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Hoje o Tintin faz 90 anos, que bela idade. E por ele parece que o tempo não passa. Continua lindo, enérgico, cavalheiro pois cavaleiro dos pobres e desprotegidos. E tão actual - acabei de reler (pela quantésima? vez) "A Orelha Quebrada", um espanto do tão contemporâneo que é, sendo também jovial, arte de associação que se perdeu.

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E foi aqui, no Petit Vingtième (jornal católico. Ou seja: belga) de 10 de Janeiro de 1929 que o Tintin se apresentou. Na sua viagem ao país soviético. "Anti-comunista" disseram-no, como se isso defeito e não extrema qualidade. E por isso alguns, foucauldianos tapiocas-alcazares, ainda o invectivam, apontam-lhe pústulas e rugas, inventando-lhe outras ditas malevolências. Comemoro-o, sempre: hoje relendo, com a alegria de sempre, "As Sete Bolas de Cristal" e "O Templo do Sol". Mergulhando, com felicidade, naquela espantosa actualidade.

Deixo aqui Hergé, o avatar de Tintin, a contar como apareceram:

Viva o Tintin. 

Viva Hergé.

E viva eu ...

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E para quem tiver meia hora para dedicar à história aqui deixo

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Celo de Sousa

por jpt, em 08.01.19

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A seguir a Sócrates, Celo de Sousa é o político de expressão nacional que mais abomino no rincão. Ou seja, o que julgo pior fazer ao país. Sim, pior do que os corruptores siameses Campelo/Portas, ou o insuportável Louçã, o stôr Nogueira ou o "florentino" (as known as filhodamãe) Augusto Santos Silva. Ainda assim surpreende-me a baixaria (e é difícil que um PR que muda em cuecas em público possa baixar mais baixo) a que ascendeu esta semana passada. A minha atenção para o facto é convocada por um comentário aqui no DO. Na mesma semana em que, em verdadeiro delírio popularucho, telefona em directo para a estreia de um programa de entretenimento televisivo - certo, a apresentadora é uma balzaquiana interessante, mas menos apetecível do que a do concorrente "Praça da Alegria", já que o assunto é convocável -, os serviços de Celo de Sousa esqueceram o falecimento de Joaquim Bastinhas, figura relevante da cultura nacional. Googlei e confirmei. Bastinhas, exímio cavaleiro, e genro do incontornável Comendador Nabeiro (que tive a honra de conhecer em Maputo, quando integrou uma comitiva de um predecessor de Sousa), era uma figura popular e expoente de uma prática cultural tradicional portuguesa. Se fosse um futeboleiro Sousa iria abraçar a sua prole. 

Mas o BE resmunga? O PAN protesta? Celo cala-se. E telefona à "Cristina". O povo, em especial os seniores, demente ou proto-demente, rejubila. Os outros? Já lá não estão.

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Preconceitos e Judite de Sousa

por jpt, em 07.01.19

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Nos dias actuais vigora a ideia de que não se pode ter preconceitos - algo que parece ser sinónimo do iluminismo, qualquer coisa como o cume da evolução da inteligência humana, da razão. E, assim sendo, urge que deles nos depuremos. E isso deve ser exercido também nas formas de tratamento, como nos dirigimos aos outros, como os nomeamos. Mesmo em relação aos que nos são mais próximos. Pois essas formas estão impregnadas de desvalorizações, relações de poder implícitas ou explícitas, categorizações que nos hierarquizam e a tantos amesquinham, mesmo  violentam. E nisso, por vezes, somos surpreendidos com as oposições que, cândidos, geramos. Muito me lembro do meu espanto quando, há cerca de 15 anos, uma colega antropóloga, feminista radical, me invectivou violentamente por eu ter referido, com evidente desvelo amoroso, "a minha mulher". "É tua propriedade? és dono dela?", clamou, La Pasionaria do género ... Eu ainda tentei contribuir, anunciar a minha certeza (empírica até) de que me seria dedicado aquilo do "o meu marido" (ou até o mais coloquial "o meu homem"). Mas de nada serviu essa tentativa de defesa, e a inexistência da minha auto-crítica pública por esse "desvio de direita (machista)" esfriou o nosso relacionamento.

Parece bonita, sob boas causas, esta depuração da linguagem, o extirpar dos preconceitos que habitam, insidiosos, na placidez das formas de tratamento, reprodutores da ignomínia passada e presente . Mas, em absoluto, não é. Sê-lo-á se com "conta, peso e medida", aquilo do bom senso. Eu faço o culto dos preconceitos e vejo, com agrado ou sarcasmo, consoante quem observo, como os outros o fazem. Quantas vezes inconscientemente. Melhor dizendo, quase sempre inconscientemente.

Exemplifico: detesto o tratamento "tio" se fora da família. Quando os filhos dos meus amigos medraram até à idade púbere lá chegava eu de férias a Lisboa para aturar a pantomina burguesota do "olá tio". Bufava de raiva: fui tio aos 4 anos, tio-avô aos 30, tenho sobrinhos que cheguem, e até sobram (literalmente falando, pois espalhados pelo mundo), não preciso de acrescentos. Cresci, entre esses tais velhos amigos, ensinado a tratar-lhes os pais pelo primeiro nome (na terceira pessoa mas pelo nome). E agora eles educam os filhos na tiozice? Foi difícil ajudar a minha filha a calibrar o entendimento face a esses meus velhos amigos: "tio" é tabu; há aqueles a quem se dá o "tu" e aqueles a quem se dá a terceira pessoa, distinção que é feita caso a caso, de modo fluído, inconceptualizável. Pois esta tiozice, disseminada nos anos 80s na pequena-burguesia (na altura não se dizia classe média), terá razões. Mas não temos que as seguir. Ou seja, podemos seguir outras formas de tratamento. Entenda-se, outros preconceitos ...

Por essa década apareceram outros "marcadores de classe", estratégias ascensionais. Em muito jovem uma muito apetecível beldade da vizinhança informou-me que os homens não podem usar meias brancas (nem dizer peúgas, mas essa era ideia mais antiga). Grassou a piroseira de que só se cumprimenta com um beijo ("dá cá o segundo, que eu sou dos Olivais", disse centenas de vezes) e outras patetices parecidas. E, nestas coisas da fala, algum tempo depois brotou talvez a pior de todas, que me convoca iras sanguinárias, vertigens fuziladoras: a elisão do possessivo relativo aos pais. Da mercearia ao consultório médico perguntavam-me "a mãe precisará de ...?" e eu sempre a resmungar "a mãe de quem?, que por aqui há filhos de muitas mães" (como, e muito bem, aprendi na tropa), ou por todo o lado "então como tem passado o pai?" e eu a embrulhar o peludo palavrão num azedo "o meu pai? (será dele que está a falar?)". Enfim, sempre falei do "meu pai" e falo da "minha mãe" e de certeza que não é palrar sobre "o pai" e "a mãe" que lhes azuleará o sangue ou doirará antepassados e descendência. E, mais, muito gosto de os referir como o "meu pai António" e "minha mãe Marília". Mas esse é o meu gosto. Dirão os que se julgam mais puristas que só se tem um pai e uma mãe, tornando redundante o possessivo. Pobre ignorância, reduzindo parentesco a consanguinidade, incapaz de olhar a sociologia: até pela disseminação do divórcio, e pela sua legitimação moral que é motriz de afectividades, generalizou-se a pluralidade paternal e maternal.

O que acho piada é que todos estes modos são também gozadas por muitos. As "bocas" aos "tios", aos arrivismos, à construção de sotaques - ainda que todos nós construamos sotaques e os moldemos aos interlocutores, procurando fundi-los para episódicas osmoses ou preservando-os para demarcação das distinções. Ora estas reacções negativas, tantas vezes achincalhadoras, são meros preconceitos. Conservadores, e do piorio. Pois estas tais estratégias ascensionais, mesmo que sob formas um bocadinho patetas, até kitsch, mostram a legitimidade da mobilidade social. E essa é boa, é a democracia, a república de cidadãos. Mas, paradoxalmente, convocam a verrina de muito boa gente - que depois também segue outros ademanes identitários -, principalmente, mas não só, num mundo "esquerdinha". Que gozam estas práticas sem perceberem que apenas seguem outros preconceitos. Acima de tudo o que subscreve a sociedade de "antigo regime", isso do "nasceste sapateiro nunca tocarás rabecão" - a não ser que tenhas um extremo talento, aquilo do "génio", que te permita ascender, romper, mas só tu, a natural ordenação de classes. E como tal "nada de falares ou de te comportares acima da tua condição". O que restou da "esquerda que ri" é só isto, preconceituosa, reaccionária. Policiesca.

