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Delito de Opinião

Eterno retorno - 4

Paulo Sousa, 23.07.21

Série "Eterno Retorno"

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Selo comemorativo das Olimpíadas de 1968 no México
Emitido pelo Emirado de Ajman, que após 1971 passou a pertencer aos E.A.U.
O carimbo visível no canto superior esquerdo é de 1972.

Estando a esta hora a iniciar-se a cerimónia de abertura das Olimpíadas de 2020, com um ano de atraso devido à pandemia, publicarei alguns selos alusivos a este evento. Este faz parte de uma serie de três, e são os mais antigos selos alusivos a olimpíadas que tenho.

Cheers!

Paulo Sousa, 20.07.21

A expressão “tornou-se viral” transmite ao mesmo tempo imensidão e efemeridade. O seu significado é em si mesmo uma contradição. É como a explosão de uma bola de fogo pirotécnico, que no exacto instante em que a tentamos memorizar, já desapareceu.

A vida nas redes sociais é assim. Quem por lá passa, ou por lá vive, sabe bem o que isso é.

Num dos últimos vídeos que arrebatou as atenções e abriu novas escalas nos gráficos de visualizações, aparece Paulo Rangel a caminhar a desoras, pelas ruas de Bruxelas, visivelmente embriagado.

Logo no primeiro instante imaginei que se tratasse duma daquelas preciosidades que alguns políticos guardam para “deslargar” quando entenderem ser o momento certo. No tipo de combate político em que debater ideias dá trabalho, e em muito poucos adversários têm amigos generosos que perdem o conto a quanto já “emprestaram”, este tipo de imagens podem ser consideradas como uma poupança para usar em tempos difíceis.

Quase nos habituamos a que perante a suspeita de má conduta a reacção fosse de indignação, não faltando de imediato a teoria da cabala.

Mas Rangel mostrou ser diferente. Não tentou desmentir, nem negar. Simplesmente assumiu o facto dizendo:

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Vi reacções de várias figuras, nem todas próximas do campo político de Rangel, que reconheceram que a sua resposta mostrou humanidade e que tinha virado a má onda contra quem achou que o estava a atacar. Não sabendo se o ataque terá sido originário do campo adversário ou tendo vindo do inimigo, o facto é que a sua reacção foi genuína e mostrou que ainda há quem possa trazer política à política.

Os mais atentos terão identificado que a diferença que referi, entre adversários e inimigos, resulta de uma distinção que Churchill terá feito entre os membros do partido contrário – os adversários – e os do seu próprio partido – os inimigos. Essa é a natureza da política e quem lá está sabe as regras do jogo.

E estando a falar de políticos, de “glórias, terrores e aventuras” e de bebidas alcoólicas, o honorável W. Churchill tinha de vir à baila.

Por isso, em memória dos políticos que não tratam os cidadãos como crianças, nem querem serem líderes morais da sociedade, partilho aqui uma receita médica que terá sido prescrita ao próprio durante uma visita aos E.U.A. em 1932, ou seja, durante a vigência da Lei Seca.

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Cheers!! 

Eterno retorno - 1

Paulo Sousa, 20.07.21

Vivemos tempos em que para combater as fake news, alguém se lembrou de recorrer a um selo. Ora o selo, já encerra em si toda uma história e um percurso na comunicação e na aproximação de quem está distante.

Começaram por servir como prova de pagamento, e de caminho transportaram imagens de mundos desconhecidos. Frequentemente do retrato se fez arte.

Enquanto aguadamos pelo reerguer do selo, agora como certificado de qualidade, aproveitemos para apreciar os antigos traços e cores que acompanhavam as notícias de outrora.

Selo com imagem de um Órix, também conhecido por Guelengue-do-deserto.
Colecção Animais de Angola
Emissão 1953

Após 20 anos de socialismo

Paulo Sousa, 19.07.21

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Há dias, a SIC comparou o preço da gasolina em Portugal com o de outros do países europeus, onde ela é mais cara. Estamos no terceiro lugar nesse ranking. O que seria de nós se a austeridade não tivesse já terminado?

Se a SIC cruzasse estes dados com a remuneração por hora de trabalho em cada um dos países, com quem dividimos o pódio, obteria os seguintes detalhes:


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Eurostat

Os valores apresentados respeitarão à remuneração média. Se em vez disso, considerarmos o SMN português, pago 14 vezes durante 12 meses, com 22 dias trabalho mensais e oito horas diárias, o valor obtido seria de (775€ x 14 / 12 / 22 / 8) = 5,13€.

