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Delito de Opinião

Medina Carreira :«Nunca fui corrompido»

Quem fala assim... (37)

Pedro Correia, 17.04.21

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«Este país vive sempre no curto prazo, em função do trimestre anterior e do trimestre que há-de vir»

 

Bem ao seu jeito, Henrique Medina Carreira respondeu assim, quando lhe perguntei qual era o seu maior sonho: «Era ver isto governado por gente honesta e competente. Se não mudarmos, Portugal caminha rapidamente para um desastre financeiro e social de proporções históricas.» Numa entrevista telefónica que lhe fiz 18 meses antes da chegada da troika. Quem o conheceu, reencontra o seu tom aqui, do princípio ao fim. Infelizmente, o ministro das Finanças do I Governo Constitucional já não está connosco: faleceu a 3 de Julho de 2017.

 

Tem medo de quê?

Quase toda a gente tem medo de morrer. Eu não. Mas tenho medo da forma como se morre, do sofrimento. Fora isso, não tenho medo nenhum. Sou uma pessoa de vida limpa: nunca enganei ninguém, nunca fui corrompido.

Gostaria de viver num hotel?

De jeito nenhum. Gosto de viver em sossego.

A sua bebida preferida?

Água.

Tem alguma pedra no sapato?

Não. Houve quem me fizesse umas patifarias, mas isso não chega para alterar o meu humor.

Que número calça?

43.

Que livro anda a ler?

Ando sempre a ler vários livros. Neste momento estou a ler com muito interesse um do Vasco Pulido Valente sobre a política nos séculos XIX e XX. Ando a ler também com muito interesse outro livro, da Fátima Bonifácio, sobre o liberalismo.

História é um tema que lhe interessa?

É. Não conseguimos perceber bem o presente nem encontrar soluções para o futuro sem conhecermos o passado. Este país vive sempre no curto prazo, em função do trimestre anterior e do trimestre que há-de vir.

Tem muitos livros à cabeceira?

Na cabeceira só tenho canetas e uma telefonia. Mas tenho livros a toda a volta. Vivo rodeado de livros, desordenadamente e em pilhas. Quando quero um lá consigo encontrá-lo.

A sua personagem de ficção favorita?

As do Eça, sobretudo d' Os Maias e d' A Relíquia.

Falta-nos hoje um Eça?

Não sei se um Eça hoje bastaria.

Rir é o melhor remédio?

Tenho um ar desagraçadamente sisudo, mas gosto imenso de dar umas gargalhadas. Quando estou com pessoas de que gosto costumo rir-me perdidamente.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Choro com frequência, até com notícias da televisão. É uma fragilidade minha.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto muito de conduzir, mas conduzo muito pouco porque há cada vez menos espaço para estacionar.

É bom transgredir os limites?

Depende. Quando são os outros que estão em jogo, não devemos transgredir.

Qual é o seu prato favorito?

Gosto muito de sardinhas assadas, de bacalhau. No fundo, gosto daquilo de que os portugueses gostam.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Acho que não pratico nenhum. Não tenho a consciência pesada.

A sua cor favorita?

Encarnado. Sou benfiquista.

Costuma cantar no duche?

Não. Ficaria assustado comigo mesmo.

E a música da sua vida?

Sei pouco de nomes de músicas. Mas há uma que me fascina: o Adagio, de Albinoni.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Gosto muito do hino. Refiro-me sobretudo à música, pois reconheço que a letra é um pouco caricata. Mas todas as letras dos hinos são caricatas: basta ouvir as do Benfica ou do Sporting.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Mário Soares [falecido em Janeiro de 2017]. Trabalhei com ele e hoje estou em desacordo com ele em quase tudo. Mas é uma pessoa fascinante.

As aparências iludem?

Sou uma pessoa de boa fé. Costumo até dizer que qualquer um é capaz de me vender um carro eléctrico mas ninguém me vende segunda vez um carro eléctrico. Quando me enganam, é definitivo. Na política portuguesa existem aldrabões a mais. Aqueles que me enganam vão para o arquivo...

