades, o primeiro grupo alinha-se ao longo de um valado, junto à estrada de acesso a uma praia fluvial selvagem, e passa completamente despercebido a quem não souber da sua existência. São sete casas, meio escondidas pela vegetação que já quase as cobre completamente, descoloridas e esventradas, em que a madeira se mistura com a telha, o tijolo e a chapa de zinco – uma casca frágil sem nada no seu interior. Poucas centenas de metros mais à frente, do lado direito da estrada de terra batida que leva à praia, um grupo de árvores abafa mais duas ou três casas, também arruinadas.

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Apesar de durante anos terem sido feitas campanhas de limpeza para evitar que ficasse totalmente em ruínas, esta aldeia avieira acabou por cair no esquecimento. Rodeadas por terrenos cultivados, no sossego da planície ribatejana, com apenas uma linha de choupos perfilados ao longe a denunciar a existência do Tejo, de cada vez que lá passo as casas estão menos visíveis, mais engolidas pela vegetação, e mais degradadas. A natureza vai fazendo o seu trabalho, dissimulando-as na paisagem, e não tardarão muito a ficar completamente invisíveis. É mais um pedacinho da nossa cultura que desaparece.

 

Outra aldeia, também completamente desabitada e em ruínas mas que – espero eu! – não parece ir ter o mesmo fim, é Drave. A esta aldeia onde já não vive ninguém em permanência desde o ano 2000, situada no fundo de um vale entre três serras e invisível a partir das estradas que serpenteiam em redor, só se chega a pé. Chamam-lhe “aldeia mágica”, e é verdade que tem o poder de enfeitiçar quem se decide a conhecê-la, apesar do seu acesso difícil. Talvez seja este poder que faz com que a sua capela e várias casas ainda se mantenham de pé, ou talvez (mais provavelmente) isso se deva ao facto de Drave estar desde 1995 sob a protecção do Corpo Nacional de Escutas, sendo desde 2003 a Base Nacional dos Caminheiros, (que passou a ser designada por Drave Scout Centre a partir de 2016). Estes escuteiros implementaram um projecto de recuperação de algumas casas e realizam regularmente actividades na aldeia.

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Não há electricidade, água canalizada ou gás, não há carros nem motas, e a probabilidade de encontros com outras pessoas é reduzida. Este é sem dúvida o maior atractivo de Drave, que se tornou uma espécie de Meca para quem gosta de caminhar na natureza – outra das razões para esta aldeia, apesar de desabitada, não estar abandonada. O ambiente é de tranquilidade total e sabe bem passear por entre as suas casas de pedra escura, umas ainda quase intactas, outras já a caminho da ruína completa, espreitar para dentro da capelinha, branca e bem cuidada, piquenicar junto ao ribeiro – onde nem falta uma pequena cascata – ou apenas vegetar no prado verde que ocupa uma das encostas (e parece coisa de filme).

 

Preservar a memória das aldeias que ficam desabitadas é sempre um desafio, mas qualquer que seja a solução encontrada, será sempre melhor do que o seu desaparecimento completo. Na Galiza, em As Pontes de García Rodríguez, uma exploração mineira de lignito causou o esvaziamento de várias aldeias limítrofes, agravado pela instalação em Vilavella de uma enorme central térmica – por sinal, a maior de Espanha, onde se destaca a gigantesca chaminé com 356 metros de altura, o que faz dela a construção mais alta do país e a chaminé com maior volume no mundo. Ao lado desta aparatosa central térmica, qual David junto a Golias, aninham-se três casas desabitadas e semi-recuperadas, parcialmente invadidas pela vegetação, um pequeno espigueiro, um cruzeiro e uma igreja.

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Esta incongruência arquitectónica tem uma razão de ser. Com o encerramento da exploração de lignito em 2007, foi decidido que a mina e a escombreira seriam inundadas e transformadas num lago artificial, agora parcialmente utilizado como praia fluvial. No âmbito deste processo de revitalização da área, foram também reabilitadas algumas construções rústicas que ainda subsistiam junto à depuradora, supostamente destinadas a um futuro núcleo museológico das peças arqueológicas da mina. No entanto, nesta altura o único edifício ainda visivelmente utilizado é a igreja, que é de origem medieval, e mantém-se a incógnita do que acontecerá aos edifícios sobreviventes da aldeia.

