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Delito de Opinião

Do direito à greve

Teresa Ribeiro, 27.06.22

Neste último fim-de-semana os trabalhadores do metro fizeram greve. Fosse um fim-de-semana qualquer e as "jornadas de luta" seriam agendadas para outras datas. Mas este era o último fim-de-semana do Rock in Rio, em que milhares de pessoas necessitariam do metro para se deslocar ao Parque da Bela Vista. Já na CP, os grevistas escolheram a noite de S.João para afectar o normal funcionamento dos comboios suburbanos do Porto. Claro que nada disto é novidade, constitui um padrão. Lembro-me de greves de transportes que ocorreram em cheio na quadra do Natal. Na aviação já se sabe que é no Verão que as "acções de luta" se concentram. Mas sendo certo que as greves do sector dos transportes nunca passam despercebidas, pois impactam, em qualquer circunstância, milhares de utentes, agendá-las de modo a lesar o maior número possível de pessoas tem algo de perverso. No limite, é abuso de poder.

A natureza não se manipula

Teresa Ribeiro, 02.06.22

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Falta-nos humildade para aceitar que podemos manipular tudo, até aquilo a que chamamos realidade, mas não a natureza. Pelo menos não tanto quanto desejaríamos. É por isso que continua a adoecer gravemente e a morrer gente de Covid, apesar de termos decretado que a vida pode voltar ao que era.

Percebo a necessidade de retomar as actividades económicas dentro de padrões próximos da normalidade e uma vez que evoluímos ou estamos a evoluir para uma situação de endemia, a opção de regressar à vida de sempre é compreensível. Mas o que não entendo é que apesar das notícias que agora nos chegam timidamente através dos media, nada se faça para levar as pessoas a respeitar as poucas regras de segurança sanitária que se mantiveram. Nos transportes públicos, onde é obrigatório o uso de máscara, o laxismo aumenta de dia para dia, perante a indiferença das autoridades. E haverá certamente outras situações que estão a contribuir para que esta nuvem negra se alastre, mais uma vez.

A notícia é de hoje: em relação ao período homólogo do ano passado, o número de mortes por Covid aumentou... 18 vezes! 

Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 24.04.22

Toda a vida assisti, do sofá, a guerras que chocaram a opinião pública. Mas quase todas eram lá longe, num mundo que não o meu, o que me criou a ilusão de que vivia na parcela mais civilizada do planeta. Bem sei, nos anos 90, o inferno desceu à Terra, nos Balcãs. Mas as razões dessa guerra eram muito locais, resultado de um ódio larvar entre etnias que eclodiu, mal a Cortina de Ferro se desmoronou. Vi-o, portanto, como um caso muito específico, nada que me impedisse de acreditar que pertencia à elite, à quota humana que já não desce abaixo da condição animal. Até que a Rússia invadiu a Ucrânia.

Agora, mais do que o desespero das vítimas e a bestialidade dos agressores, o que me abala é ter perdido todas as ilusões quanto à capacidade de evoluirmos como seres humanos. Porque vai-se a ver e a civilização é só verniz. Século após século o ser cavernícola continua a habitar no mais fundo de nós. Não morre. E às vezes sinto asco por pertencer a esta tribo.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Neste Dia Internacional da Mulher

Teresa Ribeiro, 08.03.22

Mãe galinha que sou, sempre pensei que não haveria causa que pudesse alguma vez colocar acima da integridade física do meu filho. Mais: nunca entendi como podia haver mães que sentissem e pensassem o contrário. Até que comecei a assistir a esta guerra em directo e a admirar, comovida, o estoicismo das mulheres ucranianas. Quedo-me estupefacta a ler nos seus rostos o desespero embrulhado em revolta, o conformismo valente de quem aceita que há momentos em que é necessário fazer sacrifícios pessoais, por mais dolorosos que sejam. Vejo-as e pergunto-me se era capaz. Acho que não. Mas apercebo-me de que em mim alguma coisa mudou. Porque agora eu entendo. 

