Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 06.03.26

21523202_SMAuI.jpeg

 

Costa: «Tenho Ernestina na conta de uma obra magna. Imaginá-la mutilada pelo ignóbil acordês é coisa especialmente arrepiante (mas parece que já nem Eça escapa).»

 

Diogo Noivo: «O rapper catalão Pablo Hasél foi detido há semanas. Desde então, as noites de Barcelona passam-se a ferro e fogo. A imprensa portuguesa explicou-nos que o crime de Hasél foi o de injuriar a Coroa. José Pacheco Pereira, sempre lesto na defesa da pátria catalã, pegou na explicação e embandeirou em arco. Porém, tudo isto sofre de um pequeno mal: é um embuste.»

 

JPT: «Lembrei-me do meu primeiro texto no Delito de Opinião. O qual foi um voo de pássaro sobre este assunto, escrito em 2010 (!) quando vivia em Moçambique e de lá algo estupefacto olhava para este tudo isto pátrio - e assim continuo, afianço. E que aqui botei como convidado, numa bela série de convites a bloguistas que o Pedro Correia animou.»

 

Paulo Sousa: «O auto-caravanismo como modo de viajar livremente e fazer turismo em Portugal está definitivamente ameaçado.»

Ali viveu-se um tocante, irrepetível e perpétuo amor

Em memória de António Lobo Antunes, neste dia da sua morte

Pedro Correia, 05.03.26

hopper.jpeg

Quarto em Nova Iorque (1932), de Edward Hopper

 

Uma das mais belas crónicas de um escritor português que li desde sempre foi publicada há vários anos num jornal espanhol. O escritor era António Lobo Antunes e o jornal era o suplemento literário do El País. Adorava reler essa crónica, que tanto me deslumbrou. Lobo Antunes falava da primeira mulher e dos tempos felizes que partilhou com ela num apartamento da Rua D. Filipa de Vilhena, em Lisboa, quando a vida era sinónimo de eternidade e todos os sonhos pareciam possíveis. O casamento desfez-se, a mulher e musa morreu. Lobo Antunes confessa, num daqueles parágrafos que só podem ser escritos com o coração, que nunca mais foi capaz de voltar a passar naquela rua.

Reflecti nesta fabulosa crónica que tanto gostaria de reler em livro quando há dias caminhava pelo pacato bairro do Arco do Cego, no coração da Lisboa burguesa e "remediada", como dantes se dizia. Nesse bairro morou outro grande escritor português: Aquilino Ribeiro. Por coincidência ou talvez não, foi também escolhido por José Saramago quando se demorava por Lisboa.

 

20749000_0KkQM[1].jpg

Já houve um tempo em que Saramago vivia noutra zona da capital – a Madragoa popular, numa rua com um nome muito bonito: Rua da Esperança. Fui lá uma vez. Era um terceiro andar modesto, sem qualquer luxo, mas cheio de luz natural e com uma decoração elegante e sóbria. As casas dizem-nos muito sobre quem lá mora: havia um fundo de harmonia naqueles aposentos inundados da música de Bach e Mozart.

Outro escritor que visitei foi Dinis Machado. Morava na Rua Sacadura Cabral, ao Campo Pequeno. Num apartamento escuro e acanhado, repleto de livros e papéis onde parecia mover-se como um rei no seu palácio. Acendia incontáveis cigarrilhas enquanto discorria com um conhecimento enciclopédico sobre cinema e literatura policial.

Nas minhas deambulações diárias por Lisboa associo sempre ruas a diversos escritores – vários dos quais conheci pessoalmente. Fernando Namora e Vergílio Ferreira, parceiros de geração literária, moravam em avenidas largas e bem rasgadas: o primeiro na Infante Santo, o segundo na dos Estados Unidos da América. José Gomes Ferreira escolhera a zona de Alvalade: morava na Avenida Rio de Janeiro. Ali perto, junto à Igreja de São João de Brito, vivia José Cardoso Pires.

Outras ruas e avenidas da Lisboa burguesa acolhiam escritores que fui conhecendo: Couto Viana na Marquês de Tomar, Alice Vieira na Luís Bívar, Natália Correia na Rodrigues Sampaio. Sophia vivia na Graça: nada mais certo. Jorge de Sena tinha morada no Restelo – zona adequada para este incansável andarilho. Já Alexandre O’Neill, um sedentário, tinha poiso na Rua da Escola Politécnica: aquele cedro do Príncipe Real, ali a dois passos, inspira qualquer poeta. Vários outros escritores viviam nesta zona. Muitas vezes vi Augusto Abelaira, mergulhado nos seus papéis, de cachimbo na boca, à mesa da Alsaciana – também na Escola Politécnica. Quase ao Príncipe Real, vivia Agostinho da Silva. Já a caminho de São Bento, morava Alçada Baptista. E por aí vi ainda o poeta Ruy Cinatti, distribuindo versos seus, policopiados, como quem oferece flores a quem passa.

 

Desconheço onde mora agora Lobo Antunes, autor daquela crónica que li em espanhol mas que não hesito em considerar uma das mais belas de sempre da língua portuguesa. Penso nesse texto sempre que passo na Rua D. Filipa de Vilhena. Tento imaginar qual seria o prédio, qual seria o andar. Ignoro. Mas só pode ser um local trespassado de magia. Por ali se ter vivido um tocante, irrepetível e perpétuo amor.

