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A normalidade continuará dentro de momentos

por Paulo Sousa, em 25.10.20

No início da pandemia escrevi aqui que, a que então começava seria a mais longa primavera das nossas vidas.

Não sabíamos o que estava para vir. Olhando para trás é óbvio que continuamos, mais do que tudo o resto, com dúvidas. Não sabemos a dimensão do que ainda falta passar até que regressemos às rotinas despreocupadas com as partículas em suspensão na atmosfera que nos rodeia.

Vendo um filme, as fotos de recordação de há um ano atrás sugeridas pelo facebook, um jogo de futebol do ano passado ou as melhores jogadas do Mundial de Rugby de 2019, dou por mim a reparar que faltam ali máscaras e como é que aquela gente pode estar tão indiferentemente despreocupada estando tão próxima. Como é que se pode fazer uma formação ordenada sem pensar na expiração dos restantes jogadores?

Nestes meses que passaram já mudamos, e foi por dentro. Um dia no futuro voltaremos a cumprimentar-nos com beijos nos rosto e com abraços sentidos e despreocupados, mas isso ainda vai demorar. Até lá, a preocupação em manter a distância física, em desinfectar as mãos, em filtrar o ar que respiramos vai ganhando raízes e vai-se acumulando como por camadas, ameaçando tornar-se numa memória muscular.

O choque perante os hábitos antigos, de apenas há ano, é muito mais perceptível ao ver um filme do que ao ler um livro. Os olhos desviam-se da acção e de relance procuram os irresponsáveis que não cumprem as regras, enquanto que num livro somos levados pela mão de quem o escreveu e só vemos o que nos é revelado. Vou por isso tentar ver mais filmes e ler menos. Não me quero esquecer do mundo onde vivíamos enquanto espero que termine este longo intervalo. Isto é apenas um desagradável intervalo.

Não sejam chatos, votem em mim

por Paulo Sousa, em 19.10.20

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A incúria do Estado

por Paulo Sousa, em 18.10.20

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Esta semana assinalou-se o terceiro aniversário do incêndio que destruiu 86% da área da Mata Nacional de Leiria.

Logo de seguida e por recomendação do fucus groupAntónio Costa fez-se fotografar e filmar na plantação de sobreiros num dos talhões afectados. Ao mudar de espécie, de pinheiro para sobreiro, terá pretendido corrigir um erro com mais de 500 anos. El Rei Dom Dinis enganou-se ao escolher pinheiros e finalmente alguém ajuizado iria corrigir o erro. Logo depois a natureza, essa ingrata, fez com que os sobreiros não sobrevivessem naqueles areais e, talvez pela afronta, o governo decidiu entregar-lhe então a gestão daqueles 9.480 hectares.

Depois disso, e pelo facebook, soube de várias iniciativas de grupos de cidadãos identificados como amigos do Pinhal de Rei, que foram travados na sua vontade de replantar um talhão que fosse, pois esse processo teria de obedecer a um plano do ICNF.

Neste terceiro aniversário um grupo de cidadãos assinou uma carta pedindo explicações ao governo sobre o plano de recuperação desta área que equivale a 54% do concelho da Marinha Grande.

É tal a desolação que evito por ali passar. Hoje, pela segunda vez desde o incêndio, regressei a este espaço de que guardo recordações maravilhosas. Olhando em volta, tudo isso parece mais distante do que nunca. É uma dor de alma.

Para quem o quiser entender como tal, esta é mais uma prova da incúria do Estado, da sua incapacidade em resolver os assuntos que advoga como seus.

Este vídeo é por isso dedicado aos que acham que aquilo que precisamos é de mais Estado.

Não irei eleminar o post, mas começo-o agora dizendo que este rumor já foi desmentido com credibilidade que considero suficiente.

"O programa da SIC Negócios da Semana já tem vários anos e o jornalista José Gomes Ferreira é já bem conhecido pela sua frontalidade e acutilância perante a governação socialista. É frequente que que vídeos das suas intervenções sejam partilhados em cadeia pelas redes sociais. É fácil calcular que alguém assim, descomprometido e bem articulado, incomode quem não lhe consegue responder com factos.

O Negócios da Semana é normalmente transmitido todas as quartas-feiras às 23:00, mas nesta semana que agora termina, e sem aviso prévio, deixou de ser transmitido. No site da SIC deixou de existir qualquer referência a este programa.

Pelo silêncio que rodeia este facto, pela ausência de explicações, todas as especulações são possíveis. Eu estou em querer que este será mais um degrau que se desceu. Estamos cada vez mais próximos do socialismo."

As tatuagens

por Paulo Sousa, em 14.10.20
- Porque é que certos homens gostam de tatuagens?
- Tatuagens? A que propósito vêm agora as tatuagens?
- Não sei, João, lembrei-me. Conheci um tipo que tinha uma nas costas daqui até aqui. É esquisito, não é?
(...)
- Ainda que fossem exibicionismo - continuou Guida - ou ridículo, ou feira de virilidades, se fossem só isso, enfim, que se lixassem as tatuagens. O pior é que estão carregadas de ritual, as tatuagens, carregadas de superstição. No fundo não passam de um ritual religioso para eternizar a autoridade. Ou os sentimentos, vem a dar no mesmo.
 
O Anjo Ancorado, de José Cardoso Pires
 
 

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"É professor e tem o corpo, o rosto e até a língua cobertos de tatuagens. Sylvain Helaine recorreu mesmo a cirurgia para que o branco dos olhos ficasse preto. É professor primário em Paris e mas já foi impedido de continuar a ser educador num jardim de infância francês depois de um pai ter reclamado que Helaine assustou o seu filho.
A história gerou discussão em França e com o novo ano lectivo Sylvain Helaine, de 35 anos, ainda dá aulas para crianças a partir dos seis anos e rejeita que o seu aspecto cause problemas e afirma que, após um choque inicial ao vê-lo pela primeira vez, os seus alunos acabam por se habituar à sua aparência."
Diário de Notícias
 
Tenho um amigo que garante que um dia, juntamente com a mulher barbuda, será atracção num circo como sendo o último caucasiano branco sem tatuagens.
Os apreciadores acreditam que a pele do corpo é uma tela para uma livre expressão artística e com ela permanecerão juntos até que a morte os separe, e mais 40 dias.
Outros aceitam mas só se houver bom gosto nos motivos tatuados. Outros ainda ficam incomodados com o mínimo traço, ou ponto tatuado.
Saber o que estará na mente de cada um de nós será sempre um mistério insondável, mas quão legítima será a queixa dos pais dos alunos do ensino primário e quão legítima será a defesa do professor conhecido como Freaky Hood que se queixa de discriminação?

