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Perguntas que gostava de fazer (2)

por Paulo Sousa, em 16.09.19

Drª Catarina Martins,

Em tempos disse que o Syriza era a "possibilidade de esperança e de que na Europa se possa sorrir".
Poucos meses depois o governo de Alexis Tsipras usou gás lacrimógenio para dispersar uma manifestação de reformados.

Acha que o gás lacrimogénio faz sorrir?

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Pensamento da semana

por Paulo Sousa, em 16.09.19

Que parte daquilo que somos seria igual se vivêssemos noutro tempo da história ou noutro sítio do mundo?

Será isso o verdadeiro "eu"?

 

Este pensamento acompanhará o DELITO durante toda a semana

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Perguntas que gostava de fazer (1)

por Paulo Sousa, em 13.09.19

Dr. António Costa,

Disse-nos que, mesmo após muitos anos de uma relação próxima com José Socrates, ficou surpreendido com as revelações levantadas pelo processo Marquês.

Podemos confiar na sua capacidade de avaliar pessoas?

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Vade retro fim do mundo

por Paulo Sousa, em 11.09.19

O PAN é o partido que nos defende do fim do mundo. Sempre que o PAN avança é o patife do fim do mundo que recua.

A medida nº 1081 do “programa eleitoral” do PAN consistia na realização de uma sessão semanal obrigatória dos criminosos com as suas vitimas, ou com os seus familiares em caso de homicídio, com o sentido de promover a reconciliação.

Bastava que não houvesse excepção nos casos de homicídio para parecer uma medida do PNR ou do Chega.

Mas alguém se terá lembrado que isto ainda podia descambar num cenário aterrador em que, numa eventual condenação futura do Eng. José Socrates, se pudesse aplicar. Considerando que as suas vitimas são todos os contribuintes, o fim do mundo esfregou logo as mãos.

Por sorte o André não imprimiu programas para adiar o fim do mundo. Bastou editar o documento - a medida 1082 vem logo depois da 1080 - fazer novo upload e já está. Mais um prego no caixão do fim do mundo. Respiremos de alívio.

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O brasileiro tinha razão

por Paulo Sousa, em 10.09.19

Num canto esquecido do balcão da loja de ferragens e debaixo do pó acumulado de vários anos, estava um porta-canetas em acrílico. Entre uma miríade de outros objectos, o porta-canetas passava quase despercebido.
Enquanto esperava para ser atendido, um brasileiro desatou à gargalhada. Estava quase agachado a olhar com atenção para o porta-canetas. Os restantes clientes interromperam as suas conversas perante as gargalhadas do brasileiro. Entreolharam-se com gravidade. Alguns ficaram arreliados por não entenderem o motivo de tal espalhafato.
- Isto é reclame de bordel!! - disse o brasileiro.
- Isto é o quê? - perguntou o dono da loja tentando sem sucesso disfarçar a irritação.
Importa lembrar que naquela rua viviam caboverdianos há várias décadas, já por lá tinham passado croatas, que desapareceram após a sua guerra, e depois disso vieram ucranianos, russos, moldavos, brasileiros e até um italiano. Nunca tinha havido qualquer problema. Todos tinham vindo para trabalhar e nunca se tinha registado a menor fricção, antes pelo contrário, os locais até achavam piada a tal variedade.
Tinha havido apenas um episódio de alguma tensão. No ano passado uma caboverdiana tinha dado um valente pontapé num gato de uma brasileira por este ir repetidamente fazer as necessidades no vaso das hortelãs que cultivava para fazer chá. Antes da dimensão legal das recentes leis de defesa da bicharada, o pontapé seria apenas o normal quotidiano e nem teria merecido destaque neste texto.
- Ah! Ah! Ah! Isto é reclame de bordel!! repetiu o brasileiro.
A sabedoria popular diz que não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe, e a ausência de conflitos com estrangeiros esteve por um fio durante aqueles longos instantes.
No meio de um furador ferrugento, uma grossa e escura tesoura com mais de uma geração e uma velha caixa de charutos usada para guardar cartões de visita, lá estava o empoeirado porta-canetas. Já ninguém se lembrava como lá tinha ido parar. O mais provável era ter sido oferecido por um fornecedor. Servia para lá esquecer umas canetas já sem tinta e uns lápis sem bico. Estava para ali.
- Ah! Ah! Ah! Isto é reclame de bordel!!
Só após o choque inicial é que finalmente mais alguém olhou com atenção para esse objecto de estacionário. O logotipo era de um banco que já tinha tido um balcão na terra e que fechara quando este tinha ido estrondosamente à falência. O slogan, que deveria estar virado para o lado de dentro do balcão, estava agora virado para fora.
- Juntos fazemos crescer o seu negócio!! - leu finalmente em voz alta o brasileiro - Isto é reclame de bordel!!
Quando, um a um, todos os restantes clientes leram a mensagem de marketing do porta-canetas, largaram-se a rir em uníssono e um deles disse:
- Eu devia ter percebido isso quando me venderam aqueles fundos estruturados e as obrigações de renda perpétua!!! Isto é mesmo reclame de bordel!!
E ainda não foi desta que houve transtornos com os estrangeiros naquela rua.

