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Tradições

por Teresa Ribeiro, em 09.11.18

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Na China havia, como é sabido, a tradição de enfaixar os pés das meninas desde a mais tenra idade para que não crescessem mais que uns ideais dez centímetros. O sofrimento atroz que resultava da compressão dos ossos e das unhas por forma a impedir o normal crescimento do pé era justificado por motivos estéticos: um pé minúsculo era considerado mais atraente e os passinhos doridos das donzelas, a sublinhar a sua fragilidade, algo de muito erótico. Na  Índia, o costume de queimar vivas as viúvas junto à pira funerária do seu falecido marido (o sati), embora proibido, parece que chegou ao século XXI (há registos de sacrifícios realizados em 2006) nalgumas comunidades hindus. A excisão genital feminina, outra prática bárbara que impende sobre as mulheres, essa está longe de ser erradicada. 

As "tradições" são assim: difíceis de combater. Nem todas refletem o lado mais pérfido dos seres humanos, mas as que o fazem felizmente têm sido pouco a pouco desacreditadas pela civilização, embora - e esse é um traço comum - sob os mais vivos protestos das camadas conservadoras.

Os elos mais fracos - mulheres, crianças, idosos, pessoas doentes - têm sido ao longo dos tempos as vítimas preferenciais de muitos rituais, que sob falsos pretextos mais não fazem do que dar largas à agressividade larvar que faz parte da natureza humana. Mas se no mundo civilizado a que pertencemos a censura social já está perfeitamente estabelecida relativamente a maus tratos infligidos a outros seres humanos, quando se fala de animais, o consenso desaparece. Defender seres que estão abaixo da condição humana é subir mais um patamar civilizacional e isso demora tempo. 

Pessoas e animais não estão no mesmo plano, nem têm os mesmos direitos, mas a discussão não é essa. O que está em causa quando se fala de maus tratos a animais mais do que o sofrimento da vítima é a atitude do flagelador e a complacência que deve ou não existir face à crueldade que manifesta. No fundo é a tolerância relativa ao prazer da carnificina, ao gozo de provocar sofrimento num ser capaz de sentir com todas as fibras do seu corpo a atrocidade a que está a ser sujeito, que se discute. E essa é a questão de fundo da tourada. Algo que os aficcionados pretendem iludir quando falam da "arte do toureio". Mas de eufemismo em eufemismo a que se referem eles, quando elogiam a "festa brava"? À estética. Às chiquelinas, aos pasos dobles, ao confronto estilizado entre homem e besta. A visão crua da realidade, a de que no fundo gozam com a tortura de um bicho, não lhes interessa.

Fossem os toiros robots, as praças ficariam vazias. Porque a festa brava precisa de sangue. Sem sofrimento, sem aquela luta desesperada e inglória do bicho pela sua vida, não seria a mesma coisa.

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Ambiente de trabalho III

por Teresa Ribeiro, em 02.11.18

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As estatísticas sobre a quebra de rendimentos em Portugal, mesmo dos profissionais que têm elevados níveis de formação, são devastadoras. Segundo dados do INE, os licenciados ganham hoje menos 17,7% de salário médio mensal líquido do que há uma década. Anabela Carneiro, uma docente da Faculdade de Economia do Porto, citada há duas semanas pelo Expresso, revelou num estudo que em 2000 tínhamos 8% de trabalhadores a receber o salário mínimo; em 2015 já eram 21% e em 2016, 23,3%.

A comparação com o que se passa nos países da UE, deprime: Segundo os dados mais recentes da consultora Adecco, um português tem de trabalhar quatro meses para ganhar o salário médio de um dinamarquês. Apesar de a economia estar a crescer, a verdade é que os salários não descolam. Para um trabalho que fiz sobre este assunto há poucas semanas, tanto a Experis, empresa de recrutamento do grupo Manpower, como a Randstad, sua concorrente, assumiram que nem mesmo nas áreas altamente especializadas, em que há falta de mão-de-obra em Portugal, os empregadores estão dispostos a abrir os cordões à bolsa. Ou seja, entre nós, a lei da oferta e da procura não funciona. E essa, informaram-me, "é uma originalidade portuguesa".

Mas se há coisa que o empresariado indígena aprecia é mostrar que acompanha as novas tendências. Ultimamente tem revelado muito entusiasmo com uma das ideias que aparece vinculada à nova cultura do trabalho que nasceu com a tecnologia e os millenials: a de que a felicidade no emprego, algo reconhecido como fundamental para aumentar a produtividade, não depende apenas do salário. Entrevistas, artigos de opinião, seminários, andam a enxamear os media com esta ideia que de nova não tem nada, mas que parece que só agora calou fundo no espírito dos empregadores de todo o mundo civilizado. É claro que bom ambiente, reconhecimento, flexibilidade de horários e uma série de pequenas regalias são factores importantes para "reter talento", como agora se usa dizer, mas só fazem sentido se estivermos a discutir a situação de profissionais que auferem um salário que lhes permite pagar as contas e ter uma vida autónoma. Ver gente que prefere prescindir de trabalhadores que fazem falta a aumentar-lhes o salário salivar com esta estratégia é, simplesmente, patético. Excitados com a ideia de poupar mais umas coroas e enganar uns quantos tolos cultivando a imagem de empresários modernaças, não querem perceber o óbvio: que a receber uma miséria ao fim do mês, ninguém é feliz. 

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Ambiente de trabalho II

por Teresa Ribeiro, em 22.10.18

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Creio que tudo começou com a glorificação das chamadas soft skills. Em teoria, um profissional vale mais se, além de conhecimento técnico, revelar qualidades como empatia, iniciativa e dedicação, entre outras tantas características fofinhas. O pior é quando, cientes dessa sobrevalorização, emergem no mercado de trabalho pessoas cujo maior talento é o da capacidade de autopromoção. Conheço gente que faz voluntariado não porque tenha qualquer vocação para tal, mas porque pode fazer a diferença num currículo. Fazer MBAs e pós-graduações tornou-se, por este motivo, um desporto de alta competição, em que a suposta sede de conhecimento não passa de um engodo para potenciais empregadores.

A indústria do "parecer" está pujante, as fake skills em alta. É por isso que a pouco e pouco, em todos os sectores, encontramos os melhores performers em lugares de topo. Há pessoas destas, com funções executivas, que saltam de área em área de actividade, sem possuir os mais elementares conhecimentos relativos às matérias sobre as quais tomam decisões. Por mais hábeis e inteligentes que muitas sejam, é claro que nestas circunstâncias os erros tornam-se inevitáveis.

Há uma incompetência larvar que tem a ver com isto e está a minar todos os sectores e a destruir os mais vulneráveis. 