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Desrespeitar os fracos, os idosos, as senhoras. Ainda sou do tempo de dar a direita a uma senhora.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Aquilo que trago agora: uma camisa ligeira e umas calças de ganga. Detesto casaco.

Qual é o seu maior sonho?

O meu maior sonho era ver isto governado por gente honesta e competente. Se não mudarmos, Portugal caminha rapidamente para um desastre financeiro e social de proporções históricas.

E o maior pesadelo?

Tenho um pesadelo frequente: acordo a meio da noite, num local estranho, que não sei qual é.

O que o irrita profundamente?

A aldrabice. Acho-a particularmente detestável.

Qual a melhor forma de relaxar?

Andar. Ler. Passear sem rumo e sem preocupações.

O que faria se fosse milionário?

É coisa a que não aspiro pois não saberia o que fazer.

Casamentos homossexuais: de acordo?

Não. Casamento é uma figura histórica que assenta na ideia de desigualdade sexual. Mas a regulação jurídica de uma relação entre iguais é algo que defendo há muito.

Uma mulher bonita?

Teresa Gouveia. Tem uma beleza serena, ponderada, reflectida, respeitadora.

Acredita no paraíso?

Não. A gente vive aqui e depois vamos todos para o mesmo sítio.

Tem um lema?

Fui educado sob o lema dos Pupilos do Exército: Querer é poder. Ao longo da minha vida tenho sido muito o produto da aplicação deste lema.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (22 de Agosto de 2009)

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 17.04.21

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Ana Sofia Couto: «Nas últimas semanas, mesmo os mais cépticos têm tido razões de sobra para acreditar que em Portugal os acontecimentos políticos escapam a um entendimento racional. Na pastelaria, diz-se que o país é uma anedota. As próximas eleições podem comprovar a tese: se o PS não for fortemente penalizado, ficamos a saber que para muitos eleitores não interessa a responsabilidade - e a culpa - de quem nos conduziu a esta situação.»

 

Rui Rocha: «"Playing for Change" é um movimento que tem como objectivo levar a paz a todo o mundo através da música. Deixo aqui One Love numa versão imperdível. Hei-de trazer aqui outros momentos fantásticos deste projecto.»

 

Eu: «Alguns filmes reconciliam-nos com o cinema. Outros reconciliam-nos com a vida. Mais raros ainda são os que nos reconciliam simultaneamente com a vida e o cinema enquanto o tempo passa. Como este filme, que apetece rever uma vez e outra. Graças a Lost in Translation, seremos sempre felizes em Tóquio. Quem disse que jamais se deve voltar a um lugar onde já se foi feliz?»

Grandes romances (32)

Pedro Correia, 16.04.21

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 A GRANDE MURALHA VERDE

A Selva, de Ferreira de Castro

 

Nenhum romance português foi tão lido por estrangeiros como este. Traduzido para castelhano, alemão, italiano, inglês e francês poucos anos após ter sido publicado, em Maio de 1930, rendeu ao seu autor fama mundial e um desafogo financeiro que lhe permitiu abandonar o jornalismo, tornando-se escritor profissional. Quando foi impressa a 10.ª edição portuguesa, em 1945, já meio milhão de exemplares haviam sido vendidos além-fronteiras e 42 mil por cá.

Em 1973, José Maria Ferreira de Castro (1898-1974) era, precisamente com A Selva, um dos dez romancistas mais traduzidos no mundo, segundo revelou a Unesco. Galardoado em 1970 com o grande prémio Águia de Ouro Internacional no Festival do Livro de Nice, mereceu o voto unânime de um júri presidido por Isaac Singer e que integrava Gore Vidal, Hervé Bazin e Miguel Ángel Asturias. No ano seguinte, em Paris, recebeu o Prémio da Latinidade, partilhado com Jorge Amado e Eugenio Montale. Em parceria com o autor de Jubiabá, seu amigo, chegara a ser proposto em 1968 para o Nobel da Literatura por iniciativa da União Brasileira de Escritores.

