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Despropósito

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.06.20

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(foto de Miguel A. Lopes/LUSA)

 

É compreensível que os portugueses fiquem satisfeitos, penso eu, por poderem acolher a fase final da mais importante competição europeia a nível de clubes, a Liga dos Campeões.

Com ou sem adeptos nos estádios, com mais ou menos riscos, certo é que a elite do futebol europeu estará durante uns dias por Portugal, ocupando hotéis e restaurantes, dando uso aos estádios, e, concedo, promovendo a imagem do país e das suas cidades no exterior.

Não vou aqui discutir os méritos ou os deméritos da iniciativa, a sua oportunidade, os riscos que comporta, e outras questões igualmente relevantes e que merecem atenção. Isso ficará para os jornalistas e os profissionais do comentário.

Eu fiquei satisfeito na justa medida do que isso representa em termos de incentivo e impulso para se procurar melhorar e combater a crise internamente.

Mas o que quero mesmo é apenas sublinhar a minha estupefacção pelo espectáculo que as nossas principais figuras de Estado continuam a proporcionar.

Como se o facto de ter existido um COVID-19, para todos os efeitos uma desgraça para a maioria, que por um bambúrrio atirou para Portugal a fase final da competição, se devesse ao nosso trabalho, ao nosso esforço, aos nossos êxitos.

Fazer do acontecimento um sucesso nacional, nesta fase do combate à epidemia, e quando tantos são os problemas que há para enfrentar, como se daí viesse a solução de todos os nossos dramas, não é sinal de auto-estima ou de feito histórico.

Para além da manifestação ser despropositada, na dimensão e na exultação, é acima de tudo provinciana.

Como alguém de quem me estou a lembrar diria, se fosse vivo, em matéria de provincianismo somos de facto imbatíveis. E uns tremendos parolos.

Zanardi

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.06.20

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(foto BMW, daqui)

 

Se há quem admire nesta vida, um dos indiscutíveis é seguramente Alessandro Zanardi.

A notícia que todos recebemos do acidente que sofreu ontem, numa prova de estrada destinada a deficientes, constitui mais uma desgraça que se abate sobre a vida de um homem com o seu talento, a sua força, a sua perseverança.

Já não bastava tudo o que lhe aconteceu ao longo da vida, a forma como foi superando obstáculos que para a maioria seriam absolutamente intransponíveis, indo buscar força e motivação onde se suspeitaria só existir desespero e resignação, para agora ter um acidente da magnitude do de ontem. Capotar com o triciclo de handbike duas vezes, acabar batendo num camião que seguia em sentido contrário, e o helicóptero não poder aterrar no local do acidente tendo de ser primeiro transportado de ambulância para um heliporto, não é apenas um azar, mais um, na vida de Zanardi. É a continuação de uma condenação inaudita, sem sentido, de um homem bom, de um exemplo de tenacidade, e de um verdadeiro herói de carne e osso.

Se, como dizem para aí, Deus é grande, é incompreensível que alguém tenha de sofrer o que Zanardi enfrenta.

Espero que uma vez mais consiga recuperar, e que nos volte a dar a todos um motivo para continuarmos a acreditar nalguma coisa. Forza, Alex.

A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.06.20

"Macau has done everything “just right” and been lauded by Beijing paternalistically as “the good student.” All politically sensitive protests have been banned. A law criminalising the disrespect to the PRC National Anthem, flag and symbols has been approved. And so was a National Security Law. Self-censorship is effective among most of the media and the people.

What did Macau get in return? A directly elected Chief Executive and Legislative Assembly? More liberties and rule of law? No. The more freedoms you give up to please Beijing, the more Beijing demands of you. And it pays in cash." (Jorge Menezes, Hong Kong Free Press, 18/06/2020

Fintados pelo covid-19

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.06.20

Desde que em Março passado o Presidente Xi visitou Wuhan, a máquina da propaganda não parava de assinalar os êxitos do PCC e a vitória do líder no combate ao COVID-19.   

Ainda não passou um mês desde que em 22 de Maio, na 13.ª sessão plenária da Assembleia Popular Nacional, o presidente da sua Comissão Permanente, Li Zhanshu, exultava o sucesso do combate ao COVID-19, chamando a atenção para a realização dessa reunião num momento em que no "estrangeiro a situação continuava sombria e complexa", enquanto que ali na China, em Pequim, o novo farol do sucesso dos comunistas na Terra, tinham sido conseguidas "grandes conquistas estratégicas".

As notícias deste fim-de-semana do reaparecimento de um surto epidémico na capital chinesa e em Liaoning, com dezenas de casos de transmissão doméstica, e obrigando a novas medidas de confinamento, vêm colocar em causa a rapidez com que se propagandearam os tão aclamados êxitos.

Para desgraça de todos nós, e dos bodes expiatórios do regime, o mal continua por aí, à solta, em todo o mundo, embora mais nalguns países do que noutros.

Fosse em razão da adopção de estratégias tardias ou erradas, como aconteceu na China e na Europa, fosse por manifesta ignorância e irresponsabilidade dos dirigentes, casos do Brasil e dos Estados Unidos da América, o que as notícias que chegam de Pequim realçam é a importância do combate global e da necessidade de não se baixar a guarda, ainda que não se possa levar o resto da vida confinado e com tudo parado.

E também há uma outra lição: a de que antes de se quererem retirar dividendos políticos do combate ao vírus, esquecendo o que se silenciou nas primeiras semanas, criticando-se os outros países para se enaltecerem êxitos próprios quando a situação ainda não está limpa, ignorando-se que elogio em boca própria é vitupério, também devia ter havido contenção na propaganda.

Como não houve, com o retrocesso que se verifica, o qual deverá ser também atribuído a quem reclamava as "grandes conquistas estratégicas" ("[t]he fundamental reason behind China’s solid progress in epidemic prevention and control as well as work and production resumption lies in the advantages of the CPC leadership and the socialist system"), os foguetes terão de ser engolidos, importando voltar à luta contra esse flagelo da pandemia.

Arbitrariedade informal

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.06.20

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Há dias era a Associação dos Advogados de Macau, fugindo à regra, que apelava aos seus membros para reportarem e denunciarem todas as situações de abuso, imposição de restrições e impedimentos ao exercício do mandato forense. O advogado Pedro Leal, um dos mais conhecidos e reputados penalistas locais, chegou a referir que por vezes anda 48 ou 72 horas à procura de uma pessoa; que quando se liga à procura de alguém a polícia diz que não está lá ninguém, e "andam a omitir constantemente a situação". A Polícia Judiciária desmentiu todas essas acusações num estranho comunicado para dizer que cumpre a lei.

Depois, foi a actuação perfeitamente desproporcionada e despropositada no Largo do Senado, por parte de agentes policiais, no final de tarde e noite de 4 de Junho de 2020. Não há quem não diga que está a cumprir "rigorosamente" a Lei Básica. Até quando se quer tapar o sol com uma peneira, considerando-se, para justificar a dualidade de critérios, que uma manifestação de apoio ao Governo Central não é uma manifestação, e como tal pode estar sujeita a outras regras.   

Ontem foi revelado no Telejornal da TDM (a partir do minuto 4:57) que uma rapariga de 19 anos foi abordada por dois agentes da PJ à paisana, obrigada a identificar-se, sem que estivesse a manifestar-se ou a fazer algo de ilegal, intimada a mostrar os seus pertences, e depois levada para uma carrinha, onde estavam mais cinco agentes à paisana, e transportada de Macau para a Taipa, sendo depois interrogada pela PJ no seu edifício do Cotai. Obrigada a assinar os documentos que lhe deram, em que dava o seu "consentimento" ao que os agentes quisessem fazer, questionaram-na sobre a sua vida pessoal e cívica, tendo-lhe sido pedido que desbloqueasse o telemóvel para que os fulanos pudessem ler o conteúdo das suas mensagens. No final, relatava esta manhã o Macau Daily Times, os agentes disseram-lhe que "ainda é jovem", que se concentrasse nos seus estudos e se deixasse de política.

