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Quem fala assim... (3)

Camané: «Não costumo cantar no duche»

por Pedro Correia, em 03.07.20

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«My Way, de Frank Sinatra, e Yesterday, dos Beatles, são músicas da minha vida»

 

Percebe-se rapidamente que é uma pessoa tímida. Mesmo a falar ao telefone. Mas o fadista - que considero o melhor intérprete da canção nacional da sua geração - revelou uma paciência inexcedível nas respostas ao interrogatório que lhe fiz.

 

Tem medo de quê?

Tenho medo de ter medo.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Acho muito impessoal. Acabamos por entrar numa certa rotina que não me satisfaz.

A sua bebida preferida?

Coca-Cola.

Tem alguma pedra no sapato?

Tenho várias.

Não há meio de saírem?

Vão acabando por sair aos poucos. O tempo faz com que saiam todas.

Que número calça?

39.

Que livro anda a ler?

Adeus às Armas, de Hemingway. Parei de ler a 50 páginas do fim por excesso de trabalho, mas acabarei em breve. Estou a gostar muito.

Tem muitos livros à cabeceira?

Não muitos.

A sua personagem de ficção favorita?

Sherlock Holmes é uma personagem que sempre me atraiu. Mas também gosto do Drácula, de Mr. Hyde e de Jack, o Estripador.

Rir é o melhor remédio?

Sim.

É algo que faz com frequência?

Não tanto como devia. Devemos rir-nos de nós próprios, não devemos levar-nos demasiado a sério. Se nos rirmos com frequência acabamos por ter uma vida muito mais saudável e feliz.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Choro às vezes or coisas muito simples. A última vez que me aconteceu foi recentemente ao ver num canal da televisão portuguesa um documentário de um rapaz que ensina arte a pessoas com deficiência que já conseguiram vender quadros pela Europa toda.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de conduzir.

É bom transgredir os limites?

Não. Às vezes gosto de correr riscos, mas não gosto de pôr ninguém em risco.

Qual é o seu prato favorito?

Cozido à portuguesa. Em qualquer estação do ano.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Talvez a preguiça.

A sua cor preferida?

Azul.

No futebol também?

No futebol é o vermelho.

Costuma cantar no duche?

Não. Aliás não costumo cantar em casa.

E a música da sua vida?

Há várias. Gosto muito do My Way, do Frank Sinatra. E também do Yesterday, dos Beatles.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. Habituei-me a reconhecer este hino. Está bem assim.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Nelson Mandela [falecido em Dezembro de 2013]. É um homem que admiro pela sua coragem, pelo seu espírito de resistência e também pela sua bondade. São pessoas assim que conseguem fazer o mundo melhor.

As aparências iludem?

Acho que sim. 

Qual é a peça de vestuário que prefere?

As calças. Têm de ser confortáveis.

Qual é o seu maior sonho?

Cantar fado a vida toda. Sempre foi esse o meu sonho.

E o maior pesadelo?

É não poder concretizar esse sonho.

O que o irrita profundamente?

A inveja, a maledicência.

Qual a melhor forma de relaxar?

Ir ao cinema, ouvir música, ir à praia.

O que faria se fosse milionário?

Concretizava alguns sonhos materiais e tentaria ajudar algumas pessoas que necessitam, praticando voluntariado.

Uma mulher bonita?

Scarlett Johansson.

Acredita no paraíso?

Não sei.

Tem um lema?

Vive e deixa viver.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (29 de Novembro de 2008)

Belles toujours

por Pedro Correia, em 03.07.20

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Kira Miró

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 03.07.20

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Ana Vidal«E agora, para aligeirar o fim-de-semana, aqui têm a última moda no Japão: saias pintadas de modo a parecerem transparentes. Não há dúvida, vivemos cada vez mais num mundo de trompe l'oeil... razão tinha o Magritte.»

 

Leonor Barros: «Hoje aconteceu-me ter vontade de esbofetear um livro. Sim, é verdade, insólito e até um pouco embaraçoso para quem tem os livros nos genes, outra mania com que vim equipada de origem, mas nada como admiti-lo. Ocupava um lugar de destaque, o parvalhão, e gritou-me Desculpa, mas vou chamar-te amor. Ai não vais, não. AMOR? Virei-lhe as costas e fui irritada aos deliciosos biscoitos crocantes de coelho, aves e legumes que fazem as delícias da população felina cá da casa. Que título mais ridículo. Parvalhão.»

