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Escorraçados

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.09.20

Desconheço se o comunicado de ontem de Luís Filipe Vieira, pelo qual anunciou que tinha riscado da lista da sua "Comissão de Honra" todos os apoios de titulares de cargos públicos, foi previamente combinado com os visados, ou com algum destes, ou se foram todos apanhados desprevenidos pela decisão e as palavras do presidente do Sport Lisboa e Benfica.

O desconsolo do candidato com o que se está a passar é compreensível. Foi mau para ele e foi mau para o clube qualquer que fosse a justificação. Mas esta é outra questão, que não foi a que gerou a polémica e a indignação de muitos. Com razão, diga-se de passagem.

O que o episódio do comunicado destaca é o crédito e a forma como hoje são olhados e tratados políticos e titulares de cargos públicos. E de quem é a culpa? Dos energúmenos das claques? Dos clubes? Dos presidentes destes? Da comunicação social?

É claro que de nenhum destes. Também não são eles quem marca almoços no parlamento para celebrar as conquistas desportivas dos seus clubes com os senhores deputados. 

E saber se houve um telefonema antes, se foi o primeiro-ministro que pediu para ser retirado da lista, ou se foi uma decisão pessoal do candidato, é de todo irrelevante para o que interessa.

Ter entrado já tinha sido mau.

Se pediu para sair sem ter tido a iniciativa de sair pelo próprio pé, e depois de ter defendido a justeza do seu direito, isso seria ainda pior.

Se não pediu para sair e o candidato é que resolveu correr com ele e com os outros da sua "Comissão de Honra" dá ainda uma pior imagem, porque se fica com a sensação de que queriam e não se importavam de ficar e agora acabaram escorraçados saindo pela porta dos fundos.

Discutir um qualquer código de conduta dos membros do governo, que ainda por cima refere expressamente ser apenas "um compromisso de orientação" assumido no exercício das suas funções pelo membros do Governo e dos respectivos gabinetes, ou instrumento semelhante, também não ajuda à resolução do problema.

O simples facto de existir uma coisa dessas, oficial, já demonstra o nível a que se desceu e a estirpe de quem necessita de ter um guia para se comportar à altura dos cargos que ocupa numa república.

Alguns não se importarão com as figuras que fazem. Muitos não irão lá nem com mil códigos. Estão habituados ao estilo, ao convívio com "os gajos da bola", e com outros muito piores. E por isso também conseguiram chegar onde chegaram. Até falsificando habilitações e qualificações.

Não será esse o caso do primeiro-ministro, o que torna ainda mais incompreensível a sua atitude de se prestar a integrar a tal "Comissão de Honra" e, depois de verificada a argolada, ainda insistir na sua posição. Será que não tem nenhum spin doctor decente com quem falar? Alguém civilizado, com bom senso e sentido crítico que possa dar-lhe uma ajuda? Só tem carreiristas, seguidistas, "tralha do partido" e yes men(*) para o aconselharem?

Aqui há uns anos houve um artigo (76.º, n.º 1) que foi eliminado do Estatuto da Ordem dos Advogados por uns negociantes que acharam que não valia a pena dizer que um advogado devia "no exercício da profissão e fora dela, (...), mostrar-se digno da honra e das responsabilidades que lhe são inerentes". Ainda estou para perceber o que conseguiram com a sua eliminação.

O que aconteceu agora foi, com as devidas distâncias, uma reedição disto na nossa vida pública. Uma coisa é o que faço enquanto primeiro-ministro e líder do partido, outra coisa é o que faço na minha vida privada.

Não creio, como neste caso, que seja fácil fazer a separação dos planos, em especial quando são tantos e tão recorrentes os maus e os péssimos exemplos, muitos deles vindos de um passado não tão distante quanto isso e que tão, e bem, criticados foram.

Parece-me evidente, pese embora o exagero, que um tipo que se comporta normalmente como um trafulha, que faz da vigarice um modo de vida, jamais deixará de o ser se um dia lhe acontecer exercer um cargo público. Em especial se tiver uma oportunidade de dar o golpe saindo impune. Porque não há separação possível entre o que fazia, e certamente continuará a fazer, na sua vida privada e o exercício da função.

Poderei estar errado, e admito que sim, pois muitas vezes também erro nas minhas escolhas e nos meus juízos. Todavia, nem por isso deixo de assumir a responsabilidade pelas minhas acções. E se erro procuro corrigir, e não reincidir.

É que no extremo a separação entre vidas e papéis pode levar a que um tipo faça figuras tristes no exercício de cargos públicos.

E aí o problema não será apenas dele.

Não vale a pena dar exemplos. Todos os conhecemos.

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(*) "Men without balls who will answer yes to any query from their boss/superior regardless of the question's intelligence, bearing, or appropriateness. It is usually intended to farther the yes man's carreer by getting and staying on the boss's good side, but may have the opposite effect. Yes men often ruin the productivity or usefulness in the department they work in, as they are unwilling to provide any form of original idea, opinion or more importantly criticism to their boss and thus contribute to disconnect between managers and workers."

(Editado para substituição de "conferência de imprensa" por "comunicado" porque o anúncio foi feito pela segunda via) 

Pensamento da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.09.20

Cada um tirará as suas conclusões acerca da presença do primeiro ministro na comissão de honra de Luís Filipe Vieira, mas aproveitamos a oportunidade para assegurar que esta candidatura será sempre pela separação escrupulosa entre a política e o futebol", diz um dos candidatos à presidência do Sport Lisboa e Benfica.

