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Bolsonaro e o clima

por jpt, em 16.11.18

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Bolsonaro apresentou o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Ernesto Araújo, assim mais explicitando o seu enquadramento ideológico. Para o novo ministro as questões ecológicas, e a preocupação com o mais que provável processo de alterações climáticas, são reduzidas a uma ideologia ("climatismo"), fruto de um "marxismo cultural" cujo objectivo é transferir o poder económico do ocidente para a China (ler este seu texto de blog do mês passado). Ou seja, os "inimigos internos" já não são os comunistas, esses que serviam para tudo justificar em décadas passadas, são os "pró-chineses", avençados dos neo-Ming que por lá mandam. É este o novo poder do Brasil do Amazonas. 

Antes das eleições o projecto político-económico fora explicitado pelo candidato Bolsonaro: incrementar a utilização da floresta (entenda-se, o desmatar). Em concordância com interesses terratenentes nacionais e industriais internacionais. O projecto político-ideológico? Explicita este Ernesto Araújo, a luta contra o tal "marxismo cultural", esse "sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história.”. Isto no âmbito de um "ocidentalismo" (às três pancadas), de uma superficialidade pungente ainda que glosando Heidegger (um resumo respeitoso da verve de Araújo está aqui), enquanto se alimenta de Spengler. É este o estado a que aquilo chegou. Com impactos ambientais que serão terríveis, articulados com a política americana nesta matéria, em que Trump canta a mesma boçal melodia (após Obama, que trauteava diferente mas pouco ou nada fez de relevante sobre as questões ecológicas). 

Há mesmo um "marxismo cultural", na pobre definição do agora ministro. Um neomarxismo, comunitarista, que coloca no centro da discussão pública o "género dos anjos", um identitarismo que se tornou uma verdadeira "maré negra" na discussão política. O processo eleitoral que catapultou Bolsonaro é mostra dessa poluição: as suas ligações agro-industriais mal eram afloradas, os seus propósitos ecológicos ignorados. As (ineficazes) acusações que contavam para a oposição eram o seu machismo (e ele não legislará contra as mulheres) ou o seu racismo (e ele não legislará sobre raças). De facto, o que essas suas diatribes anunciavam era a recusa de políticas estatais de discriminação positiva, e foi isso que se tornou a questão central, devido aos grupos corporativos a elas ligadas, quando se tratam de meros epifenómenos.

Esvaizamento do debate que se mostrou nas acusações de racismo (que com toda a certeza correspondem aos seus preconceitos): vi ene vezes partilhadas declarações do candidato sobre a sua visita a um quilombo (habitado por negros). Disse o homem que lá só encontrou "gordos", que o mais magro ia tão obeso "que nem para cobridor servia".  As pessoas ficam agarradas à linguagem provocatória, e perdem o fundamental, caem na esparrela: pois o relevante não é que os "negros" sejam isto ou aquilo ("gordos", "preguiçosos"). O relevante é a oposição à demarcação de terra (protecção ecológica por via de fundamentações histórico-culturais) e o radical confronto com políticas assistencialistas. Mas, claro, a omnipresente questão do "género (e raça) dos anjos", imposta pelo neomarxismo, venda os olhares sobre as dimensões relevantes deste rumo, no Brasil e alhures. Neste caso, a ecologia, e a protecção desenfreada à agro-indústria.

Uma questão paroquial (porque o relevante é o impacto ecológico das políticas de Brasília): leio gente integrante deste novo partido (um partido-birra, de facto) de Santana Lopes a defender Bolsonaro. Leio membros e adeptos do CDS a defender Bolsonaro. Não leio ninguém do partido-Ventura porque presumo que não consigam escrever, mas também se deliciarão com estas bolsonarices. Alguns deles gozam com os "moderados", os não-esquerdistas que não aderem a este bolsonarismo, como se em frémitos anais os gritassem emasculados. Isto levanta uma questão até porque, como aflorei acima, não vivemos na Guerra Fria, onde as piores tropelias eram justificadas pelo omnipresente comunismo. Como se relacionam, como simpatizam, estes quadros (intelectuais, pois vivem da escrita, como funcionários ou da comunicação social) com este trogloditismo intelectual? O que resta da herança filosófica liberal nestes putativos liberais, onde pára o esqueleto da democracia-cristã, diante desta trapalhada bolçada? Onde reside o pensamento ecológico, estruturante do conservadorismo (nacionalista) europeu, romântico ou deste sucessor ? Em lado nenhum, parece, pois os tais frémitos anais destes santanistas, perdão, santanettes e dos assunções, só aceleram mesmo face a este boçalismo. 

Nota: aos hipotéticos comentadores que aqui apareçam a bolçar que o "aquecimento global" não é algo científico, pois não há certezas sobre o fenómeno mas apenas previsões, proponho que se poupem ao trabalho de teclar. Eu não aceitarei os comentários. Pois para quem me venha em 2018 dizer que a ciência se resume ao que é comprovadamente certo eu respondo desde já: as aulas do ensino secundário eram más, os explicadores que os papás vos pagaram eram maus, as aulas das universidades eram más, não ganham o suficiente para comprar livros, não têm vagar para irem às "novas oportunidades" ou à Universidade Aberta ou à da Terceira Idade, não têm capacidade para aceder ao youtube e ao vimeo, que a ligação à internet em vossa casa é má, não percebem línguas estrangeiras, como o português de Portugal ou o do Brasil? Lamento. Mas não é agora, tarde e más horas, que um bloguista, ainda para mais à borla, vos vai ensinar que a ciência não é o que as vossas cabeças mui relapsas julgam.

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Quem me vê a blogar no És a Nossa Fé poderá confirmar: botei que me fartei (literalmente) a favor de Bruno de Carvalho. E depois botei que me fartei contra Bruno de Carvalho - porque o homem "se passou", porque mostrou uma horrível concepção de exercício do poder associativo, porque eu terei aberto a pestana. Dito isto: é totalmente inadmissível que um homem - por suspeitas de participação num crime acontecido há seis meses, entretanto desprovido dos meios institucionais que facilitariam a reprodução de actividades similares, e publicamente disponível para depor - seja detido num dia para prestar declarações, interrogado apenas duas dias e meio depois e liberto quatro dias após a sua detenção. Alguma coisa está errada, algo está podre na república.

E não, a lei não serve para justificar isto. Os funcionários públicos, juristas e polícias, não podem configurar assim as suas práticas. Isto é uma vergonha, um ocaso. Antes um Mustafa que um polícia ou um jurista deste tipo. Vou repetir: antes um Mustafa que um polícia ou um jurista deste tipo.

 

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Stan Lee

por jpt, em 13.11.18

O macro Stan Lee morreu ontem (os super-heróis também partem). Para obituário nada melhor do que um auto-retrato.

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O meu amigo Luís Alvarães acaba de partilhar estas declarações de Vitorino Nemésio, proferidas na época em que se preparava a sua nomeação para director de O Século, algo que acabou por abortar, talvez também por causa da entrevista em que as proferiu.

 

Hoje impera a informação. Informação moderna, caminhando mesmo no sentido da informática, ciência que, a partir da termodinâmica, abarcou o próprio boato como objecto. É uma informação quantificada.” (Vitorino Nemésio, entrevista à revista Flama, 1973).

 

O Luís, para além da pertinência da partilha - será interessante compará-la com as opiniões que defendem que Bolsonaro, Trump et al negam o preceito "Não há nada novo sob o Sol" - teve ainda a gentileza de me enviar a digitalização da entrevista. Quem tiver curiosidade em lê-la encontra-a aqui - preferi não a deixar neste blog pois as imagens ocupam algum espaço de ecrã e não quero aborrecer algum passante mais apressado.

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Pensamento da semana

por jpt, em 11.11.18

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Como não desprezar toda esta pompa comemorativa se lendo Jacques Tardi, décadas de magistral vasculha da história sem fim da I Guerra Mundial, no mostrar da desgraça de cada poilu, milhões de Varlots, subjugados ao miserando militarismo alimentado do mais torpe e ávido dos nacionalismos, na mais ignóbil das guerras, a do estertor suicidário dos velhos impérios?

E como não resmungar diante do nosso empertigamento falsário, esquecendo aquela república logo-trôpega vendo a guerra como única forma de se sustentar, gulosa da presença no festim dos despojos? Escamoteando um país agressor, na volúpia de mais um pedaço de terra longínqua, subtraída aos que também já dela se haviam apropriado? Glorificando a pobre tropa da Europa, ali indesejada pois inútil no desequipada e impreparada que era, mera má carne para canhão? E falsificando a guerra de África, dizendo-a ainda, com impudicícia neste XXI, "campanhas de pacificação" indígena? Escamoteando a incompetência das expedições, nas quais a pobre soldadesca arregimentada, ali obrigada, tão vítima foi da inexistência de comando, conhecimento de terreno ou material adequado, este aldrabado pelas corrupções da administração militar? E de ter sido aquilo ainda uma tropa de antigo regime, de oficiais privilegiados, com rações e equipamentos superiores, deixando os meros praças morrer à míngua diante da inclemência dos elementos? E o silêncio sobre o descalabro demográfico que foi a hecatombe dos arrebanhados carregadores africanos? Como aceitar tantos meneios contextualizadores quando se refere a "guerra colonial" de 1961-74 e tantos encómios embrutecidos a esta mera guerra colonial de 1915-1918? Como compreender que surjam políticos, ignorantes ou malévolos, apenas netos herdeiros daquele malvado republicanismo, chamar a tudo isto "patriotismo"? 

E diante deste cerimonial patético, alarido de sociedade disfucional, como esquecer Pemba, a antiga Porto Amélia, lá no Cabo Delgado, onde Von Lettow-Vorbeck se cumulou de glória face aos britânicos, diante da total irrelevância inepta do corpo expedicionário português, devastado pelas doenças, palmilhando a selva incapaz até de combater? Como esquecer, ainda para mais vendo as encenações lisboetas d'agora, aquele cemitério militar? 

 

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Ali a irritar-me até envergonhado, no verdadeiro patriotismo, não este de pacotilha, vigente no "Terreiro do Paço", de Belém a São Bento ... A descer destes talhões militares até à baixa da cidade, ao comerciante português residente, "arranja lá uns homens, deixo-te aqui 100 dólares, eles que vão lá capinar aquilo, que é uma vergonha", ainda para mais separado por um mero murete, tão mero que se cruza no alçar da perna, do talhão da Commonwealth, esse arranjado todos os meses, impecável, túmulos à antiga, que os britânicos andaram a recolher os corpos do mato e ali os sepultaram: uma ala de europeus, uma outra de indianos, uma outra de africanos. Todos com uma lápide, um nome, posto, regimento de pertença e datas. Sim, era um império, diferenciavam raças e religiões, hierarquizavam-nas. Mas, pelo menos na morte, cada um era um. Com nome, túmulo e respeito. Até hoje. E os nossos? Anónimos e desgraçados na vida, anónimos e desengraçados na morte.

E depois em Maputo ao adido de defesa, "ó comandante, vá lá ver aquilo, sff, que é uma vergonha". E ele, mar-e-guerra como deve ser, a tomar-se de brios, a visitar, a informar. E, meses depois, "ó doutor, Lisboa diz que não pode ser, em trabalho de arquivo para identificar mortos e arranjo de túmulos seriam para aí mil contos (5 mil euros agora) e não há dinheiro". Mil contos?, "mas isso não são 2 ou 3 bilhetes de executiva para essas missões que cá vêm fazer nada?" avanço eu, no sarcasmo desiludido de quem vai a sul do Equador (ou será do Tejo?). E o comandante, sábio, "ó Zé Teixeira, o que é que quer que eu lhes faça?" e a gente a saber que nada se pode, doutor de gabinete posto é doutor. E uma década depois, numa visita do PR Cavaco Silva, eu a aprumar-me comendador e a avançar para o homem da casa militar, e a explicar ao "nosso" tenente-coronel disto tudo e ele, simpático, que "sim, já estamos informados", até porque este nem é caso único. Pois não, sei bem.

Patriotismo, dizem estes, agora, em festividades encenadas. E lembro, a la Tardi, aquela pobre geração, camponeses arrancados às courelas, operários e serviçais conscritos em nome de uma madrasta, a sorte que lhes coube, "putain". Para serem húmus de capim. E da vaidade de gerações.

Pensamento da semana? Estes d'agora cantam mal e não me encantam.

  

Adenda: escrevi este postal sem saber do conteúdo do discurso de ontem do PR, para o qual um comentário logo me chama a atenção (excerto aqui. Ainda não está colocado no sítio presidencial mas decerto que em breve o estará). Não vale a pena alimentar grandes debates sobre isso, pois as coisas são simples: o que o PR disse é absolutamente crível sobre a II Guerra Mundial. Recaindo sobre a I Guerra Mundial é pura ignorância. Ou, pior, é falsificar a história. 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

 

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O PSD

por jpt, em 09.11.18

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Uma amiga minha tem as minhas senhas (passeuardes no português de deputado) todas - para, se me der o badagaio, me apagar destas "redes sociais"; e uma familiar minha tem os acessos (passeuardes no tal português de político) à minha parca conta bancária.

Só me falta aldrabar o currículo e aprender um bocado de alemão para me fazer importante no PSD. Alguém por aí me pode assinar a passeuarde de militante?

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A direita em Portugal

por jpt, em 09.11.18

Tal como Luís Aguiar-Conraria, o autor deste texto que bem recomendo, contactei (e saudei) - vivendo então no estrangeiro - com a explosão do discurso liberal português, no início de XXI, através dos blogs. E tal como ele "Com o passar do tempo, fui-me apercebendo que o liberalismo muitas vezes mais não era do que uma fachada para dar um toque de modernidade ao que não passava de conservadorismo, quando não reaccionarismo.". Deixo a ligação pois é mesmo um bom diagnóstico sobre o que se passa entre o (decadente) PSD e o apardalado CDS. 

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Sobre "fake news"

por jpt, em 09.11.18

Um belo texto de Nuno Garoupa no novo Polígrafo. Deixo excerto: 

(10) Acredito que a única forma de evitar o percurso mais doloroso é reconstruir o “juste milieu” regenerado. Para isso, fact checking é fundamental. Não para proibir as fake news, um perigoso disparate. Mas sim para permitir distinguir aquilo que são interpretações realistas do mundo que nos rodeia das verdades pós-modernas que radicalizam e emocionam. Não acredito na Verdade. Há muitas verdades. Mas há verdades e verdades. Há verdades que fomentam o “agree do disagree”, que facilitam a convivência política, que relembram aos eleitos porque são privilegiados em democracia, que regeneram o contrato social na busca de uma organização social mais adequada para o século XXI. E há verdades que dividem, eliminam, alimentam o ódio, existem apenas pela emoção e para uma visão maniqueísta dos bons (aqueles que partilham essa verdade) e os maus (os outros), promovem a superioridade moral de um grupo em detrimento do resto da sociedade.

A ler, mesmo. E é de acompanhar o tal Polígrafo.

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Mourinho

por jpt, em 08.11.18

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(Postal para o És a Nossa Fé

 

Juventus-Manchester United, no palco global da “Champions” o jogo entre as equipas dos dois portugueses mais conhecidos do mundo, pelos seus extraordinários méritos. Também por isso eles alvos de tanta raiva nacional, mostra desse traço cultural constante, a inveja dos patrícios com sucesso “lá fora”, tão paradoxal e desprezível num país que foi colonial (e abominou os seus colonos) e é de emigração (e menospreza os seus emigrantes). A abjecta reacção generalizada, isenta daquilo chamado “dúvida”, às acusações de uma acompanhante de luxo a Cristiano Ronaldo, é um caso extremo disso. Mas é algo continuado, há uns anos (2012, 2013?), num treino da selecção antes de um jogo particular em Guimarães o público gritava “Messi, Messi” para espanto do CR7. Pois porquê aquilo? Tal como a constante maledicência sobre Mourinho – há quantos anos, 10?, se lêem inúmeros comentários e opiniões na imprensa sobre o estar ele “ultrapassado”? – disso é prova.