 

Paulo Gorjão: «Diogo Freitas do Amaral anunciou hoje ao mundo em entrevista ao Expresso que não acha provável que apoie Pedro Passos Coelho. Acha-o demasiado liberal, pelo menos por enquanto. Acho delicioso este pormenor do pelo menos por enquanto. É o equivalente na política à porta de emergência em caso de incêndio. Pela minha parte gostaria que a probabilidade de não apoiar se confirmasse, apesar de, na verdade, não apoiando estar a dar um enorme apoio...»

 

Eu: «No futebol, a fraude pode compensar: ganhou quem merecia perder. Mas o estranho sortilégio deste jogo passa também por isto. O rosto de Gyan, devassado pelos grandes planos televisivos, era uma máscara de dor: uma etapa crucial da vida dele fechou-se para sempre quando aquela bola bateu na barra. Naquele momento, não havia ser humano tão fotografado no planeta. Naquele momento, não havia ser humano tão solitário no mundo.»

Canções do século XXI (1187)

por Pedro Correia, em 03.07.20

Do meu baú (3)

por Pedro Correia, em 02.07.20

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Sou coleccionador compulsivo das entrevistas de falsos profetas. Sobretudo aqueles que profetizam desgraças e calamidades. Um dos mais simpáticos dentro do género, devo reconhecer, é João Ferreira do Amaral «economista conceituado», como o introduz Clara Ferreira Alves na entrevista (insolitamente apresentada como "almoço") que assinou com ele na revista do Expresso, edição de 4 de Maio de 2013

O título de capa é um daqueles que vendem sempre bem: «Vamos sair do euro.» Assim mesmo, neste tom categórico, sem margem para dúvida.

Como se fosse pouco, lá dentro (página 37) a certeza torna-se ainda mais indubitável: «É claro que vamos sair do euro.»

 

«Num restaurante de Lisboa com vista larga sobre o rio, pediu cabrito assado com batatas. Água. Mais nada. Fala dos assuntos com a voz desapaixonada do técnico e do conhecedor.» Assim alude a ele a jornalista, em prosa quase poética, sem disfarçar o deslumbramento pelo entrevistado: «Lê-lo é um exercício de clareza e de esclarecimento, e tem razão em muitas coisas que aponta. A saída deverá ser controlada para não ser traumática, e será um benefício para a economia. Portugal continuaria na União Europeia e no espaço Schengen. A história já lhe deu razão em quase tudo.»

Caramba, é difícil um simples leitor não se sentir esmagado com tanta sapiência. Tudo isto nos parágrafos de entrada, ainda sem termos acesso ao pensamento do entrevistado. 

 

«Não ponho sequer a alternativa de ficarmos», debita o professor, que trabalhou no Palácio de Belém, entre 1991 e 1996, como consultor de Mário Soares. E nem seria necessário convocar os portugueses para referendar tão relevante opção política. Motivo? «Visto que não entrámos com um, não há razão para precisarmos de um para sair.»

Possíveis consequências, para o País, de uma "saída ordeira" da moeda única? Hipótese desenvolvida num trecho da entrevista: «Seria o cenário argentino. Teríamos dois anos infernais e depois resolvia-se. O pior são os dois anos, do ponto de vista democrático. A violência, a bandidagem...» E noutro trecho: «Vejo imensos [riscos]. Pode correr mal. Pode gerar-se um pânico.»

 

Sete anos depois, ao revisitarmos este ameno bate-papo, ficamos esmagados com tanta acutilância e tanta presciência daquele a quem «a história já deu razão em quase tudo».

Fez bem, de qualquer modo, o Presidente Soares em não ter seguido os conselhos deste seu sábio consultor.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 02.07.20

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Ana Cláudia Vicente: «Apresentando-se aqui em embalagem genérica, este composto rico em Vitamina C consta no stock da nossa botica desde o início do surto futeglobal. Parabéns à Holanda.»

 

Ana Margarida Craveiro«O que é o interesse nacional, e quem o define?»

 

João Carvalho: «É preciso ter lata ou estar a fazer pouco da gente, quando se sabe que mais de metade dos portugueses nem irão sair de casa nas férias para ir de autocarro à praia mais próxima. Ainda não satisfeito, vem o governo promover a aplicação das pequenas e médias poupanças em Títulos do Tesouro, com a garantia de uma boa retribuição. Garantia? Garantia de quem? Quem está desacreditado não pode dar garantias, não é?»

