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Delito de Opinião

Crónicas sobre esta estreita faixa de terreno (5)

Paulo Sousa, 14.10.21

Nos últimos dias de 2019, que parecem tão distantes, nasceram aqui no quintal quatro borregos, um macho e três fêmeas. Antes de tudo isto ter acontecido, tinha apenas duas ovelhas prenhes, que assim em poucos dias passaram a seis.

Ao contrário da prática habitual, não quis que fosse colocada nenhuma anilha na cauda destes mais novos. Esta anilha leva a que a cauda não seja irrigada e caia em poucos dias, sem mais danos para o animal. Um entendido recomendou-me fazê-lo. Avisou-me que quando o tempo chegasse, as borregas se tornassem ovelhas e a natureza as tornasse receptivas à cópula, a cauda causaria algum transtorno ao macho e por isso também algum alvoroço nas redondezas. Achei que não. Se na natureza a cauda nunca impediu que a espécie progredisse, não seria agora que o macho se ia atrapalhar.

A erva que a chuva do inverno torna suficiente para duas bocas nunca chegaria para o pequeno rebanho de seis que nesses dias passaram a habitar esta parcela de terreno. Com uma persistência a que nenhum herbicida poderia concorrer, aqueles quadrúpedes raparam rapidamente todos os centímetros do talhão que me pertence. Por sorte, um vizinho sem vagar para cuidar de um terreno contíguo, que é apenas dividido por uma linha de água e uma vedação, aceitou trocar a sua erva nascediça pela matéria orgânica que estes bichos produzem com relativa abundância. Assim, com uma palete a fazer de rampa e uma porta improvisada, aquela meia dúzia lá emigrava pela manhã e só regressava ao anoitecer.

Por vontade do destino, um desarranjo do sistema digestivo assentou praça ali no curral. A erva molhada funciona como um acelerador de toda aquela dinâmica e nem mesmo recorrendo aos clássicos travões intestinais, aveia demolhada e palha seca, consegui resolver o assunto. Fui assim forçado a recorrer a um entendido, que disse logo:

- Não lhes quiseste tirar o rabo, agora vão andar com uma recordação desta diarreia até ao dia que forem para o desmanche. –  Os entendidos é que sabem.

Com o aproximar da Primavera, a força das tradições levou a uma alteração na composição daquele grupo. Já com os borregos desmamados, negociei as fêmeas com um outro vizinho que precisava de limpar um terreno e que já tinha apalavrado o empréstimo de um macho. Assim, pela ocasião da celebração da Ressurreição de Cristo, a borrega irmã do macho foi servida dentro de uma travessa de barro vermelho num almoço familiar. Para dar seguimento à geração seguinte, e de forma a evitar a consanguinidade, ficaram o jovem macho e as duas borregas filhas da outra mãe.

As semanas foram correndo e com o Verão chegou a puberdade dos borregos. Foi desde muito pequeno que o macho começou a ensaiar marradas em tudo o que mexia. No início era só para testar a dureza dos materiais, mas conforme foi ganhando peso, o instinto começou a impeli-lo a impor-se pela força. Quando chegámos ao fim do Inverno de 2020, a largura das jovens ovelhas já mostrava que não havia caudas que atrapalhassem nem o instinto nem o empenho de nenhum macho.

Conforme aqui relatei, os novos borregos, mesmo tendo nascido durante a noite, viram a luz do dia em Março. A data poupou-os ao sacrifício pascal, mas não a um outro evento familiar. Não me recordo qual foi a ocasião, mas sei que fui sensível ao alerta de um outro entendido:

- Olha que é a partir dos três meses que começam a ganhar gordura! – Este, além de um bom garfo, é meticuloso no detalhe das coisas importantes. O conselho provou ser sábio e graças à sua sabedoria tudo aconteceu no momento certo.

Os dois borregos foram consumidos em diferentes configurações gastronómicas e continuo sem saber se prefiro os medalhões no forno ou as costeletas na grelha. Ao contrário dos animalistas, acho que são mal empregues como matéria-prima de comida para cão, mas isso é a minha ideia, e respeito as dos outros.

Com o sol de Verão a pino, a tosquia tornou-se uma necessidade. É cada vez mais difícil arranjar quem faça esse serviço. Um outro entendido tem um tio que fazia tosquias, mas depois de uns alertas foi proibido pelo cardiologista de se dedicar a esse serviço. Depois de até no OLX ter procurado por este trabalho especializado, acabei por encontrar no concelho de Alcobaça um rapaz que o fazia depois de despegar da fábrica. Mesmo ficando com a lã e ainda dinheiro, começou a lamentar-se pelo pouco rendimento deste serviço logo à chegada, quando ainda tinha o carro a trabalhar, e só deixei de lhe ouvir as lamúrias mais de uma hora depois, quando já estava a engrenar a segunda velocidade rua abaixo. Atrás dele deixou duas ovelhas e um carneiro meio envergonhados e muito menos volumosos do que eles, e nós, estávamos habituados.

A testosterona do macho, que o ajudou a acumular quase o dobro do peso de cada uma das fêmeas, nunca o deixou ser um bicho sossegado. A partir de certa altura nunca as deixava chegarem-se da comida. As duas ovelhas passaram a aproximar-se sempre com medo de apanhar mais umas marradas. Mesmo recorrendo a duas manjedouras separadas por uns metros, ele não lhes facilitava a vida e, mesmo quando eu estava a alguma distância, ouvia-as a serem projectadas contra as tábuas do curral. Para que elas pudessem meter o dente nos restos vegetais da nossa cozinha, ou numa dose de ração, tinha de fazer uma grande ginástica para o atrair para o lado de fora e depois fechar muito rapidamente a porta, o que nunca seria uma solução permanente.

Um entendido no café disse-me:

- Olha que se elas não têm borregos a mamar e se estão tosquiadas, a esta hora já estão prenhes.

Assim, com dó das pobres coitadas que comiam a medo e eu já temia pelo dia em que o patife me quisesse encostar a cornadura, lá o despachei para o desmanche. E assim foi transformado em dois alguidares grandes cheios de carne, que foram em parte distribuídos por familiares e amigos.

