Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Talvez eu seja pós-moderno

Paulo Sousa, 29.06.22

Foi assunto há uns dias as declarações do Ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, quando alertou para o atentado à dignidade humana que decorreu durante um espectáculo tauromáquico com anões na Benedita.

Pelas suas declarações iniciais parecia estarmos de volta aos tempos dos circos romanos, onde humanos de vários tamanhos, cores da pele e origens, mais ou menos remotas, eram largados na arena para serem agredidos e onde tinham de lutar pela vida. Mas afinal não era nada disso. Os anões não estavam ali para ser toureados, mas sim para tourear e isso constitui uma enorme diferença. Uma diferença maior do que os próprios.

O facto de os anões estarem ali por vontade e risco próprio, no decurso do que será a sua profissão, para a qual treinam e pela qual são remunerados, não tem qualquer importância para o Ministro. Do alto da sua apenas formal pasta da Cultura, ele entende que os anões, coitadinhos, devem ser protegidos. Contratá-los para telefonistas será louvável, até deve haver algum benefício fiscal para o empregador. Se eles se queixarem com alguma maleita maior, arranja-se certamente maneira da Segurança Social lhes atribuir uma tença qualquer. Este segundo cenário é o mais agradável porque será sempre mais um eleitor dependente da guita, neste país que os socialistas querem transformar numa cascata de São João, onde tudo e todos tem um lugar e um movimento escolhido e definido pelo curador da coisa, que é o PS, o master of puppets. Porque isto da guita para eles tem tudo a ver com fantoches.

Mas podemos observar o evento noutras perspectivas. Ora, os anões eram espanhóis e por isso a notícia que motivou as declarações do Ministro podia ter tido outro cabeçalho. “Toureiros espanhóis são aplaudidos na Benedita”. Como a lide espanhola termina com a morte do bicho na arena, o alerta expectável poderia vir da parte do PAN. O que não seria, senhores? Espanhóis a tourear em terras lusas. Se fosse em Barrancos, naquelas terras da raia da nacionalidade, ainda vá, agora na Benedita, junto ao IC2, ao pé do Bigodes e do Coxo, esses altares da bifana tuga, e perto também do local de trabalho de umas moças que vêm cedo de Lisboa e ali ficam sentadas num sofá, isso é que nem pensar! Para os animalistas do PAN a festa só é rija quando o toureiro falece. Nem que seja anão.

Mas se uma parte, ou mesmo todos os anões espanhóis, que entretiveram o público beneditense, pertencessem à mui diversa comunidade LGBTQQICAPF2K+ (um obrigado à nossa colega Maria Dulce Fernandes pela actualização), o título da notícia já poderia ser qualquer coisa como, “Populares aplaudiam enquanto gays/etc..+ eram perseguidos por touros”. Era todo um mundo que se abria.

Perante a mesma realidade e os mesmos animais que estiveram dentro da arena, podemos encontrar inúmeras classificações e padrões para descrever o que ali aconteceu. A imaginação é o limite.

O que sobressai na minha falível análise, é que quem for dono do rótulo dos outros, acaba por ser o dono da sua probidade, ou da falta dela.

Vemos isso também nos relatos e nas imagens da fricção que ocorreu no decurso do evento Pride no Porto. A causa LGBTQQICAPF2K+ é um quintal da esquerda e apesar das infrutíferas tentativas da Iniciativa Liberal em se desligar da dicotomia esquerda-direita, o facto de se afirmar como adversária do socialismo é suficiente para que quem empunhasse a bandeira dos liberais não tenha sido bem recebido. Os donos do quintal é que sabem quem pode ou não exercer o direito de se manifestar a favor da causa, e os donos do quintal entendem que o facto destes sonsos e oportunistas se identificarem com uma visão liberal da economia, inquina a respectiva orientação sexual. Acabam assim por exibir, involuntária mas honestamente, a sua visão do mundo, a hierarquia em que colocam estas duas vertentes das inúmeras que podem definir um individuo.

Da mesma forma que um anão pode ser alguém que, mesmo contra a sua vontade, tem de ser protegido, coitadinho, pode imediatamente passar a ser perseguido se se atrever a picar uma vaca ou se lembrar aos recentes o que é que Marx, Estaline, Zedong, Fidel Castro, Allende, Che Guevara e Cunhal diziam sobre os homossexuais.

FWLXfYaXwAAizQT.png

Além de tudo isto, também não me agradam os tratamentos diferenciados nem me agradam as quotas. Deve ser tão natural que uma mulher, um gay, um marreco ou um anão, chegue ao topo da responsabilidade à frente de um país, de uma empresa ou de uma qualquer organização, que isso não deveria merecer mais do que a indiferença dos demais. Fazer um grande chinfrim sempre que alguma dessas coisas ocorre é muito moderno, mas os modernos não imaginam como isso é demodé para os pós-modernos.

Pela liberdade

Paulo Sousa, 21.06.22

É difícil transmitir a energia e a intensidade que transpira das imagens dos estimados 60.000 manifestantes que ontem à ontem estiveram nas ruas de Tblisi, mostrando o seu apoio a que o seu país possa aspirar a um dia ser membro da UE.

A Geórgia é uma nação antiga que sempre esteva rodeada de grandes impérios e não foram poucas as vezes que foi desprezada e humilhada. Tem frequentes problemas de instabilidade política e nem sequer controla o território que lhe é reconhecido pela ONU como seu. A Ossétia do Sul e a Abcásia são territórios ocupados pela Rússia e, de uma forma simplificada, estão para a Geórgia como a Transnístria está para a Moldávia. São factores de destabilização permanentes que inquinam a capacidade destes países poderem focar-se na sua modernização e no cumprimento das aspirações do seu povo, por paz e prosperidade.

