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Delito de Opinião

Avilezas

Sérgio de Almeida Correia, 18.04.24

ppcoelho_pportas_miguel_a._lopes.jpg(créditos: Miguel A. Lopes/LUSA)

Tenho estranhado o silêncio, enorme silêncio, do PSD, dos seus antigos companheiros de partido e da direita em geral, com excepção de Manuela Ferreira Leite, às declarações proferidas pelo antigo líder do PSD e ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.

Desconheço se Passos Coelho ainda tem, e quais sejam, as suas ambições políticas. Não sei se pretende tomar de assalto o PSD a seguir às eleições europeias, se vai abandonar esse partido para se juntar ao Chega, se equaciona a formação de um novo partido ou se, simplesmente, naquele dia acordou com os pés de fora. Mas qualquer que seja a resposta, o que ficou registado não é bonito de se ver.

Independentemente do momento escolhido para a entrevista, e a quem foi, logo após apadrinhar a apresentação de um livro onde colocou em xeque o novo primeiro-ministro, antigo líder parlamentar e seu companheiro de partido, o teor do que disse sobre Paulo Portas, o actual PSD e Cavaco Silva, e as revelações que entendeu por bem fazer, levantam várias questões.  

Começa por colocar em causa o seu sentido de Estado; muito em especial a confiança que outros nele depositaram, e a confiança que aqueles que o ouviram terão de si no futuro.

Não é normal, mesmo para quem não ambiciona outros voos políticos, que um político faça as acusações que ele fez a um antigo parceiro de coligação e membro do seu Governo, meia-dúzia de anos volvidos, sem mesmo esperar que a poeira assentasse e se resguardasse numas futuras memórias.

Acusar Paulo Portas e o CDS de falta de solidariedade política – não tenho procuração de nenhum deles – sabendo que sem aqueles não teria vencido eleições, nem sido primeiro-ministro, dizendo perante os portugueses e o mundo que um ex-ministro de Estado, duas vezes, dos Negócios Estrangeiros, da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar que não era pessoa confiável, inclusivamente confessando publicamente um facto que, segundo o entrevistado, nem o visado tinha conhecimento, é um exercício de grande baixeza ética e política.

Esse juízo revela-se de tal forma hipócrita que me levou a pensar por que motivo, depois de ser ter “atravessado” por Portas perante a troika, e sabendo que essa pessoa não era politicamente confiável, e apesar de todos os problemas que lhe causou no Governo, ainda se apresentou de novo a eleições perante os portugueses integrando Paulo Portas e o CDS na coligação “Portugal à Frente”. Imagino, se tivessem chegado a governar, que o rol de queixas e confissões seria hoje um lençol muito maior. E mais imundo.

Depois, é natural que o modo como se pronunciou sobre aquele que foi o seu líder parlamentar durante anos, actual presidente do PSD e seu “companheiro” de partido, acusando-o pifiamente de querer “desconectar-se do passado”, enquanto dizia bem compreender a sua posição, tenha deixado incrédula Manuela Ferreira Leite. E certamente que muitos dos que o apoiaram ao longo dos anos e entusiasticamente o aplaudiram na apresentação do tal livro do homem das Neves e desse visconde de saias saído directamente da Baixa Idade Média para as páginas dos jornais.

Se a isto somarmos o que disse de Cavaco Silva, sublinhando que o ex-Presidente da República, quando se reunia com ele, Passos Coelho, “não sabia do que falava” e que “estava ultrapassado”, compreende-se mal o que quer dizer quando, ao referir-se ao PSD actual, enfatiza que tem uma “relação natural e descomplexada” e “o grande cuidado de não interferir”, pelo que a última coisa que queria era “criar constrangimentos”. Nota-se.

Não sei, à semelhança do que se passou nos tempos da troika, se Passos Coelho virá ainda corrigir o que disse, ou defender-se com uma deficiente interpretação das suas palavras pelos destinatários, mas como sempre desconfiei da bondade da criatura, e sempre achei que o homem não prestava, fico satisfeito, sabendo que vai andar a vaguear por aí, por ficarem todos cientes, em toda a plenitude, da sua formatação jotinha como político e homem de Estado.  

Nunca saberemos o que o futuro nos reserva, mas não há nada como ser o próprio a revelar-se perante os outros. Na primeira pessoa. Sem filtros. Os portugueses ficam a dever-lhe essa generosidade.

Art Basel Hong Kong 2024

Sérgio de Almeida Correia, 04.04.24

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Durante três dias, o Hong Kong Convention and Exhibition Centre foi invadido por mais de 75 mil pessoas que ao longo de horas, e algumas em mais do que um dia, percorreram aquela que é seguramente uma das mais importantes feiras de arte do mundo e a primeira da Ásia.

Não sendo um evento para todos, dir-se-ia, todavia, ser um acontecimento cada vez mais popular numa terra em que as mais recentes e recorrentes preocupações das suas gentes estão mais em saber até quando e em que termos será mantido o estatuto internacional de sua cidade face à novel e draconiana lei de segurança nacional. Até que ponto tudo o que é exibido, promovido e vendido é compatível com a governança patriótica e o espartilho da censura?

Não foi por isso, que dez anos volvidos, e passados que foram os dias negros da pandemia da Covid-19, que a Art Basel deixou de regressar àquela que já foi uma das mais belas, esplendorosas e apetecíveis cidades do mundo e que hoje não passa de uma sombra do que foi. Por momentos tornou-se possível voltar a viver dentro das paredes da feira de um clima de liberdade, tolerância e glamour que rareia em cada dia que passa.

As 242 galerias, de cerca de 40 países, que se predispuseram a comparecer, e onde não faltou uma pequena presença portuguesa, juntando o que de melhor se pode encontrar em Nova Iorque, Paris, Londres, Los Angeles, Berlim, Tóquio, Seul, Pequim, São Paulo, Bruxelas, Milão, Florença, Xangai, Madrid, Buenos Aires, Roma, Chicago, Munique, Genebra, Singapura, Viena, Zurique ou Dubai, entre outras cidades, com a sua indiscutível reputação no mundo da arte e a qualidade do que trouxeram, conferiram ao evento uma dimensão pré-covidiana que a muitos terá feito esquecer, por momentos, os tempos difíceis que se viveram na cidade nos últimos anos e que, em alguns aspectos, se continuam, e continuarão, a viver.

Apesar disso, foi possível ver obras que em Macau seriam certamente censuradas e escondidas dos olhos do público, ou confiscadas de alguns expositores, e que não deixariam de o ser por estarem assinadas pelos mais consagrados dos melhores.

E porque não há uma grande feira sem grandes negócios, também este ano houve obras que atingiram valores, significativos para alguns coleccionadores, astronómicos para o comum dos mortais.

Para se ter uma ideia do que foi negociado bastará referir que, por exemplo, a galeria Hauser & Wirth, no primeiro dia reservado a “VIP’s”, vendeu Untitled III (1986), de Willem de Kooning, por (valores em USD) 9 milhões, The Desire (1978), de Philip Guston por 8,5 milhões, e May the Lord be the first one in the car...and the last out, de Mark Bradford, uma obra de 2023, por 3,5 milhões. Outra galeria vendeu Constructed Female Portrait (2024), de George Condo, por 2 milhões, e Victoria Miro “despachou” 3 obras da japonesa Yayoi Kusama pela módica quantia de 11 milhões. Mas centenas, talvez mihares, terão sido transaccionadas por valores bem inferiores, mas sempre na ordem dos cinco e seis dígitos.

Dividida em seis sectores – Galerias, Insigths, Discoveries, Encounters, Kabinett e Magazines –, ocupando dois pisos, incluiu a exibição de 33 filmes de e sobre artistas e duas apresentações especiais no Teatro 2. O curador do programa dos filmes foi o produtor e artista multimedia Li Zhenhua. 

Entre os principais patrocinadores da Art Basel Hong Kong 2024 surgiram nomes como UBS, Audemars Piguet, Ruinart, San Lorenzo, La Prairie, Chubb e Swire, entre outros menores como BMW, Macallan ou The Peninsula.