Contactada pelos jornalistas da TDM sobre o triste episódio, a mesma Polícia Judiciária, que diz cumprir escrupulosamente a Lei Básica, confirmou o episódio e veio esclarecer que tinha sido qualquer coisa como uma "investigação informal". Nada de oficial, portanto. Não há crise. Cumpre-se a lei, dizem. 

Eu sei que ultimamente o clima se adensou, que passámos a ter uma Comissão de Defesa da Segurança do Estado, para uma cidade com menos de 700.000 habitantes, sem problemas de segurança e com milhares de câmaras de televisão nas ruas, parques de estacionamento e edifícios; e que em Abril deste ano, aquando da discussão das Linhas de Acção Governativa, se anunciou a criação de um Gabinete da Comissão de Defesa da Segurança do Estado, que deveria entrar em funcionamento "o mais rápido possível", e que muitos de nós já suspeitam dos movimentos nas ruas de algumas pessoas, e que não sabemos se são bandidos ou agentes policiais, porque todos andam "à civil", nem por que razão nos seguem e fotografam se cumprimos a lei e vivemos "às claras" (falo por mim).

De uma forma ou de outra, muitos já começaram a sentir o clima de medo, insegurança e arbítrio típico dos estado policiais. Cada dia que passa confirma-se, embora ainda nenhum livreiro (desconfio que já não haja cá nenhum) tenha sido raptado.

A Comissária dos Negócios Estrangeiros enche páginas de jornais, fazendo de conta que se tratam de artigos de opinião, normais, quero dizer, ao mesmo tempo que uma jovem estudante é tratada como uma criminosa, numa acção típica de uma polícia política, que identifica, vasculha e intimida sem razão aparente e por mera suspeita de simpatia para com os movimentos pró-democráticos.

Se não há uma polícia política, informalmente e sob diversas capas há quem faça as vezes dela, e esteja aí para fazer cumprir o princípio "um país, dois sistemas" de acordo com a sua própria interpretação. 

Há quem pense que tudo isto é normal, aceitável, e diga que os residentes, alguns nascidos aqui, são apenas "convidados". E que como tal têm é de ignorar garantias, direitos cívicos e os desvirtuamentos do que foi acordado porque isto é um "assunto interno". Enfim, devem ficar calados e participar na festa. Ou largarem casas e vidas e zarparem para outras paragens. 

Oficialmente é tudo sorrisos, croquetes e palmadinhas, seja no Dez de Junho, que hoje também se comemora numa versão "mini" devido ao Covid-19 (enquanto as equipas dos barcos-dragão vão treinando sem máscara e não respeitando distâncias entre remadores), seja em todos os restantes dias do ano. A gente está (quase) toda contentinha, apesar de quando em vez aparecer alguém, quando a coisa se torna demasiado grosseira, a queixar-se.

Sem querer pedir demasiado, e porque Camões continua, timidamente, entre nós, quero aproveitar esta oportunidade para alertar os nossos investigadores para a necessidade de se saber qual a contribuição que demos – todos, dos comerciantes e empresários aos magistrados, dos funcionários públicos aos jornalistas, dos advogados aos diplomatas, dos políticos aos militares – para a arquitectura do actual estado policial e para a preparação desta guarda pretoriana que na RAEM nos vigia e pastoreia nas ruas, nos escritórios e nas redes sociais. 

A menos que haja interesse de Portugal em que todos acabemos, justa ou injustamente, como é norma, por levar por tabela, ficando eternamente conotados, para o melhor e para o pior, sem que se separe o trigo do joio, com os tratos de polé que têm sido dados nos últimos anos, na RAEM, aos direitos fundamentais, liberdades e garantias dos residentes.

Nada como estar informado

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.06.20

21826309_jpTpN.jpeg(créditos daqui

Tudo o que eu poderia escrever sobre o que aconteceu na Praça do Senado, em Macau, na noite de 4 de Junho de 2020, ficaria sempre aquém daquilo que o Telejornal da TDM levou até casa dos residentes. Uma peça notável de jornalismo televisivo numa região que é cada vez mais uma extensão do estado policial autoritário que vigora do outro lado da fronteira.

A utilização selectiva da lei, a dualidade de critérios na sua aplicação, a violação grosseira de direitos fundamentais dos residentes e o recurso às polícias e aos tribunais como instrumentos ao serviço do poder político, e não da comunidade e da realização do direito e da justiça, são cada vez mais a regra.

E não é pelo facto de continuarem a recrutar juristas e magistrados portugueses, que depois se prestam a quase tudo, que se pode disfarçar o que está a acontecer. 

O próprio Acórdão do Tribunal de Última Instância, que proibiu a vigília, contém uma declaração de voto, da qual depois não são retiradas as devidas consequências, onde se chama a atenção para a ilegalidade da decisão de proibição tomada pela PSP quando se afirma que "no procedimento administrativo que culminou com a decisão recorrida se devia dar observância ao prescrito nos art°s 23° a 25° da Lei n.º 2/2004, alterada pela Lei n.° 8/2013 e pela Lei n.° 1/2016" (na prática, o comandante da PSP substituiu-se ao Chefe do Executivo, usurpando as respectivas competências, e emitindo um despacho que sendo ilegal e só podendo ser produzido pelo segundo foi validado pelo tribunal). 

Numa altura em que são cada vez mais os que silenciam ou contemporizam com o abuso e a prepotência, vendendo princípios e valores, considerando que tudo é relativo, e fechando os olhos às sucessivas ilegalidades e à arbitrariedade para garantirem o seu pacote de amendoins, deixo aqui o link para quem tiver interesse e disponiblidade para saber o que se passa  a muitos milhares de quilómetros de Lisboa e vontade de ver o bom trabalho dos jornalistas e repórteres do canal português da televisão de Macau.

Para quando as autoridades portuguesas, e os deputados que cá costumam vir fazer turismo, disserem que o cumprimento da Declaração Conjunta Luso-Chinesa e a Lei Básica é um mar de rosas na paz do Senhor se lembrem do que se está a passar no quotidiano de uma terra onde há mais de 160 mil pessoas com a nacionalidade portuguesa que confiaram na palavra dos seus governantes.

A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.06.20

Embora em língua inglesa, e publicado em Hong Kong, é escrito por um portugês e penso que, concordando-se ou não, merece ser aqui lido e reflectido.

Fica o link para o artigo de Jorge Menezes no site da Hong Kong Free Press.

4 de Junho de 1989

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.06.20

Catherine Henriette:Agence France-Presse — Getty

(Catherine Henriette/Agence France-Presse — Getty Images)

Para os que têm memória não a deixem apagar-se. Para os que nunca tiveram memória possam ir à sua procura e passem a ter uma. Para os que entretanto perderam a memória encontrem um motivo para recuperá-la

A partida de uma lenda

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.05.20

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(SCMP)

O seu estado de saúde era de há muito periclitante. Mais dia menos dia seria natural que todos viéssemos a ser confrontados com a notícia do seu passamento.

Aconteceu hoje [ontem], num dia quente, sombrio e húmido onde a chuva e o ribombar dos trovões se fizeram sentir intensamente durante toda a tarde. Como se essa nota dos deuses correspondesse à sua recepção num outro mundo.

Durante mais de cinco décadas a sua figura alta, elegante e simpática, na pista de dança, no court de ténis ou mesmo nos momentos mais cruciais de qualquer negociação, deixava transparecer a força da sua vontade, o carisma do empresário, a visão estratégica de longo prazo e o pragmatismo do homem de negócios que sabia acomodar os seus interesses aos tempos e aos políticos com quem se ia cruzando.