Ontem o confronto (também) entre eles. Algo que connosco fala, sportinguistas, sobre o nosso clube. O CR7 orgulho máximo da nossa formação, encabeçando o trio maravilha de três décadas gloriosas, Futre-Figo-Cristiano. Talvez o melhor jogador do mundo, e cada vez mais isso se evidencia (Messi como o génio trabalhado, Ronaldo como o trabalho genial). E Mourinho, o técnico em actividade com mais vitórias relevantes, em tempos recusado pelo Sporting (um dos três erros históricos do clube, junto aos com Eusébio e Futre). Negado, julgo recordar (ou sonho a memória?), quando o actual director do futebol do Sporting, então capitão, se armou em Sérgio Ramos e torpedeou em público essa vinda, associando-se aos sábios espectadores, esses sempre armados de vigorosos lenços brancos, que clamaram inadmissível que um treinador transitasse do Benfica para o Sporting. Pois desde há décadas que os fungões espirram …

Enfim, vem isto a propósito do final do jogo de ontem. Mourinho, que em Manchester e Turim foi azucrinado pelos adeptos italianos, jogou bem e triunfou. A Juventus é melhor, ganhara soberbamente fora e em casa tinha o jogo na mão. CR7 fez um jogo magnífico, um golo espantoso e deu outros a marcar, desperdiçados por pés Quadrados. Mas Mourinho pensou bem, substituiu melhor, e teve a sorte (essa grande jogadora) por ele. E fez a reviravolta, mesmo no fim. Jogo épico.

Mas o que é mesmo magnífico é a sua reacção. Provocatória, deselegante, desnecessária, digam o que disserem. Mas é uma delícia. Porque é futebol. Mas ainda mais do que isso, porque é completamente portuguesa. Não exactamente o gesto da mão na orelha, algo mais comum. Mas é aquele trejeito da boca, “hâânnn?”, “dígam lá agóra!!”. Algo, ricto e óbvio som, tão nosso, tão português de rua, bairro, popular, tão “tuga”, tão treinador da bola, como se fosse ali aqueles técnicos dos tempos de antes, os do Aliados do Lordelo ou do Montijo a ganharem à Sanjoanense ou ao Amora, assim a fazer o mundo pequeno e igual quanto às mesuras que se lhe (não) deve, e nisso também tão eu, tão nós, os que não temos nem vergonha de ser portugueses nem abominamos os nossos que ganham alhures. Vejo-o ali na tv e rio-me, gargalho, “ah g’anda Mourinho, meu patrício”, meu e nosso orgulho amanhã. Saídos à rua, entre nós e com os outros, “hâânnn?”, “dígam lá agóra!!”. Nós povo, rindo, que hoje no fim do dia tragaremos o “petit verre”, escorropicharemos o bagaço branco, e irei eu até à rua, à porta da “petite restauration”, a tasca daqui, a fumar o cigarro e, se necessário, no choque com o frio, assoar-me-ei aos dedos, sacudindo o ranho para o chão, e se calhar ainda terei que cuspir, na azia do álcool. E, entre nós, riremos, com desprezo mas também mágoa, desses invejosos lá na terra. E ainda mais, com gargalhada mesmo, com alguma amarga piada sobre essa paneleirage, tão amaricada, sensíveis coitadinhos, a agitarem os lencinhos brancos, arrebitados em meneios no “olhem para mim”, que é para isso que lhes servem os trapos.

G’anda Zé Mourinho, g’anda patrício. E viva também o CR7, o melhor do mundo.

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Destituição?

por jpt, em 29.10.18

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Isto começou com alguns conhecidos jornalistas da esquerda socialista que botam nos "jornais de referência", foi secundado por "opinadores". Para meu espanto até por antropólogos (ironizo um pouco quanto a este espanto, no seio da corporação surpreende-me a desfaçatez mas não o pensamento). Defende-se o escrutínio dos votos dos imigrantes brasileiros em Portugal para opinar sobre a pertinência da sua permanência no país. A indução de um ambiente de pressão, moral que seja, sobre essa "comunidade" - que será muito mais um colectivo inorgânico de indivíduos, contendo alguns núcleos de sociabilidade e de entrejuda mas não exclusivos. De facto, a exigência que estes cidadãos legalmente residentes ("documentados", na gíria politicamente correcta desta falsa "esquerda") assumam - relativamente ao seu país e, em sentido lato, face ao mundo - os valores político-culturais putativamente dominantes na sociedade que os acolheu. Nos termos dos intelectuais (e dos antropólogos em particular) trata-se da exigência de uma "assimilação", perspectiva sempre contestada quando relativa a imigrantes oriundos da Ásia ou da África. Uma vontade assimiladora que é sempre dita efeito de racismo, de lusotropicalismo, de imperialismo, de (neo)colonialismo (o prefixo está a ficar em desuso muito por influência do pensamento boaventuriano, que tornou "colonialismo" um all aboard para definir a história moderna e contemporânea). 

 

Esta ênfase persecutória sobre os brasileiros é ainda por cima discriminatória, de modo paternalista, essa suprema face do racismo: ninguém nesta "esquerda", se preocupa em andar a escrutinar os votos (se os houver) dos imigrantes nepaleses, dos paquistaneses ou bangladexes, integrados em processos eleitorais complexos, entre ascensões de comunistas, "trumps" asiáticos e fundamentalismos islâmicos; ninguém se lembra de tentar encontrar as simpatias políticas dos imigrantes magrebinos ou do ocidente subsahariano, onde abundam os radicalismos islamófilos. E se alguém aventar a necessidade de fazer essa pesquisa, logo a corporação antropológica (olha logo estes) e os jornalistas do ex-DN e do Expresso, virão contestar, desabridos, a deriva persecutória, racista, securitária. Mas sobre os brasileiros, o voto no energúmeno bolsonar? Tudo é permitido. Isto mostra bem o paroquialismo desta classe-média locutora portuguesa mas também a incongruência e mediocridade intelectual e moral deste meio. Pois trata-se de um meio ambiente, não apenas de alguns miseráveis: eles botam estas coisas e não há, nos seus contextos de referência, partidários, profissionais, uma única voz crítica. Se algum jornalista do CM ou do Observador, se algum professor da Católica ou do ISCSP, escrevesse sobre a necessidade de escrutinar os votos dos imigrantes angolanos ou mauritanos para aferir da pertinência da continuidade dessa comunidade? O que diriam jornalistas, antropólogos e outros intelectuais, as presidentes da junta socialistas, os "comunicadores" e bloguistas-facebuqueiros? O que escreveriam os anticolonialistas directores dos jornais de referência, ex-diários que acolhem estes verdadeiros xenófobos nas suas páginas e nem tugem nem mugem? Mas este lixo? Passa. Porque os seus locutores "fazem parte ...", "são dos nossos" ...

 

 

Margarida Martins, a conhecida guida gorda do frágil, é diferente. Pois é presidente de uma junta de freguesia lisboeta, eleita no PS. Tem responsabilidades oficiais. Representa a besta exactamente como os outros locutores, do Expresso de Balsemão, do DN de Ferreira Fernandes ou das universidades, sejam estas quais forem. Mas representa-a assente, sentada, num cargo público para o qual foi eleita nas listas do partido do governo. Para mais é presidente de Arroios, freguesia onde coabitam imigrantes de dezenas de nacionalidades. E tem este tipo de mentalidade persecutória (e assimilacionista) face a "comunidades" imigradas. Isto é um óbvio caso que requer a destituição. Pelo menos a retirada de apoio de um partido que está no governo e anda com a prosápia que anda - ali logo ao lado a mandar construir um templo com fundos públicos, destinado aos estrangeiros, por exemplo.

 

Claro que os jornais de referência não a atacarão. Afinal a "guida" é "lisboa". E, mais do que tudo, é "pêésse", das "nossas".

 

Um gajo olha para esta gente, estes guidas gordas, estes jornalistas rastejantes, estes antropólogos "de esquerda", e lembra-se, constata, que, como todos, tem um bolsonaro cá dentro. Há que o reprimir. Ser cívico, civilizado. E, nesse civismo, clamar o óbvio: Margarida Martins tem que ser destituída. Isto é inaceitável. Os restantes têm que ser desprezados. E ditos.

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Bolsonaro é apoiado por várias igrejas evangélicas - sobre cujas dimensões mariolas e comerciais poucas dúvidas haverá. E é certo que IURD e afins já apoiaram o PT (business as usual ...). Mas agora bolsonarizam. Que diz a igreja católica, tradicionalmente menos explícita nos seus apoios? Consulto o insuspeito Vatican News e noto que o Conselho Nacional dos Bispos do Brasil já apelara, em Abril, à participação dos católicos nas eleições, para isso evocando considerações do actual Papa e fundando-se nas perspectivas de Bento XVI. E encontro o texto produzido na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, desta semana (23 e 24 de Outubro): "Nota da CNBB por ocasião do segundo turno das eleições de 2018". 

 

O documento é interpretável, claro. E, assim sendo, cada um o lerá segundo a sua ... decisão prévia. Está acessível na ligação que incluí mas copio a sua conclusão: "Exortamos a que se deponham armas de ódio e de vingança que têm gerado um clima de violência, estimulado por notícias falsas, discursos e posturas radicais, que colocam em risco as bases democráticas da sociedade brasileira. Toda atitude que incita à divisão, à discriminação, à intolerância e à violência, deve ser superada. Revistamo-nos, portanto, do amor e da reconciliação, e trilhemos o caminho da paz!". Cada um que tire as suas conclusões, segundo a sua ... decisão prévia. Mas, caramba, é difícil não encontrar aqui uma elíptica alusão, como é tão habitual na igreja católica, à retórica (e às intenções proclamadas) do capitão Bolsonaro.

 

Interessam-me as reacções portuguesas ao caso bolsonar. A simpatia para com ele, óbvia ainda que implícita - pois explicitá-la ainda tem custos sociais -, na comunicação social e na política. Jornalistas e bloguistas, "comunicadores" como agora se diz, e políticos que se situam na direita elaboram-se com enleios de neutralidade. Esta tendência anuncia o que um ambiente sociocultural e profissional lisboeta está pronto para acolher, caso surja a hipótese (muito implausível em Portugal, ainda assim). Dessa retórica "neutralidade" é exemplo o que li ontem de um conhecido e veterano bloguista: é "paternalismo" botar opinião sobre as eleições brasileiras! 15 anos depois do advento dos blogs, onde participou e onde nos seus blogs e em tantos interactuantes imensa opinião se botou sobre as várias eleições americanas, francesas, russas, a "hermana" Espanha, angolanas, Tsipras e Varoufakis, se calhar até brasileiras, brexits, autonomias, etc. Mas agora? É paternalismo opinar. 

 

É interessante pois este é um meio, político, social e cultural, que usualmente se revê no CDS, com mais ou menos flutuações. Partido que se reclama (ou reclamou) da democracia-cristã, da doutrina social da igreja e com ligações, muito legítimas, ao mundo eclesiástico.  Ora muito dos agora "neoneutrais", simpatizantes, militantes (e até presidentes, como Cristas, a quem referi ontem), fazem "orelhas moucas" ao (elíptico) parecer eclesiástico. 

 

Deixemo-nos de subterfúgios, a democracia-cristã portuguesa morreu. E esta direita "neoneutral" anseia por um "movimento de capitães". Deste tipo bolsonar. A igreja? Serve para a pompa do casamento dos filhos, enterrar os conhecidos, quiçá a missa do galo, para alguns só alguns ainda para um convívio dominical. Eu, ateu e nem baptizado, conheço mal a Bíblia. Mas tenho a ideia de lá ter lido "bem-aventurados os hipócritas, porque eles serão fartos" (Mateus 5: 3-9). 

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Cristas e o Brasil

por jpt, em 26.10.18

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"J'ai vu des démocraties intervenir contre à peu près tout, sauf contre les fascismes" é daquelas frases de Malraux que vingaram na Readers Digest de hoje, a wikipedia (e aviso já que não aceitarei comentários invectivando Malraux por não ter criticado Chavez e Maduro).

 

Cristas anuncia qual seria o seu voto no Brasil. Uma inutilidade, poderia ter-se escudado na não ingerência. Mas opinou, igualando as candidaturas, como se se filiando na crescente simpatia pelo bolsonarismo entre locutores da direita portuguesa. Fez mal. É certo que a sua opinião é irrelevante naquelas eleições (que aparentam estar já decididas - ilustra-o o já velho Chico Buarque terminando em lágrimas o seu discurso num recente comício da candidatura de Haddad). Mas falhou a oportunidade para explicitar o conteúdo exigível ao arco do poder.

 

Será muito difícil a uma líder democrata-cristã sentir, e expressar, simpatia por uma candidatura conjunta de um socialista (de ala esquerda?) e de uma comunista (uma comunista latino-americana, decerto mais castrista do que berlingueriana, isto usando imagens para gente mais idosa do que Cristas). Mas três aspectos poderia considerar:

 

1. o primeiro é interno ao Brasil. O PT dominou o XXI daquele país, ganhando várias eleições presidenciais. Por criticável que seja a sua governação, por evidente que seja a sua degenerescência, por problemático que seja o seu programa actual, nesse período não usou o poder para terminar o regime democrático (para o minar?, porventura; para o terminar?, não.) e não tem uma maioria no fragmentado sistema parlamentar que lhe permita hipotéticas (reais?) veleidades de lhe subverter as características essenciais. Já Bolsonaro vem anunciando, até mesmo agora, uma semana antes, um conjunto de propósitos à total revelia da democracia (prisões, expulsões, "nomeem que mais ...").

 

2. o segundo é global, a questão ecológica. Nos avessos a Bolsonaro isto nunca surge, poluída que está a "mente colectiva" pelas agendas neocomunistas, as do altergender vs cisgender, do racialismo e - neste caso em particular - do mulherismo. Se a ecologia não foi verdadeira prioridade do PT, Bolsonaro anuncia-se como campeão do seu desrespeito, em modalidades irreparáveis (direitos individuais e colectivos podem-se repor, a demência omnívora face à natureza é irreparável). Ora esta temática é hoje colossal. Apesar de grande silêncio no debate português, o que bem mostra o atraso cultural do país (ainda que os Erasmus já sejam geração de poder). É o equivalente ao debate nuclear (guerra atómica, energia nuclear) nos anos 70s e 80s, o ocaso da Guerra Fria. Ou até mais relevante, pois menos polarizado quanto a centros de decisão.

 

3. o terceiro é político, principalmente europeu. O pós-guerra deu-nos este sistema democrático ao qual os comunistas (nas suas diferentes versões) pertencem. Pode ser um oxímoro, podemos considerar que eles estão de corpo mas não de alma dentro da democracia. Mas em sendo-o é um oxímoro funcional, estruturante do sistema político com melhores resultados económicos e sociais - não será um "fim da história" mas é um belo momento da história. Em Portugal os anteriores a Cristas lembrarão Melo Antunes a cercear o extremismo anti-comunista considerando-os integrantes da democracia portuguesa e os mais lúcidos saudarão também a democraticidade do general Eanes, nesse mesmo sentido. Mas será de lembrar que nessa mesma era a DC italiana (uma das matrizes do CDS) teve a grandeza estratégica de fazer um "compromisso histórico" com o PC. E foi este regime europeu englobante que trouxe para as interacções democráticas os grandes PCs europeus (Berlinguer, Marchais, Carrillo - o tal de "eurocomunismo"), e foi integrando os maoístas, enverhoxistas e 68ístas nos PS locais e nos ecologistas. Ora deste sistema amplo, deste "arco do poder" representativo consagrado no pós-guerra não constam, por definição, os fascismos. Exigem-se "cordões sanitários" em seu torno, para preservar os regimes democráticos. Há excepções, e fala-se de Finni, integrado nessa primeira bolha populista moderna, mas esse mau sinal estava subordinado ao peculiar (mas não fascista) Berlusconi e correlacionou-se à desagregação do sistema partidário italiano. E falarão do partido da Liberdade holandês ou do Interesse Flamengo, mas esses são muito mais movimentos soberanistas (e independentista no caso belga) do que fascizantes. E mesmo assim são integrados nestes peculiares regimes de coligações governamentais que são verdadeiros estudos de caso de concatenação política. De facto, os fascismos mais ou menos explícitos são ostracizados, como o foi Haider pela comunidade da Europa e pela sua Comunidade Europeia. Tal como esta coisa bolsonara de agora o parece dever ser ... Fernando Henrique Cardoso, sábio e conhecedor como nenhum de nós, di-la outra coisa que não fascismo, fruto desta nova era, um "transfascismo" se se quiser. Porventura será, mas tem todas as características que extravasam o primado do estado de direito e a democracia liberal. 