"Os contribuintes ganham muito dinheiro com a energia, se alguém tem de pagar custos são os consumidores de energia."

 

João Galamba ontem na TVI a debater o projecto nacional de hidrogénio com Salvador Malheiro

 

 

Isto é um assalto

por Paulo Sousa, em 08.10.20

Desde o início da pandemia que a chamada “elite” socialista que nos governa, alterou o seu padrão de comportamento.

Já nos tínhamos habituado a que todas as esquinas e cruzamentos da cada vez maior e mais pesada máquina do estado, tivessem controlados pelos boys e girls que desde o tirocínio na jota nunca mais nada fizeram na vida. Até aqui sem novidade.

Mas a sacudidela nas frágeis contas pública causada pelo COVID deixou os postiços todos à mostra. A pandega socialista acaba sempre com mais um pedido de assistência financeira e eles, que são os mesmo da última vez, já viram este filme. Vivemos uma sequela de mau gosto de uma crónica de uma morte anunciada.

Já sabemos que eles vão apontar em todas as direções à procura de culpados e nos vão garantir que, tal como acontece com a diarreia dos leitões, cinco segundos antes de começar estava tudo impecável. Mas não estava.

O cheiro a fim de festa, e a antecipação do cheiro que se segue, levou a uma mudança de padrão de comportamento. Eles deixaram de disfarçar.

Começou com o relaxamento das regras para a distribuição da esmola aditivada a que chamam bazuca. Seguiram-se os alertas do Tribunal de Contas sobre o facilitismo à corrupção que essa mudança acarretava. O Presidente TdC foi oportunamente trocado por outro, já com saber de experiência feita (em ajudar os amigos do PS entenda-se) e hoje soubemos que a lei que impedia os familiares de governantes de poderem negociar com o Estado, foi alterada.

Eles sabem que correm contra o tempo e que depois da próxima falência nem o “melhor povo do mundo” (o actual PR faz parte da clique) lhes voltará a deixar pôr as mãos na gamela. O tempo urge, eles andam frenéticos e agora vale tudo.

Pela restauração da Freguesia de Matacães

por Paulo Sousa, em 07.10.20

A possibilidade de repor 600 freguesias, levantada há dias pela Ministra Leitão, cria um cenário capaz de me fazer repensar nas minhas irrefletidas críticas.

Em 2013 a Freguesia de Matacães, no concelho de Torres Vedras, foi integrada com as Freguesias de São Pedro e Santiago, Santa Maria do Castelo e São Miguel, dando origem à Freguesia de Santa Maria, São Pedro e Matacães.

Será que Matacães faz parte da lista das 600 Freguesias a serem restauradas? Quem diria que não ao desafio de ser candidato pelo PAN, a Presidente da Junta de Freguesia de Matacães? O cargo é já um slogan vencedor.

Continuo a não concordar com as restantes 599, mas Matacães merece ter uma Junta de Freguesia eleita pelo PAN.

Mais 600 freguesias onde o PS tem tradição

por Paulo Sousa, em 05.10.20

Segundo o Jornal de Negócios, o governo está a preparar a criação de 600 novas freguesias.

Da última vez que o pais foi à falência, os senhores que foram chamados para nos governar, decidiram exactamente o contrário. Segundo a Pordata em 2012 existiam 4260 freguesias e esse número foi reduzido para 3092. Verificou-se portanto uma redução de 1168.

Não sei quanto dos impostos que os nossos netos terão de pagar se poupou com esta redução, mas foi certamente bastante dinheiro.

A confirmar-se, esta medida vai permitir o Estado (as Juntas de Freguesias são a menor divisão administrativa deste) consumir mais uns largos milhões de euros por ano.
Esta reforma não faz por isso sentido, especialmente neste momento de tão grave crise financeira.

Sobre os critérios que definirão quais das freguesias extintas em 2012, irão regressar ao activo, não me surpreenderia que alguém tenha estudado as preferências políticas de cada uma das referidas 1168. Será que esta alteração não tem apenas como objectivo melhores resultados autárquicos para quem está a decidir?

A confirmar-se, não foi nada que não tenham já aprendido noutras paragens.

Compacto de notícias que se seguiram à confirmação de que a “bazuca” financeira de Bruxelas vinha a caminho.

1) A procuradora que ficou em primeiro lugar para o Gabinete da Procuradoria Europeia, órgão que vai supervisionar a fraude nos fundos, foi preterida pelo governo. A ministra portuguesa da Justiça, Francisca Van Dunem, vetou Ana Almeida e optou por José Guerra, que já integrou o Eurojust e trabalhou diretamente com Van Dunem no DIAP de Lisboa.

2) As CCDR, responsáveis pela distribuição de fundos europeus, foram partilhadas por PS e PSD, ao ponto de terem provocado uma mini-remodelação no governo para que Secretários de Estado fossem lá colocados.

3) Vitor Escária, figura opaca, consultor do governo para os fundos europeus enquanto se mantinha na administração de uma empresa grande beneficiária desses fundos, é agora chefe de gabinete do PM

4) O governo apresenta uma proposta de revisão das regras de contratação pública aplicável aos fundos europeus, que como muitos alertam, abre a porta à corrupção.

5) O presidente do Tribunal de Contas é uma das vozes que se levantam contra esta reforma das regras de contratação pública e é “despedido” pelo PM.

6) Será anterior a tudo isto mas é relevente o silêncio absoluto do PS, incluindo do seu secretário geral, sobre a rocambolesca história da deputada Hortense Martins e os fundos europeus.

É fácil de concluir que o regime esta a mostrar uma enorme resiliência perante todos os desafios da iminente falência deste governo socialista. Será apenas a quarta vez que isso acontece.

 

PS: Parte do post foi copiado da Susana Coroado.

Salvar a memória

por Paulo Sousa, em 02.10.20

Em Novembro de 2018, por ocasião do centenário do fim da Grande Guerra, o Município de Porto de Mós editou um livro de homenagem aos 214 portomosenses identificados até essa data como tendo estado nela envolvidos como combatentes. O lançamento do livro coincidiu com a inauguração de um memorial junto aos Paços do Concelho.

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No prefácio, pela pena do actual Presidente da Câmara Jorge Vala, o concelho descreve-se como “Um município de paz, que não esquece os que lutaram por ela”.

