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Delito de Opinião

Novamente o Iluminismo

Paulo Sousa, 21.11.22

No final de 2020 postei aqui sobre este livro. O Iluminismo Agora, de Steven Pinker, é uma obra que nos permite observar a actualidade de uma forma menos pessimista. Toda a obra assenta na observação de dados estatísticos e, a partir deles, procura conclusões que, na generalidade, contrariam a percepção pessimista que corre nas veias de quem acompanha a actualidade.

É muito provável que ao folhear o livro, observando os seus gráficos e a relação que o autor estabelece entre eles, mesmo os deploráveis deste mundo, possam ver uma realidade que vai para além do pessimismo que os faz procurar nos populistas resposta fáceis e simples, mas que não são mais do que respostas contra-iluministas.

As limitações da nossa memória restringem a percepção que temos dos ciclos temporais. Sem um pouco de história, é fácil alinhar em explicações e soluções fáceis para o que não está bem.

O autor diz-se motivado a escrever o livro para nos lembrar alguns dons, que tomamos como garantidos: recém-nascidos que viverão oito décadas, mercados a abarrotar de comida, água potável que surge com o estalar de dedos e o desperdício que desaparece com o estalar de outro, comprimidos que curam doenças dolorosas, filhos que não serão enviados para a guerra, filhas que podem andar na rua em segurança, críticos dos poderosos que não são presos ou assassinados, o conhecimento do mundo e da cultura que cabe no bolso do casaco, são todas estas maravilhas, feitos humanos, e recentes.

Os ideais do Iluminismo são produtos da razão humana, mas estão sempre em conflito com outras facetas mais antigas da natureza humana, como a lealdade à tribo, a deferência à autoridade, o pensamento mágico e a culpabilização dos malfeitores pelo infortúnio.

Através do historiador David Wootton, o autor recorda-nos que um inglês culto em 1600 acreditava que bruxas podiam convocar tempestades e afundar navios, acreditava em lobisomens, e que mesmo que não existisse nenhum em Inglaterra, eles podiam ser encontrados na Bélgica, acreditava que o corpo de uma vitima de homicídio sangraria na presença do homicida, acreditava ser possível transformar metal comum em ouro, acreditava que o arco-íris era um sinal de Deus e que os cometas eram presságios do mal e, obviamente, acreditava que a Terra permanecia imóvel e o Sol e as suas estrelas giravam em seu redor a cada 24 horas. Um século depois, um descendente deste inglês, não acreditava em nenhuma destas patranhas.

Apesar disso foi só no final do Séc. XIX que a esperança média de vida dos europeus ultrapassou os 40 anos. Para os asiáticos e africanos este valor foi apenas atingido após a Segunda Guerra Mundial. Um africano nascido hoje pode esperar uma longevidade idêntica à de uma pessoa nascida na Europa na década de 1930.

A variável mais determinante para o aumento da esperança média de vida é a redução da mortalidade infantil. Na Suécia do séc. XIX, entre os 25% e 30% das crianças não chegavam ao 5º ano de vida. Estes valores não diferem muito do período em que éramos simples caçadores-recolectores. Em menos de um século, os registos mostram-nos que este parâmetro foi reduzido em cerca de 100 vezes.

Sobre a mortalidade materna, o autor refere que há 100 anos atrás, para uma mulher norte-americana era tão perigoso ficar grávida como hoje ter cancro da mama, levando a que esta variável tenha sido reduzida em cerca de 300 vezes.

A evolução das conquistas médicas têm sido igualmente notável.

Segundo um relato médico de uma epidemia de febre amarela em Memphis em 1878, os doentes “rastejavam para buracos com os seus corpos contorcidos; os seus cadáveres eram descobertos mais tarde somente pelo cheiro nauseabundo da sua carne em decomposição. {Uma mãe foi encontrada morta} prostrada na cama… vómito negro como grãos de café espalhado por toda a parte… as crianças enroladas no chão, a gemer”. Nem mesmo os ricos eram poupados: em 1836, o homem mais rico do mundo, Nathan Rothschild morreu com uma infecção provocada por um abcesso. O Presidente americano Harrison adoeceu pouco depois da sua tomada de posse em 1841 e morreu 31 dias depois com um choque séptico. Em 1924, o filho de 16 anos do então presidente Coolidge Jr. morreu por causa de uma bolha infectada que fez a jogar ténis.

No dia 12 de Abril de 1955, uma equipa de cientistas validou a segurança e a eficácia da vacina de Jonas Salk contra a poliomielite. Nesse dia, segundo relato de Richard Carter, “as pessoas observaram momentos de silêncio, tocaram sinos, tocaram cornetas e fizeram silvar as chaminés das fábricas, dispararam salvas de canhão… tiraram o resto do dia para si, fecharam as escolas e convocaram assembleias onde fizeram brindes, abraçaram crianças, visitaram a igreja, sorriram aos estranhos e perdoaram inimigos”.

Estima-se que com a descoberta de Karl Landsteiner, dos grupos sanguíneos, se tenham salvado um bilião de vidas humanas. Com a coloração da água, sugerida por Wolman e Enslow pouparam-se 177 milhões. A lista é extensa e inclui a estratégia de erradicação da varíola, diversas vacinas como a do sarampo, tétano, difteria, tosse convulsa, a invenção da penicilina, entre outras contribuições. O número de vidas salvas ultrapassa muitas centenas de milhões, nos quais facilmente podemos incluir cada um de nós, os que estamos a ler este texto.

Muitos outros apontamentos e estatísticas que reflectem variáveis como a subsistência alimentar, a riqueza, a desigualdade, o ambiente, a paz, a segurança, a igualdade dos direitos, o conhecimento, são igualmente referidos nesta obra, que permite ao leitor termina-la com uma visão diferente do mundo, o que não é nada pouco.

Pessoalmente considero que devia ser lida, ao menos por jornalistas, especialmente pelos que se dedicam à entrevista, pois contém informação válida, capaz de abalar os profetas da desgraça, o que é outra forma de me referir aos políticos populistas. A estatística é o kriptonite contra esses palermas.

 

PS: Muitos dos críticos do livro acabam por não conseguir ser mais do que críticos do seu autor. Preferem debater o mensageiro do que a sua mensagem, o que sabemos ser uma táctica bem antiga.

Estamos no Mundial!

Paulo Sousa, 18.11.22

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Hoje, a Selecção Nacional de Rugby apurou-se para o Campeonato do Mundo, que será disputado no próximo ano em França.

Foi com um empate a 16 pontos com os EUA, num jogo disputado no Dubai, que os Lobos conseguiram assim pela segunda vez na história chegar à maior prova desta modalidade.

Após a memorável participação no ano de 2007, também em França, em que tivemos de enfrentar os All Blacks, e pelas mãos do Rui Cordeiro, conseguimos marcar o mais lendário ensaio da história do Rugby português, a expectativa de poder regressar ao Mundial ia sendo, de 4 em 4 anos, sempre adiada.