Para quem não é coleccionador, não tem uns milhares para gastar em arte, e se limita ao deleite de ver, aprender e interrogar-se sobre o mundo em que vivemos e o que está exposto; por vezes também sobre o que se vê circular entre espaços, a Art Basel Hong Kong 2024 valeu bem a visita.

Até pela simples razão, quanto mais não fosse, de que pode não voltar a haver mais nenhuma oportunidade para se comprar um livro de Ai Wei Wei, na banca da Taschen, sem se estar a infringir a lei.

 

Blogue da semana

Sérgio de Almeida Correia, 30.03.24

Um blogue feito por quem lê é sempre bem mais interessante do que aqueles de quem não lê. Ou que se lê não se deixa dar conta de que leu. Porque quem lê sempre vai aprendendo alguma coisa, mesmo com os maus livros e os maus autores, já que a estes não voltará mais.

E se quem faz esse blogue se tratar de alguém que faz viagens na sua terra e nos vai dando a conhecer os seus passos, em especial aqueles de quem não os deu nos locais por onde aquele passa, ainda melhor.

E se a tudo isso se juntar a juventude e uns simpáticos interlúdios musicais, então estarão encontrados os ingredientes para que eu possa aqui recomendar-vos uma visita. 

É o que agora faço, deixando-vos o endereço do breve intervalo para quem também queira e possa fazer uma serena e repousada pausa enquanto não começar o festival de gritaria que se antecipa nas comissões parlamentares da próxima, e também ela breve, legislatura que se avizinha.

Critérios

Sérgio de Almeida Correia, 20.02.24

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Enquanto não for operada uma reforma da legislação eleitoral, que mantendo a segurança diminua a burocracia, reduza custos e assegure maior rapidez do processo de votação e escrutínio, lá começaram a chegar as cartas da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna contendo a documentação necessária ao exercício do direito de voto por correspondência, por parte dos cidadãos residentes no estrangeiro, para as eleições legislativas de 10 de Março.

Pode ser que desta vez, não havendo mais feriados e greves pelo meio, sejam contabilizados os milhares de votos que nas últimas eleições ficaram por contar.

Entretanto, gostaria de perceber qual a razão para que nos boletins de voto os nomes dos partidos e coligações que se apresentam a sufrágio surjam nalguns casos só em maiúsculas.

Quem olha para o boletim não pode ficar indiferente, visto que aquelas saltam de imediato à vista e, nessa medida, as forças concorrentes que têm o seu nome impresso exclusivamente em maiúsculas acabam por ser favorecidas.

Desconheço qual seja a magna razão que leva a que nos boletins de voto os nomes de "Nós, Cidadãos!", "Reagir Incluir Reciclar", "Bloco de Esquerda", "Iniciativa Liberal", "Juntos pelo Povo", "Ergue-te", "Partido Socialista" e "Volt Portugal" não surjam grafados nos mesmo termos em que aparecem "ALTERNATIVA 21", "ALTERNATIVA DEMOCRÁTICA NACIONAL", "ALIANÇA DEMOCRÁTICA", "CHEGA", "NOVA DIREITA", "LIVRE" e "PESSOAS-ANIMAIS-NATUREZA"? E a "CDU - Coligação Democrática Unitária" também é diferente porquê? Não faria sentido que os nomes surgissem todos uniformizados, com o mesmo tipo de letra e recorrendo a igual critério no uso de maiúsculas, tal como acontece com as siglas?

Animais

Sérgio de Almeida Correia, 01.02.24

(créditos: daqui)

Confesso que ainda estou chocado.

Nos últimos dias tenho pensado muitas vezes no que aconteceu. E só de pensar imagino-me a contorcer-me e a sentir o sofrimento atroz que foi infligido a um homem, preso, que condenado à pena capital em 1988 assistiu 34 anos depois ao falhanço, com sequelas, da primeira tentativa para a sua execução, cuja macabra concretização só ocorreu há alguns dias.

Da primeira vez, em Novembro de 2022, o desgraçado estivera durante quatro horas amarrado a uma maca para ser depois devolvido à sua cela devido à manifesta incompetência dos seus carrascos, incapazes de encontrarem uma veia adequada para lhe injectarem o líquido letal antes de expirar o prazo para execução da sentença de morte.

A opção, desta vez, passou por fazer do preso uma cobaia e matá-lo por asfixia usando uma máscara para onde foi bombeado nitrogénio. Fazendo-o respirar o gás e sofrer até que a asfixia fosse completa, de modo que pudesse viver cada segundo de agonia a plenos pulmões. Com outros a assistir ao espectáculo do sofrimento, como se este fosse uma espécie de justiça divina carregando em si a reconciliação e a esperança. 

É óbvio que quando um dos carniceiros que faz de Solicitor General do Alabama diz que o processo escolhido foi “o menos doloroso e mais humano que se conhece”, LaCour só mostra porque não passa de um primitivo saído do largo esgoto do trumpismo, com vasto cadastro em matéria de direitos humanos, que justifica a barbárie em pleno século XXI e os procedimentos macabros de execução do prisioneiro usando uma linguagem só compreensível para si e para cafres de igual linhagem.

Estranho, em particular, nesta miséria global em que vivemos e não conhece fronteiras, que tantas organizações devotadas à protecção e ao bem-estar animal não se tenham insurgido e manifestado em todo o lado e a toda a hora, com a mesma veemência com que o fazem contra as touradas, perante aquilo a que assistimos no Alabama, continuando todos sentados no conforto dos seus gabinetes, enquanto tomam um cafezinho e discutem a emergência climática com o vizinho que está de comando na mão a regular a temperatura do ar-condicionado ou a fazer zapping para ver as diatribes dos ignaros que por aí  se dedicam a invadir museus e a destruir património que pertence à memória de todos os povos, pensando que com isso arregimentam adeptos para a sua causa.

Tirando uma ou outra peça nos noticiários, um artigo nos jornais e as tomadas de posição de algumas organizações de defesa dos direitos humanos, esta selvajaria, que remete os EUA e a Humanidade para um estado pré-animalesco, onde desprovidos de tudo, de intelecto, da mais leve racionalidade ou de qualquer sentimento conhecido, nos dedicamos à grotesca exterminação da nossa própria espécie, infligindo o maior sofrimento possível ao condenado, sem qualquer ponta de compaixão ou remorso, aconteceu sem que as nações que se consideram civilizadas se levantassem em uníssono a condenar o sucedido.

Ignorou-se a imposição de sanções, como tantas outras vezes se faz por questões menores, a começar pela União Europeia, e esqueceram-se de colocar os carniceiros numa qualquer lista de pessoas a evitar, impedindo-as de viajar e entrar em países terceiros, sujeitando-as internacionalmente a perseguição criminal.

Como se LaCour ou os executores do homicídio de Kenneth Smith fossem melhor que os projectistas da "Solução Final", os funcionários de Treblinka ou de Auschwitz-Birkenau, os suicidas do Hamas, os seus sósias da IDF, os carniceiros putinescos, a escória fardada do Mianmar, os talibãs afegãos, ou tantos outros vermes que andam por aí à solta sem que nada lhes aconteça.   

Sim, porque se mais não se ouviu da parte dos defensores e das organizações protectoras dos direitos dos animais, não terá sido por falta de vontade, de meios ou de megafone, mas antes porque a preocupação com os maus-tratos às galinhas ou aos bovinos, inteiramente devida, certamente terá uma qualquer outra dimensão, inatingível para mim, que a torna incompatível com a protecção da nossa própria espécie e os remete ao silêncio.

Uma democracia que se preze, um Estado de direito, um país que queira ser visto pelos outros como civilizado e desenvolvido, não pode continuar a conviver com a pena de morte como se fosse uma qualquer teocracia fundamentalista ou uma dessas autocracias "democráticas" da Ásia. Muito menos permitindo execuções com o grau de sadismo imposto ao condenado do Alabama.

É em momentos como o que correu nos EUA que sinto verdadeiro asco por alguns dos meus semelhantes; como se não fossemos todos da mesma espécie, não tivéssemos direito a respirar o mesmo ar, numa espécie de sentimento misto de desprezo e revolta que com todas as forças procuro combater, para não ser como eles, e que jamais conseguirei compreender. 

Antes o regresso à guilhotina, ao tiro na nuca ou ao pelotão de fuzilamento.