 

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Jornalismo de referência: o estado da arte

por Teresa Ribeiro, em 19.10.18

Expresso. Edição em papel de 13 de outubro. O título "A reforma que Rio quer fazer em Segredo", desperta-me a curiosidade. Começo a ler. O texto do artigo revela que o PSD entregou aos partidos com assento na AR uma proposta para um pacto de reforma da Justiça. No segundo parágrafo afirma-se que esta iniciativa de Rui Rio "foi considerada estranha por diversos responsáveis  dos partidos" abordados pelo Expresso, "sob condição de anonimato". O jornalista que assina a peça escreve a seguir que "ninguém quis fazer a desfeita de recusar à partida a iniciativa, mas tudo é considerado "insólito", entre outras razões por "partir do pressuposto de que os partidos devessem chegar a acordo sobre a reforma da Justiça".

 

Enquanto leio vem-me à lembrança a quantidade de vezes que ouvi figuras de vários quadrantes políticos defenderem pactos de regime que viabilizassem as reformas estruturais de que o país carece em áreas sensíveis, uma delas a da justiça. Por isso não percebi o que pode ter de insólito uma iniciativa deste tipo. Continuo a ler, já com a percepção clara de que ao texto pretensamente jornalístico subjaz a opinião de quem o assina.

Segue-se um subtítulo que é, em si mesmo, uma opinião: "ideias concretas e princípios vagos". E o jornalista prossegue exprimindo de facto a sua opinião sobre o documento que diz que consultou: "Mistura ideias concretas, algumas originais, com princípios vagos e propostas de temas a debater em que o PSD não revela a sua posição". Diz isto a primeira vez, no final do terceiro parágrafo; a segunda vez , no quinto parágrafo ("a par de ideias concretas também as há bastante vagas - enunciação de princípios ou objectivos sem explicação de como fazê-lo"). Chegada a este ponto pergunto-me: Mas numa proposta para debate de vários itens não basta enunciá-los, ou é preciso detalhar opiniões prévias?

Continuo a ler. No sétimo parágrafo o jornalista repete a crítica: "Há outras questões que o documento do PSD levanta, mas sem definir uma posição". No oitavo parágrafo, lê-se: "...Parece ser uma ideia que o PSD apadrinha, mas não fica claro no documento". Seis linhas depois, o jornalista volta a afirmar que o documento do PSD "não explica". Cinco linhas depois, insiste: "O documento não avança com qualquer análise". E vão seis!

Nessa mesma página, num segundo texto sobre o assunto, assinado pelo mesmo jornalista sublinha-se a mesma ideia: "... Que medidas em concreto? Que tipo de ponderação? O documento não esclarece" (3º parágrafo). No parágrafo seguinte escreve-se: "...o assunto é despachado em pouco mais de cinco linhas, sem qualquer proposta concreta". E no que se segue: "...mais uma vez sem mais pormenor sobre propostas concretas". 

Na secção Gente nesta mesma edição do jornal, das quatro alfinetadas que constam neste espaço, três são para Rui Rio. Finalmente uma nota no editorial faz-me saber que o líder do PSD enviou um email para militantes do partido a acusar o Expresso de publicar mentiras e bla, bla, bla. Fiquei esclarecida. Trata-se mesmo de jornalismo de trincheira. Mas eu que - juro - não sou apoiante de Rio e já agora nem dos passistas, nem dos centristas que também querem fritar o Rio, para ter acesso por 3.80€ a uma resenha das notícias da semana tenho que levar com isto?

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A CP no seu melhor

por Teresa Ribeiro, em 16.10.18

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Linha do Douro. Apanho de manhã o comboio em Ferradosa para seguir até ao Pinhão e mergulho na janela para um banho de beleza inesquecível. Esta linha tem a responsabilidade imensa de revelar ao mundo um dos nossos maiores tesouros paisagísticos. Em termos de interesse turístico, está no top.

Tirei da mochila uma daquelas barritas de cereais com mel, práticas para trazer em viagem. Com o calor estava peganhenta, de modo que quando terminei o meu frugal repasto decidi passar pelos lavabos do comboio para lavar as mãos. Este é o momento em que tenho de me desculpar por não me ter lembrado de voltar para trás, tirar o telemóvel da mochila e fazer uma foto para provar que o que descrevo a seguir é em rigor o cenário que se me deparou mal abri a porta: No chão jazia a tábua da sanita. O rolo de papel higiénico parecia ter sido desenrolado por um gato. A olho diria que estavam dois metros de papel espalhados pelo chão. O cheiro era tão nauseabundo que optei por travar a porta com o pé, para não ter que snifar aquele concentrado de urina em ambiente fechado. Cereja no bolo: água? Não havia.

Note-se que fiz este passeio de manhã, estava o comboio em circulação há um par de horas, se tanto. Por isso nem o argumento da sobrecarga de utentes pode valer à CP uma boa desculpa. Simplesmente vergonhoso! 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 15.10.18

Num país em que os consumidores são a classe mais desprotegida e alvo constante de abusos, o que o jornalista Pedro Andersson faz neste blogue é autêntico serviço público. Por esse motivo escolho o Contas-Poupança para blogue da semana.

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 09.09.18

Optimismo e pessimismo são resultado estatístico. Em regra, as pessoas optam por um ou outro aplicando ao seu histórico o cálculo de probabilidades. A maior ou menor incidência da variável sorte  na sua experiência de  vida determinará a atitude predominante.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Ambiente de trabalho

por Teresa Ribeiro, em 29.08.18

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Lembro-me que demorei séculos a escrever a primeira notícia da minha vida. Tensa, insegura, ensaiei várias versões para começar o texto e não havia meio de me decidir qual a melhor. O meu chefe, numa secretária perto de mim, trabalhava com um ar imperturbável, mas eu percebia que me tinha debaixo de olho. Quase imperceptível descortinava-lhe uma expressão divertida, benevolente.

Parece um quadro de há cem anos, mas não foi assim há tanto tempo que tudo se passava a uma escala humana. Com tempo para aprender e possibilidade de se ser aquilo que se era: alguém a dar os primeiros passos, a quem não se podia exigir tudo, nem sequer muito. Sem pressões, a evolução dos estagiários era um processo natural, que dispensava exibições de carácter, currículos carregados de "skills" e a linguagem performativa que hoje todos os miúdos carrregam na mochila junto com a marmita do almoço.

A avaliação fazia-se, e chumbava quem tinha de chumbar. De entre os que ficavam havia quem se revelasse em pouco tempo e também os que precisavam de amadurecer. Como acontece com os frutos, os vinhos, as couves, enfim tudo o que cresce e se desenvolve na Natureza. E isto - sabia-se - era assim em todas as profissões.

Fomos, na minha geração, os últimos profissionais de cultura biológica.