O percurso deste apuramento foi atribulado. O acesso aos três jogos de repescagem só foi possível após o afastamento da Espanha, que foi penalizada por ter incluído na sua equipa um jogador não inscrito. Já na repescagem, tudo correu pelo melhor. Após uma vitória por 42-14 contra Hong-Kong e de outra por uns claríssimos 85-0 contra o Quénia, os Eagles americanos eram a última barreira que faltava até ao apuramento.

A penalidade que nos deu os três pontos finais, e que permitiram o empate, foi convertida por Samuel Marques, já depois do relógio marcar os 80 minutos jogo. Foi mesmo no último instante. Uma maravilha.

Depois dos Jogos Olímpicos e do Mundial de Futebol, o Mundial de Rugby é o terceiro evento com maior números de espectadores. E vai ser nesse palco que os nossos Lobos irão mostrar que são uma equipa jovem, talentosa e que tem valor para ali estar, lado a lado com os melhores do mundo.

Juntamente com o País de Gales, Austrália, Fiji e Geórgia, a nossa Pool será a C, e o calendário será o seguinte:

16 de Setembro - País de Gales - Portugal (Nice)

23 de Setembro - Geórgia - Portugal (Toulouse)

1 de Outubro - Austrália - Portugal (Saint-Étienne)

8 de Outubro - Fiji - Portugal (Toulouse)

Marquemos então na agenda.

 

PS: Aportuguesar a palavra “râguebi” é tão razoável como fazê-lo com “Franqueforte” ou “Alencastre”.

Já fiz o contacto!

Paulo Sousa, 18.11.22

António Costa tem uma já longa vida política. Ao longo desses muitos anos foram vários os casos tornados públicos em que tentou abusar, e abusou, das suas funções.

O mais recente episódio foi revelado pela publicação de um livro de memórias pelo ex-governador do BP, Carlos Costa. A partir dele já vi circular novamente as escutas telefónicas entre o actual PM, Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso, aquando do caso Casa Pia. O título deste postal é uma frase dita então por António Costa num desses excertos, em que se refere à alguém da Procuradoria Geral da República.

O caso que agora faz rolar algumas notícias e que, entretanto, será afogado pelo Mundial da Bola, baseia-se no relato de uma conversa telefónica entre o PM e o então governador do BP em 2016, em que o primeiro tenta condicionar as decisões do segundo. Não vou para aqui trazer os detalhes, pois são públicos, mas o SMS mais recente não é mais do que a confirmação da forma como António Costa interpreta os seus poderes.

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Incrível é a dimensão do rebanho dos que agora vêm garantir que Carlos Costa está a mentir. Como é que alguém pode fazer afirmações taxativas sobre os detalhes de uma conversa telefónica, privada, entre terceiros, tida há seis anos atrás? Os membros desse rebanho poderão dizer o mesmo dos que garantem serem verdadeiras as afirmações do ex-governador, mas depois temos o raio do SMS.  

Mas além deste detalhes achincalhantes e causadores de vergonha alheia, a linha de fundo que importa analisar é o desrespeito regular e continuado dos governos PS pelos contrapesos do poder político. Os organismos ditos independentes, garantes do normal funcionamento democrático de um regime, não conseguem em Portugal desempenhar livremente as suas funções. Parte significativa desses organismos estão preenchidos com boys e girls obedientes e desprovidos de quaisquer escrúpulos democráticos, outros são drenados financeiramente com cativações orçamentais até mal conseguirem sobreviver, e, pouco a pouco, vamo-nos afundando numa contínua mexicanização do regime saído de Abril.

O retrocesso democrático em curso está diagnosticado e já foi com António Costa como PM que voltamos a cair também nessa escala.

Não duvido que os compromissos assumidos com a UE são a única linha que ainda nos prende a alguma decência democrática. Sem eles, na mão dos actuais políticos, e com a nossa consistente não inscrição, tudo estaria bem pior.

Mais um confisco

Paulo Sousa, 16.11.22

Há uns dias foi noticiado que uma alteração legislativa relativa à validade das cartas de condução levou a que este ano já tenham sido apanhadas 5113 pessoas sem o respectivo título de condução válido.

O caso aplica-se principalmente a quem tem uma carta emitida antes de 2013. Vejamos este caso ficcional, mas que já se repetiu 5113 vezes este ano.

O Jorge tem actualmente 51 anos. Obteve a sua licença de condução aos 18 anos (em 1989, portanto) e desde então tem o seu documento original, um daqueles cor-de-laranja dobráveis em três partes. Nesse documento está impresso que o mesmo é válido até à véspera do seu 65º aniversário, até 2036, portanto.

O Jorge sabe que nessa data terá de o renovar e que para isso irá precisar dum certificado médico que atestará a sua capacidade física para poder conduzir. Faz sentido. Algumas pessoas aos 65 anos, devido a complicações de saúde ou outras, podem já não reunir condições para conduzir em segurança.

O que o Jorge não sabe, é que, apesar do que está escrito na sua carta de condução (que é válida até 2036) ele é um infractor e está sujeito a uma multa de 120 a 600 euros. Além do Jorge, em 2021 mais 44566 condutores celebraram o seu 50º aniversário sem que tratassem da sua renovação.

O Jorge, que tem o defeito de procurar uma lógica nas coisas, pergunta ao legislador:

- Então, eu tenho carta de ligeiros, vou ter de apresentar algum atestado médico, é isso?

- Não. – Responde o legislador, franzindo condescendentemente as sobrancelhas. – Isso seria uma carga de trabalhos e nós queremos é desburocratizar a vida ao cidadão.

- Então o que é preciso fazer?

- Simples. – E a sorrir, acrescenta – Basta ir ao site do IMT, validar … blá, blá, blá … confirmar os dados pessoais e … pagar 27€.

- Então tudo isto serve apenas para o estado arrecadar mais 27€ e assim para garantir entretenimento ao pessoal do IMT, é isso?

- … Como?

- Então e quem não conseguir ultrapassar as barreiras informáticas para tratar disso?

- Os info-excluídos podem ir a um solicitador ou a uma escola de condução, que eles tratam do processo. Cobram cerca de 50€.

- Ora então, no ano de 2021, contanto apenas com os 44566 condutores que fizeram 50 anos e não revalidaram a sua carta, o estado contava arrecadar mais de 1 milhão e 200 mil euros, é isso?

- O que, veja, é uma tremenda perda de receita.

- Mas se os multar a todos poderá conseguir arrecadar entre 5 e 25 milhões de euros.

- Sim, mas só conseguimos multar 5113 infelizes. Rendeu pouco mais de 600 mil euros. Uma ninharia.

Apenas mais um caso no país governando pelo PS

Paulo Sousa, 09.11.22

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Talvez para tentar fazer esquecer o caso do Secretário de Estado Miguel Alves, que entretanto já desencadeou um novo desafio da alface, o caso do momento foi revelado por Sandra Felgueiras, na TVI. Tiago Cunha, um nome que é toda uma metáfora, foi contratado pela Ministra Mariana Vieira da Silva com assessor com o salário de 4000€.

