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Delito de Opinião

Tudo o que um debate não deve ser

Sérgio de Almeida Correia, 01.12.25

Catarina Martins vs André Ventura: quem teve a nota mais alta? - SIC  Notícias

Já calculava que alguns dos "debates" entre os candidatos às próximas eleições presidenciais seriam muito pouco interessantes, iriam esclarecer nada ou quase nada, e que só serviriam para continuar a transmitir uma péssima imagem dos nossos (deles) actores políticos, mostrando nalguns casos a sua manifesta impreparação, falta de sentido de Estado, oportunismo, irresponsabilidade política e total desprezo pela situação do país e dos portugueses.

Confesso que nunca pensei é que se viessem a revelar bem piores do que aquilo que poderia imaginar nos maiores pesadelos.

Da falta de ideias à de educação, da linguagem desbragada ao estilo carroceiro, com frases e apartes de estrebaria, gritaria, mãos e braços no ar, sem esquecer mentiras, insultos, falsas verdades, omissões convenientes e incoerências, nada tem faltado.

O pseudodebate de ontem entre Catarina Martins e André Ventura, que aproveitei para ver durante a minha hora de almoço, é apenas mais um exemplo de algo que nunca deveria ter acontecido. E admiro a paciência do entrevistador, por muito bem paga que seja.

Aos debates que se têm visto seria preferível o silêncio. 

Este seria bem mais enriquecedor, educativo e muito menos ofensivo da dignidade nacional.

E os portugueses continuariam tão esclarecidos sobre as ideias dos candidatos presidenciais como estavam antes. Sem "debate".

Está na hora de mandar o Pinto Luz para a Saúde

Sérgio de Almeida Correia, 03.11.25

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(créditos: daqui)

Ele já tinha dito que "nunca antes os portugueses gastaram tanto na sua própria saúde como agora". Foram milhões e milhões de euros sem resultados.

Em Portugal, há oito anos, o Serviço Nacional de Saúde consumia cerca de 8 mil milhões de euros. Neste momento, consome quase 14 mil milhões de euros. A quase duplicação do valor entregue ao SNS não corresponde a uma melhoria e da eficiência da capacidade de resposta aos problemas dos cidadãos”. Neste momento era antes do PSD chegar ao Governo.

Só que desta vez a ministra da Saúde garantiu que se tratava de “uma grávida que não era acompanhada até que deu entrada no Amadora-Sintra já com 38 semanas”. O problema estava identificado: com os governos de Montenegro as grávidas passaram a vir de jacto para parir. 

Logo haviam de aparecer uns tipos da confiança da ministra dar cabo do programa "Acreditar" e dizer-nos que "a grávida havia realizado duas consultas de vigilância". E que além disso comparecera a consultas de obstetrícia em 17 de Setembro e 29 de Outubro, esta última dois dias antes de perder a vida.

Compreendo que depois de tanta berraria – não é só o Andrézito que berra – o incómodo seja grande, mas o problema talvez se resolvesse com o tal "sistema de informação clínica plenamente integrado", que evitasse que a ministra da Saúde andasse a saber do que se passa no seu sector pelos sinais de fumo que de quando em vez alguns índios lhe enviam.

De qualquer modo, o OE para 2026 diz-nos que os 14 mil milhões dos despesistas que antecederam os actuais governantes já ficaram para trás. A factura ultrapassará 17 mil milhões, pese embora não se saiba ainda quantas mais mulheres vão continuar a parir algures, em todo o lado menos nas maternidades.

Enquanto não chega esse sistema de informação clínica integrado, sugiro que o primeiro-ministro Luís Montenegro faça uma troca de pastas entre Ana Paula Martins e Miguel Pinto Luz.

Os portugueses sabem que os problemas aeroportuários, ferroviários, portuários e da habitação são insolúveis; que lobbies há em todo o lado, e que irão continuar a pagar. E se assim é não se perdia nada em mandar Ana Paula Martins para o Ministério das Infra-estruturas e Habitação.

Montenegro continuava com a senhora no Executivo sem correr o risco dela fazer mais estragos. Ao mesmo tempo dava-se uma oportunidade ao novo menino de ouro do PSD, Pinto Luz, para mostrar na Saúde toda a sua valia na melhoria do SNS e num aumento da eficiência da capacidade de resposta aos problemas dos cidadãos. 

Honor is due

Sérgio de Almeida Correia, 31.10.25

carlos-III.jpg(créditos: daqui)

Quem acompanha aquilo que vou rabiscando e escrevendo por aí, incluindo neste blogue, sabe que sou convictamente republicano e considero que a república é a forma de governo mais consentânea com os valores que defendo para mim e para os meus. 

Dito isto, é-me fácil reconhecer onde estão esses valores, sendo certo que muitos são partilhados com a monarquia, e não sendo a virtude, a honra, a prossecução do bem comum, a defesa do interesse pública, da história ou de seculares tradições exclusivo de uma ou outra forma de governo.

Em rigor, não é por serem republicanos ou monárquicos que os homens e as mulheres de bem se distinguem; antes pela sua praxis, pelo modo como conciliam as suas convicções com a sua acção, a teoria com a prática, aquilo em que acreditam e os valores que defendem com o exercício quotidiano da vida em sociedade, o interior com o exterior, dentro e fora de casa, à luz do dia e na escuridão.

E como em tudo na vida há bons e maus regimes, boas e más acções, gestos que dignificam e enobrecem e atitudes e comportamentos desprezíveis.

Impõe-se por tudo isso, e porque também há décadas procuro estar sempre em sossego com a minha consciência, gozando o sono dos justos, dizer uma palavra sublinhando, na linha do que havia sido feito pela sua falecida mãe, a atitude de Carlos III e da Coroa britânica em relação ao que é publicamente conhecido das relações de André (Andrew) Mountbatten-Windsor com Jeffrey Epstein e seus amigos.

Ao contrário do que se tem visto do outro lado do Atlântico, de onde só chegam péssimos exemplos, não houve equívocos nem hesitações, muito menos protecção do poder a quem, ainda que invocando a respectiva inocência, não terá estado à altura dos seus direitos e das suas obrigações. Não se arranjaram desculpas, não foi preciso um clamor público, nem manifestações de rua. O que já se sabia, aliado às memórias póstumas de Virginia Giuffre, retiraram qualquer margem de manobra à Coroa. E na hora de decidir impuseram-se a dignidade e o dever. Sem alarido, sem dramas, sem teatro. 

Muito haverá a criticar, certamente, sobre a acção ou os privilégios dos monarcas numa democracia, em especial em relação à de Westminster, mas é dali, e de um outro farol cada vez mais trémulo, que contra o temporal de insânia e os ventos que sopram de diversos quadrantes que ainda nos chega a luz do exemplo. Exemplo para outras monarquias, mas também para democracias consolidadas e autocracias, sejam estas de direita, de esquerda ou de raiz teológica.

O que aconteceu no Reino Unido não será muito diferente do que fez Filipe VI em relação ao seu pai e à defesa da Coroa espanhola. E que também aqui mereceu na altura o destaque merecido.

E se é verdade, o que acredito, que a nobreza não está no sangue, como bem se vê comparando irmãos, sejam Carlos e André ou William e Harry, mas antes na elevação do gesto, no rigor do comportamento, pois que é daí que vem o exemplo, a dignidade e a autoridade moral de uma elite, de quem governa, de quem nos representa, na república ou na democracia, neste momento impõe-se dizer que a Carlos III "honor is due".

A cada um o que é devido. O resto será com os historiadores.

Blogue da semana

Sérgio de Almeida Correia, 25.10.25

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"Ó vós, que sois secretários
das consciências reais, 
que entre os homens estais
por senhores ordinários;
porque não pondes um freio
ao roubar que vai sem meio,
debaixo do bom governo?"
 
Tenho para mim que as escolhas que faço devem ser úteis, seja no sentido prático das coisas ou como fonte de conhecimento e enriquecimento pessoal. Se em causa estiver um exercício lúdico, então este comportar-se-á como transmissor de prazer, bem-estar, conforto para qualquer sistema de recepção sensorial.
A beleza, a harmonia, o equilíbrio, o sentido estético das coisas, são fundamentais no nosso quotidiano.
E foi isto que encontrei quando há pouco mais de quatro meses, aproveitando "Junho, mês de Portugal na RAEM", uma iniciativa do Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, IPOR, AICEP, Casa de Portugal e Fundação Oriente, tive o privilégio de assistir à apresentação de um livro e acompanhar um interessante diálogo entre Isabel Rio Novo, autora do incontornável "Fortuna, Caso, Tempo e Sorte - Biografia de Luiz Vaz de Camões", e José Carlos Canoa, professor de português no Instituto Português do Oriente, em Macau, estando então longe de pensar na escolha que hoje faria para vos propor nesta rubrica delituosa.
Para além de me ter sido dado nesse dia o gozo, é disso que se trata, de ler uma investigação a todos os títulos notável, pela profundidade da empreitada empreendida, o manancial de informação que a autora disponibilizou a todos os portugueses, o visível gosto com que foi escrito, a paixão e humildade com que falou sobre o seu trabalho - definições de um espírito superior -, a vida e obra do biografado, um português como os outros nos seus defeitos e nas suas virtudes, mas de um carácter absolutamente excepcional, espécie de semideus do sentimento, da honra e da dignidade, aconteceu ter ficado a conhecer o endereço de um blogue como nenhum outro em língua portuguesa sobre as temáticas camonianas.
Uma larga e prazerosa alameda que ilumina Camões e a obra maior aos olhos dos pagãos, cépticos e curiosos. 
Deixando-vos o prazer da descoberta, cometerei o pecado da gula, que nestas coisas sou pouco cristão e é-me penoso o arrependimento, de vos recomendar tanto a leitura da obra de Isabel Rio Novo como o sempre actual e incansável trabalho, só possível em professores empenhados que gostam do que fazem e dos seus alunos, que se revela em Luís de Camões – Directório de Camonística, "o grande guia para os Estudos Camonianos, editado por José Carlos Canoa". 
Estou certo que os leitores me perdoarão, por esta vez, a barrigada de prazer. 
O livro que acima referi e a minha escolha para o blogue da semana complementam-se, e seguramente que não serão indigestos para os estômagos mais sensíveis. Autora e autor estão de parabéns. 
Num país em que alguns dos seus principais governantes, legisladores e figuras públicas são estruturalmente iliteratos, têm dificuldade em distinguir o verbo da preposição, pensam mal e escrevem com os pés, é usar e abusar durante horas, dias e meses do que nos foi oferecido, e degustar um prato que combina a história, a erudição, a elegância intemporal da boa escrita, pese embora – heresia que por hoje farão o favor de me perdoar – seguir o português pós-Acordo Ortográfico de 1990, com a melhor investigação; bebendo do fino. 
Abençoado Camões. Abençoada leitura.

Pouca terra, pouca terra

Sérgio de Almeida Correia, 16.10.25

BEIRA Estação Ferroviária 1972.jpg(Estação Ferroviária da Beira - Moçambique)

Ao contrário do meu avô Miguel, a quem o Barreiro e o sindicalismo português prestaram justa homenagem, nunca tive qualquer relação profissional com os comboios.

As minhas relações com tais viaturas e as vias-férreas remontam à infância e pertencem ao domínio da felicidade. Algo que, não sei se sabem, está muito para além dos sonhos.

