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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 31.07.21

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João Carvalho: «Hoje, no limite do prazo, ficou decidido que o BPN será adquirido pelo BIC. Não é a primeira vez que uma operação de suma importância se concretiza num domingo: ficou conhecido, há uns anos, o caso de um curso de Engenharia, cadeira de inglês técnico incluída.»

 

Eu: «Em sucessivos canais televisivos de notícias, os participantes de programas consagrados ao "debate político" têm anunciado aos portugueses que irão de férias durante todo o mês de Agosto, regressando apenas em Setembro. Num país em crise, com um governo recém-empossado, numa altura em que a política necessita mais que nunca do escrutínio público e quando o próprio Parlamento resume a duas semanas o seu período de férias, os referidos programas não abdicam de um longo descanso estival e os seus comentadores encartados já se encontram a banhos, como se este fosse um Verão igual a qualquer outro.»

Grandes romances (38)

Pedro Correia, 30.07.21

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ESPLENDOR NAS BRUMAS

Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio

 

«Quando penso no mar, o mar regressa / A certa forma que só teve em mim - / Que onde ele acaba, o coração começa.»

Vitorino Nemésio

 

Cada época produz o seu romance de eleição. Em Portugal, no século XX, nenhum foi tão envolvente e tentacular como esta saga de duas famílias que se cruzam no Faial naqueles anos crepusculares da I Guerra Mundial, estava Sidónio Pais no poder em Lisboa. Ilha-postal, ilha-refúgio, ilha-prisão. Separada do vizinho Pico por um canal de águas revoltas que acaba por ditar o destino dos faialenses. Nem a felicidade perdura para quem lá permanece nem uma felicidade alternativa sorri a quem dali se evade. Porque, mesmo à distância, é impossível escapar ao sortilégio das raízes - sina de quem teve berço naquelas brumas.

Margarida Clark Dulmo é pouco mais que uma adolescente, mas já tem noção de tudo isto. Nela convergem dois apelidos ilustres: os Clarks de óbvia matriz britânica, detentores da firma Clark & Sons; e os Dulmos, ainda aparentados com a nobreza flamenga, ali fundeados desde os tempos do povoamento pioneiro, «aves do Faial há mais de quatro séculos, como os milhafres e os cagarros». Com mais pergaminhos que posses, uns e outros, naquele recanto atlântico onde chegavam remotos ecos da guerra que atroava o globo.

Na galeria das personagens femininas da literatura portuguesa, Margarida ocupa lugar de topo. Tão jovem ainda e já lhe pesa nos ombros a responsabilidade de salvar os móveis da família e funcionar como traço de união entre os dois ramos desavindos. Enquanto sonha escapar ao fadário da mãe e da desaparecida avó, ambas amarradas a casamentos amargurados. Se é a ilha natal a impor-lhe essa cruz, ela tudo fará para abandonar a ilha. Evitando as armadilhas do amor, se for preciso.

 

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Vitorino Nemésio (1901-1978) transportou durante cerca de vinte anos esta história, fascinado pela figura de Margarida Dulmo - que teve existência real, com outro nome - até a passar para o papel, já fisicamente distante da sua pátria açoriana a que afinal foi regressando uma vez e outra. 

Estava consciente de que tinha potencial para se tornar num marco da literatura portuguesa - pela arquitectura da prosa, pela exuberância do estilo, pela espessura das personagens e pela densidade do enredo, com um fôlego raro nas nossas letras. 

Poeta, professor, ficcionista, ensaísta, crítico, cronista, biógrafo, historiador, pedagogo e conferencista, Nemésio era um magnífico narrador, mestre da expressão verbal que seduziu os portugueses na primeira metade dos anos 70 com uma série de programas da RTP intitulados Se Bem me Lembro. Só esta popularidade granjeada na década final da vida lhe permitiu resgatar do esquecimento o seu único romance, que fora impresso em 1944, andava o mundo envolvido noutra guerra. Poucos o leram, quase nenhum crítico reparou naquela prosa do «mais moderno dos nossos clássicos e o mais clássico dos nossos modernos», na lapidar definição de David Mourão-Ferreira.

É uma obra de perfeição formal inatacável. E uma admirável declaração de amor aos Açores. Em forma de romance clássico, que honra a melhor tradição deste género literário e se assume como um dos momentos cimeiros da ficção portuguesa de todos os tempos.

