Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O regresso da censura

por Paulo Sousa, em 02.07.20

A liberdade de expressão é um tema maior da nossa sociedade.

Por achar que este blog é, além de outras coisas, um pequeno nicho virtual no altar da liberdade, o tema que aqui trago não poderia passar em claro.

O recente anúncio por parte do governo de que vai monitorizar o discurso de ódio na internet, não é mais do que o pisar de uma linha que nunca tinha sido assumida pelos governantes do Portugal europeu.

Podíamos começar por lhes pedir uma definição do que é um discurso de ódio.

Estará o discurso de ódio contra o nazismo incluído no critério dos censores? E contra os pedófilos? E contra os traficantes de pessoas? E como ficamos em relação aos violadores?

Será que esta ferramenta de defesa da opinião pública também se poderá aplicar ao mundo do futebol?

E porquê apenas na internet? O discurso de ódio nos cafés não agride também a mesma opinião pública que o governo pretende defender e acha incapaz de avaliar por si o que vê e ouve?

O ódio é um capricho que, pela diminuição da capacidade de análise e pela perda de enfoque que causa, enfraquece quem o sente. Também por isso não é ódio que sinto pelos aspirantes a censores do governo do socialista António Costa, mas sim e apenas desprezo. Será que o discurso de desprezo ainda passa nas malhas dos autopromovidos avaliadores dos discursos de sentimentos dos outros?

 

Há depois ainda um outro detalhe que me faz rir desses bananas.

Hoje a plataforma das matrículas escolares bloqueou pelo excesso de tráfego, tal e qual como acontece com os servidores da AT nos dias de “entrega” das declarações de IRS, e tal e qual como aconteceu com o SIRESP no fatídico dia do incêndio do Pedrogão.

O aumento de capacidade de resposta para todos estes casos estava previsto nos planos do governo, mas certamente devido a alguma cativação, por esquecimento ou então porque não calhou, acabou por não ser feito.

Será esse exímio e frio rigor que os odiosos propagadores do ódio cá do burgo terão de enfrentar. No dia em que o programa de censura arrancar, o servidor vai estar empacado porque há um conflito no sistema operativo, no dia seguinte serão as licenças, e depois disso será uma placa gráfica que vai queimar e alguém vai ter de telefonar a um primo que, tipo, percebe bué disso. O técnico vai ter que usar o seu telemóvel pessoal porque ainda estão a começar e as comunicações ainda não estão a 100%. O tipo que sabe fazer ligações de fibra óptica está com febre e telefonou ao patrão que, depois de o mandar para casa, desinfectou o telemóvel e lavou as mãos.

E enquanto esta novela segue, os odiosos propagadores do ódio continuam a pulverizar ódio nas contas das redes sociais dos frágeis e indefesos portugueses, incapazes que são de avaliar a informação a que têm acesso.

Se a ministra conhecesse Portugal saberia bem que não nos levamos a sério e que por isso os contratempos serão muitos maiores do que estes - não fosse a ficção sempre ultrapassada pela realidade. Os resultados serão apenas mais uns empregos para uns voyeuristas encartados que, incapazes de purgar o ódio da natureza humana, ficarão para a história como a serôdia censura socialista do início do sec XXI.

Há quem viva dentro de uma bolha

por Paulo Sousa, em 30.06.20

Perante os números que desmentem os cartazes que há uns meses mandaram fazer às crianças, nem tudo está a correr bem, nem a caminho disso.

A correlação entre os novos casos de covid na região de Lisboa e os transportes públicos superlotados apareceu há mais de um mês nas noticias através dos empregados da Sonae da Azambuja. Depois disso voltei a ouvi falar da lotação dos comboios de linha de Sintra através de uma publicação de um familiar no Facebook. Entretanto já entendemos que o actual problema do (des)controlo da pandemia no nosso país resulta exactamente do facto de existirem pessoas que não se podem dar ao luxo de estar confinadas em casa, porque assim arriscar-se-iam a morrer não pela doença mas pela cura.

Quem tem a sorte, ou o mérito, de na actual situação poder trabalhar a partir de casa, consegue assim o melhor dos dois mundos, uma vez que continua a produzir riqueza e a manter a economia em movimento, e ao mesmo tempo resguarda-se de ser infectado nos transportes e nos espaços públicos.

Mas claro que existem sempre aqueles que vivem num mundo pequenino e cuja visão não vai além do seu próprio umbigo.

Não chegassem todos os privilégios que têm em relação a quem trabalha no privado, os Sindicatos da função pública vem agora exigir mais dinheiro pelo privilégio de poder trabalhar a partir de casa.