O caso, que é apenas mais um, é triste, mas a reacções acabaram por se tornar engraçadas. Enquanto que alguns apoiantes do governo tentam desvalorizar o caso dizendo, que depois dos impostos (socialistas) não sobra quase nada... a Ministra já veio justificar o caso, garantindo que a filiação no PS "nunca foi critério de recrutamento". Palavra de filha de ex-ministro, que sempre trabalhou em gabinetes ministeriais.

Enquanto isso, importa lembrar como corre a vida a quem não é filiado no PS.

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Adriano Moreira, o totalitarismo e Garrincha entram num bar

Paulo Sousa, 04.11.22

O recente desaparecimento de Adriano Moreira motivou muitos textos de homenagem e de comentários vários, também aqui no DO, sobre quem foi e como contribuiu para a evolução entre o Portugal em que nasceu e aquele que, cem anos depois, o viu partir.

Num desses textos, João Carlos Espada, no Observador, recorda uma explicação prévia dada por Adriano Moreira à dupla pergunta: “O que é ser de esquerda?” e “O que é ser de direita?”. Apesar deste episódio se ter passado nos idos anos 80, a explicação prévia continua actual como se tivesse sido dada hoje.

O totalitarismo não é de esquerda nem de direita — inclui o nacional-socialismo de Hitler e o comunismo de Stalin — eles não estiveram coligados? Na actualidade, o totalitarismo abrange os regimes de Leste, as ditaduras de capitalismo selvagem sul-americanas, muitos regimes do Terceiro-Mundo.”

E a seguir explicou enfaticamente: uma vez definida a diferença fundamental entre totalitarismos (de esquerda e/ou de direita), podemos então conversar tranquilamente sobre as escolhas entre direita e esquerda democráticas: “Serão de esquerda os que dão um papel predominante ao Estado, e de direita os que dão um papel predominante às pessoas e às instituições “.

Alguns psicólogos explicam a devoção pelos totalitarismos como uma patologia assente na vontade de uns dominarem todos os demais, a qualquer custo e sem travão, assim como pela incapacidade de outros em decidir por si, preferindo seguir cegamente quem lhes mostre convicções fortes e explicações simples. Uns e outros, tal como lobos disfarçados de cordeiro, circulam por aí disfarçados de democratas. Uns dizem-se de esquerda, outros de direita, mas, mais do que qualquer outra coisa, são apenas amantes do totalitarismo e não hesitarão um instante em derrubar a democracia para lhe tomarem o lugar.

Nos tempos da comunicação contínua, em que o caudal de estímulos é de uma dimensão que torna impossível digerir tudo o que nos acerta, somos facilmente levados pela nossa natureza e pelos nossos enviesamentos cognitivos. Mais apelativo do que quaisquer factos que precisam de ser ponderados e trabalhados, são as emoções que mais facilmente nos mobilizam e agitam. Os amantes do totalitarismo sabem disso, e não hesitam em armadilhar essa informação contínua de forma a poderem chegar ao poder.

Lívia Sant’Anna Vaz, promotora de Justiça no Estado da Bahia, entrevistada há dias pela Folha de São Paulo, dribla magistralmente o conceito básico da liberdade de expressão. Não se chega ao “Anjo das Pernas Tortas”, que foi Garrincha, mas bem que tenta (perdoem-me a formulação sul-americana).

Questionada sobre como a desinformação tolhe a liberdade de expressão, ela começa por afirmar que “as pessoas”, coitadas, não conseguem aceder a elementos que lhes permita ter o que ela designa como “liberdade de expressão consciente”. Por isso acabam por apenas repetir o que ouvem, “supostamente exercendo a sua liberdade de expressão”, mas que é apenas uma “liberdade de expressão manipulada”. Mostra-se assim preocupada com a “absolutização da liberdade de expressão de grupos hegemónicos”. De imediato, como só um estrábico com um joelho varo e o outro valgo conseguiria, e por isso fez-me lembrar o mítico ponta brasileiro, avança e avisa que “os inimigos da democracia podem estar na própria democracia”. E quando? “Quando nós tornamos em valor absoluto determinados princípios da própria democracia, como a liberdade de expressão”.

Jinga que finge que não jinga e avança, como se de um jogo de espelhos se tratasse, salta rapidamente para deduzir que como a sociedade é misógina, racista e LGBTfóbica, em consequência, isso reproduz-se nas redes sociais. Após mais umas simulações e uns faz-de-conta, lá chega à frente da baliza, e após tão elaborada jogada, remata com um “acaba a ser uma ditadura da liberdade de expressão”.

Quem não conseguiu ver bem por onde é que a bola passou, precisa de repetição, ou do VAR, que me dizem ser a moda actual. E é então no VAR que, deixando o estádio incrédulo, Lívia Sant’Anna Vaz afirma que “a liberdade de expressão é um elemento fundamental da democracia, MAS não se pode tornar num elemento absoluto e minar e destruir a própria democracia”. “Então é importante que a gente tenha limites à liberdade de expressão para concretizar a própria democracia”.

Os finteiros que sugerem uma democracia com limites à liberdade de expressão, não são mais do que totalitaristas disfarçados de cordeiros. É gente perigosa. Adriano Moreira avisou-nos.

Blogue da Semana

Paulo Sousa, 30.10.22

Com um inspirado excerto do The Daily Star como mote, “Em tempos de crise, para que os vossos sapatos durem mais, dêem passos maiores”, o Herdeiro de Aécio, é um blog a que regresso com frequência.

Com uma regularidade diária, A. Teixeira assinala o aniversário de diversos acontecimentos históricos. Uns mais recuados, outros mais recentes, mas a todos acrescenta umas notas que enquadram e valorizam quem por lá passar.

Recomendo. É o Blog da Semana.

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Pensamento da semana

Paulo Sousa, 30.10.22

“Perceber, através da Pordata, que Portugal tem 4,4 milhões de pobres e que esse número reduz para 1,9 milhões após as transferências sociais, permite concluir quatro coisas: que há um enorme número de portugueses pobres; que as transferências do Estado têm um efeito positivo brutal; que, mesmo com apoio, 20% dos portugueses continuam em patamares inaceitáveis de pobreza; que tudo isto demorará muitos anos a alterar e que isso dependerá do crescimento da economia portuguesa.

(…)

A emigração já entrou noutra fase, daquelas em que as políticas públicas quase não têm efeito.

(…)

Neste momento, um quinto dos bebés portugueses nasce no estrangeiro; um valor incrível, mas natural, já que um quinto dos portugueses entre os 15 e os 39 anos vive fora de Portugal. Salvo os países em guerra ou Estados falhados, Portugal é de onde mais se emigra.”

