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Esta é uma crónica para quem gosta de desporto. Para quem, perante uma vitória, grita Portugal, divulga nas redes, diz-se orgulhoso, não se cansa de ver o feito.
 

É uma crónica sobre um menino açoriano que subiu ao pódio da Taça do Mundo no Open Internacional de Ginástica no escalão juvenil. Ganhou a competição com 19.250 pontos. Ao lado de Tomás estavam Damir Manacof da Rússia, com 19.200 pontos e Leonor Manta da Roménia com 18.600 pontos.

O sorriso de Tomás Amaral na vitória é quase comovente, diz tudo. Está ali o seu momento, é grande, é imenso, é o seu nome, o hino do seu país, os pais a morrer de orgulho, de certeza, a treinadora, Alexandra Barroso, de lágrimas nos olhos, os amigos a torcer para que tudo tenha valido a pena. Um corpo de rapazinho, pequeno e esguio, a voar num tapete de dez por dez metros. Vence o ouro para Portugal e deveríamos estar histéricos de felicidade, deveríamos abençoar o século XXI e a evolução dos nossos atletas e respectivas condições de trabalho.

Tomás Amaral só pode treinar duas vezes por semana, porque não há condições em Ponta Delgada para este ou outros campeões e, apesar disso, como a estrada em tempos para Rosa Mota, os atletas persistem. O Tomás Amaral treina no Clube de Actividades Gímnicas de Ponta Delgada. A treinadora diz que as condições que têm são más, que precisa de uma área oficial de 10 metros por 10 metros mais do que duas vezes por semana.

Quem nasceu a ver Nadia Comăneci e afins a voar nos tapetes, com o arco, a bola, a fita, nas paralelas assimétricas, só pode dizer: incrível, ganhámos, ganhámos aos russos, aos outros, aos do costume. Nós, o povo de feitos incríveis em tantas áreas, sim, nós, mas caramba na ginástica e sem condições.

O sorriso de Tomás Amaral fez o meu dia, fez o dia de muita gente, mas não de um país. Há modalidade e modalidades, já se sabe. As atenções estavam no futebol, dizem-me. Vão dizer isso ao Tomás, sim? Talvez até seja do adepto ferrenho de futebol este o nosso campeão, mas isso nem interessa para nada.

O que importa mesmo dizer é que precisamos de dar condições aos nossos atletas, jovens ou menos jovens, olímpicos ou paralímpicos (e se formos para o universo dos paralímpicos, pois devíamos ter vergonha como país, porque as medalhas chegam-nos em barda, mas esses são os atletas do não-apoio). E em Ponta Delgada estas condições não existem. O que existe é uma enorme vontade de vencer, de ser melhor.

Depois de escrever estas linhas, soube que Diogo Ganchinho é campeão da Europa de Trampolim. Ok, não tem o glamour de outras coisas, pois, mas parabéns Diogo, parabéns Tomás! E parabéns Portugal.

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Joãozinho ou as perguntas que as crianças fazem

por Patrícia Reis, em 12.04.18

Faltam 22 milhões de euros para as obras na unidade pediátrica do Hospital de São João no Porto. Digo que faltam porque estão aprovadas há um ano e nunca apareceram, portanto estão em falta.

O Parlamento e a Oposição caíram – e bem – em cima do Governo; o Governo, na pessoa de Mário Centeno, o todo-poderoso ministro das Finanças, esteve no Parlamento, numa audição conjunta das comissões de Saúde e Finanças, solicitada pelo PSD e pelo CDS a propósito do sector da saúde e da cativação de verbas para o sector.

Mário Centeno disse muita coisa, revelou números atrás de números, afirmou que a unidade pediátrica hospitalar tinha sido anunciada pelo Governo anterior sem verba para tal e bateu-se  - ferozmente - para explicar aos senhores deputados que, afinal, está tudo bem e que eles é que parecem não entender o que lhes é dito.

Bom, sobre o Hospital de São João e crianças com cancro a serem tratadas em corredores e contentores, o senhor tem razão para dizer que o anterior Governo tem responsabilidades concretas. E este governo? Também.

Não está tudo bem, é evidente, e não deixou de estar tudo bem no início desta semana quando as palavras de um responsável  daquele hospital classificaram as condições  existentes como miseráveis e indignas. Há muito tempo que não está tudo bem.

O Governo assegura que a verba, os tais 22 milhões de euros, será libertada e que as obras se farão. Ninguém perguntou, mas deveriam ter perguntado: então, quando Pedro Passos Coelho foi inaugurar a primeira pedra de uma unidade pediatria oncológica em 2015, sem verba, apoiando-se numa associação que iria angariar mecenas dispostos a levar a carta Garcia, era só para fazer parangonas de jornais? Good press? E o que aconteceu à dita cuja associação liderada por um tal de Pedro Arroja?

E, já agora, depois deste Governo ter assumido funções ninguém se ralou com o que estava a acontecer no dito hospital? Tantas perguntas, eu sei.

Acrescento outras para a realidade do dia de hoje: uma vez chegado o guito a quem de direito, que trâmites burocráticos faltam resolver? O orçamento de 22 milhões de euros tem um ano, mantém-se? O concurso para as obras afinal é válido? Ainda há mecenas? Onde foi parar a Somague, por exemplo, que assumiu que doaria uma quantia anual por dez anos? Quem não quer ajudar as crianças com cancro? Eis uma pergunta que o responsável pelo mecenato nos tempos do governo de Passos Coelho fazia certamente com um sorriso.

Enfim, talvez alguém tenha perguntado estas minudências e procedimentos e eu não tenha visto na televisão, não tenha lido nos jornais. Pode ser. O que me faz assaz confusão é que, como todos sabemos, as obras tendem a perpetuar-se, nunca são o que se espera, raramente se cumprem os prazos inicialmente previstos quanto mais o orçamento. Ninguém fiscalizou? Desde 2015?

Bom, e agora chegámos aqui. Uma vez em obras, que condições tem o Hospital de São João do Porto para dar respostas aos tratamentos de oncologia? Para onde irão estas crianças? Para outros corredores? Qual é a logística? Não consigo descortinar respostas para questões singelas.

Um pai de um doente diz que há outros espaços no hospital, que os contentores onde estão as crianças com cancro não são uma fatalidade. Diz mais, diz que tentou convencer a administração que era possível encontrar uma solução imediata e o interesse foi nulo. O Presidente do Hospital, que veio dizer que as condições eram miseráveis e indignas, pois não deve querer deslocar a administração do hospital para os contentores.

Não ouvi, nem ouvirei, um qualquer responsável dizer algo idiotamente básico e que as famílias com crianças com doença oncológica mereciam ouvir: pedimos desculpa. O pedido de desculpa, se existisse decência, seria do Governo actual e do anterior.
Esta situação não se gerou espontaneamente esta semana, tem muito, muito tempo. Mas neste país não se pede desculpa por nada, porque  seria a admissão de uma qualquer culpa e isso não é, politicamente, aceite como de bom tom, por isso faz-se o costume, culpa-se o anterior governo. Neste caso, está certo atribuir culpas, mas não chega.

O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista juntam-se aos protestos, exigem que a luta pelo queda do défice seja mais branda e que o dinheiro seja aplicado onde é preciso. No Hospital de São João? Pois, por exemplo. Recordam que a maioria governativa não existe sem o seu apoio.

Está bem, de acordo, mas, de novo, além de se matarem com retórica uns aos outros no Parlamento e nos jornais, quem é que está a tratar de arranjar uma solução para as crianças da unidade Joãozinho enquanto as ditas cujas obras começarem? Quem é que efectivamente se preocupou com as crianças e respectivas famílias desde a operação mediática do lançamento da primeira pedra? Pois, parece que ninguém.

Não é uma pouca vergonha, é uma imensa vergonha.

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para acabar de vez com a cultura

por Patrícia Reis, em 05.04.18
Não sei se é intenção deste governo assumir que, afinal, o partido socialista agradece o apoio de artistas e agentes culturais em campanhas e afins, mas não está nada interessado em mudar o panorama nacional e entender que a cultura é a identidade do país e, por isso, merecedora de muito mais do que 0,02 por cento do Orçamento de Estado. Não sei se será politicamente correcto dizer que esta gente da cultura, afinal, é uma grande chatice, mas certamente que passará algo de semelhante pela cabeça de quem governa estas matérias.
 

O ministro da Cultura e respectivo secretário de Estado têm prestado pouco, pouquíssimo, para garantir que, por fim, num governo liderado por António Costa, a cultura tem o que na verdade merece. A dupla terrível sofre de um mal, ou de vários, e não tem qualquer salvação. Quando a coisa corre pior para o seu lado perde a autoridade e os agentes culturais, artistas, gestores, etc., batem a porta, e apelam directamente ao primeiro ministro.

Foi assim com o cinema, é assim com o resultado do concurso da Direcção das Artes para apoio financeiro para a área do teatro, música, circo contemporâneo e artes de rua, artes visuais e cruzamentos disciplinares.

Numa carta aberta a António Costa, a tal gente da cultura que, na verdade, deveríamos ser todos nós, diz que a política cultural do Governo “falhou por completo e de forma transversal”. O Governo, perante tanta lamúria, manda dizer que afinal há reforço financeiro: tomem lá mais dois milhões de euros. A ver se a coisa acalma.

O secretário de Estado, que demorou muito tempo a definir os moldes deste concurso e que perante a sua ineficácia mantém a ideia de que o modelo de concurso é bom, pasme-se, parece dizer que ainda há espaço para rever algumas coisas. E, de repente, é uma coisa juvenil, ou mesmo uma disputa infantil: ah, os meninos querem mais e vão fazer um grande alarido? Esperem, esperem que nós mandamo-vos doces.

Desta vez, doces não chegam, as manifestações estão marcadas para amanhã em Lisboa, Porto (o presidente da Câmara Municipal do Porto tem esfregado as mãos com esta polémica e posiciona-se para ficar num pódio de solidariedade e cultura como nenhum outro dirigente), Évora, Coimbra (cidade que ficou sem nenhuma estrutura cultura apoiada pelo concurso para financiamento) e Funchal, às 18h00.

Nunca entenderei a razão que faz com que a cultura seja o parente pobre do governo, deste ou de qualquer outro, sendo que este nem consegue assegurar algumas das condições do passado e mete os pés pelas mãos com o duo fantástico que preside a estes destinos.

O Partido Comunista e o Bloco de Esquerda mostram-se acérrimos defensores dos queixosos. Até há quem volte a dizer que a Cultura deveria beneficiar de um por cento do PIB do país. Há cronistas que pedem a demissão de Castro Mendes, o ministro diplomata e poeta, e de Miguel Honrado. Para mim, vale pouco.

Importa dizer ao primeiro-ministro que não pode contar com os artistas para fins meramente políticos, é preciso dar-lhes condições para servirem melhor o país, enriquecendo a nossa identidade, mostrando como não somos iguais a mais nenhum povo deste planeta. A Cultura como parente pobre num país que tem níveis aclamados de turismo ainda faz menos sentido.

Bom, estou a magicar coisas: imagine-se o que seria uma aposta concertada na Cultura como investimento económico. Isso é que era. Mas não será com este governo, nem com qualquer outro governo. Não importa realmente a ideologia, o mecanismo de funcionamento face à cultura repete-se e é, no mínimo, triste.

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A América que muda

por Patrícia Reis, em 29.03.18

Milhares de pessoas, em especial jovens, saíram à rua e fizeram uma revolução. Não foi apenas um acto isolado, e isso é evidente para quem ouviu os diferentes discursos nas diversas cidades.

Este movimento veio para ficar e para mostrar a Donald Trump que talvez seja derrotado por quem é mais jovem, por quem é capaz de pisar um palco e, com tão pouca idade, dizer de sua justiça, invocando palavras sábias, relatando episódios traumáticos de violência, exigindo que os políticos sejam melhores. É uma revolução.

“É um novo Maio de 68”, disse a escritora Inês Pedrosa no twitter. É é verdade. Um Maio de 68 em Março de 2018 cujo enfoque não é apenas a questão da venda de armas, a falta de controlo (os jovens exigem a proibição da comercialização de armas de fogo, da venda livre de carregadores para armas semiautomáticas e o reforço dos controles de antecedentes das pessoas interessadas em comprar armas). É uma revolução pela vida, pela segurança, pelos direitos elementares, pela liberdade de expressão. Não são “jovens corajosos”, como refere o comunicado da Casa Branca, de forma condescendente. Nada disso: são jovens com voz, com ideias, com discurso, com capacidade de mobilização, com ideias, com objectivos. Tal e qual como eram os estudantes que mudaram o mundo à sua maneira em 1968.

A geração das redes sociais, do século XXI, não é comodista e preguiçosa, é informada, articulada e tem coisas para dizer, em especial quando se sente ameaçada. Estes jovens norte-americanos estão fartos, cansados de ter medo de quem possa ter uma arma e atacar. Os ataques a liceus não são ocasionais, são constantes. O poder que o negócio das armas detém nos EUA reside no esquema mafioso de benefícios financeiros para políticos para quem os eleitores, na verdade, são um pormenor de somenos na equação da democracia. Estes milhares de jovens de provenientes de diferentes meios sócio-culturais, de ambos os sexos, habitantes de vários estados norte-americanos, não querem mais conversas e subterfúgios, querem uma solução. Não podem – nem devem – ser encarados com condescendência. É a eles que o futuro pertence, são eles os leitores que Trump deve temer.

Estes jovens pensam pelas suas cabeças e não são, como explicou Naomi Wadler, de 11 anos de idade, “manipulados por adultos”. São capazes de perceber a diferença entre o certo e errado e não têm medo de enfrentar o mundo para dizer de sua justiça.

Com uma organização exemplar, a Marcha pelas Nossas Vidas foi uma iniciativa de estudantes sobreviventes do tiroteio numa escola em Parkland, na Florida, um tiroteio que ocorreu no mês passado, durou seis minutos e vinte segundos e resultou na morte de 17 pessoas. Emma González, uma das estudantes sobreviventes, de origem cubana, assumidamente bissexual, surgiu no palco principal do evento em Washington, com um casaco a lembrar o universo militar, cabelo rapado, e tornou-se o rosto de uma geração, de uma geração com direitos e exigências, uma geração que exige que sejamos melhores enquanto sociedade, na forma como nos comportamos, como lidamos uns com os outros. Emma Gonzalez anteve-se em silêncio durante quatro minutos e vinte segundos, um tempo infinito, as lágrimas a espreitarem, a rosto cerrado. Podia ser uma cena de um filme de Hollywood a puxar ao sentimento, mas é a vida real e é impossível ouvir e ver esta jovem sem qualquer comoção, é obrigatório chorar com ela.

Cameron Kasdy, outro estudante de Parkland, disse: “Desde que o movimento começou, as pessoas perguntam-me: ‘Pensas que isto vai provocar alguma mudança? Olhem à vossa volta. Nós somos a mudança”.

Christopher Underwood, de 11 anos de idade, falou sobre o irmão, baleado em 2012. Tinha 14 anos. “Na altura, eu tinha apenas cinco anos. Transformei a minha dor e raiva em acção (...) As nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecermos em silêncio sobre as coisas que importam”. A citação de Martin Luther King é exemplar do que acontece(u) na Marcha Pelas Nossas Vidas. A neta de Martin Luther King, de nove anos de idade, Yolanda Renne King pediu "um mundo sem armas". Tem o mesmo sonho do avô. Não está sozinha.

Em Los Angeles, Edna Chavez, também ela estudante de 17 anos, declarou: “Sou uma sobrevivente. Vivi no centro de Los Angeles a minha vida toda e perdi muitos dos meus entes queridos por causa da violência. Isto é o normal. (...) Eu perdi mais do que o meu irmão naquele dia, perdi o meu herói. Também perdi a minha mãe, a minha irmã e a mim mesma para o trauma e ansiedade”.

Desde Janeiro deste ano foram registados 49 tiroteios, já morreram 3 mil 159 pessoas em incidentes com armas nos Estados Unidos. Destes, 737 tinham menos de 17 anos de idade. Os jovens gritaram: “Já chega!”

A História mostrará que têm a capacidade para mudar o mundo e que nada os deteve.

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carneirada? sim, somos nós

por Patrícia Reis, em 22.03.18
Lembra-se daquele filme no qual Dustin Hoffman fabricava uma guerra porque o negócio da guerra é apetecível e porque politicamente era interessante para certas pessoas? Não tem importância se não se recorda, o que importa realmente é que a ficção foi largamente ultrapassada pela realidade, facto inegável perante notícias como as que dizem que o Facebook permite que os dados dos seus utilizadores sejam manipulados.
 

Há empresas especialistas em manipulação e propaganda política que, não apenas nos filmes com teorias de conspiração, prevêem comportamentos e tendências e encaram a população como... não há outra forma de o dizer, portanto aí vai, uma carneirada capaz de se deixar enganar com os engodos mais simples. Todos achamos que somos inteligentes, bem formados, temos bom gosto e somos moralmente corajosos e esclarecidos e, por isso mesmo, iremos negar essa possibilidade de manipulação.

Ontem alguém me dizia: “eu uso as redes sociais mas não embarco naquilo”. A mesma pessoa, há cerca de duas semanas, lamentou a morte de Umberto Eco, a circular por aí como uma novidade, apesar de ser uma postagem com mais de um ano. Não abriu a informação, leu as gordas e lamentou a morte do autor de O Nome da Rosa. Desde que frequento as redes sociais, o Vasco Granja já morreu uma dez vezes. Há sempre quem se comova e apresente as condolências com um sentido de oportunidade digamos que estranho.

Estes episódios são exemplos quase que inocentes de como não filtramos nem analisamos a informação distribuída nas redes sociais. Lemos as gordas e comentamos. Publicamos fotografias da nossa vidinha feliz e partilhamos notícias que nos importam e que podem ajudar a criar um perfil de quem somos, do que gostamos, no limite, daqueles em quem podemos votar. Se nos atirarem areia nem coçamos os olhos. Aceitamos.

Assim mesmo se explica que a campanha para a Presidência dos Estados Unidos tenha conquistado tantos adeptos, os mesmos milhões que votaram no senhor Trump. Teriam as pessoas a noção exacta daquele em quem estavam a votar? O mais certo é a resposta ser: não. Só assim se entende a percentagem de latinos e afro-americanos que votaram neste 45º Presidente dos EUA. É inegável que o senhor não é fã de nenhuma destas componentes da sociedade.

O Parlamento Europeu convidou Mark Zuckerberg a explicar como se podem – ou não – manipular os dados pessoais dos cerca de 500 milhões que utilizam o Facebook. Até ao momento em que escrevo esta crónica, o senhor todo-poderoso das redes sociais não deu uma resposta. O convite surge por causa das notícias (divulgadas pelo London Observer e pelo New York Times) que correram mundo rapidamente: uma empresa com sede no Reino Unido, a Cambridge Analytica, usou informação do Facebook para auxiliar a eleição de Donald Trump, em Novembro de 2016. Há uma violação clara dos direitos das pessoas? Pois.

A dita cuja empresa que, alegadamente, terá manipulado os dados, recusa as acusações (Então? Estavam à espera do quê?) e afirma-se disponível para ajudar em qualquer investigação. A verdade é que existem relatos – embora indirectos – de que a empresa se especializou em criar situações online com objectivos específicos, seja fazer ganhar eleições, seja fazer cair políticos corruptos. As investigações levarão a eternidade do costume, entretanto, as redes sociais - e outras empresas às quais damos os nossos dados, bancos, lojas, etc, etc - continuarão a dar-nos de comer e nós iremos comer às suas mãos, obedientes e de olhos fechados.

