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Acabou a bebedeira

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.11.20

Aos poucos, o circo das eleições presidenciais estadounidenses vai chegando ao fim.
Passada a fase do folclore, dos foguetes, do barbecue e da bebedeira, perdidas que foram mais de quarenta acções judiciais nos tribunais federais, num deplorável espectáculo de sombras em que se seguiu um guião escrito por um fantasma e com executantes medíocres, por cujo rosto escorria a tinta mais ordinária, chegou a hora da ressaca.
Torna-se evidentemente natural que a bebedeira não poderia ser eterna, pois todos sabemos que, também, nem o amor o é, sendo assim natural que assentada a poeira as coisas comecem a regressar à normalidade.
É verdade que nada voltará a ser como antes. Trump está politicamente morto, aguardando-se agora as exéquias. Obama não voltará; os Clinton e os Bush fazem parte dos livros de história. A página virou-se.
Neste momento, o palco pertence a Joe Biden. E por muita desconfiança que se pudesse ter relativamente às suas propostas, às suas capacidades físicas e intelectuais e à composição da equipa, o que ontem se viu justifica a mais fundada das esperanças.
Num discurso curto, claro e bem articulado, alinhavando as linhas de força da política interna e externa dos EUA para os próximos quatro anos, rodeado de gente devidamente qualificada, experiente e de uma honradez a toda a prova, Biden foi capaz de fazer em poucos minutos o que há mais de quatro anos não se via: apresentar um discurso de Estado sem floreados, mentiras, graçolas de mau gosto e ignorância.
No ouvido ficou-me a frase de que “America leads not only by the example of power, but by the power of the example”, o que não sendo tudo diz muito.
A partir de Janeiro veremos o que acontece, mas o simples facto de passar a haver um programa e uma agenda na Casa Branca, depois de quatro anos de bacanal político, delírio, insânia e balbúrdia melbrookiana são afinal uma pequena prova, se não da existência de Deus, pelo menos de que também a loucura não é eterna.

E este é um excelente sinal para o futuro. Para todos nós que ainda acreditamos nalguma coisa antes de nos levarem para a vida eterna.

Uma corrida de sonho

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.11.20

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Miguel Oliveira produces a masterclass performance to secure victory on home soil in the Portuguese MotoGP

Oliveira completed a stellar weekend with victory at his home GP, three-seconds ahead of a jubilant Miller - who consolidated the Manufacturer Championship for Ducati.

Para quien tuviera alguna duda el portugués Miguel Oliveira las despejó todas este domingo rubricando el Gran Premio de su vida en MotoGP en el regreso del GP de Portugal al circuito de Portimao y además con un siempre difícil Grand Chelem, pole, victoria, vuelta rápida en carrera y liderando todas las vueltas, su segundo triunfo del año y tercero de KTM en este increíble año para la fábrica de Mattighoffen que ha llegado para quedarse entre los grandes de la categoría reina.

Imaginer qu’arrive ce qu’il s’est passé ce dimanche dépasse l’entendement. Mais non, inutile de se frotter les yeux ou de se pincer: Miguel Oliveira a bien remporté la course. Et quelle victoire !

Il GP dei saluti si chiude nel segno di Miguel Oliveira, profeta in patria.

Miguel Oliveira dominated his home Grand Prix at Portimao to secure his second victory of the 2020 MotoGP season. Oliveira, who started from pole, led from start to finish and pulled the pin almost instantly. The Tech3 KTM rider posted fastest lap after fastest lap in the opening few laps and pulled away from the chasing pack.

Miguel Oliveira heeft de Grote Prijs van Portugal in de MotoGP gewonnen. De KTM-coureur had een dag eerder de poleposition veroverd op het circuit van Portimão en hield de leidende positie in de race vast. 

Miguel Oliveira dio una auténtica exhibición. Vuelta rápida tras vuelta rápida, el portugués disparaba su ventaja por encima de los cuatro segundos antes de llegar incluso al ecuador de la carrera.

Depois de fazer história ao conquistar a sua primeira vitória este ano na Estíria, o português conseguiu a primeira pole da sua carreira e logo no GP de Portugal, não vacilou e deu uma autêntica lição de como pilotar, para no final vencer com larga vantagem sobre o segundo classificado.

Miguel Oliveira n’ose y croire. Lui le pilote satellite KTM Tech3 que personne n’attendait sur le podium à l’aube d’une saison 2020 qui aura bouleversé tous les pronostics, le voilà désormais double vainqueur en MotoGP. Et si le Portugais avait profité de l’attaque de Jack Miller sur Pol Espargaro dans le dernier virage pour leur chiper in-extremis la victoire en Autriche, son récital du jour ne souffre d’aucune contestation possible. Immédiatement échappé en tête depuis la pole, le pilote de Guy Coulon aura été tout simplement intouchable du premier au dernier tour. Sur une autre planète, Oliviera a sans doute réalisé le rêve d’une vie en remportant un Grand Prix MotoGP à domicile.

Era il favorito, partiva dalla pole con una KTM super competitiva: l’unica incertezza era la tenuta alla pressione. Ma Miguel Oliveira non ha sbagliato, ha retto bene la pressione e dopo essere transitato in testa alla prima curva ha allungato passaggio dopo passaggio, fino a creare un vantaggio imbarazzante per gli avversari.

Punto y final a esta temporada de MotoGP. Puso la guinda sobre el pastel un Miguel Oliveira totalmente intratable en el Autódromo Internacional do Algarve. Lideró todas y cada una de las vueltas de la carrera, no dejó que absolutamente nadie le tomara ni un segundo la primera posición, se escapó y cruzó primer por meta bajo la bandera ajedrezada.

He was just the best rider, this weekend and today.

Fica assim feita a crónica da corrida de Portimão.

Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.11.20

Tenho dúvidas de que caia exactamente na categoria dos blogues, embora admita que sim. Ele próprio define-se como um "nonpartisan fact tank that informs the public about the issues, attitudes and trends shaping the world". Todavia, o modo como se processam as entradas, com diferentes autores e sobre diversas áreas temáticas, levam-me a que efectivamente o considere um blogue. Um pouco mais sofisticado, mas ainda assim um blogue. E uma das suas variantes (Decoded) apresenta-se de facto como um blogue.