 

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Mau Tempo no Canal contém uma narrativa deslocada da sua época, fragmentada entre duas escolas literárias então em voga: a da revista Presença, que enaltecia a vertente psicológica, e a do Novo Cancioneiro, militante da temática social. Para os primeiros, só o sujeito importava; para os segundos, nada mais havia senão o objecto com ideologia em fundo. E tudo girava em função destas etiquetas, daí o silêncio em torno deste desconcertante livro não-alinhado, «romance ao mesmo tempo realista e simbólico, de situações e de atmosferas, de costumes e de estados de alma», como acentua Mourão-Ferreira.

Foi obra de laboração lenta, iniciada em Bruxelas - onde Nemésio então vivia - no início de 1938. O que viria a ser o capítulo inicial surgiu pela primeira vez em Abril do ano seguinte, nas páginas da Revista de Portugal, sob o título "Um Ciclone nas Ilhas". Cinco anos depois, ao aparecer nas livrarias, foi acolhida com generalizado desinteresse. Ressalvados os elogios que João Gaspar Simões e Albano Nogueira lhe dispensaram, na imprensa contemporânea imperou a indiferença: poucos dos que exerciam crítica nos jornais perceberam estar perante uma obra-prima.

 

O romance rompia com o cânone que impunha o primado da mensagem “social” com ramificações políticas. O mundo do trabalho braçal entrava em força na literatura, com o seu cortejo de humilhados e ofendidos: pouco interessava, para os tutores dessas correntes estéticas, as inquietações românticas de uma jovem burguesa da cidade da Horta com raízes aristocráticas e nascida numa família de proprietários rurais.

Apesar disso, a obra receberia o Prémio Ricardo Malheiro, motivando uma segunda edição em 1945. Mas a terceira só ocorreu em 1963: toda uma geração ficou sem acesso a ela. E mais nove anos decorreram até haver uma quarta, à boleia da inesperada popularidade televisiva do autor. Enquanto livros obviamente menores eram incensados e louvados em sessões contínuas. 

Texto «impregnado de atmosfera marítima» (é ainda David Mourão-Ferreira que o assinala), Mau Tempo no Canal mescla a epopeia de vocação universal com o folhetim de sabor regionalista sem perder coerência no plano estilístico. «Como nas grandes obras de arte de todos os tempos, o acaso não existe em Mau Tempo no Canal. Dos elementos naturais ao bibelot, tudo nos surge impregnado de sentido. Dos textos eruditos por vezes citados ao tagarelar de um homem do povo, sente-se a comunhão na açorianidade», observa José Manuel Garcia, um dos maiores estudiosos de Nemésio.

 

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Margarida Dulmo interpretada por Anabela Morais na série da RTP Mau Tempo no Canal (1989)

 

Além do Faial, «vendada de nuvens e de gaivotas», a acção desenrola-se noutras três ilhas: Pico, São Jorge e Terceira - aqui onde acontece o epílogo, estando o leitor já consciente do tempo decorrido e dos sobressaltos registados desde a cena inicial, em que Margarida conversa com João Garcia, filho de um inimigo de seu pai. O namoro com aquele rapaz de «uma timidez desconcertante» é visto com maus olhos por ambas as famílias, o que marcará as vidas dos dois jovens. Fugaz «esplendor na relva», como o do célebre poema de William Wordsworth. 

Enquanto o delírio bélico devasta o mundo, no exíguo Faial - «terra onde tudo são heranças e negócios» - travam-se conflitos endogâmicos, por vezes no mesmo clã familiar. A vastidão oceânica que emoldura a Horta não dilui, antes intensifica, amores e ódios.

Há fortunas dissipadas, esposas traídas, maridos enganados, juras quebradas, falsos testemunhos. Um incêndio de vastas proporções que devasta uma conhecida mansão da ilha. Toda uma atmosfera social retratada na missa da Matriz, num baile de gala do Real Clube Faialense. E uma epidemia de peste bubónica à solta - a última que o arquipélago dos Açores conheceu. 

Há personagens como o velho Charles William Clark, avô materno de Margarida, e o violento Diogo Dulmo, seu pai, afundado em álcool e dívidas. Há Roberto Clark, o tio londrino idolatrado pela sobrinha que sonha ser enfermeira na capital britânica. E Januário, o pai de João Garcia, obcecado pela vingança. E há as mulheres, todas com o seu rasto de sofrimento: Catarina Clark, mãe da protagonista; Margarida Terra, sua falecida avó, de quem todos dizem ter herdado as feições; Emília, mãe de João, repudiada para sempre.

 

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Neste extraordinário romance, como nas melhores obras de Rudyard Kipling ou Joseph Conrad, a paisagem humana funde-se com a natureza, que adquire características das personagens.