O governo se estivesse de facto a negociar com eles deveria terminar com o tele-trabalho e assim contar com eles no seu posto de trabalho à hora habitual. Mas o que está é apenas a tentar garantir o seu voto nas próximas eleições. O interesse do país é um detalhe.

Pensamento da semana

por Paulo Sousa, em 28.06.20

O racionalismo e o ateísmo andam de mão dada.

Só abdicando do princípio racionalista de que a razão é o caminho para a verdade é que um crente se pode definir como tal.

A razão e a ciência no entanto respondem ao "Como funciona" e ao “Como funcionamos” mas não ao "Porquê existe" nem ao “Porquê existimos”.

Estarão as respostas a que a razão não responde apenas à espera de novos avanços científicos, ou existem factos que nunca terão um explicação racional?

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

PAN = PS's pet

por Paulo Sousa, em 24.06.20

Como o Pedro Correia já aqui tinha referido, o PAN tem beneficiado de uma brandura de escrutínio, que explica a surpresa da recente ruptura do seu único deputado no PE.

Segundo o que o Observador apurou, os assessores políticos parlamentares deste partido eram remunerados pela Câmara Municipal de Lisboa dentro da rubrica orçamental relativa ao seu deputado municipal.

Além da questão do recurso aos recibos verdes, práctica criticada pelo partido, dos referidos assessores terem um email no domínio pan.parlamento.pt e ainda assim emitirem os seus recibos em nome do município lisboeta, temos o grande detalhe de que na prática a socialista Câmara liderada pelo Sr. Medina apoia a vida parlamentar deste recente partido.

Em política o que parece é e, perante isto, entendemos que a permanente sintonia política entre o PS e o PAN ultrapassa qualquer coincidência.

De tanto conviverem com os seus animais de estimação, os animalistas do PAN projectaram essa relação com o PS e acabaram por se tornar, eles próprios, num partido de estimação. Com trela, biscoito e caixinha de areia.

"Holy fuck!"

por Paulo Sousa, em 21.06.20

Em primeiro lugar tenho de explicar que usei para o título deste post as palavras com que no passado dia 16 o JN iniciou um artigo, no qual um doente nos EUA com 70 anos foi tratado durante 62 dias contra a doença do coronavírus e cuja conta do hospital ultrapassou os 1,1 milhões de dólares.

insolito.png

Antes de dizer que este valor foi coberto pelo sistema Medicare o “jornalista” deu largas à sua interpretação da realidade dizendo que o paciente e os seus amigos “reflectem perplexos e banzados sobre o bizarro sistema de saúde dos Estados Unidos da América que, ao contrário da Europa e da maioria do mundo civilizado, não possui um Serviço Nacional de Saúde, como existe há décadas em Portugal, que proteja os seus contribuintes, mas está antes orientado em sistemas de seguros privados que não existem para tratar da saúde como um bem universal e um direito primordial, mas para dar lucros abissais numa lógica puramente capitalista que rende milhões às grandes corporações.

Ainda acrescenta que o sistema Medicare foi “criado na presidência de Barack Obama e que o actual presidente republicano Donald Trump ainda não conseguiu aniquilar.

O facto de o referido sistema Medicare ter sido fundado em 1966 é um detalhe que estragaria a narrativa e talvez por isso não é referido na “notícia”.

Estamos perante uma desonestidade que confirma o grau da lacaização de alguns jornalistas ao poder que, numa atitude bem socialista, preferem o lado confortável da actualidade ao lado certo da história.

 

Este assunto foi pescado no Insurgente.

Falta de decência

por Paulo Sousa, em 18.06.20

Era uma vez um país em que um quinto dos seus cidadãos vivia na pobreza ou no seu limiar, que tinha recebido milhares de milhões de euros por ano em transferências de fundos europeus, que mesmo assim tinha conseguido ir à falência, e que depois disso continuava a aumentar a sua dívida em várias dezenas de milhares de milhões euros por ano.
Nesse país, um dia reuniram-se as três principais figuras de Estado para anunciar pelas televisões ao país que - orgulho! - a Final da Champions seria realizada na nossa capital!!
Dizem que o tipo que escrevia os discursos do PM lá do sítio não jogava com o baralho todo, coitado. Os pais eram primos direitos e ele babava-se um bocado, mas tinha sido o melhor no ensino especial. Deixavam-no andar por ali porque ajudava a preencher as quotas para que a equipa de assessores fosse inclusiva.
O discurso tinha de mostrar ao país que esta grande conquista – não, não tínhamos nenhum astronauta na ISS, era muito melhor do que isso – era uma conquista de todos os cidadãos. O gajo adorava bola e estava em êxtase. Ele latejava de inspiração e o teclado já estava em brasa.
Se estivéssemos a atravessar mais uma época de incêndios, esta fantástica e maravilhosa conquista seria um prémio para os nossos bombeiros, os nossos heróis, mas como ainda não está a fazer calor... então ia bem era para os profissionais de saúde, pronto! Isso sim, era uma boa ideia. As palmas na varanda já lá vão. Eles mereciam alguma coisa objectiva e de efectivo valor. Era por isto que eles ambicionavam!
Felizmente o chefe dos Spins leu o discurso antes de o passar para as mãos do PM e achou que afirmar que este evento “era um prémio merecido para os profissionais de saúde” seria ofensivo para os próprios, riscou a frase e, à costa da mão, deu uma bofetada ao anormal que a tinha escrito.
E assim o último limite da decência foi salvo.