Neste Dia Internacional da Mulher ergo a minha taça a todas estas heroínas. Que o seu sacrifício não seja em vão.

Ele

Teresa Ribeiro, 01.03.22

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Ao contrário do estereótipo das histórias infantis politicamente incorrectas dos meus tempos de menina, este vilão é louro e tem olhos azuis. O rosto redondo, sem rugas, devia sublinhar a suavidade que sugere a mistura dos tons claros do cabelo e dos olhos, mas há uma vida interior por detrás desta máscara delicada que desmonta tudo. O olhar ínvio, incapaz de se sustentar frente às câmaras de televisão e a expressão esfíngica que ostenta sempre que se apresenta em público revelam-no fechado e frio. Dele sabe-se da sua sede assassina de poder. É isso que o move. Não olha a meios, este Darth Vader. Envenena opositores políticos e jornalistas, prende manifestantes, manipula eleições e agora manda bombardear hospitais, creches e lançar no terreno brinquedos armadilhados numa guerra onde vale tudo, até trocar de uniforme para confundir o inimigo.

Comparam-no a Hitler. A megalomania e a metodologia que usou para avançar com as peças no tabuleiro, de facto, confundem-se. Tal como o psicopata de bigode também ele se comporta como dono do mundo, achando-se no direito de determinar que países devem, ou não, existir e não hesita em esmagar quem lhe faz frente. A diferença é que no tempo do outro não havia smartphones, nem internet, nem redes sociais. Hoje é impossível esconder, como antes, os crimes de guerra. Tudo se sabe em tempo real. E essa exposição é, está a ser, demolidora para a reputação deste aspirante a czar de todas as rússias.

Sempre pensei que se um dia uma guerra nuclear eclodisse seria seguramente espoletada por alguém com este perfil: um borderliner com acesso a estas armas e uma ambição desmedida. Mas tenho fé que a devassa que as redes de comunicação e os telemóveis proporcionam faça o milagre de deter esta escalada de violência. Porque o terror, para proliferar, sempre precisou de sombra.

Blogue da semana

Teresa Ribeiro, 23.01.22

Escreve bem, ou seja, sabe ser claro, sucinto e interessante. O facto de não recorrer aos artifícios de estilo a que tantos não resistem só para entre duas ideias exibirem erudição e atitude, agrada-me muito. Mas o principal é que os postais de Luís Eme me deixam sempre a pensar na vida, a propósito de uma cena que testemunhou, ou de uma reflexão que partilha. Gosto desses pedaços de realidade, tão bem descritos. É por isso que escolho o Largo da Memória para blogue da semana.

Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 02.01.22

Sempre desconfiei da “felicidade que se constrói”, embora reconheça que há pessoas que são felizes por uma questão de sobrevivência. Falo de  casos em que os motivos de infelicidade são tão avassaladores, que se fossem assimilados, tornar-se-iam incapacitantes. Mas esses são exemplos extremos e em todo o caso não estamos a falar de verdadeira felicidade, mas de terapia de choque. Acredito que a regra é as pessoas realmente felizes serem-no por circunstâncias que não controlam: como terem níveis elevados de serotonina no cérebro ou simplicidade de espírito, factores que as predispõem para ver a vida sob o melhor ângulo.

Aquela emoção a que chamamos felicidade, aquela que depende da satisfação de desejos, é sempre fonte da angústia residual que consiste no medo da perda, no medo que se cumpra o destino transitório de tudo. Portanto na prática, a felicidade em estado puro não existe. E muito menos se constrói, como se fosse um lego. Isso é fantasia inventada pela Psicologia Positiva para vender livros de auto-ajuda.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Greve no metro

Teresa Ribeiro, 04.11.21

Há décadas que esta gente faz greve todos os anos para reivindicação de aumento de salário (durante a pandemia fizeram uma trégua, por motivos óbvios). Esta recorrência, tão regular como um relógio suíço, só lhes pode ter rendido muito para lá do que qualquer trabalhador ganha, em média, neste país. Pena que ainda não se tenham lembrado de fazer o que há uns anos fizeram com o pessoal da CP: Divulgaram publicamente as suas tabelas salariais e as regalias de que gozavam e foi um escândalo.