Depois disto a calmaria regressou ao redil. As duas ovelhas já conseguem comer sem sobressaltos e já se vê o lombo a alargar, o que comprova mais uma vez que não é a cauda das fêmeas que impede o carneiro de cumprir o seu propósito. Fazendo a conta às 22 semanas de gestação, lá para Março acaba-se o tempo e assim se cumprirá mais um ciclo da natureza.

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PS: Uma das ovelhas é ligeiramente maior que a outra. Desde que o macho saiu da equação que a mais pequena já entendeu que continua a ter de dar passagem e acesso privilegiado à maior. A lei do mais forte está claramente escrita no ADN dos bichos. Felizmente isso já não acontece com os humanos. Será mesmo que não?

Pedro Nuno Santos afinal é o salva-banqueiros

Paulo Sousa, 12.10.21

Na sequência do postal de ontem, sobre o que aos olhos dos seus clientes se está a passar na TAP, terá faltado olhar para a fotografia alargada.

O debate anda à volta da decisão de salvar a companhia aérea nacional, ou não. Quando a coisa se apresenta como se um simples interruptor nos fosse colocado à frente, em que teríamos apenas de o deslizar para um lado ou para outro, sem revelar as consequências que cada opção poderá ter, a questão é facilmente levada para o ponto de vista emocional, embrulhado num nacionalismo bacoco. Gostamos de ter ou não uma companhia de bandeira?

Muitos dos que se opõem mais afincadamente ao encerramento da empresa, manifestam-se como se isso implicasse que todos os seus aviões tivessem de ser destruídos, a experiência dos seus quadros evaporasse e a tradição de segurança desaparecesse.

Nada mais errado. Processos idênticos já aconteceram na Suíça e na Bélgica, em que a após a falência da SwissAir e da Sabena, estas foram substituídas pela Swiss e pela Brussels Airlines. Aí, as aeronaves foram repintadas, grande parte do seu pessoal foi integrado, a cadeia de fornecedores foi mantida, a experiência e o serviço não se perderam.

Se algo idêntico fosse feito com a TAP, as perdas mais significativas seriam registadas pelos seus financiadores, nomeadamente por quem atravéz do empréstimo obrigacionista de 2019, lá colocou 200 milhões de auros. As medidas tomadas pelo governo, mais do que querem manter as cores da bandeira na cauda dos aviões, quiseram, acima de tudo, assegurar que quem tomou esse empréstimo não fique com esse prejuízo.

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No título do postal dou uma pista sobre quem é que está afinal a ser assistido em todo este filme, e como é que o ministro Pedro Nuno Santos acabou por fazer à nossa algibeira o que ameaçava que aconteceria às pernas dos banqueiros.

O resto é espuma.

O sabor do mercado?

Paulo Sousa, 11.10.21

Aos habituais produtos de free-shop do serviço de vendas a bordo, a TAP, nos voos de médio curso, adicionou recentemente as refeições rápidas. Sim, as mesmas que noutros tempos servia a todos os passageiros.

Há uns anos para cá, essa prática tornou-se banal embora até agora apenas nas companhias chamadas de low-cost. Mas a TAP, agora pedronunista, não quer ficar atrás.

O detalhe de um bilhete da nossa companhia de bandeira custar facilmente dez vezes mais do que numa dessas companhias de baixo custo, e refiro-me naturalmente a destinos idênticos, é exactamente isso, um detalhe. No ponto de vista do cliente a venda de comida a bordo era aceitável face ao baixo custo do bilhete, mas na visão de quem acha que a TAP tem futuro, o caminho passa sempre por juntar o pior dos mundos.

No futuro, quando estas décadas iniciais do século XXI forem estudadas, não duvido que a insistência do governo em se endividar para manter algo inviável, obsoleto e anacrónico, como a TAP é actualmente, não será apenas interpretada como uma deriva ideológica, mas terá de ser comparado à insistência do regime anterior em defender algo igualmente obsoleto, como era o império.

Darwin mostrou-nos que na natureza a incapacidade em se adaptar leva inevitavelmente à extinção. A forma como nos comportamos, enquanto país, perante a realidade, não será mais que um reaccionarismo alienado e insuflado de uma grandeza que ouvimos dizer que um dia terá existido, mas que agora só encontramos na dimensão da dívida já contraída e que deixaremos de herança.

Os actores, como sempre, serão julgados pela história. Não duvido que os em causa, deixarão os vindouros incrédulos pela inacção face às tragédias que, estando mais do que anunciadas, um dia conseguirão mostrar-se genuinamente surpreendidos. Nisso eles são bons.

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O menu que anuncia esta nova fonte de receita da nossa companhia aérea, parece querer garantir que os produtos são bons, mas quando ali leio "Sabor do Mercado" interpreto que alguém está a gozar com quem defende uma gestão adequada e capaz de se adaptar às mudanças, que é como quem diz,  capaz de se adequar  aos sabores do mercado.

As autárquicas na minha terra - VIII

Paulo Sousa, 29.09.21

Como tenho vindo a relatar em postas anteriores, na eleição para a Câmara Municipal de Porto de Mós assistiu-se a uma tentativa do ex-presidente João Salgueiro (PS) reconquistar o que considerava ser seu. Não fosse por limitação legal e em 2017 ter-se-ia apresentado pela quarta vez como candidato. Importa referir que, além destes três mandatos, já acumulava mais três  como vereador pelo PSD, totalizando assim 24 anos de vida autárquica.

O incumbente, Jorge Vala (PSD), conquistou há quatro anos a presidência disputando nessa altura a eleição com uma lista do PS e outra independente, tendo por isso sido o presidente eleito com menos votos de sempre. O regresso de João Salgueiro à liça fez com que esta eleição acabasse por ser, para Jorge Vala, o seu maior desafio eleitoral de sempre.

Outro facto, de que já aqui fiz referência, foi a candidatura de um dos filhos do ex-presidente à Junta de Freguesia onde reside. David Carreira, perdão, David Salgueiro, já fez parte da lista para as legislativas por Leiria e não esconde a sua ambição política.