Não pretendo de todo aqui fazer um ensaio de geopolítica, mas tal como vimos acontecer recentemente na Ucrânia, o que seria uma anémica conformidade pelo dia-a-dia, que travava a aspiração por uma evolução rápida dos equilíbrios políticos, acabou por ser tremendamente sacudida e acelerada após a invasão russa à Ucrânia.

Há mudanças efectivas a acontecer. A guerra decorre na Ucrânia, mas para além da luta por cada metro de terreno no Donbass, o combate que se trava é entre duas visões opostas do mundo. Com todas a falhas e imperfeições da UE, é óbvio que neste combate será decidido se as gerações futuras destes povos, e de todos os europeus, poderão viver em liberdade ou sob o autoritarismo que Putin consubstancia.

Tudo está em aberto e ontem os georgianos mostraram que querem estar do lado da liberdade.

Palavra de António Costa

Paulo Sousa, 20.06.22

Na passada sexta-feira, António Costa inquirido sobre o caos que se vive no SNS, quis sossegar os portugueses e garantiu que “parte dos problemas do SNS estará resolvida na segunda-feira”.

Mesmo perante as afirmações de Adalberto Campos Ferreira, o seu anterior ministro da Saúde, segundo o qual “o problema das urgências é estrutural”, António Costa, Primeiro-Ministro há sete anos, não vacila nas garantias e afirma que num fim-de-semana consegue ultrapassar a situação.

E hoje já temos mais notícias.

recorte publico sns (1).png

O João é um militante da direita

Paulo Sousa, 19.06.22

o João.jpg
Foto roubada desta publicação do Facebook

"O João é um militante da direita.

O João é a favor da privatização do Serviço Nacional de Saúde.

O João tem um seguro de saúde para o qual paga 80€/mês (960€/ano).

O João acordou com uma dor no peito, mas como o João é contra o Serviço Nacional de Saúde e o privado é o melhor, pegou no seu BMW e foi às urgências do Hospital Privado.

Nas urgências do hospital privado o João foi avaliado pelo médico que o colocou num cadeirão, deu-lhe um comprimido para o acalmar e fez-lhe um ECG (Eletrocardiograma).

O médico disse ao João que ele estava a ter um enfarte e que tinha de ser operado com urgência.

O João tem um seguro de saúde para o qual paga 80€/mês.

O João acionou seguro de saúde o Hospital Privado informou o João que para ser operado tinha que pagar 10.000€ e quando o seguro de saúde pagasse operação ao hospital o hospital devolvia o dinheiro ao João.

O João não tem 10.000€, então o hospital não o operou.

O João teve que ir numa ambulância do INEM, com VMER (meios públicos tutelados pelo ministério da Saúde), que foi buscar o João às urgências do hospital privado para o transportarem para o hospital público.

O João chegou ao hospital público e foi operado de imediato.

A vida do João foi salva pelo Serviço Nacional de Saúde.

No final, o João teve de pagar 125€ ao hospital privado pelo conforto do cadeirão, comprimido e ECG.

O João pagou 0€ ao hospital público pela sua operação porque os descontos do João servem para estas situações, entre muitas outras.

Conclusão:

Se o João tivesse esperado pelo seu seguro de saúde, teria morrido no hospital privado.

Não sejam como o João!"

-/-

Este texto foi publicado e re-publicado em cadeia no Facebook e mereceu muitos likes e partilhas. É um texto interessante por ser como que uma confissão do maniqueísmo com que se opina, não só sobre o SNS, mas também sobre o país.

A história do João teria acontecido num mundo a preto-e-branco, em que os bons estão de um lado da barricada e os maus no lado oposto. Acontece que o mundo não é a preto-e-branco e as pessoas não deixam de ser boas nem passam a ser más, apenas porque são de direita ou de esquerda.

O João chegou às urgências com sintomas de um enfarte e, por ser fim-de-semana grande, as urgências estavam muito sobrecarregadas. Os médicos e enfermeiros não eram suficientes para dar assistência a tanta procura. Naquele dia, apenas 20 por cento do pessoal médico das urgências eram profissionais de saúde. Os restantes 80 por cento eram tarefeiros contratados "à peça" para suprir a falta de pessoal. Os tarefeiros estão igualmente habilitados a prestar os cuidados necessários, pois já pertenceram aos quadros do SNS, mas como precisam de governar sua vida, preferiram ter mais tempo livre, trabalhar menos horas, não estarem sujeitos à carga burocrática, às escalas irregulares, às horas extra-ordinárias consumidas pelos impostos, ao ponto de terem preferido desvincular-se do SNS.

Os profissionais de saúde do SNS sentem-se injustiçados, pois trabalham mais horas, têm mais responsabilidades e ganham menos. É difícil trabalhar em equipa nestas condições e a fricção entre profissionais e tarefeiros acaba por ser inevitável, com consequências negativas para o serviço prestado.

Se o nosso país tivesse uma noção mais evoluída de cidadania, todo o enfoque do SNS, como também da educação, não estaria como está, centrado no prestador do serviço. O cidadão, o contribuinte, a pessoa idosa, o doente, o bebé, têm de se sujeitar à lotaria que acaba por ocorrer sempre que algum deles precisa de recorrer aos serviços de saúde. Quando se tem "sorte", o problema de saúde surge numa hora pouco concorrida e talvez até se seja atendido razoavelmente. Mas como a "sorte" nem sempre acode quem tem um azar, às vezes chega-se às urgências numa hora difícil. No fundo é sempre um azar precisar de assistência médica, mas esse azar pode ir desde o azar assim-assim até ao azar em condições.