 

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Blogue da semana

por Paulo Sousa, em 08.09.19

"Escrevo-vos a partir de Porto de Mós, donde há mais de pedras do que de livros."

Assim começa uma carta lavrada por um qualquer funcionário régio e dirigida a um seu superior em Lisboa no sec. XV ou XVI.

Herdeiros deste enquadramento histórico-cultural, juntamente com o meu irmão e vários outros bons amigos, partilhámos a edição dum blogue sediado em Porto de Mós. As estatísticas diziam que éramos lidos a uma escala que, chegámos a acreditar, projectava com razoável substância o concelho de Porto de Mós na bloga nacional. As pedras continuam lá, no seu lugar, os livros já são mais abundantes; há coisas que demoram a mudar e outras que nunca mudam.

Comparando o longínquo ano de 2010, quando esse blogue fechou portas - por isso o seu nome não será aqui referido - e a actualidade, algumas  coisas mudaram para melhor e, não duvido, que um dia no futuro, quando alguém quiser estudar a história da vida cultural e política do nosso concelho durante os anos em que estivemos nos ar, concluirá que, mesmo a uma escala reduzida, deixámos a nossa impressão digital.

Tudo isto para introduzir o blogue que um dos nossos companheiros dessa tarimba digital lançou após este encerramento, simplesmente por se recusar a ficar calado. Tinha o direito de ficar calado, mas não ficou. Esse é o seu mote. O Blogue da semana é o Quinta Emenda e é alimentado com paixão e espessura pelo Eduardo Louro. Tem merecido destaques regulares na plataforma Sapo. Trata de política, da actualidade e de futebol. O hino do Benfica é a música de fundo e faz de metrónomo a marcar o ritmo das batidas no teclado.

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Hoje vou falar-vos de oliveiras. As galinhas podem esperar.

As oliveiras aqui do sopé da Serra dos Candeeiros são maioritariamente da variedade galega. Tradicionalmente estas árvores eram de grande porte, com cinco ou seis metros de altura e oito ou dez de diâmetro. Noutros tempos, em que a mão de obra era jovem e abundante, subir a essas alturas não era um problema, mas com o passar dos anos, e com a mudança etária que o mundo rural sofreu, os acidentes na apanha da azeitona começaram a ser um tema incontornável. Todos os anos pelo menos uma pessoa conhecida sofria um acidente grave ao cair de uma oliveira e, pouco a pouco, as árvores foram sendo 'derrotadas' com podas mais curtas tornando-se mais baixas e, por vezes, até desproporcionalmente largas.

Além da questão da segurança, a oliveira tem de ser podada para não ficar com o seu interior muito cerrado. A planta esforça-se muito mais para manter toda aquela vegetação e isso reduz a sua produção. Além disso, uma oliveira muito fechada complica muito a apanha da azeitona. O ano que se segue a uma destas podas é sempre menos produtivo, mas a prazo é uma boa opção.

As ovelhas entregam-se com afinco às sobras destas podas e rapidamente fazem desaparecer todas as folhas. É um ciclo perfeito. O excesso aparentemente inútil das oliveiras transforma-se em alimento. Sobram ainda os ramos que, agora despidos de folhas, servem para atear o forno, e até que esse dia chegue são um poiso muito apreciado pelas galinhas para pernoita.

A apanha da azeitona é naturalmente um momento especial para os olivicultores. É o inicio da última fase de vários meses de trabalho, e que só termina quando se vai buscar o azeite ao lagar.