Assim, para quem aufira do SMN português e para encher o mesmo depósito com 40 litros de gasolina, será necessário trabalhar 12h51.

Quem está satisfeito com isto, deve aproveitar as próximas eleições para o mostrar. E quem não está, também. Chama-se democracia.

Viagem à Guiné - 8

Paulo Sousa, 16.07.21

8 – O almoço no Cacheu, as crianças da Guiné e a despedida

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A fortaleza do Cacheu
Foto Paulo Sousa

Na véspera do regresso fizemos ainda uma visita ao Cacheu. Esta pequena cidade foi, por mais que uma vez, a capital da Guiné Portuguesa. A sua pequena fortaleza ainda lá está, recheada com estátuas de figuras históricas, nem todas em boas condições de conservação. Modesta e humilde seriam os adjectivos a que poderíamos recorrer para descrever esta construção, mas apesar disso não deixa de estar cheia de significado. O primor do seu estado de conservação rima com o fraco apego que temos à nossa história, assim como com a indiferença que os guineenses lhe dedicam.

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A fortaleza do Cacheu
Foto Paulo Sousa

No Cacheu almoçamos sob o telheiro do restaurante que ali está, virado para a praia. Alguém foi apanhar umas galinhas e depois foi só esperar que as cozinhassem. O molho de chabéu está para a culinária guineense como o azeite está para a nossa, e graças a ele tudo fica com aquela cor alanjadada.
Durante a espera, que ainda foi alguma, contemplamos aquela praia onde Diogo Gomes terá aportado a primeira embarcação portuguesa no sec. XV. Quanta história, e quantas estórias, terão passado por aquele porto?

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Restaurante junto ao largo do Cacheu
Foto Paulo Sousa

Em 2016, já depois desta nossa viagem, foi inaugurado ali ao lado o Memorial da Escravatura e do Tráfico Negreiro do Cacheu. Quando falamos da escravatura dos povos africanos pelas potências coloniais, não falamos de toda a escravatura ocorrida na história da humanidade. Segundo a ONU, esta prática ainda persiste em diversos pontos do globo, nomeadamente em África. No livro do nobelizado V.S. Naipaul, A curva do rio, é referido como ponto de discórdia histórica entre as diferentes etnias da região onde se desenrola a acção, o facto de algumas delas se ter dedicado à captura de gente das tribos vizinhas, para venda, primeiro aos árabes e mais tarde aos europeus. Nada disto pode reduz ou minimiza o sofrimento por tamanha crueldade, mas este tema tem sido tratado de forma demasiado direccionada, e de forma a fazer por ignorar que a abolição da escravatura resultou das questões éticas e de consciência levantadas dentro das sociedades esclavagistas. É um assunto complexo e doloroso, e que dispensa abordagens maniqueístas, e não serei eu que o irá aqui debater e muito menos resolver.

Frente ao porto do Cacheu, no centro do largo, encontra-se o que já terá sido um monumento evocativo da presença portuguesa. Alguém o terá usado para acerto de contas com essa mesma presença, e só com dificuldade se conseguem ver o que sobrou das quinas lusas. Dentro do grupo houve quem lamentasse tal vandalismo, embora eu ache que o tratamento dado àquele monumento tem também um significado histórico. Quando defendemos ser necessário aceitar a história, no que ela terá de grandioso tal como no que tem de miserável, temos de aceitar que todos os envolvidos se possam manifestar.

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Monumento no centro do largo do porto do Cacheu
Foto Paulo Sousa

A história da presença portuguesa na Guiné não se esgotou no período colonial, nem a sua independência se traduziu na sua auto-suficiência e muito menos no seu isolamento. A história recente da Guiné-Bissau tem acumulado episódios que colocam este país, membro da CPLP, no fim das listas dos diversos indicadores de desenvolvimento humano. A vida das pessoas está ali sujeita a muitas mais ameaças do que aquilo a que estamos habituados. Apesar disso, o povo é de uma amabilidade incrível. As crianças, que correm aos magotes atrás dos carros, são segundo os nossos padrões pobres e dificilmente poderão ambicionar uma vida mais próspera do que aquela em que estão a crescer, mas são pródigos em sorrisos e simpatia. Dar uma bola de futebol, não tem nada a ver com dar um peixe e muito menos com ensinar a pescar, mas dar uma bola de futebol a quem não tem nenhuma, é dar-lhe alegria. Além dos materiais escolares, dos livros e dos carros, transportamos também umas dezenas de bolas de futebol e que graças a elas, não duvido, deixamos atrás de nós um rasto de miúdos ainda mais alegres e sorridentes. No regresso do Cacheu tivemos até oportunidade de fazer uma peladinha, onde além de uma boa transpiradela e de um joelho esfolado, deixamos mais umas quantas bolas.

