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Niki

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.05.19

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Aos 70 anos travou o seu último combate, a derradeira corrida de uma vida plena de sacrifícios, glória, coragem, dor e intransigente respeito pela sua condição de homem e de piloto.

Espalhou classe e desportivismo pelas pistas de todo o mundo, numa época em que a Fórmula Um se fazia com cavalheiros, com homens e não com meninos.

Deu dois títulos mundiais à Ferrari (1975/1977), um terceiro à McLaren (1984), mas se me perguntarem o que de mais vivo tenho na memória, talvez fruto da minha condição de Alfista, foram as vitórias em Anderstop, no Grande Prémio da Suécia (1978), com o Brabham-Alfa Romeo BT 46-B com efeito de solo, e em Monza, no mesmo ano.

A primeira constituiu um duelo entre o motor Cosworth DFV do Lotus 79 de Mario Andretti, que viria a ser nesse ano o campeão do mundo, e o fabuloso motor de 12 cilindros da Alfa Romeo, que conduzido pela lenda austríaca esmagou toda a concorrência. A segunda foi uma corrida atípica, com muitos acidentes e interrupções, num fim-de-semana aziago em virtude do falecimento de Ronnie Peterson.

Lauda deixará mais um espaço por preencher na galeria dos notáveis que nos deixaram muito cedo. Que tenha o merecido descanso.

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Rumo ao 38

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.05.19

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Aproveitar a maré

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.05.19

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(créditos: Jornal de Negócios/LUSA)

 

Ultimamente, o líder do PSD não tem dito coisas muito acertadas. O Verão está à porta, com ele a silly season, e Rui Rio está a ver se consegue corrigir a mira, desviando-a dos seus pés.

Não me pareceu por isso desajustada a sua sugestão de que, aproveitando-se o facto de se ir equacionar a retirada das condecorações ao figurão Berardo, se aproveitasse o momento para fazer uma pequena limpeza nas Ordens Honoríficas. Não me parecendo viável dar-lhes um banho à mangueirada com creolina, pois isso seria pouco consentâneo com os nossos princípios, poder-se-ia começar por aí.

Quem nas últimas décadas tem escrito o que escrevi sobre a matéria só pode congratular-se com a sugestão de Rio.

E podiam aproveitar a ocasião para também fazerem uma triagem às que foram atribuídas em Macau antes e depois de 1999 a agradecer favores de vária ordem. É que há para aí mais uns figurões – que nunca deviam ter sido condecorados e que só o foram porque os vapores da pataca eram mais fortes do que os do decência – a pedirem insistentemente que lhes retirem as ditas. Por causa do peso, não é por mais nada.

Se então o fizessem no Dez de Junho, em vez de atribuírem mais uns quantos brindes a tipos de duvidosa estirpe, podiam aproveitar para realizar uma sessão solene, com toda a pompa, a anunciar as que foram retiradas. 

Poderia ser que assim o povão aplaudisse a separação do trigo do joio, se reencontrasse com a Chancelaria e, quem sabe, lhe reconhecesse alguma utilidade prática.

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Sina

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.05.19

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O JTM dá conta, em primeira página, pelo que se depreende ser uma notícia importante, que "Ho Iat Seng adia formalização por causa de obras".

Lendo a notícia fico a saber que se trata da formalização da candidatura do pré-candidato (futuro?) a Chefe do Executivo da RAEM, e que aquela está atrasada por causa das obras. Nem mais. Inicialmente prevista para 20 de Maio, a data da formalização teve de ser alterada para final de Maio ou início de Junho por atrasos das obras do escritório. 

Depois de ter feito o anúncio da sua pré-candidatura em plena Assembleia Legislativa, candidadamente confessando não ter ainda qualquer programa para o cargo que pretende exercer, pode-se dizer que o candidato continua no rumo certo.

Atrasos por razão de obras é o pão nosso de cada dia na RAEM e têm custado muitos milhões ao seu erário. Das obras do Metro Ligeiro à de qualquer beco, sem esquecer o novo Hospital das Ilhas, a Cadeia ou o Terminal Marítimo da Taipa tem sido todo um rol de incumprimentos sem responsáveis conhecidos.

Não é por isso de estranhar que também as obras da sede de candidatura do pré-candidato a Chefe do Executivo estejam atrasadas. Corresponde ao padrão.

Como residente só lamento que o Dr. Ho Iat Seng comece já por não ser capaz de cumprir os calendários que ele próprio para si definiu e deixe transparecer para os cidadãos esta imagem.

E humildemente concluo que, se com o que já vem de trás da condução do processo de suspensão do deputado Sulu Sou e da não renovação dos contratos a dois assessores portugueses da AL, começa assim, com atrasos e adiamentos, numa empreitada tão básica (por ajuste directo, presumo) e com a dimensão do seu próprio escritório (sede) de candidatura; e em relação a uma decisão que deverá ser a mais importante e honrosa da sua vida, a de ser candidato a Chefe do Executivo da RAEM, temo que não fosse por esta amostra que alguém dizia há dias ser ele uma pessoa "altamente competente".

Em todo o caso, uma coisa é certa: se chegando a Chefe do Executivo a sina da RAEM continuar a ser a dos processos mal conduzidos, das desculpas esfarrapadas, das obras e dos atrasos, pelo menos não haverá ninguém a estranhar. Nem aqui nem em Pequim.

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Sim, falar falamos

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.05.19
TASS33281723.jpg(créditos: Anton Novoderzhkin / TASS)

 

In illo tempore, em Moçambique, um médico foi chamado a arbitrar um conflito que, creio, opunha um curandeiro a um régulo num lugarejo remoto. Não falando o dialecto local o clínico recorreu a quem o acompanhava para a tradução. Passados uns bons minutos, durante os quais os intervenientes iam, pensava ele, terçando argumentos enquanto faziam vénias e trocavam sorrisos e gargalhadas, o árbitro interrompeu para perguntar o que já tinham dito. "Até agora nada, doutor, têm estado só a falar", respondeu o tradutor ad hoc.

Vem isto a propósito porque ao chegar a casa liguei a televisão e dei de caras com a conferência de imprensa de Mike Pompeo e Sergei Lavrov, em Sochi.

Pelo que ouvi, praticamente todos os assuntos importantes e que interessam à comunidade internacional foram passados em revista. Venezuela, Síria, Irão, Ucrânia, eleições presidenciais nos EUA, "democracia" na Líbia. Calculo que o ataque de drones na Arábia Saudita também tenha sido ventilado.

Estranhei, apesar de tudo, que não tivessem falado das incidências dos jogos da "Liga Nos", nem do "VAR". Mas o tempo não dá para tudo nos canais internacionais. E lá fora não se podem dar ao luxo de ter um exército de "paineleiros", de todas as formas e feitios, com os penteados, as gravatas e os sotaques mais mirabolantes, durante horas, dias, anos a fio, em múltiplos canais de televisão, falando em futebolês criativo, faça chuva ou faça sol,  gritando e gesticulando, oferecendo-se reciprocamente mimos, não raro desafiando-se para duelos "lá fora", como se fossem Jaime Nogueira Pinto e Ruben de Carvalho a discutirem a crise dos mísseis cubanos. Têm sempre pano para mangas. E audiência, o que é ainda mais espantoso.

De qualquer modo, deu para perceber do encontro em Sochi que a atmosfera foi muito "amigável", de grande respeito mútuo e admiração. Nas palavras do MNE russo foi uma "conversa franca e útil". 

Confesso que não vejo grande diferença entre o que aconteceu no Vale do Limpopo com o conflito que opunha o curandeiro ao régulo e o que, ultimamente, Trump e Xi Jinping dizem de cada vez que se reúnem. "We have a good dialogue with China", diz o estado-unidense. Quando não corre bem não passa de um "we had a little squabble with China". Acontece o mesmo nos encontros com o celerado Kim, da Coreia do Norte, com excepção da parte da conferência de imprensa. Porque há sempre um que amua antes da sobremesa. 

A situação não foi hoje muito diferente no diálogo de Pompeo com Lavrov. Para todos os efeitos, conversa franca e útil, claro.

Os impasses, como as crises, os refugiados, o perigo nuclear, o terrorismo, a catástrofe ambiental, o drama da fome, as epidemias, a miséria moral, a estupidez humana e a ignorância é que são hoje permanentes. E cada vez mais universais.

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Conseguiram

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.05.19

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(créditos: Público/DR)

Há sensivelmente dez meses deixei nota neste espaço sobre o mau serviço que era prestado aos utentes do Aeroporto Humberto Delgado, vulgo Aeroporto de Lisboa

Esta semana, a Bloomberg divulgou a lista dos melhores e dos piores aeroportos do mundo. 

Pois bem, entre os dez piores aeroportos do mundo o Aeroporto de Lisboa conseguiu ser o pior. Isto é, o 132.º e último lugar. O Porto ficou em 125.º. E não me venham dizer que há muitos outros aeroportos importantes entre os piores, como Londres-Gatwick e Paris-Orly, porque a gravidade do caso não muda de figura, visto que o movimento daqueles não tem comparação com os nossos.

Se o objectivo da privatização da ANA por parte da antiga ministra das Finanças e do ex-primeiro-ministro Passos Coelho era prestar um péssimo serviço ao país, o objectivo foi plenamente conseguido, não ficando atrás do que se fez com os CTT

E tome-se nota de que não sou, por princípio, contra as privatizações. Mas em tudo na vida só há duas maneiras de fazer as coisas: bem feitas ou mal feitas. Neste caso, assim o penso desde a primeira hora, foram mesmo mal feitas e enganando-se os contribuintes e utentes. E para quê? Os resultados estão à vista de todos.

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Um destes dias Marat ressuscita

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.05.19

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(foto daqui, da Sábado)

Apesar de estar muito longe, e de hoje em dia raramente escrever sobre o que se passa na política nacional, não posso deixar de dizer duas palavras sobre o indecoroso espectáculo a que me foi dado assistir pela televisão a propósito da visita de um tal de Joe Berardo a uma comissão parlamentar da Assembleia da República.