 

Por vezes, a solução mais ou menos temporária encontrada para alguns destes lugares degradados, ou mesmo abandonados, é usar a sua decrepitude como atracção turística. Num mundo em que é constante a busca da novidade, do que é diferente ou até mesmo excêntrico, estes ambientes “estranhos”, se devidamente publicitados, suscitam a curiosidade e transformam-se em fonte de rendimento.

 

Alguns são usados como espaço de diversão, como é o caso dos ruin bars de Budapeste, uma ideia já replicada em muitas outras cidades. O Szimpla Kert, o mais famosos destes bares do Distrito VII de Pest, ocupa o edifício de uma antiga fábrica e, no seu interior, o estado decadente das paredes grafitadas condiz com a acumulação de objectos kitsch ou reutilizados que servem de decoração, à mistura com plantas, mesas e bancos desirmanados, num labirinto psicadélico colorido que à noite se enche de música, projecções, muito barulho e gente em constante movimento.

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Também apelativos, por motivos e para fins diferentes, são os cenários cinematográficos abandonados. Um dos exemplos mais antigos, e ponto de paragem obrigatório para quem visita o deserto tunisino mais interior, quase junto à fronteira com a Argélia, é o cenário do primeiro filme da saga Guerra das Estrelas. Fica nas dunas de Mos Espa, entre Nefta e o Chott Chtihatt Sghat, e tive a sorte de o visitar quando ainda não tinha sido invadido pelos vendedores ambulantes habituais em todos os pontos turísticos mais famosos. Foi durante uma louca e muito divertida excursão num 4x4 possante, cujo condutor galgava dunas a toda a velocidade, com paragens repentinas nas descidas abruptas, em que o veículo ficava quase na vertical e nós em risco de aterrar no pára-brisas, se não estivéssemos presos pelos cintos. Como anticlímax, no lugar onde está instalado o cenário não havia mais ninguém além de nós, e não se ouvia um único som a não ser o dos nossos passos sobre a areia. Vistos de longe, os pequenos edifícios – largamente inspirados na arquitectura tradicional dos ksars da região de Tatouine – confundem-se com o ambiente, e só as portas pintadas de azul-acinzentado se destacam ligeiramente nos brancos e ocres da paisagem. Isso e as formas estranhas de algumas “esculturas” vanguardistas que permanecem no local, agora transformado em mais uma das curiosidades que alimentam a indústria turística da Tunísia.

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Menos visitado e muito menos famoso, até porque o filme para o qual foi construído nunca chegou a ser rodado, é o cenário de uma aldeia viking na Islândia. Fica na região sudeste, entre o mar e a Vestrahorn (uma das duas montanhas mais fotografadas do país), e foi criado em 2010 para um filme islandês. Está situado numa propriedade privada, que também é alojamento local, e é preciso pagar bilhete para o visitar – o que prova que um dos trunfos de uma indústria turística bem conseguida é saber aproveitar até mesmo o que não tem qualquer valor histórico. Ao longe, o sítio em si não parece muito prometedor: uma longa paliçada cinzenta que mal se vê, perdida na planície aos pés da magnífica montanha que é a Vestrahorn, cujos picos rochosos abruptos atingem mais de 450 metros de altura. Mas quando passamos para o lado de lá da cerca de madeira, a opinião muda. As casas estão bem recriadas – várias são inteiramente feitas de toros de madeira, outras têm portas e ombreiras com motivos esculpidos, e os telhados foram recobertos de erva. A paliçada tem estacas irregulares e aguçadas, há escadas e caminhos de madeira rudimentares e treliças feitas com finos ramos de árvore, e nem sequer falta uma masmorra, fechada com um forte gradeamento de metal. Com uma ou outra excepção, as casas que estão abertas não têm nada no interior, ou só têm restos de madeira, e pilares e escoras para suportar as paredes e os telhados. Dá para perceber que o cenário só se destinava mesmo a ser usado para filmar exteriores.

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Por estranho que pareça, o local acaba por ser fascinante, assim como que uma espécie de parque de aventuras para adultos, entre o primitivo e o arruinado. Subi e desci, espreitei pelas aberturas e pelas janelas, entrei por um lado e saí por outro, fotografei até à exaustão, e quando dei por mim já se tinha passado quase uma hora. E gostei.