Blogue da semana

Teresa Ribeiro, 24.10.21

Aprender qualquer coisa. Certamente não é a ler sobre política. Talvez sobre ciência, essa tão maltratada, área de que sabemos tão pouco e de que afinal depende o essencial daquilo a que chamamos futuro. Há na bloga uma mulher que escreve tão bem sobre esses temas. Que escreve bem. Ponto. É a Cristina Nobre Soares. E o blogue em causa chama-se Ciência Clara. Escolho-o hoje para blogue da semana.

Voltar ao metro

Teresa Ribeiro, 27.08.21

Não guio. Como sempre estive convicta de que um dos principais focos de contágio da Covid é nos transportes públicos, defendi-me durante bastante tempo com um esquema de boleias que me resolveu o problema. Mas a dependência cansa e às tantas entendi que já era tempo de regressar à normalidade, até porque tenho um horário flexível, que me permite evitar as horas de ponta.

Quando voltei ao metro, a minha curiosidade concentrou-se no comportamento dos utentes. E constatei mais uma vez que somos um povo obediente e ordeiro. A maioria, quando há espaço que chegue, preocupa-se com o afastamento e usa máscara. Mas claro que há excepções. Em poucas semanas vi gente ao molho, sem necessidade. Magotes a concentrarem-se escusadamente junto às portas, muito antes de o metro entrar nas estações, pessoas sem máscara por estarem a beber, ou a comer, ou porque sim. Tanto que se fala na importância do distanciamento social e muitos, sem pensarem duas vezes, sentam-se nos bancos que ficam costas com costas, de modo a quase tocarem na cabeça uns dos outros.

Nunca me apercebi tanto como agora de que há imensa gente que tem o vício de ocupar o tempo que gasta nas deslocações a falar ao telefone. Numa só carruagem é comum ver várias pessoas nesse trai-lai-lai e facilmente se percebe, porque muitas falam alto, que não se trata de telefonemas inadiáveis.

Não é preciso ser especialista em epidemiologia para perceber que o risco de contágio aumenta com este género de comportamentos, tão fáceis de corrigir. Tanto tempo que se tem gasto em televisão a entrevistar especialistas, tanto que nem os mais pacientes já  os conseguem ouvir, e ninguém se lembrou de encomendar uma campanha, feita de forma simples e divertida, que chame a atenção para a importância dos detalhes na prevenção do contágio?

Ontem não pude evitar um risinho amarelo quando entro numa estação e oiço em fundo a voz de uma funcionária avisar que "a linha verde está com perturbações". Hoje tive a certeza que a velha rotina se tinha instalado na minha vida quando ouvi ao chegar ao metro, a voz de uma funcionária a pedir "desculpa pelo incómodo causado", pois "o tempo de espera na linha azul" podia ser "superior ao normal". 

E claro, escadas rolantes avariadas também existem com fartura. Há coisas que nem com a pandemia mudam...

Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 22.08.21

Da direita à esquerda, ninguém parece acreditar que o dinheiro da bazuca vai ser bem aplicado. Esta unanimidade, a que me junto, diz tudo acerca da confiança que depositamos nos governantes e do nosso atávico mas avisado pessimismo. Falta-nos pensamento mágico para enfrentar a próxima oportunidade perdida com um sorriso.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Ambiente de trabalho VII

Teresa Ribeiro, 29.07.21

As novas elites não dão ponto sem nó. Traçam o seu percurso, começando cedo a identificar que pessoas devem conhecer e em que circunstâncias. Preparam-se cuidando dos mais ínfimos detalhes, porque hoje o  que parece, é. Há soft skills que devem constar num currículo, porque são muito valorizadas nos tempos que correm, daí ser conveniente exercer atividades a partir das quais se possa tirar ilações sobre a qualidade do seu carácter ou capacidade de trabalho. 

