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Delito de Opinião

Enamorada

Teresa Ribeiro, 28.04.21

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Há livros pelos quais nos apaixonamos e que lemos já não com prazer, mas com volúpia. Adiando no último terço o seu desfecho, sofrendo por antecipação o momento em que temos de os devolver à prateleira. Com "Coração Tão Branco", senti um desses enamoramentos - para citar outro título do autor, o espanhol Javier Marias. Dele li com entusiasmo outros títulos. Todos me revelaram talento para urdir enredos e construir  personagens complexas, que página a página se retratam, num striptease delicado. Mas este romance, amplamente premiado, coloco-o no meu pequeno altar privado, porque me revelou o que eu sabia e não sabia, mas por palavras que jamais conseguiria juntar, tal a subtileza, inteligência e elegância da escrita. 

 

Estou para aqui a falar de forma, mas o conteúdo é o melhor. Passo a citar:

"Guarda silêncio quem já tem alguma coisa e corre o risco de a perder ou está prestes a conquistá-la";

"Há muitos homens que julgam que as mulheres têm necessidade de se sentir muito queridas e aduladas, inclusive mimadas, quando o que mais nos interessa é que nos entretenham, isto é, que nos impeçam de pensar demasiado em nós próprias. Esta é uma das razões porque costumamos querer ter filhos";

"Abdicamos da linguagem da infância, abandonamo-la por ser demasiado esquemática e simples, todavia aquelas frases descarnadas e absurdas não nos abandonaram por completo, mas subsistem nos olhares, nas atitudes, nos sinais, nos gestos e nos sons".

 

A tentação é continuar, mas chega. São bons exemplos do que o autor consegue fazer. Através das personagens introduz com habilidade inúmeros pontos de reflexão e vai fundo, nós a reboque, inebriados pela sofisticação musical de cada frase. 

Sim, estou enamorada, mas não sou egoísta e partilho: se não leu este romance que Javier Marias escreveu em 1992, ainda vai a tempo.

Feminista, com muito orgulho

Teresa Ribeiro, 08.03.21

Não sei quando comecei a dar atenção ao Dia Internacional da Mulher. Talvez no início da adolescência. Mas já na infância sabia que havia dois pesos e duas medidas, uns pró menino, outros prá menina e não gostava. Posso, portanto, dizer que antes de saber o que era o feminismo já era feminista. Não precisei de seguir nenhuma cartilha. Foi o meu próprio sentido de justiça que me guiou onde até hoje me encontro: do lado dos que defendem a igualdade de direitos e oportunidades para homens e mulheres. 

Tenho a sorte de ter nascido no século XX e no ocidente, mas se o 8 de Março serve para alguma coisa é para ter bem presente até que ponto o mundo ainda é um lugar atroz para a maioria da população feminina. A meu ver isso devia ser o bastante para que ao menos entre as mulheres o apodo "feminista" não fosse incómodo ou controverso. Eu continuarei a ser feminista até ao dia em que não houver motivo para levantar essa bandeira. Desconfio que isso não acontecerá no meu tempo, mas quem sabe a minha filha ou as minhas netas, se um dia as tiver, possam falar deste tema como coisa do passado. Quando acontecer, terá valido a pena as gerações que as precederam nunca terem desistido de lutar por esta ideia tão saudável que é a da paridade entre sexos.

Ambiente de trabalho VI

Teresa Ribeiro, 15.02.21

Tudo começou com a democratização do ensino. Algo que urgia, mas que esbarrou num mercado de trabalho impreparado. Num país sem investigação nem iniciativa empresarial nas mais diversas áreas, não havia lugar para muitos licenciados. Por isso no fim da linha tantos passaram a desembocar no desemprego, na emigração, ou na precariedade. A desvalorização do trabalho intelectual inicia-se assim, em meados dos anos 80, rumo à proletarização das mais diversas profissões, sobretudo na área de humanidades, mas não só.

Hoje é comum um empresário pagar mais à empregada que lhe limpa a casa do que aos licenciados que emprega no seu escritório. Isto porque as empregadas domésticas, ao contrário  destes novos proletários, beneficiam da lei da oferta e da procura. 

