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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 07.07.19

Para quem, como eu, se preocupa com a preservação do planeta pensando sobretudo no futuro que deixa para filhos e netos, é bom consultar informação nos sítios onde o radar está sempre a funcionar. É o caso do I Met God, She's Green, da Joana Seixas e Madalena Brandão, o nosso blogue da semana.

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As casas da minha vida

por Teresa Ribeiro, em 25.06.19

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As casas que me tiveram, nunca me pertenceram. Na geração dos meus pais, tal como no tempo dos meus avós, as pessoas, nas zonas urbanas, viviam sobretudo em andares alugados. Apesar de serem propriedade dos senhorios, havia, porém, um forte sentido de pertença. Esses apartamentos eram, enquanto lá vivêssemos, a nossa casa.

Mas a primeira que habitei foi bem longe das grandes urbes, em Mondim de Basto, Trás-os-Montes. Também não pertencia à família. O meu pai tinha sido lá colocado em serviço do Estado, como administrador florestal. Nessa qualidade liderou o combate a grandes incêndios, mas isso foi  no tempo em que a floresta não ardia como se houvesse amanhã, por existir uma gestão florestal que funcionava. 

Saí de Mondim com cerca de dois anos e nunca mais voltei. Durante a vida toda, regressar à minha primeira morada tem sido um programa adiado. Pergunto-me se por razões que são realmente alheias à minha vontade, ou se essa impossibilidade resulta afinal de uma teia que fui tecendo só para manter aquele lugar alinhado com a amnésia dos meus inexpugnáveis primeiros anos de vida.

Dessa casa tenho uma imagem feita a partir dos ângulos que descortino em fotos antigas e das descrições que ouvi, repetidas, sobretudo à minha mãe. Foram elementos mais que suficientes para a ter construído à medida. Quando finalmente lá voltar sei que vou rever sobretudo um lugar que só existe, desfocado, ao fundo da minha yellow brick road. Será disso que eu fujo?

Depois regressei a Lisboa, onde nasci. Morei mais de vinte anos num apartamento de onde saí sem nunca ter saído, porque se manteve a residência dos meus pais e mais tarde a segunda casa dos meus filhos. Passei lá a infância, a adolescência, a juventude, anos essenciais da minha biografia. Fica numa rua de onde se vê Monsanto e todas as coisas que só eu sei. As chaves dessa casa já estão com o senhorio, mas a alma dela, guardo-a eu.

 

Nota: escrevo sobre este tema para responder ao desafio do Pedro, a que também já respondeu a Dulce. Passo agora o testemunho ao senhor(a) que se segue...

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 16.06.19

A causa animal alimenta-se, em boa parte, do desapontamento face à raça humana.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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A idade dos meus pais

por Teresa Ribeiro, em 06.05.19

Quando penso nos meus pais, imagino-os quase sempre nos quarentas. Ainda vigorosos, na pujança da sua vida adulta. Nessa idade consigo situá-los convenientemente longe da juventude - nenhum filho vê os pais como jovens - mas também da velhice.

Quis saber se com outras pessoas, que já perderam os pais, acontece o mesmo e após breve sondagem percebi que não sou um caso raro. Mesmo se os pais chegam a idade avançada, existe alguma tendência para os recordar mais novos, sempre a rondar aquela faixa etária que os situa longe dos verdes anos, mas também dos primeiros sinais de decadência física. 

Sei bem porque os fixo nesse intervalo temporal. É sobretudo para elidir o que testemunhei quando as marcas do seu envelhecimento começaram a cobrir o futuro de sombras. Mas também para reconduzi-los ao lugar de onde nunca deveriam ter saído - o de guardiães da minha infância. Sem eles - ou sem a memória deles a exercer em pleno o seu papel - é como se a chave dos meus anos fundadores se perdesse e tivesse que passar a viver do lado de fora de mim.

