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Delito de Opinião

Um resumo de como aqui chegámos

Paulo Sousa, 16.01.22

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O debate da passada quinta-feira entre António Costa e Rui Rio, transmitido pelos canais televisivos generalistas, teve uma grande audiência e, apesar de ainda ser cedo para o sabermos, no futuro poderá vir a ser lembrado como um ponto de viragem na trajectória política do país.

Não vale a pena alimentar a questão de quem ganhou o confronto, pois isso permite apenas saber a simpatia prévia de cada opinador. No pós-debate televisivo isso foi muito claro. Saltando de canal e canal, apanhei uma sequência de comentários na CNN que achei representativa do que de facto está eu causa no próximo dia 30.

Mafalda Anjos:
“Não acho que tenha sido um debate facilmente inteligível para a maioria das pessoas.”

Anabela Neves:
“Rui Rio remete para a situação económica a execução de uma série de políticas, até algum aumento do SMN, ou seja, se a economia ajudar, se não houver inflação, não se compromete com nenhuma meta económica.” (…) “Isso é uma falha do líder do PSD (…) porque está tudo tão dependente da economia que tudo pode ser ao contrário.”

Sebastião Bugalho:
“A grande mais-valia de Rui Rio é a honestidade de dizer que “eu só vou fazer X se a economia o permitir (…) Isso é uma das forças desta campanha. (…) Eu, ao contrário do senhor, não vou prometer o impossível.”

Mafalda Anjos:
“A dúvida é saber se isso é galvanizador para as pessoas.”

Por oposição ao que foi dito nesta pequena sequência, é fácil entender que com o PS no governo as benesses a distribuir estarão garantidas, em qualquer circunstância, mesmo que a economia não o permita.

No tempo do escudo, os aumentos de 10% dos salários eram acompanhados de uma desvalorização da moeda de 20%. Assim se calava quem exigia ordenados mais altos e ao mesmo tempo ia-se-lhe ao bolso de forma indirecta.

Com a política monetária nas mãos do BCE a trapaça acima referida tornou-se obsoleta. As baixas taxas de juro associadas ao euro tornaram-se assim a saída para quem, de bolsos vazios, promete farturas. E assim chegamos a 2022 com duas décadas de estagnação económica e endividados para mais de duas gerações.

Será que este debate foi de facto “inteligível para a maioria das pessoas”? Será que a honestidade de Rui Rio não é “galvanizadora para as pessoas”? Será mesmo uma falha do líder do PSD assumir que “eu só vou fazer X se a economia o permitir”?

No dia 30 saberemos o que os portugueses querem para o seu futuro.

Um visão sóbria sobre a nossa relação com os animais

Paulo Sousa, 13.01.22

Nestes dias em que a campanha eleitoral absorve as nossas atenções e o espaço mediático, a entrevista da rádio Observador a George Stilwell terá passado sem o destaque merecido.
Esta entrevista seguiu-se a uma outra a José Rodrigues dos Santos, em que o seu livro “O jardim dos animais com alma” foi assunto. Às páginas tantas o autor terá comparado os métodos de extermínio de Auschwitz com o que se passa nos matadouros. A partir deste tópico e olhando para o título do livro é fácil concluir a temática em causa. E que tal ouvir o que um veterinário tem a dizer sobre isto?
Fazer aqui um postal que resumisse a entrevista a George Stilwell seria redutor de tudo o que ali disse. Por isso, o melhor mesmo é ouvir a entrevista toda. Está também disponível em podcast.
Termino dizendo que a opinião positiva que tinha de George Stilwell, resultante de um curto contacto, saiu deveras reforçada.

Os ungidos, os outros e o meu voto

Paulo Sousa, 07.01.22

Os lisboetas são desde há muito, talvez desde sempre, uma amálgama de gente oriunda de muitos recantos do país, do finado império e do restante mundo. Está longe de ser a mais cosmopolita capital da Europa, mas é fácil concluir que será a cidade mais diversa do país.

Existe um círculo de lisboetas, nem todos alfacinhas nados, que por pisarem as alcatifas do poder interpretam-se a si próprios como tendo sido incensados por uma força superior que os distingue dos demais portugueses. Quando se tratam de lisboetas de adopção podemos dizer que num certo momento das suas vidas terão atravessado um pórtico reservado apenas aos escolhidos e afortunados. Depois desse momento, e que até poderá ter ocorrido de forma não consciente, passaram a considerar que os problemas do país se esgotam nas avenidas que percorrem e no que é noticiado pelos jornalistas lisboetas.

Para os nascidos já alfacinhas a dinâmica é diferente. Muito poucos alguma vez terão vivido na “província” que quer dizer fora da Grande Lisboa. É como se nascer e viver dentro da Grande Lisboa proporcionasse uma camada adicional de civilização e para eles isso é tão óbvio que dispensa explicação.

Recordo-me de no final dos anos 80, num qualquer intercâmbio escolar, uma turma de Lisboa (sei lá de onde, podia ser do Forte da Casa, de Oeiras ou até do Barreiro) visitou a Escola Secundária de Porto de Mós. Andaram por ali umas horas já não sei a que propósito, e alguns deles foram assistir a uma aula da minha turma. O livro dessa disciplina não tinha ilustrações coloridas. “Vejam lá que aqui os livros ainda são a preto e branco”, disparou logo o mais espigadote, para gáudio dos seus colegas. Podia ter sido bem pior, mas a piadola não gerou mais que uns levantar de sobrancelhas, uns olhares trocados entre nós, seguidos de uns encolher de ombros. Provavelmente o tipo até preferia ter ido naquele dia ao Jardim Zoológico, mas o melhor que lhe calhou foi um intercâmbio com um escola secundária na província.

De forma mais ou menos assumida, em todos os grupos do bicho humano existe a noção dos que lhe pertencem e dos que não partilham a mesma identidade e valores. Para o círculo dos ungidos de Lisboa, nados e adoptados, o poder pode ser tomado democraticamente, é óbvio, 25 de Abril sempre, blá, blá, blá, mas têm de ser por um dos seus confrades. Para os de fora, alcatrão e penas.

O ungidos toleraram Durão Barroso, José Sócrates (com a sua famoso casa na Rua Castilho) e António Costa, mas nunca perdoaram as gafes literárias nem o ligeiro sotaque algarvio de Cavaco Silva e muito menos as conferências de imprensa de Rui Rio feitas por a partir de hotéis do Porto.