Ferrari

Sérgio de Almeida Correia, 30.01.24

Tirando o facto de ser falado em inglês e Il Commendatore ser um cepo nessa língua, mostra bem o que foi o culto das Mille Miglia e porque tantos durante tantos anos se renderam aos seus encantos.

Belíssimas imagens, uma sonoridade invulgar de motores que deixaram muitas saudades, destacando-se os papéis de Adam Driver, da sempre espantosa Penélope Cruz e do jovem que se assume como Piero Lardi Ferrari. A caracterização de Carlo Chiti, com quem me cruzei algumas vezes, está excelente. 

A sequência final, após o acidente de Guidizzolo, embora espectacular, ficou um pouco aquém do que antecedeu e surge como uma quebra na narrativa. Mas nem por isso deixa de ser um belo filme de Michael Mann, concluído, curiosamente, no ano em que a Ferrari venceu a Corrida do Século.

A ver, e talvez a rever se houver tempo para apreciar alguns detalhes.

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Vícios privados, públicas virtudes

Sérgio de Almeida Correia, 26.01.24

57 Ilustrações de Capela sistina | Depositphotos

O cancelamento pela direcção do Instituto Cultural do espectáculo "Made by Beauty", inserido no Festival Fringe, ontem dado a conhecer pela rádio e televisão e hoje largamente divulgado pela imprensa, é mais um sinal da regressão social, política e cultural a que temos vindo a assistir na RAEM desde que deixou de ser governada pelas suas gentes e os pseudo-patriotas se assenhorearam dos seus destinos.

Estamos perante uma manifestação da mais acabada censura e um ataque de puritanismo hipócrita, bacoco e medíocre numa cidade em que se não fosse a convivência ao longo dos séculos entre múltiplos costumes, culturas e "vícios" que lhe moldaram o carácter e a fisionomia, internacionalizando-a sob múltiplas formas, da literatura à poesia, e da pintura à gastronomia, ao cinema e ao desporto, nunca teria atingido o estatuto que tem e que o Governo não se cansa de reafirmar que se quer cosmopolita, aberta ao mundo e um "centro mundial de cultura e lazer".

Quem o afirma, percebe-se por decisões tão estapafúrdias quanto esta, não tem a mínima noção do que diz, desconhece Macau e a sua história e o sentido do conceito que apregoa como se fosse uma mezinha para todos os males que nos afligem.

Em Macau sempre houve locais e espectáculos para todos os públicos, muitos com nudez integral e frequentados por altos responsáveis políticos e administrativos, antes e depois de 1999, e que se ultimamente desapareceram não foi porque se tivesse subitamente transformado numa espécie de Sodoma ou Gomorra, mas sim devido aos sucessivos ataques de ignorância, alimentados por um conjunto de parolos, subsídio-dependentes e bufos de língua acastanhada, que muito têm contribuído para a sua progressiva descaracterização e estupidificação. Do ensino aos costumes.

O espectáculo em causa foi publicitado, pelo menos desde 23 de Dezembro de 2023 na Internet, numa página oficial do Governo da RAEM, e também noutra do Instituto Cultural, aí se dizendo claramente, que "num mundo disparatado é preciso ser-se atraente", e que incluiria "lábios vermelhos, costas profundamente decotadas, minissaia, meias de vidro pretas, saltos altos", convidando-se a audiência "a explorar os conceitos universais da atracção física", colocando de lado "a moralidade e a racionalidade". Acrescentava-se ainda que era um espectáculo para maiores de 18 anos, adultos, portanto, e que continha "linguagem obscena e nudez que poderão ofender a sensibilidade de alguns espectadores". Não havia aqui nada que enganar, só iria quem quisesse e crianças não podiam entrar, pelo que se fica sem perceber se os responsáveis do Instituto Cultural estavam à espera de um espectáculo de catequese ou com a Heidi e o avôzinho. 

O cancelamento do espectáculo "Made by Beauty", independentemente dos respectivos méritos ou deméritos, é de tal forma incompreensível porquanto essa mesma performance já teve lugar em cidades do Interior da China, tendo mesmo sido incluído em Outubro e Novembro passado no Festival de Teatro Shekou que ocorreu em Shenzhen.

Não houve, evidentemente, qualquer divergência ou incompreensão em relação ao conteúdo, pelo que bem andaram Sarah Sun e o grupo Utopia de Miss Bondy de recusarem mudar "a cor das collants dos bailarinos", de não aceitarem a proibição do uso de dragões, por não poderem ser utilizados “de forma sexy” (!), ou a substituição de “adereços de pénis por um copo de vinho”.

A progressiva infantilização e imbecilização da sociedade de Macau, tão patente nos anúncios, avisos e publicidade de organismos governamentais e do IAM, vai assim continuar, juntando à censura de opinião crítica nos jornais, rádio e televisão, a censura às manifestações artísticas e culturais, sinal da regressão idiota que nos levará inexoravelmente a um sub-sistema, nem capitalista nem socialista, gerido por puritanos e patriotas de alcova que se escandalizam quando vêem uma "drag queen" de collants num espectáculo para adultos, mas depois consideram normal, como já se ouviu na Assembleia Legislativa, dar uns tabefes na mulher se ela se portar mal, manter concubinas em várias cidades e vasta prole fora do casamento, por vezes escondendo os filhos, admiram o jogo e tudo o que lhe está associado, embora depois não faltem a uma missa, a papar hóstias ou a desfilarem compungidos na procissão do Senhor dos Passos, e sejam os primeiros a impor a moral e os bons costumes na escola e no espaço público de admissão reservada.

Enfim, nada que seja muito diferente daquilo que fez há séculos o Papa Paulo III, Alessandro de Farnese, que sendo cardeal ficou conhecido, entre outras coisas, por proteger e promover a sua própria família, fazendo-a enriquecer e levando uma vida dissoluta, na qual arranjou uns quantos filhos por detrás da porta, mas depois indicou Biagio de Cesena, um palerma pedante, para vigiar o trabalho de Miguel Ângelo, mandando-o cobrir partes dos corpos das figuras e criticando os desenhos "obscenos" da Capela Sistina, pintados por aquela que terá sido, talvez, a mais espantosa figura da Renascença, símbolo maior da arte, da verdade, da inteligência, da humildade e das verdadeiras virtudes da Humanidade.

Tempos de felicidade, e estes sim obscenos, são aqueles que hoje vivem os residentes de Macau, naquela que será mais uma prova do indiscutível cumprimento da Declaração Conjunta Luso-Chinesa e da luz que emana da forma como a Lei Básica está a ser cumprida e se tem aprofundado o princípio "um país, dois sistemas".

Tão aprofundado que nalguns momentos até parece ter caído ao fundo de um poço.

Uma novela escabrosa

Sérgio de Almeida Correia, 11.01.24

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Em tempos já me tinha mostrado preocupado com o papel (não me refiro a dinheiro) que alguns "empresários" locais desempenham e com a imagem que transmitem de alguns "negócios" em que se envolvem. Foi em 2019 e estava em causa uma crónica de Diniz de Abreu sobre "O descalabro da Global Media". 

Entretanto passaram-se mais de quatro anos. O descalabro, se tal é possível, agravou-se, e estamos a assistir à continuação de uma escabrosa novela, sempre com um conhecido empresário local e destacado patriota na ribalta. 

Que o negócio da Global Media e alguns "investimentos" em Portugal começavam a cheirar mal não constitui novidade.

Que o nome do principal accionista do grupo Global Media volte à tona também não.

O que representa novidade é saber-se, de acordo com o que foi dito por José Paulo Fafe na audição que decorre na Assembleia da República, que tenham sido descobertas dívidas no valor de "2,1 milhões [de euros] em Macau e 700 mil euros em Malta em empresas de jogo 'online' que nunca funcionaram, ou melhor, de licenças de jogo 'online'".

Haverá sempre a possibilidade de se leiloar a Medalha de Mérito Industrial e Comercial para pagar alguma coisa, mas as afirmações são suficientemente gravosas para deverem ser devidamente esclarecidas. É que fiquei sem perceber se a dívida de 2,1 milhões em Macau diz igualmente respeito a empresas de jogo 'online' que nunca funcionaram ou a licenças de jogo 'online'. 