Destino de sonho para um menino pobre, nascido numa aldeia do concelho de Oliveira de Azeméis. Órfão de pai aos oito anos, em 1911 viu-se forçado a rumar ao Brasil, onde vivia um tio. Foi sozinho, num navio que o conduziu de Leixões a Belém do Pará. Ali aguardava-o uma vida agreste, duríssima: aos 13 anos, já trabalhava numa plantação de borracha, então um dos produtos mais cobiçados à escala planetária.

«Quatro anos iguais a uma noite escuríssima, onde não é possível acender luz alguma.» Assim o escritor recordaria esses tempos em que se tornou adulto ainda menino, num seringal situado nas imediações de Humaitá, no interior do estado do Amazonas. Dessa experiência trouxe material para mais de meio século de labor literário. Ao ponto de muitos brasileiros ainda o considerarem um dos seus, não lhes faltando razão para isso: Ferreira de Castro contribuiu mais para estreitar os laços entre o país natal e a nação irmã - onde viveu oito anos, até 1919, e que visitaria várias vezes depois - do que todas as entidades oficiais nas duas margens do Atlântico.

 

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A Selva é um livro precursor. Num tempo em que ninguém falava em ecologia, faz da floresta a personagem principal. Capítulo após capítulo, ela arrebata-nos com o seu encanto, o seu sortilégio, o seu feitiço, a sua solidão imensa. A floresta amazónica, pulmão do planeta, é berço de incontáveis vidas. Mas também túmulo de intrépidos e de incautos. Ali todo o cuidado é pouco. E o respeito quase sagrado pela natureza, que nestas páginas assume carácter totémico, é vital para a preservação da espécie humana.

Castro conduz-nos pelas fascinantes alamedas deste império vegetal que lhe ficou para sempre impresso na memória. Navegamos no rio Negro até à confluência com o majestoso Amazonas. Desembarcamos em Manaus, capital amazónica, «cidade onde o homem impusera à natureza virgem muitas das conquistas do seu espírito». Passamos por vilas e cidades que reproduzem as origens dos seus primeiros desbravadores: Santarém, Alenquer, Óbidos, Borba, Faro...

Guiados por ele, assistimos à ganância do homem, o maior predador de todos os animais. Testemunhamos a exploração de mão-de-obra quase escrava, visando os miseráveis que ali aportavam dos confins do Maranhão ou do Ceará e cedo viam o sonho transformar-se em pesadelo.

Vamos com Alberto, português de 26 anos, tardio estudante de Direito, refugiado político no Brasil. Militante anti-republicano, envolveu-se nas conspirações que conduziram à proclamação da efémera Monarquia do Norte, em 1919. A fuga de navio permitiu-lhe escapar ao calabouço, ignorando que acabaria aprisionado ao ar livre, na infernal Fazenda Paraíso, junto ao rio Madeira, rasgando estradas e desbravando troços de floresta às ordens de um desses novos senhores feudais. Ele, burguês letrado, irmanava-se aos humildes trabalhadores braçais, afogados em suor e desespero: a vida ensina-lhe uma lição que jamais encontrará em livro algum.

 

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«Tudo selva, selva por toda a parte, fechado o horizonte na primeira curva do monstro líquido.» Lá seguimos com ele, rio acima, rendidos à insuficiência humana no contraste com o denso império vegetal que se estende quase das bermas do Atlântico até aos confins fronteiriços com a Bolívia e o Peru num trajecto de 40 dias.

Nada a ver com a escala lusitana.

«Evocado dali, Portugal era uma quimera, não existia talvez. Pequeno e lá longe, os que o levavam na memória não estavam certos se viviam em realidade ou se sonhavam com as narrações dos que tinham voltado das Descobertas.» (45.ª edição, 2019, Cavalo de Ferro, p. 72)

Neste sentido, A Selva é uma anti-epopeia. Espécie de reverso d' Os Lusíadas. Nada de navegações gloriosas por mares incógnitos: apenas o combate quotidiano pela sobrevivência, entre o esplendor da paisagem e a degradação humana. Com o alcoolismo a devastar corpos fatigados - «a cachaça era como morfina na vida áspera do seringueiro.» A permanente ameaça dos índios ainda em estado selvagem em busca de cabeças humanas para rituais tétricos. Alusões a pedofilia e necrofilia. E o bestialismo irrompendo naquele cenário sem mulheres, como Alberto descobriu, estupefacto, na noite em que viu algo nunca imaginado: «A égua fora levada para ali e junto dela estava Agostinho, trepando num caixote, com a roupa descomposta.»