Dito isto, aproveito este postal para fazer a minha declaração de voto não próximo dia 30.

Se o nosso sistema eleitoral não sofresse do centralismo que reflecte parte do que acima tentei retratar, em Portalegre a democracia seria igual à de Lisboa, mas isso não se verifica, pois, este deprimido distrito do interior elege apenas 2 deputados. Lisboa elege 48. Este tremendo desequilíbrio leva a que quem no distrito de Portalegre não tencione votar num dos dois principais partidos não valha a pena sair de casa para ir votar. A abstenção, como bem sabemos, resulta da falta de sentido democrático dos portugueses e depois de cada acto eleitoral todos os líderes partidários afirmam com ar sério que o país tem de estudar o fenómeno da abstenção e encontrar a forma de a reduzir. Já aqui postei sobre uma sugestão que reduziria este enorme desequilíbrio e aguardo que possa ser corrigido a breve prazo.

Leiria, o meu distrito, elege 10 deputados. Neste cenário, votar em qualquer partido que tenha menos de 10% das intenções dos voto, facilmente corresponderá ao desperdício desse mesmo voto. Se fosse eleitor em Lisboa ou no Porto (que elege 40 deputados) não duvidaria um segundo em votar IL. Se votasse no Porto ainda votaria com mais convicção pois saberia que estava a ajudar a que Carlos Guimarães Pinto fosse deputado. Não duvido que é de gente como ele, desempoeirada e com mundo, que repudia as fórmulas javardas do Ventura, com capacidade de argumentação e capaz de questionar o marasmo socialista, que o país precisa no Parlamento.

Tendo como cenário de fundo os últimos 20 anos de estagnação económica, a arrogância e a sobranceria com que o PS trata o país, é urgente que o poder mude de mãos. Milhões de portugueses acharão o mesmo, mas têm receio que o seu voto no PSD possa dar azo a que Ventura venha a ter uma palavra a dizer na futura fórmula governativa. Para os que, não fosse o receio do Chega, até votariam PSD, o que devem fazer é mesmo votar PSD. Cada voto adicional no PSD reduz o peso relativo do Chega. Para quem não usufrua do privilégio de ser eleitor num grande círculo eleitoral e queira interromper a hegemonia socialista não tem alternativa ao PSD.

Por tudo isto, por achar que a fricção entre os media e Rio e Rio e os media, se auto-alimentam, por achar que a grelha de exigência aplicada a Rui Rio só foi aplicada até hoje a Cavaco Silva, e apenas por este também se apresentar como vindo de fora dos ungidos, votarei no PSD.

Juntos seguimos e conseguimos *

Paulo Sousa, 05.01.22

“A partir das últimas décadas do século XX, este Pinhal tem sido largamente negligenciado. Para se ter uma ideia deste desinteresse, basta referir, por exemplo, que, no domínio dos recursos humanos, em 1980 havia 144 trabalhadores rurais, que, segundo os técnicos da altura, “não chegam para resolver cabalmente os problemas da instalação e tratamento dos povoamentos”, 29 guardas florestais, 4 mestres e 9 técnicos (engenheiros silvicultores). Hoje há 30 trabalhadores rurais (sobretudo mulheres), não há guardas a dependerem desta Direcção Geral (a Polícia Florestal que surgiu em sua substituição actua sobretudo na fiscalização da caça e pesca nos concelhos de Leiria, Marinha Grande, Pombal, Batalha e Porto de Mós) e há apenas 2 técnicos para uma zona que compreende Marinha Grande, Pombal, Figueira da Foz e Serra dos Candeeiros.

As tarefas dos trabalhadores rurais passam sobretudo por medir pinheiros fiscalizar cortes, pintar casas e pontes. Nas matas do Pedrogão e do Urso, que juntas perfazem 8.000 ha, trabalham apenas duas mulheres. O número é claramente insuficiente, segundo o responsável pela administração deste Pinhal, acrescentado ainda que este “está ao abandono”. Efectivamente o orçamento de 2003 para limpeza e conservação da Mata foi zero. Por outro lado, ela rende anualmente ao estado cerca de milhão e meio de euros.”

 

Vidas de Carvão, As carvoeiras do Pinhal do Rei
de Paula Lemos
Imagens & Letras - 2007

 

O grande incêndio de 2017 destruiu 86% da área da mata conhecida por Pinhal do Rei. O texto acima, quase premonitório, foi publicado dez anos antes deste evento trágico. Já aqui postei sobre a demora na sua replantação e de como é difícil passar por ali, lembrando toda aquela imensidão de verde, que nos idos anos 40 inspirou o poeta Afonso Lopes Vieira.

 

Catedral verde e sussurrante, aonde
a luz se ameiga e esconde
e aonde, ecoando a cantar
se alonga e se prolonga a voz do mar,
ditoso o Lavrador que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim

 

Quem não conhece a zona, quem ali não tenha construído memórias e desconheça a sua dimensão, não imagina o sofrimento de quem visita a mata.

Na sua largura máxima a mata tem 8.400 mt e 18.700 mt no seu maior comprimento, num total que ultrapassa os 11.000 ha divididos em 342 talhões. São necessários longos minutos de carro para atravessar a zona. É uma imensidão de área que nunca mais voltarei a ver como a conheci.

Não chegasse a incúria que nos levou a esta tragédia, António Costa, apostado em desrespeitar o “ditoso Lavrador” de Afonso Lopes Vieira, uns meses após a tragédia visitou a área e mostrou-nos que o que ficava ali bem eram sobreiros. Os nossos antepassados eram uns palermas e ele é que sabe.

Em Abril passado, e perante a decisão do Governo de adiar mais uma vez a sua replantação, o PS da Marinha Grande manifestou “a sua mais profunda desilusão e descontentamento" o que é demonstrativo da falta de sensibilidade com que se governa o país a partir de Lisboa.

Muito mais do que em qualquer metáfora literária, plantar uma árvore é realmente oferecer algo às próximas gerações, e nisso, estes adiamentos consecutivos dizem muito da forma como este governo lida com o futuro.

Entretanto, as acácias vão progredindo e os sobreiros plantados pelo senhor das meias verdes, sucumbiram.