Vem tudo isto a propósito da sanha generalizada contra Judite de Sousa. A senhora publicou um livro. Fez uma sessão de apresentação. Publicou fotos dessa sessão. Numa delas colocou uma legenda, tipo "em família, eu, mãe, irmã, a senhora cá de casa". Esta última é a empregada doméstica. É negra. Cai o Carmo e a Trindade. Acusações de desrespeito. De racismo. Chego a isto porque o jogador de futebol William Carvalho intervém na querela invectivando a jornalista por não dar nome à senhora em causa. Judite de Sousa não nomeou a mãe e a irmã. Isso está bem - repare-se, por mero preconceito nosso, habituados a que não se digam os nomes dos familiares. E utiliza uma velha expressão, que não tem origem nem conteúdo racial, para descrever empregados domésticos com os quais se têm grande intimidade. O trabalho doméstico é muito complicado, e integra situações muito injustas. Mas essa é uma situação geral, de sociologia (e de direito) do trabalho. Não se pode dizer que seja este caso, que a jornalista tenha um comportamento ilegal (ou imoral) para com a sua funcionária. O trabalho doméstico também muitas vezes cai em relações complexas, de patrocinato (de "paternalismo", como se costuma dizer), que podem violar os direitos dos trabalhadores. Mas também nada disso se pode adiantar neste caso. 

Judite de Sousa apenas usa uma velha expressão, não discriminatória (de facto, já que as pessoas vasculham a língua para imputar sentidos implícitos, saberão o que quer dizer "senhora"?), para integrar a sua "empregada doméstica" no âmbito familiar, as 4 mulheres. As 4 senhoras. Visto de longe é um pequeno acto de ternura, ou companheirismo, que cruza relações contratuais. Mas a outra senhora é negra. E como tal tudo isso se torna condenável, insuportável. Porque é preciso denunciar, seja lá o que for. Principalmente se houver "raça" à mistura.

A reacção generalizada a este pequeno gesto torna o "fait-divers" num óbvio sintoma do estado da arte aí. O policiamento do linguajar, o afã purificador, de facto racista, virou pandémico. Pois grassam os imbecis. Imbecis racistas. E, como é típico da imbecilidade, vão convictos de que não o são. Aturem-nos. Aos negros e aos brancos. E aos das outras cores também (os patetas aos tipos de "outras cores" chamam "étnicos"). E se não tiverem paciência para os aturar? Combatam-nos.

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Em 1973 o país mais pobre da Europa Ocidental estava há 12 anos em guerra, de facto 3 guerras coloniais. Era o segundo país não comunista no mundo que mais gastava, percentualmente, em despesas militares. As guerras, para quem não saiba, eram absurdas. Nem discuto se estavam ganhas, empatadas ou perdidas. Nem tão pouco discuto se os portugueses eram maravilhosos colonos, ou só mais ou menos. Ou péssimos. Nem elaboro sobre se os regimes subsequentes foram magníficos, catastróficos ou normais. As guerras eram absurdas pois o tempo histórico das colónias europeias ultramarinas tinha passado. O Estado Novo nelas insistiu. Não argumento se era fascista ou não. Se era um Estado Bom ou Mau. Apenas digo que era o Estado Novo. Muito resistente: aguentou o fim da II Guerra; a pressão democratizadora da entrada na NATO; o plano Marshall despejado nos vizinhos. a campanha do prestigiado governador colonial Norton de Matos (um homem da sua época, com muita visão); a forte campanha do ex-nazi com aspirações a caudilho; o êxodo de centenas de milhares de emigrantes; a integração económica transpirenaica; a invasão de Goa; a morte de Salazar; o opróbrio internacional.

 

Ao fim de 12 anos de guerras o regime, relativamente exaurido, mexeu nas formas de promoção dos militares profissionais - que, desde sempre, tinham sido um dos seus sustentáculos. Os oficiais mais novos, entrados nas academias militares em finais de 50s e inícios de 60s, e nisso algo militantes do regime e suas formas de nacionalismo, então exaustos de sucessivas missões em África, devido a essas medidas associaram-se corporativamente contra o regime. Pouco ou nada politicamente conscientes (como tantos deles repetiram em registo memorialista), foi esse o motivo que os levou a sistematizar e a comungar a impossibilidade de manter essas guerras. E o regime que as exigia. O que os conduziu aos golpes de Março e de Abril de 1974. A este segundo já o regime não conseguiu reagir militarmente e, na ausência de confrontos, a população de Lisboa saiu à rua. E deu corpo ao futuro mito. Nacionalista, falsificador da história, desta higienizador.

 

Em que consiste esse mito nacionalista? Na censura. Isso ilustra-se assim: há uma bela canção da época, panfletária como então era norma, de Sérgio Godinho cujo refrão é "Só há liberdade a sério quando houver / A paz, o pão / habitação / saúde, educação". Ora quando se fala do antes, no célebre "onde estavas no 25 de Abril" a tal "paz" parece que desapareceu das questões prementes. Como se as únicas questões relevantes, influentes, fossem as internas ao Portugal, a Pátria.

 

E com isso se torna evidente o tal mito, nacionalista: a democracia, a liberdade, a II República, como quiserem, foi fruto das energias e anseios portugueses, internos, endógenos. Da nossa "virtude", capitaneada pelos "gloriosos capitães".

 

A que propósito vem isto? Ontem os populistas (integrados pelos fascistas do PNR) tiveram o seu arroubo, o "fiasco amarelo". Uma amiga minha saúda esse falhanço da extrema-direita, esta tão em voga pelo mundo afora, citando um execrável texto de um desses fazedores de opinião consagradores da cleptocracia socialista. Reza assim o texto, que saúda o tal fiasco: "No Brasil, na Itália, muitos estão a sucumbir. Nós não. Porque ninguém veio de fora para nos libertar. Fomos nós que conquistámos a nossa liberdade e a nossa democracia. Frágil, imperfeita, cheia de erros.".

 

A tal falsificação da história, a "naturalização" e "endogeneização" da democracia portuguesa. Essa que, de facto, resultou de que "alguém veio de fora para nos libertar", de que em três futuros países se combateu o Estado Novo. Mas estas trapalhadas, este nacionalismo viscoso, falsário, esta mitificação necessária a um atrapalhado regime repercute-se. Com apreço, pelos académicos, intelectuais. Até por quem tem experiência de África.

 

Porquê? Porque para gostar das patetices que estes fazedores de opinião botam basta que eles defendam Vara, Sócrates, e quejandos. Desde que sejam dos "nossos", do PS, do Livre, do BE (ou, vá lá, do PC) podem cuspir todas as asneiras, mesmo estas de um nacionalismo tão bacoco como os dos Livros Únicos do Estado Novo. De facto, que se lixem os "fiascos amarelos". O que interessa é que o juiz Alexandre seja arrumado, como foi a PGR. E que o Vara se safe. E entretanto que se digam todas as asneiras que a gente aplaude. Ulula. É esta imunda merda, natalícia, que é a "esquerda" portuguesa. Um Feliz Natal para todos vós. E o 19 que mereçam - o ano em que Sócrates regressará da Ericeira. Para gáudio da Clara Ferreira Alves e deste tipo de gente, essa que  "ao fim destes anos todos só nos enganámos numa coisa, julgámos que havia uma campanha da direita contra Sócrates", e o povo aceita-lhes a desfaçatez. De "esquerda". E a rapaziada partilhará. E dirá de "direita" (e se calhar até "anónimos") os que se enjoam com este lixo. O fedor da cloaca. Vosso.

