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Delito de Opinião

Blogue da semana

Ana CB, 04.12.22

Se dúvidas houvesse de que viajar é para todos, a Sofia seria um dos melhores exemplos a apontar. Paraplégica em resultado de um acidente de viação, o facto de se deslocar em cadeira de rodas nunca a impediu de perseguir sonhos e atingir os seus objectivos. Nem sequer de viajar. Há cinco anos decidiu criar um blogue que, nas suas palavras, “é um espaço de promoção de boas práticas de turismo, em termos de acessibilidades, para pessoas com mobilidade reduzida. Pretende-se a divulgação de espaços onde as boas condições de acessibilidade estão garantidas”.

No JustGo by Sofia há artigos de opinião, entrevistas, conselhos e – claro! – os relatos das viagens que a Sofia vai fazendo, cheios de informações úteis para pessoas com mobilidade reduzida (e não só).

A Sofia também dá palestras e webinars sobre turismo acessível, tanto dirigidos a particulares como a profissionais e empresas. Num mundo onde tanta gente se auto-limita e inventa desculpas para viver em pleno, contrariou a corrente, adaptou-se e seguiu em frente, e agora faz a sua parte para despertar consciências e ajudar os outros. É por isso que escolho o JustGo by Sofia para blogue da semana.

No sobe-e-desce das Cinque Terre

Ana CB, 02.12.22

 

Imaginem um pedaço de costa europeia banhado pelo Mediterrâneo, com colinas altas que descem vertiginosamente até à água. Imaginem que nestas encostas há socalcos com vinhedos, limoeiros e oliveiras, definidos por muros de pedra, e trilhos pedestres criados por séculos de povoamento. Imaginem ainda que junto ao mar e no topo das colinas há pequenas aldeias com casas coladas umas às outras, coloridas como rebuçados, trepando pelos declives, as de cima espreitando sobre as que estão mais abaixo. Agora coloquem tudo isto num dos países mais fascinantes da Europa – a Itália – e com o selo de Património Mundial da UNESCO. O resultado são duas pequenas palavras: Cinque Terre. É por aqui que agora vos convido a passear.

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Apesar de haver vestígios do seu povoamento desde pelo menos a época romana, esta estreita faixa de terra costeira a sul de Génova, na região da Ligúria, só passou a ser conhecida como Cinque Terre por volta do século XV, reportando-se a cinco pequenas aldeias com semelhanças geográfico-territoriais e económicas: Monterosso al Mare, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore. Nestas aldeias, durante muito tempo remotas, os habitantes dedicavam-se à pesca e simultaneamente à agricultura, aproveitando as riquezas do mar e dos solos para a sua subsistência. Hoje como ontem, no mar pescam sobretudo a anchova, entre Junho e Setembro, pelos métodos tradicionais com lâmpadas ou com redes de cerco. Aperfeiçoaram também as técnicas de conservação deste peixe, fumando-o ou preservando-o em óleo ou sal – é famosa a anchova salgada de Monterosso. Na agricultura, o relevo acidentado e a sua orientação, com boa exposição ao sol e ao abrigo dos ventos de norte, levou à escolha da videira como planta de eleição para cultivo, a par da oliveira. Os terrenos foram desmultiplicados em socalcos, estabilizados por muros de granito, e o vinho e azeite aqui produzidos são de qualidade reconhecida.

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Considerada “paisagem cultural viva”, a região das Cinque Terre foi integrada em 1997 na lista do património protegido pela UNESCO, e em 1999 foi delimitada como parque nacional, abrangendo também uma área marítima. Em toda a área do parque estão definidos percursos pedestres, alguns dos quais foram durante séculos a única ligação entre as várias aldeias e entre elas e o interior do país. Há percursos de vários tipos, tanto em meio rústico como urbano, e com vários níveis de dificuldade, o que faz desta região um destino ideal para quem gosta de caminhar. O mais famoso destes trilhos é o Sentiero Azzurro, que liga as cinco aldeias – o trecho que liga Riomaggiore a Manarola é tão romântico que lhe puseram o nome de Via dell’Amore.

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Como contraponto à melhoria das condições de vida dos seus habitantes permanentes, o aumento da popularidade das Cinque Terre como destino turístico tem trazido alguns problemas. O trabalho ligado ao turismo tornou-se uma alternativa mais fácil e mais rentável, e cada vez menos pessoas se dedicam ao cultivo das terras. O abandono da agricultura levou à deterioração das condições dos terrenos, instáveis por natureza, e dos muros que os sustêm, o que se torna problemático quando ocorrem chuvas torrenciais – ainda está na memória de todos a enxurrada de 2011, que devastou uma grande parte de Monterosso e Vernazza, e cujos efeitos demoraram vários anos a ser ultrapassados. À data de hoje, dois troços do Sentiero Azzurro (de Corniglia a Manarola e de Manarola a Riomaggiore, a famosa Via dell’Amore) continuam encerrados devido a deslizamentos de terras, e só se prevê que reabram dentro de dois ou três anos, no mínimo. Apesar dos esforços desenvolvidos nas últimas décadas para incentivar o turismo responsável e sustentável, e pese embora as Cinque Terre continuem a atrair muitos adeptos da caminhada, a maioria dos visitantes hoje em dia concentra-se sobretudo nas aldeias junto ao mar.

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Não é difícil perceber porquê. As Cinque Terre estão ligadas entre si por uma linha férrea que corre junto ao mar e nos deixa, a intervalos de poucos minutos, no coração de cada uma das aldeias. A excepção é Corniglia, a única que está situada no cimo de um promontório, mas cujo acesso ao comboio é facilitado por um pequeno autocarro em constante vaivém entre a aldeia e a estação; ou, em alternativa, por uma escadaria – tão icónica que até tem nome próprio: Lardarina. Esta ligação ferroviária foi construída durante a segunda metade do século XIX como parte do projecto de unir as cidades de Ventimiglia, na Ligúria (junto à fronteira com a França), e Massa, na Toscânia. Uma empreitada que não se revelou fácil devido ao recorte acidentado da costa liguriana, sobretudo na região das Cinque Terre, e que obrigou à construção de 23 pontes e 58 túneis (que totalizam 28 km) ao longo dos 44 km deste troço da obra. A linha só ficou pronta em 1874, e foi um passo gigante para contrariar o isolamento a que estas aldeias estavam votadas. Concebida com uma única linha, obviamente para reduzir despesas, só nos anos 70 do século passado é que foi alargada para duas vias, facilitando ainda mais o acesso à região – e catapultando-a para a popularidade turística. Actualmente, o comboio das Cinque Terre corre entre Levanto, a norte, e La Spezia, a sul, com intervalos de mais ou menos 15 minutos na época alta (entre fins de Março e inícios de Novembro), e levando a bordo centenas de pessoas em cada viagem. É o meio de transporte preferido pela maioria dos cerca de 2 milhões e meio de visitantes anuais que a região recebe.

Outro meio de transporte popular para visitar a região na época alta é o barco. Modernas e rápidas, as embarcações que prestam este serviço funcionam com horários regulares, que vão variando ao longo do ano, sobretudo entre Porto Venere (perto de La Spezia) e Monterosso. Apenas não param em Corniglia, onde não existe cais, e têm como maior atractivo oferecerem a possibilidade de admirarmos a costa e as aldeias de outra perspectiva, já que elas estão todas viradas para o mar.

Cinque Terre 7.jpegEvidentemente, ir de carro também é uma opção, mas só aconselhável na época baixa. As aldeias têm parques de estacionamento à entrada (no interior, as vias são quase exclusivamente pedonais), mas são pequenos e francamente insuficientes para o enorme afluxo de visitantes da região. Além disso, são pagos, e não são baratos.

 

A oferta de alojamento nas Cinque Terre não é abundante. A maioria dos visitantes ficam alojados nas cidades vizinhas de La Spezia ou Levanto, onde há mais variedade e a preços mais em conta. Pessoalmente, acho mais compensador ficar a dormir numa das aldeias, para poder usufruir completamente da experiência. Quando lá estive fiquei alojada em Vernazza, e foi uma excelente opção. Ao segundo dia, o bem-disposto dono do snack-bar onde tomávamos o pequeno-almoço já nos conhecia e conversava connosco. E jantar ao lusco-fusco num dos restaurantes da piazza junto ao porto, na atmosfera tranquila que se instala depois do êxodo da maré de turistas, é muitíssimo agradável.

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MONTEROSSO AL MARE

 

Monterosso é a localidade que fica mais a norte e a maior das cinco, com uma população de cerca de dois mil residentes – mais vila do que aldeia, na verdade. É sobretudo famosa pela sua extensa praia de areia clara e vibe de estância balnear. Na realidade, tem duas faces bem distintas: uma mais moderna e cheia de movimento; a outra mais recatada, onde ainda pairam algumas memórias dos tempos em que esta povoação era apenas uma aldeia piscatória. A separação entre as duas é bem nítida e está marcada pela torre Aurora, erguida num promontório rochoso sobre o mar, e pelo seu vizinho Convento dos Frades Capuchinhos, construído no cimo do monte San Cristoforo. São as testemunhas mais antigas da história da localidade, que se reporta à época romana. A torre que hoje existe, construída sobre o local de outra mais antiga, data do século XVI. Quanto ao convento, foi criado na primeira metade do século XVII, e desde então teve períodos de actividade alternados com outros de abandono. A partir de 2006 voltou a dedicar-se à sua vocação espiritual inicial, pese embora aberto a actividades turísticas.

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A zona leste de Monterosso é conhecida como Fegina, o nome da praia e da avenida que a acompanha. É nesta avenida que ficam a estação de comboio, a pequena mas engraçada igreja de Sant’Andrea e, no extremo, a estátua do Gigante, como é conhecida localmente – uma representação de Neptuno com uns impressionantes 14 metros de altura, esculpida em 1910 como parte da decoração da Villa Pastine. Infelizmente, estava tapada para reparações quando lá estive. A Via Fegina tem antigos palacetes transformados em hotéis, fachadas com buganvílias, loendros e outras árvores de pequeno porte, esplanadas simpáticas e um passeio pedonal a todo o comprimento. Um rochedo fotogénico compõe a paisagem marítima, melhor apreciada ao fim da tarde enquanto se saboreia um gelado.

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Na extremidade oeste da Via Fegina, um túnel deixa-nos no acesso ao bairro medieval, onde o ambiente de praia desaparece e é substituído pelo de uma aldeia. Uma aldeia turística, sem dúvida, mas bastante diferente da outra metade. Na praça de entrada, o campanário de pedra da igreja de São João Baptista – que foi em tempos uma torre de vigia pertencente às fortificações construídas no século XIII – contrasta com as riscas em mármore negro e branco da fachada e das colunas que separam as naves no interior do monumento. As riscas bicolores repetem-se no Oratório da Confraternidade Mortis et Orationis, quase ao lado da igreja, que por sua vez contrastam com as tonalidades vivas dos edifícios entre os quais está encaixado. Nas ruas e pracetas, que parecem ter sido feitas para descansar, há toldos listrados e bancos de madeira. As ruelas são cruzadas por arcos, e as cores vibrantes das casas combinam com as das flores que estão espalhadas por todo o lado, em grandes vasos ou espreitando sobre os muros. Há toalhas de praia a secar nas varandas de ferro forjado, e as janelas estão protegidas com venezianas pintadas de verde-escuro. É aqui que se sente verdadeiramente a atmosfera das Cinque Terre.

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VERNAZZA

 

A paisagem de Vernazza é dominada pelas ruínas do “castrum”, uma fortificação defensiva acastelada que data do século XI. O ex libris da localidade é a Torre Doria, bem visível no topo da falésia que brota abruptamente das águas do mar da Ligúria, a mais de 70 metros de altura. A aldeia tem uma única rua principal, a Via Roma, que desce até ao porto. Dela saem ruelas e escadinhas, tão irregulares como ramos de uma árvore. Passear por Vernazza é um sobe-e-desce constante, ora viramos para um lado, ora para outro, numa desorientação total que acaba por nos deixar longe do sítio para onde queríamos ir. O bónus é descobrir perspectivas diferentes sobre o mar de casas que escorrem pela encosta, e sobre os marcos arquitectónicos que se destacam contra as vinhas, os penhascos e o azul-esmeralda da água: as torres, o Convento de São Francisco, e a Igreja de Santa Margarida de Antioquia.

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A inundação de 2011 danificou quase todos os edifícios da aldeia e deixou toneladas de lama na Via Roma. Foram necessários dois anos para recuperar aquela que é muitas vezes definida como “a pérola das Cinque Terre”. Hoje já não há quaisquer vestígios da tragédia, e Vernazza recuperou todo o seu esplendor. Os pisos térreos das casas, que têm no máximo meia dúzia de andares, e na sua maioria menos do que isso, estão ocupados com lojas, cafés e restaurantes. Na estação de comboio há pessoas a entrar e sair a toda a hora, e o ruído das rodas dos trolleys é uma constante.

O porto de abrigo está definido por um pequeno paredão, que protege umas quantas dezenas de barcos de pescadores, muitos dos quais acumulam funções turísticas. Há também uma praia minúscula com areia escura que, apesar de não ser muito convidativa, é bastante procurada quando o tempo está mais quente – ou até mesmo à noite, para uma partida familiar de futebol. Acima da praia, o olhar é atraído pela igreja de Santa Maria de Antioquia, com a sua torre sineira octogonal coroada com arcos e uma cúpula em ogiva. Em contraste, o corpo do edifício é em pedra escura, marcada pelos séculos, denunciando o estilo românico original deste monumento religioso, que é um dos mais famosos das Cinque Terre.

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Paredes-meias com a igreja, uma piazza repleta de esplanadas e rodeada de edifícios em cores pastel, onde apetece fazer uma refeição ao final da tarde, quando as sombras avançam sobre as colinas e a luz do sol é gradualmente substituída pela dos candeeiros, reflectindo-se nas águas do porto. Um verdadeiro cenário romântico italiano.

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CORNIGLIA

 

Está posicionada centralmente em relação às suas “irmãs” e difere delas porque não está ao nível do mar, mas sim num promontório 90 metros mais acima, encaixada entre vinhedos. A sua posição privilegiada permite-lhe também ser a única que tem um miradouro de onde se avistam simultaneamente as outras quatro aldeias. E é, de todas elas, a mais pequena e mais tranquila.

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Há quem considere Corniglia como a menos atractiva das Cinque Terre, mas eu discordo totalmente. É uma aldeia cheia de cor, e de recantos e caminhos perfeitamente deliciosos. A ausência de uma ligação directa ao mar é largamente compensada pela sua originalidade e pelos pormenores surpreendentes que encontramos em todo o lado. Em vielas estreitinhas, as lojas e restaurantes parecem competir entre si pela fachada mais fora do comum, seja com elementos decorativos extravagantes, com trepadeiras ou vasos cheios de flores garridas, ou com peças de artesanato que chamam a atenção. Casas de pedra exposta alternam com outras pintadas em cores de rebuçado, e alguns recantos fazem lembrar as aldeias portuguesas: ferros forjados, sardinheiras e roupa a secar ao sol.

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O Largo Taraggio é o ponto central de Corniglia, rodeado de cafés e restaurantes, esplanadas e bancos para descansar. Subindo umas escadas, o Oratório dos Disciplinados de Santa Catarina, e por trás dele um terraço com vistas magníficas para o mar e a costa. No extremo oposto da aldeia, a igreja de São Pedro, monumento religioso do século XI com exterior gótico – onde dá nas vistas uma lindíssima rosácea em mármore branco, nitidamente recuperada em tempos recentes – mas barroca no interior, com paredes e piso em branco e preto e tectos abobadados cobertos de pinturas muito coloridas.

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Obrigatório em Corniglia é percorrer a Scalinata Lardarina, uma escadaria de tijolo com 382 degraus distribuídos por 33 patamares. Liga a aldeia à estação de comboio, e os mais corajosos atrevem-se a subi-la. Quanto a mim, optei pelo melhor dos dois mundos: subi de autocarro até à aldeia, e desci pela escadaria no regresso à estação.

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MANAROLA

 

Manarola começou a crescer no século XII, quando uma parte dos habitantes da aldeia de Volastra (situada poucos quilómetros mais acima na encosta) desceram para se instalarem junto ao mar e resgatarem novos terrenos para cultivo. Em 1276 passou a ser governada por Génova, e a arquitectura das suas casas-torre, empoleiradas na falésia de rocha compacta, é testemunha das influências genovesas que perduram até hoje. Da época medieval, quando toda a costa liguriana estava sujeita aos ataques de piratas, restam meros vestígios do bastião defensivo do castelo, actualmente meio despercebido entre as casas de habitação construídas sobre e à volta das suas ruínas.

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Também aqui, as vinhas trepam pela encosta, disputando o espaço com as habitações, e criam um contraste encantador. A aldeia de Manarola é um puzzle intrincado de casas que parecem caixas de fósforo e ruelas estreitas que se transformam em escadarias de xisto, desdobrando-se e serpenteando em ladeiras que pedem muito fôlego e energia para percorrer – mais ainda nos dias quentes de Verão.

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Um longo túnel liga a estação de comboio à rua principal da localidade, que a percorre a todo o comprimento, de leste para oeste. Subindo, chegamos à igreja de São Lourenço, construída em 1338 em estilo gótico, mas com pormenores barrocos no interior. Em frente está a Torre Sineira, que foi em tempos uma torre de vigia. Ao lado da torre, um excelente miradouro sobre o casario de Manarola com o mar por fundo, e mais ao lado, encostado a umas escadinhas que se perdem entre as casas pintadas de cores quentes, o Oratório dos Flagelados.

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Descendo até ao outro extremo da aldeia, entre lojas e restaurantes, chegamos ao porto de abrigo, que acumula as funções de praia. Não é uma praia tradicional – são apenas rochedos, alguns com uma altura respeitável, no meio dos quais foi construída uma rampa de acesso para as embarcações – mas é muito concorrida na época alta, sobretudo pelos mais jovens, que estendem as toalhas em qualquer saliência ou nesga de rocha mais plana e depois passam o tempo exibindo-se em saltos para a água, no meio de gritos de excitação.

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Depois há que voltar a subir, trepando pelas escadinhas e caminhos construídos no promontório do lado norte de Manarola, a Punta Bonfiglio. Chegamos ao cimo com os bofes de fora, mas a recompensa é grande: de um lado, a vista de postal ilustrado sobre o porto, a falésia e parte da aldeia; do outro, uma visão da costa até Corniglia e mais além.

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É aqui que há um bar com esplanada (o Nessun Dorma) que é provavelmente o mais espectacular das Cinque Terre, não pelo bar em si mas pela vista. Também há um jardim com área de piquenique e parque infantil, cheio de árvores e flores, a que chamam “Paradiso” e que é gerido e arranjado por voluntários que habitam na aldeia – ou, pelo menos, é isso que se declara em azulejos pintados à mão e afixados num muro.