A única sondagem conhecida (estudo sociopolítico) foi divulgada dois meses antes do acto eleitoral e apresentou então uma vantagem de 4% para João Salgueiro. Sem mais detalhes, esta informação foi como um murro no estômago dos apoiantes do actual presidente e provavelmente um grande fôlego para as hostes do desafiante. Os 4% de margem de erro e uma incorrecta proporção das entrevistas feitas em cada freguesia relativamente ao seu peso demográfico quase passaram despercebidos.

O tempo foi passando, os hinos de campanha perturbaram grandemente o silêncio que só existe nas terras pequenas, foram feitos os normais porta-a-porta, folhetos seguiram pelo correio, foram visitadas algumas empresas, escolas e outras instituições, realizaram-se dois debates no Cine-Teatro, muitas fezes foram despejadas sobre o ventilador das redes sociais, muitas ofensas foram proferidas, bastantes mentiras foram ditas, entremeadas com algumas verdades, foram feitos desmentidos, por vezes até desmentidos aos desmentidos, foram prometidas obras, algum chão foi pintado de preto, tudo normal e nada de novo, portanto.

Chegado o grande dia e fechadas as urnas, foi à frente de uns frangos assados que recebi a primeira de várias mensagens e que dizia: “Mesa de voto 2 Câmara PSD 220 PS 185”. Depois de um branco à maneira, abriu-se então a segunda garrafa de vinho. Estando a primeira vazia nunca seria um acto precoce, mas, a natureza ligeiramente gaseificada de “O tal vinho da Lixa” obrigou a uma atenção especial para que a rolha não saísse disparada e pudesse parecer uma celebração antecipada. E nestas coisas não vale a pena correr riscos, até porque os comensais eram do tipo “não sou supersticioso, porque isso dá azar”.

Assim, enquanto mais mensagens de outras mesas de voto iam chegando, os votos no Jorge Vala iam subindo e “O tal vinho da Lixa” ia descendo. Finda a segunda garrafa entendeu-se necessário seguir para a sede de campanha, no centro da sede do concelho.

Lá chegados, o entusiasmo era visível. Ainda não havia nada de definitivo, mas sentia-se que as coisas estavam a correr bem. Menos de meia hora depois chegou a confirmação: “O Jorge ganhou!”. Houve logo quem dissesse que a democracia era uma coisa maravilhosa, especialmente quando permite que as forças do mal sejam derrotadas, mas isso terá sido um ligeiro exagero no calor das celebrações.

Choviam abraços por todos os lados e os sorrisos eram omnipresentes. O Jorge ganhou e o medo acabou. E a dinastia derrapou. Este presidente não grita nem assinala quem não o aplaude. O passado não entendeu que já não tinha futuro.

Depois, alguém trouxe o camião que fez de palco durante a campanha e estacionou-o em frente à sede. Para mais tarde lembrar, tiraram-se fotos e eram várias as video-chamadas. Até internacionais.

Meia dúzia de foguetes depois, seguiram-se vários discursos, onde o slogan da campanha não podia faltar: Porto de Mós, O sítio certo!

Em oposição ao que a lista opositora representava, a noite acabou a gritar-se: Futuro! Futuro! Futuro!

Agora é só esperar.

 

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Resultados autárquicas 2021 - Porto de Mós, o sítio certo!

As autárquicas na minha terra - VII

Paulo Sousa, 26.09.21

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Quando a democracia era por cá uma absoluta novidade, terá sido diferente. Nesse tempo a política nacional entrava pelo quotidiano adentro de cada português, dominando os temas de conversas nos balcões dos cafés, nos locais de trabalho e nas refeições em família.

Com o passar dos anos, instalou-se a sensação de rotina que, sendo positiva por traduzir um costume enraizado, tem levado a uma indiferença que se manifesta também pela abstenção crescente. Podemos apontar como principal causa os equilíbrios estabelecidos pelos partidos que, como quem tranca as portas da casa, afastam os cidadãos daquela peça de teatro, de deixas previsíveis e enfadonhas, esvaziando e enfraquecendo assim as conquistas democráticas.

Apesar de isto se repetir em todos os actos eleitorais, as eleições autárquicas tem uma capacidade especial em desencadear um envolvimento popular intenso.

Qualquer partido que concorra aos diversos órgãos autárquicos e em todas as freguesias do concelho de Porto de Mós, necessita de angariar pelo menos 200 pessoas. Só para a Junta de Freguesia onde resido foram apresentadas cinco candidaturas e isso permite-nos aferir como é que, num meio mais ou menos rural como este, se torna quase impossível não ter pelo menos um familiar, um vizinho, um colega de escola, um amigo ou um ex-amigo, nos elencos das várias candidaturas, arrastando assim para dentro de cada campanha eleitoral velhas afinidades e conflitos.

Se a discussão do englobamentos dos rendimentos prediais no IRS, o apoio aos fornecedores da TAP ou o estatuto político administrativo dos Açores, podem ser assuntos estéreis de interesse para o cidadão comum, o mesmo não acontece quando estamos a falar num buraco à frente da porta, de uma mágoa antiga para com um fulano que está “a sujar” uma das listas, ou o modo como a mulher do Presidente a Junta respondeu a alguém na semana passada. Estes últimos, ao contrário dos primeiros, têm todo o potencial de definir o sentido de voto.

A tradicional forma de passar a mensagem do que se fez, ficou por fazer ou que se promete resolver, envolve um porta-à-porta a distribuir panfletos, acompanhado de carros decorados com as caras dos candidatos, bandeiras a esvoaçar e com alto-falantes a debitar o hino de campanha em contínuo, deixando atrás da sua passagem todos os cães a ladrar num alvoroço.

Mais recentemente, a troca de argumentos para angariar apoiantes chegou às redes sociais, e, como não podia deixar de ser, isso aumentou o nível do confronto entre as diferentes candidaturas e levou a que a agressividade subisse em flecha. Bem sabemos como se torna fácil teclar afirmações que nunca seriam ditas cara-a-cara e que, no momento seguinte, parecem legitimar uma reacção igualmente exagerada a estas, iniciando assim uma espiral quase imparável.