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(Entrevista ao Diário de Notícias: transcrição e excertos em filme. Para quem tenha dúvidas ou queira aludir a uma hipotética descontextualização, este trecho em rodapé aparece no oitavo filme apresentado)

 

Quem me está próximo preocupa-se por eu falar sozinho, aparente sinal de senilidade, óbvio marcador de maluquice. "Não te preocupes", vou adiantando, "sempre falei", o que não sei se sossegará alguém. Não sabe, passará agora a saber, se isto ler, que muitas vezes, não sempre mas muitas vezes, nisso falo com o meu pai. Ontem à noite conversei com ele sobre isto, esta ministra da Saúde PS que considera os sindicalistas renitentes como "criminosos, infractores". "Pai, viste esta tipa, então o Partido apoia isto?" e ele, que foi comunista até à morte, daqueles cunhalistas "sem qualquer culto de personalidade", a menear a cabeça, com ar até amargurado, e eu sarcástico "isto já parece lá a vossa União Soviética, para estes gajos um dia destes nem haverá direito à greve", e ele a repreender-me "deixa-te de coisas". E eu, qual adolescente implacável, "eu deixo, mas vocês é que são a geringonça, a esquerda, a apoiarem esta tipa". Ele escorropichou o seu, sempre frugalíssimo, cálice de genebra (ou seria rum?), levantou-se e praguejou, à sua maneira, "patifes!". E culminou "isto tem que acabar" antes do seu "boa noite, vou-me deitar". Eu sorri, servi-me com abundância do rum (ou seria genebra?) e fiquei até a desoras a ver o "trio de ataque", o Oliveira, o Gobern e um rapaz de melena arisca que "representa" o Sporting. Pois antes estes que tal ministra geringôncica. Depois, antes de me deitar, ao espelho lavando os dentes, surpreendi-me a falar sozinho, "criminosos? infractores? os sindicalistas? ... estes gajos perderam completamente a noção". Nisso a minha mãe assomou ao corredor, preocupada, "Zé vai-te deitar, já é tardíssimo e estás para aí a falar sozinho", e eu que "tá bem, mãe, já estou a ir", e ela sorri-me "vai, que já bem me basta o teu pai que não me deixa dormir, ali a falar mal do governo".

 

 

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Tão (abissalmente) estuporado ando que esquecera o aviso que um patrício me dera para hoje, para ter cuidado "que o problema destes gajos é com os turcos, os pretos e os árabes mas depois começam e vai tudo, nós, os espanhóis, todos ...". Saio de manhã, como sempre viro à direita, na via de Schaerbeck, o "bairro turco" como ironizo, a 200 metros a mercearia portuguesa, plácida conversa sobre o cartaz (ontem afixado) de "Roberto Carlos em Bruxelas" enquanto me abasteço das cápsulas Nicola. Avanço mais 500 metros, ao café-restaurante compatriota, nada bebo que ainda não é meio-dia, resmunga-se o pequeno nevão de ontem e a reviravolta do Porto, ainda hesito se beberei um bagacinho "só para aquecer", mas há que manter o nível. Volto a casa, enquanto cozinho uma destas minhas trapalhadas vou fumar à varanda e ouço tantos estampidos e gritaria que julgo haver festa ali ao Cinquentenário, que raio de dia, com este frio, para a fazerem. Senil estou, é a minha filha que me convoca para todas estas sirenes. Pois aqui mesmo, a 500 metros, se virando à esquerda, na via do "bairro europeu" estão os fascistas flamengos (ou flamões, como aqui dizemos) a manifestar-se, a armarem confusão entre o tal Cinquentenário e o Berlaymont, esse que dista cá de casa tanto como o café Luanda se aparta do café Polana (ao lado do Frutalmeidas, para os distraídos). Não que seja eu europeísta radical, e que apupe a "nação", patriota que sou (sim, sei que o termo provoca o sorrisinho adamado dos esquerdinhas funcionários públicos). Mas um tipo vê, na vizinhança literal, esta turba fascista - não muitos, 5000 numa cidade onde há pouco 75000 desfilaram por uma melhor política climática. Mas violentos. -, carregada de estandartes nacionalistas, os desses que apoiaram a ocupação alemã na I GM, o dos rexistas que apoiaram a Alemanha nazi, e percebe-os. Têm tanta legitimidade como os catalães, e têm os mesmos propósitos, não nos enganemos com as retóricas e os meneios.

Os estampidos já pararam, agora escasseiam as sirenes, a família está na calma dominical. E o pai a blogar o seu desprezo pelos fascistas portugueses, esses que desde Bolsonaro gozam com os "moderados", pequena gente sem mundo ("sem cabaret" como li o outro dia) e sem dignidade. Gente incapaz de perceber o até egoísta "mas depois quando começam vai tudo, nós, os espanhóis, todos ...". E para com os patetas que foram à escola e chegaram a doutores que vêm falar da importância das "identidades históricas", como se estes nacionalismos fossem um minério semi-precioso, coisa natural, inultrapassável. Pois se assim é convirá lembrar que os primos destes gajos emigraram para a África do Sul onde eram uns pés-rapados imundos. E horríveis seguidores da jihad da sua igreja reformada. E que os avós destes gajos emigraram para o Congo. E disso é melhor nem falar. Ou seja, para quem não gosta de imigrações bem que podiam ter vergonha na cara. Tal como os "venturinhas" e os CDS-Bolsonaros que se meneiam por Lisboa. É mandá-los para Ramallah. Parece que ficarão bem servidos.

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Pensamento da semana

por jpt, em 16.12.18

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As alas mais radicais do movimento feminista vêm somando conquistas. Talvez a maior seja esta aliança (a que preço?) com as indústrias, automóvel e informática: a disseminação dos GPS automóveis é uma insidiosa manobra global de emasculação, devastando habilidades milenares e assim minando primazias ordenadoras.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Denis Mukwege, Nobel da Paz

por jpt, em 11.12.18

Um discurso absolutamente extraordinário, meia hora iluminadora. (Infelizmente não encontro versão legendada em português. Existirá? Não há um serviço público televisivo?)

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(...)Não

por jpt, em 09.12.18

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Neste corropio que é o hoje duas ideias são constantes: que o que acontece é novidade (ao que se junta a atribuição de "genialidade" à aparente inovação); que o que acontece é um anúncio escatológico. Não sou especialista mas sempre me parecem frutos da influência bíblica. O antropólogo David Graeber afirma este amarelismo francês como um movimento social sucedâneo dos "ocupas" americanos - o tal princípio - e diagnostica que lhe é própria a desnecessidade de uma teoria, que acção e teoria lhe(s) são conjuntas. E que aos intelectuais, assim desapossados do seu estatuto "orgânico", lhes cumpre menos falar e muito escutar.

Enfim, talvez seja. Mas Steiner escreveu um dia que "já não temos inícios". E, por outro lado, a descrença no Apocalipse vem-se espalhando, pelo menos numa Europa relativamente livre dos evangelistas que se incrustaram no poder nos EUA e Brasil, e dos coranistas que pululam nas suas vizinhanças. 

Talvez por isso me lembre do Buzinão, em 1994. Quando, inopinadamente, por iniciativa de alguns camionistas, tudo trancou no acesso a Lisboa, e a revolta da população veio ao de cima, potenciada por uma década do poder de Cavaco Silva. Sem ser preciso sms (nem sei se na altura havia telemóveis no país) ou similares formas de convocatória. O país cruzara uma década de enormes transformações, a redução da população no sector primário tinha sido gigantesca, enorme o incremento das condições de saúde e de educação, etc., coisas da entrada na CEE. Mas talvez ainda maior tivesse sido o crescimento das expectativas iludidas. Sabe-se o que aconteceu, de seguida o PSD foi derrotado. Tal como Cavaco Silva nas presidenciais e a sua carreira política terminou para sempre. Ou, pelo menos, assim se disse. 

Mas o que me é relevante é a memória de um brilhante texto de Pacheco Pereira, uma crónica num diário lisboeta - eu julgo que está publicado no seu livro "O Nome e a Coisa", mas não tenho comigo os meus livros; e googlei mas não encontro nem o texto nem qualquer referência - sobre a vida de um casal na Outra Banda, uma imensamente feliz forma de tentar consciencializar políticos e comunicadores da Boa Banda do "estado da arte" populacional. Para que pudessem entender, pelo menos alguns deles, parcelas do país que geriam e que desconheciam (e desprezariam, muitos deles com toda a certeza).

Não me vou meter a perorar sobre o conteúdo sociológico ou ideológico do Buzinão de 1994. Mas lembro-me do acontecimento por três coisas: talvez tudo isto não seja assim tão novidade, uma importação "born in USA", tão dependente de novas formas de entendimento da política, tão "movimento social". Que talvez o mundo, como o pensamos e sentimos, talvez não vá acabar, se calhar até ao fim do ano. E que sim, que são os "intelectuais" - mas muito dificilmente os avençados da Boa Banda - que podem falar, mostrando a opacidade que a partidocracia cria em seu torno, para se reproduzir. Assim fenecendo. 

