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Humidade partilhada

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.03.19

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(Da Sessão de Apresentação, na Livraria Portuguesa)

Conheço o Luís Mesquita de Melo desde os tempos em que foi assessor jurídico da Assembleia Legislativa de Macau, e o Hélder Beja pelo seu trabalho como jornalista e organizador, em anos anteriores, da Rota das Letras. Estas duas circunstâncias de natureza pessoal seriam, só por si, manifestamente insuficientes para que aqui estivesse deste lado a sujeitar-me ao vosso escrutínio.

Não sei de quem partiu a ideia porque sobre isso não conversei com nenhum deles, mas correspondendo à afabilidade do editor, e com o aval do autor, estou aqui hoje para dar um pequeno contributo ao lançamento de “A Humidade dos Dias”, obra seminal do autor e a primeira editada pela Capítulo Oriental.

Faço-o porque para além da admiração e da estima que tenho por ambos, pessoal e pelo que nas actividades profissionais respectivas vão fazendo e de que vou tendo notícia, “A Humidade dos Dias” reúne um conjunto de textos que desde o primeiro momento prenderam a minha atenção.

Das razões para tal, não sendo especialista em literatura e sem outras pretensões que não sejam as impressões do leitor interessado, procurarei adiante dar-vos conta.

Para já gostaria de começar por sublinhar a feliz coincidência do autor ser açoriano e de a programação deste ano do Festival Rota das Letras, embora dedicado em primeira linha à poesia, congregar entre o conjunto dos poetas e escritores que pretendeu homenagear, alguns que, por uma razão ou por outra, pela genealogia, pela obra ou pela vida, aparecem com ligações aos Açores, ilhas de terra, mar e povo generosos.

Refiro-me desde logo a Jorge de Sena, também ele filho de um açoriano, que enquanto professor das Universidades de Wisconsin e da Califórnia, em Santa Bárbara, desenvolveu actividade profissional que o levou a um contacto constante e profícuo com as comunidades açorianas nos Estados Unidos. E essa aproximação foi de tal sorte que ele próprio, num texto publicado na Gávea, chegou a escrever que “embora eu seja contra a independência dos Açores, uma vez que tal facto seja consumado e o governo de lá seja a meu contento, pedirei a cidadania açoriana: no fim das contas, a minha família paterna é de lá, meu pai nasceu lá, e de vários troncos sou de lá até pelo menos ao seculo XVIII, ainda antes da independência dos Estados Unidos.”[1]

Nesse grupo incluo também Sophia, que não deixou de nos encantar quando se referiu a essas ilhas em que “(...) o antigo / Tem o limpo do novo” e “Há no ar um brilho / De bruma e clareza”.[2]

E depois há Melville que, integrando o mar dos Açores, os seus pescadores e os seus cetáceos na narrativa do seu fantástico Moby Dick, percorreu oceanos imensos, preenchendo com as suas aventuras muitas horas da infância de tantos de nós, meninos que despertavam para o mundo e teimavam em adormecer sonhando com baleias, orcas, cachalotes, tubarões e viagens sem fim até aos mares do Sul.

Tudo isto nos transporta até “A Humidade dos Dias”, cuja belíssima capa de Konstantin Bessmertny, por onde um olho espreita distante, nos abre uma janela luminosa e refrescante para o que se segue.

Com um prefácio de Victor Rui Dores, poeta, escritor, ensaísta, professor, personalidade sobejamente conhecida da vida artística e cultural dos Açores, e com um posfácio de Ângela de Almeida, investigadora e escritora, dir-vos-ei que estamos perante um conjunto de vinte pequenos textos que percorrem os anos da juventude do autor, recuperando a memória dos seus horizontes, vividos e desejados, nos caminhos do Faial e do Pico, em passeios de barco e em mergulhos que atravessam os desfiladeiros da afectividade, do amor e da amizade, nas múltiplas tonalidades dos azuis metafísicos, transcendentais, que orientam o autor até ao presente pelos caminhos de uma geografia toda ela feita de imagens e de cheiros, que atravessando as veredas da saudade se prolongam até ao presente em palavras e gestos de ternura recuperados pelo seu próprio percurso de vida. Como se não houvesse, jamais tivesse havido, lonjura. Como se o autor nunca tivesse sentido o sabor da partida e a distância física e espiritual das ilhas.

Distância que, por esse prisma, mesmo nas ausências tem o condão de não conseguir impedir o autor de voar nas asas das ganhoas ou dos cagarros, de o prender à luz dos dias, à linha perfeita das estações do ano que se recortam no seu horizonte de cada vez que se faz ao largo, transportando-o num movimento de vaivém entre o Oriente e as ilhas, por um percurso cujos marcos, não obstante a bruma que impregna as páginas do livro, estão minuciosamente definidos e se tornam aconchegantes à medida que os percorremos.

O menino que manobra corajosamente o lusito de velas de lona, “sonhando transatlanticamente”, não fica atrás do capitão-de-mar-e-guerra Manuel de Azevedo Gomes. O tal, pelo relato da baronesa da Urzelina, nesse incontornável Mau Tempo no Canal, que cruzara o lendário estreito de Simoneseki [Shimonoseki] na ponte da sua bateirinha, o Diu, e deslumbrara ingleses e franceses manobrando à vela, pelo porto de Hong Kong, no rasto de um tufão.[3]

Porque o autor, como ele próprio confessa, leva escritas na pele as coordenadas do seu regresso, “porque a ilha arquiva-se na alma ... sem remédio[4].

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Em “A Humidade dos Dias” há como que uma fusão quase religiosa entre o autor e as ilhas, independentemente do lugar onde está, daí emanando um sentimento de pertença que atravessa gerações e correntes oceânicas, as tais que “empurram os sonhos”, e onde “começa sempre a viagem de regresso, um dia, porque só nas ilhas se cumpre o nosso destino e amordaçamos a saudade com paredes de lava”.[5]

A mesma lava que molda o carácter daquelas gentes, e a que o autor não foge quando assume as suas raízes no diálogo que trava com seu Pai ao escrever: “aquilo de que nós somos feitos: lava e ausências, sós, trazendo nos olhos a saudade e a tranquilidade de um ou outro anticiclone teimoso[6].

Um pouco à semelhança do que sentia Vitorino Nemésio quando escrevendo sobre a sua açorianidade, cujo desterro, segundo ele, afina e exacerba, referia que “como homens, estamos soldados historicamente ao povo de onde viemos e enraizados pelo habitat a uns montes de lava que soltam da própria entranha uma substância que nos penetra”.[7]

De certa forma, o destino é um misto de fatalidade e ternura, de solidão e encantamento, onde se sente a tal “solidão algodoada” de que falava Raúl Brandão[8]ao referir-se ao Pico, também presente em Pedro da Silveira quando nos diz “E é tudo tão igual, tão encharcado de solidão / Que a gente às vezes já nem sabe/ se vive”[9]. Afinal a mesma solidão que aparece, igualmente, num pequeno mas belíssimo texto do pai do autor, Fernando Melo, quando depois de concluir a 4.ª classe e sair do Pico, para ser largado no Faial, onde iria continuar os estudos liceais, vê o progenitor afastar-se na lancha que vai de volta enquanto as lágrimas lhe rebentam “maiores que pingos de chuva”, para só secarem na casa onde ficaria hospedado, “sobre as páginas dos livros”, ainda para ele desconhecidos.[10]

O Luís vive intensamente esta condição de ilhéu, este “torpor açoriano”. “[U]ma doença quase de alma”, escreveu Nemésio, interiorizada logo na infância e que se cola à pele ao longo da vida, tal como a humidade, uma constante na literatura açoriana que também aqui estabelece um paralelo com Macau.

É a humidade, aquele ar morno, como escreveu Brandão, que “é uma carícia de pele de encontro à nossa pele e que pesa sobre o peito como bloco”. Ou o cansaço, de que falava o saudoso poeta Santos Barros, que se respira quando se abre a porta[11], que aproxima os Açores dos mares do Sul da China, da névoa quase permanente. Mas isso também acontece com o Monte da Guia, com a Nossa Senhora da Guia, com a Ermida no cimo do monte dominando a paisagem, com a procissão do Senhor dos Passos ou até com os bilhares do Real Clube Faialense, cujo feltro verde, porventura menos gasto, não será muito diferente daquele que por aqui forra a mesa do Clube Militar. Enfim, circunstâncias que até na toponímia unem lugares tão geograficamente distantes e tão próximos na vida do autor.

Deixei para o fim uma breve referência ao belíssimo Canto da Doca, escrito de intenso significado no contexto do livro, “espécie de passagem para os arredores da alma, e da cidade, uma fronteira em forma de esquina que não se dobra”. É por ali que passa a linha que separa a Primavera do Verão, a estação que divide a cidade da infância e juventude da maturidade. Ali, onde se faz a transposição do sonho para a realidade da vida adulta, do Verão para o Outono e o Inverno. Do botequim do Setenta para Porto Pim. E para o Bote de Tabucchi[12]. No botequim do Setenta “as mulheres não entram”. E “joga-se à lerpa em dias de procissão”. O Bote “não é um lugar para senhoras”.   

Numa escrita simples, marca distintiva só ao alcance dos melhores, “A Humidade dos Dias” é uma homenagem às pessoas e aos lugares da memória do autor. E é, igualmente, uma declaração de amor às ilhas “onde o mar é maior[13].

Como leitor e amante dos Açores, do voo dos queimados e do azul profundo das suas baixas, só lhe posso estar agradecido.

“A Humidade dos Dias” é um livro que pela intensidade das imagens que transmite podia ser um filme. Uma viagem. Ou apenas palavras, lidas como um poema murmurado à vista do azul basáltico do canal, na antecipação de qualquer coisa que foi, promessa de algo que há-de vir. Ou chegar. Em silêncio; “[q]ue no mar não se anda aos berros para não acordar os deuses”.[14]

Macau, 22 de Março de 2019

[1]Jorge de Sena, Ser-se imigrante e como, in Gávea-Brown, Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-Americanos, Vol. I, n. 1, Janeiro-Junho 1980, p. 14  

[2]Sophia de Mello Breyner, Açores, O Nome das Coisas, Morais Editores, 1977

[3]Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal, Edição Círculo dos Leitores, 1986, p. 247.

[4]Cfr. Partida

[5]Cfr. Uma Carta de Marear

[6]Ibidem.

[7]Vitorino Nemésio, "Açorianidade", Insula, Número Especial Comemorativo do V Centenário do Descobrimento dos Açores, nº 7-8, Julho-Agosto, Ponta Delgada, 1932. p. 59.

[8]Raúl Brandão, As ilhas desconhecidas – Notas e Paisagens, 1926

[9]Pedro da Silveira, Quatro Motivos da Fajã Grande, citado por Onésimo Teotónio de Almeida, Quadro Panorâmico da Literatura Açoriana nos Últimos Cinquenta Anos, 1989

[10]Fernando Melo, Sózinho no Cais, Boletim da Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, Ano 1, n.º 2, 1999

[11]José Henrique dos Santos Barros, Humidade, 1979

[12]Antonio Tabucchi, A mulher de Porto Pim, Difel, 1998.

[13]Sophia de Mello Breyner, obra e lugar citados.

[14]Cfr. Baleeiros

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De novo o verde, o azul e o laranja (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.02.19

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A parte de Bornéu que corresponde ao estado de Sabah tem a norte a vila de Kudat, a oeste Kota Kinabalu (KK) e as ilhas ocidentais. A sul fica a fronteira com Sarawak e o Bornéu indonésio, e a leste situam-se as cidades de Sandakan, Lahad Datu, Semporna e Tawau. Semporna é a porta de entrada no paraíso de Sipadan. O miolo da ilha é ocupado por florestas, montanhas, vales e constitui habitat de alguns dos mais extraordinários primatas.