Demasiados dos envolvidos sentem-se tão estimulados pelas afirmações eventualmente falsas, incorrectas ou incompletas e pelos seus desmentidos, que entram a pés juntos contra tudo o que mexe, esquecendo-se que no dia após as eleições terão de continuar a cruzar-se uns com os outros. Esquecem-se também que uma parte muito significativa do eleitorado está alheada desta batalha em linha e que o consecutivo baixar de nível levará apenas a que alguns indecisos se sintam repugnados e mudem para o lado oposto.

Nestas últimas semanas vi um pouco de tudo isto, vi quem, mesmo debaixo de agressões rudes e sob pressão dos mais próximos, se tenha revelado pela elevação, assim como candidatos a cargos de responsabilidade a chafurdar nas poças mais malcheirosas das redes sociais e também a destruir material de campanha dos opositores, algo que dificilmente aconteceria numa eleição nacional.

Por mais que os media queiram noticiar este acto eleitoral, e a forma como se vivem as autárquicas em Portugal, tal é a diversidade de casos e são tantas as particularidades vividas em cada um dos 300 concelhos e mais de 3000 freguesias do país, que não têm forma de o fazer.

À excepção de bruscas viragens que possam acontecer nos grandes centros, não acho que faça muito sentido interpretar a soma dos resultados de cada uma destas pequenas bolhas, estanques e autónomas, e extrapolá-los para o todo nacional, como se de um aplauso ou uma vaia ao governo se tratasse. Mas enquanto as assembleias de voto não fecham e se espera pelo início da contagem, o tempo é de suspense. Esperemos, portanto.

As autárquicas na minha terra - VI

Paulo Sousa, 19.09.21

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Na entrada para a última recta que terminará nas eleições do próximo domingo, os eventos promovidos pelas listas concorrentes estão ao rubro.

Estive hoje num comício aqui perto, na freguesia das Pedreiras, onde além das sandes de pernil de porco, sopa da pedra e minis, havia ainda animação a toque de concertinas e insufláveis para os mais novos. Excluindo a missa solene, em tudo se parecia com uma festa em honra de um qualquer orago deste nosso Portugal.

Depois dos discursos dos candidatos do PSD à Câmara e à Junta, falou ainda o senhor Rogério Vieira, o ainda Presidente da Freguesia. A lei que limita a três o número máximo de mandatos autárquicos, impede que se volte a candidatar, e por isso aproveitou a oportunidade para fazer como que um balanço e uma despedida do cargo.

Tendo sempre a dependência financeira e logística das Juntas relativamente às Câmaras Municipais como pano de fundo, noutras eleições, além da incógnita da respectiva vitória, o senhor Rogério teve sempre de lidar com a incerteza de quem viria a ser o Presidente de Câmara com o qual teria de trabalhar. Nos doze anos que agora terminam, foi candidato vencedor uma vez pelo PSD e outras duas por listas independentes. Lidou assim em dois mandatos com um presidente eleito pelo PS e mais recentemente com um do PSD.

O equilíbrio necessário para conseguir levar por diante todos os melhoramentos que ambicionou e sentiu serem necessários para a sua freguesia, exigiu-lhe sempre uma enorme sobriedade nas suas tomadas de posição em público.

O discurso que fez, resumiu esta delicada relação das Juntas com os Municípios, elencou uma imensa lista de obras, muitas delas que simplesmente anteciparam potenciais problemas e evitaram assim emergências posteriores, falou da falta de compreensão dos que preferem ficar em casa a disparar críticas mesmo sem saber a abrangência de cada problema, dos telefonemas que o arrancaram da cama a meio da noite, e também das muitas vezes que não respeitou a máxima que coloca a família em primeiro lugar.

O mesmo roteiro que, de quatro em quatro anos, fez de porta-a-porta a pedir um novo voto de confiança, repetiu-o mais recentemente a distribuir cinco máscaras por pessoa, quando estas estavam esgotadas em todo o lado.

Acrescentou que durante estes anos, nos mais de trezentos funerais realizados no cemitério que administra, só não pôde estar presente em cinco, tendo-se deslocado pessoalmente mais tarde a cada uma destas famílias enlutadas.

Aqui e ali, com alguma emoção à mistura, o senhor Rogério Vieira resumiu em breves minutos o que é ser-se Presidente da Junta numa freguesia rural, e que me atreveria a resumir como sendo um cuidador do território e dos seus habitantes, nas horas boas e nas horas más. É o cargo menos abonado de toda a pirâmide do estado, mas também o mais próximo de cada cidadão.

Discordei dele apenas num detalhe. Às páginas tantas disse que não era político, pois o que queria era apenas resolver os problemas dos seus fregueses. Este tipo de afirmação não é inédita, e é comum a quem não se sente confortável com as tricas e com as manobras nos bastidores das estruturas concelhias, distritais e nacionais dos partidos. Em vez disso prefere consumir a sua energia em melhorar a vida dos que o rodeiam. E discordei porque essa será a mais pura essência da política, e é praticada por muitas dezenas de cidadãos quase anónimos, que vivem longe do mundo mediático e que no fundo apenas se motivam com a força da consciência de pessoas boas que são. O senhor Rogério é um político e do melhor que há. Fazem falta pessoas assim noutras instâncias da hierarquia do Estado.

 

PS: Enquanto abandonava este comício, deparei-me com o rebentamento de uma conduta de água que corria abundante pela estrada. Um telefonema e um recado depois, foi desencadeada a acção necessária à resolução deste ruptura. Saí dali imaginando que o senhor Rogério já tinha interrompido a sandes de porco para acudir a mais uma ocorrência.

As autárquicas na minha terra - V

Paulo Sousa, 14.09.21

Aqui para os meus lados, como disse já aqui num comentário a este postal da Cristina, o candidato do PSD à Câmara, Jorge Vala, já mereceu a visita de Paulo Rangel e de Rui Rio. O primeiro esteve presente e discursou durante um serão numa acção de campanha transmitida em linha. Rui Rio, o ainda líder do PSD, apareceu em Porto de Mós numa sexta-feira de manhã, o que equivale a dizer à hora do mercado municipal. O luto nacional decretado pelo falecimento do ex-Presidente Sampaio, acabou por condicionar o acontecimento e impediu assim que o líder da oposição (por inerência) tivesse um banho de multidão.