costa champ.png

Em busca do acaso

por Paulo Sousa, em 14.06.20

A sequência de feriados desta semana abriu a possibilidade de realizar um projecto antigo que consistia em regressar, desta vez com um dos meus rebentos, a um dos lugares mágicos do nosso país, o Covão da Ametade, o berço do rio Zêzere.

Apesar das previsões meteorológicas não serem risonhas para o segundo dia, arriscámos sair de casa. Afinal de contas a chuva só mete medo a quem é feito de açúcar.

Assim, as tralhas das caminhadas em autonomia e das pernoitas na natureza foram recuperadas do pasto das aranhas. Com o pó sacudido e as botas calçadas, pusemo-nos ao caminho.

O trajecto começou em Manteigas. Seguimos pela na meia-encosta da vertente oeste do incrível vale glaciário. Dali a vista sobre o vale é soberba.

IMG_7145.jpg

Quilómetro após quilómetro o trilho começa a degradar-se. As giestas são inúmeras, e aos poucos começamos a ter de lutar, metro a metro, contra estes obstáculos que preenchem toda a passagem. Como se isso não chegasse, a páginas tantas é o próprio caminho que deixa de merecer esse nome. Ali a linha do horizonte é composta por paredes íngremes onde não se consegue descortinar nenhuma passagem. Perante isso, recuamos.

Com o avançar da hora e com o fuso alimentar a badalar dentro de nós, decidimos que merecíamos um reforço positivo que consistiria numa transferência de carga da mochila para o estômago.

A paragem foi frutuosa e após o café final, já na lavagem do púcaro ali ao lado, num dos riachos ali omnipresentes, tive uma surpresa. Dentro do púcaro veio um pequeno insecto que desconhecia. Alguém me ajuda a identificar o bicho?

21835009_7kNQu.jpeg

 

De maneira a não regressarmos a Manteigas, nem de subir ao planalto, o que nos iria atrasar na chegada ao local da pernoita, decidimos descer até à base do vale glaciário do Zêzere. Esta descida acabou por ser a passagem mais empolgante de todo o passeio, pois em pouco mais de duzentos metros de deslocação horizontal descemos duzentos metros verticais. As giestas, que antes nos tinham obstruído o avanço, foram aqui um ponto de apoio a que nos agarrámos para travar a descida. Com uns arranhões a mais e quase amarelos com tanto pólen, chegámos finalmente ao fundo do vale do rio ainda recém-nascido. Seguimos o trilho assinalado da Grande Rota do Zêzere em direcção à sua nascente. Foi por entre rebanhos e estábulos que fizemos estes quilómetros. A passagem vai estreitando e ficando mais sinuosa, aqui e ali enlameada, até que finalmente chegámos ao alcatrão e pouco depois ao destino planeado.

IMG_7168.jpg

Visto de cima este covão encantado parece um coração. Montámos a tenda no seu ventrículo direito, ao lado de uma das churrasqueiras ali existentes. Quase sem darmos por isso já estávamos na conversa com três encantadores vizinhos, com quem partilhámos as horas que se seguiram. Além do serão partilhámos ainda vinho, chouriço assado, pão, queijo e maçãs de Alcobaça. À volta da fogueira confinada dentro da estrutura de betão, ainda falámos de ondas sísmicas, de navios bacalhoeiros, de vinho tinto, de excesso de carga nas mochilas, de leitão da Bairrada, de courgettes, de rugby, de auroras boreais, do Montenegro, de electrodomésticos Teka, e ainda de teclados de entrecosto, que além de um belo petisco são uma metáfora da vida, pois também neles sem ossos não há carne.

Importa relevar que os nossos vizinhos vinham de outra zona do país, de outra direcção e com um destino diferente. O facto de termos estado à mesma hora e no mesmo ventrículo do Covão foi uma absoluta coincidência. A sintonia nos interesses e o acerto de frequência no humor foi incrível.

Quando tivemos de nos recolher às tendas para pernoitar entendi que os quilómetros, os arranhões e as ameaças de bolhas nos pés daquele dia tinham tido o propósito de ali estarmos juntos durante aquelas horas. Lembrei-me de outros eventos noutras paragens, igualmente improváveis e igualmente preenchedores, que nos ficam na memória e nos fazem sentir uns felizardos.