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Foto minha tirada a 3 de Janeiro de 2020

* Slogan do PS para as eleições legislativas de 30 de Janeiro 

O Natal não é só prendas

Paulo Sousa, 24.12.21

Nesta altura do ano e perante a voragem consumista em que o Natal se tornou, ainda vai havendo quem tente lembrar aos mais novos o sentido que reveste a origem desta celebração.

O algoritmo do Facebook lembrou-me hoje uma conversa com o meu filho que lá partilhei há uns anos e que agora transcrevo aqui no DO.

- Sabes que o Natal não é só prendas.
- Pois não. Às vezes dão roupa.


Desejo um Feliz Natal para os meus colegas delituosos e para todos os leitores que nos fazem o favor de por aqui passar.

Um abraço

A antevisão do derby do próximo dia 30

Paulo Sousa, 23.12.21

- Já viram estas subidas de preços? Agora é que vão começar as dores! - Disse o dono da loja, já velhote.

- Isto já não pode piorar mais! Só se começarem aí a matar velhos de empreitada! - Respondeu o cliente que teria a mesma idade e, como o comerciante, usava a máscara por baixo do queixo.

- Estás-te a queixar de quê? Tu é que gostas deles, vai à gaita.

Nesta altura já dava para entender que eram vizinhos e conhecidos de há muito.

- Epá, sempre gostei do PS, o que é que queres? Em minha casa somos todos do Sporting, menos a patroa que é do Benfica. Temos de respeitar.

- Pois, mas gostas tanto deles e estás a dizer que isto está mal. És um palerma! – Respondeu dando um murro no balcão de vidro.

- Sou palerma, mas nunca votei no CDS como tu!

- Votei CDS, mas foi para a Junta, e foi porque o Nabais estava na lista. E tu votaste no Sócrates, homem! – respondeu o comerciante, enquanto levantava as mãos acima dos ombros, como os sacerdotes na eucaristia.

- Mas olha que só voto no Costa se ele me der os vinte euros de reforma que me tiraram.

- Ah, então vendes o teu voto por vinte euros, e dizes que isto já não pode piorar.

Nesta altura entrou em cena um vernáculo estreme de conotações sexuais, que aqui não reproduzirei, e que não ajudou a clarificar a discussão.

Ainda fiquei mais uns momentos, mas como vi que não iam entrar em vias de facto, desejei umas Boas Festas a todos e fui saindo.

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Uma conversa muito próxima desta decorreu hoje numa loja muito antiga no centro histórico de Leiria. Para quem procurar um Walkman da Aiwa, posso dar a morada, porque ainda têm um no inventário.

A tecnologia blockchain - II

Paulo Sousa, 21.12.21

Na sequência do meu postal anterior, faz sentido falar também sobre os NFT. Literalmente esta sigla significa Non-fungible Token, e a sua existência baseia-se na tecnologia blockchain. Aqui a "não fungibilidade" assenta numa lógica de estar a lidar com algo único e irrepetível.

Como sabemos é possível fazer cópias infinitas e absolutamente fidedignas de um ficheiro digital, mas não do NFT de uma obra de arte que exista apenas em suporte digital. Uma obra digital pode ser assim transaccionada como se de uma peça de arte convencional se tratasse.

O mercado de transacções de NFT já movimenta valores na ordem dos muitos milhares de milhões de dólares. Aqui os dólares surgem apenas como valor comparativo, pois os NFT são transaccionados em criptomoedas.

Esta é uma tendência razoavelmente recente, mas que não será passageira. Pelo contrário a sua importância irá aumentar e constituirá uma sólida alternativa de investimento e de divulgação artística.

Dentro do mercado dos NFT de arte existe um aspecto deveras interessante para os artistas. Ao contrário do que acontece nas transacções de obras de arte tangíveis, o seu criador ganha apenas o valor pelo qual o vende na primeira vez. Por exemplo, quando ouvimos uma notícia de um preço recorde de uma transacção de um clássico da pintura, os lucros envolvidos são exclusivos de quem os vende. Pelo contrário, neste mercado, o criador do NFT irá receber uma percentagem, um royalty de cada vez que a sua obra mudar de mãos, que depende do estipulado pelo próprio e pela plataforma onde este é lançado o que é muitíssimo interessante, e até justo, para os artistas.

Alguns dos NFT que já foram comercializados por valores mais caros deixam-nos com as mãos na cabeça pelo que de artístico se poderão considerar, mas existe arte produzida em suporte digital, onde se podem incluir fotografias, de elevado valor artístico e que assim, graças ao blockchain e aos NFT, ganham um efectivo canal de venda.

Deixo-vos com duas gravuras que existem exclusivamente em suporte digital, produzidas pelo meu amigo Dom Nuno Viegas, e que foram colocadas à venda há dias. Graças aos NFT podem agora ser transaccionadas neste novo mercado de divulgação e que assim valorizará o seu talento maravilhoso.

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"Maria cookies" / "Bolachas Maria"

 

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"Bowl of tomatoes" / "Terrina de tomates"

A tecnologia blockchain - I

Paulo Sousa, 20.12.21

Lembro-me de antes do virar do milénio ouvir dizer que uns fulanos registavam o domínio informático de algumas marcas conhecidas e depois os vendiam por um dinheirão. Talvez fosse um mito urbano, mas garantiram-me que a própria expo98 teve de negociar o seu domínio .com com alguém que se tinha antecipado.

À época, imaginar o que era um domínio, o que permitia e como este poderia ser comprado e vendido, era algo de uma escala quase esotérica.

Os anos foram passando. Com a progressão e penetração da internet nas nossas vidas esse e muitos outros conceitos impossíveis de explicar nos nossos tempos de juventude tornaram-se banais. O conceito de blog faz parte deste grupo de coisas. Como poderíamos explicar ao nosso avô o que é que afinal é isto do delito de opinião ponto blogs ponto sapo ponto pt?

Tendo já todos estes conceitos enraizados e clarificados, está em curso nos dias de hoje uma outra revolução. Já aí está, mas ainda só mexe nas franjas das massas. Refiro-me ao blockchain. Há muitas fontes de informação, mas nem todas são muito claras. Ouvir algumas dessas explicações traz-nos à memória aquela sensação de 1998 quando tentávamos entender como se podia negociar um domínio.