A preocupação de quem escreveu o texto do João ficou explícita logo na primeira frase. No seu entendimento o que se passa na saúde em Portugal é um problema de combate político. Pelo desenrolar da estória, entendemos que o João se armou em esperto e descobriu que estava errado. Também ninguém o manda ser militante da direita, coitado. Se o João for apoiante de um partido político em particular, o melhor mesmo é que passe mal e não se safe, será menos um voto nesse mesmo partido. Para compor o retrato de pessoa odiável e desprezível, o BMW não podia faltar. É pena sermos assim, mas a palavra que Camões escolheu para terminar Os Lusíadas não foi casual.

O problema da Saúde em Portugal resulta exclusivamente da incapacidade do país se reformar, de se adaptar à realidade e se preparar para o futuro. Um quinto dos portugueses vive na pobreza e uma parte significativa dos pobres tem trabalho regular. Temos os impostos mais altos de sempre, e ao mesmo tempo os serviços públicos estão a colapsar. A maior crise que o país atravessa é a falta de ambição. Andamos para aqui encolhidos e conformados. Não aplaudir a quarta falência dos tempos de democracia, que aí vem, é ser fascista e fazer um seguro de saúde (quando alguns seguros até são obrigatórios por lei) não é abdicar de outros consumos para zelar por si e pela respectiva família, mas apenas atacar os “valores de Abril” ou lá o que é.

Entretanto o texto sobre o João já foi partilhado muitas vezes e teve muitos likes. Palpite meu, o texto do João causou um especial contentamento e alegria entre beneficiários de algum dos sistemas complementares de saúde que os dispensa de esperar anos por uma consulta ou cirurgia. Porque SNS a falhar nas doenças dos outros, para quem tem ADSE é refresco.

Ela nunca nos falha

Paulo Sousa, 15.06.22

Ontem fui a um funeral de um amigo de infância.

Durante anos vivemos à distância de uma pedrada. Brincava-se com o que havia. À bola, às escondidas, em corridas encosta acima e encosta abaixo. Em 1982, inspirados pelas Olimpíadas, chegamos a replicar várias das modalidades do atletismo. O lançamento do martelo foi simulado com um cordel amarrado a uma bola que era uma meia velha cheia de areia e a tábua de chamada do salto em comprimento era um bocado de cana tombado no início da cova dos feijoeiros do avô dele. Nesse ano, lembro-me bem, no telheiro ali ao lado e que já não existe, dentro do novelo de uma corda de sisal enrolada em forma de um oito, um casal de verdilhões fez ninho. Não resistimos, metemos as mãos lá dentro e mexemos nos ovos pequeninos, do tamanho da cabeça de um dedo, arriscando assim que os pais enjeitassem a ninhada.

Nos santos populares cortávamos carrascos na encosta e traziamo-los de rojo até ao largo da oficina do pai dele, que ficava a uma hora de transpiração. Quando ateadas, as folhas dos carrascos estalavam ruidosamente e esse era o som que gostávamos de ouvir quando saltávamos a fogueira. Uma vez, durante um salto, uma folha a esvoaçar ficou-lhe presa no bolso da camisa e fez-lhe um buraco no tecido. Já não me lembro, mas como era normal ele deve ter apanhado umas palmadas por isso.

Depois a vida separou-nos. Os nossos pais continuaram vizinhos e parentes. Não disse, mas além de vizinhos e companheiros de aventuras, éramos também primos em segundo grau.

O intervalo com que nos cruzávamos foi-se alargando cada vez mais. Havia sempre um cumprimento e uma risada pelas pequenas patifarias que tínhamos partilhado e que nem precisavam de ser lembradas. Tinham simplesmente acontecido e faziam parte daquilo que nos tínhamos tornado.

Soube há uns tempos que andava doente. Tinha ido ao médico várias vezes e nunca mais lhe davam seguimento ao assunto. Enquanto esperava pelo próxima consulta ou exame, passava mal. Através de uma familiar que trabalha num hospital, conseguiu finalmente que pegassem no seu assunto até saberem o que tinha e o que tinha não era bom. A vida passa num foguete e algumas doenças não se compadecem com o ritmo da assistência que ele conseguiu ter. Em pandemia tudo piorou. Ele, mesmo já sabendo o que carregava, ou também por já saber o que era, continuou a passar mal. Quase não saía de casa e as notícias nunca mais foram animadoras. Pelo que fui sabendo, desde há alguns meses passou a enfrentar o tempo que lhe faltava com serenidade.

Nas últimas duas semanas, foi já nos cuidados paliativos que o sistema nacional de saúde finalmente lhe conseguiu aliviar as queixas.

Nas terras pequenas, depois da encomenda na igreja, vai-se a pé até ao cemitério e isso repetiu-se ontem. Caminha-se a um ritmo lento e triste, pela Rua da Escola acima. O grupo fica mais extenso nas passagens estreitas e junto dos carros mal estacionados. Acaba por se ir conversando com quem já não se via há algum tempo.