Como bailarinas em pontas aprendem, depois, a andar em bicos de pés para serem notados por quem tem poder. E o que é, para esta nova geração, ter poder? Ter poder é ter influência. Ser conhecido e reconhecido. Mas este reconhecimento não tem necessariamente a ver com competência, conhecimento e muito menos experiência. Três atributos que a nova cultura do trabalho esvaziou ao introduzir no discurso um novo mantra: proactividade, competitividade e "gosto pelo desafio". Três magníficos eufemismos cuja elasticidade permite cobrir um vasto leque de perfis, desde os jovens com ambição que desejam legitimamente subir na vida, àqueles que antes se designavam por arrivistas: tractores que não olham a meios para "chegar lá". Não importa como, pois já ninguém quer saber.

"Estar lá" quer dizer que se ganhou a medalha olímpica da notoriedade, o novo oiro. Não por acaso chegou-se ao ponto de criar uma nova "profissão", a dos influencers. Ter poder é conhecer e ser conhecido por "toda a gente", sendo que "toda a gente" é a gente que tem uma importante rede de contactos. Trata-se de uma pescadinha de rabo na boca, círculo onde até se vende a mãe para entrar, pois os que ficam de fora são nada. Pertencem à massa indistinta dos que não "chegaram lá". Engenheiros, arquitectos, artistas, limpa chaminés, jornalistas, rapariguinhas do shopping, é indiferente. A todos é dispensado um tratamento indiferenciado que se verte, de resto, em salários absurdamente semelhantes.

As novas elites lideram, sem complexos, áreas que desconhecem, apoiadas na expertise dos profissionais que este novo sistema proletarizou. Mas formadas que foram na cultura narcísica do autoelogio e do elogio mútuo sustentada pelas redes, não resistem a deixar a sua marca de génio na gestão de pessoas e coisas, tomando por capricho decisões absurdas e irresponsáveis, ignorando os conselhos de quem sabe, só pelo prazer de mandar. É nisto que estamos, nas mais diversas áreas de actividade. Até dói.

Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 04.07.21

Tenho pena que quando se fala de racismo se feche o ângulo sobre a história que envergonha os brancos e não se diga tudo: que o racismo também grassa entre as outras raças e que hoje ainda há escravatura, exercida de negros sobre negros, em África. Seria uma abordagem mais honesta e transparente. Teria a vantagem de não cavar trincheiras, com vítimas sempre da mesma cor de um lado e verdugos sempre da mesma cor do outro, algo que potencia o ódio de parte a parte. Melhor ainda, interpelaria cada um de nós, independentemente da raça, sobre o papel que queremos desempenhar neste combate, que deve ser da humanidade contra um dos seus atavismos, o preconceito racial.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Enamorada

Teresa Ribeiro, 28.04.21

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Há livros pelos quais nos apaixonamos e que lemos já não com prazer, mas com volúpia. Adiando no último terço o seu desfecho, sofrendo por antecipação o momento em que temos de os devolver à prateleira. Com "Coração Tão Branco", senti um desses enamoramentos - para citar outro título do autor, o espanhol Javier Marias. Dele li com entusiasmo outros títulos. Todos me revelaram talento para urdir enredos e construir  personagens complexas, que página a página se retratam, num striptease delicado. Mas este romance, amplamente premiado, coloco-o no meu pequeno altar privado, porque me revelou o que eu sabia e não sabia, mas por palavras que jamais conseguiria juntar, tal a subtileza, inteligência e elegância da escrita. 

 

Estou para aqui a falar de forma, mas o conteúdo é o melhor. Passo a citar:

"Guarda silêncio quem já tem alguma coisa e corre o risco de a perder ou está prestes a conquistá-la";

"Há muitos homens que julgam que as mulheres têm necessidade de se sentir muito queridas e aduladas, inclusive mimadas, quando o que mais nos interessa é que nos entretenham, isto é, que nos impeçam de pensar demasiado em nós próprias. Esta é uma das razões porque costumamos querer ter filhos";

"Abdicamos da linguagem da infância, abandonamo-la por ser demasiado esquemática e simples, todavia aquelas frases descarnadas e absurdas não nos abandonaram por completo, mas subsistem nos olhares, nas atitudes, nos sinais, nos gestos e nos sons".