Sem me querer substituir aos entendidos, julgo que podemos explicar a tecnologia blockchain como algo que permite realizar registos comparáveis aos feitos num livro-razão mas de forma partilhada e descentralizada. Pode ajudar imaginarmos que esta tecnologia permitirá o equivalente aos registos públicos centralizados, mas que dispensa uma autoridade que os valide, pois podem ser verificados por todos e por isso tornam-se incorruptíveis.

Quando nos afirmarmos donos de um carro ou de um imóvel, baseamo-nos no registo que temos em nosso nome na Conservatória do Registo Automóvel ou Predial, conforme o caso. Ora, a tecnologia blockchain permite algo comparável, mas dispensando o registo centralizado. Segundo algumas opiniões é o próprio conceito de comunidade que sai reforçado face ao controlo centralizado.

É nesta lógica que assentam as criptomoedas, mas há um mundo imenso para além disso.

Daniel de Oliveira Rodrigues é um colunista convidado do Observador que aborda frequentemente estes temas e sobre os desafios que tudo isto coloca aos estados, à democracia e à liberdade. Como já disse não pretendo substituir explicações mais competentes, mas em termos das criptomoedas existe uma outra fronteira entre as que são efectivamente descentralizadas e aquelas que os estados pretendem programar como forma de controlar os movimentos financeiros e os assim os seus cidadãos.

A China, que não permite que nada das vidas dos seus cidadãos fique fora do controlo do Partido, quer banir as criptomoedas e subsitui-las pelo yuan digital que passará a ser mais uma ferramenta dentro do seu sistema de créditos sociais. O yuan digital é uma criptomoeda programada que, ao contrário das descentralizadas, além de permitir saber onde os seus cidadãos gastam cada um dos seus cêntimos de yuan, permite ainda que o stock de moeda de cada cidadão seja valorizado ou desvalorizado de acordo com o comportamento do seu detentor. Nem George Orwell se lembrou disto.

As criptomoedas descentralizadas funcionam como se de uma cortina se tratasse, na medida em que para além das quais não se consegue seguir o trajecto de pagamentos e transferências de valores. Os criminosos sabem disso e até se pode dizer que estas acabam por fazer concorrência às offshores.

Desde Setembro passado que a moeda oficial de El Salvador é o Bitcoin. Este pequeno país da América Central, que mais facilmente associamos aos narcotraficantes do que à inovação financeira, tornou-se assim o primeiro estado do mundo a abdicar de uma moeda convencional e a confiar numa criptomoeda descentralizada.

Se por um lado os estados, tal como os conhecemos, pretendem continuar a cobrar impostos sobre todos os movimentos comerciais, financeiros, sobre todas as remunerações de trabalho, valores patrimoniais e tudo mais, e ao mesmo tempo abdicar de invadir a última esfera de controlo sobre a privacidade dos cidadãos, acabarão por ter de decidir se permitem que esta realidade funcione de forma descentralizada ou se, tal como a China, exigirão que só funcione de forma programada. Tudo isto num mercado sem fronteiras e onde a concorrência é efetiva.

Como é visível, o debate sobre as possibilidades que esta tecnologia irá acarretar nas nossas vidas está atrasado face ao seu potencial impacto.

Mas, muito para além das criptomoedas, o blockchain permite também transaccionar outros activos, como obras de arte, música, domínios, “cromos” coleccionáveis, mundos virtuais para jogos, tudo isto e ainda mais um par de botas.

O meu próximo postal será sobre os NFT.

Defraudado e desapontado

Paulo Sousa, 13.12.21

As horas de transmissão da série televisiva Covid-19, vamos agora na temporada Ómicron, foram ontem de manhã seriamente abaladas.

O ex-banqueiro foragido à justiça João Rendeiro foi apanhado pela polícia sul-africana num resort de luxo.

A história tinha ingredientes de natureza diversa que lhe asseguravam espessura para estarmos perante um bom romance. Começando pela ascensão social e financeira da figura, até à sua fuga planeada com o rigor que se encontra apenas nos filmes mais realistas, passando claro pela implosão do seu banco, a revelação das suas burlas artísticas e sem faltarem as contradições entre a frieza do crime financeiro e a melosa paixão pelas três cadelas deixadas para trás a tomar conta da esposa. Tinha quase tudo para ser uma boa história. Claro que se dispensava bem o longo compasso de espera provocado pela sempre demorada e aborrecida justiça portuguesa, mas tudo o resto era muito bom.

Ficamos a saber que afinal, tal como nos filmes, a polícia consegue mesmo seguir o rasto dos pagamentos feitos com meios electrónicos. Se Rendeiro dedicasse algum tempo à filmografia de acção já saberia que devia ter outros cuidados e mais imaginação.

Num filme razoavelmente verosímil o ex-banqueiro agora fugitivo nunca teria sido apanhado sem primeiro obrigar a polícia sul-africana a uma perseguição automóvel pela baixa de Durban, com direito a carros destruídos às voltas pelos ares.

Mas para desmentir definitivamente a teoria da treta que afirma que a realidade ultrapassa a ficção, soubemos que a personagem principal da história foi apanhada de pijama e que se mostrou surpreendido.

Estes últimos detalhes revelam um deprimente desmazelo do romancista. O guião, que chegara a ser promissor, neste ponto já estava a caminho de ser arrastado para aquele cesto dos papéis no canto do écran. O que é que que podia ser mais infantil do que isto?

Mas para arrematar o afundanço, ainda faltava a cereja no topo do bolo. Então não é que o João de Portugal, viajante individual, logo depois de torrar uma boa maquia num programa de encriptação topo de gama, não resistiu em avaliar a sua experiência no Forest Manor Boutique Guesthouse?

Que saudades do Duarte e Companhia. Aquilo é que eram histórias bem apanhadas.

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Li isto e lembrei-me da algibeira do Sr Mário Nogueira

Paulo Sousa, 10.12.21

18 de Janeiro – Feriado do sector vidreiro da Marinha Grande. Data comemorativa da Grande Data comemorativa da Revolta de 1934.