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 26.08.18

Uma referência na blogosfera, dispensa apresentações: o Aventar é a nossa escolha para blogue da semana.

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 19.08.18

A Maria Sebastião faz o roteiro. Depois, é só seguir com ela. Namorando as fotos, antecipando a visita aos lugares que partilha, num registo por vezes intimista, mas sempre despretensioso, que combina com o Verão. Escrita ao Luar é a minha sugestão para blogue da semana. 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 17.06.18

Cada vez mais cercada por expressões que lhe são alheias e mutilada pelo des'Acordo Ortográfico, a nossa língua já conheceu melhores dias. Mas  neste blogue tem a atenção que merece.

Esta semana, Linguagista é a nossa escolha.

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 10.06.18

A capacidade para ser feliz revela-se cedo na vida, porque resulta de um conjunto de competências que se herdam por via genética e/ou aprendem em idade precoce através do exemplo de pessoas próximas. Nunca é uma escolha. Se fosse, o negócio dos livros de autoajuda seria honesto, a existência de oradores motivacionais justificada e a Psicologia Positiva um assunto sério.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Ganhar projectos na compra

por Teresa Ribeiro, em 30.05.18

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“Os projectos ganham-se na compra, não na venda” – em poucos dias ouvi esta frase, que pelos vistos se tornou chavão, duas vezes. Foi proferida por pessoas distintas. No primeiro caso tratava-se do gestor de uma grande empresa e no segundo de um empresário por conta própria relativamente bem-sucedido. A frase não me era destinada. Na primeira ocasião foi dirigida na minha presença a um jovem empreendedor e num segundo momento ouvi-a a ser debitada numa conversa entre amigos. A expressão é eufemística e significa que o dinheiro ganha-se na fase de concepção do projecto que se quer vender, embaratecendo-o o mais possível, por forma a poder assegurar uma margem de lucro interessante quando se proceder à sua venda. Esmiuçando ainda mais, o que isto quer dizer é que havendo gente implicada na concepção de projectos, para que um empresário ganhe dinheiro é necessário que não tenha escrúpulos em pagar o menos possível à sua equipa.

Usando uma expressão da moda para comentar um pensamento da moda, este é agora o “paradigma” do sucesso empresarial: aproveitar o estado do mercado de trabalho como uma oportunidade para pagar o mínimo aos seus “colaboradores”. É uma regra que está a ser seguida por todos, do pequeno empresário, aos gestores de topo. Se no primeiro caso se percebe a necessidade de contenção financeira, no segundo revela simplesmente um oportunismo do mais rasteiro para nivelar salários por baixo.

Dir-me-ão que é a lei da oferta e da procura a funcionar, mas o argumento cai por terra facilmente. Recentemente um dos responsáveis do Grupo Manpower Portugal disse-me em entrevista que mesmo para contratar profissionais que escasseiam no mercado, os seus clientes procuram baixar a fasquia salarial até ao limite do aceitável e quando recebem negas dos candidatos ainda se ofendem.

A verdade é que a crise criou uma casta de predadores que está a ser responsável pela crescente amoralidade das relações de trabalho, em que se exige tudo (habilitações elevadas, conhecimento de línguas, disponibilidade total) a troco de quase nada.

Soube agora que os enfermeiros de um dos maiores grupos de saúde em Portugal receberam por carta a informação de que vão deixar de receber horas extraordinárias relativas a serviço nocturno e de fins-de-semana. É ilegal, mas faz-se. Também sei, de fonte segura, que em medicina veterinária o pagamento de horas extraordinárias é uma miragem e que há casos em que até as folgas são negadas (nas semanas em que existem feriados). Ilegal, mas faz-se. A lista de casos, em quase todas as áreas, é infindável.

Estamos no clube dos ricos por um capricho da geografia, porque às nossas elites sempre lhes fugiu o pé para esta mediocridade, que vive da exploração mais mesquinha. Portugal apresenta uma das maiores diferenças entre ricos e pobres à escala europeia. Esta típica marca de subdesenvolvimento diz tudo sobre nós.

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 21.05.18

Não se fala de outra coisa, por isso vale a pena acompanhar, por estes dias, o És a Nossa Fé, blogue onde pontuam vários elementos do Delito. É a minha escolha isenta para esta semana, visto que até sou do Benfica.

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Esta submissão

por Teresa Ribeiro, em 16.05.18

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Acabo de ler num desses agregadores de notícias que não desligar da tecnologia tem consequências várias para a saúde, incluindo distúrbios do sono, que por sua vez se reflectem na saúde mental. Não me perturbo. Esse alerta reciclado de outros alertas que fui lendo ao longo do tempo não me deu qualquer novidade. Mas levou-me, isso sim, a reflectir sobre a contradição que observo em muita gente que me rodeia: cada vez são mais os que estão atentos a tudo o que é informação sobre alimentação saudável e exercício físico, adoptando aqui e ali hábitos que poderão travar o colesterol, a diabetes e os efeitos da idade, hábitos que incluem beber em jejum sumos de couve, cenoura e bróculos (!!!) mas fazem orelhas moucas às notícias que nos dão conta dos estragos que o uso incontinente de tecnologia provoca. 

Quando confrontados desculpam-se com o zelo profissional, que os obriga a estar disponíveis 24h, e com o assédio dos amigos das redes sociais, que aguardam feedback. Mas nunca se interrogam verdadeiramente sobre os limites da relação de dependência que desenvolveram para lá do razoável. Porquê esta tão mansa submissão, ó intrépidos bebedores de sumo de couve?!

Será porque ao contrário do que acontece com a alimentação saudável, o exercício físico e - oh! Esqueci-me! - "o pensamento positivo", tomar medidas contra a dependência de tecnologia não está na moda? Será que os nossos hábitos saudáveis tão seriamente discutidos, calibrados e assumidos não passam afinal de tendências Primavera/ Verão, Outono/ Inverno que assimilamos alegremente manietados pelos media? Assim parece.

A tecnologia, como antes aconteceu com o tabaco, está fora do nosso radar quando o assunto é "vida sã em corpo são". Sabe-se que provoca danos a nível psíquico, social e familiar. Pode até falar-se disso na sala. Revirar os olhos, encolher os ombros, suspirar um pouco. Perorar como pais sobre a preocupação que o tema nos provoca também é bem visto, mas daí a fazer contenção de danos, vai um enorme e consistente risinho amarelo e o tal mantra sobre profissionalismo e os amigos virtuais "que não me largam" antes de enfiar a cabeça na areia.