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É do inimigo? Raul Solnado ainda está aqui

por Patrícia Reis, em 15.03.18
Há quase uma década que não rimos com Solnado. Telmo Ramalho aprendeu muito com Raul Solnado e sempre quis fazer a sua homenagem, dizer os seus textos mais acarinhados e reconhecidos pelo público. E é isso que acontece no palco do Auditório dos Oceanos em Lisboa até ao fim deste mês.
 

A história é quase comovente. Telmo Ramalho não tinha imaginado ser actor. Natural de Figueira de Castelo Rodrigo (não precisa de ir ao mapa, é no distrito da Guarda), Telmo Ramalho viu a sua vida transformada por uma cassete (uma espécie de CD mas um pouco mais primitivo, ver referências na internet, por favor) que o pai comprou numa estação de serviço. A cassete trazia os monólogos de Raul Solnado. Não o entusiasmou à primeira, precisou de um pouco de tempo, e depois rendeu-se ao poder quase hipnotizante de Solnado, a sua capacidade única de dizer um texto.

Vou contar-lhes a história da minha ida à Guerra de 1908.
Eu trabalhava numa fábrica de produtos farmacêuticos, e, um dia sem querer, parti um comprimido e despediram-me. Fui então lá para casa sentar-me numa cadeira que nós lá temos para quando somos despedidos. Estava-me a baloiçar, quando entrou o meu tio Gustavo com o jornal que trazia o anúncio da guerra.
Precisa-se de Soldado que mate depressa!
E diz a minha tia:
Porque é que tu não respondes a esse anúncio?
E diz a minha mãe:
Isso, isso o que era preciso era comprar-lhe um cavalo!
e diz a minha tia:
Mas eles na guerra dão cavalos.

A vida de Telmo Ramalho prosseguiu, com um novo morador no coração, mas sem grandes vontades de palco ou de representação. Estudou turismo e animação turística, foi para o Porto e, em 2002, ingressou no Corpo de Vigilantes da Natureza. Estava nisto de ver a Natureza, de prevenir fogos e mirar animais selvagens quando, em janeiro de 2007, participa no concurso televisivo Aqui Há Talento na RTP1. Não ganhou o concurso, já se sabe, mas acabou por conhecer o mestre. E o bicho ficou cada vez maior dentro de si que isto de ser actor não é um dado conquistado tão somente, é uma coisa que nasce dentro das pessoas. Decide estudar, fazer um curso de teatro e descobre que Raul Solnado dá aulas.

Fomos para casa, e a minha mãe preparou me umas papas de sarrabulho para o caminho, tomei um táxi e fui para a guerra. Cheguei à guerra eram sete horas da manhã, estava ainda fechada. Estava também uma mulherzinha a vender castanhas à porta da guerra e eu perguntei:
“Minha senhora, faz favor? Diga-me, aqui é a guerra de 1908?”
E a senhora disse-me:
Não! É mais acima! Aqui é a guerra de 1906.
Repliquei um
Muito obrigado.
Subi dois anos. Cheguei lá cima, e estavam já a abrir as portas onduladas da guerra, eram já nove e tal, e o sentinela perguntou-me se eu vinha ao anúncio, e eu, disse que sim, e perguntou ele:
E matas depressa?
E eu disse,
Por enquanto ainda mato assim-assim… preciso de treino.”
Respondeu-me:
Então, anda ao capitão.
Fomos ao capitão, e o capitão perguntou-me se eu trazia a espingarda ao que eu disse:
Não, pensei que a ferramenta davam cá vocês. O que eu trago é uma bala, que um vizinho meu guardou como recordação da guerra dos cem anos.
E diz o tenente:
Como é que você mata só com uma bala?
E eu expliquei:
Disparo a espingarda, e depois, vou lá a correr buscar a bala.

Telmo Ramalho aprendeu muito com Raul Solnado, ouviu-o atentamente, entendeu as críticas, as sugestões e, fascinado pelo grande actor, sempre quis fazer a sua homenagem, encarnar Raul Solnado, dizer os seus textos mais acarinhados e reconhecidos pelo público. E é isso que acontece no palco do Auditório dos Oceanos em Lisboa até ao fim deste mês. Depois, se o resto do país perceber este tesouro que temos em palco, talvez o espectáculo chegue a outras paragens.

Aqui o humor é único, com sub-texto, sem nada de brejeiro. O actor segue o mestre e está lá tudo, os tiques, as mãos a dançar, as pausas típicas de Solnado e uma história para contar que é, afinal, a história de todos nós com o actor que nos deixou fará, para o ano, uma década. Há uma década que não rimos com Solnado, apesar disso temos incorporado algumas das suas saídas, algumas partes do que disse em palco, pequenas tiradas que importámos para a nossa vida.

Fui ver o espectáculo com a minha mãe. Há muito que não a ouvia rir tanto. Voltou atrás no tempo e antes do Telmo Ramalho dizer o texto, em surdina, com imenso gozo, a minha mãe completava-lhe as frases.

Bem, fizeram uma conferência e deram-me seis balas, mandaram-me depois matar. Estava então eu, a matar, muito quentinho, quando veio o capitão e mandou-me ir vestir de espia. Deram-me um vestido de orgândicos com uns laços cor-de-rosa na cabeça e mandaram-me de espia. Cheguei à guerra do inimigo, bati à porta e o sentinela espreitou pela frincha e perguntou:
Quem é?
E eu:
Sou a Maria Albertina, malandrice!
Ele disse:
O que é que queres?
E eu disse:
Eu venho cá buscar os planos da pólvora.
E ele disse:
Trabalhas de espia há muito tempo?
E eu disse:
Trabalho desde as 11!

Há nove anos que não rimos desta forma, que não somos tocado pela magia de Raul Solnado. Obrigada Telmo Ramalho por nos devolveres um bocadinho do Raul.
* As partes reproduzidas pertencem ao sketch "A minha ida à Guerra de 1908", passou na censura e subiu ao palco em 1961 integrado na revista "Bate o Pé", em cena do Teatro Maria Vitória.

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Podia debitar as estatísticas sobre CEO de empresas mulheres, mulheres sem ordenados equiparados, progressões de carreira a sofrer de lentidão e afins, mas não vale a pena maçar-vos com informação que é, nos dias que correm, dado adquirido e que, tantas vezes repetida, provoca, em algumas mentes estafadas de profundo cansaço, certa irritação. 

Não conto pelos dedos as vezes que me disseram que “isso já se está a tornar cansativo”. Não conto pelos dedos por não os ter em número suficiente. Confesso que o meu feminismo não é pop, nem fundamentalista, é talvez básico, mas atento. A minha luta, e a de muitas mulheres e homens de boa vontade, é pela paridade, pelo tratamento equiparado, pelo ordenado igual.

Uma coisa é certa: se eu fosse homem teria feito uma carreira no jornalismo - e na literatura! - com maior ligeireza e sem tantas provas de esforço. Não podem dizer que peco por excesso, podem apenas dizer que falo por mim, tendo em conta os meus 30 anos de vida profissional. Seja, falo de mote próprio, afinal é o meu nome no cabeçalho, a minha fotografia aqui especada. Se quiserem cingir o que vos escrevo à minha pessoa e vidinha, pois estão apenas a enganar-se, mas vamos lá a isto.

Em 2017, José Luís Peixoto, num encontro na feira do livro do Porto, disse: “A minha vida é mais fácil do que a vida da Patrícia, não sou mulher”. Sorri e comecei a pensar nas histórias que tenho acumulado ao longo da vida: a Maria Teresa Horta a dizer que coloca um alarme quando está a cozinhar para ter a certeza de que não deixa queimar nada, ela a tentar escrever poesia e a fazer comida para a casa; a Sophia de Mello Breyner que terá dito que escreveu muitos poemas enquanto fazia bacalhau com batatas; a Agustina Bessa-Luís a rir, os homens não são para levar a sério; a Inês Pedrosa a explicar que, como reivindicou Virginia Woolf (leiam o livro Um Quarto Só Para Si, edições Relógio d’Água, é maravilhoso), é preciso ter liberdade financeira e um quarto só nosso, um escritório como têm tantos homens.

A estes grandes vultos da literatura posso juntar quase todas as escritoras com quem me cruzei em Portugal e fora de portas. A nossa vida não é fácil. Ser escritora mulher significa ser uma mulher de sete ofícios, pela simples razão de termos inúmeros afazeres que, por uma razão quase estranha e maléfica, nos impedem de fechar a porta do escritório e dizer: vou escrever, não me perturbem, não me interrompam.

Não. É certo que a porta do “quarto só nosso” mantém-se aberta e corremos o risco de ter um filho a berrar lá ao fundo da casa: Mãeeeeee, preciso de papel higiénico! Tens 50 cêntimos? O que é o jantar? Ou outra coisa qualquer, porque a uma mulher não passa pela cabeça fechar a porta e dizer que vai escrever e está desligada para o resto do mundo. Sim, teria sido mais fácil ser homem enquanto criava os meus filhos, decerto que teria conseguido ir a festivais literários e sessões em bibliotecas com maior frequência.

Hoje sou uma privilegiada, sou uma mãe-livre, no sentido em que os meus filhos são adultos e, portanto, posso escrever e ouvir músicas estranhas, posso fugir para dentro de casa sem ter de me preocupar com escolas e actividades. E ainda tenho, cereja no topo do bolo actual, um marido que me diz: vai, vai escrever, eu trato. Ah, de que me queixo eu?

Se tivesse nascido rapaz e me chamasse João ou Manuel ou Francisco ou António ou Xavier, eu seria uma escritora com pergaminhos. Podia manter uma dose de mistério, mas os meus livros venderiam muito mais. Sim, está provado que os melhores compradores de livros são as mulheres e está igualmente provado que compram maioritariamente livros escritos por homens. E, lá está, peço desculpa pela repetição, mas é já um fetiche: se uma mulher escreve uma história que tenha um enredo amoroso, é somente uma história de amor; se um homem escreve uma história de amor, ah, é sobre a condição humana.

Mas há mais: se eu fosse um homem e escrevesse umas coisas lamechas, quem sabe?, podia vender mais livros e atingir o céu em termos de números de fãs (ou devo dizer, adeptos? fiéis?). Não, nada disso. Se estivesse numa televisão a apresentar qualquer coisa e fosse um rapaz garboso de fato azul escuro e bela gravata grená, podia escrever mistérios e até episódios eróticos de mau gosto, ninguém se importaria, sobretudo a minha conta bancária.

Sim, bem sei que estou a ser irónica e mazinha, mas o que querem? Parece que este é o nosso dia, o da mulher, porque o dos homens será todos os outros e nós, criaturas frágeis a precisar de protecção, temos de aproveitar este dia para falar alto e bom som das nossas dores tamanhas.

Ora, nós não precisamos de protecção, o que não significa que não possamos apreciar os gestos cavalheirescos, precisamos que nos encarem com a mesma seriedade com que encaram o sexo oposto, reconheçam o nosso valor, nos paguem os mesmos salários, nos dêem oportunidade de chegar aos mesmos cargos. Precisamos ainda que nos oiçam e percebam que o que se fez anos a fio, práticas seculares, não justificam o que continua a passar-se.

São vários os movimentos que tentam chamar a atenção para a causa feminina, já se sabe. Infelizmente, não são suficientes e, por isso, eu, cansativamente feminista, repito e volto a repetir as informações que cansam tantas mentes estafadas de ouvir estas mulheres que não sabem senão queixar-se. Um estudo da Deloitte demonstra que apenas 13% dos cargos de direção no nosso país são ocupados por mulheres. E quantas mulheres detêm e lideram conselhos de administração? Apenas 2%.

Portanto, pergunta para queijo: acham que nos temos queixado o suficiente? Olhe que não, caro colega, olhe que não.

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Num jantar de pais livres, como gosto de lhes chamar (pais com filhos em idade para ter vida social própria), falava-se de sexo. Será que os nossos filhos viram, ou vêem, pornografia? Não queremos falar de sexo com os nossos filhos e tão pouco pensar que têm acesso a pornografia com a maior facilidade do mundo, mas é um facto, real, fácil de comprovar, estudado e analisado.
 

Com acesso a smartphones ou tablets, os jovens podem aceder a sites pornográficos gratuitos com uma facilidade quase, digamos, obscena. Os pais não têm como saber? Não têm. Uma das mulheres que jantava naquela mesa de gente crescida disse que via o histórico do computador dos filhos (eu seria incapaz, confesso), mas que não tinha como aceder ao dos telemóveis sem “dar nas vistas”.

Os pais continuaram a conversar animadamente: os homens a recordar uma publicação de nome Gina e os lugares onde a podiam comprar (algumas eram herdadas dos irmãos); as mulheres a confessar como informações sobre sexo tinham chegado via amigas, e não pela família e, na sua maioria, concordavam que a informação chegara tarde demais. Hoje, os adolescentes ainda não iniciaram a sua vida sexual e já podem ter visto tudo. E o tudo é, muitas vezes, pornografia, sexo entre duas ou mais pessoas, tantas vezes com posições de dinâmica de poder favorecendo os homens, com práticas e discurso que podem surgir como “naturais” para quem é menos informado.

Para saber um pouco mais, leiam o artigo do The New York Times de Maggie Jones, traduzido Luís M. Ferreira e que foi publicado na última revista do semanário Expresso. São seis páginas muito elucidativas e preocupantes. Eu sei que são seis páginas de texto, sem qualquer imagem, porém garanto-vos que o artigo vale todos os vossos minutos, em especial se são mães ou pais.O sexo faz parte da vida, é saudável e de louvar, não tem discussão. Implica, numa prática saudável, reciprocidade, um princípio de prazer mútuo que é totalmente esquecido na maioria dos filmes pornográficos.Há uns anos, ouvi – procurem na internet – uma Ted Talk de Erika Lust, realizadora de filmes porno, que me ensinou em 15 minutos algumas coisas e aniquilou uns tantos estereótipos. Erika Lust gere um negócio porno altamente rentável. A diferença? A procura de uma narrativa sexual que não diminua a mulher, que possa ser entendida de outra forma, para, diz a realizadora, se perceber que nem todas as mulheres têm mamas gigantes nem os homens são todos dotados de pénis com 30 ou mais centímetros.

No tráfego de consumo de pornografia, Portugal está no 41º lugar, portanto não podemos dizer que não é um assunto. É um assunto. A maioria dos consumidores de pornografia são homens (78%), as mulheres ficam nos 22%. Estes dados são da Pornhub que, há três anos, decidiu analisar o mercado português. Chegaram a conclusões interessantes, então partilhadas pelo Jornal de Negócios. Um dado a reter: como o acesso aos sites porno antes dos 18 anos é ilegal, os dados sobre o consumo não contemplam idades inferiores. Outro dado a ponderar são as categorias de palavras mais procuradas em Portugal neste âmbito. A saber: “teen” e “milf” (Mother I want to fuck).

No artigo de Maggie Jones, encontramos o subtítulo: tudo começa aos 13. E a afirmação é sustentada por um estudo da Escola de Media da Universidade do Indiana (EUA) que aponta para que o consumo de pornografia em adolescentes comece aos 13 anos, no caso dos rapazes, e aos 14 anos, no caso das raparigas. A mesma universidade fez um inquérito a pais e filhos e concluiu que mais de metade dos pais não acredita sequer que os filhos vejam pornografia. Já 93% dos inquiridos masculinos e 62% femininos, no âmbito de um estudo da Universidade de New Hampshire (2008), admitem ter visto pornografia online antes dos 18 anos.

A pornografia como educador ou guia de orientação pode ter servido, ao longo dos tempos, vários propósitos. Nos dias de hoje, além de todas as questões relacionadas com sexo seguro e doenças sexualmente transmissíveis, importa que os adolescentes entendam as limitações do negócio que é o sexo. Um filme pornográfico não implica prazer, muitas vezes apresenta gestos de violência (asfixia, para dar um exemplo), linguagem mais agressiva e, classicamente, ejaculação para o rosto da parceira.

Replicar o que se vê não é boa opção na vida real. Vamos, então, falar sobre sexo com os nossos filhos? É capaz de ser ajuizado.

 

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Tenho dois cães. Não vão a restaurantes.

por Patrícia Reis, em 22.02.18

Gosto muito de animais, sempre gostei. Já tive gatos, agora tenho cães. Em tempos que vão, tive uma égua. Esforço-me muito por não impor os meus animais a terceiros. Não vou de elevador com eles à rua, vou de escadas. Se alguém vai jantar lá a casa, pois faço por não os ter em casa, vão ali passar umas horas com alguém que os trate bem. Apanho dejectos na rua e não os solto nunca. Esforço-me para os educar e nunca, nunca mesmo, vou dizer a uma criança (ou adulto) com medo de cães: não sejas parvo, ele não morde. Respeito o medo dos outros.

Não vou levar os meus bichos para os restaurantes, da mesmo forma que não os levo para a praia, para o bar, para a piscina, para os jardins cheios de crianças. Não gosto menos dos meus bichos por causa disto. É uma forma de estar. Sei que muitas pessoas considerarão que a nova lei é uma boa coisa. Ficará ao critério de cada um, já se sabe, e também dos donos de restaurantes.

Há, contudo, um aspecto crucial que creio não ser de somenos: os animais sofrem em espaços nos quais não se podem movimentar e sofrem mais ainda com cheiro de comidas que lhes estão interditas. Este é, como dito de início, o meu entendimento e ajo de acordo com esta ideia. Da mesma forma que, pese o amor que lhes tenho, reconheço-lhes a origem, logo não os visto, não lhes meto ganchos ou roupinhas e lenços à Xutos & Pontapés. São animais. São bons animais e excelente companhia, mas não são comparáveis com seres humanos. É que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Dirão que há animais que são tão importantes – ou mais – que muitos familiares. De acordo. Mas há mínimos olímpicos de higiene que me afligem nas idas aos restaurantes e afins. A minha cadela larga mais pelo quando se deita do que aquele que a cabeleireira atira para o chão sempre que me corta o cabelo. Os cães largam pelo. É um facto. Então, caso encontre um restaurante que o permita, com tanta fiscalização e afins, vou levar o meu animal e conspurcar o sítio? Ou vamos pensar que os donos de restaurantes têm de estar preparados para tal? E, já agora, para necessidades fisiológicas inesperadas?

Enfim, sei que para muitas pessoas esta questão é sensível e, decerto, alguém se encarregará de me colocar na ordem. Eu sou teimosa e vou manter os meus cães em lugares onde possam ser felizes e farei por ser o mais civilizada possível, apanhando dejectos da rua com um saco para o efeito, afastando os cães de crianças e idosos, de sítios que possam ser perigosos (cuidado com os vidrões, por perto estão inexplicavelmente vidros mínimos que se enfiam nas patas) e nunca os deixando andar a vaguear livremente. Não sei o que pode acontecer, creio que tudo pode acontecer e é para isso que existem trelas e, por outro lado, espaços específicos para cães correrem.