Entretanto, em vários comícios realizados em várias freguesias, já foram despachados alguns suínos, confecionados no belo espeto e servidos em sandes de pão caseiro, acompanhadas por minis a gasto e vinho em box, que é uma outra invenção fora da caixa.

Com o cancelamento das festas populares por motivos sanitários, estes comícios têm sido bastante concorridos. Não há ASAE, nem GNR que se atreva a interromper um evento político seja porque motivo for, até porque o tempo da outra senhora já lá vai e há muita conversa para pôr em dia.

O acesso a estes eventos é o mais democrático possível. Quanto maior for o afastamento de cada um das coisas públicas, mais fácil é fazer o pleno. O assador de porcos, que nisto dos partidos é agnóstico, tem uma camisola de cada cor para ir trocando ao gosto do cliente. As concertinas andam sempre por ali à volta a bufar música e já devem ter o cheiro da carne assada entranhada nos foles.

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Ontem à noite decorreu o segundo debate entre os candidatos à câmara. Foi transmitido na rádio Dom Fuas e em diversas plataformas digitais. Mais uma vez deu para entender a diferença entre o vinho e o vinagre.

Como já aqui escrevi, João Salgueiro, após ter sido afastado pela lei anti-dinossauros e cumpridos os quatro anos de pousio, concorre novamente pelo PS. Lembrou-se agora que queria fazer mais qualquer coisa que se tinha esquecido, a memória também já não é o que era.

Novamente neste segundo debate foi desmentido quase em continuo. A certa altura terá entrado em perda e, sem dar por isso, acabou por dar uma preciosa contribuição para o anedotário da região. Acho até que se esmerou ao ponto de poder ajudar a colocar Porto de Mós no mapa, um compromisso do seu rival do PSD.

- Então não é que, pasme-se (pausa de quatro segundo para captar a atenção do auditório) foram construir um abrigo para cães à frente de uma fábrica de chouriças!!

Poderá haver um qualquer escanção de anedotas que não concorde, mas mesmo através da transmissão em linha, deu para ouvir as gargalhadas da plateia e isso mostra algum potencial da piada. Se as eleições do próximo dia 26 se destinassem a escolher o tipo que, pasme-se, consegue dizer mais coisas tontas sem se rir, ele merecia ganhar.

Pensamento da Semana

Paulo Sousa, 05.09.21

“Enrolou o mapa, pensativo. Era difícil saber a melhor maneira de lidar com uma pessoa como a João, que sabendo tão pouco sobre algumas coisas, sabia tanto sobre outras.

 - Ela sabe bem qual é o caminho, - afirmou a Joana, enquanto lavava uma panela.  – essa gente é como os cães. Sabem sempre o caminho e nunca se perdem. Conhecem pelo cheiro as estradas que procuram.”

Os cinco e a ciganita de Enid Blyton

 

É certo que se o pudessem fazer, e por afronta a uma minoria étnica, uma imensidão de gente quereria queimar imediatamente e em público todas as cópias das Aventuras dos Cinco.

A única salvação dessas obras, que encantaram gerações, passaria pelo desagravo dos animalistas que argumentariam que comparar uma pessoa com um cão é um garboso elogio.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

As autárquicas na minha terra - IV

Paulo Sousa, 04.09.21

A campanha eleitoral continua. Por estes lados, o PS faz-se representar nas redes sociais por apoiantes que distribuem diplomacia, moderação, elevação e respeito democrático. Os erros ortográficos, esses, já são imagem de marca.

Perante uma publicação sobre uma acção de campanha na freguesia do Juncal do candidato do PSD, lá vem a equipa do PS em mais um dos seus raides de boa educação e saber estar.

A única sondagem aponta para mais de 20% de indecisos e será nesta toada que eles os quererão convencer.

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Reforma eleitoral - uma proposta

Paulo Sousa, 04.09.21

No meio da imensa vacuidade com que somos continuamente bombardeados pelos media, terá passado quase despercebida a proposta de Reforma Eleitoral apresentada pela SEDES (Associação para o Desenvolvimento Económico e Social) e pela APDQ (Associação para uma Democracia de Qualidade).

Esta proposta prevê a criação do sistema de voto duplo em que, como o que funciona na Alemanha, cada eleitor possa escolher o partido que prefere, mas também a pessoa que no seu círculo eleitoral quer ver eleita. Desta forma pretende-se criar uma ligação efectiva entre o eleitor e o eleito e limitar as jogadas dentro de cada aparelho partidário e que leva a que cada deputado represente o seu chefe de facção dentro do partido e não quem o elegeu.

De acordo com esta proposta os círculos eleitorais (CE) mais pequenos serão agregados com outros de forma a terem no mínimo oito deputados. Na actualidade, nos CE como o que de Portalegre, que tem apenas dois deputados, a democracia é bem mais pobre que a democracia para os eleitores de Lisboa ou Porto.

A concretização desta mudança não carece de qualquer alteração à Constituição e, por isso, só depende da vontade dos partidos e da abertura que terão para aceitar esta mudança que, a realizar-se, permitirá que tenhamos uma melhor democracia, e que sem dúvida contribuirá também para a redução da abstenção.

Para quem quiser mergulhar em detalhes pode consultar a proposta integral aqui ou uma explicação com o exemplo do CE de Coimbra dada por Ribeiro e Castro, um dos seus autores. 

As autárquicas na minha terra - III

Paulo Sousa, 29.08.21

Como aqui disse há dias, no Município de Porto de Mós um autarca afastado do poder pela lei anti-dinossauros voltou a candidatar-se. Perante um cenário destes, e sem mais detalhes, são várias as perguntas que se podem colocar, como “o que é que não teve tempo de fazer em doze anos”, assim como, “olhando para os seus 68 anos de idade e estando já reformado, se não sabe fazer mais nada na vida”.