O dia 18 de Janeiro de 1977 calhou ao Domingo. Foi um 18 de difícil de esquecer. Dias antes, soubera-se na vila vidreira que ia haver romagem ao cemitério, de gente de fora da Marinha. Não era caso para se estranhar, na medida em que todos os anos, após o 25 de Abril de 1974, o Sindicato Vidreiro comemorava este dia, sendo o ponto alto das comemorações a romagem ao cemitério em homenagem dos já desaparecidos com a colocação da uma coroa de flores na campa do mais recente Sobrevivente falecido. O que se estranhava era a “Organização” que estava por detrás deste acontecimento. Temia-se que a população acudisse ao apelo de um qualquer grupo de “esquerdalhos”, por isso os Sobreviventes puseram-se a pau. Não estavam dispostos a admitir provocações.

Logo que se soube o Bernardino Brás, o Manuel Baridó e outros, não mais sossegaram. Eles tinham aprendido muito cedo a identificar o “inimigo”, não gramavam gente “pseudo-revolucionária”, que só queria deitar abaixo, sem se importar com tudo o que eles haviam sonhado e ajudado a construir. Eram operários marinhenses dos antigos, do tempo da clandestinidade, que não estavam dispostos a que enxovalhassem antigos companheiros de luta. No cemitério não entrariam!

- Vão lá p’ra terra deles! – Dizia um dos Sobreviventes.

- Eles, sabem lá o que é ser vidreiro?! Eu já tenho muitas gerações de cotim!

Muito antes das onze da manhã, o pessoal foi-se aproximando do cemitério velho. Havia, um pouco mais afastado, um pequeno grupo de vidreiros reformados, desconfiados. Mais além, alguns Sobreviventes tudo inspecionavam, até que, de repente, as pessoas ali presentes movimentaram-se. Olhavam para cima, para a Avenida. Lá vinham eles, todos juntos a desfilar rua abaixo, com um grande cartaz.

- Mas onde diabo foram buscar esta canalha? – comentava-se.

Os vidreiros, com os Sobreviventes à frente, fizeram um cordão cerrado em frente dos portões do cemitério. Aqui, ninguém passa! Eis que, inevitavelmente, a confusão se instala. Houve palavras alteradas, alguns encontrões, mas pouco depois assistiu-se a uma debandada geral e tudo voltou à normalidade. O “grupelho” desagregou-se imediatamente e os seus elementos desapareceram em poucos minutos pelas saídas transversais da entrada do cemitério.

Alcunhas marinhenses, de Deolinda Bonita
Edição da autora - 2003

Será a liberdade que irá vencer?

Paulo Sousa, 01.12.21

Há alguns anos, num alfarrabista, tropecei neste “breviário de cultura”, o décimo quarto da coleção da escritora Gabrielle Froment-Meurice, dedicado à Vida Soviética e publicado no nosso país em 1976.

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A palavra “breviário” só a associava aos livros de orações diárias e por isso, por aparecer ali ao lado da foice e do matelo, despertou-me uma atenção especial.

A autora começa por descrever a grandeza do território da URSS. Para sobrevoar os seus 60.000 km de fronteiras seriam necessários três dias e três noite de voo num Tupolev 800 km/h. O clima é “sadio e tónico”, acrescentado que “os Russos veem nisso o segredo da sua robustez proverbial (“Aí onde um alemão morreria três vezes, o Russo nem sequer adoece”). O “a” minúsculo reservado para o gentílico da Alemanha é substituído por um decidido “R” maiúsculo para o congénere russo, o que também faz parte da mensagem.

Sobre os meios de transporte anotei duas passagens. “Contrariamente ao que se passa nos EUA, a aviação privada não existe na URSS” e ainda “As vias-férreas têm o afastamento de 1,52m (na Europa 1,44m) o que permite comboios mais pesados, mas reduz a velocidade.”

Sobre a população é referido que “o regime soviético procura reunir em torno de um ideal colectivo e de um trabalho comum conducente à homogeneidade social de grupos humanos pouco homogéneos por todas as suas características”. Esta passagem poderia alimentar uma extensa dissertação para quem estivesse interessado em desenvolver a temática do identitarísmo, o que não é o meu caso, mas não deixa de ser interessante.

No que respeita à urbanização o optimismo está sempre presente. É apontado o exemplo de Katchkanar no norte dos Urais “onde há dez anos se arroteava taiga, ergue-se hoje uma cidade de 35 000 habitantes, prevendo-se que dentro de poucos anos tenha 100 000. (ver link)” E continua dizendo que “Estas novas cidades não se criam por acaso, mas são inscritas no Plano.”

Depois de descrito o maior país do mundo, o assunto passa a ser o socialismo. No seu primeiro ponto “Fins e resultados” replica-se a sinopse da contra-capa.

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Não pretendo trazer para aqui todo o livro, que ainda apresenta uma extensa lista de estatísticas onde se incluem máquinas de costura produzidas, frigoríficos, aspiradores, rádios reparados e pares de calçado consertados, mas retenho um excerto da conclusão: “Ainda se está longe de resultados que satisfaçam uma sociedade à qual é cada vez mais difícil impor sacrifícios.”

Em 1976, este tipo de literatura podia condicionar escolhas políticas, era aliás esse o seu objectivo. Tal e qual como acontece em algumas religiões, o comunismo pratica um proselitismo quase agressivo e publicações como esta faziam parte do esforço de propaganda do país e do regime que aspirava a “mostrar o caminho para todo o Universo”.

Simultaneamente decorria a chamada corrida espacial que, se não servisse para mais nada, pelo menos servia para mostrar ao mundo a capacidade científica e tecnológica da URSS.

Pouco se sabia relativamente ao dia-a-dia efectivo do povo soviético. Era difícil confirmar a informação que chegava ao ocidente e os vazios que daí resultavam eram preenchidos pela imaginação dos apoiantes assim como dos opositores. O que se passou em Budapeste, e mais tarde em Praga, bastou para afastar alguns defensores do comunismo, mas nunca faltou quem continuasse a acreditar nos amanhãs que cantam.

Dúvidas relativas às falhas do capitalismo assim como das democracias liberais, eram alimentadas pela propaganda que garantia as vantagens da previsibilidade do Plano. Qual seria o desenlace deste confronto? Venceria o rigor do socialismo científico ou, pelo contrário, seria o caótico sistema liberal a perdurar no tempo? Quais os resultados da justaposição de uma infinidade de escolhas ditadas pelo livre arbítrio dos indivíduos e das empresas em concorrência, quando confrontados com o rigor da economia planificada?