Com a crise pandémica esta vulnerabilidade aumentou. Sei de gente que esteve seriamente doente e que nunca parou de trabalhar. Isto de o trabalho intelectual poder ser feito à distância tem sido - para muitos doentes COVID e não só - uma dificuldade acrescida. Porque a entidade empregadora presume que em casa, mesmo doente, dá para ir trabalhando.

Esta pressão verifica-se sobretudo junto dos que trabalham em PME's. Como estas constituem, como se sabe, a esmagadora maioria do tecido empresarial português, estamos a falar de muita gente. De profissionais cujas equipas se resumem, tantas vezes, a eles próprios. Em cujas funções sabem ser insubstituíveis. Circunstância que não os beneficia, pelo contrário. Pois se não podem parar, se porventura um dia o fizerem, pode significar o fim de um contrato de trabalho.

Mas entre os profissionais que não podem trabalhar à distância também vejo muitos a arriscar todos os dias um possível contágio, porque aceitam trabalhar sem condições de segurança e o motivo é sempre o mesmo: a precariedade endémica que os faz ceder a cumplicidades que lhes são impostas, de forma abusiva, a bem dos interesses da empresa. E cedem porque estão na base da cadeia alimentar que há muito vive da exploração impudica do talento. Esse bem que tantos agora gostam de louvar mas que hipocritamente, no segredo dos seus escritórios, tratam como lixo.

Confinamento não é para desempregados

Teresa Ribeiro, 19.01.21

Não sei há quantos anos se inventaram, para quem recebe subsídio de desemprego, reuniões obrigatórias periódicas. Em teoria são sessões que servem para que cada beneficiário apresente provas em como ocupa o seu tempo a procurar emprego, mas também para receber orientações e sugestões úteis por parte dos elementos do Instituto de Emprego e Formação Profissional que as lideram. Na prática, segundo consta, estas ações não têm préstimo algum, não passando de mero procedimento burocrático. Desde logo porque juntam na mesma sala gente com aptidões tão díspares como as de servente de pedreiro, contabilista ou professor do secundário.

Em pleno pico da pandemia, a minha amiga Madalena, jornalista de profissão, é obrigada a cumprir esta penitência. Na sexta-feira lá vai ela sair de casa e meter-se nos transportes públicos para comparecer numa reunião que vai durar a manhã inteira, onde gente de várias proveniências se vai juntar na mesma sala, simplesmente para assegurar que não lhe cortam o subsídio. Ou seja, enquanto exorta os trabalhadores a ficar em casa, este governo continua a exigir aos desempregados que desconfinem. Porquê? Porque sim!

Uma coisa em forma de assim assim

Teresa Ribeiro, 14.01.21

É difícil perceber. Diz que são 52 excepções. 52?! Entre as quais as escolas.

Quanto à questão das escolas, é fácil fazer o cálculo: as famílias que não têm a descendência entre a população escolar, do infantário à universidade, são em número residual. Logo, a esmagadora maioria das famílias terá alguém, do seu núcleo, a ter aulas. Percebo o transtorno que representa ter os sub-12 em casa. Mas e os outros? A população adolescente e pré-universitária, que obviamente é a que mais assume comportamentos de risco, andará por aí à solta enquanto os pais se confinam. E confinam-se então para quê? Só se for para entubar a economia, antes que a liguem às máquinas, pois que em termos sanitários não vamos sentir grande diferença, pois não? Até porque a isto somam-se as tais 52 excepções...

A liberdade e os outros

Teresa Ribeiro, 07.10.20

Sofia foi este fim de semana a um casamento onde estiveram 200 convidados. Eu não conheço a Sofia, mas por causa dela durante 14 dias vou evitar algumas pessoas e reforçar os cuidados no convívio com aqueles que tenho de contactar diariamente. Custa-me condicionar assim a minha vida, mas não quero ser um risco para ninguém. Mal sabe a Sofia, que nunca vi, mas que está todos os dias em contacto com a minha filha - que vive comigo - o trabalho e preocupação que o seu programa de fim de semana me está a dar. Podia agir como se nada fosse? Podia. Mas dei cálculo de probabilidades na escola e uma festa para 200 pessoas, onde se come e se dança durante horas, é um risco. Se apanhar o bicho através da minha filha, ao menos sei que fiz o possível para o não transmitir a ninguém.