Sempre disponível para ajudar os que o procuravam, creio que via no exercício filantrópico uma forma de compensar a sociedade e todos os outros por tudo aquilo que lhe davam a ganhar nos seus casinos.

Homem inteligente e perspicaz, bem-disposto e com sentido de humor, que não enjeitava uma oportunidade de defender os seus pontos de vista, fosse na concretização de um projecto empresarial ou numa negociação contratual, contribuiu para o desenvolvimento de Macau e a sua projecção internacional como nenhum outro, em especial a partir da década de Oitenta do século passado quando se operou a revolução nas infra-estruturas que preparou a transferência de administração para a China em 1999.

Ciente do património genético que consigo transportava, fez dele um instrumento para o engrandecimento de Macau, a aproximação de diferentes comunidades e para o diálogo intercultural.

Amigo da gente da terra e de muitos expatriados, não foram poucos aqueles a quem deu a mão, ajudando-os a singrarem profissionalmente e nos negócios.

No entanto, ficará sempre a convicção de que poderia e estaria disponível para dar muito mais à cidade e à sua população se tivessem sido diferentes as preocupações e outra a estirpe da tropa que o império para cá mandou, como aliás se viu nas diversas vezes em que foi preciso com ele renegociar a concessão do jogo, algumas cláusulas e as respectivas contrapartidas.

Se já era possível distinguir um Macau antes e outro depois dele, isso tornou-se mais evidente nos últimos anos, depois de ficar doente e se retirar dos negócios, e à medida que o seu vasto património foi partilhado pelos diversos braços da sua prole. Quanto menos mandava, e mais longe estava, mais Macau perdia.

De Stanley Ho, para aqueles que tiveram o privilégio de o conhecer e de acompanhar uma parte do seu percurso empresarial, ficará a lembrança do homem e da sua obra, que permanecerá indelével enquanto também ela não se transformar em pó. Mas só o nome e a sua lenda perdurarão para além do tempo. E será esta última que lhe conferirá maior grandeza pela Eternidade fora.

(texto publicado na edição de 27/05/2020 do Ponto Final)

Uncle Stanley

Stanley Ho: o último rei de Macau

A visão, o pragmatismo e as referências de Stanley Ho

 

Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.05.20

O COVID-19 enfiou-nos em prisões sem grades, o que sendo verdade para os que estavam em liberdade também acabou por tocar a alguns outros que cumpriam as suas expiações em estabelecimentos prisionais. À custa do vírus, o léxico do povão ficou infectado com novos palavrões. E de repente surgiu uma multidão de especialistas versados em tudo menos em futebolês. Os dias tornaram-se mais longos, sem luz, incómodos, depressivos. Muitos viram partir aqueles que os queriam e a quem queriam bem sem perceberem muito bem porquê. Foram antes do tempo. Antes que fosse noite. Quando a escuridão já se abatia sem remissão. Os aviões ficaram em terra, os barcos recolheram aos seus portos, os comboios repousaram silenciosos sobre os carris. Não fossem os livros, os filmes e as janelas que a Internet ainda nos vai abrindo e teríamos pirado todos. Agora que as coisas parecem começar a acalmar, enquanto não podemos voltar a apanhar o primeiro avião que apareça, é melhor que nos vamos preparando, que nos preparemos para voltarmos a sonhar. E para isso nada melhor do que começar já a viajar sem sair de casa, fazendo novos planos de viagem, talvez redescobrindo lugares por onde passámos e dos quais já não nos recordávamos. Nesta tarefa, nada melhor do que poder contar com a inspiração de um jovem fotográfo e jornalista português para nos transportar até Lugares Incertos, o meu blogue para esta semana.

A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.05.20

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Are we witnessing the end of the Golden Age of Chinese Diplomacy? 

"Chinese diplomacy is dying, in full public view. It is starting to no longer focus on external audiences, cultivating friends and opening doors, and is instead becoming an appendix of China’s propaganda apparatus, focusing on domestic audiences." 

Um texto muito interessante vindo de um analista fora do mainstream habitual.

Olhos no céu, direitos fundamentais no chão

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.05.20
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(foto Carmo Correia/LUSA)

Graças a mais uma decisão, que teve tanto de ilegal quanto de arbitrária e caricata, prossegue o acelerado processo de erosão das liberdades fundamentais e da autonomia da Região Administrativa Especial de Macau, visando a sua integração plena na República Popular da China.

Depois de há um mês ter dado autorização para a utilização de espaços públicos para apresentação de uma exposição fotográfica itinerante sobre o 4 de Junho de 1989, e o que aconteceu na Praça de Tiananmen, o Instituto dos Assuntos Municipais (IAM) resolveu, na passada sexta-feira, 8 de Maio, já com a exposição a decorrer, “revogar” a sua própria decisão.

De acordo com a notícia da TDM/Rádio Macau, desta vez, o fundamento para intervir foi o de considerar que uma exposição fotográfica dedicada aos acontecimentos de 4 Junho de 1989 não estava de acordo com as atribuições do organismo.

Segundo José Tavares, o Conselho de Administração do IAM “decidiu uniformizar os pedidos. Isto é, os pedidos de utilização dos nossos espaços têm de condizer com as nossas atribuições e competências. Foi uma decisão que tomámos no Conselho de Administração”. Para o presidente do CA do IAM, quando as actividades “não condizem com as nossas atribuições ou competências não cedemos, é simples”. Para José Tavares, o Conselho de Administração entendeu simplesmente rever a decisão. Tavares não mediu o alcance das suas palavras, nem da decisão tomada. Foi meia bola e força.

As justificações dadas para a mudança de decisão, e em especial o momento em que esta acontece, depois de em Abril ser dada autorização para a ocupação de espaços públicos com a exposição, sem qualquer fundamento aceitável à luz de um Estado de direito, e sem que se escore na prática anterior de uma qualquer ilegalidade que viciasse a decisão de autorização, indiciam claramente uma forte motivação política.

Atenta a falta de autonomia do organismo IAM, e a forma como as coisas se passaram, é difícil acreditar que não tenha havido intervenção de terceiros.

Desde logo, porque se o objectivo fosse o da uniformização de procedimentos, ou seja, razões de natureza meramente burocrática, nada impediria que a decisão de uniformização só se aplicasse para futuros pedidos, já isso é que faria sentido, e não que assumisse carácter retroactivo e com a exposição já em curso.

Depois, porque quando o Presidente do IAM refere que essa exposição não se insere nas atribuições do organismo a que preside, invoca exactamente o argumento que não poderia invocar para a decisão.

Porque se o IAM é um órgão “incumbido pelo governo” de servir a população no domínio da cultura, recreio e salubridade pública, tendo entre as suas atribuições “incentivar a harmonia e a convivência das diversas comunidades da sociedade e promover a educação cívica”, parece evidente, aos olhos de qualquer cidadão dotado de razão, que dar a conhecer à população de Macau o que aconteceu na Praça de Tiananmen em 4 de Junho de 1989, através de testemunhos escritos e fotografias, devia fazer parte da educação cívica de qualquer residente, podendo ajudar à compreensão de diferentes pontos de vista sobre o que aconteceu e dessa forma contribuir para uma maior harmonia entre as diversas comunidades.

Acresce que a referida exposição, e outras de idêntico cariz, têm sido habituais há mais de duas décadas, isto é, desde a transferência da administração de Macau para a China em 20 de Dezembro de 1999, como já eram no tempo da administração portuguesa, e só nos últimos anos começou a ver-se uma presença mais musculada de agentes de autoridade, à paisana e fardados, nas iniciativas promovidas pelas associações, como a do deputado Ng Kuok Cheong, ligadas ao chamado movimento democrático, e que pugnam por eleições livres e com recurso ao sufrágio universal e directo para escolha do Chefe do Executivo. Associações que antes também se bateram para que a escolha dos responsáveis do IAM também se fizesse por recurso a eleições democráticas, e não por nomeação administrativa, tanto mais que, inclusivamente, em Hong Kong existem eleições locais para os órgãos autárquicos.