E nada disto leva a concluir que as reclamações/propostas (essa amálgama teoria/prática que o conhecido antropólogo propõe como frutífera) destes "movimentos sociais" sejam "justas". De facto, como mostrou a história portuguesa, muitas vezes são apenas uns dealers a protestar com a redução dos lucros mensais. E, em geral, são apenas um gritado, ululado, (...)Não. E de Nãos está o inferno a abarrotar.

Falta pensar. Estrategicamente. Este é um bom contributo.

 

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O Frexit

por jpt, em 09.12.18

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Um grande amigo veio ontem da África Austral a Paris, para uma actividade académica, e caiu na confusão, envia-me durante a noite uma mensagem sobre o caos. As coisas foram crescendo durante o dia, o Le Monde anuncia 130 000 manifestantes e vários confrontos.

Em Portugal, enquanto o "Verdes" do BE quer legislar sobre os provérbios (deixemo-nos de rodeios, depois desta iniciativa não há qualquer dúvida, o regime acabou, está é mal-enterrado), os ur-fascistas, os comunistas e os idiotas úteis rejubilam com a deriva francesa. Já se haviam meneado com os racistas catalães, bebido uns uísques com o referendo escocês, a este sentindo qual vingança do Ultimato. E, em cada grupo à sua medida, deliciam-se com a (re)emergência dos nacionalismos mais aguerridos, míticos ou místicos, tal como o flamengo, que depois de se dulcificar para entrar no poder foi perdendo apelo e que retoma agora o caminho "durão", ou os Faragismos avulsos. Seja porque simpatizam com essa via (os tais ur-fascistas), seja porque tudo isso simboliza esta "corja" que manda (e a faz estremecer), e é "porreiro" protestar com isso, cria público para os painéis televisivos e os murais de instagram/facebook, seja porque julgam contribuir para um "amanhã que canta", a que agora chamam "alterglobalização" ou outra tralha qualquer que sobreviva no "discurso correcto". 

Símbolo da coalizão estuporada que emerge, sedimentada na aversão à democracia representativa e no sonho de reviver no mundo colonial de XX, é este pequeno fait-divers. Uma colunista conhecida, nada de esquerda note-se, clama sobre a manifestação dos "coletes amarelos" que 80 por cento dos franceses os apoiam  - na bem mais pequena Lisboa há anos uma manifestação contra a austeridade, convocada por estes meios tecnológicos que se dizem agora novos, e sem instituições por trás, induzida rizomaticamente, congregou entre 150 000 e 500 000 pessoas (os números variavam imenso, consoante os locutores). Paris tem 5 vezes a população de Lisboa, grosso modo. Quererá isso dizer, por mera aritmética, que então 400 por cento dos portugueses (e estou a optar pelos números mais baixos) estavam contra o governo austero? A mesma colunista do Expresso, nada de esquerda, repito-me, traduz um texto literário elogiando os "coletes amarelos" - não registei o autor, mas pareceu-me ser de Dickens mas talvez seja do "Germinal" de Zola - e fá-lo publicar num blog da extrema-esquerda negacionista, daqueles falsários da história que negam o terrorismo comunista na democracia portuguesa e invectivam de fascistas os que se lembram (inventam, na versão deles) das FP-25.  É um pormenor que é pormaior, significando bem quem espera o esfrangalhar dos corroídos pés de barro das democracias europeias. Repito, os tais "ur-fascistas", os (neo)comunistas, os idiotas úteis, na maioria vindo da lumpen-intelectualidade, os colunistas da imprensa escrita, comentadores da radiotelevisão. 

Acima deixo cópia de um panfleto dos "coletes amarelos" franceses. Na lista de exigências ao poder, nítido ainda que confuso (oxímoro que é precioso para a mobilização política) programa de reforma do sistema político, é patente essa coalizão ideológica, dos extremismos políticos agora unidos: o controlo da imigração (questão dextra) junto ao fim da presença (neo)colonial em África (gauchisme puro), o fim da "ideologia na escola" (Bolsonaro à Paris) e dos plásticos e da influência farmacêutica (canhotices lite), etc. E se não tiverem paciência para ler (ou se vos for difícil o francês) vejam só o ponto 16 - inscrição na constituição da proibição do Estado intervir na saúde, no ensino, na educação, na família (Cela vous rapelle quelque chose?, ou seja does that ring a bell?). E depois, claro, o ponto fundamental para estas manifestações, o seu verdadeiro motor (e o que faz estes luso-grupos tanto disto gostar): o ponto 9, o Frexit. É esse o clímax que todos estes perseguem. Uns, muitos dos tais idiotas úteis, só querem estar na orgia. Mas os outros sabem bem ao que se ... deitaram.

Entretanto já recebo mensagens para uma manifestação de "coletes amarelos" portugueses, no 21 de Dezembro. Espero que a polícia, vigorosamente instruída nas suas recrutas, seja implacável. Recordo que estão presos cerca de 40 cidadãos há mais de seis meses, acusados de terrorismo, por terem combinado assaltar umas instalações desportivas e terem batido em 3 ou 4 profissionais de futebol. Quero saber se a administração interna do país tem a coragem para mandar prender, com a mesma intensidade, estes amarelos caso venham a fazer actos similares. Mesmo que esta imprensa os diga "vítimas". De um qualquer "contexto", social, globalizado, de "exclusão". 

Pois eu sou do Sporting e gosto muito do Bas Dost. Mas causar dois ou três pontos na cabeça (de oiro) do avançado holandês não é tão mais grave do que avançar para partir e pilhar a capital, causando até hipotéticos ferimentos em polícias ou civis. O Estado português só tem essa alternativa, se os mariolas se portarem mal é prendê-los como aquilo aquilo que a lei diz, "terroristas". E fazê-los apodrecer na prisão. E deixar as colunistas idiotas, seus aliados neo-comunistas e ur-fascistas a guincharem. Pois guinchos loucos não chegam ao céu.

 

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Os coletes amarelos em Bruxelas

por jpt, em 08.12.18

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Ainda estou a por o gorro e as luvas e vejo-os passar, a estes “tiagos amarelos” de cá, tão poucos que os julgo a cauda da manifestação, mas logo me afianço que não, pois mais à frente vão uns poucos mais, tudo apressado com ar de quem já está na hora do almoço. Mesmo assim desço e chego-me à praceta – para um lisboeta Schuman é até risível –, feito mirone. Encontro-a vedada, só numa esquina dela saem alguns transeuntes, numa pequena passagem que apenas habitantes podem cruzar, ainda que por mim passem mais de uma vintena de filipinos (ou serão indonésios?, percebo que, estuporadamente, não os distingo de imediato), vindos sem o olhar embasbacado de turista ou os necessários apetrechos dessa condição. Serão talvez um distraído grupo de culto ou, se calhar, só comensal. Deste lado do arame, literal, está um grupo meio desasado, ouço o espanhol muito andino por aqui usual, três casais de velhotes gringos, gordões não-obesos, falam alto, como lhes é geneticamente necessário, e estão a adorar esta Europa que lhes coube, e mesmo à minha frente um jovem casal português, indeciso, a ela percebo-a, no seu casaco justo, muito bem torneada, muito bem mesmo, raiosparta que é raro ver alguém assim, e ele tem postura funcionária, cabelo ralo a escassear-se, e tudo nele me lembra um qualquer de Tennessee Williams. No pequeno impasse sorrio ao meu óbvio (e profético) estereótipo. E dada a gaguez muda na minha dianteira, avanço à polícia e pergunto como aceder ao metro ao que junto, feito sonso, um “o que se passa?”. Ela dá-me um sorriso lindo, resplandecente, flamengo di-lo-ei, que também é a única coisa que desvenda, sob aquele capacete e a armadura (parecida com aquelas com as quais os másculos oficiais da GNR espancam os recrutas), explica como contornar até a próxima estação e pede enfáticas desculpas pelo incómodo, devido a “uma manifestação”. Todos damos meia-volta e seguimos, os patrícios trintinhas fazendo por não notar, nem com aquele laivo de aceno ou recanto de sorriso, ser eu, barbudo encanecido sob gorro e ganga, um português, isso que o sotaque grita, e de ter feito para os esclarecer, talvez por coincidência, talvez por simpatia, vão lá eles saber ... Sigo atrás do pelotão, os do espanhol são tipo ciclistas da Colômbia, já estão quase em Ambiorix, os avulsos caminham em ritmo de sábado, os gringos bamboleiam palrando, o ainda casal (desculpem-me mas tenho que o dizer …) vai lento, mesmo à minha frente, nem sequer lhes vi as caras, mas repito-me o mudo apreço pela patrícia, ouvem-se sirenes ao longe, e zumbidos de helicópteros, e têm soado estrondos, daqueles que eu diria tiros se estivesse em Moçambique. Hesito, devo ir atrás destes até ao metro?, percorrer a cidade a ver a agitação, assim conhecer um pouco desta Bélgica, mais Valónia do que a outra mas ainda assim, fingir-me o ainda andarilho interessado, com prosápias de intelectual que fui, e até disso fazer um postal de blog, daqueles aos laiques e até comentários? Mas lembro-me que daqui a bocado o Chelsea joga com o City, acho que é esse, e inflicto, na via de casa vou a uma loja, onde nunca entrara, para comprar filtros, “bonjour” e é isso que quero, sff, e o lojista, indiano, responde-me “bom dia”, e eu surpreso, a perguntar-lhe no meu atrapalhado francês como me percebera, e depois até se é de Goa, e ele segue, em português também trapalhão que não, mas “na minha loja anterior – e diz um bairro que eu não fixo – tinha muitos clientes portugueses”, “aprendi a falar um pouco” (e aprendeu) e, saltando para o francês, “quando o senhor entrou vi logo que o senhor é português”. Rio-me, agradado com a surpresa, e nisto de haver qualquer coisa de óbvio. E mais me rio, já caminhando para casa, com o tão óbvio “bon chic bon genre” do casalinho – não sei se já disse, a rapariga era mesmo interessante, o rapaz, enfim … O mesmo bon chic bon genre dos intelectuais lisboetas, agora em reboliço entusiástico com estes “tiagos”, 1000 aqui, 8000 ali em Paris, ouvirei, por causa deles a clamarem o fim da República, da Europa, etc. Em elogios de “pastoral” à justeza do “povo” “rural”, como há anos elogiaram os “tiagos berberes” e “árabes” que pilhavam. Pois estes finos adoram o “povo” – desde que não seja o que aparece no “Preço Certo” da RTP ou nas tralhas das outras estações. E que não lhes perturbe o sábado bruxelense.  Como dirá o lojista vizinho “vê-se logo que são portugueses”.

