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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 21.05.18

Não se fala de outra coisa, por isso vale a pena acompanhar, por estes dias, o És a Nossa Fé, blogue onde pontuam vários elementos do Delito. É a minha escolha isenta para esta semana, visto que até sou do Benfica.

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Esta submissão

por Teresa Ribeiro, em 16.05.18

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Acabo de ler num desses agregadores de notícias que não desligar da tecnologia tem consequências várias para a saúde, incluindo distúrbios do sono, que por sua vez se reflectem na saúde mental. Não me perturbo. Esse alerta reciclado de outros alertas que fui lendo ao longo do tempo não me deu qualquer novidade. Mas levou-me, isso sim, a reflectir sobre a contradição que observo em muita gente que me rodeia: cada vez são mais os que estão atentos a tudo o que é informação sobre alimentação saudável e exercício físico, adoptando aqui e ali hábitos que poderão travar o colesterol, a diabetes e os efeitos da idade, hábitos que incluem beber em jejum sumos de couve, cenoura e bróculos (!!!) mas fazem orelhas moucas às notícias que nos dão conta dos estragos que o uso incontinente de tecnologia provoca. 

Quando confrontados desculpam-se com o zelo profissional, que os obriga a estar disponíveis 24h, e com o assédio dos amigos das redes sociais, que aguardam feedback. Mas nunca se interrogam verdadeiramente sobre os limites da relação de dependência que desenvolveram para lá do razoável. Porquê esta tão mansa submissão, ó intrépidos bebedores de sumo de couve?!

Será porque ao contrário do que acontece com a alimentação saudável, o exercício físico e - oh! Esqueci-me! - "o pensamento positivo", tomar medidas contra a dependência de tecnologia não está na moda? Será que os nossos hábitos saudáveis tão seriamente discutidos, calibrados e assumidos não passam afinal de tendências Primavera/ Verão, Outono/ Inverno que assimilamos alegremente manietados pelos media? Assim parece.

A tecnologia, como antes aconteceu com o tabaco, está fora do nosso radar quando o assunto é "vida sã em corpo são". Sabe-se que provoca danos a nível psíquico, social e familiar. Pode até falar-se disso na sala. Revirar os olhos, encolher os ombros, suspirar um pouco. Perorar como pais sobre a preocupação que o tema nos provoca também é bem visto, mas daí a fazer contenção de danos, vai um enorme e consistente risinho amarelo e o tal mantra sobre profissionalismo e os amigos virtuais "que não me largam" antes de enfiar a cabeça na areia.

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 06.05.18

 

Depois do caso Manuel Pinho restam-me poucas dúvidas: Portugal transformou-se no Brasil dos Pequeninos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Smartphone é grande!

por Teresa Ribeiro, em 13.04.18

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Todos os dias no metro encontro mulheres, homens, novos, velhos, de olhos postos no ecrã do smartphone. Mesmo quem está acompanhado baixa a cabeça e mergulha nas redes sociais, ou nos jogos, ou no youtube, ou no messenger alheado do que se passa à volta. Visto de fora este ainda me parece um cenário decalcado de um filme de ficção, apesar de ser já uma banalidade do quotidiano. O que me provoca estranheza não é a atitude individual, mas o facto de a ver replicada pela larga maioria das pessoas que ocupam as carruagens. Observada no colectivo remete-nos para a mise en scène religiosa: todos de cabeça baixa, como que em adoração, manietados por algo que os transcende e submete. Na mesma pose, provavelmente com as mesmas motivações. 

O artista polaco Pawel Kuczynski, que assina a imagem que destaquei, fez uma série brilhante de desenhos sobre esta nova religião que professamos. Pode vê-la aqui: https://www.boredpanda.com/satirical-illustrations-polish-pawel-kuczynski/.

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Feminina, não feminista

por Teresa Ribeiro, em 08.03.18

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Sempre que oiço: "Sou feminina, não feminista", pergunto-me o que isso quer dizer. Como por definição "feminista" é quem se afirma a favor dos movimentos pela igualdade de género, devo presumir que as mulheres que fazem esta declaração são contra?

Algumas serão. Em todos os tempos sempre houve mulheres que defenderam convictamente o direito à desigualdade (não confundir com o direito à diferença), ombreando com os homens mais conservadores. Mas acredito que muitas se colocarão em posições intermédias.

Presumo que algumas se afirmam "femininas, não feministas" porque não se identificam com o estereótipo "lésbicas de bigode e pelos nas pernas a queimar soutiens na praça pública". É claro que reduzir as feministas a este velho cliché é alinhar com os que o consagraram com o único objectivo de descredibilizar as suas causas, cobrindo-as de ridículo. Terão estas senhoras a noção disso?

Outra interpretação possível para a frase "Sou feminina, não feminista" é querer com isso dizer que não se tem perfil de activista. Mas neste caso quem o fizer labora num equívoco, porque uma mulher que se afirme defensora das causas feministas, não tem de ser necessariamente uma activista, além de que, last but not least, opõe feminilidade a feminismo, como se os termos se excluíssem.

Mas ainda há a considerar a categoria de mulheres que adopta este chavão para transmitir a ideia de que o termo feminismo não lhes interessa porque não lhes diz respeito, pois nada acrescenta ao seu nível e estilo de vida, que por sinal inclui, sem complexos, muitas ociosidades e futilidades de princesa. Esta é a versão provocatória, a afirmação descomplexada de valores contra o politicamente correcto, que coloca a defesa dos direitos humanos acima de todos os egoísmos.

Dispensarão estas senhoras dois minutos de reflexão sobre o tema da violência contra as mulheres? Talvez no dia 8 de Março, quando ritualmente os noticiários se enchem deste tipo de informação. Ou então, nem isso, porque provavelmente pensam que o tema só interessa às feministas, "a essas mulheres frustradas, sem auto-estima, que não devem ter sucesso nenhum com os homens, por isso os odeiam. Sim, porque todas as feministas odeiam os homens" (fim de cassete). As que pensam assim e se afirmam respeitadas, admiradas, valorizadas e bem-sucedidas, essas o que adoram mesmo é sentar-se, de perna traçada, em cima dos direitos que outras, antes delas, tiveram de conquistar e gozar a vida dentro da sua bolha cor-de-rosa. 

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Os lugares, como as pessoas

por Teresa Ribeiro, em 06.03.18

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Perto da zona onde trabalhei até há poucos dias existem dois ou três lugares que me encantam, mas que enquanto me foram acessíveis afastei metodicamente do espírito nas pausas do almoço e do café. Agora que estou longe, apetecem-me como nunca e a falta que me fazem é a que não sentia quando os tinha a poucos metros de mim. Quando os "tinha". O verbo é esse. Bastava senti--los ao meu alcance para os ter, por isso os visitava tão pouco.