 

Não é incomum encontrar grandes edifícios cuja ruína até me faz doer a alma. Um dos que me intrigou durante bastantes anos fica perto de Sortelha, pouco antes de começarmos a subir por entre os impressionantes rochedos graníticos da serra: o antigo Hotel da Serra da Pena, mais conhecido por Termas de Radium. Construído quando ainda se pensava que os efeitos do rádio eram benéficos para a saúde e que as águas que possuíssem este elemento eram, consequentemente, boas para tratar toda uma panóplia de males físicos, este hotel requintado podia hospedar até 150 pessoas e possuía instalações termais equipadas com tudo o que era imprescindível para os tratamentos recomendados na época, que incluíam a ingestão de água – obviamente radioactiva – na quantidade de um litro por dia. Esta água era também engarrafada e vendida para o exterior. Após a constatação de que, afinal, as águas radioactivas da Serra da Pena não eram a panaceia apregoada, mas antes o inverso, a estância termal do hotel foi encerrada em 1945. O hotel continuou a ser explorado, passando por vários donos, mas os seus dias estavam contados. Vendido o recheio e deixada a propriedade ao abandono, o seu proprietário actual adquiriu-a em leilão e é português. Existem vagos planos de recuperação do local, mas nunca saíram da gaveta.

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Enquanto isso, o edifício continua a resistir como pode às inclemências do tempo, sem perder a sua imponência. Algumas das suas paredes, construídas com grandes paralelepípedos de granito, mantêm-se pé, e no alto, em destaque, ainda há colunas rematadas por pináculos e frisos recortados a evocar ameias. Todo o complexo é um jogo de volumes diferentes, cada parte do edifício com o seu próprio formato e características, mas o efeito final continua harmonioso, mesmo faltando-lhe já muitos dos seus elementos essenciais. Afastado da estrada principal e tendo como cenário de fundo os penedos graníticos da serra e alguns pinheiros, o lugar é silencioso e transmite paz, apesar do seu passado sombrio e do seu aspecto de lugar tenebroso, quando visto de longe. É mais um daqueles lugares que nos relembra que tudo neste mundo é transitório e não podemos dar nada por garantido, nem sequer aquilo que hoje se considera uma verdade inquestionável. O tempo e o (suposto) progresso encarregam-se de mudar a nossa perspectiva sobre o que nos rodeia e a forma como vivemos, e são implacáveis para o que (e quem) cai em desgraça.

 

Bem mais visível e popular, apesar das sucessivas (e infrutíferas) tentativas de o interditar ao público, o edifício arruinado que em tempos foi o Hotel Monte Palace, na ilha açoriana de São Miguel, tem uma história prosaica. Projecto megalómano de luxo numa época em que o turismo nos Açores ainda era algo incipiente, teve uma fase inicial acidentada e uma vida curta: apenas esteve aberto durante cerca de 18 meses, nos anos de 1989 e 1990. O motivo do encerramento foi, obviamente, a falta de rentabilidade financeira. O seu trunfo era (e continua a ser) a localização. Situado na Vista do Rei, o miradouro panorâmico sobre a Lagoa das Sete Cidades, e elevado vários metros em relação à estrada, é uma espécie de ninho de águia com uma visão de 360° sobre toda a parte oeste da ilha. O tempo não tem sido generoso para com ele, nem as pessoas. Sem vigilância há muitos anos, não é preciso grande engenho para conseguir entrar no recinto murado que o rodeia, e os visitantes são frequentes – mais, certamente, do que os que teve na sua diminuta existência como hotel. Os 88 quartos que oferecia, a par de salas de conferência, restaurantes, bar, salão de jogos e discoteca, nunca atraíram tanta gente quanto atraem agora as suas ruínas. Paredes verdes de musgo, grafitadas, lixo, entulho e água das chuvas, a estrutura vai resistindo (a qualidade da construção parece justificar pelo menos parte dos milhões de escudos investidos), e permite aos “salteadores” mais afoitos vistas fabulosas sobre algumas das belezas de São Miguel – com a vantagem de não ter à frente as dezenas de cabeças dos turistas que habitualmente enchem o miradouro oficial da Vista do Rei. Fosse a entrada no edifício cobrada, mesmo que a preços módicos, se calhar os seus donos já teriam um mealheiro jeitoso para ajudar a sua reconstrução…