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vivemos num país só para jovens? parece que sim

por Patrícia Reis, em 15.02.18

Vivemos num país deslumbrado pela juventude. O que é novo é bom, logo pode ser arrogante e até mal-educado. Pasmo perante a quantidade de gente nova que masca pastilhas elásticas com a boca aberta; jovenzinhos foliões que não dizem bom dia ou boa noite, obrigada ou se faz favor; gente com menos de trinta anos incapaz de entender que serão, não tarda, parte desta outra metade do mundo: os mais velhos.A juventude aguerrida é de louvar. Nem todos tiveram educação esmerada, logo é aconselhável optar por observar, aprender e replicar. Não me comovem os argumentos de que cresceu sem isto ou sem aquilo. O que aconteceu na nossa infância ou na adolescência pode ser revisto na idade adulta. Convém que o façam para que, uma vez traídos pela passagem do tempo, possam chegar aos trinta, quarenta, cinquenta e por aí fora sem se sentir postos de lado, nomeadamente no mercado de trabalho.

Sim, a juventude é boa para os potenciais empregadores e não se premeia a experiência. É triste, mas é a nossa realidade, o que leva a que muitas pessoas com 50 anos de idade e mais tenham perdido o emprego e não consigam arranjar soluções no mercado. De repente, tudo o que fizeram não tem qualquer importância? Parece que não.

Muitas pessoas que trabalharam uma vida inteira, muitas vezes em condições indignas, envelhecem sem qualquer abrigo ou protecção. As famílias não são os álbuns das festas com sorrisos e roupas engalanadas. As famílias também podem ser autênticos infernos a portas fechadas. E, perante a velhice, os mais novos preferem não ver, nem ouvir. E há ainda quem prefira abandonar ou agredir.

Há cinco anos, um estudo brasileiro indicava que a cada cinco minutos um idoso era agredido no país-irmão. Em Portugal, mais de um terço da população tem 65 anos de idade ou mais. O que significa que somos o quarto país mais envelhecido da Europa, ultrapassado apenas pela Grécia, Alemanha e Itália. Mas vamos um pouco mais longe. Sabe quantos octogenários temos? Pois são 5,84% da população. Estudos apontam para que daqui a 50 anos existirão cerca de 300 velhos para cada 100 jovens.

E tudo isto importa porquê?

Importa que o envelhecimento activo se torne uma prioridade. Não só para evitar a discriminação de quem quer manter-se no mercado de trabalho apesar de não ter uns gloriosos 20 anos de idade, mas também por ser melhor.

Portugal terá de se redefinir, elaborar estratégias de forma inteligente, porque a população não está a rejuvenescer, não vivemos numa série de ficção científica, logo temos de dar resposta à questão da idade de outra forma. A maioria das empresas parece preferir ter dois empregados a ganhar ordenado mínimo do que um sénior com um ordenado adequado ao seu percurso e experiência. Diz-me a experiência que não é necessariamente a melhor opção. Conheço quem faça tudo para continuar a trabalhar e se mantenha activo, apesar de se ter visto no desemprego ou na reforma por razões alheias à sua vontade.

Uma equipa que integra gente mais velha possui algo que muitos desconsideram e que é fundamental: a formação. Não é apenas ter alguém mais velho que pode saber mais, é alguém que tem outra memória, que pode ajudar a contextualizar.

Quando comecei a trabalhar nos jornais, há 30 anos, aprendi muito, muitíssimo, com jornalistas veteranos. Bebia o que me ensinavam com fervor e fui acarinhada de forma inimaginável por sentir que apostavam em mim, que queriam que eu fosse mais longe.

Hoje, perante um vídeo que se tornou viral e que faz uma paródia do que é uma entrevista a um millennial, tenho de me rir. Quando fui à minha primeira entrevista de trabalho não me passou pela cabeça estar em permanente contacto com ninguém a não ser com o meu sistema nervoso. Queria muito aprender, sabia o meu lugar e, como o poeta, se falhasse pois voltaria a tentar e, porventura, falhava melhor. Ter alguém ao meu lado com uma enorme experiência serviu para muito.

As empresas não reconhecem o valor dos mais velhos num país que só quer jovens, mas que não os tem em número suficiente? Não. Nem as empresas, nem o Estado.

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A minha morte é um assunto meu

por Patrícia Reis, em 08.02.18
A eutanásia nunca será um tema consensual? Porquê? Parecem perguntas simples, mas não o são.
 

A sociedade gere-se por regras e as mesmas são impostas por uma maioria forte, predominante e, muitas vezes, cingida a uma moral que deriva da religião. Fala-se muito em amor, em vida, direito à vida e ainda outras coisas como a invocação divina. Estamos no século XXI, há coisas que já perderam validade. Ora, em Portugal, alguns partidos políticos elaboraram, ou estão no processo de elaborar, projectos de lei de legalização da eutanásia. Só pecam por ser tão tarde. Sou completamente a favor. Haverá quem seja contra, não tenho a menor dúvida.

Dirão que serão necessárias limites e fronteiras, pois seja. Até porque importa acautelar a possibilidade de familiares demasiado ansiosos por eventuais heranças, ou desejosos de se verem livres do peso daquela pessoa doente, se apressarem a antecipar a sua morte. É, portanto, crucial que a lei seja claríssima e eficazmente explícita quanto aos mecanismos de confirmação inequívoca do desejo do doente. É um caso em que não podemos permitir que a lei tenha zonas cinzentas? Absolutamente. E é para isso que votamos e temos partidos a pesquisar para produzir decretos-lei com pés e cabeça.

O que me importa, contudo, é a possibilidade de ver eliminada esta indignidade que a evolução da medicina permite: estendemos a vida do corpo sem qualquer preocupação com a dignidade individual, com a qualidade de vida de cada um. Há sempre o argumento do instinto de sobrevivência, ninguém quer morrer (ora pois, então!), não sabemos ao que vamos e, mesmo os mais religiosos, com promessas de céu e salvação, virgens e outras coisas, têm grande dificuldade em digerir este momento biologicamente inevitável.

A morte não é simpática, mas a vida faz-se com alegrias e percursos mais árduos, numa presunção de que vamos envelhecendo, mas não ficamos apenas ali num canto a dizer que estamos vivos sem capacidade para nos mexer. Se não quero cá estar, se o corpo me trai, por que será que não posso colocar fim à minha vida?

Em casos de sofrimento, devo dizer que não tenho qualquer reticência. Os fundamentalistas dos movimentos pró-vida, irão invocar argumentos que não tenho como entender: e se um adolescente se quiser matar com assistência? Bom, a adolescência é uma espécie de construção e destruição diária, os adolescentes pensam na morte e os que se querem matar, matam-se, não será para isso que servirá um decreto-lei certamente. Existe sempre também quem veja o aspecto financeiro da coisa. Em tempos, noutra matéria sensível, ouvi um argumento contra o referendo do aborto que era surreal: se matamos as crianças por nascer, não estamos a garantir contribuintes para o futuro, logo estamos a lesar as pensões (sem comentários). Portanto, também teremos quem pergunte porque razão deverá o Estado financiar a morte.

Ora, todos os dias, em todos os hospitais do mundo, existem pessoas que viveram vidas cheias, umas melhores do que outras, não tenho dúvida, e que chegaram ao fim para estar no tal canto que a medicina proporciona, com comprimidos para o coração, para a tensão, para dormir, para ter fome, para o colesterol, para a insuficiência cardíaca, para ... e para.... Valerá a pena? Os moderados irão reclamar e bradar aos céus que cada caso é um caso.

No dia em que a minha vida for exclusivamente uma visão de caixas de comprimidos, sem trabalho, sem capacidade de leitura, de apreciar música, de sair à rua, pois não quero cá estar. Podemos concordar que discordamos, mas a minha morte é um assunto meu.

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O génio de Ursula K. Le Guin

por Patrícia Reis, em 01.02.18
Na semana passada, morreu Ursula K. Le Guin. Confesso-vos já que fiquei com lágrimas nos olhos e, por isso, se acham que é lamechas, mais vale não ler esta crónica. Nunca conheci a autora de fantasia que me mudou a forma de ver o mundo era eu ainda adolescente, mas li tudo o que escreveu e tenho-a como uma amiga. Morreu-me. Como só nos morrem as pessoas que amamos. 

O meu primeiro encontro com Ursula K. Le Guin deu-se com o livro Feiticeiro Terramar e depois nunca mais parei. Aprendi imensas coisas com ela ao longo da vida. Sobre a forma de estar, sobre a escrita, sobre a importância dos dragões. Para mim, nunca foi uma autora de ficção científica, embora seja esse o rótulo no mercado dos livros e dos leitores. Sempre entendi que os seus livros eram reflexões sobre a vida e os relacionamentos. Reflectir é um dos bens maiores da Literatura e a razão pela qual acusamos a falta de pensamento prende-se com essa preguiça no exercício de ler e de pensar. Ler e interrogar, ler e entender, ler e incomodar. Agustina Bessa-Luís disse muitas vezes que escrevia para incomodar.

A autora norte-americana, casada com um francês, filha de antropólogos, mãe de três filhos, dispôs-se a fazer-nos pensar e construiu histórias que ficarão para sempre com quem as leu. Uma das suas leitoras, acredito que devota, será J.K. Rowling, a autora do famoso entendedor de serpentes, Harry Potter de ser nome. Se Ursula K. Le Guin bebeu em J.R.R.Tolkien, Rowling foi beber à obra de Ursula e sempre que me cruzo com Harry Potter penso em Gued, o Gavião de Terramar, ele que falava com dragões, a língua mais antiga do mundo. A autora afirmou: “Escreva o que deseja escrever. Adicione tantos dragões quanto quiser”.

Imaginar o possível, ou o impossível, para pensar a humanidade é um talento de génio que poucos possuem. E claro que ainda hoje se diz que H.G. Wells, autor da Guerra dos Mundos, é o pai da ficção científica. O pai parece importar sempre mais do que a mãe, vá-se lá saber porquê. Eu, que sou cansativamente feminista, pois torço por Mary Shelley e pelo seu Frankenstein. Coisas minhas, já se sabe.

Uma das facetas de Ursula K. Le Guin era o seu feminismo num mundo manifestamente dominado por homens. Ela dizia que não tinha gostado de ficção científica ou de fantasia imediatamente. O facto de a maioria das histórias terem como protagonistas homens bélicos com desejos de invadir ou conquistar algo pareceu-lhe redutor. Assim, como lhe pareceu redutor ser apenas mãe e esposa. “Não há motivo para que uma mulher casada com filhos não possa ser uma artista comprometida. (Isso parece evidente, mas não foi imediatamente claro para mim)”. E, assim, entendendo o universo ao seu redor e o domínio do patriarcado, a escritora tornou-se feminista acima de tudo, mesmo quando os personagens centrais das suas histórias eram do sexo masculino. “Os valores do patriarcado estão enterrados em muitos dos enredos das nossas histórias. São necessários novos enredos”.

Frontal. Bem-disposta, capaz de se manter num certo anonimato para preservar a sua vida privada, Ursula K. Le Guin foi convidada para a Academia de Letras Americana em 2017 e terá, de acordo com declarações suas, perdido ou deitado a carta para o lixo. Meses depois da formulação do convite, sem resposta, a Academia decidiu interrogar a agente da escritora e é assim que fica a saber do convite. Escreve a agradecer e a aceitar, dizendo que não recebeu nada por escrito, não “estava a dar numa de Dylan”, aludindo ao silêncio de Bob Dylan à Academia Sueca aquando do Nobel da Literatura. O seu sentido de humor pode ser apurado em alguns vídeos na internet. Os livros, a sua maioria não está traduzida para português, são procurados pelo mundo inteiro. Não apenas a ficção, mas também a poesia, a literatura infantil e, claro, o guia para escritores. O mesmo livro onde afirma que ler é mais importante do que qualquer outra coisa e, por isso, os outros escritores não são concorrência, são sustento. É aí também que se pode ler que o arrependimento faz parte do crescimento enquanto escritor e que corrigir é bom, mesmo que os erros anteriores sejam eternos e possam estar a um “Google de distância. Não há nada vergonhoso em se tornar uma pessoa melhor, uma pessoa mais sábia”.

Morreu Ursula K. Le Guin. Ela que estudou o taoismo e o budismo, na busca permanente de equilíbrio, e que teimava na ideia de que o trabalho diário era o mais importante porque, afinal, “a imortalidade nunca funcionou bem para ninguém”, acrescentando: “Evite isso a todo custo”. Não creio que tenha conseguido atingir este objectivo. Quem leu os seus livros irá passá-los a outros e, de geração em geração, a escritora será única e, portanto, imortal.

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Tem algum Nobel da Literatura no seu país?

por Patrícia Reis, em 25.01.18
Todos os anos, temos a saga do Nobel e, como um bom relógio suíço, há quem torça por António Lobo Antunes e quem recorde José Saramago. O Nobel da Literatura é porventura um dos poucos prémios Nobel sobre o qual as pessoas discutem com à-vontade, discutem e criticam.
 

Afinal, de literatura sabemos todos um pouco? Parece que sim. Ora, a opinião pública conta pouco – ou mesmo nada – para esta corrida já que os putativos vencedores devem ser nomeados por antigos laureados, instituições e academias cujo perfil seja indiscutível.

A Academia Sueca, na sua sabedoria imensa, gere uma pequena fortuna do senhor Alfred Nobel e tem alguns objectivos a cumprir. Não se rala com a opinião dos meros mortais, é preciso ser especial.

A corrida para os prémios de 2018 já começou. Podemos torcer por este ou aquele, pouco adianta. A Academia Sueca segue as suas normas e, apesar da maioria ignorar, existem candidaturas designadas por outras academias (não vinculativas) e requisitos que são inultrapassáveis. Um exemplo? Não estando traduzido para sueco, nenhum escritor(a) terá hipótese de ganhar. E não basta um livro, terão de ser dois no mínimo. No caso de Bob Dylan, que ganhou o Nobel da Literatura em 2016 por obra e graça da sua poesia, não foi preciso mais. Dois livros traduzidos para sueco e uma obra inteira que faz parte da banda sonora de muitos milhões de pessoas. Muitos ficaram boquiabertos. Poesia? Música? E isso é literatura?

O que é literatura? A pergunta impõe-se, porque anteriormente o prémio já tinha sido atribuído, em 2015, a Svetlana Alexiévitch, jornalista e escritora bielorussa. Muitas vozes identificaram a obra de Alexiévitch como jornalismo ficcional ou ficção a partir de jornalismo e a polémica durou o tempo que tinha de durar. E a literatura?

Bom, o Nobel não foi entregue a Jorge Luis Borges, a Virginia Woolf, a Marguerite Yourcenar, e por aí fora, a lista é extensa. Tem sido entregue a muitos, mesmo muitos autores, de que nunca mais ouvimos falar. Autores que ganharam o Nobel, mas não ganharam um lugar na História.

Desde 1901, o início da atribuição deste prémio, cujo valor financeiro é muito elevado e a projeção internacional é garantida, os diferentes prémios foram atribuídos 834 homens e 48 mulheres. Quando olhamos para o Nobel de Economia existe apenas uma mulher agraciada. No Nobel da Paz temos 16 mulheres e na Literatura temos 14 vencedoras (a primeira foi a sueca Selma Lagerlöf, em 1909, e a última a bielorrussa Svetlana Alexijevich, em 2015). 
A partir dos dados oficiais é possível perceber outras pérolas: 94 % dos vencedores são brancos, 88% são homens e 69% europeus. Negros e asiáticos? Representam 3% respectivamente. But who’s counting?

Discretamente, saiu a notícia de que a Academia Sueca terá pedido formalmente à Academia das Ciências de Lisboa a indicação de um candidato ao próximo Prémio Nobel da Literatura. Assina a carta de pedido Per Wästerberg, o presidente do comité Nobel. «Em nome da Academia Sueca [...] temos a honra de vos convidar a nomear, por escrito, um candidato (ou candidatos) ao Prémio Nobel da Literatura para o ano de 2018».

Perante o convite, os membros da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa indicaram dois nomes: Agustina Bessa-Luís e Manuel Alegre. Ora, o eterno candidato, Lobo Antunes, não terá apreciado grandemente este gesto, mas terá de o aceitar, porventura terá sido indicado no passado. Eu fico a torcer por Agustina Bessa-Luís. A Academia Sueca irá surpreender-me decerto e o gesto será entendido, outra vez, como um “sinal de abertura”.

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jornalismo à portuguesa

por Patrícia Reis, em 18.01.18
A maioria dos jornalistas do país está nos centros urbanos e, a maior percentagem, em Lisboa. Não há nenhum problema com esta realidade, é assim há muito tempo e talvez seja o mais natural. Dito isto, os jornalistas a trabalhar em Lisboa estavam convictos de que Pedro Santana Lopes ganharia as eleições para presidente do Partido Social Democrata e foi um enorme desaire a vitória de Rui Rio.
 

O problema? Sentir o pulso do país com os dedos da capital é um erro crasso. Muitos jornalistas e fotógrafos ficaram em Lisboa e aguardaram a vitória daquele que seria, ouvi dizer amiúde por aí, um presidente do PSD que iria tornar “a cena mais divertida”. A cena é a cena política.

Um militante de Viseu conta-me que votou no Rui Rio por saber que este não se coibirá se fazer governo com o Partido Socialista e que isso é um regresso à forma antiga, antes das maiorias Cavaco e de Sócrates, e o fim da chamada geringonça.

O facto de os militantes terem trocado a volta aos jornalistas deu origem a alguns incidentes sem relevância e a perplexidade estendeu-se gloriosamente até às direcções de órgãos de comunicação social. Facto consumado, a vida anda para a frente. Há uma tragédia em Tondela e a maioria dos jornalistas a trabalhar em Lisboa interroga-se: Tondela? Perto de Coimbra? Não, distrito de Viseu. E lá vão à cata de como contar a história, tal como fizeram com Pedrogão Grande cuja localização seria, para muitos, igualmente desconhecida até aos incêndios.

Conhecemos o nosso país através da comunicação social mais generalista e com maior impacto ao nível nacional. Existem terras e terrinhas sobre as quais nunca ouvimos falar e, consequentemente, militantes de partidos vários que desconhecemos. A realidade da política é distinta.

Não é o Pacheco Pereira a pontificar na televisão ou os 30 segundos de discurso crispado na Assembleia da República. O mundo faz-se de outra forma quando é visto com olhos que não os de um lisboeta. Não é um problema do jornalismo, é um problema de todos nós.

O que consideramos normal e adequado em Lisboa pode ser o inverso para a realidade do Samouco ou de Marco de Canaveses. Os exemplos são mais do que muitos e convém não esquecer que a capital, ou o Porto, reflectem apenas os gostos e atitudes, comportamentos e vontades de uns tantos, não da totalidade.

Os jornalistas aceitaram a vitória de Rui Rio com espanto, mas já estão a organizar-se. As pessoas a norte não se surpreenderam grandemente. Santana Lopes não percebeu nada.

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A cerimónia dos Globos de Ouro deu vários frutos, além de uma parada impressionante de vestidos pretos que reflectiram o apoio das actrizes ao movimento #metoo contra o assédio sexual, abuso e discriminação. Horas depois da cerimónia, duas actrizes escreveram no Twitter contra o actor James Franco (entrou em Homem-Aranha e em Milk, para citar dois filmes), um dos premiados, não para maldizer os seus dotes enquanto actor, mas sim para o acusar.
 

James Franco foi acusado de quê? Violet Paley (actriz de Pink Zone e Sex, Drogs, Rock & Roll) acusa-o de ter sido obrigada a fazer-lhe sexo oral e a mensagem no twitter reza assim: «Remember the time you pushed my head down in a car towards your exposed penis...» Violet Paley não está sozinha nas suas acusações. A ela juntou-se Sarah Tither-Kaplan (The Pink House) que acusa James Franco de só lhe ter pago cem dólares diários para cenas de nu integral. Bom, Sarah Tither-Kaplan assinou um contrato, aceitou as condições e agora, à luz do movimento acusa James Franco de a ter discriminado do ponto de vista salarial e de lhe ter dito que tendo assinado o contrato, pois está tudo bem.