O primeiro-ministro já está a levar no toutiço, como aliás seria de esperar. E é bem dado.

Já não vou pelo caminho do Novo Banco, que estamos todos a pagar, pelos processos judiciais, que até hoje deram zero, ou pela clubite, que de uma forma ou de outra, até no desprezo, a todos nos afecta.

Nem sequer me agarro à mais do que indecorosa "recontratação" do treinador Jorge Jesus, por valores absolutamente incompatíveis com a qualidade de vida da maioria dos portugueses, com a carga fiscal que suportam à conta da mais do que enraizada má escolha de governantes e dirigentes e da incapacidade das lideranças políticas, e com o prestígio e a história da instituição.

Mas ainda que assim não fosse, pergunto se é razoável um primeiro-ministro andar metido em comissões de candidatura de "gajos da bola". Sim, de "gajos da bola".

Bastava ouvir o Seara a fazer a sua defesa para se ficar com uma ideia da argolada. 

Não chegava já lá estar o Medina, que até é presidente da Câmara. Como não era suficiente um apoio discreto, distante, não comprometido, que não afectasse o desempenho da função, a liderança do partido e não suscitasse mais anti-corpos do que aqueles que neste momento geram as suas aparições.

Era ainda preciso vestir uns calções e atirar-se de cabeça para a pilha dos pneus para o desconchavo ser absoluto.

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante esta semana

Se eles o dizem...

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.08.20

fotos-gp-styria-motogp-2020857524_7_1200x690.jpeg(créditos: Motociclismo)

"No fue solo una victoria merecida, fue más que eso. Fue el triunfo de la humildad, del trabajo, de la dedicación de un tipo que procede de un país sin tradición en las dos ruedas, que carga sobre sí mismo el peso de una bandera y que ha pasado por momentos realmente duros en su trayectoria." (Nacho González - SWINXY, in Miguel Oliveira y la justicia poética)

Um português imperial

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.08.20

1227927773-kSGI-U3801041129623cWC-528x329@Gazzetta(Foto Gazzetta Motori)

A consagração de António Félix da Costa como campeão mundial de Fórmula-E, brilhantemente alcançada na pista do antigo Aeroporto de Tempelhof, em Berlim, é o culminar de uma carreira construída a pulso, feita de muito esforço, muito trabalho e muita resiliência.

Sem nunca ter tido os apoios milionários que a maioria dos seus adversários usufruiu, com a instabilidade na carreira associada à falta de músculo financeiro que lhe permitiria ter outro impulso e aspirar chegar um dia à Fórmula 1, o jovem piloto de Cascais é hoje notícia nas televisões e jornais por esse mundo fora (Eurosport, BBC Sport, L’Équipe, AutoSprint, Mundo Deportivo, La Tercera, Redgol, The Sun, The Independent).

Depois de um início de carreira no karting e de ter vencido por duas vezes, em 2012 e 2016, o Grande Prémio de Macau, corrida onde só os melhores entre os melhores conseguem impor-se, conquistando a Taça do Mundo FIA de F3, e mostrando a quem tivesse dúvidas todo o seu talento e classe, aos 28 anos conquistou, finalmente, um título mundial de pista entrando para uma restrita galeria de pilotos.

E isso é tanto mais brilhante quanto foi conseguido de forma imperial e com uma condução irrepreensível a duas provas do final do campeonato. Apesar da paragem devido à Covid-19, tendo vencido no início do ano na prova de Marraquexe, Félix da Costa repetiu a vitória por mais duas vezes em Berlim, a que juntou um quarto lugar e, ontem, uma subida ao segundo lugar do pódio, colocando um ponto final na discussão do título deste ano.

Num país que vive de e para o futebol, e para as suas miseráveis discussões e negociatas de milhões, como se tudo o mais em matéria de desporto não existisse, em especial em modalidades onde temos conquistado o reconhecimento internacional e títulos olímpicos, europeus e mundiais (atletismo, judo e remo, por exemplo), sem que esses resultados obtenham a projecção merecida nos jornais, rádios e televisões, é reconfortante ver, e também sinal de esperança, António Félix da Costa cumprir o que prometeu e trazer para Portugal um título máximo da sua modalidade.

O que, aliás, acontece, convém referi-lo, no mesmo fim-de-semana em que Miguel Oliveira obteve a sua melhor classificação de sempre numa prova da categoria rainha do Mundial de Motociclismo, alcançado o sexto lugar no Grande Prémio da República Checa, e um outro piloto português, Filipe Albuquerque, tendo conquistado a pole position para a corrida, venceu de forma categórica as 4 horas de SPA-Francorchamps, segunda vitória consecutiva este ano numa prova a contar para o campeonato European Le Mans Series

Não será por falta de bons resultados e de exemplos vindos dos mais jovens, em modalidades tão competitivas a nível internacional, que os portugueses deixarão de ter o estímulo necessário para serem cada vez melhores e procurarem obter iguais resultados noutros planos da sua vida colectiva. Da política à economia, da educação à produtividade no trabalho. Basta serem capazes de a si próprios imporem alguma ética, disciplina, rigor e seriedade no que fazem. A superação e o reconhecimento virão por acréscimo.

Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.08.20

Tenho dúvidas que corresponda ao estereótipo dos blogues a que estamos habituados. De qualquer modo, o que hoje escolhi é classificado como blogue e tem uma média de cinco publicações por dia, apresentando características muito específicas. Pareceu-me oportuno referi-lo e aqui trazê-lo numa altura em que a situação em Hong Kong é cada vez mais incerta. A covid-19 tem servido para justificar muita coisa, mais do que aquelas que a própria doença consegue explicar, e a última que descobriram foi o adiamento das eleições legislativas que estavam agendadas para 6 de Setembro. Tal como no tempo da outra senhora, em Portugal, era necessário ler o que as fontes não alinhadas com o regime escreviam para se poder comparar com o que era debitado pelos megafones oficiais e oficiosos, e assim se ter uma aproximação à verdade, o mesmo continua a acontecer hoje nas sociedades dominadas por regimes autoritários e totalitários. E dado que a informação nunca fez mal a ninguém, o Hong Kong Free Press (HKFP) é a minha escolha desta semana. Para ir acompanhando nos próximos tempos.

Uma decisão pouco cristã

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.07.20

Sobre o que aconteceu com o académico Éric Sautedé deu-se oportunamente conta, há mais de seis anos, em O regresso da idade das trevas, O regresso da idade das trevas (2) e O regresso da idade das trevas (3).

Ontem, Peter Stilwell prestou declarações no âmbito do processo judicial ainda em curso na primeira instância (não é só em Portugal que a justiça é lenta e tardia).

Entre outras coisas revelou que "o despedimento do académico Éric Sautedé da Universidade de São José (USJ) foi sem justa causa", que "não houve nenhum processo disciplinar", "nem [há] qualquer dúvida sobre o bom comportamento de Éric Sautedé enquanto professor".

Não vou comentar as suas declarações, nalguns pontos bastante discutíveis, mas registo o seu acto de contrição e a honestidade do depoimento, que só confirmou o que todos sabiam e não houve na altura coragem de dizer. 

Qualquer que venha a ser a decisão final, uma coisa é certa: a vergonha e o sofrimento infligidos ao visado e à família, com filhos menores e obrigados a mudarem de vida e de local de residência, jamais terá reparação.

E tudo isso, o despedimento e o que se lhe seguiu ao longo destes anos, independentemente da ilegalidade e de outras considerações que se possam tecer sobre a liberdade académica e a liberdade de expressão, ou o injustificável, foi muito pouco cristão, o que não se pode deixar de lamentar, mais a mais vindo de quem veio.

O tempo apaga muita coisa, é verdade, mas não apaga a dor, nem o erro.

Perversidade

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.07.20

3581-2020-07-22.jpg(Macau Daily Times)

Se há coisa que o chamado processo do IPIM, onde estão a ser julgados antigos dirigentes desse organismo, tem revelado é a perversidade da actuação de alguns responsáveis e funcionários por ignorância, má-fé ou incompreensão dos mecanismos procedimentais, dos seus deveres e do alcance das exigências legais.

Quem tem acompanhado as peripécias do julgamento, em boa hora abundantemente relatadas pela comunicação social, não pode deixar de se interrogar sobre a formação que foi dada a alguns dirigentes antes de se alcandorarem às posições que exerceram ou ainda ocupam.

Considerar que os critérios da Administração Pública não podem ser conhecidos, por secretos ou confidenciais, e que os cidadãos não devem ser esclarecidos sobre o que devem fazer e como fazer para preencherem as condições que devem ser cumpridas para obterem aprovação nos  processos administrativos em que são interessados, porque tudo é "secreto" e "confidencial", é revelador de uma formação muito deficiente, de uma mentalidade policial, ignorante, arcaica, irresponsável e desrespeitadora da lei.

Mas se, para além disso, houver quem, além de considerar tudo isso como normal, ainda admita que existem regras, ao arrepio da lei, não escritas e de natureza confidencial e secreta, a regularem vulgares procedimentos administrativos, remetendo para o domínio da arbitrariedade pura aquilo que de todos deverá ser conhecido, então já se está no domínio da perversidade.

A aplicação da lei e as regras da sua interpretação e aplicação na Região Administrativa Especial de Macau são em cada dia que passa cada vez mais esotéricas, não obstante não haver ninguém com poder de decisão que não esteja sempre a invocá-la, tal e qual como algumas beatas que estão constantemente a invocar os nomes do Senhor e dos Santos para tudo e mais alguma coisa.

E o que é mais triste, e revoltante, é que tal acontece não apenas ao nível da actuação da própria Administração Pública. Essa contaminação é agora vulgar, como tem sido denunciado e é visível pela simples leitura dos jornais, em muitos casos da actuação das polícias, do Ministério Público e, pior do que isso, da forma como alguns julgamentos são conduzidos e as decisões fundamentadas.

Se virmos bem, o entendimento que a testemunha Irene Lau tem das regras que regem a actuação de um ente público e das suas chefias vai ao encontro das teses de um proeminente académico da Universidade de Pequim, Jiang Shigong, quando considera que o constitucionalismo chinês só pode ser entendido numa perspectiva de uma constituição não-escrita, que esta é que corresponde à verdadeira Constituição, pois que inclui as doutrinas e comentários do Partido e dos líderes do Estado, bem como os relatórios e decisões do Comité Central sobre as questões constitucionais (Jiang Shigong, 2010, in Modern China, 36/1, 12-46). Ou seja, o que não vem na Constituição, o que não vem na lei também serve conforme as circunstâncias.

Aqui em Macau a lei relevante também começa a ser a lei não-escrita. Isto é, a que resulta da interpretação, da apropriação e do uso que dela seja feita pelos responsáveis políticos, administrativos e policiais.  

Primeiro passámos do legal para o domínio do surreal. Neste momento torna-se evidente, até pelo depoimento prestado em juízo pela madame Lau, que se confirma o que há muito se suspeitava, ou seja, que já vivemos no campo do arbítrio (louvado) sob uma capa de legalidade.