Ricardo Costa
Expresso
21 Out 2022

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Frei Bartolomeu de Las Casas, e não só

Paulo Sousa, 26.10.22

Graças a uma aula on-line de Miguel Morgado, tomei há pouco tempo conhecimento de uma figura histórica da qual tinha ouvido vagamente o seu nome, mas que, pelo seu percurso e pela sua influência no pensamento europeu e ocidental, rapidamente me surpreendeu. Refiro-me a Frei Bartolomeu de Las Casas, um frade dominicano espanhol que viveu entre os anos 1484 e 1566.

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Segundo consta Bartolomeu, com nove anos, terá assistido à chegada de Colombo na sua primeira viagem às Índias Ocidentais. O seu pai, Pedro de Las Casas, acompanhou Colombo na sua segunda viagem. Em 1502 é o jovem Bartolomeu que atravessa o Atlântico para se fixar na ilha Hispaniola, actual território da República Dominicana e do Haiti.

O contacto com o Novo Mundo foi um acontecimento maior na história da humanidade e Bartolomeu tem consciência disso. Mais tarde descreve essa época histórica como “um tempo novo como nenhum outro”.

Juridicamente, a exploração do Novo Mundo tinha como base a Bula Inter cætera, que foi promulgada um ano após o regresso de Colombo, e que estabelece que os novos territórios pertencem aos reinos de Espanha e Portugal (antecipando o que virá a ficar mais tarde conhecido por Tratado de Tordesilhas) referindo, no entanto, que essa posse depende e resulta da evangelização dos povos e da propagação da fé cristã.

Desde a sua chegada ao Novo Mundo que Las Casas se incomoda com a crueldade com que os índios, ameríndios ou indígenas, consoante as diferentes designações, são tratados. O debate que se estabelece entre os colonos e alguns clérigos, remete para as doutrinas aristotélicas, que distinguem a escravatura convencional da escravatura natural. Segundo este filósofo da antiguidade, a escravatura convencional resulta dos direitos de conquista ou da aquisição, enquanto que a segunda sustenta-se numa superioridade natural do esclavagista em relação ao escravizado. Estes dois conceitos desencadearam vários debates ao longo da história da Igreja. Santo Agostinho elabora sobre esse tema dizendo que a escravatura, enquanto criação humana, continha traços do pecado original, afirmando por isso que não era natural. Daí resulta, ainda durante a Idade Média, a proibição de um cristão poder escravizar outro cristão.

Em 1507 Bartolomeu de Las Casas é ordenado padre da ordem dominicana e os seus sermões passam a ser manifestações da sua preocupação com os direitos dos índios. Após um outro clérigo dominicano, António de Montesinos, afirmar que os “espanhóis esclavagistas estão a perder a alma”, Las Casas sobe a parada e diz que é também a salvação da alma do imperador que está em causa, dirigindo-se ao então Infante Carlos, futuro imperador Carlos V, tentando assim sensibilizá-lo para a sua causa.

Todas estas “inovações” são suficientes para que os clérigos que defendem os indígenas passem a ser perseguidos pelos colonos, mas também a conseguirem a atenção do imperador.

Entretanto, em 1537 o Papa Paulo III promulga a bula Sublimus Deus, segundo a qual estabelece que os índios são providos de alma racional. Esse passo confirma que os europeus se devem relacionar com eles como se europeus se tratassem.

Em 1540 Las Casas é nomeado bispo de Chiapas, o que significa que apesar dos incómodos causados, vai ganhando importância na hierarquia eclesiástica e em 1542 o Imperador promulga as Leyes Nuevas que proíbem a escravatura e os maus-tratos aos índios americanos.

A distância e o tempo necessário para que uma nova lei, especialmente impopular entre os colonos, percorresse a distância entre Madrid e os confins do império é enorme. Pouco tempo depois, à escala da época, o Vice-rei do Peru, Vasco Nuñez Vela, é aprisionado, julgado e executado pelos colonos em 1546.

É com todos estes episódios como pano de fundo que Carlos V, em 1550, convoca o Conselho das Índias para o que irá ser conhecido como o Debate de Valladolid, que decorreu no Colégio de São Gregório. Até que o Conselho se pronuncie, o Imperador ordena suspender toda a exploração e conquista no Novo Mundo.

Neste confronto, as duas visões opostas são representadas por Frei Bartolomeu de Las Casas, defendendo os direitos dos índios, e por Juan Ginés Sepúlveda, um jurista aristotélico, que representa os interesses dos colonos.

Sepúlveda é o primeiro a pronunciar-se e afirma que a escravatura dos ameríndios se justifica por direito natural, uma vez que estes são desprovidos de alma. Refere que os sacrifícios humanos e outras práticas de canibalismo são a prova disso mesmo, acrescentando que estes não mostram qualquer interesse pela conversão, chegando a ser violentos para com os evangelizadores. E assim, perante o ilustre Conselho das Índias, Sepúlveda expôs os seus argumentos em menos de uma hora.

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Chegando a vez de Bartolomeu de Las Casas se pronunciar, este começa a ler um tratado que tinha preparado para o efeito, e que não era mais do que o somatório dos pensamentos desenvolvidos durante toda a vida a defender os que, sendo diferentes, eram simplesmente semelhantes[1]. A leitura deste tratado demora vários dias. Por conhecer há muito os argumentos de Sepúlveda, disserta sobre cada um deles.

Las Casas argumenta que se os indígenas são desprovidos de alma, então não poderão ser convertidos e isso esgota a validade da Bula Inter Cætera e esvazia a base intemporal da descoberta e exploração do Novo Mundo. Afirma ainda que a conversão deve ser um acto de amor, pelo pregador que ama o pagão enquanto criatura de Deus, e que este também acabará por se sentir amado por Deus. Só depois de convertido, o indígena dará cumprimento à bula papal, aumentando assim os direitos intemporais do Papa e, por decorrência da bula, também os direitos temporais do Imperador.

Acrescenta dizendo que ao defender os direitos naturais de liberdade dos índios, defende também as almas dos colonos e até do imperador. E, pelo contrário, os argumentos de Sepúlveda representam ali o trabalho do demónio.

Passados os dias necessários para que todo o tratado fosse lido, os ilustres membros do Conselho das Índias recolhem para debate e meditação e, após quase um ano, acabam por reconhecer a validade dos argumentos de Las Casas, sem que, no entanto, tivessem forma de fazer que os colonos dessem seguimento às conclusões dali saídas.

Bartolomeu da Las Casas, os dominicanos em geral, assim como outras ordens religiosas, insistem em recusar os sacramentos a quem escravizar os índios, defendendo igualmente os direitos e o respeito pelos escravos africanos.

A distância a Madrid e a incapacidade do imperador que daí resultava, levou a que todos os tratados e argumentos elaborados por Bartolomeu da Las Casas não tivessem efeitos imediatos sobre as práticas que este condenava, mas lançou um sólido debate e a má consciência do mundo cristão relativamente à escravatura.