O orangotango, o tal cujo ADN é em 97% igual a nós e capaz de fazer uso de ferramentas, continua a viver em liberdade, até ver, nas florestas de Bornéu. A sua população caiu drasticamente no século XX devido à caça ilegal. A situação é actualmente um pouco melhor devido à atenção dada pelos Governos locais e à presença de organizações internacionais viradas para a sua protecção e de outras espécies ameaçadas. Basicamente há três tipos de orangotangos nesta parte da ilha: o de nordeste, o de noroeste e o meridional. Só por si valem uma viagem. Na parte indonésia, em Kalimantan, e em Sarawak ainda é possível ver alguns exemplares, e nos últimos anos indivíduos criados em cativeiro têm sido restituídos ao seu habitat natural.

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Outra espécie endémica é a do macaco-narigudo ou Proboscis. Muitos vivem em zonas ribeirinhas, ao longo dos rios que marcam a geografia da ilha, repartindo as árvores com uma imensidão de pássaros, alguns da família, digo eu pelo seu aspecto, das araras, catatuas e papagaios, com cores vivas, mas cujos nomes não registei.

A oferta hoteleira, como em quase toda a Malásia, país desde há muitos anos virado para o “turismo de qualidade”, é em geral boa a nível de infra-estruturas e instalações. As grandes cadeias internacionais estão lá, embora haja também grupos locais, com instalações de muito boa qualidade e um serviço que normalmente é bom.

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O povo de Sabah é extremamente prestável, educado e simpático, recebendo os portugueses com muito apreço. Para além de Ronaldo, Figo, Bernardo Silva (os jogos do City e do Man. United são seguidos em esplanadas apinhadas) e mais alguns compatriotas, como o vice-campeão do mundo de Moto2, o nosso Miguel Oliveira, que rodava por esses dias em Sepang, registei o dia em que apanhei um Grab, a versão local da Uber, cujo motorista, muçulmano, ao saber que os passageiros eram de Portugal, disparou um sonoro “1511, Afonso de Albuquerque, have you ever been in Malaca?”.

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Seja por influência de Albuquerque ou não — consta que os holandeses deixaram muito pior memória —, certo é que se nota uma influência profunda do catolicismo. Ao longo das estradas sucedem-se nas vilas e aldeolas as tabuletas com a indicação de pequenas igrejas, não falo de uma ou duas, mas de largas dezenas, todas com nomes de santos que nunca se repetem, e placas alusivas, por vezes ao lado umas das outras, apontando em diferentes direcções, havendo uma devoção grande a Maria. Confesso que não me apercebi anteriormente de nada disto, o que não deixa de ser curioso sendo a Malásia uma federação de estados islâmicos. Bem sei que estou numa zona mais remota, de acesso mais difícil, longe da península, mas também vi vacas nalguns locais passeando-se calmamente, como se estivessem na Índia ou no Nepal, inclusivamente à beira das praias.

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Tirando as ilhas mais distantes e sem condições, por tradição come-se bem por estas bandas. Porco é que não. Nem vê-lo. E mesmo num hotel como o Le Méridien havia um aviso bem explícito dizendo que não serviam porco nem seus derivados. Ao pequeno-almoço havia um sucedâneo do tradicional "bacon", creio que feito de aves; as salsichas e carnes frias também eram do mesmo clube. Uma tragédia rapidamente ignorada e ultrapassada.

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Em KK há restaurantes para todas as bolsas. O vinho é carote, normalmente do Chile,  Argentina, Austrália, EUA ou Itália. Português nem vê-lo. A oferta existente é muito razoável, e se voltar a KK, para além dos restaurantes de alguns hotéis, são de reter o esplêndido Il Gusto, de um siciliano criado em Milão e que há trinta anos vai abrindo e fechando restaurantes pelo sudeste asiático, cujo carpaccio de atum é divinal, o Landróluxe, este no Api-Api Centre, senhor de um magnífico “lobster bisque” e de uns raviolis de caranguejo e camarão que provei e ficaram nas papilas da minha parceira, e o indiano Mother India, no novíssimo Oceanus, junto ao passeio marítimo. Há também um mexicano, o El Centro, a atirar para a tasca, com bons tacos, óptimos brownies com gelado e cerveja gelada, muito frequentado por expatriados. Quanto aos comes fica ainda uma palavra para o Restoran Sri Melaka, onde é possível saborear, para além do tradicional “rendang beef” (uma espécie de carne de cozer de vaca estufada com especiarias), um prato típico conhecido como “assam pelas”, que pode ser de camarão ou de peixe (há quem também o faça de carne). Trata-se de uma espécie de caril dos ditos com vegetais, acompanhado com arroz branco.

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Quanto ao mais, a cidade de KK tem alguns parques, muitos mercados e feiras, pequenas galerias de arte, uma esplêndida marginal com uma zona pedonal frequentada por novos, velhos e amantes da corrida, de manhã à noite. Nas imediações fica uma das duas grandes mesquitas, havendo ainda dois museus, etnográfico e marinho, além de um edifício pioneiro que é venerado por muitos arquitectos, com a estrutura assente numa única coluna, todo em aço e vidro, e que alberga a biblioteca do Centro de Estudos do Bornéu. Há ainda um comboio muito interessante, que só funciona às quartas e sábados, e que faz uma viagem ao passado colonial, quando havia plantações de borracha e de café no interior, as quais só eram acessíveis recorrendo ao North Borneo Railway. As termas sulfurosas a 40 km de KK, recomendadas para diversas maleitas, são normalmente inundadas por locais e turistas chineses, e o Sabah Tea Garden, um tesouro que produz um dos poucos chás orgânicos do mundo (dizem os prospectos), onde se podem fazer pequenos trekkings e ver miríades de insectos num passeio nocturno são outros atractivos.

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A última nota que vos deixo é uma recomendação: se fizerem tenção de se aventurarem para estas terras não venham sem pulseiras anti-mosquito, repelentes para pulverizar extensivamente pés, pernas e braços, loções do tipo “Caladryl”, com que a minha Mãe me massajava na infância, ou anti-histamínicos tópicos. As picadas por vezes são muito incomodativas e em especial ao pôr-do-sol, nalguns locais mais próximos da água, logo à porta dos hotéis, e nalgumas praias (Pantai Dalit, por exemplo, onde fica o Shangri-La Rasa Ria Resort é lindíssima, mas quando saí de lá parecia que tinha uma porção de Emmental aquecido colada à testa, tal foi o banquete durante a curtíssima sesta) somos atacados por verdadeiros esquadrões de combate. Não vale a pena arriscar.

E boas viagens. Porque como alguém dizia quando eu era pequeno, espartana e filosoficamente, "lembra-te que no dia em que partires só há três coisas que não te tiram: o que leste, o que comeste e o que viajaste." Podia acrescentar mais duas ou três, mas para o que interessa estas são quanto basta.

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De novo o verde, o azul e o laranja (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.02.19

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Um dos aspectos que mais negativamente me impressionou nos percursos de barco, durante as imersões, em praias de ilhas praticamente desertas e nos percursos que fiz pelo interior dessas ilhas foi a quantidade de lixo, em especial plásticos, caixas de esferovite e latas, espalhado por esses locais. Em geral, tratam-se de materiais de fácil recolha, muitos arrastados pelas marés e vindo de outras paragens. No leito do mar e próximo de bancos de coral também vi aparelhos de pesca e redes semi-desfeitas.

Creio que foi em Mamutik que demos de caras com um esgoto rudimentar a céu aberto, construído a partir de duas latrinas, com chuveiros anexos de apoio aos mergulhadores e banhistas, esgoto esse que dava directamente para uma praia. Os líquidos e sólidos saiam da tubagem de plástico e seguiam areal fora, por aquela cama lisa, macia e tão branca que de tão fina parecia farinha de trigo. Sem obstáculos e em via aberta para o mar. A este propósito foi tirada uma fotografia e apresentada uma reclamação junto do departamento oficial competente. A responsável que a recebeu ficou bastante incomodada, mas os guardas da ilha estavam perfeitamente ao corrente da situação. Estou curioso em saber qual o andamento que foi dado ao assunto e cuja resposta ainda aguardo. 

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Jacques Cousteau, o oceanógrafo que passou muitos meses com o Calypso por estes mares e desvendou Sipadan ao mundo, não teria certamente gostado de ver o que encontrei: muito coral destruído e menos espécies do que aquelas que esperava. A inclemência dos temporais que ciclicamente assolam estas paragens responderá por uma parte, mas o grosso da destruição deve-se a nós, humanos, às dezenas de barcos que circulam a alta velocidade, apinhados de turistas, sem qualquer cuidado em zonas baixas, fazendo tangentes aos corais, assustando a fauna toda. 

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Naturalmente que não é possível estabelecer comparações com o que se alcança nos mares europeus, com excepção de alguns locais mais remotos dos Açores, mas estabelecendo um paralelo com outros locais de mergulho, mesmo na Malásia, nas Filipinas, na Indonésia, em Palau ou na Polinésia francesa, era de esperar muito mais. Desconheço como estará a situação em Tiga, Layang-Layang, Lankayan ou Kapalai, do outro lado da ilha, perto de Semporna, mas tenho esperança de que esteja melhor. Pode ser que em breve regresse para confirmá-lo. O Tunku Abdul Rahman Park está demasiado perto da costa de Bornéu e isso também torna fácil o acesso de excursionistas mais preocupados em se exibirem e tirarem fotos aos seus óculos e chapéus do que à natureza.

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O mar será sempre o mar e a sua resistência aos nossos desmandos é grande. A natureza também em regra é generosa. Todavia, há limites. Neste caso penso que já os ultrapassámos todos. O Governo de Sabah tem procurado fazer a sua parte na manutenção da fauna, da flora e de um ambiente ecologicamente saudável, mas exige-se uma outra cultura e uma outra relação dos humanos com a natureza.

Penso que quem vai até paragens como estas tem o dever de alertar as autoridades locais para a necessidade de preservação dos ambientes marinhos. O turismo de massas tem aberto muitos horizontes, só que, concomitantemente,  tem contribuído para a destruição de muitos locais, outrora verdadeiros santuários. E para mal dos meus pecados tenho sido uma das testemunhas do descalabro.

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No interior da ilha de Bornéu a situação pareceu-me bem melhor. À medida que nos afastamos de KK vêem-se menos excursões. Longe do centro não há lojas, as estradas estarão ao nível das nossas regionais e florestais, longe das vias principais, e isso acaba por demover muitos de aí se deslocarem. Há quem aproveite os muitos passeios organizados por operadores de eco-turismo, normalmente empresários jovens com formação superior. É possível ir em jeeps 4x4, descer alguns rios (Kiulu, Kadamaian e Padas) fazendo rafting, escalada ou percorrendo os trilhos ao longo dos dias até se chegar ao topo da montanha. Em Bornéu é fácil e acessível o aluguer de um carro ou de uma mota, mas o ideal é mesmo ter um natural da terra, conhecedor dos sítios, da sua história e geografia para nos acompanhar pelos acessos. Esta foi também a escolha que fizemos para nos aventurarmos pelo interior.

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A fauna e a flora são riquíssimas valendo a pena visitar os parques nacionais. O Kinabalu Park é um deles. Cobrindo uma área de 750 km quadrados, foi fundado em 1964 e constitui património mundial classificado.

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Nele estão catalogadas mais de 800 espécies de orquídeas, das mais variadas cores, tamanhos e feitios, das mais minúsculas e nascendo nos lugares mais estranhos, às maiores. Há fetos lindíssimos de um verde penetrante e dimensões descomunais, várias espécies de plantas carnívoras, borboletas incríveis (nas proximidades há várias quintas e jardins com imensas espécies), mas o mais impressionante é de facto a floresta e as suas árvores frondosas, com seus caules descomunais, muitos atingindo diâmetros de mais de 4 ou 5 metros e alturas da ordem dos 80 e 90 metros.

Saber que aquela floresta existe há milhões de anos, que aquelas cores e sons estiveram ali desde sempre e continua a alojar tantas e tão variadas espécies não deixa de ser  esamgador.

