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O Blogue da Semana

por Luís Naves, em 10.02.19

Sempre gostei muito deste blogue, Os Canhões de Navarone. A qualidade da prosa é de topo e o autor, Rui Ângelo Araújo, não se limita a escrever bem, mas sabe o que é uma boa crónica e um argumento inteligente. Alguns dos textos têm nível literário, pois Rui Ângelo Araújo é também romancista. Gosto de ler autores que não frequentam trincheiras, que pensam com qualidade e pela sua cabeça. É o caso. A propósito, o filme também não é mau.

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Votos de um excelente 2049

por Luís Naves, em 31.12.18

No actual ciclo político, que agora entra no seu crepúsculo, foram valorizadas as ideias de rebeldia, de mescla e de extravagância. No próximo ciclo, teremos sobretudo tradição, identidade e comunidade. A globalização recuará, pois deixa de ser necessária. Os países atrasados darão saltos gigantescos (e terão problemas por isso) e haverá menor consumo desnecessário de recursos. As pessoas vão provavelmente combater os comportamentos desobedientes, rejeitar a miscelânea, vão torcer o nariz perante pessoas obcecadas com a ostentação da sua riqueza e o que isso implica na destruição do ambiente. Estas mudanças de sociedade ocorrem num mundo pós-digital, que incorporou a linguagem binária em tudo, mas que ainda não sofreu em pleno o impacto da segunda grande vaga das novas tecnologias, que trazem sobretudo a inteligência artificial e a engenharia genética. A combinação das duas é o nosso futuro, que completa uma nova civilização, da qual temos por enquanto apenas vislumbres. Imagine-se uma pequena comunidade de pessoas saudáveis (com longas vidas), onde professores robóticos têm o conhecimento que hoje é exclusivo de universidades de elite; juízes, investigadores de polícia ou administradores públicos (máquinas inteligentes) que não podem ser comprados ou ameaçados por interesses especiais ou pela delinquência; modelos de cirurgiões e chefes de cozinha capazes das maiores proezas nas suas áreas, algo que hoje só encontramos em grandes cidades. As elites deixarão de o ser, vivendo como os outros cidadãos, e a excelência ficará ao alcance da mais pequena, insignificante comunidade, entretanto tornada auto-suficiente. Sim, é possível que nos próximos 30 anos se produza esta revolução: as pessoas comuns terão imenso tempo livre e qualidade de vida, acedendo à melhor instrução possível. Estas ambições, hoje exclusivas de uma fina camada de gente, dos ricos que frequentaram as melhores escolas e têm os melhores hospitais, estarão ao alcance do zé-ninguém da aldeia. As cidades vão diminuir de tamanho e vamos regressar às cidades médias, às vilas, aos campos.

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Assumptos do dia

por Luís Naves, em 12.12.18

Quando comecei a trabalhar em jornais, no final dos anos 80, as redacções estavam a ser informatizadas e nelas conviviam jornalistas diferentes, alguns que tinham aprendido na tarimba, outros que escreviam como deuses, numa mistura social com algum choque de gerações. Lembro-me com saudade de ouvir contar histórias sobre os bons velhos tempos, embora eu, com algum pedantismo juvenil (do qual não me arrependo), julgasse que era na minha época que se faziam os melhores jornais de sempre. Ainda não tinha lido os antigos e sei agora que o meu tempo foi o canto do cisne daquele artesanato. No século XXI, os jornais tornaram-se irrelevantes e estão a morrer lentamente, assassinados pela tecnologia digital, pelo agregadores de notícias, pela perda de leitores e de publicidade, pela falência do modelo económico que os sustentava, pelo facto simples de terem perdido os velhos lobos do mar, ou seja, a memória das redacções. Dentro de trinta anos, dificilmente haverá jornais em papel, à excepção de pequenos projectos seleccionados, publicações de prestígio ou revistas especializadas, e estou a ser optimista. Quando acabarem, os jornais terão durado cerca de trezentos anos, um total de dez gerações de gente que se habituou a ler as notícias numa pequena folha de papel que sujava os dedos e era difícil de dobrar, onde havia também relatos verídicos de acontecimentos distantes, fotografias cheias de grão, entrevistas com gente notável, crónicas sobre os mais diversos assuntos da atualidade. Assuntos, palavra apropriada, que se escrevia assumptos na ortografia anterior à anterior desta nossa época maravilhosa.