Confesso que não é fácil encontrar palavras que descrevam o que ali se passou, mas grotesco será o mínimo.

E tudo acontece na mesma semana em que as revistas Sábado e Visão mostraram aos portugueses como é possível a um conjunto de pseudo-empresários, pseudo-banqueiros, gestores incompetentes e devedores relapsos levarem vidas milionárias, depois de terem derretido milhões em negócios ruinosos à custa da banca nacional, pública e privada, não pagando a dívida que geraram e deixando os prejuízos para os outros.

No entanto, a avaliar pelas vidas que levam, todos se fizeram pagar pela criatividade da sua gestão, enquanto lhes foi possível, sendo certo que os prejuízos estão a ser, e continuarão, a ser pagos pelos zés-ninguém que sustentam a gula da máquina fiscal e dos bancos que temos.

A imagem de gozo de Berardo no Parlamento, onde se fez acompanhar por um advogado que fazia de ponto, e ao qual condescendentemente o presidente da Comissão deixou que fosse falando e segredando as respostas que o seu constituinte deveria dar, ultrapassou todos os limites.

Depois, o estilo sobranceiro do depoente, as interjeições que foi fazendo, a risada alarve, as respostas irónicas a questões sérias, denunciavam o chico-esperto que a democracia, o Estado de Direito e os nossos sistemas jurídico e judicial fomentaram em quarenta e cinco anos de liberdade com o aval do poder político e da elite dos banqueiros nacionais.

Com tudo o que ouvi, continuo sem saber o que foi verdade e o que é mentira, e também já não tenho esperança de algum dia vir a saber.  Sei é que a dislexia não impediu o cavalheiro de sacar milhões, de continuar a fugir às notificações e de agora gozar com o pagode. Deputados incluídos.

Porém, houve algo que retive, para além do facto do cavalheiro não ter dívidas pessoais. O modo como depois de tudo o que aconteceu se permitiu dizer que tentou “ajudar” a banca nacional, mantendo nos dias que correm um padrão de vida incompatível com a escassez de bens que refere possuir, é um insulto a qualquer cidadão trabalhador e cumpridor das suas obrigações.

O presidente da "Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco" (só o nome diz tudo) e os senhores deputados podem não chegar a conclusão alguma. Ninguém estranhará depois da triste figura que fizeram e daquilo que nas suas barbas permitiram que acontecesse.

E até poderemos ter mais uma dúzia de comissões, na linha do que se passou com a avioneta que caiu em Camarate, por exemplo, para investigarem a CGD e as negociatas a que este banco se prestou, para que agora os seus depositantes estejam a pagar o ordenado dos senhores deputados e dos supervisores do Banco de Portugal e, ainda, os prémios que a CGD irá continuar a oferecer aos seus administradores pelas asneiras, a irresponsabilidade e a desfaçatez com que gerem o dinheiro dos outros e impõem comissões bancárias sem que quem governa coloque um travão aos sucessivos insultos.

Não obstante, há uma coisa de que todos temos já a certeza: a de que à sombra da liberdade, da democracia e do Estado de Direito, num país envelhecido e em acelerada regressão demográfica, um poder político estruturalmente mal formado e manipulado por partidos ainda mais sofríveis, promoveu o aparecimento e a reprodução de múltiplos Berardos. De muitos “Joe”. Na banca, nos partidos, nos sindicatos, nas empresas, nas escolas, no futebol, nas autarquias, nas forças armadas, nas universidades, em todo o lado e em todas as instituições. Como se tivéssemos sido invadidos por uma espécie de formiga branca semi-analfabeta, bem falante e bem vestida, alimentada pelos contribuintes e protegida pela classe política, pelos banqueiros e pelo Estado de Direito.

Pena é que em vez de terem alimentado a canalhada que nos roubou não tivessem andado a produzir mel para oferecer a ursos. Fizessem deles comendadores. Como fizeram a tantos outros ursos. Num Dez de Junho. Teria saído muito mais barato, ter-se-ia podido proteger a natureza e haveria a certeza de que depois de saciados, estes ursos, mesmo sendo comendadores, não iriam para o Parlamento arrotar o mel, rir-se na nossa cara e fugir calçada abaixo das notificações dos agentes de execução.

Enfim, o importante agora é garantir que o circo possa continuar. Em directo e a cores. Com os colaterais que o fisco se encarregará de periodicamente sacar a todos nós, indistintamente, residentes e emigrados. Sem um ui. Aos que conseguiram ficar e aos que foram empurrados para fora da sua zona de conforto. E que mesmo fora não escapam ao linchamento fiscal vitalício, continuando a cumprir. Até um dia.

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A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.05.19

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"Initially, balking at the vision, those selfies with “Uncle Marcelo” sat uneasily with me. The gravitas and dignity of a state visit stands incongruous with those eager faces: some showed complete joy in the utterly unique opportunity (ah, the benefits of expatriate life); others with awe and disbelief; a few were lost in the adrenaline rush, soaring so high on the occasion that they portrayed a kind of comedic grotesqueness; then there were those seriously contemplating the solemnity of this once in a lifetime chance, and even those that suggested it might become monetizable one day. Nonetheless, a joyous occasion appeared to be had by all.

At what point did our community move from ridiculing the selfie to becoming an advocate for it? This was not just any selfie, but a “marselfie”; an evidenced moment of intimacy with a figure of global importance and recognition."

A oportuna e distanciada leitura da incontornável Leanda Lee em Dignified Selfies. Para os portugueses e o seu Presidente da República reflectirem.

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Registos

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.05.19

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"E até é bom haver aqui em Macau alguma coisa, que é a sabedoria milenar chinesa, com alguma agitação portuguesa.

É bom quando me chegam, de vez em quando, notícias de Macau acerca de como um ou outro português é português, vive inquieto, quer mais e melhor, quer aqui mais ou quer melhor ali, e gostaria de ter uma ideia na Administração, outra ideia na Justiça, outra ideia na Língua, outra ideia na Cultura.

Eu vou lendo tudo, vou lendo tudo, e sabendo tudo.

E eu digo: que bom é haver a sabedoria e a calma chinesa e haver também este acicate desta capacidade imaginativa e de frenesim português." – Marcelo Rebelo de Sousa, Residência Consular, Macau, 1 de Maio de 2019

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A integridade não se negoceia

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.04.19

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Volvidos oito meses sobre a data em que de forma totalmente inusitada lhe foi comunicada, bem como ao seu ilustre colega Paulo Cabral Taipa, a não renovação do seu contrato de trabalho na Assembleia Legislativa de Macau, Paulo Cardinal veio finalmente quebrar o silêncio a que a si próprio se tinha imposto para deixar assentar a poeira, arrumar as ideias e começar a preparar o seu futuro e o dos seus.

Passado o imprescindível período de nojo, no mesmo dia em que o Presidente da República desembarcará em Macau, para um curta visita de cerca de 12 horas, é publicada a entrevista dada pelo insigne jurista e constitucionalista aos Jornais HojeMacau, Macau Daily Times e à TDM – Televisão de Macau (aqui um extracto apresentado no Telejornal de 28/04/2019).

Trata-se de um verdadeiro documento que deverá ser analisado com a devida atenção pelos titulares do poder político que têm a obrigação, indelegável, de fiscalizarem o cumprimento da Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre a Questão de Macau, tratado internacional que vincula Portugal e a República Popular da China, bem como lido à luz da Lei Básica da RAEM, a mini-constituição outorgada por Pequim.

Se dúvidas houvesse sobre a forma vergonhosa como os dois mais antigos e experientes assessores da Assembleia Legislativa de Macau foram afastados, elas ficam agora totalmente dissipadas e na primeira pessoa.

Paulo Cardinal volta a prestar um indiscutível serviço ao Direito de Macau, à RAEM e aos seus residentes, a Portugal e a todos os seus cidadãos, juristas, magistrados, advogados e assessores que aqui laboram, de modo digno, sério e frontal, tal como à R.P.C. e aos que neste país se preocupam com a vigência do "segundo sistema" e a sua imagem internacional.

E fá-lo com a elevação, a dignidade, a transparência e o carácter a que a todos habituou, durante cerca de três décadas, dando-nos mais uma prova de toda a sua grandeza e humildade.

Um exemplo que tem de ficar aqui registado. Porque a integridade dos homens decentes não é negociável.

 

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Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.04.19

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(foto daqui)

Apresenta-se como um olhar sobre "a China além da China, além das fronteiras físicas, mentais, pessoais, das muralhas do nosso conhecimento. Este é um laboratório escrito e visual que dá voz a quem, como nós, quer contornar obstáculos, sejam eles a língua, a cultura ou a dimensão de um espaço aparentemente inalcançável."

Na altura em que o Presidente da República percorre o novo Império do Meio, conversa com Augusto Santos Silva ao longo da Grande Muralha, se prepara para as selfies de Macau e para celebrar o Primeiro de Maio numa região especial de um país socialista que vinte anos depois de se tornar "patriota" continua sem ter uma lei sindical e de regular o exercício do direito de greve,  previstos na sua mini-Constituição, e que, vergonhosamente, continuam a aguardar regulamentação, nada como dar uma vista de olhos por estes dias ao Extramuros.

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Abril

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.19

Uma revolução faz-se com todos os momentos, também com os menos bons. Alguns fizeram de nós o que somos hoje.

Uma revolução faz-se com gente boa e estafermos.

Com alguns filhos da puta e tolos também (muitos ainda andam por aí a darem-nos cabo da vida).

Depois, a história encarregar-se-á de colocar cada um no seu devido lugar. Sem caganças.

Se for sem sangue melhor. É mais pedagógico porque se prolonga no tempo.

Refina-se, sofre-se, não se apaga.

Transmite-se. Abrila-se todos os anos.

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Basílio Horta

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.03.19

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(foto de Enrique Vives Rubio, daqui)

Ele não será propriamente um referencial de coerência política. Como todos nós tem as suas virtudes e os seus defeitos, e lá vai tendo os seus altos e baixos.

Agora saltou de novo para as páginas dos jornais por causa da gaiteira da Madonna, cantora e artista, à qual todo o país pacóvio e parolo se rendeu no dia em que a senhora resolveu fixar residência na terra onde o céu é mais azul e a luz mais luminosa.