Alguns exemplos:

- «Via-se o Canal ainda amargo, com o Pico negro e cónico ao fundo.» (p. 45 da edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1994);

- «Há dois meses que a Horta vivia sob o pesadelo da peste debaixo daquele eterno capote-e-capelo das nuvens que o Pico franzia na garganta.» (p. 101)

- «A baía de Angra estendia-se gris e sonolenta das sombras do Monte Brasil ao molhe do Porto de Pipas.» (p. 326)

 

Margarida, com «aquele vago mistério sempre latente nos seus olhos», rebela-se contra o rumo que lhe estaria traçado desde menina. Desdenha da hipocrisia daquela gente que só vive de aparências. Quer conhecer a vida verdadeira. Refugia-se na casa que os Dulmos têm no Pico, onde cuida do velho criado Manuel, atingido pela peste. Embarca com pescadores, acompanhando-os na caça ao cachalote em páginas dignas de Moby Dick. Recupera das emoções do mar numa furna que serve de abrigo aos baleeiros, já em São Jorge.

Levará ainda mais longe o seu anseio de liberdade ou acabará por satisfazer o pai, que a quer ver casada - mesmo sem amor - com algum herdeiro de gente rica?

A última palavra será dela: ascende deste modo a figura cimeira da literatura portuguesa. Pela arte de um escritor que se revelou profundo conhecedor da sensibilidade feminina. Leitora de romances de Camilo e Júlio Dinis, Margarida torna-se heroína pós-romântica num tempo em que elas pouco mais eram do que figuras decorativas, na ficção como na vida.

Na amurada dum navio, retira do dedo o anel de ouro e esmeraldas que herdara da infausta avó materna e deita-o fora: ficará para sempre sepultado «no mais secreto do mar». É um gesto cheio de simbolismo: assim renega os atavismos sentimentais que tolheram as mulheres da família. O que vier depois será diferente.

Nessas magníficas páginas finais, sempre com o oceano por testemunha, encontra um amigo do perdido namorado, que lhe revela: «O João Garcia afinal só gostou de uma mulher, que foi de si.»  E la nave va: ela nada lamenta, mesmo consciente de que jamais reviverá o instante do esplendor na relva, da glória em flor.

 

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Anteriores textos desta série:

 

A Selva - A grande muralha verde

A Cidade e as Serras - Paris não era uma festa

A Esperança - O apocalipse espanhol

O Malhadinhas - Um hino à vida

Barranco de Cegos - O meu mundo não é deste reino

Para Sempre - Existo, logo penso

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 30.07.21

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Ana Vidal: «Infelizmente, existem loucos, fanáticos e psicopatas em todas as ideologias políticas. Breivik pertence à extrema direita (Hitler fez escola, este caso é mais uma triste prova disso), mas também podia ser da extrema esquerda e escolher outros alvos (seguindo o mestre Estaline) com o mesmíssimo objectivo, mas de sinal contrário. O que quero dizer é que recuso acreditar que por detrás deste grau máximo de malignidade não esteja um muito sério distúrbio mental.»

 

João Carvalho: «O funcionamento é muito simples: os óculos integram duas lentes sobrepostas para cada olho e a haste central por cima do nariz, que faz a ligação entre as duas molduras duplas, possui um mecanismo básico com um "pinchavelho" que serve para aproximar ou afastar, progressivamente e em movimento contínuo, as lentes exteriores das lentes fixas interiores.»

 

Patrícia Reis: «Vi a minha mãe chorar três vezes. Uma num funeral. Uma em Ouro Preto, durante o Festival Literário, quando José Luís Peixoto disse o poema "Cinco à Mesa" e, por fim, ontem quando Jamie Cullum tocava com a felicidade estampada no rosto. Numa vida qualquer podia ser ela. Qualquer coisa a arrebatou a música, essa possibilidade maior, e o pensamento: podia ser eu.»

 

Eu: «Há em Portugal uma espécie de pudor atávico em praticar a arte do conto - característica que felizmente tem vindo a dissipar-se nas duas últimas décadas, com nomes que vão de Mário de Carvalho a Rui Zink. Entendido como género "menor" pela generalidade dos exegetas lusos de matriz universitária, o conto foi sendo considerado uma espécie de parente pobre da nossa literatura. Quem o cultivava quase tinha de pedir licença prévia para o efeito.»