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 06.05.18

 

Depois do caso Manuel Pinho restam-me poucas dúvidas: Portugal transformou-se no Brasil dos Pequeninos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Smartphone é grande!

por Teresa Ribeiro, em 13.04.18

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Todos os dias no metro encontro mulheres, homens, novos, velhos, de olhos postos no ecrã do smartphone. Mesmo quem está acompanhado baixa a cabeça e mergulha nas redes sociais, ou nos jogos, ou no youtube, ou no messenger alheado do que se passa à volta. Visto de fora este ainda me parece um cenário decalcado de um filme de ficção, apesar de ser já uma banalidade do quotidiano. O que me provoca estranheza não é a atitude individual, mas o facto de a ver replicada pela larga maioria das pessoas que ocupam as carruagens. Observada no colectivo remete-nos para a mise en scène religiosa: todos de cabeça baixa, como que em adoração, manietados por algo que os transcende e submete. Na mesma pose, provavelmente com as mesmas motivações. 

O artista polaco Pawel Kuczynski, que assina a imagem que destaquei, fez uma série brilhante de desenhos sobre esta nova religião que professamos. Pode vê-la aqui: https://www.boredpanda.com/satirical-illustrations-polish-pawel-kuczynski/.

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Feminina, não feminista

por Teresa Ribeiro, em 08.03.18

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Sempre que oiço: "Sou feminina, não feminista", pergunto-me o que isso quer dizer. Como por definição "feminista" é quem se afirma a favor dos movimentos pela igualdade de género, devo presumir que as mulheres que fazem esta declaração são contra?

Algumas serão. Em todos os tempos sempre houve mulheres que defenderam convictamente o direito à desigualdade (não confundir com o direito à diferença), ombreando com os homens mais conservadores. Mas acredito que muitas se colocarão em posições intermédias.

Presumo que algumas se afirmam "femininas, não feministas" porque não se identificam com o estereótipo "lésbicas de bigode e pelos nas pernas a queimar soutiens na praça pública". É claro que reduzir as feministas a este velho cliché é alinhar com os que o consagraram com o único objectivo de descredibilizar as suas causas, cobrindo-as de ridículo. Terão estas senhoras a noção disso?

Outra interpretação possível para a frase "Sou feminina, não feminista" é querer com isso dizer que não se tem perfil de activista. Mas neste caso quem o fizer labora num equívoco, porque uma mulher que se afirme defensora das causas feministas, não tem de ser necessariamente uma activista, além de que, last but not least, opõe feminilidade a feminismo, como se os termos se excluíssem.

Mas ainda há a considerar a categoria de mulheres que adopta este chavão para transmitir a ideia de que o termo feminismo não lhes interessa porque não lhes diz respeito, pois nada acrescenta ao seu nível e estilo de vida, que por sinal inclui, sem complexos, muitas ociosidades e futilidades de princesa. Esta é a versão provocatória, a afirmação descomplexada de valores contra o politicamente correcto, que coloca a defesa dos direitos humanos acima de todos os egoísmos.

Dispensarão estas senhoras dois minutos de reflexão sobre o tema da violência contra as mulheres? Talvez no dia 8 de Março, quando ritualmente os noticiários se enchem deste tipo de informação. Ou então, nem isso, porque provavelmente pensam que o tema só interessa às feministas, "a essas mulheres frustradas, sem auto-estima, que não devem ter sucesso nenhum com os homens, por isso os odeiam. Sim, porque todas as feministas odeiam os homens" (fim de cassete). As que pensam assim e se afirmam respeitadas, admiradas, valorizadas e bem-sucedidas, essas o que adoram mesmo é sentar-se, de perna traçada, em cima dos direitos que outras, antes delas, tiveram de conquistar e gozar a vida dentro da sua bolha cor-de-rosa. 

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Os lugares, como as pessoas

por Teresa Ribeiro, em 06.03.18

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Perto da zona onde trabalhei até há poucos dias existem dois ou três lugares que me encantam, mas que enquanto me foram acessíveis afastei metodicamente do espírito nas pausas do almoço e do café. Agora que estou longe, apetecem-me como nunca e a falta que me fazem é a que não sentia quando os tinha a poucos metros de mim. Quando os "tinha". O verbo é esse. Bastava senti--los ao meu alcance para os ter, por isso os visitava tão pouco.

Com as pessoas que nos estão mais próximas passa-se o mesmo. Enquanto são lugares acessíveis por vezes evitamo-las, saciados que estamos da certeza de estarem sempre disponíveis para nós. Quando as perdemos é que percebemos o quanto as desperdiçámos.

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 04.03.18

Esta semana, os termómetros de algumas cidades europeias desceram abaixo das temperaturas que se se registam por estes dias em certas zonas do Pólo Norte. À medida que o tempo passa, as notícias sobre fenómenos climáticos excepcionais sucedem-se, com mais frequência. Em Portugal - há muito que os ambientalistas avisaram - estas alterações começam a afectar-nos de forma alarmante.

Nunca fui de meter a cabeça na areia em relação às questões relativas à sustentabilidade do planeta. Quero saber, e colaborar na medida do possível, por isso procuro manter-me informada, multiplicar as minhas fontes. Esta, onde colaboram investigadores do ICS, é uma das que gosto de visitar. É o nosso blogue da semana. 

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Só com um pano encharcado

por Teresa Ribeiro, em 13.01.18

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Sei dizer exactamente com que idade fui assediada pela primeira vez na rua. Tinha dez anos. Foi com essa idade que passei a ir sozinha para a escola, andava então na 4ª classe. No caminho tinha de passar por uma garagem e como era hora de almoço, apanhava sempre a mesma trupe a lagartear no passeio. Diariamente ouvia as piores ordinarices enquanto amedrontada apressava o passo, olhos no chão e coração a bater. Quando, décadas depois, comecei a notar que era menos assediada, estranhei. Será que afinal até gostava daquelas palavras gelatinosas que me chocavam em idade púbere? Ou das ordinarices que me enojavam quando, mais velha e expedita, já podia contabilizar anos de assédio de rua? Não. As mulheres não gostam de assédio, o que não apreciam é o que significa deixarem de ser assediadas. É da natureza humana (e não exclusivo da feminina) estabelecer associações complexas de causa-efeito. Deixar de ser assediada na rua é um dos muitos sinais que revelam a uma mulher que está a envelhecer e é isso que incomoda.

Quando, aos 12 anos, comecei a andar sozinha nos transportes públicos, a minha mãe disse-me: "Se um homem se encostar a ti, pisa-o com toda a força. É remédio santo". Também ela tinha ouvido esse conselho da minha avó e muitos anos depois foi a minha vez de o passar à minha filha (ao meu filho, como é óbvio, nunca precisei de fazer tais recomendações).