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Fosse porque quem mais me queria me segredava histórias de comboios antes de adormecer, me levava a fazer belas viagens entre Moçambique e a Rodésia, pela linha da Machipanda, da Beira a Vila Pery, hoje Chimoio, de Manica – Que saudades da piscina, meu Deus! – a Salisbury, passando por Umtali, hoje Mutare, e imensos apeadeiros, lugares, lugarejos e vilas perdidas no tempo e nos confins da história colonial, vislumbrando a serra da Vumba em carruagens confortáveis, marcadas pelo afago e o brilho da madeira bem tratada, refeiçoando numa carruagem-restaurante com toalhas e guardanapos cheios de goma e imaculadamente brancos, com um serviço simpático e sempre atencioso para com o “menino”, gargalhando com ele, com o nariz achatado e colado contra as janelas largas e luminosas, também sempre embaciadas e com as minhas dedadas, avistando Machipanda, Manica e os animais livres na distância, percorrendo as carruagens até cair de cansaço, dormindo entre belos lençóis, sempre embalado pelo balancear das composições, o som característico do rodado nos carris, e ao tempo também pelo tão penetrante e alucinatório cheiro do carvão e do vapor que saía das locomotivas.

Tempos inesquecíveis que por vezes se prolongavam na notável estação da Beira, projectada por Garizo do Carmo, Francisco de Castro e Melo Sampaio, onde quase diariamente me deixavam depois das aulas para eu percorrer o átrio em todos os sentidos, radiografando quem passava, admirando os carros em exposição, enquanto esperava que a Mélita ou o Fernando Luís descessem das suas ocupações para depois então me levarem exausto e satisfeito para casa.

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Foram todas essas memórias, mais as da minha primeira adolescência, quando para minha satisfação me punham num comboio e me despachavam para Tavira, onde sabia que os meus primos, o sol e o mar da ilha e da ria cuidariam de mim durante algumas semanas de Verão, e, ainda, as recordações da minha vida de estudante universitário, que me levariam a percorrer a Europa de Interrail, e das viagens de  que depois fiz na Austrália, na Suíça, no Japão, onde volto sempre que posso para percorrer o país no Shinkansen, que me entusiasmaram quando o Pedro se lembrou de me enviar o convite para visitar uma exposição de comboios em Carcavelos.

Já sabia do gosto e interesse do meu amigo por comboios depois de uma noite me ter revelado os seus tesouros, resultado de infindáveis horas de engenho, paixão e paciência, mas nunca imaginei ver o que vi no Pavilhão dos Lombos: uma magnífica exposição de modelismo ferroviário que me levou de novo a viajar no tempo e por estações e paisagens que me foram familiares.

Havia prometido a mim mesmo escrever umas linhas sobre o evento que ali ocorreu para vos dar conta da minha satisfação, talvez mais encanto, pelo que encontrei. E pela alegria que vi nos olhos de tantas crianças, algumas namorando com o parceiro e com as fantásticas maquetas, com filhos e netos, umas mais crescidas do que outras, com e sem barriguinha, por vezes de calções e cabelos brancos, partilhando curiosidade e paisagens de lugares espalhados por Portugal e mundo fora, incluindo numa recriação e lembrança do horror que se vive na Ucrânia, onde não se poupam crianças, novos, velhos, escolas, hospitais, museus, comboios ou estações.

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Não será grande coisa o que à pressa aqui fica, eu sei, embora haja sempre a esperança de para o ano voltar com mais tempo. Se possível com o João. Para vermos comboios circulando por montes e vales a toda a velocidade, sem perderem, ao contrário do fantasma da nossa CP, carruagens pelo caminho, e sem deixarem os passageiros apeados, iluminando os olhos de quem os vê.

Se não for para sonhar de novo, recordar outros tempos, ao menos que seja para, pelo menos, levar, como desta vez, um amigo pela mão. Ou vários. Pequenos e graúdos, fazendo-os entrar naquele mundo mágico das geografias do contentamento, levando-os a percorrer comigo aqueles pequenos carris que têm a virtude de nos trazer os antigos por onde andámos, de diferente bitola, com outras paisagens e outros cheiros, mas com a mesma alegria da memória com que os vi e me receberam.

E a gratidão a quem me mostrou o caminho até ali, proporcionando-me o prazer de escrever estas linhas e de vos deixar com as imagens possíveis de um fotógrafo menor. 

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Muitas dúvidas, algumas certezas

Sérgio de Almeida Correia, 13.10.25

Resultados das Eleições Autárquicas 2025 no Concelho da Nazaré - Nazaré

O início do novo ciclo autárquico, com eleições presidenciais dentro de três meses, confere um novo impulso ao primeiro-ministro Luís Montenegro.

Enquanto líder do maior partido, o presidente do PSD espera ver consolidada a sua liderança, reforçada a influência da sua gente, que voltou a ocupar as maiores autarquias do país, aquelas onde tudo se decide, muito embora em quase todas fique na dependência de terceiros e de acordos à direita e à esquerda para conseguir governar. Tanto em Lisboa como no Porto, como em Setúbal, em Sintra ou em Cascais, para só referir os maiores municípios, nada se afigura fácil.

Depois, convém não esquecer a posição periclitante em que o primeiro-ministro se encontra perante o Ministério Público, devido às diligências, aos inquéritos e às investigações em torno dos fantasmas da famigerada Spinumviva, das férias no Brasil, e do que mais for, entretanto, aparecendo. Com um roupeiro de onde não param de sair traças, deve ser grande neste momento a incomodidade do Procurador-Geral da República, e não custa perceber o porquê sabendo-se de onde partiu a proposta para a sua escolha.

Das conclusões que vierem a ser apresentadas pelo Ministério Público, que se espera não continuem a tardar, deseja-se uma rápida clarificação que afaste de vez todas as dúvidas sobre a conduta de Montenegro. Seria péssimo que se chegasse ao São Martinho com tudo continuando por esclarecer e eleições presidenciais à porta. Percebe-se a popularidade das novelas, isso é inegável, só que há algumas, que por os actores serem medíocres, o enredo de mau gosto e mexerem com a vida das pessoas, e não apenas com a do principal protagonista, não justificam que se tolere a sua continuidade indefinidamente.

Os resultados autárquicos conhecidos ontem à noite transportam consigo, no entanto, algumas consequências que importa referir.

Invariavelmente, muitos virão dizer que as eleições autárquicas não permitem leituras nacionais atenta a sua especificidade local. Outros, pelo contrário, argumentarão que essa natureza não inviabiliza uma extrapolação e análises que englobem o todo nacional. Será difícil dizer que no meio estará a virtude. Os perdedores nunca quererão olhar para os resultados globais, reduzindo-os antes ao nível municipal. Os vencedores não desdenharão fazer outras contas, imaginando as respectivas consequências em futuras eleições legislativas.

Vamos por partes. Todas as análises são possíveis, embora aqui se sublinhe apenas o que por ora se me afigura mais pertinente.

1. Coligações

O elevado número de coligações e de movimentos independentes baralha as análises. Se quanto aos segundos faz sentido reduzi-los a uma dimensão local, mesmo quando apoiados por algumas forças políticas, atento o peso de quem os dirige e que inequivocamente se sobrepõe e ofusca o dos partidos tradicionais, até porque nalguns casos esses eleitos desertaram dos partidos, os resultados obtidos por forças coligadas podem mascarar esses mesmos resultados.

2. Vencedores

2.1 Concorrendo sozinho ou em coligações com diferentes composições, o PSD é o grande vencedor das eleições autárquicas de 2025. A obtenção de um maior número de presidências de câmara e de mandatos e a reconquista da presidência da Associação Nacional de Municípios eram objectivos previamente apontados pelos dirigentes do partido. Se a isto somarmos a liderança dos cinco maiores municípios do país, pese embora as derrotas em Faro e em Viseu, as mais difíceis de digerir, o resultado não deixa de ser lisonjeiro.

2.2 Poderá a muitos não parecer, mas os resultados obtidos pelo PS são bem melhores do que o descalabro da direcção de Pedro Nuno Santos poderia fazer prever. É verdade que o PS não conquistou Lisboa, nem o Porto, mas venceu Bragança (o PS destronou o PSD e passou de 4836 votos, representando 26,98%, para 10.528 votos, que correspondem a 50,31%), Viseu (num concelho que desde 1976 foi sempre governado à direita, os 19.968 votos que davam 38,26% em 2021 são hoje 24.095, equivalendo a 42,28%, e foram suficientes para humilharem Fernando Ruas e o PSD no “cavaquistão”), e Faro (o PS ganha, finalmente, a câmara da capital algarvia, com António Pina, que vindo de Olhão mostrou aos crânios da concelhia local, que há 16 anos perdiam eleições com candidatos medíocres, o que é preciso ter e fazer para conquistar 39,48% dos votos e derrotar uma coligação encabeçada pelo PSD e que apesar de reforçada com o PAN passou de 47,76% e 12.195 votos, em 2021, para uns sofríveis 31,64% e apenas 10059 votos). Globalmente, o PS sozinho arrecadou 1.574.331 votos e 126 presidências de câmara, quando em Maio obtivera um total de 1.442.194 votos. O número poderá parecer curto. Não é se considerarmos o estado comatoso em que José Luís Carneiro recebeu o partido de Pedro Nuno Santos, aliás reflectido nas derrotas de Lisboa e Porto, as quais não lhe poderão ser assacadas.   

2.3 Pedro Duarte conseguiu no Porto um resultado que é para todos os efeitos bom. O PSD consegue trocar uns escassos 17.426 votos (17,24 %), em 2021, pela participação nos 42.906 votos da coligação com o CDS-PP e o IL, ou seja, 37,29%, em 2025). Obteve mais votos do que Rui Moreira nas anteriores autárquicas. E o resultado é ainda melhor se comparado com o de Carlos Moedas em Lisboa, sabendo-se que normalmente os recandidatos têm vantagem e que desta vez o candidato do PSD até obteve o apoio do Iniciativa Liberal para se equilibrar no arame. Em todo o caso, nas legislativas de Maio passado, no Porto, o IL obtivera 11.145 votos e a coligação PSD/CDS-PP conseguira 48.563. Apesar da coligação, Pedro Duarte viu fugirem-lhe quase 17 mil votos, o que não lhe retira qualquer mérito na vitória e o aponta como um activo futuro para a liderança do PSD. Enfrentando um peso político do PS no Porto, o espertalhaço e trabalhador Pizarro, Duarte arriscou e ganhou. Tem agora a sua “cadeira de sonho” para mostrar o que vale.  

2.4 Para o CDS-PP, olhando-se para os seus últimos resultados a nível nacional, não pode deixar de se considerar meritório o amealhado nestas eleições. Nos concelhos onde concorreu sozinho, o partido manteve igual número de câmaras (6) e apenas perdeu 2 mandatos, passando de 30 para 28. Levando-se em consideração as coligações que integrou, e que por essa via conseguiu mais alguns mandatos, o cômputo final acaba por ser agradável para um partido que há muito vê pairar a sombra da sua extinção.

3. Derrotados

3.1 A maior derrota destas eleições autárquicas vai direitinha para o PCP/PEV/CDU. Este sector continua a regredir eleitoralmente. A CDU perde 7 câmaras, passando de 19 para 12, vê reduzir-se o número de mandatos, de 148 para 93, e comprometeu vitórias eleitorais da esquerda, sendo em grande parte responsável pela renovação da vitória de Moedas em Lisboa ao recusar integrar a coligação que apoiava a candidata do PS na capital. Os 26.769 votos obtidos por João Ferreira teriam dado uma vantagem confortável a Alexandra Leitão e acabado de vez com as pretensões políticas de Moedas. O PCP e seus aliados, salvo algumas ilhas onde continuam instalados, não conseguem inverter a sua tendência para a irrelevância. As derrotas em Serpa e Santiago do Cacém devem-lhe ter doído.  