Não sei muito bem como reagir a isto, ou melhor, sei: este tipo de acusações serve para minar uma acção colectiva de mérito que é necessária, crucial e só peca pelo atraso em fazer-se ouvir.

Violet Paley não foi à polícia, não abriu boca quando o escândalo Harvey Weinstein deu origem a uma série de acusações frontais de várias actrizes contra actores, produtores, realizadores. Ficou calada. James Franco recebe o prémio e Violet Paley aparece com o seu tweet. Não se compreende as circunstâncias em que estava, porque carga de água é que o pénis de James Franco estava fora das cuecas e das calças e como é que foi obrigada.

Algumas denúncias e acusações, mesmo que justas, perdem força e legitimidade por não serem pensadas convenientemente e este rol de acusações enfraquece o movimento e toda uma causa que, como se sabe, é justa e universal. As mulheres são alvo de assédio, são discriminadas e abusadas. É um facto. Apontar o dedo é, por isso, importante, mas como fazê-lo? Desta forma, ajuda quem? O moralismo que sagra em Hollywood é perturbador por não sabermos exactamente qual é a fronteira que define os actos. O que para A é assédio, para B é sedução? Pois, acontece.

 

 

Num momento em que já existem aplicações para smartphones para gravar consentimentos prévios para a continuidade de relações sexuais, evitando posteriores acusações, a sexualidade está em perigo. A sua vivência é cada vez mais complexa. Como gerir tudo isto?

Vejo um filme, que recomendo, e que estará aí a estrear Call Me By Your Name de Luca Guadgnino com Armie Hammer e Timothée Chalamet. Dentro dos parâmetros norte-americanos, a história será definida deste modo: uma história de pedofilia e de consentimento dos pais no processo. Um dos personagens tem 17 anos, o outro terá mais de trinta. É uma história de amor. Belíssima história de amor. Não tendo o jovem a maioridade prevista na lei, em que ficamos? Continuo na minha: cada caso é um caso, a sexualidade não prevista na lei não deixa de ser sexualidade e essa, felizmente, é uma das características maravilhosas do ser humano. Ou já não será?

Gera-se à volta de todas estas questões muito burburinho e há quem afirme convictamente que o que importa é a denúncia. Os tweets fazem-me lembrar os posters nas comunidades chinesas durante a revolução cultural, tudo é possível, tudo é público e um colectivo acusador tem mais força do que uma acusado. Um movimento deste calibre, de protecção às mulheres, de dignidade e com dignidade não merece ser minado por fundamentalismos e outras acções menos pensadas.

Posto isto, talvez Violet Paley e Sarah Tither-Kaplan estejam cheias de razão e James Franco seja um abusador, discriminador e capaz do pior. Se for o caso, pois que sofra as consequência, mas Hollywood precisa de se organizar na forma como dará continuidade a este movimento, porque a verdade é que é demasiado importante para ser destruído com gestos desnecessários. É demasiado importante para o mundo inteiro, porque todas as mulheres, jovens e crianças têm os olhos postos em Hollywood por uma razão ou outra.

Não nos podemos dar ao luxo de estragar o que foi conquistado com tanta dificuldade, tanto ao nível da denúncia como ao nível da vivência da sexualidade. É preciso ter e assumir as causas de forma responsável.

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Boas intenções

por Patrícia Reis, em 04.01.18
Todos os anos, faço uma lista com decisões tomadas. A cada ano que passa, a lista fica mais curta. Já percebi que posso fazer mil planos, a vida encarrega-se de os destruir e de colocar novos no meu caminho. Não tenho, por isso, desejos que cheguem para as doze passas da praxe, à meia noite de 31 para 1 de Janeiro. Vou repetindo as mesmas coisas básicas que posso resumir em saúde, amor e alegria e a coisa dá-se.
 

Dito isto, no dia 6 de Janeiro há algo que muda na minha forma de estar e estou pronta para fazer a simpatia dos Reis. Reunimos amigos à volta da mesa – a melhor forma de estar com os amigos, diria – e munidos de uma nota de cinco euros e de bagos de romã vamos dizendo e embrulhando três bagos: Melchior, Gaspar e Baltazar eis uma semente para ter e para dar.

A dita nota, no meu caso, está velha e seca, é sempre a mesma. Fica enrolada e bem apertada dentro da minha carteira durante o ano e tenho a certeza que nunca terei os 117 milhões de Cristiano Ronaldo, mas terei para ter e para dar. Todos os anos, o ritual repete-se. Depois de dobrar a nota três vezes com três bagos de romã, dou-me conta que ter e dar é apenas uma extensão do afecto gigantesco de quem partilha a mesa comigo.

Os amigos permitem-nos ter e dar. Estão cá para nós. São uma família lógica, distinta da família biológica, são a família que escolhemos.

O meu núcleo familiar é cada vez mais curto. As famílias não se praticam com os primores de outrora. No meu caso, o Natal mudou consideravelmente depois da morte do meu avô paterno que, na verdade, era um perpétuo Pai Natal, sempre de sorriso no rosto, capaz de dançar de andarilho e de não se chatear com nada. Faz falta o meu avô. Muita falta.

Contudo, olhando à minha volta, ouvindo as histórias mil vezes repetidas (amigos antigos também têm essa coisa da repetição), as gargalhadas, as exclamações de alegria e de espanto; observando a forma ternurenta como os meus amigos se abraçam, se tocam enquanto conversam, assegurando-se da importância de cada um, sei que estou bem entregue.

O meu avô apreciaria esta dádiva de amizade que me aconteceu na vida e, é claro, riria da minha lista de boas intenções. Para ele, um dia de cada vez era mais do que uma opção, era um mote. E eu, avô, estou a aprender, um dia ainda chego lá.

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Parece um guião para um filme de série B, com alegações relativas à segurança nacional, porventura envolvendo as secretas (agora dirigidas por uma mulher, saliente-se) e interesses ocultos. Não é. Trata-se tão somente de política à portuguesa, mal feita, indecorosa, ofensiva.
 

Que os partidos queiram tratar da sua existência financeira e fiscal com melhores opções não me espanta grandemente; que os partidos o façam à porta fechada, em sessões sem actas ou qualquer registo escrito (nem que seja para a posterioridade) é, no mínimo, suspeito. Nove reuniões à porta fechada decorreram entre abril e outubro deste ano. Nove reuniões, repito, para discutir, digamos, interesses próprios (fim do limite para a angariação de fundos, a possibilidade de pedir restituição do IVA pago na totalidade de aquisições de bens ou serviços, e ainda a possibilidade de pessoas singulares pagarem despesas de campanhas a título de adiantamento).

Podia ser um erro, uma inocência, mas nada disso: quando emails trocados mostram que há um encobrimento de quem propôs o quê, designando-se os partidos envolvidos pelas letras do alfabeto, pois não temos como acreditar na ingenuidade de nada, seja de ideias ou de processo.

O CDS e PAN foram os únicos partidos que não votaram a nova lei de financiamento, uma lei aprovada no dia 21 de Dezembro, vésperas de natal. Será que alguém, iluminado por luzinhas de fraca potência, pensou que a época permitiria que isto não viesse à tona? Terá sido essa a hipótese levantada naquelas cabeças, da esquerda à direita? A isto chamo eu um atestado de estupidez passado à sociedade portuguesa sem qualquer vergonha ou embaraço.

Resta-nos, portanto, que Marcelo Rebelo de Sousa leia com atenção o que é proposta de lei, perceba o processo de construção desta nova lei e faça o que é preciso ser feito: vetar a lei. Mas não pode ficar por aí. Terá de dar um puxão de orelhas a todos aqueles com assento na Assembleia da República e que dizem representar Portugal e os portugueses.

Marcelo Rebelo de Sousa redesenhou o nosso conceito de Presidência da República. Não pode ser comparado a nenhum dos presidentes anteriores. Cavaco era demasiado distante e rígido; Sampaio era diplomático e contido; Soares gostava de uma presidência inspirada na realeza e por aí fora. Marcelo Rebelo de Sousa apostou nas pessoas, na proximidade, na humanidade. Dizem que é o Presidente dos afectos e que está em todo o lado.

No caso desta lei de financiamento dos partidos e devolução do IVA, o Presidente terá de esquecer os afectos e tratar os partidos como merecem, alunos armados em espertos que não cumpriram com as regras de transparência que o exercício das suas funções obriga. Não deverá ser apenas uma reprimenda, terá de ser uma valente reprimenda. Não só porque a nova lei levanta questões variadas sobre as quais o Presidente tem uma opinião formada e conhecida (Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto líder do PSD, considerava que os partidos deveriam ser financiados pelo Estado na totalidade, retirando empresas e pessoas individuais do processo), mas sobretudo por ser evidente que em democracia não se aprovam leis desta forma.

No presente caso, espero que se recorde vivamente da sua profissão de professor e tenha a capacidade de dizer aos partidos o que é preciso ser dito: não brinquem com o poder que têm, sff.

 

P.S.: Como bom professor, Marcelo Rebelo de Sousa dá oito dias aos partidos para voltar atrás com a lei do financiamento. Resta saber se os “alunos” merecem ou estão ao nível.

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Pensamento da semana

por Patrícia Reis, em 23.12.17

A justiça portuguesa é cega, injusta, atrasada e está repleta de preconceitos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

 

 

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o moralismo que vai matar o consolo e o sexo

por Patrícia Reis, em 20.12.17
Quem é que define o que é ética e moralmente correcto quando toca às coisas da sexualidade? Até a pergunta é perigosa de se fazer nos tempos que correm.
 

Ando a combater com esta mania de querer dizer as coisas como as penso em vez de as dizer dentro de uma forma que se pode classificar, nos dias que correm, como “politicamente correcta”. Sou acusada de ser frontal e bruta muitas vezes, é um karma como outro qualquer, assim fico com a fama e o proveito. O que me atormenta é o moralismo em que vivemos. Quem é que define o que é ética e moralmente correcto quando toca às coisas da sexualidade? Não, esta não é uma crónica sobre o Kevin Spacey, o Harvey Weinstein e afins. Nada disso. O que me preocupa é uma situação como esta que passo a descrever.

Na sala de aula de uma universidade decorre, num silêncio perturbado pelo choro, um exame. O professor, constrangido, aflito com a aflição da aluna, aproxima-se da mesa da rapariga e pergunta, em sotto voce, se há algum problema (bom, é evidente que há!), e a estudante continua a soluçar. O professor pede para o acompanhar e saem da sala, com o objectivo de não perturbar o resto da turma.

A rapariga lá começa a desbobinar o filme trágico que é a sua existência, perdeu o emprego, as chaves de casa, o gato teve um ataque cardíaco e mais não sei quantas coisas deprimentes e avassaladores que podem ocorrer na vida das pessoas. Está um caco. O professor tenta o consolo e uma solução: “Bom, nesse caso, se não está em condições de fazer o exame, o melhor será fazer na amanhã na outra turma...”.

A moça continua em prantos, são sete da tarde, a universidade não está a borbulhar de gente, não há testemunhos deste encontro, e o professor consola a aluna, coloca-lhe (ó meu Deus!) uma mão no ombro. Lá se consegue chegar a uma certa calma, regressam à sala de aula e a aluna recupera forças e ânimo e faz o exame. O professor conta este episódio a outros professores que o olham chocado: tu tocaste numa aluna sem testemunhas? Tu sabes que isso agora é assédio?

É triste que gestos de consolo possam ser confundidos desta forma, ou não é? Eu acho que é. Se tocar nas pessoas começa a ser pretexto para uma acusação, vamos viver amarrados, contidos, vigilantes uns dos outros e, pior ainda, vamos condenar as próximas gerações a terem uma sexualidade muito infeliz. Sim, a sexualidade deve ser vivida de forma saudável, de acordo, mas com tanto fiscalismo agora temos de perguntar: posso tocar-te? Posso beijar-te? Posso colocar a mão no teu corpo? É isto que os jovens devem fazer uns com os outros, para que estejam isentos dessa coisa perigosa que é a acusação?

Se assim é, só posso dizer uma coisa: ainda bem que nasci em 1970. O que sinto é um retrocesso civilizacional em termos de comportamento, uma obsessão pela vigilância, um discurso pelo politicamente correcto que cai constantemente num moralismo que ninguém sabe quem define ou comanda. Será isto saudável?

Uma coisa é certa, este professor nunca mais consolará aluna alguma. E os meus afilhados mais novos, quando chegarem à adolescência, e se questionarem sobre o seu próprio corpo e o dos outros ou outras, terão de fazer um percurso deveras complicado e, antevejo, perigoso.

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Por razões que são fáceis de entender não aprovei a publicação de comentários jocosos ou ofensivos, em especial de comentadores anónimos, relativos a um post interior com este titulo.

Desde o início da minha colaboração com o Delito de Opinião tenho libertado todo o género de comentários, dos mais elogiosos aos mais ofensivos. Hoje decidi que acaba a democracia disfarçada no anonimato e, no caso específico do comentador ou comentadora que me enviou uma mensagem com ameaça implícita, tratando-me por "minha menina", chamando-me à atenção para o meu futuro, agradeço que tenha em conta que eu sou o tipo de pessoa que guarda estas coisas e vai à Polícia Judiciária sem qualquer problema.

Aos restantes, peço desculpa por este post. Sempre considerei o debate essencial. As redes sociais ao abrigo do anonimato não são exercícios de liberdade e de argumentação, são apenas cobardia.

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"Minha querida" juíza

por Patrícia Reis, em 15.12.17
Então, analisemos de forma muito simplista: se a juíza diz “Professor” para se dirigir a Manuel Maria Carrilho e opta pelo “Bárbara” ou "minha querida" para falar com a apresentadora de televisão Bárbara Guimarães, isso é ...? Não é normal.
 

A notícia de que Manuel Maria Carrilho foi ilibado no processo de violência doméstica do qual é acusado pela ex-mulher foi um vento mau que apareceu hoje de manhã. Não consigo entender várias coisas, mas há uma que me espanta mais do que qualquer outra: uma juíza que Bárbara Guimarães considerava incapaz de imparcialidade e tendo, por isso, pedido a sua escusa, mantém-se no caso e é capaz de dizer coisas como: “Causa-me alguma impressão a atitude de algumas mulheres." A mim também, sobretudo se são juízes.

A lei não confere poder a uma juíza para proferir semelhante frase e as implicações que possam ter, em especial junto da opinião pública. Ainda há quem venere os juízes com o mesmo fervor com que em outros tempos se venerava a opinião do padre ou do médico. Vivemos numa aldeia global, bem sei, mas os juízes deveriam perceber que existem limites e deveriam ter em conta que observações sobre o carácter das pessoas não são do seu pelouro.

No caso presente, seria ainda de ter em conta o vasto curriculum do acusado, com um conjunto de processos perdidos, de multas aplicadas, e ainda com uma constante presença nos meios de comunicação social a difamar a ex-mulher e familiares.

Bárbara Guimarães manteve uma elegância ímpar e tem sido enxovalhada da pior maneira. Sobre isto a juíza não tem nada a dizer? Tem, pois, tem para dizer uma pérola que, espero, possa ser analisada em aulas no Centro de Estudos Judiciários ou objecto de processo no Conselho Superior de Magistratura. Diz a juíza, Joana Ferrer de seu nome, que Bárbara Guimarães é uma mulher determinada e auto-suficiente do ponto de vista financeiro, que deveria ter ido ao Instituto de Medicina Legal mostrar como foi vítima de maus tratos.

Portanto, posso concluir que para esta espécie de juiz, garante da boa manutenção de uma sociedade, todas as vítimas de abuso estão a correr para o dito Instituto. Nunca leu, coitada, nada sobre o perfil psicológico de vítimas de abuso. Deveria ler. É pena que a justiça não sirva para ser justa. Mas, lá estamos, um é um professor e a outra é apenas a Bárbara.

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Não acontece só aos outros

por Patrícia Reis, em 15.12.17

A reedição do livro de Maria Antónia Palla, "Só acontece aos outros - histórias de violência" é uma radiografia de uma sociedade portuguesa que, afinal, em 40 e tal anos pouco ou nada mudou. Lançado há uma semana, pela novíssima editora Sibila da escritora Inês Pedrosa, este livro de Maria Antónia Palla tem agora uma segunda vida e permite que qualquer leitor possa descobrir uma grande jornalista através das reportagens que fez ao longo da sua vida. São peças de antologia, como descreve a editora, mas são também uma radiografia da sociedade portuguesa, que mudou muito e mudou quase nada. As reportagens de Maria Antónia Palla descrevem situações que ainda hoje perduram, violências sucessivas com crianças, mulheres e idosos. Histórias portugueses, muitas delas escritas na década de 70, algumas antes do 25 de Abril, espelham a vida de certas pessoas e de como a dor, a desilusão, a fraqueza ou o heroísmo podem ser, demasiadas vezes, penalizadoras. Uma menina que aparece morta; uma anciã violada por um jovem; ex-amantes que combinam espancar e torturar a mulher com quem andaram; uma mulher mata o filho recém-nascido; um rapaz português aparece morto numa cadeia espanhola; uma mulher, cansada de maus tratos, envenena o marido. Estas são algumas das histórias reais que serviram de mote para a investigação da jornalista Maria Antónia Palla. No prefácio, Helena Matos, também ela jornalista, escreve que este livro “mostra-nos como para lá da espuma do que enche as primeiras páginas dos jornais – os planos salvíficos para o país, as declarações dos governantes, os programas que vão resolver definitivamente os problemas inadiáveis [...] – estava e está a vida das pessoas. Porque a Maria Antónia, acima de tudo, conta-nos as pessoas”. O livro, há tanto esgotado, é agora reeditado com a inclusão de duas reportagens inéditas, uma delas escrita na década de 80 do século passado e outra já este ano. Comprova-se assim que a jornalista, de 83 anos de idade, mantém o seu interesse contínuo na sociedade portuguesa. Na biografia "Viver pela Liberdade" (edições Matéria-Prima), Maria Antónia explica-se com facilidade: uma vez jornalista, para sempre jornalista. E é essa forma de olhar o mundo que lhe permitiu, em 2017, voltar à reportagem, desta vez para abordar a questão da adopção e das instituições de acolhimento. Existem milhares de crianças nas instituições, abandonadas, retiradas à família. O mundo da adopção é visto agora por Maria Antónia Palla numa reportagem única, na qual não pretende atingir qualquer imparcialidade, já que não considera possível que um jornalista envolvido nas coisas do mundo possa ser imparcial. O facto de permanecer activa e sempre jornalista, confere a Maria Antónia Palla um olhar sobre o Outro que é raro, que é coincidente com o jornalismo que aprecia: aquele que implica pesquisar, ouvir, estar atenta. As histórias sobre as quais escreve são fortes e são, apesar de terem um tempo cronológico de escrita, intemporais. Infelizmente, a violência permanece mesmo que possamos nomear um certo avanço civilizacional. “Nem toda a mudança dependeu da vontade de mudar. E essa vontade, quando existiu, ficou muitas vezes aquém da necessidade, em particular no que se refere às mulheres, aos jovens e às crianças. Faltou à 'revolução' o rasgo de inventar o futuro. A voz do cidadão comum permanece silenciada. A dor da gente não chega aos jornais, o diz o poeta na canção”, escreve a jornalista.