Transparência zero

Pedro Correia, 29.07.21

Nuno Santos foi atropelado mortalmente no dia 18 de Junho por uma viatura ministerial. Quarenta dias depois, subsistem várias questões por explicar. Continuamos sem saber, por exemplo, a que velocidade seguia o automóvel e se a GNR fez - como se impunha - um teste de alcoolemia ao motorista. Questiono-me se haveria tanto silêncio em torno deste caso se o atropelado tivesse sido um turista norte-americano em vez de um trabalhador português.

Entretanto o Governo, instado uma vez e outra acerca da perigosa velocidade a que seguia o automóvel, continua firme na recusa em responder - tal como guarda silêncio sobre a autorização dada por Eduardo Cabrita à celebração do título do Sporting em Lisboa, a 11 de Maio. Ao ponto de o primeiro-ministro ter ordenado ao grupo parlamentar do PS para chumbar a audição do titular da Administração Interna na Assembleia da República - comportamento próprio de regimes proto-ditatoriais.

Como se estivessem em causa segredos de Estado. Como se o Governo não devesse prestar contas ao Parlamento.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 29.07.21

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João Carvalho: «Branca por fora e por dentro, a "coisa" parece uma placa de esferovite caída no intervalo entre dois prédios. Contudo, como exercício de arquitectura, deve reconhecer-se que é invulgar. O morador só não pode adoecer, porque o sobe-e-desce escadas, se já não é fácil em habitações normais com mais do que um piso, neste caso limita perigosamente o próprio e até quem chegar de fora para lhe deitar a mão.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Houve alguma investigação sobre Bernardo Bairrão ou as suas ligações empresariais autorizada por algum membro do Governo da República? Se sim, quando, quem conduziu essa investigação, com que objectivo e quem a autorizou?»

Apanhado em excesso de velocidade

João Matos Fernandes

Pedro Correia, 28.07.21

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Bem pode o Governo lançar cem campanhas de prevenção rodoviária: o comportamento de alguns dos seus membros persiste em condená-las ao insucesso. Conduzir ou ser conduzido de pé na tábua continua a ser uma espécie de vício nacional num país que já perdeu tanta gente famosa por morte prematura no asfalto. Ministros como Duarte Pacheco e Mário Firmino Miguel, actores como Angélico Vieira e Francisco Adam, cantores como Carlos Paião e Sara Carreira.

O pior é que ninguém parece aprender as devidas lições com o infortúnio dos outros. E o mau exemplo, nesta matéria, vem de cima. Há pouco mais de um mês, a 18 de Junho, a viatura oficial que transportava o ministro Eduardo Cabrita atropelou na A6 um cidadão chamado Nuno Santos, que fazia trabalhos de reparação e limpeza na berma da auto-estrada. Ignora-se ainda a velocidade a que seguia a viatura, mas não custa presumir que seguia em transgressão pelo simples facto de não haver marcas de travagem na via transformada em pista.

Um trabalhador morto por suposta incúria de condução alheia. Mais um, a pesar nas estatísticas. Devia servir de travão a novos excessos na estrada. Mas parece que não: a volúpia da velocidade permanece incólume. Apetece perguntar: tanta pressa para quê?

Escassos 17 dias após a trágica morte de Nuno Santos, outro automóvel com ministro a bordo teve destaque noticioso. Felizmente desta vez sem consequências funestas. Mérito de uma equipa de reportagem da TVI, que registou a ocorrência: a 5 de Julho, João Matos Fernandes foi transportado a 160 quilómetros por hora numa estrada nacional e a 200 quilómetros numa auto-estrada – neste caso a A2, bastante mais movimentada do que a A6.

Péssimo exemplo, a vários títulos. O limite de velocidade em auto-estrada está fixado em 120 km/hora. Quanto mais se acelera mais as emissões poluentes aumentam, comportamento duplamente censurável tratando-se do titular da pasta do Ambiente. Além disso o sentimento de impunidade favorece o pior dos populismos. E reforça a sensação de que existe uma casta de dirigentes a quem tudo é permitido.

Pior ainda é o jogo de passa-culpas em que João Matos Fernandes, imitando o seu colega da Administração Interna, logo se enredou: “Não era eu que conduzia e não me apercebi do que estava a acontecer”, declarou já esta semana, após um período de silêncio. É certo que acrescentou: “Isso não me desresponsabiliza em nada.” Mas a escolha da frase inicial certamente não resultou do acaso. Qualquer português sentiria a tentação de fazer o mesmo.