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Pensamento da semana

por Luís Naves, em 09.12.18

A globalização aproximou territórios distantes e povos diferentes, mas ao encurtar o mundo esta nova época parece ter tornado os colossos mais modestos, a arte mais banal, a política mais medíocre, as ideias mais pequenas.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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As nossas perigosas verdades

por Luís Naves, em 23.11.18

O DN descobriu outra fake news: afinal, a foto de uma sem-abrigo com criança, que andava a circular nas redes sociais, não foi tirada em Lisboa, mas em Bordéus. A boa consciência ocidental respira mais descansada e lembrei-me de um episódio do final da Primeira Guerra Mundial, quando os países da Entente faziam correr boatos alarmantes nos territórios do Império austro-húngaro, as agora chamadas fake news, que na altura se denominavam boatos. Isso motivou um artigo de Karl Kraus: «as mentiras da Entente em geral nem de longe são tão perigosas como as nossas verdades», escreveu o jornalista vienense. Também considero grave que uma foto de uma sem-abrigo com criança em rua de Bordéus passe por ser uma cena em Lisboa, infelizmente as revelações do DN nada me dizem sobre os sem-abrigo de Portugal. Não encontrei este caso antes de o ler hoje, mas teria desconfiado da qualidade da manta que aquece as duas vítimas. Kraus teve razão antes de tempo, pois os boatos contemporâneos só circulam quando as pessoas deixam de acreditar nas autoridades e na sua imprensa, os rumores só atingem instituições e políticas descredibilizadas. De facto, a nossa verdade é pior que a nossa mentira, por isso teremos mais destes rumores, veremos outros sem-abrigo de Bordéus a fazerem-se passar por sem-abrigo de Lisboa. E lá estará o DN a fazer justiça.

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Resistência

por Luís Naves, em 22.11.18

Portugal sempre foi um país resistente à mudança. No passado, a nossa sociedade provinciana foi lenta a adoptar as novidades. Havia desconfiança em relação ao que vinha de fora, mas a resistência tem limites. Talvez isto explique que as transformações portuguesas acabem frequentemente por acontecer através de processos súbitos, quando rebenta a panela de pressão da impaciência popular. Hoje, com a internet, resistir é mais difícil. Por estes anos, as sociedades industrializadas entram num novo ciclo, provavelmente marcado pelo pragmatismo nas relações internacionais, mais ideologia e crispação, recuo do controlo sufocante do sistema financeiro, o regresso das nações e a reformulação das políticas sociais. Acabou o consenso entre centro-direita e centro-esquerda que definiu os contornos da actual União Europeia e começa outra coisa, muito mais dividida e tribal. Ora, qual é o país que mais resiste a esta fragmentação, tão visível na Europa? O nosso, com o seu sistema enviesado à esquerda desde 1975, a sua comunicação social domesticada e um partido de poder que, tendo perdido as eleições em 2015, com apenas 32%, parece não ter rival nem precisar de alianças para um futuro cheio de nuvens negras.

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A direita má

por Luís Naves, em 02.11.18

Neste artigo, o uso da linguagem é instrutivo. David Dinis considera que só há duas direitas, uma má e outra boa. A má é soberanista, nacionalista, anti-imigração (aqui na paróquia quer a vingança de 2015), além disso tem programas ideológicos, discursos identitários, detesta o politicamente correto e promove a divisão.