Não é por nada, mas independentemente de continuarem actuais as perguntas que formulei em 2019 [No fim, a gente revê o filme e só pergunta, entre nós, aqui, que contribuição deu Kevin Ho, através da Global Media, para a credibilidade e prestígio dos empresários de Macau? E aos investimentos chineses na Europa? Que confiança se transmitiu?], a coisa fede, sendo ademais conveniente recordar que também por causa do jogo online e outros "cambalachos" similares há quem esteja na RAEM a cumprir pesadas penas de prisão.

E todos eles foram patriotas, durante anos a fio, enquanto havia cacau para fazer o chocolate que era depois distribuído por outros patriotas que ultimamente, sabe-se lá porquê, até clamam, para espanto meu que sempre os conheci avarentos, discretos e mudos, por portais de transparência e, imagine-se ao que isto chegou, querem saber os critérios, as razões e os valores das adjudicações nas obras públicas.

Ou me engano muito ou deve estar na altura de um conhecido advogado de Macau prestar mais um serviço caritativo, escrevendo novo artigo no Diário de Notícias. Antes que o jornal feche ou acabe a gestão patriótica da Global Media.

A internacionalização tem os seus custos. Aquele senhor que queria transformar Tróia numa espécie de Marbella e estava a fazer um hotel e um casino em Cabo Verde que o diga. Às vezes é preciso meter algum "kumbu". Não é o mesmo que dar entrevistas à imprensa local destinadas a talentos.

[daqui]

Confessionário

Sérgio de Almeida Correia, 03.12.23

Esta tarde estive a ler um livro de amigos oferecido por um amigo. Dei comigo a pensar neles. Nos amigos. E nelas. Na distância a que estou de muitos, nos aniversários que tenho perdido, nas horas infindas de conversa e cavaqueira, nos disparates, nos dias, almoços, jantares e noites que acabam para podermos descansar e começar outro dia, nas discussões, nos risos, nos abraços, nos beijos que trocámos ao longo de uma vida, nos olhares cúmplices, no riso sincero, desprendido, nos segredos que guardamos, na confiança que temos, na teimosia, tantas vezes, com que nos brindamos mutuamente. Nas críticas, nos amuos, na forma como nos olhamos, respeitamos, amamos. E tantas vezes nos perdemos para sempre nos reencontrarmos. Há tempos vi um num supermercado, a milhares de quilómetros de casa. Fazia perguntas à operadora da caixa enquanto guardava as compras. A T. reconheceu-o, mais velho, ao fim de uma data de anos, pelas perguntas que fazia à sujeita. E atirou-lhe com ar sério um "o senhor nunca mais se despacha?". A senhora do supermercado, que ia respondendo às perguntas a ver se o fulano se ia embora, sorriu e riu-se para dentro. Deve ter rido com gosto. Pudera. É preciso ter lata. O tipo, mais velho, levantou os olhos, sem perceber o atrevimento. Começou a rir-se, deu-me um abraço quando me viu, ao fim de mais de 20 anos. E perguntou-me se continuava a escrever. Sim, continuo. E tenho os mesmos amigos. E mais uns, mais recentes, tão bons como os antigos. Penso muito neles. E nelas. Algumas também meias-irmãs, outras ex-semi-namoradas. Amigas. Amigos. Têm tomado conta de mim ao longo da vida. E feito de mim o que sou. Gosto muito dos meus amigos. É uma confissão. Uns são mais velhos, outros mais novos, uns mais sisudos, outros mais impertinentes, também há alguns que são do Porto, outros do Sporting. Atrevidos e atrevidas. Uns com mais lata que outros. E adeptos de clubes indescritíveis. Uns palermas nessa matéria. Mas também são meus amigos. E há alguns que não percebem nada de carros e não gostam de velocidades. Outros ainda abanam a cabeça, mas não me dizem nada, quando compro um Alfa Romeo. Lá no fundo não percebem o que eu vejo naqueles carros. E porque vou a Le Mans todos os anos. Essa é a parte misteriosa de quem vive muito depressa. Também escrevo muito depressa. Felizmente que ainda tenho tempo para fumar um charuto. De vez em quando. Com os amigos. E alguns não fumam, embora fumem comigo. Com os olhos. E depois rimo-nos muito. De outras vezes fumo sozinho. Também penso neles. Sozinho. Às vezes choramos. Eles não. Eu choro. Porque também sinto a distância dos que estão longe. E dos que partiram. Hoje também me lembrei do M. que está no Porto. Ainda lhe devo uma resposta ao último email. Vai por aqui. Há pouco lembrei-me de todos eles quando comprei um quadro da minha sombra. Como a do Livro de Curso. Igual ao do Almada que estava na Gulbenkian. Com o Pessoa. Obra do Vítor Marreiros. Depois o Vítor telefonou-me, porque aquele quadro não era para vender. O fulano da galeria não sabia. O que levei tinha defeito. O Vítor disse que aquele não era para mim. Havia umas letras que estavam trocadas. O meu é outro. Está no atelier dele. Com as letras todas. Quando tiver o certificado para mim fazemos a troca. Ele fica com o das letras trocadas, eu fico com o dele que não estava na galeria. Não conheci nenhum amigo do Fernando Pessoa. Nem dos seus heterónimos. Eles é que me conheceram. Também são meus amigos. Quando os leio, às vezes mesmo quando vou pela rua, acho que eles me vêem. Aqui não é superstição. É crença. Os amigos vêem-me. Às vezes há uns que me dão uma sova quando lêem o que eu escrevo. Têm mais medo do que eu. Eu sei. Sou um irresponsável. Eu nunca tive medo. Mesmo quando estou sozinho tenho amigos que zelam por mim. E há umas que até rezam. A Mélita era uma delas. Deixou muita saudades. Eu também tenho muitas saudades. Dela e dos meus amigos. Quando não estou com eles. Vale-me uma amiga que está sempre por perto e que tem dias em que me azucrina a mioleira. Não presto atenção às coisas. E diz-me. Não a levo a mal. No fundo gosta de mim. É minha amiga. Depois queixa-se das suspensões dos carros. É a mais atrevida. Os outros não dizem nada. Os carros também não. No dia em que me for embora vou ter saudades dos meus amigos. Deles e da minha liberdade. Espero que eles não se chateiem. Ainda eram capazes de me ir buscar ao Guincho e acabava-se o meu sossego.    

 

(Daqui para aqui)

Blogue da semana

Sérgio de Almeida Correia, 03.12.23

Como concedo cada vez menos tempo à leitura de blogues novos, tendo a revisitar os que já conheço e onde sei o que em regra vou encontrar. De vez em quando há um ou outro que emudece e aí volto a circular. Foi o que me sucedeu há dias e dei com um blogue por onde há muito tempo não passava, embora publique regularmente desde 2007.

Começou com um registo mais pessoal e intimista, mas a Maria João escreve fundamentalmente sobre livros e cinema, que é o que mais aprecio.

E tem o bom gosto e a virtude – terá outras certamente que eu não posso confirmar porque não nos conhecemos, mas esta posso garantir – de ver com olhos de ver o cinema de Moretti, e de ter gostado de Nápoles, o que é coisa rara para muita gente, para além de escrever muito bem. Simples, sem floreados desnecessários.

Não sei se alguma vez terei uma gata, mas confesso que desta, embora nunca me tenha sido apresentada, gosto bastante. A Gata Christie é a minha escolha desta semana. Passem por lá que vale sempre a pena.

A dificuldade não está na rejeição

Sérgio de Almeida Correia, 01.12.23

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Algumas pessoas ficaram admiradas com o resultado da sondagem da Universidade Católica/Público/RTP, dada a conhecer no passado dia 28 de Novembro. Ainda todos estão lembrados dos resultados de outras sondagens aquando das últimas legislativas e do que veio a acontecer. O país não quis saber de empates técnicos nem de vitórias tangenciais e resolveu entregar uma maioria absoluta a António Costa. Por essa razão convém moderar as análises e o ímpeto das conclusões.

Ainda assim, atrevo-me a dizer publicamente o que penso, arriscando a crucificação num pelourinho por delito de opinião.

