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Delito de Opinião

Para inglês ver

Paulo Sousa, 16.04.21

Ontem ouvi um relato de um telefonema feito por um responsável de uma escola pública, dirigido ao encarregado de educação de um aluno com fraco aproveitamento escolar. Ao referido encarregado de educação foi proposto que dada a situação – entenda-se o perfil do aluno – se ele aceitava que o seu educando participasse nos exames nacionais como sendo aluno externo, evitando assim de prejudicar o ranking da escola.

Lamentavelmente o receptor da chamada não respondeu que aceitaria desde que a proposta fosse feita por escrito, e simplesmente declinou a ideia.

Umas horas mais tarde trouxe esse episódio à conversa com uma pessoa amiga reformada do ensino, e a reacção foi quase como de um encolher de ombros. Sim, essas coisas acontecem.

Lembrei-me de imediato da repetida ladainha de alguns professores que explicam os maus comportamentos de alguns alunos com as deficiências educacionais que estes trazem de casa. Será que podemos perguntar qual a referência moral que uma escola dá aos seus alunos, quando faz uma proposta destas?

Tentando ignorar a vertente ética de tudo isto, podemos dizer que o nosso atraso crónico resulta também desta menorização e desprezo da realidade. Prefere-se de longe as aparências e por elas vale sempre a pena maltratar umas estatísticas e arrendondar umas esquinas.

Depois de tentar arredar tudo isto do meu espírito, soube que o nosso PM quer mudar o modelo de contagem de casos COVID, para poupar o turismo no Algarve.

A atitude retratada pela expressão que dá o título a este postal, e que ganhou forma durante o domínio inglês do nosso país, no início do sec. XIX, faz realmente parte da nossa forma de estar na vida.

A leviandade com que enganamos os nossos compatriotas faz parecer que estamos mesmo convictos de que não nos estamos a enganar a nós próprios.

Música, mas da boa

Paulo Sousa, 12.04.21
Diz-me porquê diz-me
Nós não sabemos nada
Mas resistimos por ti
Até que seja de madrugada
Até que seja de madrugada
 
(Refrão)
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
 
Quem prend´água que corre
E a ribeira enchendo
Saberá que nunca morre
O sonho de a ver correndo
O sonho de a ver correndo
 
(Refrão)
 
Liberdade não morre
Nem silêncio pesado
De um povo a entristecer
Por te saber tão magoado
Por te saber tão magoado
 
(Refrão)
 
Ser livre não tem preço
Nem se conhecem margens
A vida é reconheço
A esperança não e uma miragem
A esperança não e uma miragem
______________
Letra Luísa Lopes
Musica de Jorge Andrade Pinheiro
 
PS: Ando à procura das tablaturas para obrigar o meu mais velho a tocar isto na guitarra.
Seria porreiro pá, se quem as tiver, puder partilhar.

Os recados não verbais de um juiz

Paulo Sousa, 09.04.21

No dia 21 de Novembro de 2014 José Sócrates foi detido no aeroporto de Lisboa à chegada de Paris.

Desde 2006, Carlos Alexandre era o único juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal, e em Setembro de 2015 passou a ter a companhia do juiz Ivo Rosa.

Pouco depois, o sorteio do juiz que iria decidir se o caso Marquês avançava ou não para julgamento, foi pela primeira vez notícia. Nunca, que me lembre, o sorteio da atribuição de um processo a um ou outro juiz tinha sido noticiado, mas isso aconteceu também nesta sequência de eventos. Ivo Rosa foi o escolhido à quarta repetição do sorteio.

Para quem acredita nas instituições, as eventuais dúvidas levantadas por esta notícia, não eram mais que uma rebuscada tentativa de abalar uma eventual absolvição. Por outro lado, quem conhece o sistema por dentro mostra acreditar que a escolha do juiz que avalia o processo nesta fase pode ser determinante.

Nas conversas de café de hoje, dos que têm esplanada é claro, a recente decisão de Ivo Rosa não é mais do que o sistema a defender os seus. Estranho é que não haja rede social que não lembre que o vencedor do dia foi o André anti-sistema Ventura. Eu também acho que ele não vai perder uma oportunidade de fazer o boneco.

Para os que lamentam que as instituições do país, e do regime vigente, não sejam mais sólidas, Ivo Rosa envia a mensagem abaixo.

ivo rosa.png

Primeiro de Abril

Paulo Sousa, 01.04.21

Não há primeiro de abril em que eu não me lembre deste senhor.

Deixo aqui uma sugestão dirigida ao sempre seu fiel clube de fãs “José Sócrates Sempre”. E que tal o lançamento das bases para o regresso às luzes da ribalta do seu adorado ídolo?

Na senda da credibilidade de outros movimentos que têm surgido nestes tempos de pandemia, sugiro um nome vencedor. Mentirosos pela verdade. Tinha tudo para vencer.

A censura do censurável

Paulo Sousa, 28.03.21

A moda de reescrever a história não é nova, mas tem tido recentemente novos episódios. Os registos históricos podem por vezes ser, e são, incómodos por nos mostrarem a forma como no passado decidimos, como nos relacionamos, o que dissemos, e no geral o que fizemos.

A excelência dos textos de Mark Twain, a forma como denuncia a desumanidade do tratamento a que escravos africanos e índios eram sujeitos, nada pesa ao lado do uso da palavra “nigger.

Será que, na actualidade, entenderíamos a dimensão dos abusos cometidos se o autor tivesse evitado as palavras que à época eram banais? Será crime, relatar ou romancear um crime?

O britânico The Guardian condena a censura a que as obras de Mark Twain estão a ser sujeitas, mas ainda assim, refere-se à palavra “nigger” como “n-word”.

Os Maias de Eça de Queirós já foram também usados como rampa para uma palerma que se está a lançar na promissora carreira de denunciadora de serviço. Já todos ouvimos falar nisso, e a jogada correu-lhe tão bem que não precisa do tráfego adicional que um link meu lhe poderia proporcionar.

Terminei há pouco tempo a leitura dos Avieiros de Alves Redol, e de entre outras impressões, registo a importância da imortalidade literária garantida por este livro. Além das terríveis condições em que estes ciganos do rio Tejo tentavam sobreviver, não faltam no livro referências à violência doméstica.