 

Leonor Barros: «O IVA aumentou, provocando uma subida nos preços de tudo e mais alguma coisa, ele é gás, pão, água, luz, tudo, rigorosamente tudo. Os salários sofreram uma redução anunciada, fazendo cumprir as tão elogiadas medidas de austeridade. Aproxima-se a passos largos a época do ano que os pais são extirpados de uma quantia ofensiva em manuais escolares que tão a propósito também sofreram um aumento acima da inflação. E neste cenário miserável o ministro das Finanças vem pedir aos portugueses para pouparem. Só pode ser brincadeira.»

 

Paulo Gorjão: «Almas mal-intencionadas diriam que começou a silly season. Não é verdade. Uma manifestação com cinco pessoas, mesmo que organizada por uma obscura Plataforma -- tipo Movimento Verde Eufémia -- merece cobertura noticiosa tal qualquer manifestação com 100 mil intervenientes.»

 

Eu: «Outra conquista de José Sócrates: um novo máximo histórico do desemprego em Portugal. Com os níveis europeus cada vez mais longe. Recordo: este é o mesmo político que em Fevereiro de 2005, quando o PSD estava no governo e a taxa de desemprego era de 7,1%, se indignava com estas palavras veementes: "Este número é bem a marca de uma governação falhada, de uma economia mal conduzida". Agora, com mais 3,8% de desempregados, chegou a altura de parafrasear o líder socialista na campanha para as legislativas de há cinco anos: estamos perante uma governação falhada.»

Ligação directa

por Pedro Correia, em 02.07.20

 

AO Informador.

 

Canções do século XXI (1186)

por Pedro Correia, em 02.07.20

Ofereçam um GPS a Costa

por Pedro Correia, em 01.07.20

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Alguém lá no palacete de São Bento, onde funciona a residência oficial do primeiro-ministro, devia oferecer um GPS a António Costa.

Veio ele dizer agora, em entrevista ao jornal catalão La Vanguardia, que não haverá qualquer problema com festejos de rua nos jogos da fase final da Liga dos Campeões, que irão disputar-se na capital portuguesa, pois o "dever cívico de recolhimento" imposto a 19 freguesias da Área Metropolitana de Lisboa, no âmbito do estado de calamidade que ainda aqui vigora, não abrange o centro da cidade, onde se situam o estádio José Alvalade e o estádio da Luz.

«Não se trata de Lisboa, mas apenas de alguns bairros pertencentes a municípios vizinhos», declarou Costa nesta entrevista. Dizendo, categórico e taxativo: «Não existe nenhuma relação com o centro da cidade de Lisboa, onde se celebrará [a Liga dos Campeões].»

 

Há aqui uma óbvia fuga à verdade - eufemismo próprio dos editorialistas da imprensa portuguesa como alternativa ao substantivo mentira quando visam governantes.

Costa parece ignorar que Lisboa é um dos concelhos abrangidos pelas mais recentes medidas de confinamento impostas pela necessidade de conter a expansão do Covid-19, estando representada nesta lista nada lisonjeira pela freguesia de Santa Clara, que abrange as antigas freguesias da Ameixoeira e da Charneca do Lumiar. 

 

Vamos lá medir distâncias. Apenas 3,6 km separam a Ameixoeira do Campo Grande, onde irão disputar-se alguns dos jogos. Até dá para ir a pé.

Mesmo várias freguesias de concelhos vizinhos agora abrangidos pelas medidas especiais de contenção estão a curtíssima distância daqueles estádios. Seguem-se alguns exemplos: vai-se de Odivelas a Carnide, onde se disputarão outros desafios, em apenas 2,8 km; o trajecto de Camarate (Loures) ao Campo Grande esgota-se em 5,3 km; basta percorrer 2,4 km para chegar da Venda Nova (Amadora) a Benfica; e vai-se de Moscavide (Loures) ao Campo Grande em escassos 5,7 km.

 

Serve isto para demonstrar que o chefe do Governo, nesta entrevista destinada a conter danos junto dos espanhóis após uma notícia com destaque de primeira página no conceituado El País que aludia a três milhões de lisboetas novamente confinados, respondeu à falsidade com informações inexactas (outro eufemismo). 