 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 05.05.19

Escreve bem e pensa bem. Melhor ponto de partida não há, para destacar o autor de um blogue. Mas quando afirmo que a Cristina escreve bem não me refiro apenas ao modo como tão bem trata o português. Há também a destacar a forma como ela embrulha o que partilha, desvendando aqui e ali pedaços de memórias, pensamentos, opiniões. Uma arte que domina tão bem.

O seu Em Linha Recta é, esta semana, o blogue que destacamos.

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Ambiente de trabalho V

por Teresa Ribeiro, em 14.03.19

Não sei quando e porque se inventou a norma  de etiqueta que estabelece que nunca, em caso algum, se deve declinar propostas ou convites com um rotundo e inequívoco "não". A verdade é que se tornou uma escola. E no entanto para quem fica suspenso de uma resposta não existe nada mais desgastante. Espero, ou não espero? Mudo de planos? Procuro novos interlocutores?

Tudo o que se obtém é silêncio ou um discurso reticente feito de promessas vagas. Em vez de fumo branco, sai nevoeiro cerrado. Névoa que nos faz perder tempo e isso em ambiente de trabalho tem impacto na  eficiência, o que é grave. 

A quem aproveita esta atitude? Não consigo entender. De um lado espera-se e desespera-se, do outro empata-se. Evitar um "não", em primeira análise, pode parecer simpático e até educado mas em termos práticos resulta muito pior. Leva o outro a impacientar-se, a ter de insistir, a levar com desculpas standard e por fim a perguntar-se se o gesto é deliberado, não passando, nesse caso, de uma grosseira manifestação de arrogância. 

Aonde é que isto conduz? Seguramente, a nada que interesse.

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 10.03.19

Na sociedade atomizada do instagram e do facebook, podemos dispensar a presença física do outro, mas nunca a sua opinião sobre nós. Para viver em palco, precisamos de público.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Temos cadáveres no armário

por Teresa Ribeiro, em 08.03.19

Os cadáveres têm um problema. Não espalham fake news, nem cavalgam movimentos mediáticos para perseguir indiscriminadamente os homens. Limitam-se a ser.

Não por acaso, desta vez não há polémica no ar. As cavaleiras andantes, que noutras situações se apressam a defender o macho ibérico, não se manifestam. As militantes do Not Me (nome que inventei por oposição ao #MeToo), que desvalorizam as queixas das mulheres que denunciam assédios e discriminações, insinuando que só é vítima quem quer, calam-se.

À medida que este macabro cortejo engrossa, torna-se difícil sustentar que em Portugal, no século XXI, a misoginia é um epifenómeno instrumentalizado para efeitos de propaganda pelas lésbicas, galdérias e mal amadas do costume.

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 03.03.19

Não é raro suspirar, porque da sua prosa, tão pessoal, saem autênticas pérolas, mas ele também me faz rir, pois sentido de humor não lhe falta. O pior é que também me desperta inveja - sentimento reles, eu sei - da sua elegância de estilo. Para me redimir destes meus impulsos mesquinhos, partilho aqui e já a minha admiração pelo autor de A Página Negra, o blogue desta semana.

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No pasa nada

por Teresa Ribeiro, em 06.02.19

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Falta cerca de um mês para o Dia Internacional da Mulher, o dia em que todos os jornais falam dos problemas da condição feminina, desde a discriminação no trabalho à violência doméstica e no entanto quando passei de manhã pela banca dos jornais (ainda gosto de consultar as primeiras páginas assim, ao vivo e a cores), que vi eu? 

Manchete do i - "Já morreram mais mulheres, proporcionalmente, em Portugal do que no Brasil"

Manchete do JN: "Só num ano Estado apoiou 18 órfãos de violência doméstica (maioria dos casos são de crianças que viram a mãe morta pelo pai)

Manchete do Público: "Violência doméstica - 85% dos casos não resultam em acusação (no caso do duplo homicídio do Seixal, MP abriu inquérito apenas por coacção e ameaça)

Pois, houve mais um crime, particularmente chocante, daí esta concertação noticiosa. O Correio da Manhã, no seu estilo inconfundível, publica: "Monstro estrangula filha com as mãos (violência doméstica levou mãe da bebé a pedir ajuda à PSP)

Leio estas manchetes e penso nas negacionistas do "Not Me" (nome que eu agora inventei por oposição ao #MeToo), que tomam a sua experiência pessoal pelo todo afirmando que não se passa nada. Bem sei que a discussão há um ano acendeu-se por causa de uma situação muito menos dramática, a do assédio. Mas faz sentido separar os dois fenómenos? No país onde se mata mulheres que se farta o assédio não existe? E já agora, juntando outro tema que também é caro às negacionistas: a discriminação no trabalho, também é falácia?