Numa conversa entre iguais, José da Vala, o marido da Olinda Carramilo é desafiado:

- “Aposto que nunca lhe deste um murro...

Hesitou o da Vala:

- Quantas vezes!... Até mia. Isto de mulheres é pão na canhota e porrada na outra, pois então! Lá no barco falta tudo menos isso.

- Ena, que grande tainha com barbas!”

Quando José da Vala chega de uma vacada, ressacado, fora de horas e com a camisa rasgada, Olinda confronta-o com a situação:

- “Como vens Tóino!

- Como venho? Essa agora! Que falas são essas?!... O homem sou eu ouviste?

Ela saltou para a praia a querer ampará-lo, agarrou-lhe o braço, mas ele sacudiu-a; olhou depois a mancha cerrada de vultos e correu para a mulher, numa corrida curta meio tombada, que ela segurou com o corpo.

Tóino da Vala recuou um passo para lhe atirar uma punhada à cara. Ela só baixou a cabeça, lembrando-se do que a sogra lhe dissera; esperou pelo resto, outra e mais outra, estava ali para apanhar o que ele quisesse, só punha a condição de não chorar, embora o coração lhe sangrasse de vergonha.

Interveio o João Marujo para afastá-lo, mas ela sacudiu-o.

- Vocês agora viram todos o homem que é ele – disse Olinda com raiva – Deixa lá o homem bater à vontade na mulher que lhe pertence.”

Existem outras passagens onde o autor mostra quão cruel era o mundo dos avieiros, que construiam os seus barracos com tábuas apanhadas na corrente e que apenas podiam ocupar o solo arenoso, que o rio Tejo, no intervalo entre as cheias, lhes emprestava.

Da mesma forma que ninguém consegue encontrar nenhum gáudio pela violência da escravatura em Mark Twain, também não o pode fazer com a violência conjugal nesta obra de Alves Redol.

Ambos produziram literatura a partir da realidade que os rodeava, e graças ao que escreveram é-nos hoje possível saber como se viveu no passado e até imaginar o que infelizmente continua a acontecer.

A censura de obras, ou parte delas, no que respeita a passagens do que hoje consideramos inaceitável, é também ela inaceitável. Corrigir por omissão impede, mais do que qualquer outra coisa, de que nos agoniemos com práticas com que nos devemos agoniar. Omiti-las será a melhor forma de permitir que perdurarem.

A clareza habitual

Paulo Sousa, 24.03.21

Com a Páscoa à porta, o governo antecipou-se e preparou um conjunto de regras claras para que tudo seja mais fácil de controlar.

 

A circulação entre concelhos continuará interdita. “A Páscoa não é um momento de deslocações e de encontro, mas, pelo contrário, mais um momento de recolhimento”, clarificou António Costa.

- Então é possível ir ao estrangeiro?

- Sim, ao estrangeiro é possível ir! Claro, é a Páscoa!

- Mas como é possível ir ao estrangeiro sem sair do concelho?

- Talvez isso seja só para quem viva nos concelhos junto à fronteira. Pode-se sair, mas só em deslocação ao estrangeiro. Talvez seja isso que o PM queria dizer.

- Mas a fronteira com Espanha estará encerrada até dia 5 de Abril.

- Sim, mas Espanha é a excepção à regra que permite viajar até ao estrangeiro.

- Ah ok! Mas então como é que podemos ir ao estrangeiro se não podemos ir a Espanha?

- Eh pá! A proibição de deslocações para fora do território continental foi levantada, seja por via rodoviária, ferroviária, aérea, fluvial ou marítima.

- Ah, ok! Então se é permitido deslocar-me por via fluvial posso ir até onde?

- A Espanha já sabemos que não é permitido ir.

- E então de avião posso ir ao estrangeiro, desde que não seja a Espanha?

- Claro! Até está bem visto.

- Mas se eu não posso circular entre concelhos como é que posso apanhar um avião?

- Então para ir do Palácio de São Bento até ao aeroporto, é lá preciso por acaso sair do concelho, ou quê? Tu com as tuas perguntas gostas é de complicar, pá!

O país numa imagem

Paulo Sousa, 16.03.21

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O que no olhar de um controleiro poderia ser um acto de desobediência civil, será apenas um mero “quero lá saber”.

O acto de desobediência civil encerra uma vertente de desafio à autoridade, enquanto que num “quero lá saber” existe apenas um misto de apatia e de indiferença. O “quero lá saber” revela um desencontro de sintonia entre o emissor e o receptor, neste caso a autoridade e o cidadão. É como se falassem línguas diferentes, pelo que não é desobediência mas apenas desacerto.

Como o sol finalmente abriu, como a pedra está morna, e estando morna ainda será mais agradável do que o ripado do banco, então o “quero lá saber” é a melhor forma de responder ao impulso do repouso, enquanto se descansam os anos e se observa quem passa. Quero lá saber!

Para memória futura, continuação

Paulo Sousa, 15.03.21

Jovem do futuro,

Já te falei sobre termos sido durante umas semanas o pior sítio do mundo. Em cada dois minutos um português morria com covid. Esta tragédia fez do nosso país notícia em todo o mundo. Ao contrário do que ocorreu nas primeiras semanas da pandemia, desta vez a solidariedade europeia manifestou-se.

A força aérea alemã, a Luftwaffe que no passado espalhou o terror, desta vez enviou para Portugal médicos, enfermeiros e ventiladores. Traziam também uma mensagem do governo alemão: “É para isto que servem os amigos”. Os nossos governantes, que estavam preocupados apenas com os seus jogos de poder imediatistas, não conseguiram esconder o embaraço. A chegada de ajuda internacional era a confirmação do que já sabíamos, de que estávamos em mãos incapazes e arrogantes. Responderam que aceitavam a ajuda e que era apenas simbólica, e sem entendermos porquê não os deixaram entrar nos hospitais públicos. Quem sofria ao ver tantos de nós a tombar, sentiu vergonha pela soberba dos indigentes e aprendeu em silêncio a dizer Vielen Danke Deutschland.

