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Delito de Opinião

Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 20.11.22

Olho para os miúdos que se manifestam nas escolas, exigindo que os adultos lhes salvem o planeta, e penso em como é difícil ao ser humano mudar a sua natureza. Ser capaz de mobilizar-se pelo bem comum. Ser consequente quando está em causa a viabilidade do seu único habitat. Os donos do mundo também têm filhos e netos mas nem assim. A mesquinhez leva sempre a melhor.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 23.10.22

Fala-se muito de misoginia, mas quase nada de misandria. Durante décadas na verdade não a sentia como algo fácil de identificar. Mas de imediato pensava que era natural que assim fosse, pois sempre vivemos numa sociedade machista e não o contrário. Ultimamente detecto manifestações de misandria aqui e ali, com uma exuberância que me deixa pasmada. E penso que vamos de mal a pior, porque agora a balança do ressentimento e do ódio está equilibrada e muitas mulheres pensam que isso é uma boa evolução.

 

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Ambiente de trabalho VIII

Teresa Ribeiro, 27.09.22

A glorificação do empreendedorismo abriu caminho à proletarização do trabalho intelectual. A partir do momento em que a iniciativa empresarial se transformou em valor supremo, os dependentes, aqueles que pela sua natureza ou pela natureza do seu trabalho exercem a sua profissão por conta de outrem, passaram à condição de subalternos, independentemente do seu nível de competências.

Esta simplificação, que dividiu o mundo do trabalho em dois, colocou do lado dos assalariados um conjunto indiferenciado de profissionais, de cientistas e arquitectos, a trolhas e empregadas de limpeza. Segundo esta nova ordem, passaram a equivaler-se, na medida em que uns e outros não detêm o único e verdadeiro poder, o do dinheiro.

A curva descendente que levou a que a maioria dos licenciados passasse a ganhar salários absolutamente desajustados do seu nível de preparação e conhecimentos começou com esta desvalorização social indiferenciada dos assalariados, algo que conduziu à desvalorização profissional e correspondente descida de salários.

O argumento de que os impostos são elevados para quem contrata, sempre usado pelos empregadores para justificar porque pagam tão mal, não explica a existência neste país de um fosso cada vez maior entre pobres e ricos. A falta de ética, sim.

Até porque não é só de salários baixos que se faz esta nova cultura empresarial. As ilegalidades são uma constante e praticam-se com crescente despudor. A avaliar pelos casos de abuso que me vão chegando aos ouvidos, através da geração que na minha família está a entrar no mercado de trabalho e da sua rede de amigos, e de amigos de amigos destes, percebo até que ponto a cultura do trabalho, no país, se tem degradado. Há já quem queira admitir jovens licenciados à experiência sem lhes revelar o salário que pretendem pagar e a partir de quando; há quem anuncie sem embaraço que “nas semanas em que há feriado, o feriado conta como folga”; o hábito de pagar um x por debaixo da mesa está instituído; o pagamento de horas extraordinárias está fora de questão; o aumento de salário, idem; o direito a “desligar” à noite e aos fins-de-semana não é sequer tema de conversa. Não admira que os jovens estejam a fugir deste país ao ritmo a que fugiam da guerra colonial nos anos 60.

É a economia? A inépcia de quem nos tem governado? Sim, mas também esta falta de civismo, tão tuga. O oportunismo sonso dos muitos que podiam contribuir para o aumento do salário médio em Portugal, mas que aproveitam os saldos para comprar “talento” ao preço da uva mijona. O talento de que precisam para manter os seus projectos de pé. Porque o espírito de iniciativa não é tudo. Mas isso, claro, quando reconhecem, é no tom paternalista que reservam ao elogio dos subalternos.

Blogue da semana

Teresa Ribeiro, 28.08.22

Agora que já nos informaram que o gás vai disparar como nunca, que a gasolina e o gasóleo vão continuar a subir e que a esta onda inflacionista não vão escapar sequer os artigos de primeira necessidade, é altura de apertar os cintos e partir para outro patamar de controlo do orçamento doméstico. Daí que tenha escolhido para blogue da semana o Poupadinhos e com Vales. Antes de abrir os cordões à bolsa para o regresso às aulas e outros rituais da rentrée, vale a pena passar por lá e fazer as contas.

Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 10.07.22

Depois da guerra de Putin, a grande dicotomia entre concepções de sociedade  já não é entre a esquerda e a direita, mas entre os defensores da democracia (que existem à esquerda e à direita) e os simpatizantes de regimes autocráticos (que abundam na extrema-direita e na extrema-esquerda). 

 

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Do direito à greve

Teresa Ribeiro, 27.06.22

Neste último fim-de-semana os trabalhadores do metro fizeram greve. Fosse um fim-de-semana qualquer e as "jornadas de luta" seriam agendadas para outras datas. Mas este era o último fim-de-semana do Rock in Rio, em que milhares de pessoas necessitariam do metro para se deslocar ao Parque da Bela Vista. Já na CP, os grevistas escolheram a noite de S.João para afectar o normal funcionamento dos comboios suburbanos do Porto. Claro que nada disto é novidade, constitui um padrão. Lembro-me de greves de transportes que ocorreram em cheio na quadra do Natal. Na aviação já se sabe que é no Verão que as "acções de luta" se concentram. Mas sendo certo que as greves do sector dos transportes nunca passam despercebidas, pois impactam, em qualquer circunstância, milhares de utentes, agendá-las de modo a lesar o maior número possível de pessoas tem algo de perverso. No limite, é abuso de poder.

A natureza não se manipula

Teresa Ribeiro, 02.06.22

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Falta-nos humildade para aceitar que podemos manipular tudo, até aquilo a que chamamos realidade, mas não a natureza. Pelo menos não tanto quanto desejaríamos. É por isso que continua a adoecer gravemente e a morrer gente de Covid, apesar de termos decretado que a vida pode voltar ao que era.

Percebo a necessidade de retomar as actividades económicas dentro de padrões próximos da normalidade e uma vez que evoluímos ou estamos a evoluir para uma situação de endemia, a opção de regressar à vida de sempre é compreensível. Mas o que não entendo é que apesar das notícias que agora nos chegam timidamente através dos media, nada se faça para levar as pessoas a respeitar as poucas regras de segurança sanitária que se mantiveram. Nos transportes públicos, onde é obrigatório o uso de máscara, o laxismo aumenta de dia para dia, perante a indiferença das autoridades. E haverá certamente outras situações que estão a contribuir para que esta nuvem negra se alastre, mais uma vez.

A notícia é de hoje: em relação ao período homólogo do ano passado, o número de mortes por Covid aumentou... 18 vezes! 

Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 24.04.22

Toda a vida assisti, do sofá, a guerras que chocaram a opinião pública. Mas quase todas eram lá longe, num mundo que não o meu, o que me criou a ilusão de que vivia na parcela mais civilizada do planeta. Bem sei, nos anos 90, o inferno desceu à Terra, nos Balcãs. Mas as razões dessa guerra eram muito locais, resultado de um ódio larvar entre etnias que eclodiu, mal a Cortina de Ferro se desmoronou. Vi-o, portanto, como um caso muito específico, nada que me impedisse de acreditar que pertencia à elite, à quota humana que já não desce abaixo da condição animal. Até que a Rússia invadiu a Ucrânia.

Agora, mais do que o desespero das vítimas e a bestialidade dos agressores, o que me abala é ter perdido todas as ilusões quanto à capacidade de evoluirmos como seres humanos. Porque vai-se a ver e a civilização é só verniz. Século após século o ser cavernícola continua a habitar no mais fundo de nós. Não morre. E às vezes sinto asco por pertencer a esta tribo.