O que aconteceu no virar da década de 80 para 90 já sabemos, mas enquanto que agora quando ouvimos tanta balela podemos esboçar um sorriso condescendente, nos anos 70 e 80 as dúvidas sobre a comparação dos dois modelos eram reais e o cenário de um possível holocausto nuclear era tudo menos animador.

No entanto, o confronto entre o sistema liberal e o autoritarismo socialista está longe de estar resolvido.

O que temos visto acontecer na China nas últimas duas décadas pode alimentar dúvidas similares. Que hipóteses têm os países democráticos, por muita criatividade e capacidade científica que tenham, perante um colosso industrial e económico dirigido a uma só voz, com uma visão de longo prazo, que não perde tempo na contagem de votos nem receia levar a cabo reformas repentinas? A URSS caiu devido às suas debilidades económicas, dirão alguns, mas o modelo chinês, além de parecer ter encontrado forma de que isso não lhe aconteça, lidera algumas áreas do conhecimento e da tecnologia e ousa desafiar a hegemonia dos EUA, e consegue-o mesmo sem ter um único aliado.

Encontram-se explicações para todos os gostos. Para uns o segredo estará na respectiva matriz cultural confucionista, que define a lealdade do indivíduo, para com os seus próximos e para com o seu governante, como uma das grandes virtudes humanas. Por oposição, a matriz judaico-cristã, da qual emana a essência cultural do ocidente, dá uma importância muito superior ao indivíduo. Numa conversa de café pouco preocupada com o rigor da terminologia, isto podia ser resumido como se os chineses e outros povos orientais vivessem numa lógica de formigueiro, em que os indivíduos não hesitam sem se sacrificar pela comunidade, o que nunca seria tão linear no mundo individualista do ocidente.

Os defensores da  China argumentam que o Império do Meio já foi na antiguidade, e durante muitos séculos, o país com a maior economia e o mais poderoso do mundo, estando agora apenas a regressar ao estatuto que já teve, e de caminho aproveita para acertar contas das humilhações sofridas nos séc. XIX e XX.

Quem se identifica com este regime autoritário explica que o perverso sistema dos créditos sociais é muito querido entre os cidadãos chineses, e que apesar de até obrigar à leitura diária de algumas passagens do pensamento do Sr. Xi Jinping, é uma excelente medida para que todos se motivem a fazer parte do que descreveu num artigo de opinião no Diário de Notícias como sendo a Comunidade de Destino Comum da Humanidade.

Os que não aplaudem este Grande Irmão Orwelliano não têm sequer oportunidade de se manifestar, sendo-lhes reservado assim o papel das formiguinhas sacrificadas pelo bem da comunidade.

Será a dimensão da economia chinesa e a sua capacidade científica e tecnológica o seguro de vida deste regime autoritário? Até que ponto o seu sucesso constitui uma ameaça para os regimes liberais?

Jaime Nogueira Pinto, num dos excelentes podcasts em que participa, Radicais Livres e Conversas à Quinta, referindo-se ao fim da URSS, acrescenta um ponto que merece ser destacado. Segundo ele, mesmo com a baixa de preço do petróleo orquestrada pelos EUA e pelos sauditas nos anos 80, que conseguiu abalar irremediavelmente as finanças soviéticas, o que realmente desencadeou o seu colapso foi o fim do medo. A abertura do sistema iniciada pela Glasnost e seguida pela Perestroika levou ao fim do medo e, esse sim, era o cimento do regime.

A mais alta nomenclatura do PC Chinês sabe isso e não abre a mão do controlo férreo sobre os eventuais dissidentes. Alguns alertas sobre a solidez da economia do Sr. Xi Jinping mostram que o capitalismo de estado não está livre de erros nem das respectivas correcções, e correcções significam sempre crises. Mas, como disse acima, os donos da China sabem que mais importante que do manter o crescimento económico a um ritmo regular, o que precisam mesmo é de mostrar aos espíritos rebeldes, àqueles que aspiram a uma “liberdade” diferente, que se não seguirem ordeiramente dentro dos curros colocados pelo PCC, então têm tudo a perder. Os casos do desaparecimento temporário do empresário Jack Ma, ou mais recentemente da tenista Peng Shuai, são bem exemplificativos da forma como o regime chinês lida com quem internamente o afronte ou pense estar fora da sua alçada.

Não podemos esquecer também a forma como a minoria uígure é tratada. Apesar das poucas informações que conseguem cruzar a fronteira, o que sabemos é suficiente para a podermos designar como sendo o Gulag comunista do sec. XXI.

Tudo isto para enquadrar a questão que dá título ao postal. Do confronto entre os regimes liberais e o comunismo soviético, já sabemos o resultado. Qual será então o desenlace da competição estratégica em curso? Estará o mundo livre condenado a recuar naquilo que o define e, pouco a pouco, a aceitar o escrutínio de pensamentos idêntico ao do regime do Sr. Xi Jinping, ou poderão de facto todos os seres humanos aspirar a decidir sobre as suas vidas, a exprimir-se livremente e até a criticar os seus líderes se assim o entenderem?

Passarão muitos anos até que esta questão possa ser respondida, talvez tantos que muitos de nós não assistirão a esse dia. O trajecto até lá não será rectilíneo, mas não duvido que a aspiração pela liberdade é algo partilhado por todos os seres humanos, onde os chineses estão obviamente incluídos. Por isso, o comunismo voltará a ser derrotado.

Pensamento da semana

Paulo Sousa, 28.11.21

As empresas privadas geridas de forma anacrónica por empresários com a 4ª classe, descrição recorrente e simplista feita pelas forças conservadoras do país, estão entre as entidades que beneficiam da reduzida atractividade da nossa economia.

A barreira fiscal, a espessa burocracia dos serviços, a disfuncionalidade da justiça, são incapazes de atrair o investimento estrangeiro, que introduziria competitividade ao nosso mercado. Assim, estas limitações acabam por ser o maior seguro de vida que se possa dar aos que já esgotaram o seu potencial.