O bicho-homem, animal entre os animais. Entre as antas, «a melhor carne que tem o Amazonas». Entre os urubus negros, «cínicos devoradores de cadáveres». E a paca, a cotia, o tamanduá-bandeira, o tatu «com a sua couraça esbranquiçada e focinho agudo perfurador de todas as terras». E o jacaré, senhor dos rios. E a gigantesca sucuriju, cobra também presente nas águas e que «dum só golpe se lançava sobre cães e vitelos descuidados». E legiões de insectos, voadores e rastejantes. Sem esquecer o sapo-boi, cujos urros lancinantes atroam na solidão nocturna daquela «grande muralha verde» que parecia ter vontade própria, transformando seres humanos em títeres submetidos à sua força despótica.

«Ali não existia mesmo a árvore. Existia o emaranhado vegetal, louco, desorientado, voraz, com alma e garras de fera esfomeada.» (p. 144)

 

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Ferreira de Castro entre Eugenio Montale e Jorge Amado (Paris, 1971)

 

Espantoso, o conhecimento que o autor revela da floresta amazónica, conferindo plena validade ao título. António José Saraiva tinha razão ao mencionar Ferreira de Castro como «o primeiro escritor português que não usa gravata». Definição que ajuda a explicar a popularidade deste autor que sobrevive quando muitos dos que recusaram integrá-lo no cânone literário ungido pela Academia desapareceram sem deixar rasto.

Centrado no milenar confronto entre o homem e a natureza, A Selva lê-se como um romance de aventuras - e, à margem de qualquer rótulo erudito, é assim que apetece classificá-lo. Foi também isto que fascinou alguns dos seus leitores mais célebres. Agustina Bessa-Luís, que era parca em elogios, chamou-lhe «obra-prima» e confessou ter-lhe despertado a vocação literária. «Um clássico de nosso tempo, um desses poucos livros definitivos», sentenciou Jorge Amado. «Admirável romance», observou Stefan Zweig já no exílio brasileiro. «Livro inesquecível», salientou Albert Camus ao ler a célebre tradução francesa da obra, assinada em 1938 por Blaise Cendrars - que logo os invejosos cá do burgo, na sua eterna maledicência, se apressaram a dizer que tinha «melhorado muito» a versão original.

 

«A árvore solitária, que borda melancolicamente campos e regatos na Europa, perdia ali a sua graça e romântica sugestão e, surgindo em brenha inquietante, impunha-se como um inimigo. Dir-se-ia que a selva tinha, como os monstros fabulosos, mil olhos ameaçadores, que espiavam de todos os lados.» (p. 97)

Espiavam seringueiros como Firmino, imigrado do sertão naquele desterro sem fim à vista. Espiavam antigos escravos, como o negro Tiago, que trazia a tragédia inscrita no destino e protagoniza a terrífica cena final, de clara inspiração cinematográfica. Espiavam os próprios donos dos seringais, como o ganancioso Juca Tristão, inimigo da liberdade.

Tudo polvilhado com riquíssimo léxico brasileiro, contribuindo - também no plano da linguagem - para tornar este romance numa obra ímpar da literatura portuguesa. 

 

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«Eu devia este livro a essa majestade verde, soberba e enigmática que é a selva amazónica», confessa Castro nas breves linhas introdutórias do romance, escrito a uma velocidade vertiginosa - nas escassas horas vagas deste jornalista que chegou a presidir ao Sindicato dos Profissionais de Imprensa - entre 9 de Abril e 29 de Novembro de 1929. Recuando à década precedente, àquela árdua adolescência na floresta brasileira, quando «não houve um só dia» em que não desejasse evadir-se para a cidade. 