A sério?

 

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Ambiente de trabalho IV

por Teresa Ribeiro, em 22.01.19

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Fala-se muito dos millenials, a nova geração que está a dar dores de cabeça aos empregadores por ser muito exigente, independente, e difícil de reter. Dizem que mudam de emprego como quem muda de camisa, que preferem não trabalhar a ser mal pagos e que valorizam o work-life-balance, ou seja, não estão dispostos a deixar-se consumir por cargas horárias excessivas. Desenvolver carreira numa determinada área já não é, para muitos deles, um objectivo. Quais camaleões, estão preparados para mudar de rumo a todo o momento, desde que tal resulte em maior qualidade de vida.

Ressentidos, muitos empregadores chamam-lhes egoístas e mimados. Acusam-nos de terem sido educados por pais que lhes deram tudo, algo que os transformou em seres desprovidos do mais leve espírito de sacrifício. 

A perspectiva dos monstrinhos egoístas é diferente. Queixam-se de serem alvo, por sistema, de propostas miseráveis, que fazem tábua rasa dos anos de formação académica que consumiram a preparar-se para ter uma boa vida. Dizem também que os salários que lhes propõem não asseguram autonomia. Olham para o mercado de trabalho e percebem que é o salve-se quem puder. Conforme o seu contexto e características pessoais, uns aprendem a competir sem ética, outros desistem e enveredam por uma adolescência sem termo (são os tão comentados nem/nem, que não trabalham nem estudam), outros ainda apostam num modo de vida alternativo, baseado no improviso, trabalho intermitente e estilo de vida frugal.

O que não se diz é que estes meninos relapsos não nasceram de geração espontânea. Na verdade millenials e empregadores são faces da mesma moeda. A cara e a coroa, o verso e o reverso desta nova cultura do trabalho.

Uns não existiriam sem os outros. 

 

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 30.12.18

 

À nossa escala, as árvores são um símbolo de eternidade.

 

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Postal de Natal II

por Teresa Ribeiro, em 20.12.18

No supermercado, secção de chocolates:

- Ajuda-me lá a escolher.

- Olha, estes são óptimos.

- Ah, nem pensar! São muito caros. 

- E estes?

- Está melhor, mas mesmo assim não quero gastar tanto.

- Ehehe! Forreta!

- Ouve, afinal qual é a relação que eu tenho com os filhos do Jaime? Nenhuma! Os miúdos não querem saber de mim para nada. Vejo-os só no Natal! Para que hei-de então gastar dinheiro com eles? Levo um chocolate para cada um, só porque parece mal não lhes dar nada! 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 16.12.18

Defender o quadrado há 13 anos, como Sofia Loureiro dos Santos faz, é desde logo um acto de resistência. Ainda bem que ela se mantém firme no seu posto, porque não lhe falta sentido crítico e um olhar atento sobre o quotidiano. Esta semana é o blogue que destacamos.

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Postal de Natal

por Teresa Ribeiro, em 14.12.18

No metro:

- Vais à tua irmã no Natal?

- Não sei, se for é só por causa da miúda.

- Ah, pois, a miúda vai protestar se não fores.

- Mas se for, digo logo que não posso estar muito tempo porque no dia seguinte é dia de trabalho!

- Boa! 