Por tudo isso, mas em especial pelo manancial de informação que contém e vai disponibilizando sem qualquer custo, entendi ser oportuno aqui trazer o Pew Research Center, cuja actualidade, fiabilidade dos dados e rigor de análise fazem dele um local incontornável para melhor entender os dias de hoje. Dentro e fora dos Estados Unidos da América.

É este o meu blogue da semana. 

Uma mini-série que vale a pena

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.11.20

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Trata-se de uma série muito recente da plataforma Netflix, com apenas três episódios, cada um deles com cerca de 25 minutos. Os três episódios, com os títulos The Right to Vote, Can You Buy an Election e Whose Vote Counts, têm locução de Leonardo Dicaprio, Selena Gomez e John Legend, por eles desfilando académicos, políticos em geral, congressistas e senadores dos Republicanos e dos Democratas.

Cheia de informação actual e pertinente, divulgada, explicada e discutida em termos que a todos são acessíveis, foi uma das minhas últimas agradáveis surpresas.

Do sistema eleitoral ao gerrymandering, com exemplos tirados da realidade que ajudam à compreensão de algumas minudências, sem esquecer as questões relativas ao voto por correspondência, ao peso da história e da tradição constitucional e jurídica, é um verdadeiro e muito interessante curso para leigos, e não só, em questões políticas e eleitorais dos EUA.

Pela sua actualidade perante o que se está a passar nas terras do Tio Sam, não poderia deixar de aqui trazê-la e de a todos recomendar.

Definitivamente a não perder.

A propósito do Covid-19

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.11.20

naom_5ee37dec56f25.jpg(créditos: Global Imagens)

O que a Rádio Renascença publicou está aqui. Aqui reproduzo o que escrevi:

Chegou na antevéspera do Ano Novo Lunar. Nessa altura ficámos a saber da sua existência. Sabíamos que surgira em Wuhan, mas pouco tempo depois entraria nas conferências de imprensa e nos compêndios como o Covid-19. Desde então tem sido a guarda avançada desta prisão sem grades numa exígua região junto ao estuário do Rio das Pérolas.

Em Fevereiro ainda consegui ir a Portugal e regressar sem fazer quarentena. Isso já faz parte da história. Embora aqui não haja casos há largos meses, o número de infectados tenha sido só de 46 e não haja mortes a registar, a Região Administrativa Especial de Macau mantém-se encerrada à entrada de estrangeiros.

Muitos dos que aqui trabalhavam foram mandados de férias e já não regressaram. Nem mesmo com quarentena puderam recuperar os seus empregos. São estrangeiros, não entram. Em contrapartida, as fronteiras com a China e a entrada de pessoas vindas do seu interior têm-se normalizado. Fazem o teste de ácido nucleico, verificam-lhes a febre e entram. Depois saem livremente. Não fazem quarentena. Os estrangeiros não, mesmo que aqui estejam há 9 meses e não haja casos. Há famílias divididas entre os dois lados da fronteira. Como se o vírus só contaminasse estrangeiros e não-residentes.

Em Hong Kong, a situação foi sempre pior. Também aí deixámos de ir. As carreiras de barcos foram suspensas. Ficámos sem ligações directas ao aeroporto. O número de voos suspensos, cancelados e adiados é enorme. Desde Abril que passo horas com as companhias aéreas a acertar datas. Era para Abril, depois para Junho, a seguir para Setembro. Mudei tudo para Fevereiro, talvez tenha sorte. Logo se verá. E depois há os que, velhotes, em Portugal, desesperam por nos ver. Um deles não mais verei. Nem ao seu funeral fui. Muito me custou. E continuará a custar por tudo quanto lhe devo.

A contenção do vírus e as medidas de saúde pública foram atempadas, organizadas e profissionais. Ninguém se poderá queixar da acção do Governo, nem dos meios, a começar pelas máscaras logo disponibilizadas à população. Inicialmente só para residentes, discriminando-se os outros, os trabalhadores não-residentes, depois também estendidas a estes.

A discriminação em relação aos trabalhadores não-residentes e aos estrangeiros está na ordem do dia. E tem vindo a agravar-se, não apenas por causa do vírus. Para alguns, dir-se-ia que todos os males são culpa dos estrangeiros e dos trabalhadores não-residentes. Estes são os que estão na base da pirâmide social, têm os piores salários, e são os menos protegidos. Uma tristeza em terra rica.

Agora ninguém percebe porque continuamos fechados. Hong Kong negoceia corredores aéreos com outras regiões. Aqui a economia, dependente em cerca de 90% da actividade dos casinos, está moribunda. O jogo está às moscas. Inúmeros estabelecimentos, incluindo restaurantes, fecham diariamente. Até o Portofino e o Morten’s encerraram. As receitas afundaram. E tal como os voos comerciais caíram mais de 90%. Uma carta em EMS leva mais de um mês a chegar de Portugal. E se não fossem as extraordinárias reservas que o Governo tem ao seu dispor, a situação seria calamitosa.

Os fundos públicos têm servido para estimular o consumo mediante a entrega de montantes pecuniários. Todos os residentes receberam cartões de consumo. Tivemos duas fases. Uma de 3.000 patacas, outra de 5.000. Essas quantias podem ser usadas no comércio em geral estando limitadas a um máximo de 300/dia. Cerca de 30 euros. Também os trabalhadores do sector privado receberam 15.000,00 embora muitos não tivessem cortes nos salários e não se perceba porque receberam. Houve uma pequena ajuda às empresas em função do número de trabalhadores. A mim permitiu-me pagar mês e meio de renda. Uma gota de água. Não despedi ninguém, não baixei salários. Aguenta-se enquanto a situação o permitir. Não sei até quando, mas também ninguém sabe como estaremos daqui a quinze dias.

O que mais me custa neste momento é não saber quando isto dará a volta. Quando retomaremos a normalidade, quando voltaremos a voar, a tirar a máscara, a sair sabendo que poderemos voltar. E que o vírus, a coberto da defesa da segurança interna e do patriotismo, não continuará a servir em cada dia que passa de pretexto para se cercearem liberdades e direitos fundamentais garantidos pela Lei Básica. Antes que seja demasiado tarde.

Nice

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.10.20

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A motivação, o pretexto, se quiserem, é cada vez menos compreensível. E pela forma como se exprime, saindo violento das entranhas guturais das bestas, resume-se a uma frase banalizada. A grandeza Dele é ofuscada pela sua miséria moral.