Com as pessoas que nos estão mais próximas passa-se o mesmo. Enquanto são lugares acessíveis por vezes evitamo-las, saciados que estamos da certeza de estarem sempre disponíveis para nós. Quando as perdemos é que percebemos o quanto as desperdiçámos.

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 04.03.18

Esta semana, os termómetros de algumas cidades europeias desceram abaixo das temperaturas que se se registam por estes dias em certas zonas do Pólo Norte. À medida que o tempo passa, as notícias sobre fenómenos climáticos excepcionais sucedem-se, com mais frequência. Em Portugal - há muito que os ambientalistas avisaram - estas alterações começam a afectar-nos de forma alarmante.

Nunca fui de meter a cabeça na areia em relação às questões relativas à sustentabilidade do planeta. Quero saber, e colaborar na medida do possível, por isso procuro manter-me informada, multiplicar as minhas fontes. Esta, onde colaboram investigadores do ICS, é uma das que gosto de visitar. É o nosso blogue da semana. 

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Só com um pano encharcado

por Teresa Ribeiro, em 13.01.18

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Sei dizer exactamente com que idade fui assediada pela primeira vez na rua. Tinha dez anos. Foi com essa idade que passei a ir sozinha para a escola, andava então na 4ª classe. No caminho tinha de passar por uma garagem e como era hora de almoço, apanhava sempre a mesma trupe a lagartear no passeio. Diariamente ouvia as piores ordinarices enquanto amedrontada apressava o passo, olhos no chão e coração a bater. Quando, décadas depois, comecei a notar que era menos assediada, estranhei. Será que afinal até gostava daquelas palavras gelatinosas que me chocavam em idade púbere? Ou das ordinarices que me enojavam quando, mais velha e expedita, já podia contabilizar anos de assédio de rua? Não. As mulheres não gostam de assédio, o que não apreciam é o que significa deixarem de ser assediadas. É da natureza humana (e não exclusivo da feminina) estabelecer associações complexas de causa-efeito. Deixar de ser assediada na rua é um dos muitos sinais que revelam a uma mulher que está a envelhecer e é isso que incomoda.

Quando, aos 12 anos, comecei a andar sozinha nos transportes públicos, a minha mãe disse-me: "Se um homem se encostar a ti, pisa-o com toda a força. É remédio santo". Também ela tinha ouvido esse conselho da minha avó e muitos anos depois foi a minha vez de o passar à minha filha (ao meu filho, como é óbvio, nunca precisei de fazer tais recomendações).

Sim, há uma corrente defensiva que se estabelece entre gerações de mulheres. Como poderia não haver, se vivemos num mundo que estigmatiza o sexo feminino? E porque são estas as circunstâncias de todas, repito, todas as mulheres (mesmo as que juram, enquanto lhes cresce o nariz, que nunca foram assediadas, na rua, no trabalho, em circunstância alguma, querendo com esse depoimento colocar-se acima de todas as outras parvas que se queixam "e que se calhar puseram-se a jeito, consentem, no íntimo gostam", mimetizando o discurso mais machista) espanta-me a pressa com que tantas correm em defesa dos homens, como se fossem eles as grandes vítimas da sociedade.

Quando se geram movimentos como o de Hollywood, logo aparecem as guardiãs do statuo quo a apontar a dedo os fundamentalismos que inevitavelmente surgem por arrasto, confundindo razões justas com folclore, conceitos como assédio e galanteio, relações sexuais consentidas com violação. Mais misóginas que os misóginos, colocam-se orgulhosamente à margem das causas femininas. E eu ao vê-las, lê-las e ouvi-las só penso no trabalho que foi para as sufragistas porem as mulheres a votar e o que custou às "fufas das líderes dos movimentos feministas" conseguir que as novas gerações de mulheres fossem tratadas como gente. Francamente, só com um pano encharcado!

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Olá, dia 2!

por Teresa Ribeiro, em 02.01.18

Gosto dos dias despretensiosos, sem agenda. Daqueles que se deixam liderar com a doçura dos humildes.

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Velhos? Só os novos!

por Teresa Ribeiro, em 21.12.17

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- Fazes quantos anos?

A aniversariante respondeu, com voz sumida, quase envergonhada: "27". Família e amigos, percebendo o desconforto, começaram com as piadas  de circunstância: "Já só faltam 3!". E riam, enquanto espetavam os dedos.

A cena aconteceu há dias, mas nada tem de invulgar. Oficialmente deixa-se de ser jovem aos 25 e a cultura instalada sobrevaloriza tanto a juventude, que ninguém quer deixar essa zona de conforto. Mas experimente alguém, que já passou os 45, mostrar-se incomodado com o envelhecimento. Caem-lhe logo em cima, com clichés como  "o que interessa é manter o espírito jovem", ou "a vida começa aos 40".

Acho normal que não se goste de perder as formas, nem o contorno das linhas do rosto e ainda mais natural reagir com desconforto ao aparecimento de dores de costas, insónias ocasionais, enfim, os achaques que nos lembram que nunca se escapa impune à passagem dos anos. Mas lamentar a perda da figura em que nos reconhecemos durante a vida inteira e a falta de vigor que o envelhecimento implica, agora é tabu.

Comentar algo do género é habilitarmo-nos a sessões espontâneas de aconselhamento psicológico, a diagnósticos sumários de depressão e a toda uma série de equívocos que o melhor mesmo é não arriscar, ou então alinhar no discurso que não por acaso agora faz escola e que é o do elogio do envelhecimento feito por "raparigas" de meia idade.

O que elas dizem? Invariavelmente que se sentem jovens, pois não se reconhecem na idade que têm. Ou seja, mudam de assunto: para contornarem a parte incómoda da questão, a da indesmentível degradação física e respectivo desconforto,  falam da discrepância entre o ritmo de envelhecimento do corpo, que é mais rápido, e o do espírito. E fazem-no como se essa não fosse a regra que se aplica a toda a gente. 

Manobras de diversão à parte,  a verdade é que a mesma sociedade que leva jovens a sentirem-se absurdamente velhos, impõe aos que já começam a sê-lo a lei da rolha. Como se o envelhecimento fosse uma falta demasiado grave, para ser discutida sem filtros, à frente dos outros.

 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 03.12.17

Quem gosta de livros, decerto apreciará uma visita ao Diário de Leituras. A minha escolha para blogue da semana.

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 18.11.17

A felicidade é frequentemente presunçosa. Presume demasiadas vezes que o bem que tem é uma questão de mérito, desvalorizando os factores aleatórios que o favoreceram. Ao mesmo tempo julga negativamente a infelicidade dos outros, procurando associá-la a questões de competência.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Vi ontem à noite, na rubrica "Repórter TVI", da TVI, uma excelente reportagem assinada pela jornalista Ana Leal sobre incêndios florestais onde, entre outras coisas, se fala do negócio ruinoso dos Kamov, os seis helicópteros russos que foram comprados em 2006 pelo Estado português, e dos objectos incendiários que caem do céu.