Querer entrar com um cavalo, mesmo que "somente" durante uma hora ou hora e meia, pelo soalho de um palácio oitocentista que é património de todos, correndo o risco de danificá-lo, não me parece o mais curial. Nem quero imaginar o que seria se o quadrúpede resolvesse largar uns "talentos" à sua passagem, ou enquanto a artista se rebolasse com o dito para gáudio do realizador do filme.

Estiveram, pois, muito bem a autarquia de Sintra e o seu presidente Basílio Horta. As explicações que deram e a paciência que tiveram em relação a este assunto revelam bom senso e sentido do interesse público. Não há nada a apontar à sua actuação.

Pelo meu lado, estou cansado de ver as tristes figuras que alguns governantes provincianos têm feito ao longo de anos, à direita e à esquerda, para agradarem a qualquer labrego milionário, oligarca ou autocrata novo-rico que apareça de bolsos cheios e disposto a largar umas esmolas, seja nalgumas privatizações, seja nas tascas dos pobrezinhos.

E não será pelo facto dos filhos da madama andarem a treinar num clube da minha preferência que alguma coisa se altera. Cada cavalo na sua estrebaria. E olhem que gosto mais de cavalos do que de algumas cavalgaduras falantes.

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Humidade partilhada

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.03.19

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(Da Sessão de Apresentação, na Livraria Portuguesa)

Conheço o Luís Mesquita de Melo desde os tempos em que foi assessor jurídico da Assembleia Legislativa de Macau, e o Hélder Beja pelo seu trabalho como jornalista e organizador, em anos anteriores, da Rota das Letras. Estas duas circunstâncias de natureza pessoal seriam, só por si, manifestamente insuficientes para que aqui estivesse deste lado a sujeitar-me ao vosso escrutínio.

Não sei de quem partiu a ideia porque sobre isso não conversei com nenhum deles, mas correspondendo à afabilidade do editor, e com o aval do autor, estou aqui hoje para dar um pequeno contributo ao lançamento de “A Humidade dos Dias”, obra seminal do autor e a primeira editada pela Capítulo Oriental.

Faço-o porque para além da admiração e da estima que tenho por ambos, pessoal e pelo que nas actividades profissionais respectivas vão fazendo e de que vou tendo notícia, “A Humidade dos Dias” reúne um conjunto de textos que desde o primeiro momento prenderam a minha atenção.

Das razões para tal, não sendo especialista em literatura e sem outras pretensões que não sejam as impressões do leitor interessado, procurarei adiante dar-vos conta.

Para já gostaria de começar por sublinhar a feliz coincidência do autor ser açoriano e de a programação deste ano do Festival Rota das Letras, embora dedicado em primeira linha à poesia, congregar entre o conjunto dos poetas e escritores que pretendeu homenagear, alguns que, por uma razão ou por outra, pela genealogia, pela obra ou pela vida, aparecem com ligações aos Açores, ilhas de terra, mar e povo generosos.

Refiro-me desde logo a Jorge de Sena, também ele filho de um açoriano, que enquanto professor das Universidades de Wisconsin e da Califórnia, em Santa Bárbara, desenvolveu actividade profissional que o levou a um contacto constante e profícuo com as comunidades açorianas nos Estados Unidos. E essa aproximação foi de tal sorte que ele próprio, num texto publicado na Gávea, chegou a escrever que “embora eu seja contra a independência dos Açores, uma vez que tal facto seja consumado e o governo de lá seja a meu contento, pedirei a cidadania açoriana: no fim das contas, a minha família paterna é de lá, meu pai nasceu lá, e de vários troncos sou de lá até pelo menos ao seculo XVIII, ainda antes da independência dos Estados Unidos.”[1]

Nesse grupo incluo também Sophia, que não deixou de nos encantar quando se referiu a essas ilhas em que “(...) o antigo / Tem o limpo do novo” e “Há no ar um brilho / De bruma e clareza”.[2]

E depois há Melville, que, integrando o mar dos Açores, os seus pescadores e os seus cetáceos na narrativa do seu fantástico Moby Dick, percorreu oceanos imensos, preenchendo com as suas aventuras muitas horas da infância de tantos de nós, meninos que despertavam para o mundo e teimavam em adormecer sonhando com baleias, orcas, cachalotes, tubarões e viagens sem fim até aos mares do Sul.

Tudo isto nos transporta até “A Humidade dos Dias”, cuja belíssima capa de Konstantin Bessmertny, por onde um olho espreita distante, nos abre uma janela luminosa e refrescante para o que se segue.

Com um prefácio de Victor Rui Dores, poeta, escritor, ensaísta, professor, personalidade sobejamente conhecida da vida artística e cultural dos Açores, e com um posfácio de Ângela de Almeida, investigadora e escritora, dir-vos-ei que estamos perante um conjunto de vinte pequenos textos que percorrem os anos da juventude do autor, recuperando a memória dos seus horizontes, vividos e desejados, nos caminhos do Faial e do Pico, em passeios de barco e em mergulhos que atravessam os desfiladeiros da afectividade, do amor e da amizade, nas múltiplas tonalidades dos azuis metafísicos, transcendentais, que orientam o autor até ao presente pelos caminhos de uma geografia toda ela feita de imagens e de cheiros, que atravessando as veredas da saudade se prolongam até ao presente em palavras e gestos de ternura recuperados pelo seu próprio percurso de vida. Como se não houvesse, jamais tivesse havido, lonjura. Como se o autor nunca tivesse sentido o sabor da partida e a distância física e espiritual das ilhas.

Distância que, por esse prisma, mesmo nas ausências tem o condão de não conseguir impedir o autor de voar nas asas das ganhoas ou dos cagarros, de o prender à luz dos dias, à linha perfeita das estações do ano que se recortam no seu horizonte de cada vez que se faz ao largo, transportando-o num movimento de vaivém entre o Oriente e as ilhas, por um percurso cujos marcos, não obstante a bruma que impregna as páginas do livro, estão minuciosamente definidos e se tornam aconchegantes à medida que os percorremos.

O menino que manobra corajosamente o lusito de velas de lona, “sonhando transatlanticamente”, não fica atrás do capitão-de-mar-e-guerra Manuel de Azevedo Gomes. O tal, pelo relato da baronesa da Urzelina, nesse incontornável Mau Tempo no Canal, que cruzara o lendário estreito de Simoneseki [Shimonoseki] na ponte da sua bateirinha, o Diu, e deslumbrara ingleses e franceses manobrando à vela, pelo porto de Hong Kong, no rasto de um tufão.[3]

Porque o autor, como ele próprio confessa, leva escritas na pele as coordenadas do seu regresso, “porque a ilha arquiva-se na alma ... sem remédio[4].

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Em “A Humidade dos Dias” há como que uma fusão quase religiosa entre o autor e as ilhas, independentemente do lugar onde está, daí emanando um sentimento de pertença que atravessa gerações e correntes oceânicas, as tais que “empurram os sonhos”, e onde “começa sempre a viagem de regresso, um dia, porque só nas ilhas se cumpre o nosso destino e amordaçamos a saudade com paredes de lava”.[5]

A mesma lava que molda o carácter daquelas gentes, e a que o autor não foge quando assume as suas raízes no diálogo que trava com seu Pai ao escrever: “aquilo de que nós somos feitos: lava e ausências, sós, trazendo nos olhos a saudade e a tranquilidade de um ou outro anticiclone teimoso[6].

Um pouco à semelhança do que sentia Vitorino Nemésio quando escrevendo sobre a sua açorianidade, cujo desterro, segundo ele, afina e exacerba, referia que “como homens, estamos soldados historicamente ao povo de onde viemos e enraizados pelo habitat a uns montes de lava que soltam da própria entranha uma substância que nos penetra”.[7]

De certa forma, o destino é um misto de fatalidade e ternura, de solidão e encantamento, onde se sente a tal “solidão algodoada” de que falava Raúl Brandão[8]ao referir-se ao Pico, também presente em Pedro da Silveira quando nos diz “E é tudo tão igual, tão encharcado de solidão / Que a gente às vezes já nem sabe/ se vive”[9]. Afinal a mesma solidão que aparece, igualmente, num pequeno mas belíssimo texto do pai do autor, Fernando Melo, quando depois de concluir a 4.ª classe e sair do Pico, para ser largado no Faial, onde iria continuar os estudos liceais, vê o progenitor afastar-se na lancha que vai de volta enquanto as lágrimas lhe rebentam “maiores que pingos de chuva”, para só secarem na casa onde ficaria hospedado, “sobre as páginas dos livros”, ainda para ele desconhecidos.[10]

O Luís vive intensamente esta condição de ilhéu, este “torpor açoriano”. “[U]ma doença quase de alma”, escreveu Nemésio, interiorizada logo na infância e que se cola à pele ao longo da vida, tal como a humidade, uma constante na literatura açoriana que também aqui estabelece um paralelo com Macau.

É a humidade, aquele ar morno, como escreveu Brandão, que “é uma carícia de pele de encontro à nossa pele e que pesa sobre o peito como bloco”. Ou o cansaço, de que falava o saudoso poeta Santos Barros, que se respira quando se abre a porta[11], que aproxima os Açores dos mares do Sul da China, da névoa quase permanente. Mas isso também acontece com o Monte da Guia, com a Nossa Senhora da Guia, com a Ermida no cimo do monte dominando a paisagem, com a procissão do Senhor dos Passos ou até com os bilhares do Real Clube Faialense, cujo feltro verde, porventura menos gasto, não será muito diferente daquele que por aqui forra a mesa do Clube Militar. Enfim, circunstâncias que até na toponímia unem lugares tão geograficamente distantes e tão próximos na vida do autor.