Sim, há uma corrente defensiva que se estabelece entre gerações de mulheres. Como poderia não haver, se vivemos num mundo que estigmatiza o sexo feminino? E porque são estas as circunstâncias de todas, repito, todas as mulheres (mesmo as que juram, enquanto lhes cresce o nariz, que nunca foram assediadas, na rua, no trabalho, em circunstância alguma, querendo com esse depoimento colocar-se acima de todas as outras parvas que se queixam "e que se calhar puseram-se a jeito, consentem, no íntimo gostam", mimetizando o discurso mais machista) espanta-me a pressa com que tantas correm em defesa dos homens, como se fossem eles as grandes vítimas da sociedade.

Quando se geram movimentos como o de Hollywood, logo aparecem as guardiãs do statuo quo a apontar a dedo os fundamentalismos que inevitavelmente surgem por arrasto, confundindo razões justas com folclore, conceitos como assédio e galanteio, relações sexuais consentidas com violação. Mais misóginas que os misóginos, colocam-se orgulhosamente à margem das causas femininas. E eu ao vê-las, lê-las e ouvi-las só penso no trabalho que foi para as sufragistas porem as mulheres a votar e o que custou às "fufas das líderes dos movimentos feministas" conseguir que as novas gerações de mulheres fossem tratadas como gente. Francamente, só com um pano encharcado!

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Olá, dia 2!

por Teresa Ribeiro, em 02.01.18

Gosto dos dias despretensiosos, sem agenda. Daqueles que se deixam liderar com a doçura dos humildes.

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Velhos? Só os novos!

por Teresa Ribeiro, em 21.12.17

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- Fazes quantos anos?

A aniversariante respondeu, com voz sumida, quase envergonhada: "27". Família e amigos, percebendo o desconforto, começaram com as piadas  de circunstância: "Já só faltam 3!". E riam, enquanto espetavam os dedos.

A cena aconteceu há dias, mas nada tem de invulgar. Oficialmente deixa-se de ser jovem aos 25 e a cultura instalada sobrevaloriza tanto a juventude, que ninguém quer deixar essa zona de conforto. Mas experimente alguém, que já passou os 45, mostrar-se incomodado com o envelhecimento. Caem-lhe logo em cima, com clichés como  "o que interessa é manter o espírito jovem", ou "a vida começa aos 40".

Acho normal que não se goste de perder as formas, nem o contorno das linhas do rosto e ainda mais natural reagir com desconforto ao aparecimento de dores de costas, insónias ocasionais, enfim, os achaques que nos lembram que nunca se escapa impune à passagem dos anos. Mas lamentar a perda da figura em que nos reconhecemos durante a vida inteira e a falta de vigor que o envelhecimento implica, agora é tabu.

Comentar algo do género é habilitarmo-nos a sessões espontâneas de aconselhamento psicológico, a diagnósticos sumários de depressão e a toda uma série de equívocos que o melhor mesmo é não arriscar, ou então alinhar no discurso que não por acaso agora faz escola e que é o do elogio do envelhecimento feito por "raparigas" de meia idade.

O que elas dizem? Invariavelmente que se sentem jovens, pois não se reconhecem na idade que têm. Ou seja, mudam de assunto: para contornarem a parte incómoda da questão, a da indesmentível degradação física e respectivo desconforto,  falam da discrepância entre o ritmo de envelhecimento do corpo, que é mais rápido, e o do espírito. E fazem-no como se essa não fosse a regra que se aplica a toda a gente. 

Manobras de diversão à parte,  a verdade é que a mesma sociedade que leva jovens a sentirem-se absurdamente velhos, impõe aos que já começam a sê-lo a lei da rolha. Como se o envelhecimento fosse uma falta demasiado grave, para ser discutida sem filtros, à frente dos outros.

 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 03.12.17

Quem gosta de livros, decerto apreciará uma visita ao Diário de Leituras. A minha escolha para blogue da semana.

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 18.11.17

A felicidade é frequentemente presunçosa. Presume demasiadas vezes que o bem que tem é uma questão de mérito, desvalorizando os factores aleatórios que o favoreceram. Ao mesmo tempo julga negativamente a infelicidade dos outros, procurando associá-la a questões de competência.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Vi ontem à noite, na rubrica "Repórter TVI", da TVI, uma excelente reportagem assinada pela jornalista Ana Leal sobre incêndios florestais onde, entre outras coisas, se fala do negócio ruinoso dos Kamov, os seis helicópteros russos que foram comprados em 2006 pelo Estado português, e dos objectos incendiários que caem do céu.

Toda a visibilidade que se possa dar a este trabalho de investigação é pouca. Porque é importante fundamentarmos as nossas opiniões em factos e ainda mais importante que os factos que fundamentam as nossas opiniões não sejam esquecidos. Inscrevê-los na memória colectiva é um acto de cidadania. 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 30.10.17

Eles insistem na ideia de que "Escrever é Triste", mas a verdade é que quando os leio, só me dão alegrias. Porque além de saberem pensar, descrevem-no com uma elegância que só eles. São a minha escolha para Blogue da Semana.

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Cinco perguntas

por Teresa Ribeiro, em 19.10.17

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Sei, à força de assistir a tantas entrevistas e debates pós-incêndios, em linhas gerais, quais são as medidas estruturais que os especialistas da área florestal aconselham. Se eu sei, quem ao longo das últimas décadas ocupou os cargos que têm sob a sua alçada as florestas, por força há-de saber, e com detalhe, tudo o que é preciso para avançar com reformas.

Por isso o ponto não é "o que se deve fazer", mas por que nunca ninguém fez? Nem governos PS, nem governos PSD. No vício de tratar da coisa pública sempre sob a lógica partidária, já houve quem fizesse as contas aos anos que cada um destes partidos foi poder, para diluir culpas ao locatário com menos tempo de permanência, no caso o PSD. 

Sobre a indignação da ex-ministra da Agricultura e Ordenamento, também conhecida como "ministra do eucalipto", também se fez fogo cruzado, pois as pessoas que vêem os incêndios pela televisão têm facilidade em relativizar tudo e enviesar a óptica para o lado que lhes convém. Pessoalmente confesso que incomoda-me ver quem não tem nada para contar sobre o que fez pelo país em matéria de prevenção e combate a fogos rasgar as vestes em público.

Mas perante esta tragédia o que menos me interessa é o espectáculo da digladiação partidária. O que eu queria saber era quem ganha com os incêndios? Quem são? Quantos são? E já agora, por que a criminalidade associada aos fogos é tema que fenece tão facilmente no discurso dos políticos, sejam oposição ou governo?

Subscrevo TODAS as críticas que se fizeram ao governo e senti-me bem representada pelo discurso do PR. Mas parece-me óbvio que mais de 500 incêndios num dia não se explicam com as alterações climáticas e muito menos com a incúria da população rural. No tempo da outra senhora, quando o país não ardia assim, porque as florestas eram bem administradas, já o povo fazia queimadas e havia fogos de artifício.

