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Desconcerto

por Luís Naves, em 13.07.19

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Quase todas as pessoas de qualidade com quem me cruzei atravessaram nas suas vidas períodos de dificuldades. Também conheci muitos videirinhos, que andavam sempre contentes. Há um poema de Luís de Camões, Esparsa ao Desconcerto do Mundo, cujos primeiros versos descrevem este fenómeno de forma exemplar:


Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
(…)
O poeta achava que este desconcerto era do mundo, não apenas português, mas o facto é que conheço pessoas de qualidade que, lá fora, cumpriram o potencial. Se tivessem ficado, estes indivíduos seriam como os outros, com as mesmas histórias de chefes tóxicos, frustrações acumuladas, trabalhos não reconhecidos; teriam sido ultrapassados pelo mandarete recomendado ou pelo medíocre temido; teriam sido bloqueados pela «apagada e vil tristeza» de um País que se arrasta na pantanosa incapacidade. Enfim, talvez o desconcerto seja mesmo do mundo: um pouco por todo o lado manifestam-se interesses poderosos, triunfam arrivistas e instalam-se coveiros de instituições. Certos conflitos estão a limitar as democracias e a transformar o exercício da liberdade em amálgamas indiferenciadas, sem identidade ou ética, onde os deuses do falso igualitarismo diluem e relativizam valores antigos. A sociedade fragmenta-se e o poder é efémero, a arte combate a beleza, cada tribo tem a sua interpretação da realidade. Admito que aquilo a que assistimos seja até a transição para um mundo melhor, mas o poema de Camões deixa a pairar a ideia de que o desconcerto é sobretudo sintoma de declínio ou da transformação do mundo dos fortes no mundo dos fracos, quando a esperança dos bons for substituída definitivamente pela tirania dos maus.

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Rebelião eleitoral

por Luís Naves, em 26.05.19

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Ainda é cedo para se perceber o que aconteceu nestas eleições europeias, mas parece ter ocorrido uma rebelião contra os partidos do sistema. Os socialistas já não lideram a esquerda europeia, pelo menos sozinhos, e ficaram atrás dos verdes em dois grandes países, França e Alemanha. O Partido Popular Europeu (PPE) e os Socialistas e Democratas (SD), que controlavam o parlamento, perderam o seu confortável monopólio e terão de juntar a família de partidos liberais ao núcleo dominante (Portugal não elegeu ninguém para este grupo). Os conservadores do PPE continuam a perder votos para uma direita radical que teve um desempenho mais ou menos: vitória em França e Itália, mas resultados decepcionantes na Holanda e Alemanha (Portugal também não tem ninguém neste grupo). Na nossa comunicação social, a amálgama de populistas, extremistas e reformistas é descrita como um conjunto homogéneo que tem a intenção de destruir a Europa, mas a coisa é mais complicada e consiste, na realidade, na ascensão de vários movimentos de protesto que pretendem mudanças, nem sempre compatíveis entre si. Finalmente, no Leste, há também um fenómeno claro, refiro-me à forma como os partidos pós-comunistas estão a ser cilindrados, agora não apenas na Hungria e na Polónia, mas em toda a região. O que significam estas rebeliões eleitorais? É cedo para percebermos, mas o voto de protesto na Europa aumentou; a crise financeira está finalmente a produzir os seus efeitos políticos e começa a viragem de ciclo (o fim da Era Merkel e o início de outra fase). O próximo parlamento europeu será bem mais interessante do que o anterior e o Brexit é inevitável. Em relação a Portugal, onde se instalou uma desilusão melancólica, o eleitorado acentua a agonia da direita, mas vota à esquerda sem a convicção do passado.

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Verniz de civilização

por Luís Naves, em 25.05.19

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Num dos melhores episódios da série clássica Twilight Zone, O Abrigo, de 1961, conta-se a história de algumas famílias abastadas numa rua suburbana da América. No início, vemos a amizade desse grupo de vizinhos, na festa de aniversário em casa de um deles, médico; em conversa, o anfitrião é criticado pelo esforço e dinheiro que investiu na construção de um abrigo anti-nuclear. De súbito, a confraternização é interrompida pelo anúncio de rádio, que dá conta de um suposto ataque inimigo, com explosões dentro de 15 minutos. Rapidamente se instala o pânico, que vai crescendo até uma histeria criminosa, pois todos querem ter acesso ao abrigo anti-nuclear e acham injusto que só haja lugar para três sobreviventes. O episódio está muito bem escrito e resolvido, tem excelentes actores, e esta história continua a ser certeira. Já não há ameaça credível de extinção global em 15 minutos, mas existem outras formas de possíveis colapsos com culpa humana, porventura mais lentas, igualmente inexoráveis. As ameaças são evidentes: a insustentabilidade de uma economia de crise que atropela as pessoas, o sonambulismo da política, toda a nossa vida baseada em níveis de consumo irrealistas. E, no entanto, persiste uma espécie de alheamento, que nos faz rir de quem tenta construir abrigos contra catástrofes no futuro (não são os abrigos físicos, como no filme, mas soluções difíceis, que as sociedades travam com palavreado vazio). Se nada mudar, um dia não vamos tolerar o abrigo do vizinho, o que significa o estalar do verniz civilizacional naquele momento em que as pessoas perceberem que vem aí uma grande mudança e nem todos se salvam.