Mas aqui devem ser adicionados mais detalhes. Um dos seus filhos, David Salgueiro, após o tirocínio na Jota local, e uma passagem pela Assembleia Municipal, sempre fez saber que tinha ambições políticas muito para além disso. Candidata-se agora a Presidente de Junta na sua freguesia, cargo modesto para quem esbanja tanta avidez por cargos políticos, mas a voz corrente nos mentideros portomosense revela um plano delineado com outra abrangência.

Em caso de vitória do seu pai, João Salgueiro, o referido candidato afastado pela lei anti-dinossauros, irá contratar o seu filho como assessor, para assim o poder apresentar no futuro como alguém com experiência e dentro dos assuntos municipais. O que entenderá como sendo um atalho encaixa bem na linha do que o PS tem feito com a CRESAP, em que o governo nomeia amigos para cargos públicos a título de excepção, para seis meses depois abrir um concurso onde o escolhido tem perante os demais candidatos a vantagem da experiência adquirida. O PS a ser PS.

Estamos assim perante a ambição de criar uma dinastia de poder. Algo como se no Game of Thrones, a House of Lannister tivesse sido escolhida por aldeões previamente ameaçados e avisados do que lhe aconteceria se não fizessem o que tinham de fazer. Esta comparação deve-se à intimidação que esta malta consegue criar. Não duvido que os 51 likes, não identificados, deste meu texto e que contrastam com a reduzida reacção que mereceu numa partilha que fiz dele no Facebook, resultem exactamente do receio de dar a cara, temendo por consequências futuras.

Independentemente do resultado eleitoral que venha a verificar-se, David Salgueiro (o filho do dinossauro), ao esconder-se atrás do pai, mostra que tem medo de perder. Mas se de facto tem ambição política, como o afirma junto dos seus amigos, deveria ter sido ele o candidato à Câmara e não à Junta. Teria sem dúvida o apoio do seu pai na campanha e mesmo que perdesse isso não seria cadastro, mas currículo. É assim que funciona a democracia. É mais novo que Jorge Vala, o actual presidente, e dessa forma marcaria posição para o futuro.

Esta super-protecção parental é um fenómeno de época. Tomei consciência disso a primeira vez quando estava a terminar o meu estágio no BNU. A passagem aos quadros do Banco resultava da avaliação da gerente da agência. Ora, um colega que estava numa situação idêntica não teve luz verde para continuar. No dia seguinte os pais dele deslocaram-se à agência para perguntar à gerente em que é que ele se tinha portado mal. Embora este meu colega tivesse uns 15 ou 20 anos a menos do que terá agora David Salgueiro, toda a agência, e éramos 14, ia morrendo de vergonha alheia.

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Independentemente da opinião que se tenha dos mandatos de João Salgueiro, em que além do triste episódio que já aqui referi também “conseguiu” que 4% da população saísse do concelho, os resultados que obteve deve-os ao seu instinto político, à capacidade que teve em escolher o momento certo para dar a golpada e mudar de partido e também à facilidade que tem em garantir coisas completamente opostas de acordo com quem esteja a falar. Ao tentar levar o filho ao colo, mesmo sem dar por isso, está a menorizar a sua capacidade e isso ficar-lhe-á para sempre colado à pele.

Na psicologia este fenómeno é conhecido por pais-helicóptero e no Brasil é também descrito como os filhos parasitas. Este é mais um exemplo disso.

Os Golias irão visitar o David

Paulo Sousa, 26.08.21

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Após uma inédita e bem-sucedida sequência de jogos nas pré-eliminatórias da Champions, o Sheriff de Tiraspol conseguiu apurar-se para a fase de grupos, onde irá defrontar o Real Madrid, o Inter de Milão e o Shakhtar Donetsk.

Esta quase desconhecida equipa que oficialmente representa a Moldávia, mas que é originária do invulgar território da Transnistria (Pridnestróvia segundo os locais) será certamente notícia em cada um dos jogos que se seguem. Os confrontos entre o David e os Golias tem sempre uma camada adicional de interesse. Vou estar atento.

Este território já foi referido no DO por mim e pelo José Navarro de Andrade.

As autárquicas na minha terra - II

Paulo Sousa, 24.08.21

Logo após a divulgação das listas que cada partido apresentou para as próximas autárquicas, fiquei surpreendido com o facto de pessoas que tenho como sérias e positivas na nossa comunidade, terem aceitado dar a cara pelo partido do Eng. Sócrates, do Dr. Vara, do Dr. Pinho, do Dr. Constâncio, da Drª Hortense Martins, do Dr. Cabrita e de muitas outras figuras tóxicas para o país.

É normal que a esta minha exclamação se responda dizendo que o que conta são as pessoas e nas autárquicas os partidos não interessam para nada. Isso é uma grande treta, pois com a possibilidade que existe em apresentar listas independentes, só alinha com a marca PS quem se sente confortável entre as figuras que acima referi. A marca PCP tem um significado, a marca Chega tem um outro significado e a marca PS significa 20 anos de estagnação económica, enfraquecimento das instituições, tomada do estado por interesses privados, nepotismo, uma herança de dívidas deixada às gerações futuras e, mesmo após biliões de euros doados ao país, um em cada cinco portugueses continua na pobreza e enquanto pobres são menos livres. Cada voto no PS é um abraço político – daqueles com palmadas ruidosas nas costas – àquela malta.

O PS sabe bem que da imagem que tem e, aqui à volta, nenhum dos candidatos autárquicos faz associar a respectiva candidatura à cor rosa do partido. Em Alcobaça a cor de fundo é o azul, em Leiria é um mini-arco-íris tricolor e em Porto de Mós é o verde. Não será coincidência e não duvido que o mesmo se repita pelo país fora. Neste detalhe pretenderão desligar os podres e as vergonhas do PS destas suas candidaturas.