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quer saber a dieta da Adele?

por Patrícia Reis, em 06.12.17
Se é mulher, de qualquer idade, provavelmente quer. Se tem mais de 40, a probabilidade de querer é ainda maior. E porque todas-temos-de-ser-magras, há publicidade a receitas milagrosas a cada esquina das redes sociais - e parece que é tudo normal.
 

Então, a coisa dá-se. Chegamos aos 40 anos de idade e cada quilo que engordamos chega, generoso, com a família mais chegada, pai, mãe, filhos, instala-se naquilo a que a minha mãe designa como a faixa de Gaza, barriga, coxas, peito, cara, rabo. É um quilo, nada de grave. Vamos suar as estopinhas e caminhar ou frequentar o último ginásio genial com uma estratégia complexa e milagrosa. Sabemos, por termos a idade que temos, que estamos a viver uma ilusão.

Depois fazemos 45 anos de idade. A coisa piora um bocadinho – a vários níveis – e ver as revistas de moda só pode ser um exercício que se faz com descontração, cientes de que ninguém tem corpos assim, pelo menos ninguém feliz, a comer um bom queijo alentejano e a beber um copo de vinho tinto. Os nossos quilos a mais são nossos, logo não faz qualquer diferença a nossa melhor amiga ou a senhora a lavar a cabeça na calha ao lado no cabeleireiro, dizerem: ah, que disparate, estás óptima. Se uma pessoa sabe que já não entra numas calças 36, pois não entra numas calças 36 e já entrou, não há conversa.

Pessoalmente, aos 47 anos, não me posso queixar, admito. Vivo bem com o corpo que tenho, mesmo que me possa atraiçoar aqui e ali, e não vista um 36. O pior é a perpetuação do fascínio com a magreza e com as dietas mais estrambólicas. Como estamos todos dominados pelas redes sociais – eu só conheço duas pessoas que não têm facebook e uma delas é a minha avó – somos bombardeados com as informações mais diversas, basta serem publicações patrocinadas e nas quais nós nos inserimos, ou seja, fazemos parte do grupo alvo: mulheres, entre os 35 e os 55.

E estas publicações repetem-se todas as semanas e, todas as semanas, me perguntam: Sabe como Adele emagreceu? Veja como Julia Roberts se mantém. E por aí fora. Tudo isto com as fotografias das senhoras cuja imagem e nome é usado e abusado para vender uns comprimidos ( à base de umas plantas de que eu nunca ouvi falar, mas eu não sou especialista em plantas), que só se vendem online, e nesta semana, maravilhoso!, em promoção, encomende já, estamos com 30% de desconto.

Nada disto é bom, já se sabe, e há quem vá cair na canção do bandido por acreditar que a Adele ou Angelina Jolie (que está claramente feia de magra na minha opinião, mas isso agora não interessa nada) tomou aquelas coisas à base de Hoodia Gordonii ou Garcinia ou outra coisa qualquer que, afinal, depois de tudo, porque carga de água é que não se experimenta mais uma coisa? Depois da dieta do paleolítico, da dieta das maçãs, da dieta com produtos que parecem comida de astronauta, pois vamos lá experimentar estes comprimidos.

Esta semana atingimos o pináculo da perfeição, para citar Miguel Araújo, com um post patrocinado que anuncia uma dieta que não se deve fazer porque emagrece de imediato. Carregando então no botão que diz saber mais, fico eu, pobre alma inocente, horrorizada com a venda de outros comprimidos, que está provado que emagrecem de um dia para o outro, mas que os nutricionistas não recomendam. Mostram imagens do antes e depois que, para sermos honestos, são imagens da senhora A e da senhora B, nunca a senhora B podia ser o depois da senhora A pela simples razão que não são a mesma pessoa. O texto e as imagens mostram que é possível emagrecer num ápice, mas não o façam. É uma forma doentia de promover uns comprimidos (esta coisa dos comprimidos é uma mania?) que, no desespero, alguém menos sensato pode encomendar. Porventura com promoção especial desta semana.

Eu denunciei este post, um post patrocinado, algo que alimenta financeiramente o senhor Mark Zuckerberg e esta invenção extraordinária que une a aldeia global. Não sei se terei alguma sorte com a minha denúncia, o mais certo é ver isto outra vez daqui a duas semanas. O pior de tudo, penso eu que tenho sobrinhas a sair da adolescência, raparigas que vêem as tais revistas de moda e atrizes perfeitas em filmes românticos que Hollywood fazia na temporada antes-do-assédio-ser-assunto, são as jovens com problemas de peso que vão cair nesta esparrela.

Moral e eticamente, o senhor Mark Zuckerberg não deveria aceitar estas coisas, mesmo que lhe dê mais uns trocos. O mesmo tipo de posts é colocado no Instagram, criado pelo senhor Mike Krieger, com promessas de dietas milagrosas que vão mudar a vida de quem quer perder peso. Querer perder peso é, muitas vezes, uma questão estética, muitas vezes de saúde e bem estar e implica necessariamente com a auto-estima das pessoas. Não deveria ser possível enganar as pessoas deste modo. Dirão que só é enganado quem quer. Será?

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frames da vida

por Patrícia Reis, em 25.11.17

O Pedro a cortar um texto na Grafinova, em pé, com o x-acto na mão, concentrado. Foi a primeira vez que o vi, fazia ele parte daquele grupo especial do Caderno 3 de O Independente.

Não nos tornámos amigos com rapidez, eu era apenas a estagiária. Foi o tempo. Pedimos desculpa um ao outro num certo almoço de bacalhau num restaurante de que o Pedro gostava em especial.

Rimos os dois às gargalhadas com recordações da vida amorosa de cada um de nós.

Mostrámos o orgulho devido com as conquistas dos nossos filhos, filhos com Maria no nome.

E depois pequenos frames da vida.

O Pedro a discutir músicas com o João Gobern.

O Pedro abraçado à Cila. À Ana Teresa. À Margarida.

O Pedro sério. Na televisão, na rádio, por escrito.

O Pedro com a Helena a rirem os dois, a grupeta reunida, num jantar ali ao lado, num restaurante, e eu a invejar tanta partilha e alegria.

Bolas, Pedro, podias ter avisado que isto ia ser tão curto. Podíamos ter feito aquela coisa estranha para a Egoísta, ou aquela proposta igualmente estranha a uma fundação.

Podíamos ter feito tanto, e agora não há tempo. Tu fizeste muito e quem te conheceu só pode mesmo chorar-te. Desculpa se não te respondi com mais pressa, desculpa se a vida nos atrapalhou em algum momento.

Agora resta-me dizer, até já. Ficamos mais pobres sem ti.

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Acabaram as manhãs da comercial?!!!

 

Entro no carro e oiço o Pedro Ribeiro a dizer esta enormidade: “as manhãs da comercial acabam” e o meu telemóvel toca, a rádio desliga-se, é o sistema de alta voz a funcionar, e fico ali aflita, sem saber o que fazer. Atendo a chamada, passam-se 47 segundos a falar com uma senhora que me quer vender um pacote Nos que, em teoria, é do caraças e lá consigo voltar à rádio, mas só tenho os Gift a cantar que já não sabem se sabem sentir amor e coisas assim.

Vou no trânsito a pensar: não pode ser, se ficar sem as manhãs da comercial, fico sem o Nuno Markl que não come carne, a Vera Fernandes que desafina no New York, New York, o Vasco Palmeirim que já não sei se gosta ou não de pickles e sem o César Mourão que fez a árvore perto da máquina de lavar. Não irei sobreviver. E não conheço nenhum deles, não somos amigos, mas talvez sejamos, afinal, esta cena sentimental é... complicada.

A música acaba e o meu telemóvel toca outra vez, parece de propósito, é mesmo uma chatice quando nos ligam às nove e pouco da manhã, é pouco civilizado, caramba, deixem-me lá perceber o que aconteceu na comercial. E quando volto à rádio já está tudo na galhofa com alcunhas estranhas, Naftalina e Saliva e Proteínas, é o dia das alcunhas, percebo e, até entrar na garagem para onde tenho mesmo de entrar, piso menos três, logo sem rede, vou ainda em pulgas e ninguém me diz nada. Malta! Não pode ser.

Subo até ao nono andar e abro o Facebook da Comercial. Ó alívio profundo!, afinal ofereceram cinco milhões de euros ao Pedro, uma tal Rose cujo português é altamente duvidoso, mas é uma vendida, mandou o mesmo email, com oferta semelhante, para metade do país. Ah, ok, ok, às sete eles lá estarão, certo?

O meu alívio é significativo.

Não posso dizer - até hoje não podia dizer - que sou uma groupie, mas afinal sou. Eu quero encher o bandulho, quero rir com o homem que mordeu o cão (invejar a memória do Markl, por ser absolutamente invejável), perceber o trabalho insano que esta malta tem para ser líder nas manhãs, e sempre com um sorriso, mais brincadeira, menos brincadeira, cortando as regras (adoro quando o Pedro Ribeiro diz que, ups, lá vem o director comercial dizer que não podemos falar na marca A ou B). Há ali muito, muito trabalho, porque ser divertido e diferente todos os dias é dose e não é para todos.

Eu, fã assumida de rádio, ouvindo o dia inteiro várias estações, tenho esta perdição pelas manhãs e agradeço às Rose do mundo, com cinco ou mais milhões, que se abstenham de assediar a equipas das manhãs.

A bem da saúde mental de um país. Agradecida.

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querido, mudei a casa

por Patrícia Reis, em 16.11.17
Na secretaria da existência surgem coisas distintas, pois ele é impostos, modelos com nomes estranhos para preencher, dados que nos solicitam a todas as horas e em todos os sítios, assinamos de cruz, dizemos que aceitamos as condições e seja o que Deus quiser. Despachar.
 

De repente, quando é preciso fazer obras, a vida muda totalmente. Ao fim de dois meses fora de casa, regresso com alguma melancolia e apreensão. Estava eu cheia de energia para limpar e arrumar, abrir caixotes, seleccionar e mandar para o lixo, quando percebi que, afinal, ainda não está bem tudo pronto. Portanto, tenho de esperar para tirar as coisas do caixote. E não posso usar a cozinha. Apenas o frigorífico. Um dia, talvez, consiga usar o resto.

Há pó laranja por todo o lado (já disse que a cozinha está laranja? Pois, mas, por favor, não tirem conclusões políticas desta opção estética!), uma penumbra de pó acinzentado que cobre tudo e vários sacos com ferramentas diversas, algumas com aspecto terrífico, outras simplesmente incompreensíveis, há garrafas de água e papelões, cartões e plásticos.

Tudo se atrasa, obras são uma loucura, tu não te metas nisso. Ouvi eu estes meses, já com a obra começada e, consequentemente, sem hipótese de desistir. E uma cozinha parte-se num instante, fica mesmo como um cenário de guerra em meia dúzia de horas, o pior é a reconstrução. Para colocar armários e pedra, cubas e máquinas, ah, isso é todo um processo estranho e estamos sempre quase, mas falta o quase e o quase é avassalador. A vida é dominada pelo quase.

E o que dizer daquele dia em que se visita a obra e – surpresa! – não há lugar para a máquina da roupa? A solução é simples, parte-se um pouco aqui, um pouco ali, e o quase foi-se.

O desespero é de tal ordem que considero nunca mais desencaixotar seja o que for. Quando isto terminar, vou deixar a cozinha impecável, super limpa, com os mega armários vazios por incapacidade de os encher. A minha cozinha cabe em trinta caixotes, a minha cozinha não tem 15 metros quadrados, nós acumulamos tanto que é quase anedótico.

Espreitando para dentro de um caixote descubro uma coisa verde de plástico que não sei para que serve. Do outro lado, está um livro de cozinha, em mandarim, oferta de uma amiga cheia de graça e boa disposição. Que grande chuto na tola! E ainda não sei qual é a conta final desta magna obra, mas não digam à minha mãe que ela é capaz de ter um ataque e deserdar-me (ela tem uns tachos de cobre maravilhosos que cobiço há anos, mas que nunca caberão no paraíso reformulado que é a minha bela-quase-cozinha-laranja). Para quê pensar no que isto vai custar? Prefiro admirar a minha existência e abrir uma pilha de correio.

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Alberto Luís

por Patrícia Reis, em 14.11.17

Morreu Alberto Luís, advogado, marido de Agustina Bessa-Luís. Casados desde 1945, eram um casal especial. A Agustina gosta de contar que colocou um anúncio no jornal para encontrar um marido, uma "pessoa culta". Tinha decidido que aquele que, ao abandonar a sala onde a entrevista se faria, olhasse para trás, seria o escolhido. Alberto Luís foi à entrevista com uns amigos, também candidatos (diz-se que teria sido uma aposta) e olhou para trás. Casaram. Durante anos e anos, Alberto Luís foi quem passou à máquina os textos de Agustina, ela que tem uma letra miúda e escreve a azul.

Na Egoísta fizemos um número especial dedicado

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 à Agustina do qual me orgulho muito. Alberto Luís foi incansável na ajuda que me prestou então. Publicámos os pequenos desenhos, retratos, que foi fazendo da escritora. Chamava-lhe sempre Maria Agustina. Eu gostei de os ver juntos das poucas vezes que tive esse privilégio. Que descanse em paz.

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prostituta por acaso

por Patrícia Reis, em 14.11.17
Diferentes religiões cristãs insurgiram-se publicamente. O uso indevido da Bíblia e das suas narrativas para cumprir acórdãos de justiça é, no mínimo, um abuso.
 

Volto ao caso do acórdão do Tribunal da Relação do Porto sobre a mulher violentada pelo amante e pelo marido. O entendimento radical que se pode fazer da Bíblia é também algo que está datado. Estamos numa outra era. Entendemos melhor a Bíblia, as questões dramáticas da tradução, das diversas traduções (excelente trabalho de Frederico Lourenço, acaba de sair o terceiro volume da sua tradução a partir dos textos gregos). Sabemos hoje factos históricos que colocam em causa muito do que tomámos por certo ao longo de séculos.

A iniciativa de reunir várias vozes de líderes cristãos partiu da academia, da Universidade Lusófona, onde existe um mestrado - há 20 anos – dedicado às Ciências da Religião. O mestrado é um espaço de aprendizagem e de estudo, de partilha e aquisição de conhecimento e, nessa perspectiva, inscrevi-me há um ano e pouco, tendo cumprido os dois primeiros semestres. Aprendi muito, li o que de outra forma não leria, reanalisei os meus mitos, conferi histórias e, sobretudo, entendi a enorme importância da religião na história da Humanidade, mesmo para quem se diz ateu ou agnóstico. Porque a religião não é exclusivo do intelecto, é da dimensão do emocional.

Eli Wiesel, ele que recebeu o prémio Nobel da Paz, escreveu: “Podemos não ser a favor de Deus ou contra Deus, mas não podemos ser sem Deus”.

Ora, a Bíblia, que reúne textos importantes para as três religiões monoteístas, nunca foi a melhor plataforma para ajudar a causa das mulheres. Pelo contrário. Mas existem crenças colectivas extraordinárias que não correspondem à verdade e uma delas, exemplo máximo de como um texto sagrado pode ser desvirtuado e usado para manipular as mentes, é a questão de Maria Madalena.

Se perguntarmos,  numa sala cheia de pessoas de diferentes proveniências e condições sócio-económicas, qual a profissão de Maria Madalena, a resposta é: prostituta. Não há qualquer dúvida sobre esta matéria, é fazer o teste. Eu fiz, este ano, na feira do livro do Porto, numa conversa com José Luís Peixoto sobre o Sagrado e o Profano.

Ora, não há nada da Bíblia que nos indique claramente que esta mulher exercia a mais velha profissão do mundo. Nenhum versículo, nenhum evangelho. Há uma mulher, Maria Madalena, liberta de demónios (Lucas 8:2) que podem ser interpretados de várias formas; que acompanha Jesus, que esteve perto da cruz (Mateus 27.56; Marcos 15.40; Jo 19.25), que pode ser entendida como discípula até por ser aquela a quem Jesus aparece depois de ressuscitar (Mateus 28.9; Marcos 16.9; Jo 20.11-18).

Para o comum dos mortais, em Portugal ou em outro país, em pleno século XXI, Maria Madalena era uma prostituta. Porquê? A Igreja encarregou-se de dividir as mulheres em três figuras centrais: Eva, a tentadora demoníaca; Maria, a mãe silenciosa e cumpridora; Madalena, a devassa. Esta construção foi feita pelos homens e a virtude de Maria Madalena foi violada e vilipendiada ao longo dos tempos por causa de um papa: Gregório ( 540-604 d.C), que achou por bem afirmar que sabia de fonte segura que a senhora, afinal, era uma prostituta. E até hoje, o mito mantém-se.

Não é só errado invocar os textos sagrados e a religião, com o seu manancial de subjectividade e contexto histórico tantas vezes perdido, para reclamar boas acções ao nível da prática da Justiça, como  também  é terrível perceber que os homens o fazem há séculos e séculos e as maiores vítimas são sempre as mulheres.

Por isso, esta iniciativa do departamento de Ciências da Religião da Universidade Lusófona não é de somenos, é uma grande conquista. São as religiões de inspiração cristã em defesa das mulheres. Este gesto que, para muitos, pode ser simbólico, é uma porta que se abre com a força de uma ventania a que podemos chamar justiça.

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a ver se me ralo

por Patrícia Reis, em 11.11.17

Há muitos anos, aprendi com a Inês Pedrosa, e depois com outras pessoas, que é muito fácil levar porrada quando se escreve publicamente, se dá rosto e nome, se tem opiniões e, enfim, estamos disponíveis para as partilhar. Não se trata de ganhar palmadinhas nas costas, disse-me ela, o que é importante para ti, pode ser para outras pessoas. E depois falou-me da porrada que iria levar, da quantidade de fel que as pessoas destilam, e tantas vezes no anonimato, mas que isso não tinha qualquer importância.

A Inês é minha irmã e poucas pessoas têm levado pancada como ela. Vive com uma dignidade incrível, uma cabeça genial, uma capacidade excepcional de ser excepcional. É uma lição para mim. Há quase trinta anos que aprendo com ela e, muitas vezes (mesmo muitas vezes!), concordamos que discordamos, mas respeitamos a opinião de cada uma. Ela continua a levar porrada de forma idiota por pessoas que não pretendem construir nada, apenas destruir. E eu estou na mesma situação.

E serve o presente texto para dizer que podem continuar a ser assim, a ver se me ralo. Creio que ela tão pouco se rala. Tragam lá os vossos archotes e as vossas acusações, o vosso moralismo e preconceitos, descrevam a minha ignorância ou o que vos aprouver, vivemos em democracia, podem fazê-lo à vontade, mas depois não me digam que serve para estimular debates, porque a troca de ideias implica respeito e o respeito implica educação e a educação implica elegância. Na minha opinião, claro.

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Obviamente, demito-o

por Patrícia Reis, em 08.11.17
Caro Senhor,
 

Aprendi com o escritor Paul Auster, que tenho a certeza ser personagem que lhe desagrada profundamente, esse nova-iorquino, para mais de família judia, que posso escusar-me ao exercício de dizer o seu nome e reduzi-lo a um número e, assim, o senhor (perdoe, mas não lhe dou nem a importância de Voldemort), é o 45.