 

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Neste Dia Internacional da Mulher

Teresa Ribeiro, 08.03.22

Mãe galinha que sou, sempre pensei que não haveria causa que pudesse alguma vez colocar acima da integridade física do meu filho. Mais: nunca entendi como podia haver mães que sentissem e pensassem o contrário. Até que comecei a assistir a esta guerra em directo e a admirar, comovida, o estoicismo das mulheres ucranianas. Quedo-me estupefacta a ler nos seus rostos o desespero embrulhado em revolta, o conformismo valente de quem aceita que há momentos em que é necessário fazer sacrifícios pessoais, por mais dolorosos que sejam. Vejo-as e pergunto-me se era capaz. Acho que não. Mas apercebo-me de que em mim alguma coisa mudou. Porque agora eu entendo. 

Neste Dia Internacional da Mulher ergo a minha taça a todas estas heroínas. Que o seu sacrifício não seja em vão.

Ele

Teresa Ribeiro, 01.03.22

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Ao contrário do estereótipo das histórias infantis politicamente incorrectas dos meus tempos de menina, este vilão é louro e tem olhos azuis. O rosto redondo, sem rugas, devia sublinhar a suavidade que sugere a mistura dos tons claros do cabelo e dos olhos, mas há uma vida interior por detrás desta máscara delicada que desmonta tudo. O olhar ínvio, incapaz de se sustentar frente às câmaras de televisão e a expressão esfíngica que ostenta sempre que se apresenta em público revelam-no fechado e frio. Dele sabe-se da sua sede assassina de poder. É isso que o move. Não olha a meios, este Darth Vader. Envenena opositores políticos e jornalistas, prende manifestantes, manipula eleições e agora manda bombardear hospitais, creches e lançar no terreno brinquedos armadilhados numa guerra onde vale tudo, até trocar de uniforme para confundir o inimigo.

Comparam-no a Hitler. A megalomania e a metodologia que usou para avançar com as peças no tabuleiro, de facto, confundem-se. Tal como o psicopata de bigode também ele se comporta como dono do mundo, achando-se no direito de determinar que países devem, ou não, existir e não hesita em esmagar quem lhe faz frente. A diferença é que no tempo do outro não havia smartphones, nem internet, nem redes sociais. Hoje é impossível esconder, como antes, os crimes de guerra. Tudo se sabe em tempo real. E essa exposição é, está a ser, demolidora para a reputação deste aspirante a czar de todas as rússias.

Sempre pensei que se um dia uma guerra nuclear eclodisse seria seguramente espoletada por alguém com este perfil: um borderliner com acesso a estas armas e uma ambição desmedida. Mas tenho fé que a devassa que as redes de comunicação e os telemóveis proporcionam faça o milagre de deter esta escalada de violência. Porque o terror, para proliferar, sempre precisou de sombra.

Blogue da semana

Teresa Ribeiro, 23.01.22

Escreve bem, ou seja, sabe ser claro, sucinto e interessante. O facto de não recorrer aos artifícios de estilo a que tantos não resistem só para entre duas ideias exibirem erudição e atitude, agrada-me muito. Mas o principal é que os postais de Luís Eme me deixam sempre a pensar na vida, a propósito de uma cena que testemunhou, ou de uma reflexão que partilha. Gosto desses pedaços de realidade, tão bem descritos. É por isso que escolho o Largo da Memória para blogue da semana.

Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 02.01.22

Sempre desconfiei da “felicidade que se constrói”, embora reconheça que há pessoas que são felizes por uma questão de sobrevivência. Falo de  casos em que os motivos de infelicidade são tão avassaladores, que se fossem assimilados, tornar-se-iam incapacitantes. Mas esses são exemplos extremos e em todo o caso não estamos a falar de verdadeira felicidade, mas de terapia de choque. Acredito que a regra é as pessoas realmente felizes serem-no por circunstâncias que não controlam: como terem níveis elevados de serotonina no cérebro ou simplicidade de espírito, factores que as predispõem para ver a vida sob o melhor ângulo.

Aquela emoção a que chamamos felicidade, aquela que depende da satisfação de desejos, é sempre fonte da angústia residual que consiste no medo da perda, no medo que se cumpra o destino transitório de tudo. Portanto na prática, a felicidade em estado puro não existe. E muito menos se constrói, como se fosse um lego. Isso é fantasia inventada pela Psicologia Positiva para vender livros de auto-ajuda.