O que aconteceu em Nice e regularmente se repete numa espiral incontrolável, muito mais em França, também na Bélgica e noutros locais outrora marcados pela aceitação do vizinho, de quipá ou com turbante, e pela outorga de um espaço de liberdade e responsabilidade a cada um, numa fraternidade serena e acolhedora mesmo quando as marcas da vida tornaram os dias mais longos e as noites difíceis e sofridas, tornou-se uma distante recordação.

Agora já não se trata de recebermos o outro com fraternidade e igualdade. O outro vai obrigar-nos a repensar a nossa relação, a deixar tudo o que se construiu para trás. Porque na violência insana nada se constrói, e nem mesmo o que foi erguido com o sacrifício de todos se mantém de pé.

Quando uma igreja, local de entrega, reflexão e paz se torna em local de emboscada para os indefesos, quando a loucura faz dela um talho onde o cutelo processa a degola dos sacrificados inocentes, e as bestas se comprazem vendo o sangue fresco escorrer pela pedra fria e silenciosa, não há diálogo possível.

Deixou de ser um problema de diálogo intercultural ou inter-religioso para se tornar num problema de sobrevivência. De todas as civilizações. Da humanidade.

Sim, porque se a violência, a barbárie, o terror, tudo isso a que estamos a assistir e cujo nome já não faz a diferença, é afinal, como escreveu Camus, "l'hommage que de haineux solitaires finissent par rendre à la fraternité des hommes", então não se poderá continuar a assistir à homenagem passivamente, deixando que a indiferença, o relativismo moral e ético e a banalização do mal, de que falava Hannah Arendt, façam apodrecer o que ainda resta de saudável para se voltar a construir.

É preciso matar o caruncho que se apoderou das estruturas e subiu pelas colunas dos templos. Há que domar a besta, trazê-la de novo ao caminho da razão. Sem vacilar.

A esperança é um pranto. A tolerância está de luto.

No sítio errado à hora errada

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.10.20

20190214-0601-01-580x400.jpg(foto daqui)

Primeiro a gente ouve. Depois volta-se atrás para ouvir melhor. A seguir fica-se a pensar no que se ouviu, duvidando-se que tenha sido mesmo assim.

Para que se saiba do que estou a falar,  refiro-me à entrevista que o Senhor Embaixador de Portugal na China deu ontem à TDM.

A Televisão de Macau e o jornalista João Pedro Marques cumpriram o seu papel. Já do Senhor Embaixador será difícil alguém, com um mínimo de conhecimento do terreno que se pisa, possa perceber o que disse e por que o disse num momento destes e depois do que foi afirmado pelo Senhor Presidente do Tribunal de Última Instância da RAEM na Sessão Solene de Abertura do Ano Judiciário.

Desconheço mesmo se alguém no Palácio das Necessidades já terá tido tempo e pachorra para lhe prestar atenção, mas convém que o façam. A diferença horária não serve de desculpa.

Esta não foi a primeira vez que o Senhor Embaixador veio a Macau. Como também não foi a primeira vez que vindo a Macau se mostrou desatento e mal informado. Mas pior do que isso é que o faça sem prestar muita atenção ao que diz, mesmo quando afirma desconhecer o que esteve em causa, e aos inquietantes sinais que transmite.

Haverá certamente quem até esteja de acordo com o que afirmou, designadamente quanto ao encerramento, sem que se conheçam publicamente as verdadeiras razões que estiveram na base da decisão, pois que ninguém tem coragem de dizê-lo, da exposição da World Press Photo.

E igualmente quanto ao que o Senhor Embaixador disse relativamente à "fluidez" com que deverão ser tratados os princípios e valores pelos quais nos guiamos, uma vez mais destratando e desconsiderando o estatuto autonómico de Macau, a Declaração Conjunta Luso-Chinesa, a Lei Básica de Macau e os interesses de Portugal e dos portugueses nesta parcela da Ásia. 

À ponderação, reserva e lucidez dos seus antecessores sobrepôs o Senhor Embaixador o seu discurso pujante, assertivo e impregnado, digo eu, de pragmatismo comercial, numa demonstração de qualidades que faria as delícias do director do departamento comercial de uma cadeia de supermercados.

O cliente tem sempre razão. Parece ser este o lema do Senhor Embaixador de cada vez que lhe colocam o microfone à frente. Pois, sim, há para aí uns princípios e valores mas eu não sei se são mesmo assim nem se vale a pena perder tempo com eles. De qualquer modo, a minha posição é esta. E aqui vai disto. É meia-bola e força.

Estou certo que haverá muita gente, e não apenas na Terra Nova, que compreenderá as declarações do Senhor Embaixador. Eu próprio as compreendo. Todavia, pareceram-me despropositadas e excessivas, colocando em causa, como nunca até aqui, a posição dos interesses portugueses na China e, em especial, os interesses e legítimos direitos e expectativas dos residentes de Macau. 

A especial posição e estatuto da Região Administrativa Especial de Macau deviam ser suficientes para que o Senhor Embaixador tivesse percebido, antes mesmo de cá chegar, que Macau não é Qingdao, embora aos seus ouvidos possa soar ao mesmo. E que a sua função não é apenas de comprar ventiladores e máscaras quando é necessário. Ele não é o presidente de uma câmara de comércio. Se o objectivo de Portugal fosse apenas o de vender azeites e vinhos, então seria melhor mandar para cá especialistas nessas matérias, com adequado conhecimento do mercado e sem preocupações de maior em matéria de princípios e valores.

Uma posição dessas tornaria mais compreensíveis e aceitáveis as declarações do Senhor Embaixador, sairia mais económico ao erário público e não deixaria ficar mal nem o Palácio das Necessidades nem todos os portugueses que esperavam do Senhor Embaixador de Portugal outra posição que não a de "ponta-de-lança" dos interesses políticos e económicos do Estado que o acolhe.

É difícil defender bem os interesses de Portugal na China quando quem está de fora, como é o meu caso, lamento dizê-lo, só consegue ver o Senhor Embaixador de costas, de "cócoras" ou sem controlo do linguajar, tagarelando sem sentido de cada vez que vem a Macau.

Sensibilidade política e diplomática nalguns momentos difíceis seria o mínimo a exigir-lhe, ainda que isso possa não ser suficiente para lhe ser atribuído o Prémio Vista Alegre/Atlantis.