A erosão das liberdades fundamentais constitui hoje bem mais do que uma evidência, que só não é reconhecida pelos seguidistas convictos e de ocasião, e por aqueles que reconhecendo não o dizem por estarem na dependência do maná económico-financeiro das autoridades de Macau e de Pequim, estando por isso mesmo disponíveis para aceitarem a troca dessas liberdades por pacotes de amendoins e concessões da mais diversa ordem no quadro dos sempre apetecíveis negócios que por aqui vão surgindo. Negócios normalmente assentes no apoio oficial que garante a viabilidade económica de muitos “investimentos” e o enriquecimento da fauna empresarial que normalmente é contemplada com tais negócios. Nada que, em bom rigor, não acontecesse no tempo dos governadores portugueses, em especial na fase final do mandato de Rocha Vieira, em que até as sanitas e os mictórios de alguns empreendimentos vinham da República.

Durante a discussão na Assembleia Legislativa de Macau das Linhas de Acção Governativa (LAG) de 2020, que terminou a semana passada e foram as primeiras apresentadas pelo novo Chefe do Executivo, este prometeu uma aposta na recuperação económica e sanitária e uma profunda reforma da administração pública, há muito carenciada, desvalorizando a necessidade de quaisquer reformas políticas. Ao mesmo tempo enfatizou o empenho “na defesa da segurança nacional através da criação de regulamentação e mecanismos de gestão e execução que contribuam para a segurança“, pugnando por um aumento constante “da qualidade do corpo de polícia”, melhorando a sua “capacidade de acção, persistindo no «reforço do trabalho policial com aplicação da tecnologia».

Esta última vertente esteve, ademais, bem presente quando Wong Sio Chak, o responsável pela Segurança, magistrado que foi antes também director da Polícia Judiciária, e que graças ao protagonismo adquirido no anterior Governo com o cumprimento da “agenda securitária e patriótica” se manteve no actual com a mesma pasta, prometeu, há dias, na Assembleia Legislativa a criação, “com a maior urgência”, de um novo gabinete exclusivamente dedicado à “segurança do Estado”, o que na prática significa quer um aumento do controlo policial do crime, sempre desejado por todos os residentes, mas também o reforço do controlo das actividades de natureza política, o que tem sido notório com as alterações legislativas verificadas nos últimos três anos, com a transferência de competências que antes eram do IAM para a PSP e, ente outros, com o programa “Olhos no Céu”.

Refira-se, ainda, que também foram dadas algumas justificações para o inusitado acto de revogação da autorização para uso dos espaços públicos que se prendiam com a saúde pública, e pela necessidade de manter o cumprimento das exigências de natureza sanitária.

Este argumento não deixa de ser estranho quando há mais de trinta dias não há casos novos de Covid-19, a RAEM tem registo de um trabalho do Governo e dos profissionais envolvidos no terreno notável e exemplar no combate à pandemia (sem mortos), as fronteiras estão na prática fechadas, os residentes estão impedidos de sair de Macau para irem apanhar um avião a Hong Kong sem a realização de uma quarentena prévia ao embarque, ou seja, o mesmo que aconteceu a quem chegava a Macau antes do fecho das fronteiras, cujo funcionamento normal não se sabe quando voltará a ocorrer (só hoje foram levantadas as restrições à entrada de trabalhadores não-residentes que residam na cidade contígua de Zhuhai).

E tal preocupação é pouco compatível com a desregulação total da entrada em autocarros e elevadores, incluindo de edifícios onde funcionam serviços públicos, em que os passageiros se vão apertando como se fossem sardinhas em lata, e sem que haja qualquer preocupação das autoridades quando vêem passar autocarros à cunha e sair pessoas às dezenas de dentro de elevadores apinhados.

Seja, por vezes, de uma forma sub-reptícia, mais disfarçada mas igualmente eficaz, seja em termos tão canhestros como sucedeu com a recente decisão do IAM, certo é que se assiste a um progressivo e reforçado cerceamento dos direitos fundamentais, em especial do direito de reunião e manifestação nas suas diversas vertentes (em matéria de liberdade de imprensa a autocensura é uma prática assumida por muitos), acompanhado de uma cada vez maior intervenção de Pequim na gestão quotidiana de Macau e Hong Kong, através dos "recados" do Gabinete de Ligação, como aconteceu com a realização do Festival Rota das Letras, quando era dirigido por Hélder Beja, pelo que é provável que a realização da tradicional vigília de 4 de Junho, no Largo do Leal Senado, esteja em causa.

O COVID-19, a defesa da segurança do Estado e dos valores do patriotismo e da harmonia são agora o alfa e o ómega da propaganda, os motivos para se mostrar serviço. A propaganda está mais presente do que nunca, penetrando as redes sociais com os novos controleiros e os bufos habituais, sempre activos a criticarem as perspectivas de residentes e não-residentes que fujam às versões oficiais e oficiosas do Gabinete de Comunicação Social, da Xinhua, do Diário do Povo ou do China Daily.

Curiosamente, por agora, tanto quanto se sabe, em Portugal, o Ministro dos Negócios Estrangeiros continua a considerar que o cumprimento da Declaração Conjunta Luso-Chinesa e da Lei Básica de Macau são exemplares.

Os factos demonstram o contrário, mas pode ser que a partir de 22 de Maio, quando ocorrer na capital chinesa a reunião magna anual da Assembleia Popular Nacional, surjam novo dados para as equações de Macau e de Hong Kong.

Interessante será depois saber, perante factos tão cristalinos, até quando os interesses económicos de Portugal, e o servilismo institucional dos políticos, se continuarão a sobrepor à defesa dos direitos e liberdades fundamentais dos residentes de Macau, que é gente de todas as etnias, credos e das mais diversas nacionalidades, vergando-se à agenda da propaganda oficial.

A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.04.20

Para além de colega e actualmente meu bastonário, o Luís Menezes Leitão é, igualmente, companheiro nesta casa que nos acolhe. Espero que, apesar disso, o autor me perdoe.

Faltando-me a paciência e a disposição para sobre o tema escrever alguma coisa, não podia deixar de aqui trazer o que ele escreveu na sua crónica do jornal i sobre as comemorações do 25 de Abril pela Assembleia da República.

Para se concordar não é preciso estar no mesmo campo político. Tal como para criticar também não se exige estar do outro lado da barricada.

É que há coisas que me parecem de tal forma evidentes que só por birra ou ausência completa de bom senso se pode insistir. E nesta insistência temos tido dirigentes que são imbatíveis, conseguindo mostrar dentro e fora do Parlamento que é possível articular as duas na perfeição.

Vida de filme

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.04.20

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O livro não é muito recente, mas só agora me chegou às mãos graças à generosidade de um amigo.

Histórias de espionagem e agentes secretos sempre constituíram um tema interessante, em especial quando relacionadas com situações políticas reais de que apenas se tomou conhecimento por curtas notícias da televisão ou dos jornais. Quando o tema se prestava, por vezes, dava origem a interessantes filmes/documentários para televisão ou cinema.

O que este livro tem de diferente, um pouco como nas memórias de Forsyth, é que todas as histórias são verdadeiras. Independentemente da perspectiva que nos dão do interminável conflito israelo-palestiniano, os operacionais, os heróis e os mortos existiram mesmo, e alguns dos primeiros ainda estão vivos para trazerem o passado até nós e acenderem algumas luzes que nos ajudam a compor o puzzle, completando memórias anteriores.

Longe da imagem de uma Mata Hari, Sylvia Rafael, de seu nome, ou Patrícia Roxenburg, a identidade que assumiu após chegar ao Canadá, foi uma das lendas da Mossad, participando em numerosas operações sob diversos disfarces.