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Peladinha à beira da estrada
Foto Paulo Sousa

Visitamos ainda as missões que a Fundação nos indicou como necessitadas dos nossos carros. A cada uma, entregamos simbolicamente as chaves dos veículos que só chegariam mais tarde, depois do desenrolar da embrulhada administrativa a que tínhamos sido sujeitos. Em cada uma delas estivemos na conversa e em todas elas encontramos pessoas que se as descrevêssemos como generosas estaríamos a ser curtos na classificação. É tocante conhecer assim alguém que dedica totalmente a sua vida em função dos outros, capaz de abdicar de uma rotina confortável na Europa e que decide consumir os seus anos de vida tentando minimizar a miséria dos outros. Recordarei as palavras com que agradeceram a nossa ajuda, e nos explicaram como os veículos lhes seriam úteis, mas havendo ali generosidade, era toda da parte delas.

E assim termino esta sequência de postais sobre uma viagem à Guiné-Bissau. As saudades já as tínhamos antes do nosso regresso. Não converti para texto todas as minhas memórias, mas apenas aquelas que consegui e que achei que poderiam ser interessantes à leitura. Não é possível descrever o vento que se sente na cara enquanto olhamos para a imensidão do deserto ou para o mar de Gil Eanes, nem o sabor da comida na praça Djamena El Fna em Marraquexe, nem mesmo a voz do muezine que nos acorda de madrugada para a oração ou sequer os sons, e a intensidade do calor, da natureza guineense. E nas fotos das crianças e sorrir, nunca se ouvem os seus risos nem o seu alegre respirar.

Viajar desta forma, observando um horizonte após outro, sentindo as mudanças do terreno e da paisagem, pode até ser fisicamente desconfortável, mas a intensidade e a vivência que permite, não tem comparação.

Quando nos dispomos a sair de casa, somos levados a observar a partir de fora o lugar que ocupamos. A conclusão a que chegamos difere do ponto de observação, mas a partir da Guiné, e de muitos outros sítios onde a vida é mais difícil que por cá, o que vemos ajuda-nos a relativizar os nossos problemas.

Início da viagem

Viagem a Bissau - 7

Paulo Sousa, 15.07.21

Memórias da Guerra Colonial

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Cozinha do antigo quartel de Teixeira Pinto
Foto Paulo Sousa

Ainda não falei do Sr. João, um dos membros da caravana. O Sr. João serviu na Guiné, no quartel de Teixeira Pinto, actual Cachungo. Por isso, por ele e pelas suas memórias, esse teria de ser um dos pontos da viagem. E assim foi.
Após a independência o antigo quartel foi transformado na escola primária do Cachungo, o que até seria uma metáfora feliz, não fora o atraso de um ano no pagamento dos salários dos professores ter levado ao encerramento da mesma.

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Refeitório do quartel de Teixeira Pinto, actual escola primária do Cachungo
Foto Paulo Sousa

Visitamos o local, e ouvimos as estórias do Sr. João. Levou-nos a ver um tubo metálico enferrujado espetado no chão. Era o furo de água, cuja análise era da sua responsabilidade, e a partir do qual era abastecido o quartel. Mostrou-nos a padaria, os dormitórios, a messe, o bar, e todos os recantos.
Metro após metro, passo após passo, e lá saia disparada mais uma recordação e o relato de mais um episódio. Olhando em toda a volta, para aquele abandono e falta de manutenção, entendemos claramente que, de tudo o que ali se tinha passado, o que se encontra em melhor estado são as memórias que ele dali guarda, dos seus camaradas, das cervejas frescas, das gargalhadas e da sua juventude.
Meteu-se com uns rapazes que por ali andavam e contou-lhes que tinha vivido e sido soldado naquele quartel. Eles encolheram os ombros, riram-se todos e despediram-se com um aperto de mão.

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Foto Paulo Sousa

O poilão que fazia sombra ao lado do quartel, e que já era enorme durante a Guerra Colonial, está agora bem maior e igualmente indiferente ao que por ali se passa. É uma árvore notável, um colosso mesmo entre outros colossos que por lá vimos.