Há uns anos, ao ler uma revista, tropecei numa citação de Plutarco, segundo quem o acaso é Deus quando viaja incógnito. Como é que a ciência e a razão explicam estes acasos?

Táctica + Estratégia = Agora é que é!

por Paulo Sousa, em 01.06.20

A aterragem do paraquedista António Costa da Silva no nosso espaço público foi o mais parecido com o envio dos dois astronautas para a Estação Espacial Internacional que o nosso governo nos conseguiu oferecer.

Dizem que o senhor é que vai delinear a estratégia do país. Agora é que vai ser! Se calhar o que tínhamos até agora era apenas uma táctica, o que no fundo é a estratégia dos pobres.

Um bêbado letrado da minha terra dizia que a táctica era delineada com vinho branco e a estratégia com vinho tinto e, vendo bem, essa lógica pode explicar os ziguezaguiantes sucessos do nosso país.

Depois existem aquelas tretas chamadas formalidades democráticas. Para se ser ministro não é necessário ser-se eleito, mas é necessário ir ao palácio do PR tomar posse e assinar uns papéis.

O António Costa II O Estratego, que foi convidado pelo António Costa I O Táctico, foi dispensado de tudo isso porque o nosso regime não prevê ter estratégia alguma. Por omissão então aceita-se sem sobressaltos que o PM angarie alguém, sem esclarecer quem lhe remunera as horas gastas, se há acumulação de funções ou conflito de interesses.

E isto é normal, porque estamos em Portugal.

Tá tudo bem

por Paulo Sousa, em 22.05.20

A indiferença com que o país lidou com a recente atribuição de subsídios à comunicação social é uma das características do povo do nosso país. Foi exactamente essa indiferença que explica os 48 anos de ditadura passados sem grandes sobressaltos públicos, assim como a falta de comoção gerada por muitos outros acontecimentos bem mais recentes. Cá é assim, mas podia ser bem pior. Vamos andando, como é vulgar responder a quem nos pergunta se está tudo bem. Como se alguma vez fosse possível estar tudo bem. Claro que nunca está tudo bem, mas por automatismo anuímos dizendo que cá vamos andando, devagarinho, com a cabeça entre as orelhas. Ser português é também ir andando, mesmo sem saber bem para onde.

São estas águas mornas que propiciam os equilíbrios mornos, aqueles em que mais facilmente se limam as esquinas do que se vergam hábitos. Mesmo que as esquinas sejam as dos princípios nobres da república e das democracias liberais. Não há impossíveis, como bem resumiu António Costa. Tudo é negociável, e por isso tudo tem um preço, até a imprensa.

Pouco a pouco, orçamento após orçamento, ano após ano, pagamento de favor após pagamento de favor, vamos baixando a fasquia da já débil decência do nosso regime.

A forma como estes pagamentos de favores foram apresentados, a sua falta de clareza e de critério assumido, representa apenas mais um degrau que se desceu. Sem qualquer sobressalto ou comoção pública. E isto, embora triste, é normal.

O barbilho social

por Paulo Sousa, em 20.05.20

Os camponeses, depois do trabalho, sentam-se junto do balcão, apoiam os cotovelos no mármore da mesa, e ouvem. As palavras fatigam.

Já há duas horas a despejar copos de vinho, o Barbaças olhando para os demais, todos envergando a máscara dita social, abriu a goela e disse a rir:

- Agora andam todos com um barbilho!

(...) um homem que saiba atirar com uma frase bem recheada e oportuna preenche uma hora de cogitações.

 

Os excertos são parte d'O trigo e o joio de Fernando Namora. O Barbaças, além de personagem dessa obra, é aqui a designação fictícia de um meu conterrâneo que além de recusar usar a máscara dita social, insiste em gozar com quem a usa.

Importa acrescentar que o barbilho, o original, é um objecto em vias de extinção usado nas vacas para as impedir de comer durante o trabalho, e cujo nome e utilidade apenas é conhecida pelos mais antigos.

barbilho.png

 

Cuidado que eles continuam a monte

por Paulo Sousa, em 13.05.20

Quando as autoridades policiais têm de executar ordens das quais um dia terão vergonha de contar aos netos o que fizeram, então nesse momento o estado que representam não está a comportar-se decentemente.

Estas são as imagens da detenção de dois perigosos peregrinos que ocorreu ontem no santuário de Fátima.

Livros que inspiram viagens (3)

por Paulo Sousa, em 09.05.20

Na sequência dos dois textos anteriores, salto hoje uns quilómetros para vos relatar a visita a um país que não existe.