Manarola é também palco de uma tradição natalícia curiosa que, só por si, deve valer bem a pena uma visita em Dezembro. Publicita-se como o Maior Presépio do Mundo, e é inaugurado todos os anos em princípios de Dezembro, mantendo-se até fins de Janeiro. Foi idealizado e começou a ser construído em 1976 por um senhor de nome Mario Andreoli, nos socalcos da encosta norte da aldeia. É composto por mais de 300 figuras em tamanho natural, feitas com materiais reciclados ou inutilizados, e para além dos personagens tradicionais de qualquer presépio todos os anos são acrescentadas novas figuras (no ano da pandemia foram adicionados médicos e enfermeiros). A iluminação é ligada todos os dias, entre as cinco da tarde e as dez da manhã seguinte, e fornecida por oito quilómetros de cabos eléctricos e 17 mil lâmpadas – alimentadas desde 2008 por uma instalação fotovoltaica construída especialmente para o efeito, uma prova de que mesmo as maiores atracções turísticas podem ser ambientalmente sustentáveis.

 

RIOMAGGIORE

 

Situada no vale do curso de água que lhe dá o nome (um pequeno ribeiro, que agora corre num túnel por baixo da aldeia), Riomaggiore não é muito diferente das suas vizinhas. A norte e sul da via principal, as casas trepam pelas escarpas, parecendo nascer umas das outras, com os seus telhados de ardósia e as suas cores fortes. Diz a tradição oral que o uso destas cores chamativas servia para que os pescadores, ao regressarem ao porto, conseguissem identificar de longe a sua habitação, mesmo quando o tempo dificultava a visibilidade.

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O acesso a partir da estação também é feito por um longo túnel rasgado sob a serrania. O tecto abobadado está pintado de um azul brilhante, e os muitos metros de parede são uma obra de arte e paciência: um mural de 200 metros de comprimento com uma sequência de mosaicos compostos por pedaços de azulejo que formam desenhos variados, alguns facilmente identificáveis, outros abstractos, misturados com pedras e seixos, pedaços de mármore, espelhos, conchas e peças em cerâmica. O projecto é do artista Silvio Benedetto, que executou todo o trabalho manualmente, no local, e lhe deu o nome de “Sequência da memória”. A assinalar o meio do túnel, a reprodução de uma grande e multicolorida estrela do mar.

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O túnel desemboca no centro da aldeia. Para cima e para sul, a zona mais rural. Para baixo, na direcção do mar, o bairro dos pescadores, parcialmente construído sobre rocha. Também aqui há um pequeno porto, com rochedos e praias de pedra de ambos os lados, acessíveis por um caminho cimentado que percorre a orla marítima para sul. Há barcos a remos em quantidade, dentro de água e fora dela, e lojas que anunciam passeios ou vendem bricabraque turístico ao lado de restaurantes, mas nem sombra de ambiente de aldeia piscatória.

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Para norte do bairro dos pescadores, no topo da colina de Cerricò, o castelo. É novamente preciso subir, e subir ainda mais, por ruazinhas em declive ou escadinhas que passam por baixo das casas, até que finalmente deparamos com as muralhas. Lá em cima, como seria expectável, a vista é soberba e desafogada: casas entre vinhas para um lado, casas sobre o mar para o outro, e as balaustradas da interditada Via dell’Amore a definirem o contorno das formações rochosas obliquamente estratificadas. Ao lado do castelo, o Oratório de São Roque, construído depois de uma praga que assolou a região e exteriormente algo insípido (e a precisar de ser pintado). Descendo para a Via Pecunia, a igreja gótica de São João Baptista e, na rua mais abaixo, o Oratório de Santa Maria Assunta. Tal como nas outras aldeias das Cinque Terre, a quantidade de lugares de culto numa localidade tão pequena mostra bem o peso que a igreja católica sempre teve, e continua a ter, nesta região italiana.

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Embora unidas pela geografia comum, cada uma das Cinque Terre tem as suas características particulares, e se parecem quase iguais umas às outras quando as vemos em fotografia, facilmente percebemos as suas dissemelhanças quando as visitamos. Qual delas é a mais bonita? As respostas vão variar tanto quantas forem as pessoas a quem fizerem a pergunta. Cada um sentirá mais afinidades com uma ou com outra, ou terá uma experiência mais marcante nesta ou naquela. Ou então será mesmo incapaz de escolher, porque todas elas têm qualquer coisa de especial. Mas uma coisa é certa: ninguém sai de lá desiludido.

 

(Também publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Capelas curiosas

Ana CB, 28.10.22

Desconheço se há algum inventário completo de todas as capelas e ermidas que temos em Portugal, mas tenho as minhas dúvidas de que exista. Serão muitas centenas, um trabalho de compilação gigantesco. País maioritariamente católico desde a fundação, em Portugal encontramos pequenas capelas por todo o lado – seja nas maiores cidades ou nas aldeias mais remotas ou minúsculas, no coração das localidades ou no meio de nenhures, quase incógnitas entre edifícios ou em grande destaque e rodeadas de aparato. São uma das formas de expressão mais genuína da devoção religiosa popular, e assumem uma enorme diversidade de aspectos, muitas delas com características únicas e excepcionais pela sua história, localização ou aparência. Há muitas que são particularmente curiosas, e com a minha apetência especial por locais fora do comum tenho coleccionado memórias de várias destas capelas “diferentes”, algumas das quais já visitei mais do que uma vez – não por questões religiosas, mas apenas porque são lugares que me atraem, cada um à sua maneira. Estas são só algumas das minhas preferidas.

 

Anta-capela de Alcobertas/Igreja de Santa Maria Madalena

(Alcobertas, Rio Maior)

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As antas-capelas são um dos muitos exemplos que mostram a forma como a religião cristã adaptou em seu benefício as tradições pagãs, e a sua concepção original faz com que sejam das construções religiosas mais interessantes do nosso país. Existem apenas seis em Portugal, e nem todas em bom estado. A de Alcobertas já foi autónoma, nela se venerando Santa Maria Madalena. Algures entre os séculos XVII e XVIII, perdeu a independência e passou a ser capela lateral da igreja dedicada à mesma santa – razão pela qual o seu acesso é feito pelo interior desta igreja. Imediatamente a seguir ao arco, forrado a azulejos da mesma época, por onde se entra na capela, são visíveis os esteios e a laje de cobertura do corredor do dólmen. Graníticos e de grande dimensão (têm cerca de cinco metros de altura, o que faz do conjunto um dos dez maiores monumentos megalíticos do género situados na Península Ibérica), os esteios da câmara ovóide já perderam a sua protecção superior original; o cimo da capela é agora fechado por um muro de tijolo e um tecto abobadado, sobre o qual assenta o telhado, de aspecto recente. Calcula-se que este dólmen date de finais do Neolítico (entre 4000 e 3500 a.C.), e terá sido cristianizado no século XVI.

 

A obscuridade do interior é aligeirada pela cor branca do tecto e da toalha que cobre o altar, revestido de azulejos tricolores que incluem uma representação não muito vulgar de Maria Madalena, arrojada na sua seminudez. Também curiosamente, sobre pedras colocadas num plano superior está uma pequena imagem quinhentista, em barro pintado de várias cores, que se supõe ser de Santa Ana, representada com um livro aberto no colo. Ainda outra curiosidade é o facto de os esteios terem gravadas, na sua superfície, muitas “covinhas” (nome técnico: fossetes), motivos rupestres encontrados com grande frequência em rochas e monumentos megalíticos, cuja finalidade continua a ser desconhecida, pese embora as várias possíveis explicações que lhes têm sido atribuídas.

A este lugar de devoção secular a Santa Maria Madalena estão associadas duas lendas, que se baralham entre si. Uma conta que foi esta santa a criadora das pedras que compõem o dólmen. A outra diz que por esta anta ter sido lugar de culto pagão, os populares tentaram demoli-la; mas cada tentativa de destruição era contrariada pela santa, que voltava milagrosamente a erguê-la. Respeitando a aparente vontade de Santa Maria Madalena, optou então o povo por dar a volta à situação, convertendo o local numa capela católica.

 

 

Capela e Gruta de Nossa Senhora da Lapa

(Entrevinhas, Sardoal)

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Dois quilómetros a sudeste da localidade de Entrevinhas há uma zona de lazer, nas margens da ribeira de Arecez. A montante, perto da modesta Barragem da Lapa, existe uma gruta onde desde há séculos é venerada a Virgem Maria. A entrada da gruta foi redesenhada em alvenaria, destacada por uma faixa amarela, e está protegida por um gradeamento de ferro. No interior, uma série de degraus feitos de pedras xistosas, em jeito de altar, conduzem os olhos até a um nicho, também realçado com ornamentos em amarelo, onde foi colocada uma pequena escultura policromada da Nossa Senhora da Lapa, na sua representação mais habitual. Este culto mariano, tão antigo que se desconhece quando terá começado, levou a que em meados do séc. XVII o Abade João Cansado mandasse edificar uma capela na margem oposta da ribeira, criando assim um pequeno santuário dedicado a Nossa Senhora. Há registo de um breve do Papa Alexandre VII, com data de 28 de Março de 1659, concedendo privilégios especiais a quem rezasse missa na capela. E em 1926, um jornal local dava conta de uma peregrinação eucarística ao local no dia de São João, tradição já antiga.

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Meio encaixada num maciço rochoso elevado, a salvo de enchentes em épocas de muita chuva, acede-se à capela por uma curta escadaria dupla. É uma construção simples, com alguns elementos barrocos na fachada e um arco sineiro sobre um dos lados do telhado, mas já sem sino. Nota-se que está a precisar de uma renovação. Está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1996, mas é uma capela privada e as visitas ao interior (que está descrito como sendo bem mais rico do que o exterior) só são possíveis por marcação com o seu proprietário.

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A zona de lazer onde se situa a capela é tranquila e agradável. Acompanhando a ribeira, filas extensas de árvores de grande porte criam uma área fresca para passear, piquenicar, ou até mesmo tomar banho, nos dias em que o calor aperta. Uma ponte de troncos e tábuas de madeira faz a ligação entre as duas margens. No extremo oposto ao da gruta há um parque de merendas, chorões frondosos, uma barreira de pedra para controlar o fluxo da água, e uma pequena cascata mais à frente. É um sítio bom para relaxar, dotado de um certo encanto, pese embora tenha no geral um aspecto pouco cuidado.

 

 

Capela do Calvário/Capela de Santa Maria Madalena

(Ferreira do Alentejo)

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É possivelmente a capela mais estranha do nosso país, e se não fosse a cruz de metal bem visível no topo, ninguém faria a mínima ideia da sua finalidade. Pequena, branca e cilíndrica, a fazer lembrar uma redoma, tem uma faixa amarela pintada na sua base, um lanternim sobre a cúpula, e várias dezenas de pedras irregulares de granito incrustadas nas paredes, concentrando-se sobretudo na parte superior. Além de estranha, é também misteriosa, pois desconhece-se o porquê de tão curiosa decoração. Moda alentejana, já que ornamentação semelhante existe na vizinha localidade de Beringel e consta que terá existido uma outra no mesmo género em Beja? Evocação do calvário de Jesus (que parece ser a explicação mais comum)? Ou da salvação de Maria Madalena (condenada a apedrejamento e uma das figuras representadas no altar da capela)? No interior, a parede do altar está pintada de azul-céu e decorada com estuques brancos com formas vegetais ou representando alguns Arma Christi (Instrumentos da Paixão, símbolos associados ao martírio de Jesus). O azul repete-se em faixas geométricas pintadas na abóbada.

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Calcula-se que a sua construção date dos séculos XVII ou XVIII. Originalmente, foi erguida num outro local da vila, a antiga Rua do Calvário, e transferida em 1868 para um dos extremos da então Rua de Lisboa, que agora é a Avenida Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Classificada como Imóvel de Interesse Público em 2003, a espécie de praça onde se encontra é zona de protecção especial, com a capela no seu centro, isolada e bem visível. À volta há edifícios baixos, de traça tradicional, um ou outro com ar apalaçado, e uma fonte ornamental moderna, com bicas e repuxos, que dá um certo ambiente de frescura a esta vila alentejana.

Seja qual for a razão das suas origens, o certo é que esta capela se tornou no ícone máximo de Ferreira do Alentejo – que é, de resto, uma vilazinha pacata, bem arranjada e limpa, com vários outros motivos de interesse para uma visita mais demorada.

 

 

Capela de Nossa Senhora das Vitórias

(Furnas, São Miguel)

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Praticamente isolada na margem sul da Lagoa das Furnas, esta capela é muito diferente de qualquer outro monumento religioso em São Miguel e, por ter bastante altura e uma torre aguçada, passa facilmente por igreja. Meio dissolvida entre a água e todo aquele verde, com a pedra manchada e avermelhada pelo tempo, as suas formas elaboradas tornam-se incongruentes num enquadramento tão simples. Visto de longe, o conjunto tem um ar algo surreal.

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Foi mandada construir em fins do século XIX por José do Canto, um abastado proprietário açoriano, para servir de mausoléu à sua mulher e a ele próprio. José do Canto era um intelectual progressista e botânico amador, e esta capela encontra-se precisamente numa das suas antigas propriedades, a mata-jardim a que foi dado o seu nome. Construída em estilo neogótico, possui uma dimensão bastante generosa, com uma torre sineira alta, pontiaguda e ornamentada. No interior, chamou-me primeiro a atenção, por não ser muito habitual, o belíssimo piso de mosaicos coloridos. Os vitrais das janelas altas, que do exterior parecem desenxabidos, mostram-se bem mais ricos quando vistos de dentro. A pedra cinzenta nua da estrutura, com as tonalidades dadas pela passagem dos anos, contrasta com a madeira castanha do gradeamento, do púlpito e dos altares. Incomum é também a ausência da talha dourada, tão habitual nos lugares de culto em Portugal, mas isso em nada lhe diminui o encanto.

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Capela de São Mamede

(Janas, Sintra)

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Saindo de Janas para norte na direcção de Fontanelas, encontramos a poucas centenas de metros, do lado esquerdo, um terreno descampado onde se ergue uma construção branca e baixa, de formato circular, que à primeira vista não dá a ideia de ser um edifício religioso. Mas é, como o provam as pequenas cruzes que se erguem no topo, visíveis se olharmos com mais atenção. Dedicada a São Mamede, esta capela data presumivelmente do séc. XVI, embora até agora não tenha sido possível saber exactamente quando foi construída. Suspeita-se inclusivamente que a sua origem seja bem mais remota, reportando-se à época romana, e que no local tenha existido um templo consagrado ao culto da deusa Diana. A razão para esta suspeita prende-se com a romaria que ali se realiza anualmente em meados de Agosto, e que se reveste de um carácter muito particular: os lavradores da região trazem até ali o seu gado (e por vezes animais domésticos), e com ele dão três voltas à capela no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Mais tarde, como pagamento das suas promessas ou como pedido de protecção para os seus animais, colocam ex-votos e oferendas agrícolas no interior da capela. Embora estas festividades sejam em honra de São Mamede, protector do gado, as suas características assemelham-se em muito às dos antigos cultos dedicados a Diana, a deusa romana das florestas e protectora dos animais, cuja principal festa ocorria no dia 13 de Agosto. Existem documentos dos séculos XV e XVII que referem esta festa dedicada a São Mamede com pormenores semelhantes aos de hoje, o que prova que esta tradição já é bastante antiga.

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É uma das poucas capelas de planta circular existentes no nosso país, e a sua concepção é atribuída, por alguns entendidos na matéria, a Francisco d’Olanda, embora tal facto não esteja de maneira nenhuma confirmado. Tem ainda a particularidade de possuir um alpendre que acompanha metade da circunferência do edifício, com colunas de pedra e janelas que lhe dão um invulgar aspecto de casa de habitação. É por este alpendre que se acede à porta de entrada na capela, cujo interior é bastante simples e despojado – como todo o edifício, aliás. Apesar de estar junto à estrada, o local onde se ergue a Capela tem uma certa aura de serenidade, e sente-se no ar o cheiro intenso dos pinheiros que estão plantados em redor. Os bancos corridos de pedra no interior do alpendre convidam a sentar e relaxar, a descontrair da correria diária, a aproveitar o sossego.

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Capela de Nossa Senhora da Orada

(Melgaço)

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Já são muitas as centenas de anos que passaram pelas pedras manchadas da Capela de Nossa Senhora da Orada. À saída de Melgaço, na estrada que vai para São Gregório, e encaixada entre os muros de uma quinta vinhateira e umas quantas casas rústicas vulgares, pode facilmente passar despercebida a quem vai de carro com a atenção mais virada para a paisagem aberta do lado do rio. E no entanto, esta capela do século XIII é um dos edifícios mais surpreendentes da arquitectura religiosa do Alto Minho (já de si riquíssima em exemplares soberbos do período românico). Dizem os entendidos que mostra ser do período tardo-românico, por possuir alguns elementos protogóticos. Mais leiga do que eles, os meus olhos notam sobretudo o portal com colunas e arcos muito trabalhados, os cachorros com símbolos e figuras esculpidas, sob as cornijas, e um motivo vegetal por cima da porta norte que (mais uma vez de acordo com os peritos) representa a árvore da vida e é único em Portugal.

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Na sua escrita tão característica, Saramago descreveu a Capela da Orada no livro “Viagem a Portugal”, e foram precisamente as palavras dele que me trouxeram aqui pela primeira vez, há já muitos anos:

 

Mas a Igreja da Nossa Senhora da Orada, pequena construção românica decentemente restaurada, é tal obra-prima de escultura que as palavras são desgraçadamente de menos. Aqui pedem-se olhos, registos fotográficos que acompanhem o jogo da luz, a câmara de cinema, e também o tacto, os dedos sobre estes relevos para ensinar o que aos olhos falta. Dizer palavras é dizer capitéis, acantos, volutas, é dizer modilhões, tímpano, aduelas, e isto está sem dúvida certo, tão certo como declarar que o homem tem cabeça, tronco e membros, e ficar sem saber coisa nenhuma do que o homem é.

 

Em tempos, junto à capela esteve colocado um cruzeiro – erguido em 1567, ano de peste e portanto de fervor religioso acrescido. Questões logísticas ligadas à quantidade de devotos que o contornavam nos dias de romaria acabaram por o deslocar, em fins do século XIX, para um pouco mais acima, no outro lado da estrada, local que é agora um miradouro de excelência sobre Melgaço, o rio Minho e terras galegas. Tal como sucede com a capela, a imagem de um tosco Cristo crucificado e o desgaste do granito acusam as centenas de anos a que este cruzeiro já sobreviveu.

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Anta-Capela de São Dinis

(Pavia, Mora)

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Outra anta-capela de que gosto particularmente, pela sua harmonia estética, é a de Pavia. A sua importância histórica levou a que fosse classificada como Monumento Nacional em 1910. Não sendo difícil de reconhecer, pode passar despercebida a quem não souber da sua existência e for desatento, meio escondida que está no recanto de um largo com árvores, bem vindas pela sombra mas que também funcionam como cortina visual.

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Apesar das intervenções feitas pela mão humana, são bem visíveis os sete grandes esteios (agora unidos por alvenaria) do monumento megalítico original, mais ainda porque a capela está virada de costas para as vias de acesso principais. A anta terá sido erguida algures pelos milénios IV ou III a.C., e por desígnios misteriosos sobreviveu até ser cristianizada, provavelmente no século XVII. A sua transformação em capela dedicada ao culto de São Dinis não envolveu nem grandes complexidades, nem grandes quantidades de cimento: um alçado saliente, com a abertura para entrada, protegida por portas de madeira e portões de ferro, e uma cruz no topo; um pequeno campanário rectangular mais elevado, que abriga o sino; e três degraus para acesso ao interior, mais elevado do que o nível da rua.