Deixei para o fim uma breve referência ao belíssimo Canto da Doca, escrito de intenso significado no contexto do livro, “espécie de passagem para os arredores da alma, e da cidade, uma fronteira em forma de esquina que não se dobra”. É por ali que passa a linha que separa a Primavera do Verão, a estação que divide a cidade da infância e juventude da maturidade. Ali, onde se faz a transposição do sonho para a realidade da vida adulta, do Verão para o Outono e o Inverno. Do botequim do Setenta para Porto Pim. E para o Bote de Tabucchi[12]. No botequim do Setenta “as mulheres não entram”. E “joga-se à lerpa em dias de procissão”. O Bote “não é um lugar para senhoras”.   

Numa escrita simples, marca distintiva só ao alcance dos melhores, “A Humidade dos Dias” é uma homenagem às pessoas e aos lugares da memória do autor. E é, igualmente, uma declaração de amor às ilhas “onde o mar é maior[13].

Como leitor e amante dos Açores, do voo dos queimados e do azul profundo das suas baixas, só lhe posso estar agradecido.

“A Humidade dos Dias” é um livro que pela intensidade das imagens que transmite podia ser um filme. Uma viagem. Ou apenas palavras, lidas como um poema murmurado à vista do azul basáltico do canal, na antecipação de qualquer coisa que foi, promessa de algo que há-de vir. Ou chegar. Em silêncio; “[q]ue no mar não se anda aos berros para não acordar os deuses”.[14]

Macau, 22 de Março de 2019

[1]Jorge de Sena, Ser-se imigrante e como, in Gávea-Brown, Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-Americanos, Vol. I, n. 1, Janeiro-Junho 1980, p. 14  

[2]Sophia de Mello Breyner, Açores, O Nome das Coisas, Morais Editores, 1977

[3]Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal, Edição Círculo dos Leitores, 1986, p. 247.

[4]Cfr. Partida

[5]Cfr. Uma Carta de Marear

[6]Ibidem.

[7]Vitorino Nemésio, "Açorianidade", Insula, Número Especial Comemorativo do V Centenário do Descobrimento dos Açores, nº 7-8, Julho-Agosto, Ponta Delgada, 1932. p. 59.

[8]Raúl Brandão, As ilhas desconhecidas – Notas e Paisagens, 1926

[9]Pedro da Silveira, Quatro Motivos da Fajã Grande, citado por Onésimo Teotónio de Almeida, Quadro Panorâmico da Literatura Açoriana nos Últimos Cinquenta Anos, 1989

[10]Fernando Melo, Sózinho no Cais, Boletim da Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, Ano 1, n.º 2, 1999

[11]José Henrique dos Santos Barros, Humidade, 1979

[12]Antonio Tabucchi, A mulher de Porto Pim, Difel, 1998.

[13]Sophia de Mello Breyner, obra e lugar citados.

[14]Cfr. Baleeiros

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De novo o verde, o azul e o laranja (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.02.19

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A parte de Bornéu que corresponde ao estado de Sabah tem a norte a vila de Kudat, a oeste Kota Kinabalu (KK) e as ilhas ocidentais. A sul fica a fronteira com Sarawak e o Bornéu indonésio, e a leste situam-se as cidades de Sandakan, Lahad Datu, Semporna e Tawau. Semporna é a porta de entrada no paraíso de Sipadan. O miolo da ilha é ocupado por florestas, montanhas, vales e constitui habitat de alguns dos mais extraordinários primatas.

O orangotango, o tal cujo ADN é em 97% igual a nós e capaz de fazer uso de ferramentas, continua a viver em liberdade, até ver, nas florestas de Bornéu. A sua população caiu drasticamente no século XX devido à caça ilegal. A situação é actualmente um pouco melhor devido à atenção dada pelos Governos locais e à presença de organizações internacionais viradas para a sua protecção e de outras espécies ameaçadas. Basicamente há três tipos de orangotangos nesta parte da ilha: o de nordeste, o de noroeste e o meridional. Só por si valem uma viagem. Na parte indonésia, em Kalimantan, e em Sarawak ainda é possível ver alguns exemplares, e nos últimos anos indivíduos criados em cativeiro têm sido restituídos ao seu habitat natural.

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Outra espécie endémica é a do macaco-narigudo ou Proboscis. Muitos vivem em zonas ribeirinhas, ao longo dos rios que marcam a geografia da ilha, repartindo as árvores com uma imensidão de pássaros, alguns da família, digo eu pelo seu aspecto, das araras, catatuas e papagaios, com cores vivas, mas cujos nomes não registei.

A oferta hoteleira, como em quase toda a Malásia, país desde há muitos anos virado para o “turismo de qualidade”, é em geral boa a nível de infra-estruturas e instalações. As grandes cadeias internacionais estão lá, embora haja também grupos locais, com instalações de muito boa qualidade e um serviço que normalmente é bom.

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O povo de Sabah é extremamente prestável, educado e simpático, recebendo os portugueses com muito apreço. Para além de Ronaldo, Figo, Bernardo Silva (os jogos do City e do Man. United são seguidos em esplanadas apinhadas) e mais alguns compatriotas, como o vice-campeão do mundo de Moto2, o nosso Miguel Oliveira, que rodava por esses dias em Sepang, registei o dia em que apanhei um Grab, a versão local da Uber, cujo motorista, muçulmano, ao saber que os passageiros eram de Portugal, disparou um sonoro “1511, Afonso de Albuquerque, have you ever been in Malaca?”.

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Seja por influência de Albuquerque ou não — consta que os holandeses deixaram muito pior memória —, certo é que se nota uma influência profunda do catolicismo. Ao longo das estradas sucedem-se nas vilas e aldeolas as tabuletas com a indicação de pequenas igrejas, não falo de uma ou duas, mas de largas dezenas, todas com nomes de santos que nunca se repetem, e placas alusivas, por vezes ao lado umas das outras, apontando em diferentes direcções, havendo uma devoção grande a Maria. Confesso que não me apercebi anteriormente de nada disto, o que não deixa de ser curioso sendo a Malásia uma federação de estados islâmicos. Bem sei que estou numa zona mais remota, de acesso mais difícil, longe da península, mas também vi vacas nalguns locais passeando-se calmamente, como se estivessem na Índia ou no Nepal, inclusivamente à beira das praias.

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Tirando as ilhas mais distantes e sem condições, por tradição come-se bem por estas bandas. Porco é que não. Nem vê-lo. E mesmo num hotel como o Le Méridien havia um aviso bem explícito dizendo que não serviam porco nem seus derivados. Ao pequeno-almoço havia um sucedâneo do tradicional "bacon", creio que feito de aves; as salsichas e carnes frias também eram do mesmo clube. Uma tragédia rapidamente ignorada e ultrapassada.

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Em KK há restaurantes para todas as bolsas. O vinho é carote, normalmente do Chile,  Argentina, Austrália, EUA ou Itália. Português nem vê-lo. A oferta existente é muito razoável, e se voltar a KK, para além dos restaurantes de alguns hotéis, são de reter o esplêndido Il Gusto, de um siciliano criado em Milão e que há trinta anos vai abrindo e fechando restaurantes pelo sudeste asiático, cujo carpaccio de atum é divinal, o Landróluxe, este no Api-Api Centre, senhor de um magnífico “lobster bisque” e de uns raviolis de caranguejo e camarão que provei e ficaram nas papilas da minha parceira, e o indiano Mother India, no novíssimo Oceanus, junto ao passeio marítimo. Há também um mexicano, o El Centro, a atirar para a tasca, com bons tacos, óptimos brownies com gelado e cerveja gelada, muito frequentado por expatriados. Quanto aos comes fica ainda uma palavra para o Restoran Sri Melaka, onde é possível saborear, para além do tradicional “rendang beef” (uma espécie de carne de cozer de vaca estufada com especiarias), um prato típico conhecido como “assam pelas”, que pode ser de camarão ou de peixe (há quem também o faça de carne). Trata-se de uma espécie de caril dos ditos com vegetais, acompanhado com arroz branco.

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Quanto ao mais, a cidade de KK tem alguns parques, muitos mercados e feiras, pequenas galerias de arte, uma esplêndida marginal com uma zona pedonal frequentada por novos, velhos e amantes da corrida, de manhã à noite. Nas imediações fica uma das duas grandes mesquitas, havendo ainda dois museus, etnográfico e marinho, além de um edifício pioneiro que é venerado por muitos arquitectos, com a estrutura assente numa única coluna, todo em aço e vidro, e que alberga a biblioteca do Centro de Estudos do Bornéu. Há ainda um comboio muito interessante, que só funciona às quartas e sábados, e que faz uma viagem ao passado colonial, quando havia plantações de borracha e de café no interior, as quais só eram acessíveis recorrendo ao North Borneo Railway. As termas sulfurosas a 40 km de KK, recomendadas para diversas maleitas, são normalmente inundadas por locais e turistas chineses, e o Sabah Tea Garden, um tesouro que produz um dos poucos chás orgânicos do mundo (dizem os prospectos), onde se podem fazer pequenos trekkings e ver miríades de insectos num passeio nocturno são outros atractivos.

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A última nota que vos deixo é uma recomendação: se fizerem tenção de se aventurarem para estas terras não venham sem pulseiras anti-mosquito, repelentes para pulverizar extensivamente pés, pernas e braços, loções do tipo “Caladryl”, com que a minha Mãe me massajava na infância, ou anti-histamínicos tópicos. As picadas por vezes são muito incomodativas e em especial ao pôr-do-sol, nalguns locais mais próximos da água, logo à porta dos hotéis, e nalgumas praias (Pantai Dalit, por exemplo, onde fica o Shangri-La Rasa Ria Resort é lindíssima, mas quando saí de lá parecia que tinha uma porção de Emmental aquecido colada à testa, tal foi o banquete durante a curtíssima sesta) somos atacados por verdadeiros esquadrões de combate. Não vale a pena arriscar.

E boas viagens. Porque como alguém dizia quando eu era pequeno, espartana e filosoficamente, "lembra-te que no dia em que partires só há três coisas que não te tiram: o que leste, o que comeste e o que viajaste." Podia acrescentar mais duas ou três, mas para o que interessa estas são quanto basta.