 

A tentação é continuar, mas chega. São bons exemplos do que o autor consegue fazer. Através das personagens introduz com habilidade inúmeros pontos de reflexão e vai fundo, nós a reboque, inebriados pela sofisticação musical de cada frase. 

Sim, estou enamorada, mas não sou egoísta e partilho: se não leu este romance que Javier Marias escreveu em 1992, ainda vai a tempo.

Feminista, com muito orgulho

Teresa Ribeiro, 08.03.21

Não sei quando comecei a dar atenção ao Dia Internacional da Mulher. Talvez no início da adolescência. Mas já na infância sabia que havia dois pesos e duas medidas, uns pró menino, outros prá menina e não gostava. Posso, portanto, dizer que antes de saber o que era o feminismo já era feminista. Não precisei de seguir nenhuma cartilha. Foi o meu próprio sentido de justiça que me guiou onde até hoje me encontro: do lado dos que defendem a igualdade de direitos e oportunidades para homens e mulheres. 

Tenho a sorte de ter nascido no século XX e no ocidente, mas se o 8 de Março serve para alguma coisa é para ter bem presente até que ponto o mundo ainda é um lugar atroz para a maioria da população feminina. A meu ver isso devia ser o bastante para que ao menos entre as mulheres o apodo "feminista" não fosse incómodo ou controverso. Eu continuarei a ser feminista até ao dia em que não houver motivo para levantar essa bandeira. Desconfio que isso não acontecerá no meu tempo, mas quem sabe a minha filha ou as minhas netas, se um dia as tiver, possam falar deste tema como coisa do passado. Quando acontecer, terá valido a pena as gerações que as precederam nunca terem desistido de lutar por esta ideia tão saudável que é a da paridade entre sexos.

Ambiente de trabalho VI

Teresa Ribeiro, 15.02.21

Tudo começou com a democratização do ensino. Algo que urgia, mas que esbarrou num mercado de trabalho impreparado. Num país sem investigação nem iniciativa empresarial nas mais diversas áreas, não havia lugar para muitos licenciados. Por isso no fim da linha tantos passaram a desembocar no desemprego, na emigração, ou na precariedade. A desvalorização do trabalho intelectual inicia-se assim, em meados dos anos 80, rumo à proletarização das mais diversas profissões, sobretudo na área de humanidades, mas não só.

Hoje é comum um empresário pagar mais à empregada que lhe limpa a casa do que aos licenciados que emprega no seu escritório. Isto porque as empregadas domésticas, ao contrário  destes novos proletários, beneficiam da lei da oferta e da procura. 

Com a crise pandémica esta vulnerabilidade aumentou. Sei de gente que esteve seriamente doente e que nunca parou de trabalhar. Isto de o trabalho intelectual poder ser feito à distância tem sido - para muitos doentes COVID e não só - uma dificuldade acrescida. Porque a entidade empregadora presume que em casa, mesmo doente, dá para ir trabalhando.

Esta pressão verifica-se sobretudo junto dos que trabalham em PME's. Como estas constituem, como se sabe, a esmagadora maioria do tecido empresarial português, estamos a falar de muita gente. De profissionais cujas equipas se resumem, tantas vezes, a eles próprios. Em cujas funções sabem ser insubstituíveis. Circunstância que não os beneficia, pelo contrário. Pois se não podem parar, se porventura um dia o fizerem, pode significar o fim de um contrato de trabalho.

Mas entre os profissionais que não podem trabalhar à distância também vejo muitos a arriscar todos os dias um possível contágio, porque aceitam trabalhar sem condições de segurança e o motivo é sempre o mesmo: a precariedade endémica que os faz ceder a cumplicidades que lhes são impostas, de forma abusiva, a bem dos interesses da empresa. E cedem porque estão na base da cadeia alimentar que há muito vive da exploração impudica do talento. Esse bem que tantos agora gostam de louvar mas que hipocritamente, no segredo dos seus escritórios, tratam como lixo.