Por dentro, a capela não poderia ser mais minimalista: paredes nuas e apenas um frontal de altar revestido de azulejos azuis e brancos, decorados com volutas e querubins e com uma representação fora do comum de São Dinis ao centro, em tamanho reduzido. Sobre o altar, um pano branco bordado e uma jarra de cerâmica com flores artificiais. O despojamento interior, que o contraste com os azulejos de influência barroca acentua sobremaneira, condiz bem com o aspecto geral desta capela, onde as características primitivas não foram abafadas pelas alterações posteriores e permanecem bem marcadas.

 

 

Capela de Nossa Senhora do Monte

(Santarém)

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Na cidade a que chamam “capital do gótico” não faltam monumentos religiosos, mas esta capela é uma curiosidade. Primeiro que tudo, porque é românico-gótica, com origens no século XII, mas também tem características renascentistas, fruto de uma remodelação no século XVI. Depois, porque se encontra em meio urbano, quase “abafada” pelas construções que a rodeiam e que, embora sejam baixas, roubaram a vocação que este lugar já teve de miradouro privilegiado sobre o vale que se estende para oeste da cidade. E finalmente, porque é desde há uns anos a sede da Paróquia Ortodoxa Romena de Santarém, cujo nome é “Ascensão do Senhor”, utilização que não é habitual nos edifícios de raiz católica apostólica romana.

A capela é toda de pedra nua, com excepção de um “acrescento” lateral em alvenaria. Rectangular e com vários volumes, a sua característica mais marcante é a galilé (alpendre com colunas) que ocupa a totalidade das fachadas oeste (a principal) e sul. Assentes sobre um murete baixo, as colunas elegantes terminam em capitéis decorados, cada um de sua maneira, com elementos vegetais, volutas e cabeças de onde saem asas, representando anjos. Na fachada nascente há um nicho muito elegante, que os peritos dizem ser quinhentista, tal como os alpendres, e de recorte mudéjar. Abriga uma escultura que representa a Virgem Maria, que terá sido bem colorida em tempos mas agora apenas tem uns restos de tinta azul no manto. Alguém terá achado por bem “embelezar” o nicho com algumas flores artificiais que já viram melhores dias, entre elas uma rosa, de tamanho desproporcionado e cor já muito desbotada, colocada sobre as mãos unidas da imagem.

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A história desta capela também não é desprovida de particularidades algo fora do comum. Pertencendo originalmente à Colegiada de Santa Maria de Alcáçova, em meados do século XIII passou para a posse da Casa de São Lázaro – hospital e leprosaria criados em Santarém por D. Afonso II, que contraiu lepra e escolheu isolar-se nesta cidade, onde veio a morrer em 1223. A partir do século XVII, o Hospital de São Lázaro passou a ser administrado pela Misericórdia, o mesmo sucedendo à capela. Datam deste século os lambris de azulejos que existem no interior.

 

Apesar de encafuada entre casas e carros, que lhe retiram uma parte do protagonismo no local, a Capela de Nossa Senhora do Monte mantém uma aura de encanto e um aspecto de dignidade, de que sobrevive ali por mérito próprio, há muitos séculos, e ali continuará por muitos mais, qualquer que seja o destino dos edifícios que a cercam.

 

 

Anta-capela de São Brissos/Capela de Nossa Senhora do Livramento

(Santiago do Escoural, Montemor-o-Novo)

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O nosso Alentejo é uma região riquíssima no que toca a vestígios pré-históricos, e é na estrada que liga Santiago do Escoural a Évora que encontramos mais um monumento megalítico adaptado a local de culto católico. Isolada, com um ar meio perdido junto à entrada para um couto de caça, passa facilmente despercebida a quem não vai propositadamente à sua procura. Tem entre cinco e seis mil anos e o seu nome religioso é Capela de Nossa Senhora do Livramento, atribuído após a sua transformação e cristianização no séc. XVII. Classificada como Monumento Nacional desde 1910, da anta primitiva restam alguns esteios, um dos quais está caído ao lado da capela, e parte da laje de cobertura, que foi integrada no tecto da ermida. Está pintada de branco, com uma faixa azul na base, à maneira das casas típicas alentejanas, e só é possível visitar o interior mediante marcação antecipada.

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Até recentemente foi lugar de romaria, especialmente por alturas da Páscoa. A Senhora do Livramento está tradicionalmente associada ao parto, mas a que está nesta capela tem desempenhado também uma outra função: a de invocar as chuvas em anos de seca prolongada, atribuição que lhe advém de uma daquelas lendas em que nós, portugueses, somos pródigos, e cuja origem mística se perde nos tempos. São Brissos é um santo português que terá sido o segundo bispo de Évora e supostamente martirizado pelos romanos no séc. IV d.C. Existem no Alentejo várias povoações com o seu nome, uma delas bem perto da anta-capela, e a imagem do santo ocupa lugar de destaque na igreja da localidade. Diz então a lenda que a Senhora do Livramento e São Brissos tiveram um filho, também representado na anta-capela ao colo da sua mãe. Ora sucede que o dito santo acabou por trair a mãe do seu filho com a Senhora das Neves (talvez em dia de muito calor, quem sabe, que esta Senhora devia ser fresquinha…) e o casal ficou de candeias às avessas para todo o sempre. Quando a seca já vai longa e a chuva começa a fazer falta, os habitantes da localidade transportam a Senhora do Livramento para a igreja de São Brissos, onde a colocam de costas voltadas para o seu antigo amor. No entanto, o filho permanece na anta-capela – e então a Senhora, com saudades da criança e obrigada a estar ao pé do homem que a traiu, chora rios de lágrimas, lágrimas essas que se transformam em chuva. Uma lenda ao gosto da nossa tão portuguesa costela trágica.

A outra face de Serralves

Ana CB, 27.09.22

Oito e meia da tarde e já está escuro, embora o céu ainda tenha aquele tom anilado típico das noites quentes de Verão. Estamos a entrar no Outono mas não se nota nada, há três dias que estou no Porto e ainda não vesti um agasalho.

 

Apesar do horário pouco usual para uma visita, o portão norte de Serralves está aberto e vão entrando pessoas, aos pares ou em pequenos grupos. O ambiente é tranquilo, um segurança indica que a entrada é mais abaixo, outro pega nos bilhetes e faz-lhes um corte. Serralves está em luz e é altura de conhecer uma face diferente deste mundo, aquela que nunca vi – a sua face nocturna.

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Quando comprámos os bilhetes deram-nos um livrete que explica a exposição, o seu percurso e as várias instalações, mas ignorei-o propositadamente. Prefiro ir à aventura, desconhecendo o que me espera, para não ter ideias preconcebidas e simplesmente sentir o que vou ver e viver. Gosto das experiências cruas, de não saber o que me aguarda, ou saber só o essencial. Mesmo quando preparo as minhas viagens, nunca vou esmiuçar tudo ao pormenor. Sei que há um qualquer sítio que pode ser interessante, marco-o nos meus planos, mas resguardo-me para o factor surpresa.

 

O início do percurso é psicadélico, uma alternância rápida de cores vivas que se reflectem em paredes claras e tubos dispostos em linhas enviesadas que se cruzam. Depois seguimos por um corredor definido por muros baixos de betão, e instala-se a calma. Atrás dos muros há árvores esquálidas iluminadas por focos de cor, e atrás delas a escuridão total. Sinto-me como numa porta de entrada para outra dimensão. Mais à frente, nova mudança de ambiente, esta o negativo da anterior: as árvores são agora silhuetas negras sobre o fundo feérico de cores quentes que tinge a parede do museu, e a janela da biblioteca brilha como um farol.

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O ritmo do passeio é lento, a noite pede sossego e até as vozes baixam de tom. O ar está morno e parado e uma neblina leve desfoca ligeiramente tudo o que me rodeia. Sigo o percurso marcado, algo monótono nesta primeira parte, uma sucessão de árvores e arbustos alumiados a espaços, alternando com zonas de negrume. Há uma banda sonora de fundo, sons musicais que me parecem provir de taças tibetanas, e de vez em quando aparece uma instalação luminosa: o roseiral, declinado em roxo, vermelho e azul intermitentes; o corte de ténis, onde se alinham campânulas de vidro com feixes de luz interactivos, que se movem verticalmente quando os cruzamos – como soldados perfilando-se em sentido à passagem do seu comandante; aros fluorescentes desenhando o contorno dos troncos de gigantescos eucaliptos; linhas de luzes que unem várias árvores acima da minha cabeça, a fazerem lembrar teias de aranha (li depois que a ideia é evocarem as micorrizas, as “ligações entre redes de fungos e as raízes das árvores e plantas”, mas a minha impressão não desapareceu).

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A tranquilidade é quebrada ocasionalmente pela passagem barulhenta de um avião na sua descida para o aeroporto. O ruído e as luzes poderiam fazer parte da exibição, como elemento disruptor, mas são apenas uma coincidência que me transporta bruscamente para a realidade. Felizmente, apenas por alguns momentos. Fora isso, é a imersão total na atmosfera que me rodeia. Caminhar e sentir, caminhar devagar, parar de vez em quando para observar as instalações, tirar fotografias aos cenários criados pelo contraste entre a luz e a sua ausência, às pessoas prensadas em silhuetas bidimensionais. O parque de Serralves está transformado num mundo onírico e, tal como nos sonhos, não sei o que é que vai acontecer a seguir.

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Por entre o arvoredo surgem barras de luz que mimetizam um movimento circular, ora azuis, ora vermelhas, ora alaranjadas, às vezes transformam-se em pontos que me parecem estrelas. Só quando se iluminam todas ao mesmo tempo, brancas e muito brilhantes, é que me apercebo de que estou ao pé do lago. A composição luminosa foi colocada em torno da ilha, as árvores estão engolidas pelo escuro, e a água é uma superfície de breu que apenas reflecte as luzes da instalação, impotentes para iluminar o que as cerca. Mais ao lado, atrás das gigantes pernas de madeira do passadiço elevado, flutuam globos esféricos que mudam de cor, do branco-amarelado ao rubro, jogando às escondidas entre eles e connosco. A seguir subo até à Casa do Cinema por um caminho ladeado de bambus, cujo verde foi substituído por cores cálidas. Na fachada lateral do edifício é projectado um filme que mostra, a velocidade supersónica, silhuetas de elementos vegetais sobre rectângulos de tonalidades fortes roubadas ao arco-íris. O som que acompanha a projecção é uma espécie de martelar rítmico repetitivo e juntos, imagem e música, têm um efeito hipnotizante. Tivessem colocado um sofá naquele sítio e eu poderia ficar ali durante tempos infindos, sem dar por nada do que se passasse à minha volta.

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O percurso leva-me pelo arvoredo ao lado do parterre central. No meio dos troncos há paralelepípedos brancos, cuja iluminação realça as silhuetas dos ramos finos colocados no seu interior. E é ao descer pela alameda que conduz à fonte que tenho o primeiro vislumbre da Casa. Não a conhecesse eu já de outras visitas e teria muita dificuldade em a associar à imagem que vemos nas fotografias. A sua icónica cor rosa-salmão foi mascarada com azul-forte, as janelas e aberturas vibram em tons laranja, amarelo ou rosa – a Casa irradia felicidade, parece estar em festa, a aguardar convidados para uma soirée esfuziante de animação. O parterre é a passadeira vermelha por onde subo até ela, e a enorme escultura de metal negro de Rui Chafes (Comer o coração) que instalaram à sua frente pode bem simbolizar os seguranças que controlam a entrada no evento.

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Mas é só a minha imaginação a trabalhar. Na verdade, a esta hora a casa não está aberta ao público. Há, de facto, um segurança de carne e osso, mas a sua função é precisamente evitar qualquer equívoco, não vá alguém mais entusiasmado achar que pode entrar por ali adentro. O percurso é também muito explícito, com as setas a conduzirem os visitantes pelos caminhos que contornam o edifício. Passo por uma fonte banhada em luz verde-água, depois pelos arbustos podados que escondem no interior uma árvore e um banco de jardim, ambos envoltos na neblina audivelmente vaporizada por uma máquina e iluminada por um projector. Mais à frente, outra árvore está rodeada por uma cerca alta feita de espelhos, percorrida por luzes, que poderia facilmente passar por uma nave espacial. Lá dentro os espelhos replicam o tronco robusto até ao infinito, e as luzes multiplicam-se na sua lenta deslocação, cruzando-se ou chocando umas com as outras.

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Após a passagem por trás da Casa, o ambiente volta a transformar-se. Primeiro aparecem túlipas gigantes, rubras, espalhadas ao longo do caminho. Depois surge uma árvore-fantasma, de que só vemos o tronco parcialmente delineado por fios de luz azul. Até que desemboco no parterre lateral e sinto que entrei novamente num filme – talvez de ficção científica, ou talvez de terror. Da Casa iluminada, ao fundo, parecem emanar feixes de luz vermelha, rentes ao chão, como se ela estivesse prestes a erguer-se nos céus, viajando para outro planeta, ou então fosse habitada por um espírito demoníaco, lançando raios de fogo sobre os incautos que dela se aproximam.

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A realidade é bem mais prosaica. São apenas raios laser colocados junto ao solo, completamente inofensivos, que atravesso tal como os outros visitantes, convertida em simples silhueta negra ambulante, quiçá com movimentos de zombie. Já passaram duas horas desde que entrei em Serralves, o dia foi longo e o corpo ressente-se, os músculos e a coluna gritam por uma pausa para descanso. O percurso de três quilómetros está quase no fim. A alameda dos liquidâmbares, por onde é habitualmente feita a entrada no parque, leva-me agora até à saída. Também ela é atravessada por grupos de raios laser colocados nas árvores, ligando-as umas às outras. Os aspersores de neblina pulsam ruidosamente; fecho os olhos, e parece-me que são as próprias árvores a respirar. Abro-os e vejo a alameda embrulhada em azul; as luzes estão dirigidas para cima, para as copas ainda exuberantes com a folhagem que dentro de poucos meses terá desaparecido, e quase não vejo onde ponho os pés.

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Depois da The curious vortex de Olafur Eliasson (um dos autores do fantástico Harpa de Reiquiavique), que mal se adivinha, o piso é inundado pela cor vermelha, que cria sombras acastanhadas nos liquidâmbares; tal como vermelha é a cor da gigantesca Colher de Jardineiro (de Claes Oldenburg, falecido em Julho deste ano, e Coosje van Bruggen), uma das esculturas mais chamativas do Parque. A caminho do portão de saída, um último vislumbre da fachada do Museu, iluminado à maneira de um pôr-do-sol, e onde se recorta a escultura de Rui Chafes que dá nome à mostra dos seus trabalhos actualmente em exposição: Chegar sem partir.

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Serralves é um mundo onde coabitam algumas das minhas “coisas” preferidas: a natureza, a arte e a educação. Tive a sorte de visitar este mundo pela primeira vez quando o espaço tinha aberto ao público há poucos meses e a Casa ainda funcionava como museu. Ao longo dos anos o projecto cresceu e consolidou-se, e embora eu não seja visitante assídua, de cada vez que volto nunca fico desiludida. É sempre uma satisfação regressar a um local onde a cultura é tão bem tratada e descobrir, em cada vez, mais uma faceta deste mundo que consegue, por vezes, fazer-me viajar para outros mundos.

Blogue da semana

Ana CB, 04.09.22

 

A Ruthia descreve-se a si própria desta maneira: “Viajante, mãe babada, chocólatra, amante de livros e museus”. E porque quer passar todos estes “vícios” ao filho Pedro, viaja sempre com ele. Criou o blogue O Berço do Mundo para inspirar (e ajudar) outras famílias a viajarem também com os seus filhos, porque acredita que “viajar é uma forma maravilhosa de educar, de formar cidadãos mais tolerantes e curiosos”.

Já viveu em vários países, e tanto pode andar a trilhar caminhos portugueses como a mostrar-nos segredos da Europa ou de África. Além de muitíssimo bem escritos, os textos da Ruthia estão recheados de boas sugestões, curiosidades e conselhos práticos; e notam-se em todos eles os valores que defende (em viagem e não só): o respeito pelos outros, a tolerância, a sustentabilidade, as boas práticas.

 

Ler a Ruthia é para mim sempre um prazer, e tenho a certeza de que também vão gostar.

 

São Petersburgo e Moscovo, metades diferentes da mesma laranja

Ana CB, 30.08.22

 

Foi apenas há três anos que estive de férias na Rússia, mas parece que foi há muito mais – sucedeu tanta coisa entretanto que ao invés de encolher, como é costume, o tempo esticou para o dobro. Não houve nenhum apocalipse, mas dou por mim com a sensação de viver num (mau) filme de ficção científica, entre avanços tecnológicos brutais e alterações climáticas com consequências impiedosas, entre regressões sociais e agressões políticas, e com a sensação cada vez maior de que em vez de evoluir, o ser humano está em franco retrocesso.

 

São Petersburgo era um daqueles destinos que estava há muito tempo na minha lista de desejos, e quando uma amiga me desafiou a ir com ela numa viagem de uma semana às duas maiores cidades russas, nem hesitei. Não sou grande adepta de viagens organizadas por agência (esta era), sobretudo porque o habitual é cingirem-se a levar-nos aos sítios aonde toda a gente vai e ocuparem-nos os dias inteiros com visitas pré-programadas. Mas neste caso o roteiro até nos deixava alguns períodos livres e o programa era interessante q.b.

São Petersburgo - Catedral de Nossa Senhora de Cazã.jpegCatedral de Nossa Senhora de Cazã, São Petersburgo

 

A ordem da visita às cidades era à nossa escolha, por isso optámos por começar por São Petersburgo. A desvantagem foi termos de fazer escala em Moscovo antes de seguirmos para a cidade imperial, por azar em dia de greve do pessoal de handling do aeroporto de Sheremetievo. Como consequência, as nossas malas não foram despachadas no voo para São Petersburgo em que seguimos, e depois demorámos mais de duas horas no aeroporto de Pulkovo para fazermos a reclamação – porque havia umas boas dezenas de pessoas com o mesmo problema que nós. Com tanta demora, o senhor do transfer para o hotel praticamente deitava fumo pelas orelhas quando finalmente saímos ao seu encontro; mas o ambiente no carro desanuviou quando, logo após deixarmos as imediações do aeroporto, teve de parar para deixar passar… uma pata que atravessava, em passada decidida e seguida pelos seus vários filhotes em obediente fila indiana, a estrada tipo via rápida que percorríamos. Depois de doze horas de viagem e da preocupação com as malas, esta visão tão inesperada quanto incomum e ternurenta foi um anticlímax bem vindo. Viajar são surpresas atrás de surpresas.

 

Três ou quatro dias em metrópoles tão grandes e cheias de história como São Petersburgo e Moscovo são claramente insuficientes, mas ainda assim serviram para que eu aprendesse mais alguma coisa sobre a Rússia, e principalmente que há grandes, enormes diferenças entre as duas maiores cidades do país. E que, por extrapolação, grandes diferenças existirão também em relação a outras cidades e regiões. Para mim, tentar entender a complexidade de um país tão vasto e variado (onde coabitam perto 200 grupos étnicos diferentes) é tarefa inglória e destinada ao fracasso, e não é por aqui que quero ir. Sou uma mera observadora.