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De novo o verde, o azul e o laranja (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.02.19

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Um dos aspectos que mais negativamente me impressionou nos percursos de barco, durante as imersões, em praias de ilhas praticamente desertas e nos percursos que fiz pelo interior dessas ilhas foi a quantidade de lixo, em especial plásticos, caixas de esferovite e latas, espalhado por esses locais. Em geral, tratam-se de materiais de fácil recolha, muitos arrastados pelas marés e vindo de outras paragens. No leito do mar e próximo de bancos de coral também vi aparelhos de pesca e redes semi-desfeitas.

Creio que foi em Mamutik que demos de caras com um esgoto rudimentar a céu aberto, construído a partir de duas latrinas, com chuveiros anexos de apoio aos mergulhadores e banhistas, esgoto esse que dava directamente para uma praia. Os líquidos e sólidos saiam da tubagem de plástico e seguiam areal fora, por aquela cama lisa, macia e tão branca que de tão fina parecia farinha de trigo. Sem obstáculos e em via aberta para o mar. A este propósito foi tirada uma fotografia e apresentada uma reclamação junto do departamento oficial competente. A responsável que a recebeu ficou bastante incomodada, mas os guardas da ilha estavam perfeitamente ao corrente da situação. Estou curioso em saber qual o andamento que foi dado ao assunto e cuja resposta ainda aguardo. 

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Jacques Cousteau, o oceanógrafo que passou muitos meses com o Calypso por estes mares e desvendou Sipadan ao mundo, não teria certamente gostado de ver o que encontrei: muito coral destruído e menos espécies do que aquelas que esperava. A inclemência dos temporais que ciclicamente assolam estas paragens responderá por uma parte, mas o grosso da destruição deve-se a nós, humanos, às dezenas de barcos que circulam a alta velocidade, apinhados de turistas, sem qualquer cuidado em zonas baixas, fazendo tangentes aos corais, assustando a fauna toda. 

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Naturalmente que não é possível estabelecer comparações com o que se alcança nos mares europeus, com excepção de alguns locais mais remotos dos Açores, mas estabelecendo um paralelo com outros locais de mergulho, mesmo na Malásia, nas Filipinas, na Indonésia, em Palau ou na Polinésia francesa, era de esperar muito mais. Desconheço como estará a situação em Tiga, Layang-Layang, Lankayan ou Kapalai, do outro lado da ilha, perto de Semporna, mas tenho esperança de que esteja melhor. Pode ser que em breve regresse para confirmá-lo. O Tunku Abdul Rahman Park está demasiado perto da costa de Bornéu e isso também torna fácil o acesso de excursionistas mais preocupados em se exibirem e tirarem fotos aos seus óculos e chapéus do que à natureza.

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O mar será sempre o mar e a sua resistência aos nossos desmandos é grande. A natureza também em regra é generosa. Todavia, há limites. Neste caso penso que já os ultrapassámos todos. O Governo de Sabah tem procurado fazer a sua parte na manutenção da fauna, da flora e de um ambiente ecologicamente saudável, mas exige-se uma outra cultura e uma outra relação dos humanos com a natureza.

Penso que quem vai até paragens como estas tem o dever de alertar as autoridades locais para a necessidade de preservação dos ambientes marinhos. O turismo de massas tem aberto muitos horizontes, só que, concomitantemente,  tem contribuído para a destruição de muitos locais, outrora verdadeiros santuários. E para mal dos meus pecados tenho sido uma das testemunhas do descalabro.

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No interior da ilha de Bornéu a situação pareceu-me bem melhor. À medida que nos afastamos de KK vêem-se menos excursões. Longe do centro não há lojas, as estradas estarão ao nível das nossas regionais e florestais, longe das vias principais, e isso acaba por demover muitos de aí se deslocarem. Há quem aproveite os muitos passeios organizados por operadores de eco-turismo, normalmente empresários jovens com formação superior. É possível ir em jeeps 4x4, descer alguns rios (Kiulu, Kadamaian e Padas) fazendo rafting, escalada ou percorrendo os trilhos ao longo dos dias até se chegar ao topo da montanha. Em Bornéu é fácil e acessível o aluguer de um carro ou de uma mota, mas o ideal é mesmo ter um natural da terra, conhecedor dos sítios, da sua história e geografia para nos acompanhar pelos acessos. Esta foi também a escolha que fizemos para nos aventurarmos pelo interior.

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A fauna e a flora são riquíssimas valendo a pena visitar os parques nacionais. O Kinabalu Park é um deles. Cobrindo uma área de 750 km quadrados, foi fundado em 1964 e constitui património mundial classificado.

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Nele estão catalogadas mais de 800 espécies de orquídeas, das mais variadas cores, tamanhos e feitios, das mais minúsculas e nascendo nos lugares mais estranhos, às maiores. Há fetos lindíssimos de um verde penetrante e dimensões descomunais, várias espécies de plantas carnívoras, borboletas incríveis (nas proximidades há várias quintas e jardins com imensas espécies), mas o mais impressionante é de facto a floresta e as suas árvores frondosas, com seus caules descomunais, muitos atingindo diâmetros de mais de 4 ou 5 metros e alturas da ordem dos 80 e 90 metros.

Saber que aquela floresta existe há milhões de anos, que aquelas cores e sons estiveram ali desde sempre e continua a alojar tantas e tão variadas espécies não deixa de ser  esamgador.

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Há alguns militares em pontos estratégicos, cordiais e prestáveis, não sendo permitido colher "recordações".  O que lá está é para continuar. Ali só se deixam pegadas, apenas é permitido levar fotografias. Não pode ser de outra maneira.

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No percurso de ida fizemos um pequeno desvio para ver uma da espécies que recolhe mais atenção e protecção. Trata-se da raflésia.

A raflésia é uma espécie de planta parasita, da qual estão identificados dezassete tipos, que só existe no Sudeste Asiático. Até hoje foi encontrada na península malaia, em Sumatra, nas Filipinas e em Bornéu. Há quem diga que também em zonas remotas da Tailândia. Oito daquelas espécies são apenas daqui, de Sabah, sendo que três delas só é possível ver em altitudes entre os 200 e os 1200 metros.

A espécie foi primeiramente descoberta em Java, por volta de 1794, por Louis Deschamps. Todavia, em Bornéu só a vislumbraram em 1818. Foi um guia do Dr. Joseph Arnold quem teve esse encontro com a flor da raflésia, cujo nome foi atribuído em homenagem a Sir Thomas Stanford Rapples, o líder da expedição.    

A planta não tem caules, folhas ou raízes verdadeiras. É um endoparasita que introduz o seu órgão absortivo, o haustório, na planta hospedeira onde se aloja e a partir da qual  recolhe os nutrientes de que necessita.

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A flor da raflésia pode ter cinco ou mais pétalas e atingir diâmetros de mais de um metro e um peso até 10 quilos. O seu aroma atrai muito insectos que transportam o pólen das flores macho para as flores fêmea. Na maior parte das espécies as flores macho e as flores fêmea crescem separadamente, havendo algumas que são bissexuais. Sabe-se pouco sobre a dispersão da sementes, que aparentemente serão dispersadas pelos esquilos e outras espécies que comem os frutos. Para ver as raflésias e fotografá-las é necessário pagar-se, estando as plantas em locais protegidos. As comunidades indígenas usam-nas em tratamentos e na Tailândia, pelo que me disseram mas não pude confirmar, também como especialidade gastronómica. Esperemos que a sua voracidade não acabe com as que restam.

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Há imensos insectos, borboletas que mais parecem pequenas andorinhas, tal a sua envergadura, de cores espantosas, muitos esquilos, milhares de pássaros emitindo toda a variedade de sons, cascatas pequenas e grandes, riachos correndo apressados pelo meio do verde, passadeiras de madeira e corda atravessando pequenos vales, sempre com vistas espantosas nas zonas mais altas e abertas da floresta.  

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As fotografias, os pequenos vídeos e os apontamentos que se vai tirando ajudar-nos-ão um dia a recordar os detalhes daquilo que observámos. A nossa memória encarregar-se-á de nos transportar até ao que não pode ficar registado. Aos cheiros, ao perfume do verde e da madeira, à delicadeza e graciosidade de alguns voos que nos furam o olhar e penetram até à entranhas, enquanto vemos as cores irreais da plumagem, as combinações que a natureza fez, sentindo toda aquela humidade, que se nos cola à pele, escorrer vertiginosa pelas folhas e riachos, conduzindo-nos trilho após trilho, sem hiatos, como se fora uma inesgotável fonte de prazer e de vida sempre pronta a regenerar-se e a recomeçar todas as manhãs, entre duas chuvadas e o raio de sol que por momentos atravessa a copa das árvores acendendo um poderoso foco à nossa frente. Como que alumiando-nos o caminho que pisamos, para vermos melhor os seus habitantes, formigas enormes e apressadas, guiando-nos por aquela imensidão e de onde não queremos sair quando a noite se aproxima e os sons da manhã vão sendo substituídos por outros mais estridentes que se agitam nas copas mais altas, indiferentes à nossa presença. Como há milhões de anos. Como se não existíssemos e nunca ali tivéssemos estado.

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De novo o verde, o azul e o laranja (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.02.19

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Foi com esperança de que a época seca chegasse um pouco mais cedo, de maneira a coincidir com o tempo que tinha disponível, que parti pela terceira vez para Bornéu, mais concretamente para Sabah, que com Sarawak, outro dos  estados da federação malaia, ocupa cerca de 26% da área da terceira maior ilha do mundo (a seguir à Gronelândia e à Nova Guiné). O restante território faz parte da Indonésia e do pequeno estado do Sultanato do Brunei.

Logo à aproximação ao aeroporto de Kota Kinabalu pude vislumbrar os mais de 4000 metros do Monte Kinabalu, que rasgando os fundos oceânicos se ergueu ali entre aquela ponta do mar do Sul da China, o mar de Sulu e o mar de Célebes, para alguns chamado de Sulawesi.

Desta vez ia com propósitos específicos e que em momentos anteriores não pude concretizar, a saber: visitar a região do Monte Kinabalu, percorrer as ilhas das proximidades e mergulhar no Tunku Abdul Rahman Park, do qual há anos ouvira falar quando estivera em Sipadan e que, embora sabendo que não iria encontrar grandes pelágicos – ver tubarões-baleia seria uma hipótese remota –, me atiçaram a curiosidade sobre as variedades de coral e das centenas de pequenas espécies que por ali deambulam. 