Cada um destes combatentes mereceu uma página inteira deste livro onde consta toda a informação que foi possível reunir. A recolha de dados foi extensa. No arquivo militar existe bastante informação, como o nome, data de nascimento, filiação, data de incorporação e de regresso, teatro de operações, ramo das Forças Armadas, posto, eventuais baixas hospitalares, condecorações entre outros detalhes. A estes dados acrescentaram-se algumas fotos cedidas pelos descendentes, postais enviados à família, alguns com fotos de corpo inteiro e escritos com caneta de aparo.

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No verso desta foto está escrito: “Mando esta fotografia junto a este grupo de moços vizinhos e meus amigos para as nossas famílias ver a nossas caras retratadas neste cartão.”

Pegando no livro encontram-se pequenos relatos como o de um louvor a alguém que durante um raid inimigo terá comandado um pelotão e, pela coragem e sangue frio terá incutido valentia aos subordinados suficiente para que o inimigo fosse repelido. Noutra página conta-se uma história de um combate marítimo que se fosse passada noutras latitudes daria um filme. Há também o registo de pelo menos uma deserção.

A maioria dos homenageados não têm fotografia, e de alguns conseguiu-se apenas a foto da respectiva lápide no cemitério militar em França. De outros conseguiu-se a cópia do assento do campo onde foram feitos prisioneiros.

De uma forma bastante ligeira tive oportunidade de colaborar na identificação dos descendentes de alguns destes soldados. Passou-me pela mão uma caderneta militar de um conterrâneo meu com o registo de dois castigos aplicados por ter sido apanhado a jogar às cartas.

Os números mecanográficos dos arquivos militares quase que esvaziam a humanidade de cada um destes nossos compatriotas. São 214 universos de vivências, de expectativas, de sujeição, de sacrifício e de vontade de sobreviver, de quem, tal como nós, não escolheu o país ou a época que lhes foi dada a viver. O entendimento que hoje temos da história é diferente do de há algumas décadas atrás, mas é uma tremenda perda que não se tenham registado relatos contados na primeira pessoa feitos por estes portugueses que, quase anonimamente, vestiram as ásperas fardas que lhes foram entregues e que reduziu cada um deles a um número.

É fácil de concluir que a falta de memória que caracteriza o nosso país é já um mal antigo. Recordo-me que na apresentação do livro, José Conteiro, o obreiro maior da recolha de dados na qual assentou a edição deste livro, acertadamente citou o Padre António Vieira: “Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”

Mas se já não é possível entrevistar estes combatentes, ainda é possível fazê-lo aos soldados que serviram na Guerra do Ultramar, e que foram muitos mais. Já existem alguns documentários mas é urgente registar os relatos dos combatentes ainda vivos do último grande conflito armado em que o nosso país esteve envolvido.

É comum que cada regime faça por esquecer o anterior, mas se nada for feito, a cada dia que passa, serão cada vez menos os que podem relatar o que foi para eles estar envolvido nesse enorme esforço feito pelo país e pelos seus cidadãos, sem juízos de valor sobre a justeza da guerra à luz dos dias de hoje. Qualquer telefone ou computador pode gravar uma conversa, mais ou menos formal, com ou sem guião, a cada um destes seres humanos que voluntariamente ou contra a sua vontade por lá andaram. O que viram, o que comiam, onde dormiam, o que lhes foi dado a fazer, o que se lembram das paisagens, das pessoas, da natureza, das deslocações, o que aprenderam?

Segundo o Talamude, quem salva uma vida, salva o mundo inteiro. Na mesma linha atrevo-me a acrescentar que quem salvar as memórias de uma vida, salva a memória do mundo inteiro.

Quem puder que o faça.

A SIDA e o Covid

por Paulo Sousa, em 28.09.20

Há umas décadas atrás, o vírus de que se falava era o da SIDA. Fazia capas de jornais e foi tema para filmes e músicas. O seu surgimento e propagação colocou o mundo a falar de hábitos sexuais com uma ligeireza impensável até então. Se no início era uma doença de homossexuais, de prostitutas e de drogados, acabou por contagiar figuras públicas que não pertenciam a esses grupos. Com o tempo passou a ser apenas uma doença associada a comportamentos de risco, comportamentos esses que, estando bem identificados, excluía facilmente quem os evitasse. Além de contraceptivo, o preservativo passou a ser equipamento de segurança.

Ao longo dos anos em que a SIDA foi o maior flagelo sanitário do mundo ocidental, não faltaram teorias que a associaram esta doença a castigos diversos. Para os moralistas era um castigo contra depravações várias, os simpatizantes do bloco soviético esforçaram-se por interpretar a ausência de dados oriundos das ditaduras comunistas com que se identificavam, como sendo uma doença exclusiva dos capitalistas.

A banalização do preservativo, juntamente com os programas de troca de seringas, acabou por ser uma forma efectiva de, arredando os juízos morais da equação, travar a propagação da doença. Por motivos culturais, financeiros e também religiosos este tipo de medidas não foram adoptadas nos países mais pobres e isso explica também porque é que o epicentro da doença se deslocou para África.

Foi nos países ocidentais, onde mais agitadamente se viveu o espírito do flower power do anos 60, que a liberdade sexual, muito ou pouco promiscua, foi mais refreada. Sendo uma doença associada aos referidos comportamentos de risco, acabou por motivar mudanças de comportamentos.

Nessa perspectiva o Covid, sendo menos mortífero é muito mais abrangente e impactante. É a fragilidade prévia de cada indivíduo que o coloca, ou não, no grupo de risco. Por mais banais que sejam as suas rotinas, o contacto com o vírus pode ocorrer com a maior naturalidade durante actos banais da vida social. Por comparação, este novo vírus já está a ter, e terá ainda mais consequências nos comportamentos de todos nós, do que o vírus da SIDA.

Depois do debate sobre as fronteiras de linguagem despoletado aquando da proibição do piropo, depois dos excessos que resultaram do movimento MeToo, o Covid é sem dúvida mais um duro golpe na forma como duas pessoas se podem aproximar e se envolver emocional e fisicamente, com especial relevo para quem esteja à procura de um relacionamento. Como cidadão amante da liberdade acho que estas repetidas e cumulativas restrições são perturbadoras.