A aproximação ao primeiro sistema está praticamente concretizada. Quando todo o sistema judicial, o legislativo e a Administração Pública estiverem ao serviço de quem exerce o poder, a segurança nacional estará totalmente garantida. O resto não conta.

É esta a perspectiva. E a última prova que faltava de que a formação de quadros locais por parte da Administração portuguesa no período de transição foi um rotundo fracasso.

Formatar autómatos, mesmo com viagens pelo meio a Portugal, não é o mesmo que formar bons dirigentes e bons quadros técnicos, incutindo-lhes uma mentalidade e uma ética de serviço público e de verdadeiro respeito pela lei.

E isto também se aplica, cada vez mais, pelo que se tem visto, à formação de advogados, polícias e magistrados.

Diferenças

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.07.20

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Para quem, a propósito do COVID-19, ainda não percebeu a diferença entre distanciamento social e distanciamento físico, sendo este aquele que, efectivamente, a DGS e a ministra da Saúde querem, aqui está ela em romeno e com imagens esclarecedoras.

Pode ser que assim se perceba melhor o disparate do dito "distanciamento social".

Está na hora de regulamentar a miséria moral

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.07.20

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Esta manhã, ao fazer a revista da imprensa diária, a minha atenção recaiu sobre uma notícia do DN cujo título referia a existência de estudantes que estavam dispostos a pagar a professores para lhes fazerem os exames.

Na leitura do seu desenvolvimento ficámos a saber que vários centros de explicações e professores receberam propostas de alunos que os procuravam no sentido de mediante uma contrapartida pecuniária se disponibilizarem a fazer os ditos exames.

Sabemos todos que a nossa vida pública está pejada de chicos-espertos, aldrabões e vigaristas, e que muitos dos exemplos que nos vão chegando de cima e de classes profissionais que deveriam ser modelos de correcção e de comportamentos éticos e morais irrepreensíveis têm-se revelado pouco edificantes e viveiros de bandidos e de gente pouco recomendável.

Nada de mais natural, portanto, num país onde nos últimos anos lemos e ouvimos os relatos de políticos, alguns ministros e outros deputados, que falsificaram as habilitações e os seus curricula, fazendo exames aos domingos e por fax, alardeando qualificações e méritos que não possuíam, se ouvem relatos de magistrados que pagavam a terceiros para elaborarem as suas sentenças, de outros que recebiam para interferir nas decisões dos colegas, de alguns que jubilando-se se predispunham depois a receberem meia-dúzia de patacos para o que se tornavam assalariados e prestadores de serviços a soldo de terceiros, de empresários caloteiros, de gente com lugar cativo em revistas e programas do social-parolismo metida em sarilhos, enfim, de quem fosse fazendo pela vida sem olhar a meios.

E cabular e copiar nas provas e exames académicos deve ser algo tão velho que certamente se perderá nos confins da história. Num momento ou noutro, voluntária ou involuntariamente, nem que fosse num olhar de relance, nos nossos tempos de estudante olhámos para o vizinho do lado ou tivemos a tentação de fazê-lo.       

Entretanto, chegou o COVID-19, que nos obrigou a todos, e em todo o mundo, a mudar o nosso quotidiano, a alterar hábitos e comportamentos. Da vida familiar e social à profissional foram muitas as mudanças e os constrangimentos que nos foram impostos nas mais diversas latitudes. Entre estes também estava a necessidade de se trabalhar a partir de casa e das escolas encerrarem, prosseguindo o ano lectivo de uma forma atípica, com aulas à distância e com as populações escolares confinadas.

A notícia do DN alerta-nos para uma outra dimensão que a infelicidade que nos tocou trouxe à luz.

Refiro-me à predisposição para a institucionalização da fraude e da corrupção que guiarão as futuras gerações pela vida fora, começando logo durante o seu percurso formativo e sem qualquer vergonha. Já não se trata mais de um pequeno ou grande copianço sem consequências de maior para safar uma preparação menos conseguida para um determinado exame.

Agora estamos num patamar superior. Estamos mais qualificados e com menos vergonha. Telefona-se, vai-se à procura do mercenário disponível. Trata-se de comprar os professores, pagar o resultado dos exames, financiar quem pode ajudar a emitir o passaporte para uma futura vida profissional. Investir numa fraude que permita ir subindo degraus sem esforço.

Quando uma sociedade chega a este nível de especialização, o mais certo é que depois tudo o mais se poderá ir comprando: o acesso a uma bolsa, o canudo, a carreira, as promoções, o prestígio, a respeitabilidade, o marido ou a mulher, o chefe, o juiz, o procurador, o vizinho, o padre, o partido, o lugar de deputado, o ministério, e por aí fora. 

O investimento nos exames exigirá um esforço acrescido dos encarregados de educação, financiamento ou empréstimo, visto que na maior parte dos casos serão apenas estudantes a tempo inteiro, mas com o espírito empreendedor revelado e a astúcia demonstrada os resultados a curto e médio prazo estarão garantidos. 

Estamos perante uma verdadeira revolução. Estudar para quê? É melhor contratar alguém que estude por nós, que se prepare para o exame e a quem se possa pagar para o fazer. É só necessário encontrar o parceiro adequado. 