O minifúndio, que aqui é maioritário, permite que em poucos dias se resolva o assunto e, mesmo para os menos idosos que ainda trabalham, é vulgar guardarem-se uns dias de férias para esta altura do ano.

Não conheço por aqui quem subsista exclusivamente da produção de azeite. Esporadicamente poderá ser um complemento de rendimento, mas na maioria das vezes é apenas uma forma de ter azeite caseiro suficiente para gastar todo o ano e para dar à família e amigos. É também uma forma de pagamento a quem, que não sendo da família, tenha ajudado na apanha.

Normalmente a colheita é também o motivo, não menos importante, para reunir a família. Existe uma forte vertente pessoal e familiar em tudo isto. A relação com o olival é alimentada por uma mistura de posse do território com homenagem a quem o planeou e concretizou. Manter um olival é manter um espaço, as suas plantas e o propósito que foi concretizado há muitas décadas atrás pelos pais ou avós.

Mesmo que não conscientemente, quando se planta um olival, se cuida dele com a ajuda dos filhos, irmãos e outros familiares está-se também a passar uma mensagem e a consubstanciar uma intenção.

O azeite produzido desta forma tradicional e tão pessoal fica muito mais dispendioso do que o que se consegue com métodos intensivos e muito mais profissionais. Tem havido diversas mudanças no enquadramento legal de toda esta actividade e no geral todas têm reforçado as vantagens do efeito de escala conseguido pelas explorações intensivas.

Em abstracto os subsídios agrícolas irritam-me, mas o maior subsídio que se poderia dar a este tipo de agricultura era não lhe complicar mais a vida. Um olival tradicional pode durar muitos mais anos que a idade do actual regime político somada à do anterior. Mas mesmo assim há sempre mais uma norma emanada pelo ministro de turno, porque agora é que se vão resolver os problemas e enriquecer os agricultores. Nisto sinto-me especialmente liberal. Não mudem mais regras porque isso é, demasiadas vezes, o melhor que um governo pode dar ao seu país.

Apesar de tudo isto ainda vai havendo quem insista em manter esta tradição, e este ano adivinha-se mais produção que no ano passado.

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A visão estratégica e a capacidade de actuar num prazo alargado do regime autoritário chinês constituem a maior ameaça à liberdade do mundo ocidental.

A China é implacável na aniquilação da oposição interna e simultaneamente comporta-se nas relações internacionais de uma forma respeitável. Nestes tempos da caótica e imprevisível administração Trump, a ditadura chinesa chega por vezes a parecer o garante do multilateralismo.

Perante as inquestionáveis dificuldades que as democracias liberais atravessam, a aparente ordem e previsibilidade dos regimes autoritários consegue atrair simpatias. Uns sugerem que a democracia deveria ser suspensa por seis meses, outros chegam mesmo a suspender parlamentos. Pouco a pouco, o que há meia dúzia de anos seria impensável, já é um facto.

O sistema de crédito social chinês, que pune os cidadãos não conformes e premeia os restantes, constitui o mais sinistro sistema de controle de massas de que há memória.

Dezenas de milhares de chineses foram impedidos de adquirir bilhetes de comboio ou avião durante a celebração do ano novo chinês simplesmente porque, de uma forma ou de outra, tinham ultrapassado o limite que os donos da moral consideram que não pode ser pisado. Uns por terem sido críticos do regime, outros por terem sido desagradáveis durante uma viagem de comboio, por não pagaram um dívida ou por fizeram ruído no prédio fora de horas,... os desvios são punidos.

É sabido, embora desconhecido no detalhe, a dimensão do exército de fiscais do mundo virtual chinês. São conhecidas as dificuldades levantadas aos gigantes das novas tecnologias para terem acesso ao mercado chinês. Refiro-me à Google, Facebook, Amazon, etc. A questão resume-se a terem de ajustar as suas prácticas aos ditames dos donos da moral chinesa. Ou se flexiblizam ou perdem o acesso a um mercado de mais de mil milhões de consumidores.

São diversas as fontes que referem e descrevem em detalhe como tudo funciona assim como as consequências para os desalinhados.

Vem isto para enquadrar dois exemplos que passo a relatar.

i) Há poucos dias o Público veio-nos dizer que afinal talvez esse sistema não exista. A jornalista entrevistou alguém que por sua vez questionou alguns chineses que lhe disseram desconhecer ´essa coisa´, mas ... a ideia até lhes agrada por permitir livrar o país dos corruptos.