Aos 31 anos, sentiu-se obrigado a relatar este «drama de homens perante as injustiças de outros homens e as violências da natureza». E a nós, que vivemos em atmosfera de conforto, pôs-nos a par da «luta de cearenses e maranhenses nas florestas da Amazónia» perante a indiferença de quem, «no resto do mundo, se deixa conduzir, veloz e comodamente, num automóvel com rodas de borracha - da borracha que esses homens, humildemente heróicos, tiram à selva misteriosa e implacável».

Alberto, enfim amnistiado pelas autoridades republicanas, recebe a boa notícia por carta da mãe e prepara-se para voltar à pátria. Vai um homem mudado. Acima das paixões políticas, quer «justiça para todos»: passou a sonhar com um mundo onde não seja necessário ninguém degradar-se para subsistir. Um mundo onde a lei da selva não predomine fora daquela imensa muralha amazónica, «desse verde eterno e sempre igual».

 

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Anteriores textos desta série:

 

Sinais de Fogo - Do amor e da guerra

A Escola do Paraíso - Esta Lisboa de outras eras

O Anjo Mudo - Sem tecto, entre ruínas

A Tia Julia e o Escrevedor - Ouvir para crer

Os Teus Passos na Escada - O medo nunca morre

A Torre da Barbela - No reino dos mortos-vivos

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 16.04.21

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Ana Sofia Couto: «Um filme belíssimo sobre a memória, a doença, a beleza, o bem e o mal, e a possibilidade de encontrar em tudo isto a melhor lição de poesia. Venceu o prémio de melhor argumento na edição de 2010 do Festival de Cannes.»

 

João Carvalho: ««A pedido da direcção de Informação da TVI venho informar que as imagens do primeiro-ministro a testar o som, no púlpito, em São Bento, fornecidas pela RTP, não são para utilizar.» Ficamos a saber que S. Bento tem um púlpito, mas... quando um primeiro-ministro, preocupadíssimo com uma comunicação ao País sobre a chegada do FMI, pede a um Luís que lhe diga se fica melhor mostrar a orelha direita ou a orelha esquerda, está a testar o som?»

 

Rui Rocha: «Aquilo de que precisamos não é de menos democracia, mas de mais democracia. De uma democracia que evolua da ideia de que toda a irresponsabilidade é permitida para a consciência de que toda a responsabilidade pode e deve ser exigida. A resposta à crise não pode ser mais ausência e demissão dos cidadãos. Pelo contrário, é fundamental reforçar a participação. Desde logo, nas eleições. Mas, também antes e depois delas. 

 

Eu: «O universo de Raymond Carver é povoado de quadros agrestes, de visões desencantadas de um quotidiano onde a esperança há muito deixou de morar. É um mundo citadino, contemporâneo, cheio de personagens que andam à margem do afecto - um mundo de vencidos da vida, confrontados com a erosão de toda a espécie de ideais. Um mundo onde, apesar de tudo, irrompem uns súbitos lampejos de ternura: é nesta complexa atmosfera que tem feito soçobrar por manifesta incapacidade tantos escritores de renome que o malogrado norte-americano se agiganta, como cronista perfeito da era de todas as imperfeições, sem rasto de heróis. O tédio das sociedades materialistas e o desgaste do amor são temas que lhe são caros.

Era rico mas pedia dinheiro

Pedro Correia, 15.04.21

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Primeiro andamento:

«O que me ofende são algumas afirmações que por aí vejo, de gente... aliás alguns deles próximos de mim, que acham que eu andei a inventar que a minha família tinha posses que nunca teve, que o meu avô não era um homem rico, que nunca trabalhou no volfrâmio, que nunca enriqueceu no volfrâmio. Eu apresentei ao juiz a prova. Fui buscar as escrituras das partilhas da herança da minha mãe feitas nos anos 80. Para provar que a minha família tinha recursos, que a minha mãe era uma mulher rica, uma mulher que tem três heranças nos anos 80.»

«A minha mãe teve um conjunto de heranças que sensivelmente, pelos cálculos que podemos hoje fazer... de cerca de um milhão de contos.»

«A minha mãe teve sempre um cofre em casa, toda a vida. Toda a gente sabia.»

«O meu avô era um homem muito rico, era um homem de muitas posses.»