3.2 Nas autarquias onde se apresentou sozinho, o partido de Mariana Leitão apenas conseguiu obter uns míseros 2 mandatos, resultado dos escassos 87.809 votos registados. Muito pouco para quem viu sair Rui Rocha da liderança, agora eleito vereador em Braga, por não ter atingido os objectivos a que em Maio pp. se propunha. O IL vinha das eleições legislativas com mais de 5% e 338.664 votos. Mostrou a sua pequenez ao nível do poder local, embora possa cantar vitória em autarquias onde surgiu a fazer de muleta a outros partidos.

3.3 Sofrível foi o resultado do BE. O partido das manas Mortágua não conseguiu nenhum mandato onde concorreu sozinho. Tudo se resumiu a um total de 30.636 votos e a 0,56%. Embora dissesse que o resultado foi “modesto”, Mariana Mortágua não se conteve e afirmou que o BE “esteve à altura da responsabilidade do momento”. Puro delírio. Se apesar dos resultados serem tão maus a sua líder diz que a estratégia foi a correcta, imaginem o que seria se a estratégia estivesse errada. Um caso perdido de esclerosamento, miopia política e desfasamento da realidade.

3.4 O aparelho do PS foi um dos principais derrotados. Perder mais de duas dezenas de câmaras no actual contexto político e não conseguir vencer em Lisboa, no Porto e em Sintra foi muito mau. Só comparável com as derrotas em anteriores eleições para a câmara de Faro, perdidas para Macário Correia e o seu sucessor, Rogério Bacalhau. Se Alexandra Leitão ainda pode aspirar a outros voos, fica a certeza de que Pizarro fazia melhor em regressar à carreira hospitalar, continuando a ser um cidadão politicamente interveniente, mas abrindo caminho a líderes concelhios menos agarrados às estruturas partidárias, com uma postura menos cacical, algum carisma e outro discurso. Em Sintra, os 5.777 votos que Ana Mendes Godinho conquistou para a coligação que encabeçou, por comparação com o resultado de 2021, foram claramente insuficientes para contrariar os mais de 19 mil votos recuperados pelo PSD e seus parceiros. Não obstante, uma coisa é certa: o mau resultado autárquico do PS em 2025 não foi culpa do actual líder.

4. Ambivalente

O resultado do partido de André Ventura não correspondeu, nem de perto, ao que era por este esperado e muitos vaticinavam em função do desempenho verificado nas eleições legislativas de 14 de Maio e do que algumas sondagens revelavam. O Chega não conquistou seis dezenas de câmaras, nem catorze, ficando por três presidências. Risível. Para um partido que tem 60 mandatos parlamentares, o número envergonha qualquer dirigente com a noção do ridículo. É certo que conseguiu 137 mandatos e isso dar-lhe-á uma voz nas autarquias, o que não lhe garante, a avaliar por anteriores experiências, bons desempenhos futuros. O seu pessoal político já mostrou no passado a sua impreparação para tarefas mais exigentes do que o simples arruaceirismo parlamentar, embora possa sempre aparecer uma ou outra surpresa. As oscilações nas votações do Chega não permitem tirar quaisquer conclusões quanto ao futuro. Se nas legislativas, há menos de seis meses, obtivera 1.437.881 votos, que lhe deram 22,73% e 60 deputados, ontem os eleitos do Chega ficaram-se por um total de 654.011 votos e uma percentagem de 11,86%. Muito pouco para quem reclamava uma implantação ao nível local e tem aspirações a governar Portugal. Com apenas três câmaras não será fácil lá chegar. Esperemos pelo teste das presidenciais para se perceber onde andam os anteriores votantes do Chega.

Reencontros

Sérgio de Almeida Correia, 10.10.25

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Durante cinco anos, por vezes longos, de outras vezes fugazes e etéreos como a paixão que chegou e partiu sem que houvesse tempo de a agarrar, estudando e seguindo regras, foi-se preenchendo uma quadrícula em que a palavra direito era a que mais vezes figurava, alternando com a de justiça. Entre a devoção e a alegria, o choro, a coragem ou o medo do futuro, com uns abraços e uns beijos à mistura, no final cada um seguiu o seu caminho.

Do que me lembro, a despedida, para alguns, das paredes que nos acolheram foi penosa. Para outros abriu-se uma avenida, larga e soalheira, onde se cruzaram múltiplas vidas, romances, aventuras, alegrias e desgostos. Até ontem.

Muitas vezes me recordei deste e daquele, de algumas com evidente e, com o correr dos anos, envergonhada paixão, à medida que a distância e o tempo me afastavam de rostos, de abraços fraternos e sinceros, de sorrisos, cheiros, e de alguns beijos que me foram tão próximos e reconfortantes durante aqueles cinco anos. Foi ontem, podia ter sido hoje.

Aprendemos, quase todos, a ler, a citar, a sublinhar, a glosar, a escrever e a pensar de forma diferente. Sentimos a autoridade do saber, identificámos trastes e embustes, olhámos para os exemplos. Criticámos, discutimos fervorosamente cada vírgula. Houve quem cultivasse hábitos de trabalho, de colaboração com o outro, de respeito para com a diferença. Muitos tornaram-se amigos, camaradas, parceiros, sócios; outros amantes. De gente e de muitas coisas. Poucos de leis, mais pela justiça, que pela liberdade todos trilhámos o caminho e aprendemos a lição.

 E no fim cada um seguiu o seu rumo. Até hoje.

Se pensarmos no que ficou, nas quatro décadas que se eclipsaram à velocidade de um fósforo, talvez nos vejamos submergidos num carrossel de lembranças e de emoções.

Mas antes que tal acontecesse, que tombássemos sob o peso de uma memória cada vez mais distante e traiçoeira; e aquelas que tão queridas nos foram se desvanecessem, houve tempo, pese embora algumas ausências, ora ditadas pela incontornável lei da vida, outras pela geografia ou o utilitarismo táctico do quotidiano que nos rege, e que tantas vezes nos afasta de nós próprios e impede o livre fluir da genuína afectividade, de convocar a preceito os últimos resistentes de uma tribo que entendeu preservar e cultivar a memória, a fraternidade e a amizade.

Foi assim que correspondendo ao apelo, porventura na evocação da linhagem de um Shakespeare – “But if the while I think on thee, dear friend, All losses are restored and sorrows end” – ou de Alberoni, para quem a amizade será um “instante de verdade”, ou, como alguém escreveu, “uma ilha de ética num mundo sem moral”, oitenta e oito almas, dissseram-me, alinharam-se para um conveniente e fraterno encontro que ignorou continentes, atravessou fronteiras, e por momentos se estendeu da Alameda da Universidade a um hotel das redondezas, onde foi então possível voltar a trocar abraços e a beber dos mesmos rostos e sorrisos que há tanto nos encantaram.

Talvez por isso, depois da primeira confrontação com a realidade, no átrio da faculdade, e da aceitação da irreversível mudança provocada pelo sulco dos anos, que se prolongou numa romaria ao Anfiteatro 1, com a tão generosa quanto inesperada presença do carismático mestre, no seu genuíno e simpático estilo cartooniano, despido de funções protocolares, se entendeu sublinhar a autenticidade do encontro com a gravação da simplicidade da passagem do tempo na austera eternidade da pedra. Sem gongorismo, sem prosápia, sem ademanes desnecessários. “No devagar depressa dos tempos”, frase lapidar e incontornável de um senhor da diplomacia.

Como é próprio de quem reconhece a gratidão do que lhe foi transmitido, sentimento maior dos que prezam a integridade, a virtude, e rapidamente identificam nos outros, nos seus semelhantes, nos que o merecem, a grandeza do carácter, a autenticidade dos justos, a lhaneza no olhar, a frontalidade do percurso.

Ao redor de uma mesa, sorrateiramente contemplando rostos na distância, redescobrindo nomes, entre um brinde e um piscar de olhos, vendo a música escapar-se pelos anos oitenta de outra era, ou imaginada ao largo do golfo de Sorrento na voz de Lucio Dalla, “qui dove il mare luccica e tira forte il vento", enquanto uma mão me tocava e um sorriso se recuperava, as vozes voltaram a tornar-se familiares. Próximas. 

Como se sempre ali tivessem estado, e a ternura de outrora, o afago, o sorriso, se recuperasse em cada abraço, no brilho do olhar, ao mesmo tempo que se ignorava o que nos ia passando pelo prato. Enfim, saboreando cada gole de vinho entre dois dedos de conversa como se por ali corresse um Romanée-Conti, poderoso, ajudando as folhas a voltarem-se sozinhas com as nossas caricaturas.

E foi bom, deveras foi, recuperar para aquele cenário Armindo Ribeiro Mendes, como há quarenta anos, com a disponibilidade, a simpatia e a proximidade de sempre, exclusivo dos maiores, que de cagança só se fazem os tolos.

No regresso, pelo silêncio de estradas que há muito deixei de percorrer, vendo cair no ruído dos faróis com que me ia cruzando as primeiras chuvas de Outono, recuperei a solidão interior, que tão próxima me é, também a alegria das longas noites de estudo, boémia e paixão, e preparei-me para a saudade do dia seguinte. Reconfortado para mais uma longa viagem até ao outro lado do mundo, puxando o fio de um longo novelo. Esperando em breve poder rever os que faltaram à chamada, os que não pude abraçar, e que aqui e além vão andando pelas suas vidas.

Ciente de que a ausência, uma vez mais, por muitos anos que passem, não é mais do que um detalhe no compasso de espera do reencontro. Na eternidade, como a Mélita me transmitiu, dos abraços que fizeram, e fazem, de nós aquilo que somos. E que jamais esquecemos.

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O mal é geral

Sérgio de Almeida Correia, 22.09.25

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(créditos: AP Photo)

 

Em Portugal, aqui há anos, passámos pelo mesmo.

À direita e à esquerda, desencartados, indigentes, ignorantes, houve políticos que se quiseram fazer passar pelo que não eram. Do preenchimento das suas fichas de deputados na Assembleia da República, à aquisição fraudulenta de diplomas – com a conivência de alguns professores e universidades –, aos currículos em que por vezes surgiam menções do tipo "frequência de ... " qualquer coisa, gente sem habilitações, qualificações, mérito, ou outros conhecimentos que não fossem os da chico-espertice, das tramóias e das moscambilhas em que se especializaram nos partidos políticos, eram pomposa e enfatuadamente chamados de "doutor". Havia até quem na assinatura de cartas e ofícios o escrevesse antes do nome, não fossem os destinatários pensar que não o fossem.

É claro que esses verdadeiros "doutores da mula ruça" nunca foram licenciados em coisa alguma, sendo que por extenso só mesmo a esperteza e a rasteirice das suas acções.

Desta vez, o caso surgiu em França e o protagonista é o jovem – tem 39 anos –  Sébastien Lecornu, novo primeiro-ministro francês nomeado por Macron.

Pois bem, o jornal Mediapart descobriu que o dito, que tem sido ministro do Governo de França desde 2017, afirmava nos seus currículos que depois de ter efectuado os estudos secundários em Vernon (Eure), e obter um "bac économique et social (ES)", que constitui um diploma que marca o fim do ensino secundário e habilita o seu titular para a prossecução de estudos superiores, o antigo ministro acrescentou possuir uma licenciatura em direito pela Universidade de Paris II-Assas e ter um mestrado em direito público da Universidade de Paris II Panthéon-Assas. 