Ao ler isto cheira-me que alguém andou a fazer uma investigação sobre um assunto, mas já sabia a que conclusão iria chegar e isso poderá ter condicionado os dados que recolheu. Cheira-me a desinformação, talvez até involuntária, mas a desinformação.

ii) Não há muito tempo, na cavaqueira com alguém que tinha acabado de conhecer e que rapidamente entendi ter um profundo sentido da política, ouvi a enormidade de que a China tinha demasiada população para que alguma vez pudesse vir a ser uma democracia. Tive de lhe perguntar em quantos milhões é que ia esse limite, até porque a Índia que a médio prazo irá ultrapassar a China nessa variável tem uma democracia razoavelmente decente.

A conversa sofreu um pequeno e curto desvio mas pouco depois uma nova carta foi posta na mesa. O confucionismo, a base cultural chinesa, não era compatível com a democracia. Por desconhecer os pilares de tal doutrina não pude contra-argumentar e fiquei com a forte impressão que tinha assistido a um belo Ctrl+Alt+Del encapotado.

Logo depois começaram as anedotas sobre a coligação PAF. Essa gente, sim, era um hino à ditadura clerical de Salazar e uma ameaça à liberdade conquistada em Abril.

Todos estes assuntos foram abordados quase em sequência, de onde pude extrair que, para alguns pensadores da nossa esquerda, o regime chinês é aceitável e simultaneamente uma coligação da direita portuguesa pode ser uma sinistra ameaça. Chegamos a isto.

Julgo ser da natureza humana uma reacção relativamente frequente a que chamo o sindrome da esposa enganada (que também pode ser do marido). Há coisas em que não acreditamos simplesmente porque não queremos que sejam verdadeiras. Não as enfrentar é uma forma de negar que existam. Nada resolve, mas alivia.

Encontro traços deste fenómeno nos dois casos.

Para quem duvidar que se vão criando condições para um recuo efectivo no leque de liberdades que exigimos ao nossos regimes, pode ainda escutar com atenção o silêncio dos senhores e senhoras que se emocionam na parada do feriado de Abril. Fecham os olhos ao discursar, para esconder a emoção, mas continuam em silêncio perante o combate que se trava em Hong Kong. É nesta antiga colónia britânica que neste momento está localizada a fronteira da liberdade.

Esta fronteira da liberdade vai de tempos a tempos mudando de região. Há 80 anos - faz hoje 80 anos - essa combate travou-se na fronteira da Polónia invadida pelas tropas nazis. Ao longo dos seis longos anos da Segunda Guerra Mundial, a fronteira da liberdade sempre coincidiu com a linha da frente da batalha. Passou por El Alamein, pela Sicília, pelas linhas Gótica e Gustav, pela Normandia, pelas Ardenas até ao histórico aperto de mão no Elba. Foi mudando de região e desde 25 de Abril de 1974 até ao 25 de Novembro do ano seguinte andou pelos nossos lados. Actualmete está em Hong Kong. Será que alguma vez passará por Macau? Qual seria a a reação dos nossos governantes? Será que os eventuais dissidentes se fariam representar com a nossa bandeira, tal como o fazem com a Union Jack em Hong Kong? Num cenário hipotético como esse, poderia ser a nossa bandeira um possível símbolo da liberdade?

O mundo ocidental continua a ser o refúgio preferido dos dissidentes de todo o mundo, porque, apesar de já não ser a região mais poderosa do globo, continua na linha da frente na garantia das liberdades individuais.

Não temos pessoalmente nenhum mérito nisso (eu pelo menos não tenho!) mas apenas temos a sorte de por aqui ter nascido. Alguém no passado lutou por isso e nós somos os seus beneficiários líquidos.

Perante tudo isto concluo que existe espaço na opinião pública no mundo ocidental para uma efectiva redução do respeito pelas liberdades individuais.

Dia após dia, entre a aparente ordem das ditaduras e a imprevisibilidade quase caótica dos parlamentos, o apego à liberdade vai adquirindo uma plasticidade que não augura nada de bom.

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Cá em casa, na janela da cozinha, temos um frasco com papelinhos dobrados onde registamos as coisas boas que nos vão acontecendo ao longo do ano. Fazer parte do Delito de Opinião já lá está, dobrado em quatro, para ler no fim do ano.
Fico grato pelo convite do Pedro.
Já estou a adorar fazer parte da casa.
 