Feita agente clandestina, dotada de uma vontade férrea, educada, culta, com a classe e o charme suficientes para despertar paixões, o seu nome sempre foi uma dor de cabeça para a Fatah, o Setembro Negro e em particular para Ali Hassan Salameh, o cérebro da Força 17, responsável pelos atentados de Munique, pelo desvio de aviões comerciais e um rasto de atentados e inocentes mortos ao longo de vários anos.

Depois do fiasco da operação Lillehammer, recuperaria a sua identidade, acabando por casar com o advogado que a defendeu no processo de Oslo, Annaeus Schjødt, e a acompanhou até ao fim dos seus dias.

Foi este quem, no dia do seu funeral no kibbutz onde Sylvia foi voluntária durante os seus primeiros anos em Israel, sugeriu a elaboração do livro a Moti Kfir. Doutorado em História pela Sorbonne, tendo dirigido a Escola de Operações Especiais da Mossad, Kfir foi o seu recrutador, e hoje empresta o seu know-how a uma empresa portuguesa, pelo que se um destes dias se cruzarem com ele não se admirem.

Enquanto o filme não chega, e outras versões não aparecerem ("No story ever truly ends, and no account of a person's life can be all-inclusive"),  fiquemos com o documentário que entretanto se fez, e com o muito interessante livro de Kfir e do jornalista Ram Oren sobre a vida de Sylvia Rafael. O prefácio é do reformado Major-General Shlomo Gazit, ex-director dos serviços de inteligência militar e ex-presidente da Universidade de Ben Gurion.

In memoriam

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.04.20

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Museo Nazionale di Capodimonte, Napoli, Italia, The Flagellation of Christ, c.1607,  Michelangelo Merisi da Caravaggio)

 

Não me recordo de quando o conheci porque me lembro dele desde que tenho memória de mim.

Quando nasci, ele ainda vivia em Gondola, onde era médico. Passara antes pelo Vale do Limpopo, que percorreu de lés a lés, com sol, chuva ou calor, qualquer que fosse o nível de humidade.

Filho de um empresário desafogado ligado à fundação e aos tempos de ouro do Hotel Avenida Palace, a sua família tinha raízes em Ovar. Ele já nasceu em Lisboa, em S. Jorge de Arroios, de onde voltaria a partir, ainda miúdo, para frequentar o Colégio dos Carvalhos.

Falou-me desses tempos duros por que passou, longe da família e comendo rancho quase diariamente, sem, no entanto, deixar de sublinhar a excelência da educação que lhe foi ministrada. Talvez tenha sido aí que adquiriu apreço pelo rigor, pela arrumação, pela organização, pelo cumprimento de horários. E também pela liberdade.

Ainda jovem, perdeu o pai a assistir a um jogo de futebol, no velho Estádio da Luz, para cuja construção também contribuíra, creio que pouco depois da sua inauguração. Contou-me que estavam a preparar-se para o início da partida, com a bola ao centro, quando de repente, a seu lado, o pai tombou inanimado, no momento em que se preparava para acender um charuto.

Mais tarde dir-me-ia que o seu destino ficara marcado por esse fatídico momento.

Acabaria por se licenciar pela Faculdade de Medicina de Lisboa, ainda no Campo de Santana. De vez em quando contava-me episódios curiosos desses tempos em que não havia computadores, faxes ou Internet e o céu de Lisboa seria mais azul.

Os primeiros anos de exercício da profissão seguir-se-iam no Curry Cabral, mas depois do seu envolvimento com a oposição democrática e com o MUD juvenil, e a assinatura das listas de apoio aos candidatos presidenciais que defendiam a mudança de regime, Norton de Matos e, mais tarde, Humberto Delgado, percebeu que profissionalmente ficara com as pernas cortadas nos Hospitais Civis. Uma chamada à António Maria Cardoso, porque, dizia ele, queriam perguntar-lhe o nome, e ficou despachado o seu futuro na Metrópole. Daí até Moçambique foi um pequeno salto.

Para lá partiu sem saber o que iria encontrar. A ele se juntariam, anos mais tarde, a mãe viúva e a única irmã. Desta última, de quem ouvi que seria mulher de grande classe e elegância, havia lá em casa uma belíssima natureza-morta. Quando chegou a Moçambique, a Maria Luísa, assim se chamava, tornou-se amiga da Mélita, minha Mãe, mas acabaria por morrer prematuramente com um cancro, pelo que não me lembro sequer de a ter conhecido.

Eu nasci em 1962, dando-se a circunstância de termos chegado ao mundo no mesmo dia de calendário. E como já conhecia a família toda, sempre com a paciência de a muitos cuidar das maleitas, tornar-se-ia no meu padrinho. No Padrinho, porque a partir daí, com excepção de alguns sobrinhos “emprestados”, como ele dizia, que por vezes o tratavam por tio, passou a ser o Padrinho. O meu e de todos os outros, incluindo os de circunstância.

As minhas primeiras memórias dele são, pois, de meados dos anos sessenta do século passado, na Beira, mas igualmente de Lourenço Marques, onde me recordo de termos estado, num tempo em que ele ainda passara por umas curtas experiências no karting, e de me terem levado a passear.

Como médico dos Caminhos de Ferro, primeiro de Moçambique, a seguir na Beira, onde se distinguiu pela forma como a todos tratava, dos mais pobres aos mais abonados, num múnus que exercia sem horário durante todas as horas do dia e sempre disponível, fosse para receber os queixosos na inconfundível Estação dos Caminhos de Ferro, ou visitar quem dele precisava, em casa ou na palhota, tinha tudo para vir a ser feliz longe da capital do império.

Ao lado da mulher que amava, e que o amou até à morte, com um grupo de amigos absolutamente único, com os quais se dedicava à leitura, ao cinema, ao ensaio e à crítica literária, onde primavam alguns colegas, amigos escritores e poetas, entre os quais recordo o Gouveia Lemos, o Craveirinha e o Rui Knopfli, chegou a colaborar, episodicamente, no suplemento literário de “A Tribuna”, que nos anos 60 marcou uma época na história da literatura portuguesa de raízes africanistas — e onde se terá dado a “abrilada moçambicana”, dizia ele —; e sei que ganhou um prémio num concurso de contos, com um texto belíssimo que acabaria por ver publicado numa colectânea.

Em 1968, com 48 anos, numa visita ao oftalmologista, diagnosticaram-lhe um problema de cataratas. Como na Beira não existissem meios adequados, nem especialistas aptos à realização de uma operação dessa natureza, tratou de marcar a intervenção para ser feita na África do Sul. Já em Lourenço Marques, quando tratava dos preparativos da viagem, um colega que aí exercia disse-lhe que era um disparate viajar para o país vizinho para realizar uma operação tão simples, porque ele próprio estava habituadíssimo a fazê-lo, e que podia operá-lo logo no dia seguinte, ali mesmo. Acreditando no que lhe era dito, confiando na competência do colega, que pensou ser como ele, cancelou a cirurgia que iria fazer a Joanesburgo e entregou-se às mãos que de uma assentada, e tão expeditamente quanto se revelou possível, o operaram aos dois olhos.

Passados alguns dias, quando lhe foi dada alta e o mandaram para casa, recordo-me de ter ido visitá-lo. Ainda estava com os olhos tapados e de óculos escuros. Na semana seguinte, ouvi dizerem que não havia evolução, porque embora o Padrinho conseguisse distinguir algumas cores nas molas da roupa, estava progressivamente a ver tudo acinzentado.

O que se seguiu foi um longo e doloroso calvário.

Perdeu progressivamente o pouco que ainda via, e as sombras tornaram-se cada vez mais escuras, até serem breu. Em Setembro desse ano foi de novo operado, já em Lisboa, no Hospital da Cruz Vermelha, ficando instalado num quarto paredes-meias com “o Botas”, que caíra da cadeira na mesma ocasião. Visitei-o ali, no dia em que ambos fazíamos anos. E creio que terá sido essa a primeira vez em que senti de facto a tristeza.

