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Delito de Opinião

Pensamento da semana

Zélia Parreira, 08.08.21

Quantas vezes, para mudar a vida, precisamos da vida inteira, pensamos tanto, tomamos balanço e hesitamos, depois voltamos ao princípio, tornamos a pensar e a pensar, deslocamo-nos nas calhas do tempo com um movimento circular, como os espojinhos que atravessam o campo levantando poeira, folhas secas, insignificâncias, que para mais não lhes chegam as forças, bem melhor seria vivermos em terra de tufões. Outras vezes uma palavra é quanto basta.

José Saramago, "A jangada de pedra".

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Blogue da semana

Zélia Parreira, 01.08.21

Em Proença-a-Nova há um bibliomóvel. Percorre aldeias e montes. Vai onde houver alguém. As estatísticas importam pouco, porque onde há números pequenos, há almas isoladas, que precisam de companhia. Mesmo os que não sabem ler, devoram as palavras que o Nuno Marçal lhes leva. 

A amizade, o carinho e cuidado que estas pessoas nutrem pelo "menino Nuno dos livros" não é um acaso. É  fruto de 15 anos de percursos diários, à chuva e ao frio, ao calor sufocante ou em caminhos que cortam as terras feridas de morte pelos incêndios e pelo abandono do interior. Sem nunca desistir ou hesitar, o Nuno segue a sua cruzada, acompanha as vidas desta gente e regista, com tristeza, o desaparecimento dos que se cansaram do trabalho e da solidão. 

No bibliomóvel segue também um computador, ferramenta indispensável para matar saudades de quem está longe ou para cumprir as obrigações cívicas com o Estado. Há um terminal multibanco, para pagar as contas certas e incertas. De vez em quando há companhia especializada: monitorização dos valores da tensão arterial, da diabetes, distribuição de medicamentos. 

De tudo isto o Nuno nos vai dando conta, em palavras e imagens, no seu blogue O Papalagui e nas redes sociais (Facebook e Instagram). Vale a pena segui-lo, conhecer o interior e perceber a diferença que a vontade de um Bibliotecário que se recusa a ser indiferente pode fazer nas vidas que o rodeiam.

O Papalagui é o blogue desta semana. 

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Serviço (não muito) público

Zélia Parreira, 01.06.21

Os CTT, essa bela instituição que nos últimos anos nos tem falhado em quase tudo, lança agora uma nova parceria com a CUF para a realização de teleconsultas nas suas instalações. Por partes:

1. Dispõem os CTT de um espaço  onde o paciente possa usufruir da privacidade necessária a uma consulta?

2. As consultas na CUF não são privadas e pagas? Mas esta medida destina-se às "populações mais envelhecidas, assim como a menor literacia digital" (sic), sem capacidade de mobilidade. Ou seja, aos que não têm meios - também económicos - para se dirigir a uma consulta presencial. Então, servem a quem?

3. Vamos lá à questão da menor literacia digital: os velhotes não percebem nada de computadores, por isso vamos colocá-los à frente de um para terem uma teleconsulta. Teleconsultas gerais e de todas as especialidades médicas! Quem os apoia? Os funcionários dos CTT? Com que tempo e com que respeito pela privacidade?

4. Nós já sabíamos que os CTT não levam essa coisa da privacidade muito em conta, desde que fecharam os postos nas localidades pequenas e obrigam as pessoas a deslocarem-se ao supermercado, onde o operador de caixa lhes anuncia logo à entrada: "já chegou o aviso da luz, para pagar, que está em atraso!" ou  "A sua reforma já veio, veja lá onde a gasta!"

5. Mas se fecharam os postos nas localidades pequenas, afinal aquilo das dificuldades de mobilidade para as populações mais envelhecidas... ah! Não se aplica. Até porque nas localidades onde vai ser implementado - Bragança, Mem Martins, Seixal, Beja, Funchal e Viana do Castelo - até há hospitais (Mem Martins está perto do Amadora Sintra).