 

Nesta declaração de neutralidade, desnecessária ainda por cima, Cristas mostra que nada disto apanha ou considera. Mostra-se sensível aos discursos de direita assanhada que já por ali pululam - muito pela analogia que se faz entre o podre PT e o degenerado PS socrático do qual este costismo recusou apartar-se (Augusto Santos Silva na tétrica declaração de que não faz "julgamentos éticos" quando é de avaliações políticas que o seu partido, e o país, necessita; um governo actual onde as pastas estratégicas estão nas mãos de gente que foi dos governos socratistas ou de seus admiradores ferrenhos). Mas essa analogia, que é grosseira, e mesmo que não o fosse, não é o fundamental. Cristas foi incapaz de dizer "não" a essa extrema-direita (ainda para mais agora que tanto se frisa que "um não é um não") e deixou-se, em ademane de "coquette", dizer-se namorável, se com melhores modos alheios.

 

O que lhe faltou, e assim sendo o que lhe falta, é a densidade de estadista. De perceber o que está em causa e ver lá à frente. Afirmar-se, e aos seus, como um motor de consenso democrático em torno de um modelo de regime. Aquilo que o socialista (de facto socialista, e isto vai sem acinte) Rui Tavares recordou há dias "No imediato, é preciso que a esquerda, centro e direita democráticas se unam contra os fascistas - chamem-lhes o que chamarem.".  É difícil isso, por muitas razões. Uma das quais é porque todos nós, avessos ao patrimonialismo socialista ou ao credo estatizante ou às agendas políticas pós-modernas/coloniais temos sido neste XXI constantemente "fascistizados" (homofobizados, racistalizados, lusotropicalizados, etc.). No mesmo processo de abaixamento intelectual que se vê agora na direita soberanista, apelidando os europeístas, as instituições democráticas e democratizadoras (por mais criticáveis que sejam) de "Bruxelas" como "estalinistas". Este tipo de radicalismo invectivador deixa máculas, dificulta articulações. E, como é óbvio, gasta as palavras - se quase todos nós fomos ou somos "fascistas" por uma qualquer razão como reforçar posições comuns contra outros "fascistas"? Mais, como delimitar esses ("trans)fascistas" de hoje?

 

Nada disto interessará a Cristas. Talvez mais preocupada com um ou outro deputado que poderá subtrair a um centro desnorteado, como o que vai agora. Incapaz de perceber que é agora o momento de afirmar o seu partido como trave. Até aproveitando os ventos deste tempo, sabendo-os depurar da pestilência que também transportam. 

 

E tudo isto, para além de Cristas, mostra também o final das "internacionais". Há algumas décadas as articulações partidárias internacionais tinham vozes mais ou menos comuns sobre os temas cruciais. Hoje estarão mais centradas na agenda parlamentar comum. Que nos dizem elas (quem são os seus presidentes? que relevância têm?) sobre tudo isto? Como articulam os seus partidos-membros e respectivos líderes? Que resta das ideologias? 

 

Adenda: no último fim-de-semana foi divulgado este filme com declarações de Bolsonaro. A uma semana das eleições, nas quais será vencedor promete colocar os apoiantes de Haddad ("petralhada") na "ponta da praia". Julguei que tal significasse expulsão (tipo "devolver às naus") mas nada disso: amiga, portuguesa mulher de direita, avisa-me que "ponta da praia" significa a base militar da Marinha na Restinga de Marambaia, em Pedra de Guaratiba, no Rio de Janeiro, um presídio de tortura e abate durante o regime militar brasileiro.

Negar a diferença, pelo menos de grau, entre este energúmeno e os malfeitores do PT e associados torna-se um bocado difícil. Que pensará a hierarquia católica portuguesa da líder do partido democrata-cristão que se demonstra relativamente neutral a este tipo de declarações?

 

 

 

 

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Se Deus Quiser

por jpt, em 22.10.18

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Tabu de Marcelo: diz que não faz mais campanhas “se Deus quiser”; e recandidatura “está nas mãos de Deus”

 

A forma como os locutores da tv estatal se dirigem aos "caros telespectadores" é algo relevante e passível de crítica. Não só pela disseminação do sotaque televisivo (a potenciação do canibalismo fonético da classe média lisboeta) que muito obsta à nossa compreensão pelos outros falantes de português - que é algo relevante quando se discute o AO90, ainda que os especialistas lusocentrados, mesmo quando oponentes daquela tralha, nunca notam. Ouçam com atenção António Costa a falar (o qual, de facto, fala só um bocadinho pior do que eu) para atentar neste "linguacídio" (diz-se glotocício, mas enfim, há quem esqueça o termo) em marcha ...

Mas há outros detalhes. Há anos muito me irritava, por descabido, o piscar de olho com que JRS se despedia no final do telejornal ("quem é este gajo para nos piscar o olho?"). E, mais do que tudo, irritava-me, e cheguei a blogar sobre isso, logo no início da minha blogomania, em Dezembro de 2003, a descabida expressão de José Alberto Carvalho que costumava anunciar, impante, ser o telejornal transmitido para "todo o mundo português". Saberia o tipo sabia que passava em directo na RTP-África? Não haveria alguém que lhe dissesse (e não havia mesmo) o bafiento tom colonial que isso transmitia?

 

Mas enfim, leio agora que uma conhecida jornalista critica uma colega por se despedir com o tão usual "se Deus quiser". Como ateu e defensor da laicidade dos serviços estatais também concordo, "não havia necessidade" como dizia o grande humorista ...

 

E lembro-me de tempos muito recuados, quando vigorava o "compromisso histórico", como se diz geringonça em italiano, no português arcaico erudito dito "bloco central", quando as instituições se congregavam para trancar as investigações sobre as aleivosias dos políticos, em suma quando do PR se esperava que ajudasse a correr com a procuradora-geral da República, para Sócrates, sua "entourage", a elite socialista, e os "clientes" do grande banco privado brindassem, suspirando de alívio. Nesses tão recuados tempos as prestigiadas jornalistas, alimentadoras e apoiantes de blogs anónimos e remunerados (quais Steve Bannions avant la lettre, ainda que artesanais) não se incomodavam com as figuras estatais a invocarem deus. Nem mesmo que fosse o PR.

 

Mas agora, nesta nova era? Resolvida a tarefa? Calafetado o caminho? Ofendem-se muito com as alusões às divindades ... Deus Nosso Senhor nos valha, que vem aí borrasca. Lá dentro do bloco central.

 

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Brasil (e não só)

por jpt, em 20.10.18

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Um maravilhoso texto autobiográfico de Eric Cantona, no qual escreve sobre a essência do futebol, o estado do futebol actual, e desvenda o segredo dos triunfos do Manchester United. Mas acima de tudo sobre o mundo actual. Sinto-o imperdível: What is the meaning of life?

Sobre o mundo actual um belo texto de António Guerreiro, Sob o signo do politicamente correcto, no Público de ontem.

 

A propósito do Brasil, mas também incidindo sobre o mundo actual, dois textos relevantes: O futuro político do Brasil, de Fernando Henrique Cardoso, no El País de hoje; O arauto da revolta popular, de Jaime Nogueira Pinto, no Diário de Notícias de ontem.

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Os beijos dos mais-velhos

por jpt, em 18.10.18

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(Escola Portuguesa de Moçambique, Maputo)

 

 

1. Esta historieta que corre em Portugal lembra-nos, cá em casa, um episódio. Em Março de 2010 Sócrates visitou Moçambique. Em época tão avançada do seu poder só os Santos Silva, Vieira da Silva, Leitão Marques e quejandos, mais os seus propagandistas a la blog Jugular ou Eixo do Mal, secundados pela mole de aficionados deficientes cívicos, podiam ainda negar o quão corrupto e corruptor do país o energúmeno seguia, e o quão abjectos eram os apparatchiki, essa rede clientelar que hoje de novo tanto se (ka)move no poder.

Nessa ida a Maputo Sócrates, como é da praxe ali, visitou a Escola Portuguesa, onde estudava a minha filha, então com 7 anos. Lá enfileiraram as criancinhas para a recepção a Sua Excelência, como sempre se faz. Por coincidência o escroque avançou para o ror de petizes e pediu à nossa Carolina e à colega que a ladeava "dão-me um beijinho?". Conta ela ainda hoje "eu lembrei-me do mal que dele dizias e tive medo". Mas, claro, nos seus 7 anos não teve a autonomia para se esquivar, e creio que até sentiu a excitação do falso brilho do poder, pois "o nem tudo o que reluz é ouro" é algo que se aprende mais tarde.
À noite, em casa, irei-me ao saber da história. Quis ir à escola reclamar, escrever para o ministério, que direito tinha a equipa docente em expor a minha filha a tão pernicioso e indecente contacto.? "Não vale a pena", foi a derrotada conclusão a que cheguei. Pois parte dos funcionários lambuza(va)m-se com o imundo, a outra tinha medo. Chamando-lhe respeito. Seria envolver, ainda que indirectamente, a minha filha no asco pelo governo e seus apoiantes. Semeando até, quiçá, antipatia entre o corpo docente.

Mas lá está, há que controlar os contactos físicos dos mais-velhos com as crianças, não as obrigar ao indesejado, ao temido, ao naturalmente repugnante.

 

2. O professor Daniel Cardoso que tantos nas redes sociais agora gozam e insultam não disse nada demais. Os pais medianamente informados e sensíveis educam os filhos a ser polidos - ou seja, pulem os filhos, adequam a sua autonomia a regras sociais. O professor, que tal como tantos outros colegas, bota Foucault a torto e a direito (pelo menos na tv) - não é nada de especial, no meu tempo era o Althusser, daqui a uma década será outro - esquece-se um bocado disso, que a "autonomia" desses monstros egocêntricos que são as crianças é burilada por nós, mais-velhos. Mas ao polirmos os filhos não devemos rasgar-lhes essa liberdade decisória.

E nisso da sua gestão dos beijos e outros contactos físicos com os mais-velhos, e os algo externos ao núcleo da família elementar. Quando fui criança era muito mais usual que gente da parentela ou amigos de pais ou avós nos beijassem, beliscassem as faces, acariciassem a cabeça. Coisas de carinho, sem a malícia que hoje em tudo se coloca, pela actual sobre-erotização da vida.

Tal como refere o professor educámos a nossa filha sem nunca a obrigar a beijar ou abraçar. Cumprimentar e agradecer sim, é uma regra. Contacto físico não, é uma decisão. E quantas vezes se recusou a beijar adultos, até próximos, por desconforto ou timidez (mas não por humores, por "birra", que isso é coisa diferente e não aceitável). E no ambiente actual, em que a consciência educada é diferente das vigentes nas anteriores gerações, também as pessoas não impõem às crianças esse contacto. "Dás-me depois" ouvi tantas vezes dizer. A mim acontecia-me isso com as minhas sobrinhas-netas, eu chegado a Lisboa uma ou duas vezes por ano, gordo, encanecido, barbudo, fedor a tabaco entranhado. Elas beijavam a minha mulher, abraçavam a prima, não me beijavam. Viam o carinho de mana mais-velha que a sua avó me dava, o relativo apreço das suas mães para comigo, mas nem isso as convencia. E ficou como nosso código, ainda hoje aos quase 10 anos risonhamente jogam essa negação de me beijarem.

O que nós, pais, fazemos é induzir a extroversão, aquilo de que o corpo não é um cofre, combater os medos e a excessiva timidez: cuidado com as festinhas aos gatos que são erráticos, atenção aos cães, os quais se podem acariciar desde que os conheçamos, se se pode ou deve (no sentido de "ficar bem", ser "gentil") beijar fulano - e quantas vezes a minha pequenina filha me olhou indagando se devia ou não beijar alguém, esperando um aceno ou um encolher de ombros quase imperceptível, consoante o caso. Tal como, depois, mais crescidos, a questão tão portuguesa do tratamento, na segunda ou terceira pessoa (complicado código), onde a regra de oiro cá de casa foi "não tratas ninguém por tio, a não ser os tios mesmo ...", que não há paciência para estes patetas arrivistas de agora.

Ou seja, o professor não disse nada de errado. Como todos os de bom senso e educação percebem. Daniel Cardoso está a ser canibalizado por uma enxurrada de imbecis, mal-educados ainda por cima. Principalmente por razões sociológicas, pois o homem não é "Lisboa", notório até nisso de ir à plateia do "Prós e Contras" para botar opinião, coisa mais "Preço Certo" do que "Quadratura do Círculo" na indústria de entretenimento. E os blasés não lhe perdoam o aparente berço, visível no sotaque, no léxico e na en-to-a-ção. Os blasés gostam da desenvoltura televisiva do Marques Lopes ou da Clara Ferreira Alves ("aqui no programa só nos enganámos numa coisa - 4 de nós 5 -, sempre acreditámos que havia uma campanha da direita contra Sócrates", vi há dias a referida indivíduo, num trecho de youtube partilhado no facebook, sem mostrar qualquer vergonha e com toda a fluidez televisiva e sotaque lisboeta. E toda a gente acha elegante ... a ninguém apetece lapidar este "avençadismo"), mas detestam berços diferentes, a não ser que sejam patuscos objectos etnográficos, "emplastros" risíveis.

E depois há as razões moralistas, moralistóides. O professor é um tipo sui generis (conversando entre amigos eu diria "uma ave rara") e mostra-o. E depois? Não parece um forcado da Chamusca ou o terceira-linha do CDUL. E depois? Mostra que vive com várias mulheres. E depois? É um bocado piroso naquilo do "poliamoroso"? É, mas nem sequer é particularmente novidade (que tal a gente ler sobre os anos 60s? ou ouvir a música e ver os filmes?). E a quantidade de gente que tem vários casos, ou que vai aos "profissionais do sexo" (é a expressão agora correcta, mas eu recuso-me a abandonar o masculino universal, como os patetas actuais fazem)? Faz fotografia erótica? E depois? Não há tantos facebuqueiros que fotografam ocasos e lhes chamam "sunset", há coisa mais indigente do que isso? Não há tantos luxuriosos que fotografam os camarões que comem, há menoridade estética maior do que essa?

Porquê este meu lençol, irritado? Porque me fartei de ver gente a botar coisas estúpidas sobre o homem, de gente obtusa. E perversa, uma perversão explicitada nas críticas ao facto de Daniel Cardoso ser professor, de ataques à empresa onde ele trabalha. Não conhecem o conteúdo do trabalho dele, as capacidades que tem. Mas põem-lhe, só para botar mais um "post" (como, rastejantes ignorantes iletrados, chamam aos postais), em causa o emprego, até o direito ao trabalho. Eu não conheço o homem mas espero bem que a sua universidade saiba defendê-lo, saiba garantir a sua imagem pública afirmando a pertinência dos seus critérios de recrutamento. Apoiando-o. E menosprezando a torpeza desta mole de morcões ululantes.

 

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#EleNãoJoãoLourenço ?

por jpt, em 17.10.18

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200 000 congoleses expulsos de Angola, entre os quais refugiados (pelo menos 27 000). A indução de uma desgraça humanitária. Relatos iniciais de saque dos bens dessa população. Violação dos tratados internacionais. Ferocidade e cupidez da tropa angolana, soberanite desbragada do poder angolano. 

Onde estão as reacções internacionais? Não falo dos organismos multilaterais, hoje esfacelados nas suas capacidades políticas. Nem mesmo da portuguesa, dissipada qualquer capacidade de influência nos grandes países africanos da CPLP neste XXI, em processo culminado pelo saracoteio banhista do PR que nos cabe e pela pequenez estadista do PM - Marcelo é totamente irrelevante mas quanto a Costa analise-se a frio o conteúdo das suas viagens de 18 a Luanda e Maputo, uma pobreza. 

Trata-se mesmo da reacção popular internacional. Não, João Lourenço não ataca as "mulheres" congolesas, os "homossexuais" congoloses, os "afro-africanos" congoleses, não descobre "ciganos" congoloses, não denuncia "muçulmanos" congoleses. Não anuncia um "muro da Lunda", não agita a "Fortaleza Angola". Ou seja, não toca as campaínhas que fazem salivar os "indignados" do costume, colhe o silêncio.