A direita boa, além de liberal, não é muito caracterizada no artigo; presume-se ser contrária a tudo o que é mau, entre outras, as ideias de soberania, de nação e de identidade. A direita boa será talvez patriota e europeísta, defensora das decisões burocráticas de Bruxelas, das limitações de soberania, tendo elevada consideração pelo politicamente correto. As crispações políticas não são apreciadas, nem os discursos identitários. Para se pertencer à direita civilizada, é obrigatório ser pró-imigração ou não ter opinião sobre o tema.

Este é, em resumo, o único espaço de direita que se pode ocupar em Portugal. Tudo o resto é o horror. Na Europa, as coisas são um pouco diferentes, pois o centro-direita está dividido em relação a duas possíveis estratégias e há discussões sobre a melhor escolha a fazer.  

A mudança política em curso tem na sua raiz a rebelião eleitoral contra os partidos tradicionais, a irritação dos eleitores com os meios de comunicação, o descontentamento com a globalização e com políticas de imigração incompetentes, que atingiram os mais pobres e estão a causar um poderoso descontentamento entre as classes baixas.

Nas duas décadas anteriores à crise, os partidos conservadores deslocaram-se para o centro e tentaram assumir a identidade liberal, mas os eleitores agora discordam, sobretudo devido ao choque da grande recessão e da crise migratória. É evidente que o eleitorado se radicalizou, que está provavelmente a virar à direita, aceitando hoje argumentos que, nos anos 90, os conservadores consideraram fora de moda e deixaram ao abandono, o que foi aproveitado pelas então minúsculas formações da extrema-direita ou pelos populistas, que agradeceram e engordaram.

Ou seja, aparentemente não existe nenhuma guerra, há um dilema: o centro-direita pode continuar a sua caminhada para o centro, para se aliar a partidos liberais (a aliança franco-alemã é basicamente isso) ou tenta reocupar o espaço da direita, voltando às suas origens de nacionalismo, valores tradicionais, conservadorismo social (o modelo austríaco). Na primeira opção, os partidos da direita moderada deixam crescer a extrema-direita; na segunda, têm de perder os tiques de elitismo e arriscam-se a enfrentar a hostilidade feroz dos meios de comunicação. O que acho menos saudável neste artigo é quando este liberalismo coloca tudo em termos de sim ou sopas, de tudo ou nada, não deixando qualquer espaço para discutir, antes pelo contrário, diabolizando uma direita possível, que quer ficar fora da ortodoxia da época.

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Talvez seja o provincianismo e o atraso

por Luís Naves, em 30.10.18

Por todo o lado, sobre os assuntos mais corriqueiros, é possível observar a tendência para o pensamento mágico e para a reflexão de sacristia. Repetem-se ideias feitas e recitam-se argumentos moles. Nas redes sociais, ninguém quer destoar das boas intenções, o que não teria mal algum, se não fosse a imposição de uma mentalidade dogmática, quase feroz, que não tolera o mínimo desvio da ortodoxia. Se calhar, Portugal nunca deixou de ter uma sociedade incapaz de suportar a dissidência, o espírito inconformado e a percepção inquieta, tal como é visível nos velhos romances de Camilo, onde as personagens muitas vezes esbarram com hipócritas, pregadores de banalidades ou estreitas visões fradescas. Não tenho boas explicações para a intolerância intelectual portuguesa: talvez seja o nosso provincianismo, o atraso, o pouco hábito que temos de pensar pela nossa cabeça, ou antes, o desincentivo que existe para que cada um pense pela sua cabeça, pois que a independência é sempre olhada com desconfiança, quando não é recebida com hostilidade.