Haverá quem considere isto excesso de zelo, ou até mesmo histeria. A questão é que não tenho bola de cristal. As estatísticas que alguns gostam de brandir, revelam que o novo coronavírus faz poucas baixas e afecta seriamente pouca gente, mas nunca poderei saber, em antecipação, se todas as pessoas que pertencem ao meu inner circle vão reagir bem a uma investida do bicho. Daí as minhas cautelas e caldos de galinha. Daí ter também dificuldade em perceber aqueles que fazem questão de continuar na sua vidinha de sempre, reivindicando o direito a viver como querem e lhes apetece.

Ao fazê-lo, ao desprezar as normas de segurança sanitária, todos os dias atentam contra a liberdade dos outros, pois  expõem-se e, pior,  impõem-se a terceiros. Incluindo familiares, colegas e amigos. Mas esta é a parte da liberdade individual que não lhes interessa discutir: a que afeta os outros. 

 

Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 06.09.20

Quando oiço ou leio que “a tecnologia digital está cada vez mais centrada nas pessoas”, demoro-me sempre a apreciar a excelência da frase. Trata-se, evidentemente, de uma mentira mas, como sempre acontece com as melhores mentiras, tem na raiz uma verdade. De facto a tecnologia digital está cada vez mais centrada nas pessoas. Não para as servir, como o chavão sugere, mas para as espiar, estudar, catalogar, manipular e por fim retirar dividendos da informação recolhida. Sabemos que é de eufemismos que vive a propaganda comercial, mas este, por ser particularmente sonso, incomoda-me mais.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

O caso de Famalicão

Teresa Ribeiro, 01.09.20

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Sempre ouvi críticas à falta de civismo dos portugueses. E ao contrário de outras, estas são fáceis de fundamentar. Basta repararmos no lixo que se acumula nos areais das praias, nas bermas de estrada e nos centros urbanos para encontrar abundantes provas de que a acusação tem fundamento. Mas esse défice de cultura cívica observa-se também na condução, seja em estrada, seja no trânsito das cidades e no comportamento das pessoas sempre que surgem situações de stress no espaço público. Em tempo de pandemia, mais uma vez o desrespeito pelos outros tem-se manifestado das mais diversas formas, através de comportamentos que envolvem o risco de contágio.

Ainda a um outro nível, o do envolvimento dos cidadãos em causas comuns, observa-se a mesma deficiência: a participação da sociedade civil na vida democrática é escassa, o que se reflete na qualidade da própria democracia. Temos, pois, um problema. Por isso, se algo sempre faltou nas nossas escolas foi, precisamente, a Educação para a Cidadania, disciplina que tem, entre outros, o importante papel de ensinar a viver melhor em comunidade, a exercer direitos e a cumprir deveres que afinal não são mais que os fundamentos da sociedade democrática.

Quando essa matéria foi finalmente incluída nos programas de ensino pareceu-me uma decisão que só pecava por tardia. Algo que era tão óbvio que nem merecia discussão. Até que os encarregados de educação de uma escola de Famalicão criaram um caso que está a dar que falar e, pasme-se, já teve como consequência um abaixo-assinado: https://observador.pt/2020/09/01/cavaco-passos-e-d-manuel-clemente-defendem-objecao-de-consciencia-de-pais-que-nao-queiram-filhos-nas-aulas-de-educacao-para-a-cidadania/.

Os seus subscritores defendem o direito daqueles pais a censurar uma disciplina em nome da liberdade de escolha. Pergunto-me o que se seguirá. Poderemos amanhã ter pais a proibir os filhos de frequentar as aulas de ciências naturais onde se ensina a teoria evolucionista, por exemplo. Queremos, em nome da liberdade, criar o caos, permitindo que os programas de ensino passem a ser definidos conforme as sensibilidades dos encarregados de educação?