Nos anos seguintes, não tendo havido sucesso na intervenção realizada em Lisboa, o Padrinho foi então à África do Sul, a que se seguiu uma visita a Barcelona, onde o primeiro e o mais famoso dos Barraquer lhe disse que o problema só se resolveria com um enxerto das córneas, mas que ele nunca o tinha feito e que se ele quisesse ser operado seria como uma lotaria. Se corresse bem, o Padrinho recuperaria a visão e ficariam ambos famosos. Ganhariam o El Gordo. Se corresse mal, ele regressaria a Lisboa e nas Ramblas a vida seguiria igual.

Perante o que lhe foi dito, sem querer voltar a confiar na sorte que há tanto lhe fugia, rumou a Inglaterra onde, com o apoio da Maria Isabel, seria operado no Queen Elizabeth pelo que era ao tempo o oftalmologista da Casa Real. Tinha tudo para correr bem, voltou a correr mal.

Em Londres retiraram-lhe uns drenos minúsculos que o sapateiro encartado que o operara em Lourenço Marques, e que depois veio exercer para Lisboa, deixara lá ficar, e que até aí ninguém incrivelmente vira. O talhante esquecera-se de os remover quando lhe tirou os pontos. E aqueles deram-lhe cabo dos olhos durante três ou quatro anos. Quando analisaram o fio que tinha sido utilizado para o suturarem na primeira intervenção, disseram-lhe que naquela altura, em Londres, aquele tipo e espessura de linha só servia para “coser barrigas”.

Em tratamento ambulatório permanente, a etapa que se seguiu levá-lo-ia a Lyon, ao Prof. Charleur. Cirurgia no dia do levantamento das Caldas, em 1974, e fizeram-lhe dois enxertos nas córneas. Ainda em convalescença, na clínica onde ficou durante alguns dias, disseram-lhe de uma tentativa de golpe em Portugal, coisa em que também já pouco acreditava.

A operação correu bem e duas semanas depois estava de regresso a Lisboa.

Não obstante as circunstâncias em que era obrigado a deslocar-se ao exterior, nunca deixava de me trazer qualquer coisa. De Londres viera uma réplica da Apolo 11, a pilhas, que levantava e pousava, fazendo as minhas delícias. De Lyon chegaram as minhas primeiras chuteiras “com pitões”. Da Adidas. Um luxo nesses tempos. E com as chuteiras veio também a recomendação de que não poderia constipar-se. E, mais importante, não podia espirrar. O regresso ficaria marcado para meados de Abril para lhe retirarem os pontos. 

O golpe de 25 de Abril obrigou ao adiamento da deslocação, que acabaria por só ter lugar em Maio. E também me recordo de acordar nesse dia da revolução e de me dizerem que não poderia ir à escola, o que para mim seria uma grande chatice. O Padrinho passou o dia com os ouvidos colados ao rádio-móvel da Schaub-Lorenz. Nesse dia não me deixaram fazer o percurso entre a Augusto Gil e a Avenida de Madrid.

Quando o Padrinho voltou a Lyon já era demasiado tarde. Pelo caminho constipara-se, espirrou repetidas vezes, os pontos rebentaram. Mais um desastre que ofuscou a sua alegria, momentânea, pelo 25 de Abril.

Em Lisboa, primeiro, em especial com o Prof. Ferraz de Oliveira, a quem muito estimava e que ainda conhecera em Moçambique, do tempo em que aquele por lá passou para cumprir o serviço militar, e muito anos volvidos, talvez uns vinte, em Coimbra, outros tentaram fazer os impossíveis para lhe restituírem a visão. Sem sucesso.

Ano após ano percorreu as calçadas que lhe estavam reservadas, recusando-se a aceitar o seu destino, rejeitando bengalas e processos de aprendizagem próprios de quem está na sua condição, com excepção do braile, de que ainda chegou a fazer uso para “ler” algumas obras, como Kundera, que já não era do seu tempo saudável e de quem ouvira falar.

Ao longo da minha vida, mesmo depois de me tornar adulto, em virtude da estupenda memória que tinha, deu-me a conhecer inúmeros livros. Era senhor de uma fantástica biblioteca que aos poucos me foi passando. Ao meu irmão, que foi para Santa Maria, cabiam os livros de medicina.

À medida que eu crescia e evoluía, por vezes em razão das descobertas que fazia e das interrogações que suscitava depois de passar umas horas na Livraria Barata, onde chegou a haver um banquinho colocado pelo dono para que eu, e outros curiosos como eu pudessem ler sem estorvar ninguém, recordava-me o que havia na biblioteca lá de casa, a que se seguia, invariavelmente, um “depois leva esses livros, eles hão-de ser todos para a ti, a mim já não me servem para nada e o C.J. não precisa deles”.

Foi assim que recebi algumas primeiras edições do Eça e do Pessoa, Fernando como ele, como S. António, por quem tinha alguma admiração, já que a devoção nunca fora o seu forte e há muito a perdera perante a cruz que carregava.

Com o Padrinho cheguei a Rimbaud, Stendhal, Hugo, Schopenhauer, Kierkegaard, Rousseau, Proust, Maupassant, Gide, Camus, Sartre, Beauvoir; aos brasileiros, também a Unamuno, Lorca, Machado; ao Sena, à Sophia, a Brecht, ao Santareno, ao Gomes Ferreira, sei lá, a uma infinidade de gente que sabia sentir, escrever e pensar, e que nos ajudava a pensar, e a olhar para o mundo e para nós, os mortais, com olhos de ver, da literatura à pintura, da música à canção francesa e italiana, e do jazz até à "senhora D. Amália", que eu jamais conheceria e apreciaria sem a sua ajuda.

Os últimos anos, com os sucessivos impasses e os desastres político-governativos em que o país se foi imolando, e que lhe cortaram a pequena reforma, aumentou a sua descrença em relação aos políticos e aos partidos que nos saíram na rifa. "Gente medíocre, gente que não presta, e os que prestam não querem saber de nós".

Contudo, queria sempre saber o que eu andava a fazer, a ler ou a investigar, e a que conclusões chegava, sem que jamais o ouvisse criticar as minhas áreas de estudo, ou, em dado momento, a minha esporádica intervenção política enquadrada, acompanhando-a mesmo com algum interesse.

Uma das últimas vezes em que o recordo bem disposto foi no dia do meu casamento. Disse-me várias vezes o quanto gostava da minha mulher. E num dos últimos Natais em minha casa, quando ainda vivia em Portugal, guloso com a canja de perdiz e o bacalhau espiritual ou elogiando a macieza do cabrito assado, logo ele que detestava "carne da testa", voltou a elogiar-lhe os dotes e a paciência.

A distância e as dificuldades da vida roubaram-nos infindáveis horas de conversa, que sempre o distraíam, por vezes de leitura em voz alta, fossem artigos de jornal ou trechos de livros que eu lera e apreciara, e depois levava para lhe ler quando passava lá por casa.

Lembro-me de todas as suas interrogações quando numa tarde lhe li umas quantas passagens de um ensaio da Maria Filomena Mónica sobre a morte. E dos comentários que fez sobre trechos das memórias do Almeida Santos, que propositadamente levei para ouvir os seus comentários, de um tempo colonial em que ambos, tal como o meu Pai, foram participantes. Limitou-se a dizer-me que ele sabia escrever com propriedade. E de como apreciou o “Cão como Nós”, e outros escritos do Alegre, de quem não gostava como político, e que "se fosse tão bom político como escritor talvez nos safássemos". A esquerda, a política, há muito que morrera para ele.