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A grande viragem

por Luís Naves, em 29.10.18

O poder tem regularmente inversões de ciclo, quando os eleitores rejeitam a ordem vigente e escolhem, no meio de grande resistência, uma nova geração de políticos que reflecte as novas gerações de pessoas. Estamos a assistir a uma dessas viragens regulares, muito semelhante à que ocorreu no final dos anos 70, inícios dos anos 80, quando os governos do mundo industrializado foram varridos pela vaga liberal, na altura chefiada por Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Tudo o que recordo desse tempo é semelhante ao que vemos agora. A simples intenção de tentar perceber os factos suscita reacções de grande violência retórica por parte daqueles que não aceitam qualquer mudança e que tentam defender o mundo anterior. E, no entanto, as sociedades viram as páginas que querem virar. Em várias democracias avançadas, (o movimento começou no Reino Unido, alastrou aos Estados Unidos) significativas franjas do eleitorado rejeitaram a ordem instituída e votaram a favor de projectos nacionalistas, que defendem o recuo da globalização, a limitação das migrações, o regresso daquilo a que chamam os valores tradicionais, além do reforço da soberania, incluindo no plano económico. Esta é, de alguma forma, a inversão do ciclo liberal da era de Reagan e Thatcher, mas há também a recusa veemente dos avanços sociais ligados ao Maio de 68, os quais visavam contestar as estruturas da autoridade e negar a moral dominante. A ordem instituída (jornalismo, mercados, partidos) tenta travar a enxurrada diabolizando o adversário emergente. Foi o que aconteceu nos anos 80, quando o tsunami liberal era classificado abaixo de fascismo. A definição estava errada, como se viu, e o novo poder alastrou um pouco por todo o lado, tornou-se a ortodoxia, acelerou a globalização, derrubou o Muro de Berlim e, agora, depois de mostrar os seus limites na Grande Recessão, é a velha ordem que ameaça ser substituída.

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A divisão europeia

por Luís Naves, em 24.10.18

Quem acredita que a União Europeia é uma construção sólida deve ler este artigo de Timothy Less, na revista The New Statesman. O autor explica o que está na base da rebelião contra a ordem liberal construída nos últimos cinquenta anos, indo muito além das teses simplistas que tenho tentado criticar aqui no Delito, para grande incompreensão de alguns leitores. Há na Europa um conflito cada vez mais evidente entre a visão progressista liderada por Macron, de uma união cosmopolita e multicultural, em integração acelerada orientada pelas potências, em oposição à tese conservadora, liderada por Orbán, que teme a diluição das identidades nacionais, o poder das burocracias não-eleitas e as migrações em massa. Parece muito lúcida a passagem sobre os eventuais efeitos da próxima recessão e os possíveis cenários de cisão na Europa, sobretudo a hipótese de tudo evoluir para um núcleo duro, onde não vão caber as periferias.

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O maior problema da democracia

por Luís Naves, em 02.10.18

O maior problema da democracia não está em reconhecer a vontade popular. Essa questão sempre existiu e os políticos que a ignoram estão por sua conta e risco, condenados à inevitável punição eleitoral. O maior problema das democracias contemporâneas é a captura das instituições por interesses especiais. Todos os conflitos importantes a que assistimos têm a ver com este fenómeno: na Catalunha, na União Europeia, nas presidenciais brasileiras ou nas nomeações para o Supremo Tribunal americano. Minorias mobilizadas, com influência nos meios de comunicação, nos partidos, nos mercados ou nas academias, tentam conquistar posições de controlo nas instituições que regulam a sociedade, manipulam a nomeação de juízes ou travam políticos emergentes, ignorando todas as opiniões contrárias. Na Catalunha, por exemplo, os independentistas são a minoria, mas tomaram conta das instituições regionais e da televisão pública, diabolizaram todos os que pensam de outra forma e não se incomodam em destruir a convivência. Esta semana estamos na fase final de um caso extraordinário da política nos EUA, onde um juiz nomeado para o supremo tem a sua vida devassada, acusado de ter cometido uma agressão sexual quando tinha 17 anos: ninguém discute a veracidade do caso ou os méritos do juiz, mas se bebia ou se esteve envolvido em lutas de bares durante a adolescência. A política transformou-se numa luta permanente, onde grupos minoritários tentam impor as respectivas agendas a todas as instituições, pequenas e grandes, sejam órgãos políticos ou associações, escolas ou empresas, júris de concursos ou cargos de liderança, espaços de comentário e até nas organizações que nada representam, mas que podem tornar-se úteis para a causa. Uma vez conquistada a instituição por estes interesses especiais, não entra ninguém de fora.