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China e Portugal

por jpt, em 06.12.18

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A esperada notícia surge, no meio da "crónica" da visita do presidente chinês, assim como coisa óbvia no meio da assinatura de vários documentos, todos prometendo imensos ganhos para Portugal: o habitual. Que, passando os anos, nunca são escrutinados. Ou seja, lá no meio de tudo Portugal anuncia a vontade de entrar no "comboio" da OBOR (um cinto, uma estrada), a gigantesca operação de construção e dinamização viária que a China prepara para se tornar (ainda mais) central, retornar a "império do meio". Alguns dos nossos tradicionais aliados não estão tão entusiasmados (os EUA muito renitentes, tal como os britânicos) e a União Europeia tem iniciativa e metodologias diferentes. As preocupações não só com a cristalização de um novo centro político e económico - completamente alheio a valores democráticos, coisa que não é de somenos para todos os que não se restringem ao conteúdo da malga própria -, bem como as considerações sobre este hiper-projecto, pensado sem considerações ecológicas, de equilíbrios políticos, locais, regionais e globais, e postulando indiferença (que será letal, em muitos casos) às questões da governação, são esquecidas?

É certo que se trata apenas de um memorando, não vinculativo. Mas no estado actual do Estado haverá muita amplitude para gerir recuos nesta área? Mas mais ainda, uma questão destas, de gigantesca importância económica e geoestratégica para as próximas décadas, é apresentada assim ao país, no meio de um pacote de acordos que surge anunciado quase como se festividade natalícia? De que fala a imprensa durante este anúncio da participação portuguesa na iniciativa OBOR? Do director do MNE que borregou no seu facebook, dizendo que Xi Jinping é o DDT. "Lamentável", diz o ministro (e sê-lo-á). Mas muito mais lamentável, abissalmente mais lamentável, é esta opacidade com que se trata do nosso futuro, ralé ignara que assim nos condenam a ser.

Quem tiver paciência, uma hora de visão crítica sobre o plano chinês para as próximas décadas. Quem não tiver paciência sempre pode ir ao Facebook onde estão a protestar com o diplomata. Por ter, descuidadamente, dito a verdade.

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A China e o país inibido

por jpt, em 05.12.18

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Em 2005 o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao visitou Portugal. José Socrates, então recente primeiro-ministro, incentivou o visitante a usar Portugal como intermediário nas crescentes relações sino-"palop". Na época eu trabalhava na área da "cooperação" (ajuda pública ao desenvolvimento) e muito me chocaram aquelas declarações do ainda relativamente desconhecido Sócrates (não se perspectivava tamanho descalabro),  por razões subjectivas e objectivas.

 

As subjectivas eram algo óbvias. Qualquer pessoa da minha geração se poderá lembrar o que foi o governo de Macau nos últimos quinze anos de tutela portuguesa. A coabitação entre os governos de Cavaco Silva e as presidências de Soares e Sampaio - sendo a presidência da república a responsável por aquela região - significaram que Macau foi administrado, num período de grande crescimento infraestrutural, pelos quadros socialistas. E foi público que se o PSD (e não só) se conspurcou na gestão da inserção europeia, o PS saiu profundamente lesionado da "coisa macaense", no afã da "árvore das patacas". Infecção que levou para os governos de Guterres e que este, criticável político mas homem honrado, deixou transparecer com o rebuço retórico do "pântano" quando se demitiu. Por isso, quando em 2005 Sócrates ofereceu os préstimos do país, e da sua administração, para facilitar a extroversão africana da China tudo indiciava que o PS não fizera qualquer "julgamento ético" (como Augusto Santos Silva reduz agora a avaliação da política) do seu percurso recente. Como se veio a comprovar, tanto pelas más-práticas dos governantes como pelo apoio cúmplice da generalidade dos profissionais da palavra pública, jornalistas e académicos, durante o consulado socratista. E hoje.

 

Mas as razões objectivas eram ainda mais óbvias. Num breve texto de Dezembro de 2007 eu resmungava isso, ecoando várias conversas em Maputo. Desde finais de XX que a China hiper-desenvolvera as suas relações comerciais e políticas com os países africanos. Com propósitos e estratégias bem diversos dos da União Europeia, e de Portugal nas suas relações soluçantes com as antigas colónias. O evidente falhanço dos desenvolvimentos africanos (já elencado nos 1960s pelo nada pró-colonial René Dumont) conduzira, desde os 80s, a alterações nas formas de "cooperação" entre a UE (e de países aliados, como EUA, Canadá, Suíça ou Noruega) e África. Grosso modo subordinando doacções, ajuda técnica e empréstimos bonificados a uma "condicionalidade política". Ou seja, à aceitação de boas práticas estatais, de uma democratização assente na "boa governança" (tétrico jargão), do incremento e autonomização da "sociedade civil", da descentralização avessa à opacidade dos poderes, da protecção ecológica, no fundo ao chamado "desenvolvimento sustentável", crente que a democracia é desenvolvimento, uma ideia consagrada no Nobel da Economia então atribuído a Amartya Sen. Muitos criticam este paradigma, dizendo-o neoliberal, exportação do modelo "ocidental" e neo-colonial. Poderá também ser tudo isso, e com toda a certeza contém a defesa dos interesses dos países doadores ("ocidentais"), que é esse o princípio das relações internacionais. Mas também não era só isso, pois fruto de transformações demográficas, socioeconómicas e ideológicas nos países europeus, que haviam promovido genuínas preocupações ideológicas e técnicas de promover algo melhor do que vinha acontecendo no desenvolvimento africano, combater o malvado "afro-pessimismo" (o aggiornamento do racismo), e procurar a defesa do meio ambiente, triturado alhures.