Serve também para confirmar que necessita com urgência de um GPS. Um dos seus assessores deveria encarregar-se disso já no próximo dia 17, quando Costa soprar as velas do bolo de aniversário. As melhores prendas são sempre aquelas que se tornam úteis.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 01.07.20

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João Carvalho: «Em Portugal, onde o(s) governo(s) socialista(s) promete(m) sempre não aumentar impostos e criar melhores condições de vida, já todos sabemos o que isso significa: os impostos sobem, as promessas caem e os mais sacrificados são os primeiros a pagar as crises. Os portugueses viviam melhor há cinco anos.»

 

Rita Barata Silvério: «Basta ler a biografia de Charlie Sheen e vê-se logo que não bate bem: o gajo é cocaína, conduzir com os copos, divórcios com direito a pancadaria, curas de desintoxicação, filmes merdosos e redenções aos quarenta e tal. E gostamos. Eu gosto. Todos os bêbedos deveriam ter direito a redimir-se, mais ainda quando o resultado é uma série de televisão cujo argumento principal é o desprezo total pelas supostas bases da vida pequeno-burguesa a que todos, no fundo, aspiramos: ter um companheiro para a vida, filhos com a pequena comunhão feita, casa numa urbanização com piscina, ir de férias com casais amigos, um monovolume com todas as prestações e a anestesia garantida pela rotina da classe média.»

 

Eu: «A participação da PT na Vivo é vital para os interesses nacionais? Nada que tenha convencido o Financial Times. "A estupidez colonial ainda não morreu [em Portugal]", comenta o prestigiado jornal londrino, que a propaganda socrática tanto gosta de invocar nas raras vezes que ali surge uma boa notícia para a economia portuguesa. É, em síntese, uma decisão mal fundamentada, atentatória da liberdade negocial e do princípio basilar da livre concorrência, possivelmente ferida de ilegalidade à luz do direito comunitário e provavelmente geradora de efeitos muito mais perversos do que aqueles que pretenderia atenuar. E quase tão incompreensível como o pesado silêncio que o Presidente da República tem mantido nesta matéria.»

Entre os mais comentados

por Pedro Correia, em 01.07.20

Em 22 destaques feitos pelo Sapo em Junho, entre segunda e sexta-feira, para assinalar os dez blogues nesses dias mais comentados nesta plataforma, o DELITO DE OPINIÃO recebeu  22 menções ao longo do mês. Fazendo assim o pleno.

Incluindo três textos na primeira posição, onze na segunda e quatro na terceira.

 

Os textos foram estes, por ordem cronológica:

Até sempre, Barata (64 comentários, terceiro mais comentado do fim de semana) 

Um imperfeito anti-herói (220 comentários, o mais comentado do dia)

Terrorismo (112 comentários, segundo mais comentado do dia) 

É preciso é que a bola role (50 comentários, o mais comentado do dia) 

Mr. Lamb, I presume (36 comentários, segundo mais comentado do dia) 

Marx, Hegel, Kant e Nietzsche (74 comentários)  

Violência (78 comentários, segundo mais comentado do dia)  

"Líder da oposição": procura-se (46 comentários, segundo mais comentado do dia)  

Sete anos (28 comentários, segundo mais comentado do dia)   

Palavras dos leitores (30 comentários, terceiro mais comentado do dia) 

O ministro em fuga (50 comentários, segundo mais comentado do fim de semana) 

A vitória póstuma de Hitler (116 comentários, o mais comentado do dia) 

As canções da minha vida (17) (54 comentários, segundo mais comentado do dia) 

Crise no PAN, crise no jornalismo (58 comentários, segundo mais comentado do dia)

Covid-19 nos matadouros alemães (42 comentários, terceiro mais comentado do dia)  

Quem fala assim... (1) (30 comentários) 

Pensamento da semana (47 comentários, terceiro mais comentado do dia) 

Bom jornalismo (22 comentários)

O caluniador (106 comentários, segundo mais comentado do dia) 

PANdemia (36 comentários, segundo mais comentado do dia)

O passeio dos tristes (56 comentários)

Veritas odium parit (41 comentários, segundo mais comentado do dia)

 

Com um total de 1396 comentários nestes postais. Da autoria da Maria Dulce Fernandes, da Cristina Torrão, do Paulo Sousa e de mim próprio.