E quanto ao mais, como boa pessoa e cidadão, desejo apenas que durma descansado, tenha saúde e seja feliz. Se conseguir sê-lo assim melhor.

Para memória futura

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.10.20

"Entre a multidão, estavam a deputada Susana Chou e o então presidente da Associação Geral dos Operários, Lau Cheok Va. O Comité Unitário de Macau estava “consciente que a estabilidade e a democracia são essenciais para o futuro de Macau.

Homenagem aos mártires” foi o título do editorial do Ou Mun após o massacre. “O dia 4 de Junho é o dia mais negro e desumano dos cerca de 40 anos após a implantação da República Popular. Esse dia negro, a história virá a contá-lo para sempre”. O diário, que ainda não estava convencido que linha dura do PCC tinha vencido a ala liberal, escrevia também que “não haverá nada pior que essa trucidação de irmãos de sangue” e que “sem democracia não haverá socialismo”.

 

 

Eu sei que não é politicamente correcto dizê-lo; muito menos recordá-lo.

Mas a notícia de hoje, do South China Morning Post, de que há cidadãos de Hong Kong detidos porque ajudaram gente do movimento pró-democracia que queria escapar à prisão, merece muitos comentários. Por todas as razões e mais algumas, e até porque Hong Kong, com todos os seus defeitos e virtudes, foi sempre uma cidade acolhedora, justa e saudável.

De qualquer modo, não obstante já ter sido privado de muita coisa, até mesmo de jantar razoavelmente com os meus amigos, às sextas-feiras, num Clube que muito prezo, gostaria apenas de recordar, já que da memória não me privam, que se a Lei de Segurança Nacional que está em vigor em Hong Kong existisse no pós-4 de Junho de 1989 muitos legisladores de Macau, incluindo uma conhecida e milionária patriota, teriam sido presos se o 4 de Junho de 1989 tivesse sido neste ano de 2020. Como hoje foram detidos cidadãos de Hong Kong apenas por terem dado guarida, eventualmente ajudado, alguns jovens que queriam fugir para Taiwan, território chinês, para continuarem a defender a Lei Básica de Hong Kong. 

Convinha que os estafermos (estou a ser brando) que hoje vivem em Macau, alguns com passaporte português como um dos fugitivos, e que aplaudem e/ou se calam perante a vergonhosa perseguição que é feita — e que nunca cá estariam se aquela gente de 4 de Junho de 1989 não tivesse escapado para hoje andarem por aí a receberem subsídios, tirarem fotografias, fazerem exposições e editarem livros nos editores e fundações do regime —, se lembrem disso.

Dos vermes nunca a História se lembrará.

Nem dos idiotas.

E ainda menos dos inúteis que mudaram de passaporte por mera conveniência. Serão os primeiros a cair do trapézio devido ao peso dos bolsos. E a enterrarem-se sem motorista no lodo protegido da "protecção ambiental".

Um problema de medo interno

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.10.20

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Caiu que nem uma bomba o cancelamento inusitado da exposição World Press Photo que fora inaugurada em 24 de Setembro pp. e estava projectada prolongar-se até 18 de Outubro, na Casa Garden, em Macau.

Organizada e promovida pela Casa de Portugal desde há vários anos, contando com patrocínios oficiais e privados, a exposição constituía um dos mais importantes eventos culturais da RAEM. Ainda este ano o Cônsul-Geral de Portugal se associara ao evento comparecendo na cerimónia de abertura, como ainda se pode verificar pelas fotos publicadas na página oficial da Casa de Portugal no Facebook.

A Presidente da Casa de Portugal, Amélia António, limitou-se laconicamente a dizer que o encerramento sem aviso prévio, apenas uma semana após a sua abertura ao público, se ficou a dever a um "problema de gestão interna", sendo certo que ninguém percebeu que problema foi esse que nunca se verificou em anos anteriores e cuja gravidade será tão grande que até impediu o anúncio do seu encerramento antecipado.

Recorde-se que a Casa Garden é propriedade da Fundação Oriente e é regularmente palco de exposições de fotografia e pintura não havendo memória de qualquer "problema de gestão interna", na Casa de Portugal ou na Fundação Oriente, que antecipasse o encerramento de qualquer exposição.

A Casa de Portugal já avisara anteriormente que em 2021 a exposição não se realizaria devido ao corte de subsídios, mas ninguém esperava que desta vez as coisas se precipitassem. 

Na imprensa local foi avançado que o final abrupto do evento se ficou a dever à exibição de fotografias destacadas de manifestações em Hong Kong que haviam sido premiadas em diversas categorias do concurso anual da World Press Photo.

O Presidente da Fundação Macau, ouvido pelo jornal Ponto Final, referiu não ter havido qualquer pressão sobre a organização da exposição, muito embora se saiba de quem se queixe das muitas pressões – como aconteceu o ano passado com o Festival Rota das Letras – que têm vindo a ser exercidas de uma forma mais ou menos velada sobre tudo o que possa desgostar os inúmeros comissários e censores locais das mais diversas etnias e profissões, portugueses e chineses, que se colocam ao serviço dos interesses de Pequim e dos maiorais locais para continuarem a garantir o seu pacote de amendoins, e para quem todos os que não apreciam a sua subserviência ao Partido Comunista Chinês e defendem uma reforma das instituições estão ao serviço de interesses externos e a soldo de terceiros. Ou seja, o discurso habitual dos serviçais dos regimes autoritários e de partido único, sejam de direita ou de esquerda, que se esquecem que as pessoas normais pensam pela sua cabeça e não engolem tudo o que lhes é servido.

Fosse por um "problema de gestão interna", de medo por receio de perderem mais alguns subsídios, ou um outro qualquer sobre o qual ninguém fala, uma coisa é certa: a Casa de Portugal ficou muito mal na fotografia.