O filho dele, um pré-adolescente, juntamente com os seus companheiros de equipa levavam vestido a camisola do clube de futebol cá da terra. Já no cemitério, depois da uma música muito bem escolhida, que desconhecia, a equipa largou uns balões que subiram rapidamente pelos ares. Tal como fazem os adultos, os amigos abraçaram-no, um de cada vez, sentidos. Ele agradeceu, a cada um, igualmente sentido. Olhando para o tamanho deles, cinco reis de gente, este terá sido o primeiro funeral em que participaram. Todos mostraram uma solenidade só possível a quem sentia a intensidade do momento que estava a viver. Nenhum se chegou aos calcanhares do filho que acompanhou cada instante daquela sequência ritual. Quando o caixão se aproximou da cova, ele conseguiu uns centímetros de um degrau de pedra para ali se sentar, o mais perto possível. O vão das escadas apontava noutra direcção e isso obrigou-o a ficar meio de esguelha. O rosto, magro e bonito, pesava-lhe na cara. Sempre sem lágrimas, ali ficou, magoado, assustado, sem procurar pontos de fuga. Observou cada pazada de terra. Talvez estivesse a contá-las.

Soube de quem não tenha conseguido ficar a observa-lo e tenha saído do cemitério mais cedo.

Para eles, tudo poderia ter sido diferente. Mas agora nada será igual.

 

Este postal não terá comentários.

As taxa de juros irão regressar aos telediários

Paulo Sousa, 14.06.22

Os juros da dívida contratada a 30 anos da República Portuguesa, que estavam no início do ano pouco acima de 1%, chegaram ontem aos 3,413%.

divida a 30 anos.png

No passado, o governo socialista pressionou com sucesso toda a banca nacional a adquirir dívida publica portuguesa até a um nível que ultrapassou o que seria razoável. Quando já ninguém lhe queria pegar, foi a banca que ajudou a adiar o inadiável. Perderam os bancos, perderam os acionistas, perderam os contribuintes e perdeu o país. Vamos ver se alguém aprendeu a lição.

Já algum tempo que não se fala em rating da República, mas para quem já não se recorda continuamos no BBB, que é o nível imediatamente acima do nível especulativo.

Para quem gosta de antecipar tendências, e de estar na crista dos acontecimentos, recomendo o site World Governament Bonds onde pode acompanhar a evolução da frequência com que as taxa de juros da nossa dívida irão regressar aos telediários.

Felizmente António Costa tem maioria absoluta e pode tomar as medidas que entender necessárias sem necessitar de negociar PEC a PEC com a oposição.

Vão-se os dedos, mas fiquem os anéis

Paulo Sousa, 12.06.22

Nos últimos dias foram vários os casos em que as consequências do estado degradante do SNS chegaram às notícias. Desde a grávida que perante a falta de obstetras perdeu o seu bebé, ao passeio de grávidas de hospital em hospital até poderem serem assistidas, ao aumento dos números da mortalidade materna, até ao “ultrapassar os limites do imaginável” assumido pela Administração do Hospital de Almada. Mesmo com todas as notícias dos exemplos do estado a que o SNS chegou, a realidade é infelizmente pior do que aquela que chega às notícias.

Apesar disso, apesar da frustração, da insegurança e da perda de vidas causadas pela lenta agonia do SNS, o governo e a ministra da saúde não têm sido alvos de uma fracção dos protestos que casos de bem menor gravidade causaram noutros tempos.

Muitos dos apoiantes do governo, parte significativa dos quais beneficiários da ADSE, acharão que mesmo com todos estes “contratempos”, mesmo com os “constrangimentos impossíveis de suprir”, podemos respirar de alívio pois pelo menos não somos governados por liberais, nem o acesso aos serviços de saúde serve para engordar os lucros do operadores privados da saúde. Para quem tem ADSE, se o resto dos portugueses tivesse acesso a um sistema de saúde sistema idêntico ao alemão ou ao inglês, seria como regressarmos aos tempos do Estado Novo. Isso é que não. SNS para as doenças outros, para quem tem ADSE é refresco.

Procura-se alguém em quem descarregar as culpas

Paulo Sousa, 10.06.22

Mesmo com o significativo aumento das receitas fiscais em resultado da inflação, com especial relevo para as que são geradas pelo IVA, o governo maioritário de António Costa vai ter de lidar com uma reviravolta no limbo inventado por Mario Dragi que tem congelado as consequências da estratosférica dimensão da dívida pública do nosso país.

Segundo o Expresso, o BCE irá terminar as compras de dívida a cada país, enquanto que ao mesmo tempo a trajectória de subida das taxas de juro irá acentuar-se. Os juros devidos ao credores passarão a ocupar cada vez mais espaço, e a ter a voz cada vez mais forte, na mesa do Orçamento de Estado.

E o que é que o país fez para aproveitar as facilidades concedidas pelo BCE nos últimos anos? No número de funcionários públicos conseguiu ultrapassar os 740 mil, o que é o recorde da década. No SNS, em vez de o reformar, o governo regou-o com dinheiro. Já aqui deixei umas notas sobre isso.

Segundo as promessas do PS, em 2020 deixaria de haver de portugueses sem Médico de Família, mas a realidade é que são cada vez mais os que estão nessa situação e o cenário vai piorar. O que noutros tempos abriria Telejornais é hoje normal e vulgar.

Depois de muito tempo em que a falta de médicos nas urgências era uma maleita distante dos raros hospitais do interior, o surto já está a chegar aos “grandes centros”.

Entretanto soubemos que ”PRR já posso ir ao banco?”, que durante várias semanas foi a grande conquista do país publicado, vai derrapar. E o Banco de Fomento, que seria um pilar fundamental para a nossa economia e para o salvador “PRR já posso ir ao banco?”, está com problemas.

Ainda faltam dois anos, mas já sabemos que em 2024 todos os portugueses terão uma casa condigna. Mentir não custa nada. Quase toda a imprensa faz o que lhe mandam e por isso temos de estar alerta é com as ciclovias de Lisboa.