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Há alguns militares em pontos estratégicos, cordiais e prestáveis, não sendo permitido colher "recordações".  O que lá está é para continuar. Ali só se deixam pegadas, apenas é permitido levar fotografias. Não pode ser de outra maneira.

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No percurso de ida fizemos um pequeno desvio para ver uma da espécies que recolhe mais atenção e protecção. Trata-se da raflésia.

A raflésia é uma espécie de planta parasita, da qual estão identificados dezassete tipos, que só existe no Sudeste Asiático. Até hoje foi encontrada na península malaia, em Sumatra, nas Filipinas e em Bornéu. Há quem diga que também em zonas remotas da Tailândia. Oito daquelas espécies são apenas daqui, de Sabah, sendo que três delas só é possível ver em altitudes entre os 200 e os 1200 metros.

A espécie foi primeiramente descoberta em Java, por volta de 1794, por Louis Deschamps. Todavia, em Bornéu só a vislumbraram em 1818. Foi um guia do Dr. Joseph Arnold quem teve esse encontro com a flor da raflésia, cujo nome foi atribuído em homenagem a Sir Thomas Stanford Rapples, o líder da expedição.    

A planta não tem caules, folhas ou raízes verdadeiras. É um endoparasita que introduz o seu órgão absortivo, o haustório, na planta hospedeira onde se aloja e a partir da qual  recolhe os nutrientes de que necessita.

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A flor da raflésia pode ter cinco ou mais pétalas e atingir diâmetros de mais de um metro e um peso até 10 quilos. O seu aroma atrai muito insectos que transportam o pólen das flores macho para as flores fêmea. Na maior parte das espécies as flores macho e as flores fêmea crescem separadamente, havendo algumas que são bissexuais. Sabe-se pouco sobre a dispersão da sementes, que aparentemente serão dispersadas pelos esquilos e outras espécies que comem os frutos. Para ver as raflésias e fotografá-las é necessário pagar-se, estando as plantas em locais protegidos. As comunidades indígenas usam-nas em tratamentos e na Tailândia, pelo que me disseram mas não pude confirmar, também como especialidade gastronómica. Esperemos que a sua voracidade não acabe com as que restam.

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Há imensos insectos, borboletas que mais parecem pequenas andorinhas, tal a sua envergadura, de cores espantosas, muitos esquilos, milhares de pássaros emitindo toda a variedade de sons, cascatas pequenas e grandes, riachos correndo apressados pelo meio do verde, passadeiras de madeira e corda atravessando pequenos vales, sempre com vistas espantosas nas zonas mais altas e abertas da floresta.  

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As fotografias, os pequenos vídeos e os apontamentos que se vai tirando ajudar-nos-ão um dia a recordar os detalhes daquilo que observámos. A nossa memória encarregar-se-á de nos transportar até ao que não pode ficar registado. Aos cheiros, ao perfume do verde e da madeira, à delicadeza e graciosidade de alguns voos que nos furam o olhar e penetram até à entranhas, enquanto vemos as cores irreais da plumagem, as combinações que a natureza fez, sentindo toda aquela humidade, que se nos cola à pele, escorrer vertiginosa pelas folhas e riachos, conduzindo-nos trilho após trilho, sem hiatos, como se fora uma inesgotável fonte de prazer e de vida sempre pronta a regenerar-se e a recomeçar todas as manhãs, entre duas chuvadas e o raio de sol que por momentos atravessa a copa das árvores acendendo um poderoso foco à nossa frente. Como que alumiando-nos o caminho que pisamos, para vermos melhor os seus habitantes, formigas enormes e apressadas, guiando-nos por aquela imensidão e de onde não queremos sair quando a noite se aproxima e os sons da manhã vão sendo substituídos por outros mais estridentes que se agitam nas copas mais altas, indiferentes à nossa presença. Como há milhões de anos. Como se não existíssemos e nunca ali tivéssemos estado.

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De novo o verde, o azul e o laranja (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.02.19

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Foi com esperança de que a época seca chegasse um pouco mais cedo, de maneira a coincidir com o tempo que tinha disponível, que parti pela terceira vez para Bornéu, mais concretamente para Sabah, que com Sarawak, outro dos  estados da federação malaia, ocupa cerca de 26% da área da terceira maior ilha do mundo (a seguir à Gronelândia e à Nova Guiné). O restante território faz parte da Indonésia e do pequeno estado do Sultanato do Brunei.

Logo à aproximação ao aeroporto de Kota Kinabalu pude vislumbrar os mais de 4000 metros do Monte Kinabalu, que rasgando os fundos oceânicos se ergueu ali entre aquela ponta do mar do Sul da China, o mar de Sulu e o mar de Célebes, para alguns chamado de Sulawesi.

Desta vez ia com propósitos específicos e que em momentos anteriores não pude concretizar, a saber: visitar a região do Monte Kinabalu, percorrer as ilhas das proximidades e mergulhar no Tunku Abdul Rahman Park, do qual há anos ouvira falar quando estivera em Sipadan e que, embora sabendo que não iria encontrar grandes pelágicos – ver tubarões-baleia seria uma hipótese remota –, me atiçaram a curiosidade sobre as variedades de coral e das centenas de pequenas espécies que por ali deambulam. 

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Por aquelas paragens, normalmente muito transparente e com visibilidades acima dos trinta metros, o mar assume diversas tonalidades que vão do azul profundo ao convidativo turquesa, sempre com temperaturas mais perto dos 30 do que dos 20.º Celsius.

Cheguei ao início da tarde, um pouco cansado, pelo que aproveitei o que restava do dia para retemperar forças, dar uma pequena volta pelas proximidades do hotel, apercebendo-me das mudanças operadas nos últimos anos, visitando um pequeno mercado nocturno e tratando de programar as jornadas que se seguiriam.

No dia seguinte, a alvorada foi cedo e aproveitámos para um primeiro contacto com as ilhas do Parque Nacional, cujo nome se deve a um antigo primeiro-ministro malaio.

Ocupando uma área de aproximadamente 5000 hectares, na sua maior parte coberto por água, o Tunku Abdul Rahman Park situa-se no chamado "triângulo de coral", que inclui as águas da Indonésia, Filipinas, Papua Nova-Guiné, Ilhas Salomão e Timor. A sua biovidersidade é considerada a mais rica do mundo, havendo cerca de mais de quatro dezenas de mamíferos que só existem ali. Da sua floresta tropical se diz ter sido formada há mais de 130 milhões de anos, ou seja, num período ainda anterior ao da formação daquela que ocupa a bacia do Amazonas.

Nos últimos quarenta anos, a ilha perdeu cerca de 25% da sua floresta, o que a tornou em mais um centro de atenção da tragédia que a todos nos afecta e cujas alterações mais sensíveis são diariamente sentidas na irregularidade dos ciclos climáticos e em muitas das tragédias que nos diversos pontos do mundo vão assolando a humanidade. E essa foi mais das razões que me levou este mês até lá. Antes que fosse tarde.

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Uma rápida viagem de pouco mais de vinte minutos a partir de Jesselton Point, de onde saem diariamente muitas centenas de barcos, ora com mergulhadores, ora com viajantes, turistas, excursionistas ou simples curiosos das mais diversas nacionalidades e credos, levou-nos até Pulau Manukan e, depois, à ilha vizinha de Mamutik. Para primeiras impressões não foi mau. Tanto numa como na outra ilha existem alojamentos para os viajantes poderem pernoitar ou passar alguns dias, mas o ideal, para quem quer dormir, é chegar com reservas feitas e transfer garantido.

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As condições dos alojamentos locais pareceram-me razoáveis, com uma paisagem magnífica, mas não serão as melhores para quem prefere passar a noite a dormir num bom hotel, sem bicharada por perto, jantar num restaurante confortável e está predisposto a todas as manhãs apanhar um barco para demandar as águas do parque. 

A alimentação nas ilhas é má, pelo menos para os meus padrões, com cozinha predominantemente asiática e os típicos hambúrgueres para turistas, em geral mal confeccionados, com uma qualidade péssima e higiene discutível. Daí que haja quem, como eu, prefira garantir todas as manhãs um bom pequeno-almoço, levando fruta e umas buchas, que permitam aguentar o dia até ao regresso sem sobressaltos de maior. 

Convém ter cuidado com as diversas espécies de jelly-fish, algumas quase invisíveis dada a sua pequenez e transparência, alforrecas e espécies afins. Passam despercebidos e, em regra, só depois do contacto ou da picada, quando sai da água, é que o banhista se apercebe das marcas no corpo e começa a comichão.

Convém não esquecer que também estamos em mares onde as temíveis caravelas portuguesas (Portuguese Man O’ War, Physalia physalis) costumam fazer aparições, pelo que todo o cuidado e atenção são poucos.

Em todo o caso, não se faça disso um drama, sob pena de não se tirar qualquer partido da viagem. Para as situações de emergência, nas praias, os nadadores-salvadores de serviço costumam ter uns pensos de vinagre para aplicação imediata, assim aliviando o desconforto. Daí que, também por causa do sol intenso destas paragens, haja quem só tome banho com t-shirts e fatos de licra, o que não é, nunca foi, o meu caso. Apesar de tudo.

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As ilhas do Parque são muito pequenas — as outras são Gaya, a maior, Sapi e Sulug —, com lagartos e macacos curiosos, e com os quais convém ter atenção, pois há relatos de quem tenha ficado sem as mochilas, os óculos ou a comida entre dois mergulhos. Os lagartos, de dimensões respeitáveis, passeiam-se tranquilamente. A macacada vai-se ouvindo e vendo. A Sapi não fui depois de me dizerem que era a ilha com mais macacos naquela zona. Também não mergulhei num ilhéu famoso pelas suas cobras do mar. Não me apetecia ser importunado e de macacos e cobras já tenho a minha conta.

Em Pulau Gaya podem-se passar longas horas a ler e passear, observando os pássaros, e mergulhando com os Borneo Divers, com os quais aliás já havia mergulhado noutras ocasiões em Mabul e Sipadan, e a equipa do Down Below - Marine and Wildlife Adventures, os únicos que têm a operação centrada em Gaya. Os primeiros têm um centro magnífico nas imediações do Shangri-La, com óptimo equipamento, boas embarcações e pessoal profissional, e uma base de apoio em Mamutik, onde normalmente fazem os intervalos entre mergulhos. Convém ter em atenção que hoje em dia há dezenas de operadores de mergulho embora nem todos sejam recomendáveis.

Para além daqueles com quem mergulhei naquela zona, há muitos mais com lojas na cidade, pelo que é fundamental obter referências antecipadamente para se saber com quem se vai para um outro mundo com a confiança de se saber que não se vai para o outro mundo. Pode parecer paradoxal mas em matéria de segurança debaixo de água o meu lema é nada de aventuras. E felizmente não me tenho dado mal nos últimos trinta anos.

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A partir do mar têm-se óptimas vistas para terra. Em especial para quem vá às ilhas Mantanani, a vista do Monte Kinabalu e o silêncio são sublimes. Para se ir a estas ilhas é melhor fazer primeiro os cerca de 80km por estrada, a partir de KK até Kota Belud, para depois se apanhar uma das potentes lanchas, em regra com motores de 750 ou 500 cavalos, que fazem a ligação em cerca de 35 a 40 minutos, sabendo de antemão que estar preparado para levar alguma bordoada durante o trajecto de ligação é normal. Na Mantanani Besar há cerca de duas dezenas de locais de mergulho, sendo possível ver três navios japoneses da II Guerra em Usukan Bay.

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No regresso, ao final da tarde, há quem aproveite para visitar algumas espécies locais de símios e gozar um fantástico pôr-do-sol no Kokol Haven Resort, onde não cheguei a ver o pôr-do-sol devido à hora tardia em que nos pusemos a caminho. O local fica a cerca de meia-hora de KK e é recomendado por muitos residentes. Não vem nos guias. Quem quiser lá ir deverá sair cedo, se se deslocar a partir de KK, aí por volta das 16:15, por causa dos engarrafamentos citadinos e de maneira a chegar a horas de poder desfrutar a vista. De táxi, uma viagem de ida  poderá custar cerca de 40 RM (talvez aí uns 8 euros).