Descobriu-se agora que desde 2016 andou a aldrabar o currículo, e nunca obteve qualquer mestrado em direito público

Apanhado em flagrante, o site 20 Minutes revelou que se apressou a mudar a sua biografia na página oficial. De titular de um diploma passou apenas a "estudos de direito". A tal frequência, ao que parece apenas do primeiro ano.

Quando um tipo se predispõe a mentir, querendo mostrar os galões que não possui, recorrendo a vias tão canhestras, como se não houvesse outras pessoas que tivessem efectivamente frequentado as mesmas escolas e obtido diplomas reais, e não fictícios, revela a sua pequenez, a sua mediocridade, e fica-se com a certeza de que gente desta pode servir para muita coisa mas para o serviço público é que não serve mesmo.

E tanto faz ser em Portugal como em França. Quando a matéria-prima não presta não se pode esperar grande coisa do resultado final.

Hegemonia

Sérgio de Almeida Correia, 05.09.25

9c3bf130-88a9-11f0-aa06-3df3b9ae7236.png.webp(créditos: BBC/Reuters)

O meu país devia ser a favor de uma nova ordem internacional, ter uma posição firme contra a hegemonia dos actores tradicionais e defender o multilateralismo e o direito internacional, aproveitando todos os momentos de celebração nacional para aceitar que participem nessas manifestações patrióticas quem não respeita o direito internacional, goza com ele e convive alegremente com organizações terroristas.

Mais. O meu país devia ser a favor da paz e sempre que possível investir na sua defesa, com forças armadas bem preparadas e equipadas com o melhor e mais moderno que houver, com armamento da última geração, se possível nuclear, promovendo sem olhar aos custos grandes desfiles, paradas e exibições de força, ao estilo nazi, mostrando o seu exército, os seus tanques, drones, mísseis, enfim, todo o seu poderio armado, as suas armas mais letais, capazes de viajarem milhares de quilómetros e atingirem alvos distantes com a máxima precisão, para que o povo se sentisse seguro, ficasse satisfeito, não fizesse perguntas e a comunidade internacional se impressionasse.

E o meu país também devia ser a favor do direito internacional, embora desprezando essa cantilena dos direitos humanos ao estilo europeu e afins, sem ter uma posição firme contra a violação de fronteiras reconhecidas pelas Nações Unidas, organização de que faz parte, confraternizando com qualquer estado invasor e com todos os que se associam a estados invasores para participarem em conflitos armados, perto de casa ou a milhares de quilómetros das suas próprias fronteiras terrestres e marítimas, contribuindo para a persistência de conflitos militares e estados de guerra na Europa e noutras partes do mundo, com milhares de vítimas inocentes, mortos, feridos, amputados, órfãos, viúvas e desalojados.

E, se possível, o meu país deveria ser membro de múltiplas organizações de cariz universalista e regional de cooperação multilateral, para promoção da paz, da segurança global e da defesa do direito internacional, recusando desde logo, para que tal seja viável, a jurisdição dos tribunais internacionais sobre questões internacionais, evitando que aqueles contribuam para a resolução desses conflitos e a punição de crimes contra a Humanidade, caminhando de braço dado com os Estados Unidos da América e o "maluco do cabelo cor de laranja", que outros sem sentido de estado tanto criticam, sendo sempre solidário com estados párias e terroristas que violam ostensivamente o direito internacional, mantêm campos de concentração internos, promovem matanças indiscriminadas de civis, ignoram o genocídio de outros povos, não respeitam os tais direitos humanos e fomentam conflitos armados com os vizinhos.

Por fim, o meu país não deveria aceitar quaisquer fronteiras marítimas internacionalmente reconhecidas, sendo indiferente para os seus objectivos que tenha subscrito uma convenção internacional sobre o direito do mar e possa fazer parte de uma organização das Nações Unidas especializada nesse assunto, recusando de antemão qualquer tribunal especializado que funcione sob a sua égide, desprezando a jurisdição nessas questões, se possível promovendo uma ocupação pela força de todas as zonas que reclama, desde que possuam riquezas naturais no subsolo que justifiquem o esforço militar e financeiro. 

Não há aqui nada de contraditório. O sonho não comanda a vida.

O que comanda a vida é o cinismo, o interesseirismo, a matreirice, a chico-espertice, a aldrabice, a sonsice.

E acima de tudo o medo. Quem controlar o medo dos outros tornar-se-á hegemónico.

E isto é válido tanto para países como para indivíduos. Qualquer pacifista o compreende.

Bem-vindos à nova ordem internacional.

Morabeza

Sérgio de Almeida Correia, 29.08.25

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Quem acompanhe a realidade de Cabo Verde, a sua história recente, conheça a sua geografia e dificuldades, vê o que as suas gentes aos poucos vai conseguindo, o que se tem dito e escrito nas últimas décadas sobre aquele pequeno país insular da costa de África, e não pode deixar de expressar a sua admiração, apoio e encanto com os resultados. Os indicadores não enganam e estimulam à continuação.

Torna-se assim particularmente gratificante acompanhar a série de reportagens e entrevistas que a TDM tem vindo a emitir todas as noites a seguir ao Telejornal, no canal português e também na rádio, com especial ênfase nas relações de Cabo Verde com Macau e a China.

A forma como o país criou um Estado de Direito, abandonou o sistema de partido único, fez a mudança para um sistema democrático multipartidário, e consolidou uma democracia digna desse nome, com pluralismo político, respeito pelas liberdades e os direitos fundamentais da pessoa humana, protegendo as minorias e as regras do jogo, por todos aceites e cumpridas, com eleições regulares, livres e competitivas, alternância no poder e transições pacíficas e civilizadas, sublinham a inteligência, ponderação e bom senso dos seus partidos políticos e dirigentes.

Ao mesmo que tempo que consolidava a sua democracia, o país não descurou a sua obrigação de promover a educação, a saúde, a habitação, apostando na formação de quadros, num desenvolvimento sustentado e na boa governança, o que o tornou hoje num exemplo em África e no mundo que deve ser motivo de satisfação para os seus nacionais, para todos os seus amigos e o mundo da lusofonia.

Gostei bastante de acompanhar a entrevista com o Presidente José Maria Neves, mas em especial de ouvir o ex-Presidente Jorge Fonseca, meu contemporâneo em Macau nos idos de Oitenta do século passado, aquando da minha breve e única passagem pela Administração Pública, e que aqui deixou e transmitiu o melhor do seu saber e humanismo na então recém-criada Faculdade de Direito, coordenando e leccionando, contribuindo para a formação de quadros competentes, mas também servindo a Administração portuguesa no desempenho de funções nos gabinetes governativos até à sua partida.

Espero que a excelente entrevista que Jorge Carlos Fonseca deu à TDM, onde inclusivamente relatou o delicioso episódio da sua coluna n' O Clarim, com o Pedro Correia e o saudoso João Carvalho, possa ser traduzida e legendada em chinês e inglês e se torne acessível a uma audiência mais vasta que não domina a língua portuguesa.

O exemplo de Cabo Verde mostra como uma democracia pluralista pode ser factor de fortalecimento de uma nação, de paz, de criação de oportunidades para todos e de desenvolvimento social e económico.

Embora ainda haja muito a fazer, é hoje claro que se o país estivesse entregue a um líder autoritário, auxiliado por um partido único esclerosado e patriotas de confiança escolhidos por esse mesmo partido e seus satélites em eleições de fachada, num simulacro de democracia, sem uma separação de poderes actual e efectiva, na linha de Montesquieu, e hoje não seria muito diferente de outros países com regimes autoritários, sumamente mal governados, onde as cliques incompetentes e corruptas só se aguentam no poder protegidas por modernos sistemas de vigilância e controlo policiais, pela força das armas, oprimindo o seu povo sem qualquer respeito pelos direitos humanos e a dignidade da pessoa, e institucionalizando o saque dos recursos públicos como meio legítimo de enriquecimento.

Dou os parabéns à equipa da TDM que esteve em Cabo Verde, sugerindo apenas ao entrevistador que em futuros exercícios, se possível, interrompa menos os entrevistados, deixando-os acabar o raciocínio e as frases. Para que assim possam expressar livremente as suas ideias, os telespectadores ouvir tudo sem ruído e sobreposição de vozes, e não pareça que, ainda que involuntariamente, se quer orientar ou condicionar os entrevistados, cortando-lhes o discurso a meio.

Fascinante

Sérgio de Almeida Correia, 19.08.25

1.-emprego-1536x1024.jpg(créditos: Eloi Carvalho/Ponto Final)

"Os trabalhadores estão a laborar durante mais horas, mas a receber menos ao fim do mês. É o que mostram os dados divulgados no site da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) sobre o inquérito ao emprego durante o segundo trimestre deste ano. Os números oficiais mostram que, no geral, as medianas do rendimento mensal do emprego da população empregada (17.800 patacas) e dos residentes empregados (20.000 patacas) desceram 1.000 e 1.500 patacas, respectivamente, entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano, enquanto a mediana de horas trabalhadas semanalmente aumentou das 45,7 para 45,9.

Na área do jogo, a mediana do rendimento mensal do emprego no primeiro trimestre de 2025 era de 23 mil patacas, recuando para 21 mil no segundo trimestre do ano. Em sentido contrário, a mediana de horas trabalhadas semanalmente pelos trabalhadores do sector do jogo aumentou de 46,5 para 46,6.

No comércio a retalho, acontece o mesmo. A mediana do rendimento mensal do emprego baixou de 15 mil para 14.300 patacas, ao passo que o número de horas trabalhadas por semana subiu de 45,7 para 46,1. No sector das actividades imobiliárias e serviços prestados a empresas, os salários caíram das 11.100 para 10.300 patacas. Ao mesmo tempo, o número de horas semanais de trabalho aumentou das 46 para 46,3.

No caso dos hotéis, os salários caíram das 16 mil para 15 mil patacas por mês, sendo que, neste caso, a mediana das horas de trabalho semanal se manteve nas 46,5. Já os salários da construção mantiveram-se nas 15 mil patacas por mês, porém, o número de horas de trabalho aumentou 0,2.

Na área dos transportes, armazenagem e comunicações, os salários encolheram 4,1%, das 17 mil patacas para 16.300, e a mediana de horas trabalhadas por semana cresceu das 45,4 para 45,7. Na restauração, a mediana do rendimento mensal do emprego aumentou dos 10 mil para 10.500, sendo que o número de horas de trabalho aumentou ligeiramente das 46,9 para 47.

O ramo das actividades financeiras viu a mediana do rendimento mensal do emprego baixar das 23 mil patacas para 22 mil patacas. Contudo, o número de horas semanais de trabalho caiu ligeiramente das 42,7 para 42,6.

Segundo a DSEC, a proporção da população empregada que trabalhou 50 ou mais horas por semana (14% do total) e a que trabalhou entre 45 e 49 horas por semana (49%) aumentaram 1,5 e 0,5 pontos percentuais, respectivamente, face ao primeiro trimestre de 2025. Porém, a proporção da população empregada que trabalhou entre 40 e 44 horas por semana (22,1%) diminuiu 2,1 pontos percentuais.

Além disso, os dados divulgados pelo organismo no seu site mostram que o número de trabalhadores a tempo inteiro, ou seja, que trabalharam 35 ou mais horas por semana, foi de 321.500, menos 2.000 pessoas, face ao primeiro trimestre de 2025. A mediana do rendimento mensal do emprego dos trabalhadores a tempo completo fixou-se em 18.000 patacas, menos 2.000 em termos trimestrais, “devido principalmente a alguns ramos de actividade económica terem atribuído o 13.º mês de salário e as participações nos lucros no primeiro trimestre de 2025”, justifica a DSEC.