A questão é que a um membro do Executivo se exige muito mais. Por imperativo de cidadania e em nome da ética da responsabilidade. Noutros tempos, com outro critério, António Costa advertiu antes de exonerar um ministro: “Nem à mesa do café podem deixar de lembrar-se que são membros do Governo.”

Isto num país que registou 6880 vítimas mortais em desastres rodoviários na última década. Razão suficiente para tirar o pé do acelerador.

 

Texto publicado no semanário Novo

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 28.07.21

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Ana Margarida Craveiro: «O que há de errado na seguinte frase? "No próprio sábado, último dia em que foi secretário-geral do PS, Sócrates também não quis atrasar-se nos detalhes e mandou o motorista do partido regressar com o carro de Espanha - onde tem estado a acompanhar o irmão em tratamentos médicos - à sede nacional." (Sábado de hoje)»

 

Ana Vidal: «Conhecendo um pouco (só um pouco, e já é muito) do pensamento de Clarice Lispector, e a avaliar pela belíssima metáfora deste texto, aposto que ela não subscreveria esta aberração que dá pelo nome de acordo ortográfico. Não me parece que a grande Clarice gostasse de ver o seu desafiante ginete transformado numa insípida e amorfa pileca

 

João Carvalho: «A escolha do líder parlamentar socialista poderá ficar adiada para Setembro, o local para realizar o congresso do PS de 9 a 11 de Setembro ainda está a ser pensado, o espaço na Assembleia da República onde se reúne o grupo parlamentar socialista poderá ser transformado no gabinete do novo secretário-geral junto do Parlamento, a liberdade de voto dos deputados do PS prometida por António José Seguro poderá esbarrar na resistência de alguns parlamentares socialistas e até gerar cisões. Isto e mais uma mão-cheia de detalhes constituem agora o pack de preocupações do PS para o Verão.»

 

José António Abreu: «A Noruega fez-me voltar a BallardNuma sociedade totalmente saudável, a loucura é a única liberdade possível. Aparentemente, não existem sociedades mais saudáveis do que as nórdicas. Nível de vida invejável, civismo exemplar, protecções sociais generosas. Contudo, os nórdicos são conhecidos pela taxa de suicídios (ainda que, à la Liberty Valance, o mito possa ter-se sobreposto à realidade), e, com certa frequência, surgem da Escandinávia notícias de matanças aparentemente aleatórias ou, como no presente caso, na sequência de planos minuciosos.»

 

Patrícia Reis: «E agora, mãe? Quando sair da escola vou fazer o quê? E como é que vamos sair da crise? E se acontece alguma coisa como na Noruega? Ou se temos células terroristas em Portugal? E aquele miúdo que desapareceu aos 11 anos e estava só a andar de bicicleta? E o que é a hepatite? E mata mais que a sida? E como é que temos filhos se temos de usar preservativo? E se for um falhado e ficar na caixa de hipermercado com autorização para ir à casa de banho de quatro em quatro horas? E se Deus não existir? E se Deus existir e andar a espreitar os meus gestos? E agora, mãe?»

 

Rui Rocha: «Parece-me completamente deslocado que, no tratamento mediático dos crimes imputados a Francisco Leitão, se faça invariavelmente referência ao nome de fantasia - Rei Ghob - e não ao nome verdadeiro. Não me parece que os meios de comunicação devam fazer eco da fantasia destruidora congeminda pelo monstro, até para não estimular a vertigem da desgraça de outros que andam por aí prontos para cerregar no gatilho.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Talvez que Paulo Portas, sendo um homem educado e inteligente, possa "sugerir" a substituição da dita pelo "nosso" Adolfo. Sempre teria outro nível. E o Adolfo não precisa de saltos altos para dar nas vistas.»

Antes pôr as mãos na água do que no fogo

Pedro Correia, 27.07.21

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Há verdadeiros mistérios nos canais informativos. Um deles acontece todas as semanas, na SIC Notícias. Nuno Rogeiro apresenta um excelente espaço de notícia e análise de temas internacionais em condições quase clandestinas: é remetido para o princípio da tarde de domingo, algures no Jornal das 2, numa rubrica de duração incerta intitulada “Leste Oeste”. Com direito a separador próprio, mas tratada como se a quisessem esconder.