Até o governo britânico, que normalmente consegue manter alguma sobriedade e mostrar alguma sabedoria, estabeleceu há uns meses atrás limitações ao contacto físico entre casais com relacionamento estabelecido, casados inclusive, que não residam juntos. Desde há poucos dias, essas limitações foram aliviadas e desde então já se podem beijar e tocar. No entanto, avisam as autoridades, parceiros em estágio inicial de relacionamento devem tomar especial cuidado. As expressões usadas foram “test the strength of his relationship” e logo depois “Test really carefully your strength of feeling”.

As reacções não se fizeram esperar. Quando um governo ou regime se propõe a regular detalhes tão pessoais como estes da vida dos seus cidadãos, a pergunta que se coloca é onde fica a fronteira entre esses dois conceitos? O que distingue um relacionamento estabelecido de outro em estágio inicial? Quais os critérios que se devem usar para se saber a que categoria se pertence? Claro que a resposta acaba sempre por ser: Usem o bom-senso, o que sendo uma resposta aceitável mostra também que a regra é toda ela desnecessária, pois o bom-senso, e por definição, não carece de ser legislado.

Faltou ainda que alguém lhe perguntasse se é legal ter um caso de uma noite só, ou o que recomenda a quem aspira simplesmente a ter sexo recreativo com alguém conhecido, ou mesmo desconhecido. Será que a Deputy chief medical officer pode sugerir alguma posição específica que considere mais segura para o acto? E, além do preservativo, existe algum outro equipamento de segurança que recomende?

A actual pandemia é um cenário de sonho para quem esteja colocado na posição de decidir pelos outros e que goste de o fazer, assim como para quem não consegue tomar decisões e prefira ser instruído. Para os demais, os que têm a ilusão de ter controle sobre a própria vida, para esses, tudo isto é de facto um pesadelo.

O regresso da ideologia

por Paulo Sousa, em 24.09.20

A chegada da IL ao hemiciclo permitiu o regresso do saudável e saudoso debate ideológico ao espaço público.

Durante demasiado tempo, sempre que dois políticos se encontravam à frente das câmaras de uma televisão discutiam apenas a espuma do dia. Fora disso, o melhor que conseguiam era garantir que conseguiriam vedar as sempre incontinentes contas públicas, o que nunca foi mais de que uma redonda mentira.

Como já foi aqui referido pelo nosso colega José Meireles Graça, há poucos dias na SIC Notícias debateu-se a proposta da IL para a adopção de uma taxa única de IRS. Além da proposta em si havia como pano de fundo as declarações proferidas pelo Dr. Anacleto no seu programa da SIC. O deputado da IL, João Cotrim Figueiredo, acusou-o nas redes sociais de ter mentido e deturpado o conteúdo da proposta de flat rate. Esse foi o tema de arranque do debate. No decorrer da troca de argumentos o deputado bloquista enredou-se nas suas fintas semânticas e, provavelmente sem dar por isso, confirmou a mentira do seu chefe. Nada de novo para um conselheiro do Estado Português.

Olhando com atenção, dá para apreciar ainda a forma como o jovem delfim de Louçã afirma que esta proposta não é esta proposta, porque 'eu é que sei bem o que lhe vai na alma'. Esta é uma técnica que consiste na recusa do debate e avança para o julgamento moral. É populismo mas do bom. Se fosse usado pela direita seria asqueroso.

Eu, que gosto de enquadramentos históricos, gostaria de lembrar ao mano mais novo do Daniel Oliveira (aquele que faz rir) que nesta conversa ele assumiu a defesa da situação, ou seja, a defesa de um sistema fiscal que lhe permita (sem óculos escuros ele não consegue esconder a chispa) acabar com os ricos, mas que na prática nos empobrece a todos.

Já aqui referi que os partidos da esquerda unidos à volta do OE, constituem as forças conservadoras da actualidade. O BE e o PCP, os acólitos do PS, são tão coerentes como um apenas um revolucionário conservador poderá ser. Admito que tenham consciência do ridiculo, mas não conseguem resistir a uns biscoitos de reforço positivo.

Os irrecuperáveis vinte anos de estagnação económica, que marcarão estes anos da nossa vida, estão ligados a este modo de esmifrar a riqueza produzida pelos portugueses.

Li não sei onde que o debate político deverá trazer sempre à liça o passado, o presente e o futuro. Estes três diferentes tempos não deverão ter sempre o mesmo peso nas decisões, mas nenhum deverá ser humilhado. Os socialistas que há décadas nos governam são uns amantes obsessivos do presente. Eles desprezam o passado e odeiam o futuro. De facto, eles são os inimigos do futuro. Para os socialistas, em troca do poder imediato não existe nenhuma questão de princípio que não seja negociável. Manter o poder é a sua ideologia. É o seu alfa e o omega. Por ele, tudo.

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Os habitantes dos bairros sociais abdicariam facilmente da sua "vista maravilhosa" para poderem ambicionar a que os seus filhos pudessem ter uma vida melhor que a deles.

Também podia dizer-lhes que não tem médico de família, nem a dentição completa, nem aquecimento, nem férias, mas não se queixem pois têm uma "vista maravilhosa".

Para memória futura

por Paulo Sousa, em 17.09.20

Jovem do futuro,

Escrevo-te este texto no mês de setembro do ano 2020. Poderia dizer que te escrevo a partir do ano da pandemia, tal como se estivesse em 1939 te poderia dizer que te escrevia do ano da guerra, mas como esta durou até 1945, e por não te querer faltar à verdade, digo-te apenas que te escrevo do ano em que a pandemia foi declarada.

Olhando para o que vivemos desde o início da passada primavera, posso contar-te que tudo começou do outro lado do mundo, lá no extremo oriente onde as doenças respiratórias são frequentes. Mas na Europa desde há cem anos, desde a Gripe Espanhola, que nada desde género cá chegava. Os sofisticados níveis sanitários desta ponta da Eurásia explicavam a nossa falta de comparência nessas ninharias que só afligiam os países do terceiro mundo. Apesar dos primeiros casos terem já sido registados no final de 2019, a nossa surpresa foi total.

Este vírus, um Corona, apresentou-se com um leque de características que abalaram o mundo em que vivíamos.

Se consultares os dados de mortalidade desta época poderás achar que estou a exagerar. Escrevo-te no início do que será a segunda vaga da pandemia, mas de facto até agora a mortandade não é comparável a outras pestes e pragas. Mas não te esqueças que noutros tempos estes fenómenos, por não terem explicação racional, acabavam por serem justificados como sendo castigos transcendentais. Como nos dias de hoje a ciência já praticamente expulsou o transcendental da esfera de cada indivíduo, ficamos sem saber bem o que pensar.