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Olhar o despudor, ou talvez seja apenas indiferença, com que gente que sofre na pele os danos da governação socialista dos últimos 20 anos, ajuda-nos a entender a longevidade do Estado Novo. A população está em declínio por falta de nascimentos e pela emigração de gente qualificada, mas podia ser bem pior, cá vamos andando, basta ligar a televisão e vê-se tanta desgraça, aqui ao menos é um dia de cada vez. Esta indiferença, que o filósofo José Gil descreve como a “não inscrição” dos portugueses, foi o segredo da longevidade do Estado Novo e explica porque é que pessoas que viram os seus filhos emigrarem aceitam que aqui é assim e nem é muito mau, até se aguenta, o candidato do PS ontem até pagou aqui uma rodada de minis na associação, e no dia em que o meu filho, que é engenheiro na Alemanha, foi promovido lá na fábrica, ele mandou tapar um buraco aqui à frente da porta. Eu já nem me lembrava disso, mas ele ontem passou cá a dizer para eu não me esquecer que se o buraco está tapado devo-o a ele. Isso, e o emprego à minha nora no centro de dia. E tem razão.

Isto acontece no país em que uma empresa para pagar um salário líquido de 2.000€ tem um custo de quase 4.000€ e é esse peso que explica que os rendimentos dos portugueses sejam tão baixos. Será revelador observar que o SMN na Irlanda é de 1.800€. É óbvio que sem uma política fiscal muito menos pesada continuaremos a empurrar mais portugueses em idade activa para fora do país. Sem noção da realidade ou apenas apostado em nos enganar, António Costa gabou-se recentemente no Expresso de termos hoje um nível de emprego superior ao anterior à crise, fingindo que não foi o estado que aumentou a contratação de pessoal em 17% no segundo trimestre, o que levou a que o número de funcionários públicos seja hoje o mais alto desde 2005.

Regressando à escala autárquica, o PS, o partido do Estado e dos funcionários públicos, tenta ainda explorar um outro sentimento que trava a saída do país deste marasmo, e que é o não querer estar fora do grupo. Nos meios pequenos isto ainda é mais notório. Quem se atreve a observar de fora e a dizer que o rei vai nu é sempre alguém que só sabe é dizer mal, que nunca fez nada, e que se ajeita a ser alvo de provocações nas redes sociais, que logo depois são apagadas, para que no dia seguinte lá regressam de novo, por interposta pessoa de família, mas desta vez sai também a acusação à vitima do destrate, de ser a própria quem faz comentários e os apaga de seguida. O mais assustador nestes filmes são mesmo os erros ortográficos, mas isso será culpa da falta de exigência no ensino especial.

No dia de mais um aniversário

Paulo Sousa, 22.08.21

Escrevo da minha varanda. O sol incide no lado oposto da casa e isso deixa-me à sombra, a observar o verde vergado ao calor carrasco. As cigarras e os cucos gritam à desgarrada num babélico diálogo. A aragem vai e vem. Os choupos do vizinho no lado nascente aproveitam todos os sopros desta para se espreguiçar.

Há quem escreva por necessidade. Não é o meu caso. Escrevo apenas para desafiar o esquecimento que um dia nos irá vencer. A todos. As verdades universais nunca deixarão de o ser, mas as pequenas verdades, as nossas, essas têm os dias contados. Todas. Quantas já desapareceram e, por não terem sido escritas, é como se nunca tivessem existido?

Por já sabermos qual será o desfecho, desafiar o esquecimento será sempre uma batalha desigual, mas que ainda assim tem de ser travada, olhos nos olhos, sem ter para onde retirar nem nunca aceitar a rendição. Talvez viver seja apenas isso, combater o inevitável. Ou pelo menos combater o inevitável seja uma parte do que é viver.

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As autárquicas na minha terra - I

Paulo Sousa, 14.08.21

Por todo o nosso Portugal decorre a campanha autárquica. Os media cingem a sua cobertura aos grandes centros e aos cartazes cómicos mas, enquanto isso, na esmagadora maioria dos trezentos e poucos municípios portugueses vivem-se as normais dinâmicas de um debate sobre o que foi feito, o que falta fazer, sobre o passado e o futuro.

Os tempos das campanhas em que se distribuíam esferográficas, beijinhos e aventais, já lá vão. Agora, e também graças à pandemia, a acção desenrola-se com especial relevo nas redes sociais, onde não faltam os perfis falsos, as ameaças e calunias que se apagam alguns minutos depois e o destrate de quem se esquece que fora daquela bolha existe uma coisa chamada realidade. Em paralelo ao que é acessível no domínio público, entre correligionários, troca-se uma imensidão de mensagens pessoais e dão-se recados por interpostas pessoas. Tudo espremido e bem trabalhado, permitiria recolher matéria para muitas novelas reveladoras da natureza humana, na sua grandeza e nas suas misérias.

Como é normal, o concelho de Porto de Mós não está fora desta realidade. No cenário actual, Jorge Vala, o presidente em funções, recandidata-se pelo PSD para um segundo mandato, e é desafiado por João Salgueiro, que se apresenta pelo PS.

Jorge Vala, com 59 anos de idade, começou a carreira de bancário a fazer recolha de depósitos numa instituição financeira e ao longo dos anos foi sendo promovido, mudou de entidade empregadora e depois de gerente chegou a director regional, onde teve muitas dezenas de pessoas à sua responsabilidade. Eu, e aqui fica a minha declaração de interesses, sou apenas mais uma dessas dezenas de pessoas que teve a sorte de trabalhar com o Jorge Vala. Inaugurámos o balcão de um banco e, como ele, entendi que de facto existem pessoas que lideram pela positiva, que com toda a naturalidade aproximam quem os rodeia e, juntos, acabam por conseguir mais do que alguma vez seria possível com a simples soma das capacidades individuais. Talvez pudesse aqui ainda descrever o envolvimento que ele teve na vida comunitária. A lista seria muito longa, mas ainda assim, e certamente deixando algo para trás, sei que conduziu ambulâncias nos bombeiros voluntários, fundou o Clube Automóvel de Porto de Mós onde liderou a organização de inúmeros eventos desportivos, colaborou em diferentes órgãos sociais com a Associação Desportiva Portomosense, esteve ligado à Cincup, cooperativa que gere o quinzenário local e a rádio Dom Fuas, e nesta lista mais haveria para dizer, mas julgo que para traçar o seu perfil a quem não o conheça, será suficiente.

