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Delito de Opinião

Um país esquizofrénico

Pedro Correia, 06.12.22

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A primeira página do Expresso da semana passada propicia-nos a imagem de um país esquizofrénico. Este, o nosso. Em que o «preço das casas tira 76 mil pessoas de Lisboa e Porto», em que «só 7% das empresas sobem salários ao nível da inflação», em que o «cabaz de alimentos nunca esteve tão caro» e em que até o presidente do grupo Jerónimo Martins reconhece que «muitos já não têm com que comprar» nesta doce nação agora no oitavo ano consecutivo sob a batuta de António Costa.

Isto por um lado. Por outro, com títulos colados a estes, celebra-se o «turismo em alta no Natal e no Ano Novo» e divulgam-se «126 ideias de sugestões e prendas». Uma dessas sugestões do Expresso pode adquirir-se pela módica quantia de 1420 euros - muito acima do salário médio de um português. É um elegante "cadeirão Harold", com «estofo aveludado em verde, com pés em nogueira e acabamento em mate». A perfeita prenda natalícia.

País esquizofrénico. Imprensa esquizofrénica também.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 06.12.22

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Ivone Mendes da Silva: «Margarida não hostiliza, porém não se entrega. Nemésio desencrava-a do real como ela desencrava as esmeraldas que lhe colocaram a contragosto no anel da avó Margarida Terra. E lança-o ao mar, serpente cega de novo, da amurada do capítulo final, boina de viagem sobre os cabelos enrolados, essa é a tragédia da personagem depois do casamento com os barões da Urzelina, que é como quem diz com André Barreto: Margarida acerta-se com o passado, com a insatisfação, com o desejo de fuga. Como no início do romance, não vai triste nem alegre, vai embrulhada no casaco castanho. É a tragédia da resignação, quando os sonhos não têm mais por onde arder. Tédio, pois claro. «Margarida não hostiliza, porém não se entrega. Nemésio desencrava-a do real como ela desencrava as esmeraldas que lhe colocaram a contragosto no anel da avó Margarida Terra. E lança-o ao mar, serpente cega de novo, da amurada do capítulo final, boina de viagem sobre os cabelos enrolados, essa é a tragédia da personagem depois do casamento com os barões da Urzelina, que é como quem diz com André Barreto: Margarida acerta-se com o passado, com a insatisfação, com o desejo de fuga. Como no início do romance, não vai triste nem alegre, vai embrulhada no casaco castanho. É a tragédia da resignação, quando os sonhos não têm mais por onde arder. Tédio, pois claro.»

 

José António Abreu: «Dezassete meses após a tomada de posse do governo, o (mui tímido) projecto de lei da redefinição do mapa autárquico é discutido hoje no Parlamento. Já as mudanças na RTP parecem ter hibernado com a chegada do frio. Torna-se, pois, oficial: Miguel Relvas demora mais tempo a implementar as reformas que tem a seu cargo do que demorou a licenciar-se. Mas os efeitos práticos deverão ser os mesmos: simbólicos, acima de tudo.»

 

Patrícia Reis: «A crise é viajar pela cidade de Lisboa e ver cartazes a dizer: arrenda-se, vende-se, trespasse. A crise é ver o número de sem abrigos na Gare do Oriente a crescer. A crise é uma chamada para os bombeiros quando um velho só quer dois dedos de conversa. A crise é não saber como explicar que sim, são restos outra vez. A crise é ver o fundo do armário. A crise é ver os computadores vazios de coisas.»

Irão e China em luta pela liberdade

Pedro Correia, 05.12.22

«A palavra "revolucionário" só pode aplicar-se a revoluções cujo objectivo é a liberdade.»

Hannah Arendt

 

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Foi preciso morrerem pelo menos 500 pessoas - incluindo muitas crianças - nos protestos iniciados em 16 de Setembro no Irão devido à fúria repressora da ditadura teocrática que ali vigora desde 1979, para os aiatolás recuarem, atemorizados pela imparável vaga de manifestações populares. O regime de Teerão acaba de anunciar a dissolução da sinistra "polícia da moralidade" que perseguia, torturava e matava mulheres só por não cobrirem todo o cabelo com o véu islâmico. É o princípio do fim da tirania, graças à imensa coragem cívica de largos milhares de jovens que correm o risco de ser condenados à morte pelo simples facto de reclamarem direitos, liberdades e garantias considerados banais em diversas outras parcelas do globo - incluindo, felizmente, em Portugal.