 

A arquitectura destas cidades é o primeiro e mais visível indício da dicotomia que as marca. São Petersburgo é imperial, Moscovo é soviética. Onde São Petersburgo é água, Moscovo é betão (o rio é um mero acessório sem importância). São Petersburgo espraia-se ao longo dos recortes do rio Neva e do golfo da Finlândia, com edifícios de poucos pisos e recorte clássico, ou mais altos e simples nos bairros periféricos recentes; Moscovo é um círculo que mimetiza o sol, com o Kremlin como núcleo e as vias principais os seus raios, propagando-se em todas as direcções (a comparação com um polvo e os seus tentáculos também me parece adequada), e com edifícios que se projectam em altura, ambicionando conquistar os céus.

São Petersburgo - Neva.jpegO Rio Neva em São Petersburgo

Moscovo vista da Colina dos Pardais.jpegMoscovo vista da Colina dos Pardais

 

São Petersburgo nasceu no século XVIII da vontade de Pedro I, o Grande, primeiro imperador da Rússia. Conquistado em 1703 o forte sueco de Nyenskans, nas margens do Neva, durante a Guerra do Norte, decidiu ali fundar uma grande cidade, que servisse sobretudo de porto marítimo utilizável durante todo o ano. Construída sobre terrenos pantanosos à custa da vida de camponeses arrebanhados de toda a Rússia e de prisioneiros de guerra, Pedro projectou São Petersburgo à imagem das grandes capitais europeias da época, e essa é uma das razões pelas quais a arquitectura da cidade é tão homogénea.

São Petersburgo - Praça do Palácio.jpegPraça do Palácio, São Petersburgo

 

Esta aproximação à imagem da Europa faz parte da dualidade histórica constante da Rússia, que pisca um olho ao ocidente e outro à Ásia, enquanto baralha e dá as cartas ao seu jeito. Não admira por isso que Putin tenha invocado este imperador para justificar a invasão da Ucrânia, argumentando que Pedro I entrou em guerra com a Suécia não para conquistar, mas sim para recuperar território que pertencia à Rússia por direito – e que a guerra na Ucrânia tem os mesmos fins.

 

Em 1712, Pedro I elevou São Petersburgo a capital do império, estatuto que manteve até 1918 (com apenas dois breves intervalos, em que o posto foi ocupado por Moscovo). Duzentos anos de protagonismo enriqueceram a cidade, e esta riqueza ostentada – e ainda presente depois de tantos anos de modelo soviético – foi um dos aspectos que mais me surpreendeu durante toda a minha visita. Para onde quer que me virasse, via cúpulas e torres douradas. O Hermitage, de que só vi uma parte e em passo meio corrido, é um deslumbramento, tanto na decoração das suas salas como no valor das obras de arte que exibe. A fantástica agulha da torre sineira da Catedral de Pedro e Paulo, que faz dela o segundo edifício mais alto da cidade, brilha como um farol, sob o sol de Verão. No interior, onde estão expostos os túmulos de quase todos os governantes da casa Romanov, o ouro é tanto que ofusca. E a iconóstase desta catedral é deslumbrante: em vez de uma parede plana com ícones e pinturas, como é habitual na maioria das igrejas ortodoxas, aqui ela eleva-se ao centro para formar uma torre, estando primorosamente trabalhada e completamente recoberta a ouro.

Catedral de Santo Isaac, São Petersburgo.jpegCatedral de Santo Isaac, São Petersburgo

Loggias de Raffaello, Hermitage, São Petersburgo.JPGLoggias de Raffaello, Hermitage, São Petersburgo

Hall do Pavilhão do Pequeno Hermitage, São Petersburgo.JPGHall do Pavilhão do Pequeno Hermitage, São Petersburgo

Torre da Catedral de Pedro e Paulo, São Petersburgo.JPGTorre da Catedral de Pedro e Paulo, São Petersburgo

Iconóstase da Catedral de Pedro e Paulo, São Petersburgo.JPGIconóstase da Catedral de Pedro e Paulo, São Petersburgo

 

O romantismo melancólico da cidade é sublinhado pela água: do Neva, tão largo que parece mais mar do que rio, e dos seus vários canais e tributários, que totalizam 300 km de vias fluviais. Onde há rios há pontes, e são mais de 300, todas diferentes. Em São Petersburgo nunca estamos muito tempo longe da água, o que dá à cidade um ambiente leve e arejado.

Ponte Bank, São Petersburgo.jpegPonte Bank, São Petersburgo

Castelo Mikhailovsky, São Petersburgo.jpegCastelo Mikhailovsky, São Petersburgo

 

A viagem para Moscovo foi em comboio nocturno. No nosso compartimento ia também um casal espanhol, mas a hora avançada da partida, quando já estávamos todos cheios de sono, não nos deu vontade de grandes conversas. Apesar de algum conforto (até tivemos direito a chinelos e artigos de higiene), a falta de escuridão total, o ressonar do nosso companheiro valenciano e uma azia provocada pela digestão difícil de um jantar tardio fizeram com que eu não conseguisse dormir bem. O Verão é o período das noites brancas, com apenas duas ou três horas de escuridão. A má disposição empurrou-me para o corredor, onde fui brindada por uma paisagem quase contínua de floresta e pelo nascer-do-sol mais fascinante a que já assisti, com uma cortina de névoa a desprender-se do solo, pairando entre as árvores que passavam em corrida desenfreada do outro lado da janela. Foi um dos episódios mais marcantes de toda a viagem, pelo deslumbramento que senti. Estive mais de uma hora naquele corredor e só voltei ao compartimento, com alguma relutância, porque outros viajantes começavam a despertar e a movimentar-se pelo comboio, quebrando a minha paz.

 

Ao contrário de São Petersburgo, Moscovo tem uma história bem mais antiga, documentada desde o século XII, crescendo progressivamente em torno do seu Kremlin a partir do século XIV. Talvez porque o grande incêndio de 1812 – que se suspeita ter sido ateado pelos próprios russos, depois de terem evacuado a cidade na altura da invasão pelas tropas de Bonaparte – destruiu três quartos dos seus edifícios, ou talvez porque foi escolhida para capital da União Soviética logo após a revolução bolchevique, Moscovo não mostra nada que a ligue ao seu passado remoto. É prática, pragmática e megalómana a todos os níveis, cheia de monumentos e empreendimentos gigantescos (ao bom estilo soviético), e os edifícios só não parecem tão grandes porque geralmente estão separados uns dos outros por avenidas larguíssimas, ou porque dentro do nosso ângulo de visão há sempre outros ainda maiores.

Moscovo - Praça Vermelha no séc. XVIII.jpegA Praça Vermelha de Moscovo no séc. XVIII

Kremlin, Moscovo.jpegO Kremlin de Moscovo

 

São Petersburgo foi concebida para mostrar a grandeza de Pedro I e, mais tarde, de Catarina II. Moscovo foi recriada para ostentar a grandeza do poder soviético e, agora, de Putin. Estaline mandou construir os altíssimos edifícios conhecidos como as Sete Irmãs (ou também, mais popularmente, como “os caprichos de Estaline”), os mais emblemáticos e fotografados arranha-céus da cidade. Vistos de longe – e conseguem ser avistados de bem longe… – parecem todos iguais, mas na realidade existem diferenças entre eles tanto em altura como na própria configuração. Embora nitidamente inspirados nos arranha-céus norte-americanos, são eles os melhores exemplares do estilo a que se convencionou chamar classicismo soviético ou monumental.

Edifício Kotelnicheskaya, Moscovo.jpegEdifício Kotelnicheskaya, Moscovo

Universidade Estatal de Moscovo.jpegUniversidade Estatal de Moscovo

 

Estaline teve os seus caprichos, mas Putin não parece querer ficar atrás. Na linha do horizonte de Moscovo destaca-se hoje nitidamente o bairro que tem o nome oficial de Centro Internacional de Negócios de Moscovo ou, na sua forma mais curta, a City de Moscovo. Para este projecto, que começou a ser concebido nos anos 90, foi destinada a área de uma antiga pedreira junto a uma das curvas do rio Moscovo. É aqui que se encontram actualmente alguns dos maiores arranha-céus da Rússia, todos de cariz futurista e onde se incluem, com alturas superiores a 300 metros, sete dos dez maiores da Europa – isto por enquanto, uma vez que as possibilidades de construção futura ainda não estão esgotadas.

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City de Moscovo (1).JPGA City de Moscovo vista do Parque Pobedy

 

Outro edifício moscovita que ilustra a tendência da Rússia actual (e a volubilidade da sua História) é a Catedral de Cristo Salvador. É tecnicamente a catedral mais importante de Moscovo, e também um exemplo de fénix renascida das cinzas. Mandada erguer por Alexandre I depois da retirada das tropas napoleónicas, foi igualmente uma obra megalómana (103 metros de altura e capacidade para 10 mil pessoas) e só ficou concluída em 1883. Associada ao czarismo e em consonância com o desprezo pela religião advogado pelo regime soviético, foi destruída em 1931 para dar lugar a um futuro palácio monumental, que nunca chegou a ser construído, por falta de fundos. O espaço acabou por ser ocupado por uma piscina pública. Depois da desagregação da União Soviética, o governo autorizou o Patriarcado de Moscovo a reconstruir a catedral, que foi reinaugurada no ano 2000 e é praticamente igual à primeira. Com a liberdade religiosa decretada entretanto, a percentagem da população que se assume como cristã ortodoxa subiu de 31% para 72%, e a propagandeada (aparente) convergência de ideias político-espirituais entre o Patriarca Kirill e Vladimir Putin não parece ser mera coincidência.

Catedral de Cristo Salvador, Moscovo.jpegCatedral de Cristo Salvador, Moscovo

 

Viagem organizada por agência significa guias, e guias significam, além de muita informação sobre os locais que visitamos e (com um bocadinho de sorte e diplomacia) alguma informação também sobre outros assuntos mais sensíveis – sendo que, num país como a Rússia, sensível é tudo o que disser respeito à política e à sociedade. E até neste aspecto notei a diferença entre as duas cidades. A guia de São Petersburgo falou-nos de artes e letras, de História e arquitectura, de questões sociais. Mostrou-nos a figurinha do cão parecido com Putin que está numa vitrina do Hermitage, explicou que a maior parte das pessoas (mesmo os jovens) não têm grande interesse em falar outra língua que não o russo, e revelou que na generalidade os papéis sociais dos homens e mulheres ainda são vistos de forma tradicionalista, as mulheres sendo consideradas como responsáveis pelo bem-estar da família e pelo trabalho doméstico – apesar de quase todas terem os seus empregos. Quanto às guias de Moscovo, realçaram a importância da cidade, a resistência e bravura dos seus residentes, a magnificência do metropolitano ou a monumentalidade dos edifícios, e o facto de grande parte das mulheres russas admirarem Putin por este ter implementado medidas que apoiam a natalidade e – supostamente – o género feminino.

 

Correndo o risco de ser simplista neste paralelismo, São Petersburgo e Moscovo parecem-me simbolizar duas das correntes de pensamento político que grassam actualmente na Rússia: uma de aproximação aos valores europeus, pelos quais são definidas as regras de harmonização social e actuação política; outra de que a Rússia é superior na sua essência, e portanto tem o direito de ser ela a ditar as regras pelas quais a Europa deveria reger-se. A rejeição europeia é, em termos práticos, a adoptada pela actual linha política russa, e não parece provável que Putin se desvie dela enquanto continuar no poder. No entanto, com a capacidade de torcer a verdade que tem mostrado, quem sabe se um dia…? Num país de tantos contrastes, tudo é possível.

Arte, museus e boas surpresas

Ana CB, 18.07.22

Quando eu era miúda, de vez em quando a minha mãe gostava de pegar em mim e na minha irmã ao domingo e levar-nos a visitar um museu de Lisboa, ou um palácio ou monumento. Vivíamos nos arredores da cidade e ela nunca tirou a carta de condução, por isso a saída implicava uma viagem mais ou menos longa em transportes públicos, mas nada que a desencorajasse. O meu pai, que conduzia mas se apartava voluntariamente destas excursões – não sei se por razões de trabalho, de falta de vontade, ou porque as suas preferências se inclinavam mais para areia e mar – tinha no escritório os dois magníficos volumes de “As Maravilhas Artísticas do Mundo” do Ferreira de Castro (que nós só tínhamos o direito de abrir sob estrita supervisão parental), mas reservava as visitas a museus para quando viajávamos. Foi ele que nos levou pela primeira vez ao Louvre e ao Museu Britânico, teria eu uns 12 ou 13 anos, apesar de no ano anterior ter ignorado o MoMA em Nova Iorque. Na verdade, o interesse dos meus pais pelos museus tinha menos a ver com o gosto pela arte em geral do que com o prazer de observarem “coisas bonitas”, e a sua noção de beleza restringia-se ao que fosse classicamente identificável, melhor ainda se tivesse ouro ou prata à mistura. Estando as raízes de um e de outro em famílias humildes de origem rural, já era bastante disruptor o facto de os seus interesses incluírem a literatura e as artes plásticas, e na verdade foi suficiente para criarem nas filhas o gosto e um interesse mais alargado pelas artes.

 

Procurei replicar depois com o meu filho aquilo que os meus pais tinham feito comigo e a minha irmã, talvez ainda de forma mais exagerada e com algum sacrifício da parte dele. Nos episódios mais memoráveis está uma visita guiada ao Palácio de Mafra em que ele, com ano e meio de idade e se calhar já aborrecido de marchar (literalmente!) por tanto corredor interminável, decidiu fugir do grupo e atirou-se em corrida contra uma das estantes da famosa biblioteca; e uma incursão ao Louvre quando tinha cinco anos, no final de um dia em que já tínhamos percorrido um exagerado número de quilómetros a pé, em que aproveitou cada banco em cada sala para se sentar, sem um queixume, enquanto os seus impassíveis pais paravam a observar mais um quadro, mais uma escultura, mais um objecto. Apesar destes maus-tratos, creio que não ficou traumatizado, e ter escolhido para curso universitário precisamente uma área artística parece-me ser disso uma prova.

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Museu do Louvre, Paris

 

Da minha mãe também herdei algum jeito para o desenho, e até chegar ao ciclo preparatório dizia que queria ser pintora. Claro que para os meus pais isso não preconizava um futuro bem sucedido, e a pouco e pouco lá conseguiram orientar-me para outra área que eu também apreciava e prometia ser mais rentável O êxito dos seus esforços foi apenas parcial, e à medida que fui crescendo, cresceu também o meu apreço pelas várias formas de expressão artística, sobretudo pela pintura e o design (acabei por tirar depois um curso nesta área), com preferência especial pelas correntes modernas e contemporâneas. Os museus foram, obviamente, parte importante na descoberta do meu gosto – falo de um tempo em que a tecnologia ainda não tinha posto na ponta dos nossos dedos o acesso imediato a (quase) tudo o que se vai fazendo por esse mundo fora. Tínhamos os livros, o cinema e alguma televisão, e tudo o mais tinha de ser “ao vivo”. Sem os museus e as exposições temporárias da Gulbenkian, nos anos 80 não me teria apaixonado por Vasarely e a Op Art, por Escher e as suas construções impossíveis, pelas cores fortes das obras de Robert e Sonia Delaunay, pelo génio de Vieira da Silva, Paula Rego e tantos outros artistas portugueses, pelos objectos fabulosos de Lalique e as estampas estilizadas de Hokusai. Sem o Museu Nacional de Arte Antiga não teria conhecido, ainda bem novinha, os belíssimos biombos Namban ou a pintura onírica e angustiante de Bosch. Sem o Sintra Museu de Arte Moderna - Colecção Berardo (entretanto substituído pelo Museu das Artes de Sintra) nunca teria aprendido nada sobre a arte minimalista.

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Sala Lalique, Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa

 

 

O espaço e a atmosfera

Nessa altura os museus, fosse qual fosse o seu tema, ainda eram maioritariamente espaços básicos de exposição (da obra de arte) e contemplação (por parte do visitante). Entretanto evoluíram, tal como as manifestações artísticas, e agora temos não só museus com exposições interactivas, muito orientados para atrair ou entreter camadas mais jovens da população, como também museus com espaços mais variados na sua concepção de base, mutáveis e criados para se adaptarem e realçarem as obras expostas, imaginados para enriquecerem a experiência do visitante e combaterem o cansaço que por vezes se instala quando os percorremos. Ainda me recordo da minha visita, há bastantes anos, ao Kunsthistorisches Museum de Viena, onde vi obras icónicas de Bruegel e Arcimboldo, só para citar dois dos grandes pintores representados nas colecções do museu – e que também incluem obras de ourivesaria, relojoaria, escultura e uma variedade enorme de outras peças. A meio da exposição, eu o meu filho, na altura adolescente, já tínhamos uma overdose de arte e de tédio, e estávamos ansiosos por chegar ao fim: as obras sucediam-se monotonamente umas às outras num ambiente meio soturno, expostas e iluminadas sempre da mesma maneira. Em franco contraste, no quarteirão ao lado, os vários museus que integram o Museumsquartier, dedicados à arte moderna e contemporânea, já eram na altura espaços bem mais interessantes e motivadores (apesar de eu nem sequer apreciar muitas das peças), menos pela diversidade do que expunham do que pela forma como as obras estavam organizadas.

 

Outro que me aborreceu solenemente foi o Museu Egípcio do Cairo. Abriga um espólio de tamanho descomunal e valor incalculável, mas mostrado ao público sem qualquer imaginação. Senti-me como se estivesse a visitar um armazém, às tantas já não podia ver à minha frente múmias, sarcófagos, estatuetas, amuletos e tudo o mais que é exibido – em lotes, em prateleiras, e em quantidade. Nem a sala da Colecção Tutankhamon escapa à monotonia, embora a observação das peças expostas seja obviamente bem mais excitante e o ponto alto da visita. Felizmente, prevê-se para Novembro deste ano, quando se celebra o centenário da descoberta do túmulo de Tutankhamon, a abertura (sucessivamente adiada) do GEM, o Grande Museu Egípcio em Gizé, que irá mostrar de forma condigna – a acreditar na divulgação mediática – parte das colecções do Museu Egípcio de Tahrir e do Museu Nacional da Civilização Egípcia. A visitar num futuro próximo.

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Museu Egípcio, Cairo

 

No capítulo atmosfera, um dos meus museus preferidos é o Victoria & Albert, em Londres. É provavelmente o maior museu do mundo de artes decorativas e design, com uma colecção permanente com mais de 4,5 milhões de peças que abrangem 5000 anos de história e versam temas tão variados como moda e têxteis, fotografia, teatro, pintura, arquitectura, joalharia, cerâmica, mobiliário, vidraria. Há objectos da Europa medieval, renascentista e barroca, do Médio Oriente islâmico, da Ásia do Sul, do Japão, e ainda a colecção Gilbert, com cerca de 1200 belíssimos objectos feitos à mão, na sua maioria miniaturas em metais preciosos, esmalte ou mosaico. As exposições distribuem-se por cinco pisos, com as colecções divididas por salas temáticas, e o museu consegue a proeza de não ser minimamente enjoativo para quem o visita. Tem além disso a vantagem de ser gratuito (apenas as exposições temporárias são pagas), tal como sucede com vários outros museus londrinos. Mais ainda, tem um café que abre para o jardim interior, e que também abre o apetite só de olhar para a comida exposta, e uma loja com artigos tão atractivos que apetece comprar tudo.