6. Depois de livrarias, lojas dos 300, temos agora os CTT transformados em postos médicos. Enviar e receber correspondência é que não está no seu ADN. Por exemplo, e já que se fala em correios e saúde, este é o estado em que um exame médico me chegou às mãos, cortesia dos CTT. Reclamei, mas não tiveram tempo de me responder. Estão ocupados a planear disparates.

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Em Portugal, ao primeiro dia do mês de Maio

Zélia Parreira, 01.05.21

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Portugal descobriu, esta semana, os trabalhadores ilegais. Camaratas com dezenas de pessoas, sem condições mínimas de higiene, sem distanciamento social, alimentação inenarrável, horários de trabalho esticados até ao limite da resistência física. Indigno, desumano, cruel.

É irónico que este assunto seja discutido quando se assinala mais um Dia do Trabalhador, essa “festa” da “esquerdalha”, que os críticos do sofá afirmam servir apenas para passeios, piqueniques e compras, com a desculpa das manifestações. Esse dia anacrónico, fossilizado, de uma luta que, dizem, já não se justifica e que é só uma desculpa para não trabalhar.

Mas não é, pois não? Se dúvidas havia, os trabalhadores ilegais do sudoeste alentejano aí estão, evidentes, impossíveis de ignorar, a demonstrar que há ainda tanto por fazer, tanto por que lutar.

A crueldade maior – e a hipocrisia de tudo isto – é que se não fosse a Covid, permaneceriam “arrumados” nas suas camaratas, invisíveis de segunda a sábado, fugazes na carrinha que os leva a fazer as compras ao domingo e os traz de volta ao alojamento. Em Odemira, no cultivo dos frutos vermelhos, mas também nas estufas entre Pegões e o Montijo, ou no Alentejo interior, no tempo da azeitona. Fazem o que os portugueses não querem fazer. Ou melhor, corrijo: fazem o que os portugueses fariam, se recebessem salários compatíveis com a dureza do trabalho, em horários decentes e com condições de alojamento minimamente dignas.

A Covid, que não distingue ricos e pobres, trouxe-os para a ribalta, exibiu-os aos olhos de todos. Eis a podridão do sistema. Eis o que todos sabiam, mas sobre o qual nunca falavam. Eis o que se permitiu que acontecesse, com a conivência do silêncio, dos suspiros ligeiros para o lado, enquanto se murmura “coitados!”.

Este “coitados” não são mais do que os portugueses que nas décadas de 60, 70 e 80 limparam prédios e escritórios, trabalharam na construção civil e nas fábricas de França, Suíça ou Alemanha. Mas a esses, aos nossos, não os víamos, estavam longe dos olhos. Só lhes conhecemos os carros, os modos estrangeirados e o português transfigurado, com os quais rapidamente fizemos piadas de mau gosto.

A estes, aos que nos produzem os frutos que saboreamos, não os podemos ignorar. Estão aqui e são um problema que se alimentou de um silêncio insuportável. Do nosso silêncio insuportável.

 

(imagem retirada daqui.)

23 de Abril: Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor

Zélia Parreira, 23.04.21

A lenda de S. Jorge e o dragão serve de mote às comemorações catalãs que motivaram a escolha deste dia como Dia Mundial do Livro. De acordo com tradição de Sant Jordi, é dia de oferecer rosas, vermelhas como o sangue do dragão, e livros. Eles oferecem rosas, elas oferecem livros.

Nenhum pretexto é fútil para oferecer um livro, por isso, esta é uma das mais belas tradições que eu adorava importar para Portugal.

Nesta data, em 1616, assinala-se também a morte de dois dos mais relevantes escritores universais: William Shakespeare e Miguel de Cervantes. No mesmo dia. Que grande coincidência! Demasiado grande, segundo nos informa o Professor Marco Neves, que cito: "Na verdade, os dois países tinham calendários diferentes e, embora a data fosse a mesma, os dois escritores morreram com duas semanas de diferença. A coincidência continua a ser espantosa — ou talvez nem por isso, se tivermos em conta que Cervantes, na verdade, morreu no dia 22 de Abril, embora o óbito só tenha sido registado no dia seguinte."