Acompanhava os relatos de futebol, gostava de ouvir as notícias da Renascença e a Bola Branca (seria este o nome do programa?), e tinha tanta confiança nos últimos presidentes do Benfica que ao fim de mais de sete décadas de associado desistiu de ser sócio. O que me ele disse, cego, por exemplo, de Vale e Azevedo ou de Vieira, só de os ouvir arengar, é irreproduzível. Apesar disso, quando soube que eu iria participar, com muitos milhares mais, no financiamento do novo Estádio, perguntou-me se não queria uma pequena ajuda. Quando a SAD se formou, como quem não quer a coisa, perguntou-se se estava a pensar comprar algumas acções. Dizendo-lhe que sim, entendeu reforçar o parco pecúlio que eu destinara para esse efeito e esclareceu logo que as acções ficariam em meu nome. Assim se fez.    

Dizia-me que estava velho. E com a amargura e a rudeza de quem sente a aproximação ao fim, acrescentava que só não queria que o lixassem mais. Na reforma. Eu compreendia-o e não dizia nada. Sabia que tinha carradas de razão.

Numa das últimas cartas que me enviou, quando a Mélita ainda podia escrever o que ele ditava, lembrou-se de me falar do poema “Amputação”, que o Rui Knopfli lhe dedicou (Algo, em mim, está morto./ O lado direito inerte, ausente,/ de mim está alheio./ Do lado esquerdo o fito,/como se a um outro/ olhasse./ Metade de mim persiste,/ vive,/ e contempla algo, ardendo,/ estiolando,/ que em mim está morto./ Um perfil que apodrece/ e eu vivendo/ e vendo ausentar-se de mim/ algo que em mim está morto/ definitivamente.) na edição do seu primeiro livro, referindo-me que ao fim destes anos todos aquele texto fora premonitório.

Escreveu-me então que “do texto, em si, já não me recordo, mas o título ficou como um sinal de presságio. Não sei se ele tinha os olhos perfurantes e longos dos videntes”. Tinha sim.

E a propósito do que por aí ia, e ainda vou, escrevendo, aqui e ali, e do que alguém lhe lia quando por lá passava, com a sua sabedoria e a infinita amizade que sempre nos uniu, transmitiu-me que já uma vez me tinha mandado dizer, “de forma arredondada”, aquilo que pensava. E acrescentou algo que jamais esquecerei:

Tenho para mim que não é quixotismo denunciar toda e qualquer forma de injustiça, mas é minha convicção também que os valores e interesses instalados, seja qual for o poder que os suporte, são como moinhos de vento, contra os quais quase sempre é inútil arremeter.

De quanto me foi possível deduzir, as barricadas parisienses de Maio de 68 foram erguidas contra alguns desses interesses e valores — só que o foram pelas mãos de um revolucionarismo inconsequente —, por romântico, por demagógico e por outras razões mais que eu não sei.

Passadas três décadas, os “moinhos” lá continuam no seu afã e, varridas as ruas do entulho revolucionário, já nada deve restar nos vazadouros municipais.

A velha máxima latina “primum vivere deinde philosophare” podia servir de epitáfio (ideia minha) para certos acontecimentos e situações.

Sem dúvida, viver está sempre primeiro!

Longe de mim, com estas palavras, pretender desviar-te do que sintas como imperativo.

Penso que conheces minimamente o chão que pisas e o meio que te rodeia.

Assim sendo, “sem te queimares” aproveita o teu “Sol de Primavera”, porquanto, como tantas outras coisas nesta vida, também "o sonho é fugidio”.

Pegando nesse “sem te queimares” veio-me à lembrança o diálogo havido nas vésperas de Alcácer, entre D. Sebastião e um velho fidalgo que desaprovava a sua empresa africana.

Ao reticente conselheiro terá o Rei perguntado qual era a cor do medo. A resposta terá sido mais ou menos esta: “Senhor, o medo, por vezes, tem a cor da prudência”.

No final da missiva recordava-me que não queria que eu fosse medroso. Ele, que nem sempre o fora, não podia vangloriar-se de o não ter sido porque pagara sempre um alto preço pelos seus erros maiores.

Quando o Rui faleceu, em 2017, em termos tão súbitos, incompreensíveis e por erros sucessivos de outros colegas, acompanhou-me na dor, no desnorte, preocupado com o que eu iria fazer a seguir. E como concluiria o doutoramento.

O falecimento da Mélita foi a machadada que faltava no seu desgosto. Sempre pensara que por ser mais velho iria primeiro. Não quiseram assim os deuses. Voltaram a lixá-lo.

Repetia na sua solidão, implorava até à exaustão, da sua lucidez cansada e desesperada, que o levassem, que não estava cá a fazer nada. Que já chegava, temendo que a longevidade do seu lado materno o fizesse continuar por mais tempo no martírio em que vivia, na escuridão permanente entre chagas e trambolhões, enquanto o corpo mirrava e dobrado se ia vergando ao peso de mais de um século, recriminando quem com carinho e ternura, embora houvesse sempre quem com pouco jeito, o procurava auxiliar no seu infortúnio.

A mim escutou-me sempre. E chegou a pedir-me desculpa pelo que dissera a um ou outro, gente de quem ele sempre gostara e que dele gostava, como se fosse o facto de ser eu a referi-lo, quando com ele falava no desagradável episódio ocorrido, que desse autenticidade ao sucedido e o fizesse descer à terra.

Um dia, já em democracia, quando um alto dirigente africano conhecedor da sua vida, como outros que o conheciam e por vezes apareciam, fez questão de o visitar, e de nos acompanhar numa refeição em sua casa, estando já ele cego há muitos anos, aquele referiu-lhe, não obstante toda a hospitalidade, amizade e confiança, que aqueles aposentos eram “curtos” para acomodar toda a gente. Não éramos mais que seis ou sete pessoas à volta da mesa, mas aquilo caiu mal, e dessa vez a resposta saiu sem diplomacias, certeira e fulminante: “Pois são, tem razão, mas sabe que este colono só trouxe de África a roupa e os livros, e nem a cama onde se deita foi por ele comprada”. Fez-se silêncio. A seguir voltou tudo à normalidade, e jantou-se como sempre.

Preocupava-se, preocupou-se sempre, com a felicidade dos outros. Que os queria felizes, que tinham esse direito, sem jamais perceber a razão da sua própria infelicidade, do seu purgatório, da solidão e do abandono em que Deus, de cuja existência cada vez mais duvidava, o deixara. Nem Santo António o escutava.

Estou seguro que a sua infelicidade se foi tornando maior à medida que sentia o tempo fechar-se à sua volta, sem solução, e que alguns dos que lhe eram mais próximos o foram vendo afastar-se cada vez mais amargurado, rude e agreste no trato.

Pediu que no dia em que morresse o levassem para o Alto de S. João. Se possível que fosse tocada a sinfonia do destino, como que me recordando as infindáveis tardes e noites em que ouvíamos os discos que eu descobria e de que ele gostava. Podia ser Brel, um Requiem ou a Maria João Pires. E queria que o seu diploma o acompanhasse na hora da despedida. A medicina fora a sua paixão maior e a causa da sua tragédia e do seu desencanto. Deixara-o naquele estado amputado, sem poder ler como uma pessoa normal. Não servira para nada, não obstante o brilhantismo da forma como todos os colegas se referiam ao seu saber e ao modo como sempre exerceu a profissão, se dedicou aos seus doentes e transmitiu os seus valores a quem seguiu os seus passos.

A parte do diploma eu não disse a ninguém. Ficam a sabê-lo agora. Guardei-a para mim. Como guardei muitas outras coisas que me disse e que morrerão comigo. O juramento de Hipócrates era para ele mais sagrado que o Santo Sudário. E levara-o a interrogar-se, como médico, muitas vezes, sobre a justeza da consagração legal da eutanásia. Apesar de estar na situação em que estava. Nunca o esquecerei.