O nosso afundamento nos rankings europeus continua sólido e, apenas por casualidade, o afastamento no nosso PIB per capita da média europeia começou com o primeiro governo de Guterres.

Esta pequena lista de mentiras, falhas e factos não é exaustiva nem completa, mas apenas tenta mostrar como foi desperdiçado o tempo e a oportunidade que nos permitiria chegar à actualidade numa situação menos frágil.

O governo teve maioria absoluta simplesmente porque quem votou PS achou que com os socialistas à frente do governo tudo iria ficar na mesma. Mas, como sempre, a realidade vai impor as suas regras e até no “ficar na mesma” os socialistas irão falhar.

A alienação

Paulo Sousa, 03.06.22

Ouvimos diariamente os auto-elogios vomitados pelos nossos governantes sobre as maravilhas do estado do SNS, seguidos dos hossanas em pagamento pela comunicação social. Ao mesmo tempo todos os dias tropeçamos na evidência da sua incapacidade em acudir às necessidades dos portugueses. São os atrasos nas consultas, nas cirurgias, nos diagnósticos e nos tratamentos. A mortalidade não-Covid tem sido estoicamente ignorada por todos os que defendem a situação.

À minha volta, são vários os casos que confirmam a miséria a que nos deixamos chegar. Estados oncológicos tardiamente diagnosticados, radioterapias consecutivamente adiadas ao longo de vários meses, falta de médicos e de consultas que acabam por alimentar idas recorrentes à medicina privada, e cada vez mais, a contratação de seguros de saúde.

Soube ontem também que pela primeira vez em 40 anos morreram mais de 10.000 portugueses durante o mês de Maio.

Também ontem foi o Hospital de S. João que suspendeu as ecografias do segundo trimestre a grávidas, devido à diminuição do número de médicos. Os exemplos nunca mais acabam.

Na educação, ouvi há dias um aluno do 12º que teve a classificação de 4,5 em 20, em dois testes consecutivos a Física, a garantir que irá ter 10 no final do ano. Aqui perto há uma escola pública com 17 funcionários administrativos, vizinha de uma outra, de contrato de associação, que para um universo escolar quase idêntico, consegue funcionar com 3. A mais que avisada falta de professores em curso já está a acontecer e irá agravar-se.

Entretanto o Ministro da Educação anuncia, feliz, que o número de alunos que chumbaram de ano, que na novilíngua se diz “foram retidos”, foi dos mais baixos de sempre, assumindo na entrelinhas que a redução de conhecimentos adquiridos na escola é uma das consequências das políticas da governação socialista.

A dívida pública em 2015, ano em que António se tornou PM, era de 235 mil milhões e em 2022, mesmo com todos os sucessos que a Comunicação Social replica dos spins socialistas, esse valor ultrapassará os 270 mil milhões.

Nada de bom pode resultar desta combinação de factos.

O país vive desligado da realidade. A vitória do PS nas últimas legislativas, e por maioria absoluta, foi mais uma manifestação dessa alienação. Votou-se no PS com a convicção de quem quer calar os alertas, as recomendações e os críticos. Isto podia estar bem pior e o que temos, mesmo não sendo nosso, chega-nos bem. Quem vier depois que feche a porta.

Um dia, no futuro, os nossos descendentes irão ficar incrédulos como é que o país se deixou enredar nesta armadilha.

alienado.png

Festival JuncalJazz

Paulo Sousa, 31.05.22

Desde 2018 que faço parte da casa das máquinas de um festival que veio ao mundo com o nome de JuncalJazz.

A ausência de qualquer tradição jazzística no Juncal, e por isso de público que a sustentasse, seria suficiente para classificar esta iniciativa como insensata e condenada ao fracasso. Foi com este pano de fundo que um grupo de carolas arregaçou as mangas e avançou para a primeira edição.

Este festival pretende em primeiro lugar proporcionar espetáculos de música ao vivo de qualidade e também divulgar este género musical.

O sucesso do ano de arranque levou-nos a aumentar o número de espectáculos mas o crescimento de público com que contávamos não se realizou e a excelente qualidade da música em palco não coincidiu com a capacidade de solver as responsabilidades com as receitas do evento. Lamber feridas não ia resolver nada e após se terem identificado os erros cometidos, preparamos a terceira edição que deveria arrancar em Março de 2020. A pandemia fez-nos adiar todo o projecto e por isso só agora iremos retomar o ritmo que não queríamos ter interrompido.

A edição deste ano começa no próximo dia 4 de Junho com uma participação muito especial. Yuliia Kompaniiets (piano) e a filha Uliana Lyman (violino) têm formação clássica, mas estão a preparar um repertório jazzístico exclusivo para o nosso festival. A Yuliia e a Uliana chegaram ao nosso país em Março passado na Missão Ucrânia que partiu de Porto de Mós em Março passado.

Nessa mesma noite teremos ainda o trio Mana, com o João Monteiro no baixo, o Fábio Rodrigues na bateria e o Ruben Almeida no piano. Os músicos deste projecto são formados em Jazz e ao longo dos anos colaboraram em diferentes projectos de artistas do género, onde se destaca a mais recente colaboração de João Monteiro e Fábio Rodrigues na fundação da banda portuguesa da artista de jazz americana Hailey Tuck, entre outros. O grupo irá apresentar temas originais, bem como alguns dos standards mais emblemáticos que marcaram a história do jazz.