Com ou sem rosas, compre um livro hoje. Para oferecer a alguém ou para si. Várias livrarias oferecem descontos nesta data, aproveite. Dia mais lindo, não há!

 

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(Dia da festa de Sant Jordi, em Barcelona, num 23 de Abril de outro ano)

Gestão de expectativas

Zélia Parreira, 08.04.21

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José Silvano confirmou a já esperada candidatura de Suzana Garcia à presidência da Câmara da Amadora. Já esperada porque, após toda a discussão, mais ou menos séria, a propósito deste assunto, seria caricato que o convite que lhe havia sido dirigido fosse agora retirado.

Para atenuar as polémicas decorrentes das indignações inflamadas da candidata, José Silvano deu uma explicação titubeante sobre o processo de castração química a que a senhora candidata se havia referido e rematou o assunto com uma afirmação, quanto a mim, surpreendente: Suzana Garcia é candidata a uma autarquia e não à Assembleia da República e que se o fosse o partido “teria outro crivo de análise".

 

Ora, vejamos:

  1. Quer isso dizer que, para o PSD, nas autarquias, os parâmetros de análise são como? Flexíveis? Para todas as autarquias ou só para a autarquia da Amadora?
  2. Para a Assembleia da República o crivo seria diferente? Só eu é que tenho a forte impressão de que as ambições da senhora candidata vão muito além da Amadora? Aliás, isso ficou bem explícito quando ela declarou que, tendo “sido convidada pelo PSD, em novembro de 2020, e disse ter preferência pelas autarquias da Amadora, Loures ou Sintra”. Não há ligação territorial, não há projecto estratégico. Há apenas o desejo de uma visibilidade que complemente a exposição mediática e que catapulte o seu nome para um lugar elegível na Assembleia da República, lugar onde, finalmente, poderá influenciar o curso deliberativo e legislativo das questões que lhe são caras.
  3. A reacção (ou falta dela) de Suzana Garcia a esta menorização das suas capacidades (ou como diz o povo, para o que é, bacalhau basta) vem, na minha opinião, confirmar isso mesmo. Bater com a porta seria deitar tudo a perder agora. Ser eleita pelo PSD ou pelo Chega é bem diferente, porque o primeiro oferece-lhe a legitimidade de integração no “sistema”, ao passo que o Chega é equivalente a estar sentada em cima de um vulcão.

 

Se Suzana Garcia não for eleita (o que me parece como o mais provável), tudo poderá resolver-se apenas com a passagem do tempo. Mas se a eleição acontecer, José Silvano bem pode começar a pensar numa estratégia para desdizer o que ontem disse. A não ser que a estratégia seja “quem vier atrás, que feche a porta”.

Pensamento da semana

Zélia Parreira, 04.04.21

"Pensar que há árvores que morrem para isto" é um pensamento que me ocorre com demasiada frequência, quase sempre acompanhado por um longo e desalentado suspiro. 

A escrita (literatura é outra coisa) de má qualidade é uma dupla ameaça ao planeta: pelos recursos que consome e pela estupidificação que promove.

(Voltarei a este assunto no final desta semana  de reflexão.)

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Pensar que há árvores que morrem para isto

Zélia Parreira, 03.04.21

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Estivesse eu numa Biblioteca que escolhe os livros que compra e esta questão nunca me atormentaria. Mas a Biblioteca onde trabalho é uma das dez instituições que recebe um exemplar de tudo o que é publicado em Portugal, graças à Lei do Depósito Legal.

 

Importa dizer que este privilégio me deixa – e aos meus leitores, certamente – muito feliz. Conseguimos disponibilizar conhecimento, informação, literatura a todos os que residem na nossa área de influência. No caso da Biblioteca de Évora, esta área abrange todo o país que se estende para cá do Tejo, uma vez que é a única biblioteca de depósito legal nesta região.