Le ciel de Paris ne sera plus jamais le même

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.09.20

"Non Monsieur, je n'ai pas vingt ans
Vingt ans, c'est l'âge dur
Ce n'est pas le meilleur des temps
Je sais, je l'ai vécu
J'ai dansé sur quelques volcans
Troué quelques souliers
Avec mes rêves et mes tourments
J'ai fait mes oreillers
Et je dis encore aujourd'hui :
Je suis comme je suis

Non Monsieur, je n'ai pas vingt ans
Vingt ans, c'est tout petit
Moi, je n'ai jamais eu le temps
D'avoir peur de la nuit
Ma maison est un soleil noir
Au centre de ma tête
J'y fais l'amour avec l'espoir
Et l'âme des poètes
Les poètes sont des enfants
Des enfants importants

Oui, je me souviens des jours
Quand les jours s'en allaient
Comme un rêve à l'envers
Oui, je me souviens des nuits
Quand les oiseaux parlaient
Sous la plume à Prévert

Moi, Monsieur, quand j'avais vingt ans
J'étais déjà perdue
Perdue, la rage entre les dents
Superbement perdue !
Moi, je dansais avec des morts
Plus vifs que les vivants
Et nous inventions l'âge d'or
Au seuil des matins blancs
J'ai toujours, chevillé au corps
Le même soleil levant

Non, Monsieur, je n'ai pas vingt ans!"

(paroles de Henri Gougaud, musique de Gérard Jouannest)

Portugueses que nos honram

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.09.20

Double-portugais-au-Mans-Filipe-Albuquerque-premie

"Double portugais au Mans. Filipe Albuquerque premier et António Félix da Costa deuxième en LMP2"", titulava a notícia desta manhã. E não é caso para menos. O resultado fala por si num ano que está a ter tanto de estranho quanto de fantástico para o automobilismo e o motociclismo nacionais. A classe dos pilotos portugueses continua a brilhar mundo fora. Enquanto Miguel Oliveira ganhava lugares na Riviera de Rimini, depois de duas quedas nos treinos, partindo de 15.º para alcançar um notável quinto lugar e ser actualmente o primeiro dos pilotos da KTM no MotoGP, outros dois portugueses mostravam toda a sua classe nas 24 Horas de Le Mans na super competitiva classe de LMP2.

Para quem ainda tivesse dúvidas, caíram todas pouco depois da vigésima quarta hora no circuito de La Sarthe com a vitória de Filipe Albuquerque nas 24 Horas de Le Mans, no seguimento da pole position que fez para a corrida.

Com o António Félix da Costa, já campeão do mundo de Fórmula E, em segundo lugar na prova francesa deste fim-de-semana, Portugal passará a ter dentro de alguns dias dois campeões do mundo. Ao Filipe bastar-lhe-á alinhar à partida da última prova, no Barém (Bahrein), para inscrever o título de campeão do mundo de resistência no seu palmarés.

Para todos todos eles, mais do que um abraço de parabéns, segue daqui o meu obrigado pela classe que vão exibindo dentro e fora das pistas, e pela forma como, com o seu profissionalismo, honram o nome de Portugal.

Quem nos dera que fôssemos todos como estes.

5f662afa77a6c.jpg(créditos: Arhur Chopin, ACO)

Pensamento da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.09.20

Cada um tirará as suas conclusões acerca da presença do primeiro ministro na comissão de honra de Luís Filipe Vieira, mas aproveitamos a oportunidade para assegurar que esta candidatura será sempre pela separação escrupulosa entre a política e o futebol", diz um dos candidatos à presidência do Sport Lisboa e Benfica.

O primeiro-ministro já está a levar no toutiço, como aliás seria de esperar. E é bem dado.

Já não vou pelo caminho do Novo Banco, que estamos todos a pagar, pelos processos judiciais, que até hoje deram zero, ou pela clubite, que de uma forma ou de outra, até no desprezo, a todos nos afecta.

Nem sequer me agarro à mais do que indecorosa "recontratação" do treinador Jorge Jesus, por valores absolutamente incompatíveis com a qualidade de vida da maioria dos portugueses, com a carga fiscal que suportam à conta da mais do que enraizada má escolha de governantes e dirigentes e da incapacidade das lideranças políticas, e com o prestígio e a história da instituição.

Mas ainda que assim não fosse, pergunto se é razoável um primeiro-ministro andar metido em comissões de candidatura de "gajos da bola". Sim, de "gajos da bola".

Bastava ouvir o Seara a fazer a sua defesa para se ficar com uma ideia da argolada. 

Não chegava já lá estar o Medina, que até é presidente da Câmara. Como não era suficiente um apoio discreto, distante, não comprometido, que não afectasse o desempenho da função, a liderança do partido e não suscitasse mais anti-corpos do que aqueles que neste momento geram as suas aparições.

Era ainda preciso vestir uns calções e atirar-se de cabeça para a pilha dos pneus para o desconchavo ser absoluto.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante esta semana

Escorraçados

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.09.20

Desconheço se o comunicado de ontem de Luís Filipe Vieira, pelo qual anunciou que tinha riscado da lista da sua "Comissão de Honra" todos os apoios de titulares de cargos públicos, foi previamente combinado com os visados, ou com algum destes, ou se foram todos apanhados desprevenidos pela decisão e as palavras do presidente do Sport Lisboa e Benfica.

O desconsolo do candidato com o que se está a passar é compreensível. Foi mau para ele e foi mau para o clube qualquer que fosse a justificação. Mas esta é outra questão, que não foi a que gerou a polémica e a indignação de muitos. Com razão, diga-se de passagem.

O que o episódio do comunicado destaca é o crédito e a forma como hoje são olhados e tratados políticos e titulares de cargos públicos. E de quem é a culpa? Dos energúmenos das claques? Dos clubes? Dos presidentes destes? Da comunicação social?

É claro que de nenhum destes. Também não são eles quem marca almoços no parlamento para celebrar as conquistas desportivas dos seus clubes com os senhores deputados. 

E saber se houve um telefonema antes, se foi o primeiro-ministro que pediu para ser retirado da lista, ou se foi uma decisão pessoal do candidato, é de todo irrelevante para o que interessa.

Ter entrado já tinha sido mau.

Se pediu para sair sem ter tido a iniciativa de sair pelo próprio pé, e depois de ter defendido a justeza do seu direito, isso seria ainda pior.

Se não pediu para sair e o candidato é que resolveu correr com ele e com os outros da sua "Comissão de Honra" dá ainda uma pior imagem, porque se fica com a sensação de que queriam e não se importavam de ficar e agora acabaram escorraçados saindo pela porta dos fundos.

Discutir um qualquer código de conduta dos membros do governo, que ainda por cima refere expressamente ser apenas "um compromisso de orientação" assumido no exercício das suas funções pelo membros do Governo e dos respectivos gabinetes, ou instrumento semelhante, também não ajuda à resolução do problema.

O simples facto de existir uma coisa dessas, oficial, já demonstra o nível a que se desceu e a estirpe de quem necessita de ter um guia para se comportar à altura dos cargos que ocupa numa república.