 

Segundo andamento:

«O engenheiro Carlos Santos Silva fez-me empréstimos em 2013 e 2014.»

«Em 2013 o engenheiro Carlos Santos Silva ofereceu-se para me ajudar porque eu estava a viver em Paris. Decidi ir para Paris para estar com os meus filhos, para fazer um mestrado e para que os meus filhos concluíssem o seu ensino secundário numa escola estrangeira. Não foi nenhuma vida de luxo. Foi um investimento na minha educação e na dos meus filhos. E o engenheiro Carlos Santos Silva decidiu financiar-me, ajudar-me nisso.»

«Estes empréstimos totalizam 560 mil euros.»

 

Excertos da entrevista que José Sócrates deu ontem à TVI

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 15.04.21

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Jorge Fonseca Dias: «Podemos apostar no fim da batota. No fim da burocracia. No choque fiscal empresarial. Num posicionamento realmente diferenciador no que toca à tecnologia e activos humanos. Podemos criar legislação que pisque o olho a capital e empresas. Podemos ser sociais para com quem precisa. Podemos ser solidários. Podemos ser palco para inovação na ciência. Podemos usar o mar. Podemos aperfeiçoar na energia renovável. Cada um de nós pode participar. Afinal, o que queremos nós para Portugal?»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Foi capa da L' Espresso. Para Alessandra Mammì é só o mais belo filme de Moretti. Considerado por Marco Politi, um especialista em questões do Vaticano do quotidiano "Il fatto", como uma obra genial, o filme que hoje estreia em Itália de um realizador de excepção é uma viagem pelo Vaticano, pelas suas hierarquias, pelos corredores do poder e pela solidão. Ou o drama de um Papa que depois de eleito para o trono de S. Pedro se confronta consigo próprio, com as suas fraquezas e as suas dúvidas. Michel Piccoli regressa no principal papel. Definitivamente uma obra a não perder.»

 

Teresa Ribeiro: «Pena não se poder fazer como no futebol e contratar no exterior os craques que fazem falta aqui no plantel. Sem o nosso ADN, que é, já não me restam dúvidas, o nosso maior problema estrutural, a governação seria mais fiável. Um alemão nas Finanças e um finlandês na Educação, para começar, não estaria mal. O tal chinês talvez pusesse na Economia. Nada como uns negócios da China para pôr a nossa Economia a funcionar.»

 

Eu: «Fernando Nobre anda a ser criticado, vejam lá, por faltar à palavra: disse que não se envolveria com nenhum partido e acabou por aceitar figurar como independente nas listas do PSD. Quem o critica, em grande parte, é gente que acha muito bem haver um primeiro-ministro que agora governa com o FMI quando há poucos dias jurava que não governaria com o FMI. (...) Não me choco com a duplicidade de critério destes incongruentes, que em larga medida cumprem uma antiquíssima tradição do servilismo lusitano: é de bom tom evitar qualquer crítica ao Governo. Choca-me, isso sim, que Portugal esteja à beira da bancarrota - e que, segundo as estimativas do FMI, venha a ser o único país da União Europeia em crise persistente no próximo ano. De uma coisa tenho a certeza: não foi Fernando Nobre quem conduziu Portugal a este cenário de ruína.»

O triunfo do ódio e da iliteracia

Pedro Correia, 14.04.21

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Na ânsia quase desesperada de amealhar cliques, que permitam a certos títulos continuar a subsistir no limiar da sobrevivência, a imprensa em linha continua a reproduzir injúrias e calúnias de todo o tipo. Ainda agora verifiquei isso, a propósito da morte súbita de Jorge Coelho.

Vocabulário obsceno, em diversos sentidos da expressão, foi não apenas admitido mas tolerado (se não mesmo incentivado) nas caixas de comentários dessas publicações. 

Insultos carregados de ódio pessoal ou ideológico que no DELITO DE OPINIÃO, por exemplo, vão de imediato parar ao ecoponto, ali são divulgados e ficam perpetuados na nuvem digital.

Interrogo-me se é esse o género de leitores que tais periódicos querem captar. Interrogo-me se para os responsáveis desses jornais valerá mesmo tudo para atrair e reproduzir tal lixo. Questiono-me ainda se as injúrias os visassem a eles teriam idêntica compreensão e tolerância.