 

Como não há rosas sem espinhos, com o depósito legal vem uma série de livros que, sejamos francos e directos, nunca deveriam ter visto a cor da tinta. São, sobretudo, livros de autor, mas agora elevados a um patamar mais profissional. Em vez da boa e velha edição de autor, impressa na Gráfica local, os projectos editoriais são entregues a empresas de edição. Não confundir, por favor, com editoras, essas sim, empenhadas em fazer uma distinção qualitativa, embora mais frequentemente movidas por interesses económicos (se não for bom, não vende) do que para salvar a Humanidade do delírio de uma vida sem literatura. Também as há, e o caro Leitor seguramente conhecerá algumas, que privilegiam a qualidade e o orgulho no seu catálogo, mesmo que para isso seja preciso sacrificar o rendimento económico. Mas estas estão num patamar tão elevado em relação ao que nos traz aqui hoje, que vou deixá-las fora da conversa.

 

Foquemo-nos então nas empresas de edição. Comercializam um serviço, requerido pelo presumido Autor. Entre histórias de vida sofridas (ou talvez não) e produtos delirantes da imaginação, são propostas para edição. A empresa responde sempre que o livro tem potencial e envia um orçamento. Tudo é editável, desde que seja pago. Número mínimo de exemplares, com custo unitário de X, a que acresce custo de revisão, se o Autor o pretender; custo do desenho de capa, se o Autor preferir uma capa profissional; custo adicional do papel, se o Autor não quiser imprimir o livro de uma vida em papel reciclado de má qualidade. O Autor não quer. Já paga o que pode e o que não pode, para imprimir o livro, quando, ingenuamente, esperava obter receita da sua venda.

 

A propósito de venda, embora seja prometida a colocação em redes de livrarias e grandes cadeias como a FNAC ou a Bertrand, isso nunca chega a suceder. Na Fnac, na Bertrand e nas redes de livrarias já toda a gente conhece estas empresas e a qualidade habitualmente associada à sua “chancela”. De modo que o Autor acaba a vender os 500 exemplares que pagou para imprimir ao telefone, em mensagens privadas para todos os amigos e família. “Olha lá, sabias que publiquei um livro? Gostava que o lesses” e o livro aparece na semana seguinte na casa da vítima em segundo grau, precedido de um aviso de envio à cobrança.

 

Não, não é de gosto que vos falo. É de erros ortográficos, de todos os “á”, sem excepção, com acento agudo, de frases sem significado, de vírgulas entre o sujeito e o predicado, de um papel miserável e de capas feitas com fotografias retiradas da internet, de tipos de letra insuportáveis. É mau. É mau, mau, mau.

 

Na Biblioteca onde trabalho, e nas outras 10 em iguais circunstâncias, temos que receber estes livros, catalogá-los, etiquetá-los, arrumá-los em depósito para todo o sempre. Custos de tempo, de espaço e armazenamento. Só aqui, nesta Biblioteca, e descontando o que foi editado nos últimos 3 anos (devido às obras no edifício, suspendemos a recepção de depósito legal e só agora estamos a retomar) temos já 5890 títulos de uma destas empresas de edição. Se cada um destes títulos tiver 150 páginas (média calculada por baixo), temos quase 500 mil folhas de papel. E pensar que há arvores que morrem para isto.

O fim do aperto de mão

Zélia Parreira, 26.03.21

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O Spectator chamava, há dias, a atenção para o fim de uma era: a extinção do “aperto de mão”.

Digno de um estudo antropológico ou sociológico, o aperto de mão era mais do que um cumprimento. Sendo mãe de um rapaz e duas raparigas, sempre registei, numa espécie de espanto divertido, a forma de cumprimento que os distinguia. Elas optavam pelo olá, ou pelo beijinho e, mais tarde, pelo abraço nalguns casos. Ele, miúdo ainda ou já adolescente, a cumprimentar os amigos com o aperto de mão, “à homem”.

Apertar a mão sempre foi um gesto de cortesia, um “como está?” ou um “muito gosto em conhecer”. Foi também o sinal de acordo firmado, palavra dada e honrada, negócio fechado. Era o momento “fotografável” de conclusão de um processo de entendimento, de (re)afirmação de boas relações.