O mandato que começou em Outubro de 2017 foi naturalmente marcado e condicionado pela pandemia. Quando as dúvidas eram apenas o que tínhamos, Jorge Vala, recorrendo às redes sociais fez comunicados diários à população apelando à calma e ao cumprimento das recomendações sanitárias; quando as máscaras eram escassas fez chegar cinco a cada munícipe; todos os comerciantes que o solicitaram receberam uma viseira; foi criada uma linha de apoio que funcionou 24/24 horas para esclarecer dúvidas e que muitas vezes se tornou em linha de apoio psicológico. Sei de quem esteve de serviço nessa linha e passou horas a falar, noite fora, com pessoas assustadas e ansiosas.

Ainda antes da pandemia, foram várias as vezes que alguns programas televisivos de domingo à tarde foram feitos a partir de Porto de Mós, o que não sendo algo que traga benefício directo à população contribuirá para a sua auto-estima. Nesses programas é normal que várias pessoas sejam entrevistadas mostrando produtos regionais, artesanato, que sejam visitadas as atrações turísticas que aqui são essencialmente históricas e naturais.

Um dos compromissos assumidos por Jorge Vala na sua campanha era colocar Porto de Mós no mapa, referindo-se naturalmente ao mapa cerebral que cada português tem do seu país. A colocação de uma foto do castelo onde Nuno Alvares Pereira pernoitou - fez ontem 636 anos - antes da Batalha de Aljubarrota, em diversos outdoors ao longo de diversas rodovias do país, fará parte desse mesmo objectivo.

Posso ainda acrescentar que o polo tecnológico em recursos minerais do centro será sediado em Porto de Mós, fazendo este parte do que entendi ser uma aproximação das empresas ao mundo académico.

Outras obras e melhoramentos foram feitos, mas que aqui não irei descrever em detalhe por não ser o fito deste meu postal.

O candidato rival, João Salgueiro, com 68 anos de idade, foi vereador com o pelouro das obras durante vários mandatos pelo PSD. Em 2005 mudou de cor partidária e apresentou-se como candidato pelo PS contra o seu até então presidente José Ferreira. Venceu as eleições e continuou assim a sua ligação ao poder autárquico por mais três mandatos. A lei anti-dinossauros impediu que se recandidatasse, e desde então Jorge Vala é o presidente.

Desde que conheço João Salgueiro que ele está ligado ao pelouro das obras da Câmara Municipal e mais tarde como presidente. É do conhecimento público que é aficionado tauromáquico e que está ligado à competição/criação equestre.

No mandato de 2005 a 2009 fui Secretário da Junta de Freguesia do Juncal, eleito pelo PSD estando a Câmara então, e desde a primeira vez, nas mãos do PS. Quando a Câmara e Junta são eleitas por diferentes partidos, é normal ocorrerem pequenas tricas e fricções, mas que acabam por ter de ser ultrapassadas. No entanto, e cada um terá um limite de flexibilidade diferente, a nossa convivência nunca foi fácil, e passo a explicar porquê.

Um dos compromissos eleitorais de João Salgueiro era a construção de uma Casa Velório no Juncal. Logo que tomou posse, quis avançar com o processo, mas tudo começou da pior forma. O terreno escolhido foi o de um cemitério atrás da Igreja Paroquial onde não eram inumados corpos há cerca de cem anos. Desde a primeira hora que não aceitei esse argumento, até porque João Salgueiro acabou por nunca me esclarecer qual era o seu entendimento do prazo de validade da expressão “Descanse em Paz”.

O projecto foi sendo delineado e poucos meses depois as obras avançaram. Em pouco tempo o descanso, que deveria ser eterno, de largas dezenas antepassados juncalenses foi interrompido pelas unhas desta retroescavadora.

Várias figuras com responsabilidades públicas não se comportaram à altura do que aquele momento exigia. O Pároco, o Presidente da Junta, o Presidente da Assembleia de Freguesia, todos foram condicionados pela pressão de querer ter uma Casa Velório em tempo recorde. Isolado pelo encolhimento serôdio de quem diz querer defender uma comunidade, assim como, pela anémica indiferença tuga às coisas públicas, acabei por ter de pedir ajuda a IPA – Instituto Português de Arqueologia que quando embargou a obra já o cemitério estava neste estado.

João Salgueiro reagiu a isto como se uma ofensa pessoal lhe tivesse sido feita. Recomendei-lhe, até numa Assembleia Municipal, que a questão legal deveria ser tratada entre o Município e o IPA, mas a profunda falta de respeito e de total insensibilidade era para com a população.

A entrada do IPA nesta história infeliz, obrigou a uma alteração do projecto. O local das novas sapatas deveria ser aberto sob supervisão dos seus técnicos e as ossadas recolhidas deveriam ser transladas para um coval específico aberto para o feito no cemitério actual, onde já estavam as duas urnas de chumbo retiradas anteriormente.

Como um azar nunca vem só, o novo projecto demorou dezanove semanas a ficar pronto. Durante este tempo, o cemitério ficou tão toscamente vedado, que ainda acabou por ser vandalizado.

Numa história assim, tão abaixo de triste e lamentável, fez pandã um discurso de inauguração do edifício, dito de carótida inflamada, num tom persecutório e de dedo em riste a apontar a mim. João Salgueiro personalizou na minha pessoa a defesa dos restos mortais dos meus antepassados, o que, olhando para o que nós os dois ali representavamos, me poderia deixar orgulhoso, mas não pude deixar de ficar triste por não ter conseguido fazer mais.

Já passaram uns anos, mas há dias, e num comentário que fiz no Facebook a uma lista do PS de uma das freguesias do concelho, lá regressou João Salgueiro, a tentar acertar contas com o passado e a recomendar-me vergonha. Antes de lhe conseguir responder, apagou o comentário e, apenas para quem não o conhece, confirmou a sua incapacidade em lidar com o perguntas incómodas e contraditório.

Para já fico por aqui. Provavelmente outros assuntos dentro desta temática merecerão aqui regressar.