- - -
 
Aos olhos de demasiados dos nossos governantes, existe uma estreita faixa do território português que fica localizado a norte do Ralis, a oeste da ponte Vasco da Gama e a sul do Cristo-Rei. Por vezes de lá chegam algumas notícias de acidentes e outras tragédias variadas. O espaço público é, na sua esmagadora maioria, preenchido por eventos, pessoas e sítios, sempre ligados à capital.
 
Li algures que os franceses, nas suas repetidas e mal-sucedidas tentativas de invasão do nosso rectângulo, terão afirmado que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. Esta ideia não é nova e dão-se alvíssaras a quem encontrar excepções dignas de relevo.
 
Observar o mundo sempre a partir do mesmo miradouro é limitador. Existem muitas realidades que nunca terão a visibilidade merecida, e sendo ignoradas é como se não existissem.
 
Julgo que foi num periódico espanhol que surgiu o termo urbanitas. Este neologismo serve para descrever pessoas que, por habitarem nas cidades, acabam por não ter em consideração variáveis que não fazem parte do seu quotidiano. E isso leva-as a julgamentos baseados num mais limitado conjunto de valores. Não me arrisco a afirmar que a visão correcta e completa do mundo é a oposta à dos urbanitas. Apenas acho que a ausência de uma parte da realidade limita qualquer análise. O mesmo raciocínio é válido no sentido contrário, sendo que a limitação de fundo será a falta de equilíbrio entre os dois ângulos de observação.
 
É com este pensamento na minha bagagem que irei tentar aqui escrever sobre esta estreita faixa de terreno. Se correr bem até pode vir a ser uma rubrica tão regular como a regularidade com que eu tropece em histórias, ou estórias, deste lado do Ralis.
 
- - - 
 
Em minha casa, no exterior - para que fique claro - vivem diversas espécies. Neste momento eu poderia contribuir para a Arca de Noé e, por ordem de tamanho, com um carneiro, duas ovelhas, quatro patos mudos brancos, duas galinhas pretas, uma castanha e ainda oito frangos castanhos, dos quais um é de pescoço pelado.
 
Adquiri as ovelhas há quase dois anos, principalmente para limparem um bocado de terreno anexo à casa, o que faz delas umas sapadoras especialistas não subsidiadas. Quando as comprei já vinham prenhes e por isso foram mais caras.
 
Além da impecável limpeza do terreno e da compostagem das cascas de frutas e legumes da casa, já nos deram quatro belos borregos, três machos e uma fêmea. Apareceram quase de repente. Uma pariu dois machos num sábado de fevereiro e a outra pariu um casal no dia seguinte. Os partos foram fáceis e os borregos começaram logo a andar e a mamar. O terreno, que era mais que suficiente para duas bocas ruminantes, rapidamente ficou pequeno para seis que, poucas semanas depois já comiam erva.
 
Cresceram juntamente com as galinhas e sempre coexistiram pacificamente dando até por vezes mostra de algum companheirismo.
 
A borrega fêmea foi vítima de um dramático acidente. Um dia após o nosso jantar começamos a ouvir um grande alvoroço e quando lá cheguei já ela estava deitada no chão. Estava com espasmos que rapidamente acabaram, anunciando o pior. Após ter sido observada, já cadáver, por um entendido, reparámos que tinha engolido uma casca de banana e que esta lhe bloqueou a traqueia.
 
Durante vários dias, humanos e ovinos, todos andámos tristes.
 
Dos restantes três borregos, um foi para consumo da casa já no início do verão. Os outros dois foram trocados por um macho adulto, que por acaso é o pai deles. Com estas trocas quis evitar a consanguinidade que acabaria por acontecer caso crescessem junto das respectivas mães. Além disso, com três machos juntos a caminho da adolescência já dava para antever uma acesa luta por território e por fêmeas.
 
Se a jovem fêmea tivesse sobrevivido provavelmente teria sido ela a escolhida a dar continuidade à próxima geração e, nesse caso, as duas mais velhas já nos teriam feito companhia num almoço familiar de domingo. Sim, porque cozinhar carne criada em casa é sempre motivo para reunir aquelas pessoas que nos são queridas e é sempre um evento especial. Foi isso que fizemos com o borrego.
 
Um destes dias vou falar-vos sobre as galinhas.

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