Os nossos governantes que estavam apenas serodiamente preparados para passear o rótulo das tutelas que lhes distribuíram, e que nunca pensaram que alguma vez teriam de tomar decisões, andaram perdidos. Também já te falei disso. Desataram a levantar proibições e tomaram-lhe o gosto. Entusiasmaram-se com o super-poder que o vírus lhes trouxe e, sem explicação nem propósito, proibiram a venda de livros. As bibliotecas e as livrarias foram forçadas a fechar as portas.

Quem estava infectado perdeu o olfacto mas mesmo quem não estava deixou de poder sentir o aroma dos livros das livrarias. Eu gosto de cheirar os livros, e quem gosta de livros sabe bem do que estou a falar.

Desde há uns anos os livros começaram a ser vendidos entre as batatas e as garrafas de vinho nos hipermercados. Alguns eruditos ficaram incomodados com esta banalização, mas eu fiquei encantado por achar que era ali, entre os bens de primeira necessidade que eles deviam estar. Nunca antes os livros tinham estado tão perto de tanta gente.

Com estas interdições, levantadas por aparente espasmo muscular, o acesso aos livros foi vedado por uma fita plástica colorida. Quando, nos hipermercados entre as frutas e as bolachas, vimos fitas plásticas a interditar os livros, entendemos que estávamos perante a cena de um crime. Não de um crime em investigação, mas de um crime em curso. E foi assim, de olhos embaciados, de ombros descaídos, com os braços pendurados e sem saber onde pôr as mãos, que ficamos à volta das fitas plásticas que impediam o acesso aos livros. Ficamos só a olhar para eles. Sem sequer os poder cheirar.

Para assinalar as diarreias mentais dos nossos governantes, alguns supermercados retiraram os livros das prateleiras e preencheram-nas com rolos de papel higiénico.

O confinamento forçado, além de impedir a venda de livros, impediu a circulação de pessoas para fora do respectivo concelho de residência. Os cafés e os restaurantes foram também proibidos de nos alegrar os dias. Alguns barbeiros e gabinetes de estética passaram a trabalhar na clandestinidade. Em nome da saúde pública ficaram privados dos seus rendimentos. Este foi um sacrifício pelo qual nem os profissionais de saúde tiveram de passar.

O clamor de fundo ainda é pouco mais que inaudível, mas sem poder trabalhar, alguns lembrarão um adágio dos tempos difíceis do Estado Novo, em que Salazar terá dito que tinha livrado o país da guerra, mas não o livraria da fome. Os socialistas no poder não evitaram que nesta pandemia estivéssemos entre os piores e, não fosse a União Europeia, não nos livrariam da fome. Para muitos, nem os milhões despejados pela União Europeia impediram a privação alimentar.

Noutros países o estado apoiou as actividades que mais sofreram com o confinamento, como forma de os compensar do esforço feito pela segurança de todos. Cá não existe dinheiro para isso. Preferiu-se apostar tudo na salvação da TAP que está parada há meses. Se for cumprido o actual plano, o estado gastará com a TAP mais do dobro do que a NASA gastou para colocar um robô em Marte, mas como com eles as contas derrapam sempre, daqui a uns anos veremos a que planeta teríamos conseguido chegar com dinheiro ali consumido. Todos os regimes têm o seu Convento de Mafra.

Ao mesmo tempo, começaram a chegar as vacinas. O ritmo a que chegavam era muito inferior às nossas expectativas e necessidades. Os mais vulneráveis, os velhos e os doentes, foram os primeiros a serem vacinados. Mas desde o início que as filas começaram a ser furadas por penetras armados em chico-espertos. No teu tempo ainda se usa a expressão chico-esperto? Mesmo que já não se use, de certeza que se me estiveres a ler em Portugal, existe um perto de ti. O chico-esperto é egoísta, despreza o colectivo e, dê por onde der, acaba sempre por arranjar uma maneira de passar à frente dos outros e de se safar. Quando exposto e desmascarado arranja uma interpretação criativa das regras e, se tal for necessário, será suficientemente criativa para conseguir exactamente o contrário daquilo que se pretendia quando estas foram estabelecidas. O chico-esperto é um perito em sobrevivência. Mesmo que tenha de enganar e sacrificar uma aldeia ou um bairro cheio de gente decente, ou até uma geração inteira, ele irá safar-se. É uma habilidade socialmente perversa.

Portugal comporta-se na UE como um chico-esperto, mas no nosso caso também se pode designar por toino-habilidoso. Somos governados por um toino-habilidoso que é uma versão pós-moderna de um chico-esperto. Assim, alguns chico-espertos, protegidos pelo toino-habilidoso, furaram as filas dos prioritários e receberam a tão esperada picadela nos seus espertos e habilidosos tríceps, muito antes da vez que lhes competia.

Quando esses abusos começaram a ser conhecidos, justificaram-se chico-espertamente dizendo que como o frasco da vacina continha cinco doses, havia por vezes sobras e para não serem desperdiçadas acabaram por as desviar para si, ou para os seus amigos, ou até para os donos das pastelarias que frequentavam. E assim, com a maior desfaçatez, tentaram convencer o país que as vacinas, que sabíamos serem tão raras, afinal sobravam abundantemente todos os dias.

Com o passar das semanas, e como resultado natural do confinamento, os números da pandemia lá foram baixando. O ritmo de novas infecções foi seguido, com algumas semanas de atraso, pelos números dos internamentos e dos óbitos. Quando as novas infecções sobem, já sabemos que poucos dias mais tarde os hospitais entrarão em ruptura e, ainda antes dos hospitais começarem a vagar, conseguimos saber que o ritmo de infecções já baixou.

As escolas vão reabrir, pouco a pouco, começando pelos mais novos. Vamos ver se o natural aumento de casos, que se seguirá, será comportável pela capacidade hospitalar.

Depois de um inverno muito rigoroso e inesquecivelmente difícil, todos ansiamos que o renascimento que a Primavera traz à natureza seja alargado à situação que estamos a atravessar.