A minha única dúvida é se com tudo isto o governo não deveria começar a pensar em enquadrar essa situação. Talvez começando por tabelar o custo dos exames, impondo preços mínimos e máximos, acautelando os conflitos de interesses, as situações de concorrência desleal e a criação de oligopólios. A isenção do IVA, ou a sua aplicação a uma taxa reduzida, também deverá ser equacionada. Bem como a possibilidade de dedução desse custo em sede de IRS. E depois importaria criar uma aplicação que fosse tecnologicamente avançada, e exportável, uma espécie de plataforma, que se instalasse nos smartphones e permitisse gerir uma bolsa de contactos para dinamizar o mercado dos exames.

Fraude? Corrupção? Ignorância? Sim, isso, tudo bem. Temos de nos modernizar, de nos adaptar aos novos tempos. Claro, tudo isso, mas devidamente regulamentado e com os formulários bem preenchidos. Não pode haver abébias para ninguém.

Eis a solução para os nossos problemas e a oportunidade para ocuparmos o primeiro lugar dos rankings. O da miséria moral incluído.

Ennio Morricone

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.07.20

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O mundo foi hoje surpreendido com o falecimento de Ennio Morricone, vítima de uma queda com uma idade (91 anos) em que devia ser proibido cair.

O aclamado compositor e maestro italiano, vencedor de dois Óscares (2007, pela carreira, e 2016, pela banda sonora de “The Hateful Eight”), foi autor de algumas das mais inesquecíveis melodias para o cinema, tendo trabalhado com inúmeros realizadores.

Primeiro com Sergio Leone, de quem foi colega de escola, a partir da década de 60 do século passado, nos chamados Western Spaghetti, depois com quase todos os grandes nomes da realização. Bertolluci, John Carpenter, Brian de Palma, Giuseppe Tornatore (no inesquecível “Malèna”), Barry Levinson ou Quentin Tarantino foram apenas alguns.

De “Por um punhado de dólares” a “Cinema Paraíso”, de “O bom, o mau e o feio”, a “Era uma vez na América”, de “Frantic” a “Os homens do presidente”, sem esquecer “Sacco & Vanzetti”, a “Missão” ou “Kill Bill”, foram mais de quinhentas composições e bandas sonoras para o cinema.

Estudou na Academia de Santa Cecília, em Roma, onde se diplomou em trompete. Reconhecido em todo o mundo pela excelência do seu trabalho, a banda irlandesa U2 dedicar-lhe-ia uma música (Magnificent).

Em Outubro de 2007 fez uma incursão pela política italiana, integrando a lista de Walter Veltroni. Participou nas primárias e acabou eleito para a então Assembleia Constituinte do Partido Democrático.

Parte o homem que, como alguém disse, não era apenas um compositor de música para filmes, mas um grande compositor.

Ficará a saudade, e  uma obra monumental que continuará a ser ouvida até ao fim dos tempos

Despropósito

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.06.20

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(foto de Miguel A. Lopes/LUSA)

 

É compreensível que os portugueses fiquem satisfeitos, penso eu, por poderem acolher a fase final da mais importante competição europeia a nível de clubes, a Liga dos Campeões.

Com ou sem adeptos nos estádios, com mais ou menos riscos, certo é que a elite do futebol europeu estará durante uns dias por Portugal, ocupando hotéis e restaurantes, dando uso aos estádios, e, concedo, promovendo a imagem do país e das suas cidades no exterior.

Não vou aqui discutir os méritos ou os deméritos da iniciativa, a sua oportunidade, os riscos que comporta, e outras questões igualmente relevantes e que merecem atenção. Isso ficará para os jornalistas e os profissionais do comentário.

Eu fiquei satisfeito na justa medida do que isso representa em termos de incentivo e impulso para se procurar melhorar e combater a crise internamente.

Mas o que quero mesmo é apenas sublinhar a minha estupefacção pelo espectáculo que as nossas principais figuras de Estado continuam a proporcionar.

Como se o facto de ter existido um COVID-19, para todos os efeitos uma desgraça para a maioria, que por um bambúrrio atirou para Portugal a fase final da competição, se devesse ao nosso trabalho, ao nosso esforço, aos nossos êxitos.

Fazer do acontecimento um sucesso nacional, nesta fase do combate à epidemia, e quando tantos são os problemas que há para enfrentar, como se daí viesse a solução de todos os nossos dramas, não é sinal de auto-estima ou de feito histórico.

Para além da manifestação ser despropositada, na dimensão e na exultação, é acima de tudo provinciana.

Como alguém de quem me estou a lembrar diria, se fosse vivo, em matéria de provincianismo somos de facto imbatíveis. E uns tremendos parolos.

Zanardi

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.06.20

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(foto BMW, daqui)

 

Se há quem admire nesta vida, um dos indiscutíveis é seguramente Alessandro Zanardi.

A notícia que todos recebemos do acidente que sofreu ontem, numa prova de estrada destinada a deficientes, constitui mais uma desgraça que se abate sobre a vida de um homem com o seu talento, a sua força, a sua perseverança.

Já não bastava tudo o que lhe aconteceu ao longo da vida, a forma como foi superando obstáculos que para a maioria seriam absolutamente intransponíveis, indo buscar força e motivação onde se suspeitaria só existir desespero e resignação, para agora ter um acidente da magnitude do de ontem. Capotar com o triciclo de handbike duas vezes, acabar batendo num camião que seguia em sentido contrário, e o helicóptero não poder aterrar no local do acidente tendo de ser primeiro transportado de ambulância para um heliporto, não é apenas um azar, mais um, na vida de Zanardi. É a continuação de uma condenação inaudita, sem sentido, de um homem bom, de um exemplo de tenacidade, e de um verdadeiro herói de carne e osso.