 

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Greve no metro

Teresa Ribeiro, 04.11.21

Há décadas que esta gente faz greve todos os anos para reivindicação de aumento de salário (durante a pandemia fizeram uma trégua, por motivos óbvios). Esta recorrência, tão regular como um relógio suíço, só lhes pode ter rendido muito para lá do que qualquer trabalhador ganha, em média, neste país. Pena que ainda não se tenham lembrado de fazer o que há uns anos fizeram com o pessoal da CP: Divulgaram publicamente as suas tabelas salariais e as regalias de que gozavam e foi um escândalo.

Blogue da semana

Teresa Ribeiro, 24.10.21

Aprender qualquer coisa. Certamente não é a ler sobre política. Talvez sobre ciência, essa tão maltratada, área de que sabemos tão pouco e de que afinal depende o essencial daquilo a que chamamos futuro. Há na bloga uma mulher que escreve tão bem sobre esses temas. Que escreve bem. Ponto. É a Cristina Nobre Soares. E o blogue em causa chama-se Ciência Clara. Escolho-o hoje para blogue da semana.

Voltar ao metro

Teresa Ribeiro, 27.08.21

Não guio. Como sempre estive convicta de que um dos principais focos de contágio da Covid é nos transportes públicos, defendi-me durante bastante tempo com um esquema de boleias que me resolveu o problema. Mas a dependência cansa e às tantas entendi que já era tempo de regressar à normalidade, até porque tenho um horário flexível, que me permite evitar as horas de ponta.

Quando voltei ao metro, a minha curiosidade concentrou-se no comportamento dos utentes. E constatei mais uma vez que somos um povo obediente e ordeiro. A maioria, quando há espaço que chegue, preocupa-se com o afastamento e usa máscara. Mas claro que há excepções. Em poucas semanas vi gente ao molho, sem necessidade. Magotes a concentrarem-se escusadamente junto às portas, muito antes de o metro entrar nas estações, pessoas sem máscara por estarem a beber, ou a comer, ou porque sim. Tanto que se fala na importância do distanciamento social e muitos, sem pensarem duas vezes, sentam-se nos bancos que ficam costas com costas, de modo a quase tocarem na cabeça uns dos outros.

Nunca me apercebi tanto como agora de que há imensa gente que tem o vício de ocupar o tempo que gasta nas deslocações a falar ao telefone. Numa só carruagem é comum ver várias pessoas nesse trai-lai-lai e facilmente se percebe, porque muitas falam alto, que não se trata de telefonemas inadiáveis.

Não é preciso ser especialista em epidemiologia para perceber que o risco de contágio aumenta com este género de comportamentos, tão fáceis de corrigir. Tanto tempo que se tem gasto em televisão a entrevistar especialistas, tanto que nem os mais pacientes já  os conseguem ouvir, e ninguém se lembrou de encomendar uma campanha, feita de forma simples e divertida, que chame a atenção para a importância dos detalhes na prevenção do contágio?

Ontem não pude evitar um risinho amarelo quando entro numa estação e oiço em fundo a voz de uma funcionária avisar que "a linha verde está com perturbações". Hoje tive a certeza que a velha rotina se tinha instalado na minha vida quando ouvi ao chegar ao metro, a voz de uma funcionária a pedir "desculpa pelo incómodo causado", pois "o tempo de espera na linha azul" podia ser "superior ao normal". 

E claro, escadas rolantes avariadas também existem com fartura. Há coisas que nem com a pandemia mudam...

Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 22.08.21

Da direita à esquerda, ninguém parece acreditar que o dinheiro da bazuca vai ser bem aplicado. Esta unanimidade, a que me junto, diz tudo acerca da confiança que depositamos nos governantes e do nosso atávico mas avisado pessimismo. Falta-nos pensamento mágico para enfrentar a próxima oportunidade perdida com um sorriso.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.