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Por aquelas paragens, normalmente muito transparente e com visibilidades acima dos trinta metros, o mar assume diversas tonalidades que vão do azul profundo ao convidativo turquesa, sempre com temperaturas mais perto dos 30 do que dos 20.º Celsius.

Cheguei ao início da tarde, um pouco cansado, pelo que aproveitei o que restava do dia para retemperar forças, dar uma pequena volta pelas proximidades do hotel, apercebendo-me das mudanças operadas nos últimos anos, visitando um pequeno mercado nocturno e tratando de programar as jornadas que se seguiriam.

No dia seguinte, a alvorada foi cedo e aproveitámos para um primeiro contacto com as ilhas do Parque Nacional, cujo nome se deve a um antigo primeiro-ministro malaio.

Ocupando uma área de aproximadamente 5000 hectares, na sua maior parte coberto por água, o Tunku Abdul Rahman Park situa-se no chamado "triângulo de coral", que inclui as águas da Indonésia, Filipinas, Papua Nova-Guiné, Ilhas Salomão e Timor. A sua biovidersidade é considerada a mais rica do mundo, havendo cerca de mais de quatro dezenas de mamíferos que só existem ali. Da sua floresta tropical se diz ter sido formada há mais de 130 milhões de anos, ou seja, num período ainda anterior ao da formação daquela que ocupa a bacia do Amazonas.

Nos últimos quarenta anos, a ilha perdeu cerca de 25% da sua floresta, o que a tornou em mais um centro de atenção da tragédia que a todos nos afecta e cujas alterações mais sensíveis são diariamente sentidas na irregularidade dos ciclos climáticos e em muitas das tragédias que nos diversos pontos do mundo vão assolando a humanidade. E essa foi mais das razões que me levou este mês até lá. Antes que fosse tarde.

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Uma rápida viagem de pouco mais de vinte minutos a partir de Jesselton Point, de onde saem diariamente muitas centenas de barcos, ora com mergulhadores, ora com viajantes, turistas, excursionistas ou simples curiosos das mais diversas nacionalidades e credos, levou-nos até Pulau Manukan e, depois, à ilha vizinha de Mamutik. Para primeiras impressões não foi mau. Tanto numa como na outra ilha existem alojamentos para os viajantes poderem pernoitar ou passar alguns dias, mas o ideal, para quem quer dormir, é chegar com reservas feitas e transfer garantido.

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As condições dos alojamentos locais pareceram-me razoáveis, com uma paisagem magnífica, mas não serão as melhores para quem prefere passar a noite a dormir num bom hotel, sem bicharada por perto, jantar num restaurante confortável e está predisposto a todas as manhãs apanhar um barco para demandar as águas do parque. 

A alimentação nas ilhas é má, pelo menos para os meus padrões, com cozinha predominantemente asiática e os típicos hambúrgueres para turistas, em geral mal confeccionados, com uma qualidade péssima e higiene discutível. Daí que haja quem, como eu, prefira garantir todas as manhãs um bom pequeno-almoço, levando fruta e umas buchas, que permitam aguentar o dia até ao regresso sem sobressaltos de maior. 

Convém ter cuidado com as diversas espécies de jelly-fish, algumas quase invisíveis dada a sua pequenez e transparência, alforrecas e espécies afins. Passam despercebidos e, em regra, só depois do contacto ou da picada, quando sai da água, é que o banhista se apercebe das marcas no corpo e começa a comichão.

Convém não esquecer que também estamos em mares onde as temíveis caravelas portuguesas (Portuguese Man O’ War, Physalia physalis) costumam fazer aparições, pelo que todo o cuidado e atenção são poucos.

Em todo o caso, não se faça disso um drama, sob pena de não se tirar qualquer partido da viagem. Para as situações de emergência, nas praias, os nadadores-salvadores de serviço costumam ter uns pensos de vinagre para aplicação imediata, assim aliviando o desconforto. Daí que, também por causa do sol intenso destas paragens, haja quem só tome banho com t-shirts e fatos de licra, o que não é, nunca foi, o meu caso. Apesar de tudo.

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As ilhas do Parque são muito pequenas — as outras são Gaya, a maior, Sapi e Sulug —, com lagartos e macacos curiosos, e com os quais convém ter atenção, pois há relatos de quem tenha ficado sem as mochilas, os óculos ou a comida entre dois mergulhos. Os lagartos, de dimensões respeitáveis, passeiam-se tranquilamente. A macacada vai-se ouvindo e vendo. A Sapi não fui depois de me dizerem que era a ilha com mais macacos naquela zona. Também não mergulhei num ilhéu famoso pelas suas cobras do mar. Não me apetecia ser importunado e de macacos e cobras já tenho a minha conta.

Em Pulau Gaya podem-se passar longas horas a ler e passear, observando os pássaros, e mergulhando com os Borneo Divers, com os quais aliás já havia mergulhado noutras ocasiões em Mabul e Sipadan, e a equipa do Down Below - Marine and Wildlife Adventures, os únicos que têm a operação centrada em Gaya. Os primeiros têm um centro magnífico nas imediações do Shangri-La, com óptimo equipamento, boas embarcações e pessoal profissional, e uma base de apoio em Mamutik, onde normalmente fazem os intervalos entre mergulhos. Convém ter em atenção que hoje em dia há dezenas de operadores de mergulho embora nem todos sejam recomendáveis.

Para além daqueles com quem mergulhei naquela zona, há muitos mais com lojas na cidade, pelo que é fundamental obter referências antecipadamente para se saber com quem se vai para um outro mundo com a confiança de se saber que não se vai para o outro mundo. Pode parecer paradoxal mas em matéria de segurança debaixo de água o meu lema é nada de aventuras. E felizmente não me tenho dado mal nos últimos trinta anos.

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A partir do mar têm-se óptimas vistas para terra. Em especial para quem vá às ilhas Mantanani, a vista do Monte Kinabalu e o silêncio são sublimes. Para se ir a estas ilhas é melhor fazer primeiro os cerca de 80km por estrada, a partir de KK até Kota Belud, para depois se apanhar uma das potentes lanchas, em regra com motores de 750 ou 500 cavalos, que fazem a ligação em cerca de 35 a 40 minutos, sabendo de antemão que estar preparado para levar alguma bordoada durante o trajecto de ligação é normal. Na Mantanani Besar há cerca de duas dezenas de locais de mergulho, sendo possível ver três navios japoneses da II Guerra em Usukan Bay.

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No regresso, ao final da tarde, há quem aproveite para visitar algumas espécies locais de símios e gozar um fantástico pôr-do-sol no Kokol Haven Resort, onde não cheguei a ver o pôr-do-sol devido à hora tardia em que nos pusemos a caminho. O local fica a cerca de meia-hora de KK e é recomendado por muitos residentes. Não vem nos guias. Quem quiser lá ir deverá sair cedo, se se deslocar a partir de KK, aí por volta das 16:15, por causa dos engarrafamentos citadinos e de maneira a chegar a horas de poder desfrutar a vista. De táxi, uma viagem de ida  poderá custar cerca de 40 RM (talvez aí uns 8 euros).

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Há imensos sítios para se apreciar o espectáculo do final do dia, mesmo na cidade ou em praias próximas, como na Tanjung Aru, só que também não há mais nada para além de muita gente, pelo que é preferível fazer uns quilómetros e fugir da "turistada" endinheirada, que vinda do Império do Meio arrasta os chinelos de "smartphone" em riste, fazendo poses, exibindo camisas com desenhos Versace e Valentino, aos berros e aos encontrões...

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Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.02.19

Houve um tempo em que evitava comer porque tinha pressa para ir jogar futebol com os outros. Ou porque era esquisito e não gostava do que me davam. Detestava mioleira (e ainda detesto e fico feliz por saber que hoje em dia esse alimento foi praticamente banido das mesas) e todas as aves (a situação não se alterou, embora abra de quando em vez uma excepção para uma canja ou empada de perdiz feita lá em casa, sem gorduras, peles, cartilagens ou ossinhos). Mas como nesse tempo os meninos não tinham quereres, e se faziam birra ficavam de castigo, ensinaram-me a comer de tudo. Até ter quereres. Não gostei embora me tivesse feito bem.

Anos mais tarde comecei a apreciar outras coisas, como, por exemplo, feijoada, cozido à portuguesa, dobrada, orelha e outras coisas que só de ver e sentir o cheiro naquele tempo me davam náuseas.

Com a idade, por força das circunstâncias da vida e em homenagem ao que na devida altura me ensinaram, acabei por me tornar mais exigente e por ter curiosidade em aprender como muitos pratos se confeccionavam.

E hoje faço-o, sempre que posso e me deixam, com excepção do Natal, quando ainda o tinha, única altura em que me davam o direito de me impor, tornar-me dono do espaço e preparar uns mexidos ou o prato principal da Noite de Natal.

Hoje considero-me um gastrónomo razoável e aqui há uns anos fui entronizado por alguns amigos que comungam dos mesmos interesses numa respeitável confraria, o que estimula ainda mais o meu gosto por uma boa comida e um bom vinho. Prazeres cada vez mais únicos pelos momentos irrepetíveis de degustação e convívio civilizado que proporcionam. Saber comer ou apreciar um bom vinho também são artes que se aprendem ao longo da vida. Primeiro com quem sabe, depois praticando.

O que também me leva a detestar cada vez mais restaurantes pretensiosos com cozinheiros afectados e medíocres, cadeias de fast food, messes, cantinas, e até alguns lugares que mais parecem estábulos ou chiqueiros do que espaços destinados a refeições de humanos, tal a má qualidade da matéria-prima, da confecção e da apresentação do que querem impingir-nos.

Tudo isto para vos dizer que foram estas as razões que me levaram a escolher o Mesa Marcada como blogue da semana. Apesar de ultimamente andar com pouca actividade, espero que os seus autores regressem em força.

Que vos faça bom proveito. E vos estimule os sentidos para um dos pequenos grandes prazeres desta vida.