O senhor, como ser humano e como quadragésimo quinto presidente dos Estados Unidos da América, depois de Obama, quando a figura de Bush começava a desvanecer-se (embora não as suas múltiplas acções condenáveis, quase irrelevantes quando olhamos para o estado a que chegámos), condensa todas as ideias de retrocesso civilizacional que mais abomino, mas representa também um espelho terrível do que é a humanidade, o espectro emocional que condiciona e limita, sem permitir discernimento, bom senso, inteligência, sensibilidade ou simples educação.

Não é que o senhor seja racista ou misógino (calculo que por esta altura já entenda o significa da palavra), que use as redes sociais como os cowboys nos filmes usavam as pistolas ao entrar num salon cheio de gente de má índole. É muito pior do que isso. É como se tudo o que é do lado do mal, das trevas, tudo o que, historicamente, combatemos e prometemos não esquecer, tivesse regressado com dupla força e incorporado numa criatura como o senhor que, digo eu, não tem espelhos em casa para olhar no fundo dos próprios olhos. Talvez se dê o caso do senhor olhar e não ver. Porque o senhor diz que ouve, mas não escuta e os seus amigos, os senhores poderosos dos negócios das armas de guerra, do petróleo, estão prontos a idolatrá-lo e a ajudá-lo a fazer mais dinheiro, a ajudá-lo no processo de não ver, nem escutar.

O senhor é o 45º presidente de um país que nasce dos ideais franceses, que calculo ser uma referência que o ultrapasse e que eu não tenho como explicar nos 140 caracteres do Twitter, a plataforma da sua eleição.  Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Não tem noção do que são? Pois, então, venho por este meio informá-lo que chumbou em todas as frentes e, ao fim de 365 dias, é evidente que não cumpre os requisitos necessários para exercer as funções de líder de uma das maiores potências do mundo (desculpe, mas a China está a passar-vos a perna à grande e à francesa, para usar uma expressão que na Europa se aplica amiúde com conhecimento da sua origem). Não cumpre os mínimos olímpicos.

O senhor deveria ser demitido, sem direito a qualquer regalia futura. Nada de motorista, reforma, avião, secretária. Podia voltar para a sua torre em Nova Iorque, reaver os negócios que deixou bem entregues à família para que nada lhe falte, e talvez entrar em mais um programa de televisão. Tenho a certeza de que existirão sempre almas maléficas interessadas em patrocinar a sua existência. Há sempre quem prefira os maus, aos bons. É um facto que a História comprova.

O senhor, cansado da América multicultural, com mulheres que se manifestam na rua e dizem "coisas", pode optar por ir  viver para a Rússia. Dizem que o tempo lá até que é agradável em meados de Junho, mas com as alterações climáticas - que o senhor diz não existirem -, quem sabe se o universo não decide fazer-lhe um verão perpétua em terras da mãe Rússia? Tudo é possível.

Os milhões de pessoas que votaram em si, perante uma audiência mundial perplexa com a enormidade de ter um burgesso à frente dos destinos norte-americanos e do mundo (essa mania que a América tem de policiar o mundo começou com boas intenções, sabe?), são milhões, bem sei. Alguns devem sofrer do síndrome de avestruz, não querem saber, nem dizem que votaram. O silêncio é de ouro. Outros norte-americanos pedem desculpa. Outros aproveitam para capitalizar e outros para emigrar.

O senhor, eleito, com ou sem ajuda dos amigos russos, é um desastre para a Humanidade e colocou-nos na posição mais frágil de todas. O planeta a mudar, a diplomacia a falhar, o senhor a abandonar a Unesco - seguido pelos israelitas que estão igualmente parvos - e ainda tem tempo para enviar tweets apelando à destruição de países onde outros loucos têm igual acesso a material nuclear? A capacidade nuclear existente no planeta permite explodir a Terra dez vezes. Basta uma.

Por isto, e mais (incluindo as sucessivas gaffes, os factos alternativos, o controle desmedido sobre os media, a manipulação, o péssimo gosto em cortes e cor de cabelo e até a sua mulher-objecto), por favor, considere-se demitido. Por mim. E por uns tantos outros habitantes deste planeta. O século XXI, não podia, não devia, não merecia ter alguém como o senhor a dirigir fosse o que fosse, muito menos um país. Há muita coisa assustadora na forma como interage com o mundo, nas suas palavras e ameaças sucessivas. A História permite tirar algumas lições. Com tudo o que já vivemos até agora, temos de ter a certeza de que não esquecemos o que já vivemos. E nós já vivemos o inferno. Como lhe mandou dizer o senhor Macron, numa cerimónia em Paris, auxiliado por uma banda militar - o refrão é simples de cantarolar, sugiro que treine em frente ao tal espelho -, we've come too far to give up who we are.

Por isso, obviamente, demito-o.

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Deus, estou francamente lixada contigo

por Patrícia Reis, em 06.11.17
Das conversas com Deus. O que lhe pedimos, do que refilamos e o que não entendemos. À procura de uma resposta para estarmos menos sozinhos na procura do que faz sentido.
 

Esta semana, morreu um jovem que chegara há pouco tempo à maioridade. Estava doente com cancro há já uns tempos. A última vez que nos cruzámos, no fim do verão, ia petiscar com os pais e com uma amiga. Tinha um sorriso pequeno, o corpo esguio, a careca assumida, não se escusava a um abraço. Eu quis acreditar que estaria melhor. Não perguntei nada. Por pudor, por medo, por egoísmo.

Umas semanas antes deste encontro, a minha avó, a propósito desta doença e deste jovem em particular, dissera: Se Deus quiser irá melhorar. E eu, muito armada em qualquer coisa que agora não sei como definir, repliquei com rapidez que o melhor seria tirar Deus da equação. Deus não pode servir para essas coisas, para pedirmos, caso contrário estamos mesmo tramados, Deus é surdo.

A minha avó, mulher sábia e católica convicta, riu-se devagar e disse-me que nunca pensara na questão dessa forma, pois fora educada assim e não é agora tempo de mudar essa parte da sua pessoa.

Eu acatei, não por dever, mas por entender que estava cheia de razão, a sua razão que, para o caso, era o que importava. Eu não fui educada com Deus à cabeceira, nem figuras de anjo, o primeiro terço que tive foi comprado por mim, fui muitas vezes a caminho da igreja de Santa Isabel para discutir Deus e outras coisas com José Manuel Pereira de Almeida, prior de Santa Isabel e um amigo.

 

Até me inscrevi no mestrado de Ciências da Religião e hoje sei mais do que sabia, sei a teoria, a filosofia, a História. Do resto, aquela coisa que se define comummente como fé, sei cada vez menos. Quando surge uma calamidade digo, como todos nós, as expressões onde Deus está enfiado: graças a deus, valha-me deus, deus nos livre e por aí fora. É cultural. Embora também seja identitário.

Este jovem que morreu no início da semana, desistindo de lutar, depois de tanto lutar, talvez não acreditasse em Deus, talvez nem tivesse pensamentos mágicos de que falam os oncologistas em seminários e congressos a propósito dos doentes e da forma como reagem e vivem a realidade hedionda do cancro. Não faço a menor ideia do que pensava sobre Deus ou sobre outras coisas. Sei que gostava dele, só assim: gostava dele.

E, sem saber o que dizer aos pais que perdem um filho desta forma, só me ocorre dizer que estou francamente lixada com Deus. Portanto, a minha avó tem razão, é cultural: voltamo-nos para Deus para pedir, para refilar, para gritar, para chorar. Ele podia dar-se ao trabalho de estar. E assim seria menos solitário.

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Essa mulher somos nós

por Patrícia Reis, em 31.10.17
O Conselho Superior da Magistratura portuguesa pronunciar-se-á no dia 7 de Dezembro do ano da graça de 2017.
 

Só nesse dia, véspera do antigo dia da mãe (quando estas coisas eram programadas por questões teológicas e não comerciais), é que os senhores podem avaliar a conduta do juiz desembargador Neto de Moura e da senhora juíza desembargadora que deveria ser destituída de funções no momento exacto em que diz que, enfim, isto é uma maçada, mas eu só li na diagonal.

Eu conheço muita gente que só leu na diagonal o código da estrada e foi penalizada por isso. Ainda bem.

Conheço muita gente que não leu o código deontológico do jornalismo mas passa a vida a mastigá-lo como se fosse pastilha Gorila e a fazer balões para que o mundo possa reparar em tanta sapiência.

O que eu não conheço é alguém que venha dizer: meus senhores, o que aconteceu no Tribunal da Relação do Porto é infame, indigno da profissão que exercem, portanto tomem lá com a devida punição.

Não, vamos esperar até dia 7 de Dezembro, dia em que pode chover ou fazer sol, e até lá, enfim, são tantos dias, existirão outras mulheres que podem ser vítimas de violência e acusadas a partir da lógica da Bíblia ou de uma lei de há um milhão de anos.

Que importância é que isto tem? Tem muita. Tem mais importância, por exemplo, do que discutir na televisão, durante duas horas!, a entrevista do primeiro ministro que durou meia hora. Dirão que exagero, pois talvez. Para mim tem mais importância por saber que a questão das mulheres parece ser apenas um rolo de tinta que sobe e desce e nada acrescenta, uma coisa cansativa, mas o que querem?, dá-me para aqui.

Essa Mulher Somos Nós é o nome da petição que circula para que possamos mudar a Justiça e a forma como a Justiça é praticada em Portugal no que toca às mulheres. Porque a pergunta é: quem fiscaliza os juízes? São os tais senhores que se vão pronunciar no dia 7 de Dezembro? E quem fiscaliza esses? A petição visa repor a justiça e entender se é possível ultrapassar este estado de graça de impunidade que alguns juízes parecem gozar com um à-vontade ofensivo. Eu assinei, porque também sou esta mulher, esta vítima. E vocês?

 

P.S. - The Guardian e o The Independent já fizeram uma notícia sobre este caso. Ficámos bem no retrato, como podem imaginar.

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#metoo

por Patrícia Reis, em 24.10.17
Sobre o assédio e sobre tudo aquilo que não se diz e, na maior parte das vezes, não se denuncia.
 

Não importa se o assédio foi maior ou menor, ser vítima de assédio não pode ser mensurável do seguinte modo:” ah, foi perseguida, é mais grave do que ter sido só elogiada em forma de piropo ofensivo” ou, numa outra versão, “ah, foi coagida a ter relações para subir na carreira, é pior do que ter um homem a tirar-lhe as medidas”. Assédio é assédio. O facto de ser preciso existir um escândalo​ em Hollywood para que o assunto pegue moda é, como em quase tudo o que acontece nos dias de hoje, fruto da vertigem da informação, dessa contaminação veloz que só as redes sociais conseguem. A aldeia global no seu esplendor.

A mim, dá-me igual se o dono da produtora Miramax, Harvey Weinstein, alega estar doente, se se despediu, se foi corrido da Academia e se, de repente, é o pai de todos os quem praticam o assédio na indústria cinematográfica ou outra. O que me custa, e considero hediondo, é o silêncio que várias actrizes praticaram religiosamente durante décadas. O que me custa é saber que existem outras tantas que nunca chegarão à denúncia pela simples razão de que o dinheiro (a vergonha e o medo de que a carreira fosse interrompida se se​ recusassem) falou mais alto, assinaram acordos com o dito senhor para manter essa coisa preciosa e conivente que se chama silêncio.

Custa-me também que em Portugal – ó para nós a correr atrás de uma tendência - não se faça uma reportagem séria, o chamado bom jornalismo, sobre o assunto. Faz-se uma notícia a dizer que alguém falou sobre assédio no primeiro Encontro das Mulheres nas Artes que se realizou na Gulbenkian dias 16 e 17, e contou um episódio. E pronto.

Ora, se o tema está na ordem do dia, por favor, façam perguntas a mulheres das diferentes áreas: existe assédio em Portugal? Alguma vez foi vítima de assédio? Sentiu-se prejudicada por não ceder a avanços masculinos e foi prejudicada no seu local de trabalho? Certamente que as muitas mulheres terão coisas a dizer.

Eu, para poupar já as perguntas, deixo as minhas respostas: fui assediada ao longo dos anos por colegas e superiores hierárquicos, fui acusada de ser filha de ninguém, logo não podia ter talento e era apenas uma miúda com dois palmos de cara. Como comecei cedo, havia quem dissesse alto e bom som que os meus textos não eram escritos por mim, que eu nunca seria uma jornalista de qualidade, que era demasiado bonitinha. Bonitinha é igual a burrinha, certo? Pois, é isso.

No próximo ano, faço 30 anos de carreira como jornalista e, embora afastada das redacções tradicionais, sou e serei sempre jornalista. Sou do tempo em que não havia nenhuma mulher nas direcções dos jornais; sou do tempo em que a única mulher numa chefia no semanário Expresso era a senhora do arquivo; sou do tempo em que o meu ordenado era sempre inferior ao de qualquer homem que fizesse o mesmo ou menos do que eu. Tive muitas insinuações, muitas bocas, muitos olhares da cabeça aos pés. Dei um safanão a um editor numa sala de reuniões antes que me agarrasse. Mandei à merda um outro.

O conjunto dos meus colegas homens e mulheres, vou sublinhar aqui esta parte, homens e mulheres, meteram-me na cama com A, B e C. Porque não era possível que uma mulher, que começou a trabalhar ainda menor, loirinha e magrinha, não fosse uma devassa, uma vendida. Talento? Nah. Isso seria pedir muito. Talvez não se recordem, mas eu até obtive um prémio de “alpinista do ano”, prémio atribuído pela defunta revista Kapa onde trabalhavam só bons rapazes.

Penei mais do que a maioria dos homens para ter a carreira que tenho? É evidente. Mas nunca estive calada, nunca deixei de dizer o que penso, o que quero e o que não quero. Aprendi com mulheres de enorme talento que o silêncio não é uma forma de evitar a chatice, é apenas indigno de quem eu sou.

Portanto, aqui vai o hashtag: #metoo. E vocês?

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Mulheres portuguesas, deixai hoje de trabalhar

por Patrícia Reis, em 15.10.17
Não é grave, é apenas para manter a paridade.
 

Se nos próximos 79 dias as mulheres não recebem salário, porque carga de água é que devem ir trabalhar? De acordo com os últimos dados, a disparidade de salários entre mulheres e homens em Portugal é de tal ordem que, para efeitos práticos, as mulheres não ganham nada até ao fim do ano, mesmo mantendo um ritmo de trabalho igual, melhor ou pior do que o habitual.

Os salários para as mulheres são 21,8% por cento menos. E são prejudicadas no local de trabalho se, por acaso, engravidarem, tiverem de licença de parto, precisarem de ir a uma consulta pré-natal. Os relatos são inúmeros e mesmo quando uma mulher chega a um lugar de topo, aufere menos do que um homem no mesmo lugar. É um facto, comprovado, sem volta a dar. Porquê? Porque o mundo muda lentamente, muito lentamente.


Não é grave, é apenas para manter a paridade.
 

Se nos próximos 79 dias as mulheres não recebem salário, porque carga de água é que devem ir trabalhar? De acordo com os últimos dados, a disparidade de salários entre mulheres e homens em Portugal é de tal ordem que, para efeitos práticos, as mulheres não ganham nada até ao fim do ano, mesmo mantendo um ritmo de trabalho igual, melhor ou pior do que o habitual.

Os salários para as mulheres são 21,8% por cento menos. E são prejudicadas no local de trabalho se, por acaso, engravidarem, tiverem de licença de parto, precisarem de ir a uma consulta pré-natal. Os relatos são inúmeros e mesmo quando uma mulher chega a um lugar de topo, aufere menos do que um homem no mesmo lugar. É um facto, comprovado, sem volta a dar. Porquê? Porque o mundo muda lentamente, muito lentamente.

As mulheres, ao longo da História, tiveram de cumprir apenas duas quotas: ou são umas Evas – logo demoníacas e tentadoras, perversas e afins – ou são Marias – a mãe, beatificada e calma, sempre cumprindo a tradição e, acima de tudo, o silêncio. Desde o chamado pecado original que temos esta avaliação extrema das mulheres seja em que situação for.

No caso dos ordenados ou promoção nas carreiras, andámos muito, conseguimos muito, mas falta bastante para chegar à famosa e pouco cumprida paridade.

O Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social aponta como diferença ao nível dos salários dos tais 21,8% (dados de 2016) e releva que 28,9% das mulheres recebem o ordenado mínimo nacional. O mesmo ordenado mínimo vai para 18,5% dos homens.

Como combater esta desigualdade? Mantendo ferozmente a convicção de que os direitos são iguais. Por favor, não me falem em mérito.

As mulheres portuguesas trabalham muito. Todas as mulheres trabalham muito, dirão. Sim. A tradição pesa e a cultura também. E, se existem filhos, cabe por regra à mulher tratar dos infantes, da casa, dos mais velhos, desdobrar-se. Considerando que esta situação, em pleno século XXI, parece perpetuar-se, talvez seja mesmo bom irmos para casa fazer o que nos apetece, ou passear, já que para muitas de nós o que fazemos não vale o mesmo do que aquilo que é feito por homem.

Depois dizem-me que ser feminista é uma coisa datada? Tenham paciência.

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Cortar os pulsos

por Patrícia Reis, em 24.09.17

Viver numa aldeia às portas de Lisboa durante o verão é bom. Fugir para uma aldeia às portas de Lisboa num fim de semana de inverno é bom. O pior mesmo é ir e vir todos os dias para uma aldeia às portas de Lisboa.

 

Por razões que agora não interessam para nada, vim viver para uma aldeia, na margem sul, a 40 minutos de Lisboa. Não vim de férias, nada disso, vim para estar e viver até Lisboa me ter de volta, que é como quem diz, até voltar a ter casa digna desse nome.

Eu nasci em Lisboa, sempre vivi em Lisboa e, como todas as pessoas das grandes cidades, tenho da aldeia a ideia idílica que me ajuda a pensar que, um dia, sabe-se lá quando, vou conseguir reformar-me (só esta afirmação dá logo vontade de rir) e viver num sítio mais tranquilo.

Estou na aldeia e a cortar os pulsos.

Sim, adoro aqui estar no pique do verão, quando a animação é mais que muita – numa única rua temos dois bares e um salão de jogos, é uma festa –, quando o peixe ainda chega vivo à peixaria, as pessoas acotovelam-se para comer gelados e temos um território bem demarcado na praia do costume.

Ou então, em pleno inverno, de lareira acesa, sem sair de casa, vivendo na ilusão de que o descanso se pode fazer num único fim de semana.

Tudo isso está muito bem, mas experimentem ter de passar a ponte (25 de Abril ou Vasco da Gama) todos os dias. Façam contas: quilómetros de gasolina, portagens, minutos perdidos no pára-arranca.

Sim, estou a queixar-me e algum de vós estará a pensar por que carga de água é que não vais de transportes públicos, certo? Pois, quem tem uma vida profissional como a minha dificilmente se adapta aos transportes públicos, porque às dez da manhã é preciso estar em Queluz, às duas da tarde no Saldanha e às quatro em Cascais.

Não será todos os dias, mas a verdade é que ando de um lado para o outro como os pombos andam por aí a conspurcar estátuas. Não tenho onde pousar verdadeiramente, não tenho um emprego das nove às seis. Portanto, a única solução é esta: ir e vir. E o que é agradável e quase consolador nas férias é agora uma tortura. A mercearia está fechada por estes dias. A gasolina acabou? Bom, talvez a bomba a três quilómetros de distância esteja aberta. Não sabes como atinar com o forno a gás ou ficaste sem gás? Respira fundo.