E neste momento em que se discute a liderança do PS e todos os outros partidos se afadigam a prepararem-se para as eleições – alguns na mira de conseguirem adiar por mais algum tempo o seu próprio funeral – parece-me evidente que a golpada marcelista, amplamente favorecida pelo descalabro da governação (seria difícil encontrar outro termo para o desastre que foi, salvo raríssimas excepções, a performance do XXIII Governo Constitucional), poderá vir a revelar-se como uma bênção para a reforma do sistema político e eleitoral. De uma assentada, os portugueses podem abrir caminho para se livrarem de quase todos os pantomineiros que fazem hoje a maioria da classe política que nos trouxe até ao imbróglio em que estamos.

Dos diversos cenários apresentados pela sondagem acima referida, algumas conclusões são inequívocas: i) Os portugueses não gostam de radicais; ii) Qualquer que seja o cenário dispensam Luís Montenegro; iii) Pedro Nuno Santos (PNS) não lhes merece o aval da confiança.

Quanto à primeira não constitui novidade. O país reconhece-se ao centro na extensa faixa que vai da democracia-cristã/liberalismo/social-democracia até ao socialismo democrático mais ou menos esquerdista.

Depois, em relação ao líder do maior partido da oposição, o PSD, verifica-se que apesar de tudo o que aconteceu com o Governo e com o PS, Luís Montenegro não consegue melhor do que um resultado sofrível qualquer que seja o cenário.

Não é de estranhar. Chegou a líder por ser tão anódino quanto foi deputado ao longo dos anos, sem um lampejo que o resgatasse à mediocridade carreirista da JSD ou da seita aventaleira que o ajudou a crescer. E agora que se vai apresentar a eleições traz consigo, como se viu no congresso do passado fim-de-semana, um camião com um atrelado de sarcófagos de onde vão saindo umas múmias que não deixaram saudades. Que seja castigado e as sondagens não lhe sejam particularmente favoráveis depois de tantos anos de PS no Governo não é uma fatalidade.

Mas se o teste havia de chegar com as eleições europeias ou com as autárquicas, o Presidente Marcelo fez o favor às hostes laranja de anteciparem o futuro e se livrarem de Montenegro e da sua tralha bem mais cedo, pois que quanto mais depressa o PSD iniciar a sua renovação e posicionar uma nova geração de líderes, que seja recrutada noutro lado que não seja entre as levas de imperiais do Ribadouro, menos difícil será construir uma alternativa na área política do seu eleitorado, colocando um ponto final na balbúrdia venturista à sua direita.

Em terceiro lugar, há o problema PNS para resolver. Este é um problema interno do PS e que só terá solução, acreditemos que sim, se nos próximos dias 15 e 16 de Dezembro os militantes socialistas o resolverem.

Os resultados da sondagem explicam por que razão é que PNS não quer debates com os outros candidatos à liderança do partido. Não se trata, evidentemente, de evitar dar trunfos à direita, mas sim de evitar o debate político e fugir do confronto com as suas próprias contradições, com o cataventismo socratista e a vacuidade petulante e oportunista do discurso.

Em 2017 (não vale a pena recuar mais), PNS, que já era crescidinho, afirmou que "O PS nunca mais irá precisar da direita para governar". Em 2018 sublinhou que "o PS não está refém da direita para governar". Depois, quando anunciou a sua candidatura, começou por atacar o candidato José Luís Carneiro, acusando-o de não ser suficientemente combativo contra a direita e vincando que com ele "o PS não vai ser muleta de ninguém", esclarecendo que o seu foco e o da sua candidatura "é derrotar a direita e não mais do que isso", antes de entrar na contabilidade cacical de saber quem apoia quem.  Como se esta tivesse interesse para alguém com excepção dos bípedes que ficam com insónias ante a perspectiva de não saberem quem apoiar para manterem os tachos dentro do partido e fora dele.

Bastou passarem dois dias, depois de acusar JLC de desvio direitista, e logo começou, de mansinho, a chegar-se para o centro, não fosse o diabo tecê-las. Daí que tivesse saído a terreiro para dizer que "o diálogo à direita e ao centro é fundamental" e que "há matérias onde o entendimento com o PSD é desejável e importante" (quais?), ao mesmo tempo que dizia que "a memória da geringonça é boa". Ora bem. E ainda disse que até a uma coligação pré-eleitoral não fecha portas. Colocou a primeira cereja no topo do bolo da coerência, qual franciscano, com que pretende desfilar nos próximos dias. 

Em rigor, para PNS o que é preciso é estar em todas, com todos "e com todas" desde que isso lhe garanta o poder. E se possível também com "todes", que foi para isso que o talharam, no "berço de oiro", na humilde loja do sapateiro, e em especial no albergue onde lhe construíram as ambições conforme as ocasiões.

Percebe-se, ademais, qual o motivo para que directas abertas, como mostram as sondagens, também sejam dispensadas por PNS, pois que é muito melhor deixar a escolha do líder do PS nas mãos dos caciques que controlam as concelhias e o aparelho do que confiar na decisão dos simpatizantes que não têm tempo para a militância e dos quais dependem os resultados eleitorais do partido.

Como lá mais acima dizia, se os militantes socialistas quiserem dar um contributo ao país poderão começar por se livrarem de PNS, mandando-o tomar conta das empresas familiares, de maneira a que não mais tenha necessidade de esconder os carros quando for para a campanha eleitoral. Esta é uma oportunidade única e irrepetível. 

Seria uma pena se os portugueses, que de uma assentada se podem livrar do neo-socratismo e do basismo cavaquista e passista, encetando um caminho de renovação das suas elites políticas, não aproveitassem os ventos fortes que sopram de todos os quadrantes, e a chuvada que se prepara nos próximos dias, para lavarem o terreiro e removerem de lá toda a barracada de feira que se foi instalando, dispensando os vendedores de tapetes, ligaduras e sarcófagos, os milhares de arrumadores e de traficantes de influências, os penduras de ocasião, a malta das sementes dos vários tipos de relva, enfim, livrando-se de toda a tralha de gigantones, coristas e emplastros acumulada nos últimos carnavais. 

Henry A. Kissinger (1923/2023)

Sérgio de Almeida Correia, 30.11.23

statesman_2.png.bmp(créditos: daqui)

Nos bons e nos maus momentos esteve com todos e contra todos, com inteligência, ignorância e muito cinismo.

Uma vez convidaram-me para estar presente num dos seus doutoramentos honoris causa. Até hoje não estou certo se acreditava numa palavra do que pensava, do que dizia e do que escreveu.

Mas o seu legado é incontornável. Outros o julgarão. Não faltarão entendidos a dissertarem nos próximos dias, em todos os canais de rádio e de televisão, em tons laudatórios, sobre as suas múltiplas qualidades. Eu limito-me a certificar o óbito do século XX. E olhando à minha volta, para o que se passa no mundo, também não sei se isso será bom.

Ninguém tem o dom de adivinhar o futuro. Ele também não o teve, e por várias vezes tentou interromper o curso da história, treslendo e ignorando os sinais.

Apesar disso foi capaz de escrever muitos sumários. Alguns péssimos. Em Timor não deixará saudades. Outros, felizmente, como no caso português, não se concretizaram. Não ficámos entre Santiago e Havana. Voltámos a ser europeus. De corpo inteiro. E não lhe devemos isso.

Que descanse em paz.

Tudo do avesso

Sérgio de Almeida Correia, 24.11.23

konstantin-2-696x793.png(Konstantin Bessmertny)

É natural que a Procuradora-Geral da República possa dizer com toda a naturalidade "Não me sinto responsável por coisa nenhuma", o que aliás parece não ser coisa nova lá para os lados do rectângulo.

E estou em crer que é uma visão partilhada, comungada e subscrita por todos os que por ali tudo cumprem escrupulosamente sem que ninguém seja responsável por coisa nenhuma.

Veja-se, por exemplo, o Conselho de Estado de onde sai tudo, ninguém confirma, todos se desmentem, sem que ninguém viole as suas obrigações de sigilo.