É frequente associarmos o Padre António Vieira a este mesmo movimento, mas os seus famosos sermões foram proferidos mais de um século e meio depois, o que sublinha bem a importância de Frei Bartolomeu de Las Casas.

O interesse que este clérigo dominicano espanhol me gerou, resulta da confirmação do que já sabia, e que era que a escravatura, enquanto prática inaceitável e repugnante, além de existir desde a antiguidade, foi substancialmente questionada dentro dos impérios europeus cristãos e que a sua posterior abolição resultou exactamente do debate criado por estes pensadores da própria sociedade esclavagista.

Independentemente do que cada europeu, possa achar ou sentir sobre religião cristã e católica, só por ignorância ou má vontade, ou ambas, poderá negar que aquilo em que nos tornamos resulta do que fomos ao longo de uma história milenar.

O que podemos definir como Ocidente, é exactamente resultado, deste percurso, encharcado de pecados, de dúvidas, de tentativas e erros, de más decisões, palmilhado por gente boa, que por vezes fez coisas horríveis e por gente horrível, que por vezes fez coisas boas.

Existiu uma ciência na antiguidade longínqua, mas só os mais alienados podem fazer por ignorar que o método científico, conforme o conhecemos, só poderia ter surgido na procura, maravilhada, das regras divinas escondidas nos fenómenos físicos e químicos. Se existe uma matemática escondida na posição dos planetas e das estrelas, como é que o cosmos pode existir sem uma inteligência prévia?

São, ou não, as obras clássicas basilares da nossa civilização? O Messias de Händel, o Requiem de Mozart, a Paixão Segundo São Mateus de Bach, a Pietá de Michelangelo e a Deposição de Cristo de Raffaello. Como é que nos podemos desligar dessa herança espiritual, cultural e artística?

Está ou não o cristianismo no âmago da nossa sociedade que, entretanto, se tornou anti-confessional? E as marcas da pressão dos dedos do Rapto de Proserpina de Bernini? Em que outra região do globo seria possível esculpir tal detalhe?

E o Jazz, o Blues, o Samba e o Rock? Alguma vez teriam existido sem que tivesse havido a escravatura? E como é que foi possível criar algo tão maravilhoso em cima de tanto sofrimento?

O mundo nunca esteve resolvido. Sempre avançou como quem estica uma perna só para não cair. E isso é o que se faz para caminhar. Sempre andamos à procura de um equilíbrio que nos fez avançar, convictos de que o mais difícil é mesmo ficar imóveis. Por isso avançamos.

Olhar para trás é importante e até crítico. Conhecendo a história, aprendemos como evitar mais trambolhões e a não nos deixarmos iludir pelos revolucionários, que por um impulso de autoritarismo ou apenas por uns momentos de glória, não hesitarão em lançar o caos.

 

[1] Ouvir este argumento nos dias de hoje, em que tanto radicalismo assenta exclusivamente na impossibilidade de aceitar os que pensam de maneira diferente, é especialmente interessante.

É suposto ficarmos gratos

Paulo Sousa, 21.10.22

Ontem começaram a ser entregues os famosos 125€ de apoio extraordinário às famílias. O processamento está em curso e irá decorrer durante alguns dias.

Se olharmos com atenção a transferência não foi de 125€, mas sim de 525€. A primeira tranche de 400€ foi entregue à TAP e apenas os restantes 125€ ao contribuinte.

É suposto ficarmos gratos e, num impulso, não irmos a correr gastar tudo em combustível. Quem o fizer, entrega de volta ao estado cerca de 60% do valor da compra na forma de impostos, ou seja cerca de 75€.

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A minha experiência com os audiolivros

Paulo Sousa, 14.10.22

Por recomendação de um amigo, deixei que se me abrisse a mente e anteontem experimentei o meu primeiro áudio livro.

À primeira busca tropecei imediatamente no clássico A Cidade e as Serras de Eça de Queirós. Já tinha ficado com ele debaixo de olho há algum tempo e em especial após este postal do Pedro Correia. Estava no topo da lista no Spotify e escolhi-o de imediato.

Os capítulos estão organizados em ficheiros separados sendo que os mais extensos estão distribuídos em três partes. A dicção é clara e bem perceptível. Enquanto tratava de outros afazeres, de pá e enxada na mão, fui ouvindo a história do Jacinto e do seu amigo e nosso narrador José Fernandes. Uma vez ou outra recuei uns segundos para não perder a sequência e quase que virei o livro ao longo do dia. Sobraram apenas dois capítulos, que ouvi ontem de manhã, num passeio de bicicleta até à Nazaré.

Por não estar a olhar para a evolução da recta temporal no écran, senti que estava a chegar ao final, mas acabei por ficar surpreendido quando ouvi a última frase. Se estivesse a ler materialmente, com o livro na mão, a antecipação do encerramento da obra seria muito mais notória e, por isso, menos surpreendente. Mas esta é uma diferença com a qual se pode viver.

Logo de seguida, quando chegava à Lagoa de Fanhais, quase como se de um novo capítulo se tratasse, lá arrancou o Singularidades de uma Rapariga Loura e ainda não tinha chegado ao Porto de Abrigo da Nazaré e já podia contabilizar mais uma obra deste romancista maior da nossa língua.

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No regresso, após um pastel de nata e um abatanado num bar dentro do areal (a praia estava enovoada e quase deserta) comecei a ouvir o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. A edição (o leitor) é brasileiro e bem menos profissional que a experiência proporcionada pela Neolivros das obras anteriores. Além de algumas gafes de dicção, em que o Rei Lear passou a ser Rei Liár, durante algumas passagens ouve-se um cão a ladrar ao fundo, e que não pertence à história. Uma vez ou outra ouve-se também o virar das páginas, o que até pode ser interessante. Apesar disso consegue-se acompanhar o desenrolar da acção.

Este meu amigo que me recomendou esta experiência, trabalha dentro de um espaço povoado com muitos ruídos, onde o ferro e madeira são matérias primas e por isso tem de andar muitas vezes com protectores auriculares. Debaixo deles está quase sempre a “ler” qualquer coisa. Pelo que soube, ele nunca apreciou muito o aroma das folhas encadernadas e teve uma vida académica abaixo das suas capacidades. Acho que tem uma qualquer forma de dislexia, nunca quis questionar directamente, e isso explicará parte do seu percurso. Quando nos encontramos, a conversa passa invariavelmente por grandes obras e grandes autores. Da última vez relatou-me várias passagens do Arquipélago Gulag de Soljenitsin e com isso convenceu-me a experimentar. Importa dizer que ele é fluente em inglês e quase tudo, ou tudo mesmo, do que lê, ou ouve, é nessa língua. As opções em língua portuguesa são menos extensas, mas mesmo assim passei a ser freguês.

No cerejal

Paulo Sousa, 11.10.22

Já por aqui escrevi algumas linhas sobre duas felizes viagens à Ucrânia. Na primeira das visitas, juntamente com os meus companheiros de aventuras, tivemos a sorte da nossa chegada ter motivado um jantar com a família alargada dos nossos anfitriões.