Depois deste desabafo, posso dizer que existem coisas boas: o café onde nos tratam como se fossemos realeza, o restaurante maravilhoso dos amigos que se mantém aberto já em modo fim de verão, a tabacaria onde os jornais podem ser guardados para quem ainda lê jornais em papel (eu!), o silêncio imprescindível, e quase estranho, dos carros que não passam, dos autocarros que não travam. Enfim. Por estes dias, viver na aldeia e trabalhar em Lisboa é um sacrifício. E ainda não fez um mês que aqui estou. Já disse que estou a cortar os pulsos?

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Para acabar de vez com a democracia

por Patrícia Reis, em 16.09.17

Em vésperas de eleições é muito fixe conspirar e mandar bitaites como se isto fosse, o que parece ser tantas vezes, a República das Bananas.

 

Eu tenho amigos de direita. Tenho um filho de direita. Não tenho nada contra quem segue esta linha política, mas tenho tudo contra a politiquice da treta. Temos para todos os gostos: se o/a candidato/a comprou uma casa é por ter comprado uma casa; se o/a candidato/a sabe fazer contas é por sabe fazer contas; e por aí fora.

Mas também temos este registo à esquerda. Não tenho a menor paciência para o argumento de que alguém não tem como governar uma cidade por não saber quanto custa um bilhete de metro (que não é uma empresa municipal, a última vez que verifiquei, e existem múltiplos tarifários).

Ataques e mais ataques, sem grande mérito para quem os começa, sem grande mérito para quem os decide combater. Na verdade, trata-se da canseira habitual em vésperas de eleições e que tem o condão de comover muito pouco o eleitor que estará entretido com o último reality show ou com a bola (talvez possamos inverter isto, porque a bola é evidentemente quem mais ordena).

Portanto, grande parte do debate político é entre políticos e os políticos, já se sabe, alimentam-se disto como os pombos no Chiado se alimentam de qualquer coisa que caía das mãos dos turistas ou dos locais.

Ideias? Ouço nos debates entre candidatos que existem ideias e estratégias, mas não há – quase nunca – um esmiuçar das mesmas. Para ver se eu, e qualquer outro eleitor, concordamos com as mesmas, e se apostamos no senhor ou senhora A por ter um plano com o qual possamos concordar. Não, nada disso. Temos umas coisas a que chamamos debates, temos os habituais com engajamento político e com palas nos olhos e pouco ou nada passa disto.

Acresce ainda que a direita tem feito um pobre serviço à democracia, por não ter candidatos que sejam – vá, vou ser querida e fofa - carismáticos. Não, a direita tem candidatos que são “mais ou menos”, são os “possíveis”, o que é preocupante porque fragiliza o processo democrático e a possibilidade de qualquer debate. Como o primeiro-ministro carrega no bolso das calças as duas esquerdas que podiam fazer alguma oposição, o cidadão que seja como eu, esperaria da direita mais política e menos politiquice. Não acontece.

O que é mesmo bom é fazer alvo aos patos, tiro para aqui, para acolá e a grande máquina do mais-do-mesmo vai rolando.

A minha fé na política é cada vez menor e, tenho cá para mim, estou cada vez menos sozinha nesta convicção. Por outro lado, espanta-me que existam pessoas que ainda queiram servir o país ou exercer qualquer tipo de serviço público, porque o escrutínio é absurdo, a maldade e a deficiência de alguns jornalistas é crónica e, por fim, nem sequer é bem pago.

Talvez eu esteja errada, pode sempre acontecer, mas temo muito pelo futuro da nossa democracia que, afinal, ainda nem tem 50 anos.

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Mulheres escritoras do mundo: uni-vos

por Patrícia Reis, em 01.09.17

São as mulheres que mais compram livros. São as escritoras mulheres que menos traduzidas - e editadas - são. Um contra-senso ou nem por isso.

 

De acordo com um estudo da Universidade de Rochester nos Estados Unidos da América, as traduções do mundo literário para a língua inglesa – essa que pode fazer toda a diferença entre ser ou não ser um(a) escritor(a) de renome internacional – são mais um universo de disparidade: apenas 28 por cento de livros escritos por mulheres é que chegam à tradução para a língua universal dos dias de hoje. Vou dizer outra vez: três por cento.

Uma carreira literária é duplamente difícil para uma mulher, já que o mercado está saturado e é difícil arranjar uma editora digna desse nome e, cereja no topo do enorme bolo!, uma mulher vende menos. Não sei de nenhuma estatística que possa provar esta afirmação de que as autoras vendem menos do que os autores, mas parece-me uma presunção certeira já que se publicam mais homens do que mulheres.

Quem compra livros? Isso está estudado: quem mais compra são as mulheres. Se apenas 28 por cento da literatura escrita por mulheres é traduzida, fazer uma carreira internacional é quase um achado e assim se compreende que Agustina Bessa-Luís, para dar apenas um exemplo, não cause furor além fronteiras. Não, não podem invocar a portugalidade e as derivações, característica de Agustina, porque, nesse caso, tenho para contrapor Saramago, Lobo Antunes e tutti quanti que escrevem ou escreveram sobre a vidinha por estas paragens. Lemos Jane Austen e será sobre a condição humana, sobre sentimentos transversais à humanidade ou sobre a sua época? Talvez tudo junto. Há mais exemplos, mas como para bom entendedor um ou outro chega, pois sigamos em frente que é preciso.

A possibilidade de internacionalização é pouca, e o mesmo se passa com idas ao estrangeiro, basta ver as comitivas para festivais e afins. Parece que as mulheres não gostam muito de se deslocar e quem organiza festivais tem dificuldade em ter mais mulheres. Contra mim falo que, caso exista um convite, sou muito rápida a declinar, com honrosas excepções. Porquê? Porque não tenho, como sugeriu Virgina Woolf, um quarto só para mim, a minha vida é como a de tantas outras mulheres, e, entre os mil afazeres, ainda telefono à minha mãe todos os dias.

O resto podem imaginar, entre emprego, filhos e roupa, o espaço mental que tenho para escrever é diminuto, o físico é relativo e a capacidade de mandar tudo às urtigas e ir ao estrangeiro – ou mesmo só ao sul do país – para falar sobre o que ando a escrever há mais de uma década é nula. Queixo-me e não me queixo desta situação, da miragem das traduções, de ver os livros bem expostos (mesmo aqueles que têm anos), enfim, de uma carreira literária que, para todos os efeitos, nunca o será.

Em Portugal, temos por hábito pensar que a desgraça e a frustração tem um cunho lusitano. Três por cento das escritoras do mundo conseguem ser traduzidas. Estou, por isso, muito acompanhada nesta solidão.

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erotismo 0 - tecnologia 2

por Patrícia Reis, em 21.08.17

Há uns anos, Agustina Bessa-Luís revelou, numa crónica de jornal, que nada é mais anti-erótico do que a praia, a praia onde metade do país se encontra de momento. Também escreveu, numa outra circunstância, que uma mulher para parecer inteligente só precisa de usar um vestido preto e ficar calada. É uma ironia, e é uma verdade, se considerarmos o quadro mental. Mas não vamos por aí.

 

O calor faz-se sentir e eis-nos na praia, esse cenário de tristes paisagens em que estamos no nosso melhor ou nosso pior. O tal anti-erotismo prevalece.

À minha volta, no fim de semana de dolce fare niente, vejo famílias ruidosas, os gestos do costume - "Pedro, vem aqui já, não te chamo outra vez"; "Maria, tens de meter protector", "Tens sandes, come uma sandes, já comeste um gelado" - e um outro que é perturbador, embora comum e, portanto, expectável: poucos livros protegidos por leitores ávidos de uma boa história (eu terminei o romance de Paul Auster, 4,3,2,1, que recomendo, embora possa compreender que o número de páginas assuste os menos experientes), jornais por ler encostados a mochilas e sacolas da moda e, pois claro, muitos telemóveis a emitir a luz da salvação e eternidade.

Para quê falarmos se posso estar no Facebook? Recordo-me das grandes conversas na praia, jovens em bando, partilhando histórias, reclamando levemente do horror que foi a escola, sem querer falar disso; piscadelas, início de namoros, jogos e cartas. A sedução fazia parte do verão e o tal anti-erotismo de Agustina ainda não me tinha assaltado como uma verdade fatal, ou seja, não tinha dois filhos, não passara a barreira dos 45 anos de idade.

Tudo era uma festa e conhecer pessoas novas uma promessa de verão que se cumpria religiosamente, alguém que trazia uma prima que vivia no interior do país; um melhor amigo de há dois meses.

Agora, depois de pousar o livro, de ter lido os jornais e as revistas, a esconder-me na sombra desde as onze da manhã - aguentando heroicamente até às seis da tarde por amor, e só mesmo por amor -, eis que percebo que não são apenas os corpos que se degradam com o tempo. É o tempo que nos traz a tecnologia para dentro da vida, mesmo com água e areia, e não há espaço para conversas.

Foi-se a sedução. Não há nenhum bando na praia de adolescentes à espera de crescer mais em dois meses do que em um ano lectivo intenso: há telemóveis para todos os gostos. E, sim, corpos massacrados por essa realidade básica: com a idade vem o peso e cada quilo traz uma família inteira com ele, avó, tia, primo, e custa muito mais a perder esses excessos, ocupantes indesejados.

Porque não lemos, não conversamos, não andamos em grupo, mas, caramba, temos de comer uma bola de berlim.

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Eles têm as costas largas

por Patrícia Reis, em 02.08.17

As generalizações são tramadas, mas — tendo consciência ou nem por isso — mantemos essa necessidade de assumir o rótulo, de catalogar, de definir em bando para concluirmos coisas, em teoria, pertinentes e que devem algo à inteligência.

 

Os portugueses assumiram há muito tempo que existe essa figura de papão que os trama e designam o mesmo bicho mau e careca de uma forma quase incolor: eles.

Eles comem tudo e não deixam nada, pois lá diz a canção. O drama é que o Eles — vamos colocar em maiúscula para lhes dar um pouco mais de corpo, solidez, pertinência — não existem enquanto criaturas reais que tomam decisões. São apenas os que prejudicam, os que nos tiram os dias de sol, os que falharam, os que podiam ter feito melhor, mas  que não fizeram porque nunca fazem. Quase como uma versão castigadora da professora de matemática que prolonga o tempo de aula para massacrar os alunos que anseiam pela aula de português. Ou como uma entidade que procura vingar-se da Humanidade e que tem um desígnio maléfico que nos inflige um fado que, afinal, é apenas um fardo.

Seja qual for a metáfora usada, uma coisa é certa: a culpa é toda Deles. E Eles não se acusam, por não ser nomeados, e quando o são, já se sabe, estão no governo ou no partido A ou B.

Prezamos a democracia, já cá andamos há uns anos e sabemos que é  infinitamente melhor do que tínhamos antes da revolução dos cravos em 1974, mas será que ainda sabemos apreciar o sabor dessa democracia e a valorizar a importância do debate público?

Ah, Eles tratam, mesmo mal, resolvem, pensam e fazem com que a máquina se tenha instalado, criado raízes e se mantenha no seu movimento perpétuo. Ora, Eles, sejam lá quem forem, podem muito, têm as costas largas e não se importam com as críticas.

Alguns fazem parte dessa massa anónima do Eles há tanto tempo que encaram as críticas com a placidez com que algumas pessoas vivem uma hora de boca aberta para desvitalizar um dente. Não se importam nada com as críticas, as queixas, os comentários de fel nas redes sociais, os factos, isto ou aquilo. E estão instalados a ver a paisagem e a dormir sossegados porque são Eles e sendo Eles não são como Nós, os deste lado que, apesar da queixa, não queremos ir para ali.

Eu, para a política? Eu, ter de votar? Eu, ter de perceber a função exacta de um vereador, deputado, ministro? Eles comem tudo e não deixam nada, têm o poder.

O Nós não entendeu ainda que Eles têm o poder por lhes ter sido dada essa oportunidade. Ninguém quer fazer parte do Eles.

A fragilidade da democracia é a maior falha do Nós que, assobiando e cuscando o vizinho para o maldizer, está muito entretido a olhar para o seu umbigo em detrimento do Outro. O Outro é o bem comum. Nem Eles, nem Nós percebemos isso.

Por isto, e mais umas tantas coisas, vem aí a silly season e teme-se o pior. Ou então sou eu que estou especialmente pessimista. A culpa é Deles.

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a forma mais preguiçosa de ver o mundo

por Patrícia Reis, em 27.07.17

Esquerda, direita, volver. Ou porque é tão difícil abrir a discussão pública a novas pessoas, novas ideias, diferentes formas de pensar.

 

Dividir o mundo entre a esquerda e a direita é a forma mais cómoda de se viver, a mais preguiçosa e também a menos interessante. Mas é assim que vivemos. Na dicotomia que faz com que tudo tenha esta divisão categórica. Olhamos para os intervenientes em qualquer programa de televisão ou de rádio e lá estão os senhores mais assim, os senhores mais assado (escrevo senhores porque, objectivamente, as senhoras não aparecem com tanta frequência). O que muda em termos de pensamento? Nada. Existe uma agenda e um pensamento condicionado, logo é bastante previsível o que vai ser dito, ou dado a ouvir para que o público em geral possa processar e pensar.

Olhar para o mundo através deste binóculo bipolar parece-me redutor. Dirão que existem várias esquerdas e outras tantas direitas, clivagens, diferenças, actualizações, que existe um centro e os liberais e talvez, porque não?, neo liberais, e tal. Pois seja. Nasci antes da revolução, poucos anos antes, sou, por isso, também produto das conquistas de Abril. Cresci em democracia e, passados mais de 40 anos, pasmo com realidades que limitam a possibilidade de se pensar o mundo de uma forma que não seja partidarizada. E estou um pouco cansada de mais do mesmo, que é como quem diz dos comentários dos agentes informadores mais assim, ou mais assado.

Temos poucos académicos a escrever nos jornais, a falar na televisão. Temos uma mão cheia de politólogos, mas deixámos de ter historiadores, sociólogos, filósofos em contacto com o grande público. O que temos? Mais do mesmo. Os senhores do costume. Há décadas.

Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente que fez campanha sem outdoors, manifestações e outras acções típicas de uma campanha presidencial, esteve anos e anos a entrar pela casa das pessoas através da televisão. O poder que tem a pequena caixa que mudou o mundo é real e contribui para muito. Não sei se, em Portugal, nesta altura do campeonato, contribui para se pensar o país, o mundo, as questões que afectam as pessoas. O que importa é equilibrar as intervenções entre os agentes de esquerda e os da direita.

Nos jornais, durante muito tempo, os escritores – que pensam o estado do mundo e são uma forma de consciência do seu tempo – escreviam crónicas, eram chamados a apresentar ideias. Hoje, são raros os escritores que se envolvem nas matérias sociais. Não por não quererem, simplesmente por não terem esse espaço. Tudo o que envolve a sociedade é político e, portanto, é evidente que tudo se passa à volta da esquerda e da direita? Sim, tudo o que envolve a polis é político, todos nós temos gestos e discursos que formam uma ideia política, mas não precisa de estar engajada numa agenda de partido que, para tornar as coisas ainda mais pobres, resulta em “picar” os potenciais adversário e outras variantes pouco dignificantes.

Disseram-me, há uns meses, que não se pode deixar de ir buscar para intervir nas televisões, rádios e jornais pessoas cujo reconhecimento é imediato. Todas elas eram desconhecidas numa determinada fase da vida, certo? Certo. Portanto, podemos apostar em pessoas cujo discurso é diferente e que ninguém conhece. Ah, as audiências sofrem com isso, com o facto de ninguém saber quem é o académico que vem explicar coisas importantes, digamos, sobre o Islão. A solução é colocar alguém cujo rosto se multiplica em vários cantos da comunicação social, tornando-o um agente de comunicação. E, mesmo que não saiba nada sobre o Islão – que perspectiva de direita, que perspectiva de esquerda, pode existir nesta matéria não sei dizer, mas que importa muito que se saiba mais sobre o Islão não tenho a menor dúvida -, pois alguma coisa se arranjará para pontificar e fazer o contraponto, ou seja, o descascar no vizinho do lado, à esquerda, ou à direita. Do outro lado do ecrã, alguém irá dizer: este tipo é de direita/esquerda.

Perde-se muito quando se divide a realidade apenas desta forma e, acima de tudo, perde-se a possibilidade de abrir horizontes, de aprender, de formular ou reformular pensamento. E, caramba, precisamos tanto de pessoas que pensem bem, diferente, que nos empurrem para lugares melhores. Não dará audiências, mas talvez contribuísse para dar a volta ao estado do país.

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blogue da semana

por Patrícia Reis, em 23.07.17

Os dez melhores blogues do ano é uma competição que acompanho com gosto, sobretudo por perceber que existem muitas pessoas por aí no universo dos blogues a escrever bem e sobre temas diversos. Este ano, fui descobrir por fim o vencedor do prémio Melhor Blogue de Viagens Profissional nos Blogger Travel Awards 2015. Sim, já sei, estou atrasada dois anos, mas é a minha vidinha, que não sendo fácil, é animada. Filipe Morato Gomes assina este blogue, “uma espécie de viajante profissional”. Pareceu-me perfeito para mergulhar numa sexta-feira à tarde e assim fiz. Descobri várias coisas interessantes, relatos de viagem, experiências diversas, algumas dicas, listas de hotéis. Acima de tudo, proporcionou-me sonhar, já que viajar faz parte das minhas prioridades (tantas vezes adiadas!). Filipe Morato Gomes tem a felicidade de andar de um lado para o outro (já deu duas voltas ao mundo), escrever sobre isso e manter um blogue com pinta. Como tudo na vida é difícil e é preciso pagar contas, o blogue tem uma característica comercial: se quiser programar uma saída do país diferente, uma aventura, pois pode entrar em contacto com este viajante, nascido no norte do país, e combinar aquela viagem de sonho. Não se pode pedir mais nada, pois não? Verifiquem tudo em

http://www.fmgomes.com/ e façam as malas.

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welcome to my life

por Patrícia Reis, em 21.07.17

Cheguei de Itália - a belíssima - há uma semana. Já não me lembro de ter ficado de papo para o ar sem fazer nada, mirando vagamente as vinhas da Toscana ou espreitando a gente pelas praias de Roma. Sim, tenho problemas graves de memória, está visto. Acontece que desde que cheguei aconteceu tudo, ou quase tudo, do autoclismo que avariou, ao carro que não tinha gasolina nem óleo (pânico!), a textos que eram para ser mas depois não foram, a sessões de terapia individual, de grupo, no espelho e apenas para mim mesma, idas à província, vários livros à espera, sessões de fotografia, objectos estranhos e alguém à minha frente a dizer: gosto de comer. Há ainda toda a cena bizarra da inscrição do meu filho mais novo na faculdade (inscreveu-se, por esta ordem, em filosofia, ciências da comunicação e sociologia, todos os cursos na universidade Nova), ou dos cães que precisavam de ser vacinados, mas afinal não. O meu filho mais velho acredita que eu não percebi a mensagem (não perguntem, é demasiado), e a minha mãe diz que há pessoas que morrem com menos stress. Hoje é sexta-feira. Dizem-me que há vitaminas fixes, mas não fui à farmácia, fui à dentista que é um fado só meu e permanente. Ah, Itália? Foi maravilhoso.