Foi de carro que chegamos à Transnistria.

A informação que recolhemos na preparação da viagem sublinhava o exotismo cinzento de um território que teimava em viver num regime de inspiração soviética.

DSC04225.JPG

Após o colapso da URSS, a minoria russa da ex-república moldava soviética socialista não aceitou a mudança da língua oficial de russo para a língua mãe da maioria romena e desencadeou-se um conflito. Após alguns meses de combates, em 1992 estabeleceu-se um equilíbrio de forças com o rio Dniestre a fazer de fronteira. A Rússia mantém o apoio militar e económico à Transnístria mas a falta de contiguidade territorial não lhe permite descongelar o conflito. Desde então a Pridnistrovian Moldavian Republic (PMR), como se autodenominam, tornou-se um 'país' independente de facto embora sem reconhecimento internacional. Tem governo próprio, hino e bandeira com foice e martelo, imprime moeda e selos, tem tropa e polícia, sistema de ensino e de saúde.

IMG_2441 (1).jpg

As trocas comerciais entre as duas margens troçam dos políticos e realizam-se com fluidez. Algumas empresas transnistrias até exportam para a UE com etiqueta ‘Made in Moldova’. É tão habitual ver matrículas PMR em Chisinau como veículos moldavos em Tiraspol.

A Sheriff Tiraspol FC, equipa de futebol da ‘capital’, é campeã moldava há nove anos consecutivos e representante da Moldávia nas competições da UEFA. Para cumprir o calendário do campeonato todas as equipas atravessam semanalmente os checkpoint militares. Este limbo de independência leva a que os documentos dos cerca de meio milhão de habitantes não sejam reconhecidos fora do seu território. Além das visitas esporádicas ao outro lado do rio e a Moscovo, o universo dos destinos possíveis é bem reduzido. Os indicadores económicos dizem também que esta região é mais pobre que o resto da Moldávia, que já é o país mais pobre da Europa.

Algumas fontes referem que toda a nomenclatura deste ‘estado’ é composta pelo círculo de confiança de uma família, o que cria uma ideia de um Simcity em 3D mas com a possibilidade de saborear o vinho da Cricova vizinha e com miúdas mais giras do que qualquer avatar informático poderá alguma vez ambicionar.

IMG_2458.jpg

Chegamos a Tiraspol vindos de Chisinau. Tivemos a sorte de apanhar um dia iluminado por um sol daqueles em que até as ditaduras, cinzentas por natureza, ficam coloridas.

Ao contrário da ideia criada pelas reportagens que tínhamos visto no YouTube, a cidade aparenta organização e planeamento. Tudo está pintado e as estátuas de Lenin exibem um polimento que fazem inveja às poucas que restarão em Moscovo.

Para evitar o que seria um processo de registo nos serviços de emigração durante um fim de semana optamos por regressar a Chisinau no mesmo dia. Passeamos a pé pela cidade e almoçamos num restaurante local, onde nos deparamos com a maior surpresa da curta visita. Algumas pessoas nas mesas vizinhas estavam a rir!!! Como é possível? Gargalhadas quase obscenas. Toda a informação que recebemos ao longo da vida associam as ditaduras a dias enevoados e a pessoas tristes. Será que se confirma a teoria de que a natureza humana se ajusta mesmo a tudo?

Texto publicado no Jornal de Leiria em Outubro 2018

 

O livro que recomendo, que refere também este "país", é O Despertar da Eurásia, de Bruno Maçães, editado pelo Circulo de Leitores. Trata-se de uma abordagem fora da caixa que contraria a normal divisão da placa euroasiática em dois continentes, a Europa e a Ásia. Lembra-nos que apenas a história e a cultura dos povos criaram esta divisão artificial, e leva-nos a viajar com ele por este imenso território. Sem deixar de ser literatura de viagem é tambem um master class em geopolítica. Lê-se de rajada.

Hoje assinala-se pela primeira vez o Dia Mundial da Língua Portuguesa.

Muito poderá ser dito sobre este património imaterial que nos une, e por praticantes muito mais versados que eu próprio.

Não quero, no entanto, deixar de fazer aqui três pequenas notas.

 

1 – Felizmente a língua portuguesa é de facto imaterial e não pertence apenas ao nosso país. De outro modo ainda poderia ser dada em garantia de dívidas contraídas. Celebremos por isso.

 

2 – Após ter procurado afincadamente por outro caso, em que uma língua coincida com um território, com um país, com uma bandeira e uma identidade nacional, e em que ao cruzar qualquer fronteira a língua aí praticada também seja diferente, encontrei apenas dois países nestas condições. Portugal e o Brasil.

Será que me escapou algum outro caso? E quando falo em fronteiras, refiro-me a fronteiras terrestres. Ilhas não contam.