E já nem me refiro apenas à linguagem caluniosa. Refiro-me também aos mais inconcebíveis erros de ortografia, que transformam a língua portuguesa numa abjecta caricatura de si própria: também ficam perpetuados, talvez para a eternidade, nessas caixas de comentários de jornais que volta e meia publicam sisudos editoriais em defesa da cultura - e desse "bem cultural" maior que é o nosso idioma, património comum de quase 300 milhões de pessoas

 

Não reproduzo aqui as injúrias, como é óbvio. Mas reproduzirei alguns dos mais primários e boçais erros ortográficos que li só numa dessas caixas de comentários de um desses jornais, supostamente de grande circulação. Para que se perceba melhor como estes títulos se demitem da sua função essencial - até reconhecida por lei - de preservação e valorização da língua portuguesa:

«Pás a sua alma...»

«... muito cordeal...»

«... acto de degnidade...»

«... falar nele nos mídea...»

«... intelectualemente honesta...»

«... desça em pás...»

«... estado portugues...»

«... sofreu 3 banca rotas económicas...»

«...quando se não vêm qualidades...»

«porque è cuando morre um pobre ninguem fala...»

 

O outro falava no triunfo dos porcos. Nós assistimos, impávidos, ao triunfo do ódio e ao triunfo da iliteracia. Todos os dias, a toda a hora, nos locais mais insuspeitos. Supostamente geridos por gente letrada que supostamente recebe ordens para acolher todo o lumpen e todo o lixo.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 14.04.21

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João Carvalho: «Passos Coelho quer as contas do Estado bem feitas e às claras. Silva Pereira põe-se a perorar: as contas estão bem feitas e esta não é a altura certa para fazer fitas. Não se entende Silva Pereira, que vai acabar por ir embora com uma imagem fracota. Alguma vez as contas do Estado foram bem feitas?»

 

Ricardo Gross: «Cabe aos melhores filmes iludirem-nos com a possibilidade da libertação. Substituição ilusória e efémera. As mulheres e o cinema; o cinema e as mulheres. Mero fogacho da plenitude que não se recupera nunca mais. Duas irrealidades que o obsessivo está condenado a conjugar até ao fim. Que não termina quando os filmes acabam ou os pequenos romances recomeçam. “Vertigo”. Termino o texto e vou para o cinema arder.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Gente como a Estela [Barbot], discreta, competente e séria, anda escondida, foge dos partidos e não precisa dos holofotes do poder para seguir o seu caminho. Não tenho dúvida de que nesta hora de crise que todos atravessamos, crise que radica antes de tudo o mais na falta de estatura dos nossos dirigentes, pessoas como ela fazem muita falta a este país.»

Desde já uma das palavras do ano

Pedro Correia, 13.04.21

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 13.04.21

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André Couto: «O Governo caiu. O Benfica, desta vez, não foi campeão. O FMI chegou. A campanha corria macambúzia. O tom e os assuntos do debate ajudavam a que os programas do costume mais parecessem canções de embalar. Até que Pedro Passos Coelho sacou da cartola - acho que este trocadilho ainda não foi muito explorado - Fernando Nobre como candidato a Presidente da Assembleia da República. E tudo mudou.»

 

António de Almeida: «A hipocrisia internacional não conhece limites. Se foi inquestionavelmente legítima a intervenção norte-americana no Afeganistão, atacada pela Al-Qaeda com a cobertura do regime talibã, é estranho que se invoquem razões humanitárias para invadir o Iraque ou a Líbia. Para não parecer muito mal, neste momento a comunidade internacional também parece finalmente acordar para a Costa do Marfim, onde um presidente derrotado nas urnas usurpou efectivamente o poder.»

 

João Carvalho: «António Mota não fez qualquer descoberta: Portugal tem sido incapaz de qualquer planeamento, estratégico ou não, e isso é um mal que vem de longe. Já quanto à internacionalização do grupo que trata por tu as grandes obras públicas, o melhor que podemos fazer é desejar-lhe felicidades e que mande de lá saudades. Porque o que menos precisamos por cá (há muito tempo) é da Mota-Engil, do BES, da Brisa, da Lusoponte e de todos aqueles do costume que vivem à mesa do Orçamento do Estado e que querem abanar-nos mais um bocado para ver se ainda cai algum.»