Excluindo-se o 13.º mês de salário e as participações nos lucros, a mediana do rendimento mensal do emprego dos trabalhadores a tempo completo (18.000 patacas) diminuiu 600 patacas (-3,2%), em relação ao primeiro trimestre do corrente ano." – Ponto Final, 11/08/2025

Com alguns dias de atraso, aqui fica a notícia. Seria bom que não passasse despercebida.

E espero, sinceramente, que os partidos políticos portugueses, as associações de amizade, as câmaras de comércio, as principais centrais sindicais, os trabalhadores em geral, o candidato presidencial António Filipe, o PCP, e todos os que se preocupam com a melhoria das condições laborais manifestem o seu internacionalismo, solidariedade e apreço pelos progressos verificados.

Só em Portugal, e nos países mais atrasados, é que trabalhar mais e receber menos, sem direito a fazer greve, não é o sonho de qualquer trabalhador.

A beleza para quem a aprecia

Sérgio de Almeida Correia, 13.08.25

Há quem não as use. Por opção, feitio ou espírito revolucionário. Há quem seja obrigado a usá-las e se sinta contrariado. Há quem fique desconfortável quando as coloca. Há quem prefira laços e lacinhos. Há quem não saiba fazer nós. Há quem pura e simplesmente não goste delas. E há, ainda, quem não gostando de se sentir apertado aprecie tecidos, cores e padrões, não passando sem elas. Por gosto, obrigação e culto.

No Estio, nos dias de mais calor, ou porque a estação apela a vestimentas mais ligeiras, podem tornar-se desconfortáveis. Noutras épocas suportam-se bem. Falo por mim.

Já terão percebido que me estou a referir a gravatas. E hoje lembrei-me delas por duas coincidências.  Por causa de um filme de Sorrentino e de um documentário – Uma vetrina chi guarda il mare – realizado por Massimiliano Gallo. Ambos, aliás, belíssimos, e trazendo-me à memória recordações de uma passagem pela cidade onde todos são, como alguém disse, filhos de Parténope.

Tanto no filme do primeiro, como no documentário do segundo, as personagens, o perfume da fotografia, o recorte das imagens, as vozes que se tornam familiares, a música e o azul vesuviano deslocam-nos para uma outra dimensão do tempo e do espaço. Dir-se-ia que estes vêm e vão ao longo do fio das histórias, mergulhando na profundidade do tempo para sempre regressarem à leveza dos dias que acompanham as marés, à aurora e ao entardecer.

E falar de gravatas é lembrar Nápoles e a Via Riviera di Chiaia, 287, próximo da Piazza della Vittoria, assim chamada em homenagem ao final da I Grande Guerra.

É nessa morada que fica um pequeno estabelecimento comercial onde são produzidas algumas, sendo certo que o gosto é algo sempre muito aleatório e discutível, das melhores, mais finas e bonitas gravatas deste planeta, sem que eu saiba se haverá outro onde tal coisa se produza com tanto esmero.

Também lá se fazem camisas e fatos, e ultimamente houve um alargamento do universo da clientela, que deixou de ser exclusivamente masculina, a avaliar pelo que actualmente se encontra disponível na Internet para quem não queira ou não possa deslocar-se até lá, ou visitar uma das lojas que entretanto abriram noutras paragens.

Tudo começou em 1914, quando o fundador, Eugenio Marinella, se lembrou de começar a importar de Inglaterra gabardinas da Aquascutum, perfumes e águas-de-colónia de Floris e Penhaligon’s, guarda-chuvas da Bridge e da Brics, sapatos de J & Dawson e chapéus da Lock & Co., fazendo camisas e fatos de homem por medida. Pretendia-se que ali ficasse “un piccolo angolo di Inghilterra a Napoli” (Matilde Serao).

Endividou-se junto de Banco de Nápoles e ali abriu um estabelecimento de apenas 22 metros quadrados, que aguentou duas guerras, sobreviveu ao fascismo, a bombardeamentos, assistiu à chegada das tropas aliadas a Salerno, em 1943, ao desembarque das brigadas marroquinas, à libertação e, mais recentemente, a uma cimeira dos G-7, até produzir em 2021, numa colaboração com a Orange Fiber, os presentes oficiais dos G-20, em Roma.

As gravatas tornaram-se no principal objecto de produção a partir do final da II Guerra, inserindo-se na melhor tradição artesanal italiana. Feitas à mão, num trabalho cuidado e paciente, numa empresa em que “tudo o que ali nasce vem do passado”, e este é respeitado em “atenção ao futuro”, tornando-se num objecto de culto para os seus amantes.

E de tal forma é assim que entre os seus clientes estão registados nomes de reis, de presidentes, de famosos de todo o mundo, uns mais antigos, outros mais actuais, uns com boa fama, outros que ganharam má fama, dos Kennedy a Chirac, de Berlusconi a Clinton, de Obama a Sarkozy, de Giovanni Agnelli a Alberto do Mónaco, de Juan Carlos de Espanha a Aristóteles Onassis, de Carlos III a Trump, de Gorbatchev a Putin e Mubarak. Maurizio Marinella diz mesmo que fez gravatas para todos os presidentes dos EUA desde John Kennedy.

Os tecidos continuam a chegar de Inglaterra e a casa está hoje na sua quarta geração, com a cidade a ver abrir a sua loja, todas as manhãs, às 6:30. Até nisto se mantém o peso da tradição.

A qualidade da sua produção, o estatuto e prestígio conquistados, e a sua fama, levaram quatro gravatas da casa Marinella à exposição “Items: Is fashion modern?”, no Moma, em Nova Iorque, em 2017/2018.

Para a divulgação internacional das gravatas, que se espraia em várias línguas, em revistas e jornais de todo o mundo, foi fundamental o contributo de nomes como Enrico de Nicola, Francesco Cossiga e Giulio Andreotti. Famosas ficaram as ofertas dos dois primeiros, enquanto Presidentes de Itália, de conjuntos de cinco ou seis gravatas aos seus homólogos, que por essa via se terão tornado nos principais embaixadores da marca, hoje um símbolo da tradição, da qualidade e da excelência italianas.

Mas de que serviria tudo isso, como ascender a tal patamar, perguntar-se-á, se o produto em causa, as gravatas, não fossem elas próprias um hino ao bom gosto, à elegância e à beleza, ou a mais do que isso, à classe e ao culto de um certo estilo que jamais passa de moda e terá sempre os seus admiradores. Quantas empresas, marcas, produtos alcançaram sucesso e desapareceram no espaço de um século, sem que hoje ninguém saiba o seu nome nem o que foi produzido?

Há uma particularidade que aqui convém referir e que é o seu preço, acessível a quase todas as bolsas, sem atingir os valores estapafúrdios e disparatados de outras marcas que sem igual história, peso ou qualidade, muitas vezes com padrões horripilantes e materiais desconfortáveis e desagradáveis ao toque vendem as suas gravatas por valores absurdos para gente normal, e só ao alcance de ricos, novos-ricos, cleptocratas africanos, autocratas asiáticos, labregos endinheirados e criminosos à solta.

Nada é normal em Nápoles”, diz-se no documentário que acima referi, no que não se deverá estar muito longe da verdade.

Mas numa cidade em que não há meio-termo, que se ama ou se odeia, e em que muitas vezes se tem a sensação de que tudo ali oscila entre extremos, da paixão ao ódio, da riqueza à miséria, da alegria à tristeza, da luz à escuridão, a história da Marinella, pelas vicissitudes por que passou, é modelo de equilíbrio e perenidade, cuja história será, à sua dimensão e salvaguardadas as distâncias, uma parte da própria história da cidade, e que com ela se confundiu a partir do momento em que se tornou, pela paixão e ousadia de um homem, em sua extensão e símbolo.

E se no final destas linhas ainda tiverem curiosidade, estando nós em Agosto e pela silly season, vejam então o filme de Sorrentino, com os olhos e a distância de quem vê cinema, e o documentário que vos recomendo.

Deliciem-se com as imagens, dêem um mergulho nas águas do golfo, aproveitando os dias quentes e longos, e atentem, em especial, no segundo, na belíssima canção que se escuta a partir do minuto vinte e dois.   

 

Malagueño

Sérgio de Almeida Correia, 04.08.25

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“Beleza e Drama”, em inglês apresentada como “Beauty & Drama”, assim se intitula a exposição integrada na 4.ª edição da Bienal Internacional de Macau que está patente ao público no mastodôntico Grand Lisboa Palace, no Cotai, até 26 de Outubro de 2025.

Trata-se de uma mostra de 143 artefactos pessoais, fotografias, gravuras, desenhos, esboços, esquiços, litografias, esculturas, peças de cerâmica, que visam apresentar um tempo diferente e menos conhecido de Pablo Picasso, da sua infância e da sua relação com sua andaluza Málaga natal.

Com curadoria de Mario Virgilio Montañez Arroyo e o apoio do Museo Casa Natal Picasso, da Agencia Pública para la Gestión de la Casa Natal de Pablo Ruiz Picasso y otros Equipamentos Museísticos y Culturales e do Ayuntamiento de Málaga, a exposição está dividida em sete áreas temáticas.

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Começando por nos apresentar a sua genealogia, percorremos imagens da sua meninice, das suas primeiras roupas e sapatos de bebé, datados de 1882, aqueles com os quais começou a andar e ganhou liberdade para descobrir o mundo, e recordam-se os seus primeiros anos na Real Academia de Bellas Artes de San Fernando, em Madrid, adolescência que lhe deu formação no realismo clássico dos grandes mestres. Por aqui acedemos ao conhecimento de detalhes de um mundo desconhecido da maior parte dos seus admiradores, que no entender do curador se mostram fundamentais para compreender a sua obra e evolução.

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“Mulheres”, assim se chama a primeira área temática, presta homenagem às mulheres mais importantes da vida de Picasso, com especial destaque para Françoise Gilot e Jacqueline Roque. Seguem-se “Cerâmicas”, incursão tardia na vida do artista, explorada quando caminhava já para os 70 anos, “Beleza” e “Mitos” – “bons artistas copiam; grandes artistas roubam”. Aqui fica-se a conhecer a sua reinterpretação de narrativas antigas , antes de se chegar à quinta secção, e uma da mais belas, intitulada “Touros”, onde é possível ver fotografias do pintor com alguns dos toureiros que admirava, e uns quantos dos seus fantásticos desenhos de touros, cavalos e picadores, hoje controversos, mas nem por isso menos belos, da festa brava e de todos os seus protagonistas.

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As duas última secções são “Técnica” e “Top Ten”. A primeira revelando-nos as suas experiências na gravura, impressão e recursos a técnicas mistas. “Top Ten” é um conjunto de obras essenciais, no entender do curador, demonstrativas do seu génio artístico, apego à família, à tradição e à sua maneira de estar revolucionária. São elas Figure with a Striped Bodice (1949), Paloma with her doll, Black Background (1952), Painter Picking up his Brush, and Model with Turban (1927-28, provavelmente início de 1930), Cavalier and Horse (1952), Flute Player (1951), Luncheon on the Grass (after Manet) II (1962), The Fauns and Centaurs (1947), The Great Bullfight (1949), Games and Reading (1953) e Bust of Woman with Bodice (Jacqueline in Profile) (1957-58).

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Um dos pontos, que diria alto e polémico, aliás na sequência de uma série da BBC, já com alguns anos, reside no desenho (talvez mais correctamente sketch), da pequena Raymonde, com 13 anos, que Picasso e a sua companheira Fernande Olivier terão pretendido adoptar e acabou devolvida a um orfanato em virtude de se ter descoberto que a pintara nua.