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Na encruzilhada do ano do porco

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.02.19

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(Foto XINHUA, daqui)

"As montanhas são altas e o imperador está longe" (山高皇帝遠), provérbio chinês

Li Chunsheng, Chefe do Departamento de Segurança Pública de Guangdong, e que é também Vice-Governador de Cantão, aproveitou o facto de estarem reunidos  dezenas de representantes oficiais da cidade de Maoming para perante o Governador Provincial, Ma Xingrui, anunciar a visita, no final deste ano, do Presidente Xi Jinping a Macau, por ocasião do 20.º aniversário da transferência de administração de Portugal para a RPC. Será então esta a oportunidade para se fazer uma reflexão telegráfica sobre Macau, a RPC, o momento que ambas atravessam e o que o futuro nos reserva.

1. No XIX Congresso do PCC, realizado entre 18 e 24/10/2017, o Presidente Xi Jinping deixou claras quais as linhas que iriam compor o "Pensamento Socialista com Características Chinesas para a Nova Era". Salientou, entre outras, a necessidade da "realização da modernização socialista e o rejuvenescimento nacional tendo por base "a conclusão da construção de uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos", conjugando um desenvolvimento equilibrado com as necessidades do povo, fortalecendo a "confiança no rumo, na teoria, no sistema e na cultura do Socialismo com características chinesas". Em suma, construindo um país "sob o império do rule of law socialista".

2. Se durante os anos que antecederam o XIX Congresso se assistiu a um fortalecimento do poder do Secretário-Geral do PCC e da sua novel elite dirigente, mercê das operações de limpeza interna visando afastar e punir todos aqueles dirigentes e quadros que se desviaram da disciplina partidária, a partir de Outubro de 2017 o PCC e o Presidente Xi Jinping – alcançadas que estavam as duas primeiras metas: (i) "garantir que as necessidades básicas da população estavam asseguradas" e "as suas vidas são em geral decentes" e que (ii) se ergueu uma sociedade com "uma economia mais forte, mais democracia, ciência e educação avançadas, cultura próspera, maior harmonia social e melhor qualidade de vida" – concentraram-se no terceiro objectivo estratégico da política de abertura, o qual deverá ser alcançado quando a RPC celebrar o seu centenário, isto é, dentro de 30 anos (2049): (iii) "modernização e transformação da China num país socialista moderno".

3. Relativamente a Macau e Hong Kong, no seu discurso ao XIX Congresso o Secretário-Geral do PCC sublinhou que o regresso destas regiões ao seio da Pátria tinha sido um "estrondoso sucesso", provando-se que a fórmula "um país, dois sistemas" fora a melhor solução para as questões "legadas pela História, e a melhor garantia institucional de estabilidade e prosperidade a longo prazo".

4. Xi Jinping sublinhou ainda o alto grau de autonomia de que gozavam e a necessidade de harmonização com a Constituição chinesa das respectivas leis básicas, reforçando os meios para a melhoria dos sistemas e mecanismos por estas consagrados, e manifestando a continuação do apoio ao seu desenvolvimento no contexto global da nação, "melhorando o bem-estar do povo, dando os passos necessários para o avanço da democracia, mantendo a lei e a ordem, e cumprindo a responsabilidade constitucional de salvaguardar a soberania da China, a sua segurança e o desenvolvimento dos seus interesses". 

5. Por fim, e para aquilo que aqui interessa, o Secretário-Geral do PCC manifestou (iv) a resolução da questão de Taiwan para a completa reunificação da China como uma aspiração de todo o povo chinês e objectivo fundamental para a realização dos seus interesses, recorrendo para tal aos princípios da "reunificação pacífica" e de "um país, dois sistemas" para o desenvolvimento das relações no Estreito e o processo em vista. 

6. Concluído o XIX Congresso, escolhidos os homens para integrarem a nova Comissão Permanente do Politburo do Comité Central do PCC e dirigirem a execução das tarefas em vista, assistimos ao aprofundamento de iniciativas como "uma faixa, uma rota", ao lançamento do desígnio da "Grande Baía", a um reforço da centralização do poder, ao endurecimento e radicalização do discurso político interno, que veio acompanhado de um cada vez maior controlo da Internet, dos cerca de 800 milhões de utilizadores e das redes sociais, da realização de novos investimentos no Exército Popular, na Força Aérea e na Marinha, de ameaças de intervenção militar fora do continente (Taiwan, Mar do Sul da China, fronteira com a Índia), tudo para cumprimento de uma agenda securitária, com extensão a Macau e Hong Kong, e o prosseguimento de uma política interna que vinha de trás de silenciamento de eventuais opositores, dentro e fora do próprio PCC.

7. Concomitantemente, no plano internacional multiplicavam-se iniciativas diplomáticas em várias frentes, de certo modo aproveitando o vazio criado pelos EUA. O afastamento destes dos grandes palcos internacionais dá-se no seguimento de uma política unilateral de cariz proteccionista e desligada das grandes preocupações da comunidade internacional, mercê de uma alucinação colectiva que levou Trump à Casa Branca. O desfecho dessa alucinação é ainda incerto, mas para além de ter constituído um desafio à própria história do país e a uma herança de envolvimento mundial vigoroso desde Wilson, que sempre foi mais do que simples retórica, não obstante a sua desprezível política de segregacionismo interno, abriu portas para que a R.P. da China ocupasse o vazio criado.

8. O início de 2019 trouxe uma versão modesta do Fórum Económico Mundial, este ano marcado pelo conflito comercial EUA/CHINA, onde se notou a ausência dos presidentes dos EUA e de França,da Chanceler alemã e de Putin, acabando Pequim por enviar o seu primeiro-ministro. Tudo tão discreto que um articulista do The Guardian chamou a atenção para a atmosfera "flat" do evento por comparação com anos anteriores.  Noutros pontos do globo – Venezuela, Síria, Brasil, Europa Central – aumentaram as preocupações e pela primeira vez tivemos a percepção dos danos que a guerra de tarifas traz ao comércio mundial, e os elevados custos que as partes envolvidas estão já a pagar.

9. Apesar de no último dia de 2018, num artigo do New York Times, Alexandra Stevenson e Cao Li chamarem a atenção para o arrefecimento da economia chinesa e as ordens vindas de cima para que "o porco fosse melhorado com baton", em 18 de Janeiro pp. o People's Daily dava conta das palavras optimistas de Ma Yun (Jack Ma), o patrão da Alibaba no fórum de Xangai, alinhando pelo diapasão traçado em Davos pelo primeiro-ministro chinês, permitindo-se titular na primeira página da edição semanal (24-30/12/2018): "Curso Estável – A economia da China é certamente uma das razões para se estar optimista em direcção a 2019 ("Steady Course – China's Economy is certainly one of the reasons to be optimistic heading into 2019").

10. Pura ilusão. Propaganda genuína. Os sorrisos e os números avançados para o crescimento da economia chinesa esmoreceram quando logo a seguir se ouviram as contundentes palavras de George Soros sobre o perigo no horizonte e a "farsa" da iniciativa "uma faixa, uma rota", nas suas palavras, desenhada para promover os interesses chineses, e não os dos países recipientes, alertando para a inviabilidade económica de muitos projectos. O que por Soros foi dito complementou-se pela notícia da reunião de quatro dias do Presidente Xi Jinping e Wang Huning, número cinco do PCC e seu ideólogo mais influente, com altos quadros, alertando-os para a presença de "cisnes negros" e "rinocerontes cinzentos" no seu seio, bem como para a identificação da dissensão política como uma prioridade a combater, estando "preparados para o pior cenário". 

11. Quando o primeiro responsável do PCC e Presidente da RPC se apressaram (22/01/2019) a indicar os riscos que o Partido e os seus dirigentes devem tomar em atenção nos próximos meses – políticos, ideológicos, económicos, tecnológicos, sociais, ameaças internacionais e internos –, apelando à unidade em torno do líder e dos dirigentes para se assegurar a segurança política do regime, a confiança do povo e a estabilidade, isso só queria dizer uma coisa: a situação é bem mais grave do que aquilo que se vinha pintando. Os riscos de uma crise grave e de consequências internas imprevisíveis são reais. De outro modo, como é óbvio, o discurso não teria mudado tão rapidamente e em tão curto espaço de tempo.

12. Nos próximos dias o mundo irá continuar a assistir ao desenvolvimento das negociações entre EUA e China, à crise entre Otava e Pequim e ao fenecimento do regime madurista – cuja queda poderá agravar ainda mais a situação económica chinesa devido aos mais de 50 mil milhões de dólares de ajuda que ficarão perdidos –, sem esquecer o que se passa na Malásia, no Brasil, na frente síria, na Argentina – com uma estação de rastreio espacial chinesa que está a causar incómodos políticos e a gerar contestação social –, e ainda em África com a chamada "ajuda chinesa". Em Março terminará o período de tréguas na guerra tarifária com os EUA, altura em que também ocorrerá a reunião magna da Assembleia Popular Nacional, de onde sairão seguramente as linhas para a eleição do próximo Chefe do Executivo da RAEM. É este o ponto que a Macau interessa.

13. Até agora têm estado na linha da frente como putativos candidatos para exercerem o cargo de Chefe do Executivo, o Presidente da AL, o Secretário para a Economia e Finanças e o Secretário para a Segurança. Esta lista parece-me curta. E ilusória. Sei que há muita gente que não gostará de o ler, mas outros nomes há que poderiam integrá-la. Por exemplo? O actual Procurador da RAEM ou mesmo o Comissário Contra a Corrupção. Pelo perfil, pela experiência, pela formação jurídica. Com a vantagem de poderem ser dos poucos que sabem ler, escrever e exprimir-se com fluência em português e chinês, isto é, em cantonense e mandarim, o que não será desprezível no contexto de Macau e do programa "uma faixa, uma rota". Estes são atributos que nem o actual nem o anterior Chefe do Executivo possuíam e que muita falta têm feito. Seria bom que o próximo os possuísse. Essa seria também uma forma de valorizar a Lei Básica, bem como a identidade e autonomia de Macau no contexto da Pátria, dando um sinal para dentro. 