Se, como dizem para aí, Deus é grande, é incompreensível que alguém tenha de sofrer o que Zanardi enfrenta.

Espero que uma vez mais consiga recuperar, e que nos volte a dar a todos um motivo para continuarmos a acreditar nalguma coisa. Forza, Alex.

A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.06.20

"Macau has done everything “just right” and been lauded by Beijing paternalistically as “the good student.” All politically sensitive protests have been banned. A law criminalising the disrespect to the PRC National Anthem, flag and symbols has been approved. And so was a National Security Law. Self-censorship is effective among most of the media and the people.

What did Macau get in return? A directly elected Chief Executive and Legislative Assembly? More liberties and rule of law? No. The more freedoms you give up to please Beijing, the more Beijing demands of you. And it pays in cash." (Jorge Menezes, Hong Kong Free Press, 18/06/2020

Fintados pelo covid-19

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.06.20

Desde que em Março passado o Presidente Xi visitou Wuhan, a máquina da propaganda não parava de assinalar os êxitos do PCC e a vitória do líder no combate ao COVID-19.   

Ainda não passou um mês desde que em 22 de Maio, na 13.ª sessão plenária da Assembleia Popular Nacional, o presidente da sua Comissão Permanente, Li Zhanshu, exultava o sucesso do combate ao COVID-19, chamando a atenção para a realização dessa reunião num momento em que no "estrangeiro a situação continuava sombria e complexa", enquanto que ali na China, em Pequim, o novo farol do sucesso dos comunistas na Terra, tinham sido conseguidas "grandes conquistas estratégicas".

As notícias deste fim-de-semana do reaparecimento de um surto epidémico na capital chinesa e em Liaoning, com dezenas de casos de transmissão doméstica, e obrigando a novas medidas de confinamento, vêm colocar em causa a rapidez com que se propagandearam os tão aclamados êxitos.

Para desgraça de todos nós, e dos bodes expiatórios do regime, o mal continua por aí, à solta, em todo o mundo, embora mais nalguns países do que noutros.

Fosse em razão da adopção de estratégias tardias ou erradas, como aconteceu na China e na Europa, fosse por manifesta ignorância e irresponsabilidade dos dirigentes, casos do Brasil e dos Estados Unidos da América, o que as notícias que chegam de Pequim realçam é a importância do combate global e da necessidade de não se baixar a guarda, ainda que não se possa levar o resto da vida confinado e com tudo parado.

E também há uma outra lição: a de que antes de se quererem retirar dividendos políticos do combate ao vírus, esquecendo o que se silenciou nas primeiras semanas, criticando-se os outros países para se enaltecerem êxitos próprios quando a situação ainda não está limpa, ignorando-se que elogio em boca própria é vitupério, também devia ter havido contenção na propaganda.

Como não houve, com o retrocesso que se verifica, o qual deverá ser também atribuído a quem reclamava as "grandes conquistas estratégicas" ("[t]he fundamental reason behind China’s solid progress in epidemic prevention and control as well as work and production resumption lies in the advantages of the CPC leadership and the socialist system"), os foguetes terão de ser engolidos, importando voltar à luta contra esse flagelo da pandemia.

Arbitrariedade informal

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.06.20

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Há dias era a Associação dos Advogados de Macau, fugindo à regra, que apelava aos seus membros para reportarem e denunciarem todas as situações de abuso, imposição de restrições e impedimentos ao exercício do mandato forense. O advogado Pedro Leal, um dos mais conhecidos e reputados penalistas locais, chegou a referir que por vezes anda 48 ou 72 horas à procura de uma pessoa; que quando se liga à procura de alguém a polícia diz que não está lá ninguém, e "andam a omitir constantemente a situação". A Polícia Judiciária desmentiu todas essas acusações num estranho comunicado para dizer que cumpre a lei.

Depois, foi a actuação perfeitamente desproporcionada e despropositada no Largo do Senado, por parte de agentes policiais, no final de tarde e noite de 4 de Junho de 2020. Não há quem não diga que está a cumprir "rigorosamente" a Lei Básica. Até quando se quer tapar o sol com uma peneira, considerando-se, para justificar a dualidade de critérios, que uma manifestação de apoio ao Governo Central não é uma manifestação, e como tal pode estar sujeita a outras regras.   

Ontem foi revelado no Telejornal da TDM (a partir do minuto 4:57) que uma rapariga de 19 anos foi abordada por dois agentes da PJ à paisana, obrigada a identificar-se, sem que estivesse a manifestar-se ou a fazer algo de ilegal, intimada a mostrar os seus pertences, e depois levada para uma carrinha, onde estavam mais cinco agentes à paisana, e transportada de Macau para a Taipa, sendo depois interrogada pela PJ no seu edifício do Cotai. Obrigada a assinar os documentos que lhe deram, em que dava o seu "consentimento" ao que os agentes quisessem fazer, questionaram-na sobre a sua vida pessoal e cívica, tendo-lhe sido pedido que desbloqueasse o telemóvel para que os fulanos pudessem ler o conteúdo das suas mensagens. No final, relatava esta manhã o Macau Daily Times, os agentes disseram-lhe que "ainda é jovem", que se concentrasse nos seus estudos e se deixasse de política.

Contactada pelos jornalistas da TDM sobre o triste episódio, a mesma Polícia Judiciária, que diz cumprir escrupulosamente a Lei Básica, confirmou o episódio e veio esclarecer que tinha sido qualquer coisa como uma "investigação informal". Nada de oficial, portanto. Não há crise. Cumpre-se a lei, dizem. 