Fica o agradecimento aos leitores que nos dão a honra de visitar e comentar.

Canções do século XXI (1185)

por Pedro Correia, em 01.07.20

Uma lição de vida

por Pedro Correia, em 30.06.20

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Por vezes, no mais inesperado dos lugares, despertam inimagináveis vocações. Aconteceu com José Saramago, o que é um - entre tantos outros - aspecto memorável da sua biografia. Impossibilitado de prosseguir os estudos para além do curso profissional de serralharia mecânica na escola industrial Afonso Domingues, o jovem Saramago passava os tempos livres recolhido na biblioteca municipal de Lisboa, no Palácio Galveias, ao Campo Pequeno. Enquanto os seus parceiros de geração optavam por folguedos, bailaricos e comezainas, ele cultivava-se com esmero, persistência e determinação naquelas salas austeras que lhe propiciaram o equivalente à formação universitária que formalmente nunca chegou a ter.

O Nobel de 1998 recorda esse período num admirável prefácio escrito para o livro De Volcanas Llena: Biblioteca y Compromiso Social (Gijón, Trea, 2007). «Era um lugar em que o tempo parecia ter parado, com estantes que cobriam as paredes do chão até quase ao tecto, as mesas à espera dos leitores, que nunca eram muitos (...). Não posso recordar com exactidão quanto durou esta aventura, mas o que sei, sem sombra de dúvida, é que se não fosse aquela biblioteca antiga, escura, quase triste, eu não seria o escritor que sou. Ali começaram a escrever-se os meus livros», anotou Saramago, lembrando os dias, meses e anos ali passados.

Uma lição de vida.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 30.06.20

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Adolfo Mesquita Nunes: «O que é isso de interesse nacional? Quem o define? O governo? Um ministro? O interesse nacional varia então de ministro para ministro ou de governo para governo? Podem existir interpretações diversas sobre o que é o interesse nacional? E se sim, podemos então falar de um único interesse nacional? Pode alguém saber ao certo, e por todos, qual é o interesse nacional?»

 

Ana Cláudia Vicente: «No adeus português à competição em curso não podemos deixar de indicar este revigorante elixir, oriundo do extremo oeste ibérico. De extracção duriense, o mesmo combina de forma harmoniosa virtualidades atlânticas e meridionais, sendo particularmente indicado em situações de lacrimejamento inflamado, como as ontem acusadas por considerável parte da população nacional.»

 

Ana Vidal: «- Bom dia, é do Zezé World? Quero inscrever-me naquele curso de 15 dias grátis, de Kamasutra, com o vosso novo professor Zezé Littlebed.

- Não, não, espere aí... está a falar para o Wall Street Institute.

- E não é a mesma coisa?

- Não. Aqui só se ensina inglês.

- Só inglês?? Olhe, fique sabendo que vou queixar-me à DECO, por publicidade enganosa!»

 

André Couto: «Não sei se Sarah Palin colocou implantes, ou se Sarah Palin não colocou implantes. Sinceramente isso nem me interessa muito. Interessante, interessante, é imaginar esta discussão a surgir em Portugal, com figuras portuguesas, no rescaldo das pretéritas legislativas de 2009... Que pagode seria!»

 

Leonor Barros: «Não é só o futebolês, essa linguagem única, cheia de prognósticos depois do jogo ou quadrados que se fazem com três. O que me inquieta neste desporto que há quem diga rei, não é apenas isso, porque como se sabe sou uma republicana empedernida e sou contra cargos que não sejam eleitos por essa massa desalmada chamada povo.»

 

Eu: «Adoro ouvir falar futebolês na televisão. Adoro aqueles neologismos muito giros debitados pelos locutores do desporto-rei. Adoro o léxico muito típico de quem tem por missão relatar jogos de futebol no pequeno ecrã. É um idioma tão moldável que até podemos falar futebolês sem estarmos propriamente a falar de futebol.»

Canções do século XXI (1184)

por Pedro Correia, em 30.06.20

Do meu baú (2)

por Pedro Correia, em 29.06.20

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As crises, à partida, são péssimas. Mas em jornalismo são óptimas: ficam sempre bem em qualquer manchete. Sobretudo quando surgem com a vaga avassaladora da que foi desencadeada pelo colapso do centenário Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimento dos EUA. Uma queda que provocou um abalo à escala planetária, bem revelador da fragilidade dos circuitos económicos do mundo contemporâneo.