Na sexta-feira, dia 10 de Junho, a animação de New Orleans está garantida pelos nossos vizinhos nazarenos da banda DixieNaza. É uma banda com sete elementos que trará até ao nosso palco a variante de Jazz considerada por muitos como a mais adequada para atrair os curiosos por este género musical. Connosco teremos o Vitor Guerreiro no trompete, o Nuno Mendes a soprano, o Daniel Vinagre no saxofone, o Élio Fróis no trombone, o Celso Batista no sousafone, o Márcio Silvério no banjo e ainda o Vitor Copa na bateria.

Para o encerramento do festival teremos, no dia 18 de Junho, um concerto intimista com o trio F.A.N. liderado pelo jovem baterista Francisco Gomes, acompanhado por Afonso Pais na guitarra e Nelson Cascais no contrabaixo. Com eles seremos levados numa viagem até ao mundo musical de Thelonious Monk, um dos mais importantes compositores e intérpretes do jazz.

Faço deste postal um convite a todos. Será um gosto receber-vos no Salão Paroquial do Juncal.

Reserva de bilhetes aqui e mais informações aqui.

JuncalJazz22_cartaz (1).jpg

 

SuperNature de Ricky Gervais

Paulo Sousa, 30.05.22

Lembro-me de uma vez, no adro da igreja, à saída de uma cerimónia qualquer, ter ouvido uma muito acintosa reprimenda por ter dito “pontapé no cu”. Segundo a senhora dona beata que me corrigiu, a forma não ofensiva deveria ser “pontapé no rabo”. “Não te ensinam isso em casa?”. Esta pergunta tinha outro alcance, que na altura não atingi, mas essa terá sido a primeira vez que me recordo de ter lidado com polícias da linguagem.

É engraçado como nesse tempo, no final dos anos 70, eram as forças conservadoras que ainda insistiam em consumir as suas energias na correcção da forma como os outros se exprimiam.

Acabou por ser mais rápido, mas tal como o norte magnético do globo, que se vai deslocando continuamente para daqui a uns milénios chegar ao hemisfério sul, o policiamento da linguagem acabou por ter sido adoptado, poucas décadas depois, pelas forças ditas progressistas.

Já excluindo o efeito “não é o que disseste, mas a forma como disseste”, a lista de tudo o que se pode dizer sem ofender alguém não pára de aumentar.

Pode fazer-se anedotas sobre alentejanos, sobre padres e freiras, sobre fanhosos, sobre anões, sobre tipos com óculos, sobre prostitutas, sobre drogados, sobre marrecos, sobre políticos que acreditaram no Sócrates, sobre infectados com covid e mais o que a imaginação permita, mas, atenção, nem pensar em gozar as minorias que exigem ser tratadas de forma inclusiva. Talvez por não terem reparado, incluir estas minorias no anedotário é também uma forma de inclusão. Esta piadola não é minha, mas de Ricky Gervais no seu mais recente especial, SuperNature, publicado na Netflix.

ricky gervais.png

Ricky Gervais, neste seu espectáculo, faz quase o pleno nos temas sobre os quais é suposto não se poder brincar. Ao vê-lo lembrei-me mais vezes das beatas dos anos 70 (que de tanto se persignarem tinham calos na testa) do que do universo Woke, que é também referido pelo autor.

Chamar corajoso a Ricky Gervais é um exagero, pois não passa de um tipo a dizer umas piadas, em que algumas delas estão longe de ser geniais, mas sempre que oiço alguns palermas a querem calar a boca a outros eventuais palermas, acho que faz falta quem goze com todos eles. Assistir ao SuperNature não resolve nenhuma destas questões, não reeduca ninguém, mas ajuda-nos a rir destes nossos dias que vivemos. Eu gostei.

Os arquivos da polícia de Xi Jiang

Paulo Sousa, 25.05.22

A Fundação para a memória das Vítimas do Comunismo divulgou ontem um relatório baseado na maior fuga de sempre de documentos internos das redes policiais chinesas.

Os designados “Arquivos da Polícia de Xi Jiang” contêm dezenas de milhares de registos com detalhes sobre o funcionamento do sistema de campos de internamento chineses, assim como milhares de imagens de uigures detidos, de guardas policiais empunhando armas automáticas, algemando e imobilizando detidos durante as rotinas de segurança do campo.

IMG_0410.jpg

Os arquivos também contêm discursos de alguns dirigentes chineses que permitem entender o estado de espírito e a lógica de funcionamento desta perversa rede de campos de concentração. Tudo assenta numa lógica de que determinados grupos étnicos devem ser tratados como criminosos perigosos. Os procedimentos são claros, para evitar fugas do acampamento pode abrir-se fogo sobre qualquer detido que tente escapar-se.

A partir de um discurso do ministro de Segurança Pública revelam-se ordens directas de Xi Ji Ping para expandir este sistema prisional como forma de resolver a sobrelotação da estrutura existente.

A partir destes arquivos é permitido concluir que Pequim tem detidos “mais de dois milhões” de uigures considerados “extremistas”, e portanto, alvos potenciais para a reeducação.

Os registos policiais indicam que numa região administrativa específica em 2018 mais de 12% da população uigur adulta estava detida.

De acordo com o Embaixador Andrew Bremberg, presidente da Fundação para a memória das Vítimas do Comunismo, “os arquivos da Polícia de Xi Jiang provam que os chamados centros de educação vocacional da China são realmente prisões”. “Estes documentos demonstram também que Pequim tem mentido sobre suas graves violações de direitos humanos em Xi Jiang.”.