Mas João Lourenço expulsa duzentos mil imigrantes, pobres, dezenas de milhares dos quais considerados refugiados da guerra congolesa, outros 180 000 que assim seriam considerados pela imprensa bem-pensante se imigrantes ilegais aportados nas costas italianas, pois gente miserável que fugiu à pobreza da sua terra devastada da guerra. João Lourenço viola os tratados internacionais. Associa o discurso anti-corrupção à violência xenóba estatal e à purificação étnica. Tem todos os constituintes do fascismo. Onde está o  #EleNãoJoãoLourenço?

Mas é só África, para quê a gente chatear-se ... Ainda para mais isto confunde essas "categorias" que lhes dão tanto mimo ao pensamento.

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Quando foi inaugurada em Tondela referi aqui no Delito de Opinião - mostrando, em baixa definição, várias das 42 imagens - esta "Cinzas", a exposição fotográfica que o Miguel Valle de Figueiredo construiu a partir do seu trabalho de três meses nas regiões da Beira Alta devastadas pelos fogos de 2017. Agora a itinerância atinge Lisboa, inaugurando hoje, 16.10, às 17 horas, na Atmosfera M, na Rua Castilho.

 

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O Miguel Valle de Figueiredo é dali oriundo, família ancorada em Tondela. Após a calamidade percorreu a região, que bem conhece. Ele que durante anos percorreu o mundo fotografando voltou agora às raizes familiares, em trabalho de verdadeiro luto, devagar calcorreou mato, lugares, aldeias, vilas, encarou a gente que ali teima, desta ouvindo do horror de então e da violência posterior, advinda da arrogância burocrática de quem vem podendo - e de que nós todos, entretanto, fomos ouvindo parcas notícias. Nisso fotografou as "Cinzas" promovidas pela fúria dos elementos, o desnorte nacional e a incúria estatal, até abjecta. Enquanto uns, urbanos, se menearam vaidosos insanos, lamentando-se "de não ter tirado férias" ou, pelo contrário, "iam de férias" e pediam para "não os fazerem rir" a propósito destes e doutros assassinos fogos, e se gabavam de se preparar para as "cheias de inverno", inaugurando casas refeitas com dinheiro alheio, apregoando ter revolucionado as florestas como nunca desde a Idade Média, e se faziam entrevistar em quartel de bombeiros, o Miguel foi para aquele lá, verdadeiros "salvados" de um país que insiste em desistir de o querer ser por via do apreço que vota aos tocos que julga gente, e até elegível.

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Dessas suas andanças, vindas do seu fervor de fotógrafo e do seu dever de cidadão, produziu, a expensas próprias, pois não é ele daqueles capturáveis por Estado, municípios e respectivos tentáculos, tão pródigos se mostram esses para os fotógrafos "camaradas, companheiros e amigos", um manancial iconográfico, uma verdadeiro arquivo para alimentar uma memória social do acontecido, deste sofrido que a história recente do país se mancomunou para gerar. Desse acervo seleccionou esta exposição. Será muito pedagógico ir lá ver o horror e desperdício que o mvf vagorosa e condoidamente captou. Para que não o esqueçamos. Citadinos, julgados cosmopolitas e assim de memória muito chocha 

 

(Já agora, as fotografias estão à venda, diferentes tamanhos a diferentes preços, assim acessíveis a diferentes bolsas, revertendo os proventos para ajuda às populações. Atenção, reverte mesmo, que o Miguel é um tipo muito fora de moda, é dado às coisas da honra).

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Ventania

por jpt, em 14.10.18

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A ventania que remodelou o governo PS é muito mau sinal. Com o PSD igual ao Sporting pós-Alcochete, Cristas encantada com o pseudo-sucesso lisboeta e o CDS incapaz de por Mesquita Nunes onde já devia estar, o BE roblesado e o PCP no respeitável mas doloroso e inimputável estado mental em que tantos dos nossos queridos mais-velhos vão ficando, o vice de Sócrates reforça-se bem. A senhora da Cultura é competente (também quem lá estava era péssimo, fácil de substituir). E Cravinho é muito bom, cumpriu bem como presidente da cooperação e foi excelente como secretário de estado. Está na óbvia rota para futuro MNE. E o Matos Fernandes, tão resguardado que nunca chamuscado nos terríveis fogos e nas coisas do petróleo, vai-se alargando. "Marquem as minhas palavras", querem alguém do Porto no poder?, esperem-pouco e olhem para ali.

Contornar estes baixios vai ser muito difícil. Mas, como em tempos se disse, navegar é preciso, viver (a vida videirinha, funcionária/avençada) não é preciso ...

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Dentinho

por jpt, em 12.10.18

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Conheci o Paulo Dentinho quando recém-chegados a Maputo, e logo ficámos amigos. Éramos jovens, ele recém-pai eu ainda não, ambos fascinados com o país magnífico, tão interessante e esperançoso, embrenhadíssimos no trabalho, ele correspondente da rtp e eu adido cultural, nisso muito cruzando opiniões e informações sobre o quanto se nos deparava, num constante convívio. Chegámos a viajar juntos no país, quando ele dinamizou a visita de um grupo de artistas encabeçados por Júlio Resende, uma magnífica aventura, e dor de cabeça logística na Ilha de Moçambique de então. Por vezes discordávamos sobre o seu trabalho (ele sempre teve a piedade de não criticar o meu), eu já armado (em) comendador a requerer-lhe uma espécie de "posição de Estado" dada a visibilidade da RTP(África) no país. E ele com uma perspectiva diferente - lembro-me de lhe contestar uma reportagem sobre os habitantes do jardim zoológico da Beira, gente que vivia no local e até nas jaulas, por causa da má recepção que havia tido em Maputo, as pessoas tinham-se sentido aviltadas. O Paulo dizia o contrário, e é evidente que tinha razão, pois tanto a vocação como a deontologia jornalísticas convocavam a reportagem, tão denotativa era aquela situação e não seria a "má impressão" que a RTP poderia colher que o iria fazer suspender o trabalho.
 
Na altura havia muitas visitas políticas portuguesas, em 97 o PR Sampaio e em 98 o PM Guterres com enormes delegações (150-170 pessoas), mas também um constante corropio de ministros, secretários de estado e afins. Vigorava em Lisboa a noção de que "estar no poder" implicava visitar as ex-colónias, coisa também de uma CPLP que começara. O que causava um carrossel de visitas vácuas, impreparadas, de teor algo turístico por vezes, e desprovidas de "sentido de Estado". E o Paulo dava-lhes a atenção que o seu apurado sentido profissional comandava - sendo também que muito do seu trabalho não passava na RTP por critérios da sede, dado o manifesto desinteresse de muitas dessas deslocações. Assim, dado o carácter pouco servil do seu trabalho, muitas vezes o ouvi contestar, "que não era o homem que ali devia estar", diziam ministros e assessores, desgostosos com a "cobertura televisiva" que consideravam obrigatória para a sua micro-pompa de governantes. Pouco lhes importava ser ele, de facto, competente, informado, criativo, analítico. E empenhado. Importava-lhes apenas o de não estar ele de chapéu na mão diante de qualquer chefe de gabinete do sub-secretário de estado ou de um assessor de sua excelência o director-geral. Na responsabilidade de ser correspondente do serviço público, e sem a ligeireza de servir o poder político do dia ...
 
Depois vieram as complexas eleições de 1999, culminadas com semanas de contagem de votos e de agitação política. A situação era surpreendente, explosiva mesmo, pois não eram esperados resultados tão elevados por parte da oposição nem tamanha demora na contagem. Nesse entretanto o Renamo fez uma conferência de imprensa e proclamou a vitória. Na altura só havia duas estações televisivas a transmitir no país, a muito estatizada TVM e a RTP(África). E foi esta que disseminou essa proclamação, o que teve um impacto estrondoso. O Paulo apareceu nessa reportagem com um óbvio nervoso, perceptivel para quem o conhecesse pois traduzido num ricto similar ao sorriso. Foi o quanto baste, o divulgar da versão renamista do processo eleitoral, praticamente inacessível na imprensa estatal local, e o aparente sorriso tornaram-no pessoa malquista. Sucederam-se as ameaças de morte, uma das quais estando eu sentado com ele numa esplanada. O Paulo aguentou, nós amigos dizendo para que se acautelasse que nem tudo é da boca para fora - como o comprovou o assassinato de Carlos Cardoso logo em 2000 e nos anos futuros vários atentados a intervenientes televisivos. Ao fim de algum tempo de contínuas ameaças de morte, e até porque ali vivendo com a mulher e as duas filhas, ele regressou a Portugal. Fui, com vários amigos, levá-lo ao aeroporto. Nessa sua despedida do país ele ia vestido, com tão polissémica ironia, com uma t-shirt do Frelimo. Também a simbolizar o quão absurdo é a demonização do jornalista quando autónomo. Digno.
 
Depois passaram anos, a vida. Eu fiquei em Moçambique, ele por Portugal e Timor (de onde lembro uma magnífica reportagem, a tornar épica a constituição do arquivo nacional por Mattoso). E fui-lhe vendo outros bons trabalhos, profundos, de verdadeiro grande jornalista, daqueles que nos faziam dizer à nossa pequenina filha, meio pirosos, "Carolina anda cá ver, este é amigo dos pais". E foi para correspondente da RTP em Paris, onde soube que estava bem e acreditei, pois deve ser um posto intenso e Paris deve ser uma boa cidade para quem gostar de viver na Europa. E comecei a lê-lo no FB, nos tempos de Passos Coelho e Portas. No seu mural pessoal o Paulo zurzia a política portuguesa e, muito frequentemente, o governo: em tempos de crise, naquele troikismo, motivos nunca faltavam para bater. Tanto o li que um dia lhe enviei uma mensagem "estás farto de Paris?" e ele que nada disso, estava a adorar, a família também, a mulher com emprego, filharada a crescer. "Ouve lá", ripostei-lhe, "continuas a bater assim e eles metem-te como correspondente no Corvo ou num sítio ainda mais ermo ...", que é assim que o poder funciona, e nós sabemos bem disso. E rimos, cada um diante do seu teclado. E ele continuou a criticar, lá na sua página pessoal, "sem dó nem piedade".
 
Passado algum tempo o governo de Passos Coelho actuou mesmo face ao Paulo Dentinho. Eleições à vista retirou-o de Paris, onde escrevia curtas críticas no FB para os seus 3 ou 4 mil "amigos", e meteu-o ... como director de informação da RTP.
 
Passaram anos. Eu pouco vejo tv e nada RTP. Mas nunca li nestas redes sociais grandes críticas à partidarização da informação da RTP (essa que era uma prática constante da casa), tanto a favor do anterior governo como deste. Agora o Paulo é afastado. Dizem que porque escreveu um texto na sua página pessoal com palavrões e um futebolista não gostou. E, aduzem agora para ajudar à justificação, porque houve má cobertura do fogo em Sintra - não sei se estão a captar a indecência, o conselho de administração, subordinado a este governo, afasta alguém com o argumento de que houve má coordenação na cobertura jornalística de um fogo: e isto com a notória descoordenação deste governo nos combates ao fogos . Isto é de uma impudicícia inaudita.
 
E é, acima de tudo, o começo do ciclo eleitoral. Evidenciando também uma enorme diferença das práticas políticas desta geringonça face ao passado recente. Aqueles que assistem à RTP poderão comprovar. Quanto ao Paulo Dentinho presumo que se tenha despedido do posto vestindo a sua t-shirt do Frelimo, nesta polissémica ironia, necessária que é para suportar esta gente.

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40 anos após Brel

por jpt, em 09.10.18

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Há 40 anos, passam hoje, morreu Brel e como o homem nasceu aqui na vizinhança, nem dez minutos andando, é só subir a patriotes, virar na plasky e ir até à praça, essa mesmo, seguir na diamant e foi aí no 138, um prédio inócuo sem nada que o faça falar, que já lá estivera, há semanas quando aportei desarvorado, a pedir licença para aqui estar, a benção diriam os crentes, a benção digo eu também, e volto pois é o dia, enfim, e porque não?, e recolher-me-ei mesmo sem saber entoar a bourgeois ou trautear aquela do só nos resta o amor, caramba essa sempre a tocar fundo, e muito menos tendo fôlego para me lembrar da marieke ou de tantas daquelas outras, e hei-de ficar um pouco defronte, fumarei um cigarro e esperarei, espera de esperança, com os olhos na cerveja, aqueles marinheiros do norte, de amsterdão ou assim, ali chegados, vindos hoje pois é o dia, a beberem e a rebeberem e eu rirei, direi arrivei e sentar-me-ei à mesa deles, reclamando-me também marinheiro, de águas-terra porque o fui, mas dizendo ainda o ser, tant pis si je suis menteur, e beberemos às putas de amsterdão ou de hamburgo ou lá de onde vieram estas, com eles mesmo ou então aqui da comuna, atraídas pelo barulho, e chegados ao daqui a umas horas, sempre nisto do amigo enche-me o copo, cantando e felizes, e poderei dizer nesta língua um assim ils pissent comme je pleure sur les femmes infidèles, mas chego lá e só há isto, a rua toda composta,  pintadinha e sossegada, o maldito silêncio desta cidade, e o prédio, inócuo já o disse, a placa descorada, tanto que nem se lê isso do "aqui nasceu Brel" e logo abaixo, até debruando-a, uma outra de fulano de tal, notário, anuncia-se o flamengo, e todos os sacos e saquinhos de lixo, tão arrumadinhos e cuidados, cada um da sua cor, própria a cada dejecto seleccionado, será o dia da recolha decerto, e nada mais, o silêncio, já disse, esse que fere, nem um marinheiro holandês, nem uma puta de hamburgo ou isso, nem mesmo o só espaço para o grito, suave e até timorato, de os burgueses, nós, c'est comme les cochons, como posso? se tudo tão decente, e organizado, e curial, e higiénico, sacos de cada cor e tudo, insisto, e nem uma puta infiel, nem um marinheiro rebebido, e nem um amigo para remplis mon verre ...

 

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O PS É QUE FEZ, O PS É QUE FAZ!

por jpt, em 09.10.18

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Num dia é o apelo da esquerda socialista à perseguição e expulsão de imigrantes que não votam para os países deles segundo os "nossos" princípios e valores - nenhum dos deles, nenhum líder, jornalista, deputado, bloguista-facebuqueiro, sempre tão ciosos da sua "superioridade moral", protesta com o desaforo destas aspirantes a modelos (até vejo portugueses antropólogos doutorados a convocar essa mesma perseguição, os democratas ..., nuns "que fazem eles neste país", "como é que os vamos tirar daqui", aos brasileiros residentes). Não se lê uma única pessoa da chamada esquerda, do arco "geringonça" a denunciar, contestar esta vilania. Um único.

No dia seguinte é esta apropriação necrófaga.

Em Moçambique numa campanha os propagandistas inventaram o belo chavão "A Frelimo é que fez, a Frelimo é que faz". O PS também se apropriou disso, virou-o "O PS É QUE FEZ, O PS É QUE FAZ!". Até o morto Saramago ...

O geringoncismo é mesmo isto. Execrável.

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Os pirilampos

por jpt, em 08.10.18

 

(Transcrevo um postal meu no facebook, apenas elidindo uma expressão trocada pelo seu acrónimo):

 

Há alguns dias uma consóror bloguista enviou-me esta palestra muito interessante, longa mas bem animada, com sageza e humor. Forma de olhar um Brasil(eiro) relevante, neste dia, nesta era, tão peculiares. Nada tendo a ver aproveito para deixar duas impressões, uma sobre o PSD (partido ao qual me liga nele ter votado em 1999) e outra sobre o não-PSD.

1 - tenho várias ligações-FB de veementes adeptos desse partido. Não todos mas vários, até dos mais arreigados (tipo com fotos de PPC afixadas nos murais), transpiram simpatia pelo efeito bolsonárico, entre o sarcasmo e a ironia face aos escombros da "esquerda" e a empatia com os dichotes do futuro presidente. Tenho alguma dificuldade em compreender como quem todos os dias defende a prévia PGR (como eu o faço) tem algum apreço por um tipo que proclama a tortura como um necessário instrumento de investigação; que quem se ira com MRS a exigir silêncio substantivo a Cavaco Silva considere despiciendo que se proclame a necessidade de matar Fernando Henrique Cardoso; que indignados com os kamovs de Costa e seu "não me faça rir" diante da desgraça florestal lusa achem piada ao anúncio da privatização dos restos da floresta brasileira; e por aí adiante. Sarcasmo ou pirraça para serem laicados que tudo isso seja.