Sem reformas na fiscalidade e no funcionamento dos serviços públicos, o marasmo das últimas duas décadas irá mesmo perdurar.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Reconciliação histórica

Paulo Sousa, 25.11.21

Há algum tempo que tenho dado um enfoque especial à leitura de romances sobre a Guerra do Ultramar, entretanto rebaptizada como Colonial, e também sobre a maior movimentação populacional da nossa história que se lhe seguiu, e que trouxe ao nosso léxico o substantivo Retornado.

Não foi assim há tanto tempo e ainda é fácil de encontrar muita gente capaz de relatar na primeira pessoa detalhes do que então se passou. Não cultivamos a nossa memória e este período histórico será mais uma das vítimas do desprezo com que tratamos o nosso passado comum e os seus protagonistas.

A leitura dos livros Olhos de Caçador de António Brito e Nó Cego de Carlos Vale Ferraz leva o seu leitor a mergulhar no quotidiano de uma geração arrancada das suas terras e lançada para os confins do império, do qual conheciam apenas os contornos geográficos observados nos mapas suspensos na sala da instrução primária. À imagem da composição social da época muitos destes soldados eram originários de um Portugal profundo, pouco instruído e pouco esclarecido. O serviço militar levou-os a travarem conhecimento com gente de todo o país, a ouvirem os seus sotaques e a conhecerem as suas particularidades. Muitos chegaram à tropa analfabetos e de lá saíram com conhecimentos técnicos que lhes permitiram mais tarde exercer profissões a que não teriam acesso sem a formação que ali receberam. Mas atrás deles ficaram milhares de outros, mortos, estropiados e deformados para o resto das suas vidas. Definitivamente ninguém regressou igual ao que foi, tendo muitos deles nem sequer regressado.

Estes romances transmitem uma vivência muito intensa, seja quando a narração respeita à tropa macaca, os aramistas, os que nunca saíam de dentro do arame farpado dos quartéis, seja quando a acção é perpetrada por tropas especiais, que faziam incursões pelo mato adentro. Ambos os autores levam-nos para o dia-a-dia dos soldados que cumprem ordens emanadas por oficiais superiores formados em tempo de paz e por vezes mal preparados para lidar com uma guerra assimétrica, travada entre tropas regulares e forças dispersas apostadas apenas em flagelar e desaparecer. Além das inúmeras baixas que estas flagelações provocavam, a ansiedade da espera pelo próximo ataque alimentava a dúvida moral assente na pergunta O que é que estamos aqui a fazer?

As opções políticas de então, enquadradas na geopolítica da época, colocou estas dezenas de milhares de portugueses no lado errado da história e isso apenas acentua o drama da condição do soldado que assenta na sujeição e na obediência do que demasiadas vezes parece não fazer sentido.

Tendo de combater com as limitações logísticas resultantes do embargo internacional a que Portugal estava sujeito, estes soldados preencheram com o seu sacrifício tudo o que lhes faltava e que não era apenas armamento. A imensidão dos espaços e a progressão lenta dos reabastecimentos perturbavam profundamente o seu conforto físico, onde o acesso a refeições regulares e a água potável nem sempre estava assegurado. Haverá certamente quem discorde com esta minha descrição, até porque não é baseada em experiência pessoal, mas apenas na leitura destes romances, mas afinal de contas todos podemos exprimir também uma opinião sobre a Implantação da República, e sobre esse acontecimento estamos todos em pé de igualdade.

A acção de ambos os livros desenrola-se no norte de Moçambique, no que chegou a ser conhecido pelo Estado das Minas Gerais, onde as colunas militares chegaram a ter de lidar com mais de sessenta minas num único quilómetro. Esta arma silenciosa e furtiva, e que para desgraça dos povos mantém a letalidade muitos anos depois da guerra, atrasava durante dias deslocações que poderiam ser feitas em poucas horas. A pressão psicológica a que os picadores, que sondavam cada centímetro das picadas, estavam sujeitos era tremenda e sabemos hoje que mais de metade das baixas então sofridas foram causadas por minas.

O esforço de um pequeno país em manter três frentes de combate, tão dispersas e tão longínquas, não tem paralelo na história. Li algures que isso foi apenas repetido pelo Império Britânico e durante muito menos tempo. A variável mais importante que permitiu tal feito foi o esforço, a obediência e o sacrifício dos soldados portugueses. A sua resistência e frugalidade já a traziam da vida difícil que sempre tinham tido no Portugal salazarista. Estou certamente a ser demasiado simplista, mas este é sentimento que sobra após estas duas obras.

Depois de tanto sofrerem, pela imensidão da distância aos seus sítios de origem, aos seus entes queridos e por terem sentido o absurdo da guerra, embora nem todos na mesma medida, esta geração regressou a um Portugal diferente daquele que tinham conhecido e que então se reinventava. Apesar desta reinvenção ter sido desencadeada pela mão das Forças Armadas, a nova narrativa não reservava o espaço de reconhecimento que esta multidão de gente merecia.

Na vida de demasiados destes portugueses, e das suas famílias, a guerra continuou a consumir-lhes os dias e as energias atormentando-os por muitos mais anos. Todos conhecemos quem tenha sofrido, ou ainda sofra, de Stress Pós-traumático, e isso é algo que o país demorou demasiado tempo a dar a devida importância. Se não se fizesse tanto por esquecer tudo isto, aquilo porque estes soldados passaram deveria até entrar nas comparações dos debates actuais sobre a violência de género. O esquecimento é apenas mais uma camada de violência.

Através d’O retorno de Dulce Maria Cardoso e d’O último ano em Luanda de Tiago Rebelo, revive-se o choque de quem teve de abandonar tudo o que tinha, de quem simplesmente fugiu para salvar a vida, sem nada nas mãos, alguns para uma terra que nunca tinham pisado e onde não conheciam ninguém. Nem todos se adaptaram bem ao que encontraram mas não duvido que o Portugal que somos hoje é também um Portugal moldado pelo que os retornados acrescentaram à “metrópole”, com a vivência que trouxeram, com o seu “fazer pela vida” que agora se chama empreendedorismo, e até pelo nível médio de instrução, que era bem superior ao do rectângulo europeu. Este acontecimento, que por si só já seria profundamente marcante, coincidiu com os anos quentes do PREC e com um nível de incerteza que hoje, para quem não viveu esses tempos em idade adulta, será difícil de imaginar.