Importa lembrar que a pandemia anterior deixou o nosso país numa quase guerra civil, a que se seguiu uma longa ditadura. A actual democracia é já uma quarentona que apesar de ser democraticamente jovem já tem rugas, vista cansada, pernas pesadas, triceps flácidos e no cabeleireiro manda disfarçar os cabelos brancos. Mesmo sem ter com que pagar o serviço insiste em deixar gorjeta. Três falências financeiras já ninguém lhas tira do curriculum.

Ainda antes da pandemia, um quinto dos portugueses vivia na pobreza. Os pobres são os esquecidos do regime, passam frio de inverno, têm ratos a passear à porta da cozinha e não têm férias para gozar. Os valores humanistas apregoados pela esquerda que governa contrastam com esta realidade que persiste.

Uma vez por ano celebra-se a liberdade e finge-se que os pobres são livres. O que não é verdade, pois estão aprisionados pelos impostos que incidem sobre os seus contratos de trabalho e que, de tão pesados, afastam possíveis alternativas de emprego ou o emprego em si mesmo. Os governos garantem que se conseguirem cobrar mais impostos irão resolver o problema e assim vivemos num eterno ciclo de impostos altos e de pobreza duradoura que se autoalimenta.

Os partidos mudaram mas para pior. Trocaram os operários por minorias identitárias escolhidas a dedo. Outros preferem os animais às pessoas. Mas nenhum representa os pobres, que não sendo poucos, são uma minoria demasiado grande para ter importância. A abstenção é coisa de gente deplorável e os jornais estão tão falidos quanto a classe dominante podia desejar.

As falências de bancos dos últimos anos foram somente parte de uma imensa destruição de riqueza que apenas teve consequências nas algibeiras dos contribuintes que através do Orçamento de Estado tiveram de assumir os seus custos infinitos. A acompanhar este empobrecimento colectivo, os serviços públicos degradaram-se.

Quem tiver dinheiro para isso, paga para ter assistência médica prestada por privados. Os servidores públicos têm um sistema autónomo de saúde que lhes garante serem assistidos pelos mesmos privados. A restante população sujeita-se a listas de espera inexplicáveis e até a morrer enquanto aguarda por uma cirurgia que não será feita a tempo.

A justiça inverteu o ónus da prova na cobrança de impostos e é vergonhosamente impotente perante os bem identificados criminosos que nos roubaram a todos.

Por sorte calhou-nos este canteiro no fim do mapa, quase sempre fora das rotas dos impérios continentais e que permitiu que sejamos uma nação antiga. A geografia arredou-nos assim do centro das disputas de poder e também fez do nosso país um Estado-Membro da União Europeia. É em resultado da geografia, e não por qualquer mérito próprio, que recebemos milhões de metros cúbicos de impostos cobrados nos países ricos do norte e do centro da UE. Enquanto o fluxo de dinheiro europeu não for interrompido o regime irá aguentar-se. De resto lidamos bem com a mediocridade de quem aceita as esmolas como modo de vida.

Foi neste cenário de total dependência económica e de marasmo moral que entrámos nesta pandemia.

No início sabíamos apenas que o vírus era, e continua a ser, muito contagioso. Pode ter até duas semanas de incubação e mesmo antes de a pessoa infectada sentir qualquer sintoma pode estar já a contaminar quem o rodeia. Qualquer amigo, apenas conhecido ou até desconhecido que não apresente qualquer sintoma, pode ainda assim estar infectado e contagiar-nos. Sabendo isso é normal que desconfiemos de todos. Por isso, por medo, banimos o contacto físico, deixamos de dar apertos de mão, beijos no rosto e também de dar abraços. Quer dizer, não totalmente, pois por vezes transportamos o vigor com que queríamos esmurrar esta doença e convertemos esse impulso num abraço inteiro e apertado a alguém que nos é querido. Há coisas e momentos pelos quais continua a valer a pena correr riscos.

Será que, depois de terminada esta provação, nos voltaremos a cumprimentar como antes?

O medo do contágio, e as primeiras imagens chegadas da região de Milão com camiões militares cheios de caixões, levou a um auto-confinamento tão rápido que antecedeu até a declaração do estado de emergência pelo governo. A brusca mudança de hábitos retirou os clientes dos restaurantes, cafés, bares, salas de cinema, discotecas, espaços de espectáculo e de cultura, levou ao cancelamento de festas populares, de festivais de verão, de viagens aéreas e de estadias turísticas. O tráfego aéreo foi reduzido em mais de 90% e os aviões ficaram estacionados nos aeroportos. A quebra de riqueza que resultou desta paragem brusca foi imediata e ainda não sabemos ao que nos irá levar.

Quem por razões profissionais e ou financeiras o pôde fazer, ficou em casa. As famílias passaram muito mais tempo juntas. Essa mudança fez com que algumas ficassem mais unidas, mas outras, e pelo mesmo motivo, desfizeram-se.

Os profissionais de saúde foram os primeiros a lidar directamente com o pesadelo. O norte de Itália foi o primeiro grande foco europeu. Os médicos e enfermeiros que estiveram na linha da frente tiveram de recorrer aos protocolos da medicina de guerra, em que por falta de equipamentos suficientes tiveram de definir critérios de escolha para prestar socorro a um jovem saudável deixando de lado um velho, ou até um jovem não saudável. Os ventiladores tornaram-se no aparelho mais desejado. Em resposta a isso e em poucos dias milhares de engenheiros colaboraram on-line para desenvolver novos modelos de fácil produção e de menor custo. Excluindo egoísmos pontuais, respirou-se um sentimento de partilha e de união perante este este inimigo invisível.

As escolas passaram a funcionar à distância através da internet, algo impensável há poucos anos atrás. Mas as queixas desta solução foram muitas. Demasiados alunos não tinham forma de assistir e, como sempre, os mais pobres ficaram em desvantagem. Excluindo egoísmos pontuais, os professores mostraram espírito de missão. Deram o seu melhor para não deixar os seus alunos sem aulas. As aulas não presenciais exigiram-lhes muito mais horas do que seria necessário no mundo pré-covid. Os alunos adaptaram-se igualmente. As redes sociais colmataram parte da ausência forçada, mas demasiadas coisas no mundo escolar foram interrompidas.