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O estado da arte

por Luís Naves, em 29.09.18

Discute-se muito se os penduricalhos de Mapplethorpe são arte ou censura, mas podíamos talvez discutir o estado da arte, os teatros vazios e os teatros fechados, as livrarias a abarrotarem de subprodutos, a indigência do cinema, as instituições subfinanciadas, a falência imparável dos jornais. Devíamos questionar o estado da arte, se temos uma literatura exportável, se as bibliotecas renovam as colecções, se os museus estão seguros, se os artistas nacionais trabalham de borla, se o ensino artístico melhorou ou se é melhor que os talentos procurem outros países. Podíamos discutir isto, mas mergulhámos numa espécie de sonambulismo, a debater os méritos da fotografia americana, tema que teria inegável interesse, se os bárbaros não estivessem já instalados deste lado da muralha.

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A vaga anti-democrática europeia

por Luís Naves, em 13.09.18

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Confesso a minha perplexidade em relação ao que se passou no Parlamento Europeu, assunto a que o jpt faz referência aqui, e sobre o qual tenho lido textos verdadeiramente delirantes na imprensa portuguesa. Não imagino a lógica do voto do PCP, admito que seja a enunciada no post, mas julgo que isso é uma discussão muito cá da paróquia. Sou jornalista há trinta anos, fui repórter em três guerras e nunca assisti a tal dissonância entre realidade e percepção pública, como aconteceu neste caso do relatório Sargentini e da ameaça de suspensão de votos que paira sobre o governo húngaro. O relatório que os eurodeputados aprovaram é uma estranha mistura de mentiras, opiniões e histórias antigas, ultrapassadas após cedências já feitas pelo governo acusado. O relatório cria uma narrativa falseada da realidade e, tal como o PM húngaro disse nos sete minutos que lhe deram para falar, o resultado estava decidido à partida. A aprovação do documento teve mais a ver com a relação futura entre Alemanha e França, com as angústias do centro-direita antes das eleições europeias ou com a histeria federalista. Uma coisa é certa: um país de pequena dimensão foi punido de maneira exemplar, num sério aviso a todos os pequeninos que se atrevam a sair da linha justa. É um exemplo do que se pretende para a nova ordem europeia.

 

 

 

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A razão dos senhores do Castelo

por Luís Naves, em 12.09.18

Um dos maiores problemas da União Europeia é sem dúvida o défice democrático e de transparência no processo de tomada de decisões. Já aqui escrevi que a UE contemporânea faz lembrar o genial romance de Franz Kafka, O Castelo, onde não se entende muito bem como funciona a hierarquia, quem manda nela, como se decide e que intenções têm os burocratas que a compõem, muito menos se percebe a quem respondem e quem os controla. Os eleitores não são ali chamados. A UE tem um percursor, a monarquia dual austro-húngara, que era uma entidade política genuinamente multicultural, onde conviviam povos diferentes, em língua e religião, mas numa harmonia invulgar nessa época. O império era democrático, próspero e relativamente pacífico (suicidou-se por causa da insensatez de alguns idiotas), mas tinha fortes contradições, como bem assinalaram os grandes escritores que viveram neste espaço político. Tal como Kafka fantasiou a partir dessa realidade, há hoje contradições na UE que desafiam a razão. Como se justifica que um presidente da Comissão consiga no mesmo discurso dizer aos britânicos que estes, ao saírem da UE, não podem pertencer ao mercado único (que ajudaram a construir e do qual cumprem todas as regras), e nas frases seguintes o mesmo presidente defenda a ratificação urgente de acordos de livre comércio com países terceiros? O Canadá, por exemplo, verá anuladas as tarifas a 98% dos produtos transaccionados. A Noruega, que não é membro da UE, tem acesso pleno ao mercado único. O Japão negociou um acordo de livre comércio (e ainda bem que o fez). Ora, os ingleses, que, repito, cumprem toda a legislação, têm direito a um Brexit punitivo e os comentadores aplaudem, contentes com esse evidente absurdo. Se isto não se parece com os senhores do castelo, então é parecido com o quê?