14. O passado já mostrou, quer em Macau quer em Hong Kong, que a entrega do poder a homens de negócios por parte do PCC nem sempre se revelou a escolha mais acertada. E muitos menos a quem esteja umbilicalmente ligado às famílias, aos magnatas, empresários e associações locais tradicionalmente próximas do poder, que na sua acção tendem a desvalorizar o respeito pela legalidade formal e substancial e pela essência da norma, colocando em causa com a sua vontade de agradar a Pequim o rule of law, a autoridade do governo, a autonomia e a estabilidade política e social. Recorde-se aqui que em 01/02/2019 Bernard Chan escrevia ser necessário ter em atenção o que aconteceu noutros países: "If life is going to get harder or at least more uncertain in the year ahead, cynicism and anger could spread unexpectedly" (SCMP, "Is Hong Kong heading for a populist revolt?").

15. Creio, aliás, que não há melhor prova de mudar o rumo quando a propósito do caso Sulu Sou/Scott Chiang alguém se permitiu dizer, em resposta a declarações do deputado que referira não poder ser julgado pelo crime de manifestação ilegal, que "é preciso compreender como é que funciona Macau" e que "é preciso ver Macau com olhos de Macau" (HojeMacau, "Neto Valente nega que se tenha metido no caso Sulu Sou", 14/06/2018). 

16. Quanto a isto, o Tribunal de Segunda Instância, pela lapidar decisão de 31 de Janeiro pp., tirada por unanimidade e que deu provimento ao recurso oportunamente interposto pelo arguido Scott Chiang, determinou a repetição do julgamento devido a uma nulidade tão grave que se revelou insanável: violação dos direitos de defesa dos arguidos. Ficou então esclarecido, para quem tivesse dúvidas, com que olhos o TSI vê Macau e como é que Macau funciona: funciona dentro da legalidade. Ponto. Não podia ser de outra maneira. E já se tinha visto isso com a Lei de Terras. E agora façam o favor de repetir o julgamento em pleno período de cumprimento das formalidades que levarão à escolha do próximo Chefe do Executivo. Para se voltarem a discutir os atropelos à legalidade cometidos durante o processo de levantamento da imunidade ao deputado, mais o que aconteceu durante a manifestação "ilegal", mais o que se disse e se escreveu, assim queimando politicamente e em lume brando quem não queria ouvir falar no assunto e pensava que este estava arrumado. Eu sei que para alguns é desagradável ler isto, mas em matéria de bom senso político e respeito pelo Estado de direito ficamos então conversados. 

17. Num cenário de agravamento da situação económica e de instabilidade internacional e regional, seria importante que da reunião da segunda sessão anual do 13.º Congresso Popular Nacional saíssem escolhas claras, projectadas para o futuro, numa linguagem simples, capaz de dar conforto e segurança emocional à população da RAEM. 

18. Soluções de continuidade já provaram trazer mais malefícios do que benefícios pela situação de fraqueza em que partem devido ao trade-off eleitoral e à submissão aos parceiros locais que tendem a encapsular e "condicionar" a capacidade de decisão do Chefe do Executivo. Veja-se de novo o caso da Lei de Terras e a forma como o Governo foi "obrigado" a pôr ordem em casa e a iniciar o processo de declaração de caducidade dos terrenos que não foram aproveitados durante o prazo das concessões, o que em meu entender só se fez por vontade expressa de Pequim e contra os maiorais locais que, não obstante o inequívoco texto da lei, pretendiam "soluções à Macau". Ou seja, as que nos conduziram à actual situação e que Pequim obrigou a corrigir. Daí o aviso à navegação. 

19. A liderança da RPC tem a noção exacta dos tempos difíceis e perigosos que aí vêm. Isso não poderá servir de desculpa para defendendo a Nação se atropelar o segundo sistema na RAEM. Até porque vem aí o concurso para as licenças do jogo e a reputação de Macau e da RPC estão a ser internacionalmente escrutinadas. Não se admitem "soluções à Macau".

20. É hoje indiscutível que a qualidade de vida de Macau e de Hong Kong piorou (a propósito de HK: Peter Kammerer, "Ugly truth is city got worse in past 10 years", SCMP, 29/01/2019), e que os mesmos erros políticos graves (o realismo e a auto-crítica marxistas não permitiriam dizê-lo de outra forma) foram cometidos nas duas regiões – na economia, no imobiliário, em matérias políticas, sociais, de transportes e obras públicas –, onde altos responsáveis acabaram detidos e julgados por corrupção, depois de durante anos andarem a cometer desmandos, favorecendo familiares, amigos e parceiros de negócios, deixando uma péssima imagem da sua acção, prejudicando os cidadãos das duas regiões e deitando por terra a confiança depositada por Pequim nas autonomias. O discurso oficial pode ser outro. A realidade é esta. E se quiserem podemos discuti-la. 

21. Em Hong Kong as coisas já começaram a mudar. E vão mudar muito mais. Que ninguém tenha duvidas. Veja-se a forma como Carrie Lam encaixou as inúmeras críticas que lhe foram feitas e se predispôs a aceitar o criticismo sobre as controversas matérias da segurança social, as lições de humildade que lhe quiseram dar e a abandonar uma mentalidade elitista, depois de estudos de uma universidade local revelarem que se tinha atingido a mais baixa taxa de aprovação popular desde Julho de 2017 (SCMP, 31/01/2019, p.3). Nessa mesma edição, o SCMP dava conta de que sendo o Chefe do Executivo escolhido por Pequim, jamais permitiria uma alteração às leis anti-corrupção que permitisse ao Chefe do Executivo aceitar vantagens patrimoniais. E no dia anterior esse matutino informava que os preços aumentaram 37,6 % num período de cinco anos, enquanto que os salários só subiram 3% (SCMP, "HK Homes Among the Least Affordable", baseado em Knight Franck's, "Global Affordability Monitor"). E em Macau?

22. Em Macau as coisas também vão mudar. E essa mudança não será realizada para satisfazer as "obsessões especulativas" dos mandarins locais mas para dar resposta à vox populi em matéria de qualidade de vida e aos objectivos definidos pela liderança do PCC. Acabou o recreio. As palavras e a postura do Chefe do Executivo da RAEM no discurso do Ano Novo Lunar são a melhor evidência disto. Pequim não quer gente nas ruas a manifestar-se contra o Governo e o Chefe do Executivo, nem a clamar por mais e melhor segurança social, saúde, educação, habitação, transportes, ambiente, higiene urbana, tratamento de resíduos ou veículos eléctricos. Muito menos a dar conferências de imprensa sobre a Lei de Terras. Pequim quer mais e melhores respostas aos problemas básicos. E isto envolve rédea curta sobre a corrupção, o nepotismo, o favorecimento político ou empresarial ou a Lei de Terras, instrumento único e fundamental para a resolução desses problemas.

23. Nenhum regime sobrevive com convulsões sociais e sem aprovação e apoio popular. Em democracia ou em ditadura. Por mais consolidada que seja a autocracia ou o poder dos oligarcas. E quando o regime político não é democrático, aqui entendido em termos liberais e ocidentais, sabe-se que a sua legitimidade é discutida diariamente nas ruas quando se vai ao mercado, quando se entra no autocarro ou se olha para o recibo da renda de casa ou da farmácia. O Presidente Xi Jinping sabe que para acomodar cisnes, rinocerontes e, já agora, patos bravos, vai ter de limpar a poeira e o lixo acumulados nos pilares do regime. Como em qualquer operação de limpeza muitos terão de usar máscaras, vai haver muita poeira no ar, muitos detritos em suspensão nas águas durante algum tempo e limitar os panchões. Até que se volte a respirar melhor, se possam dar algumas braçadas no mar sem correr o risco de sair de lá contaminado e que o povo saia à rua satisfeito.

24. Quando o Presidente da República portuguesa vier a Macau em Abril próximo, muita coisa terá entretanto acontecido. Nessa altura estará terminado o conclave que começará em 5 de Março e serão muito mais claras as linhas para o futuro. Também para as escolhas dos 400 membros da Comissão Eleitoral que designarão o futuro Chefe do Executivo da RAEM. O aumento de 100 membros vai baralhar as contas e é natural que quem tão cedo se posicionou e manifestou apoios a putativos candidatos seja obrigado a recuar e a "renegociar acordos". Há coisas que dificilmente se poderão mudar. Outras (e outros) andarão no ar, na expectativa. Mas de uma coisa todos podem ter a certeza: quando no final deste ano o Presidente Xi Jinping chegar a Macau quase tudo será diferente. E não me refiro apenas ao Chefe do Executivo, qualquer que seja o escolhido. É muito provável que até lá também muitos camaleões "patriotas" tenham mudado de cor.

25. Como Wen Yang escrevia há semanas, e sim, vou voltar a citar o China Daily: "It is time to clear up the source and return to the basic of human rights". Na RAEM também. Porque Macau não é Hong Kong. E sem isso, com turbulência, falta de visão estratégica e muito sebo, continuando a alimentar a fauna que por aí tem proliferado, indiscriminadamente, não haverá desenvolvimento. Nem será possível ter uma autonomia respeitável e respeitada até ao final de 2049, mantendo uma imagem internacional compatível com os anseios dos seus cidadãos.

Um Bom Ano do Porco é o que a todos desejo. Que seja gordo, limpo, produtivo e com muita saúde.

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Aristides de Sousa Mendes

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.01.19

"As we mark Holocaust Remembrance Day on Sunday, we should honor this man who engaged in what one historian called "perhaps the largest rescue action by a single individual during the Holocaust.", Richard Hurowitz, New York Times, 27 de Janeiro

Pese embora o esforço que alguém fez para obscurecer a sua indelével marca, é reconfortante saber que passados todos estes anos um dos mais conceituados e lidos jornais do mundo honra a sua memória, mantendo-a viva para os seus leitores.

Um exemplo que nunca será demais recordar, em especial porque ele não o fez a troco de dinheiro, de títulos ou da glória, ao contrário de algumas sumidades locais que gostam de mostrar a sua beneficência.

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