 
 

Texto reeditado. Originalmente publicado no DELITO a 14 de Novembro de 2009.

A crónica de Lobo Antunes a que faço referência (soube depois, graças a uma leitora) é esta.

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 05.03.26

21523202_SMAuI.jpeg

 

José Meireles Graça: «Quem determinou que os bancos de jardim estão interditos, rodeando-os de fitas poluidoras dos oceanos, precisava de umas canadas metafóricas nas orelhas peludas.»

 

Maria Dulce Fernandes: «As nossas sopas de feijão catarino, segundo receita da minha bisavó Júlia, levavam feijão, tomate, cebola, alho, uma folha de louro, sal e azeite. Em dia de sopa era toda a gente lá em casa a ajudar a encher a grande panela.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «As procissões católicas do Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos e de Nossa Senhora de Fátima entraram para a lista de património intangível de Macau em 2017.»

 

Eu: «Há quem assuma a existência no Governo de uma "ala mais sanitarista", composta até por "hipocondríacos que não deviam estar ao leme" em situação de pandemia. Isto estimula a curiosidade dos leitores: quem serão os membros desta ala?»

Porto excluído

Pedro Correia, 04.03.26

porto-torre-clerigos-2.jpg

 

A partir da próxima segunda-feira, voltamos a ter um beirão como inquilino do Palácio de Belém - o primeiro desde António Ramalho Eanes. Oriundos do mesmo distrito: o general é de Alcains, António José Seguro nasceu em Penamacor.

Mas registo este facto para mim insólito: nunca tivemos um Presidente da República natural do Porto. Aliás nunca tivemos um chefe do Estado portuense em toda a nossa história já com nove séculos.

Mesmo aqueles que ligam quase nada à geografia e não suportam bairrismos terão de estranhar.

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 04.03.26

21523202_SMAuI.jpeg

 

JPT: «Leio que a professora Peralta - que, ao que diz a "Sábado", segue agora grã-"influencer" -, propõe com ênfase na última edição da "Visão" um aumento de impostos e a recuperação do imposto sucessório. Diz a muito louvada (e, pelos vistos, disputada pelas revistas "sérias") académica:  "Tem de se arranjar maneira de pôr os ricos a pagar a crise."»

 

Paulo Sousa: «Quando estamos sob pressão, quando as coisas não correm bem e mais uma vez tomamos consciência de quão ilusório é o nosso domínio sobre as variáveis que determinam o nosso dia-a-dia, importa conseguir continuar a maravilhar-se com a magia do mundo.»

 

Eu: «Aproveitei para me actualizar consultando os dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde referentes a Estados com mais de um milhão de habitantes. Portugal, infelizmente, é o quinto com mais casos do novo coronavírus e o sexto com mais óbitos à escala planetária.»

O comentário da semana

«Invasões da Crimeia e do Donbass desencadearam terceira guerra mundial»

Pedro Correia, 03.03.26

Z.webp

 

«A invasão da Ucrânia (daqui a uns anos) pode ser considerada o início da 3.ª Guerra Mundial. Porquê? Porque as guerras actuais e os conflitos políticos têm hoje em dia um contexto diferente dos de 14-18 ou de 39-45 em que países aliados de países atacados eram obrigados a entrar directamente nos conflitos. De certa forma, o próprio artigo 5.º da NATO está ultrapassado, porque para além da guerra cibernética e dos diversos "ataques" a infra-estruturas a que temos assistido desde há bastante tempo, a guerra económica e a guerra dos recursos que se travam em tabuleiros paralelos são tão determinantes como dois exércitos chocarem de frente. Se calhar até são mais eficazes, como o impasse territorial no Donbass demonstra tão bem.

Estou cada vez mais convencido de que a invasão da Crimeia e depois do Donbass desencadearam a 3.ª Guerra Mundial, mas acontece que hoje é possível os países participarem nas guerras de forma indirecta, como vários países europeus estão a fazer desde Fevereiro de 2022, e portanto ainda não temos a noção do conjunto de forças em conflito. Dito de outro modo, parte da noção que os nossos avós tiveram das guerras do seu tempo é hoje abafada pelos mercados, pela absorção das ondas de choque pelas classes médias dos países mais ricos, pela mediação institucional e até pelas redes sociais que não existiam quando eclodiram as duas guerras mundiais anteriores (aparentemente até por motivos mais fúteis do que a invasão da Ucrânia, no caso da Guerra de 14-18).»

 

Do nosso leitor V. A propósito deste meu texto. 

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 03.03.26

21523202_SMAuI.jpeg

 

José Meireles Graça: «O PSD não existe – existem pelo menos dois PSDs: o de Rio (clássico regedor de freguesia, sério, dedicado e inepto) e o de Passos (o desejado que, se regressasse, esvaziaria parte do Chega! e da IL, além de pescar nos abstencionistas).»

 

Eu: «Há um ano, enquanto António Costa hesitava sobre o rumo a seguir, as pessoas fechavam-se em casa, os pais retiravam os filhos das escolas, muitas empresas incentivavam os trabalhadores a optar pelo teletrabalho. Agora, fartos do "confinamento" pseudo-obrigatório, os portugueses saem de casa e deambulam por aí sem que ninguém os trave.»