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Desorientados do mundo

por Luís Naves, em 24.05.19

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Quando se fizer a história deste nosso ano da graça de 2019, alguém desencantará esta patética entrevista, que revela mais sobre os tempos que vivemos do que três grossos tratados de ciências sociais e políticas. O voto do povo já não conta para nada, assim como já não contam para nada as velhas nações europeias, com as suas culturas ancestrais. «Os estúpidos nacionalistas estão apaixonados pelos seus próprios países», diz o ainda presidente da Comissão Jean-Claude Juncker, referindo-se à insurreição em curso nas eleições europeias. Franz Kafka escreveu sobre isto no seu fabuloso O Castelo, que me parece ser uma genial premonição do século XXI, enquanto O Processo faz o resumo sinistro do século XX que ainda não tinha acontecido em vida do autor. O enredo do livro mais ambicioso é estranho, nunca sabemos qual é a motivação da personagem principal, o agrimensor K. (será espião?), mas o mais fascinante no romance é aquela burocracia - para que serve? Como funciona? Que intenções esconde? que segredos? E, sobretudo, até que ponto os seus actuais mecanismos são diferentes da função original? O facto é que ninguém no Castelo de Kafka se lembraria de criticar pessoas apaixonadas pelos seus próprios países, apesar daquilo que se escreve numa passagem do capítulo 15: «Os Senhores do Castelo, quando se levantam das suas escrivaninhas, são mesmo assim, acham-se desorientados do mundo e, na sua distracção, dizem as coisas mais grosseiras que se possam imaginar».

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O Blogue da Semana

por Luís Naves, em 10.02.19

Sempre gostei muito deste blogue, Os Canhões de Navarone. A qualidade da prosa é de topo e o autor, Rui Ângelo Araújo, não se limita a escrever bem, mas sabe o que é uma boa crónica e um argumento inteligente. Alguns dos textos têm nível literário, pois Rui Ângelo Araújo é também romancista. Gosto de ler autores que não frequentam trincheiras, que pensam com qualidade e pela sua cabeça. É o caso. A propósito, o filme também não é mau.

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Votos de um excelente 2049

por Luís Naves, em 31.12.18

No actual ciclo político, que agora entra no seu crepúsculo, foram valorizadas as ideias de rebeldia, de mescla e de extravagância. No próximo ciclo, teremos sobretudo tradição, identidade e comunidade. A globalização recuará, pois deixa de ser necessária. Os países atrasados darão saltos gigantescos (e terão problemas por isso) e haverá menor consumo desnecessário de recursos. As pessoas vão provavelmente combater os comportamentos desobedientes, rejeitar a miscelânea, vão torcer o nariz perante pessoas obcecadas com a ostentação da sua riqueza e o que isso implica na destruição do ambiente. Estas mudanças de sociedade ocorrem num mundo pós-digital, que incorporou a linguagem binária em tudo, mas que ainda não sofreu em pleno o impacto da segunda grande vaga das novas tecnologias, que trazem sobretudo a inteligência artificial e a engenharia genética. A combinação das duas é o nosso futuro, que completa uma nova civilização, da qual temos por enquanto apenas vislumbres. Imagine-se uma pequena comunidade de pessoas saudáveis (com longas vidas), onde professores robóticos têm o conhecimento que hoje é exclusivo de universidades de elite; juízes, investigadores de polícia ou administradores públicos (máquinas inteligentes) que não podem ser comprados ou ameaçados por interesses especiais ou pela delinquência; modelos de cirurgiões e chefes de cozinha capazes das maiores proezas nas suas áreas, algo que hoje só encontramos em grandes cidades. As elites deixarão de o ser, vivendo como os outros cidadãos, e a excelência ficará ao alcance da mais pequena, insignificante comunidade, entretanto tornada auto-suficiente. Sim, é possível que nos próximos 30 anos se produza esta revolução: as pessoas comuns terão imenso tempo livre e qualidade de vida, acedendo à melhor instrução possível. Estas ambições, hoje exclusivas de uma fina camada de gente, dos ricos que frequentaram as melhores escolas e têm os melhores hospitais, estarão ao alcance do zé-ninguém da aldeia. As cidades vão diminuir de tamanho e vamos regressar às cidades médias, às vilas, aos campos.