Dia impróprio, horário impróprio. Merecia outro tempo e outro espaço. Porque este comentador fala do que mais ninguém diz, não apenas na SIC mas noutros canais de produção doméstica. A sua rubrica é uma genuína janela sobre o mundo num contexto televisivo que reduz o noticiário internacional a fenómenos climáticos, catástrofes naturais e acidentes em larga escala. Rogeiro rema contra esta maré tablóide, alargando-nos horizontes. E não raras vezes destaca o que os outros ignoram. Foi assim, por exemplo, no drama do terrorismo de matriz islâmica em Cabo Delgado: andou meses a mencionar este tema, a que mais ninguém ligava. Calculo o que terão dito vários editores nas mais diversas redacções: milhares de mortos sem ser por fogos ou cheias em Moçambique “não é notícia”. 

Quem tem lugar cativo nos alinhamentos televisivos é Marcelo Rebelo de Sousa – o “Tio Celito”, como muitos o conhecem em Angola. Consegue estar em foco precisamente quando não há notícia, fomentando corridas entre canais na tentativa de captar as imagens mais irrelevantes. O prémio, na recente deslocação de Marcelo a Luanda, coube a Tiago Contreiras, um dos enviados especiais da RTP: conseguiu imagens exclusivas do engravatado Presidente a molhar os dedos no oceano interdito a banhos e a dizer: “Está quente!”

Pensando bem, mais vale um político pôr as mãos na água do que no fogo. O “tio Celito” esteve em Luanda, tal como António Costa, para participar na cimeira comemorativa dos 25 anos da CPLP. Apesar das bodas de prata, quatro dos nove chefes do Estado faltaram: Jair Bolsonaro (Brasil), Filipe Nyusi (Moçambique), Francisco Guterres (Timor-Leste) e o controverso ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang. O Presidente da Guiné-Bissau, Umaro Embaló, deu lá um pulo mas saiu mais cedo. E o de São Tomé e Príncipe, Evaristo Carvalho, só pensa na despedida: o seu mandato chegou ao fim.

O aparente imobilismo da CPLP face ao drama de Cabo Delgado diz muito sobre a ineficácia desta organização, que devia “deixar de ser um clube de países amigos para descer aos cidadãos”, como acentuou Cândida Pinto, outra enviada especial da RTP a Luanda. Eis um tema que Nuno Rogeiro várias vezes tem abordado na sua rubrica. Faria muito bem a SIC Notícias em tirá-lo da clandestinidade, colocando o seu “Leste Oeste” em horário de maior audiência em vez de surgir como tapa-buracos das tardes de domingo. Fica a sugestão. O público-alvo do canal, cada vez mais exigente, certamente agradeceria.

 

Texto publicado no semanário Novo

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 27.07.21

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Ana Lima: «Há quase 20 anos que não ia à Feira da Ladra. Fui num dos últimos sábados. Continua a ser um local cheio de novidades apesar das coisas velhas que se vendem, sejam elas antiguidades, velharias ou apenas trastes. Os sapatos usados e já sem forma, os discos que alguém ouviu, as cartas endereçadas com uma letra bonita, as chaves sem fechadura, as fechaduras sem chaves, as bonecas sem pernas ou sem olhos, os olhos sem bonecas.»

 

João Campos: «O que falta à política - e, de certa forma, à sociedade portuguesa - não é seriedade, rigor, honestidade ou habilidade. Quer dizer, também falta um pouco disso tudo, mas falta ainda mais do que isso. Falta espinha dorsal.»

 

Laura Ramos: «Volta, João Pedro George, acidental biógrafo de Luís Pacheco. Fazes-me falta

Polémico e contraditório até ao fim

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021)

Pedro Correia, 26.07.21

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Poucas personalidades foram mais contraditórias, no último meio século em Portugal, do que o comandante das operações militares do 25 de Abril de 1974. Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho, hoje falecido, tinha 37 anos nesse dia que derrubou o Estado Novo e viria a pôr fim à guerra que Portugal travava em três frentes africanas.

Com duas comissões cumpridas em Angola e uma terceira na Guiné, Otelo Saraiva de Carvalho não era militar de vocação. Sonhara ser actor e chegou a pisar os palcos em peças amadoras na sua cidade natal, Lourenço Marques, como então se denominava a capital de Moçambique, ainda sob domínio português.

Estes dotes histriónicos acompanharam-no sempre, dando-lhe um carisma que incendiou plateias nos anos de brasa da revolução, culminados na eleição presidencial de 1976, em que foi o segundo candidato mais votado. Com 16,5%, correspondendo a quase 800 mil votos entrados nas urnas, acabou derrotado por Ramalho Eanes. Que também o venceria nas eleições seguintes, em 1980. Neste ano, Otelo só recolheu 1,5% dos boletins. O seu tempo passara. O país que ele ajudara a abrir ao mundo, reconquistando a liberdade, não o acompanhou nas suas teses de «democracia popular» contra a democracia representativa.