 

A chegada dos interesses chineses tudo alterou. Neles inexiste qualquer intuito democratizador ou sensibilidade ecológica, ou objectivo desenvolvimentista - há uma preocupação na construção de infraestruturas viárias que promovam o comércio de matérias-primas (e a seu tempo de produtos industriais imensamente sub-remunerados) para a China, algo que as burguesias africanas vêm considerando "desenvolvimento". Estas enormes construções infraestruturais são entendidas localmente como "ofertas" (basta conversar em Maputo com a burguesia letrada para ouvir isso), quando são obras basto sobre-orçamentadas e sob empréstimos chineses, para além de muitas vezes serem de duvidosa urgência (caso exemplar é a recente ponte de Maputo, uma verdadeira excentricidade se sopesadas as necessidades infraestruturais do país, e uma total aberração se considerado o preço astronómico e sobredimensionado da obra). Ou seja, a China financia directamente a sua indústria, construindo em África através de empréstimos contraídos pelos poderes africanos; e indirectamente, através do estabelecimento das infraestruturas de aquisição de matérias-primas baratas.

 

Questões como o desenvolvimento tecnológico ou empresarial africano (a transferência de saberes) é de nula relevância, o desenvolvimento social é inconsiderado - e nesta área será importante discernir quais as concepções dominantes na China sobre "África" e os "africanos", principalmente se pensarmos no rolo auto-crítico que os europeus fazem sobre o "paternalismo" e o "racismo" com que as suas sociedades interagem com África e seus habitantes. O resultado destes últimos anos é tétrico: países africanos imensamente endividados, ainda que com diferentes conteúdos (países como a África do Sul - mas que outros? - têm alguma maior capacidade de resistência). Dívidas que têm penhores, os recursos naturais, que assim vão passando explicitamente para o manuseio chinês. A razia ecológica, em particular a desflorestação é quase incomensurável. E a corrupção das elites exponenciou-se, num verdadeiro sublinhar da velha definição marxista de "burguesia compradora". É um neo-colonialismo radical, um neo-colonialismo selvagem, para glosar a expressão "capitalismo selvagem". (Abaixo deixo um programa da Al-Jazeera, que não é a "Voz da América" nem qualquer "Canal de Bruxelas" sobre o assunto, para quem tiver interesse).  

 

Para qualquer tipo que tivesse dois dedos de testa e uns centímetros de conhecimento esta via era já óbvia em 2005. O poder português, o PS de Sócrates, preferiu a obtenção de migalhas - no seio do que agora se sabe serem interesses esconsos das articulações político-económicas: por exemplo, em 2006 noticiava o Público que o Espírito Santo ajudara a entrada chinesa no petróleo angolano (alguma ideia sobre a situação actual?, é a pergunta sarcástica necessária). Ou seja, refutando a nossa inserção nas políticas desenvolvimentistas europeias (os célebres acordos de Lomé e Cotonou) e toda a retórica que acompanhara o estabelecimento da CPLP na década anterior. Nada disto importou, apenas a miragem de alguns ganhos como intermediário da entrada triunfal da política económica chinesa em África. E, ainda mais ridículo, com promessas de abertura do enorme mercado chinês aos produtos portugueses, pomposamente anunciada na imprensa aquando da visita do PM chinês em 2005: 13 anos passados seria interessante ver os dados reais dessa abertura, e o impacto na economia portuguesa. 

 

Alguns dirão que nada havia a fazer, que a dinâmica africana da China foi tão possante que uma pequena economia como Portugal nada poderia fazer em contrário, clamando assim a subordinação à "razão de Estado" e à obtenção de ganhos para o país. É uma paupérrima concepção de Estado e de mundo, bem como da política africana portuguesa. Mas mesmo que nesse registo rasteiro, de avaliação política sob estritos critérios de contabilidade nacional, será importante questionar: que ganhos económicos teve o país na sua extroversão para a China? E qual a situação das relações económicas com África, em particular com as duas grandes ex-colónias? E as relações políticas (catalépticas as com Moçambique, apesar da retórica do nosso PR, gélidas as com Angola, apesar do fogareiro agora aceso pelo PR angolano)? Outros, com mais memória, dirão que o governo de Sócrates teve o sucesso de conseguir realizar a cimeira Europa-África, em plena crise diplomática devido à oposição Reino Unido - Zimbabwe. Foi um facto, mas isso ter-se-á devido aos méritos da equipa do MNE da altura, Amado e Cravinho (este agora em rota para MNE do próximo governo). E deixa a pergunta fundamental: quais os benefícios reais obtidos, tanto para África como para Portugal, e já nem falo da política desenvolvimentista da UE? Ou seja, a sinofilia do governo português mostrou bem o quão de cabotagem era o seu rumo. Em termos internacionais. E em termos nacionais. Foi anunciado, de modo evidente, em 2005. Tornou-se evidente nos anos subsequentes.

 

Quinze anos depois se a situação das relações africanas com África é esta, também o é a relação de Portugal e de alguns países europeus. A influência chinesa está a crescer na Europa austral, de modo avassalador. Aqui não há matérias-primas, das quais a indústria chinesa necessita. O objectivo são os mercados, o "mercado europeu", necessários à indústria e à finança daquele país. Mas o tipo de abordagem predatória será o mesmo. As sociedades europeias amortecerão o impacto socioeconómico de maneira mais protegida, mas o impacto desdemocratizador talvez venha a ser mais sentido (não se está já a sentir?). Não se trata de ser sinófobo, ou de clamar "Vêm aí os Chineses". Mas de perceber, passado este tempo e sendo explícito o que já era óbvio, que quando se vê um governante português como a actual Secretária de Estado do Turismo choramingar a um grupo económico chinês "…por favor, usem-nos, como porta de entrada, como cobaias, para testar a forma de entrarem na Europa" estamos no "grau zero" da política. E que as nossas elites políticas nada aprendem com a história recente. Os socialistas (e o bloco central por definição) na sua cabotagem, na busca de restos disponíveis. Os comunistas presos a uma patética solidariedade com um poder que de "comunista" tem o nome e a foice e o martelo - lembram-se as pessoas da sabujice do parlamento português ao recusar receber o Dalai Lama em 2001, por pressões chinesas, e do texto do velho dirigente comunista Aboim Inglez, esse que fora em tempos de conflito sino-soviético muito adversário da China, a esse respeito? Rezava assim: "Tivemos entre nós, uma semana, o sr. Kenzin Gyatso, mais conhecido pelo título do 14º Dalai Lama, numa das suas constantes itinerâncias pelo mundo, na condição de cabecilha do que resta da clique reaccionária e retrógrada tibetana, conluiada com o imperialismo para atacar a China pela via da mentira e do separatismo". À direita os liberais, cegos e sonâmbulos, a quererem crer que isto é o "mercado" - quando "isto" é o capitalismo de Estado, de que se falava sobre o bloco soviético, mas agora super-competente. E o BE sempre relativamente simpático com quaisquer laivos de "alterglobalização" (entenda-se, antiamericanismo) que surja no horizonte. 

 

Nenhum destes partidos,  nenhuma das fracções desta "burguesia compradora" portuguesa, se opõe ao verdadeiro imperialismo chinês, voraz que é. E os governantes pedem "por favor" para que os interesses chineses sejam mais céleres e intensivos na sua intervenção. É a mesma mediocridade, ininteligente, cleptocrática e anti-patriótica que reconhecemos em tantos dos poderes africanos. Sem qualquer projecto de país, plano ou estratégia de desenvolvimento. E depois, sabe-se lá porquê, dizem-se, ufanos, de "esquerda", símbolo do progressismo e desenvolvimentismo. 

 

E um povo que a apoia. Nessa confluência um país inibido de o ser. Nada mais do que isso.

 

(Então aqui fica o programa a que aludi, vinte minutos sobre o presente de África. E o futuro de Portugal).

 

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A GNR

por jpt, em 05.12.18

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A Few Good Men (Uma Questão de Honra) é um até penoso filme, protagonizado pela então conhecida Demi Moore, o ainda jovem Tom Cruise e Jack Nicholson (num dos mais histriónicos overactings da sua longa carreira no género). Quase todos o terão (entre)visto, num qualquer serão televisivo. Mas lembro o argumento, completamente típico, um padrão de Hollywood: Cruise representa o jovem, algo desinserido, mais arisco do que rebelde, que enfrenta as perversões do "sistema", provocadas pelo desvio (psicológico) de um malvado Nicholson, comandante de uma unidade de tropas especiais no qual um soldado morrera devido à recruta. No final, contra todas as expectativas (menos a de todos os espectadores, claro), o Young Rebel redime-se da sua apatia e derruba o mau indivíduo, purificando o sistema. O filme é de 1992, podemos dizer que passara o tempo dos anti-heróis. Mas também podemos dizer que exactamente nesse mesmo ano Hollywood produziu uma macro obra-prima, pois Mestre Clint realizou Unforgiven. Que serviria, (muito) mais que não fosse, para mostrar a tralha cinéfila e cultural que este "Uma Questão de Honra" era.