Toda a visibilidade que se possa dar a este trabalho de investigação é pouca. Porque é importante fundamentarmos as nossas opiniões em factos e ainda mais importante que os factos que fundamentam as nossas opiniões não sejam esquecidos. Inscrevê-los na memória colectiva é um acto de cidadania. 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 30.10.17

Eles insistem na ideia de que "Escrever é Triste", mas a verdade é que quando os leio, só me dão alegrias. Porque além de saberem pensar, descrevem-no com uma elegância que só eles. São a minha escolha para Blogue da Semana.

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Cinco perguntas

por Teresa Ribeiro, em 19.10.17

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Sei, à força de assistir a tantas entrevistas e debates pós-incêndios, em linhas gerais, quais são as medidas estruturais que os especialistas da área florestal aconselham. Se eu sei, quem ao longo das últimas décadas ocupou os cargos que têm sob a sua alçada as florestas, por força há-de saber, e com detalhe, tudo o que é preciso para avançar com reformas.

Por isso o ponto não é "o que se deve fazer", mas por que nunca ninguém fez? Nem governos PS, nem governos PSD. No vício de tratar da coisa pública sempre sob a lógica partidária, já houve quem fizesse as contas aos anos que cada um destes partidos foi poder, para diluir culpas ao locatário com menos tempo de permanência, no caso o PSD. 

Sobre a indignação da ex-ministra da Agricultura e Ordenamento, também conhecida como "ministra do eucalipto", também se fez fogo cruzado, pois as pessoas que vêem os incêndios pela televisão têm facilidade em relativizar tudo e enviesar a óptica para o lado que lhes convém. Pessoalmente confesso que incomoda-me ver quem não tem nada para contar sobre o que fez pelo país em matéria de prevenção e combate a fogos rasgar as vestes em público.

Mas perante esta tragédia o que menos me interessa é o espectáculo da digladiação partidária. O que eu queria saber era quem ganha com os incêndios? Quem são? Quantos são? E já agora, por que a criminalidade associada aos fogos é tema que fenece tão facilmente no discurso dos políticos, sejam oposição ou governo?

Subscrevo TODAS as críticas que se fizeram ao governo e senti-me bem representada pelo discurso do PR. Mas parece-me óbvio que mais de 500 incêndios num dia não se explicam com as alterações climáticas e muito menos com a incúria da população rural. No tempo da outra senhora, quando o país não ardia assim, porque as florestas eram bem administradas, já o povo fazia queimadas e havia fogos de artifício.

Os espanhóis falaram de terrorismo a propósito dos fogos. Eles de facto são lestos a chamar os bois pelos nomes. Nós por cá é mais foguetório parlamentar. E a eterna teia de interesses e cumplicidades que submete o país a uma gestão incompetente. Por estes dias, Helena Freitas ex-deputada, bióloga e professora da Universidade de Coimbra, disse à Lusa que "o território foi abandonado por todos os governos", e que além do mais "os ministérios têm dificuldade em interagir", algo que compromete qualquer reforma. Li-a e pensei: "É isto!" Qualquer alma que tenha passado por um governo e pela máquina do Estado sabe que é isto que nos tolhe.

Há dias o Miguel Sousa Tavares dizia na SICN que se calhar somos um Estado falhado. A frase não me saiu da cabeça.

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 24.09.17

Confesso que esta é a única barbearia onde me sinto bem. Por isso é que a frequento há tantos anos. 

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Famílias fora de prazo

por Teresa Ribeiro, em 21.09.17

 

 

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Num país onde o desemprego atinge sobretudo os maiores de 50 e os que procuram o primeiro emprego, os casos de pais desempregados a coabitar com filhos adultos que ainda não entraram no mercado de trabalho aumentaram exponencialmente. Mesmo assim o fisco, quando os descendentes chegam aos 25 anos, não perdoa e declara-os... independentes.

Quando tanto se fala de apoio à família, esta realidade é varrida para debaixo do tapete. Maior de 25 que viva à custa dos pais é uma não-pessoa. Não conta para o agregado familiar, nem pode apresentar despesas para incluir no IRS dos pais. A regra já existia, mas ao contrário de outras que também existiam e já foram mudadas, nesta não tocaram nem com uma flor.  Era o mínimo a conceder às famílias que se tornaram disfuncionais em consequência do esbulho fiscal e destruição de emprego. 

 

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É um mistério!

por Teresa Ribeiro, em 19.09.17

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Não é de agora, nos últimos anos observo o mesmo, nos mais variados sectores de actividade. As pessoas com mais de 50 anos parecem ter desaparecido do mapa. Muitas estarão desempregadas, ou com pré-reformas, mas por mais elevada que seja a percentagem dos que se encontram fora do mercado de trabalho, não explica esta ausência de cabelos brancos nas empresas. Aos 50 anos está-se ainda longe da idade da reforma, além de que o país está a envelhecer, portanto a percentagem de população activa dentro desta faixa etária só pode ser elevada.

Quando não havia tanto desequilíbrio populacional entre velhos e novos não se observava isto. É estranho. Onde estão eles? No front office é que não, claro está, mas mesmo nas fileiras mais discretas onde pára esta geração, porventura a mais invisível de sempre?!

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Esse irresistível sentimento colectivo...

por Teresa Ribeiro, em 29.08.17

O caso dos livros da Porto Editora chamou mais uma vez a atenção para o fenómeno do pensamento de manada, que as redes sociais vieram instituir quase como pensamento único e a que desgraçadamente nem os profissionais da Comunicação Social escapam. 

Sempre que acontece uma história assim pergunto-me por que é que pessoas reconhecidamente inteligentes se deixam enredar tão facilmente, precipitando-se a replicar as opiniões que circulam. O mesmo acontece na política, onde encontro tantos que apesar de não terem interesses ou carreiras a defender nesse sector, não hesitam em apoiar acriticamente os líderes partidários da sua simpatia. 

E a resposta que encontro é sempre a mesma: Porque o pensamento independente priva-as de tudo o que é bom no pensamento "clubístico". Dessa componente lúdica não querem prescindir, nem mesmo em nome das causas mais nobres. 