Alguns não se importarão com as figuras que fazem. Muitos não irão lá nem com mil códigos. Estão habituados ao estilo, ao convívio com "os gajos da bola", e com outros muito piores. E por isso também conseguiram chegar onde chegaram. Até falsificando habilitações e qualificações.

Não será esse o caso do primeiro-ministro, o que torna ainda mais incompreensível a sua atitude de se prestar a integrar a tal "Comissão de Honra" e, depois de verificada a argolada, ainda insistir na sua posição. Será que não tem nenhum spin doctor decente com quem falar? Alguém civilizado, com bom senso e sentido crítico que possa dar-lhe uma ajuda? Só tem carreiristas, seguidistas, "tralha do partido" e yes men(*) para o aconselharem?

Aqui há uns anos houve um artigo (76.º, n.º 1) que foi eliminado do Estatuto da Ordem dos Advogados por uns negociantes que acharam que não valia a pena dizer que um advogado devia "no exercício da profissão e fora dela, (...), mostrar-se digno da honra e das responsabilidades que lhe são inerentes". Ainda estou para perceber o que conseguiram com a sua eliminação.

O que aconteceu agora foi, com as devidas distâncias, uma reedição disto na nossa vida pública. Uma coisa é o que faço enquanto primeiro-ministro e líder do partido, outra coisa é o que faço na minha vida privada.

Não creio, como neste caso, que seja fácil fazer a separação dos planos, em especial quando são tantos e tão recorrentes os maus e os péssimos exemplos, muitos deles vindos de um passado não tão distante quanto isso e que tão, e bem, criticados foram.

Parece-me evidente, pese embora o exagero, que um tipo que se comporta normalmente como um trafulha, que faz da vigarice um modo de vida, jamais deixará de o ser se um dia lhe acontecer exercer um cargo público. Em especial se tiver uma oportunidade de dar o golpe saindo impune. Porque não há separação possível entre o que fazia, e certamente continuará a fazer, na sua vida privada e o exercício da função.

Poderei estar errado, e admito que sim, pois muitas vezes também erro nas minhas escolhas e nos meus juízos. Todavia, nem por isso deixo de assumir a responsabilidade pelas minhas acções. E se erro procuro corrigir, e não reincidir.

É que no extremo a separação entre vidas e papéis pode levar a que um tipo faça figuras tristes no exercício de cargos públicos.

E aí o problema não será apenas dele.

Não vale a pena dar exemplos. Todos os conhecemos.

_______________________

(*) "Men without balls who will answer yes to any query from their boss/superior regardless of the question's intelligence, bearing, or appropriateness. It is usually intended to farther the yes man's carreer by getting and staying on the boss's good side, but may have the opposite effect. Yes men often ruin the productivity or usefulness in the department they work in, as they are unwilling to provide any form of original idea, opinion or more importantly criticism to their boss and thus contribute to disconnect between managers and workers."

(Editado para substituição de "conferência de imprensa" por "comunicado" porque o anúncio foi feito pela segunda via) 

Se eles o dizem...

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.08.20

fotos-gp-styria-motogp-2020857524_7_1200x690.jpeg(créditos: Motociclismo)

"No fue solo una victoria merecida, fue más que eso. Fue el triunfo de la humildad, del trabajo, de la dedicación de un tipo que procede de un país sin tradición en las dos ruedas, que carga sobre sí mismo el peso de una bandera y que ha pasado por momentos realmente duros en su trayectoria." (Nacho González - SWINXY, in Miguel Oliveira y la justicia poética)

Um português imperial

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.08.20

1227927773-kSGI-U3801041129623cWC-528x329@Gazzetta(Foto Gazzetta Motori)

A consagração de António Félix da Costa como campeão mundial de Fórmula-E, brilhantemente alcançada na pista do antigo Aeroporto de Tempelhof, em Berlim, é o culminar de uma carreira construída a pulso, feita de muito esforço, muito trabalho e muita resiliência.

Sem nunca ter tido os apoios milionários que a maioria dos seus adversários usufruiu, com a instabilidade na carreira associada à falta de músculo financeiro que lhe permitiria ter outro impulso e aspirar chegar um dia à Fórmula 1, o jovem piloto de Cascais é hoje notícia nas televisões e jornais por esse mundo fora (Eurosport, BBC Sport, L’Équipe, AutoSprint, Mundo Deportivo, La Tercera, Redgol, The Sun, The Independent).

Depois de um início de carreira no karting e de ter vencido por duas vezes, em 2012 e 2016, o Grande Prémio de Macau, corrida onde só os melhores entre os melhores conseguem impor-se, conquistando a Taça do Mundo FIA de F3, e mostrando a quem tivesse dúvidas todo o seu talento e classe, aos 28 anos conquistou, finalmente, um título mundial de pista entrando para uma restrita galeria de pilotos.

E isso é tanto mais brilhante quanto foi conseguido de forma imperial e com uma condução irrepreensível a duas provas do final do campeonato. Apesar da paragem devido à Covid-19, tendo vencido no início do ano na prova de Marraquexe, Félix da Costa repetiu a vitória por mais duas vezes em Berlim, a que juntou um quarto lugar e, ontem, uma subida ao segundo lugar do pódio, colocando um ponto final na discussão do título deste ano.

Num país que vive de e para o futebol, e para as suas miseráveis discussões e negociatas de milhões, como se tudo o mais em matéria de desporto não existisse, em especial em modalidades onde temos conquistado o reconhecimento internacional e títulos olímpicos, europeus e mundiais (atletismo, judo e remo, por exemplo), sem que esses resultados obtenham a projecção merecida nos jornais, rádios e televisões, é reconfortante ver, e também sinal de esperança, António Félix da Costa cumprir o que prometeu e trazer para Portugal um título máximo da sua modalidade.

O que, aliás, acontece, convém referi-lo, no mesmo fim-de-semana em que Miguel Oliveira obteve a sua melhor classificação de sempre numa prova da categoria rainha do Mundial de Motociclismo, alcançado o sexto lugar no Grande Prémio da República Checa, e um outro piloto português, Filipe Albuquerque, tendo conquistado a pole position para a corrida, venceu de forma categórica as 4 horas de SPA-Francorchamps, segunda vitória consecutiva este ano numa prova a contar para o campeonato European Le Mans Series

Não será por falta de bons resultados e de exemplos vindos dos mais jovens, em modalidades tão competitivas a nível internacional, que os portugueses deixarão de ter o estímulo necessário para serem cada vez melhores e procurarem obter iguais resultados noutros planos da sua vida colectiva. Da política à economia, da educação à produtividade no trabalho. Basta serem capazes de a si próprios imporem alguma ética, disciplina, rigor e seriedade no que fazem. A superação e o reconhecimento virão por acréscimo.

Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.08.20

Tenho dúvidas que corresponda ao estereótipo dos blogues a que estamos habituados. De qualquer modo, o que hoje escolhi é classificado como blogue e tem uma média de cinco publicações por dia, apresentando características muito específicas. Pareceu-me oportuno referi-lo e aqui trazê-lo numa altura em que a situação em Hong Kong é cada vez mais incerta. A covid-19 tem servido para justificar muita coisa, mais do que aquelas que a própria doença consegue explicar, e a última que descobriram foi o adiamento das eleições legislativas que estavam agendadas para 6 de Setembro. Tal como no tempo da outra senhora, em Portugal, era necessário ler o que as fontes não alinhadas com o regime escreviam para se poder comparar com o que era debitado pelos megafones oficiais e oficiosos, e assim se ter uma aproximação à verdade, o mesmo continua a acontecer hoje nas sociedades dominadas por regimes autoritários e totalitários. E dado que a informação nunca fez mal a ninguém, o Hong Kong Free Press (HKFP) é a minha escolha desta semana. Para ir acompanhando nos próximos tempos.

Uma decisão pouco cristã

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.07.20

Sobre o que aconteceu com o académico Éric Sautedé deu-se oportunamente conta, há mais de seis anos, em O regresso da idade das trevas, O regresso da idade das trevas (2) e O regresso da idade das trevas (3).

Ontem, Peter Stilwell prestou declarações no âmbito do processo judicial ainda em curso na primeira instância (não é só em Portugal que a justiça é lenta e tardia).

Entre outras coisas revelou que "o despedimento do académico Éric Sautedé da Universidade de São José (USJ) foi sem justa causa", que "não houve nenhum processo disciplinar", "nem [há] qualquer dúvida sobre o bom comportamento de Éric Sautedé enquanto professor".

Não vou comentar as suas declarações, nalguns pontos bastante discutíveis, mas registo o seu acto de contrição e a honestidade do depoimento, que só confirmou o que todos sabiam e não houve na altura coragem de dizer. 

Qualquer que venha a ser a decisão final, uma coisa é certa: a vergonha e o sofrimento infligidos ao visado e à família, com filhos menores e obrigados a mudarem de vida e de local de residência, jamais terá reparação.

E tudo isso, o despedimento e o que se lhe seguiu ao longo destes anos, independentemente da ilegalidade e de outras considerações que se possam tecer sobre a liberdade académica e a liberdade de expressão, ou o injustificável, foi muito pouco cristão, o que não se pode deixar de lamentar, mais a mais vindo de quem veio.

O tempo apaga muita coisa, é verdade, mas não apaga a dor, nem o erro.

Perversidade

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.07.20

3581-2020-07-22.jpg(Macau Daily Times)

Se há coisa que o chamado processo do IPIM, onde estão a ser julgados antigos dirigentes desse organismo, tem revelado é a perversidade da actuação de alguns responsáveis e funcionários por ignorância, má-fé ou incompreensão dos mecanismos procedimentais, dos seus deveres e do alcance das exigências legais.

Quem tem acompanhado as peripécias do julgamento, em boa hora abundantemente relatadas pela comunicação social, não pode deixar de se interrogar sobre a formação que foi dada a alguns dirigentes antes de se alcandorarem às posições que exerceram ou ainda ocupam.

Considerar que os critérios da Administração Pública não podem ser conhecidos, por secretos ou confidenciais, e que os cidadãos não devem ser esclarecidos sobre o que devem fazer e como fazer para preencherem as condições que devem ser cumpridas para obterem aprovação nos  processos administrativos em que são interessados, porque tudo é "secreto" e "confidencial", é revelador de uma formação muito deficiente, de uma mentalidade policial, ignorante, arcaica, irresponsável e desrespeitadora da lei.

Mas se, para além disso, houver quem, além de considerar tudo isso como normal, ainda admita que existem regras, ao arrepio da lei, não escritas e de natureza confidencial e secreta, a regularem vulgares procedimentos administrativos, remetendo para o domínio da arbitrariedade pura aquilo que de todos deverá ser conhecido, então já se está no domínio da perversidade.

A aplicação da lei e as regras da sua interpretação e aplicação na Região Administrativa Especial de Macau são em cada dia que passa cada vez mais esotéricas, não obstante não haver ninguém com poder de decisão que não esteja sempre a invocá-la, tal e qual como algumas beatas que estão constantemente a invocar os nomes do Senhor e dos Santos para tudo e mais alguma coisa.

E o que é mais triste, e revoltante, é que tal acontece não apenas ao nível da actuação da própria Administração Pública. Essa contaminação é agora vulgar, como tem sido denunciado e é visível pela simples leitura dos jornais, em muitos casos da actuação das polícias, do Ministério Público e, pior do que isso, da forma como alguns julgamentos são conduzidos e as decisões fundamentadas.

Se virmos bem, o entendimento que a testemunha Irene Lau tem das regras que regem a actuação de um ente público e das suas chefias vai ao encontro das teses de um proeminente académico da Universidade de Pequim, Jiang Shigong, quando considera que o constitucionalismo chinês só pode ser entendido numa perspectiva de uma constituição não-escrita, que esta é que corresponde à verdadeira Constituição, pois que inclui as doutrinas e comentários do Partido e dos líderes do Estado, bem como os relatórios e decisões do Comité Central sobre as questões constitucionais (Jiang Shigong, 2010, in Modern China, 36/1, 12-46). Ou seja, o que não vem na Constituição, o que não vem na lei também serve conforme as circunstâncias.

Aqui em Macau a lei relevante também começa a ser a lei não-escrita. Isto é, a que resulta da interpretação, da apropriação e do uso que dela seja feita pelos responsáveis políticos, administrativos e policiais.  

Primeiro passámos do legal para o domínio do surreal. Neste momento torna-se evidente, até pelo depoimento prestado em juízo pela madame Lau, que se confirma o que há muito se suspeitava, ou seja, que já vivemos no campo do arbítrio (louvado) sob uma capa de legalidade.