Já entendemos que isto é uma corrida de fundo, que cada dia é como mais um passo dado, e por isso estamos cada vez mais perto do fim de tudo isto. Não sabemos é quanto tempo ainda falta, nem em que estado é que lá chegaremos, nem como ficará o mundo depois deste tormento.

Um serão na província

Paulo Sousa, 13.03.21

Este texto foi ditado pela minha filha que tem sete anos e está farta de não poder ir à escola. Felizmente segunda-feira isso vai mudar, e já preparou a mochila. Eu dei uns retoques ao ditado.

 

Esta noite, eu e o meu pai, estivemos na nossa varanda a conversar, enquanto ele fumava cachimbo e bebia bourbon. Mostrou-me onde é que estavam as Três Marias, da cintura de Orion.

Ele levou uma vela para a varanda, onde acendeu um palito e com o esse palito a arder, acendeu o cachimbo. Mandou umas baforadas mal dadas, porque ele não sabe fumar em condições.

Eu disse que parecia um serão de antigamente, porque estávamos à luz da vela, e o cachimbo é uma coisa fora de moda. O meu pai disse-me para nunca acreditar que os antigos eram estúpidos. Eles fumavam e nós sabemos que fumar faz mal, mas há coisas boas que fazem mal.

- Tipo o quê? - perguntei eu.
- Tipo fumar- respondeu ele.
- Hahahaha - ri-me eu.
- Hahahaha - riu-se também ele.

Depois de rir, bebeu mais uma golada.

Ele contou-me uma história de um senhor que era muito rico e tinha muitas casas mas só conseguia estar numa casa de cada vez. Por isso tinha sempre casas vazias. Para tomar conta do jardim de uma das casa, contratou um jardineiro que além de receber o ordenado para tomar conta dela, usava a casa e a piscina todos os dias do ano. Enquanto isso, o patrão estava a trabalhar.

Quando estávamos nesta parte da conversa, uma ovelha pariu e o Paulo teve de interromper o texto para ir ajudá-la.

Eu também fui e por isso este texto vai ficar por aqui.

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Afinal, depois de regressar da rua e de eu ir buscar amêndoas à cozinha, regressamos ao texto. 

Não conseguimos ver se é macho ou fêmea, mas era fofinha. Quer dizer, o meu pai disse que ela estava ainda um bocado peganhenta. A mãe ovelha, nunca se tinha visto noutra coisa assim, porque é nova. Tem pouco mais de um ano e nunca tinha parido, mas portou-se bem. Lambeu a cria toda. O meu pai levou a ovelhinha para a barraca e a mãe dela veio logo atrás. O chão levou mais uma camada de palha para ficarem confortáveis. Eu e a minha mãe estivemos do lado de fora da rede a fazer comentários e a dar indicações.

Temos uma sacana de uma galinha castanha que dorme no comedouro das ovelhas. Com o sobressalto, estava danada com tanto barulho.

Há poucos dias atrás só tínhamos três ovelhas e agora já temos cinco, porque esta já foi a segunda cria que aqui nasceu este ano.

Liberdade sobre rodas

Paulo Sousa, 06.03.21

O auto-caravanismo como modo de viajar livremente e fazer turismo em Portugal está definitivamente ameaçado.

O novo Código da Estrada, que entrou em vigor no início de 2021, proíbe no seu artigo 50.º-A a pernoita no interior de uma auto-caravana. Continua a ser permitido pernoitar dentro de um carro de passageiros, dentro de um pesado de mercadorias, sobre um veículo de tracção animal e até no chão em cima de uns cartões, mas passou a ser proibido fazê-lo dentro de um veiculo equipado para dormir no seu interior.

Na literatura juvenil dos meus tempos, lembro-me do livro “Os cinco e o circo”. É o quinto livro da colecção, que guardo com gosto, e que ando a ler, um capítulo por serão, à minha filha. Nessa história, que no dia que os donos do discurso correcto dela tiverem conhecimento não hesitarão em inclui-la no novo index, os quatro jovens e o seu cão passeiam em duas roulotes de tracção animal e cruzam-se com uma companhia de circo. No longínquo tempo em que a acção decorre, imagino que seja algures nos anos 50, a ausência de supermercados faz com que eles vão de quinta em quinta comprar comida. Mesmo sendo menores de idade, as personagens conduzem os animais que puxam pelas roulotes, decidem onde dormir e comer, e passam vários dias sem dar notícias à família. Nos dias de hoje, apenas pais irresponsáveis e potencialmente sinalizados pela Segurança Social permitiriam tal coisa.

Bem sabemos que o mundo mudou. Apenas o título do nono livro da colecção, “Os cinco e a ciganita”, tinha hoje potencial para abrir um telejornal. Durante a acção, o David – Dick no original – anda aos murros com o sujo e desgrenhado João, e só mais tarde entende que o João é afinal uma Maria João. Fica embaraçado porque não se deve bater em raparigas. O seu maior incómodo não resulta do facto de se tratar de uma cigana, mas sim o facto de ser uma rapariga. Enid Blyton, a autora, que hoje seria igualmente proscrita, consegue assim nesta personagem misturar vários ingredientes que agora exigem a maior delicadeza e pudor. Esse arrojo, certamente involuntário, ainda é mais central pela forma como trata a personagem principal que é a Zé, a Maria José - Georgina no original. Quem leu os livros recorda-se bem de que se trata de uma rapariga que, por se recusar à fragilidade associada ao sexo feminino, tenta passar-se por rapaz.

Nesse tempo longínquo uma pessoa com mau feitio e teimosa não era mais que uma pessoa com mau feitio e com forte personalidade. Saltando para actualidade, essa mesma pessoa foi reduzida a uma enciclopédia de psicologia dentro de umas peças de roupa.

Este é nosso tempo. É o tempo em que um governo gasta dinheiro suficiente para desenvolver um projecto espacial, numa empresa como a TAP, com o argumento de que é esta empresa que nos garante a entrada de turistas no país, e no mesmo dia defende a construção de um novo aeroporto porque o actual não é (não era) suficiente para a forte procura das companhias aéreas estrangeiras. Diz ainda que o turismo é tão importante para a nossa economia que é necessário proibir os auto-caravanistas de pernoitarem dentro das suas auto-caravanas, salvo em locais permitidos e formatados para tal efeito.