Acho que esta gente vai ser um problema ... para o PSD, coito deste rebotalho. E digo-o com pena, preparado que estava para votar em PPC (pessoa que isento desta vergonha toda) na sua desejável candidatura contra o inaceitável PR que vamos tendo. Mas se na sua base de apoio abundarem estes piadísticos desprezíveis isso ser-me-á impossível. Por questões ideológicas: pois se nada tenho contra as aspirantes a modelos (como a actual gentrificação da prostituição consigna) tudo me move contra aquilo, tão diferente, dos "fdps": esta mescla de blasés imbecis e de lineares fascistas.

2. Muitos devaneios se escreveram sobre o Brasil (ainda há pouco aqui vi transcrição de uma intelectual pomposa botando ontem que são os ricos que apoiam Bolsonaro. Viu-se ...). Mas talvez o mais significativo foi o que li ontem, um enfático apelo de uma intelectual a um não Bolsonaro em nome dos "mulheres, homossexuais, afrodescendentes, ameríndios". Um tipo olha para isto e pensa "quer-se dizer, um gajo como eu, homem, medianamente heterossexual, totalmente eurodescendente, não serve?". Ou vai como mero "companheiro de viela"?

Talvez tudo isto promova um "efeito Bolsonaro" em algumas mentes: por um lado, e de uma vez por todas, a consciência de que a criminalização do exercício de funções políticas, que o PT praticou, promove a extrema fragilização das instituições e das adesões democráticas. Ou seja, que não é preciso esperar que o deputado Galamba, tarde e a péssimas horas, se pronuncie contra o fartar vilanagem para que as pessoas se sintam legitimadas para criticar a "esquerda"; e, por outro lado, a percepção que esta visão comunitarista, centrada na imaginação e estrategização de raças, géneros, comunidades de crentes e tralhas afins, é uma mera importação de agendas e modos de pensar, e é insuficiente. E incompetente. Por mais simpáticos que sejam (alguns) objectivos. E pensar que há que largar este danado radicalismo cristão, a fusão de poder(es) e culpa, alimentado pelas esquizofrénicas ciências sociais embrenhadas na cartografia denunciatória e ilegitimadora dos (micro)poderes. Pois estes, "injustos" que surjam, são ordenadores, são vistos como tal e, afinal, são requeridos como tal. Como se viu, ai, ai, ontem. Por maiores ou melhores "políticas" que os queiram combater ...

Há sempre uma outra solução, a tradicional: dizer que os outros estão alienados quando pensam/actuam diferente do que nós pensamos. E que estão iluminados quando connosco concordam. Honestamente, aos 54 anos (e dito trumpista, homofóbico, quase-nazi, ressabiado, invejoso, fascista e, mais-do-que-tudo, lusotropicalista), nada percebo do Brasil e pouco mais sobre o resto. E gostava de ser algo iluminado. Mas estou farto destes pirilampos que se acham focos eléctricos.

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Os embuçados

por jpt, em 06.10.18

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Sobre comentários o João André botou Censuras. Aduzo dois pontos, questões antigas no bloguismo, e que continuam a ser invocadas por alguns comentadores.

 

O primeiro é o da censura. Tal como o João André cortou comentários no seu pertinente Bolsonaro e Trump, também eu o fiz no meu A propósito de Bolsonaro. Um dos comentadores anónimos que ali me insulta refere-se de forma crítica ao meu "artigo". Eu friso que não se trata de um "artigo" e ele riposta abrasivo, menorizando a diferença. Esta aparente minudência denota que há leitores que,  até pela relativa semelhança dos respectivos suportes, associam um blog a um sucedâneo de um jornal - onde há "artigos" -, de um qualquer órgão de comunicação social. 

 

Ora, ainda que tenha havido blogs com dimensões empresariais ou políticas, este suporte não é comunicação social. Alimenta espaços de publicação pessoal, mais ou menos intimista, e outros de índole conversacional, sítios convivenciais (o João André referiu que o entende como a sua casa, eu prefiro dizê-lo uma mesa de tasca, café ou bar, pois uma tertúlia em espaço público). Ou seja, um blog não tem opinião com responsabilidade social, ela não é "editada". Como tal, e por definição, não há censura no bloguismo. E quem a invoca, quem reclama ter sido censurado, só mostra que desentende a coisa-blog. Em suma, num blog não há censura, só entra o que o(s) bloguista(s) quer(em). É antipático cortar comentários? É egocêntrico, vaidoso, atrevido, etc? Pode ser, até tudo isso. Mas nunca é censura.

 

O segundo ponto, que vem associado, é o anonimato.  Muitos dos comentários anónimos, agressivos e insultuosos ou apenas malevolentes, derivarão dessa incompreensão. Leitores que vêm dos sítios dos orgãos de comunicação social não apreendem que mudaram de contexto e mantêm a atitude. Por um pormenor eu depreendo essa deriva, nos remoques ao meu próprio anonimato, dado que assino jpt. Ora, qualquer leitor habituado a um blog percebe que os autores estão identificados na (antes) célebre "coluna dos links". A incompreensão disso, logo invectivadora, mostra o desconhecimento da mecânica de leitura de blogs.

 

Mas o fundamental é a continuidade da atitude de quem chega dos sítios empresariais noticiosos, onde os comentários são muito abrasivos, enfrentando a "comunicação social", seus ditos interesses esconsos e empresas proprietárias, mas muito também porque não são são interactuantes com os locutores, autores ou seus representantes. Tendem assim a ser espaços de invectiva, visceral e anónima. E daí, num fugaz clic, acedem a espaços, blogs, que são outro campo, o qual possibilita, requer e até potencia outro tipo de atitude dialogante (mesmo que guerreira). E que, acima de tudo, presume outro tipo de identidade: a explícita.

 

Como digo, este é um espaço de conversação. Ainda por cima sem qualquer agenda, explícita ou implícita, não serve os interesses (esconsos ou escancarados) de empresas - contribuirá um poucochito para o tráfego da SAPO mas, caramba, também não é por aí -, partidos ou igrejas, nem dá dinheiro ou estatuto aos bloguistas. É uma tertúlia, gratuita. Com gente que pensa de maneira diferente. O mais normal, educado, curial, numa tertúlia é que as pessoas se apresentem. No mundo real. E neste mundo real de hoje, este espaço antes dito do "éter", agora falsamente dito "virtual". Um tipo chega a um espaço, intervém numa conversa e começa por se apresentar.

 

E quando se entra no debate abrasivo, que também tem espaço para existir, isso ainda mais se impõe. Já várias vezes escrevi que não só defendo o direito ao insulto como reclamo o dever do insulto. E pratico-o. Lembro, por exemplo, que há alguns anos, poucos, um blog muito afamado, interessante, publicado por gente de peso intelectual, publicou fotogramas dos filmes roubados a um arquitecto há cerca de 30 anos. Ao ver o postal eu comentei, insultando pais, mães, mulheres e ânus do bloguista e dos seus co-bloguistas. Como é óbvio e nem sequer é preciso explicar porquê. E claro que botando o meu nome (mais o email e essas coisas identificadoras). Passado uns meses um simpático investigador, a quem eu até já apresentara um livro, chamou-me a atenção para uns textos seus que acabara de colocar naquele mesmo blog. Eu respondi-lhe "ai V. escreve no ...? então leve lá o link para o meu comentário sobre o que penso de vocês, bloguistas desse tugúrio", algo que lhe tinha escapado. Ele respondeu-me muito incomodado, ofendido até, e depois nunca mais me disse nada. Um outro bloguista dali, que sempre me mandava carinhosamente os seus livros deixou de mos enviar. Publicou o ano passado um, magnífico. E eu lá o comprei, que isso é outra coisa. 

 

O insulto é isto. É um tipo, estúpido ou não, a invectivar outro(s). Coisa entre pessoas, nomeadas e nomeáveis. Muitos dos insultantes anónimos respondem "que lhe interessa saber o meu nome, se sou pessoa desconhecida?", no sentido de não ser personagem pública. Mas nós não somos "personagens públicas", somos pessoas, com nomes. E num espaço conversacional como este é assim que interagimos. Seja para as concordâncias, seja para discordâncias. E muito mais para o insulto. Vem aqui um gajo (gaja?) e diz-me "desonesto"? E nem sequer diz quem é? Um comentador, num recente postal do Pedro Correia, diz que os anónimos animam o blog. Gente a insultar os bloguistas, sem sequer se mostrarem? Isso anima? Isso é bafiento. Pungente. Não é ofensivo. É mesmo pungente.

 

Caramba, que não fique ninguém embuçado nesta sala (de tertúlia). E que, se for caso disso, depois se faça o beija-mão real. E que se cante o fado. E isso sim, anima.

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Não é preciso ser druida

por jpt, em 04.10.18

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Escrevi "O ministro da defesa ainda o é (ele que disse que se calhar não tinha havido roubo em Tancos - estamos a brincar?, não é óbvio o que o homem sabia?)" - num postal de 27.9 (e podia ter sido de há meses), e boto eu sem fontes, mero civil, e ainda por cima emigrado.

O traste lixou-se agora em tribunal: a que horas será preso, é o que me ocorre perguntar? E já agora, a ministra do mar, aquela que nomeia a sócia para gerir os portos (g'anda lata ...), já se demitiu? Irá presa?

Isto com esperança, que ser sportinguista é ser esperançoso, de que ainda haveremos de chegar aos kamovs. Apesar das progenituras anticolonialistas. Devagarinho ..., e decerto que só depois do Celo de Sousa ter caído. Mas haveremos de lá chegar. Até às barragens. Até às barragens chegaremos. A essas se calhar já só em registo de "história". Mas ficarão as "histórias", pelo menos para se reconhecerem os apelidos dos descendentes. Destes socialistas.

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Olivais (e não só) nos anos 70s

por jpt, em 04.10.18

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Inaugura hoje na Casa de Cultura dos Olivais, Lisboa – à Rua Conselheiro Mariano de Carvalho, entre os Olivais Velhos e a Expo – e ficará até 27 de Outubro, esta exposição fotográfica do Sandro (João Alexandre Taborda). É uma memória única – que então fotografar era muito mais raro – da geração lisboeta, olivalense, dos anos 1970s e início dos 1980s, roupas, hábitos, personagens, artefactos usados, e a arquitectura vivida daquele bairro. Pura história cultural, se quiserem. Há dias em que custa estar longe …

Quando o Sandro morreu, há (já!?) um ano, deixei um breve postal – Driol (o grão-diminutivo que nos merecia), e recupero agora um pouco do que dele disse, e que se associa a esta exposição: 

"O Sandro era da “geração acima”, 4-5 anos mais velho. Por isso então a seita dele era outra, esses que a gente conhecia de vista e nome, cobiçando-lhes as motos e as maravilhosas namoradas. Ou pelos irmãos mais novos. Mas, vizinho, também acampava por vezes, e, mais tarde, já nós mais crescidos, ainda mais, já ombreando. O Drinô (como alguém graffitou em fugaz era de influência do “glamour rock”) era um dos tipos mais idiossincráticos que havia (...) 

Mas o que muito marcou a imagem pública do Driol foi o ter ele sido o fotógrafo “oficial” daquela nossa geração: raros eram os que tinham máquina, ainda menos os que tinham dinheiro para rolos e revelações, apenas dois ou três os que tinham o gosto, mas só ele trazia a tiracolo a paixão de fotografar. (...) E fez um arquivo lindo sobre aquela época de “dias gloriosos”.

Nesta foto (a do cartaz da exposição) estava a fotografar os irmãos mais novos da sua geração, os finais dos anos 70s, os putos a descerem (descermos) as ruas nos carrinhos de rolamentos. Em tantas outras tem os outros, as andanças de nós mais-velhos. Voltar ao acervo do Driol é uma delícia, cada um encontra-se e aos seus queridos de então, na beleza da memória. Certo, há uma “patine” afectiva que nos convoca, coisas até da nostalgia. Mas há outro registo, bem mais alargado, pois tem muito mais nesse legado do Driol. Encontra-se a memória da paisagem urbana como foi: as vestes, os tiques, os penteados, as poses – e quão cinéfilo tudo parece, ainda para mais naquele preto-e-branco. As ruas, os carros, as motos, a arquitectura então tão nova.  Mas é ainda mais do que essa memória social. Pois o Driol teve um olhar, amador, jovem de juvenil a júnior, mas muito cuidado e assim tão adulto, sobre a sua geração naquele tão especial bairro. Por isso nessa sua colecção o que nós encontramos não é o retrato daquela geração. É mesmo um auto-retrato, a voz própria de uma “malta”, esses que nos sonhámos “heróicos” naqueles confusos tempos do pós-pós-Abril. E, se calhar, fomos."

 

Vão ver, para saberem (como se que recordando) como foi, como fomos e nos fizemos:

 

 

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A propósito de Bolsonaro

por jpt, em 03.10.18

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Mais dois textos péssimos sobre Bolsonaro, o "Quem tem medo de Bolsonaro" no "Público" e o "#VocêsTambémNão" no "Observador". Ambos higienizam Bolsonaro, até dulcificando-o. O primeiro é mais simples, criticando as deputadas portuguesas por protestarem com o candidato fascista brasileiro mas sem se oporem a Maduro, o títere venezuelano, o que lhes ilegitimará a "virtude" denunciatória. Sim, tem alguma razão, e vários factores justificam a nossa atenção na Venezuela - o respeito pelos princípios democráticos logo à cabeça, a grande comunidade emigrada e lusodescendente, o facto de ser um enorme produtor de petróleo e, claro, a rábula do "Magalhães", mais um item da tramóia socratista que até hoje assombra o nosso país.

Mas este argumento, que é muito comum, tem algo que se lhe diga: é que políticos, articulistas e locutores de redes sociais que se aprestam a invectivar Maduro também se calam face a Duterte, excepto, porventura, quando o pérfido líder do maior país católico asiático insulta o papa; e se protestaram contra o (ex)marxista Mugabe nada dizem face aos desmandos do (nada)marxista Museveni; e se lhes ocorre criticar a teocracia iraniana não leio muitos "militante do CDS" - como assina Borges de Lemos, assim explicitamente associando o seu partido na tralha que alinhavou - a invectivarem a ditadura ateocida saudita, nem a do Qatar, para onde a Federação Portuguesa de Futebol, organismo tutelado pelo estado, contribuiu para enviar o apetecível negócio do Mundial de futebol. Ou seja, se isto é para criticar os zarolhos, então é melhor que o "militante do CDS" que desarticula no "Público" se dezarolhe, tal como os seus concordantes se devem dezarolhar. Porque assim estão a cuspir para o ar, a ilegitimarem as suas "virtudes" críticas, políticas.

O segundo texto, de Rui Ramos, é mais refinado, a expressão alta, editada, em voz de intelectual relevante de uma linha de textos em jornais e redes sociais de figuras menores sobre esta matéria. Confesso a minha irritação, repulsa mesmo, vendo que pessoas que se reclamam de uma direita democrática (ou mesmo de um centro-direita) - os termos valem o que valem, acima de tudo têm usucapião simbólico - diante da erupção de um tipo como Bolsonaro num país que nos é tão relevante (política, cultural e economicamente) como o Brasil, têm como pulsão da escrita não a crítica a esse energúmeno mas sim à dos críticos ao energúmeno. Para Ramos a questão da ascensão de Bolsonaro, tal como a anterior de Trump - assim elidindo que, por menos que se goste de Trump, os discursos de ambos não são compagináveis -,  centra-se nisto: a malevolência dos discursos e práticas da esquerda radical. Isto não é, como faz com muito tino, Luís Menezes Leitão considerar que as modalidades histriónicas de luta anti-Bolsonaro são incompetentes, alienam opositores. Isto é apontar o cerne da questão à esquerda e não ao movimento fascizante. 

Isto tem dois corolários e uma dimensão prévia: o primeiro é, que pela ausência de discursos de políticos, de intelectuais e de sub-intelectuais de direita/centro e até mesmo da esquerda democrática - e decerto que em muitos casos por higiene, pela aversão dos hipotéticos locutores em se verem misturados com o trauliterismo da extrema-esquerdalhada -, se deixa o monopólio do repúdio aos movimentos anti-democráticos às expressões dessa extrema esquerda e da esquerda folclórica. Há o abandono de um campo de (re)afirmação dos valores democráticos a esse corropio de agit-prop. E depois queixam-se que são estes desvairados movimentos que causam e/ou reforçam os fenómenos à extrema-direita. Isto tem algum fundamento? Em tudo isto há mesmo o matizar da bestialidade, que transpira condescendência: "Bolsonaro tem um jeito agressivo e grosseiro", reduz Ramos! Estará o autor a brincar? Ou está a deixar que só entre a tatuada Isabel Moreira e os enverhoxistas Rosas e Fazenda se diga o óbvio: que Bolsonaro é um fascista do piorio, completamente avesso aos valores democráticos - esses mesmos que o centro e a direita afirmam.