(...)

À frente do Copcon, Otelo deu início à «revolução a todo o vapor», para usar um slogan muito popular na época. Enviava militares a apoiar ocupação de casas e terras, em nome do «poder popular». Convenceu-se de que podia ser o «Fidel Castro da Europa», como ele próprio confessou após uma visita a Havana, em que foi recebido com passadeira vermelha pelo ditador cubano.

Outras frases lhe ficaram associadas naquele Verão quente de 1975, em que este país de brandos costumes esteve a um passo da guerra civil. Disse de si próprio que estava pronto a «tomar o cavalo do poder» e quando os confrontos começaram nas ruas – de Rio Maior até ao Alto Minho as forças anticomunistas destruíam sedes dos partidos da esquerda radical – admitiu a hipótese de enviar «contra-revolucionários para o Campo Pequeno».

Quase meio século depois, neste país hoje membro da União Europeia, é difícil imaginar esses tempos para quem não os viveu. Havia um Governo provisório que não governava, uma economia paralisada por greves e «saneamentos de patrões», mandados de captura em branco que conduziam centenas de pessoas ao estabelecimento prisional de Caxias ao abrigo da chamada «legitimidade revolucionária». Portugal era então capa nas grandes revistas internacionais por se ter tornado num «manicómio em autogestão». (...)

A célebre frase de Ortega y Gasset sobre o homem ser produto das circunstâncias aplica-se como uma luva a Saraiva de Carvalho, que durante a ditadura chegou a ser instrutor da Legião Portuguesa e não possuía qualquer formação política. Nos meses que antecederam a preparação do golpe militar, entre Setembro de 1973 e Março de 1974, ele viria a emergir como o líder das operações. Bem-sucedidas, ao ponto de não terem causado derramamento de sangue entre militares das facções em confronto – velhos conhecidos das missões de guerra em Angola, Moçambique e Guiné.

No quartel-general dos revoltosos, instalado na Pontinha, ele teve o momento de glória máxima – que os camaradas de armas sempre lhe reconheceram, atribuindo qualidades de estratego militar ao então major Saraiva de Carvalho. Todo este processo, que pôs fim a uma das mais velhas ditaduras da Europa, vem relatado no seu livro Alvorada em Abril, obra escrita na primeira pessoa e publicada em 1977. Indispensável como testemunho histórico.

Otelo ficou a meio da rota da liberdade. Esteve no 25 de Abril, mas faltou à chamada no 25 de Novembro. Ao contrário de Ramalho Eanes, Vasco Lourenço, Garcia dos Santos, Jaime Neves, Pires Veloso e tantos outros. (...) Vencedor em Abril, figurou entre os vencidos de Novembro. Não deixou, no entanto, de ser um ícone revolucionário. (...)

Saraiva de Carvalho festejou 40 anos, em Agosto de 1976, já com o melhor da sua biografia atrás de si. Nunca foi ministro, nunca foi deputado, nunca se deixou atrair pela «democracia burguesa», como tantas vezes se referia com manifesto desdém. Conquistou a celebridade muito cedo, conheceu o crepúsculo político com idêntica rapidez. E lidou mal com isso.

 

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Foto: Inácio Ludgero / Visão

 

O pior veio depois, já na década de 80. Figura cimeira da Força de Unidade Popular, que o apoiou com manifesto insucesso na segunda corrida a Belém, acabou por patrocinar as chamadas Forças Populares 25 de Abril, organização terrorista de extrema-esquerda que entre 1983 e 1987 assassinou 17 pessoas – incluindo o director-geral dos Serviços Prisionais, Gaspar Castelo-Branco. Em plena democracia, sem sequer o álibi do combate à ditadura. A alusão ao 25 de Abril, pervertendo esta data, tornava tudo ainda mais inaceitável.

Foi detido, sob a acusação de ser o cérebro da organização, e viria a ser condenado em tribunal. Cumpriu cinco anos de prisão por estes crimes cuja autoria sempre recusou, dizendo-se vítima de uma armadilha forjada pelo braço judicial do PCP. Acabou indultado e amnistiado em 2004, com outros membros daquela organização, culminando um processo que causou enorme celeuma.

(...)

Em Abril de 2011 afirmou em entrevista ao Jornal de Negócios que Portugal precisava novamente de «um homem com a inteligência e a honestidade de Salazar». Nesse mesmo ano, noutra entrevista, confessou: «Se soubesse como o país ficava, não tinha feito a revolução.» Em 2012, noutra das suas bravatas, considerou que estavam a ser «atingidos limites» que poderiam justificar uma intervenção das forças armadas para «derrubar o Governo» de Passos Coelho.