As queixas deste artigo 50.º-A tem sido muitas. Cristina Mendes da Silva, em nome do governo e do PS concorda que o auto-caravanismo é muito importante para o nosso país mas a lei que temos é esta. Com a honestidade intelectual a que estamos habituados, mistura o combate à pandemia com a nova lei, como se o auto-caravanismo não fosse, até em termos epidemiológicos, uma forma segura de passear.

Entende-se que a hotelaria não aprecie o turismo itinerante e que possa aplaudir esta nova lei, mas será que após o confinamento, o que restar da nossa excelente restauração, nomeadamente fora dos grandes centros turísticos, não lamentará que estas casas sobre rodas, nacionais ou estrangeiras, possam escolher ficar ou dirigir-se apenas para Espanha e para lá deixarem o IVA e ISP dos seus consumos?

Preocupados em salvar o turismo e em combater a pandemia, só no primeiro mês desta nova lei, as autoridades “detectaram” 60 infracções e arrecadaram uns bem pedagógicos 3.540€.

Para quem conhece o espírito de liberdade associado ao turismo itinerante, tudo isto não é mais que (mais) um atentado à liberdade.

Um dia na vida

Paulo Sousa, 04.03.21

Quando estamos sob pressão, quando as coisas não correm bem e mais uma vez tomamos consciência de quão ilusório é o nosso domínio sobre as variáveis que determinam o nosso dia-a-dia, importa conseguir continuar a maravilhar-se com a magia do mundo.

Talvez devido ao momento que atravesso, foi-me especialmente agradável ver o filme editado pelo YouTube Life in a day 2020, totalmente gravado no dia 20 de Junho pelos seus utilizadores por todo o mundo, partilhando assim connosco um pouco da sua vida.

Recomendo a sua visualização.

Uma viagem ao outro lado

Paulo Sousa, 26.02.21

Hoje fiz uma viagem ao mundo das substâncias proibidas. Andava realmente necessitado de uma trip à antiga.

Para não me comprometer nem ao dealer a quem recorri, usei palavras codificadas.

- Orientas aí uma castanha? Ia bem com um cilindro mágico...

O tipo, com um ar mal estimado, olhou-me de cima a baixo, e com maus modos grunhiu:

- Sabes bem que não há material!

- Como é que não há? Tens o tapete no último degrau, meu! Eu conheço o sinal.

- Qual sinal, crxxxxlo? - Quase que ladrou. Anda tudo nervoso.

- Eu conheço o sinal. Sou amigo do gajo que espetou um prego no pé. - Tinham-me garantido que dizer isto era suficiente. Pelo encarquilhar e insuflar da máscara deu para ver que ele estava quase a hiperventilar.

- Mostra o papel!

Meio a tremer e já com grossas gotas de transpiração a correr pela testa mostrei-lhe a nota. Fui novamente avaliado com desprezo.

- Então querias uma castanha e um cilindro? Um speedball, hãa?

- Ya! - pareceu-me uma resposta que um entendido daria.

- Não há garrafas de água. Ficas-te com uma bica e não digas que vais daqui.

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Pensamento da semana

Paulo Sousa, 21.02.21

No caminho que foi feito pelos filósofos ao longo da história, o que é que hoje já sabemos que não sabíamos há 2000 anos atrás?

Com todo esse caminho já desbravado, que conforto podemos ter hoje, que não podíamos ter antes?

 

Estas questões foram retiradas do podcast 45 Graus de José Maria Pimental, numa entrevista ao professor de filosofia António de Castro Caeiro. Recomendo a audição do mesmo, até para ouvir a resposta do Professor a estas perguntas.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

O frio e a culpa

Paulo Sousa, 10.02.21

O que é que de diferente ocorreu entre a vaga inicial da pandemia e as últimas semanas, que explique a enorme diferença das estatísticas da covid?

Sem precisar de recorrer aos registos meteorológicos, basta recordar como tem corrido o tempo, para concluir que o primeiro confinamento coincidiu com o início da Primavera, e por isso com temperaturas mais amenas. Pelo contrário a elevada taxa de infecções e de mortalidade ocorreu durante as semanas mais frias e húmidas do ano.

Não é bruxedo, pois a ciência explica com clareza que “como consequência das situações de frio intenso, são produzidas alterações no organismo que facilitam o aparecimento de doenças como a gripe e outras infecções respiratórias (pneumonia, bronquite, entre outras) bem como o agravamento das doenças crónicas". Esta citação foi retirada do site da DGS.

E como é que os portugueses vivem e lidam com o frio durante o inverno?

De acordo com esta reportagem da RTP, 24% dos portugueses vive em casas húmidas e com infiltrações, e esta percentagem é o dobro da média europeia. Como se não chegasse, dois milhões de portugueses não conseguem manter a sua casa quente, e neste indicador somos o quarto pior país europeu. A proximidade desta percentagem com a cifra dos cerca de 20% de portugueses que vive na pobreza não será coincidência.

Se a isto juntarmos o quarto mais alto custo da energia da UE, podemos com facilidade traçar uma linha que parte do enfraquecimento do organismo causado pelo frio e humidade, que passa pelas habitações fracamente isoladas, pelo custo incomportável para muitos em aquecê-las e que termina num cocktail mortífero que fez disparar a mortalidade a níveis nunca vistos desde há cem anos.

Este governo, que está ligado à nossa estagnação económica dos últimos 20 anos e por isso à pobreza de um quinto dos portugueses, assim como aos negócios nunca explicados por detrás da nossa excêntrica factura energética, tenta, qual junkie inimputável, sacudir as responsabilidades e diz que a culpa de nos termos tornado no pior sítio do mundo é dos portugueses.

O imposto sobre os pobres

Paulo Sousa, 07.02.21

Para uma imensidão de portugueses a maior probabilidade de enriquecer, e assim de mudar de vida, passa pelos números da lotaria. Por isso podemos dizer que não é muito provável que alguma vez deixem de ser pobres.

Nem todos os jogos têm a mesma probabilidade de acertar na chave certa mas em qualquer um deles as hipóteses de vencer são tão reduzidas que toda a dinâmica se resume em pagar para poder sonhar.