Ao saber do que vai acontecendo na GNR bem que me lembrei do filme. O comandante do centro de formação, um coronel Ramos, já foi apeado. E um antigo dirigente da escola da GNR, Carlos Chaves, com o posto de general, já veio dizer que o problema foi de o instrutor ter perdido a cabeça e o exercício não ser supervisionado. Pronto, está resolvido o assunto. O coronel Ramos segue para outro serviço, o tal instrutor irá dar instrução para outro lado. O sistema purificado, pois arejado. E mantendo-se tudo igual.

Entretanto, e para (hipotética) vergonha do general Chaves, aparecem outras imagens. Outro exercício, outro instrutor, mesma modalidade de instrução: oficiais super protegidos a darem porrada em recrutas desprotegidos, estes nem um capacete protector têm, como é usual nos treinos de boxe. Ou seja, por mais que o general Carlos Chaves, do alto dos seus 3 anos de director da Escola da GNR, nos queira mentir, protegendo a sua corporação reduzindo tudo a uma má-prática individual, o que se passa é que há uma metodologia de treino alargada. Não é um erro de falta de supervisão. Não é um instrutor destrambelhado. É um modus operandi: a instrução passa por oficiais protegidos a espancarem recrutas. São estes instrutores, estes oficiais, que o general Carlos Chaves - pressuroso a mentir-nos, reduzindo o caso a um infeliz incidente - e os colegas (gente desta não é camarada de ninguém, nunca subiram acima de colegas) formou. Brotaram do molde que ele manuseou (ou criou, não sei).

Caladinho, e decerto que muito protegido, com a armadura necessária para dar porrada nos recrutas, e pronto a roçar-se nos políticos, está o tenente-general Luís Francisco Botelho Miguel, comandante da GNR, responsável máximo, e obviamente conhecedor, destes métodos de instrução. Alguns dirão que este oficial tem muitos méritos. Com toda a certeza que terá. Os necessários para passar à reserva. Já. Sem honra. Pois nenhum oficial que deixa espancar os seus homens merece qualquer respeito. Nem estar ao serviço.

 

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Os tiagos amarelos

por jpt, em 03.12.18

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Ontem aconteceu uma enorme "marcha pelo clima" aqui em Bruxelas - não, não se andou a pedir reclicagem de papel ou reconversão dos sacos de plástico, as panaceias dos ecologistas folclóricos. E não, as pessoas não ficam aprisionadas aos ditos dos patetas da igreja do culto do mercado (esses que bolçam, tudo pejando de perdigotos fétidos, que o Mercado é virtuoso e o Estado demoníaco, pelo que qualquer intervenção sobre a iniciativa privada é pecaminosa pois nada desta decorrente ofenderá os desígnios perfeitos da Criação).

Na concentração final, no Parque do Cinquentenário (o desengraçado "arco do triunfo" local), lá apareceram alguns destes "tiagos amarelos", que agora se instalaram na moda. Não tinham nada a ver com aquilo - de facto são adversários de qualquer preocupação desenvolvimentista -, foram apenas atraídos pela multidão (talvez a ver se "pegava"), no vácuo mental em que vegetam. Na sexta-feira tinham-se concentrado nas cercanias do "bairro europeu" e arranjado alguma confusão, coisa de pouca monta (dois carros virados e incendiados) mas suficiente para soarem mais alto. A França é mesmo aqui ao lado e os francófonos, os valões, enfim, nunca querem deixar de aparecer ...

Mas lá por Paris de França têm arranjado maiores confusões. Diz que os impostos são altos, que andar de carro está mais difícil. O BE do sítio (um tipo insuportável de vácuo e cagança, Mélenchon) e Le Pen já apoiam - claro, tudo o que mexa é apoiável pelos radicais. Ao centro, o magnífico casal Hollande-Royal saiu do recato a que o ridículo o condenara, para sufragar a ralé. Os outros centristas, na ressaca do estertor do feixe partidário francês, também ulula os "û-lá-lá", a onomatopeia simbólica daquela republicana "sociedade de corte". O macronismo hesita e já negoceia com a turba burguesota.

Na minha pátria amada também as simpatias jorram. Não tem o "povo" sempre razão, contra o Estado demoníaco, contra o capitalismo, contra a globalização, a favor do Estado-Nação e iniciativa privada/revolução anarco-sindicalista e/ou neo-marxista? Apoie-se pois estas "jacqueries" do povo espoliado, sempre elas dotadas da razão histórica e da moral do sal da terra.

Quando estes tiagos, embrutecidos no seu desejo de manter o seu nível de vida burguesote, começarem, como sempre o fizeram na história, a queimar os "judeus" de hoje, alguns dos opinadores lá lamentarão os excessos. Mas realçando a justeza das reinvindicações (ainda que não se saiba bem quais são) e do mal-estar (ainda que não se perceba bem o porquê dele). Outros abordarão "sociologicamente" os trágicos acontecimentos, falarão da Santa Exclusão, assim invocando Nosso Senhor Contexto como causa. Pois a "explicação mágica", essa que tudo disseca e assim sossega, sempre é aclamada. Mesmo quando só serve para isso, para acalmar a ânsia de sossego.

A ver vamos se Macron se deixa de se esfregar em jovens rappers e resolve esta tiaguice como deve ser. Sem tibiezas. Deixando os patetas globais, e os nossos também, nos seus "û-lá-lás" patéticos.

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O esgoto estatal

por jpt, em 01.12.18

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Um antigo presidente de um clube desportivo é sujeito a um interrogatório, no âmbito de uma investigação ampla, ainda em curso. Depois o Estado (uma sua secção, chamada "ministério público") entrega as gravações desse interrogatório à televisão estatal e autoriza-a a transmiti-las: aqui, um programa da RTP com excertos das declarações de Bruno de Carvalho, anunciando a sua reprodução como autorizada pelo tal "ministério público".

Decerto que há um qualquer quadro legal que permite isto, safando os funcionários públicos e fazendo medrar esta mentalidade. Mas isto é inqualificável. O estado do Estado é um descalabro. Uma cloaca a céu aberto, onde engorda esta gente.

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(Teodorico e Alpedrinha por Rui Campos Matos)

 

Foi-se a ministra, orgulhosamente lesbiana, a Guadalajara, decerto que com adido à ilharga – mas não a Cuernavaca com o necessário Cônsul, estou disso certo – e por lá resmungou algo, sobranceira a portugueses, Portugal e seus jornalistas e jornaleiros. Entretanto, cá longe, noutro “lá fora”, ando eu a reler, 35 anos depois, o “Relíquia”. Eça não é, diz quem sabe, o Zola, o Balzac, muito menos o Flaubert, mas é o que temos, e ainda que me solavanque o encanto – tetrali o “Os Maias” por causa do filme de João Botelho, e disso me apercebi, já nada adolescente ou vinteanista, franzindo o meu cenho ao traço grosso da caricatura que escorrega daquele Ega – continua uma delícia.

 

Enfim, perorava a ministra lá em Guadalajara quando o Raposão, o bom do Teodorico, me aportou a Alexandria, naquela sua ímpia, pois humana, peregrinação à então Terra Santa. Logo se acolheu ao afamado e recomendado “Hotel das Pirâmides”, deparando-se com um patrício (onde é que não há um português?), “moço de bagagens e triste“, ali algo desvalido dados os infortúnios de amores e impensares, o Alpedrinha, figura ímpar do panteão queiroziano, mais que não seja por aquela sua sábia e monumental saída, que em mim habitava sem lhe recordar a autoria (“Tu já estiveste em Jerusálem, Alpedrinha?“, perguntou-lhe o Teodorico, “Não senhor, mas sei … Pior que Braga, algo que talvez tenha acicatado aquele Luiz Pacheco). Chegava-se pois, no mesmo fim-de-semana da ministra no México, o bom do Teodorico às terras da Esfinge e, lá de tão longe, responde à sáfica governante: “E se o cavalheiro trouxesse por aí algum jornal da nossa Lisboa, eu gostava de saber como vai a política.”, atreveu-se o Alpedrinha. “Concedi-lhe generosamente todos os “Jornais de Notícias” que embrulhavam os meus botins“, logo concedeu o malandrote.

Isto nem em Cuernavaca lá iria. Quanto mais em Guadalajara.