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Há imensos sítios para se apreciar o espectáculo do final do dia, mesmo na cidade ou em praias próximas, como na Tanjung Aru, só que também não há mais nada para além de muita gente, pelo que é preferível fazer uns quilómetros e fugir da "turistada" endinheirada, que vinda do Império do Meio arrasta os chinelos de "smartphone" em riste, fazendo poses, exibindo camisas com desenhos Versace e Valentino, aos berros e aos encontrões...

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Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.02.19

Houve um tempo em que evitava comer porque tinha pressa para ir jogar futebol com os outros. Ou porque era esquisito e não gostava do que me davam. Detestava mioleira (e ainda detesto e fico feliz por saber que hoje em dia esse alimento foi praticamente banido das mesas) e todas as aves (a situação não se alterou, embora abra de quando em vez uma excepção para uma canja ou empada de perdiz feita lá em casa, sem gorduras, peles, cartilagens ou ossinhos). Mas como nesse tempo os meninos não tinham quereres, e se faziam birra ficavam de castigo, ensinaram-me a comer de tudo. Até ter quereres. Não gostei embora me tivesse feito bem.

Anos mais tarde comecei a apreciar outras coisas, como, por exemplo, feijoada, cozido à portuguesa, dobrada, orelha e outras coisas que só de ver e sentir o cheiro naquele tempo me davam náuseas.

Com a idade, por força das circunstâncias da vida e em homenagem ao que na devida altura me ensinaram, acabei por me tornar mais exigente e por ter curiosidade em aprender como muitos pratos se confeccionavam.

E hoje faço-o, sempre que posso e me deixam, com excepção do Natal, quando ainda o tinha, única altura em que me davam o direito de me impor, tornar-me dono do espaço e preparar uns mexidos ou o prato principal da Noite de Natal.

Hoje considero-me um gastrónomo razoável e aqui há uns anos fui entronizado por alguns amigos que comungam dos mesmos interesses numa respeitável confraria, o que estimula ainda mais o meu gosto por uma boa comida e um bom vinho. Prazeres cada vez mais únicos pelos momentos irrepetíveis de degustação e convívio civilizado que proporcionam. Saber comer ou apreciar um bom vinho também são artes que se aprendem ao longo da vida. Primeiro com quem sabe, depois praticando.

O que também me leva a detestar cada vez mais restaurantes pretensiosos com cozinheiros afectados e medíocres, cadeias de fast food, messes, cantinas, e até alguns lugares que mais parecem estábulos ou chiqueiros do que espaços destinados a refeições de humanos, tal a má qualidade da matéria-prima, da confecção e da apresentação do que querem impingir-nos.

Tudo isto para vos dizer que foram estas as razões que me levaram a escolher o Mesa Marcada como blogue da semana. Apesar de ultimamente andar com pouca actividade, espero que os seus autores regressem em força.

Que vos faça bom proveito. E vos estimule os sentidos para um dos pequenos grandes prazeres desta vida.

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Na encruzilhada do ano do porco

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.02.19

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(Foto XINHUA, daqui)

"As montanhas são altas e o imperador está longe" (山高皇帝遠), provérbio chinês

Li Chunsheng, Chefe do Departamento de Segurança Pública de Guangdong, e que é também Vice-Governador de Cantão, aproveitou o facto de estarem reunidos  dezenas de representantes oficiais da cidade de Maoming para perante o Governador Provincial, Ma Xingrui, anunciar a visita, no final deste ano, do Presidente Xi Jinping a Macau, por ocasião do 20.º aniversário da transferência de administração de Portugal para a RPC. Será então esta a oportunidade para se fazer uma reflexão telegráfica sobre Macau, a RPC, o momento que ambas atravessam e o que o futuro nos reserva.

1. No XIX Congresso do PCC, realizado entre 18 e 24/10/2017, o Presidente Xi Jinping deixou claras quais as linhas que iriam compor o "Pensamento Socialista com Características Chinesas para a Nova Era". Salientou, entre outras, a necessidade da "realização da modernização socialista e o rejuvenescimento nacional tendo por base "a conclusão da construção de uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos", conjugando um desenvolvimento equilibrado com as necessidades do povo, fortalecendo a "confiança no rumo, na teoria, no sistema e na cultura do Socialismo com características chinesas". Em suma, construindo um país "sob o império do rule of law socialista".

2. Se durante os anos que antecederam o XIX Congresso se assistiu a um fortalecimento do poder do Secretário-Geral do PCC e da sua novel elite dirigente, mercê das operações de limpeza interna visando afastar e punir todos aqueles dirigentes e quadros que se desviaram da disciplina partidária, a partir de Outubro de 2017 o PCC e o Presidente Xi Jinping – alcançadas que estavam as duas primeiras metas: (i) "garantir que as necessidades básicas da população estavam asseguradas" e "as suas vidas são em geral decentes" e que (ii) se ergueu uma sociedade com "uma economia mais forte, mais democracia, ciência e educação avançadas, cultura próspera, maior harmonia social e melhor qualidade de vida" – concentraram-se no terceiro objectivo estratégico da política de abertura, o qual deverá ser alcançado quando a RPC celebrar o seu centenário, isto é, dentro de 30 anos (2049): (iii) "modernização e transformação da China num país socialista moderno".

3. Relativamente a Macau e Hong Kong, no seu discurso ao XIX Congresso o Secretário-Geral do PCC sublinhou que o regresso destas regiões ao seio da Pátria tinha sido um "estrondoso sucesso", provando-se que a fórmula "um país, dois sistemas" fora a melhor solução para as questões "legadas pela História, e a melhor garantia institucional de estabilidade e prosperidade a longo prazo".

4. Xi Jinping sublinhou ainda o alto grau de autonomia de que gozavam e a necessidade de harmonização com a Constituição chinesa das respectivas leis básicas, reforçando os meios para a melhoria dos sistemas e mecanismos por estas consagrados, e manifestando a continuação do apoio ao seu desenvolvimento no contexto global da nação, "melhorando o bem-estar do povo, dando os passos necessários para o avanço da democracia, mantendo a lei e a ordem, e cumprindo a responsabilidade constitucional de salvaguardar a soberania da China, a sua segurança e o desenvolvimento dos seus interesses". 

5. Por fim, e para aquilo que aqui interessa, o Secretário-Geral do PCC manifestou (iv) a resolução da questão de Taiwan para a completa reunificação da China como uma aspiração de todo o povo chinês e objectivo fundamental para a realização dos seus interesses, recorrendo para tal aos princípios da "reunificação pacífica" e de "um país, dois sistemas" para o desenvolvimento das relações no Estreito e o processo em vista. 

6. Concluído o XIX Congresso, escolhidos os homens para integrarem a nova Comissão Permanente do Politburo do Comité Central do PCC e dirigirem a execução das tarefas em vista, assistimos ao aprofundamento de iniciativas como "uma faixa, uma rota", ao lançamento do desígnio da "Grande Baía", a um reforço da centralização do poder, ao endurecimento e radicalização do discurso político interno, que veio acompanhado de um cada vez maior controlo da Internet, dos cerca de 800 milhões de utilizadores e das redes sociais, da realização de novos investimentos no Exército Popular, na Força Aérea e na Marinha, de ameaças de intervenção militar fora do continente (Taiwan, Mar do Sul da China, fronteira com a Índia), tudo para cumprimento de uma agenda securitária, com extensão a Macau e Hong Kong, e o prosseguimento de uma política interna que vinha de trás de silenciamento de eventuais opositores, dentro e fora do próprio PCC.

7. Concomitantemente, no plano internacional multiplicavam-se iniciativas diplomáticas em várias frentes, de certo modo aproveitando o vazio criado pelos EUA. O afastamento destes dos grandes palcos internacionais dá-se no seguimento de uma política unilateral de cariz proteccionista e desligada das grandes preocupações da comunidade internacional, mercê de uma alucinação colectiva que levou Trump à Casa Branca. O desfecho dessa alucinação é ainda incerto, mas para além de ter constituído um desafio à própria história do país e a uma herança de envolvimento mundial vigoroso desde Wilson, que sempre foi mais do que simples retórica, não obstante a sua desprezível política de segregacionismo interno, abriu portas para que a R.P. da China ocupasse o vazio criado.

8. O início de 2019 trouxe uma versão modesta do Fórum Económico Mundial, este ano marcado pelo conflito comercial EUA/CHINA, onde se notou a ausência dos presidentes dos EUA e de França,da Chanceler alemã e de Putin, acabando Pequim por enviar o seu primeiro-ministro. Tudo tão discreto que um articulista do The Guardian chamou a atenção para a atmosfera "flat" do evento por comparação com anos anteriores.  Noutros pontos do globo – Venezuela, Síria, Brasil, Europa Central – aumentaram as preocupações e pela primeira vez tivemos a percepção dos danos que a guerra de tarifas traz ao comércio mundial, e os elevados custos que as partes envolvidas estão já a pagar.

9. Apesar de no último dia de 2018, num artigo do New York Times, Alexandra Stevenson e Cao Li chamarem a atenção para o arrefecimento da economia chinesa e as ordens vindas de cima para que "o porco fosse melhorado com baton", em 18 de Janeiro pp. o People's Daily dava conta das palavras optimistas de Ma Yun (Jack Ma), o patrão da Alibaba no fórum de Xangai, alinhando pelo diapasão traçado em Davos pelo primeiro-ministro chinês, permitindo-se titular na primeira página da edição semanal (24-30/12/2018): "Curso Estável – A economia da China é certamente uma das razões para se estar optimista em direcção a 2019 ("Steady Course – China's Economy is certainly one of the reasons to be optimistic heading into 2019").

10. Pura ilusão. Propaganda genuína. Os sorrisos e os números avançados para o crescimento da economia chinesa esmoreceram quando logo a seguir se ouviram as contundentes palavras de George Soros sobre o perigo no horizonte e a "farsa" da iniciativa "uma faixa, uma rota", nas suas palavras, desenhada para promover os interesses chineses, e não os dos países recipientes, alertando para a inviabilidade económica de muitos projectos. O que por Soros foi dito complementou-se pela notícia da reunião de quatro dias do Presidente Xi Jinping e Wang Huning, número cinco do PCC e seu ideólogo mais influente, com altos quadros, alertando-os para a presença de "cisnes negros" e "rinocerontes cinzentos" no seu seio, bem como para a identificação da dissensão política como uma prioridade a combater, estando "preparados para o pior cenário". 

11. Quando o primeiro responsável do PCC e Presidente da RPC se apressaram (22/01/2019) a indicar os riscos que o Partido e os seus dirigentes devem tomar em atenção nos próximos meses – políticos, ideológicos, económicos, tecnológicos, sociais, ameaças internacionais e internos –, apelando à unidade em torno do líder e dos dirigentes para se assegurar a segurança política do regime, a confiança do povo e a estabilidade, isso só queria dizer uma coisa: a situação é bem mais grave do que aquilo que se vinha pintando. Os riscos de uma crise grave e de consequências internas imprevisíveis são reais. De outro modo, como é óbvio, o discurso não teria mudado tão rapidamente e em tão curto espaço de tempo.

12. Nos próximos dias o mundo irá continuar a assistir ao desenvolvimento das negociações entre EUA e China, à crise entre Otava e Pequim e ao fenecimento do regime madurista – cuja queda poderá agravar ainda mais a situação económica chinesa devido aos mais de 50 mil milhões de dólares de ajuda que ficarão perdidos –, sem esquecer o que se passa na Malásia, no Brasil, na frente síria, na Argentina – com uma estação de rastreio espacial chinesa que está a causar incómodos políticos e a gerar contestação social –, e ainda em África com a chamada "ajuda chinesa". Em Março terminará o período de tréguas na guerra tarifária com os EUA, altura em que também ocorrerá a reunião magna da Assembleia Popular Nacional, de onde sairão seguramente as linhas para a eleição do próximo Chefe do Executivo da RAEM. É este o ponto que a Macau interessa.