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A Era da fragmentação

por Luís Naves, em 11.09.18

Os acontecimentos do dia 11 de Setembro de 2001 ficaram na memória de todos, mas o que verdadeiramente mudou as nossas vidas foi a crise financeira que começou em Setembro de 2008, com o colapso do Lehman Brothers. A partir daí, vivemos uma época de fragmentação acelerada, caracterizada pela estagnação económica (a década perdida), a aparente dissolução dos valores, a mediocridade da política, a crispação do discurso da intolerância, o estilhaçar das classes sociais, o antagonismo sem ideologia e a irrelevância das vozes moderadas. Nestes últimos dez anos, tivemos a sensação de viver numa espécie de época pantanosa, em que se acentuou a ideia do próprio declínio da cultura, como se não houvesse rumo. A grande recessão teve causas complexas e nunca li uma explicação convincente. Aliás, os académicos ainda hoje discutem as causas da Grande Depressão dos anos 30 do século passado e talvez seja preciso esperar um século para que se compreenda o fenómeno que nos atingiu. Ora, se ainda hoje não entendemos inteiramente o que aconteceu, quem nos garante que já terminou o ciclo? Podemos conceber novos espasmos do processo, em que se acentuam divisões sociais e cresce o fosso entre vencedores e vencidos, em que ocorrem novos episódios de segmentação, em que voam estilhaços das classes sociais e saltam pedaços de tribos e de clãs, acentuando choques e contradições da época. Depois da fragmentação, haverá outra tendência, talvez até a contrária, mas uma coisa é certa: o mundo que estamos a construir será muito diferente daquele de onde saímos.

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A grande transformação

por Luís Naves, em 10.09.18

Na Europa Ocidental estamos a assistir a uma transição política que pode até ser o início de uma grande transformação. A mudança é alimentada pelo descontentamento de uma franja assinalável do eleitorado, a metade mais pobre da chamada classe média, que foi a parte derrotada na recente crise. Os motivos da insurreição são complexos e levarão anos a ser compreendidos, mas podem estar relacionados com o impacto de novas tecnologias, a contracção dos generosos sistemas de protecção social, a degradação dos serviços públicos, a insegurança física que muitas pessoas sentem nas próprias cidades e a pressão salarial dos migrantes. É fácil observar que cada um destes fenómenos tem maior efeito sobre pessoas mais pobres, as que vivem em bairros sociais ou as que dependem de empregos menos qualificados, a antiga classe operária, que os partidos de esquerda abandonaram. Em todos os países ocidentais, parte substancial da classe trabalhadora empobreceu, as fábricas mudaram de local e os empregos criados são mal pagos. A revolta que se designa como populista será a resposta dos eleitores à crescente insegurança, mas é também uma reacção a problemas concretos que as chamadas elites se recusam a reconhecer. Quando falo em elites, refiro-me ao conjunto de partidos tradicionais, burocracias e organizações, hierarquias académicas, grupos de influência empresarial, de intelectuais e vedetas mediáticas, ou seja, a bolha do topo, cuja narrativa da realidade rejeita qualquer argumento dos descontentes, desprezados como xenófobos, nacionalistas, irracionais, até como fascistas. É como se o voto destas pessoas já não contasse.