É voz corrente que em Portugal se fazem os maiores volumes de apostas per capita de toda a Europa. Procurei dados sobre isso e encontrei apenas uma relação dos cinco maiores prémios pagos até hoje pelo Euro-Milhões, em cada um dos países que fazem parte desta lotaria europeia. Saltou-me à vista que, considerando esses cinco maiores prémios, em Portugal foram distribuídos 63€ per capita, enquanto que na Áustria esse valor não ultrapassou os 28€. Como não nos podemos considerar três vezes mais sortudos que os austríacos, julgo que isto é explicado por apostarmos três vezes mais do que eles, o que diz um pouco sobre a diferença das nossas expectativas de vida.

A dependência que este tipo de jogos provoca está estudada e comprovada. À distância poderá ser apenas mais uma estatística sobre uma adição, mas quando falamos dos jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) falamos de apostadores pobres, e nas terras pequenas esse fenómeno tem nomes e rostos. Não são casos raros em que até os donos dos cafés se entusiasmam com o produto estrela da SCML, que são as Raspadinhas, e depois de começarem à procura de um prémio que lhes pague o prejuízo anterior, acabam por perder a licença por incumprimento na entrega dos valores “cobrados”.

Aposto que será nos bairros mais pobres que os balcões de apostas angariam proporcionalmente mais receitas.

Nas povoações que têm mais do que um café, aquele que tem a máquina da Santa Casa está sempre em vantagem. A máquina de apostas até pode motivar a hipótese de trespasse de um estabelecimento desta natureza. Além da receita do jogo (7% do valor das apostas, segundo soube) esse é sempre o local onde se vende mais café, cigarros e bagaço.

Os jogos da Santa Casa são um negócio de milhares de milhões de euros. As receitas brutas da SCML ascenderam em 2019 a 3.360 milhões de euros. Ando a ganhar o hábito de converter os grandes valores da nossa economia em SMN, e assim essa receita equivalerá a mais de 5 milhões de SMN. Nada mau.

Podemos dizer que estes jogos canalizam recursos de todo o país para os cofres de uma das muitas Santas Casas da Misericórdia, neste caso para a de Lisboa. É como se fosse um imposto pago pelos pobres de todo o país e que é gasto em Lisboa.

Claro que os responsáveis da SCML entrarão logo em defesa do seu ganha-pão e dirão que deste valor cerca de 1.000 milhões de euros (aprox. 1,6 milhões de SMN) são transferidos para os beneficiários sociais da SCML, entre os quais encontramos o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ministério da Saúde e Ministério da Educação, dando razão à ideia do imposto.

Em pleno confinamento pandémico os cafés estão impedidos de vender bicas, ou cimbalinos conforme a região. Nem cafés, nem bares podem agora vender os seus produtos “ao postigo”. Até o Elefante Branco se queixa desta medida destruidora da economia.

Aqui na minha terra o café, onde já há uns anos deixou de se poder fumar, deixou agora também de poder tirar cafés. Mas como tem uma máquina da SCML, esticaram duas fitas plásticas vermelhas e brancas para, qual curro, assinalar o caminho mais curto das moedas dos bolsos do pobres até à gorda conta da SCML. Para que dúvidas não haja, a santidade está-lhe intrínseca no nome. É como a publicidade subliminar, nem damos por ela, levamos com o produto, com a embalagem e com o recado, tudo junto antes de ter tempo de respirar. E santa que é, consegue sem pestanejar, apelar à nossa ajuda para poder ajudar a dar uma resposta extraordinária à pandemia. Fiquei curioso e após vasculhar no site da dita, acabei por encontrar um link que nos leva ao respectivo relatório e contas (https://www.scml.pt/sobre-nos/relatorios-e-contas/), mas afinal não leva. Diz que é o erro 404, seja lá o que isso for. Mas, como quem dá uma resposta extraordinária à pandemia, quase como quem nos abraça, conforta-nos dizendo “Todos nós perdemos o rumo de vez em quando. A Santa Casa ajuda-o a encontrar o caminho” e, preocupada, encaminha-nos de volta à página principal.

Provavelmente durante um dos seus drinks de fim de tarde a Ministra da Cultura lembrou-se de criar mais um imposto especial sobre os pobres, para angariar receitas que serão canalizadas – e esse é o nobre destino das receitas, serem canalizadas – para ajudar a responder a “necessidades de intervenção de salvaguarda e investimento” em património classificado ou em vias de classificação. Diz que tem o objectivo de “envolver todos” e arranca já em Maio.

Quem nunca teve uma epifania depois de beber uns copos que atire a primeira pedra.

Haja esperança

Paulo Sousa, 04.02.21

Após uma sequência de trocas e mensagens não entendidas, inadvertidamente acabei por ter uma ameixieira de jardim (Prunus cerasifera) nas cercanias da minha casa.

Além do formato despido de personalidade e do trabalho que dá a podá-la no final do Outono, as suas folhas são de uma cor que só poderia pertencer a um catálogo de cores frias. Não é uma árvore bonita.

Mas como a vida é feita de equilíbrios, é possível encontrar beleza mesmo quando menos contamos.

Assim, todos os anos no início de Fevereiro, esta árvore desperta-me um entusiasmo que lhe garante a permanência por mais uma temporada, e isto acontece por ser a primeira a anunciar a Primavera.

À excepção dos citrinos, que têm um ciclo próprio, apenas as nespereiras concorrem com a precocidade desta ameixieira de jardim. Por isso e desde ontem, que aqui à volta se tornou oficial: a Primavera vem aí! E nunca ansiamos tanto pelo fim de um Inverno.

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Não é sobre vacinas

Paulo Sousa, 30.01.21

Todos os casos que têm acontecido à volta da administração das vacinas são exemplificativos de um fenómeno mais alargado a que podemos classificar por pequena corrupção.

O maior motor da pequena corrupção é a escassez. Arrisco-me a afirmar que a grande corrupção terá outros motivos.