Com um interessante e apropriado recurso à Inteligência Artificial, facultando o acesso a ecrãs interactivos, registo a excelente ideia de se fazer a ligação entre secções com painéis onde se vêem reproduções de edifícios andaluzes, laranjeiras e bancos típicos dos jardins andaluzes, numa atmosfera que permite ao visitante a experiência sensorial de deixar envolver pelos aromas do jasmim, tão típico daquela região espanhola e também da China. Existe um espaço próprio para crianças, bastante conseguido e bem decorado, para aquelas poderem entreter-se e desenhar. E no final quem quiser poderá ainda adquirir reproduções e múltiplos brindes numa pequena loja junto à saída.

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Numa exposição única, original e imprescindível, fica uma nota menos para a dimensão quase minúscula e a fraca iluminação de muitas placas com os detalhes das obras, em especial nalgumas que estão em língua inglesa, e para a total ausência do português, língua oficial de Macau, e do castelhano nessas mesmas placas. Ponto a rever em futuras exposições.

Por fim, seria interessante conhecer os custos desta mostra. É público que as concessionárias de jogo estão obrigadas a múltiplos investimentos nas áreas social, cultural e de espectáculos, mas a nova política de tornar tudo confidencial deixa o público sem conhecer os contratos de concessão, que por natureza e tradição deviam ser públicos, e os valores dos investimentos que estão a ser feitos.

Até para se poder comparar as opções de cada concessionária e os custos relativos dos investimentos.

Porque uma sociedade onde tudo de repente se torna secreto e confidencial, mesmo as coisas mais corriqueiras, que sempre foram públicas e que devem ser do conhecimento público, é uma sociedade doente e de gente doente. E isso nunca é bom para ninguém.

Eu gosto mesmo é do Verão

Sérgio de Almeida Correia, 31.07.25

img_460x290uu2020-08-22-19-28-57-258706.jpg.webp(créditos: daqui)

"As autoridades de Macau confirmaram a detenção de um homem de apelido Au por alegado “conluio com forças externas, pondo em perigo a segurança nacional”. É o primeiro caso relacionado com a lei de Segurança Nacional na RAEM que foi criada em 2023.

Ao que foi possível apurar, o suspeito é o ex-deputado Au Kam San, que foi detido ontem e presente hoje ao Ministério Público, onde está a ser ouvido. 

Em comunicado, as autoridades dizem que é suspeito de desde 2022, incitar ao ódio contra o Governo Central e o Governo da RAEM e de tentar destabilizar as eleições de 2024 para o cargo de Chefe do Executivo.

De acordo o mesmo documento, existe a suspeita de que Au Kam San esteja em conluio com uma organização anti-China sediada no estrangeiro. É dito que Au fornece a essa organização uma grande quantidade de informações falsas, para serem exibidas publicamente fora de Macau e através de meios online. 

Suspeita-se ainda que o ex-deputado tenha mantido contactos frequentes com várias entidades anti-China no estrangeiro. 

Segundo a acusação terá fornecido repetidamente informações falsas sobre Macau a esses grupos ou aos meios de comunicação social por eles geridos, para fins de propaganda e divulgação, com o objectivo de incitar o ódio dos residentes de Macau e de cidadãos estrangeiros desinformados contra o Governo Central da China e o Governo da RAEM, bem como prejudicar as eleições para Chefe do Executivo em 2024, e incitar a acções hostis de países estrangeiros contra Macau.

No comunicado é dito que após uma longa investigação e recolha de provas, a PJ conseguiu recentemente identificar este residente de Macau de 68 anos, de apelido Au, como suspeito do caso. Na tarde de ontem, Au Kam San foi detido na sua residência no centro da cidade, sendo posteriormente levado à Polícia Judiciária para investigação.

Já hoje, a PJ levou o suspeito para o Ministério Público para ser ouvido, sob a acusação de violação do Artigo 13.º da Lei relativa à Defesa da Segurança do Estado, que enquadra o "Estabelecimento de ligações com organizações, associações ou indivíduos de fora da RAEM para a prática de actos contra a segurança do Estado".

A pena prevista para este crime varia entre os três e os dez anos de prisão." (TDM Rádio Macau)

 

É notável, e chega a ser comovedora, a forma franca, transparente e exemplar como a Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre o Futuro de Macau de 1987 e a Lei Básica têm vindo a ser cumpridas.

Espero que o Prof. Cavaco Silva tenha pedido a Miguel Relvas e Martins da Cruz para mandarem rezar uma missa de acção de graças. De preferência nos Jerónimos. E que José Luís Carneiro, Sérgio Sousa Pinto e Augusto Santos Silva não faltem. Não valerá a pena avisar Luís Montenegro, que agora anda preocupado com os torneios estivais e a preparar a viagem a Pequim.  

Mas para ser franco, eu gosto mesmo é do Verão. "De passearmos de prancha na mão / Saltarmos e rirmos na praia / De nadar e apanhar um escaldão / E ao fim do dia, bem abraçados / A ver o pôr-do-Sol / Patrocinado por uma bebida qualquer".

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A insistência no erro ditará a sentença

Sérgio de Almeida Correia, 25.07.25

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José Luís Carneiro é uma pessoa estimável, afável e séria. Poderia ter chegado à liderança do PS se o grupo de 'fedayins',  de acomodados e os habituais vira-casacas do partido não lhe tivessem feito a cama e fugido, como o diabo foge da cruz, de eleições directas e abertas a militantes e simpatizantes depois da saída de António Costa. 

A história não se pode reescrever e foi preciso Pedro Nuno Santos mostrar toda a sua falta de jeito e incompetência para dirigir aquele que era o maior partido da oposição para, finalmente, os seus militantes caírem na realidade. À segunda, perante o desespero da tralha que veio do guterrismo, fez carreira no socratismo e passou animada pelo costismo e o nunismo, deixando o partido no charco, os militantes renderam-se à evidência e escolheram José Luís Carneiro.

Se os tempos já não estavam fáceis para qualquer secretário-geral, as coisas ficaram muito pior depois da copiosa derrota nas eleições 18 de Maio. Mas José Luís Carneiro foi à luta e o poder acabou por lhe ser entregue.

Seria natural que depois de tudo o que aconteceu nos últimos anos as coisas acalmassem, a estratégia fosse repensada, e se desse uma vassourada no interior do Largo do Rato, desinfestando, desratizando e desbaratizando o palacete. 

Nada disso aconteceu.

Se na Assembleia da República o novo líder herdou uma bancada com muitos deputados premiados pela fidelidade ao anterior líder, sem mérito que os recomendasse, e cujo único currículo era o seu activismo nas sacristias partidárias e a devoção ao anterior líder, e a todos os que o precederam, pouco podendo José Luís Carneiro fazer até próximas eleições, sempre poderia, e deveria, ter escolhido alguém mais brilhante e com mais estamina para liderar a bancada parlamentar. Na AR, no interior do partido, e começando pelo Secretariado, seria natural que se impusesse e cortasse a direito.

Também não se passou deste modo. 

Do presidente do partido, que ainda antes da escolha de Pedro Nuno Santos para secretário-geral decidiu violar o seu dever de reserva e aconselhar o voto naquele, contra o hoje líder, a muitos dos que foram agora chamados, salvo uma ou outra excepção, o Secretariado tornou-se num albergue de tendências e de candidatos ao protagonismo que na primeira oportunidade o deixarão cair para logo correrem a apoiar o seguinte, e assim tentarem manter a sua influência e as posições que lhes garantam as tenças nos anos vindouros.

O resultado começa rapidamente a reflectir-se nalgumas posições. A forma como José Luís Carneiro reagiu ao afastamento de Centeno do Banco de Portugal podia indiciar uma saudável mudança de comportamentos e de atitudes. Infelizmente voltamos a ter mais do mesmo. O secretário-geral do PS perdeu uma belíssima oportunidade para vincar a mudança e preparar o futuro. E, ao invés, deixou-se enredar no discurso medíocre e tacticista de antigamente que vem do interior do partido e da suas estafadas luminárias.

Não vale a pena referir o anterior processo de escolha do governador do Banco de Portugal. Tão pouco discutir a qualidade académica e intelectual de Centeno ou a sua disponibilidade para eventualmente continuar no cargo. Nada disso está ou esteve em causa.

Um texto da Rádio Renascença recorda que "Centeno lidou com vários governos: dois executivos liderados por António Costa, com João Leão e Fernando Medina na pasta das Finanças, e dois de Luís Montenegro, ambos com Joaquim Miranda Sarmento como ministro das Finanças". E embora os primeiros fossem da mesma cor política do governador, "isso não evitou alguma tensão, como quando Centeno e Costa discutiram sobre o orçamento europeu e a regra, introduzida pelo Eurogrupo, que faria com que a dotação de Portugal diminuísse". Centeno é uma pessoa reconhecida internacionalmente pela sua competência, fez um mandato notável enquanto ministro das Finanças, e não era, nem é, um yes man. Mas como o próprio José Luís Carneiro referiu, o lugar de número um do banco central é uma escolha política e é legítimo a qualquer executivo, cumprido o mandato de quem está, que queira escolher o sucessor. Concordo que, como já se defendeu, que esse lugar fosse de mandato único e por um prazo máximo de sete anos, só que hoje temos de contar com o que há. 

Disse depois Carneiro que a não recondução de Centeno "é uma decisão negativa que quebra um compromisso histórico de reconduzir o titular do cargo". Inacreditável. E ainda por cima disse-o ao lado de D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal, sem saber ainda quem seria o sucessor. O momento não podia ser mais inapropriado. Deveria ter ficado calado depois da forma polémica e muito desastrada como Centeno foi nomeado. 

Os "compromissos históricos" normalmente são maus. Veja-se o que aconteceu com anteriores governadores e a situação de caos, descontrolo e abuso a que conduziram as sucessivas reconduções do passado. Carneiro esqueceu-se dos problemas de falta de supervisão, fiscalização e de regulação da banca a que conduziu esse "compromisso histórico" no Banco de Portugal quanto ao BES, ao BANIF e a tantas outras situações. E aos prejuízos que os portugueses tiveram, ainda têm, e alguns sentem directamente na pele.

Também se esqueceu da vergonha das declarações de Cavaco Silva, do péssimo espectáculo das audições parlamentares de ex-governadores e dos mandatos e das polémicas com Vítor Constâncio e Carlos Costa.

E, por falar em "compromisso histórico" e nos seus resultados, ignorou o que aconteceu em Itália com a implosão do sistema político-partidário, com os escândalos da P2, do Banco Ambrosiano, das ligações à Máfia, da corrupção e de tudo o mais que conduziu ao desaparecimento dos partidos tradicionais e à ascensão naquele país do populismo, da extrema-direita, de Berlusconi, de Bossi, do 5 Estrelas, dos neo-fascistas, e por aí fora, até à senhora Meloni da actualidade.

Desconheço quem está a aconselhar José Luís Carneiro, nem com quem este dialoga, mas as suas declarações sobre a não recondução de Centeno foram mais um desastre político.

Em vez de falar da não recondução de Centeno nos termos em que falou, que como muitos gostaria de ter visto continuar, Carneiro deveria ter aproveitado o momento para se mostrar ao país pelas melhores razões. 

Em vez de se conter, José Luís Carneiro voltou a asneirar quando comparou a decisão de não recondução de Centeno, ainda sem conhecer a nova escolha, com a actuação desastrada, "apeixeirada" e provinciana de Maria do Rosário Palma Ramalho e a salgalhada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, olvidando, de novo, as responsabilidades do PS no estado a que os "compromissos históricos" conduziram aquela instituição e como estava a casa quando Ana Jorge foi para lá.