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Padronizados como nunca

por Teresa Ribeiro, em 23.08.17

Espero num lobby de uma torre de escritórios. À minha frente também esperam três raparigas que, não se conhecendo entre si, parecem coreografadas. Todas seguram o telemóvel, todas com unhas de gel, todas com pestanas postiças, todas com pernas traçadas, cabelos compridos e lisos e dentro da mesma faixa etária. Uma das portas do lobby dá para um gueto de fumadores onde de momento só se avistam homens e então reparo neles. Também com idades aproximadas, em grupos ou separados apresentam-se com fatos semelhantes, os mesmos modelos de sapatos, a mesma barba aparada. É certo que a moda masculina é mais monótona, mas talvez porque todo este cenário é enquadrado por tecnologia (eles também olham obsessivamente para o telemóvel enquanto fumam), ou porque falta um toque de humanidade em tudo isto, parece que estou a vê-los através de um ecrã. 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 20.08.17

Prosa, poesia, qualquer coisa que fica entre os dois... o estilo é livre, como livres são os pensamentos que levam Luiz Robalo até aos temas mais diversos. Pode ser actualidade, pode ser um devaneio, tanto faz. Gosto sempre de o ler no Redondo Vocábulo, o nosso blogue da semana. 

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Menos política, mais cidadania

por Teresa Ribeiro, em 28.07.17

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Quando está em jogo algo realmente sério, algo tão sério como a nossa floresta, a coreografia política com os seus líderes e os seus rebanhos revela de imediato gente que está mais empenhada nas guerrilhas partidárias do que em tudo o resto. Gente cuja manifestação pública mais parece um aproveitamento da desgraça alheia do que um honesto empenhamento cívico.

É evidente que é a quem está no governo que devemos pedir responsabilidades em primeira instância, mas não é sério apontar os políticos que estão no turno de serviço como os responsáveis por tudo o que está a acontecer neste Verão. Quando vejo na televisão, à beira de um ataque de nervos, pessoas que representam os partidos que tiveram responsabilidades em anteriores executivos indignadas com a ausência de uma política florestal, fico com a certeza de que assim não se vai lá. Simplesmente porque estamos nas mãos de gente que por uma boa refrega política está disposta a sacrificar a decência e a seriedade que este assunto exige. Gente a quem sobra ardor político e falta uma verdadeira cultura de cidadania.  

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Eduardo Lourenço e os astros

por Teresa Ribeiro, em 20.07.17

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Leio a mais recente entrevista de Eduardo Lourenço ao Expresso. Às tantas ele diz isto: «Pertenço àquela raça de pessoas que quereria estar ao mesmo tempo entre coisas diferentes.» E isto: «Fui mais vivido do que vivi as minhas escolhas. Queria estar 'entre' e não 'em'.» Não sou entendida em signos astrológicos, mas os meus conhecimentos rudimentares levaram-me a pensar, de imediato: "Só um nativo de Gémeos poderia falar assim." Fui ver ao Google e acertei na mouche: nascido a 23 de Maio! Lembrei-me de Pessoa, outro que gostava de estar "entre", outro que só podia ser Gémeos e que não por acaso um dia escreveu: «Sou, entre mim e mim, o intervalo.»

Ainda dizem que a astrologia é uma treta!

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Diz que vem aí nova bolha imobiliária

por Teresa Ribeiro, em 14.07.17

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Ouvi esta conversa e não estranhei. Os sinais estão aí: preços das rendas a subir, o que leva, como no passado recente, muita gente a considerar que mais vale comprar casa, e a confiança dos consumidores a aumentar, em resultado de um optimismo que nasce mais da necessidade de acreditar que há futuro do que do efectivo melhoramento das suas condições de vida.

O caldo já está ao lume, por isso o jovem dado à especulação imobiliária, que há dias comentava este assunto, esfrega as mãos de contente. As oportunidades estão aí para quem estiver atento. Venda-se agora ao melhor preço para depois voltar a comprar os despojos dos que, movidos pelo desejo de ter uma vida, se vão estatelar ao comprido, mais cedo do que tarde.

Tic, tac, tic, tac... 2008 não foi assim há tanto tempo, mas o relógio biológico do sistema neo-canibal nunca pára.

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Inércia e lágrimas de crocodilo

por Teresa Ribeiro, em 19.06.17

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Ontem, ao ouvir Marcelo Rebelo de Sousa, às 20.30 nas televisões falar da "dor sem medida" e da solidariedade para com as vítimas e elogiar o esforço de quem está no terreno e alertar para a necessidade de seguir em frente, lembrei-me imediatamente do seu discurso por ocasião dos incêndios que o ano passado varreram a Madeira. No essencial os termos da sua comunicação ao país foram os mesmos. Então cinicamente, enquanto estabelecia esta relação, pensei que o melhor seria ele guardar o discurso no bolso, pois para a próxima sempre pouparia tempo.

Na véspera, Luís Marques Mendes, no seu comentário dos sábados na SIC, em tom de ralhete dizia que tinha sido um crime contra o país acabar com os serviços florestais e com a rede de guardas florestais e ter-se afastado da liderança da gestão e defesa da floresta os engenheiros florestais, cujo conhecimento técnico faria a diferença na prevenção e combate aos fogos.

Registei estes dois momentos com a raiva de sempre. Porque sei que esta gente que vem à TV verter lágrimas e pérolas de conhecimento sabe o que é preciso fazer há décadas. Sabe a partir de quando os fogos começaram a devorar o país e porquê. E não mexe uma palha!

De ano para ano é sempre a mesma ladainha. Anunciam, eventualmente, mais verbas para reforçar os meios de combate aos fogos - uma boa notícia para quem ganha dinheiro com esse negócio - e daí não passam. Quando o que é preciso é investir em prevenção. 

Sim, foi quando se desmantelaram os serviços florestais, se apearam os engenheiros da especialidade e se acabou com os guardas florestais que tudo começou. Assisti à escalada destas catástrofes pelos olhos do meu pai, que trabalhou na área e sofreu intensamente com todo este descalabro.

A primeira causa dos incêndios em Portugal chama-se inércia. Só a persistente ausência de uma política para as florestas explica que o ano passado tivessem ocorrido no país mais  fogos do que em Espanha, França, Itália e Grécia juntos, um padrão que já em 2005 se tinha registado! Só esta criminosa  letargia justifica que em Portugal existam dez vezes mais ignições por habitante do que em qualquer outro país europeu!

Para a próxima, quando decretarem luto nacional, não se esqueçam também de pintar a vossa douta cara de preto.

 

https://jpn.up.pt/2005/08/10/portugal-na-lista-negra-dos-fogos-florestais/ 

 

https://www.publico.pt/sociedade/jornal/em-2005-ardeu-em-portugal-mais-area-que--em-espanha-franca-italia-e-grecia-juntas-87137

 

http://observador.pt/2014/09/22/em-portugal-ardeu-em-2013-metade-da-area-da-europa-em-fogos-florestais/

 

http://www.tsf.pt/portugal/interior/portugal-foi-responsavel-em-2013-por-metade-da-area-ardida-na-uniao-europeia-4138183.html?id=4138183

 

http://www.sabado.pt/vida/imprimir/portugal-entre-os-paises-com-mais-incendios

 

http://www.jn.pt/nacional/interior/amp/ha-mais-incendios-em-portugal-do-que-noutros-paises-da-europa-4550078.html

 

http://www.cmjornal.pt/portugal/imprimir/um-terco-do-pais-destruido-por-fogo

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Afinal, o que se passa com o Metro?

por Teresa Ribeiro, em 01.06.17

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Sempre que passo nas escadarias rolantes da estação Baixa-Chiado e sou barrada a meio do percurso por baias a anunciar trabalhos de manutenção, lembro-me do suplício que era trepar aqueles degraus, às vezes em dias de pressa, quase diariamente. Durante dois anos, entre 1999 e 2001, foi essa a minha pena, só porque tive a desdita de trabalhar ali perto. Passados mais de 15 anos é extraordinário como a situação se mantém. 