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Assumptos do dia

por Luís Naves, em 12.12.18

Quando comecei a trabalhar em jornais, no final dos anos 80, as redacções estavam a ser informatizadas e nelas conviviam jornalistas diferentes, alguns que tinham aprendido na tarimba, outros que escreviam como deuses, numa mistura social com algum choque de gerações. Lembro-me com saudade de ouvir contar histórias sobre os bons velhos tempos, embora eu, com algum pedantismo juvenil (do qual não me arrependo), julgasse que era na minha época que se faziam os melhores jornais de sempre. Ainda não tinha lido os antigos e sei agora que o meu tempo foi o canto do cisne daquele artesanato. No século XXI, os jornais tornaram-se irrelevantes e estão a morrer lentamente, assassinados pela tecnologia digital, pelo agregadores de notícias, pela perda de leitores e de publicidade, pela falência do modelo económico que os sustentava, pelo facto simples de terem perdido os velhos lobos do mar, ou seja, a memória das redacções. Dentro de trinta anos, dificilmente haverá jornais em papel, à excepção de pequenos projectos seleccionados, publicações de prestígio ou revistas especializadas, e estou a ser optimista. Quando acabarem, os jornais terão durado cerca de trezentos anos, um total de dez gerações de gente que se habituou a ler as notícias numa pequena folha de papel que sujava os dedos e era difícil de dobrar, onde havia também relatos verídicos de acontecimentos distantes, fotografias cheias de grão, entrevistas com gente notável, crónicas sobre os mais diversos assuntos da atualidade. Assuntos, palavra apropriada, que se escrevia assumptos na ortografia anterior à anterior desta nossa época maravilhosa.

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Pensamento da semana

por Luís Naves, em 09.12.18

A globalização aproximou territórios distantes e povos diferentes, mas ao encurtar o mundo esta nova época parece ter tornado os colossos mais modestos, a arte mais banal, a política mais medíocre, as ideias mais pequenas.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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As nossas perigosas verdades

por Luís Naves, em 23.11.18

O DN descobriu outra fake news: afinal, a foto de uma sem-abrigo com criança, que andava a circular nas redes sociais, não foi tirada em Lisboa, mas em Bordéus. A boa consciência ocidental respira mais descansada e lembrei-me de um episódio do final da Primeira Guerra Mundial, quando os países da Entente faziam correr boatos alarmantes nos territórios do Império austro-húngaro, as agora chamadas fake news, que na altura se denominavam boatos. Isso motivou um artigo de Karl Kraus: «as mentiras da Entente em geral nem de longe são tão perigosas como as nossas verdades», escreveu o jornalista vienense. Também considero grave que uma foto de uma sem-abrigo com criança em rua de Bordéus passe por ser uma cena em Lisboa, infelizmente as revelações do DN nada me dizem sobre os sem-abrigo de Portugal. Não encontrei este caso antes de o ler hoje, mas teria desconfiado da qualidade da manta que aquece as duas vítimas. Kraus teve razão antes de tempo, pois os boatos contemporâneos só circulam quando as pessoas deixam de acreditar nas autoridades e na sua imprensa, os rumores só atingem instituições e políticas descredibilizadas. De facto, a nossa verdade é pior que a nossa mentira, por isso teremos mais destes rumores, veremos outros sem-abrigo de Bordéus a fazerem-se passar por sem-abrigo de Lisboa. E lá estará o DN a fazer justiça.

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Resistência

por Luís Naves, em 22.11.18

Portugal sempre foi um país resistente à mudança. No passado, a nossa sociedade provinciana foi lenta a adoptar as novidades. Havia desconfiança em relação ao que vinha de fora, mas a resistência tem limites. Talvez isto explique que as transformações portuguesas acabem frequentemente por acontecer através de processos súbitos, quando rebenta a panela de pressão da impaciência popular. Hoje, com a internet, resistir é mais difícil. Por estes anos, as sociedades industrializadas entram num novo ciclo, provavelmente marcado pelo pragmatismo nas relações internacionais, mais ideologia e crispação, recuo do controlo sufocante do sistema financeiro, o regresso das nações e a reformulação das políticas sociais. Acabou o consenso entre centro-direita e centro-esquerda que definiu os contornos da actual União Europeia e começa outra coisa, muito mais dividida e tribal. Ora, qual é o país que mais resiste a esta fragmentação, tão visível na Europa? O nosso, com o seu sistema enviesado à esquerda desde 1975, a sua comunicação social domesticada e um partido de poder que, tendo perdido as eleições em 2015, com apenas 32%, parece não ter rival nem precisar de alianças para um futuro cheio de nuvens negras.