 

3 – A língua portuguesa, sendo a mais falada no hemisfério sul, já tem relevância global. Mas se não for uma ferramenta de ensino, que acrescenta espessura cientifica aos idiomas locais com que coabita, até pelo desperdício de oportunidade será como um diamante em bruto à espera de ser valorizado.

 

Na sequência do lançamento da moderna Tele-escola, como forma de manter o ensino em funcionamento durante o estado de emergência, reparei que os conteúdos pedagógicos aí produzidos poderiam ser preciosos para outros países da CPLP.

Nem todos os países que hoje connosco assinalam este dia sofrem do mesmo nível de carências de ensino, mas de facto para alguns deles estes conteúdos, produzidos regularmente e abrangendo os diversos níveis de ensino, poderiam valorizar muito as vidas de quem de outra forma acabará por não ter acesso a um nível de instrução inclusiva no mundo actual.

Qualquer coisa dentro desta linha poderia fazer mais pela cultura em língua portuguesa do que vários 1% do PIB sempre na boca dos donos da coisa cultural.

O que mudou?

por Paulo Sousa, em 02.05.20

Quando estamos a sair de uma doença ou lesão, é normal dosearmos gradualmente o regresso ao dia-a-dia, de forma a acompanhar e estimular o nosso aumento de capacidades.

Ora, se o vírus do momento não passou a ser menos contagioso, e se ainda não estamos imunes, esta abertura gradual baseia-se em quê?

Temos apenas como certo que, se forem cumpridos alguns procedimentos de resguardo, o risco de contrair a doença não é anulado mas é reduzido significativamente. E isto é tão válido hoje como há seis semanas atrás.

Se a nossa vida confinada, com um risco de contágio próximo de zero, era apenas 50% normal, aceitamos agora um risco de 5% para ter uma vida 80% normal? Claro que estas margens de risco são apenas intuitivas e não têm qualquer base estatística ou científica, mas traduzem a forma como interpreto esta nova fase. Cada um de nós terá uma resposta diferente para a mesma questão, assim como cada um de nós atribuirá diferentes ponderações a estas variáveis.

Existem naturalmente outros factores que contarão também para a avaliação individual da situação. Um deles será o facto de se pertencer ou não a um grupo de risco, e o outro resulta da respectiva situação profissional e/ou financeira.

Quem tiver estabilidade financeira que lhe permita manter o isolamento poderá fazê-lo, mas como nem todos o podem ou querem fazer, é normal que o país passe a funcionar a diferentes velocidades.

O actual estado de espírito da sociedade já não é igual ao que levou ao auto-confinamento generalizado, que foi até anterior à declaração do estado de emergência. A incerteza e o medo continuam presentes mas enquanto cenário de pandemia global… concluímos que os números da letalidade não são assim tão graves, que justifiquem o impacto económico decorrente de uma paragem demasiado longa.

Assim, e apesar de objectivamente não estarmos imunes nem o vírus ser menos perigoso, decidiu-se iniciar o regresso faseado à nova normalidade, não pela alteração da situação epidemiológica mas simplesmente pela digestão que já fizemos da realidade.

- / -

Não foi assim há tanto tempo que assistíamos ao debate sobre o uso da nikab nos espaços públicos e sobre a ameaça cultural e até de segurança que este consubstanciava. Agora, o uso de máscara é obrigatório nos transportes públicos.

Temos de ter capacidade de rir de nós próprios.

Dedicado às beatas do regime

por Paulo Sousa, em 22.04.20

Depois do meu texto anterior relativo aos velhos marretas que “orgulhosamente sós” e do alto da sua bancada insistem, de dedo em riste e voz grossa, em mostrar aos portugueses que lhes devemos obediência e gratidão pelo regime que temos, achei que importava acrescentar algumas considerações.

Afirmo que desde a sua criação e consolidação, o actual regime constituiu um tremendo avanço em relação ao anterior, que só pelo facto de ser uma ditadura fazia dele algo execrável, desprezível e anacrónico.

A democracia razoavelmente decente que temos, constitui um patamar de evolução abaixo do qual o país nunca poderá regressar. 

O primado da liberdade nas suas diferentes vertentes, do respeito pelos direitos humanos, com especial enfoque pelos direitos das mulheres e das minorias, não é nem nunca deve ser um luxo da situação, mas apenas uma base de decência mínima.

Eu, que ainda usava fraldas quando a nossa democracia liberal foi instituída, cresci a acompanhar a sua evolução. Na escola primária cantei o hino da época de “Uma gaivota voava, voava, somos livres”, cheio de significado para quem nos ensinava a letra, mas banal e repetitivo para quem o aprendia. Para a minha geração essa liberdade, felizmente, foi sempre um dado adquirido. Pode incomodar os mais ortodoxos, mas a banalidade e indiferença das gerações mais novas perante as conquistas de Abril são o indicador maior do seu sucesso.