O Metro sempre foi isto. Uma relação desigual e displicente com os utentes. Mas agora temos também as avarias nas linhas. Todos os dias! Intriga-me. Durante décadas uma avaria era uma situação de excepção, nos tempos que correm tornou-se rotina. Ainda esta semana houve em dias seguidos avaria na linha amarela "devido a problemas na sinalização". Se é o que imagino, pode ser grave. Começo a perguntar-me se é seguro andar de metro. E a pensar que já era tempo de exigir à empresa explicações públicas sobre a razão de ser de tanta anomalia. 

Na "cadeia alimentar" deste país os consumidores sempre estiveram ao nível mais rasteiro, mas já era tempo de mudar esta cultura, tão cómoda para as autoridades, tão conveniente para as empresas.

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A mercearia reabriu

por Teresa Ribeiro, em 30.05.17

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Depois de uns dias fechada, com uma cruz na porta, a pequena mercearia reabriu, com os mesmos caixotes de fruta no passeio. Tudo igual, excepto a roupa da velhota, antes indistinta, agora uma mancha negra a assombrar pêssegos e limões. Ela e o marido, em guerrilha permanente, eram tema de piadas no bairro. As quezílias diárias deixavam-lhe o olhar velado, carregado de azedume e a ele uma expressão de enfado impossível de disfarçar. Para o cenário trivial de uma mercearia de bairro era drama em excesso, daí ter tanta graça aquele desconcerto a dois. 

O azedume dos olhos dela, por estes dias, desfez-se em tristeza. Todos comentam que de repente ficou uma sombra da mulher que foi. Amar um traste pode ter-lhe envenenado a vida, mas amar um desertor está a matá-la de vez.

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 13.05.17

O Facebook dá-nos uma experiência holística (cruza amigos do passado, amigos do presente e amigos desconhecidos, quem sabe do futuro) e mística, porque dá-nos palco, seguidores e um sentido para a vida. Não admira que se tenha tornado uma religião.

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

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Lai, lai, lai

por Teresa Ribeiro, em 10.05.17

 

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É sempre a mesma lamúria. E cada ano começa mais cedo. O secretário de Estado da Administração Interna já veio a público anunciar que a área do País ardida desde Janeiro é 12 vezes maior que em período homólogo do ano passado. Dito isto, anunciou investimento em mais meios de combate aos incêndios. Os tais que aumentam à medida que aumentam os fogos (não deveria acontecer o contrário?) 

Mas o que fica por explicar é porque há países que ardem e países que não ardem. Porquê, senhor secretário de Estado?!

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 30.04.17

São veteranos da bloga. Donos de uma opinião que nos chega consistente, acompanham tudo o que de relevante se passa na pólis. Nem sempre estou de acordo com os pontos de vista dos seus autores, mas mesmo quando é esse o caso nunca dou por perdido o meu tempo, até porque não gosto de monolitismo. Recomendo a leitura de Ladrões de Bicicletas, o blogue desta semana. 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 16.04.17

Sigo Joana Carvalho Dias há muitos anos. Como blogger já teve várias encarnações, mas a elegância da sua escrita mantém-se como denominador comum. Em "O Rapaz da Camisola Verde" encontro essa mistura fina de suavidade e assertividade que me fidelizou como sua leitora. O Rapaz da Camisola Verde: escolho-o para blogue da semana.

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Santa Páscoa!

por Teresa Ribeiro, em 15.04.17

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Dedico este post aos católicos que são assim, como a criatura de Deus que aparece na foto, quando vêm à discussão assuntos polémicos sobre a sua Igreja e que rilham os dentes quando lhes falam do seu Papa Francisco,"esse 'comuna' que só veio desestabilizar".

Em tempo de Páscoa, por favor meditem nas palavras do padre Anselmo Borges, que transcrevo a partir da entrevista que deu ao Expresso, para esta última edição, e cuja leitura integral recomendo:

"É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima"; "A Igreja é misógina"; "A Igreja não pode impor como lei aquilo que Jesus entregou à liberdade. É preciso acabar com as vidas duplas" (a propósito do celibato obrigatório dos padres); "A hierarquia vive na ostentação e não se bate pelos direitos humanos"; "Este Papa é um cristão no sentido mais radical, não é apenas baptizado, ele segue Jesus". 

São críticas velhas, mas quando vêm de um homem da ICAR com a sua envergadura intelectual, têm outro valor.

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 13.03.17

No "Redondo Vocábulo", Luiz Robalo escreve com elegância, portanto podemos dizer que com curvas. Mas é também assertivo quando opina. Nesse sentido nada do que diz é redondo neste seu Redondo Vocábulo. É a minha escolha para blogue da semana.

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Quotas para que vos quero

por Teresa Ribeiro, em 08.03.17

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Quotas. É uma polémica recorrente, mesmo entre mulheres, portanto muito apropriada para assinalar este dia. Durante alguns anos fui sensível ao argumento de que o estabelecimento de quotas para mulheres as inferiorizava, mas depois as estatísticas entraram em diálogo comigo e falaram mais alto. Sim, felizmente há mulheres que chegam ao topo sem que para tal tenham sido empurradas por quotas. A ascensão feita assim é o que está certo. Sem equívocos, nem margem para dúvidas quanto a mérito e competência. Mas a realidade diz-nos que estas situações são de excepção. Basta consultar as primeiras páginas dos jornais de hoje para perceber qual o estado da arte: "Mulheres têm menos chances de ter bom emprego", diz o Público; "Na UE uma em cada três posições de gestão é ocupada por mulheres", noticia o I; "G20 - grupo dos poderosos só tem Merkel e May" e "PSI 20 - quatro empresas sem nenhuma administradora", anuncia o DN.

No entanto sabe-se que as mulheres estão em maioria entre os que terminam licenciaturas e que apresentam mais qualificações. E que é assim em Portugal e no mundo. Como se explica isto? Recorrendo ao primado bíblico "a culpa é delas"?