Durante o confinamento, as varandas dos prédios urbanos ganharam uma nova vida. Dali se aplaudiu em reconhecimento os sacrifícios dos profissionais de saúde, dali se cantou em coro com desconhecidos e dali se fizeram incríveis concertos para os vizinhos igualmente aprisionados. Quando nos emocionámos perante os vídeos incríveis de eventos avulsos que chegaram até nós pelos ecrãs dos telefones e dos computadores, descobrimos que se conseguimos colaborar em manifestações que não são mais do que arte espontânea e colectiva, se conseguirmos sorrir enquanto este pesadelo nos agride, então ainda há motivo para ter esperança.

Houve também uma outra casta de heróis quase esquecida. Os supermercados continuaram a funcionar, as suas prateleiras continuaram a ser abastecidas com verduras produzidas pelos agricultores e transportadas pelos camionistas. Estas foram as humildes obreiras que para continuar a abastecer a colmeia não se puderam dar ao luxo de se fechar em casa nem de ir cantar para a varanda. Sabe Deus o medo com que tiveram de lidar para que os circuitos de abastecimento não fossem interrompidos. E assim evitaram o caos. Se alguém lhes perguntar o que fizeram ou porque o fizeram, dirão apenas que fizeram o que tinha de ser feito, e isso para mim é a definição de coragem.

Pouco tempo depois, entendemos que o confinamento nos poupava da doença, mas em contrapartida arrastaria multidões para o desemprego e para a fome. Perante isso digerimos o risco e seguimos em frente. As máscaras de protecção tornaram-se omnipresentes e passaram a esconder os dentes careados e falhos dos pobres assim como os lábios das mulheres bonitas. Com elas postas, com os seus elásticos nas orelhas, aprendemos a sorrir com os olhos.

Triste foi ver os nossos governantes a fingir que sabiam o que fazer. É claro que não sabiam, nem podiam saber. Ninguém nunca poderia estar preparado para uma pandemia como esta. Mas como o fingimento é o seu modo de estar na vida e como só sabem representar, acabaram por dizer coisas completamente opostas com poucas horas de diferença, sempre com o mesmo ar confiante.

Felizmente em grande parte da Europa, é-nos permitido gozar com os políticos. Os políticos portugueses, em particular, são incansáveis em ridicularizar-se a si próprios, assim como ao regime de que fazem parte e que representam. Às vezes são tão risíveis que parecem estar apenas apostados em nos entreter pelas gargalhadas que provocam. Acabam até por nos aliviar da pressão causada pela incerteza. Se se assumissem como palhaços, que é o que são, perderiam a graça.

Gostava de saber como são os líderes do teu tempo. Nunca li nenhuma história de ficção científica em que se vivesse em democracia. Será que os tiranos conseguirão triunfar?

Enquanto isso, e indiferente a tudo isto, a natureza manteve o seu curso. Os pássaros continuaram a nascer nos ninhos, e a cantar nas árvores. Os ratos e os corruptos continuam longe da extinção. Os golfinhos continuam a deslizar pelas águas do mar onde os microplásticos são cada vez mais. E os bebés continuam a nascer. Como eles irão querer melhorar o mundo que receberam, continuamos com motivos para ter esperança.

Eu, continuo a questionar-me se a beleza se esgota nos olhos de quem a contempla e nos ouvidos de quem a escuta ou, pelo contrário, reside nas mais pequenas partículas das coisas belas. Se o nosso código genético é 98% idêntico ao dos macacos, em que escala atómica é possível definir uns olhos bonitos?

O pôr do sol, esse, continua a ocorrer a oeste. Ao longo da maior parte da linha da costa continental do nosso território, isso faz com que o sol desapareça no mar. Poder assistir a esse momento fugaz continua a ser um privilégio, desperdiçado com indiferença.

Ainda sobre a educação para a cidadania

por Paulo Sousa, em 06.09.20

Já depois de o assunto aqui ter sido postado e comentado, tropecei num desabafo no Facebook em que uma defensora da obrigatoriedade da frequência da referida disciplina se queixava de ter crescido numa aldeia católica, retrógrada e patriarcal e que sabia bem o que lhe tinha custado emancipar-se, acrescentando que: “O que teria sido de nós, sem uma escola pública aberta e democrática?” Quando comecei a ler esta frase achei que ia sair algo do género: “O que teria sido de nós, sem as aulas de Educação para a Cidadania?”

Ora se os efeitos de uma emancipação numa terra pequena como a descrita possam ser traumáticos, o que em certas combinações de comunidade e familia admito que o possam ser, isso, o trauma, não legitima que se possa ser hoje tão impositivo como impositivo era a situação anterior.

As mentalidades não se mudam de um dia para o outro a toque de decreto de lei e ameaça de polícia, antes pelo contrário. Será muito mais eficaz ambicionar por uma evolução serena e saber esperar. Não o fazer equivale a protagonizar um comportamento simétrico ao do radicalismo que se quer combater. Se as ideias que estão em causa são válidas e sólidas, o que não é o ponto do meu texto, acabarão por naturalmente se impor.

Muros que unem

por Paulo Sousa, em 05.09.20

Há um concurso televisivo em curso que se correr bem será uma excelente promoção para o meu concelho e para o maravilhoso e pouco conhecido Parque Natural da Serra d'Aire e Candeeiros. Não que eu o queira ver atulhado de gente, mas não consigo ficar indiferente à sua paisagem entrecortada pelos muros, erguidos geração após geração, numa relação milenar de equilíbrio entre o homem e o ambiente.
Há um número de valor acrescentado para apoiar esta candidatura. Quem gostar desta foto e/ou do Parque e dos seus muros, sabe bem o que pode fazer.

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Aquela concavidade na foto é a Fórnea de Alvados, também conhecida por Cova da Velha e tem um diâmetro de mais de 600 metros.

É, sem dúvida, mais um motivo para amar Portugal.

 

O futuro ontem

por Paulo Sousa, em 04.09.20

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Andar à boleia

por Paulo Sousa, em 03.09.20

Andar à boleia, no seu sentido literal, está fora de moda, diria mesmo em vias de extinção.

Um tio meu que estudou em Lisboa era assim que ia e regressava. Esta foi durante décadas uma forma comum de um jovem se deslocar pelo país. Viajava-se sem despesa e em troca fazia-se companhia ao condutor que assim tinha alguém com quem conversar. Com o seu apurado sentido estético, o meu tio deixou-nos um incrível espólio fotográfico, no qual consta uma fotografia que nos transporta para os anos 60, ali à beira da estrada para Lisboa que na altura ainda passava à frente do Mosteiro de Alcobaça.