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Glenn em estado de graça

por Teresa Ribeiro, em 12.12.18

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                                                    A Mulher

Mal entrei, reparei que na sala – uma pequena sala de cinema de Lisboa – a plateia era quase exclusivamente feminina. Eram quinze mulheres para um homem. Sorri do presumível efeito dissuasor que um filme chamado “A Mulher”, no original “The Wife”, terá nas audiências masculinas. Se o título fosse “O Homem”, no original “The Husband”, o efeito no público feminino não seria igual, por razões culturais que curiosamente viriam a ser afloradas, minutos depois, na tela.

“A Mulher” é a adaptação cinematográfica da obra homónima de Meg Wolitzer e conta a história de uma mulher que nos idos de 60 desistiu de uma promissora carreira literária por acreditar que no mundo editorial, dominado por homens, jamais conseguiria vingar. Em vez de arriscar, escolheu ser a sombra do marido, um homem que não se inibe de lhe predar o talento. Cliché? Pode ser, mas Glenn Close – o filme é ela – consegue passar de uma forma tão intensa e todavia tão subtil a frustração, a dor do recalcamento, que não é possível vê-la apenas na pele daquela personagem. Ela encarna o mal larvar que anulou gerações de mulheres, soterradas pelo sexismo e pelos seus efeitos nas suas escolhas de vida. Conheci, conheço ainda hoje casos similares. Quem não conhece? Mulheres de asas cortadas rentes, presas ao estereótipo de cuidadoras, não raras vezes acabando a ser mães dos próprios maridos, eternas crianças ineptas, incapazes de tratar das minudências da vida. Visto assim o filme transmuta-se num comovente tributo a essas anónimas senhoras, pilares de pesadas arquitecturas familiares, musas exclusivas de génios, fazedoras de reis. Porém fá-lo sem pieguices, ou vestígios de demagogia e com Glenn Close em estado de graça.

Será desta que ela leva o oscar para casa?

 

Título original: The Wife

Realização: Bjorn Runge

Com: Glenn Close, Jonathan Pryce, Christian Slater

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 02.12.18

Na política, na economia, no convívio social, nos relacionamentos amorosos, nas relações laborais e até nos media,  nunca a verdade foi tão irrelevante como hoje.

 

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Mr. Facebook

por Teresa Ribeiro, em 15.11.18

Recebi hoje no meu email uma notificação do Facebook a avisar-me de que a minha prima (que morreu em Junho) faz hoje anos. É em momentos destes que se percebe até que ponto abrimos a porta à tecnologia digital para entrar na nossa vida. Fosse o Facebook um mensageiro humano e já muitos de nós o teríamos saneado por ser tão invasivo, tão insistente, tão presente, tão manipulador e por vezes, como hoje me aconteceu, chocante.

 

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Tradições

por Teresa Ribeiro, em 09.11.18

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Na China havia, como é sabido, a tradição de enfaixar os pés das meninas desde a mais tenra idade para que não crescessem mais que uns ideais dez centímetros. O sofrimento atroz que resultava da compressão dos ossos e das unhas por forma a impedir o normal crescimento do pé era justificado por motivos estéticos: um pé minúsculo era considerado mais atraente e os passinhos doridos das donzelas, a sublinhar a sua fragilidade, algo de muito erótico. Na  Índia, o costume de queimar vivas as viúvas junto à pira funerária do seu falecido marido (o sati), embora proibido, parece que chegou ao século XXI (há registos de sacrifícios realizados em 2006) nalgumas comunidades hindus. A excisão genital feminina, outra prática bárbara que impende sobre as mulheres, essa está longe de ser erradicada. 

As "tradições" são assim: difíceis de combater. Nem todas refletem o lado mais pérfido dos seres humanos, mas as que o fazem felizmente têm sido pouco a pouco desacreditadas pela civilização, embora - e esse é um traço comum - sob os mais vivos protestos das camadas conservadoras.