Deveremos então concluir que este enorme contingente, que não consegue subir na carreira de acordo com as suas competências e no limite franquear as portas do poder é todo desprovido de "soft skills", como agora se usa dizer? Ou o que lhes falta é - vamos lá a chamar os bois pelos nomes - tão somente algo que a Natureza não lhes deu: o sexo adequado para alcançar o topo?

Quando não existe mais nada, o que nos resta é o pragmatismo. E é por isso que me tornei a favor das quotas. Se não vai a bem, vai a mal. Porque sem quotas bem podem as mulheres esperar sentadas por oportunidades e reconhecimento iguais.

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 25.02.17

Em defesa de Centeno há que reconhecer que a solução que ele encontrou para convencer António Domingues a ir para a CGD foi muito fora da caixa.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Um olhar sobre a deriva feminina

por Teresa Ribeiro, em 20.02.17

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 Mulheres do Século XX 

****

Justamente nomeada para os globos de ouro, em "Mulheres do século XX" , de Mike Mills (também autor do argumento), Annette Bening dá-nos um retrato pungente do desamparo feminino ao encarnar Dorothea Fields, uma mulher madura e emancipada, mãe de um adolescente que cresceu só com ela e que, como a maioria dos adolescentes, a subavalia com crueldade e ligeireza.

Trata-se de um drama familiar banal, já vimos centenas, se não milhares no celulóide, mas rodado com uma frescura surpreendente. Gosto das acelerações de imagens em cores psicadélicas de Mills, das narrativas na primeira pessoa dos protagonistas, das bios das diferentes personagens apresentadas em esboço e depois a encaixar como um puzzle na história que as juntou. Esta construção, nada naturalista, liberta-nos, pois evita que nos transportemos para dentro do filme.

Há filmes para ver e filmes para mergulhar. Este é dos que nos conservam à janela, simples voyeurs de vidas que de alguma forma já observámos a correr em pista, mesmo ao nosso lado.

Não sendo o filme do ano, "Mulheres do Século XX" (no original, "20th Century Women"), nomeado para os globos de ouro também na categoria de melhor filme de comédia ou musical e para os oscares na categoria de melhor argumento original,  é uma experiência que nos convoca a ternura e a ironia a propósito de um tema inesgotável, o das mulheres a abrir caminho num mundo que não foi feito à sua medida.

 

Realizador: Mike Mills

Actores: Annette Bening, Elle Fanning, Greta Gerwig

EUA, 2016

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 06.02.17

Arte, fotografia, design e desapontamento são tópicos que me interessam, por isso sempre que vou ao This isn't happiness não dou o meu tempo por perdido. É o nosso blogue da semana.

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Falar claro sobre eutanásia

por Teresa Ribeiro, em 04.02.17

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Tenho observado que quem argumenta contra a eutanásia tende a iludir três questões:

1. Ninguém obriga ninguém a fazê-lo. Tal como no caso da IVG, os profissionais de saúde que sejam contra têm o direito de se recusar a colaborar.

2. A decisão é do doente (e só considerada se reconhecidamente ele está de posse de todas as suas capacidades mentais)

3. Os casos em que a eutanásia é aplicável serão, naturalmente, objecto de rigorosa regulamentação, pelo que não se coloca a questão de tal servir para facilitar suicídios de pessoas que estão, por exemplo, simplesmente com uma depressão. 

Toda a argumentação que contorne estas três premissas não me parece intelectualmente honesta.

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É um nightmare!

por Teresa Ribeiro, em 28.01.17

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Hoje quando saía de casa olhei o céu e imediatamente saltou dos confins da minha memória a expressão "chove a potes". Sorri de mim para mim. Essas palavras faziam parte do fraseado da minha avó. Acho que já não as oiço há anos. Há expressões que carregamos de tanta ternura que quando as usamos é como se fosse um agasalho. Por isso gosto de as revisitar. No entanto o que se usa agora, mais que nunca, são os vocábulos de importação. Comecei por ouvi-los com mais insistência em reuniões de trabalho (kick off, meeting point, status, fee, statement, empowerment, boost, icebreaker, core business...). Mas agora é também quando penduramos o heterónimo que usamos no trabalho: entre amigos saltam frases como "foi um nightmare", "nada como um pouco de facetime", "ele é um risk taker", "precisamos de quality time".

O que se passa connosco? Já houve quem respondesse aos meus protestos insinuando que estou uma bota de elástico (oops! shall I say "elastic boot"?) e que globalização também é isto. A mim o que me parece é que continuamos tendencialmente saloios, sempre deslumbrados com o que é estrangeiro e prontos a descartar ou desvalorizar o que é nosso. Se assim não fosse não haveria tanta gente a abraçar o Acordo Ortográfico sem pestanejar. No mundo empresarial, então, é um a ver se te avias. Como se resistir à adopção do "aborto", pelo menos até ver como isto fica, fosse um sinal de decadência. Whatever...

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Um adeus desolador

por Teresa Ribeiro, em 12.01.17

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Para mim era um dado adquirido. No dia em que Mário Soares morresse, o país sairia à rua para se despedir. Se aconteceu com Cunhal, em 2005, por maioria de razão sucederia com o principal líder da democracia, um homem que arrastou multidões e cultivou com os portugueses uma relação de proximidade que encontra paralelo só agora, com Marcelo Rebelo de Sousa.

Lisboa cumpriu bem o seu papel. Houve Sol e temperatura amena. Do ponto de vista meteorológico, Soares teve um perfeito adeus português, mas povo, nem vê-lo. Foi um choque assistir à desolação das ruas durante o cortejo fúnebre do "pai da democracia portuguesa" - conforme lhe chamou, e bem, a imprensa espanhola.

Porquê esta indiferença? Porque a memória afectiva já não é o que era e hoje faz reset de quem desaparece por mais de seis meses da televisão, do twitter e do facebook? Neste sentido, e sendo certo que não foram só comunistas a encher as ruas no funeral de Cunhal, pergunto-me: se o líder histórico do PCP tivesse morrido por estes dias haveria o mesmo banho de multidão?

A crise, que tem afastado progressivamente as pessoas dos políticos, também pode ter tido responsabilidade nesta monumental ausência. A democracia e os seus símbolos já não suscitam paixões, vê-se a cada dia que passa por toda essa Europa e Portugal não é excepção. Se é isto, o desaparecimento de Soares reveste-se de simbolismo, porque assinala o fim de um ciclo na nossa democracia. A ausência de povo na sua despedida anuncia o início de outro. Um ciclo que - temo - já nada terá de inteiro e limpo...

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Oposição criativa é isto

por Teresa Ribeiro, em 22.12.16

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Cada vez gosto mais deste "beau toujours" com cara de safado. É assim que se toureiam os mentecaptos que chegam ao poder. Bravo, Leo!