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O poilão notável
Foto Nuno Rebocho

 

Outra das paragens que prevíamos fazer era ao cemitério militar de Bissau. A Guiné foi o cenário mais difícil da Guerra do Ultramar e, independentemente das mudanças que ocorreram desde então, cá e lá, havia uma vontade em homenagear os portugueses que ali serviram e cumpriram o que lhes foi exigido. Assim, agendamos com a Embaixada Portuguesa uma visita ao seu talhão militar. E lá fomos, acompanhados pelo o adido militar da embaixada. O que encontramos não foi o que esperávamos, pois as sepulturas daquele talhão são de soldados de campanhas do Sec. XIX e início do Sec. XX e não da Guerra Colonial.

Existe igualmente uma capela da Liga dos Combatentes, mas pelo que entendi ali estarão apenas uma pequena fracção dos militares que não regressaram a casa. Perguntamos se havia algum levantamento sobre os corpos de soldados que tenham sido deixados no campo de batalha e cujos restos mortais não tenham sido recuperados. A resposta não foi muito conclusiva e pela falta de objectividade, entendi a confirmação daquilo sobre o qual já tinha lido. De facto de alguns dos corpos nossos compatriotas não puderam ser recuperados e foram deixados no mato, onde tombaram. Alguns terão sido enterrados à pressa, sem qualquer cerimónia, sem direito a lápide a nada que identifique os restos do que foram. Outros nem isso. Abandonados à sua sorte foram também os milhares de soldados portugueses de origem guineense.
Mais uma vez o Estado Português fez jus às palavras de Padre António Vieira.

Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”

Continua

Início da viagem

Viagem a Bissau - 6

Paulo Sousa, 14.07.21

A Fundação João XXIII - II

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Centro Social de Ondame - Fundação João XXIII
Foto Nuno Rebocho 

Soubemos  também da história de uma mulher de um velho régulo local (chefe de tabanca). Ele não entendia português e por isso enviou-a ela para assistir a uma palestra organizada pela Diocese de Bissau com a colaboração da Fundação João XXIII. A palestra destinava-se a sensibilizar os régulos de diversas tabancas (aldeias) para que adoptassem e promovessem alguns hábitos de higiene e de saúde pública, e que comparecessem nas sessões de vacinação.
Ela assistiu à primeira sessão da palestra e voltou para a sua tabanca. Na sessão seguinte regressou novamente para assistir, mas no final pediu para falar com o padre e pediu-lhe ajuda. Explicou-lhe que era a mulher mais nova do régulo e tinha dois filhos dele. O régulo tinha uns setenta anos e tinha uma mulher da idade dele, outra dez anos mais nova e por aí a fora. De dez em dez anos acrescentava mais uma jovem esposa à família. A hierarquia entre elas, cinco ou seis no total, era estabelecida por idade. Por ser a mais nova tinha de trabalhar para todas as outras, que a exploravam e desprezavam. A ajuda que pedia era que a ajudassem a sair daquela vida infernal.
O padre e o responsável da Fundação foram assim postos perante o dilema de aceder ao pedido dela, desafiando nesse caso a autoridade do régulo. O padre ainda lhe disse: “Então queres fugir do teu marido, e vens pedir ajudar a um padre?” O representante da Fundação teve de ser rir pela pergunta do padre, mas não foi preciso ponderarem muito até combinaram a sua saída, e dos seus filhos, daquela tabanca.
Assim, chegado o dia, levaram-na para Bissau, arranjaram-lhe onde ficar e ajudaram-na a comprar o primeiro cabaz de peixe, que passou a vender pelas ruas. Às vezes, dão-lhe também algumas roupas usadas para vender, roupas essas oriundas dos donativos que recolhem em Portugal.
Um ou dois dias depois de ouvirmos esta história, acabamos por encontrar a senhora junto ao porto de Bissau. Ia com um alguidar de fruta à cabeça e quando viu o nosso cicerone, desviou-se do seu trajecto, e a sorrir, veio cumprimenta-lo.
Compramos-lhe quatro bananas, todas as que tinha, e demo-las a um miúdo que por ali passava. Ele, arregalou os olhos, e chamou outro para lhe dar duas. E nessa altura lembramo-nos dos miúdos de Saint Louis no Senegal, e de como já nos tinham dito, na Guiné partilha-se.