Os espanhóis falaram de terrorismo a propósito dos fogos. Eles de facto são lestos a chamar os bois pelos nomes. Nós por cá é mais foguetório parlamentar. E a eterna teia de interesses e cumplicidades que submete o país a uma gestão incompetente. Por estes dias, Helena Freitas ex-deputada, bióloga e professora da Universidade de Coimbra, disse à Lusa que "o território foi abandonado por todos os governos", e que além do mais "os ministérios têm dificuldade em interagir", algo que compromete qualquer reforma. Li-a e pensei: "É isto!" Qualquer alma que tenha passado por um governo e pela máquina do Estado sabe que é isto que nos tolhe.

Há dias o Miguel Sousa Tavares dizia na SICN que se calhar somos um Estado falhado. A frase não me saiu da cabeça.

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 24.09.17

Confesso que esta é a única barbearia onde me sinto bem. Por isso é que a frequento há tantos anos. 

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Famílias fora de prazo

por Teresa Ribeiro, em 21.09.17

 

 

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Num país onde o desemprego atinge sobretudo os maiores de 50 e os que procuram o primeiro emprego, os casos de pais desempregados a coabitar com filhos adultos que ainda não entraram no mercado de trabalho aumentaram exponencialmente. Mesmo assim o fisco, quando os descendentes chegam aos 25 anos, não perdoa e declara-os... independentes.

Quando tanto se fala de apoio à família, esta realidade é varrida para debaixo do tapete. Maior de 25 que viva à custa dos pais é uma não-pessoa. Não conta para o agregado familiar, nem pode apresentar despesas para incluir no IRS dos pais. A regra já existia, mas ao contrário de outras que também existiam e já foram mudadas, nesta não tocaram nem com uma flor.  Era o mínimo a conceder às famílias que se tornaram disfuncionais em consequência do esbulho fiscal e destruição de emprego. 

 

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É um mistério!

por Teresa Ribeiro, em 19.09.17

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Não é de agora, nos últimos anos observo o mesmo, nos mais variados sectores de actividade. As pessoas com mais de 50 anos parecem ter desaparecido do mapa. Muitas estarão desempregadas, ou com pré-reformas, mas por mais elevada que seja a percentagem dos que se encontram fora do mercado de trabalho, não explica esta ausência de cabelos brancos nas empresas. Aos 50 anos está-se ainda longe da idade da reforma, além de que o país está a envelhecer, portanto a percentagem de população activa dentro desta faixa etária só pode ser elevada.

Quando não havia tanto desequilíbrio populacional entre velhos e novos não se observava isto. É estranho. Onde estão eles? No front office é que não, claro está, mas mesmo nas fileiras mais discretas onde pára esta geração, porventura a mais invisível de sempre?!

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Esse irresistível sentimento colectivo...

por Teresa Ribeiro, em 29.08.17

O caso dos livros da Porto Editora chamou mais uma vez a atenção para o fenómeno do pensamento de manada, que as redes sociais vieram instituir quase como pensamento único e a que desgraçadamente nem os profissionais da Comunicação Social escapam. 

Sempre que acontece uma história assim pergunto-me por que é que pessoas reconhecidamente inteligentes se deixam enredar tão facilmente, precipitando-se a replicar as opiniões que circulam. O mesmo acontece na política, onde encontro tantos que apesar de não terem interesses ou carreiras a defender nesse sector, não hesitam em apoiar acriticamente os líderes partidários da sua simpatia. 

E a resposta que encontro é sempre a mesma: Porque o pensamento independente priva-as de tudo o que é bom no pensamento "clubístico". Dessa componente lúdica não querem prescindir, nem mesmo em nome das causas mais nobres. 

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Padronizados como nunca

por Teresa Ribeiro, em 23.08.17

Espero num lobby de uma torre de escritórios. À minha frente também esperam três raparigas que, não se conhecendo entre si, parecem coreografadas. Todas seguram o telemóvel, todas com unhas de gel, todas com pestanas postiças, todas com pernas traçadas, cabelos compridos e lisos e dentro da mesma faixa etária. Uma das portas do lobby dá para um gueto de fumadores onde de momento só se avistam homens e então reparo neles. Também com idades aproximadas, em grupos ou separados apresentam-se com fatos semelhantes, os mesmos modelos de sapatos, a mesma barba aparada. É certo que a moda masculina é mais monótona, mas talvez porque todo este cenário é enquadrado por tecnologia (eles também olham obsessivamente para o telemóvel enquanto fumam), ou porque falta um toque de humanidade em tudo isto, parece que estou a vê-los através de um ecrã. 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 20.08.17

Prosa, poesia, qualquer coisa que fica entre os dois... o estilo é livre, como livres são os pensamentos que levam Luiz Robalo até aos temas mais diversos. Pode ser actualidade, pode ser um devaneio, tanto faz. Gosto sempre de o ler no Redondo Vocábulo, o nosso blogue da semana. 

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Menos política, mais cidadania

por Teresa Ribeiro, em 28.07.17

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Quando está em jogo algo realmente sério, algo tão sério como a nossa floresta, a coreografia política com os seus líderes e os seus rebanhos revela de imediato gente que está mais empenhada nas guerrilhas partidárias do que em tudo o resto. Gente cuja manifestação pública mais parece um aproveitamento da desgraça alheia do que um honesto empenhamento cívico.

É evidente que é a quem está no governo que devemos pedir responsabilidades em primeira instância, mas não é sério apontar os políticos que estão no turno de serviço como os responsáveis por tudo o que está a acontecer neste Verão. Quando vejo na televisão, à beira de um ataque de nervos, pessoas que representam os partidos que tiveram responsabilidades em anteriores executivos indignadas com a ausência de uma política florestal, fico com a certeza de que assim não se vai lá. Simplesmente porque estamos nas mãos de gente que por uma boa refrega política está disposta a sacrificar a decência e a seriedade que este assunto exige. Gente a quem sobra ardor político e falta uma verdadeira cultura de cidadania.  

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Eduardo Lourenço e os astros

por Teresa Ribeiro, em 20.07.17

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Leio a mais recente entrevista de Eduardo Lourenço ao Expresso. Às tantas ele diz isto: «Pertenço àquela raça de pessoas que quereria estar ao mesmo tempo entre coisas diferentes.» E isto: «Fui mais vivido do que vivi as minhas escolhas. Queria estar 'entre' e não 'em'.» Não sou entendida em signos astrológicos, mas os meus conhecimentos rudimentares levaram-me a pensar, de imediato: "Só um nativo de Gémeos poderia falar assim." Fui ver ao Google e acertei na mouche: nascido a 23 de Maio! Lembrei-me de Pessoa, outro que gostava de estar "entre", outro que só podia ser Gémeos e que não por acaso um dia escreveu: «Sou, entre mim e mim, o intervalo.»