Estes dados foram autenticados e analisados ​​por Adrian Zenz, um dos principais estudiosos sobre a campanha de internamento de Xi Jiang, assim como por outros académicos que publicam regularmente no respeitado Journal of the European Association for Chinese Studies e ChinaFile.

Adrian Zenz afirma que "estas descobertas são significativas porque nos fornecem directrizes claras de implementação de políticas assim como os processos de pensamento e intenções que os tornaram realidade” e “isso dá-nos uma visão sem precedentes da abordagem das autoridades chinesas assim como do envolvimento pessoal de Xi Ji Ping.”

Ao navegar pelas fotos dos detidos recordei-me dos corredores de fotos expostas em Auschwitz, sendo que perante as imagens destes campos de “reeducação” chineses podemos ver os rostos de pessoas que neste momento poderão estar vivas.

A invasão russa da Ucrânia lembrou-nos como podem ser perversos e atrozes os regimes autoritários e totalitários. Este relatório deve lembrar-nos que as perversas atrocidades deste tipo de regimes não se esgotam nas invasões criminosas de outros países, pois decorrem rotineiras todos os dias, mesmo quando esses países se apresentam como respeitáveis na cena internacional.

As democracias liberais do ocidente têm de ter consciência disto. Só assim se poderão defender da ameaça que estes regimes constituem assim como das tentações autoritárias que dentro delas possam surgir. Estejamos alerta.

Fugiu-lhe a boca para a verdade

Paulo Sousa, 19.05.22

Ao invadir o Iraque em 2003, os EUA cometeram uma grosseira violação do direito internacional. Não era necessário ser anti-americano para ver que nada de bom poderia sair daquele excesso de testosterona de um país que então se comportou como um adolescente rico a exibir o seu poderio militar. O seu presidente de então, George WC Bush, também nunca conseguiu convencer ninguém que parte da sua motivação não ia além de querer mostrar ao paizinho que já era um homem crescido.

Ontem, numa intervenção em Dallas, WC Bush, deixou-se atraiçoar pelo seu subconsciente, e quando falava sobre, a igualmente criminosa invasão russa da Ucrânia, trocou o nome dos países e acabou por se confessar em público, dizendo: “A decisão de um homem de lançar uma invasão totalmente injustificada e brutal ao Iraque”... “Quero dizer, à Ucrânia”.

Mesmo para quem, como eu, gosta de histórias onde os patifes se conseguem redimir, esta escorregadela verbal não teve graça nenhuma.

Os palermas apoiantes dos crimes de Putin, que certamente condenaram a invasão do Iraque, até podem pensar que encontrarão neste lapsus linguae um apoio para evitar cair no poço do ridículo onde escolheram mergulhar, mas estão enganados. Quem tentar justificar um crime cometido com um outro de um outro criminoso, não está a fazer outra coisa que não seja assumir a sua clamorosa falha.

O que se seguirá ao desaire russo?

Paulo Sousa, 11.05.22

russian tank (2).png

Não caberia num postal, nem a informação pública o permitiria, elencar aqui tudo o que a Rússia já perdeu desde que o seu ditador Putin decidiu avançar contra a Ucrânia. A ocupação de território ucraniano já tinha começado há mais tempo, mas quero apenas aqui referir o que se passou nos últimos 77 dias.

Na história das últimas décadas, 77 dias são uma gota de água no oceano, mas ainda assim já foram suficientes para que o segundo melhor exército do mundo tenha passado a ser o segundo melhor exército na Ucrânia.

A estratégia tomada pelo Kremlin levou a que muitas da suas fragilidades tenham sido reveladas. Enquanto as torres dos seus tanques subiam pelos ares, o navio porta-bandeira Moskva avançava no Mar Negro em sentido contrário. Enquanto a imensa coluna com 60 km de veículos treinava tiro aos patos, mas no lado dos patos, a desorientação dos seus soldados obrigava os tractoristas ucranianos a fazer horas extraordinárias. E entretanto confirma-se que a evolução das capacidade dos drones tornou obsoleta a imensa frota de blindados russa.

A inoperacionalidade das suas comunicações, das suas linhas de comando, as continuas falhas logísticas, a falta de sorte dos seus generais, a desmotivação das suas tropas, tudo ajuda a que o sentido da guerra se tenha tornado cada vez mais claro.

Os desenvolvimentos mais recentes, com o reforço maciço do apoio americano e em que até a inicialmente reticente Alemanha decidiu começar a enviar armamento pesado, de ataque, para as forças ucranianas, fará com que o previsível arrastar da guerra se torne demasiado exigente para o invasor.

Fora da fronteira da Ucrânia, a Rússia também conseguiu, em apenas 77 dias, ficar isolada internacionalmente, conseguiu que a Finlândia e a Suécia dessem passos definitivos para aderirem à Nato, conseguiu que os EUA tenham recebido longas encomendas de armamento por parte dos países europeus, conseguiu que a União Europeia se mostrasse mais unida que nunca, tendo alterado até a sua política de defesa e que pela primeira vez tenha decidido usar os seus fundos para a aquisição de armamento. Conseguiu também ficar fora do próximo cocktail energético europeu, e isso pode durar muitos anos.

De tanto querer ajustar contas com a "humilhação" sofrida aquando do desmoronamento da URSS, Putin faz lembrar Hitler quando tentou igualmente acertar contas com o passado e com a forma como a Alemanha sentiu a derrota de Versalhes.

Mesmo sendo impossível consegui-lo, se fizermos por ignorar todos os crimes que foram cometidos contra civis, o que é público e notório, e que ficará na memória de todos durante muito tempo, é a imensidão de episódios que destruíram completamente a respeitabilidade do exército russo, assim como do regime de turno no Kremlin. Sem motivos para ser temido, nada pode segurar Putin ao poder.