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Biblioteca do Centro Social
Foto Nuno Rebocho

Na página da Fundação estão disponíveis os diversos projectos que lançaram e ali mantém. Além do Centro Social, dentro do qual funciona a Maternidade Bom Samaritano, a Rádio Comunitária Voz do Biombo e a Biblioteca (há fotos do seu interior na página), existem outros projectos que dependem da Fundação.
Aquando desta nossa viagem, um dos projectos que estava a ganhar forma era a construção de uma embarcação que pudesse servir a ilha de Pecixe. Esta ilha tem cerca de 6 mil habitantes da etnia Manjaco e o seu isolamento era então apenas interrompido por pirogas e embarcações tradicionais, insuficientes para marés adversas. Assim, a Fundação lançou-se na construção de uma embarcação a motor em Portugal e depois de pronta enviou-a num contentor para a Guiné. Até que tudo se concretizasse foi necessário ultrapassar várias barreiras e isso demorou vários anos, mas finalmente o barco-ambulância já está operacional e ao serviço da população de Pecixe.

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Foto Fundação João XXIII

Outro do projectos apoiados pela Fundação é a Cooperativa Escolar São José. Esta obra que foi lançada pelo Prof. Raúl Daniel em 1987, e durante vários anos as suas salas de aula tinham paredes de palha. Só em 1991, e desde logo com o apoio da Fundação, é que foi construído o primeiro pavilhão. A relação de cooperação entre esta instituição de ensino tem permitido que esta estrutura tenha conseguido oferecer boas condições de ensino e de forma regular num país em que o ensino público tem bastantes deficiências. Basta lembrar que após o golpe de estado de 2012, e até à nossa viagem em 2013, as aulas na escola pública foram interrompidas no país por falta de pagamento dos salários dos professores, para entender a importância desta Cooperativa de Ensino na Guiné-Bissau.

A Fundação encaminha os donativos de materiais didáticos, mas também de construção, que recebe em Portugal para a Cooperativa e assim ajuda-a manter o seu funcionamento e crescimento.

Alegro-me em saber que a fiel e robusta Nissan Vannete, em que, juntamente com outros amigos, fiz esta viagem, foi oferecida à Cooperativa e foi destinada ao transporte de alunos com limitações motoras.

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A nossa Nissan Vannete durante a viagem
Foto Nuno Rebocho

 

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A "nossa" Nissan Vannete ao serviço da Cooperativa de Ensino São José
Foto Nuno Rebocho

Continua
Início da viagem

Viagem até Bissau - 5

Paulo Sousa, 13.07.21

A Fundação João XXIII - I

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foto Paulo Sousa

Um dos locais que visitamos foi a casa materno-infantil de Ondame, que é gerida pela Fundação João XXIII desde que as suas fundadoras, Miss Lilly e Miss Brenda, duas missionárias inglesas, regressaram muito idosas à sua pátria. Estavam ali desde 1966, ano em que foi construído este Centro Hospitalar. Além desta obra física, tinham-se igualmente proposto a traduzir a bíblia para a língua da etnia papel.

Após a saída destas duas religiosas em 2004, a Fundação tomou conta deste espaço que tem uma maternidade, uma rádio local, uma biblioteca e, um luxo que nem o hospital de Bissau se pode gabar, electricidade permanente. As histórias à volta deste espaço são incríveis.

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Radio Comunitária - A Voz do Biombo
Foto Paulo Sousa

A energia eléctrica é fornecida por um operador de telemóveis que tem uma torre GSM dentro da propriedade. Como alternativa a uma renda mensal, a Fundação pediu apenas para ter acesso à electricidade que alimenta a torre. Como sem electricidade as comunicações não funcionam e não há onde carregar os telemóveis, a empresa aceitou a proposta e todos saíram a ganhar com o negócio.

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A torre GSM dentro da propriedade do Centro Social da Fundação em Ondame
Foto Paulo Sousa

Os medicamentos que ali chegam são oferecidos por empresas e particulares portugueses que que conhecem o trabalho da Fundação. Pouco tempo antes da nossa viagem, a maternidade tinha sido totalmente ladrilhada e forrada de azulejo.

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A maternidade
Foto Paulo Sousa

A história mais marcante que ouvi em toda a viagem passou-se nesta maternidade e foi-nos ali contada na primeira pessoa.