Para a minha geração, e para os mais novos que eu, a paz, a inexistência de censura formal, as eleições livres, as fronteiras abertas, mas também a constituição, a república, a separação do estado e da igreja, o conceito de propriedade privada, assim como o sistema heliocêntrico, são tudo conquistas do passado. Todos nós, sem excepção, temos uma dívida moral para com aqueles que contribuíram para o mundo que hoje temos, desde Galileu Galilei, a Magalhães, a Darwin, a Pasteur e a Salgueiro Maia.

Por isso, quando digo que está a chegar a hora de exigirmos mais e oiço de imediato as forças conservadoras da actualidade, a que chamo de beatas do regime, a chamaram-me facho, acabo por achar piada, pois sem darem por isso imitam as reacções das beatas do Estado Novo quando alguém exigia o fim da guerra colonial e uma democracia ocidental. Claro que já não me podem mandar prender por delito de opinião, mas isso agora é apenas normal.

Cresci e vivo em liberdade e por isso recuso-me a não poder exigir mais crescimento económico e mais oportunidades para os jovens. O actual sistema de reformas foi desenhado num Portugal com uma estrutura etária completamente diferente e há muito que deixou de ser sustentável. Isto é público e sabido e só não foi ainda corrigido por puro calculismo eleitoral. E não são as reformas miseráveis das pessoas simples que ferem o sistema, mas sim as muito elevadas que são imensas. Já aqui falei disso.

Para os que estão bem estacionados na pirâmide do regime e que insistem que o que temos é perfeito, eu lembro-lhes que um quinto dos portugueses vive na pobreza e os seus filhos não podem aspirar a muito mais do que isso. Estes portugueses não têm voz e não sentem que ir votar faça a diferença. A abstenção é a prova de que a linguagem dos políticos não consegue fazer-se ouvir fora da bolha onde vivem.

Lembro-lhes também o sufoco financeiro que os jovens sentem em tornar-se independentes dos seus pais, lembro-lhes que temos uma justiça labiríntica onde só os poderosos sabem navegar, lembro-lhes que as várias falências do país não são obra do destino, lembro-lhes que cada bébé que nasce hoje deve dinheiro suficiente para comprar um chaimite daqueles ilustram o 25 de Abril, e lembro-lhes que a dimensão da imigração dos anos 60 era um indicador tão fidedigno dos desequilíbrios do Estado Novo como o é do actual regime.

Por tudo isto, só quem vive alienado não reconhece que entre o regime e demasiados portugueses existe um vazio que politicamente alguém irá preencher.

Insistir em chamar facho a quem diz que o que temos não é suficiente é negar a realidade, é adiar reformas e alimentar radicalismos.

Sobre o ajuntamento do próximo dia 25

por Paulo Sousa, em 19.04.20

O 25 de Abril foi um golpe de estado da tropa.

O regime anterior não conseguiu manter a motivação dos seus soldados e estes sentiram-se desligados da mão que os vestia e alimentava. Conseguiram levar o golpe por diante porque tinham armas e estavam treinados para as usar. Os padeiros, os pescadores, ou pastores nunca conseguiriam tal empreitada.

Aceito que alguns dos 'capitães' teriam aspirações de levar o povo para uma vida melhor, mas de facto nenhum deles singrou na política activa e, interpretação minha, acabaram por delegar a governação do país nas mãos dos que a isso aspiravam e, ao fim e ao cabo, estiveram na hora certa e no local certo.

Como o relógio não pára, a primeira vaga dos políticos que alinhavaram o actual regime já está velha. Basta ver a média de idades das ilustres figuras que estarão presentes no ajuntamento, a que chamam celebração, que decorrerá no próximo dia 25 de Abril.

Já tive a oportunidade de alinhar em críticas a este ajuntamento mas, depois de procurar um ângulo diferente para observar o fenómeno, acabei por reparar que a celebração deste ano, o 46º após o golpe, não é descabida coisa nenhuma, e será sim a mais significativa e fidedigna cerimónia do espírito do regime.

Cento e trinta marretas, sem 'populares' a aplaudir, que se representam a eles próprios e aos privilégios que conseguiram assegurar para si, para os seus amigos e protegidos, irão continuar a tentar a convencer a maralha que aquela coisa - o golpe - foi feita pelo povo.

Eles sabem bem que esse mito, de que o golpe foi feito pelo povo, é o degrau onde assenta a choldra que representam, e por isso não podem arredar pé.