Se alguém aprendeu alguma coisa com a história, concordará que a Rússia pós-Putin deverá ser apoiada e ajudada a regressar ao concerto das nações. Nesse sentido vale a pena ouvir as recentes palavras de Macron. Não se pode construir uma paz (duradoura) com a humilhação da Rússia. Para entender esta frase, importa não repetir um dos erros maiores de Putin, e que consiste em confundir-se com o país. A Rússia não é Putin.

Quando dentro da Rússia a maré virar, e é inevitável que vire, ninguém aceitará ser liderado por um líder perdedor que arrastou o país para a humilhação.

A desintegração da Federação Russa em diversos estados seria uma possibilidade, mas a China não permitiria que isso acontecesse. É muito melhor ter um vizinho gigante e politicamente frágil, que lhe permita um acesso privilegiado aos seus recursos naturais, do que uma ninhada de Kadyroves armados com ogivas nucleares.

Agora vamos ver como é que irá envelhecer este postal.

A Europa do Donbass a Lisboa

Paulo Sousa, 10.05.22

Em 19 de Setembro de 1946 Winston Churchill discursou na Universidade de Zurique e elaborou sobre o deveria ser a Europa após o pesadelo da Guerra.

Neste discurso lançou a ideia do que, a título de exemplo, designou como Estados Unidos da Europa, que deveria ser um sitio onde “as pequenas nações contarão tanto como as grandes e honrar-se-ão pela sua contribuição para a causa comum” (…) e “se, numa fase inicial, nem todos os Estados da Europa quiserem ou poderem juntar-se à União, devemos, contudo, proceder à junção e combinação daqueles que o querem e daqueles que o podem fazer.”

O seu propósito foi lançar um futuro com base na reconciliação das nações europeias para que estas vivessem livres da guerra e da tirania.

Todos nós temos que voltar as costas aos horrores do passado. Temos que olhar para o futuro.” (…) “A salvação das pessoas comuns, de todas as raças e de todas as terras, da guerra e da servidão deve ser estabelecida em bases sólidas e preservada pela disposição de todos os homens e mulheres de antes morrerem do que submeterem-se à tirania.”

É claramente dentro do espírito original do projecto europeu, que na véspera do dia da Europa, Úrsula von der Leyen, afirmou no Parlamento Europeu que “o futuro da União Europeia que está neste momento a ser escrito na Ucrânia”.

Por muitos defeitos que se possam apontar ao funcionamento das instituições da UE, a Europa sugerida por Churchill, continua a ser um espaço de liberdade. A actual Presidente da Comissão Europeia nasceu mais de dez anos após este discurso e isso mostra como é que ao longo de gerações o sonho europeu se tem conseguido manter fiel ao seu espírito original.

Se dúvidas sobre o valor deste património de paz e de cooperação houvessem, essas dúvidas desvaneceram-se quando, às ordens de Putin, a força da tirania regressou ao solo europeu. Mais do que em qualquer outro momento que me recorde, observo pelos écrans o rasto de caos e destruição, e vejo materializar-se exactamente aquilo que Churchill, e os fundadores da UE, queriam evitar que se repetisse.

A tirania tem de ser travada. Putin tem de ser derrotado e a liberdade irá vencer. É por isso, que é na Ucrânia que se está a desenhar o futuro da UE e é exactamente por isso que os países europeus devem dar todo o apoio às Forças Armadas Ucranianas.

Ainda sobre os palermas

Paulo Sousa, 05.05.22

Paulo Tunhas presenteia-nos semanalmente no Observador com alguns detalhes captados pelo seu olhar treinado na filosofia e que escapam aos banais observadores da realidade, onde me incluo.

Hoje escreve sobre as palavras certas das pessoas simples, sobre a forma linear como as vítimas dos bombardeamentos russos explicam aquilo por que têm passado, mas não só. Às páginas tantas diz:

 

“Ouvir um comunista é ouvir uma máquina de palavras – a célebre “cassete” – cujo contacto com a realidade é puramente acidental. Até a maníaca repetição de fórmulas sublinha esse lado maquinal. E as máquinas de palavras são indiferentes à verdade. Como são indiferentes à verdade os conspiracionistas sortidos, de esquerda ou de direita, que vêem na invasão da Ucrânia a resposta justa e inevitável a uma urdidura dos Estados Unidos e dos seus velhos aliados britânicos, que arrastariam consigo a União Europeia. Os conspiracionistas são, em geral, analfabetos que confundem uma desconfiança originada pelo que se chama “egoísmo lógico” com uma forma de cepticismo. Dito de outra maneira: recusam-se a acreditar no que o comum acredita porque isso os faz sentir intimamente detentores de uma verdade oculta que não está ao alcance da maioria. Também a estes a mentira os atrai como uma luz inesperada e lhes faz descobrir um mundo de possibilidades infinitas que o banal respeito pela verdade infalivelmente restringiria.”

 

Aderir a uma religião ou a uma ideologia é aceitar uma grelha de interpretação da verdade que garante uma bateria de respostas para perguntas difíceis. Uma teoria da conspiração é muito mais fácil de levantar, pois basta juntar duas ou três coincidências e, como quem une os pontos, em vez de os ligar com segmentos de recta, recorre a criativas formas curvilíneas que têm de cruzar também os seus medos e ódios. Há sempre uns tontinhos que, por partilharem os mesmos medos e ódios, acabam por engolir a embalagem toda sem mastigar. São os palermas.