Numa das suas visitas anuais à Guiné e à maternidade de Ondame, numa ronda pelos recém-nascidos e suas mães, um amigo da Fundação deparou-se com uma senhora prostrada quase inconsciente. Perguntou à enfermeira guineense o que é que se passava com aquela doente e ela respondeu-lhe que aquela senhora estava ali para morrer. Continuou a explicar que ela não conseguia fazer a dilatação e por isso não devia engravidar. Já tinha sido avisada e já tinha tido perdido um bebé numa gravidez anterior. A única hipótese que tinha de sobreviver dependia de ir ao hospital central de Bissau, mas ela não tinha dinheiro para os materiais da cirurgia, e o hospital fornecia apenas o serviço. Não os materiais. Ele então perguntou qual era o valor em causa. Depois de converter os CFA em euros, quase não podia acreditar. Estavam a falar num montante aproximado a 20 euros, para salvar uma vida humana. Desatou logo a dar ordens e a mandar chamar a ambulância, pois ele pagaria do seu bolso a cirurgia. Aquela mulher tinha de ser acudida e salva, e foi.
Contou-nos este episódio com uma frieza que só se desfez, quando acrescentou que, no seu último serão antes de regressar a Portugal, no seu jantar de despedida, alguém se aproximou no escuro, por fora do grupo que se tinha formado debaixo do telheiro na casa grande do Centro. Tocou-lhe timidamente no ombro, disse-lhe obrigado e ofereceu-lhe três mangas. Era só o que tinha.

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A maternidade
Foto Nuno Rebocho

Continua
Início da viagem

“Abajo los perros comunistas”

Paulo Sousa, 12.07.21

Decorrem em Cuba as maiores manifestações de sempre contra o regime comunista.

Da mesma forma que terá sido a subida dos preços dos cereais a desencadear a chamada Primavera Árabe, poderá ser a pandemia que irá desencadear o fim o regime castrista?

Será desta que os cubanos poderão vir a ter uma democracia burguesa, tão burguesa como aquela em que o PCP se passeia? Se for essa a vontade dos cubanos, o que dirá o PCP? Aceitará que eles “descem” a um “martírio” como aquele que os comunistas portugueses têm de suportar?

Viagem até Bissau - 4

Paulo Sousa, 12.07.21

A entrada na Guiné e a chegada a Bissau

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Estrada após a fronteira de Pirada, Guiné Bissau
Foto Paulo Sousa

Após as fotos da praxe, dirigimo-nos ao posto fronteiriço, onde começou mais uma aventura. Os guardas, que nem fardados estavam, começaram por dizer que desde o último golpe de estado, em Abril do ano anterior, não recebiam salários e por isso pediram-nos que os ajudássemos. Distribuímos alguns dos kits que ainda tínhamos, mas depois pediram também dinheiro. Tudo normal e sem surpresas. TIA. No entanto, e isso só viríamos a saber mais tarde, a entrada dos carros não teve o tratamento administrativo que se impunha.

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Zona que fica alagada durante a época das chuvas
Foto Paulo Sousa

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Habitação tradicional
Foto Paulo Sousa

Dali até Bissau são pouco mais de duas centenas de quilómetros. No posto policial seguinte, convidaram o condutor de cada carro a entrar dentro do gabinete do chefe de posto. Ali, repetiu-se a explicação de que os salários não estavam a ser pagos há um ano e, por isso, pediram-nos 600 CFA (cerca de 0,90€) para poder seguir. Pagamos e seguimos. Umas dezenas de quilómetros depois, a situação repetiu-se. A “taxa” era igualmente de 600 CFA, mas agora... por cada carro.

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Estrada na Guiné Bissau. Época seca.
Foto Nuno Rebocho

Sem saber que nos estávamos a despedir dos nossos veículos, fomos parando quase em cada uma das povoações por que passávamos. A interacção com os guineenses foi sempre muito calorosa. O criolo guineense e os idiomas locais são dominantes, mas apesar disso a barreira linguística não impediu que trocássemos sorrisos e maçãs de Alcobaça por cajus. Desconhecia que o caju, que encontramos na secção dos frutos secos dos supermercados, é apenas o miolo da semente de um fruto muito sumarento, saboroso e facilmente perecível. Pelo que nos explicaram, os cajueiros são agora muito mais abundantes que nos tempos coloniais e que este fruto depois de seco é a maior exportação do país, sendo a Índia o seu principal destino. Alguns dos intermediários indianos trocam directamente arroz por caju, o que, segundo a Fundação, é prejudicial para os guineenses pois antes cultivavam arroz nas zonas alagadas, e com o dinheiro que recebiam da venda do caju compravam outros bens. Esta mudança levou a que houvesse um menor estímulo do cultivo do arroz e uma menor criação de riqueza.