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É uma ilusão que alimentamos há mil anos: somos um país integrador, com boa vontade, tolerância e outros predicados de correcção extrema. Somos bonzinhos. Conquistámos o mundo, uma boa parte do mundo, e, nos tempos de glória, não fomos tão maus quanto... Eis o busílis: a comparação.

Nunca somos tão maus quanto A ou B, outros povos, outros colonizadores, outros intolerantes, racistas, xenófobos. Mas não é suficiente. Não temos no parlamento representação de outras etnias que, é bom que se entenda de vez, não têm se ser integradas na sociedade portuguesa, fazem parte da sociedade portuguesa.

Não se trata de dar lugar aos recém chegados. As comunidades africanas a residir em Portugal estão por cá há tempo suficiente para terem um lugar em funções de representatividade, nos órgãos de comunicação social (creio que temos, salvo erro, apenas uma pivot de origem africana e numa estação de televisão privada), na política, enfim, em todos os sectores da vida pública.

Em muitos casos, vivemos num gueto, tal como é a Cova da Moura. Será difícil ignorar ou desvalorizar os acontecimentos de discriminação e violência por parte dos 18 polícias da esquadra de Alfragide, na Amadora, acusados pelo Ministério Público de crimes diversos. Um dos polícias é acusado de cerca de 20 crimes. Os relatos são medonhos e não podemos simplesmente fingir que não sabemos, ou que o racismo não existe, que o índice de violência não é brutal.

O meu marido, nascido em Angola, não tem a cor certa para este mundo de falsos brandos costumes. Os meus filhos sofreram várias agressões verbais por causa da cor de pele do padrasto. Ainda hoje, com mais de uma década de casamento, há quem olhe, há quem comente, há quem não consiga conter um esgar. Já ouvi frases como “coitadinha, ela é tão branquinha”. O meu marido lida bem com isto. Eu, tenho os meus dias.

Aprendemos a ignorar, mas não nos surpreendemos com relatos de violência física ou verbal. Triste? Sim, mas não é apenas isso. É um retrocesso crescente ao nível civilizacional, dirão alguns. Também não é verdade. Nunca fomos um país isento de racismo, logo a ideia de retrocesso é relativa. Deveríamos denunciar mais? Sim. Mas importa perceber o medo e a ideia de inutilidade de denúncia, por existirem muitos casos em que as vítimas encolhem os ombros e dizem: "não queremos mais chatices".

Dos 18 polícias acusados - finalmente uma acusação real e adequada – podemos esperar que se faça justiça? Infelizmente, não tenho fé na justiça portuguesa, ou melhor, tenho tanto quanto nos bons e brancos costumes nacionais.

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eles não sabem, nós também não

por Patrícia Reis, em 14.07.17

Mais uma semana de exames, desta vez com a publicação das notas. Mais uma semana de ansiedades e de incertezas. para pais e filhos.

 

E saíram as notas dos exames. Os miúdos atropelavam-se para chegar às pautas, um burburinho nervoso persistia e alguns pais esperavam com ansiedade, braços cruzados, atentos. Os telemóveis memorizaram as notas. Os rostos dos finalistas do 12º, nas diferentes áreas, são uma palete confusa que abrange a totalidade do espectro emocional. Há riso, choro, aflição, mutismo, mãos a arrepelar cabelos.

Os jovens com a alegria conquistada pela visão da pauta agrupam-se naturalmente. Os menos felizes encolhem-se, o corpo em curvatura. Os rapazes contêm-se, as raparigas começam no frenesim de perceber a média, faz contas, corrige, liga à mãe que não está presente. Há duas miúdas que discutem se têm de se inscrever já para a segunda fase dos exames, ambas com 10 a História. Não sabem o que fazer. Uma delas pergunta: "Mas tu já sabes o que vais fazer? Que média precisas para entrar na faculdade?" E a resposta chega veloz: "Não sei. Não faço ideia. Talvez eu não devesse ir para a faculdade, mas a minha mãe..."

Afasto-me deste cenário com o coração apertado por todos os que ali ficaram contristados com os resultados. Sei de quem tenha pago explicações caríssimas e tenha de enfrentar a realidade: o filho traz notas negativas a ambos os exames. Sei de quem não quer pensar mais no assunto.

Vou com as boas notas do meu filho mais novo pela rua e penso que ele também não faz ideia do que será o futuro. Há uns anos, ainda criança, o mais velho sentenciou que o futuro é um país lá longe. E agora que parece mais próximo, mais assustador, não é possível ter a certeza de que estejamos a ser correctos.

 

Pressionamos os miúdos para decidirem? Escolham um curso, sff, depois logo se vê? Valerá a pena ficar a morder o lábio de nervosismo perante a decisão que diz: não quero ir para a faculdade? Ser pai não é ter um livro de receitas certas, nem garantias de eficácia como os pequenos electrodomésticos que por aí se vendem.

Ser pai é complicado. Ser filho é igualmente complicado.

Num mercado cada vez mais exigente, acreditamos que uma licenciatura é uma ferramenta básica e lutamos para que os nossos filhos adiram com empenho e alegria. Não saber o que se quer fazer é paralisante e, ao mesmo tempo, frustrante. Mas pior será pensar que estamos a depositar nos nossos jovens todas as esperanças de um mundo melhor, sabendo de antemão que o que importa verdadeiramente é encontrar algo de que se goste. A paixão importa.

Para muitos miúdos, esses que estudaram aqui por casa para os exames nacionais, o que parece ser mais urgente é "ter um emprego". Eu vou dizendo que o mais importante é fazerem algo de que gostem, algo que possa proporcionar conhecimento, mas também uma gratificação pessoal.

Levo as boas notas do meu filho para casa e sei que ele se inscreverá na faculdade sem saber nada do futuro. Eu sou mãe dele e também não tenho o direito de saber do futuro dele. Será uma presunção muito grande continuar a decidir o que quer ou não quer, o que deve e o que não deve. Ou não será?

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estes senhores não viajam separados

por Patrícia Reis, em 08.07.17

Comunicar é muito mais do que falar ou ouvir. Comunicar é tornar comum, o que implica esforço, atenção, proximidade e sobretudo interesse pelos outros. No aeroporto, há uns dias, um grupo de surdos mudos embarcava para Itália. Na algazarra típica dos aeroportos, chamadas para o voo internacional XPTO, viam-se pessoas a atropelar pessoas com trolleys desajeitados, crianças a dormir, ou a ser simplesmente crianças, este grupo de pessoas - a maioria adultos, dois casais de meia idade, dois adolescentes - manteve-se perto. E na sua Língua Gestual, formando uma roda, conversava e ria. Conversar, usando a Língua Gestual, implica também a capacidade de observar o outro. Na expressão facial, no corpo que se movimenta. Na semana passada, a propósito do concerto no Meo Arena de solidariedade para com as vítimas do incêndio de Pedrogão Grande, pudemos assistir, naquele quadrado no canto inferior direito, a uma tradução para Língua Gestual que assumia o ritmo, a música, o entusiasmo. E a dança do corpo e das mãos era simplesmente maravilhosa de ver. No aeroporto o que mais me comoveu foi perceber que o casal mais velho, mais de 65 anos, não precisa de muito para comunicar, como se os olhos dissessem tudo. Aquela mulher e aquele homem conhecem-se dentro de uma espécie de silêncio que obriga ao reconhecimento permanente do outro. Não se deixam de olhar por um segundo. Não precisam mais do que esboçar algum gesto. Sabem. Conhecem-se. De todos os casais que conheci ao longo da vida, nunca vi nenhum com aquele nível de intimidade. Dentro do avião, impossibilitados de ouvir os diferentes anúncios sonoros e com tripulação estrangeira (era um avião de uma abençoada companhia low cost) incapaz de os entender, o casal é separado. A senhora para a fila vinte e tal, o senhor deve ficar na fila quatro. Não é possível não ouvir estes pormenores, a hospedeira fala em inglês com sotaque italiano e fala alto. Talvez porque os senhores sejam surdos mudos, o que é ridículo. O senhor recusa sentar-se e tenta, sempre com um sorriso, explicar, aponta para a mulher, para a aliança, para o lugar ao lado. São salvos por um técnico português que fazia um controle qualquer ao avião e estava pronto para sair. O técnico vai ao fundo do corredor do avião, traz a senhora, pede licença ao senhor do lado e explica que é preciso trocar de lugar, "estes senhores não viajam separados". Pareceu-me justa está frase. O casal sentou-se por fim, fila quatro, lugares A e B. Deram as mãos.

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saber viver custa muito

por Patrícia Reis, em 01.07.17

Numa sociedade a sofrer de ansiedade, palpitante, impulsiva, temos cada vez mais dificuldade em viver bem. O que é viver bem?

 

Aprendi há algum tempo que existe uma máxima que me permite conquistar alguma tranquilidade: se tem solução é um problema; se não tem solução, pois siga, andemos para a frente. Podemos ficar a congeminar em muita coisa, construir cenários, projectar o que teríamos dito a A ou B se tivesse havido tempo, ou agilidade mental, naquele momento específico. Tudo isto é uma enorme tanga, já se sabe, o tempo não volta para trás, não conseguimos repor a verdade.

Ficamos agarrados a muitos preconceitos e somos minados de tal forma que o nosso quadro mental revolta-se e esquece o bom senso. Dentro do bom senso está a nossa capacidade de parar e reflectir. Como o avô de um amigo que dizia que antes de comprar qualquer coisa precisava de um período de reflexão. Só partia efectivamente para a comprar depois de perceber se esse objecto de desejo espontâneo fazia mesmo falta.

Parar permite também escolher. E torna-se mais fácil perceber quem são as nossas pessoas. Nem todas as pessoas fazem parte do nosso clã. Sim, convivemos, mas existem pessoas que nos pertencem, com quem temos afinidades, projectos, possibilidades de crescer, de partilhar. As outras não são da nossa equipa, vestem um equipamento distinto, fazem juízos e validações que nos são incompreensíveis. Até aqui, tudo bem. Não temos de gostar de todas as pessoas; nem todas as pessoas têm de gostar de nós.

O maior drama de tudo é quando nos deparamos com uma das características nacionais mais danosas: a inveja. Podemos utilizar o cliché e dizer que a inveja mata. Enquanto mata por dentro os invejosos(as), atinge de forma extrema o alvo da inveja. E, em vez de termos armas para combater que assentem na seriedade e intelecto, ficamos estarrecidos a ver como a inveja se propaga como um gás mortal. As redes sociais são pródigas neste capítulo. Os mass media divulgam online títulos bombásticos que, tantas vezes, não correspondem à verdade. A exposição é hoje uma constante e como não lhe vejo solução, creio que terei de seguir a tal máxima e seguir em frente, ignorar o que se diz levianamente sobre A ou B. Enquanto sigo para a frente, paro.

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Pensamento da semana

por Patrícia Reis, em 24.06.17

Quando uma mulher escreve uma história de amor, é mais uma história de amor. Quando um homem escreve uma história de amor é sobre a condição humana.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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É tempo de exames e enquanto dura esta ansiedade evita-se a próxima. Aos 17 anos, é legítimo ter dúvidas e não saber o que se quer fazer para o resto da vida. Aliás, o conceito do resto da vida é hoje tão móvel como tudo o resto.

 

Adolescente chegou a casa e comunicou que o exame nacional de português – para alunos do 12º ano – foi bastante mais fácil do que pensara. “Saiu Alberto Caeiro e Vergílio Ferreira”, disse, não estando particularmente entusiasmado, nem tão-pouco aliviado. Confessou que deixou por fazer duas perguntas. Não, nada de interpretação, apenas o terror da gramática cuja terminologia, confesso, também me assombra. A evolução da língua, pois e tal, mas a nova terminologia é um verdadeiro chuto na tola e, por muito que se possa dizer que a lógica ajuda a chegar lá, não tenho como. Sou de outra geração e não sei o que é um complemento oblíquo. O meu filho talvez saiba. Ou não.

Hoje é dia do exame nacional de História cuja matéria é vasta e, por isso, os livros estiveram espalhados na mesa da sala e houve adolescentes que entraram e sairam, fizeram perguntas, desesperaram.

A época de exames é sempre assim, dirão. O stress acumula-se, há uma cambada de nervos para controlar e, a seguir, a ânsia da espera pelos resultados. Lá para meados de Julho chegam as notas e depois a decisão de ir ou não à segunda época.

Tudo isto foi falado e discutido ao longo do ano escolar e o adolescente cá da casa sabe bem o que o espera. O que me incomoda verdadeiramente é ver o nível de cansaço a que chegou e como a perspectiva de ir para a universidade não parece sequer ser aliciante. Diz que está ocupado com os exames, que não pensa nisso. Eu não sei se acredito nesta versão. Posso apenas dizer que os outros adolescentes, aqueles que por aqui andam e não são meus filhos (logo falam comigo mais facilmente, é uma das leis da vida quando se vive a maternidade e a adolescência), mostram-se apreensivos e, na sua maioria, não sabem que curso escolher. Um diz-me: “Vou para onde a média for mais baixa”. Outro adiante: “O meu pai diz que Direito é que é e eu, como não sei, vou para Direito”. E outro, mais felizardo: “Eu posso ir para onde quiser, tenho uma média alta, mas ainda não decidi”.

Não saber o que se quer fazer com o resto da vida aos 17 anos parece-me perfeitamente natural, da mesma forma que advogo que frequentar um curso superior não significa obrigatoriamente seguir a via profissional que deriva do curso.

Do que entendo dos miúdos com quem vou falando, a questão mais pertinente é conseguir ter um emprego. Fazer a universidade é apenas mais uma inevitabilidade, mas o que importa é saber como irão ter emprego, que ordenado conseguirão ter, como farão a vida de adulto.

Esta é a geração que nasceu dentro da crise, a geração que nasceu com a notícia regular de atentados terroristas. Toda a pressão está em cima deles e não podem respirar um pouco e viver as férias de verão como em outros tempos.

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Quotas. Sim ou não?

por Patrícia Reis, em 16.06.17

Não sei se as quotas servem para mudar mentalidades ou apenas para perpetuar essa ideia de que alguns homens nos fazem favores imensos em consentir a nossa presença. A presença da mulher em lugares de poder é diferente, sendo só mera presença, adianta pouco.

 

Sempre tive sentimentos contraditórios até por perceber que muitas vezes – demasiadas vezes – as mulheres estão pouco disponíveis para algumas coisas, recusam convites, ponderam muito sobre cargos públicos e as suas enormes desvantagens.

Sim, existem desvantagens claras e uma delas é o escrutínio público exacerbado (basta pensar na quantidade de processos de difamação para perceber o que quero dizer).

A uma mulher comenta-se o penteado, o vestido, o sorriso, qualquer gesto e pesam-se todas as palavras com minúcias e requintes – tantas vezes – de pura maldade.

A verdade é que a luta pela paridade continua a fazer sentido. Direitos e deveres iguais, para homens e mulheres, tal e qual como ordenados, progressão de carreira, oportunidades. Estamos longe, muito longe de um registo paritário e, compreensivelmente, mulheres e homens continuam a marchar com a bandeira do feminismo.

No parlamento discute-se a questão das quotas – outra vez. Agora a discussão é sobre a imposição de quotas às empresas públicas e às empresas cotadas em bolsa de valores. Os conselhos de administração devem ter mulheres? Pois. Parece uma evidência, mas são pouquíssimas as mulheres em lugares de topo, pode-se imaginar que ao nível dos conselhos de administração a tendência masculina seja a mais poderosa.

A votação desta proposta será feita na próxima semana e, como sempre, temos quem seja contra (o Partido Comunista Português é uma fonte maravilhosa de surpresas, ou melhor, de não-surpresas). Desta vez o CDS, que tem uma maioria feminina no Parlamento, alinha com o resto. Se a dita lei for aprovada teremos uma questão pertinente que é semelhante à de alguns gestores culturais quando precisam de ter paridade nos programas que desenham: como cumprir com a quota, a noção de paridade, se as mulheres se recusam a assumir certas tarefas?

Diz-se que desde 2006 os partidos políticos sofrem com esse pesadelo constituído lei que é a paridade nas listas eleitorais. No caso das empresas, onde as mulheres a partir de 2018 deverão constituir cerca de 33 por cento das administrações e órgãos de fiscalização, há multa para quem não cumprir.

E aqui é que eu torço o nariz. Eu não quero ver uma mulher incompetente num conselho de administração de uma empresa pública só para cumprir a quota, para não pagar multa. Eu quero ver mulheres competentes reconhecidas por mérito próprio. Nesse aspecto, o quadro mental potencialmente misógino mudou muito em 40 anos de democracia, mas não mudou tanto assim.

Acresce que às mulheres falta um sentido de corporativismo e raramente se defendem umas às outras. Não sei se as quotas servem para mudar mentalidades ou apenas para perpetuar essa ideia de que alguns homens nos fazem favores imensos em consentir a nossa presença. A presença da mulher em lugares de poder é diferente, sendo só mera presença, adianta pouco. Mas fica bem dizer que somos paritários, defensores da igualdade de género. É mais bonito e nem divide a esquerda e a direita (excepção feita ao Partido Comunista Português, claro).

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Camões, Cultura e Estratégia

por Patrícia Reis, em 10.06.17
 

A 10 de Junho de 1580 morre Luiz Vaz de Camões e a homenagem ao escritor dos Lusíadas é muitas vezes esquecida no âmbito do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Esquecida apesar de Camões ser um nome maior da Cultura nacional e a promoção e divulgação da cultura ser essencial para manutenção da nossa identidade.

Temos na Cultura, como em outras áreas, nomes maiores. E continuamos a ter, nas novas gerações, mentes criativas e inovadoras. Não me refiro apenas à Literatura. A nossa Cultura é uma moldura de grande dimensão e reflecte a nossa História, as nossas lendas, os nossos mitos e, ao mesmo tempo, fixa a contemporaneidade.

A Cultura é, por sistema, a parente mais pobre da política. Nos governos sucessivos que preenchem a nossa jovem democracia, a Cultura nunca teve o investimento que deveria ter.

Este 10 de Junho, celebrado na cidade do Porto, é porventura um momento para pensar se temos uma estratégia cultural que acompanhe o facto de Portugal estar na moda, ter tão bons indicadores ao nível do Turismo, e se apostamos ou não em quem insiste em ser agente cultural, artista plástico, escritor, músico, etc.

Há ainda uma reflexão adicional que deveremos fazer, sobretudo num país que parece estar cada vez mais deslumbrado pela juventude: apoiamos ou não apoiamos os mais velhos que contribuem significativamente para este património que é nosso, a Cultura Portuguesa?

Marcelo Rebelo de Sousa esteve mais de uma década na televisão como comentador. Sempre teve uma rubrica de livros. Há uns tempos, confidenciou-me que gostaria de ter feito um programa de livros na televisão. Pode ser que ainda venha a fazer. O único programa sobre livros que existe é na RTP 2. As outras estações de televisão dizem que a Cultura é uma chatice, pouco comercial, não ajuda aos shares e outras coisas.

Marcelo Rebelo de Sousa, homem culto, tem corrido feiras do livro, festivais literários, lançamentos e é um Presidente atento à cultura. Há muito tempo que não tínhamos um Presidente para quem a Cultura fizesse diferença. Pode ser que aconteça algo de extraordinário e o Presidente consiga que o resto das instituições oficiais entendam que sem Cultura não existe a soberania, não existem as comunidades portuguesas e, consequentemente, não existe necessidade para um 10 de Junho.

Texto para o site do Porto Canal

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