13. Até agora têm estado na linha da frente como putativos candidatos para exercerem o cargo de Chefe do Executivo, o Presidente da AL, o Secretário para a Economia e Finanças e o Secretário para a Segurança. Esta lista parece-me curta. E ilusória. Sei que há muita gente que não gostará de o ler, mas outros nomes há que poderiam integrá-la. Por exemplo? O actual Procurador da RAEM ou mesmo o Comissário Contra a Corrupção. Pelo perfil, pela experiência, pela formação jurídica. Com a vantagem de poderem ser dos poucos que sabem ler, escrever e exprimir-se com fluência em português e chinês, isto é, em cantonense e mandarim, o que não será desprezível no contexto de Macau e do programa "uma faixa, uma rota". Estes são atributos que nem o actual nem o anterior Chefe do Executivo possuíam e que muita falta têm feito. Seria bom que o próximo os possuísse. Essa seria também uma forma de valorizar a Lei Básica, bem como a identidade e autonomia de Macau no contexto da Pátria, dando um sinal para dentro. 

14. O passado já mostrou, quer em Macau quer em Hong Kong, que a entrega do poder a homens de negócios por parte do PCC nem sempre se revelou a escolha mais acertada. E muitos menos a quem esteja umbilicalmente ligado às famílias, aos magnatas, empresários e associações locais tradicionalmente próximas do poder, que na sua acção tendem a desvalorizar o respeito pela legalidade formal e substancial e pela essência da norma, colocando em causa com a sua vontade de agradar a Pequim o rule of law, a autoridade do governo, a autonomia e a estabilidade política e social. Recorde-se aqui que em 01/02/2019 Bernard Chan escrevia ser necessário ter em atenção o que aconteceu noutros países: "If life is going to get harder or at least more uncertain in the year ahead, cynicism and anger could spread unexpectedly" (SCMP, "Is Hong Kong heading for a populist revolt?").

15. Creio, aliás, que não há melhor prova de mudar o rumo quando a propósito do caso Sulu Sou/Scott Chiang alguém se permitiu dizer, em resposta a declarações do deputado que referira não poder ser julgado pelo crime de manifestação ilegal, que "é preciso compreender como é que funciona Macau" e que "é preciso ver Macau com olhos de Macau" (HojeMacau, "Neto Valente nega que se tenha metido no caso Sulu Sou", 14/06/2018). 

16. Quanto a isto, o Tribunal de Segunda Instância, pela lapidar decisão de 31 de Janeiro pp., tirada por unanimidade e que deu provimento ao recurso oportunamente interposto pelo arguido Scott Chiang, determinou a repetição do julgamento devido a uma nulidade tão grave que se revelou insanável: violação dos direitos de defesa dos arguidos. Ficou então esclarecido, para quem tivesse dúvidas, com que olhos o TSI vê Macau e como é que Macau funciona: funciona dentro da legalidade. Ponto. Não podia ser de outra maneira. E já se tinha visto isso com a Lei de Terras. E agora façam o favor de repetir o julgamento em pleno período de cumprimento das formalidades que levarão à escolha do próximo Chefe do Executivo. Para se voltarem a discutir os atropelos à legalidade cometidos durante o processo de levantamento da imunidade ao deputado, mais o que aconteceu durante a manifestação "ilegal", mais o que se disse e se escreveu, assim queimando politicamente e em lume brando quem não queria ouvir falar no assunto e pensava que este estava arrumado. Eu sei que para alguns é desagradável ler isto, mas em matéria de bom senso político e respeito pelo Estado de direito ficamos então conversados. 

17. Num cenário de agravamento da situação económica e de instabilidade internacional e regional, seria importante que da reunião da segunda sessão anual do 13.º Congresso Popular Nacional saíssem escolhas claras, projectadas para o futuro, numa linguagem simples, capaz de dar conforto e segurança emocional à população da RAEM. 

18. Soluções de continuidade já provaram trazer mais malefícios do que benefícios pela situação de fraqueza em que partem devido ao trade-off eleitoral e à submissão aos parceiros locais que tendem a encapsular e "condicionar" a capacidade de decisão do Chefe do Executivo. Veja-se de novo o caso da Lei de Terras e a forma como o Governo foi "obrigado" a pôr ordem em casa e a iniciar o processo de declaração de caducidade dos terrenos que não foram aproveitados durante o prazo das concessões, o que em meu entender só se fez por vontade expressa de Pequim e contra os maiorais locais que, não obstante o inequívoco texto da lei, pretendiam "soluções à Macau". Ou seja, as que nos conduziram à actual situação e que Pequim obrigou a corrigir. Daí o aviso à navegação. 

19. A liderança da RPC tem a noção exacta dos tempos difíceis e perigosos que aí vêm. Isso não poderá servir de desculpa para defendendo a Nação se atropelar o segundo sistema na RAEM. Até porque vem aí o concurso para as licenças do jogo e a reputação de Macau e da RPC estão a ser internacionalmente escrutinadas. Não se admitem "soluções à Macau".

20. É hoje indiscutível que a qualidade de vida de Macau e de Hong Kong piorou (a propósito de HK: Peter Kammerer, "Ugly truth is city got worse in past 10 years", SCMP, 29/01/2019), e que os mesmos erros políticos graves (o realismo e a auto-crítica marxistas não permitiriam dizê-lo de outra forma) foram cometidos nas duas regiões – na economia, no imobiliário, em matérias políticas, sociais, de transportes e obras públicas –, onde altos responsáveis acabaram detidos e julgados por corrupção, depois de durante anos andarem a cometer desmandos, favorecendo familiares, amigos e parceiros de negócios, deixando uma péssima imagem da sua acção, prejudicando os cidadãos das duas regiões e deitando por terra a confiança depositada por Pequim nas autonomias. O discurso oficial pode ser outro. A realidade é esta. E se quiserem podemos discuti-la. 

21. Em Hong Kong as coisas já começaram a mudar. E vão mudar muito mais. Que ninguém tenha duvidas. Veja-se a forma como Carrie Lam encaixou as inúmeras críticas que lhe foram feitas e se predispôs a aceitar o criticismo sobre as controversas matérias da segurança social, as lições de humildade que lhe quiseram dar e a abandonar uma mentalidade elitista, depois de estudos de uma universidade local revelarem que se tinha atingido a mais baixa taxa de aprovação popular desde Julho de 2017 (SCMP, 31/01/2019, p.3). Nessa mesma edição, o SCMP dava conta de que sendo o Chefe do Executivo escolhido por Pequim, jamais permitiria uma alteração às leis anti-corrupção que permitisse ao Chefe do Executivo aceitar vantagens patrimoniais. E no dia anterior esse matutino informava que os preços aumentaram 37,6 % num período de cinco anos, enquanto que os salários só subiram 3% (SCMP, "HK Homes Among the Least Affordable", baseado em Knight Franck's, "Global Affordability Monitor"). E em Macau?

22. Em Macau as coisas também vão mudar. E essa mudança não será realizada para satisfazer as "obsessões especulativas" dos mandarins locais mas para dar resposta à vox populi em matéria de qualidade de vida e aos objectivos definidos pela liderança do PCC. Acabou o recreio. As palavras e a postura do Chefe do Executivo da RAEM no discurso do Ano Novo Lunar são a melhor evidência disto. Pequim não quer gente nas ruas a manifestar-se contra o Governo e o Chefe do Executivo, nem a clamar por mais e melhor segurança social, saúde, educação, habitação, transportes, ambiente, higiene urbana, tratamento de resíduos ou veículos eléctricos. Muito menos a dar conferências de imprensa sobre a Lei de Terras. Pequim quer mais e melhores respostas aos problemas básicos. E isto envolve rédea curta sobre a corrupção, o nepotismo, o favorecimento político ou empresarial ou a Lei de Terras, instrumento único e fundamental para a resolução desses problemas.

23. Nenhum regime sobrevive com convulsões sociais e sem aprovação e apoio popular. Em democracia ou em ditadura. Por mais consolidada que seja a autocracia ou o poder dos oligarcas. E quando o regime político não é democrático, aqui entendido em termos liberais e ocidentais, sabe-se que a sua legitimidade é discutida diariamente nas ruas quando se vai ao mercado, quando se entra no autocarro ou se olha para o recibo da renda de casa ou da farmácia. O Presidente Xi Jinping sabe que para acomodar cisnes, rinocerontes e, já agora, patos bravos, vai ter de limpar a poeira e o lixo acumulados nos pilares do regime. Como em qualquer operação de limpeza muitos terão de usar máscaras, vai haver muita poeira no ar, muitos detritos em suspensão nas águas durante algum tempo e limitar os panchões. Até que se volte a respirar melhor, se possam dar algumas braçadas no mar sem correr o risco de sair de lá contaminado e que o povo saia à rua satisfeito.

24. Quando o Presidente da República portuguesa vier a Macau em Abril próximo, muita coisa terá entretanto acontecido. Nessa altura estará terminado o conclave que começará em 5 de Março e serão muito mais claras as linhas para o futuro. Também para as escolhas dos 400 membros da Comissão Eleitoral que designarão o futuro Chefe do Executivo da RAEM. O aumento de 100 membros vai baralhar as contas e é natural que quem tão cedo se posicionou e manifestou apoios a putativos candidatos seja obrigado a recuar e a "renegociar acordos". Há coisas que dificilmente se poderão mudar. Outras (e outros) andarão no ar, na expectativa. Mas de uma coisa todos podem ter a certeza: quando no final deste ano o Presidente Xi Jinping chegar a Macau quase tudo será diferente. E não me refiro apenas ao Chefe do Executivo, qualquer que seja o escolhido. É muito provável que até lá também muitos camaleões "patriotas" tenham mudado de cor.

25. Como Wen Yang escrevia há semanas, e sim, vou voltar a citar o China Daily: "It is time to clear up the source and return to the basic of human rights". Na RAEM também. Porque Macau não é Hong Kong. E sem isso, com turbulência, falta de visão estratégica e muito sebo, continuando a alimentar a fauna que por aí tem proliferado, indiscriminadamente, não haverá desenvolvimento. Nem será possível ter uma autonomia respeitável e respeitada até ao final de 2049, mantendo uma imagem internacional compatível com os anseios dos seus cidadãos.

Um Bom Ano do Porco é o que a todos desejo. Que seja gordo, limpo, produtivo e com muita saúde.

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Aristides de Sousa Mendes

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.01.19

"As we mark Holocaust Remembrance Day on Sunday, we should honor this man who engaged in what one historian called "perhaps the largest rescue action by a single individual during the Holocaust.", Richard Hurowitz, New York Times, 27 de Janeiro

Pese embora o esforço que alguém fez para obscurecer a sua indelével marca, é reconfortante saber que passados todos estes anos um dos mais conceituados e lidos jornais do mundo honra a sua memória, mantendo-a viva para os seus leitores.

Um exemplo que nunca será demais recordar, em especial porque ele não o fez a troco de dinheiro, de títulos ou da glória, ao contrário de algumas sumidades locais que gostam de mostrar a sua beneficência.

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A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.01.19

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"Somos a nossa memória, começou por dizer, a memória determina o que sentimos, o que sabemos, o que imaginamos, o que intuímos, somos a nossa memória e quando lhe perdemos o acesso, mergulhamos num vazio inimaginável, sem acesso à memória não poderemos saber dos valores morais que nos guiam, dos amores e dos medos, das ambições, dos erros e fracassos, tornamo-nos tão imprevisíveis e misteriosos como qualquer recém-nascido, mas enquanto o recém-nascido é um desmemoriado programado para criar memória, para se tornar um adulto autónomo e independente, estes desmemoriados estão impedidos de criar e guardar memórias, estão impedidos de tornar a ser, de mentis, do latim, mente vazia, podemos dizer sem exagero que se assiste à construção do nada, percebe?" (Dulce Maria Cardoso, Eliete, Tinta-da-China, Lisboa, 2018, pp. 244/245)

 

Parti para a sua leitura sem saber o que iria encontrar, embora pensasse que de uma consagrada como Dulce Maria Cardoso, vencedora de inúmeros prémios, traduzida e publicada em duas dezenas de países, nunca se pode esperar pouco. E não me enganei.