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O dilema dos conservadores

por Luís Naves, em 05.09.18

As eleições de domingo na Suécia ilustram o dilema dos partidos de centro-direita europeus, que se arriscam a ficar afastados do poder se mantiverem a recusa em negociar coligações com os populistas, sendo a alternativa fazer alianças perigosas com a sua direita e adoptar temas controversos, como por exemplo restrições à imigração. A questão lembra o provérbio brasileiro: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come. O actual governo sueco é de esquerda e minoritário, coligação entre social-democratas e verdes, dois partidos que vão ser muito penalizados nas urnas. Ficarão provavelmente na oposição. A acreditar nas sondagens, a soma das duas formações descerá de 38% em 2014 para menos de 30%. O maior dos partidos conservadores, por seu turno, recebe uma sova eleitoral da mesma ordem de grandeza, mas o bloco de quatro partidos pode somar 35%, o que só dá para um governo minoritário instável. A transferência de votos beneficia o partido Democratas Suecos (SD, populismo de extrema-direita), que surge nas sondagens com valores entre 17% e 19%, mas também o Partido da Esquerda (extrema-esquerda), que pode duplicar a sua votação, para mais de 11%. Um em cada três suecos votará num destes dois partidos radicais, sinal da paisagem tradicional totalmente transformada. Em 2010, havia na Suécia dois blocos políticos, agora há quatro: populistas, centro-direita, centro-esquerda e esquerda marxista, com os dois do meio a registarem enormes perdas. A confirmarem-se as sondagens, estas eleições podem resultar num governo minoritário (de esquerda ou de direita) ou numa coligação centrista, mas as duas soluções juntam partidos penalizados nas urnas e que continuarão no poder a ser cortados às postas. Neste cenário, os conservadores do bloco de centro-direita terão a tentação austríaca de se juntarem aos populistas. O problema vai colocar-se também em França para os Republicanos, cuja derrota se deveu à rivalidade com a Frente Nacional. Em Itália, a fusão entre populistas e conservadores já está a concretizar-se, pois a Liga de Mateo Salvini (origens na extrema-direita) continua a avançar no eleitorado do centro, com as intenções de voto já acima de 30%. A Forza Italia de Berlusconi, que teve 14% nas eleições de Março, está reduzida a metade. Nas eleições europeias veremos mais episódios do problema da direita conservadora: como lidar com o avanço dos populistas? Fazendo alianças ou mudando os temas de campanha?

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Matéria escura

por Luís Naves, em 03.09.18

Em Portugal, os escritores são solicitados para falar sobre tudo e um par de botas, mas normalmente nem sabem o que os faz escrever e desconhecem o mecanismo que os leva, por vezes, a conseguir tocar ao de leve em alguns dos mistérios essenciais do seu mundo. Isto funciona um pouco como os telescópios. Há telescópios ópticos que captam a luz visível, há outros aparelhos que detectam infravermelhos ou radiação ultravioleta. Cada um destes equipamentos permite ver uma versão da realidade, mas apenas parte limitada do universo. Assim funcionam as ciências sociais e a filosofia, cada uma a captar determinado espectro da luz. E, no entanto, sabe-se que no universo existe matéria escura, que continua invisível para a tecnologia. Ora, a literatura pode explorar o que as ciências não atingem. Perguntar aos autores pela matéria visível não tem grande lógica, pois eles são melhores a detectar matéria escura, ou seja, a parte enigmática da humanidade, e piores a pensar sobre aquilo que já é conhecido. Sem perceberem ao certo como o fazem, os ficcionistas podem entender uma parcela da essência do seu tempo, mas sempre no território do enigma e do que se oculta nos interstícios da realidade. Quando os interrogam sobre matéria que possa ser estudada, como a explicação de um país ou a descrição da sociedade, têm geralmente telescópios imprecisos.

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A mó de baixo

por Luís Naves, em 02.09.18

Parece ser uma daquelas regras absurdas da vida, mas quando uma pessoa está na mó de baixo recebe sempre mais críticas, seja de desconhecidos, de familiares ou de amigos com boas intenções. Dizem eles que deve haver alguma coisa de errado com alguém que pareça um óbvio fracasso: esforços inúteis, esforços insuficientes, ilusões ou caminhos que não dão em nada. Enfim, algo estará errado, e então aparecem aqueles conselhos que já foram explorados, aquelas observações que já foram pensadas, as ligeiras críticas veladas que mandam a auto-estima ainda mais abaixo. Não tens qualidades para o que tentas fazer ou vives numa estúpida mania de grandezas, enfim, não te sabes avaliar e quando insistes num plano estás a bater com a cabeça na parede. Se a tua vida é um buraco, então pára de escavar, dizem os amigos; se não funciona este caminho, não insistas, mas por outro lado não fiques a dormir a sesta, à espera que os teus problemas se resolvam sozinhos, embora isso (no teu caso, mas só no teu caso) não seja inteiramente má ideia, pois é preferível não dares nas vistas, fingires que está tudo bem, sorrires e confiares. A mó de baixo é culpa de quem lá está, portanto, é culpa tua. Para ti, a fasquia estará sempre mais alta, pelo menos até deixares de ser um desgraçadinho. Ah, e não critiques ninguém, pois no teu caso só pode ser inveja.