À fartura dos pratos que nos foram servidos, concorreram o calor humano e os sorrisos. As continuas traduções do nosso vizinho, que ali nos recebia, ajudou à afinação da sintonia de todos os comensais. É certo que somos os quatros, ali representantes deste rectângulo, pessoas razoavelmente dadas e por isso incapazes de recusar mais um brinde proposto pelo mais velho da casa, o sogro dele. A bebida acastanhada, destilada em casa, e baptizada por nós como “bom material”, afinou a goelas e os espíritos e foram eles os primeiros a avançar com uma demonstração de cânticos populares. Pouco seguros do nosso repertório acabamos mais tarde também por alinhar na cantoria e chegamos mesmo a conseguir fazer um cânone da “Menina que estás à janela”. Uma coisa memorável.

Consciente da irrepetibilidade daqueles momentos, registei em áudio diversas passagens daquelas três ou quatro horas, quase até esgotar a memória do telefone.

Um dos cânticos ucranianos ficou-me na memória. Não reconheci uma única palavra, mas lembro-me com clareza da limpidez da voz do cantor, do sentimento transmitido e do silêncio quase total enquanto o mesmo foi entoado. Só o voltei a ouvir umas semanas mais tarde num almoço em jeito de ressaca da viagem.

Ontem, nas notícias, ouvi-o de novo e reconheci-o imediatamente. Centenas de habitantes de Kyiv cantavam-no no metro, enquanto se abrigavam dos mísseis russos.

A canção é a mesma, o povo também e não consigo ficar indiferente à serenidade que transmite, nem à impotência que sinto face ao curso da guerra.

Entretanto soube que se chamava No Cerejal (ou No Pomar das Cerejeiras segundo tradução directa do Google) e, a partir dos inúmeros registos que se encontram na internet, pertence sem dúvida ao cancioneiro popular ucraniano.

Não me atrevo a elaborar sobre a exegese da letra que o Google traduziu e por isso deixo aqui apenas o seu texto.

Oh, no pomar de cerejeiras
Um rouxinol cantou lá
Eu pedi para ir para casa
E você não me deixou ir.

"Você é minha querida, e eu sou sua.
Deixe-me ir, o amanhecer chegou.
Minha mãe vai acordar,
Eles vão perguntar onde eu estava."

E você dá a ela esta resposta:
"Que linda noite de maio.
A primavera está chegando, traz beleza,
E tudo se alegra com essa beleza."

"Minha senhora, esse não é o ponto.
Onde você vagou a noite toda?
Por trança desamarrada,
Há uma lágrima em seu olho?"

"Minha trança está desamarrada -
Suas amigas desamarradas.
Uma lágrima brilha nos olhos,
Porque eu estava me despedindo da minha amada.

Minha mãe, você já está velha
E estou feliz, jovem.
Eu quero viver, eu amo.
Mãe, não repreenda sua filha.

 

Então agora não faço mais nada?

Paulo Sousa, 07.10.22

Só pode ser uma manobra de diversão relativa ao episódio do Ministro bizarro. Ainda o caso anterior não tinha arrefecido e já o governo está a braços de mais uma violação da lei das incompatibilidades.


Foto O Setubalense 

Desta vez é a empresa da família de Pedro Nuno Santos, e que ele próprio detém 1% do capital, que beneficiou de um contrato de ajuste directo. A história está aqui bem explicada no Observador. Não faltarão devotos socialistas a, do nada, arrancarem explicações que nunca serão mais do que explicações para si próprios. A ilegalidade é óbvia e inabalável e a sanção prevista pela lei é a demissão.

Ficamos a aguardar por mais reacções.

Fezes ralas

Paulo Sousa, 07.10.22

Há uns dias, neste postal, quando me referia aos repetidos abusos do governantes socialistas que nos apascentam, usei como metáfora a escatológica expressão com que título o corrente texto. No momento da publicação até achei que poderia assim lançar uma rubrica que fizesse ecoar aqui no DO cada um dos frequentes atropelos do PS às nossas instituições, à nossa legislação e também à nossa vontade de pertencer a algo que poucas vezes se concretiza, e que é uma democracia razoavelmente decente. De forma a poder classificar o grau de desfaçatez de cada episódio, fazia sentido criar uma escala de dureza. Estou certo que esta existirá no mundo da medicina e que até seria fácil de obter num recanto da Internet, mas os compromissos assustam-me e por isso não prometo fazê-lo.

Prometo sim, e irei tratar disso em seguida, que no dia em que o PS deixar de nos governar, contarei aqui uma estória passada num bar em Kotor, no Montenegro, e de que deixo uma pista. O tipo do bar revelou-nos o equipamento para deixar de ser governado por esta elite serôdia.

Toda esta prosa para aqui trazer mais um caso. Desta vez é o recente Ministro Pizarro, que não consigo deixar de achar que se trata de um tipo bizarro. O dito cujo tomou posse como Ministro da Saúde, sendo ao mesmo tempo sócio-gerente de uma empresa de consultoria na área da saúde. Perante isto, não posso trazer aquela velha memória de Pina Moura, de que aqui falei também, e que segundo o qual a ética é a lei. Além da afirmação ser falsa, o caso do ministro bizarro constitui uma ilegalidade objectiva e em que a ética já foi atropelada há muitos quilómetros atrás. É o próprio que o assume.

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Foto DN

Os membros do governo têm de exercer as suas funções em regime de exclusividade. Tudo o que se possa elaborar à volta disto, não é mais do que areia para os olhos. É certo que muitos dos transferêncio-dependentes gostam de os ter bem areados, tal e qual como as panelas de alumínio de outros tempos exigiam às pessoas asseadas, mas por mais contorcionismos que consigam fazer com a respectiva coluna vertebral, isto é apenas mais um episódio de fezes ralas do governo PS.

Na fronteira da ciência

Paulo Sousa, 05.10.22

Estando em época das atribuições dos prémios Nobel, ouvi neste podcast uma explicação sobre o avanço no entendimento da mecânica quântica possibilitado pelo trabalho dos laureados com o Nobel da Física deste ano, que são Alain Aspect, John Clauser e Anton Zeilinger.

A explicação dada pelo Prof João Seixas à Rádio Observador é clara e torna acessível uma matéria que, como está para além da nossa vivência sensorial, acaba por ser algo abstracta.

Essa é também a força dos prémios criados por Alfred Nobel. Para além do reconhecimento público, dentro e fora dos meios académicos, para os premiados, é extremamente importante a vertente de divulgação científica para o grande público. Já aprendi qualquer coisa hoje.

São rosas, senhor

Paulo Sousa, 04.10.22

A táctica do PS em promover o Chega enquadra-se dentro da sua estratégia da manutenção do poder. Esse é um equilíbrio perverso que corrói a saúde da nossa democracia. O PS sabe disso, a táctica é deliberada, mas na sua hierarquia de valores a manutenção do poder abafa toda e qualquer poesia com que nos bombardeiam nos feriados do regime.