E o que dizer de subscritores deste abaixo-assinado como Passos Coelho e Cavaco Silva, ex-líderes da nossa democracia para quem a educação cívica, pelos vistos, é uma matéria descartável?

Os rangers da COVID-19

Teresa Ribeiro, 27.07.20

A intrépida dona da frutaria, onde costumo abastecer-me, esteve desde o começo da pandemia a fazer o seu statement diário. Sempre muito atarefada, movimentava-se na loja sem máscara - enquanto tal foi permitido - e a espalhar olhares de desdém por quem lá passava, devidamente protegido. É claro que com esta atitude levou vários dos seus funcionários a inibirem-se de usar máscara. A balda era tanta que deixei de lá ir. Há dias reparei que tinham a porta fechada e nela colado o aviso: "Encerrados por motivos de COVID-19". Seis infectados, soube entretanto. De uma equipa de 12.

Na tasca perto do escritório, o ambiente que se via da rua era igualmente descontraído, com o dono a aviar copos ao balcão de máscara ao pescoço, a um friso de clientes, na sua maioria idosos, sem protecção. Também fechou. E vão dois.

Há gente que todos os dias se arrisca, mas não tem alternativa. Gente obrigada a deslocar-se em transportes públicos em hora de ponta e pessoal de saúde, entre muitos outros. Estes, que agora estão de molho, tinham. Mas preferiram mostrar ao vírus quem era mais macho. Agora já sabem.

Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 19.07.20

Quando acompanho as notícias que nos chegam acerca dos progressos da investigação sobre a nova vacina contra este vírus penso sempre que a medicina coadjuvada pela tecnologia pode até acelerar a produção de uma droga com as características que se pretende, mas não pode encurtar a resposta biológica dos pacientes que agora estão a servir de cobaias. A Natureza tem o seu ritmo. Quando se fala na vacina nunca se discute isto com clareza. Porque temos pressa, porque o desespero é muito, mas também porque teimamos em ignorar o nosso lugar na hierarquia do mundo natural. Só nos enterros é que se ouve sempre dizer que "não somos nada". Essa humildade faz-nos mais falta em vida. Poupava-nos muitos problemas, a começar pela pandemia que estamos agora a enfrentar.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Blogue da semana

Teresa Ribeiro, 24.05.20

O Sapo destacou há poucos dias o blogue do Luís Soares, que não conhecia, a propósito da colecção de fotos do americano Neal Slavin, que ele publicou, sobre Portugal no tempo da ditadura. Chamou-me a atenção, vi, gostei muito daquelas imagens, tão expressivas, que nos mostram um país a preto e branco, muito distante da realidade que conhecemos. Daí ser esta a minha escolha para blogue da semana.

Ele e a avó

Teresa Ribeiro, 20.05.20

Se fosse uma criança, ninguém estranharia tanto desvelo com a senhora sua avó, uma simpática anciã que completou recentemente 89 primaveras. Mas ele passa dos 40. É um homem feito, com uma vida. Tem muitos amigos, conquista-os facilmente, pois é uma pessoa naturalmente empática. E tem uma veia artística, que se transformou na base de muitas actividades em que não raras vezes é o elemento aglutinador: ele canta, toca, faz teatro, não pára quieto e no entanto tem sempre tempo para visitar, mimar, cuidar, daquela avó.

Podia ser um segredo bem guardado, esse amor desmedido que lhe dedica, mas não há qualquer espécie de pudor na sua atitude. Ele adora-a publicamente. Nas redes sociais lá estão selfies dos dois, notícias dos passeios e das patuscadas onde a leva em família.

Em tempo de pandemia, como seria de esperar, tornou-se de uma vigilância tão obsessiva, que me faz sorrir: “Não saias, é perigoso!”, “Não vás, eu vou!”, “Fulano quando te foi visitar usou máscara?”, “Não abras a porta a ninguém!”, diz-lhe quando lhe telefona do escritório.

Derreto-me com este amor tão fora de moda. Com a naturalidade que ele coloca em todos estes pequenos gestos. Como se fosse normal… (Será normal?) Olho à volta, procuro e não encontro exemplos que se aproximem sequer desta vontade de desfrutar até ao limite do possível a companhia de alguém que se sabe ter o tempo contado. Desta espécie de respiração boca a boca que ele lhe faz para a conservar motivada, bem-disposta, contente com a vida.