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Destino diferente tiveram as roças de São Tomé. Pedra basilar sobre a qual assentou durante vários séculos a economia da ilha, primeiro com a cultura da cana-de-açúcar e depois com as de cacau e café, as grandes roças santomenses eram uma espécie de cidades em miniatura, e praticamente auto-sustentáveis. Além da componente habitacional e dos edifícios administrativos ou dedicados às várias etapas da produção, incluíam estruturas destinadas aos cuidados de saúde, à educação e ao culto religioso, bem como oficinas, pequenas fábricas e outras comodidades de usufruto comunitário. Nacionalizadas em 1975, após a independência, passaram a ser administradas pelo Estado, mas a sua organização e os modos de produção pouco se alteraram. Uma “reforma agrária” nos anos 90 e a ausência de modernização e manutenção levaram a um progressivo desinteresse pela produção agrícola, e a que muitas das estruturas existentes fossem esvaziadas das suas funções e deixadas à sua sorte.

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Arruinadas, mas não desabitadas, as roças de São Tomé continuam a abrigar muitas centenas de pessoas, e cada uma delas constitui ainda um núcleo coeso e semi-fechado dentro do território, com estrutura social e organizativa própria. Algumas foram parcialmente reabilitadas, para fins produtivos ou turísticos, mas na sua maior parte impressionam sobretudo pelos grandes edifícios arruinados que são seu ex libris, como sucede nas roças Agostinho Neto e Água Izé, duas das maiores, mais antigas e (em tempos) mais desenvolvidas do país. Em ambos os casos, as construções visualmente dominantes são os hospitais, ruínas do que foram nos tempos áureos da exploração do cacau, agora com a pintura a descascar, os vidros partidos ou ausentes, invadidas por plantas, porções do telhado desaparecidas ou a cair. Algumas partes parecem habitadas, outras são recreio de miúdos ou de cabras e porcos, num lugar onde intimidade parece ser palavra desconhecida. À volta, espalham-se habitações de todas as espécies, por vezes não passando de um amontoado caótico de madeira e chapa ondulada, outras um aproveitamento das antigas estruturas das sanzalas e dos edifícios de alvenaria que em tempos abrigaram proprietários, capatazes e trabalhadores qualificados, quase todas em mau estado de conservação. A pobreza gritante dos edifícios mimetiza a das pessoas que ali vivem, no país que é o segundo mais pequeno de África e onde o PIB per capita actualmente não chega aos 1700 euros. E contrasta com a intensidade da vida que fervilha dentro dos seus limites. Antes motor de desenvolvimento económico, marco histórico importante e símbolo cultural e social, hoje como ontem, as roças continuam a ser o retrato do que é a vida em São Tomé.

 

O tempo, esse conceito abstracto que criámos para compartimentar a nossa existência, anda de braço dado com a deterioração até mesmo daquilo que não tem vida tal como a concebemos. A natureza tende a reclamar o que é seu por direito, e tudo o que não é cuidado acaba por definhar ou ser engolido por ela. Cada ruína, cada lugar abandonado, mesmo que tenha pouca importância arquitectónica, conta uma história, ensina-nos sempre alguma coisa – e alerta-nos para a nossa própria transitoriedade.

Blogue da semana

Ana CB, 04.12.22

Se dúvidas houvesse de que viajar é para todos, a Sofia seria um dos melhores exemplos a apontar. Paraplégica em resultado de um acidente de viação, o facto de se deslocar em cadeira de rodas nunca a impediu de perseguir sonhos e atingir os seus objectivos. Nem sequer de viajar. Há cinco anos decidiu criar um blogue que, nas suas palavras, “é um espaço de promoção de boas práticas de turismo, em termos de acessibilidades, para pessoas com mobilidade reduzida. Pretende-se a divulgação de espaços onde as boas condições de acessibilidade estão garantidas”.

No JustGo by Sofia há artigos de opinião, entrevistas, conselhos e – claro! – os relatos das viagens que a Sofia vai fazendo, cheios de informações úteis para pessoas com mobilidade reduzida (e não só).

A Sofia também dá palestras e webinars sobre turismo acessível, tanto dirigidos a particulares como a profissionais e empresas. Num mundo onde tanta gente se auto-limita e inventa desculpas para viver em pleno, contrariou a corrente, adaptou-se e seguiu em frente, e agora faz a sua parte para despertar consciências e ajudar os outros. É por isso que escolho o JustGo by Sofia para blogue da semana.