A maior parte dos tráficos ilegais desenrola-se e floresce à volta da pobreza. Neste caso tratam-se de vacinas que estão a chegar a uma velocidade inferior às necessidades e às expectativas criadas, mas podíamos estar a falar de um contrato que viabilizará uma empresa em dificuldades, ou de um emprego que estabilizará as finanças de uma família. É fácil que a necessidade fale mais alto do que outras questões morais ou legais. O pequeno favor vindo do chefe de secção, do encarregado pelas compras, do decisor do concurso público, do fiscal, ou de outra figura que tem um ascendente circunstancial, pode acabar por ser a solução para os problemas imediatos. Quem está nessa posição tem consciência disso e é fácil que aceite o jogo que afinal o coloca numa posição de poder.

Se não houver nada para dar em troca, e não me refiro apenas a bens materiais, então fica-se devedor de uma obrigação. No futuro uma outra pequena prevaricação entrará a crédito na respectiva conta-corrente. E essa é afinal a palavra que usamos para agradecer, fico-lhe obrigado.

Esta é a lógica que explica a pequena corrupção. A pobreza ancestral do nosso país, somada à falta de expectativas de crescimento económico (no século XX só houve crescimento económico efectivo nos anos 60 e na segunda metade dos anos 80 e 90) explica, e resulta, da colonização do estado por gente que quer fazer pela vida. As alternativas são escassas e a famosa mão invisível impele os indivíduos a maximizar o seu bem estar. A sobre-dimensão do estado, com a sua teia de esquemas de esquinas arredondadas, resulta e promove a estagnação. É um ciclo que se auto-alimenta.

O que está a acontecer devido à falta de vacinas é rigorosamente o mesmo que acontece com a riqueza do país. Como o bolo é pequeno, todos lutam por migalhas. Se o bolo fosse maior, todos poderiam ambicionar por mais. Daí a necessidade do crescimento económico que, já vimos, não se resolve por decreto, mas sim e apenas se houver condições para atrair investidores. Com a nossa estrutura etária, não será possível financiar um SNS sem crescimento económico. Também por isso, é necessária uma abordagem diferente.

Crescimento económico, acompanhado por uma educação ministrada pelo exemplo de quem exerce cargos públicos, levar-nos-ia a um patamar superior de salubridade social, mas para isso precisamos de uma mudança, não só de políticas, mas de pessoas. Fernão Lopes, nas suas crónicas da crise de 1383-85, refere-se ao levantar de uma “nova geração”. É disso que precisamos. É necessário atrair para a política gente da sociedade civil, desligada do pântano em que nos encontramos.

Para memória futura, continuação

Paulo Sousa, 28.01.21

Jovem do futuro,

Olá de novo, quero continuar a contar-te o que tem acontecido nestes dias da pandemia. Estamos agora no final de Janeiro de 2021.

Voltei a ler o que te escrevi em Setembro do ano passado e já sinto saudades daquele fim de Verão em que, mesmo indo de máscara para todo o lado, conseguimos ter alguma normalidade. Nessa altura ainda havia sol para ir à praia e chegamos a ir a restaurantes.

Quem teve dinheiro e tempo para isso, no Verão gozou férias. Muita gente, com receio de voltar a andar de avião, redescobriu Portugal. O turismo interno animou-se com turistas nacionais. Foi como um acto de introspecção dos portugueses, que redescobriram as suas próprias paisagens. Quando regressaram a casa, entenderam melhor o encanto que os estrangeiros sentem pelo nosso país. Sem este vírus aberrante isso não teria acontecido. E tão bonito que é o nosso território. Se fosse habitado por outro povo, não seria igual. Se somos parte do chão que pisamos, este chão também é o que é por causa daquilo que somos.

Houve dias de sol com brisas agradáveis. Quase que nem nos rimos quando os nossos governantes se vangloriaram pelo milagre e pela sorte de sermos governados por gente experiente. Graças a eles, disseram, e com o nosso apego à ordem, tudo tinha sido menos gravoso que noutras paragens.

Enquanto se bajulavam, inchados sob os holofotes, os virologistas alertavam que o pior estava ainda para vir. Enquanto noutros países se delineavam planos para o inverno, cá afirmava-se, insistia-se e repetia-se o desprezo oficial pelas estruturas privadas de saúde.

Depois das celebrações religiosas e festas populares terem sido proibidas, a festa dos comunistas na Atalaia reuniu várias dezenas de milhares de pessoas. Para lá chegarem os participantes atravessaram ruas e avenidas onde todo o comércio estava impedido de abrir a porta, para que a pandemia fosse travada. Os comunistas podiam ter aproveitado o ascendente de que gozavam sobre o governo para melhorar a vida dos portugueses, mas gastaram todo o capital político nesta exibição arrogante de poder.

O governo engoliu esta insolência com a tolerância de quem está na posição mais fraca. Este episódio mostrou para quem quis ver, como o destino do nosso país depende nestes dias dos caprichos dos marxistas.

Da última vez que os socialistas saíram do poder precisamos de uma troika, mas da próxima, precisaremos de uma perestroika.

A escola arrancou como sempre no final do Verão. A apreensão era geral. Ao contrário dos seus alunos, muitos professores pertenciam ao chamado grupo de risco. Como é que iriam coexistir estes dois grupos com tamanhas diferenças perante a ameaça? O primeiro período correu exemplarmente. Durante algum tempo tentaram recuperar as falhas do ano anterior, quase todo leccionado à distância, e seguiram em frente.

Os professores só faltaram quando, na dúvida, lhes era recomendado o isolamento profiláctico ou quando testaram positivo. Logo após cumprida a quarentena obrigatória, regressaram às salas de aula, mostrando-se assim, e mais uma vez, à altura das responsabilidades.

Os alunos também se adaptaram. Andaram sempre de máscara que só tiravam durante as refeições. Nos intervalos juntaram-se nos habituais grupos de amizades que raramente coincidem com a disposição da sala de aula. Entre eles falaram, com a voz abafada pela máscara, do que é normal que falem, do mundo que descobriam e trocaram perguntas sobre a vida, recorrendo às formas de expressão normais para a sua idade.