Em tempo de coronavírus, quando o que está a ganhar força em certos sectores da sociedade é esta miserável onda de darwinismo social que defende como um mal menor o sacrifício dos velhos em prol dos demais, este amor do Hugo pela avó parece, mais que nunca, um adorável anacronismo.

Oxalá

Teresa Ribeiro, 07.05.20

À medida que a torre de escritórios onde trabalho volta a ganhar vida, começam a surgir situações como a de ontem: quando ia a entrar, uma rapariga preparava-se para sair, de modo que avancei, segurando na porta, que tem uma mola forte, para ela passar. Acto contínuo a menina passa e quando está bem em cima de mim, prega-me com um sorridente "obrigada" nas bochechas. Nem eu, nem ela tínhamos máscara. Hoje, pelo sim, pelo não, usei uma.

Imagino que incidentes destes começam agora a acontecer, aos milhares, todos os dias. A par das mais variadas manifestações que expressam a euforia do desconfinamento. Na segunda-feira, quando descia a pé o jardim do Campo Grande, topei uma miúda que conheço bem. Estava com um grupo de amigos, todos num alvoroço, ao colo uns dos outros, a matar saudades da vida. Por acaso sei que a mãe dela tem um grave problema de saúde que a coloca na primeira linha para... Enfim, tudo isto é inevitável, mas confesso que esta sensação de me encontrar à mercê da consciência cívica dos outros, me está a causar bastante desconforto.

Vamos, é claro, surfar uma segunda onda em grande estilo, lá mais para o Outono. Nessa altura, ainda hei-de ver muita desta gente que agora tanto se alvoroçou contra as abusadas interferências do Estado, a correr para o SNS a gritar pela mãe. Oxalá me engane...

A morte, essa perigosa socialista

Teresa Ribeiro, 28.04.20

A turma do resfriadinho está a ficar nervosa. Quer o povo na rua, a bulir, que é para isso que o povo serve, mas o mundo continua paralisado. Muito religiosa, esta seita sempre sacrificou tudo ao seu deus todo poderoso. O deus universal a quem na América chamam dólar e por cá é conhecido por vários nomes: massa, carcanhol, pilim, papel, taco, pastel, graveto, caroço, bago, guito... Quase tudo designações carinhosas, pois como diz a canção, "money makes the world go around".

De facto não há quem o possa negar, até os corações mais empedernidos, que teimam em colocar a vida humana acima da vida empresarial, admitem que não se pode viver muito tempo sem facturar. E é neste equilíbrio de prioridades que agora se está a jogar tudo. Só que não é fácil, pois estamos a falar de uma quadratura do círculo, em que ir trabalhar pode ser um perigo, apesar de ser perigoso não ir trabalhar. Mas já divago...

A turma musculada do resfriadinho considera que já se perdeu demasiado tempo com este choradinho. A Covid-19, afirmam a brandir estatísticas, mata menos que uma gripe vulgar. De facto os números, esses sonsos, servem para provar tudo e o seu contrário, portanto quando a turma do resfriadinho apresenta as suas contas, bate tudo certo.

O problema é quando a senhora da foice chega e lixa tudo. Contra factos não há estatísticas que valham e na pantalha nunca se viu nada assim. Gatos pingados sem mãos a medir, valas comuns abertas em Nova Iorque (dá para acreditar?). No Brasil já se viu familiares enterrar os seus próprios mortos por falta de coveiros disponíveis e até já houve defuntos a sair da pista em hora de ponta e a aterrar no funeral errado. Itália, Espanha, França, Reino Unido, o mundo dito civilizado ficou de joelhos e tudo por culpa dessa senhora que se veste de negro, mas cuja lingerie só pode ser vermelha.

Essa perigosa socialista que - já se percebeu - tem ligações óbvias ao lobby dos ambientalistas, com a sua foice (onde será que pôs o martelo?!), anda a gozar com quem só quer voltar ao business as usual, desacreditando a sua versão dos factos. Mas que estúpida!