 

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Também em Pequim a ditadura está em recuo. Pressionada igualmente por gigantescos protestos em várias cidades e vilas do país. Da parte de gente que vai perdendo o medo e ousa desafiar os mecanismos de repressão do estado policial chinês, controlado desde 1949 em monopólio absoluto pelo Partido Comunista. Destituídos dos mais básicos direitos, incluindo o direito de sair de casa e de circular na rua a pretexto de um "controlo sanitário" que dura há quase dois anos, os chineses atrevem-se a dizer "basta". Muitos já exigem não apenas o fim das restrições impostas a pretexto do combate ao covid-19 mas a demissão do líder supremo, Xi Jinping. Acossado pelos protestos, o regime começou a suavizar as normas sanitárias. Enquanto a proscrita palavra "liberdade" vai ecoando cada vez com mais força em praças e avenidas por multidões de jovens

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 05.12.22

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Ana Margarida Craveiro: «Há uma série de piadas sobre o inferno como destino inevitável dos advogados. Quando vejo que elegem este animal selvagem como Bastonário, tendo a lembrar-me delas. E sim, estou a ser eufemística.»

 

Ana Vidal: «Depois de uma longa pausa, está de volta Um Amor Atrevido, com novo fôlego e a qualidade de sempre. Ler a Sofia é sempre um prazer, e continua a ser um mistério para mim que nenhuma editora, sobretudo as que estão atentas ao que de bom se vai escrevendo na blogosfera, se tenha interessado ainda por esta escrita original, forte e intimista, rica como poucas.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Eu dou bitaites, claro está. De vez em quando. Mas não tive cargos políticos, nem vivi da vida partidária. Ou seja não comi à mesa do governo. Nem deste, nem dos outros. Pago os meus impostos, vivo do trabalho, sou uma criatura séria. Logo, sendo portuguesa, cumpro o meu mister de opinar. Nem sempre acerto, mas o Dr. Gaspar também não. Ele é ministro e eu não.»

 

José Navarro de Andrade: «No domingo passado pinguepongueva na raia, ora sobre Espanha, ora em céu português, um desses teco-tecos rotativos e fumacentos, só de uma hélice. Seria droga? Face à horrenda violação da nossa soberania espacial, a Força Aérea de Portugal, na ânsia de juntar mais uma medalha ao seu vastíssimo historial de proezas, sem ligar a despesas ou proporções, mandou dois caças F-16 interceptarem o prevaricador. Isto, para leigos, foi como enviar dois Ferraris cuja embraiagem não permitisse uma velocidade inferior a 100kms/h, em perseguição de uma Famel-Zundapp.»

 

Eu: «Questiono-me: será que para Jorge Miranda tudo é inconstitucional - do aborto aos cursos da Faculdade de Economia da Universidade Nova, do casamento homossexual à junta de freguesia do Parque das Nações? Será que, no limite, até os doutos palpites do eminente constitucionalista poderão estar feridos de inconstitucionalidade?»

No reino da redundância

Pedro Correia, 04.12.22

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O excesso de zelo na correcção política, com receio daquilo que as falanges mais extremistas possam verter nas redes insociais, gera situações destas, ao nível da linguagem: após "prisioneiras" (palavra cujo género gramatical é inequívoco) surge hoje a ingente necessidade de acrescentar "do sexo feminino".

Como se o termo anterior permitisse outra opção.

Caímos no reino da redundância. Não porque quem escreve ou quem traduz ou quem edita (neste caso a tradutora e a chancela editorial têm inequívoco mérito), mas porque as patrulhas ideológicas andam cada vez mais vigilantes e não permitem qualquer fuga à norma.

Aliás, não permitem sequer o recurso à norma.