José Luís Carneiro, em vez de se limitar a mostrar o seu lamento, compreensível aos olhos de todos, pela preterição de Centeno, veio de novo com um discurso para acólitos partidários retomando as ladaínhas do nunismo.

Convirá ainda referir que o facto do titular do cargo ser uma escolha política de quem manda não invalida a criteriosa análise do perfil académico e profissional de quem vai entrar. A opção recaiu em Álvaro Santos Pereira.

Quanto a este, quem tantas vezes, incluindo neste blogue, criticou Álvaro Santos Pereira pela sua inépcia política enquanto ministro de Passos Coelho, não pode deixar de reconhecer neste momento quer a legitimidade da escolha do Governo, concorde-se ou não com ela, quer a valia do seu perfil e currículo para dirigir nos próximos anos o Banco de Portugal.

Seria bom, visto que ainda vai a tempo e sabemos quem é o sucessor, que José Luís Carneiro corrigisse os tiros que deu e desejasse um bom mandato ao futuro governador, sem grandes ondas. Desta vez não se esquecendo que Álvaro Santos Pereira saiu em ruptura com Passos Coelho, diria mesmo que foi maltratado por este, cujas opções criticou, o que poderá na altura ter-lhe valido o cargo.

E ainda que foi ele quem disse que Portugal "foi à falência não só por políticas erradas, mas também por práticas de compadrio e corrupção entre Estado e privados", sugerindo reforçar os recurso humanos da Procuradoria-Geral da República "e lançar uma política de zero euros de prendas, não só para membros do Governo, mas também na Administração Pública". Se a PGR tivesse sido reformada e reforçada talvez já não tivesse havido uma Spinumviva, os hospitais não estivessem como estão e não se fizessem adjudicações a empresas sem helicópteros.

Na altura em que saiu do executivo, um ex-assessor de Miguel Relvas e de Santos Pereira, João Gonçalves, chegou a dizer que a sua saída do Ministério da Economia e do Emprego se ficara a dever aos interesses e às negociatas, e que ele cometera o crime da independência

Se assim foi, só poderei escrever que quem com este currículo vem, e não vindo para exercer um cargo político, merece o benefício da dúvida e todo o apoio para fazer um bom mandato e continuar a mudar o que no Banco de Portugal estava, e ainda estará, mal.

Se possível mudando contra os interesses e as negociatas, contra os poderes instalados, mesmo de quem o escolheu, porque só assim poderá mostrar a sua independência, justificar a justeza da escolha e servir o país.

Camões cinco zero zero

Sérgio de Almeida Correia, 25.07.25

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É amanhã que se inaugura em Lisboa, na Galeria Passevite, a exposição "Camões cinco zero zero", a primeira a solo do artista português de raízes macaenses Víctor Hugo Marreiros. 

A mostra, que estará patente ao público até 30 de Agosto, resulta de uma iniciativa de Henrique Silva, mais conhecido como "Bibito", consagrado designer e ilustrador português. Tem o apoio do IPOR e da Herdade do Perdigão (Monforte), e insere-se, ainda, nas comemorações do quinto centenário de Luís de Camões.

Do designer gráfico, pintor, artista talentoso e multifacetado estarão em exibição os seus cartazes alusivos ao Dez de Junho, absolutamente únicos e fruto de uma lusofonia que há muito perdeu as suas exíguas fronteiras naturais para se tornar numa linguagem universal.

Se puder não deixe de passar por lá para apreciar o trabalho daquele de quem um dia escrevi ser "o maior português de Macau desde os tempos do Camilo Pessanha", "uma espécie de Serge Gainsbourg que fala português".

O artista merece a visita, e quem lá for sairá seguramente mais enriquecido pela genialidade da sua obra.

É preciso compreender e aplaudir o sentido da mudança

Sérgio de Almeida Correia, 18.07.25

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Já aqui tenho chamado a atenção para a evolução do sistema político-eleitoral da Região Administrativa Especial de Macau e o modo como se tem desenvolvido, sem que as autoridades portuguesas se pronunciem, o cumprimento e o sistema de  garantias, que datam de 1987, da Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre o futuro de Macau. 

Quem ouça os responsáveis políticos de Lisboa, antigos governantes, como Cavaco Silva, Durão Barroso, António Costa ou Augusto Santos Silva, e ex-diplomatas, não pode deixar de ficar satisfeito com a contemporização para com o engrandecimento da Região, após 1999, em matérias de direitos, liberdades e garantias, qualidade de vida, amor aos residentes.

E compreende o cinismo interesseiro daqueles que criticam as mudanças que ocorreram em 25 anos, as quais conseguiram antecipar em mais de 25 anos os 50 anos previstos para o período de transição plena de Macau para a sua integração na República Popular da China. Um êxito consumado com mais de duas décadas de antecipação. Um êxito aplaudido pelo jornalismo de causas que viaja pela China, cada vez mais anafado, sem gastar um tostão, a expensas de Pequim, e que aqui vai recebendo subsídios e fazendo negócios, com muita dificuldade, é certo, no silêncio húmido e nebuloso dos dias.

Se em 2021 já tinha ocorrido a exclusão de cinco listas de associações políticas e de candidatos concorrentes à Assembleia Legislativa de Macau, o que motivou manifestações de preocupação, sem razão, percebe-se hoje, pelo rumo seguido por parte da União Europeia, e, timidamente, a afirmação de que o processo era visto com atenção em Portugal, que na altura já era muita, esse caminho é agora mais claro. Só que nessa altura ainda os excluídos, embora sem resultados práticos, como bem se compreende, podiam recorrer para os tribunais da decisão administrativa de exclusão e invocar os respectivos argumentos jurídicos. Isso hoje, felizmente, acabou.

Passaram quatro anos. No período que se viveu de então para cá foram alteradas as leis eleitorais para escolha do Chefe do Executivo e para as eleições à Assembleia Legislativa, procedeu-se à criminalização do incitamento à abstenção, ao voto em branco e ao voto nulo, mudou-se a Lei de Defesa da Segurança do Estado e, em Julho deste ano, pela Lei 7/2025 introduziram-se reformas à Lei 3/2000 que estabelece o regime da legislatura e do estatuto dos deputados, que passam a poder ser suspensos do seu mandato, o que Aguiar-Branco bem gostaria de poder fazer em S. Bento, por simples decisão administrativa do presidente da Assembleia Legislativa. Antes já se tinham alterado as leis relativas aos direitos de reunião e manifestação, aproveitando-se os ventos da pandemia e entregando-se a órgãos policiais o controlo desse tipo de eventos, uma vez que são quem mais sabe de ordem pública e da desnecessidade de manifestações.

Todas as mudanças verificadas foram em sentido contrário, como diria o candidato António Filipe, ao da eliminação, cerceamento e introdução de um maior controlo do exercício de direitos cívicos, sociais e políticos dos residentes de Macau, sendo antes uma forma de aprofundamento, que não de afundamento, desses direitos.

À estabilidade do ordenamento legislativo e ao princípio “Macau governado pelas suas gentes” sucedeu, há quem lhe chame diarreia,  o que não é o meu caso, uma vasta produção legislativa destinada a dar corpo ao princípio “Macau governado por patriotas”. Estes são só aqueles que forem reconhecidos como tal pelas autoridades de escrutínio. Evidentemente. Quem mais habilitado do que elas? A sua acção está na lei, é confidencial, tem uma avaliação de critérios protegida dos olhos indiscretos da populaça e é insindicável juridicamente, visto que se eliminou o direito de reclamação e recurso. Uma vitória patriótica em toda a linha.

A um Estado de direito coxo, herdado do colonialismo,  sucedeu a ordem, a organização, a disciplina, em suma, a arbitrariedade legal e o bom estado policial, onde até os contratos de concessão do jogo se tornaram matéria confidencial a partir do último concurso, desconhecendo-se publicamente, hoje, quais as contrapartidas que cada concessionário paga e as cláusulas neles inseridas para não se prejudicar os interesses da Administração. O interesse público numa versão mais moderna.

É por isso compreensível, e totalmente razoável, à luz dos critérios legais actualmente vigentes em Macau, a exclusão verificada, já em Junho deste ano, de listas concorrentes às eleições legislativas de Setembro próximo; que se na altura tornaram no mais baixo número de sempre as listas concorrentes, nos últimos dias caíram ainda mais com a exclusão de todos os candidatos de mais duas listas que haviam sido prévia e formalmente admitidas pela Comissão Eleitoral, fixando-se esse número em apenas seis. Assim se diminui a conflitualidade política e se evita a fragmentação do parlamento. Em vez da dezena de partidos que há na AR, em Portugal, aqui já se sabe que no máximo haverá seis forças políticas e serão todas patrióticas. 

Na verdade, ao escrutínio administrativo seguiu-se o escrutínio patriótico – só o nome merece de imediato o meu aplauso pelas lembranças que me traz à memória – pela Comissão de Defesa e Segurança do Estado (CDSE), que “avalia a elegibilidade dos candidatos”, decidindo se estes são os adequados, isto é, se na sua perspectiva são suficientemente patriotas e se defendem ou não a Lei Básica e são fiéis à RAEM e à RPC, de acordo com a legislação em vigor.

Foi no âmbito da apreciação realizada por esta Comissão que foram agora excluídos doze candidatos às eleições legislativas de 14 de Setembro. Ou seja, “seis candidatos da lista Poder da Sinergia, encabeçada pelo deputado Ron Lam, e outros seis da Força da Livelihood Popular em Macau, liderada por Alberto Wong, foram impedidos de concorrer”, sendo que “a candidata Hong Wai I, da mesma lista, havia já desistido da candidatura de forma voluntária”. Mais esperta, esta candidata poupou trabalho à CDSE. Ninguém sabe quais “os critérios usados para determinar o grau de fidelidade dos candidatos a deputados”, mas também não interessa porque a lei o permite.

O Governo, que mostrou sintonia, a Xinhua que publicitou , o Gabinete de Ligação da RPC em Macau, as associações tradicionais dominadas e o Presidente da Associação dos Advogados de Macau vieram logo, em uníssono, aplaudir a decisão de exclusão, cujos factos e critérios que a determinaram são confidenciais e retirados pelas leis patrióticas ao escrutínio da opinião pública e dos tribunais. 

O caso da exclusão do deputado Ron Lam, que nas últimas eleições havia sido autorizado a participar e integrou a legislatura que agora termina, embora em 2021 também tivesse ocorrido a exclusão de outros candidatos rotulados como sendo de um hipotético grupo “pró-democracia”, bem como o de todos os candidatos que integravam a sua lista, será para alguns deveras estarrecedor. Para mim não é. É normal.

Recorde-se que o deputado Ron Lam, apesar de ter uma constante intervenção no plenário e junto da comunicação social, chamando a atenção para temas de natureza social, económica e política, e colocando algumas perguntas incómodas, em especial em matéria de controlo da corrupção, jamais se lhe ouviu uma palavra a favor de eleições por sufrágio directo e universal, o que é estranho, mostrando-se sempre respeitador da lei e das directrizes de Pequim, votando inclusivamente de forma favorável, como todos os outros deputados, todas as alterações às leis eleitorais e à Lei Relativa à Defesa da Segurança do Estado, que agora serviram para o excluir do acto eleitoral. Eu se estivesse na Comissão teria logo desconfiado do seu voto favorável, mas não de outros deputados que têm, ou tiveram até há pouco tempo, passaportes estrangeiros.