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V&A Museum, Londres

 

Foi a visitar vários dos excelentes museus de Londres que comecei a reparar tanto na diversidade de pessoas que povoam estes espaços, como na forma como elas observam as peças expostas, como se movem, como interagem com o museu – e como elas também contribuem para a atmosfera mais ou menos acolhedora do lugar. Gosto (e aproveito para fotografar) sobretudo quando há um ambiente descontraído, com pessoas que conversam umas com as outras, crianças que se sentam no chão, entretidas com uma qualquer actividade, casais que descansam relaxadamente num banco ou sofá – como se o museu fosse a casa de um amigo que visitam com frequência. Quando as pessoas se mantêm em silêncio ou falam em sussurros, como se estivessem numa igreja, e vão progredindo monotonamente umas atrás das outras, a fazerem lembrar objectos no tapete transportador de uma qualquer unidade industrial, o ambiente é bem mais aborrecido e desmotivante, mesmo que a exposição seja de grande interesse.

 

Tate Britain, Londres
Tate Modern, Londres

 

Outro museu de Londres que aprecio particularmente é o Tate Britain, que expõe colecções de arte britânica datadas do séc. XVI até à actualidade. Embora com grande incidência na pintura, os trabalhos que exibe abrangem todo o espectro das artes visuais. Tanto podemos encontrar aviões de combate transformados em obra de arte por Fiona Banner, como uma exposição temporária de esculturas de Henry Moore. Um dos mais importantes espólios à guarda da Tate é constituído pelo legado de J.M.W.Turner, considerado o maior pintor inglês, o qual engloba 300 pinturas a óleo e vários milhares de esboços e aguarelas, incluindo todos os trabalhos que se encontravam no estúdio do pintor aquando da sua morte em 1851. As obras de Turner são mostradas ao público num espaço especial, a Clore Gallery, em exposições que vão mudando pontualmente – e num ambiente que me faz ter vontade de ficar tempos infindos a olhar para cada quadro.

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Tate Britain, Londres

 

De vez em quando, sou surpreendida por exposições que me deixam maravilhada – e feliz! Aconteceu-me, só para dar um exemplo, quando há uns meses visitei o Fotografizka de Estocolmo. Creio que foi o bilhete de museu mais caro que paguei até hoje, mas valeu cada cêntimo. À entrada, um caminho de patas de cão estilizadas guiava-nos para o Pet Show: várias salas com fantásticas fotografias de animais de companhia, intercaladas com filmes e algumas esculturas, uma mostra de trabalhos de 25 artistas firmemente destinada a despertar emoções, desde a ternura ao riso e à angústia.

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Fotografizka, Estocolmo

 

No piso superior, a imersão num mundo ao mesmo tempo tenebroso e colorido: “Between These Folded Walls, Utopia” são obras concebidas pela dupla (Sarah) Cooper & (Nina) Gorfer, que associam fotografia e colagem em retratos híbridos de jovens mulheres que se viram forçadas a migrar. A ideia por trás deste projecto é chamar a atenção para as tragédias humanitárias e para a perda de identidade e reinvenção de quem é obrigado a afastar-se das suas raízes; ou, como afirmado no texto de apresentação, “a perda da utopia e a nossa capacidade de voltar a sonhar”. Num ambiente de quase câmara escura, os quadros fundiam-se por vezes com a própria parede em que estavam expostos, criando um impacto bem maior do que se estivessem simplesmente pendurados numa parede de cor neutra e completamente iluminada – prova cabal de que para lá da qualidade da obra que se expõe, a forma como ela é exibida faz toda a diferença.

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Fotografizka, Estocolmo

 

É também em Estocolmo que fica o Museu do Vasa, um dos museus mais originais e espectaculares que já encontrei nas minhas viagens, totalmente concebido em torno de um único motivo (e que não tem nada a ver com artes plásticas). O Vasa, navio de guerra do século XVII considerado o supra-sumo da tecnologia naval da época, naufragou na baía de Estocolmo durante a sua viagem inaugural em Agosto de 1628. Resgatado do leito marinho, quase intacto, nos anos 60 do século passado, à volta deste “artefacto” de inegável valor histórico e artístico foi construído um grande museu, onde ficamos a conhecer em pormenor toda a arquitectura e história não só do navio, como da época em que ele foi concebido, das pessoas que nele pereceram, e da forma como foi recuperado. A “estrela” da exposição é obviamente o próprio Vasa. Ver de perto uma nau verdadeira, não uma reconstrução ou embarcação imaginada, é no mínimo excitante. Pensar que esteve durante três séculos debaixo do mar e foi possível recuperá-la, preservando-a e colocando-a em exposição, é perceber o valor do trabalho dos milhares de pessoas (investigadores e não só) que têm contribuído para que a memória do mundo não desapareça. E ainda por cima é um regalo para os olhos, tanto pela riqueza artística das suas ornamentações como pela forma como está exposta e iluminada. O Museu do Vasa é, em todos os sentidos, um tributo ao engenho humano.

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Museu do Vasa, Estocolmo

 

 

Casas que são museus

Lugares de excepção são também as casas que já foram morada de artistas, ou que têm características tão especiais que foram convertidas em museus. Uma das minhas preferidas, neste caso por ser um exemplo primoroso da arquitectura do ferro portuguesa, é a Casa-Estúdio Carlos Relvas, que fica na Golegã. Figura proeminente da alta sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX, proprietário de explorações agrícolas, inventor e fotógrafo de excepção, Carlos Relvas concebeu e mandou construir em 1872 uma lindíssima casa destinada a servir como estúdio fotográfico. Edifício original e ecléctico inserido num jardim romântico, é actualmente um museu dedicado à fotografia, e é para mim um dos edifícios mais bonitos de Portugal.

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Casa-Estúdio Carlos Relvas, Golegã

 

Em terras dos nossos vizinhos, o Museu de Arte Nova e Art Deco em Salamanca está alojado na Casa Lis, um palacete modernista construído em 1905-1906 em estilo Arte Nova mas seguindo os preceitos da arquitectura industrial. Foi mandada construir por Miguel de Lis, um empresário industrial da cidade, que encomendou o projecto ao arquitecto Joaquín de Vargas (que também concebeu o belíssimo edifício do Mercado Central de Salamanca). Uma das suas particularidades é ter duas fachadas bem distintas: a da entrada em pedra e ladrilho, e a maior, virada a sul e sobre um declive, em ferro e vidro. Outra é ter as suas salas dispostas em torno de um pátio interior, com uma abóboda de vitrais coloridos que, tal como os que decoram a fachada sul, são trabalhos de uma delicadeza e originalidade excepcionais e transmitem uma atmosfera quase diáfana às salas agora ocupadas pelas exposições. Na parte de trás do piso da entrada existe uma cafetaria absolutamente encantadora, decorada no estilo da casa e com vistas para o exterior através dos vitrais. Sou grande apreciadora dos estilos Arte Nova e Art Deco, mas confesso que nunca tinha ouvido falar deste museu até começar a preparar a minha viagem a Salamanca – e que lamentável teria sido passar ao lado desta preciosidade! As colecções do museu incluem um número impressionante de peças de artes decorativas criadas entre fins do século XIX e até ao final do período entre as duas Grandes Guerras. Há vidros, estatuetas, bronzes e esmaltes, jóias, leques e têxteis, mobiliário, e uma das mais importantes colecções de bonecas de porcelana em todo o mundo. A casa e o seu museu complementam-se na perfeição.

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Museu de Arte Nova e Art Deco, Salamanca

 

Nascido em Viena em 1928, o artista visual e arquitecto Friedrich Stowasser ficou conhecido para a posteridade pelo nome de Hundertwasser e pelas suas opiniões vincadas sobre a protecção ambiental e o repúdio pelas “linhas direitas” – princípios que estão bem visíveis no mural de azulejos “Submersão de Atlântida” que criou, por alturas da Expo 98, para a estação de metro Oriente em Lisboa. Tal como as suas obras, a casa onde viveu na sua cidade-natal é um edifício colorido e assimétrico tanto exterior como interiormente, onde até o piso foi concebido com ondulações (segundo ele, “um piso irregular é uma melodia para os pés”). É aqui que está actualmente instalado o Kunsthaus Wien, museu que expõe pinturas, trabalhos gráficos e arquitectónicos do artista. Visitá-lo foi imergir num mundo diferente, e saí de lá com toda uma outra visão sobre o que pode ser a arquitectura.

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Kunsthaus Wien, Viena

 

Irregulares e fora do comum são também as Casas Colgadas, na cidade espanhola de Cuenca. Em periclitante equilíbrio sobre o abismo cavado pelo percurso do rio Huécar, este pequeno conjunto de edifícios medievais de finais do século XV é uma visão simultaneamente excêntrica e encantadora. Nelas está instalado o Museu de Arte Abstracta Espanhola, que exibe em permanência uma colecção absolutamente notável de pintura e escultura de artistas espanhóis de meados do séc. XX. Distribuídas pelos vários pisos destas casas, em que o exterior e o interior estão em forte contraste, as salas de exposição são pequenas e acolhedoras, cada uma exibindo poucas obras, e o resultado é ao mesmo tempo intimista e dinâmico – e uma agradável surpresa para quem, como eu, gosta de arte contemporânea.

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Casas Colgadas, Cuenca

 

Tal como o seu excêntrico dono, a casa onde Salvador Dalí viveu entre 1930 e 1982 é tudo menos banal. Fascinado pela paisagem de Cadaquès, uma localidade junto ao Cabo Creus, no extremo nordeste da Catalunha, Dalí escolheu uma pequena casa de pescadores situada na Cala de Portlligat para aí instalar o seu refúgio – que habitou com Gala, a sua muito amada mulher, até à morte desta. Ao longo de quarenta anos acrescentou e transformou a pequena casa branca à sua imagem, decorando-a por dentro e por fora com cores e objectos dos mais díspares, a maior parte deles criados por si. Ali fez o seu atelier e ali recebeu os seus convidados e amigos – no entanto, apenas os acolhia nas dependências exteriores da sua casa, à volta da piscina, pois tanto ele como Gala eram extremamente ciosos da sua privacidade. Hoje a casa está transformada num museu, com visitas guiadas e rigorosamente cronometradas, onde quase tudo está preservado tal como em vida do pintor. É uma casa labiríntica, quase orgânica. Os vários espaços interligam-se uns com os outros, cada um tendo uma função bem definida. Nas palavras de Dalí, era “como uma verdadeira estrutura biológica, (...). A cada novo impulso da nossa vida correspondia uma nova célula, uma divisão”. Uma casa a roçar o surreal, tal como o seu criador.

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Casa Salvador Dalí, Portlligat, Cadaquès

 

Mais conhecida pelo seu espaço exterior – os incontornáveis Jardins Majorelle – a icónica casa azul e amarela que Yves Saint-Laurent comprou em 1980 em Marraquexe também inclui um museu. Complemento perfeito aos jardins, que são um autêntico oásis no calor marroquino, com vários ambientes exóticos onde a água e a cor são elementos importantes, o Museu Pierre Bergé das Artes Berberes expõe centenas de objectos, coleccionados ao longo dos anos por Pierre Bergé (mentor, sócio, companheiro e eterno amigo de Saint-Laurent) e pelo próprio costureiro. Articulado tematicamente em espaços distintos, o museu é ao mesmo tempo um testemunho e um tributo à riqueza e diversidade da cultura dos “homens livres” do Norte de África.

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Casa Majorelle, Marraquexe

 

 

Para lá dos museus

Por feliz coincidência, visitei Veneza durante a Biennale. Este evento de divulgação artística realiza-se desde 1895 e continua a ser um dos mais importantes do género – mesmo hoje em dia, quando são organizadas anualmente mais de 300 feiras e bienais de arte em todo o mundo (até finais do século passado eram apenas 50…). A cidade, já por si só senhora de um charme muito especial, deitava arte por todos os poros, com inúmeras manifestações e exposições à margem do grande acontecimento. As surpresas surgiam ao virar de cada esquina, num passeio pelos canais, numa montra, num jardim, na varanda de um hotel, em palácios e igrejas. Fiquei encantada com esta facilidade de convivência, com a enorme quantidade de exposições de livre acesso para o público, e com a descoberta de obras inesperadas até em situações triviais. E foi precisamente num local insuspeito, uma espécie de armazém na margem do Dorsoduro, longe dos Giardini da Biennale e das confusões, que tropecei por acaso numa das exposições mais interessantes que já vi até hoje, concebida à volta de um objecto que faz parte da vida diária de milhões de pessoas: a chávena de café. Criada pelo director cénico americano Robert Wilson para a conhecida marca de café Illy, e com o sugestivo título “The dish ran away with the spoon - everything you can think of is true”, esta exposição sensorial celebrava o 25º aniversário da Colecção de Arte Illy, que na altura já contava com 400 chávenas de café (e seus inseparáveis pires) com o formato icónico lançado pela marca, decoradas por 111 artistas de renome. Ao longo de sete salas sucediam-se ambientes surrealistas diferentes, parcialmente inspirados na Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, cada um mais delirante do que o anterior e com grande impacto visual e sonoro. Uma exposição inesquecível.

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Exposição Illy, Veneza

 

De facto, se há país onde se respire arte, esse país é a Itália. No Palazzo Vecchio de Florença, depois de admirar o magnífico e recém-renovado Pátio de Michelozzo, dei por mim numa enorme sala povoada por figuras híbridas e desproporcionadas, estilizadas, estranhas, homens que são animais, animais com rodas… São assim as esculturas de Paolo Staccioli, ceramista toscano que expandiu entretanto os seus dotes para o bronze. Na Sala de Armas do Palácio, dividida em seis espaços definidos por pilares e abóbadas cruzadas, as esculturas estavam expostas como instalações individuais, mas visualmente unidas pela sua morfologia similar. Muito a propósito, a esta exposição foi dado o título “Nel Ventre Antico del Palazzo. Esercizi di guerra e giochi di bimbi”.

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Palazzo Vecchio, Florença

 

Em Madrid, o magnífico Palácio de Cristal, no Parque do Retiro, é lugar habitual de exposições temporárias, e ficou-me particularmente na memória a instalação criada de propósito para aquele espaço pela artista coreana Kimsooja e baptizada como “Respirar - una mujer espejo”: um espelho contínuo colocado no solo, que reflectia não só os visitantes (que tinham de entrar descalços) como também as cores do arco-íris criadas pela película de difracção translúcida que recobria a estrutura envidraçada do palácio. Como “música” de fundo, os sons da respiração da própria artista.

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Palácio de Cristal, Madrid

 

E na localidade de Alarcón, pequena vila na província espanhola de Castilla-La Mancha, existe uma igreja do século XVI que foi esvaziada e dessacralizada, e é hoje a “casa” de um projecto incomum executado pelo pintor Jesús Mateo. Apadrinhados pela UNESCO, que os classificou como obra de interesse artístico mundial, os murais criados por Mateo evocam, pelas formas e pelas cores, a pintura primitiva, ao mesmo tempo naïf e surreal. É uma obra esmagadora pela dimensão, surpreendente pelo contraste entre o vanguardismo da temática dos murais e o cariz religioso da arquitectura do edifício, simultaneamente envolvente e remetendo para espaços sem fim. Um lugar com alma própria, que se pode amar ou detestar, mas ao qual de certeza ninguém fica indiferente.

Afinal, não é este o cerne de qualquer obra de arte?

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Antiga igreja de São João Baptista, Alarcón

 

Pensamento da semana

Ana CB, 26.06.22

O caos provoca-me sentimentos mistos. Há aquele caos que é expressivo, irreverente, alegre, criativo. Aquele que me surpreende, me entusiasma e traz um sorriso ao rosto. Que é divertido. Que gera ideias e é motivador.

 

E há o outro, o da poeira e da sujidade, da degradação, do desleixo. É aquele de quem está sempre em turbilhão e não sabe parar, ou tem os horizontes limitados pela ausência de esperança, aquele de quem não conhece mais do que aquilo, ou o de quem já desistiu de viver. É um caos triste.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

 

Blogue da semana

Ana CB, 12.06.22

 

Andam sempre na vadiagem e têm um fraquinho por gatos, por isso o blogue que criaram só podia mesmo ter este nome: Gato Vadio · Travel Blog.

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A Ana e o Ricardo gostam sobretudo de nos dar a conhecer Portugal – são apaixonados pelos Açores! – mas no blogue também falam das suas viagens por outros países. Têm imensas sugestões de roteiros e fotografias lindas. Só não esperem ver os seus rostos sorridentes, porque eles fazem questão de se manterem (quase) no anonimato.

Os posts que escrevem são muito completos e cheios de boas ideias – para visitar, comer e dormir – porque eles fazem questão de esmiuçar ao pormenor cada um dos lugares que visitam. É o blogue ideal para quem precisa de sugestões para uma escapadinha, cá dentro ou lá fora.

Maramures, guardada nos Cárpatos

Ana CB, 02.06.22

 

Foi um cemitério que me levou a Maramureș. Chamam-lhe Cemitério Feliz de Săpânța e só o nome já é uma incongruência, mas por mais estranho que pareça este cemitério fez-me atravessar metade da Roménia de propósito para o ir visitar – e descobrir, em jeito de presente inesperado, uma das regiões mais originais da Europa.

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Como país, a Roménia é muito jovem: ainda nem tem 150 anos, e as suas fronteiras só estabilizaram depois da Segunda Guerra Mundial. Uma história secular atribulada, recheada de invasões, lutas, e dependência de múltiplos impérios diferentes, fez da Roménia uma manta de retalhos com várias regiões culturalmente bem diferentes umas das outras. Entre elas, Maramureș é aquele brilhante menos polido, a região em que a ruralidade mais se nota e onde ainda perdura um estilo de vida tradicional. Situada no extremo nordeste do país, paredes-meias com a Ucrânia e resguardada pelos Cárpatos Orientais Interiores, não fica a caminho de nada nem é um curto desvio a partir de algures: visitar Maramureș tem de ser um acto intencional, e este é provavelmente o motivo pelo qual a região é tão pouco apelativa para a maioria dos turistas.

 

 

Uma casa no parque natural

 

Intencional ou não, esta vontade de estar à margem dos circuitos turísticos traz alguns problemas aos visitantes, sobretudo se forem estrangeiros e não falarem romeno. Ou ruteno, uma variante linguística do ucraniano. Saber alemão ou italiano talvez ajude um pouco em certas circunstâncias, mas o inglês não é aqui de grande préstimo. O resultado pode ser quase uma hora à procura de um alojamento mal sinalizado, e que num raio de meros seis quilómetros ninguém parece conhecer. Outro problema é o acesso ao alojamento implicar meter o carro por caminhos de lama e gravilha, que se ramificam de vez em quando e obrigam a andar para a frente e para trás até se encontrar finalmente o atalho certo, enquanto dizemos mal da vida e juramos que só vamos ali ficar uma noite.

 

Mas Maramureș tem sortilégios que a razão desconhece, e de um momento para o outro tudo muda. Na estrada surge uma estrutura de madeira com pilares esculpidos e três pequenos telhados – são assim os portões tradicionais da região – e mais atrás um edifício que parece saído do cenário de um filme. É a Conacul Drahneilor, uma mansão de madeira com vários volumes e pisos, construída segundo a traça e os métodos da arquitectura rural romena: esteios de pedra na base, telhados piramidais revestidos com fasquias de madeira, interrompidos por varandas com sardinheiras e janelas que evocam os famosos “olhos” de Sibiu, reminiscência dos orifícios criados para escoar o fumo nas antigas habitações rurais. E à volta, nada mais do que quilómetros de floresta alpina ondulante, onde predominam carvalhos e abetos. É paixão à primeira vista.