Quando as temperaturas começaram a descer, o número de infectados começou a subir, e número de mortos não demorou também a aumentar. A segunda vaga chegou acompanhada com várias semanas de chuva, seguida de frio e gelo. E novamente de mais chuva. Os pobres sofrem sempre mais no tempo frio e este está a ser um inverno particularmente forte, especialmente forte para com os mais fracos.

Pelo menos, depois de alguns meses de folga nas infecções, já não seríamos apanhados de surpresa. Houve quem acreditasse nisso.

Ainda a maré estava a começar a subir e já os nossos governantes começaram a falar em salvar o Natal, criando de imediato a ideia que nessa altura iria haver uma maior tolerância nas deslocações e nos ajuntamentos familiares. Fizeram isso ignorando as recomendações científicas, pois talvez tenham acreditado que o vírus também parava durante as nossas festividades.

Claro que foi agradável ouvir isso. Pelo menos teríamos um Natal em condições junto dos nossos idosos que viviam isolados há tantos meses. Quem é que se podia opor a notícias tão boas?

Ao mesmo tempo começaram a ser administradas as primeiras vacinas. Só de nos imaginar a todos vacinados … até nos permitimos a inspirar um profundo folgo de esperança.

O Pai Natal este ano iria trazer as vacinas. No Natal celebrou-se o que sempre se celebra, uma nova vida, um novo alento. Umas mais do que outras, as mesas encheram-se, e à volta delas celebrou-se e brindou-se. Como foi bom poder fazer uma trégua a meio da batalha.

Enquanto isso, nos países europeus que deram ouvidos à ciência, o confinamento foi mais apertado do que nunca e as festividades foram proibidas.

Ainda havia umas fatias de bolo-rei por comer e logo começou a haver notícias sobre as mutações do vírus. Registou-se uma nova estirpe no Reino Unido, pouco depois surgiu uma mutação brasileira e também uma sul-africana. Quantas mais iriam ainda aparecer? Será que o vírus se iria tornar mais ou menos agressivo? E será que as vacinas, ainda antes de serem distribuídas, já estariam obsoletas?

Enquanto tentávamos entender o que se estava a passar, os números dos infectados dispararam. De 1.500 infecções diárias, chegamos às 15.000, em menos de um mês. Como cerca de um por cento dos infectados necessitam de assistência hospitalar, todos os dias chegam mais de 150 doentes em risco de vida aos hospitais. Em poucos dias as ambulâncias começaram a esperar cada vez mais tempo nas filas para conseguirem entregar os doentes nas urgências. Por vezes, cada vez com maior frequência, começaram a seguir dessas filas para a morgue. O número de óbitos disparou. Neste momento morrem com Covid mais de 10 portugueses por hora e já foram registados mais mortos pelo vírus, do que na Grande Guerra e na Guerra do Ultramar juntos.

Alguns hospitais tiveram de adquirir câmaras frigoríficas para conseguir gerir a tenebrosa logística de tantos cadáveres. As estruturas privadas de saúde afinal revelaram-se necessárias, mas o apego à ideologia e a recusa, até à última, em recorrer a elas, custou a vida a demasiados portugueses. Já te falei da força que os marxistas hoje ainda têm, não foi?

As estatísticas internacionais desta pandemia dizem-nos que Portugal é nestes dias o pior sítio do mundo.

Quem morre infectado é despachado, sem vestes dentro de um saco de plástico. Os cangalheiros, em vez do habitual fato preto, envergam agora fatos brancos de protecção biológica, com máscara, óculos especiais e botas de borracha. As cerimónias fúnebres estão limitados a um número muito restrito de pessoas, definido por cada autarquia.

O que seria de nós sem os cangalheiros? O que será de nós se os coveiros sucumbirem?

Quem sofre ataques cardíacos, acidentes ou outras complicações graves de saúde, tem medo de ir para o hospital e demasiada gente, que em tempos normais teria sido salva, acabou por falecer em casa. Para os condutores e assistentes das ambulâncias de emergência médica, tornou-se normal transportarem apenas cadáveres. Ninguém ficará surpreendido com futuras sequelas de choque pós-traumático entre os profissionais de saúde.

Foi neste ambiente que se realizaram as eleições. O governo lembra-nos diariamente do nosso dever de ficar em casa para evitar mais contágios, para no minuto seguinte nos lembrar que votar é um dever cívico. Desde que a pandemia foi declarada, mais de 75 actos eleitorais foram adiados pelo mundo fora, mas cá as decisões importantes demoram a ser tomadas, e se forem mesmo muito importantes, o mais provável é que não sejam tomadas de todo.

Um dos candidatos que se apresentou a votos, irrita bastante os nossos governantes, assim como as pessoas normais. Diz palermices e é agressivo. Mesmo assim, não pelo que diz, mas apesar do que diz, e apenas porque irrita a situação, acabou por ter bastantes votos. Quem votou nele ficou satisfeito por ver como o seu voto conseguiu irritar os nossos governantes.

O vencedor é o mais completo retrato do nosso regime, e por isso faz sentido ter ganho. É filho da nomenclatura do regime anterior, mas desde os primeiros instantes do que temos, esteve envolvido em tudo o que nos levou ao ponto em que estamos.

Mesmo após 20 anos de estagnação económica, os políticos no poder continuam a pensar que criam riqueza por decreto, e que se assim o entenderem, à força da lei farão os leões voarem e as zebras rugirem. Eu quando os escuto com atenção só oiço zurrar.

Demasiada gente pensa que ao fazer por ignorar as mudanças as consegue evitar, mas esse é um erro antigo da humanidade, para o qual não existe bom senso que impeça que se repita.

Lá fora o tempo continua de chuva. Os últimos dias foram de um burranho que, juntamente com as notícias, nos encharcaram a alma e os olhos. A chuva não se distingue do nevoeiro, tal e qual como aquela que terá caído nos Invernos das pestes medievais.

É um luto permanente.

Quando numa saída para comprar víveres, pela voz, fisionomia ou pelos movimentos, reconhecemos um amigo, sorrimos por detrás de duas máscaras sobrepostas, chocamos com as nozes dos punhos resguardados dentro de luvas de protecção e dizemos, como quem quer garantir: Enquanto não piorar, aguentamos!