E a decisão torna-se ainda mais compreensível quando foi admitida a participar no acto eleitoral a lista da Associação Nova Esperança, dinamizada pela Associação dos Trabalhadores da Função Pública, liderada pelo deputado macaense José Pereira Coutinho. Ora, este e todos os elementos que integram a sua lista foram considerados patriotas, de acordo com os critérios da CDSE, e aptos para a participação no sufrágio, quando é sabido que para isso muito contribuiu o facto de no passado ele próprio ter reunido com autoridades estrangeiras e ter sido candidato nas eleições legislativas de um país estrangeiro.

Pereira Coutinho, deputado sempre simpático, prestável e educado, é reconhecido por algumas intervenções mais “ferozes” no hemiciclo em matéria de direitos sociais e laborais, apesar de ultimamente desaparecer de cena sempre que estejam em causa direitos políticos. Normal. Votou favoravelmente as alterações eleitorais acima referidas e à lei de segurança interna, embora no passado tivesse sido candidato a um lugar na Assembleia da República, em Portugal, como cabeça de lista do Partido “Nós, Cidadãos!” pelo círculo fora da Europa nas eleições de 2015. Amigo de José Cesário e da conselheira das comunidades Rita Santos, envolvida em processos judiciais que correm em Portugal por causa da caça ao voto – a Comissão Nacional de Eleições decidiu enviar o caso para o Departamento de Investigação e Acção Penal do Ministério Público e o Ministério Público (MP) da RAEM confirmou que está a colaborar com aquele e a recolher provas em Macau –, Pereira Coutinho é visto com frequência em convívio com deputados e membros, passados e actuais, do governo português, sendo no entanto considerado um patriota de acordo com os critérios da referida Comissão. Ao contrário de Ron Lam e de todos os residentes que integravam a sua lista, o que aliás todos entendem como perfeitamente normal.

A decisão de exclusão reduziu ainda mais o número de listas concorrentes ao acto eleitoral de 14 de Setembro, que ficou fixado em seis, e terá consequências futuras para os excluídos que se verão impedidos de concorrer nos próximos cinco anos se voltar a haver eleições. Mas há vantagens. Poupar-se-á na tinta dos boletins de voto. Um dos reprovados por falta de patriotismo, o ambientalista Joe Chan, diz que foi excluído e “privado dos seus direitos políticos sem qualquer razão”, o que, diz o sujeito, constitui, “na prática, uma proibição vitalícia de voltar a participar em qualquer eleição”. Creio que não tem razão. Ele e eu não sabemos o porquê. Nem precisamos de saber. Aliás, ninguém sabe a não ser a Comissão de Defesa e Segurança do Estado. E penso que isso basta. Está na lei e eles lá terão as suas desconfianças.

 Se há quatro anos ainda houve quem, como o Embaixador de Portugal na China, mostrasse alguma preocupação com a situação, já hoje, nem do Presidente da República, do Governo português ou dos partidos políticos portugueses, mais preocupados com os areais algarvios, os helicópteros, o caos das urgências hospitalares ou os clientes da Spinumviva, se ouviu uma palavra sobre o que está a ocorrer em Macau com o cumprimento da Declaração Conjunta.

E isso é bom. Basta-nos ouvir o que dizem as câmaras de comércio e os mainatos lusos de Pequim, que os canais portugueses da TDM e da Rádio Macau não se cansam de entrevistar para assim mostrarem, e bem, serviço a quem manda, para se perceber que os residentes de Macau estão entregues à sua sorte. Sorte grande. E estão muito bem confiados. A Declaração Conjunta nunca passou de um excelente manual de boas intenções que não pode, digo eu que nestas coisas sou bastante patriota, perturbar o curso dos negócios.

E é preciso continuar a aproveitar os bons ofícios de Martins da Cruz, Durão Barroso e Miguel Relvas. Pelo menos destes, que habituados a conviver com os ditadores e cleptrocratas africanos desde tempos imemoriais são hoje os vistos com mais frequência por estas paragens – Sérgio Sousa Pinto nunca mais foi visto a almoçar com Rita Santos e o patriota Chan Meng Kam – , onde vêm trazer a sua experiência, dar palestras e continuar a agilizar negócios, sendo por isso natural que Portugal assista impávido e sereno à forma como são aqui acarinhados direitos internacionalmente reconhecidos e internamente consagrados. O senhor Cônsul-Geral de Portugal para Macau e Hong Kong pode confirmá-lo. E os seus antecessores também. Ainda no último Dez de Junho o espumante português correu e se brindou na renovada residência consular, outrora o Hotel Bela Vista dos espiões e bufos. Os primeiros, dizem-me, ainda andam por aí a soldo dos da região de Taiwan e dos cowboys, mas os os bufos estão, felizmente, desaparecidos e em vias de extinção, pois que agora há patriotas que fazem o seu serviço.

Vivemos na paz dos deuses. E isto só é assim porque tudo é hoje possível e admissível graças à lei. Coisa que no tempo colonial não acontecia porque havia falta de legislação sobre imensas matérias e imensos desvios à aplicação da lei. O patriota alemão que é director do matutino Macau Post Daily, e um observador imparcial desde os tempos da administração portuguesa, pode confirmá-lo.

E é bom que assim seja. É bom que toda a gente saiba que o estado policial está na lei. Se o estado policial está na lei é porque é uma coisa boa e é patriótico. Macau é governado por patriotas. É a nossa sorte enquanto residentes.

E é isto, para quem não sabe em Lisboa, que torna dispensável a reclamação e o direito de recurso para um tribunal das exclusões de candidatos à Assembleia Legislativa decididas à porta fechada pela Comissão de Defesa e Segurança do Estado. É bom que as pessoas percebam que isto está na lei. Até o Dr. Cavaco Silva, que foi a Pequim assinar a Declaração Conjunta de 1987, deve estar consciente e orgulhoso da bondade desta solução e da forma como os compromissos assumidos têm vindo a ser cumpridos. Tudo na lei, nada fora da lei.

O Presidente da Associação de Advogados de Macau também está de acordo com a solução e diz que os pareceres são razoáveis e estão em conformidade com a lei. Já o antecessor dizia que não queria que a instituição fosse um sindicato ou partido político. E com razão. Por isso acabei por desistir da minha candidatura à direcção. Não me enquadrava nos objectivos da organização profissional dos advogados de Macau, a única associação pública da terra. Hoje percebo isso e o bem que fizeram na ajuda que me deram minando o processo de recolha de assinaturas. Vá lá que depois me deixaram falar, em 2019, no I Congresso, mas ainda hoje não estou certo de que tivessem todos percebido o que eu na altura disse e escrevi.

O ex-ministro socialista da Educação, o ex-apoiante de Pedro Nuno Santos, que promoveu a Presidente da Fundação da Escola Portuguesa de Macau o antigo presidente dos advogados, foi o único que há dois anos percebeu o que se estava a passar e acompanhou as minhas preocupações. E hoje, reconhecidamente, o Dr. Neto Valente é o novo grande educador popular lusófono. Substituiu Arnaldo Matos nessa função. E é o primeiro a saber que o que está na lei é patriótico. Durante mais de duas décadas, contra a vontade do actual Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, lutou afincadamente por isto. Até lhe ofereceram, disse-o ao Público, a nacionalidade chinesa. E tem de ser aplaudido pelo resultado alcançado, que justifica a forma recatada e discreta, por causa do pó e da humidade, como se guarda a bandeira portuguesa nessa instituição de ensino lusíada.

Por aqui se vê como Carl Schmitt continua a inspirar no século XXI. Onde antes havia amigos e inimigos há hoje patriotas e não-patriotas. E quem decide é que sabe quem são os patriotas. Gente agradecida e reconhecida.

Coisa que o deputado Ron Lam não percebeu quando há quatro anos o deixaram concorrer.

É tudo transparente. Está tudo conforme a lei. O Estado de direito está ao serviço do patriotismo. É bom que se saiba. O Estado de direito, já que em Portugal não serve para nada, de tal forma que ainda corre o processo de José Sócrates e daquela resma de arguidos que andou a gozar connosco, aqui havia de servir para alguma coisa. E está respaldado na Declaração Conjunta Luso-Chinesa de 1987 e na Lei Básica.

Aqui o Estado de direito é a lei. O resto é despiciendo. E é isso que me encanta e justifica estas linhas.

Pena que o general Rocha Vieira e Jorge Sampaio já cá não estejam. E o Montenegro só perceba de golfe. E o Hugo Soares ande à procura da luz com o Brilhante. Há gente assim. Mas está Magalhães e Silva. E estão o Vitorino, o Vitalino, o Diogo, o Eduardo e o Pedro. E o Salavessa. E o Jorge Rangel. E muitos mais que contribuíram para o esplendor do Estado de direito em Macau. 

Deixem-me partilhar convosco a minha satisfação. Não há nada mais a dizer.

O mundo mudou

Sérgio de Almeida Correia, 16.07.25

 

CubaJLBañosAP2025.jpg(créditos: Jorge Luis Baños/AP)

Hemos visto personas, aparentemente mendigos. Cuando usted le mira las manos, le mira las ropas que llevan esas personas, están disfrazadas de mendigos, no son mendigos. En Cuba no hay mendigos”.

Aquilo que antes era uma verdade, hoje tornou-se em motivo de demissão de uma ministra. 

Enquanto o candidato presidencial do PCP não comenta esta mudança de estilo de Díaz-Canel, convém que os portugueses estejam preparados para não se correr o risco de ver a moda pegar em Portugal. 

Pelas pedras da calçada

Sérgio de Almeida Correia, 04.07.25

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O mês que há dias findou findou, desde há alguns anos dedicado a Portugal nesta terra que nos acolhe, trouxe algumas boas surpresas até Macau.

Quero aqui destacar a exposição de Cláudia Falcão, na Livraria Portuguesa, artista cuja obra desconhecia por completo e que apresentou os seus trabalhos em "Pequenos Mundos em Estado Sólido". 

Por me encontar ausente da RAEM não me foi possível estar na sua inauguração, nem visitá-la mais cedo, mas importava aqui deixar esta breve nota.

Merece-o a artista, pelo seu trabalho original e minucioso, que consistiu no recurso às tão populares pedras de calcário usadas na pavimentação dos passeios portugueses, acolhidas ainda no século passado em muitos locais da cidade, entretanto reduzidos, como aconteceu no Bairro de São Lázaro, devido à excelência de um crânio que passou pelo IAM e conseguiu deixar a marca da mediocridade da sua gestão espalhada pela cidade, em monos e na falta de higiene urbana, facto que sempre passou despercebido a alguma imprensa durante o respectivo mandato. Mas deixemos essa ladainha para outros rosários.

Cláudia Falcão conseguiu com o seu talento e engenho construir uma colecção de fotografias da cidade, dos seus espaços mais icónicos e do seu dia-a-dia, que como a própria expressou no belíssimo catálogo, ou livrete, não sei como lhe chamar, da sua apresentação, ficou dividida em seis séries, cada uma delas assim eternizadas na pedra, marcas de um tempo e de um mundo que aos poucos se vai tornando cada vez mais fugaz e que se acomoda a um lugar nos livros de história muito diferente daquele que foi.

Os trabalhos da exposição "Pequenos Mundos em Estado Sólido" merecem mais divulgação, tal como a sua criadora, e a sua arte devia ser levada a outros locais onde possa ser igualmente apreciada e valorizada.

Pela minha parte irei ficar à espera de uma próxima mostra dos trabalhos da autora, daqui lhe enviando os meus parabéns pelo resultado conseguido, com algumas fotos que só não fazem justiça à originalidade e beleza do trabalho exibido por manifesta falta de jeito do fotógrafo.

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