Ainda dizem que a astrologia é uma treta!

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Diz que vem aí nova bolha imobiliária

por Teresa Ribeiro, em 14.07.17

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Ouvi esta conversa e não estranhei. Os sinais estão aí: preços das rendas a subir, o que leva, como no passado recente, muita gente a considerar que mais vale comprar casa, e a confiança dos consumidores a aumentar, em resultado de um optimismo que nasce mais da necessidade de acreditar que há futuro do que do efectivo melhoramento das suas condições de vida.

O caldo já está ao lume, por isso o jovem dado à especulação imobiliária, que há dias comentava este assunto, esfrega as mãos de contente. As oportunidades estão aí para quem estiver atento. Venda-se agora ao melhor preço para depois voltar a comprar os despojos dos que, movidos pelo desejo de ter uma vida, se vão estatelar ao comprido, mais cedo do que tarde.

Tic, tac, tic, tac... 2008 não foi assim há tanto tempo, mas o relógio biológico do sistema neo-canibal nunca pára.

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Inércia e lágrimas de crocodilo

por Teresa Ribeiro, em 19.06.17

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Ontem, ao ouvir Marcelo Rebelo de Sousa, às 20.30 nas televisões falar da "dor sem medida" e da solidariedade para com as vítimas e elogiar o esforço de quem está no terreno e alertar para a necessidade de seguir em frente, lembrei-me imediatamente do seu discurso por ocasião dos incêndios que o ano passado varreram a Madeira. No essencial os termos da sua comunicação ao país foram os mesmos. Então cinicamente, enquanto estabelecia esta relação, pensei que o melhor seria ele guardar o discurso no bolso, pois para a próxima sempre pouparia tempo.

Na véspera, Luís Marques Mendes, no seu comentário dos sábados na SIC, em tom de ralhete dizia que tinha sido um crime contra o país acabar com os serviços florestais e com a rede de guardas florestais e ter-se afastado da liderança da gestão e defesa da floresta os engenheiros florestais, cujo conhecimento técnico faria a diferença na prevenção e combate aos fogos.

Registei estes dois momentos com a raiva de sempre. Porque sei que esta gente que vem à TV verter lágrimas e pérolas de conhecimento sabe o que é preciso fazer há décadas. Sabe a partir de quando os fogos começaram a devorar o país e porquê. E não mexe uma palha!

De ano para ano é sempre a mesma ladainha. Anunciam, eventualmente, mais verbas para reforçar os meios de combate aos fogos - uma boa notícia para quem ganha dinheiro com esse negócio - e daí não passam. Quando o que é preciso é investir em prevenção. 

Sim, foi quando se desmantelaram os serviços florestais, se apearam os engenheiros da especialidade e se acabou com os guardas florestais que tudo começou. Assisti à escalada destas catástrofes pelos olhos do meu pai, que trabalhou na área e sofreu intensamente com todo este descalabro.

A primeira causa dos incêndios em Portugal chama-se inércia. Só a persistente ausência de uma política para as florestas explica que o ano passado tivessem ocorrido no país mais  fogos do que em Espanha, França, Itália e Grécia juntos, um padrão que já em 2005 se tinha registado! Só esta criminosa  letargia justifica que em Portugal existam dez vezes mais ignições por habitante do que em qualquer outro país europeu!

Para a próxima, quando decretarem luto nacional, não se esqueçam também de pintar a vossa douta cara de preto.

 

https://jpn.up.pt/2005/08/10/portugal-na-lista-negra-dos-fogos-florestais/ 

 

https://www.publico.pt/sociedade/jornal/em-2005-ardeu-em-portugal-mais-area-que--em-espanha-franca-italia-e-grecia-juntas-87137

 

http://observador.pt/2014/09/22/em-portugal-ardeu-em-2013-metade-da-area-da-europa-em-fogos-florestais/

 

http://www.tsf.pt/portugal/interior/portugal-foi-responsavel-em-2013-por-metade-da-area-ardida-na-uniao-europeia-4138183.html?id=4138183

 

http://www.sabado.pt/vida/imprimir/portugal-entre-os-paises-com-mais-incendios

 

http://www.jn.pt/nacional/interior/amp/ha-mais-incendios-em-portugal-do-que-noutros-paises-da-europa-4550078.html

 

http://www.cmjornal.pt/portugal/imprimir/um-terco-do-pais-destruido-por-fogo

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Afinal, o que se passa com o Metro?

por Teresa Ribeiro, em 01.06.17

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Sempre que passo nas escadarias rolantes da estação Baixa-Chiado e sou barrada a meio do percurso por baias a anunciar trabalhos de manutenção, lembro-me do suplício que era trepar aqueles degraus, às vezes em dias de pressa, quase diariamente. Durante dois anos, entre 1999 e 2001, foi essa a minha pena, só porque tive a desdita de trabalhar ali perto. Passados mais de 15 anos é extraordinário como a situação se mantém. 

O Metro sempre foi isto. Uma relação desigual e displicente com os utentes. Mas agora temos também as avarias nas linhas. Todos os dias! Intriga-me. Durante décadas uma avaria era uma situação de excepção, nos tempos que correm tornou-se rotina. Ainda esta semana houve em dias seguidos avaria na linha amarela "devido a problemas na sinalização". Se é o que imagino, pode ser grave. Começo a perguntar-me se é seguro andar de metro. E a pensar que já era tempo de exigir à empresa explicações públicas sobre a razão de ser de tanta anomalia. 

Na "cadeia alimentar" deste país os consumidores sempre estiveram ao nível mais rasteiro, mas já era tempo de mudar esta cultura, tão cómoda para as autoridades, tão conveniente para as empresas.

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A mercearia reabriu

por Teresa Ribeiro, em 30.05.17

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Depois de uns dias fechada, com uma cruz na porta, a pequena mercearia reabriu, com os mesmos caixotes de fruta no passeio. Tudo igual, excepto a roupa da velhota, antes indistinta, agora uma mancha negra a assombrar pêssegos e limões. Ela e o marido, em guerrilha permanente, eram tema de piadas no bairro. As quezílias diárias deixavam-lhe o olhar velado, carregado de azedume e a ele uma expressão de enfado impossível de disfarçar. Para o cenário trivial de uma mercearia de bairro era drama em excesso, daí ter tanta graça aquele desconcerto a dois. 

O azedume dos olhos dela, por estes dias, desfez-se em tristeza. Todos comentam que de repente ficou uma sombra da mulher que foi. Amar um traste pode ter-lhe envenenado a vida, mas amar um desertor está a matá-la de vez.

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 13.05.17

O Facebook dá-nos uma experiência holística (cruza amigos do passado, amigos do presente e amigos desconhecidos, quem sabe do futuro) e mística, porque dá-nos palco, seguidores e um sentido para a vida. Não admira que se tenha tornado uma religião.