O país mudou do paradigma imperial para a partilha da identidade europeia sem que se tivesse feito o luto pelo fim do que fomos durante quinhentos anos. Mergulhámos na Europa da CEE, e mais tarde da UE, mais num golpe do desenrascanço que nos caracteriza do que por uma convicção sentida e vivida. Vendo bem, a nossa atitude quase não difere da desse meio milénio. Já não vivemos à custa de outros territórios, mas vivemos à custa dos impostos que outros pagam. Mudou a origem da riqueza, mas o mamar é o mesmo. Talvez por isso, não valha mesmo a pena fazer luto por coisa nenhuma.

Ainda assim, e porque gosto de registos históricos, deveria ser lançada uma campanha que promovesse e premiasse a elaboração de registos das memórias pessoais do que então aconteceu. Poderiam ser elaborados relatos escritos, poder-se-iam reunir e digitalizar fotografias, aerogramas ou simplesmente recorrer a gravações de áudio num normal telefone para registar conversas entre quem viveu esses tempos. Muito há ainda para registar. Como sempre são os pequenos detalhes que acrescentam a dimensão humana aos frios livros de história, onde se incluem os que ainda não foram escritos. O que nunca for dito será como se nunca tivesse acontecido. Mesmo havendo quem prefira enterrar no esquecimento alguns traumas pessoais, o país precisa de se reconciliar com este passado historicamente tão recente. Precisávamos de uma ou duas dúzias de romances passados nesta época assim como mais filmes e series. Talvez assim as gerações mais novas olhassem para os antepassados que por lá andaram e lhes reconhecessem o esforço e o sacrifício que fizeram pelo nosso país.

Uma crise de ambição

Paulo Sousa, 19.11.21

Fazendo referência a José Mourinho, a imprensa britânica já retratou António Horta Osório como o "Special One" das finanças. O seu percurso profissional coloca este português numa restrita elite dos gestores de nível mundial.

Em declarações recentes faz uma análise da situação económica do nosso país dizendo que "temos um problema claro de crescimento e ambição da sociedade portuguesa, estamos satisfeitos com o nível de riqueza que temos e satisfeitos com um País que não cresce".

Vivemos inundados em análises que repetidamente nos lembram que não alcançaremos resultados diferentes com as formulas habituais, e ainda assim tudo indica que os portugueses preferem seguir alienados numa luta intestina pela disputa de migalhas.

No futuro, estas duas décadas iniciadas com a vitória eleitoral de António Guterres serão lembradas como uma época desperdiçada, profundamente marcante para uma geração que assim foi impedida de melhorar de vida.

Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. Um dia isto mudará.

A mudança política em curso

Paulo Sousa, 09.11.21

A percentagem da população que passou a auferir de transferências directas do Estado aumentou significativamente nos últimos 20 anos, e parte significativa destes beneficiários têm nestas transferências o seu principal meio de subsistência. Este mesmo período de tempo foi inegavelmente marcado por uma hegemonia do PS, hegemonia essa que tem neste aumento do números de dependentes do estado a sua principal marca. Poderão dizer que não, que a principal marca deste período da nossa história é a estagnação económica, mas essa é apenas outra face da mesma moeda.

É eleitoralmente difícil sair desta armadilha, pois como sabemos é possível ter uma maioria absoluta com pouco mais de 40% dos votos, e a percentagem dos que não querem mudar a actual situação é bem maior.

Aquando da mais recente falência do estado português, os nossos credores exigiram que mudássemos de rumo. Nesse período de tempo foram-nos impostas diversas reformas que acabaram por permitir uma recuperação. A chegada da geringonça apelidou de “reposições” ao recuar deste processo e assim regressamos ao imobilismo e à estagnação. A actual crise política foi desencadeada pelo esgotar das “reposições”, sendo que durante esse processo lá nos continuamos a afundar nas comparações com outros países europeus.

Nestas duas décadas a dívida pública aumentou de 70 mil milhões para 270 mil milhões. Não estivessem as taxas de juro a ser distorcidas pelo BCE e a ilusão da sustentabilidade desta dívida seria impossível de manter. No dia em que as taxas de juro subam 1 ou 2 pontos percentuais entraremos numa nova bancarrota.

Perante uma conjuntura como a actual, em que os aumentos das matérias-primas e da energia provocam uma subida consistente de preços, seria normal contar com um aumento das taxas de juro. As pressões políticas para que o BCE não o faça são significativas, mas não sabemos até quando o ADN do Bundesbank, que corre nas veias do BCE, adiará a tomada das medidas recomendadas pelos livros de economia para travar a inflação.

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Sendo este o cenário de fundo, António Costa afirmou na entrevista de ontem que em 2022 pretende aumentar a função pública, o salário mínimo e as pensões. Essas são as variáveis que considera adequadas para atingir os objectivos do PS, que se resume e continuar no poder.

Num cenário pós-eleitoral em que António Costa não consiga reunir apoio parlamentar que lhe permita governar, já sabemos que sairá de cena. É aí que poderá entrar Pedro Nuno Santos, a quem será mais fácil novos entendimentos à esquerda. Esta possibilidade colocar-nos-á a caminho de mais uma ruptura financeira, embrulhada nas lamechices habituais. E sim, podemos sair destas eleições tendo Pedro Nuno Santos como PM. Votar PS pode ter essa consequência.

António Costa diz que agora, e se tal for necessário, até se poderá entender com o PSD, mas nada diz sobre outra coisa que não seja manter o PS no poder. Certamente seguindo as notas dos seus assessores de comunicação, e para contrapor com Medina, ontem mostrou-se humilde batendo várias vezes com a mão no coração. Mesmo recorrendo a estas mensagens subliminares, nada diz como pretende inverter a estagnação das últimas duas décadas e sobre o que deve ser feito para que se possam aliviar as gerações futuras da dívida que nestes 20 anos quase quadruplicou.

É por isso que as próximas eleições serão uma oportunidade única para invertermos o triste caminho que o país tem trilhado. Para isso, será necessário levar as gerações mais novas às urnas de voto. Só com a entrada dos eleitores que votam pela primeira vez, e dos que normalmente se abstêm, será possível reduzir o peso relativo dos que não querem saber do futuro do país e votam apenas olhando para o respectivo umbigo.