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Caju fresco
Foto Paulo Sousa

Outro detalhe que nos explicaram prende-se com a falta de cuidado na apanha do caju, que leva a que este se deteriore com humidade e perca valor comercial. Noutras paragens, com outra capacidade empresarial, não duvido que a parte perecível do fruto fosse aproveitada para compotas, sumos e outros fins. Esta parte mais sumarenta do caju, quando madura, quase que se desfaz ao ser apertada. É menos consistente que um pêssego maduro e quando se acumulam vários dentro de um recipiente, em pouco tempo o fundo do mesmo fica preenchido com o sumo. Esse sumo fermenta rapidamente e transformado-se assim numa bebida alcoólica. A época da colheita do caju, esta mesma em que lá estivemos, é a época do “vinho” de caju e de bebedeiras abundantes. Mais tarde, esse detalhe foi também usado para explicar o estado alterado da polícia de fronteira e da não emissão dos documentos dos nossos carros aquando da entrada no país.

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A caminho de Bissau
Foto Nuno Rebocho

Quando finalmente chegámos a Bissau, a poucos metros da rotunda do aeroporto, fomos mandados parar pela polícia ali de serviço. Pediram-nos os documentos, entregámos uma daquelas fichas que tínhamos preparado, carimbada pelo posto de fronteira de Pirada, e foi então que começámos a entender que alguma coisa não estava bem. Após mais de uma hora de espera, durante a qual o responsável pelo posto comunicou várias vezes com o Comando Geral da Guarda Nacional, vimos chegar um jornalista da Televisão Pública que sabia da nossa chegada. Ao ver chegar uma câmara, o chefe do posto dirigiu-se rapidamente para ele e apreendeu-lhe o aparelho. Entretanto, o tempo foi passando e após uma demorada negociação a câmara lá regressou às mãos do seu dono. Assim, ainda na dúvida sobre o que ia acontecer aos nossos carros, fomos entrevistados para o Telejornal. A mensagem foi sempre a mesma, estávamos ali para colaborar com quem ajudava os guineenses e por isso contávamos com um tratamento menos hostil. Após diversas diligências, que incluiu a ida de alguns de nós ao Comando Geral da Polícia, acabou por ficar decidido que os carros seriam apreendidos até que se esclarecesse a situação.

O representante permanente da Fundação João XXIII na Guiné, o Sr. Celestino, tinha já providenciado duas viaturas para nos deslocar. Assim, depois de ir depositar os veículos numa missão de freiras ali próxima, transportámos as nossas bagagens para a residência da Fundação, onde ficámos instalados até ao final da viagem. De ali em diante passámos a circular dentro da caixa de uma pick-up.

 

Continua

Início da viagem

Viagem até Bissau - 3

Paulo Sousa, 09.07.21

No Senegal, a contornar a Gâmbia

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Margem norte do Rio Senegal - Mauritânia
Foto Paulo Sousa

A principal fronteira entre a Mauritânia e o Senegal é a de Rosso. Mas além de ter fama de ser uma das fronteiras mais caóticas e corruptas deste lado de África, inclui uma demorada e igualmente caótica travessia de ferry do rio Senegal. Por isso, escolhemos a fronteira alternativa, pela barragem de Diama. Antes de lá chegar, o troço inflete em direcção ao Atlântico e ao longo da margem norte do rio, num piso de terra ladeado por vegetação que anuncia o fim do deserto.