Como este caso, por absurdo, apenas confirma.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 04.12.22

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Ana Vidal: «Podemos cortar os pulsos, é uma opção como outra qualquer e nem sequer muito descabida, nos tempos que correm. Ou podemos - eu vou preferindo fazê-lo, pelo menos enquanto puder - tentar manter a sanidade mental, talvez a ferramenta mais útil à sobrevivência para quem tem princípios (para quem não os tem, é sabido, a caixa de ferramentas é muito mais variada). Sem sanidade mental não há lucidez. E sem lucidez não há soluções, pelo menos para mim.»

 

Gui Abreu de Lima: «Tromba alegre, fumando, cá ando, num Estado de Direito que deixa todo o malandro à tona e me afoga em impostos, multas diversas, repescadas em remotos anos, sobre veículos que já nem circulam mas foram meus, mais uma scut de 4 euros que quis pagar em 2010 e não consegui porque o sistema é esquisito e a empresa das portagens não responde aos meus apelos de socorro, preferindo avolumar a conta em cada cobrança, tudo bem argumentado com o disposto em números e alíneas de artigos de Códigos jurídicos e decretos-lei de todas as idades, que não descuram a ameaça de justiça em tribunal.»

 

José Navarro de Andrade: «Daqui a um ano contaremos as cabeças e logo se verá quantas almas escaparam do inferno. Há cinco anos esperava outra coisa disto, o vento enchia as velas e a prudência serviu-me de pouco. Pode ser pior? Espera pelo dia de amanhã e logo verás quanto pode.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 03.12.22

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Ana Cláudia Vicente: «Tinham avisado de antemão, é certo, mas nem por isso a pessoa fica menos satisfeita quando dá pela coisa: nestes últimos dias de Outono, José Rentes de Carvalho e Francisco José Viegas, como as nozes e os pinhões, reapareceram nos sítios do costume. Satisfeita porque ler um e outro assim, como os demais que admiro, nessas dosezitas homeopáticas, mais ou menos frequentes e imprevisíveis. Há uma beleza específica na gratuitidade e idiossincrasia da bloga, mais até do que na sua imediatez. E comigo, é muitas vezes o bom no inesperado que me leva a não perder a tramontana.»

 

Eu: «O Soares dos últimos anos, que parece querer transformar o PS numa espécie de partido irmão do Bloco de Esquerda, está irreconhecível. Porque desmente a todo o passo a sua própria biografia política - uma biografia que sempre se opôs ao "frentismo" de esquerda, ao aventureirismo extremista e a todas as tentativas de cortar o passo à democracia representativa, nomeadamente através da diminuição do papel do Parlamento no conjunto das instituições políticas portuguesas.»

Leituras

Pedro Correia, 02.12.22

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«As coisas parecem maiores ou mais graves na escuridão, as doenças mais destrutivas, a presença do mal mais próxima, o desamor mais intenso, a solidão mais profunda.»

Juan Gabriel Vásquez, O Barulho das Coisas ao Cair (2011), p. 281

Ed. Alfaguara, 2020. Tradução de Vasco Gato

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 02.12.22

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Luís Menezes Leitão: «Fui ver ao cinema ver o filme Mata-os suavemente, com Brad Pitt, Ray Liotta e James Gandolfini. O filme é absolutamente espantoso, não apenas pelo trabalho extraordinário dos actores, mas principalmente pela forma como retrata uma América praticamente moribunda durante a grande crise de 2008. A história é sobre um assassino a soldo, que vai fazendo o seu trabalho enquanto o país assiste ao gasto de 800.000 milhões de dólares do orçamento americano para evitar a falência dos bancos. Vamos assistindo pelo caminho aos discursos de Bush, explicando que não gostava dessa decisão mas que era obrigado a tomá-la devido à irresponsabilidade dos banqueiros. Em contraponto surge a campanha eleitoral de Obama a prometer um futuro melhor, mas em que ninguém acredita, sabendo quais as consequências daquela decisão. Na altura não pude deixar de sorrir, pensando como é parecido o discurso actual dos políticos portugueses, lavando a sua consciência em torno do Orçamento de 2013, ao dizer que por muito mau que seja não têm outra alternativa senão aprová-lo.»