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Nem os desencontros linguísticos matam esta paixão, pois aqui não faltam simpatia e vontade de receber bem. Ser portuguesa também ajuda, porque é a primeira vez que acolhem alguém do nosso país, e não estranho a curiosidade que sempre despertamos – já estou habituada a ser olhada como marciana. Pavel Pop, o proprietário do alojamento, homem enérgico com um farto bigode e uma alegria contagiante, não poupa esforços para mimar os clientes e para se fazer entender. Instala-nos na varanda, com vista para o sol que se afunda atrás das serras, oferece-nos horincă, a típica aguardente caseira feita à base de ameixa que é uma espécie de bebida nacional, e arranja um tradutor, um adolescente de Cluj-Napoca que está ali a passar férias com os pais e fala um inglês impecável. Contente por ter com quem praticar o que aprende em aulas particulares, é ele que vai explicando o funcionamento da casa e o menu do jantar, e ainda sugere alguns pontos de interesse a conhecer na região. No dia seguinte, como o seu ajudante linguístico já viajou para outras paragens, Pavel vai dar-se ao trabalho de conseguir quem lhe traduza uma parte do menu para português, e até o convida para nos vir conhecer: é um amigo de longa data que trabalhou durante vários anos em Portugal e em Espanha, e que mata saudades do nosso país ao conversar connosco. Aquela é a sua terra, mas tem boas memórias dos tempos que passou entre nós.

 

A localização remota de Maramureș fez com que a região tivesse sido pouco afectada pela padronização e colectivização agrícola quase gerais de que a Roménia foi alvo durante o período ditatorial, e por esse motivo conseguiu preservar a maior parte dos seus hábitos e cultura. Nas estradas não é invulgar ver carroças puxadas por cavalos, as rodas de madeira substituídas por pneus em prol da rapidez da deslocação. Algumas casas têm frisos pintados com padrões geométricos, e nos terrenos que as rodeiam há pelo menos uma pilha de feno, amontoada na forma cónica tradicional destas paragens, por vezes com vários metros de altura. Passam mulheres de lenço colorido na cabeça, galochas nos pés, telemóvel no ouvido e ao ombro um ancinho invulgarmente comprido e tosco. Por estes lados as tradições centenárias e a modernidade parecem conviver sem sobressaltos.

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Um comboio na floresta

 

Prova desta modernidade é o facto de a actividade económica que gera mais rendimentos na região ser a extracção mineira – que se desenvolve sobretudo em torno de Baia Mare, a capital administrativa do distrito. Mas Maramureș é terra de florestas, que ocupam quatro quintos do seu total, e é aqui que encontramos a maior zona protegida dos Cárpatos romenos, o Parque Natural das Montanhas de Maramureș, abrangendo uma área de 1500 km2. Não é por isso de estranhar que a madeira seja o material que melhor define culturalmente este território e esteja omnipresente na arquitectura tradicional, nos monumentos religiosos, na expressão artística e nos objectos artesanais. A exploração madeireira faz-se sobretudo junto à fronteira com a Ucrânia, na zona que se alonga entre Sighetu Marmației e Borșa, com um dos seus centros mais importantes em Vișeu de Sus e no adjacente vale do rio Vaser.

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É neste vale que está em funcionamento, desde 1933, uma linha férrea de bitola de via estreita, usada sobretudo para transportar os troncos das árvores cortadas pelos lenhadores até à serração de Vișeu de Sus, onde a economia gira à volta da madeira desde meados do século XVIII. Nas linhas férreas, uma bitola de via mais estreita do que a bitola padrão é geralmente utilizada em terrenos com relevo acidentado, zonas esparsamente povoadas, ou para fins exclusivamente industriais. Com comboios mais pequenos e leves os carris não precisam de ser tão robustos, pelo que levam menos material e tornam-se mais económicos e mais fáceis de instalar e operar. Em 1970 a Roménia tinha uma rede com cerca de 3000 km de mocăniță, vias férreas florestais percorridas por estes pequenos comboios, movidos por locomotivas a vapor, que transportavam carga e pessoas pelas zonas montanhosas de difícil acesso. Actualmente, apenas a linha do Vale do Vaser continua a ser regularmente utilizada, numa extensão de cerca de 60 km floresta adentro, entre Vișeu de Sus e Coman. Apesar das preocupações ambientais, que reduziram o volume de árvores que podem ser abatidas (70% do Parque Natural está abrangido pela rede Natura 2000), a madeira continua a ser o maior negócio desta sub-região, e uma fonte de emprego alternativa à agricultura e à migração. Pelos carris circulam hoje em dia também outros veículos, carrinhas adaptadas com rodas metálicas em vez de pneus, que transportam materiais e pessoas, entre eles os guardas-florestais que patrulham a fronteira do país e vigiam a actividade dos madeireiros, tentando controlar o abate ilegal de árvores. Um artigo publicado no website Recorder.ro em Outubro de 2019 refere que o relatório de uma equipa de investigação, nomeada pelo Estado romeno após pressão da União Europeia, concluiu que entre 2008 e 2018 foram cortados em média 38 milhões de metros cúbicos de madeira por ano no país, dos quais 20 milhões de forma ilegal. Embora a metodologia científica usada para o estudo tenha sido desenvolvida e verificada por especialistas internacionais, este resultado não foi validado pelo Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Florestal (INCDS), que optou por o ignorar alegando falta de validade estatística, e foi fortemente contestado pela Romsilva (a empresa estatal que gere as florestas e as áreas de caça e pesca), que invocou o mesmo argumento. As suspeitas de corrupção no sistema governamental avolumam-se, e o problema do abate ilegal de árvores não parece ter solução à vista.

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Desde 2000, a mocăniță que acompanha o Vaser é também usada, com grande sucesso, para passeios turísticos em composições puxadas por locomotivas alimentadas a lenha. Embora a maior parte dos visitantes de Maramureș sejam romenos, estes passeios tornaram-se muito procurados, e na época alta a procura chega a ser suficiente para encher diariamente três comboios, cada um com várias carruagens, que partem a intervalos de meia hora. Por entre apitos e grandes rolos de vapor, o comboio sai da estação principal e vai seguindo lentamente junto ao rio, trocando de margem de vez em quando. Os primeiros quilómetros fazem-se entre habitações e terrenos cultivados, que depois começam a rarear até desaparecerem por completo e a paisagem se dividir apenas entre a água de um lado e a vegetação abundante do outro – tão abundante que conseguimos tocar nela se estendermos o braço através das janelas sem vidros. Às vezes passamos por pilhas de troncos já cortados, deixados nas margens lamacentas à espera de transporte, outras vezes por uma ponte que mais não é do que um tronco grosso com um corrimão rudimentar, ou ainda por três ou quatro vacas, e só muito raramente por alguma pessoa.

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O percurso para turistas termina a cerca de 20 km do ponto inicial, no apeadeiro de Paltin, onde criaram um parque de merendas junto ao rio. Numa espécie de restaurante aberto, um grupo de rapazes e raparigas vestidos com trajes típicos cozinham e servem meia dúzia de tipos diferentes de grelhados e comidas rápidas, enquanto outros tentam animar os visitantes com uma (não muito imaginativa) exibição de danças tradicionais. O passeio acaba por ocupar quase um dia inteiro, com duas horas de viagem para cada lado em carruagens tremelicantes, que nos chocalham os ossos mal acomodados em bancos estreitos de ripas de madeira, atravessadas pelo ar frio e húmido da floresta, nos ouvidos o barulho constante de metal a ranger contra metal e do arfar ruidoso da locomotiva. Se uma viagem tão curta já provoca desconforto a quem apenas está a passear, nem imagino como será duro o dia-a-dia daqueles que por aqui vivem e trabalham.

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Uma herança religiosa protegida

 

Nas comunidades tradicionais de Maramureș a religião continua a ter grande importância. Tal como no resto do país, a maioria das pessoas é fiel à Igreja Ortodoxa Romena, e as construções religiosas são abundantes. A face mais visível e notável desta herança espiritual secular são as peculiares igrejas de madeira. Numa região onde a construção em altura é despicienda, os campanários descomunais destas igrejas destacam-se acima dos telhados vizinhos como setas apontadas ao infinito – pois quanto mais altas, mais facilmente as preces dos fiéis chegarão aos céus. O seu carácter original é tão forte que oito delas estão inscritas na lista do Património Mundial protegido pela UNESCO. Com um número total que se aproxima da centena, têm várias características em comum: um corpo principal atarracado, que quase desaparece sob um telhado volumoso e por vezes duplo; uma torre sineira esguia, pontiaguda e muito alta, projectando-se a partir da extremidade oeste da construção, por cima da entrada; e pinturas naif nas paredes e tectos interiores, representando cenas bíblicas.

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A maioria destas construções religiosas data dos séculos XVII e XVIII, mas o seu simbolismo é tão forte que desde a democratização do país, várias igrejas têm sido construídas de acordo com os mesmos princípios arquitectónicos. A mais famosa de todas está no complexo do Mosteiro de Săpânţa-Peri e foi terminada em 2013. Os 75 metros entre o solo e o topo do campanário fazem dela a igreja de madeira mais alta do mundo.

 

Este mesmo título pertenceu durante mais de dois séculos à Igreja dos Arcanjos Miguel e Gabriel em Şurdeşti, construída em 1721 e uma obra-prima da engenharia dos mestres-carpinteiros da região: além de totalmente feita de madeira de abeto e carvalho, não tem um único prego de metal. Isolada no topo de uma colina suave e com pouca vegetação à volta, ao vê-la de longe, silhueta escura contra o céu azul brilhante, pareceu-me comoventemente vulnerável – resistindo, sozinha, ao silêncio que a envolve, e ostentando com orgulho os seus 72 metros de altura. Outros pormenores que a distinguem são o alpendre em frente à entrada, com arcos trabalhados e orifícios em forma de coração invertido, e os dois beirais do telhado, com uma outra fileira de arcos ornamentados entre eles. Tanto nas torres como nas paredes exteriores há uma abundância de cruzes, em madeira ou metal, e crê-se que o motivo decorativo da “corda torcida” esculpido em volta do corpo do edifício terá origens muito antigas, na época em que a região era habitada pelos Dácios. Símbolo do infinito, a “corda torcida” faz a ligação entre o céu e a terra, e é um motivo frequentemente usado para invocar a protecção divina, tanto nas construções religiosas como nas casas tradicionais.

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No complexo do Mosteiro de Bârsana, o ambiente é outro. O local é muito popular entre os turistas, tanto nacionais como estrangeiros, e nunca faltam visitantes. O recinto parece mais um jardim do que um mosteiro e inclui uma dezena de edifícios de traça tradicional. É mais um exemplo de como a fé religiosa ortodoxa na região de Maramureș resistiu aos séculos e às perseguições. Na localidade de Bârsana existiu, pelo menos a partir do século XIV, um importante mosteiro, extinto em 1791 quando o território estava sob o domínio do Império Austro-Húngaro, que pugnava pelo catolicismo. Desse mosteiro resta apenas uma igreja – uma das oito classificadas pela UNESCO – que os locais protegeram transportando-a para o coração da aldeia, onde se encontra até hoje.

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A memória do antigo mosteiro permaneceu viva na comunidade, assim como o desejo de o reerguer. O Episcopado Ortodoxo Romeno de Maramureș foi restabelecido em 1937, mas foi preciso esperar até 1993 para que fosse colocada a primeira pedra do actual Mosteiro de Bârsana, consagrado ao Concílio dos Santos Doze Apóstolos. Concebido pelo arquitecto Dorel Cordoș e executado por artesãos locais com os materiais típicos da região – madeira de carvalho e pedras de rio – o conjunto monástico tem florescido em edifícios e popularidade sob a direcção empreendedora da abadessa, Madre Filofteia, secundada por outras nove monjas e um clérigo. O complexo inclui uma igreja, um altar para celebrações ao ar livre, um museu que possui uma notável colecção de livros antigos e ícones, uma torre sineira que acumula as funções de portal de entrada, e várias habitações, tudo inserido num enorme jardim profusamente verde e florido. Um lugar de paz e de comunhão com a natureza, onde a criação humana tem raízes fundas em tradições centenárias perpetuadas por uma comunidade que não dissocia o céu a que aspira da terra que habita.

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Um cemitério singular

 

Numa região tão peculiar como Maramureș, o cemitério que me trouxe aqui não podia ser um cemitério como os outros. Neste lugar não há lápides de pedra tristonha ou cruzes ferrugentas a marcar as sepulturas, nem fotografias sépia dos defuntos ao lado de epitáfios taciturnos. Os sinais que marcam cada campa parecem soldadinhos bem alinhados, cada um deles vestido de cores chamativas para eternizar a memória do finado que homenageia. São cruzes de madeira de carvalho, com os formatos tradicionais das cruzes ortodoxas mas com uma espécie de “telhado” bicudo no topo e uma base alta e larga, pintadas num tom vivo de azul e decoradas com flores e cenas naif relativas ao defunto, tendo por baixo um poema. Estas cenas, reproduzidas com cores primárias simbólicas, ilustram uma característica ou profissão da pessoa, ou a forma como morreu, e as frases que as acompanham são normalmente jocosas, ou até mesmo satíricas. É por isto que lhe chamam o Cemitério Feliz de Săpânța.

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Na pequena comuna de Săpânța (pronuncia-se “sapuntsa”, o som do “u” sendo fechado) nasceu em 1908 Stan Ioan Pătraş, no seio de uma família de artesãos da madeira. Órfão de pai aos 14 anos, foi como marceneiro que passou a sustentar a família. Um dos trabalhos que tinha de executar recorrentemente eram as cruzes funerárias para colocar no cemitério, cuja técnica foi modificando ao longo dos anos: começou por pintá-las de azul – a cor do céu almejado pelos crentes – depois passou a decorá-las com motivos florais e pequenos poemas irónicos, e mais tarde a esculpir na madeira figuras em relevo alusivas à vida da pessoa a quem cada cruz se destinava. A origem desta inspiração permanece ainda hoje um mistério.

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Na Dácia, que na geografia da Antiguidade abrangia territórios a norte do Danúbio e leste do Mar Negro, incluindo os Cárpatos, os cultos pagãos perduraram até tarde, e o cristianismo só fez a sua entrada na região por volta do século V. Os Dácios prestavam culto ao deus Zalmoxis, que prometia a imortalidade da alma, e por isso a morte era para eles não o final da vida, mas apenas a transição para um mundo melhor. Este espírito descontraído em relação à morte ainda permanece de alguma maneira imbuído nas gentes de Maramureș, para quem a ideia de celebrar a vida dos defuntos não é uma noção estranha ou mórbida. As pessoas são recordadas com saudade, mas também com alegria, e o cemitério de Săpânța é disso o maior testemunho.

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Algures nos anos 50, o carácter peculiar deste cemitério chamou a atenção de um grupo de franceses que passou por Săpânța. Foi a partir dessa altura que o local começou a ser referido como Cemitério Feliz, e que a sua fama ultrapassou as fronteiras. Quando Stan Pătraş morreu, em 1977, o fluxo de visitantes estrangeiros já era regular e foi aumentando com os passar dos anos. Actualmente, é sem qualquer dúvida o lugar mais turístico da região. Na estrada de acesso há barraquinhas que vendem as habituais recordações de viagem, à mistura com artigos produzidos artesanalmente. A entrada no cemitério é paga, embora o valor do bilhete seja quase simbólico. Os proventos do turismo e as doações contribuíram para a renovação da Igreja da Natividade da Mãe de Deus (ou Igreja da Assunção), um igreja insípida erigida em 1886 que agora é uma ode à cor e à arte local, com os seus telhados de cerâmica vidrada com grafismos coloridos e as paredes exteriores preciosamente decoradas com pinturas e mosaicos em que o dourado predomina, cintilante sob o sol.

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Das cerca de mil cruzes que hoje existem no cemitério, à volta de 700 terão sido esculpidas por Pătraş – incluindo a que assinala a sua sepultura, em frente à entrada da igreja. Este é o epitáfio que escreveu para si próprio:

 

Desde muito pequenino

Stan Ion Patrash foi meu nome

Ouçam-me enquanto passam

Pois o que digo é verdade

Todos os dias da vida

Nunca mal eu desejei

Pois apenas fiz o bem

A todos quantos eu pude

Ai que mundo tão ruim

Em que viver foi tão duro

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A casa em que Stan Ioan Pătraş trabalhava, dentro do cemitério, é hoje um museu-oficina. Antes de morrer, o artesão designou como seu sucessor Dumitru Pop Tincu, um dos seus aprendizes. É ele que continua a manter viva a tradição do seu mestre, apoiado por alguns ajudantes, sendo ao mesmo tempo escultor, pintor e poeta. Cada cruz continua a ser feita exclusivamente à mão e demora entre dois a três meses para ficar pronta. Dumitru faz 30 ou 40 por ano, algumas delas para forasteiros nacionais ou estrangeiros, ou até mesmo para museus. Além disso, dá aulas na Escola Popular de Arte, e cria as suas próprias pinturas e esculturas para as exposições em que o convidam recorrentemente a participar em todo o mundo. Defensor da originalidade do trabalho que herdou e perpetua, orgulha-se da identidade singular da região em que vive, dos seus usos e costumes e da sua arte popular, que quer manter a salvo da globalização. E diz que a Roménia é o único país onde as pessoas se riem da morte.

 

Mesmo para quem não perceba nada de romeno e por isso não consiga ler os epitáfios divertidos sobre os defuntos, muitas das cenas ilustradas nas cruzes do cemitério apelam só por si ao sorriso – as imagens são uma linguagem universal. Nas campas, simples rectângulos debruados com pedra, estão plantadas flores e pequenos arbustos, e algumas cruzes têm penduradas coroas de flores artificiais. Todo o cemitério é uma explosão de cor e alegria, duas características que habitualmente estão ausentes dos lugares onde depositamos os nossos mortos. Mas não aqui. No Cemitério Feliz de Săpânța celebra-se a vida em vez da morte, e os sorrisos são mais do que as lágrimas.

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Este local controverso é, afinal, talvez o que melhor ilustra a essência de Maramureș e das suas gentes: a maneira como equilibram a espiritualidade, traduzida nas fortes convicções religiosas e na continuidade de tradições ancestrais, com a matéria, subsistindo na dependência da terra e adoptando a simplicidade de um modo de vida em simbiose com a natureza. Num mundo cada vez mais uniformizado, manter este equilíbrio não será tarefa fácil.

 

(Também publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Judiarias

Ana CB, 04.05.22

 

Sou mais de pensar no futuro do que no passado, mas nas minhas viagens gosto de visitar bairros antigos. Presto atenção particular à arquitectura, sobretudo quando não está “maquilhada” pelas falsas reconstituições que tantas vezes alteram o carácter original dos lugares (assunto com pano para mangas, que poderá ser motivo para outro artigo). Estes bairros são muitas vezes a linha que me conduz a conhecer um pouco da história de cada lugar, frequentemente a posteriori, e também frequentemente para tentar separar o trigo do joio, ou seja, o que é facto histórico verificado daquilo que é efabulação ou exagero para chamariz turístico. Nos últimos anos, o acaso tem levado os meus passos até algumas antigas judiarias em cidades e vilas europeias, e tenho vindo a interessar-me progressivamente por estes bairros, que de uma forma geral mantêm algumas das suas características originais e terão sido menos adulterados pelos modismos da passagem dos séculos.