O segundo corolário bem que se casa com este, e vem, até por coincidência, no belo texto de ontem de Adolfo Mesquita Nunes,  "A afirmação da direita" no "Diário de Notícias: uma direita politicamente deprimida e intelectuamente deficitária que pensa a realidade em função do posicionamento da esquerda (seja lá o que esta for), esta é que é o pólo dinamizador ("a esquerda não gosta do Bolsonaro?" "então eu até nem digo mal do gajo").

E nisto tudo continua-se a dizer uma semi-verdade que é de facto uma falsidade ("com a verdade me enganas"): que são estas expressões trauliteiras e maximalistas, estas tipas com as mamas e as bundas à mostra nas manifestações, que reforçam os bolsonarismos, que os causam, que é a extrema-esquerda que os "empodera" (como agora se diz em péssimo português). Não é verdade, o que potenciou Trump - fenómeno que R. Ramos associa ao de Bolsonaro - foi, em primeiríssimo lugar, a incapacidade dos republicanos (da direita americana, se se quiser) de promover dentro de si (Trump nem era do partido, convém lembrar) uma alternativa enérgica e consistente o suficiente para enfrentar uma estafada Clinton. Tal como o que reforça Bolsonaro é a incapacidade do centro e da direita brasileira (naquele espectro político demencial) de afirmarem movimentos e personalidades o q.b. significantes. Essa é a verdade factual, não são os guinchos da Isabel Moreira, quais bateres de asas da borboletas no Atlântico Austral, que há limites para isso da "fractalidade" fazer medrar o mal.

Esta esquerda folclórico-neocomunista demoniza os adversários do momento, como o RR avança? Sim. E nós, bloguistas portugueses vimos isso em Portugal, e até podemos sorrir na memória, como Pacheco Pereira do Abrupto era o diabo na terra, a reencarnação de Primo de Rivera ou coisa assim e desde que passou a ser o ideólogo da geringonça regressou ao estado humano. E notei-o, chocado, no meu regresso ao país, nesta constante invectiva dos geringôncicos socratistas aos seus críticos como "invejosos, ressentidos, ressabiados", o tal argumento que imputa deficiência moral ou doença mental (ranço/podridão, raiva) aos adversários políticos, típica modalidade bolchevique. E está espalhado esse tique velho-comunista. Mas, sem rodeios, não é essa a questão importante face ao bolsonarismo.

Finalmente, há o tal ponto subjacente. É que o matizar da relevância bolsonar, esta remetência para uma mera "grosseria", estes sorrisos que se vão vendo nos textos e sub-textos das redes sociais diante de um aparente mero "politicamente incorrecto", esta pulsão da escrita direccionada para a crítica ao críticos e não para a imundície, denota algo de profundo: em muitos, para além do paroquialismo do isabelomoreiracentrismo, há uma muito superficial (para não dizer pior) adesão aos valores democráticos. É isso que sai por todos os poros destes textos, por mais militantes ou simpatizantes do partido de Amaro da Costa, Francisco Lucas Pires ou Mesquita Nunes surjam. De facto e se, tal como o RR escreve, não há grandes diferenças entre Sanders e Trump quanto à valia dos tratados internacionais também não há grandes diferenças quanto à valia dos principios democráticos entre os Fazendas e Mortáguas e estes redutores de Bolsonaro a um atrevido algo grosseiro.

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Aznavour e o rap

por jpt, em 01.10.18

 

Ainda há dias me surpreendi ao ver um cartaz (dos muitos espalhados na cidade) anunciando um seu concerto aqui durante Outubro – um Matusalem em palco. Morreu agora. Cantou viveu até aos 94. Grande vida. E, como aqui se vê, sempre pronto para a crista da onda …

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O Vício Blogal

por jpt, em 27.09.18

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O vício blogal é tramado, um tipo lê as notícias de uns dias e, por mais que diga "tenho mais que fazer, que se lixe ...", cai nas teclas: MRS diz que não saudou o PR americano por respeito à posição portuguesa sobre o multilateralismo. Ou seja, explicita que as suas formas de saudação denotam a posição do país, dado que ele PR. Muito bem. E a posição portuguesa, do Estado e da sociedade, sobre a laicidade, essa conquista da democracia? Pode o PR saudar o Papa neste gesto de "islão", de submissão expressa no beijo ao anel? Não. A "direita" portuguesa, mais ou menos católica, (pelo menos disto) gosta. A "esquerda" portuguesa, entre os descendentes da capela do Rato e a igreja PCP, encolhe os ombros. Está-lhe grata, pela protecção ao governo na cena dos fogos, pela protecção ao regime na cena da PGR - e é estruturalmente avessa à laicidade: eu recordo o meu espanto, então recente torna-viagem, com o sucesso, aplausos e partilhas, de tantos intelectuais compatriotas ao abjecto texto do padre Leonardo Boff a defender limites ao direito à blasfémia logo após o atentado ao Charlie Hebdo. E passeiam-se por aí, a dizerem-se democratas, anti-censura. E os "tudólogos"? Falam do resto ...

Aos 13 na escola li "Esteiros" de Soeiro Pereira Gomes (e depois o "Engrenagem"). Antes lera "Os Putos" de Altino de Tojal (livro que vendia imenso). Chamavam-lhes neo-realistas, havia um Alves Redol (que nunca li) ou um Manuel da Fonseca (que li logo depois e gostei - tenho que lá voltar) e acho que um jovem Cardoso Pires, se não estou em erro. Nas casas de muitos burgueses, e para além de bustos de Lenine e obras de Marx e Engels, constavam reproduções dos desenhos de Cunhal. E de Cipriano Dourado, e talvez outros. E juntavam o Gorki ao Caldwell e ao Saroyan, enquanto desdiziam um bocado do Jorge Amado, "apesar de ...", pois "enfim ...". A coisa era apresentar a todos nós, burgueses, a grandeza e a beleza ética e estética dos outros, esconsos e oprimidos, seus modos de vida e legítimas aspirações. O (neo-)realismo foi saindo de moda, tinha havido até umas polémicas, e poucos quererão hoje saber das mentes e desejos das belas e robustas catarinas eufémias e dos valentes proletas da praça da grève. O "must" de agora, nada (neo-)realista, diz-se, é louvar a ética e a estética dos gajos que metem chicotes pelo ânus acima ... "Épater le bourgeois", seja com a virilidade proletária seja com a do lumpen prostituído, mas nada mais do que isso. Bom para os "tudólogos".

De resto, em 3-4 dias? O ministro da defesa ainda o é (ele que disse que se calhar não tinha havido roubo em Tancos - estamos a brincar?, não é óbvio o que o homem sabia?); a polícia da tropa vê os seus graduados presos; os generais assobiam, quais meros milicianos da administração do rancho. O ministro da saúde manda à merda a democracia e diz que só vai ao parlamento daqui a 6 meses. O PM goza com o ter faltado à "palavra de honra" (mas tudo está bem, há uma entrevista da mãe dele a confirmar que ele é bem educado; e o Ferreira Fernandes, já agora, lembrou que o pai dele era antifascista e anticolonialista, não vá a gente esquecer-se). A ministra do mar põe a sócia a dirigir os portos, é ilegal, mas (também ela) não tem agenda para responder aos jornalistas. Nem para se demitir. O arquitecto Salgado surge em mais uma marosca, e logo tudo desaparece das notícias. Um antigo professor meu publica um texto contra Medina, a propósito da apropriação privada de um miradouro - logo partilhado pelos "companheiros de estrada" naquela "esquerda". Afirma(m) que Medina tudo faz para preparar a cidade para os turistas. Alto, mas não é isso que se critica ao presidente da câmara, essa sua ideologia do "jardinismo", desde há anos? Ah, sim, mas a gente é de "direita", somos só ressabiados. Eles não, agora a crítica é justa (e pós-Robles, já agora: "cá se fazem, cá se pagam").

As deputadas portuguesas fotografam-se contra Bolsonaro. Este é um traste. Um cafajeste, como se dizia nas velhas novelas dos anos 1970s. Aliás, o homem é um fascista, não é preciso outro adjectivo ou outro insulto. Mas as senhoras deputadas não acham que têm, portas dentro, tralha suficiente (ainda que não tão abjecta) para estarem contra? Não querem fazer, não acham que o deviam, uma "usie" contra esta cloaca? E a semana ainda vai a meio. Sabe-se lá o que antes do fim-de-semana ainda virá, neste estertor de regime ...

Mourinho está com problemas no Manchester United. E o tipo que foi do Rio Ave para o Nantes também. Mas o Eder(zito) marcou um grande golo na taça da Rússia. Há esperança.

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(Longa carta, intimista, para os amigos - e conhecidos - reais que botei no meu mural de FB e no meu blog. Deixo-a também aqui, pode ser - presunção e água benta ... - que a algum leitor DOfilo possa interessar.)

 

A "nova" "narrativa" já aí está, anuncia-a o Expresso, nada demoraram: Sócrates como vítima de uma cabala da direita jurídica. Ao que se juntará, muito em breve, outra alínea, a de Salgado como grande banqueiro que tentou tornear os malévolos constrangimentos induzidos pela crise financeira internacional.

Todos os regimes, todos os sistemas políticos, são permeáveis à corrupção e ao nepotismo. Só alguns evoluem para o patrimonialismo e menos ainda para a pura criminalização do Estado. Nestes últimos casos muito pelo silêncio, oprimido às vezes, timorato e/ou corporativo outras, dos cidadãos.

Estou-me a lembrar que há anos o reitor de Lisboa criticou o governo de então. Li um coro de elogios (e de partilhas) oriundo da classe profissional ligada à academia (entre a qual alguns amigos e muitos conhecidos meus). Então havia uma carga fiscal enorme, e tantos deles protestavam (até em conversas pessoais quando eu ia a Lisboa). As críticas à privatização da saúde, objectivo do governo, eram constantes e até preocupadas (envelhecemos, todos nós). Nisso muitos saudaram Sócrates no seu regresso de Paris, feito especialista de Rimbaud e teórico da repressão estatal, até prefaciado por Eduardo Lourenço. Haviam-se apressado a recuperar a excelência do PEC4, maldizendo o demissionismo do governo de então. A ideia de que se pavimentava o seu caminho para Belém era evidente.

Voltei em 2014 a Portugal. Esse meio socioprofissional, os detentores de "capital cultural", estava activíssimo nas "redes sociais". Pouco depois foi efervescente o caso de uma edição da revista académica "Análise Social", dada a tentativa de controlo tentada pelo presidente do instituto editor. E por aí fora: vieram as eleições, legislativas e presidenciais, a formulação inédita de uma coligação governamental à esquerda, o final do troikismo. Bem como atentados na Europa, as polémicas com Brexit, Catalunha, refugiados. E Trump ou o movimento metoo. Bem como situações domésticas, para este meio verdadeiras majordências, como as leis "do piropo" ou da mudança de género para menores. Olhar para a sociedade portuguesa e para a sua "classe de trabalhadores intelectuais" (que não é sinónimo da velha definição de "intelectuais") desta época exigirá um dia (como?) vasculhar o FB (e o twitter), tal como para a década passada exigirá o mesmo para os blogs. Não só, claro, mas também - e lá está a velha questão, como fazer o arquivo das práticas sociais inscritas na internet?

O que vejo agora? O reitor de Lisboa critica o governo. Silêncio neste meio. Correia de Campos, ex-ministro socialista da Saúde critica a deriva do SNS. Silêncio neste meio. A carga fiscal é compatível com os piores anos do troikismo. Silêncio neste meio. A substituição da PGR (a "candidata da direita" como lhe chamou o grão-apparatchik Seixas da Costa) teve os contornos que teve e envia a mensagem que envia, para a corporação jurídica (esta é interpretação minha, claro) e para a sociedade (esta, francamente, é objectiva). Silêncio neste meio - nem sequer um, a la um tardio João Soares, "se a mulher está a fazer um bom trabalho é deixá-la ficar".

Alguns continuam a apontar os críticos do "estado da arte", dizendo-os "ressentidos" (ou "invejosos", "ressabiados"). Um argumento que colou, tanto que é nitidamente um fenómeno social. Eu estou a falar (a olhar, míope que seja) para gente das ciências sociais. Que vêm reproduzindo esta linha de "argumentação". Mas é evidente, no conteúdo dos textos, que não estão a aludir a um "ressentimento" sociológico (um tema na sociologia, e lembro umas belíssimas páginas de Bourdieu, esse sim um "intelectual" como dantes se dizia). Estão constantemente, porque se tornou um mote comum, a aludir aos putativos estados psicológicos alheios, a dar-lhes estatuto explicativo. Ora a gente passa a vida a criticar o economicismo. E o que vemos é a adesão generalizada de "profissionais intelectuais" a discursos psicologistas, ainda mais deficitários do que aquele, ainda mais incompetentes. E fazem-no sem rebuço, sem auto-crítica. E, dada a sua condição profissional, surgem assim como se desnudados e disso impudentes.

Mas, de facto, o que eu vejo, neste meu canto de tomada de pontos de vista, é uma redução gradual do frenesim da opinião politizada neste meio. É limitada, claro, a minha abrangência, mas é o que vejo. Mas mantém-se, ainda e mesmo que gradualmente minorada, a solidariedade com isto. Pelo conforto identitário (a "esquerda" está no poder, dizem). E por derivas corporativas (o governo cria algumas centenas de empregos na área, em modalidades menos precárias).

Mas é evidente que tem que haver mais. O silêncio conivente corporativo durante a década passada pode ter muitas explicações. A adesão no princípio desta década pode ser remetida para a terrível crise de então. Mas, raisparta, que razões objectivas, e mesmo subjectivas, é que sustentam que núcleos socioprofissionais particularmente informados e expectavelmente com um ethos crítico possam continuar a apoiar este enorme sindicato do crime que é o PS? As tradicionais características similares que o PSD apresenta? Não chega para tamanha adesão, para tanta conivência, para, inclusive, muita cumplicidade.

Enfim, este lençol vem a este propósito. Os próximos tempos aí estarão destinados à sedimentação destas "novas" "narrativas" e à da continuidade deste belíssimo e "inovador/reformista" governo. Para mim é machamba que deu mandioca. A pedir pousio.

Ontem inscrevi-me na rede de bibliotecas comunais, uma colecção de BD que faz (e fez-me) salivar. Continuarei a blogar (no meu blog, às vezes aqui no Delito de Opinião e no sportinguista És a Nossa Fé). Sobre esses livros (tipo bloguista "intelectual" e chato) ou minudências que me possam vir a ocorrer.

Sobre o resto, o Portugal que adoro? Deixo. Até pela consciência, óbvia e de sempre, que o que digo nada afecta, nada importa, a não ser como explanação, vaidosa até à encenação, do meu "eu". Associada à consciência que a nós, emigrantes de longo prazo, não nos faz bem nenhum estarmos fora a olhar para o país, que aquilo que nos cumpre e nos é saudável é irmos vivendo o que no nosso cá d'agora nos vai acontecendo. Que dele falem os antropólogos do BE, os sociólogos do PS, os historiadores maçónicos, os estudiosos culturais sei lá o quê, alguns psicólogos etc. e tal e todos eles em vice-versas enrodilhados. Os tais psicologistas.

Apenas uma nota final: aquilo que estes todos vos vão vender agora, em troca do apoio a Sócrates & Salgado, Ltd. - como há uma década o fizeram em troca da lei do casamento homossexual -, é a racialização da sociedade, a criação de categoriais raciais para discriminar os cidadãos. Vejam lá se pelo menos isso, essa javardice, conseguem evitar.

Eu vou ali para a BD. E para a vida.

Como sempre, abraços, beijos, cumprimentos, conforme preferirem.