E deve ser tudo tão natural que até é um juiz, titular de órgão de soberania e sindicalista, quem vem publicamente fazer de defensor oficioso da actuação do Ministério Público, não obstante as minhas dúvidas sobre se isso será compatível com o dever de reserva que sobre ele impende e decorre do respectivo estatuto.

Mas depois de ver magistrados jubilados, um deles conselheiro, a exercerem funções pouco compatíveis com o seu estatuto e, pelo menos num caso, sem o conhecimento do CSM, em Macau, presumo que tudo isso devam ser apenas consequências menores de frases infelizes, minudências, bizarrias e disfuncionalidades sistémicas da alegre vida das corporações e dos partidos que cuidam de nós.

 

P.S. Então e o Sócrates publica as memórias antes ou depois de ser julgado? Temo que, entretanto, ao tempo que as coisas duram, também fiquem todos afectados pelo Alzheimer, como o outro. 

Um futuro sem história

Sérgio de Almeida Correia, 21.11.23

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(créditos: Leonardo Negrão/Global Imagens/DN)

Com directas marcadas para Dezembro, congresso para Janeiro e eleições legislativas em Março de 2024, toda a casta de dependentes do patriarcado socialista começou a movimentar-se para segurar o melhor lugar junto às diversas manjedouras que os senhores do Largo do Rato têm espalhadas pelo país.

É isso que neste momento justifica a corrida desenfreada do eterno jovem fedayin, Pedro Nuno Santos, e da sua trupe, perante a perspectiva de faltarem acólitos, de os fiéis necessários ainda não estarem garantidos, e a tão desejada entronização acabar num rodízio para sambistas de fio dental.

O andor não saiu da igreja para chegar ao adro e o candidato a papa da seita já envergou o pluvial e saiu porta fora para ver quantos são os fiéis que aguardam a passagem do cortejo.

Foi por essa razão que o ouvimos dizer, naquele estilo que o tornou célebre de terrorista a ameaçar banqueiros, ter num curto espaço de tempo reunido o apoio de “199 coordenadores concelhios socialistas em território continental, num total de 277, o que representa cerca de 77%”. Notável.

Para quem a arrumação das contas sempre foi uma versão do inferno, uma coisa que só atrapalha a acção da comissão de festas e a organização do arraial dos santos populares, não deixa de ser curiosa a sua recente preocupação com os números

Ao invocá-los, Pedro Nuno Santos (PNS), que na verdade aspira a ser o novo Kim Jong-un do socratismo kimilsunguista, mais não está do que a apelar às células prenhes de gula de alguns camaradas que ainda com o prato cheio de lentilhas se apressam a ver como hão-de garantir a próxima ração, não vá antes sair-lhes um carneiro na rifa que lhes dê cabo do pasto.

O candidato PNS está convencido de que é por reunir muitos apoios fora do templo e nos seus anexos que vai ser o sacerdote-mor, esquecendo-se de que Sócrates em 2004 conseguiu quase 80% dos votos, em 2006 foi reeleito com 95%, quando nem adversários tinha nas Federações, em 2009 obteve 96,43%, sendo de novo reeleito em 2011 com 93,3%, isto exactamente antes de lhe oferecerem um ábaco, o fulano ficar sem rebanho, se dedicar à ciência, começar a encomendar teses e a pedir que lhe esgotassem os livros nos escaparates.

Esses apoios são, aliás, muito enganadores, bastando para tal ouvir o pregador Assis e recuperarmos, igualmente, o que aconteceu com Vítor Constâncio, eleito com 83% dos votos, e com Seguro, de quem diziam ter o apoio da maioria das distritais e se fez eleger com 70% dos votos dos militantes. De que lhes serviu? Veja-se o que fizeram com tanto apoio, como fizeram, e o que no fim lhes fizeram os apoios dos gangues que os rodeavam.

O jovem fedayin estará, apesar disso, ignorando a história a que apela para reerguer o templo e dar asas à imaginação, entusiasmado como está a iniciar a sua subida vertiginosa debaixo de tanto holofote, empurrado por milhares de cavalos, não tanto por uma rampa em cujo cimo encontrará um olimpo recheado com dezenas de virgens à espera de uma boleia na desengonçada traquitana a vapor em que se faz transportar, e com que se propõe reformar a geringonça do antecessor e assim dar boleia aos pastores reconvertidos de outras seitas que o aguardam na berma da estrada, à sua esquerda, mas para o inevitável espalhanço que se segue a quem vai atestar o depósito e, à semelhança de um genial Bava, se esquece de engatar a máquina e puxar o travão de mão enquanto vai receber a comenda que ostentará na descida.

É, pois, verdade ser ainda muito cedo para se perceber quem no fim rirá melhor, qual dos candidatos chegará ao altar com as vestes inteiras.

Mas de uma coisa, estou já convencido, poder-se-á PNS com razão orgulhar na contabilidade que faz: é que em matéria de sacristãos, vendilhões e arguidos, se a minha contagem não estiver errada, pelo menos em relação aos que recusando de Conrado o prudente silêncio, entretanto, se manifestaram em praça pública, é ele quem segue à frente. Muito à frente.

E isto não é de todo despiciendo – para quem torce o nariz às contas – na hora de se preparar o orçamento para a forragem que o Presidente Marcelo quer que se distribua antes do final do Inverno.

Nessa altura ainda os prados não terão voltado a estar verdes, floridos e cheirosos, com pasto suficiente para todo o gado que haverá que alimentar e que, com IVA, sem IVA, com caixas de vinho cheias de notas, às cavalitas do Moedas ou à pendura do Mais Habitação e das argoladas dos videntes do Ministério Público, vem a reboque da traquitana.

Não há pés que cheguem

Sérgio de Almeida Correia, 15.11.23

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A proposta do governo para subir o IUC aos veículos mais antigos e poluentes não vai mesmo acontecer. O PS, que tem a maioria do Parlamento, apresentou uma proposta para eliminar a medida do Orçamento do Estado para 2024 (OE2024), defendendo que é “uma questão de justiça social e proteção dos cidadãos com maior vulnerabilidade económica”.

Na proposta de alteração apresentada esta terça-feira pelo grupo parlamentar do PS, os socialistas defendem que “o veículo ligeiro é em muitos casos ainda a principal forma de deslocação para o trabalho ou para deslocação até ao meio de transporte público mais próximo, principalmente fora das principais cidades do país e em zonas de média e baixa densidade, onde a oferta de transportes públicos é reduzida e desadequada às necessidades diárias de mobilidade”.

“Nestes casos, em que o carro é uma absoluta necessidade, acresce o facto de muito cidadãos não terem meios financeiros para a substituição por um veículo mais recente. Assim considera-se importante por uma questão de justiça social e proteção dos cidadãos com maior vulnerabilidade económica, retificar a proposta de OE neste sentido”

O primeiro-ministro tinha anunciado no debate na generalidade do Orçamento, no parlamento, que em 2024 e 2025 haverá um travão que limita o aumento do IUC a um máximo a 25 euros, acusando a oposição de querer assustar os portugueses com o imposto.

Já o ministro das Finanças tinha remetido esta terça-feira para o grupo parlamentar do PS um eventual recuo na subida do IUC para veículos mais antigos, defendendo que o Governo apresentou a sua posição no Orçamento." (via Executive Digest)

Era mesmo necessário chegar até aqui? Isto serviu para quê? Para ajudar o grupo parlamentar a mostrar serviço?

A sorte é o rapaz do Ribadouro ser um perfeito desastre. O azar é que se não o apearem a tempo o PSD ainda arrisca chegar a Março atrás do Venturinha.

É lá com eles.

Isto ainda acaba tudo numa churrascada com ovos moles à sobremesa

Sérgio de Almeida Correia, 14.11.23

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(créditos: Tiago Petinga/LUSA)

Já era de esperar. À ameaça sucedeu o anúncio. A concretização chegou à hora marcada com a formalização da candidatura de Pedro Nuno Santos à liderança do PS.

O ex-ministro, enfant terrible da jotinha socialista, o terror dos banqueiros e da troika, e qualquer dia também dos justiceiros do Ministério Público e dos juízes de instrução criminal, há muito que não conseguia esconder a sua ansiedade por este momento. Fico satisfeito por ele. Depois do anúncio da localização do novo aeroporto, em que tanto se empenhou, embora tivesse durado pouco, o rosto maior, e mais alto, do nunismo pode finalmente dar largas à sua euforia e facúndia sem os constrangimentos do costismo. 