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Foto Rafael Coelho de Sousa

Várias décadas mais tarde, a boleia continuava a ser uma forma regular de transporte para gente mais nova. O meu irmão e o meu primo, uns anos mais velhos do que eu, quando estudaram em Lisboa era também assim que iam e vinham a casa no fim de semana. De cada boleia traziam uma história diferente, quase sempre divertida. Pelo menos era divertida a forma como a relatavam.

Num verão, no final dos anos 80, fizeram-se à estrada em direção à Suíça. Iriam apanhar morangos para depois gastar o dinheiro dos morangos num Interrail pela Europa. Esse era o plano. O que aconteceu foi diferente e, apesar de terem chegado a Geneve, a oportunidade de emprego não se concretizou. Os morangos, esses, foram apanhados por outras mãos ou então comidos pelos pássaros. As parcas poupanças que levavam mal lhes permitiu chegar a casa, cheios de saudades de um prato de sopa, de um banho e de, finalmente, poderem dormir descalços. Trouxeram dois ou três rolos de 24 fotografias para revelar e inúmeras horas de relatos de episódios que me fizeram concluir que já conhecia todos os cruzamentos de nossa casa até ao Lago Leman. Importa lembrar que neste tempo ainda não existiam telemóveis e, durante a viagem, as notícias que chegavam a casa tinham a forma de um postal ilustrado com uma semana de atraso. Além disso terão feito dois ou três telefonemas a partir de cabines telefónicas, ávidas sorvedoras de moedas de elevado valor cambial.

No dia em que eles partiram, já depois de terem apanhado a primeira boleia de casa até à EN1, lembro-me do meu pai ter dito que eles iriam viver uma aventura, o que foi uma insuficiente tentativa de conforto das preocupações da minha mãe. Não sei quando ouvi isso lá por casa, mas mais que uma vez foi assunto a máxima de que os filhos são, ou devem ser, criados para o mundo e não para os seus pais, o que pode parecer um detalhe mas não o é.

Uns anos mais tarde chegou a minha vez de ir e vir à boleia para Lisboa. A distante aura de aventura de ir para a beira da estrada nacional de polegar estendido tornou-se realidade. De cada viagem sobrava uma estória completamente diferente da anterior. Era como tirar bombons coloridos à sorte de dentro de um pote. Os sabores variavam mas eram sempre agradáveis. Desde automóveis topo de gama até carros que hoje seriam imediatamente apreendidos na inspecção, passando por camiões de mercadorias, posso dizer que me calhou de tudo um pouco. Apanhei boleias de dia, de noite, à chuva e com sol e, literalmente, do Norte ao Algarve.

Ninguém que circule a 120 km/h pára para dar boleia, por isso importa escolher uma zona onde os carros circulam devagar. Essa lógica torna (ou tornava…) as portagens num bom local. Normalmente no final da semana quando regressava a casa apanhava o 45 da Carris até ao Prior Velho, e seguia a pé até à extinta portagem de Sacavém, onde todos os carros que seguiam para norte tinham de parar.

Quando o destino final de quem apanha boleia era diferente do de quem a dava, importava saber o sitio onde sair. Por vezes a ligação a pé até chegar a uma zona onde se pudesse apanhar a boleia seguinte poderia demorar algum tempo e obrigar a caminhar uns quilómetros adicionais. Ao andar à boleia não se pode ter um horário rígido. Pode ser comparado a um velejar pela estrada fora, em que tanto se apanha vento pela alheta e mar direito como vagas altas e marés contrárias. Tenho saudades de não ter uma hora para chegar ao destino.

Um dia, antes de um período de exames, saí de casa pela manhã para ir para Lisboa começar um daqueles retiros que quem adia o estudo para a semana anterior às frequências bem conhece. Antes de almoço já tinha chegado ao destino que era São Domingos de Benfica, a poucos metros da Buraca. Quando tentei abrir a porta reparei que tinha deixado a chave em casa. Azar do caraças. Regressei ao Rossio pela linha de Sintra, meti uma bucha num tasco na estação, apanhei o 45 até ao fim da linha no Prior Velho, segui a pé até à portagem, novamente boleia até casa onde tinha ficado a chave do apartamento. Repeti depois o trajecto da manhã e cheguei finalmente a casa, à hora de jantar. Com 400 km distribuídos por três boleias podia finalmente começar a estudar.

Um dos episódios mais memoráveis que tenho com boleias passou-se durante uma ida ao Porto para assistir ao concerto que os Pixies deram no Coliseu nos idos de 1991. O Blitz classificou-o então como o concerto do ano.

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O concerto foi de facto incrível mas não consigo desligar as memórias que dele guardo do bouquet dos diferentes imprevistos que adoçam a boca de quem aprecia sentir-se como uma rolha a flutuar no oceano que é a vida.

Desta vez éramos três e o local que escolhemos para pedir boleia não era nada favorável. Após algum tempo lá parou um carro mas só podia levar um de nós. Não quisemos perder a oportunidade e por isso seguimos separados. Tínhamos assim o desafio adicional de nos encontrarmos no Porto, cidade que desconhecíamos. Neste tempo os telemóveis eram ainda coisa de ficção científica.

Os dois restantes, eu e o outro companheiro, conseguimos seguir viagem um pouco mais tarde. A nossa boleia terminou logo no final da ponte da Arrábida. O carro seguiu para Braga e nós seguimos a pé. À hora marcada lá entramos no Coliseu dos Recreios e, quase como se tivéssemos combinado, encontramos o nosso tresmalhado companheiro de viagem no centro da plateia, mesmo durante a hora do tormento. Não consigo deixar de ouvir Pixies sem recordar as vagas alterosas daquelas horas.

Terminada esta provação seguimos, em modo de bola de flippers, batendo aqui, acendendo luzes ali, uns finos acoli, um petisco acolá, quase até desaguar junto ao Douro. Importa lembrar que isto se passou num tempo em que não havia voos low cost, nem booking, nem camones. A onda não era má mas em alguns recantos também não era muito boa.

E para lá andamos, noite fora até que chegou a hora de procurar um canto para pernoitar, o que é sempre uma matéria paracientífica. Não podia ser num canto muito central, porque isso não existe, nem muito obscuro, porque já estavam ocupados. Após várias tentativas, acabámos por nos estender ali à frente, dentro de uma embarcação estacionada numa das rampas de acesso ao rio. Não me recordo do frio, mas da humidade sim.