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Hoje é tudo mais clean

por Teresa Ribeiro, em 11.12.16

 

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Não foi assim há tanto tempo, mas as cenas que a minha memória privilegiou dos meus primeiros tempos de estágio parecem saídas de um filme de época. Éramos talvez 50 num open space desconfortável de um edifício de traça industrial onde no piso térreo funcionava uma gráfica. Habituei-me desde os primeiros dias às excentricidades de alguns colegas. O Afonso, que antes de sair prendia com um cadeado a cadeira à secretária, o Vítor, que adorava pontapear com as suas botas da tropa os fundos metálicos das secretárias, fazendo ribombar pela redacção a expressão das suas frequentes fúrias, o Zé, que espantava a neura disparando fósforos acesos para o tecto (convém aqui explicar que o chão não tinha alcatifa).

Visto à distância parece o cenário de uma casa de doidos e no entanto aquele era um padrão tido como normal no meu meio profissional. Essa cultura que tolerava excessos e extravagâncias, acolhendo sem censura as peculiaridades de cada um, era, de resto, coisa antiga. O que então testemunhei foi o pálido resquício da loucura dos tempos em que os jornais se faziam madrugada fora e os turnos de fecho se rematavam com uns copos em noites de boémia.

Que antiga me sinto por ainda ter, fugazmente, entrevisto esse mundo. Reconheço que nesses tempos não havia o mesmo profissionalismo. Àquela garridice também se somava muito amadorismo, mas a alegria era incomparável. A alegria e a descontracção. Hoje quem toleraria ruidosas explosões de mau humor ou brincadeiras ridículas com fósforos no local de trabalho?

Com phones nas orelhas e olhos no ecrã do computador, podemos até atropelar velhinhas para acalmar os nervos sem ninguém perceber. De facto podemos ver, ouvir e fazer tudo o que quisermos sem arriscar uma nota dissonante para o exterior. E assim é tudo mais clean.

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O RAP e a avó

por Teresa Ribeiro, em 03.12.16

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Leio na entrevista que deu ontem ao Público que Ricardo Araújo Pereira tem baixa auto-estima. Parece mais uma piada e pergunto-me, é claro, se há verdade nisso. Nas várias entrevistas que deu para promover o seu mais recente livro, RAP fala sempre da influência decisiva da avó, uma pessoa austera. Diz que foi a lutar pelos sorrisos dela que descobriu a sua vocação. Convenhamos que como estratégia de comunicação de um humorista de sucesso tem graça.

A história da avó pode ter sido retocada, mas acredito que na essência é verdadeira e ter de lutar pelo sorriso de uma avó é profundamente triste. A interpretação freudiana da vida pode estar ultrapassada, mas tenho sempre dificuldade em descolar--me dela, porque a verdade é que quando me interesso em saber mais sobre alguém e começo a escavar, encontro sempre um pai, uma mãe, um tio ou uma avó que estão na origem de muito do que essa pessoa é, para o bem e para o mal.

RAP, humorista de sucesso, confessa que tem baixa auto-estima e convidado pelo jornalista do Público a esmiuçar a coisa, fornece mais uma informação. Diz que foi com a avó que aprendeu a gerir sentimentos: "A minha avó convenceu-me a não ligar aos meus sentimentos - primeiro porque são sentimentos; depois porque eram meus". Outro postal triste.

Mesmo que seja apenas uma nota de humor negro que RAP acrescenta ao currículo só para provocar desconcerto nos fãs, vale como exemplo teórico. A actual ditatura da felicidade, com os seus cursos de psicologia positiva e discursos de auto-superação, ignora que pessimismo e baixa auto-estima não são uma opção, porque a mundivisão aprende-se, não se escolhe. É por isso que quando entramos numa sala da pré-primária identificamos facilmente quem é líder e quem não é, quem tem auto-confiança e quem se apaga.

Se o pessimismo e a baixa auto-estima se pudessem trocar como uma camisola, andava por aí tudo aos saltos, com as cores da moda vestidas.

 

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Imperdoável

por Teresa Ribeiro, em 09.11.16

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"Duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana, mas quanto ao universo ainda não tenho a certeza"

- dedico esta frase de Einstein ao povo americano. O que votou em Trump e o que não se deu ao trabalho de votar. 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 07.11.16

Uma das melhores penas do jornalismo português, sócio nº660 do Sindicato dos Jornalistas, presenteia-nos aqui com entrevistas, reportagens e crónicas que apetecem. Pelo interesse documental e pela qualidade dos textos. O "sítio" do João Paulo Guerra é o nosso blogue da semana.

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Do princípio ao fim (18)

por Teresa Ribeiro, em 10.10.16

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As palavras que se alinham logo no primeiro parágrafo são para se comer: "Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta." - esta sensualidade no começo de uma obra cujo tema é consensualmente considerado deplorável recebe-se como uma provocação. Creio que é sobretudo a curiosidade mais pelo que sentimos, do que pelo enredo que nos leva a progredir no texto a partir destas primeiras palavras. O tom é envolvente, confessional. Trata-se da autobiografia do narrador, Jean Jacques Humbert, um homem maduro, elegante, letrado e pedófilo assumido.

Nada na leitura deste romance é simples. Ao talento descritivo, capaz de nos transmitir com beleza as mais obscuras paisagens, Nabokov associa uma narrativa baseada no testemunho de uma personagem complexa, que tem a capacidade de se decompor em réu e juiz, actor e espectador, narrador e leitor.

Jean Jacques Humbert é, como ele próprio se chama, Humbert Humbert, uma figura que não raramente nos fala a um tempo na primeira e terceira pessoa: "... o soturno Humbert comprimiu a boca contra a sua pálpebra palpitante. Ela riu-se e saiu do quarto roçando por mim. O meu coração parecia estar em toda a parte ao mesmo tempo" (pág 51).

Dual mas ao mesmo tempo lúcido, Humbert disseca até ao âmago a sua perversão, como "quem vira a consciência do avesso e lhe arranca o forro íntimo" (pág 81). Antes que o leitor o classifique adianta-se, consciente da sua abjecção: "Não tenho ilusões. Os meus juízes considerarão tudo isto uma mascarada de um louco, com um gosto indecente pelo fruit vert. Au fond, ça m'est bien égal." (pág 46)

Ao assumir tão frontalmente esta ausência de expectativas Humbert, ou Nabokov através de Humbert, esvazia o papel do leitor. Perante a sua indiferença o que nos resta se não tomar conhecimento de um caso perdido, simplesmente conhecer, como um banal voyeur, as catacumbas da sexualidade de um pervertido? É neste desconforto que progredimos no romance, forçados não a empatizar - isso nunca é sequer tentado - mas a perceber os matizes da moral de um pedófilo. Nada nos é vedado. Da clássica desculpabilização: "O que me enlouquece é a dupla natureza desta ninfita - de todas as ninfitas talvez -, esta mistura na minha Lolita de uma terna infantilidade sonhadora e uma espécie de misteriosa vulgaridade", à impiedosa consciência da perversão: "... a horrível conclusão a que quero chegar (...) é a seguinte: tornara-se gradualmente evidente à minha convencional Lolita, durante a nossa singular e bestial coabitação que até a mais miserável das vidas familiares era melhor do que a paródia de incesto que, no fim de contas, era o melhor que podia oferecer à desamparada criança".