Era assim o cérebro da revolução dos cravos, agora falecido com 85 anos incompletos: herói para uns, vilão para outros. Polémico do princípio ao fim.

 

Versão abreviada de um texto que ontem publiquei na edição digital do semanário Novo

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 26.07.21

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João Carvalho: «O programa matinal da RTP-1 Bom Dia Portugal tem um apontamento chamado "Bom Português". Ensina (?) a escrever em conformidade «com o novo acordo ortográfico». Por exemplo:

– "hectare ?"
– "hetare ?"

Depois de testar gente na rua, o apontamento diz como é e conclui invariavelmente que «assim se escreve em bom português». Porém, valia a pena que o(s) autor(es) do apontamento e toda a hierarquia da RTP Informação soubessem escrever bom português: não existe um espaço antes de um ponto de interrogação (ou ponto de exclamação, ou vírgula, ou ponto final, ou ponto e vírgula, etc.) — bom português é saber escrever: "hectare?" Este é um erro que a RTP ensina (?) diariamente no seu mau português escrito.»

 

Leonor Barros: «68 estouvadas, delirantes, desmioladas e pujantes primaveras. Aguenta firme, miúdo. É só rock n'roll mas nós gostamos.»

 

Rui Rocha: «A propósito dos acontecimentos dramáticos na Noruega, está a ser disputado, mais uma vez, um jogo de tabuleiro. O seu nome técnico é imputação de terroristas. Mas, a designação popular também pode ser arremesso de loucos ou de desequilibrados. Neste jogo, tal como no xadrez e nas damas, existem peças brancas e peças mais escuras. Alguns que se dizem de esquerda, atacam com os terroristas brancos. Outros, que se arrogam de direita, atacam com os terroristas mais escuros. Dizem que o jogo foi inspirado pelos festivais, muito comuns em cidades do Sul de Espanha, de moros y cristianos. É um jogo peculiar. No final da partida, cada um dos jogadores fica convencido de que ganhou. Mas, na verdade, este é um jogo em que todos perdem.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «O melhor mesmo é renunciar desde já. Sempre evitará ficar com o mesmo estatuto daquele rapaz amigo de Paulo Portas que agora também vai para administrador da CGD e que ficou famoso pela conviccção com que dizia querer aumentar o território de Portugal continental até aos Açores à custa da ZEE, fazer um Museu da Bíblia e uma Disneylândia no Sul de Portugal.»

 

Eu: «“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, [Cesare] Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?»

Fim de semana (5)

Pedro Correia, 25.07.21

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O parque de Sete Rios é um dos mais belos espaços verdes de Lisboa

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Aldeia dos Macacos, celebrizada no filme A Canção de Lisboa

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Hora da sesta no jardim zoológico: podemos apadrinhar um destes animais

 

Estamos no centro de Lisboa, mas ninguém diria. É um grande parque verde povoado de 300 espécies animais. Parece cenário de filme. E já foi mesmo: basta lembrarmos A Canção de Lisboa, aqui filmada por Cottinelli Telmo, com Beatriz Costa, Vasco Santana e António Silva à frente de um excepcional elenco.

Fundado em 1884, o Jardim Zoológico de Lisboa está muito bem conservado, quase a meio deste seu segundo século de existência. Acabou a era em que enfiavam bichos em jaulas: agora estão em espaços muito mais amplos e arejados que reproduzem na medida do possível os seus habitats naturais. A grande maioria destes dois mil animais já nasceu em cativeiro. Podemos apadrinhar qualquer deles. Há intercâmbios constantes entre zoológicos de outros países para evitar os riscos da endogamia.

Se há passeio recomendável na capital, é precisamente aqui. Para miúdos e graúdos. Recordo as primeiras vezes que visitei este jardim, ainda em criança, e a sensação de deslumbramento que senti ao observar ao vivo tantos animais que só costumava ver na televisão. O tempo passa, mas esta sensação nunca se perde. E é com gosto redobrado que confirmo como o Zoo de Lisboa se adapta aos novos tempos, continuando a seduzir os visitantes. Que são poucos, devido à pandemia que de tudo nos afasta - do parque de Sete Rios também. Não deixemos que ela nos vença: há que sair de casa, há que passear, há que evitar os comportamentos fóbicos induzidos pelas notícias e lutar contra o medo.