Longe, com as fronteiras fechadas, sem aviões, confinado à vista da minha varanda, nesta húmida, inquietante e recortada solidão em que também sobrevivo, deram-me a notícia de que finalmente lhe fora feita a vontade. Do outro lado da linha, disseram-me que o seu sofrimento terminara. Que não fora por causa de nenhum vírus, e que o tinham levado na Quinta-feira de Paixão. A sua via sacra de 101 longos e sofridos anos terminava ali. Solitariamente.

Foi cremado no dia seguinte, Sexta-feira Santa. Não houve velório, não houve missa. Ele não gostava de foguetórios. Só duas ou três pessoas que dele cuidaram até ao fim o acompanharam nessa viagem. Ouviu-se Beethoven.

E sabe-se que não ressuscitará ao terceiro dia. Dizem que isso está reservado ao filho de Deus. Não ao Padrinho.

Por isso resolvi escrever estas linhas. Eles que me desculpem.

Um senhor

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.04.20

25562641_770x433_acf_cropped-2.jpg(Créditos: João Relvas, LUSA)

Ouvi esta manhã, com a atenção que lhe é devida, e esquecendo aquela "achega" final da jornalista, a entrevista que o general Ramalho Eanes concedeu à RTP.

Num registo franco, directo e com a ponderação habitual, Eanes mostra que continua, aos 85 anos, a destilar humanismo e sentido cívico por todos os poros.

É bom escutar nesta altura o que o nosso antigo Presidente da República tem para nos dizer.

No tom adequado, com a calma e a reserva conhecidas, sem o espalhafato e a pesporrência de outros, com equilíbrio e o lastro da sua experiência, mostrou como é possível atravessar uma revolução, todas as suas peripécias, e percorrer mais de quatro décadas de democracia, recheadas de altos e baixos – que foram muitos, longos e nalguns casos também epidémicos –, mantendo a mesma honradez, a mesma dignidade e o sentido de Estado, independentemente das escolhas e opções que fez ao longo da vida.

E não é preciso concordar com tudo o que ele disse para reconhecer o serviço que uma vez mais prestou à nação.

Um senhor que continua a ser um exemplo de elevação, seriedade e dedicação à causa pública.

Repugnâncias

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.03.20

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Compreendo a reacção de António Costa às palavras do ministro das Finanças dos Países Baixos no final do Conselho Europeu extraordinário de 26 de Março p.p.. 

Um português com o seu temperamento, perante o que foi dito, e tem sido dito nos últimos anos pelos ministros das Finanças holandeses em relação aos portugueses e aos povos do Sul, teria dificuldade em reagir de outra forma.

Também percebo a resposta holandesa. O amor aos euros, como antes em relação ao florim, está-lhes na massa do sangue. E tudo justifica. Daí a sua indiferença perante a morte, e lhes faça muita confusão a preocupação com os outros que sofrem.

Mas eu não teria dado importância ao fulano.

Continuo a ter muita dificuldade em levar a sério gente, como dizia um tio que os conhecia bem, que não toma banho todos os dias; que passando férias em Portugal, em Espanha ou em Itália anda sempre com os pés imundos, e quando vai a um jogo de futebol, entra num bar para tomar uma cerveja, ou num avião no final das férias, normalmente cheira mal.

Tivessem eles bons hábitos de higiene, lavassem as mãos, e não fossem tão porcos e arrogantes, e certamente que não haveria hoje nos Países Baixos mais de oito mil infectados e quinhentos e quarenta e seis mortos devido ao Covid-19. De ontem para hoje foram mais cento e doze.

Isto é que para mim é repugnante. Mais a mais quando acontece num país rico e desenvolvido pelos indicadores que se usam em qualquer universidade.

Quanto ao resto, o tal de Hoekstra deve orgulhar-se dos números. Um palerma. Como o Dijsselbloem também era.

"We are in great shape"

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.03.20

No momento em que o Governador do Texas, Gregg Abbott, envia aos seus concidadãos a Declaration of a Public Health Disaster in the State of Texas, e acontece mais uma corrida às armas por parte dos estado-unidenses, certamente para combater a tiro o COVID-19, convém recordar o que Donald Trump foi dizendo ao longo das últimas semanas. Um verdadeiro monumento à estupidez.

We are in great shape! Indeed.

Leituras

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.03.20

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"Under Mao or Kim, mocking the leader's name was enough to warrant assignment to a labour camp. (...) Under Mussolini or Ceaucescu, editors received daily instructions on what should be mentioned and what was prescribed. Writers , poets and painters, under Stalin trembled as the thought that their praise might not appear sufficiently sincere.   (...)

In the wake of the Cultural Revolution the communist party in China amended its constitution explicitly to 'forbid all forms of personality cult', making slow but inexorable progress towards greater accountability. But the regime has been turning back towards dictatorship. After Xi Jinping was elected General Secretary of the party in 2012 his first act was to humiliate and imprison some of his most powerful rivals. Then he disciplined or purged hundreds of thousands of party members, all in the name of a campaign against corruption. As the regime makes a concerted effort to obliterate a fledging civil society, lawyers, human rights activists, journalists and religious leaders are confined , exiled, and imprisoned in the thousands.

The propaganda machine has consistently idolised Xi. In the capital of Hebei province allone some 4.500 loudspeakers were installed in November 2017, before a major party congress, calling on all people to 'unite tightly around President Xi'. The party organ gave him seven titles, from Creative Leader, Core of the Party and Servant Pursuing Happiness for the People, to Leader of a Great Country and Architect of Modernisation in the New Era. 'To follow you is to follow the sun' went a new song launched in Beijing. Trinkers, badges and posters with his portrait are ubiquitous. His toughts became compulsory reading for schoolchildren the same year. Fear goes hand in hand with praise, as even mocking the Chairman of Everything in a private message online can be treated as a heinous crime punishable by two years in prison. In March 2018 he became Chairman for life, as The National People's Congress voted to abolish limits on his term.

Nonetheless, dictators today, wth the excedpetion of Kim Jong-un, are a long way from instilling the fear their predecessors inflicted on their populations at the height of the twentieth century. Yet hardly a month goes without a new book announcing 'The Death of Democracy" or 'The End of Liberalism'. Undeniably, for more than a decade democracy has been degraded in many places around the world, while levels of freedom have receded even in some of the most entrenched parliamentary democracies. Eternal vigilance, as the saying goes, is the price of liberty, as power can easily be stolen.

Vigilance, however, is not the same as gloom. Even a modicum of historical perspective indicates that today dictatorship is on the decline when compared to the twentieth century. Most of all, dictators who surround themselves with a cult of personality tend to drift off into a world of their own, confirmed in their delusions by the followers who surround them. They end up making all major decisions on their own. They see enemies everywhere, at home and abroad. As hubris and paranoia take over, they seek more power to protect the power they already have. But since so much hinges on the judgements they make, even a minor miscalculation can cause the regime to falter, with devastating consequences. In the end, the biggest threat to dictators comes not just from the people, but from themselves." (pp. 204-206)

 

O livro foi editado no segundo semestre do ano passado pela Bloomsbury. Frank Dikötter é Chair Professor de Humanidades na Universidade de Hong Kong e Senior Fellow da Hoover Institution. 

Barbara Kiser considerou-o a "salutary reading at a time of persistent attacks on democracy". Eu também.

E lembrei-me disto a propósito do que aconteceu em Wuhan em Dezembro e Janeiro passados. Também por causa das comunicações que alguns jornalistas receberam nos últimos dias.

A campanha em curso prosseguirá num quiosque perto de si.

Ainda a propósito das máscaras

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.03.20

"La France est un pays sous-développé en matière de santé: sinon, comment appelez-vous un pays qui n'est pas capable de fournir un masque à ses concitoyens?!" (Philippe Juvin, chef des urgences de l'hôpital Pompidou)

“(...) une centaine de soignants ont contracté le virus, non pas dans les hôpitaux mais dans leur vie sociale" (Martin Hirsch, directeur général des Hôpitaux de Paris - APHP)


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