Era, também, uma oportunidade única para ter uma primeira impressão de outrem. Apertos de mão firmes e vigorosos, quase sempre correspondiam a pessoas corajosas e decididas, por oposição a apertos de mão escorregadios e dengosos, aparentemente indicativos de uma pessoa maleável, receosa, melíflua. Conjugado com a expressão facial – que as máscaras agora ocultam - o aperto de mão constituía um cartão de apresentação privilegiado, espontâneo e dificilmente contaminado por técnicas de “bem impressionar”. A posição das mãos e a determinação da duração do cumprimento era muitas vezes demonstrativa da situação de superioridade, liderança ou conforto de um dos intervenientes, por oposição ao outro. Tudo isto se perdeu. E o que também se perdeu, neste mundo asséptico do covid-19, foi a possibilidade de afrontar os que desconsideramos pela simples recusa de lhes apertar a mão.

Declaração

Zélia Parreira, 18.03.21

Pintura de Ana Rita Janeiro. Sala de Leitura da Biblioteca Pública de Évora. Retrata o momento das invasões francesas e a defesa da Biblioteca

A primeira vez que visitei um aeroporto foi pelas ilustrações de Marcel Marlier, à boleia da famosa Anita, que ia viajar de avião. Provei scones, pela primeira vez, com Os Cinco, na mesa larga de uma cozinha ensolarada na Quinta. Com eles também percorri caminhos de bicicleta, mas as primeiras grandes viagens em Inglaterra foram de comboio, com Agatha Christie. Com os livros de geografia pisei a Muralha da China, as ilhas gregas, o deserto australiano e o Canal do Panamá. Ao Porto, fui pela primeira vez com Uma família inglesa e (re)conheci Sintra pela mão de Eça de Queiroz. E Lisboa… Ai! Lisboa, a Lisboa desse mesmo Eça à Lisboa de Teolinda Gersão, tão mais atraente que a Lisboa feroz do trânsito e dos transportes públicos!

Viajei nas naus (tive tanto medo do escorbuto que me tornei consumidora convicta de citrinos) e passei o Adamastor com o Bartolomeu Dias de Afonso Lopes Vieira. Conheci D. João II praticamente tu-cá-tu-lá, de tanto que li sobre ele e do que me contou Fernando Campos n’A casa do pó.

Se o mundo fosse um grande jardim, com um muro elevado à volta, a Biblioteca seria uma espécie de escada, discretamente encostada ao muro. Uns, poucos (sempre menos do que os que poderiam aproveitar), reparam nela e sobem ao primeiro degrau. Têm aí a noção de que o muro é finito. Vêem, pela primeira vez, que esse muro os separa de algo, do desconhecido que vive, cresce e se desenvolve do outro lado. Os que sobem ao segundo degrau começam a ter as primeiras impressões do que está para lá do muro. Quanto mais sobem, mais sabem. Mas quanto mais sobem, maior é a noção da vastidão que se estende até ao horizonte e do tanto que lhes falta saber. A Biblioteca é uma janela para o mundo, dizem alguns, um caminho para ser parte desse mundo, digo eu.

Não me lembro da primeira vez que lá fui, do ritual de preencher a ficha com o nome do pai e da mãe, declarando, por minha honra, que sabia ler. Mas lembro-me bem das tardes, das corridas à saída do colégio, do caminho para a biblioteca, as escadas, o número de leitor atirado para o balcão “1536!”, para me aceitarem a devolução dos livros do dia anterior e ficar com a ficha limpa para novos livros. Nela descobri mundo, estudei, cresci, fiz-me.

As Bibliotecas mudam vidas. Mudaram a minha. Conheci-a com 7 ou 8 anos e, até hoje, bem poucos foram os dias em que não estive ou falei dela. A Biblioteca é o amor da minha vida.

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Agradeço muito ao Pedro Correia o convite para integrar este Delito. É uma honra.