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Não vos queria deprimir

por Luís Naves, em 01.09.18

Tenho lido numerosos artigos sobre a Hungria com graves erros de interpretação, a ponto de não haver, neste momento, qualquer coincidência entre a realidade e a percepção da nossa opinião pública. Com a lenda à solta, torna-se difícil explicar factos básicos.
Estive recentemente um mês na Hungria, atento ao que se conversava e publicava. O acontecimento mais relevante foi o anúncio, pela BMW, da intenção de construir em Debrecen uma grande fábrica de automóveis. Em 2016, existia no país uma única fábrica automóvel de grande dimensão (Daimler-Benz) e três médias (Audi, Opel e Suzuki). Entretanto, a Audi alargou a sua unidade, que já é maior do que a da Mercedes, e esta última marca começou a construir uma nova fábrica, separada e da mesma dimensão, ao lado da primeira. Com a da BMW, haverá quatro Auto-Europas na Hungria. A partir de 2020, serão exportados mais de um milhão de automóveis por ano, eléctricos e convencionais.
Há seis mil empresas alemãs na Hungria. As razões para este interesse são diversas. O famoso regime ‘iliberal’ do primeiro-ministro Viktor Orbán inclui IRC de 9%, impostos baixos, energia barata, trabalhadores qualificados, ética de trabalho, escolas de engenharia de qualidade, a taxa social única que em Portugal quase derrubou um governo; também se introduziu por lá um flat tax, combateram-se as rendas excessivas, há pouca burocracia, justiça célere, pleno emprego e grande facilidade em despedir. O país está perto dos mercados e muitos trabalhadores falam alemão. Outro factor é a estabilidade: a classe média nunca esteve tão satisfeita, a economia cresce a ritmo superior a 4% e algumas das políticas mencionadas estão na Constituição.
Os fundos comunitários não foram gastos apenas em projectos nacionais, mas têm servido para construir ligações que permitem integrar depressa toda a região. Refiro-me a autoestradas, ferrovias, aeroportos, redes eléctricas, gasodutos, englobando Áustria, Croácia, Eslovénia, Roménia, Eslováquia e Polónia (também Sérvia e Ucrânia). É evidente que dentro de dez anos estaremos a falar de uma zona com mais de cem milhões de consumidores, que irá de Varsóvia a Atenas, de Viena a Istambul, de Milão a Kiev; ou, se quiserem, do Adriático ao Báltico e ao Mar Negro. Isto não são sonhos, mas planos concretos, já em andamento.
Também tive a oportunidade de ver uma lista das cinquenta maiores empresas (muitas são subsidiárias de multinacionais; a Audi, por exemplo, estava em segundo e a Mercedes em terceiro). Havia nesta lista um indicador que considerei extraordinário, o de aumento de capital em 2017: dessas 50, 21 tiveram aumentos de dois dígitos, portanto, mais de dez por cento, e só onze empresas diminuíram o volume de negócios. A lista incluía uma dezena de produtores de componentes de automóvel, onde ainda não estavam as duas gigafábricas de baterias em construção; o resto era indústria farmacêutica, química e energia, muito pouco de serviços, ou seja, tudo muito ‘iliberal’ e ‘putinista’. Julgo que estes dados permitem afirmar que, em Portugal, há comentadores que estão a ver o filme errado.

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