 

Rui Rocha: «O Governo de Sócrates não se ficou por conduzir o país à bancarrota. No momento em que ministros de um Governo eleito democraticamente, em conluio ou por decisão unilateral de um deles, violam as leis em vigor, adoptando uma conduta que pode consubstanciar a prática de um crime de abuso fiscal, a insolvência não diz respeito apenas à inexistência de disponibilidades financeiras. Na verdade, estamos a falar de uma falência do próprio Estado de Direito. Não foram só as importâncias retidas na fonte aos polícias que não foram entregues ao Ministério das Finanças. Foi a própria fonte da ética e do fundamento democrático que secou.»

 

Eu: «O critério de Cavaco é estreito. E confirma que o actual chefe do Estado perdeu atributos revelados noutros tempos, em que fazia pontes para sectores políticos muito para além do partido que comandou. Falta neste elenco designado por Belém alguém claramente conotado com a esquerda. Cavaco teria revelado rasgo político se pelo menos uma das personalidades que indicou para o Conselho de Estado fosse desta área política – e porque não até próxima do PCP, que não tem qualquer representante directo ou indirecto neste órgão em representação da Assembleia da República? Não seria pedir de mais a alguém que procura não ser confundido com um líder de facção. Procura sem o conseguir. Por vezes dir-se-ia até que não faz qualquer esforço nesse sentido.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 12.04.21

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Fátima Mégre: «A dinâmica da violência, do conflito, da instabilidade não só tem recrudescido mas tem encontrado a sofisticação de meios de aniquilamento. Do nosso aniquilamento. Cada vez mais isolados apesar de mais próximos, cada dia mais invisíveis apesar de todas as visibilidades possíveis, cada vez mais ignorantes e ignorados apesar de toda a velocidade de conhecimento.»

 

João Carvalho: «Finalmente, tal como aqui previmos desde sempre. Adeus, TGV. Falta agora fechar a RAVE, que nunca devia ter existido e já comeu a sopa de muitos pobres. Só é pena ainda termos de pagar a teimosia estúpida de quem quis a todo o custo avançar com o que devia estar suspenso há muito e não se importou de assumir compromissos contratuais que estava na cara jamais ser capaz de cumprir. Pudera, não é? Ninguém lhes cobra responsabilidades e não lhes sai dos bolsos.»

 

Luís M. Jorge: «Qualquer totó no lugar de Passos Coelho já teria garantida a maioria absoluta, mas dizer isto é não conhecer o grémio dos diletantes. O PSD é uma miséria disfarçada de tristeza metida dentro de um logro e condenada ao fiasco. A única coisa que o motiva é a alegria sempre renovada de escorregar nas cascas de banana que o primeiro-ministro, com invejável desprendimento, lhe atira ao caminho.»

 

Rui Rocha: «Pelo caminho que as coisas levam, vencerá as próximas eleições aquele que apresentar os níveis de incompetência mais eficazes.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «A actual “geração à rasca” ainda tem a casa dos pais para se abrigar. Os seus filhos e netos provavelmente não terão, porque a essa sucederá uma geração ainda mais à rasca, dominada pelas poses bonapartistas dos actuais dirigentes. Um bonapartismo só de pose. Não na essência. Porque se persistirmos nos actuais modelos de participação e liderança, acabaremos todos não por sermos como o corso, mas por sermos como eles: isto é, definitivamente sonsos, medíocres, mansos e sempre à rasca.»

 

Eu: «Alguns actores são assim: atingem um estatuto de primeira grandeza, andam uns anos aclamados por um vasto público, são idolatrados e invejados em proporções quase iguais até que um dia sentem na pele que não existe nada mais ilusório do que o efémero mundo da fama. Nesse dia, trocam a vida de fingimento pela vida real e deixam de ser confundidos com as suas personagens mais célebres.»