No dia seguinte, 16 de Setembro de 2008, a manchete do DN dizia quase tudo em apenas cinco palavras: «A pior crise desde 1929». Foi preciso aguardar oito décadas - e haver uma guerra mundial de permeio - para ocorrer uma derrocada financeira comparável à da tristemente célebre queda da Bolsa novaiorquina que mergulhou os EUA numa década de depressão. 

Consequências para o nosso país? Não havia problema, apressou-se a garantir a nossa suprema autoridade financeira, então gerida pelo inefável Vítor Constâncio: «Em Portugal, a exposição ao Lehman não é significativa, segundo o Banco de Portugal», lia-se na última frase do texto que acompanhava esta manchete.

Lá dentro, na página 7, outra declaração igualmente tranquilizadora: «Estamos a avaliar, mas a nossa exposição ao Lehman Brothers é absolutamente módica, muito pouco expressiva.» De um tal Ricardo Salgado, presidente do Banco Espírito Santo, esse admirável modelo de sagacidade e lisura.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 29.06.20

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André Couto: «Alguém viu o último anúncio do Santander-Totta? Refiro-me ao que nos brinda com um "lá lá lá Solid! Solid as a rock!" e desagua na fundamentação da afirmação com a avaliação feita pela Standards & Poor's e outra agência internacional de rating. Giro, giro é vermos ainda no anúncio moedas a afundarem-se mar adentro... Qual é a parte da transmissão de tranquilidade e segurança que me escapa?»

 

Bandeira: «O truque consiste em parar de tentar encontrar o parceiro certo e começar a fugir dos errados.»

 

João Carvalho: «Portugal tem mais de cinco milhões de pobres declarados e pobres envergonhados, o que corresponde a mais de metade da escassa população. Ora, como o primeiro-ministro anda há cinco anos a afirmar a pés juntos que a pobreza está a diminuir, haja quem tenha paciência para o fazer ver que os portugueses viviam melhor há cinco anos.»

 

Eu: «Portugal despediu-se hoje do Mundial da África do Sul. Um golo de Villa aos 63', culminando uma excelente combinação com Iniesta e Xaví, bastou para os espanhóis derrotarem os portugueses nesta partida dos oitavos-de-final disputada na Cidade do Cabo. Minutos antes do golo, Carlos Queiroz tirou do campo Hugo Almeida, o mais eficaz dos atacantes portugueses. Esta inexplicável substituição, conjugada com o golo sofrido, bastou para desnortear a selecção das quinas, que até aí conseguira anular as jogadas ofensivas dos espanhóis e praticara bons lances de contra-ataque, equilibrando a partida. A partir daí, foi o descalabro: o meio-campo português praticamente deixou de existir. E os espanhóis só não marcaram mais porque na baliza estava Eduardo, um dos melhores guarda-redes deste Mundial.»

Canções do século XXI (1183)

por Pedro Correia, em 29.06.20

Do meu baú (1)

por Pedro Correia, em 28.06.20

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Se há manchetes que me fazem sorrir é esta. «Túnel debaxo do Tejo entre Beato e Montijo», titulava o Diário de Notícias a 2 de Agosto de 2007. Prevendo já a chamada "terceira travessia" em Lisboa do maior rio português, com base no estudo de avaliação do empreendimento encomendado pela Confederação da Indústria Portuguesa. Segundo esta notícia - publicada vai fazer 13 anos - a travessia, «através de túnel ou ponte», iria situar-se no eixo Beato/Montijo, «em alternativa à [suposta] travessia entre Chelas e Barreiro, permitindo oferecer melhores acessos, sobretudo ferroviários, a um futuro aeroporto naquele local». O estudo resultou da encomenda a um «consultor internacional» cuja entidade não era revelada. 

O primeiro-ministro, à época, era José Sócrates. Que também figurava nesta capa do jornal, em notícia com menor destaque, sob o título «Curso de Sócrates livre de ilegalidades»: a Procuradoria-Geral da República acabara de arquivar um inquérito à licenciatura do chefe do Governo, concluindo que «não houve tratamento de favor». 

Palavras para recordar (68)

por Pedro Correia, em 28.06.20

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FERNANDO MEDINA

SIC, 20 de Maio de 2019

«Bruno Lage demonstrou ser o homem de quem os jogadores e os adeptos [do Benfica] precisavam.»


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