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Touradas: "Vitória ou Morte"?

por jpt, em 25.11.18

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Sobre isto de touradas bloguei em 2012 (um texto um pouco mais longo que recoloquei aqui). Resmungando que a) numa sociedade que trata fauna e flora desta forma omnívora e voraz, e que tem estas práticas de produção alimentar, o centramento das preocupações com o episódico sofrimento taurino mostra uma enorme inconsciência e mediocridade intelectual (e moral); b) a oposição à tauromaquia é, fundamentalmente, a raiva ideológica face à socioeconomia rural, em particular a de "lezíria"; e que c) estas preocupações ("civilizatórias" nas palavras da actual ministra da Civilização) mostram o primado uma política de cabotagem, encerrando a questão ecológica numa redoma de "petização" (no duplo sentido de "pet", animal doméstico, e "petiz", infantilização dos cidadãos) - consagrada na recente legislação sobre o acesso de animais domésticos a cafés e restaurantes. Esta política centra-se na domesticidade, pois as relações da sociedade com a sua natureza são olhadas e criticadas através das preocupações mais quotidianas das famílias elementares (e do crescente isolamento individual) em palco urbano e suburbano.  Ou seja, obedece à irreflexão típica do quotidiano do eleitorado, e é nesse sentido que é política de cabotagem (e também muito cabotina, e não só por tendencial homofonia).

Nunca fui a uma tourada, e o que vi na tv não me criou qualquer afeição. Por mais que os seus defensores clamem é óbvio que a festa sanguinolenta tem os dias contados, deixou de corresponder às sensibilidades e valores predominantes, tanto no país urbano como no contexto cultural mais amplo em que nos inserimos. Tal e qual outras actividades festivas e económicas que fazem actuar animais, como a luta de galos ou de cães. Ou algumas formas de caça (ainda se caça com armadilhas?). No mesmo âmbito de mudança que instituiu novas formas de controlo sobre as corridas de cães e de cavalos, evitando a sua exaustão, ou os circos. Ou foi transformando o tétrico paradigma dos horrorosos "jardins zoológicos" com animais enjaulados. Os adeptos da tauromaquia podem então continuar a clamar mas não há nada a fazer, o tempo desta tourada passou. E, mais uma década ou menos uns anos, ela será terminada. Ou então evolui.

Não sou nada especialista, e um conhecedor porventura ficará escandalizado com o que digo. Mas julgo que o toureio português tem duas especificidades preciosas: o equestre, uma dressage peculiar que possibilita e até histrioniza a encenação do conúbio homem-animal (a cultura) enfrentando a besta (a natureza); a pega, a encenação do colectivo humano, armado apenas de força e destreza, enfrentando a natureza.

Ora estas encenações são algo anacrónicas: por um lado, e ainda que a estética tauromáquica muito se cruze com as estéticas dos movimentos políticos homossexuais actuais, a pega apela a uma rusticidade máscula que afronta a presente homofilia, que àquela diz "tóxica". E esse é um grande inimigo ideológico, indito, subterrâneo das touradas. Talvez mesmo o mais importante neste curto prazo. Por outro lado, mais estrutural, a encenação ritual do conflito homem(/animal)-natureza perdeu estes referentes: a natureza está domada (escavacada até), fauna desaparecida ou domesticada, flora recondicionada, e até vírus e bactérias recuam face à indústria química. A natureza agressiva é hoje a climatérica, muito menos (ou até nada) simbolizável numa arena.

Como preservar a tourada? Seus valores, e em particular a criação equídea e taurina, e um precioso ambiente de diversidade ecológica? "Mudar ou morrer" é o que lhes resta. Mas a proposta socialista de introduzir protecções para touros é recebida com apupos pelos imobilistas aficionados ("Vitória ou morte!", urram, na antevéspera de ulularem "Viva a Morte"). E com gozo pelos adversários das touradas - pois a estes, de facto, não preocupam os touros mas sim o meio social, e seus valores, ligado às touradas, que abominam. 

Deixemo-nos de rodeios. Por mais que seja obrigação (intelectual, patriótica, até moral) pontapear tudo o que advém do partido do vice do miserável José Sócrates, esta proposta tem toda a pertinência. Permitirá, para desespero dos puristas, preservar mas também disseminar a tourada, potenciar o seu carácter simbólico, a festa. Tornará a tourada uma encenação? Não. Pois ela já é uma encenação. Transformará a cenografia, potenciará a representação. Será um pouco circense? Será. Mas, de facto, não o é já?

Olhe-se para o wrestling (esse sobre o qual Roland Barthes escreveu, iluminadamente, há mais de 60 anos). Veja-se como essa encenação, ridícula que seja aos olhos mais secos, se tornou num espectáculo global e milionário. Sem precisar de ser efectivamente um combate físico, mas sendo a ritualização (até exasperadamente) histriónica do combate. A tourada, "mudando sem morrer", pode ser isso, e assim um monumental filão de recursos. Com criatividade e inovação, com coreógrafos e dançarinos (perdão, cavaleiros e forcados). Entre os quais haverá "forcados pobres" (qual a personagem do magnífico Mickey Rourke) e "cavaleiros ricos". Fazendo assim continuar, e até bem mais rica, a lezíria. Os seus magníficos cavalos, os touros livres. E a gente. Essa, felizmente, nada suburbana.

Ou então não. Aquilo acaba e far-se-ão campos de golfe. E uns condomínios para reformados com "vistos doirados". 

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Black Friday

por jpt, em 24.11.18

Ontem, dia "Black Friday", apesar de ateu associei-me á festa cristã e fui às compras. Aqui mesmo ao lado, no mercado de rua das sextas-feiras, na Chasseurs Ardennais - (bem ilustrado no Facebook) - dediquei-me à banca dos corsos. De lá saí com um naco de queijo de cabra de Oletta, no valor de 7 euros.

Depois, em registo de consumidor desabrido, caminhei até à "Casa Portuguesa", onde sou visita habitual,  onde adquiri uma garrafa de Cabriz tinto, adornado com dístico anunciando (na língua estrangeira) "Best of Value Wines, Robert Parker 2017" e "Top 100 Wine Spectator 2016": 6 euros e 20 cêntimos.

Ok, vão lá ser felizes para as Wortens.

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Em 2016 candidatei-me a uma bolsa de doutoramento, desta Fundação para a Ciência e a Tecnologia. A então nova direcção mudara os requisitos para as candidaturas: exigia a gente como eu, com "licenciaturas pré-Bolonha" e sem mestrado, que apresentasse um documento da universidade "doutoradora" a comprovar a admissibilidade do candidato. Sem especificar que órgão académico devia exarar esse documento. Assim fiz. E a candidatura foi recusada, nem sequer avaliada, com o argumento que não fora suportada com um documento proveniente do órgão académico adequado.

Contestei essa anulação, com um recurso. Argumentei que a) o regulamento era omisso nesta matéria, não especificava qual o órgão que deveria comprovar a adequação do perfil do candidato; b) a opção sobre quem deveria produzir tal documento havia sido da universidade, estatal, decerto que mal informada pela própria FCT.

Ou seja, reproduzi o velho "vocês que são brancos que se entendam" ("brancos" significando mesmo os "brancos" de hoje, os funcionários públicos). Em alguma coisa se devem ter entendido, pois o regulamento de candidaturas para os concursos seguintes foi logo alterado, passando a especificar que órgão académico deverá produzir este tipo de documento. Alteração que comprova a insuficiência anterior, fruto da incipiente mudança regulamentar desta nova direcção da FCT.

Recebi agora, dois anos e tal depois (eu já noutra vida), um email assinado por um tal de Paulo Ferrão, funcionário público presidente daquele organismo estatal, a dar-me resposta ao recurso. Que não tenho qualquer razão, diz. E que se quiser protestar que vá para tribunal. Ou seja, nem o regulamento que ele aprovou estava mal feito. Nem os seus colegas estavam distraídos. O morcão sou mesmo eu.

Note-se, o tal de Ferrão esperou mais de dois anos para me dizer isto. Mas aquilo que me ofende mesmo é que no final do email o homem ainda mandou escrever "cumprimentos". O tipo, após mais de dois anos, ainda tem o desplante de me saudar ...

A minha filha pede/exige que eu não escreva palavrões no FB/blog, e a minha irmã secunda-a. Assim o faço. Mas é claro que os murmuro. Daqueles bem peludos, aludindo às imorais e nada higiénicas ascendências destes gajos.

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