Os elos mais fracos - mulheres, crianças, idosos, pessoas doentes - têm sido ao longo dos tempos as vítimas preferenciais de muitos rituais, que sob falsos pretextos mais não fazem do que dar largas à agressividade larvar que faz parte da natureza humana. Mas se no mundo civilizado a que pertencemos a censura social já está perfeitamente estabelecida relativamente a maus tratos infligidos a outros seres humanos, quando se fala de animais, o consenso desaparece. Defender seres que estão abaixo da condição humana é subir mais um patamar civilizacional e isso demora tempo. 

Pessoas e animais não estão no mesmo plano, nem têm os mesmos direitos, mas a discussão não é essa. O que está em causa quando se fala de maus tratos a animais mais do que o sofrimento da vítima é a atitude do flagelador e a complacência que deve ou não existir face à crueldade que manifesta. No fundo é a tolerância relativa ao prazer da carnificina, ao gozo de provocar sofrimento num ser capaz de sentir com todas as fibras do seu corpo a atrocidade a que está a ser sujeito, que se discute. E essa é a questão de fundo da tourada. Algo que os aficcionados pretendem iludir quando falam da "arte do toureio". Mas de eufemismo em eufemismo a que se referem eles, quando elogiam a "festa brava"? À estética. Às chiquelinas, aos pasos dobles, ao confronto estilizado entre homem e besta. A visão crua da realidade, a de que no fundo gozam com a tortura de um bicho, não lhes interessa.

Fossem os toiros robots, as praças ficariam vazias. Porque a festa brava precisa de sangue. Sem sofrimento, sem aquela luta desesperada e inglória do bicho pela sua vida, não seria a mesma coisa.

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Ambiente de trabalho III

por Teresa Ribeiro, em 02.11.18

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As estatísticas sobre a quebra de rendimentos em Portugal, mesmo dos profissionais que têm elevados níveis de formação, são devastadoras. Segundo dados do INE, os licenciados ganham hoje menos 17,7% de salário médio mensal líquido do que há uma década. Anabela Carneiro, uma docente da Faculdade de Economia do Porto, citada há duas semanas pelo Expresso, revelou num estudo que em 2000 tínhamos 8% de trabalhadores a receber o salário mínimo; em 2015 já eram 21% e em 2016, 23,3%.

A comparação com o que se passa nos países da UE, deprime: Segundo os dados mais recentes da consultora Adecco, um português tem de trabalhar quatro meses para ganhar o salário médio de um dinamarquês. Apesar de a economia estar a crescer, a verdade é que os salários não descolam. Para um trabalho que fiz sobre este assunto há poucas semanas, tanto a Experis, empresa de recrutamento do grupo Manpower, como a Randstad, sua concorrente, assumiram que nem mesmo nas áreas altamente especializadas, em que há falta de mão-de-obra em Portugal, os empregadores estão dispostos a abrir os cordões à bolsa. Ou seja, entre nós, a lei da oferta e da procura não funciona. E essa, informaram-me, "é uma originalidade portuguesa".

Mas se há coisa que o empresariado indígena aprecia é mostrar que acompanha as novas tendências. Ultimamente tem revelado muito entusiasmo com uma das ideias que aparece vinculada à nova cultura do trabalho que nasceu com a tecnologia e os millenials: a de que a felicidade no emprego, algo reconhecido como fundamental para aumentar a produtividade, não depende apenas do salário. Entrevistas, artigos de opinião, seminários, andam a enxamear os media com esta ideia que de nova não tem nada, mas que parece que só agora calou fundo no espírito dos empregadores de todo o mundo civilizado. É claro que bom ambiente, reconhecimento, flexibilidade de horários e uma série de pequenas regalias são factores importantes para "reter talento", como agora se usa dizer, mas só fazem sentido se estivermos a discutir a situação de profissionais que auferem um salário que lhes permite pagar as contas e ter uma vida autónoma. Ver gente que prefere prescindir de trabalhadores que fazem falta a aumentar-lhes o salário salivar com esta estratégia é, simplesmente, patético. Excitados com a ideia de poupar mais umas coroas e enganar uns quantos tolos cultivando a imagem de empresários modernaças, não querem perceber o óbvio: que a receber uma miséria ao fim do mês, ninguém é feliz. 

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