A aproximação ao primeiro sistema está praticamente concretizada. Quando todo o sistema judicial, o legislativo e a Administração Pública estiverem ao serviço de quem exerce o poder, a segurança nacional estará totalmente garantida. O resto não conta.

É esta a perspectiva. E a última prova que faltava de que a formação de quadros locais por parte da Administração portuguesa no período de transição foi um rotundo fracasso.

Formatar autómatos, mesmo com viagens pelo meio a Portugal, não é o mesmo que formar bons dirigentes e bons quadros técnicos, incutindo-lhes uma mentalidade e uma ética de serviço público e de verdadeiro respeito pela lei.

E isto também se aplica, cada vez mais, pelo que se tem visto, à formação de advogados, polícias e magistrados.

Diferenças

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.07.20

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Para quem, a propósito do COVID-19, ainda não percebeu a diferença entre distanciamento social e distanciamento físico, sendo este aquele que, efectivamente, a DGS e a ministra da Saúde querem, aqui está ela em romeno e com imagens esclarecedoras.

Pode ser que assim se perceba melhor o disparate do dito "distanciamento social".

Está na hora de regulamentar a miséria moral

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.07.20

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Esta manhã, ao fazer a revista da imprensa diária, a minha atenção recaiu sobre uma notícia do DN cujo título referia a existência de estudantes que estavam dispostos a pagar a professores para lhes fazerem os exames.

Na leitura do seu desenvolvimento ficámos a saber que vários centros de explicações e professores receberam propostas de alunos que os procuravam no sentido de mediante uma contrapartida pecuniária se disponibilizarem a fazer os ditos exames.

Sabemos todos que a nossa vida pública está pejada de chicos-espertos, aldrabões e vigaristas, e que muitos dos exemplos que nos vão chegando de cima e de classes profissionais que deveriam ser modelos de correcção e de comportamentos éticos e morais irrepreensíveis têm-se revelado pouco edificantes e viveiros de bandidos e de gente pouco recomendável.

Nada de mais natural, portanto, num país onde nos últimos anos lemos e ouvimos os relatos de políticos, alguns ministros e outros deputados, que falsificaram as habilitações e os seus curricula, fazendo exames aos domingos e por fax, alardeando qualificações e méritos que não possuíam, se ouvem relatos de magistrados que pagavam a terceiros para elaborarem as suas sentenças, de outros que recebiam para interferir nas decisões dos colegas, de alguns que jubilando-se se predispunham depois a receberem meia-dúzia de patacos para o que se tornavam assalariados e prestadores de serviços a soldo de terceiros, de empresários caloteiros, de gente com lugar cativo em revistas e programas do social-parolismo metida em sarilhos, enfim, de quem fosse fazendo pela vida sem olhar a meios.

E cabular e copiar nas provas e exames académicos deve ser algo tão velho que certamente se perderá nos confins da história. Num momento ou noutro, voluntária ou involuntariamente, nem que fosse num olhar de relance, nos nossos tempos de estudante olhámos para o vizinho do lado ou tivemos a tentação de fazê-lo.       

Entretanto, chegou o COVID-19, que nos obrigou a todos, e em todo o mundo, a mudar o nosso quotidiano, a alterar hábitos e comportamentos. Da vida familiar e social à profissional foram muitas as mudanças e os constrangimentos que nos foram impostos nas mais diversas latitudes. Entre estes também estava a necessidade de se trabalhar a partir de casa e das escolas encerrarem, prosseguindo o ano lectivo de uma forma atípica, com aulas à distância e com as populações escolares confinadas.

A notícia do DN alerta-nos para uma outra dimensão que a infelicidade que nos tocou trouxe à luz.

Refiro-me à predisposição para a institucionalização da fraude e da corrupção que guiarão as futuras gerações pela vida fora, começando logo durante o seu percurso formativo e sem qualquer vergonha. Já não se trata mais de um pequeno ou grande copianço sem consequências de maior para safar uma preparação menos conseguida para um determinado exame.

Agora estamos num patamar superior. Estamos mais qualificados e com menos vergonha. Telefona-se, vai-se à procura do mercenário disponível. Trata-se de comprar os professores, pagar o resultado dos exames, financiar quem pode ajudar a emitir o passaporte para uma futura vida profissional. Investir numa fraude que permita ir subindo degraus sem esforço.

Quando uma sociedade chega a este nível de especialização, o mais certo é que depois tudo o mais se poderá ir comprando: o acesso a uma bolsa, o canudo, a carreira, as promoções, o prestígio, a respeitabilidade, o marido ou a mulher, o chefe, o juiz, o procurador, o vizinho, o padre, o partido, o lugar de deputado, o ministério, e por aí fora. 

O investimento nos exames exigirá um esforço acrescido dos encarregados de educação, financiamento ou empréstimo, visto que na maior parte dos casos serão apenas estudantes a tempo inteiro, mas com o espírito empreendedor revelado e a astúcia demonstrada os resultados a curto e médio prazo estarão garantidos. 

Estamos perante uma verdadeira revolução. Estudar para quê? É melhor contratar alguém que estude por nós, que se prepare para o exame e a quem se possa pagar para o fazer. É só necessário encontrar o parceiro adequado. 

A minha única dúvida é se com tudo isto o governo não deveria começar a pensar em enquadrar essa situação. Talvez começando por tabelar o custo dos exames, impondo preços mínimos e máximos, acautelando os conflitos de interesses, as situações de concorrência desleal e a criação de oligopólios. A isenção do IVA, ou a sua aplicação a uma taxa reduzida, também deverá ser equacionada. Bem como a possibilidade de dedução desse custo em sede de IRS. E depois importaria criar uma aplicação que fosse tecnologicamente avançada, e exportável, uma espécie de plataforma, que se instalasse nos smartphones e permitisse gerir uma bolsa de contactos para dinamizar o mercado dos exames.

Fraude? Corrupção? Ignorância? Sim, isso, tudo bem. Temos de nos modernizar, de nos adaptar aos novos tempos. Claro, tudo isso, mas devidamente regulamentado e com os formulários bem preenchidos. Não pode haver abébias para ninguém.

Eis a solução para os nossos problemas e a oportunidade para ocuparmos o primeiro lugar dos rankings. O da miséria moral incluído.


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