Não sei se existe aquilo a que já alguém chamou uma "escrita no feminino", expressão que considero detestável mas que entendo como querendo referir-se a uma escrita feita por mulheres e que por isso mesmo carregaria um estilo muito próprio, com preocupações que não seriam as decorrentes de um texto sobre o mesmo tema escrito por homens.

Pensei nisso várias vezes ao longo da leitura desta "Parte I A Vida Normal". A vida de uma mulher escrita por outra mulher, num período histórico muito próprio, percorrendo momentos pré e pós-revolucionários, a revolução social operada em Portugal e o universo muito particular e espacialmente localizado de Cascais e da linha do Estoril, percorrendo a emancipação profissional e sexual da mulher, os dramas da família e do casamento, a partida, a separação, a ausência, a dor, o esquecimento, o nascimento, a velhice e a morte. Um olhar que até no julgamento que faz de Jorge se torna cruel de tão cristalino. 

Está lá tudo numa narrativa consistente, com uma escrita poderosa, que flui e nos agarra ao longo das quase três centenas de páginas, antes de um final que será tudo menos expectável. A linguagem é desprovida de ornamentos, forte, por vezes mesmo agreste, rude, apesar de perfeitamente enquadrada nas cenas descritas, nas deambulacões da personagem principal. 

Costumo dizer que os melhores livros são os que me surpreendem pela qualidade da escrita do seu autor e pela projecção da narrativa. Quando um livro me faz esquecer as suas páginas ao longo da leitura, para me fazer saltar as suas próprias barreiras e é capaz de me levar para uma outra dimensão do pensamento e da palavra, com a mesma simplicidade com que me transporta ao longo dos seus parágrafos, quase como que projectando as suas diversas histórias numa só, e misturando as nossas com as do texto, é sinal de que está muito para lá daquilo que é o romance ou a novela convencional, fazendo esquecer a obra em que todos os cânones se revêem, são respeitados, onde tudo surge muito limpinho, muito formal, muito compenetrado e insípido.

O sal da escrita de Dulce Maria Cardoso está na luz que projecta, no modo como ilumina ao leitor o trajecto de Eliete e o faz dele participar, muitas vezes sem que seja possível para quem lê aperceber-se logo das opções tomadas pela autora e da multiplicidade de sentimentos que assolam vidas aparentemente simples e normais. Como que a dizer-nos que não existem vidas simples nem normais. Há apenas vidas. Cada uma tem a sua cor. O segredo está em saber colocá-las todas nas páginas de um livro, sem cansar e enriquecendo-nos a memória.

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Eva

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.01.19

4913426918493990.jpeg(Fotograf: Beat Mumenthaler, Schweiz)

"Há uma nova geração de judeus húngaros, que ele [Viktor Órban] não os ataca directamente, porque tem agora inimigos diferentes, que são os refugiados. Os refugiados são os judeus de hoje (...)" – Eva Koralnik, 82 anos, sobrevivente do Holocausto, tradutora em 1961 no processo de Eichmann, ontem, na Universidade de Macau

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Vazios

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.01.19

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Quando era miúdo não apreciava por aí além, até as coisas mudarem depois de adulto. De Verão nunca foi uma tentação, mas a partir do Outono e, em especial, durante os dias de inverneira azul dava por mim, muitas vezes, a pensar quando chegaria o Domingo para irmos comer um cozido à portuguesa. Sem frango nem batatas, que para mim sempre estavam a mais.

Hoje quis cumprir esse ritual e fui à procura do cozido. Não há?, foi ontem. Ontem? Mas ontem foi sábado. E ninguém avisa? Pois, agora é assim.

Vai ser menos uma preocupação. Até que possa voltar à Paisagem e ao senhor Paulo, ou ao Camponês, acabou-se o cozido ao Domingo. Passa a ser um dia como todos os outros.

Sem cozido, é certo, mas também sem o espectáculo da mesa da frente, onde um cachorro vestido de rapaz, com o impermeável azul que devia ter ficado à porta, lambia sofregamente o prato do doce. No final a mãe limpou-lhe a boca. 

Os tempos mudam. E não avisam.

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E o futuro aqui ao lado

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.01.19

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Aqui há uma década, um amigo meu quis desenvolver um projecto pioneiro na área dos veículos eléctricos, a ser concretizado no Algarve. Procurou para esse efeito obter o apoio do Governo, nomeadamente do responsável pela pasta do Ambiente, bem como sensibilizar os autarcas e a influente estrutura regional. Embateu então num muro invisível de betão, feito de desconfianças pessoais e políticas, muitas promessas e, acima de tudo, falta de vontade política. Perdeu-se o projecto e uma boa oportunidade de dotar o Algarve e Portugal de uma rede pioneira de automóveis de aluguer eléctricos.

Noutras paragens, as necessidades de combate à poluição urbana, de redução das emissões e de protecção da saúde dos cidadãos aguçaram o engenho. Sem fundos europeus a financiarem os projectos, mas com um poderoso investimento público, a opção pelo transporte eléctrico avançou. Desde logo em relação aos transportes públicos, mas com extensão aos veículos privados, sejam motociclos ou automóveis, dos mais pequenos e familiares aos desportivos.

Já em tempos neste espaço dei conta do choque, no bom sentido, que foi para mim regressar a uma pacata e atrasada vilória de pescadores que em pouco mais de duas décadas passou de alguns milhares de habitantes para mais de 12 milhões.

Quanto nessa altura voltei a Shenzhen, é esta a cidade de que se trata e hoje uma das capitais tecnológicas do novo Império do Meio, por onde aliás têm passado membros do Governo português, fiquei surpreendido com o desenvolvimento, a pujança de que a cidade dava mostras e a revolução urbana que empreendera: avenidas largas, passeios seguros, relativo equilíbrio entre zonas arborizadas e cimento e autocarros eléctricos.

Se quanto à frota de autocarros já se sabia desde o ano passado qual o nível atingido –  no final de 2017 havia mais de 16 mil autocarros eléctricos em circulação –, desde ontem ficamos igualmente a conhecer que a cidade tem agora a maior frota de táxis eléctricos do mundo. Num universo de mais de 21 mil táxis, 99% são eléctricos.

Os resultados alcançados,no seguimento do que aconteceu numa outra cidade chamada Taiyuan (Shanxi), são notáveis em matéria de redução de emissões e qualidade de vida dos habitantes da cidade e das regiões vizinhas.

Bem sei, daquilo que me dizem os especialistas, que ainda não existe uma solução que resolva de vez o problema das baterias usadas. Em todo o caso, ainda assim, creio que os ganhos são superiores aos custos e não posso deixar de pensar como é possível fazer tanto em tão pouco tempo numa cidade com a dimensão de Shenzhen.

E nesta pequena cidade onde vivo, com pouco mais de 600.000 almas e rios de dinheiro e desperdício, não é sequer possível substituir um número infinitamente menor de autocarros e táxis velhos e poluentes pelos seus congéneres eléctricos num prazo de meia dúzia de anos. 

Shenzehn é por isso mesmo a prova final, para quem ainda duvidasse, de que não basta dinheiro. É preciso arrojo, boa governança, capacidade de planificação e de decisão política, gente qualificada, transparência nas escolhas, critério no investimento público e, sobretudo, um controlo impedioso da corrupção e do tráfico de influências.

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Uma ténue linha

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.12.18

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Estava tudo preparado. Era inadiável e teria de ser nesta altura ainda que tal ocorresse num momento em que estaria desacompanhado.

Ciente do relativo baixo grau de dificuldade da intervenção, confiando nas mãos de quem  há muito conquistara pelo seu mérito a “outorga do direito de mexer no corpo e na alma dos outros”, como há dias dizia numa belíssima entrevista o Prof. José Fragata, encarei o que me estava destinado sem qualquer apreensão.

Quando já depois de preparado para o ritual me vieram medir a pressão arterial e a frequência cardíaca, esta última espantando a simpática enfermeira, desconhecedora da minha condição física e do treino a que disciplinadamente me entrego, quando vislumbrou os 49 que a maquineta registava, estava convicto de que iria correr bem e certo de que dentro em pouco estaria tudo terminado. Pura rotina, portanto.

No bloco operatório, ainda antes de partir durante algumas horas para outras paragens, tive oportunidade de registar a boa disposição dos que me rodeavam e com eles trocar algumas palavras para logo me perder na distância das luzes do tecto.

Tudo terminado, rodeado pela eficiência e profissionalismo com que as coisas haviam começado, voltei a mim, sentindo desde logo o desconfortável despertar da anestesia e a impossibilidade de respirar normalmente, pressentindo aquela desagradável sensação de aperto na bexiga que eu sabia que me iria incomodar ainda durante algumas horas.

Obtida a alta e iniciado um curto período de descanso e recuperação até à primeira consulta, confirmava-se o sucesso da cirurgia e um lento regresso à normalidade, pese embora sentisse ainda a garganta muito dorida.

Recebidas as recomendações para os dias seguintes, até que me voltasse a apresentar numa segunda consulta, regressei a casa e procurei seguir à risca o que me fora dito.

Nessa noite não consegui evitar dois espirros, a que se seguiu um terceiro na manhã seguinte quando fazia as necessárias abluções à zona que fora mexida.

De repente, no meio desse ritual, sinto algo desprender-se do meu nariz. Vindo do seu interior, no que de início pensei ser alguma crosta, coágulo ou qualquer secreção que se libertava no pós-operatório, saiu uma pequena placa com a forma de uma vela, aí com uns seis centímetros por dois na sua parte mais larga.

Confesso que nesse momento fiquei em pânico perante a perspectiva de com os espirros e as lavagens ter dado cabo do trabalho que dias antes tão minuciosamente havia sido feito.

Sozinho, sem saber o que fazer, visto que também era impossível recolocar a placa onde estava, tentei contactar com o meu médico. Nada feito, tinha-se ausentado. Enviei um e-mail . Na volta só recebi silêncio.

Resolvi então pegar no telefone e falei com alguém no hospital onde estivera. Queria contactar o homem que me operara. Passados alguns minutos fui esclarecido de que essa tentativa se revelara igualmente infrutífera. Estava incontactável. A solução seria eu deslocar-me até às urgências do hospital onde estivera internado para que um otorrino pudesse avaliar a situação e aconselhar-me o que necessário fosse.

A proposta era inviável. Eu estava a mais de trezentos quilómetros e não iria fazer de novo esse percurso de regresso ao local de onde saíra dias antes no estado ainda dorido e debilitado em que me encontrava.

Entretanto, falei com a outra metade de mim, que sabendo das minhas preocupações e do, muitas vezes, excesso de previdência com que rejo a minha vida para evitar correr riscos desnecessários, me aconselhou a que não fosse piegas. “Se não te dói nada, se te sentes bem, para que vais tu outra vez para o hospital incomodar as pessoas? Vais à consulta de dia 27 e vais ver que não é nada”, ouvi do outro lado da linha.

Passados alguns minutos recebo uma chamada telefónica. Era do hospital. Aconselhavam-me a ir à urgência mais próxima de minha casa. Agradeci a sugestão, fiquei a matutar.

Vesti-me devagar, desprezando, por cautela e receio do que mais pudesse suceder, movimentos bruscos. Embrulhei a placa num lenço de papel, procurei as chaves do carro e meti-me ao caminho. Pouco convencido, mais por descargo de consciência do que por convicção ou impulso de necessidade.