No fundo tudo assenta numa lógica de dar o prémio ao bandido. Não tenho tempo, nem quero abusar da paciência de quem lê estas linhas, elencando todos os excessos perpetrados pelos governos liderados por António Costa. Ignorando as fezes mais ralas, todos nos lembramos dos incêndios, Tancos, os inúmeros casos do ministro Cabrita, as golas anti-fogo, a TAP, toda a famiglia PS, o dislate da ministra da Agricultura quando respondia às críticas da CAP, o estado do SNS, da educação, mais recentemente a contratação do quase-assessor Sérgio Figueiredo, e por aí fora.

Há uns dias, o assunto foi a tentativa de apagar as actas de uma comissão parlamentar de forma a que se eliminasse a denúncia da chafurdice ética em que a ministra da Coesão se envolveu.

Dentro da tradição lançada por Pina Moura, segundo o qual a ética era a lei, a ministra Abrunhosa veio ontem tentar defender-se tentando garantir que a mulher de César é séria. Perante o título, e dentro da lógica famigliari socialista, o meu primeiro pensamento foi para que raio de novela se andaria a desenrolar nos Açores, que justificasse tal defesa da honra. Afinal não era nada disso. Pelo que soube todo o texto não passa de uma tentativa de recriar o episódio da Rainha Santa Isabel. O título foi “A mulher de César é séria”, mas podia bem ter sido “São rosas, senhor”. Talvez por falta de fé, ou de jeito, o milagre desta vez não aconteceu. O conflito de interesses é óbvio. Importa lembrar, que este não depende da consubstanciação do abuso ou aproveitamento, mas apenas dessa possibilidade. Mas isso é muita areia para a camioneta de alguns dos nossos governantes. Sim, os mais anónimos são genuinamente básicos e lerdos. Sentem-se protegidos e fazem o que lhes mandam. Outros, mais sofisticados, folgam deliberadamente a rédea, ou o cabresto no caso, aos mais toscos e ordeiros até porque sabem que cada novo abuso é mais uma embalagem de vitaminas que estão a dar ao javardo do Ventura. Que por sua vez, quanto mais forte estiver, mais sólido o PS fica no poder. É um ciclo perverso e vicioso. É uma verdadeira armadilha de que só o discernimento dos portugueses e alguma frescura da oposição nos pode salvar. Se for preciso um milagre, ele que venha, mas pelo menos livrem-nos dos rosas.

Como era a juventude

Paulo Sousa, 19.09.22

Dizer que Portugal mudou muito nas últimas décadas é uma redundante repetição. Basta abrir um jornal português dos anos 50 ou 60, ou um noticiário num arquivo digital para descobrirmos um país que não conhecemos. Esses registos retratam sempre, ou quase, a vida nos grandes centros, o mundo dos que viviam em frente das objectivas e dos repórteres que lhe davam voz.

Nas terras pequenas o mundo também mudou bastante. Cresci a ouvir histórias contadas pelos mais velhos sobre o seu tempo de juventude, ou de mocidade, como então se dizia.

A juventude dos meus tempos foi bem diferente da desses tempos e foi também diferente da dos jovens de hoje. Comparando com o que acontece hoje, há cinquenta ou sessenta anos nasciam bebés em barda. Também morriam bastantes, mas só os rapazes da minha terra eram suficientes para, com dois ou três anos de diferença, fazerem várias equipas de futebol. Agrupavam-se por território. Os da parte alta da vila, então aldeia, jogavam contra os das ruas centrais e também, à vez, contra os do lado do pinhal. A modalidade não interessava, podia ser futebol, ao pião, assim como à pedrada ou à cachaporra. Em grupos mais pequenos, corria-se acima e abaixo por terrenos cultivados, por pomares e encostas, e competia-se também pelo número de ninhos da passarinhos encontrados. Os ninhos de aves de maior porte, milhafres, corvos, rolas ou pegas-rabudas eram reservados a uma elite que normalmente vivia na periferia e que, por perder menos tempo aos pontapés na bola, se especializava no que, entretanto, se passou a chamar birdwatching. Se bem que, tendo arte para isso, rapidamente eles iam além da observação e, em podendo, capturavam-nos para os criarem, ou simplesmente os ter, em casa.

Às vezes, a miudagem quando apanhava as aves progenitores fora do ninho, colocava as crias dentro de uma pequena gaiola e deixava-a no mesmo sítio. Após a surpresa inicial, os passarinhos novos lá continuavam a ser alimentados através das malhas da rede. Depois, já maiores e mais gordos, seriam apanhados sem se correr o risco de que aprendessem a voar e lá fossem à vida deles. Mas as gaiolas eram escassas e muitos acabavam por se escapar.

Quem sabia a receita, cozinhava numa panela velha uma mistura secreta que incluía a goma que escorre de algumas ameixoeiras e pessegueiros, bocados dos elásticos das fisgas e outros ingredientes desconhecidos por mim. A partir daquela mistela faziam visgo. Com esta cola, capaz de ficar agarrada às mãos durante semanas e que parecia nunca secar, untavam umas pequenas braças de arbusto que colocavam junto a algo que atraísse a passarada. Podia ser uma tigela de água no Verão, um montinho de milho britado ou uma gaiola com as próprias crias lá dentro. Com um pouco de sorte, após três ou quatros insucessos, lá apanhavam um bicho preso pelas patas. Depois era guardado em casa, numa gaiola maior, junto de outros capturados antes.

No meu tempo de garoto, só um primo meu mais velho é que sabia fazer visgo. Cozinhava-o dentro de uma lata vazia. Com o fumo daquele bruxedo mal-cheiroso pintou, numa parede velha, um largo risco negro, que ali ficou até ter sido demolida. Nunca me deixou ir com ele aos pássaros, pois era mais novo e iria espanta-los. Era o que ele me dizia.

Só do lado paterno, o meu pai tinha sete tios. Lembro-me de ele contar, que certa vez uns primos mais velhos tinham alinhavado umas folhas de papel, e alinhavado mesmo com agulha e linha, onde anotavam a localização dos ninhos que tinham encontrado e que iam espreitando até as crias estarem a jeito de serem apanhadas para fazer uma patuscada. Um dia, os mais novos conseguiram surripiar os apontamentos aos mais velhos. Perante a abundância daquela informação “classificada” decidiram antecipar a colheita.  O final do relato deste episódio termina na rampa empedrada com seixos redondos, que na casa dos meus avós dava acesso ao pátio. Ali juntaram toda aquela pardalada, que depois de morta foi depenada e amanhada. Não me lembro se os comiam guisados, mas imagino que sim.

Desses relatos transparecia uma mistura de, arrisco-me a dizer, reflexo antropológico de caça em grupo, de paixão pela beleza daqueles pequenos seres voadores, de partilha exibicionista de conhecimento entre os pares, de busca pelo apuro da nobre arte cinegética e, obviamente, também um complemento de proteínas.