Em relação aos melões costuma dizer-se que só se sabe se são bons depois de abertos. Não é o caso do candidato Pedro Nuno Santos. É melão grande e que não engana.

Aqui estamos perante um melão vistoso que se tentou abrir várias vezes e como que por artes mágicas fechava-se de cada vez que o queriam cortar. Ou porque se percebia logo que estava a ser cortado pelo lado mais verde, ou porque a faca tinha dificuldade em entrar, ou porque começavam logo a sair umas sementes com formas curiosas que besuntavam tudo e mais ninguém queria continuar com a cirurgia. O resultado é que, como não podia ficar ao ar para não se estragar, enfiavam-no de novo dentro do frigorífico, onde já não teria qualquer hipótese de voltar a amadurecer. Esse processo durou vários anos sem que, todavia, à primeira vista, produzisse melhorias substanciais, com excepção de um aumento de pilosidade na casca.

A consequência dessas tentativas de servirem o melão antes do tempo foi que, entretanto, não só não amadureceu como o bom presunto com cura de 40 meses que havia sido oferecido por algumas empresas para lhe servirem de acompanhamento, quando fosse a inauguração do novo aeroporto de Lisboa, acabou devorado por alguns camaradas mais esfomeados na festa de passagem de ano 2022/2023, assim que perceberam que com os Reis chegariam tempos difíceis.

Após sucessivas galambadas e marcelices, eis que trazem de novo o melão para a mesa numa altura em que escasseiam o presunto e as facas. Pois bastou abrirem a porta do frigorífico e o danado do melão rolou pelo chão da cozinha, depois de olimpicamente resistir à queda da terceira prateleira do frigorífico sem se desmanchar no contacto com o soalho. Milagre, é milagre, gritaram em Belém.

A partir daí, logo Francisco Assis doutoralmente filosofou sobre a qualidade do melão e aquilo que ainda se poderia esperar dele, estando eu neste momento convencido de que muitos dos apóstolos que comungaram com José Sócrates, traíram Seguro e enganaram Costa vão aparecer a toda a velocidade para se sentarem na grande mesa corrida onde vão servir o melão aos fedayin que fizeram carreira na JS.

Ninguém sabe se o melão chegará para todos, nem de onde virá o presunto, se de Sines se do Palácio Palmela, mas começaram os empurrões para ver quem consegue chegar primeiro aos bancos onde se vão sentar os elementos do novo Secretariado. Mais os cônjuges, os filhos, os enteados, as noras, os primos, os netos e os vizinhos.

Enquanto isso, José Luís Carneiro, ciente de que os portugueses estão cansados de tanto melão, tantas foram as vezes em que lhes saíram uns exemplares farinhentos e com sabor a robalo, está a tratar de ver se consegue arranjar uma equipa capaz de preparar umas saborosas pataniscas de bacalhau, sequinhas, sem o óleo daquela mercearia do Largo do Rato onde ultimamente se têm abastecido, acompanhadas por um arroz de tomate malandrinho, a fugir pelo prato, que sem grande cozedura permita aproveitar um dos vinhos correntes e populares que o autarca Isaltino prometeu oferecer ao próximo secretário-geral do PS.

Neste momento ninguém sabe qual dos dois, se Pedro Nuno Santos ou José Luís Carneiro, acabará no Master Chef a mostrar os seus talentos ao provador de vichyssoises, acompanhado pelo candidato que virá do Ribadouro – e anda em todo o lado a prometer, à pala de Marques Mendes, camarão de Espinho e postas mirandesas à fartazana sem encargos para o pessoal –, mais o liberal das lampreias, o pirilampo rabeador do Algueirão, a padeira bloquista e o camarada dos paios alentejanos.

Na verdade, essa ignorância em que os portugueses estão não traz nada de novo. E tem um lado positivo, para além do de colocar os banqueiros, e não só os alemães, a tremer. É que se no fim o melão for intragável, não houver camarão, lampreia, doçaria de feira, queques ou broa para todos, o melhor será escreverem ao Secretário-Geral da ONU, que nos deixou à guarda de um infantário em autogestão, com a lotação esgotada, onde os cães alçam a perna em qualquer lugar sabendo que gozam da protecção do PAN, e não há limoeiro que escape, para ver se o cavalheiro arranja algum sítio, mas longe da Urbanização da Coelha, onde nos possam acolher e preencher as declarações do IRS. Com tudo a zeros.

Em que condições chegaremos a Março?

Sérgio de Almeida Correia, 13.11.23

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(créditos: Miguel Figueiredo Lopes/Presidência da República)

Sobre o espectáculo de feira que tem vindo a ser dado nos últimos dias pelos principais protagonistas do regime não valerá a pena perder tempo. Qualquer observador, nacional ou estrangeiro, facilmente percebe que o grau de corrosão das instituições ameaça ruína e é incompatível com uma actuação séria, responsável e credível. E o que se pode dizer relativamente à acção do primeiro-ministro demissionário aplica-se à oposição, ao Presidente da República, ao Ministério Público. Por aí, quem quiser que se dedique a escarafunchar na lama.

Preocupa-me bem mais perceber em que estado este Governo, o Presidente da República e a Assembleia da República chegarão a 10 de Março.

Reis Novais, António Barreto e mais alguns, incluindo aqui neste blogue o Luís Menezes Leitão, chamaram a atenção para os atropelos à Constituição e o exercício de contorcionismo que o PR se propôs fazer, como se fosse política, jurídica e eticamente aceitável que o principal garante do cumprimento da máxima lei do país se satisfizesse com a esperteza da sucessão de formalidades desfasadas no tempo e em claríssima violação das regras de funcionamento do sistema jurídico-político-constitucional, numa tentativa espúria de redenção de um regime que tem sido tão mal tratado pelos partidos políticos.

Lobo Xavier, numa intervenção que me pareceu bastante equilibrada para o que aconteceu, manifestou a sua perplexidade e tristeza pelo que António Costa foi dizer para aquela inenarrável intervenção na sequência da sua demissão, no que aqui o acompanho, atribuindo eu mais esse inexplicável deslize, admitamos que sim, ao desnorte do momento e à sua impulsividade, que tem sido tão má companheira quanto o aconselhamento e apoio que lhe tem sido dado nos últimos dias pela sua entourage.

Que António Costa se rodeou, voluntariamente, de gente do pior e do mais medíocre que o PS pariu nas últimas décadas, e de mais alguns habituados a passarem entre os pingos da chuva sem qualquer vergonha, depois de terem contribuído para a desgraça que conduziu à actual situação de Macau, ao mesmo tempo que enchiam os bolsos, escovavam os fatos e engraxavam os sapatos de um governador sem ponta de vergonha, era um dado adquirido há muito tempo. Que não fosse capaz de perceber os problemas que isso lhe iria causar, assim como ao partido e ao país, já me suscitava dúvidas sobre se seria uma questão de simples temeridade política ou se de inconsciência e confiança nalgum vidente próximo.

O que eu não estava de todo à espera era que o constitucionalista que neste momento exerce funções em Belém fosse capaz de engendrar uma situação que não resolvendo coisa alguma contribuirá para uma ainda maior confusão a partir de 10 de Março.

Fico, aliás, sem perceber, que diferença faz aceitar a demissão do PM e mantê-lo em funções durante mais umas semanas, como se estivesse na plenitude daquelas, e só publicar o diploma correspondente que formalizará e regularizará a situação de exoneração no final de Novembro, ainda que com referência a 7 de Novembro, como referiu Reis Novais, em vez de publicar esse mesmo diploma daqui a dois anos, o que seria mais benéfico, na perspectiva da sua argumentação, se levada a sério (o que para mim se afigura cada vez mais impossível, tal como os comunicados e algumas promoções do Ministério Público que parecem copiar o estilo e os argumentos da "jornalista do lítio"); com o que, ademais, iria ao encontro das expectativas de muitos portugueses que na sua boa fé ainda confiavam nas capacidades de António Costa, apesar de tudo, e num governo de maioria absoluta até ao final da legislatura, assim dando mais tempo e estabilidade ao galambismo para despachar todos os assuntos que tem entre mãos. As condições em que este Governo chegará a Março de 2024 não seriam certamente diferentes daquelas que previsivelmente teria se visse o seu mandato estendido por mais dois anos.