 

HERVÁS

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Diz a publicidade turística que o seu bairro judeu é um dos mais interessantes e melhor conservados em Espanha. Para mim, foi um dos que mais gostei de visitar até hoje. Hervás fica a pouco mais de 100 km da nossa fronteira, entre Plasencia e Salamanca, entre florestas de castanheiros e carvalhos na região do vale do rio Ambroz. A vila tem as suas raízes em finais do século XII, quando as terras foram doadas por Afonso VIII a monges templários, que ali erigiram uma ermida e apoiaram o povoamento local, submetido à autoridade do Duque de Béjar.

 

Em 1391, estalou em Sevilha uma revolta contra a população judaica, que se alastrou depois a várias cidades dos reinos de Castela, Aragão e Navarra. A Europa sofria os efeitos devastadores da peste de 1348, e no imaginário colectivo havia que atribuir a tragédia a alguém. Ferrán Martínez, arcediago de Écija, foi o grande instigador da revolta, no culminar de vários anos de pregação antijudaica, e os seus seguidores ficaram conhecidos como “matadores de judeus”. Para escaparem aos assassinatos em massa, muitos judeus foram obrigados a assumir a fé católica, e outros fugiram para localidades mais pequenas, onde a convivência religiosa era pacífica e os senhores feudais asseguravam alguma protecção aos habitantes das suas terras. As primeiras referências documentadas sobre a presença de judeus em Hervás datam de 1464, mas é provável que algumas famílias já se tivessem instalado na localidade em datas anteriores.

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Em 1492, quando finalmente unificaram o Reino de Espanha, os Reis Católicos decretaram a expulsão de todos os judeus. Das 45 famílias judaicas que viviam em Hervás, apenas 14 decidiram ficar na localidade, convertendo-se ao cristianismo; as restantes foram conduzidas à fronteira com Portugal, onde se refugiaram. No entanto, vários desses exilados regressaram a Hervás dois anos mais tarde, beneficiando de um édito régio que conferia uma carta de segurança aos conversos castelhanos que quisessem retornar ao reino, garantindo-lhes também formas de recuperarem os seus bens. Uma das pessoas regressadas foi o rabino Samuel, que ingressou na confraria de São Gervásio e pôde assim continuar dissimuladamente a apoiar a prática judaísta e a coesão desta comunidade em Hervás. Apesar de tudo, a aceitação de cristãos-novos na vida da localidade permaneceu difícil e demorada, com estatutos discriminatórios e perseguições que levaram alguns deles à fogueira até que, em 1661, a duquesa D. Teresa Sarmiento de la Cerda aboliu as discriminações impostas e a integração das famílias de cristãos-novos pôde finalmente prosseguir sem grandes entraves.

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O bairro judeu de Hervás começa junto ao rio Ambroz, na ponte medieval da Fonte Chiquita, que é o monumento mais antigo da vila. Vai depois subindo suavemente por ruas estreitas e sinuosas (a Callejilla tem apenas 55 cm de largura!), cheias de recantos e becos, até ao local simplesmente conhecido como La Plaza, uma confluência de ruas marcada por uma oliveira e uns bancos de jardim. As placas toponímicas com uma estrela de David ajudam a identificar as ruas do bairro, que foi declarado conjunto histórico-artístico em 1969 e alvo de uma reabilitação profunda nos anos 90, na qual os próprios habitantes também se empenharam. A arquitectura das casas é tradicional, com paredes de pedra e adobe ou taipa, e tabique em madeira de castanheiro – construções irregulares que ignoram a simetria, com dois ou três pisos, o último sendo muitas vezes saliente ou até mesmo unido à casa do lado oposto da rua. As paredes estão ocasionalmente cobertas por telhas árabes invertidas, colocadas na vertical, ou por pranchas de madeira em sobreposição – soluções de isolamento térmico pensadas para aligeirar os rigores do calor estival e os ventos frios que sopram do Pico Pinajarro. Cabos eléctricos e tubos metálicos convivem com varandins de ferro forjado e vasos de flores, e as portas e janelas ainda não sucumbiram à tentação do alumínio.

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Para capitalizar o potencial turístico da judiaria de Hervás, desde 1997 que se realiza em inícios de Julho a festa “Los Conversos”. Há exposições, música, degustações e uma recriação histórica teatralizada da vida na localidade em tempos medievais e de eventos marcantes na história da sua comunidade.

 

 

BOLONHA

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A história da comunidade judaica em Bolonha remonta à segunda metade do século XIV, quando cerca de quinze famílias se instalaram na cidade. Apesar de verem as suas actividades continuamente controladas e das limitações que lhes foram sendo impostas ao longo dos anos, e envolvida sobretudo no comércio da seda e da joalharia, nos empréstimos bancários e na medicina, esta comunidade prosperou de tal forma que em meados do século XVI as sinagogas já eram em número de onze – mais do que as existentes em Roma – e Bolonha tinha uma prestigiada academia rabínica. Famosas eram também as oficinas gráficas da cidade, onde em 1482 foi impressa a primeira versão física do Pentateuco com comentários do Rabi Shlomo Yitzhaki, mais conhecido como Rashi.

 

Em 1555, um decreto do Papa Paulo IV ordenou que os judeus fossem separados do resto da população, e em Bolonha ficaram confinados a um bairro definido por muros e por portões que eram abertos quando o sol nascia (para que os seus habitantes pudessem ir trabalhar noutros locais, pois a segregação religiosa tinha o cuidado de não abranger as suas actividades, muito importantes para a cidade), fechados ao anoitecer, e constantemente vigiados. Além disso, eram obrigados a usar uma marca distintiva, para serem facilmente identificados, e apenas foi permitido que uma sinagoga continuasse em funcionamento. Uma das entradas deste gueto ficava na Via de’ Giudei, uma rua estreitinha e sombria que principia na Piazza di Porta Ravegnana, onde se erguem as famosas Duas Torres de Bolonha (durante o período fascista e anti-semita em Itália, a Via de’ Giudei passou a chamar-se precisamente Via delle Due Torri); outra encontrava-se no cruzamento da Via del Carro com a Via Zamboni; e uma terceira entrada fazia-se pelo arco que liga a Via Guglielmo Oberdan ao Vicolo Mandria.

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A criação do gueto judaico de Bolonha suscitou óbvia agitação e alguma resistência, e apesar de ter sido escolhida a zona da cidade onde a maioria das famílias já vivia, muitas outras foram forçadas a vender as suas casas e mudar-se. Por outro lado, cristãos que viviam dentro do perímetro definido para o gueto tiveram de sair dos seus domínios e arrendá-las aos novos habitantes (os judeus passaram a não estar autorizados a possuírem propriedades). Tendo uma área disponível tão pequena, a comunidade aproveitou todo o espaço o melhor que podia, construindo em altura e até mesmo por cima das ruas, num puzzle tridimensional de que hoje ainda restam muitos vestígios. A espinha dorsal do bairro é a Via dell’Inferno, onde até 1943 existiu uma sinagoga (no actual número 16), que foi destruída pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. O nome da rua não se devia a nenhum motivo religioso: resultou de uma mera associação do fogo às chamas do inferno, pois antes da criação do gueto existiam na rua várias oficinas de ferreiro.

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Uma nova bula pontificial expulsou em 1569 os judeus que viviam em quase todos os territórios directamente governados pela Igreja Católica Romana. Readmitidos por Bolonha em 1586, voltaram a ser banidos sete anos depois, desta vez por mais de dois séculos, até à chegada dos franceses de Bonaparte em 1796, que libertou a cidade da influência papal.

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O traçado do gueto judeu de Bolonha permanece bem identificável na actualidade, definido por um labirinto de becos e ruelas que se entrelaçam, arcadas e passagens suspensas, casas muito próximas umas das outras, com janelas pequenas e várias portas (algumas delas falsas, estando as entradas verdadeiras mais dissimuladas), varandas que se misturam com semi-arcadas, e onde a pedra e os grafitis alternam com as cores soalheiras das casas renovadas, que têm portadas garridas nas janelas e plantas que se derramam pelas paredes abaixo.

 

 

BUDAPESTE

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A presença judaica na área de Budapeste data do período romano, e há documentos que atestam a sua importância e prosperidade tanto na Idade Média como durante o tempo em que a região pertenceu ao Império Otomano. No entanto, quando em 1686 uma coligação de exércitos cristãos reconquistou Buda, a sinagoga foi incendiada e todas as pessoas que nela se encontravam presentes pereceram. A comunidade judaica que vivia a oeste do Danúbio foi praticamente dizimada.

 

No século XVIII, começou a nascer em Pest um novo bairro judeu, que corresponde actualmente à metade interior do Erzsébetváros (o Distrito VII), dentro do perímetro definido pela rua Király, avenida Erzsébet, rua Dohány e avenida Károly. Em 1867, os judeus húngaros passaram a ter direitos civis idênticos aos da restante população, e a comunidade floresceu. Budapeste estava em rápido crescimento urbano e económico, atraindo cada vez mais habitantes, que em 1910 já ultrapassavam o milhão – e quase um quarto das pessoas professavam a fé judaica. O bairro judeu era uma área comercial e residencial vibrante, e constituía o núcleo cultural e religioso da comunidade, contando com três sinagogas.

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Depois da Primeira Guerra, o Império Austro-Húngaro desintegrou-se e a Hungria perdeu dois terços do território que detinha antes do conflito e mais de metade da sua população. A instabilidade económica crescente levou ao descontentamento social e a uma cada vez maior animosidade contra os judeus, que se transformaram em alvo preferido dos líderes húngaros, em especial depois da subida ao poder de Miklós Horthy, que instaurou um regime de extrema-direita influenciado pelas políticas anti-semitas da Alemanha nazi. Após a ocupação alemã em Março de 1944, as autoridades húngaras ordenaram que o bairro judeu fosse transformado em gueto e completamente separado do exterior. Em apenas 56 dias, muitos milhares de judeus foram deportados para os campos da morte na Polónia, e o partido ultranacionalista NYKP, que esteve no poder entre 15 de Outubro de 1944 e 28 de Março de 1945, matou mais de dez mil. Dos que restaram, a maioria morreu de fome, doença ou hipotermia nas ruas do gueto.

 

A chegada do exército soviético em Janeiro de 1945 libertou o gueto e os seus poucos sobreviventes, mas durante a era comunista a população do bairro foi diminuindo, atraída pela modernidade dos distritos mais periféricos de Budapeste. O declínio e as adulterações imobiliárias foram alterando o carácter original da judiaria, e a gentrificação ocorrida nos últimos vinte anos deu-lhe um rumo diferente. Permanecem as três sinagogas, das quais a da rua Dohány é a mais frequentada e também a mais famosa, por ser a maior da Europa. E é de facto um edifício belíssimo e impressionante, construído em meados do século XIX em estilo neo-românico combinado com elementos mouriscos e bizantinos. Permanece também o traçado meio irregular das ruas densamente construídas, onde ainda predominam os edifícios de arquitectura historicista, as suas fachadas debruadas ou forradas a pedra, com grandes janelas e elementos ornamentais ilustrativos de todos os “neos” – neoclássicos, neogóticos, neobarrocos.

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As cicatrizes dos acontecimentos da Segunda Grande Guerra ainda são visíveis actualmente, como também o são os danos provocados pelas décadas de abandono a que o bairro foi votado. E no entanto, qual fénix renascida das cinzas, é precisamente devido à sua degradação que este antigo bairro judeu é agora um dos locais mais trendy da Europa, elevando o Erzsébetváros à categoria de distrito mais populoso de Budapeste. As rendas baixas de edifícios dilapidados em ruas negligenciadas começaram a atrair, nos primeiros anos deste século, uma população jovem e empreendedora, pese embora com poucos meios financeiros para investir. O primeiro caso de sucesso foi o Szimpla Kert, ícone dos chamados “ruin bars” que são agora uma espécie de imagem de marca da cidade. O que começou por ser uma tentativa de salvar da demolição um complexo que em tempos abrigou habitações e uma fábrica, tornou-se primeiro no local mais cool de Budapeste, frequentado pela juventude liberal e vanguardista, e depois numa atracção turística que é obrigatório visitar. O espaço degradado foi sendo progressivamente preenchido com toda a espécie de móveis velhos, objectos mais ou menos estranhos, bugigangas, plantas, luzes e tudo o que se possa imaginar, funcionando simultaneamente como café e bar, local de espectáculos, festas e eventos, mercado de produtos agrícolas ao domingo de manhã, e loja de artigos kitsch. Cada sala é um mundo diferente, há escadas e recantos, grafitis nas paredes, cores vibrantes, banheiras que são assentos, bicicletas penduradas no tecto, manequins, e até um carro. Uma miscelânea caótica que atordoa os sentidos à noite, quando o barulho das pessoas e da música alta nem nos deixa pensar, mas é surpreendentemente convidativa durante o dia, quando o lugar está tranquilo e quase vazio. Duas faces de uma mesma moeda.

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Atrás do sucesso do Szimpla Kert vieram lojas, ateliers, restaurantes com comida de todo o mundo, mais bares, e muita arte de rua. Na nova vida deste bairro convivem o antigo e o novo, judeus e gentios, habitantes e turistas, a tradição e o vanguardismo. Claro que nem tudo são vantagens, e como em tantos centros históricos de outras cidades, a popularidade e o turismo estão a fazer subir os preços das habitações, e a afastar os residentes para outros distritos mais baratos e mais tranquilos. É mais uma fase na história do bairro judeu de Budapeste.

 

 

CASTELO DE VIDE

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Embora não haja certezas quanto às origens do bairro judeu de Castelo de Vide, há indícios de que as primeiras famílias judias se tenham instalado na localidade em princípios do século XIV. Apesar da segregação existente, que tinha como vantagem fortalecer laços dentro da própria comunidade e manter inalterados os seus hábitos religiosos e culturais, a convivência entre cristãos e judeus era pacífica e mutuamente benéfica. Por tradição, além da sua vocação mercantil, a comunidade judaica apostava no estudo e no desenvolvimento intelectual, razão pela qual muitos dos seus elementos desempenhavam funções socialmente importantes, fosse como físicos, botânicos, professores, prestamistas ou homens de leis. Foi aqui que nasceu Garcia da Orta, filho de judeus conversos, que mais tarde estudou medicina na Universidade de Salamanca e exerceu esta profissão em Goa a partir de 1534.

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O número de famílias judaicas em Castelo de Vide cresceu sobretudo após 1492, ano em que os Reis Católicos de Espanha ordenaram a expulsão de todos os judeus que viviam nos seus territórios, muitos dos quais se refugiaram em Portugal, onde ainda podiam professar a sua religião sem incómodos de maior. Crê-se que mais de cinco mil judeus vindos de Espanha tenham passado por ali, e bastantes terão ficado. No entanto, o Portugal como refúgio tranquilo foi sol de pouca dura. A negociação do casamento de D. Manuel I com Isabel de Aragão, filha dos Reis Católicos, levou a que o nosso rei fosse pressionado a, também ele, expulsar do reino quem não se convertesse ao catolicismo, o que acabou por suceder em 1496. Quarenta anos mais tarde foi criado em Portugal o Tribunal da Inquisição, marco negro na história da convivência religiosa no nosso país, onde se iniciou um terrível período de perseguição aos cristãos-novos que só terminaria em 1767 com a reforma pombalina e com o fim da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos.

 

Apesar das conversões forçadas, a prática do judaísmo nunca desapareceu completamente em Portugal, e Castelo de Vide testemunha bem esse facto. Nas ruas do antigo bairro judeu, entretanto sujeito a modificações e recuperações, ainda se notam elementos característicos do tipo de ocupação que tiveram, e que continuaram preservados ao longo dos séculos. A judiaria desenvolveu-se na encosta nascente da vila, a partir das muralhas do castelo. O largo onde fica a Fonte da Vila é o centro radial deste bairro – e a fonte é, além disso, o ex-libris de Castelo de Vide. Aproveitando as águas de uma nascente, a fonte terá sido ampliada ao longo dos tempos, datando do século XVI o essencial da forma que lhe conhecemos hoje: rectangular, ornamentada e com uma cobertura piramidal suportada por colunas de mármore. Deste largo saem as ruas da Fonte, do Arçário, do Mestre Jorge e a rua Nova, que ligam a várias outras num padrão sinuoso e irregular. Nas ruas empedradas que levam ao Castelo, as casas têm habitualmente duas portas no piso térreo: uma daria acesso às escadas que levavam ao piso superior, de habitação, e a outra seria a da loja onde era desenvolvida a actividade comercial da família. Muitas destas casas ainda conservam os pórticos ogivais de granito, alguns com gravações nas impostas que suportam o arco, que podem ser símbolos profissionais ou pequenos entalhes com cerca de 10 cm, característicos do culto judaico, que têm o nome de “mezuzot”.

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Na esquina da Rua da Fonte com a Rua da Judiaria encontramos o edifício da antiga Sinagoga, que agora é um museu. As sondagens arqueológicas efectuadas durante as obras de recuperação revelaram que o edifício teve períodos de ocupação distintos desde pelo menos o século XIV, com uma primeira fase até ao século XVI e uma outra mais tardia. Crê-se que no piso superior se encontraria o Tabernáculo e um espaço dedicado ao ensino. Escavados na base do piso inferior descobriram-se três silos, que também apresentam indícios de terem sido usados em épocas diferentes. Terá passado a servir de residência particular no século XVIII, e foi reconstruída em 1972 de acordo com a sua traça original.

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Deste passado, mantém-se na memória colectiva a importância da celebração da Páscoa em Castelo de Vide. Da prática do judaísmo nesta vila foi herdada a bênção dos borregos, cujo abate posterior tem semelhanças com o ritual judaico tradicional.

 

***

 

Estes são apenas quatro exemplos de bairros judeus, entre os muitos que estão bem identificados em vários países da Europa. Como tudo o que envolve reconstituição histórica secular, há sempre alguma (por vezes bastante) controvérsia em torno destes bairros. Mas isso não lhes retira o encanto, nem afecta a minha capacidade de imperfeitamente imaginar como terá sido o dia-a-dia das pessoas que ali viveram ao longo dos tempos, e que outras histórias interessantes aquelas paredes contariam se pudessem falar.

Blogue da semana

Ana CB, 03.04.22

Eles são a Diana e o Ricardo, e adoram viajar e comer. No blogue Explorandar vão falando sobre as suas experiências em viagem, principalmente em Portugal mas também lá por fora, sobre o que vêem e o que vão provando. Também partilham sugestões úteis para viajantes, histórias de outros bloggers de viagem, e “culinarices” (a expressão é deles).

Escrevem bem, os textos são fluidos e nada maçadores. Aprecio sobretudo o facto de tentarem fugir ao “mais do mesmo” – mal de que sofrem tantos blogues. Só não lhes perdoo terem aderido ao novo AO! Mas fecho os olhos a este pormenor porque eles são um casal muito simpático.

Se gostam de viajar e de experimentar comidinhas diferentes e fáceis de fazer em casa, passem por lá!

Estradas

Ana CB, 31.03.22

 

É unânime que a invenção da roda foi um dos acontecimentos mais importantes para a evolução da humanidade, sobretudo quando mentes brilhantes se lembraram de aplicar o conceito na criação de meios para o transporte de cargas pesadas. Mas pouca importância é dada ao facto de que essa invenção acabou por arrastar com ela uma outra: a da estrada.