Zézé, Flávio, José Teixeira

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A transparência de Marcelo

por jpt, em 22.09.18

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João Gonçalves, que fez o Portugal dos Pequeninos e transitou para um afiadíssimo mural de Facebook,  sobre Marcelo Rebelo de Sousa: "(Marcelo) saiu-se com esta charla: "É o meu estilo. Eu entendo que a democracia é isso, é transparência. E quanto mais clara for a intervenção, melhor". Ai sim? Ora alguém que nem a composição da Casa Civil tem no site - para talvez acharem que faz tudo sozinho - e que nem os textos dos discursos publica, para ser mais difícil ser apanhado em falso, é "transparente" e "claro"? Só se for nas límpidas águas fluviais do Centro entre duas mudas de calções de banho.".

Pumba!

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Beaux toujours

por jpt, em 21.09.18

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A expulsão de Ronaldo

por jpt, em 20.09.18

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A expulsão de Cristiano Ronaldo ontem em Valência (nesta ligação vê-se o lance em grande plano, o que as imagens mais comuns não fazem), foi uma decisão totalmente injustificada. Que demonstra perfeitamente o sexismo no mundo do futebol, pois no futebol feminino já vi coisas bem piores do que esta passarem sem castigo. E mostra também o racismo que grassa, tão notório é que a pérfida decisão do árbitro alemão Brych denota o desprezo pelos latinos, vistos como menos-brancos.

Pena que Ronaldo, abatido pelos acontecimentos, não tenha feito a imediata denúncia destas maleitas ideológicas que afectam o desporto-rei.

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Um outing no Muppet Show

por jpt, em 20.09.18

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Vai para aí um arraial feliz, na notícia que dois bonecos Marretas saíram do armário. E logo os mais estupores percorrem a galeria de personagens BD e animação, declarando risonhos "outings" na galeria dos heróis - o pacto de leitura que estes letrados cometem mostra-os bem limitados,  até descendentes daquele tão fora de moda "neo-realismo", não há volta a dar, é o triste fado.

Após 1989, com o final do genocidismo, a esquerda europeia gringou-se e nisso virou identitarista. A sacra aliança operários-camponeses virou mulheres-homossexuais, os livros de Marx foram para as arrecadações e Foucault passou a "ficar bem" na decoração de interiores.

Agora mesmo, com todas estas saudações festivas ao casal de fantoches, ocorre-me - na enevoada memória, pois não vejo um episódio dos Marretas há 40 anos - que a única personagem feminina ("pessoa do género feminino e da comunidade branca", como a descreveria um antropólogo se escrevendo no Público) era a vaca da porca Piggy, uma megera, desleal ninfomaníaca, egocêntrica, obesa desafinada e que, pior do que tudo, azucrinava a cabeça do seu pobre e sofrido namorado ("pessoa do género masculino e da comunidade verde, como o descreveria um antropólogo se escrevendo no Público). Um "must" em termos de estereótipos sexistas ...

Camaradas feministas estamos à espera de quê? Agora que todos louvam a pertinência dos fantoches Marretas não exercerão a vossa crítica ideológica, não apontarão a série como uma vil manobra anti-pessoasdogénerofeminino? Ou a aliança de classe, perdão, de identidades sobreleva-se, a bem da unidade do Partido, coisa do centralismo democrático? E ficar-se-ão no elogio ao casalinho fantoche?

 

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(Postal daqui)

 

O meu amigo João Xavier acaba de publicar estas suas fotografias, de um prédio novo na centralíssima avenida Eduardo Mondlane, em Maputo. Não valerá a pena dizer muito, são mais do que explícitas da era que se vive, em Moçambique na África global. Ao vê-las foi-me imediata a recordação da célebre foto do Ricardo Rangel, tornada ícone da denúncia do racismo colonial (esse que tantos de nós, portugueses, estuporadamente continuamos a negar):

 

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Ao olhar estas novas imagens, não surpreendentes pela realidade que gritam, que essa é óbvia, mas sim pela desfaçatez que demonstram, estanco naquela tão bela expressão moçambicana, o “estou a chorar”.  Como é isto possível?, como decorreu o processo nacional para que se aceitem as aleivosias desta nova interacção de XXI?

Quando nós, portugueses ou europeus em geral, resmungamos com as modalidades, absolutamente predatórias da articulação chinesa com África, e com Moçambique em particular, a reacção local é imediata, aventando que isso é fruto da “nostalgia colonial”, dos tempos em que “nós” mandávamos. Mas é tão óbvio que não é isso. É certo que as relações entre Moçambique (e África) e a Europa (ou o “mundo pan-europeu”, como Wallerstein muito bem especificou) não têm sido absolutamente virtuosas, nem isentas de mecanismos de apropriação, nem decorrem simétricas. Mas é notório que, muito pelos processos de independência africanos mas não só, se geraram nas sociedades “pan-europeias” constatações e conflitualidades, preocupações ecológicas, derivas desenvolvimentistas, ideologias democratizadoras (sistematizadas na “condicionalidade política” que vigorou de facto durante breve período de tempo), e até uma feroz auto-crítica societal quanto às relações com o dantes chamado “Terceiro Mundo”, etc.

Este é um processo histórico, com corolários culturais e ideológicos, que a China desconheceu. E a abordagem que a sociedade chinesa, seu poder e suas empresas, tão articulados, faz a África é tipo “tábua rasa”. Com os preconceitos gritados (e não sussurrados como os de outros), com o descuido da issolidariedade óbvia, numa vertigem de apropriação de desrespeito. E nisto seria interessante perceber, o que exigiria um conhecimento profundo da sociedade chinesa actual, que estratos socioculturais chineses se envolvem na relação com África, e Moçambique, tanto na própria China como nos fluxos de migração sazonal (ou mesmo de assentamento).

E tudo isto é aceite. A troco de quê? De umas pontes, de umas estradas (tudo isso que virá a ser pago, entenda-se, e caro …)? Honestamente esta cena de tamanho profundo racismo, que mais audível (e assim visível) seria se percebendo mandarim, expressa neste apartar de “apartamentos” no centro da capital da cidade, é o grau zero da soberania. Convoca-me a dor d’alma, e nisso a demagogia, assumida: como é que no país de Mabote, de Machel, de Magaia, de Marcelino, de Mondlane, é permitida a situação que a isto conduziu?

(Ok, desabafo feito, podem vir apupar-me de “xi-colono”, saudoso do tempo em que “eu” é que mandava).

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Pasta medicinal Couto

por jpt, em 17.09.18

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Costa chega a Angola - depois de anos de relações difíceis entre Estado. Nestes propósitos ... Nem valerá a pena dizer muito, é um político português ...

Talvez apenas adiantar que fico à espera do tom sobranceiro dos "funcionários orgânicos" que tudo deste Costa saúdam. E que a isto explicarão. Rastejando, claro. Como lhes é habitual.

 

 

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Enfiando a carapuça

por jpt, em 14.09.18

(inquisição)O tribunal da Inquisição, num óle

Ontem botei este texto aludindo à Hungria. O que conheço da actualidade húngara, de uma forma muito flanante, vem-me da imprensa internacional (aproveito, lateralmente, para recomendar uma preciosa aplicação, a paper.li, que permite que cada faça o seu "jornal", escolhendo as fontes - até 10 na versão gratuita, até 25 se pagando - e as temáticas: há anos que assim recebo o meu jornal "Courelas", que podem ver, até para aquilatarem do interesse de constituirem o vosso próprio).

De seguida o Luís Naves botou este texto, criticando o que havia eu colocado, juntando-lhe esclarecimentos sobre o país e a sua opinião sobre a interacção húngara com a UE, assentes num conhecimento vasto. Não vou assumir como letra de lei estas considerações, continuarei a olhar de soslaio para Orban, mas (ainda mais) estúpido seria se não as usasse, de agora em diante, para pensar sobre a Hungria actual.

Mas disto retiro duas ideias: a primeira é a de recordar o molde padronizador da padronizada imprensa global. É possível que haja textos mais compreensivos sobre a Hungria, que bastará aos interessados procurá-los. Mas o leitor mediano, relativamente desinteressado, constrói uma imagem na mescla de fragmentos, quantas vezes lidos/ouvidos na diagonal. E eles reproduzem-se, sedimentam-se, descomplexificam, facilitam e assim nos facilitam a vida. Ou seja, um tipo lê "umas coisas" (para não falar de outra, e rústica, maneira) e sente-se informado, segue todo pimpão.

A segunda ideia que retiro é pessoal. Blogo há 15 anos, 11 dos quais vivendo em Moçambique. Durante os quais tantas vezes me irritei com patetices, assertivas e convictas, vindas na comunicação social, nos blogs e, depois, nas "redes sociais" sobre aquele país. Gente, profissionais e amadores, a botarem com evidente prosápia um feixe de lugares-comuns, descabidos, desconhecendo a realidade moçambicana. E ontem à noite, ao ler o Luís Naves, o que logo me ocorreu foi um "olha eu, a fazer e-xac-ta-men-te o que aqueles patetas todos fazem", nesta mania, volúpia até, de se (me) fazer ouvir, a vã vacuidade.

Está enfiada a carapuça.

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“Nem tudo é bom na Baixa Pombalina. Cheia de gente durante o dia, quando o comércio atrai fregueses e os ministérios lhe dão vida, de noite fica entregue aos velhos que uma lei de arrendamento urbano ali permite viver por dois tostões, contribuindo para que os senhorios não possam, ou não queiram, renovar os imóveis. A sangria populacional é o resultado desta legislação aberrante. Os jovens oriundos da Rua dos Sapateiros, da Rua dos Retroseiros, da Rua dos Correeiros, foram forçados a ir para Benfica, Lumiar, Carnide. A cidade de Lisboa viu desaparecer, desde 1960, quase um terço da população. A freguesia dos Mártires, outrora uma das mais nobres, tem apenas 341 habitantes”.

 

(Maria Filomena Mónica, Passaporte: Viagens 1994-2008, Aletheia, 2009, pp. 46-47).

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A Serena e o egípcio

por jpt, em 13.09.18

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As “feministas” de hoje (acompanhadas de uns pobres patetas que também assim se pintalgam) continuam a rugir no sofá contra o árbitro de ténis machista porque este persegue as mulheres (negras, ainda por cima), como se comprovou ao ter penalizado a número 1 do ténis (negra ainda por cima) tal como o fez ao número 1 do ténis (apesar deste ser branco), um breve episódio deste final da “estação estúpida” que tanto assim se mostra viva nestes identitaristas.

Comparativamente os efeitos de outra notícia mostram bem a hipocrisia deste feminismo (racialista) que para aí anda. Uma pobre alma egípcia foi trabalhar para um hotel na Arábia Saudita, estupidamente filmou-se a comer com uma colega (atenção, não é comer a colega, é comer com ela) e colocou o filme numa rede social (vale a pena ver o filme, na sua candura sem-gosto). Foi preso, pois ali não se pode comer com mulheres desacompanhadas!

As “feministas” neo-comunistas e os pobres patetas pintalgados  dizem algo, afadigam-se em partilhas, em veementes protestos? Nada – a agenda deste lumpen intelectual é o “afrodescendentismo”, que se lixe o egípcio (apesar dele próprio ser afrodescendente mas que interessa isso, o que vale é ser “negro”, o resto vale nada) mais a atrevida da árabe, não é assim?

A notícia ainda é mais interessante, pois o malandro do egípcio não só é acusado de ter … comido com a colega como também de desempenhar funções vedadas aos estrangeiros, isso de trabalhar num hotel e ter acesso ao pequeno-almoço. Os camaradas sindicalistas, herdeiros do internacionalismo proletário (ainda que nem todos gostem de “”escurinhos”)? As boas almas que transformam todos os imigrantes na Europa em refugiados? As eurodeputadas que nazificam todo os que se opõem à abertura de fronteiras, e querem restringir direitos aos imigrantes? A clique de tudólogos e seus admiradores sempre atreita a criticar qualquer proto-desmando dos EUA/UE/Austrália e ilhas adjacentes (safa-se o Canadá) com os “refugiados (económicos)” que ali/aqui acorrem? Alguém desse núcleos diz algo sobre estas condições, estas barreiras laborais? Nada. Que se lixe o sacana do egípcio, e os como ele. Não desrespeitasse a lei e a identidade cultural lá do sítio.

 

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Clima

por jpt, em 13.09.18

 

Um bom discurso de Guterres sobre as alterações climáticas. Duas notas, sobre a produção e a recepção. O mais relevante de tudo é compreender-se (no sentido de se aceitar a plausibilidade) que as informações sobre este processo são muito filtradas, surgem minoradas: por um lado, o secretário-geral da ONU tem que tentar dialogar com uma miríade de interlocutores, se radicalizar ("escatologizar") o discurso perde a hipotética eficácia junto de muitos eixos da audiência. Mas há muito mais do que isso: os organismos especializados da ONU filtram a informação disponível. E os centros de investigação que os alimentam também o fazem - e muito porque perspectivas muito "pessimistas" têm efeitos perniciosos no mercado de financiamento. Os técnicos e cientistas usam, há anos, a auto-censura, dulcificando projecções para tentarem manter um diálogo frutífero com os poderes políticos (em especial os multilaterais). E no complexo institucional mundial os quadros mais radicalizados sobre esta questão - muitos devido ao simples processo do "tomar conhecimento" - vão sendo afastados dos "centros" dos organogramas. Isto são práticas com décadas. Ou seja, a situação é muito má mas ainda deve ser pior do que se anuncia, dada a confluência destes filtros todos. Para mais, as previsões integram desenvolvimentos tecnológicos que ainda ... não estão. Apesar de já haver alarme nas elites institucionais estas ainda vivem num optimismo quase suicidário.

 

A outra questão é a da recepção. Nós, os cidadãos, não queremos ouvir falar de fenómenos que nos perturbem as perspectivas existenciais. Catástrofes ocasionais, crises epifenomenais, até animam o quotidiano. Questões estruturais já é outra coisa, são por demais complexas, cansativas, porque preocupações perenes. E, neste caso, por demais angustiantes. Sendo assim intrusivas, obstáculos ao rame-rame. Por exemplo, e ainda que português, o secretário-geral da ONU não é particularmente acompanhado pela imprensa nacional. Mas o CR7 sim. No passado sábado em Lisboa cerca de 20 000 pessoas foram votar para um presidente do Sporting. Mas apenas algumas centenas desfilarem na marcha pelo ambiente. Algo de estranho se passa nas mentes das pessoas, no como hierarquizam as suas prioridades. O anterior e o actual governo, em confluência que expressa o acordo social sobre a matéria, afadigam-se em projectos de exploração de petróleo e gás, em nome da riqueza e desenvolvimento do país. Correntes de pensamento ditas liberais negam a plausibilidade destas alterações climáticas advindas da industrialização - lembro do meu estupor, há mais de uma década, quando surgiram os liberais na internet portuguesa, e acima de tudo no blog Blasfémias, o chorrilho incessante de asneiras sobre a matéria, acicatadas pela discussão do protocolo de Quioto e no apoio ao bushismo, de facto assentes no inculto dogma, que julgavam o cerne do liberalismo, "o entrechoque dos interesses individuais é virtuoso" e como tal nada de tão mau disso pode surgir. 

 

Dentro de algumas décadas analisar-se-á esta nossa época, mundial. E decerto que uma das perguntas cruciais será a do "como é que tanta informação, tanta formação, tanta riqueza, promoveram tamanha alienação"? Vai ser muito difícil explicar. 

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A Hungria e o social-fascismo

por jpt, em 13.09.18

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Face à longa deriva húngara contra os princípios e tratados que sustentam a União Europeia, o Parlamento Europeu votou um excepcional procedimento contra o governo de Orban, o decano da extrema-direita no poder no interior da UE. É um momento fundamental, a defesa de uma democracia húngara mas, mais do que tudo, acto (e nisso também símbolo) de combate à vaga anti-democrática europeia - para cuja definição o termo "populismo" é manifestamente insuficiente.

O PCP votou contra. Pode surpreender se recordado que Orban já em jovem militou contra o líder comunista Kadar. E que foi o desabamento do regime húngaro o toque de finados do "bloco de leste" em 1989 - quando a Hungria abriu a fronteira com a Áustria e aconteceu o imediato êxodo que teve "efeito dominó" -, que culminou na desagregação da URSS, esta ainda este ano louvada por Jerónimo de Sousa. Ou seja, à primeira vista nada associaria o PCP ao actual poder húngaro, e até se poderia perspectivar um acinte simbólico.