Parafraseando Barreto, tratava-se tão só de prolongar este "extraordinário período de terra de ninguém e de tempo de todos" e continuar a adiar a publicação do diploma de exoneração no Diário da República. Estaríamos assim, repescando a lição de Gomes Canotilho e Vital Moreira, numa espécie de 3.º período "plus" do ciclo normal de vida do Governo, à semelhança do que acontece com as classes de algumas companhias aéreas: ou seja, até que fosse publicado o diploma de exoneração estaríamos com um Governo demissionário com poderes limitados "plus".    

Não que eu defenda esta solução, longe de mim, que teria tanto de irracional, ilógica e fraudulenta quanto teve a semana passada a proposta de uns iluminados socialistas de se reeditar um governo do tipo Santana Lopes com o mesmo argumento que antes se considerou inaceitável aquando da fuga de Durão Barroso. Não; somente quero enfatizar a desvergonha de tudo isto, a desfaçatez com que se fazem propostas destas, como se as pessoas não tivessem memória e os figurões não fossem os mesmos há um ror de anos.

Dir-se-ia que em Belém e em S. Bento há muito tempo que se deixou de pensar, se passou a decidir à flor da pele, com toda a sorte de malabarismos, trapalhadas e cambalhotas, conduzidas por "animais ferozes" que não medem as palavras nem o alcance dos seus actos, sem que se meçam as consequências institucionais e políticas a médio e longo prazo, numa espécie de país do faz-de-conta que importa preservar a qualquer preço enquanto não deixarem a governação nas mãos de juízes, de procuradores e de arrumadores de automóveis capitaneados pelo senhor Ventura. Se é esse o objectivo estão quase lá. 

Lástimas várias

Sérgio de Almeida Correia, 10.11.23

"É uma lástima este secretário de estado da internacionalização. Não serve para nada."; (…) "Não serve para nada. Não nenhuma capacidade politica. Nenhuma. Nem nada. (impercetível) uma coisa horrível."

Sem querer entrar na discussão, cumpre-me apenas assinalar o juízo constante de fls. 6235, do NUIPC 581/19.5TELSB, acima transcrito e já ontem à noite destacado num canal televisivo, feito pelo "melhor amigo" do Primeiro-Ministro em relação a uma das suas escolhas, ou por si avalizada, e que me chegou à vista a milhares de quilómetros de Portugal em mais uma prova do funcionamento eficaz do segredo de justiça e do recorrente alto nível de investigação do Ministério Público.

Não sei como nos iremos safar de mais esta alhada em que políticos, procuradores, polícias, juristas e bandidos respeitáveis meteram o país, nem se o que está a acontecer contribuirá para a extinção de uma vez por todas das juventudes partidárias – uma espécie de claques organizadas, à semelhança dos clubes de futebol, de onde, salvo raríssimas excepções, tem saído a pior espécie de dirigentes –, mas servirá certamente para de novo comprovar que um juízo de "lástima" é compatível com o exercício de funções políticas.

Prontos para continuar

Sérgio de Almeida Correia, 09.11.23

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(créditos: Miguel A. Lopes/Lusa)

Depois das belas mistelas que têm andado a fazer na cozinha e na copa desde que a despensa ficou à sua guarda, e em que ainda não se percebeu o que esteve o Chef a preparar durante quase dois anos, é natural que a louça suja se acumule, os copos estejam um nojo e cheios de dedadas e marcas de batom, as baratas corram vertiginosas de um lado para outro, haja restos de comida pelo chão, as luvas se apresentem com cortes, todas encharcadas por dentro e a cheirar mal, os puxadores das gavetas impregnados de restos de comida e o chão pingado e pegajoso, onde são visíveis as marcas das pegadas dos ajudantes da copa com restos de farinha e massa, sendo impossível no meio de tanta falta de higiene e ausência de limpeza distinguir os panos que servem para limpar a bancada dos que são usados para enrolar as tortas.

Não obstante, há sempre um figurão de roupão e pantufas, que chegou com o anti-ciclone dos Açores e passa a vida a entrar e a sair da cozinha enquanto vai espreitando para dentro do frigorífico a ver se já lá estão as lampreias e os fios de ovos, não escondendo nesse ínterim o afã dos dedinhos sapudos na recolha de umas lascas de presunto caídas na banca, perguntando a todos aqueles com quem se cruza e que envergam avental se a mesa já está posta e o vinho escolhido.

Não, não está e já não vai estar.

Porque com o lote de ajudantes respeitáveis, com experiência de alta culinária, doçaria conventual e salgados que arranjaram, os únicos que se alambazam são os ratos que de quando em vez são pulverizados com insecticida pelos especialistas do Palácio Palmela, razão que os motiva a continuarem as suas frequentes e prolongadas incursões às gavetas dos pacotes de bolachas e afins quando vislumbram junto ao fogão e ao forno mais movimento dos barões de polainas e das duquesas de cores garridas.

De qualquer modo, enquanto os empregados da tasca da esquina, chefiados pelo chefe de sala do Ribadouro, correm à procura de bandejas, se afadigam a colocar aventais novos e apertam os laçarotes pretos na ânsia de iniciarem funções, talvez seja melhor arranjarem uma máquina para cortar a pasta, não vá a supervisão do Banco de Portugal abrir uma investigação para apurar a razão de não guardarem, na falta de lei especial, o fundo de maneio no porta-luvas do BMW. Ou, por causa dos assaltos, no bolso do avental. 

O segredo das coisas simples

Sérgio de Almeida Correia, 09.11.23

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O texto é relativamente curto, com pouco mais de cem páginas, deixando-se ler tranquilamente, sem altos nem baixos. Como é típico dos livros de memórias, remete-nos para um passado próximo, com os corpos ainda quentes da memória, de recordações de infância, de deliciosos momentos do quotidiano, todos acabando por conviver com a chegada da nostalgia da lembrança, espécie de nevoeiro que vai tomando conta da luz das horas e dos dias mais soalheiros à medida que se recuperam lembranças.

Rodrigo, irmão de Gonzalo, não é Gabo, mas sendo filho recupera alguns dos melhores momentos de seus pais numa altura em que as despedidas se aproximam e a consciência da aproximação à partida torna tudo ao mesmo tempo mais subtil e mais denso.

Cada dia que vivemos, bem ou mal, alegre ou triste, aproxima-nos mais da morte e esta, como ele escreveu, "não é um acontecimento a que uma pessoa se possa habituar".

A habituação jamais ocorrerá quando se fala de quem nos quis e que foi querido, e que por essas mesmas razões tende a fixar-se no essencial que nos marcou e que com gosto depois se recorda.

Uma despedida entre entes queridos tem tudo para não ser um momento feliz; o que todavia não impediu o autor de nos trazer um pouco mais de luz sobre os últimos anos de Gabriel García Márquez e sua mulher Mercedes.

Fê-lo num estilo simples, sem arabescos e sem a prosápia de outros filhos, mantendo as distâncias e os protagonistas no local que merecem e que a vida lhes proporcionou, assegurando-lhes a dignidade no momento em que as primeiras folhas de Outono caem para nos prepararem para a invernosa solidão do fim.

Um conjunto de fotografias torna-nos cúmplices dos relatos, aqui e ali pontuados com notas de humor que reflectem a genialidade do homem – no me las puedo tirar todas é um desses momentos mágicos – e o ambiente que o rodeou os seus últimos tempos, prova inequívoca de que mesmo quando se está "sempre embriagado com a vida e as vicissitudes da existência" é em casa que "a maior parte das coisas que vale a pena aprender continua a aprender-se".

Verdade que nos dias de hoje não será igual para todos, e para muitos é mentira, mas que no caso de Rodrigo se confirma plenamente, pese embora os engulhos que o malfadado Acordo Ortográfico de 1990 continua a provocar em quem traduz e em quem lê. Uma pena a que Rodrigo, Gabo e Mercedes são totalmente alheios e a que só não escapa o leitor português.