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As estradas são um paradoxo: entidades estáticas, a sua função principal (quiçá única) é facilitar a movimentação – das pessoas e das “coisas”. Imóveis, levam-nos a quase todo o lado. Podemos percorrê-las a pé ou numa variedade de meios de transporte diferentes, mas impelem-nos sempre a avançar. Ninguém fica simplesmente parado no meio de uma estrada. Se queremos parar, saímos dela. Podemos ficar na berma, a olhar para quem passa, ou sentar-nos a descansar, ou fazer qualquer outra coisa, mas sempre à margem. Uma estrada pede progressão, não imobilidade.

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A estrada pavimentada mais antiga que sobreviveu parcialmente até aos nossos dias ligava um cais nas margens do Lago Moeris à pedreira de Widan el-Faras, de onde era extraída a pedra basáltica para as câmaras mortuárias das Pirâmides de Gizé. Com cerca de dois metros de largura e composta por lajes de arenito e rocha calcária à mistura com madeira petrificada, calcula-se que date de pelo menos 2500 a.C., mais século menos século. Mas sabe-se, por exemplo, que na Mesopotâmia já se pavimentavam ruas desde 4000 a.C.

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Gizé

 

No entanto, é aos Romanos que o nosso imaginário associa a construção em massa de estradas. A calçada romana tinha quatro estratos diferentes de materiais e era feita para durar e facilitar a expansão do império, reduzindo o tempo de deslocação das colunas militares e melhorando a comunicação entre as grandes cidades que se iam criando por todo o território ocupado. Desde cerca do ano 300 a.C. e até ao declínio do império, dizem os livros que foram construídos por todo o território cerca de 80 mil quilómetros de estradas pavimentadas. Muitas delas foram continuadamente usadas e reestruturadas até aos dias de hoje; de outras, há troços que subsistem na sua forma praticamente original. Indiferentes aos recuos e avanços civilizacionais ao longo dos séculos e aos desfasamentos técnicos entre as várias regiões e culturas do nosso mundo, as estradas persistiram e foram ganhando cada vez mais importância e presença no planeta Terra, e hoje já não saberíamos viver sem elas.

Ponte romana de Vila Formosa (Alentejo)

 

As estradas são como as pessoas (ou não fossem elas uma invenção nossa!). Umas adaptam-se a cada sobressalto no relevo do terreno: curva para a esquerda aqui, cotovelo para a direita ali, contornam milimetricamente precipícios, lançam-se às alturas das montanhas, esgueiram-se por desfiladeiros que mais parecem buracos de agulha. Outras são impetuosas e cortam a direito por onde passam, rasgam túneis, esventram colinas, abatem árvores, compactam dunas. Outras ainda comportam-se com moderação, ora limando uma ruga orográfica, ora fazendo a ponte sobre um vale apertado ou sobre um rio que não convém incomodar.

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Para lá da sua utilidade facilitadora de movimentos militares e comerciais, as estradas tornaram-se também um “objecto de culto” para quem viaja em lazer. A literatura está cheia de obras épicas (ou nem tanto!) que contam histórias de viagens sobre rodas em estradas intermináveis e têm tanto de jornada de descoberta exterior como interior. O famosíssimo “Pela Estrada Fora”, de Jack Kerouac, trouxe para a ribalta a não menos famosa (e entretanto parcialmente alterada) Route 66 americana, que tinha sido criada em 1926. Os “Diários de Motocicleta” de Che Guevara descrevem uma viagem de 12 mil quilómetros da Argentina ao Peru. O “Na Patagónia”, independentemente da polémica gerada à volta do facto de Bruce Chatwin ter (segundo parece) inventado algumas das suas personagens, permanece uma belíssima narrativa de aventuras nos confins da geografia sul-americana, desde Rio Negro até Ushuaia. O mais recente “Clanlands”, dos outlanders Sam Heughan e Graham McTavish, passeia-nos pelas Terras Altas escocesas e pela sua cultura, entre histórias e diálogos cheios de humor. E o também relativamente recente “Na Planície das Serpentes”, desse “monstro” da escrita de viagens que se chama Paul Theroux, é um relato sem filtros sobre um México multifacetado, dilacerado entre a realidade dura da violência e a sua fantástica e antiquíssima cultura.

 

As minhas primeiras memórias de viagens são, precisamente, as de viajar de carro com os meus pais e a minha irmã. Naquela altura, mesmo em distâncias que hoje consideramos curtas, viajar em Portugal implicava sempre várias horas para chegar ao destino e uma preparação complicada, que envolvia farnel, almofadas para dormir no banco de trás, e sacos com material para todas as eventualidades – mesmo que fôssemos apenas às Caldas da Rainha para comprar fruta e visitar a família e regressássemos no mesmo dia. Desde então, perdi a conta às viagens que fiz por estrada, e viajar de carro permanece uma das minhas formas favoritas de conhecer mundo.

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Independentemente de nos levarem a lugares mais ou menos desejáveis, há estradas que por si só valem uma deslocação propositada para viver a experiência de as percorrer. Porque têm características únicas, porque são belas, porque nos transmitem uma sensação de encantamento, ou porque estão carregadas de História e de significado. Em Portugal, a mais famosa é certamente a N222, não só pelo seu célebre troço entre Peso da Régua e Pinhão – que lhe valeu o título de “World Best Driving Road” atribuído segundo o estudo de uma famosa empresa de aluguer de carros – mas por unir o país na quase totalidade da sua largura, entre Vila Nova de Gaia e Almendra, e acompanhar o Douro em partes do seu itinerário.

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A N222 em Foz Côa

 

Mas há várias outras estradas que me levam a querer voltar a elas uma e outra vez, e me deixam com saudades assim que as abandono. Na N304, percorrer as curvas e contracurvas do troço entre Mondim de Basto e a Campeã é ver no pára-brisas um filme sobre a grandiosidade do Parque Natural do Alvão. No Maciço da Gralheira, ziguezagueando no gume da montanha pela Estrada do Portal do Inferno, sinto-me uma funambulista em equilíbrio no arame. A M518 dá-me acesso à frescura da Fraga da Pena e depois à Mata da Margaraça, que é “só” uma das matas portuguesas mais antigas e notáveis, onde o ambiente é quase irreal. No Alentejo das estradas sem fim, na N246-1 perto de São Salvador da Aramenha há uma recta de um quilómetro em que freixos com 200 anos formam um túnel que parece dar acesso a uma outra dimensão.

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Portal  do Inferno

 

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Mata da Margaraça

10 N246-1 Alameda dos Freixos.JPGN246-1 Alameda dos Freixos

 

Além-fronteiras, entre uma longa lista de estradas que ainda sonho percorrer, há algumas que guardo na memória em lugar especial. Na Costa Rica, um autocarro levou-me (durante quase duas horas para cobrir apenas 90 km) de La Pita a Libéria, sobre um pequeno fragmento desse colosso de muitos milhares de quilómetros que é a Estrada Pan-Americana. Na Roménia, naquele que foi provavelmente o dia de condução mais cansativo de toda a minha vida até agora, desafiei-me a percorrer a icónica Transfăgărășan, cujo ponto mais alto fica acima dos dois mil metros: 151 km através das montanhas, dos quais 90 são de curvas e contracurvas constantes. Um desafio, sim, mas também uma satisfação, porque esta é realmente uma das estradas mais espectaculares do mundo, a todos os níveis. Mais perto, em terras dos nossos vizinhos, a parte cantábrica da N-621 inclui o desfiladeiro de La Hermida, 21 km acompanhando o rio Deva entre paredes de rocha que parecem tocar o céu, e mais para sul cruza a imensidão azul da barragem de Riaño. Na Camarga francesa, entre Aigues-Mortes e Le-Grau-du-Roi a estrada é apenas uma fita de asfalto, completamente recta e plana, rodeada de pântanos e salinas a perder de vista. Quando estive na Croácia, aconselharam-me a esquecer a auto-estrada no trajecto de Split para Dubrovnik e optar pela número 8, que segue o recorte da costa adriática e é de uma beleza fora de série – e eu segui o conselho. Ao lado, no Montenegro, não me arrependi de ignorar o ferry e continuar pela estrada que contorna a Baía de Kotor: o que se perde em tempo, ganha-se em paisagem que enche a alma. E em Itália, a SR2 entre Torrenieri e Bagno Vignoni, na região do Val d'Orcia, superou em muito tudo o que já tinha visto das paisagens toscanas em fotografia ou filme.

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A Pan-Americana na Costa Rica

A Transfăgărășan na Roménia

 

A N-621 na Cantábria

 

Camarga, sul de França

 

A Baía de Kotor, no Montenegro

 

Val d'Orcia, na Toscana

 

Para quem gosta de viajar, as estradas são dádivas dos deuses. Mais do que uma viagem de comboio ou de barco, e certamente muito mais do que uma viagem de avião, viajar por estrada dá-nos toda uma outra liberdade de movimentos e de tempo, e um contacto muito mais próximo com os lugares por onde passamos, com os seus pormenores, as suas características particulares e as suas pessoas. Permitem-nos o acesso a um mundo feito de tantas gentes e culturas diferentes, tantas obras de arte naturais ou construídas, e tantas idiossincrasias, que vai muito para lá do que julgamos ser possível existir – este mundo cheio de maravilhas, e também de desgraças, que é o nosso.

 

O sol da meia-noite

Ana CB, 18.02.22

 

Saímos do aeroporto para uma via rápida, asfalto cinza antracite delimitado por barreiras metálicas e o habitual tracejado branco entre faixas. Tínhamos pela frente quase 40 quilómetros de estrada praticamente recta e deserta, o brilho de uns faróis traseiros algumas centenas de metros à nossa frente, e o dos faróis dianteiros de um ou outro carro que se cruzava connosco muito de vez em quando. De ambos os lados da estrada, terra plana e nua, e ao fundo, longe como uma miragem, a fiada de luzes que indiciava os arredores da cidade grande, o nosso destino.

 

Por cima de nós, muito baixas, nuvens cinzentas em rebanhos ou emprateleiradas, diáfanas umas, outras mais escuras, com formas achatadas, estranhas, nitidamente estrangeiras. Acima dos estratocúmulos, o céu desdobrava-se em gradientes de azul até ao rosa-quase-branco, um brilho a prometer raios de sol aberto para breve – assim as nuvens o deixassem. O carro ia comendo quilómetros, o motor a ronronar suavemente, e eu estava como que hipnotizada por aquele céu surreal. Eram duas horas da manhã, íamos a caminho de Reiquiavique e eu via, pela primeira vez na minha vida, o sol da meia-noite.

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Num Verão da minha infância, os meus pais ausentaram-se durante algum tempo para irem num cruzeiro à Escandinávia. Regressaram satisfeitos, cheios de histórias com palavras novas e conceitos estranhos, como “fiorde”, “tivoli”, ou “sol da meia-noite”. Para uma criança de poucos anos, associar sol e noite é uma ideia inconcebível, e devo ter feito o que fazia com tudo aquilo que ultrapassava a minha compreensão: registei e arrumei na memória, sem pensar mais no assunto. Depois cresci, nas aulas de Geografia aprendi que o eixo da Terra é inclinado e que é essa a razão da existência das estações do ano, e o que são equinócios e solstícios, meridianos e círculos polares. Percebi finalmente o que é que significava, na teoria, “sol da meia-noite”. A hora de Verão, que só apareceu para mim quando já era adolescente, mostrou-me o que era ter claridade no céu até quase à hora de ir dormir; e numa viagem de comboio entre São Petersburgo e Moscovo assisti, às quatro da manhã, a um fascinante nascer-do-sol filtrado pela neblina que se desprendia de uma floresta interminável. Mas nada nem ninguém me preparou para a tremenda emoção causada pela beleza daquele meu primeiro verdadeiro sol da meia-noite.

 

É essencialmente pela visão que me apercebo do mundo. Nenhum estímulo é para mim tão forte como o visual. Os sons, cheiros e sabores complementam o que vejo, e o toque é o motor de certas reacções físicas – mas o deslumbramento, a fascinação, esses chegam-me pelo nervo óptico. E esta viagem que fiz na Islândia foi um festim para os meus olhos. Nuvens criativas, com formas bizarras, em colunas, em camadas, umas quase transparentes, outras de um cinzento carregado, às vezes tão baixas que parecia que bastava esticar o braço para lhes tocar, envolvendo os picos das montanhas como chantilly num bolo, ou confundindo-se com a água do oceano. Mar chão a fingir-se de espelho, reflectindo casas e barcos de cores berrantes, tornadas baças pela neblina parada. Ou em serpentinas brilhantes ondulando sobre a areia da praia na maré baixa. Cascatas magníficas de águas revoltas, despenhando-se em quantidades inimagináveis, espumando de ferocidade, mesmerizantes. Gelo de um azul inacreditável, ou muito branco mas raiado de negro, como se alguém tivesse deixado escorrer tinta-da-china, ou transparente como cristal. Montanhas nuas, pintalgadas de cores tão inesperadas que mais parecem uma tela saída das mãos de Cézanne, ocres e laranjas misturados com branco, cinzento-azulado ou antracite, verde-musgo, amarelo-desbotado e negro-lava. Nuvens de vapor a brotarem da terra fervente com aspecto de paisagem marciana. Se há lugares onde a expressão “excesso de beleza” é bem aplicada, a Islândia é um deles.

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271 Diário Islândia - Godafoss

Viajar pela “terra de fogo e gelo” foi um carrocel – de trilhos e de emoções. Na maior parte do tempo éramos só nós, a estrada e a paisagem, ora contornando fiordes compridos, entrando pela terra adentro como garras de um qualquer dragão imaginário (ou não, quem sabe… no país das sagas, tudo é possível), ora subindo e descendo entre montanhas, percorrendo desfiladeiros que nos levavam, em menos de um ai, do verde dos pastos ao branco da neve, da atmosfera límpida à neblina fantasmagórica, do asfalto em espaço aberto ao caminho de cabras trepidante à beira de uma ravina. De vez em quando lá surgia um carro, uma caravana, um ciclista solitário, um trio de ovelhas, uma quinta rodeada de fardos de feno embrulhados em plástico verde-menta ou rosa-bombom. Depois chegávamos a uma cidade com ar de aldeia, casas baixas forradas a chapa perfilada, mais raramente de madeira, dispostas a espaços ao longo de ruas desenhadas a régua e esquadro, um pequeno supermercado, uma bomba de gasolina, uma igreja minimalista, uma quase ausência de pessoas. Nada que nos fizesse apetecer parar, por isso seguíamos rapidamente de volta à magnífica solidão das paisagens sem vivalma. Ou então encontrávamos uma localidade daquelas saídas directamente de um cartão-postal: à beira de um fiorde, com casinhas coloridas, um jardim, uma igreja original, arte urbana a animar as ruas – aqueles sítios onde apetece ficar.

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Houve um sem-fim de momentos inesquecíveis nesta viagem. Houve dias luminosos, em que o sol nos aqueceu o suficiente para ignorarmos os casacos durante algum tempo. Houve dias gélidos, em que o frio ou o vento nos impeliam a voltar para o abrigo morno do carro, apesar de nos apetecer ficar mais uns minutos (ou horas!) a passear. Houve um final de dia de viagem dentro de uma piscina de água quente, com vistas para o mar e para a ilha de Drangey. Houve dias em que o sol nunca se mostrou, e menos ainda nas supostas horas nocturnas: o céu mantinha-se cinzento, só percebíamos que estava na hora de recolher apenas pela ligeira diminuição da luminosidade e pelos números digitais no relógio do carro.

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E houve outros sóis da meia-noite, com o céu pintado de rosa e roxo, ou tingido com cores de fogo sobre o branco-fosco do glaciar Vatnajökull. Mas nenhum deles foi para mim tão emocionante como aquele meu primeiro sol da meia-noite.

Pensamento da semana

Ana CB, 23.01.22

Gosto de arrumar. Dobrar, endireitar, empilhar são gestos que me acalmam. Uma gaveta arrumada dá-me satisfação, uma secretária organizada dá-me a sensação de dever cumprido, espaços desimpedidos dão-me liberdade. A desarrumação desconcentra-me. Saber sempre (ou quase sempre…) onde está o que quero poupa-me tempo e preocupação – a vida é demasiado curta para a desperdiçar com ansiedades inúteis.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Amigos de aluguer

Ana CB, 21.01.22

Li num artigo que em Tóquio é possível alugar amigos. Ou seja, pagar a alguém para ser nosso amigo durante umas horas. Os “amigos de aluguer” entrevistados contam as histórias mais variadas, desde serem contratados para passarem por familiares de uma noiva, posarem para selfies no Instagram, fingirem ser um namorado ou namorada, ou serem apenas correspondentes por email. No entanto, a grande maioria das pessoas que os contratam apenas querem companhia: para ver TV, ir às compras, ou simplesmente conversar.

Para quem trabalha nesta área, a motivação não parece ser o dinheiro – o valor que recebem por hora não é assim tão alto quanto isso (sobretudo num país caro como é o Japão), e a procura destes serviços é sempre incerta. Há quem diga que é o desejo de ajudar quem precisa de algumas horas de conforto emocional, ou quem o faça para quebrar a rotina de um emprego estável mas algo monótono. Alugar a nossa amizade a estranhos em troca de dinheiro parece estar algures entre um passatempo e a prestação de cuidados paliativos.

O que é que isso diz de uma cidade como Tóquio, tida como superdesenvolvida e onde há lugar para todas as excentricidades? E o que é que diz sobre a sociedade japonesa, que é supostamente tão correcta e amigável? A explicação dada no artigo é que no Japão, o importante é a fachada, o exterior impecável, a aparência de que está tudo bem. As pessoas não estão habituadas a mostrar o seu lado mais vulnerável, têm dificuldade em abrir-se com os outros. Não se tocam. Não exprimem as suas emoções. Psicologicamente, não estão bem, mas não partilham o que sentem, e não procuram ajuda – porque há um estoicismo, transversal a toda a cultura japonesa, que faz com que se vejam obrigados a aguentar tudo sem darem parte de fracos. Nas redes sociais podem até mostrar uma vida feliz, alegre e preenchida, mas muitas vezes tudo não passa de uma mentira.

Num país onde é normal ter um horário laboral diário de 10 horas e frequentemente o convívio se resume à família e aos colegas de trabalho – com o habitual distanciamento físico e emocional já firmemente incorporado nos hábitos sociais – sobra pouco espaço e tempo para construir amizades verdadeiras, e menos ainda duradouras. Num país que é tecnologicamente muito desenvolvido, culturalmente avançado (e esta é a explicação mais invocada para as reduzidas taxas de infecção e morte por covid-19 que o Japão tem mostrado), hiperprodutivo, politicamente estável e etnicamente homogéneo, esta incapacidade de ter e manter amigos parece coisa de ficção científica – e daquela mais pessimista.

Como latinos que somos (e optimista que sou), estou em crer que por cá a “moda” não irá pegar. Mas… este retraimento a que somos forçados há quase dois anos, somado à apetência cada vez maior pelos smartphones e à substituição de formas de entretenimento interactivas por quilómetros de scroll e horas passadas a jogar ou nas redes sociais, não são um bom indicador do que poderá ser o futuro próximo, sobretudo para as gerações mais jovens – que desconhecem o poder reconfortante das tardes à conversa com os amigos num qualquer café de bairro.