De facto, nada me doía. E também não me sentia pior do que antes daquele momento em que a placa fora expelida pelo meu organismo. Aparentemente estava tudo bem. Mas eu precisava de alguém que me tranquilizasse, que me garantisse que não teria, inadvertidamente, feito asneira. Sofria só de pensar na perspectiva de ter acabado de estragar um trabalho bem feito. E caro.

Uma médica jovem e interessada recebeu-me prontamente nas urgências. Consciente do melindre da situação logo após o meu relato inicial, disse-me que iria chamar um especialista. Este não estava ali de momento mas havia sempre um preparado para acudir a alguma situação mais grave. Que aguardasse um pouco e já me diria alguma coisa. Momentos volvidos teve o cuidado de vir ter comigo e de me dizer que já tinha falado com quem me iria ver, alguém cujo nome eu sabia ser de um dos melhores, e que bastaria aguardar mais alguns minutos para estar a ser observado.

Enquanto esperava fui pensando em mil e uma coisas. No aborrecido que era estar a incomodar alguém numa altura em que todos, reunidos em família e ansiosos com a hora de abrir os embrulhos, estão mais preocupados com o bacalhau e o peru do que com a sorte dos outros, tanto mais que corria o sério risco daquele episódio ser perfeitamente normal e de estar ali prestes a fazer figura de medroso, servindo como motivo para todos se rirem e gozarem com a minha excessiva preocupação perante situações que à generalidade das pessoas só exigem calma, paciência e pensamentos positivos.

É aquele senhor, esclarecia a médica que antes me recebera enquanto acompanhava o sujeito que acabava de chegar e que eu reconhecera ser, pelas fotografias que vira, o Prof. X. Devia ter menos de sessenta anos. Provavelmente da minha idade, mais coisa menos coisa, embora parecesse mais envelhecido e com os brancos que eu não tenho.

— Então o que é se passa?, perguntou enquanto me cumprimentava. Foi o Y que o operou?

Relatei-lhe a minha inesperada aventura, mostrei-lhe a placa que logo me assegurou ser de silicone. Sem me deixar terminar perguntou-me pela garganta. Não lhe dói nada? Não, está só dorida. Então e a outra? A outra, balbuciei. Não sei de nada, não saiu mais nada. Sente-se aí, ordenou-me, temos de ver onde ela está.

Com o poderoso foco à frente dos meus olhos, enquanto o Prof. X ia mexendo nos instrumentos, percebi que havia ali alguma preocupação. Baixei as pálpebras, passaram mais uns longos segundos; por fim ouvi um “já localizei”. Menos mal. “Vamos ver se consigo lá chegar, mas para isso preciso de um mais comprido, para ir buscá-la”.

Quando me apercebi de que “a outra” também tinha saído fiquei mais aliviado. Respirei fundo. Já está safo, disse o Prof. X. Depois, na quinta-feira, quando for à consulta diga ao Y o que aconteceu. Os pontos cederam. Deve ter feito muita força. Já pode deitar isso fora. Fez bem em ter cá vindo porque logo à noite, quando se deitasse, sufocava. Não lhe doía, não o incomodava, não deu por nada...

Naquele momento percebi a sorte que no meio de tudo me acompanhara. Uma ténue linha separou o sucesso da tragédia. Uma linha invisível, incontrolável, que podia ter transformado uma intervenção bem sucedida numa inacreditável sucessão de azares com todos os ingredientes para terminar da pior forma nas primeiras horas de um Dia de Natal.

Paguei a minha visita e saí. Circulei então pela cidade, até acabar por estacionar junto a um centro comercial. Deambulei por ali olhando para os outros, vendo-os passar apressados com os sacos coloridos das últimas compras de Natal. E pensei na injustiça que seria se tudo tivesse terminado de outra forma. Para quem me operou, para quem contribuiu para que tudo corresse bem e tivesse um final feliz. Como nos filmes habituais da quadra.

Aos poucos revi mentalmente o filme dos acontecimentos. Libertei-me daqueles momentos de incerteza e da forma tão pouco convicta como me fizera à estrada.

Terminados estes dias, cinco anos passados sobre a última vez que estivera em casa pelo Natal, senti que havia sido brindado por uma espécie de taluda invisível. De cujo verdadeiro valor praticamente ninguém se apercebeu. A não ser o Prof. X naquele instante em que segurou a ponta e a puxou. Hoje o meu rosto será igual ao de ontem, conterá os mesmos sulcos e as dúvidas e incertezas de sempre. Condescendo que um dia assumirão outras formas para eventualmente se repetirem noutras circunstâncias. Quem sabe se noutros lugares. Talvez até com outros como eu. Tudo isso é possível.

De uma coisa, porém, fiquei mais seguro. Morrer só se morre uma vez. Nascer pode acontecer repetidas vezes numa única e simples vida. Basta uma ténue linha. Não é preciso sequer vê-la. Há quem lhe chame sorte. O nome é irrelevante. A diferença é que desta vez vi-a. Senti-a. Sem dor, sem aviso prévio. E houve alguém que comigo a viu, e me disse, para que eu pudesse aqui contá-lo. O que não me fazendo mais feliz do que era antes ainda assim pode ser descrito. Como se fora um conto e nunca tivesse acontecido.

A vida é uma ténue linha. Irrepetível. Por isso é tão importante aprender a vivê-la. E reaprendê-lo tantas vezes quantas as necessárias para que continue a fazer sentido percorrê-la. Com sentido. Com a consciência de que ela existe. E de seguir a linha, essa ténue linha, diariamente. Sabendo por onde se vai, por vezes sem apercebê-lo, ao sabor dela.

Seguindo-a, seguindo-a, seguindo-a, silenciosamente, sem pressas, até que desapareça na linha do horizonte. Quando a noite cair. E os nossos olhos se voltarem a fechar. Numa ténue linha.

Um Bom Ano para todos vós.

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Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.12.18

Longe vão os tempos em que tinha a pretensão de ver algum, e bom, cinema.

Se anos houve em que conseguia ver mais de uma centena de filmes, certo é que hoje em dia passo largos meses sem ver cinema em salas e ecrãs decentes, sem estar estirado num sofá, com as pálpebras a fecharem-se sem qualquer controlo, ou em salas com pipocas, cheiro a comida, gente a falar e a luminosidade, quando não o som, dos telemóveis dos (e das) "selvagens" das redondezas.

Nos últimos anos, de quando em vez, lá consigo arranjar um dia ou dois em que aproveito para ver alguns filmes de empreitada. É o que acontece de cada vez que tenho oportunidade de acompanhar um festival de cinema.

Com a tarefa desta semana já prometida à Teresa, pensando na escolha que iria fazer, serviu-me ter Nicolas Cage a algumas filas de mim, assistindo à projecção do magnífico Green Book, o último filme de Peter Farrelly, com um Viggo Mortesen intenso e a brilhar alto, e a magnífica surpresa que foi para mim Mahershala Ali, para me lembrar que estava na hora de escolher um blogue que já leva uma década, e que mesmo quando não podemos ir ao cinema nos vai pondo ao corrente do que se vai fazendo e passando nesse mundo fascinante.

Cinema Sétima Arte é, por isso mesmo, e no dia em que começa o 3.º Festival Internacional de Cinema de Macau, a minha escolha para esta semana. Para não perder o pé durante o resto do ano.

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Efeméride

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.11.18

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(foto daqui)

Na sequência da publicação de um relatório na passada segunda-feira, que dá conta, entre outras coisas, de que 1 milhão e 37 mil pessoas vivem em Hong Kong abaixo da linha de pobreza, e que a percentagem de crianças que vive abaixo desse limiar subiu de 17,5 para 20,1%, a edição matutina do South China Morning Post, um jornal cuja linha editorial está cada vez mais próxima das posições oficiais de Pequim, veio sublinhar as declarações de Chua Hoi-wai, responsável pelo Hong Kong Council of Social Security.

Se bem se recordar, já em 2017 um artigo de Chen Hong Peng e Paul Yip questionava como seria possível ultrapassar o ciclo de pobreza que muitas crianças enfrentavam em Hong Kong, sendo que na altura se referia um número semelhante ao que foi agora divulgado, ao mesmo tempo que se interrogava sobre a melhor forma de serem dadas oportunidades a essas mesmas pessoas desafortunadas da vida.

Um dos aspectos que hoje ressalta é o das condições em que as famílias dessas crianças vivem devido aos altos valores do imobiliário, o que resulta numa afectação do nível de satisfação das necessidades básicas das crianças e na falta ou diminuição de refeições diárias que as permitiriam crescer saudáveis.

Seguindo por essa linha, Alex Lo escreve que "poverty relief is a long-term commitment", querendo-se com isto dizer tudo aquilo que não se tem visto em mais de 20 anos de integração na mãe-pátria. Trata-se de um insucesso tão grande do processo de integração que já não pode ser ignorado. Não há socialismos felizes, nem sequer num mercado capitalista e altamente desregulado.

Confesso que não sei se em Macau existem estudos que de uma maneira ou de outra nos dêem conta da situação que em matéria de pobreza por aqui se vive. Paul Pun, o incansável dirigente da Caritas, tem regularmente chamado a atenção para o aumento de bolsas de pobreza e para os esforços que a sua organização vai fazendo para trazer conforto e alívio a muitos milhares que em nada têm beneficiado do desenvolvimento económico da RAEM e do crescimento dos negócios feitos à sombra do jogo e da especulação imobiliária.

Há deputados que também a isso têm sido sensíveis e que de quando em vez fazem ouvir a sua voz.

Mas seria bom que todos nós, cidadãos, fossemos tendo consciência disto. E de que o Governo, em vez de andar a distribuir cheques sem critério, encaminhasse verbas para quem efectivamente precisa, reduzindo as disparidades cada vez mais gritantes que todos vemos diariamente crescer entre a população mais desfavorecida de Macau.

A celebração dos 40 anos de reforma, abertura económica, crescimento e desenvolvimento na RPC não pode ter como consequência um aumento das pessoas que vive em situação de pobreza, a multiplicação do número de situações de crianças em risco e um crescimento dos problemas sociais de Hong Kong e Macau de tal forma grave que se tornou notícia. 

Que sentido tem festejar 40 anos de sucessos se um dos principais indicadores (científicos, como aqui se quer) de carência e insucesso aumentou? Que sentido pode ter a celebração dessa efeméride para quem regrediu social e economicamente, para quem hoje tem dificuldade em alimentar, dar um tecto condigno e educação aos seus filhos? Que país se pode de tal orgulhar? Que sistema será esse?

Pobreza não é vida. E só para os ascetas constitui uma escolha livre e consciente.

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Reencontro no Grande Prémio

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.11.18

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Que o livro iria ser lançado por estes dias já o sabia há muito tempo. O que não me passava pela cabeça, num momento em que se desenvolvem diligências no sentido de elevar o Circuito da Guia a património protegido e reconhecido internacionalmente; depois do Rendez-Vous à Macao, no início da década de 80 do século passado, e em semana de Grande Prémio, já com os motores a rugirem no asfalto, era vir a reencontrar o eternamente jovem Michel Vaillant, num final de tarde, no hospitaleiro Grand Lapa, antigo Mandarim Oriental, onde noutros anos tantas aventuras reais pude viver. Mas foi o que efectivamente aconteceu.

Com Corto Maltese, Michel foi meu companheiro de muitas tardes e de sonhos de juventude, quando acreditava que lá em casa, um dia, me deixariam ingressar num dos cursos de pilotagem da Elf e seguir uma vida nas pistas, o que só mesmo na fértil imaginação de um jovem seria possível num pós-25 de Abril dominado pelo PREC e em que os meios e as oportunidades de competir e de fazer uma carreira no desporto autómovel eram escassos para quase todos.

Volvidos todos estes anos, em que tirando efémeras experiências nos karts me tenho limitado a acompanhar, com gosto, diga-se de passagem, campeonatos e amigos infinitamente mais dotados por algumas pistas desse mundo, tive o privilégio de assistir à apresentação do último livro (77.º) da saga Vaillant, agora continuada por Philipe Graton, Lapière e Benjamin Béneteau (ilustrador), tendo junto a mim amigos e heróis de carne e osso como o André Couto, Tiago Monteiro ou o sempre bem disposto Tom Coronel.