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

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Lai, lai, lai

por Teresa Ribeiro, em 10.05.17

 

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É sempre a mesma lamúria. E cada ano começa mais cedo. O secretário de Estado da Administração Interna já veio a público anunciar que a área do País ardida desde Janeiro é 12 vezes maior que em período homólogo do ano passado. Dito isto, anunciou investimento em mais meios de combate aos incêndios. Os tais que aumentam à medida que aumentam os fogos (não deveria acontecer o contrário?) 

Mas o que fica por explicar é porque há países que ardem e países que não ardem. Porquê, senhor secretário de Estado?!

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 30.04.17

São veteranos da bloga. Donos de uma opinião que nos chega consistente, acompanham tudo o que de relevante se passa na pólis. Nem sempre estou de acordo com os pontos de vista dos seus autores, mas mesmo quando é esse o caso nunca dou por perdido o meu tempo, até porque não gosto de monolitismo. Recomendo a leitura de Ladrões de Bicicletas, o blogue desta semana. 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 16.04.17

Sigo Joana Carvalho Dias há muitos anos. Como blogger já teve várias encarnações, mas a elegância da sua escrita mantém-se como denominador comum. Em "O Rapaz da Camisola Verde" encontro essa mistura fina de suavidade e assertividade que me fidelizou como sua leitora. O Rapaz da Camisola Verde: escolho-o para blogue da semana.

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Santa Páscoa!

por Teresa Ribeiro, em 15.04.17

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Dedico este post aos católicos que são assim, como a criatura de Deus que aparece na foto, quando vêm à discussão assuntos polémicos sobre a sua Igreja e que rilham os dentes quando lhes falam do seu Papa Francisco,"esse 'comuna' que só veio desestabilizar".

Em tempo de Páscoa, por favor meditem nas palavras do padre Anselmo Borges, que transcrevo a partir da entrevista que deu ao Expresso, para esta última edição, e cuja leitura integral recomendo:

"É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima"; "A Igreja é misógina"; "A Igreja não pode impor como lei aquilo que Jesus entregou à liberdade. É preciso acabar com as vidas duplas" (a propósito do celibato obrigatório dos padres); "A hierarquia vive na ostentação e não se bate pelos direitos humanos"; "Este Papa é um cristão no sentido mais radical, não é apenas baptizado, ele segue Jesus". 

São críticas velhas, mas quando vêm de um homem da ICAR com a sua envergadura intelectual, têm outro valor.

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 13.03.17

No "Redondo Vocábulo", Luiz Robalo escreve com elegância, portanto podemos dizer que com curvas. Mas é também assertivo quando opina. Nesse sentido nada do que diz é redondo neste seu Redondo Vocábulo. É a minha escolha para blogue da semana.

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Quotas para que vos quero

por Teresa Ribeiro, em 08.03.17

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Quotas. É uma polémica recorrente, mesmo entre mulheres, portanto muito apropriada para assinalar este dia. Durante alguns anos fui sensível ao argumento de que o estabelecimento de quotas para mulheres as inferiorizava, mas depois as estatísticas entraram em diálogo comigo e falaram mais alto. Sim, felizmente há mulheres que chegam ao topo sem que para tal tenham sido empurradas por quotas. A ascensão feita assim é o que está certo. Sem equívocos, nem margem para dúvidas quanto a mérito e competência. Mas a realidade diz-nos que estas situações são de excepção. Basta consultar as primeiras páginas dos jornais de hoje para perceber qual o estado da arte: "Mulheres têm menos chances de ter bom emprego", diz o Público; "Na UE uma em cada três posições de gestão é ocupada por mulheres", noticia o I; "G20 - grupo dos poderosos só tem Merkel e May" e "PSI 20 - quatro empresas sem nenhuma administradora", anuncia o DN.

No entanto sabe-se que as mulheres estão em maioria entre os que terminam licenciaturas e que apresentam mais qualificações. E que é assim em Portugal e no mundo. Como se explica isto? Recorrendo ao primado bíblico "a culpa é delas"?

Deveremos então concluir que este enorme contingente, que não consegue subir na carreira de acordo com as suas competências e no limite franquear as portas do poder é todo desprovido de "soft skills", como agora se usa dizer? Ou o que lhes falta é - vamos lá a chamar os bois pelos nomes - tão somente algo que a Natureza não lhes deu: o sexo adequado para alcançar o topo?

Quando não existe mais nada, o que nos resta é o pragmatismo. E é por isso que me tornei a favor das quotas. Se não vai a bem, vai a mal. Porque sem quotas bem podem as mulheres esperar sentadas por oportunidades e reconhecimento iguais.

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 25.02.17

Em defesa de Centeno há que reconhecer que a solução que ele encontrou para convencer António Domingues a ir para a CGD foi muito fora da caixa.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Um olhar sobre a deriva feminina

por Teresa Ribeiro, em 20.02.17

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 Mulheres do Século XX 

****

Justamente nomeada para os globos de ouro, em "Mulheres do século XX" , de Mike Mills (também autor do argumento), Annette Bening dá-nos um retrato pungente do desamparo feminino ao encarnar Dorothea Fields, uma mulher madura e emancipada, mãe de um adolescente que cresceu só com ela e que, como a maioria dos adolescentes, a subavalia com crueldade e ligeireza.

Trata-se de um drama familiar banal, já vimos centenas, se não milhares no celulóide, mas rodado com uma frescura surpreendente. Gosto das acelerações de imagens em cores psicadélicas de Mills, das narrativas na primeira pessoa dos protagonistas, das bios das diferentes personagens apresentadas em esboço e depois a encaixar como um puzzle na história que as juntou. Esta construção, nada naturalista, liberta-nos, pois evita que nos transportemos para dentro do filme.

Há filmes para ver e filmes para mergulhar. Este é dos que nos conservam à janela, simples voyeurs de vidas que de alguma forma já observámos a correr em pista, mesmo ao nosso lado.

Não sendo o filme do ano, "Mulheres do Século XX" (no original, "20th Century Women"), nomeado para os globos de ouro também na categoria de melhor filme de comédia ou musical e para os oscares na categoria de melhor argumento original,  é uma experiência que nos convoca a ternura e a ironia a propósito de um tema inesgotável, o das mulheres a abrir caminho num mundo que não foi feito à sua medida.

 

Realizador: Mike Mills

Actores: Annette Bening, Elle Fanning, Greta Gerwig

EUA, 2016

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 06.02.17

Arte, fotografia, design e desapontamento são tópicos que me interessam, por isso sempre que vou ao This isn't happiness não dou o meu tempo por perdido. É o nosso blogue da semana.

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