 

Diz-se que o povoado que antecedeu a aldeia que, entretanto, se tornou vila, começou num vale a pouco mais de um quilómetro do actual centro. Aquela zona sempre foi cultivada com novidades e hortícolas várias. É muito fresco todo o ano e graças aos poços que ladeiam o ribeiro que ali passa quando chove, é possível fazer regas até mesmo durante o Verão. Este vale era por isso muito frequentado por texugos, que se alimentavam durante a noite do melhor que havia à disposição. Era uma apoquentação. Não se podia ali ter nada ao ponto de, sempre que necessário, se organizarem umas capturas. A caçada, tal como o bicho, era nocturna e isso fazia a emoção do desafio subir uns furos. Pelo que ouvi, o bicho era esperado à saída da toca, onde se armava um laço. Depois era só esperar em silêncio. O bicho era desconfiado, podia demorar a sair e isso obrigava a uma espera interminável. Por serem muito difíceis de apanhar, só mesmo os mais exímios caçadores eram bem sucedidos. A conquista significava algum sossego nas ervilhas e nas favas de todos os que ali amanhavam alguma coisa e por isso, na madrugada seguinte o bicho era exibido pelas ruas, porta a porta, pendurado num pau, amarrado pelas patas. Em todas as casas de quem já tinha sido roubado pelos texugos, os caçadores recebiam uma moeda. Ou então, um copo de vinho.

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Foto Rafael Coelho de Sousa

Os miúdos de outros tempos só eram atraídos à casa onde moravam, para comer e dormir. Quando muito para evitar umas sovas, que inevitavelmente acabavam por acontecer. Os mais macios também corriam para casa quando alguma rixa lhe corria mal. Os outros desapareciam para as fazendas onde, ágeis e velozes, eram impossíveis de apanhar.

Foi essa geração que preencheu as fileiras da Guerra do Ultramar. Já adultos, com umas toscas e mal escalavradas tatuagens nos bíceps, ouvi-os falar do Tete, do deserto do Namibe, de Nova Lamego e de Teixeira Pinto, com o mesmo desvelo e conhecimento com falavam do Talho Redondo, da Fonte Falsa e das Eiras Novas. Sem o saberem, quando apanhavam bicos-de-lacre, tentilhões e cias, estavam apenas na pré-primária da caça às pacaças, zebras e gazelas com que a vida os haveria de fazer cruzar. Nesses relatos da minha infância também ouvi alguns contarem que também tinham caçado pretos, mas isso agora não se pode dizer.

Antes e depois do serviço militar, o ponto de encontro dessa geração foi sempre nas adegas de uns e de outros, onde o vinho nunca faltava, nem conduto para o ensopar. Nesses anos, alguns mais novos, fundaram o clube de futebol, que oficialmente só foi constituído depois do 25 de Abril. A primeira sede foi num palheiro onde os jogadores se fardavam antes dos jogos de futebol. O primeiro campo, com balizas de madeira caiada de branco, foi num rectângulo de terreno no meio dos pinhais que lhe deram o nome, pois desde então passou a ser o Estádio da Pinhoca.

Nos anos quentes que se seguiram à revolução, o campo de futebol foi alargado à custa dos proprietários vizinhos. Naquele tempo, aquela turba gadelhuda, de voz grossa, de calças à boca de sino e conhecedora das artes da guerra, foi, treino após treino, domingo-de-jogo após domingo-de-jogo, alargando o campo até que este atingisse as medidas oficiais. Em pouco mais de dez anos, aquele rectângulo foi murado e ali foram construídos balneários e bancadas.

O declínio começou com um incêndio já nos anos 90, que fez desaparecer o pinhal e as pinhocas que lhe davam o nome. Depois foram os incomportáveis e crescentes custos das inscrições dos jogadores de todos os escalões na Associação de Futebol. A isso seguiu-se uma mudança da Direcção, que coincidiu com a construção ali mesmo ao lado de um pavilhão municipal, pago com fundos europeus. Tudo junto ditou que o clube desistisse do futebol de 11 e passasse a competir apenas no Futsal. A marca ainda é a mesma, mas os sócios fundadores já quase todos partiram. A sede está forrada com fotos de equipas de muitos escalões e de muitos anos. Há uns tempos mandei imprimir e pendurar na parede as mais antigas de todas. Foram tiradas pelo meu tio e são anteriores à fundação oficial do clube. Retratam as condições em que se jogava. No inverno metade do campo era uma poça única e o resto era apenas lama.

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Foto Rafael Coelho de Sousa

Actualmente o velho campo está abandonado, cheio de erva e sulcado pelos peões dos serôdios dos tunnings.

Em várias dezenas de hectares em seu redor, o pinhal, que depois daquele incêndio, nunca mais voltou a ter pinheiros, vai receber agora um parque solar. O Plano Director Municipal, actualizado há uns dez anos, acode-nos para ordenar o território, para complicar a vida aos proprietários, mas foi incapaz de nos defender daquela agressão estética. É um facto consumado e os eucaliptos já andam a ser derrubados a eito. É claro que todos queremos e precisamos de energia limpa e renovável, mas com tantos milhares de hectares desocupados no interior do país, tinha de ser logo aqui? Serão mais de 20.000 painéis a ocupar mais de 20 hectares e irão preencher totalmente o espaço entre duas povoações.

Há poucas semanas, numa sessão de esclarecimento no Salão Paroquial lá explicaram ao povéu que a proximidade de uma central de transformação da eléctrica nacional, que até pertence a uma nação que não é a nossa, justifica esta localização. Dizem que é a logística e agora já não há nada que se possa fazer.

Eu, que também gostava de ser energeticamente independente, lembrei-me que se fossemos da têmpera daqueles judéus (era assim que se dizia, com acento no é) caçadores de pássaros dos anos 50 e 60, os painéis seriam metodicamente danificados à pedrada, mas como todos só queremos é paz e sossego, nada disso irá acontecer.

Quando eu comecei a sair à noite, ia para o café, nessa altura a sede do clube não era a minha onda, e ficava à espera que os meus amigos e conhecidos aparecessem. O tempo fluía e, entre umas cervejas e umas cigarradas, para quem fumava, lá iam aparecendo uns atrás dos outros. Dali seguíamos para outras paragens. O café era o ponto de encontro e vivia também desse tempo de espera.

Com a massificação dos telemóveis, aquele café deixou de ser ponto de encontro e até já fechou. Agora os encontros da malta nova combinam-se on-line, e é na sede do clube que alguns teimosos insistem em ver a bola depois do treino de Futsal ou do dia de trabalho. Fuma-se na rua, debaixo do toldo.

A miudagem mais nova já não brinca na rua pois passa o tempo livre agarrada aos écrans, e o único pássaro que conhece é o logótipo azul do Twitter.