Trata-se de uma experiência, dado o tema em questão, fortíssima. Lo-li-ta. Sente-se de facto o sabor amargo da mais popular obra de Nabokov, lançada em 1955 para escândalo do mundo inteiro, no palato.

Uma vez lida, jamais a esqueceremos.

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Mas que descaramento!

por Teresa Ribeiro, em 26.08.16

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Leio a notícia e pasmo: "Medida-chave contra incêndios será facultativa". Reajo a quente: Mas como é que "medidas-chave" podem ser facultativas? Estão a brincar connosco?  Avanço no texto para perceber de que medidas se fala e então fico esclarecida. Trata-se do destino a dar às terras abandonadas, cujo mato nunca é limpo, e que nesta época são sempre referidas como potenciais focos de incêndios florestais. 

O ministro da Agricultura, Capoulas Santos, ainda com parte do país a arder, ousou vir a público dizer que "os municípios que vierem a assumir voluntariamente a passagem da posse da floresta sem dono têm de fazê-lo de forma voluntária e reunir capacidade para gerir esses perímetros florestais".

É claro que na mesma notícia, que li na última edição do Expresso, logo apareceram declarações de três autarcas das áreas mais fustigadas pelos fogos deste ano - Arcos de Valdevez, São Pedro do Sul e Arouca - a informar que se demarcavam dessa possibilidade, alegando não ter capacidade para assumir a responsabilidade. E seria de esperar outra coisa? 

Não me ocorre uma forma mais grosseira de contornar as dificuldades do que este "passa- responsabilidades" do poder central para o autárquico, do autárquico para o central e ainda com esta pérola que é a base de toda esta grande ideia ser facultativa. 

Pela amostra já deu para perceber que para o ano cá estaremos, impotentes e aflitos, a assistir a mais uma reprise do espectáculo de sempre: a irresponsabilidade, a incompetência e o laxismo de quem tem a obrigação de pelo menos tentar, com seriedade, combater este drama sazonal. Enquanto o país arde.

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O que fazer quando tudo arde?

por Teresa Ribeiro, em 12.08.16

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Adapto o título do Lobo Antunes não sei bem porquê. É uma pergunta retórica. O que há a fazer é sobretudo antes. Andam técnicos a dizê-lo há décadas. Vêm aos media no Verão para ser entrevistados, como os pássaros de arribação nos chegam na Primavera, e é isso que repetem.

Na estação dos incêndios podemos ter várias certezas, a de que Portugal vai arder, a de que os governantes vão largar as férias, num gesto dramático de solidariedade, para dizer umas palavras de circunstância e prometer políticas de prevenção de fogos que nunca saem da gaveta e que os técnicos que percebem e se interessam pelo tema são convidados para irem às televisões repetir críticas, conselhos e avisos pela enésima vez.

Às vezes, no calor dos acontecimentos, aparecem ideias interessantes, que até podiam fazer caminho, como a de pôr militares a patrulhar as matas para dissuadir os loucos que gostam de lhes chegar lume e ajudar na sua limpeza. Acho que foi Passos Coelho que anunciou essa intenção.

Mas quando chega, três ou quatro meses depois, a estação das cheias, quem se lembra dos fogos? Nessa altura a coreografia dos governantes é semelhante. Vão às zonas afectadas, visitam bombeiros, prometem apostar na bla, bla e na bla, bla e na... sempre com um ar muito pesaroso-determinado.

Há décadas que vivemos nesta sinistra alternância. Mas esquecendo as cheias - quem se preocupa agora com as cheias?! - partilho convosco a informação que mais me impressionou, das que vieram agora a público através dos técnicos que percebem e se interessam por estas coisas: na sua tese de doutoramento, recentemente discutida, o académico, comandante de bombeiros e presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Protecção Civil Ricardo Ribeiro recorda que "em 2013 em Portugal ardeu metade do que nesse ano ardeu no continente europeu".

Como Portugal não tem o monopólio dos pirómanos, nem dos problemas ambientais associados às alterações climáticas, esta informação dá-nos muito que pensar sobre a inépcia, a horrível inépcia de quem nos tem governado. À esquerda e à direita.

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Esplanada de praia

por Teresa Ribeiro, em 30.07.16

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Desamparado, o casal seguia com uma atenção esforçada a conversa do miúdo. Falava do quê? Talvez do Pokemon Go. O pai segurava o sorriso, olhos distraídos, mais atentos aos seus gestos e expressões animadas do que ao que dizia. A mãe observava-o silenciosa, naquela paz desconsolada de quem sabe que está a perder qualquer coisa, embora não saiba o quê.

No mar, famílias como a deles preenchiam com mergulhos e braçadas o mesmo sudoku feito de horas e horas de tempo livre. Mas havia os outros, os que em grupos ruidosos faziam o Verão. Gargalhadas e conversas alheias mescladas de pregões "Olhá bola de berlim!", choros de bebés, ralhetes "Agora não vais para a água!". A banda sonora de sempre.

Mais tarde, depois do banho, quando o casal e o filho se estenderem na toalha ao Sol, essa vida difusa há-de embalá-los e compor, enquanto dormitam, uma apaziguadora ideia de férias.

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Allez, allez

por Teresa Ribeiro, em 10.07.16

Faltam poucos minutos. Nas ruas, quase desertas, o silêncio incha com o calor.  No mini-mercado os empregados, habitualmente palavrosos, fecham-se num mutismo amuado. É que faltam poucos minutos e ainda estão ali. O vizinho do rés-do-chão abreviou o passeio ao cachorro e recolhe-se à pressa. Nem me vê. Em volta os prédios dilatam, cheios de gente. Famílias reunidas em torno da televisão suspendem-se com o coração aos pés, respiração na mão. Ninguém me vê. Só o gato branco, que patrulha a rua em passadas furtivas, me olha expectante, a avaliar se sou um perigo. 

Há cerveja gelada no frigorífico e até champagne. Enchidos, preguinhos, bifanas, coisas de picar. E raparigas de cachecol posto, apesar do calor, e miúdos prontos a alinhar com o pai e o tio e o irmão mais velho nas vocalizações apaixonadas quando a partida começar. Faltam poucos minutos e os principais spots da cidade, de todas as cidades, vilas e lugarejos, estão cheios de gente. Há milhares que nem gostam de bola, mas quem resiste a surfar esta onda que se agiganta? Bora lá!

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