Eu sei que ultimamente o clima se adensou, que passámos a ter uma Comissão de Defesa da Segurança do Estado, para uma cidade com menos de 700.000 habitantes, sem problemas de segurança e com milhares de câmaras de televisão nas ruas, parques de estacionamento e edifícios; e que em Abril deste ano, aquando da discussão das Linhas de Acção Governativa, se anunciou a criação de um Gabinete da Comissão de Defesa da Segurança do Estado, que deveria entrar em funcionamento "o mais rápido possível", e que muitos de nós já suspeitam dos movimentos nas ruas de algumas pessoas, e que não sabemos se são bandidos ou agentes policiais, porque todos andam "à civil", nem por que razão nos seguem e fotografam se cumprimos a lei e vivemos "às claras" (falo por mim).

De uma forma ou de outra, muitos já começaram a sentir o clima de medo, insegurança e arbítrio típico dos estado policiais. Cada dia que passa confirma-se, embora ainda nenhum livreiro (desconfio que já não haja cá nenhum) tenha sido raptado.

A Comissária dos Negócios Estrangeiros enche páginas de jornais, fazendo de conta que se tratam de artigos de opinião, normais, quero dizer, ao mesmo tempo que uma jovem estudante é tratada como uma criminosa, numa acção típica de uma polícia política, que identifica, vasculha e intimida sem razão aparente e por mera suspeita de simpatia para com os movimentos pró-democráticos.

Se não há uma polícia política, informalmente e sob diversas capas há quem faça as vezes dela, e esteja aí para fazer cumprir o princípio "um país, dois sistemas" de acordo com a sua própria interpretação. 

Há quem pense que tudo isto é normal, aceitável, e diga que os residentes, alguns nascidos aqui, são apenas "convidados". E que como tal têm é de ignorar garantias, direitos cívicos e os desvirtuamentos do que foi acordado porque isto é um "assunto interno". Enfim, devem ficar calados e participar na festa. Ou largarem casas e vidas e zarparem para outras paragens. 

Oficialmente é tudo sorrisos, croquetes e palmadinhas, seja no Dez de Junho, que hoje também se comemora numa versão "mini" devido ao Covid-19 (enquanto as equipas dos barcos-dragão vão treinando sem máscara e não respeitando distâncias entre remadores), seja em todos os restantes dias do ano. A gente está (quase) toda contentinha, apesar de quando em vez aparecer alguém, quando a coisa se torna demasiado grosseira, a queixar-se.

Sem querer pedir demasiado, e porque Camões continua, timidamente, entre nós, quero aproveitar esta oportunidade para alertar os nossos investigadores para a necessidade de se saber qual a contribuição que demos – todos, dos comerciantes e empresários aos magistrados, dos funcionários públicos aos jornalistas, dos advogados aos diplomatas, dos políticos aos militares – para a arquitectura do actual estado policial e para a preparação desta guarda pretoriana que na RAEM nos vigia e pastoreia nas ruas, nos escritórios e nas redes sociais. 

A menos que haja interesse de Portugal em que todos acabemos, justa ou injustamente, como é norma, por levar por tabela, ficando eternamente conotados, para o melhor e para o pior, sem que se separe o trigo do joio, com os tratos de polé que têm sido dados nos últimos anos, na RAEM, aos direitos fundamentais, liberdades e garantias dos residentes.

Nada como estar informado

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.06.20

21826309_jpTpN.jpeg(créditos daqui

Tudo o que eu poderia escrever sobre o que aconteceu na Praça do Senado, em Macau, na noite de 4 de Junho de 2020, ficaria sempre aquém daquilo que o Telejornal da TDM levou até casa dos residentes. Uma peça notável de jornalismo televisivo numa região que é cada vez mais uma extensão do estado policial autoritário que vigora do outro lado da fronteira.

A utilização selectiva da lei, a dualidade de critérios na sua aplicação, a violação grosseira de direitos fundamentais dos residentes e o recurso às polícias e aos tribunais como instrumentos ao serviço do poder político, e não da comunidade e da realização do direito e da justiça, são cada vez mais a regra.

E não é pelo facto de continuarem a recrutar juristas e magistrados portugueses, que depois se prestam a quase tudo, que se pode disfarçar o que está a acontecer. 

O próprio Acórdão do Tribunal de Última Instância, que proibiu a vigília, contém uma declaração de voto, da qual depois não são retiradas as devidas consequências, onde se chama a atenção para a ilegalidade da decisão de proibição tomada pela PSP quando se afirma que "no procedimento administrativo que culminou com a decisão recorrida se devia dar observância ao prescrito nos art°s 23° a 25° da Lei n.º 2/2004, alterada pela Lei n.° 8/2013 e pela Lei n.° 1/2016" (na prática, o comandante da PSP substituiu-se ao Chefe do Executivo, usurpando as respectivas competências, e emitindo um despacho que sendo ilegal e só podendo ser produzido pelo segundo foi validado pelo tribunal). 

Numa altura em que são cada vez mais os que silenciam ou contemporizam com o abuso e a prepotência, vendendo princípios e valores, considerando que tudo é relativo, e fechando os olhos às sucessivas ilegalidades e à arbitrariedade para garantirem o seu pacote de amendoins, deixo aqui o link para quem tiver interesse e disponiblidade para saber o que se passa  a muitos milhares de quilómetros de Lisboa e vontade de ver o bom trabalho dos jornalistas e repórteres do canal português da televisão de Macau.