Chegados à fronteira deparamo-nos com uma inovação na arte de sacar dinheiro aos estrangeiros. De forma a evitar que europeus venham vender carros velhos ao Senegal, algo que pelo que nos explicaram era frequente há pouco tempo atrás, cada carro estrangeiro (europeu?) que entre no país e que tenha mais de não sei quanto anos (poucos), terá de ser escoltado a expensas do seu proprietário, claro. Assim, com sete carros a escoltar, o valor ascendeu a uma pequena fortuna. Mais uma vez, o facilitador de serviço quis tratar de todo o processo e ficou claro que toda a narrativa é acertada entre ele, os guardas mauritanos e os senegaleses. A única forma de evitar este pagamento passa por tratar com antecedência de um documento qualquer junto da embaixada senegalesa. A negociação demorou algumas horas, mas acabamos por não conseguir contornar o suposto custo da escolta. Depois de resolvida essa parte, só faltava o seguro dos carros, pois a carta verde já tinha perdido a validade há muitos quilómetros atrás. Remeteram-nos para um espaço onde um ancião vendia umas vinhetas a que chamavam “o seguro”. O espaço era uma divisão de uma casa em ruínas, sem telhado. O ancião estava sentado no chão e tinha umas folhas A4 coloridas dentro de um saco plástico. Cada uma dessas folhas era constituída por rectângulos coloridos destacáveis, como se fossem selos. O senhor era muito magro e não falava nenhuma língua que entendêssemos. Um miúdo traduziu-o dizendo que ele estava doente do estômago e pediu-nos qualquer coisa para o ajudar. Sem nenhum diagnóstico, nem nenhum médico na caravana, oferecemos-lhe alguns analgésicos. Compramos-lhe depois os ditos selos e lá seguimos atrás do nosso guardião que nos iria escoltar até deixarmos o país. Estranhamente, ou não, menos de um quilómetro depois, à entrada da primeira rotunda, o dito acompanhante parou na berma, abriu o vidro e apontou para uma das saídas da rotunda e disse: “Para a Guiné, é por ali. Boa viagem.” E seguiu sorridente com um rolhão de euros dentro do bolso. TIA.

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Transporte público - Senegal
Foto Paulo Sousa

E assim chegamos a Saint-Louis, onde pernoitamos. A caminho do local onde dormimos, atravessamos a ponte de construção colonial e mais tarde um estaleiro das longas embarcações de madeira. A pesca tem uma grande importância para esta cidade.

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Saint Louis - Senegal
Foto Nuno Rebocho

As crianças enxamearam-se à volta dos carros a pedir uma prenda qualquer. Já sabíamos disso por isso levávamos umas caixas com esferográficas, algo que nos tinham dito ser bastante apreciado pelos mais novos. Por comparação com o que encontramos mais tarde na Guiné, reparamos num detalhe que constitui uma diferença de comportamento das crianças: na Guiné partilha-se natural e automaticamente, enquanto que no Senegal o que vimos foi o oposto. Dei três canetas a um miúdo que se encostou à minha janela com uma mão estendida enquanto a outra apontava para a caixa das BIC cristal. Ao lado dele tinha dois colegas e apesar de lhe ter dito que era uma para cada um, ele que entendeu o que lhe disse, agarrou-as sorridente e, perante o desapontamento dos outros, desatou a correr dali para fora.

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Transporte público - Senegal
Foto Paulo Sousa

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Transporte público - Senegal
Foto Paulo Sousa

Na madrugada seguinte regressamos à estrada. Se a travessia de ferry pelo rio Gambia, que dá o nome ao mais pequeno país de africado, não exigisse os procedimentos de mais uma fronteira essa teria sido a nossa opção. Assim, e com a má memória da “escolta” senegalesa, preferimos contornar esta antiga colónia inglesa, e rumamos para o interior até Tambacounda. Dali a Pirada, a fronteira da Guiné, já não faltavam muitos quilómetros. Mas como a estrada foi piorando até se tornar numa picada de pó alaranjado, pernoitamos em Kounkané, que passamos a tratar por “Cum caneco”. À noite, demos um passeio pelas ruas da povoação e deparámo-nos com a transmissão de uma meia final da Champions. O televisor estava dentro de uma tabanca virado para o exterior. Desde o nível térreo, quase junto ao chão, até a bastantes metros de distância, a curtos palmos de distância, tinha-se formado um anfiteatro de cabeças que absorviam o jogo em silêncio. Sabíamos que o futebol é um fenómeno global, mas esta foi uma perspectiva diferente e interessante disso mesmo.

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Embondeiro
Foto Paulo Sousa

Na manhã seguinte, depois de, no último cruzamento em direcção ao nosso destino, nos termos despedido do alcatrão, chegamos finalmente à Guiné. Não fosse o GPS e facilmente atravessaríamos a fronteira sem dar por isso. Ali ao lado, a poucos metros da picada, ainda são visíveis os marcos de fronteira com um RP e um RF, dando assim a entender que são do tempo colonial.

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Marco de fronteira - visível a sigla RP - Républica Portuguesa.
No verso tem um RF - Républica Francesa

Foto Paulo Sousa

Continua

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