Mas este voto é relevante por duas vertentes. A política é óbvia, o PCP diz não reconhecer à UE autoridade e legitimidade sobre direitos humanos e democracia. Na realidade o PCP refuta autoridade e legitimidade à UE, é só isso. Expressa, neste momento tão simbólico, a sua aversão à união "pós-confederativa". Sublinhando que temos um partido no bloco político governamental que é anti-UE. E não há formas retóricas que o possam esconder, quando nem para votar contra um governo de extrema-direita o PCP cede nesse princípio.

A segunda questão é ideológica, de até pungente cegueira ideológica. Ao refutar à já algo acossada UE qualquer legitimidade política para afrontar a vaga anti-democrática, o PCP está, 80 anos depois, a reciclar a Terceira Internacional Comunista. Na desconsideração das democracias, em particular dos sociais-democratas, como "sociais-fascistas", não os apartando dos movimentos nascentes nazi e fascistas. A história foi o que foi, foi vivida e foi escrita. O PCP nada disso retirou.

Um último ponto: o PCP sempre teve fama (e algum proveito) de ser ortodoxo e monolítico. Este voto de ontem mostra bem que isso (já) não é verdade, pois são evidentes as contradições. Devidas a luta de facções internas ou mera deriva em cabotagem, o futuro próximo o dirá. Pois é uma total contradição de termos, políticos e ideológicos, viabilizar um governo socialista (efectivamente "social-democrata") - que não é uma "frente popular", será muito mais um "compromisso histórico" -, pois "contra a direita". E num âmbito europeu considerar que este tipo de articulação é impossível, que os poderes democráticos não têm legitimidade para enfrentarem a "(extrema)direita". É um desnorte.

 

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Antropologia

por jpt, em 11.09.18

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Ignorantes todos o somos. E um francês avisou, há tempos, que quanto mais conhecemos mais percebemos o quanto ignoramos. A ignorância é assim um estado natural (universal), não há volta a dar-lhe.

 

Brutos todos o somos, primatas omnívoros aos quais cresceu o órgão da angústia devido à vertigem de sermos bípedes (se não foi o Desmond Morris a hipotisar esta, bem que poderia ter sido). É assim também um estado natural (universal), tal como o das porcas que torcem o rabo.

 

Agora, pirosos não. A piroseira é já um estado da Cultura, um ganho civilizacional uma particularidade que é conquista da História. 

 

Serena Williams estava a receber conselhos do seu treinador, coaxam os símios. A Serena Williams estava em coaching com o seu couche, pirosam os pirosos.

 

É assim a Evolução Humana neste Antropoceno.

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O Brasil brasileiro

por jpt, em 03.09.18

 

"Vamos fuzilar" é a mensagem deste fascista, candidato presidencial que se calhar ganhará, recebida com guinchos e ululos pelos seus apoiantes. O Brasil será um país mais ou menos incompreensível e abjecto (aquela sessão parlamentar de demissão de Roussef mostrou um mundo execrável): país com uma sociedade assassina, devastadora da natureza como poucas, e fazendo-o com orgulho desmedido, mergulhado numa pandémica corrupção política, vergado a uma incultura abissal, alçando as seitas religiosas ao poder político, pequena potência com patéticas aspirações imperialistas.

Sei que há profundas relações históricas e muitos portugueses e seus descendentes por lá habitando. Mas é já momento de reconhecer, daquela amálgama pérfida não virá "nem bom vento, nem bom casamento". Deixemo-nos de "afectos", bons para turismo sexual ou para os pobre monófonos, e distanciemo-nos, como Estado e como país, daquele charco de miasmas, daquele verdadeiro Brasil brasileiro. E sim, também estou a falar de políticas de imigração.

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O PREC

por jpt, em 02.09.18

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MRS mergulha nos rios e a "esquerda", que tanto lhe gozou e lembrou outros mergulhos tais quais, nada diz; MRS, desvairado, troca de calções em público e a Malta Central, antes implacável com o guarda-roupa da mulher de Cavaco Silva ou, agora, com a malha da de António Costa nas costas da cadeira, nada diz; MRS deixa-se entrevistar na Pastelaria Suíça, mastigando enquanto fala e a "esquerda", ainda hoje "indignada" com o bolo-rei de Cavaco Silva, nada diz. Tamanha calmaria não deixa dúvidas, estão-nos a cantar uma ladainha vichyssoise enquanto decorre este PREC (processo reaccionário em curso): a instalação de um juiz maneirinho para o caso Sócrates e de um procurador-geral manso, que salve Salgado, e respectivos tentáculos. É o verdadeiro bloco central a funcionar, uma mão lava a outra, cada nicho com a sua agenda e lealdades, unidos nessa tarefa que lhes é prioritária, safar os seus, animar o "comboio descendente". E o pior é que a maioria de nós todos rebola-se de prazer, d'"afectos", com esta nojeira. E dos outros, os que torcem o nariz ao fedor, dizem-nos, seguindo a cartilha actual, "invejosos", "ressentidos", assim portadores de mal moral. Ou mesmo "ressabiados", já mesmo sob doença física, rançosos a metastizarem. É o tique de antanho, os discordantes têm maleitas, mentais e físicas. E é assim que vamos. Ou, de outra forma, que ides. ("Pai, não escrevas palavrões no FB e nos blogs").

 

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A guerra da Procuradoria

por jpt, em 31.08.18

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O editorial de Eduardo Dâmaso na revista Sábado 

 

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A pluma conivente

por jpt, em 30.08.18

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Julgo que este administrador integrou um governo ao qual Sócrates pertenceu. Socialista, passou a década seguinte botando na imprensa e no bloguismo, e cruzando altos postos. Nunca aflorou, escavando-a, a temática socratiana. Não lhe terá ocorrido. Um tipo tira a conclusão óbvia: foi conivente (cúmplice não o posso afirmar, sem provas seria difamação dizê-lo) com aquela ladroagem, com todo o nepotismo e patrimonalismo (ou então é um estúpido, pois não percebeu nada apesar de tantos indícios e de frequentar - e de que maneira - o poder político). A única coisa que lhe interessa retirar do momento actual, em registo de miserando "achismo", e assim de total inépcia intelectual, é que a "direita" (à direita de quê, do seixascostismo?) tem uma "candidata" contra os pintos monteiros do PS.

 

Há algumas semanas Santos Silva, outro que tal, entrevistou-se no Expresso e disse sobre o passado recente do PS e seus governos (dos quais julgo ser ele totalista desde Guterres) que não faz "julgamentos éticos" do passado. Um aldrabão militante, pois o que se exige, e sabe-o bem, são julgamentos (no sentido de avaliações críticas) políticos, sobre o funcionamento das instituições estatais e da sociedade civil (em particular os partidos) face a estas necroses patrimonialistas. Esta gente continua no seu incessante esforço de obscurecer - pelo adormecimento da opinião pública e através da obstrução ao funcionamento da justiça - as práticas criminosas do partido a que se associaram. São cúmplices (agora sim) desse obscurecimento do real, são coniventes com a criminalização do Estado português.

 

Há algum tempo sobre esta loquaz pluma conivente aqui utilizei o termo "colaboracionista". Com este estado de coisas. O bom do Pedro Correia, sempre exemplo de elegância, chamou-me a atenção, pois o termo está de tal forma semanticamente conotado (com a associação ao nazismo) que lhe pareceu exagerada e descabida (e talvez improdutiva) a sua utilização para com o antigo embaixador e secretário de estado. Tive que concordar com o nosso coordenador, sempre exemplar. Mas discordo agora, e radicalmente: esta investida do administrador socialista, cavalo no jogo de xadrez para o amansar da procuradoria-geral da república, é um vil acto de colaboracionismo. Com a ladroagem estabelecida. 

 

E depois dizem que são de "esquerda". Esquerda o quê? ...

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O último passo na Portela

por jpt, em 29.08.18

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É assim no aeroporto da Portela, uma execrável sala de fumadores, com uma extracção de fumo praticamente inexistente, e sem higiene. A empresa à qual o Estado concessionou o negócio aeroportuário deixa esta imagem do país – e para os que confundam a prevenção do tabagismo com o mero javardismo vou antecipando, enquanto murmuro desde já os impropérios merecidos, que vão lá ver o acesso à internet do aeroporto da Portela (agora nomeado segundo o candidato luso a generalíssimo), escrito num imundo portunhol – isto num país onde os maçónicos produzem textos sobre “o potencial económico da língua portuguesa” e os altos quadros ADSE se ofendem com a tradução simultânea dos representantes da Guiné Equatorial … Ainda bem que (me) prometi não escrever “palavrões”. Nem um mero “merda”.

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A minha filha e a minha irmã têm-me repetidamente exigido que não escreva "palavrões" no blog/FB. Aceito agora. O governo anuncia redução fiscal aos emigrantes que retornem: já leio inúmeros a botarem contra nós, que nos baldámos do país, quais veros traidores; e leio vários opinadores, até autores, sempre prontos (e bem) à verrina contra a corveia que os encargos fiscais por cá são, destinada a alimentar a mesquitamachadose, mas agora a invectivarem esta redução fiscal; e num pais que nunca teve uma poltica demográfica mas teve, e muito, uma apropriação geracional da riqueza, com o escandaloso esbulho que o pós-25 de Abril fez ao futuro, é vê-los a criticar parcas medidas para captar mão-de-obra que pague impostos (e não os imigrados vítimas do "dumping" social que os defensores dos "refugiados" tanto julgam adorar). Saiba essa gente, que me reduz a nacionalidade por ser emigrante, e que se está nas tintas para as curvas do país em nome das suas doutas preferências do dia, que não direi palavrões. Deixo-lhes mesmo, aos agora tão incomodados com as reduções fiscais anunciadas para os miseráveis retornados que andaram lá fora a explorar pretos (afrodescendentes), (pérfidos) brancos e gentes de várias outras etnias, um poema do tão português (e vindo de Durban julgo que nunca mais cruzou a fronteira daquele enclave onde lhe botaram a pitoresca estátua) Pessoa:

 

Alma de Côrno

 

Alma de côrno – isto é, dura como isso; 
Cara que nem servia para rabo; 
Idéas e intenções taes que o diabo
As recusou a ter a seu serviço –

 

Ó lama feita vida! ó trama em viço!
Se é p’ra ti todo o insulto cheira a gabo
- Ó do Hindustão da sordidez nababo!
Universal e essencial enguiço!

 

De ti se suja a imaginação
Ao querer descrever-se em verso. Tu
Fazes dôr de barriga à inspiração.

 

Quer faças bem ou mal, hyper-sabujo,
Tu fazes sempre mal. És como um cú,
Que ainda que esteja limpo é sempre sujo!

 

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O memorial dedicado ao escravismo

por jpt, em 18.08.18

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(Jardim da Memória, memorial dos escravos na Ilha de Moçambique - power point alusivo de Ana Fantasia e Pedro Pereira Leite. )

 

Tanto a proposta de um novo museu municipal sobre a expansão portuguesa como o debate sobre um monumento/memorial dedicado ao comércio escravista continuam, em particular sediados no "Público", nisso mostrando o quanto isto se encontra no âmago da intelectualidade bloquista, residente na redacção daquele periódico. Hoje sai mais um artigo, Quem tem um direito a erguer uma estátua?, de João Figueiredo, texto defendendo a construção de um memorial aos escravos ("pessoas escravizadas", como se intitulam no artigo, é, pura e simplesmente, um ademane apatetado, típico da novilíngua blocal).

Levanta questões interessantes: também já o havia pensado, num país cheio de monumentos às ceifeiras, pescadores, etc - e agora até ao surfista, ainda que este num registo diferente -, figuras típicas e identitárias, assim celebradas na sua condição de historicamente (sobre)exploradas, verdadeiro "sal da terra", nada opõe a que se "recorde" e "vivencie" o tétrico historial da escravidão. E, acima de tudo, que se contribua para integrar essa história na identidade portuguesa, de forma socialmente significativa. Importa-me mais como se monumentalizará isso, num país onde há "intelectuais" (ou pretensos letrados) que ainda se iram com uma "Casa do Motor" de Cabrita Reis ("não é arte" dizem, doutos), mas nem tugem nem mugem com a estátuazita pirosa e anacrónica de António Vieira (e foi tudo discutir a propósito do paupérrimo texto invectivador de Alexandra Lucas Coelho - uma linha de irreflexão que Figueiredo aqui ressuscita - mas ninguém resmungou com aquela tralha plantada no meio de Lisboa em 2017) e até gozam com o busto de Ronaldo ao Funchal, "porque não é parecido" e "é feio", como se o gozo não fosse devido à patética ideia de meter um busto num equipamento público como um aeroporto. O formato do monumento aos escravos não é importante? Vai ser. Porque forma é conteúdo. E também o será na medida em que daqui a algum tempo estes racialistas, de facto racistas, virão dizer, com toda a certeza, que a conceptualização do memorial deverá ser feita por um "afrodescendente", pois só um deles poderá "sentir" e ser capaz de "representar". Esperem-pouco.

Depois há o resto. Estamos a enfrentar gente que tem concepções políticas diferentes, é uma luta ideológica. Que será prolongada e persistente. Para esta corrente política há a "comunidade branca" e as "comunidades racializadas", como dicotomiza o autor deste texto. São dois modelos de reflexão sobre a sociedade, são dois modelos de intervenção política, são dois modelos de concepção de indivíduo. Este ideal de "comunidade", de sociedade feita de comunidades prioritárias, logica e socialmente, não é obrigatoriamente anti-democrático, ou seja, os seus utilizadores não são obrigatoriamente anti-democráticos. Adequa-se, hoje, muito às sequelas do estalinismo-maoismo mas a elas não se reduzem. Mas convirá perceber, no meio desta boa causa do "coitadinhos dos tetranetos dos traficantes de escravos", perdão, "dos tetranetos dos escravos", se queremos dividir a sociedade em "comunidades" ou se queremos incrementar o universalismo. Se temos que pensar e actuar como os americanos (os que teciam loas à "rainha africana" Obama) ou como os brasileiros, que àqueles copiaram, ou se temos e podemos continuar na senda de outros princípios analíticos e programáticos, que têm mancamente vigorado, e que na política assumimos desde que deixámos o corporativismo (do qual este comunitarismo de época é mero aggiornamento).

Finalmente sobre este texto. Para além de clamar isto da "comunidade branca" (vs "comunidades racializadas") convirá lembrar uma coisa, face ao que o autor quer deixar implícito (não o explicita para depois poder negar que o disse, estratégia retórica nítida): não há apartheid em Portugal. E quando surfamos este tipo de implícitos estamos no grau zero. Na mera demagogia. Um dia, mais tarde, haverá, decerto, um monumento ao Demagogo. Aliás, temos as cidades cheias de toponímia dedicada a demagogos. Está na altura do monumento geral. Ou, utopia, esperemos por um memorial. Para as gerações futuras, quando a demagogia for uma mera memória histórica. Falta muito, pelos vistos.

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Grand Empereur

por jpt, em 18.08.18

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Esta semana no dia feriado, um almoço opíparo, convidado para uma celebração de vida de antigos combatentes: uma extrema cachupa, culminada com um cognac de belíssimo coturno, "para uso exclusivo das forças armadas" (como está carimbado no rótulo, na vertical à direita, comprove-se na fotografia), saído há exactamente 50 anos de uma messe de oficiais, desde então aguardando o hoje.

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A cimeira da internet

por jpt, em 18.08.18

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Este homem esteve em Lisboa em 2017. Agora, por incritérios irracionais, vai uma barulheira por causa de um convite parecido. Puro machismo: se um "facho" homem vem tudo está bem, se uma "facho" mulher vem tudo está mal.

Entretanto, se alguém me conseguir explicar, à luz de uma visão democrática, a pertinência do Estado financiar uma actividade privada e decidir sobre quem nela pode participar eu juro que tentarei perceber, no meio deste veraneio.

Dirão que é "política". Não, não é. De facto é mais profundo do que isso, é mesmo "sociedade". É a prevalência do estatismo. E os "democratas", os "antifascistas" pois "antilepenistas", concordam, praticam, convocam, este feixe de práticas: o "Estado", seus funcionários ou avençados, financia e assim decide não só o "quê" mas também o "quem". A Le Pen fede? Fede. Mas isto, esta maneira de ver a vida, ainda fede mais. E não é lá em Paris de França, é "mesmo aqui ao lado".

 

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