Coisas de nada
É possível estabelecer e até construir uma relação, por limitada que seja, com base na troca rotineira de muito poucas palavras? Tão vazias de conteúdo quanto o são as palavras que fazem parte do protocolo da civilidade básica? Tenho meditado nisto desde que, há vários anos, passei a trabalhar em edifícios de escritórios com portaria 24 horas.
“Bom dia”, “Boa Tarde” e “Até amanhã” é ao que se resume, na maior parte das vezes, o “diálogo” que mantenho com os vários porteiros de turno. E, no entanto, tenho de todos eles uma opinião diferente. E o inverso, não duvido, é também verdadeiro.
Claro que é o tom de voz e a boa ou má qualidade do contacto visual que aqui fazem a diferença. Com uns simpatizo, com outros não. Àqueles que me cativaram mais, cumprimento num tom diferente, que reforço com um sorriso. Não o faço deliberadamente, é espontâneo. A modulação da minha voz e a expressão do meu rosto mudam automaticamente, ajustando-se em fragmentos de segundo ao meu interlocutor do dia.
Não me ocorre uma relação diária que seja mais minimal que esta. E é isso que a torna interessante como objecto de estudo. Revela de forma inequívoca o poder da expressão facial na comunicação entre estranhos, a facilidade com que reagimos aos detalhes e construímos a partir deles um juízo de valor, a ligeireza com que formamos opiniões mesmo não sabendo nada de nada acerca das pessoas que entraram no nosso campo de observação. Em suma, a futilidade que subjaz à construção da imagem do outro.
Estou ciente de tudo isto e no entanto não consigo evitar ter opiniões diferentes sobre cada uma das pessoas que diviso na portaria do prédio. Ignoro o que se passa nas suas vidas. Não lhes conheço um único pensamento. São, para todos os efeitos, estranhos com quem me cruzo todos os dias. Estranhos com rostos a que reajo. Como se dois rostos quando se olham fossem reagentes químicos.
Extrapolando para relações mais complexas, por exemplo como as que estabelecemos com os estranhos que julgamos conhecer dos media e da política, acabamos a meditar sobre a fragilidade e arbitrariedade de avaliações, que dependem, muito mais do que gostaríamos, da linguagem não verbal. Há cada vez mais carreiras políticas que se constroem e alimentam disto. Só disto. Porque, ainda que informados, deixamos.