Regressando à pandemia e lembrando a festa do bar 75 em Vila Maior, Santa Maria da Feira, alusiva ao covid, apontada como um exemplo acabado de irresponsabilidade e de mau-gosto, importa fazer uma comparação. Ali quem participou pagou o que comeu e bebeu, enquanto que no ajuntamento do 25 de Abril, quem paga não participa.

Generosidade com o dinheiro dos outros

por Paulo Sousa, em 16.04.20

Era uma vez uma superfície comercial que vendia gás. Vamos simplificar a história e por isso só vendia uma das várias marcas que operam no mercado.

Comprava cada bilha de gás butano a 21€, valor sobre o qual ainda pagava o respectivo IVA de 23%, pagando assim por cada bilha de gás 25,83€.

Essa superfície comercial adoptou há vários anos uma política de preços em que estabelece como margem comercial bruta o valor de 2,50€ por cada garrafa. Em resultado disso o preço pago pelo cliente é de 28,33€, arredondando por defeito o valor final para 28€, de forma a facilitar os trocos.

Sempre que a marca de gás com que trabalha entende que deve ajustar os preços de forma a acompanhar os respectivos custos ou concorrência, esta superfície comercial simplesmente repete a fórmula habitual dos 2,50€ de margem comercial, e depois disso arredonda o preço por defeito.

Entretanto surgiu um vírus chinês que quase faz parar o mundo. O governo entendeu que devia fazer caridade e, como não tinha nada para dar, lembrou-se de oferecer o que era dos outros. Vai daí lembrou-se de estabelecer como preço máximo o valor de 22€ por garrafa. Como a clareza na comunicação elimina a hipótese de ajustes de discurso futuros, não informou se esse valor incluía o IVA ou não. Mas perante tal imposição de preço, com ou sem IVA incluído, o referido estabelecimento sabe que se encaixar a caridade que o governo definiu, estará a violar as leis europeias da concorrência que punem a venda abaixo do preço de custo. Por isso, até que a situação seja clarificada, o mais seguro será deixar de vender gás.

Assim, os clientes que acreditarem na caridade do governo terão de ir procurar gás a outro lado. Se todos os distribuidores de gás decidirem o mesmo, deixará da haver gás no mercado e assim, sem conseguirem comprar gás, os cerca de três milhões de famílias em causa irão efectivamente beneficiar de uma redução das suas despesas fixas.

Mudanças

por Paulo Sousa, em 15.04.20

Cerca de um mês após início da quarentena, duas coisas já estão confirmadas:

  • Daqui a muito tempo, uma minoria ainda insistirá em usar máscara. Até lá, o seu uso será generalizado.
  • Muita coisa terá de acontecer até que o aperto de mão regresse às rotinas diárias. Os abraços e os beijinhos ainda terão de esperar mais tempo.

Repete-se até à exaustão que vai ficar tudo bem, mas o "tudo bem" por que aspiramos será diferente do anterior.

Onde se lê: BE propõe novo imposto para financiar fundo de apoio à imprensa, deve ler-se:

Bem aventurados os mansos, pois serão financiados.

Prioridades

por Paulo Sousa, em 12.04.20

Ontem no facebook, tropecei neste vídeo sobre o meu concelho. A mensagem é positiva e apelativa. O concelho tem paisagens incríveis, o que também ajuda.

Enquanto munícipe confesso que gosto de ver o concelho de Porto de Mós a aparecer cada vez mais vezes nos media e, pouco a pouco, a marcar posição no mapa cerebral dos portugueses. Nessa linha de raciocínio é uma promoção bem conseguida.

Mas enquanto ia vendo desfilar as paisagens, o castelo, os ofícios, entendi que havia ali qualquer coisa de institucional mas um bocado em bicos dos pés. Por que raio é que a Câmara, que se tem desdobrado na aquisição de equipamentos de protecção individual (EPI) para os Lares e Centros de Saúde, que criou uma linha apoio Covid, que tem emitido comunicados claros e sucintos quase diariamente à população, por que raio é que foi gastar dinheiro numa coisa bonita mas totalmente supérflua quando o país se encontra em estado de emergência, com circulação limitada, com proibição de ajuntamento de pessoas, com a economia quase parada, e perante tanta incerteza? Não têm mais nada onde gastar o dinheiro? Onde é que esta gente tem a cabeça?

Felizmente nos últimos segundos pude respirar de alívio. Era apenas uma vaidade da oposição.

Ainda gostava de saber quanto é que isto custou. Podiam ter simplesmente poupado o dinheiro, ou tê-lo gasto na aquisição de EPI para uma qualquer instituição de terceira idade, mas preferiram fazer uma coisa bonita para mostrar às pessoas. De caminho e sem se aperceberem disso acabaram também por mostrar o que acham que é realmente importante.


O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D