Para quem ainda não leu, posso dizer que é mais uma aventura que mistura a realidade com a ficção, lugares de todos os dias e uma pista de que também eu gosto muito, exaltando os valores saudáveis do desporto, da competição, da justiça e do fair play numa história e com desenhos que honram a herança de Jean Graton.

Sacha Fenestraz, também ele a competir na edição deste ano, tal como André Couto, até hoje o único piloto local a vencer o Grande Prémio de F3, integra o lote dos personagens que conferem autenticidade à história.

Confesso que por momentos voltei a ser um menino. E foi com o mesmo prazer de há mais de 40 anos que recebi o livro autografado das mãos dos autores e dos pilotos e que, depois, no conforto de casa com gozo li.

Espero que também o possam ler e retirar dele o mesmo prazer que por instantes senti. E se por vergonha não o quiserem comprar para vós, sempre podem aproveitar o pretexto do Natal que aí vem para o oferecerem a filhos, sobrinhos e afilhados, estimulando-lhes o gosto pela leitura, também pelo sonhos que vivem paredes-meias com a realidade, para que depois vós próprios, assim como quem não quer a coisa, o possam ler às escondidas, sentindo as cores, os cheiros e a textura das suas páginas.

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A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.11.18

"For a man who famously thought he could grab women by the genitals, Donald Trump is about to experience just how painful a squeeze that can be."

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Cadeiras

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.11.18

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(http://imgjkw.co/ideas/)

Há os que se sentam numa e nunca mais se levantam. Ficam colados ao fundo, como umas lapas. E só se erguem, com manifesta dificuldade, quando os fundilhos começam a arder. Ou caem da cadeira. Outros há que não se chegam a sentar. Para não perderem tempo e irem acumulando cadeiras.

Em comum têm a mesma coerência, o mesmo amor aos números.

É-lhes incontrolável. Vem da massa do sangue.

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Pensamento da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.09.18

Ao longo da vida tenho tido alguma dificuldade em distinguir os cínicos dos hipócritas. Das vezes com que tenho sido confrontado com esses espécimes, normalmente concluo que os primeiros são mais petulantes, mais atrevidos, menos escrupulosos.

Os hipócritas são mais do tipo cobardola, não assumem, disfarçam.

Os cínicos riem muito, gostam da gargalhada fácil, gostam de fazer uma espécie de humor. Por vezes tornam-se mal educados, ordinários, em especial com os que consideram inferiores, porque também gostam de dar nas vistas, de impressionar. E depois riem-se.

Os segundos são mais do tipo sorriso amarelo, sem nunca se comprometerem, gente de meias-palavras, de acordo mas nada de os incluir na lista. Estes não costumam perder a compostura e de preferência silenciam. Que diabo, um tipo tem de ganhar a vida.

Numa linguagem crua e sem rodeios os cínicos são os do género "filho da puta". Não olham a meios para atingirem os seus fins. Os hipócritas assemelham-se mais ao "chico-esperto". Se puderem lá chegar também chegam procurando com todas as suas forças disfarçar a moscambilha. E evitam prejudicar. Os outros não.

São ambos igualmente nojentos, mas só os cínicos são perigosos. Em termos sociais e políticos.

Os cínicos são inteligentes. Os hipócritas normalmente devem pouco à inteligência. Há sempre um pormenor que lhes escapa.

Os hipócritas, como pobres diabos, toleram-se. Os cínicos são insuportáveis. Pela petulância. Devem ser desmascarados, sempre que possível. Sem contemplações. E se possível com alguma perfídia.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Leituras

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.08.18

"In politics, you have to wear your choices"

 

"Politicians will often have to choose which of their commitments to prioritise in a given context, and this decision is likely to be conditioned by both the strength of their endorsement and basic strategic considerations. Two key points follow. First, that the refusal to fall victim to wishful thinking about what can be achieved is an epistemic virtue politicians of integrity must display. Second, as the dirty hands literature suggests, good political leaders may often have to act in direct contravention of some of their deepest convictions to avoid serious disasters (Walzer, 2007). Given that political integrity is a matter of balancing the demands of one’s role, and one’s deep commitments, such decisions do not necessarily betray one’s political integrity, because avoiding great disasters is one of the most central role-based obligations at play."

 

Por o tema ser de todos os tempos e não se tratar de um texto muito denso, hoje achei por bem aqui deixar uma pequena sugestão de leitura.

O texto é de Edward Hall, bastante recente, tem por título "Integrity in democratic politics", saiu no The British Journal of Politics and International Relations, 2018, Vol. 20 (2), 395-408, e temos a sorte de o ter disponível em acesso livre. Não sei se assim permanecerá por muito tempo, por isso o melhor é aproveitarem. Os que se interessam pelo tema, obviamente.

Tenho muitas dúvidas sobre as conclusões a que Hall chega, talvez porque eu tenha uma concepção do conceito demasiado antiquada, dirão alguns, ou excessivamente rígida, apostarão outros.

De qualquer modo, serviu para me ajudar a fazer uma reflexão sobre o tema e olhar para hipóteses que nunca me tinham ocorrido. Eventualmente até poderão estar correctas, mas não é isso que por agora importa.

Ler os outros para se aprender e se pensar um pouco melhor é um dos exercícios mais salutares que conheço. E dos mais baratos.  

 

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Sinais de tempestade tropical

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.08.18

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Na semana que agora finda, a RAEM foi abalada pela notícia de que os contratos de dois juristas portugueses que desempenham funções de assessores-coordenadores na Assembleia Legislativa de Macau iriam ser dispensados no final do corrente ano, não sendo os seus contratos renovados.

Um, Paulo Cardinal, desempenhava funções desde 1992, tendo trabalhado desde então com todos os presidentes da Assembleia Legislativa de Macau. O outro, Paulo Cabral Taipa, requisitado aos quadros da República Portuguesa em 1997, exercia funções junto do órgão legislativo local desde 2001.

Aparentemente seria uma situação como qualquer outra. Todavia, o seu afastamento, além de inexplicável de um ponto de vista objectivo, tem sido visto pelos mais diversos sectores da comunidade jurídica de Macau ora como mais uma grosseira violação das garantias conferidas pela Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre a Questão de Macau e da Lei Básica de Macau, ora como mais um acto inamistoso para com a comunidade portuguesa. E, ainda, como alguns rapidamente se apressaram a dizer, como um caso de simples saneamento político.

A notícia foi conhecida na manhã de sábado, 18 de Agosto, através do semanário Plataforma, que deu conta através da sua edição online do sucedido. Ao longo do dia foram várias as manifestações de choque e repúdio, incluindo do Presidente da Associação de Advogados. E prosseguiu na manhã de segunda-feira, com grande destaque em três jornais de língua portuguesa e na imprensa de língua inglesa, merecendo honras nos jornais televisivos desse dia e dos dias seguintes, até culminar no final da semana com um artigo de fundo do constitucionalista João Albuquerque, com as declarações de Leonel Alves, um conhecido e influente advogado local que foi deputado durante 33 anos, estando actualmente retirado da vida política, e do politólogo Eric Sautedé.

Nesse mesmo dia 18 de Agosto teve também lugar um jantar de despedida do Embaixador Vítor Sereno, oferecido pelas chamadas associações de matriz portuguesa, durante o qual o diplomata não deixou de manifestar a sua preocupação e sublinhar a importância dos juristas portugueses na RAEM.

Entretanto, ainda na terça-feira, dia 21 de Agosto, três deputados da Assembleia Legislativa – o veterano Ng Kuok Cheong, o recém-entrado Sulu Sou e o português José Pereira Coutinho – enviaram uma carta ao Presidente da AL, Ho Iat Seng, e à sua Mesa, pedindo esclarecimentos sobre a decisão de não renovação dos contratos daqueles juristas que viram assim abruptamente interrompida a sua carreira.

Quem não conhece a realidade local será tentado a perguntar qual a razão para tanto escarcéu.

Bom, o problema é que os juristas agora afastados são dois dos melhores que nas últimas décadas passaram pela RAEM, produzindo um trabalho de reconhecido valor em prol do Direito de Macau, das garantias jurídico-constitucionais de todos os seus residentes e da qualidade das suas leis, tendo o mérito do seu trabalho sido objecto de reconhecimento dentro e fora de portas. Em causa estão dois juristas portugueses de excepcional mérito, que inclusivamente deram aulas na Universidade de Macau, no Instituto Politécnico e no Centro de Formação de Magistrados. No caso de Paulo Cardinal com vasta produção científica e obra publicada, em português, inglês e chinês em matéria de Direitos Fundamentais. Ambos têm com o seu trabalho prestigiado o direito e a presença portuguesa em Macau. Muito discretos, em relação a nenhum deles há memória de terem qualquer actividade política ou filiação partidária, embora Cardinal, actualmente a finalizar o seu doutoramento na Universidade de Coimbra, onde tem sido acompanhado pelo Prof. Gomes Canotilho, tenha sido ao longo dos anos presença nalgumas conferências e seminários de natureza académica.

O caso causa maior perplexidade porque Ho Iat Seng, o presidente vitalício da Associação Industrial e desde 2000 membro da Comissão Permanente da Assembleia Popular Nacional, acompanhado pelo seu Vice-Presidente, irmão do Chefe do Executivo da RAEM, esclareceu que a não renovação dos contratos teria a ver com uma vaga ideia de reforma dos quadros de assessoria.

O estrondo foi imediato, vindo de onde veio e decidido por aqueles que de todos os deputados da AL são dos que têm menos legitimidade (nenhum deles veio do sufrágio directo). Até porque ninguém começa uma reforma sem um plano, sem uma ideia, dispensando os seus melhores quadros, os mais antigos, os mais competentes, os mais experientes, no auge das suas carreiras, com todas as suas faculdades ao rubro e num momento de grande preocupação política e jurídica, com importantes leis a serem discutidas e trabalhadas (Organização Judiciária, Segurança Interna, Concessões de Jogo, entre outras) quando falta cerca de um ano para a escolha de um novo Chefe do Executivo.

Depois, é crónica a falta de assessores e de juristas qualificados em Macau e na própria Assembleia Legislativa, sendo que são os deputados quem mais se tem queixado dessa ausência, não fazendo por isso qualquer sentido a dispensa de juristas da craveira técnica, intelectual e humana do dispensados, gente com uma carreira construída com base no conhecimento, no trabalho e na seriedade.

Enquanto se aguardam os eventuais esclarecimentos do Presidente AL, que desde Março, após uma deslocação a Pequim, se começou a assumir como potencial candidato a Chefe do Executivo no processo burocrático que se avizinha, certo é que no momento em que passa um ano sobre a tragédia do tufão Hato, que deixou um rasto de destruição e colocou a nu as múltiplas fragilidades e a atabalhoada e caricata gestão política e administrativa (basta ler os relatórios que vão aparecendo) de umas das regiões mais ricas do mundo, e onde as diferenças são também abissais e inexplicáveis (ainda há dias foram encerradas as praias devido à presença de cólera e as piscinas públicas por falta de nadadores-salvadores, em greve, que se queixaram de chegarem a trabalhar 18 horas por dia e sem direito a folgas desde Março, tudo em pleno mês de Agosto), a introdução de mais um foco de instabilidade por uma decisão perfeitamente desastrada do Presidente da AL, tanto política como de gestão administrativa, concorre para o agravamento do clima de apreensão e insegurança – não obstante o ridículo reforço dos mecanismos de controlo policial de tipo orwelliano – que com cada vez mais intensidade se manifesta em diversos sectores das comunidades.

Para já, tanto por parte da RPC como da parte de Portugal, com excepção das prudentes declarações do Cônsul-Geral de Portugal, Vítor Sereno, continua a imperar o silêncio.

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