Para quando as autoridades portuguesas, e os deputados que cá costumam vir fazer turismo, disserem que o cumprimento da Declaração Conjunta Luso-Chinesa e a Lei Básica é um mar de rosas na paz do Senhor se lembrem do que se está a passar no quotidiano de uma terra onde há mais de 160 mil pessoas com a nacionalidade portuguesa que confiaram na palavra dos seus governantes.

A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.06.20

Embora em língua inglesa, e publicado em Hong Kong, é escrito por um portugês e penso que, concordando-se ou não, merece ser aqui lido e reflectido.

Fica o link para o artigo de Jorge Menezes no site da Hong Kong Free Press.

4 de Junho de 1989

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.06.20

Catherine Henriette:Agence France-Presse — Getty

(Catherine Henriette/Agence France-Presse — Getty Images)

Para os que têm memória não a deixem apagar-se. Para os que nunca tiveram memória possam ir à sua procura e passem a ter uma. Para os que entretanto perderam a memória encontrem um motivo para recuperá-la

A partida de uma lenda

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.05.20

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(SCMP)

O seu estado de saúde era de há muito periclitante. Mais dia menos dia seria natural que todos viéssemos a ser confrontados com a notícia do seu passamento.

Aconteceu hoje [ontem], num dia quente, sombrio e húmido onde a chuva e o ribombar dos trovões se fizeram sentir intensamente durante toda a tarde. Como se essa nota dos deuses correspondesse à sua recepção num outro mundo.

Durante mais de cinco décadas a sua figura alta, elegante e simpática, na pista de dança, no court de ténis ou mesmo nos momentos mais cruciais de qualquer negociação, deixava transparecer a força da sua vontade, o carisma do empresário, a visão estratégica de longo prazo e o pragmatismo do homem de negócios que sabia acomodar os seus interesses aos tempos e aos políticos com quem se ia cruzando.

Sempre disponível para ajudar os que o procuravam, creio que via no exercício filantrópico uma forma de compensar a sociedade e todos os outros por tudo aquilo que lhe davam a ganhar nos seus casinos.

Homem inteligente e perspicaz, bem-disposto e com sentido de humor, que não enjeitava uma oportunidade de defender os seus pontos de vista, fosse na concretização de um projecto empresarial ou numa negociação contratual, contribuiu para o desenvolvimento de Macau e a sua projecção internacional como nenhum outro, em especial a partir da década de Oitenta do século passado quando se operou a revolução nas infra-estruturas que preparou a transferência de administração para a China em 1999.

Ciente do património genético que consigo transportava, fez dele um instrumento para o engrandecimento de Macau, a aproximação de diferentes comunidades e para o diálogo intercultural.

Amigo da gente da terra e de muitos expatriados, não foram poucos aqueles a quem deu a mão, ajudando-os a singrarem profissionalmente e nos negócios.

No entanto, ficará sempre a convicção de que poderia e estaria disponível para dar muito mais à cidade e à sua população se tivessem sido diferentes as preocupações e outra a estirpe da tropa que o império para cá mandou, como aliás se viu nas diversas vezes em que foi preciso com ele renegociar a concessão do jogo, algumas cláusulas e as respectivas contrapartidas.

Se já era possível distinguir um Macau antes e outro depois dele, isso tornou-se mais evidente nos últimos anos, depois de ficar doente e se retirar dos negócios, e à medida que o seu vasto património foi partilhado pelos diversos braços da sua prole. Quanto menos mandava, e mais longe estava, mais Macau perdia.

De Stanley Ho, para aqueles que tiveram o privilégio de o conhecer e de acompanhar uma parte do seu percurso empresarial, ficará a lembrança do homem e da sua obra, que permanecerá indelével enquanto também ela não se transformar em pó. Mas só o nome e a sua lenda perdurarão para além do tempo. E será esta última que lhe conferirá maior grandeza pela Eternidade fora.

(texto publicado na edição de 27/05/2020 do Ponto Final)

Uncle Stanley

Stanley Ho: o último rei de Macau

A visão, o pragmatismo e as referências de Stanley Ho

 

Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.05.20

O COVID-19 enfiou-nos em prisões sem grades, o que sendo verdade para os que estavam em liberdade também acabou por tocar a alguns outros que cumpriam as suas expiações em estabelecimentos prisionais. À custa do vírus, o léxico do povão ficou infectado com novos palavrões. E de repente surgiu uma multidão de especialistas versados em tudo menos em futebolês. Os dias tornaram-se mais longos, sem luz, incómodos, depressivos. Muitos viram partir aqueles que os queriam e a quem queriam bem sem perceberem muito bem porquê. Foram antes do tempo. Antes que fosse noite. Quando a escuridão já se abatia sem remissão. Os aviões ficaram em terra, os barcos recolheram aos seus portos, os comboios repousaram silenciosos sobre os carris. Não fossem os livros, os filmes e as janelas que a Internet ainda nos vai abrindo e teríamos pirado todos. Agora que as coisas parecem começar a acalmar, enquanto não podemos voltar a apanhar o primeiro avião que apareça, é melhor que nos vamos preparando, que nos preparemos para voltarmos a sonhar. E para isso nada melhor do que começar já a viajar sem sair de casa, fazendo novos planos de viagem, talvez redescobrindo lugares por onde passámos e dos quais já não nos recordávamos. Nesta tarefa, nada melhor do que poder contar com a inspiração de um jovem fotográfo e jornalista português para nos transportar até Lugares Incertos, o meu blogue para esta semana.


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