Para o regresso, calhou-me seguir a solo. Por desconhecimento do terreno não sabia onde pedir boleia. Alguém me deixou na última saída antes da portagem dos Carvalhos e segui a pé. Depois de um bom bocado de polegar esticado sem conseguir o merecido transporte de regresso avistei um camionista sozinho a mudar um pneu, tarefa que é sempre mais fácil quando feita por dois. Depois de me ter voluntariado a dar uma ajuda não há como negar uma boleia. E assim, foi dentro de um TIR de 20 toneladas acabado de carregar no porto de Leixões, que terminou a aventura.

Um minuto antes de um carro parar para nos dar boleia é impossível antecipar qual será o nível e o tema da conversa que se irá desenrolar, e nessa incerteza encerra-se parte da magia. Sem se confiar num desconhecido nada disto é possível. Actualmente somos todos muito mais desconfiados, e também isso explica que andar à boleia esteja em vias de extinção. Há para aí umas aplicações de partilha de trajectos mas mais não são que uma vaquinha das despesas com avaliação mútua dos respectivos users. São coisas diferentes.

Quem já teve o privilégio de, em locais recônditos, sair fora dos circuitos turísticos e tropeçou nos acasos das viagens concordará com uma das mais repetidas conclusões dos viajantes do improviso. A esmagadora maioria das pessoas são boas. É da natureza humana sentir empatia por um estranho que viaje em paz e que necessite de ajuda. É claro que todos somos diferentes, e isso é positivo. Mas para uma imensa parcela da humanidade o conforto, a previsibilidade das rotinas e do planeamento é imprescindível. Não só, mas também por isso a minha conclusão é que existe demasiada gente que teme a liberdade.

A História devida de um dos nossos leitores

por Paulo Sousa, em 31.08.20

Na sequência do meu texto de há dias, o nosso leitor que se indetifica por o cunhado enviou num comentário a sua História Devida. O relato e o episódio merece um destaque que não teria se ficasse apenas como um comentário. Por isso aqui fica ela, com o devido agradecimento ao cunhado pela sua partilha.
Um abraço

"Dois anos depois do meu pai nos ter deixado naquela pequenina casa daquela ainda mais pequenina aldeia incrustada no sopé da grande serra; à minha mãe, a mim com quatro anos e às minhas irmãs, uma com cinco e outra em ventre materno e ter abalado em demanda de terras africanas onde se constava que era só abanar a árvore, embarcávamos no “Mouzinho de Albuquerque” numa viagem que juntaria a família em Angola, onde, tudo o indiciava, o meu pai soubera com arte e proveito abanar devidamente a árvore.

O navio era velho e pequeno, navegava devagar e às vezes até parava. Essa seria mesmo a sua última viagem. A minha mãe enjoou logo ao início e a minha irmã mais nova, essa embarcou já doente mercê de uma malga de azeitonas galegas que a tia Rosa lhe dera, pitéu a que a miúda não resistia. Esteve mesmo em risco de vida, mas escapou. De modo que com essas duas de cama, foi a minha irmãzinha mais velha com os seus responsáveis sete aninhos a ter de assumir a responsabilidade por todos, mais concretamente por aquelas duas inúteis, que eu sabia bem tomar conta de mim e não dava trabalho a ninguém. Tinha liberdade, por mim estava tudo bem e não carecia de mais nada. Assim, corria o barco de popa à proa, à minha maneira sem ser minimamente molestado com parvas recomendações disto e daquilo, e ao contrário da minha mãe e irmãs que se lamentavam que aquilo nunca mais acabava, só pedia que tivessem razão porque não me incomodava nada viver o resto da minha vida lá dentro.

Ia também nessa viagem um contingente militar, desses que o Governo mantinha nas colónias, com quem no primeiro minuto travei conhecimento e por quem ainda mais rapidamente fui adoptado como mascote. Andava com eles para todo o lado, comia com eles, via-os beber vinho pelos garrafões, jogarem às cartas e cultivar-me-ia a preceito na sublime retórica do palavrão. Enfim, a minha felicidade era plena e só me queria ver grande depressa para envergar aquela bela farda de caqui amarelo e combater em todas as guerras deste mundo, porque guerra foi a palavra mais ouvida na minha infância. Nasci em 40 e estava-se agora em 47.

Declinava um certo dia quando eu me passeava por ali, frustrado por não ver ninguém, quando reparo num militar que de costas para mim debruçado sobre a amurada contemplava o mar, perdendo-se sabe-se lá em que estranhas divagações. Era um homem grande, ainda o estou a ver. Corri para ele, contentíssimo pelo ocaso da minha solidão ter chegado ao fim, e ele quando me viu pareceu ficar muito surpreendido. Baixou-se ao meu nível e vi-o olhar receoso para todas as direcções. Ninguém nas imediações. Então soergueu-se, comigo segurado pelos braços, estendeu os dele comigo nas suas mãos, colocou-me fora o barco e disse-me numa voz rouca e segredada, que ainda hoje estremeço quando a recordo:

- E se eu te deixasse cair?

Não soube o que senti. Olhava para baixo, para o que me parecia um abismo interminável, e na medida em que a escuridão que já caíra me permitia, via água ondulante lá em baixo. Então algo explodiu na minha cabeça pedindo-me para não gritar. Depois ele jogou comigo. Largava-me e apanhava-me, largava-me e apanhava-me. Por vezes jogava-me mais acima, deixava-me cair e apanhava-me no último instante. Subitamente soube que me ia deixar cair. Vi-lhe nos olhos a decisão, até lhe senti o afrouxar das mãos. E exactamente nesse momento, um barulho fez-se ouvir mais acima, que se foi gradualmente tornando mais distinto à medida que se aproximava. Dois marinheiros vinham por ali conversando. Provavelmente com medo que eu gritasse ao ser largado, recolheu-me rapidamente, pousou-me atabalhoadamente sobre o tombadilho e fugiu a correr para a parte oposta.

Nos quatro dias restantes para término da viagem nunca mais saí do nosso cubículo, pomposamente alcunhado de camarote. Tinha feito há pouco seis anos. Todas estranharam a minha súbita dedicação familiar, mas nunca souberam nada, nem nunca saberiam. Mas soube eu, e saberia tudo. A partir desse episódio nunca mais esqueceria nada e recordo todos os factos da minha vida até à data de hoje. Todos! até o mais insignificante."


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