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A direita má

por Luís Naves, em 02.11.18

Neste artigo, o uso da linguagem é instrutivo. David Dinis considera que só há duas direitas, uma má e outra boa. A má é soberanista, nacionalista, anti-imigração (aqui na paróquia quer a vingança de 2015), além disso tem programas ideológicos, discursos identitários, detesta o politicamente correto e promove a divisão.

A direita boa, além de liberal, não é muito caracterizada no artigo; presume-se ser contrária a tudo o que é mau, entre outras, as ideias de soberania, de nação e de identidade. A direita boa será talvez patriota e europeísta, defensora das decisões burocráticas de Bruxelas, das limitações de soberania, tendo elevada consideração pelo politicamente correto. As crispações políticas não são apreciadas, nem os discursos identitários. Para se pertencer à direita civilizada, é obrigatório ser pró-imigração ou não ter opinião sobre o tema.

Este é, em resumo, o único espaço de direita que se pode ocupar em Portugal. Tudo o resto é o horror. Na Europa, as coisas são um pouco diferentes, pois o centro-direita está dividido em relação a duas possíveis estratégias e há discussões sobre a melhor escolha a fazer.  

A mudança política em curso tem na sua raiz a rebelião eleitoral contra os partidos tradicionais, a irritação dos eleitores com os meios de comunicação, o descontentamento com a globalização e com políticas de imigração incompetentes, que atingiram os mais pobres e estão a causar um poderoso descontentamento entre as classes baixas.

Nas duas décadas anteriores à crise, os partidos conservadores deslocaram-se para o centro e tentaram assumir a identidade liberal, mas os eleitores agora discordam, sobretudo devido ao choque da grande recessão e da crise migratória. É evidente que o eleitorado se radicalizou, que está provavelmente a virar à direita, aceitando hoje argumentos que, nos anos 90, os conservadores consideraram fora de moda e deixaram ao abandono, o que foi aproveitado pelas então minúsculas formações da extrema-direita ou pelos populistas, que agradeceram e engordaram.

Ou seja, aparentemente não existe nenhuma guerra, há um dilema: o centro-direita pode continuar a sua caminhada para o centro, para se aliar a partidos liberais (a aliança franco-alemã é basicamente isso) ou tenta reocupar o espaço da direita, voltando às suas origens de nacionalismo, valores tradicionais, conservadorismo social (o modelo austríaco). Na primeira opção, os partidos da direita moderada deixam crescer a extrema-direita; na segunda, têm de perder os tiques de elitismo e arriscam-se a enfrentar a hostilidade feroz dos meios de comunicação. O que acho menos saudável neste artigo é quando este liberalismo coloca tudo em termos de sim ou sopas, de tudo ou nada, não deixando qualquer espaço para discutir, antes pelo contrário, diabolizando uma direita possível, que quer ficar fora da ortodoxia da época.

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Talvez seja o provincianismo e o atraso

por Luís Naves, em 30.10.18

Por todo o lado, sobre os assuntos mais corriqueiros, é possível observar a tendência para o pensamento mágico e para a reflexão de sacristia. Repetem-se ideias feitas e recitam-se argumentos moles. Nas redes sociais, ninguém quer destoar das boas intenções, o que não teria mal algum, se não fosse a imposição de uma mentalidade dogmática, quase feroz, que não tolera o mínimo desvio da ortodoxia. Se calhar, Portugal nunca deixou de ter uma sociedade incapaz de suportar a dissidência, o espírito inconformado e a percepção inquieta, tal como é visível nos velhos romances de Camilo, onde as personagens muitas vezes esbarram com hipócritas, pregadores de banalidades ou estreitas visões fradescas. Não tenho boas explicações para a intolerância intelectual portuguesa: talvez seja o nosso provincianismo, o atraso, o pouco hábito que temos de pensar pela nossa cabeça, ou antes, o desincentivo que existe para que cada um pense pela sua cabeça, pois que a independência é sempre olhada com desconfiança, quando não é recebida com hostilidade.

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A grande viragem

por Luís Naves, em 29.10.18

O poder tem regularmente inversões de ciclo, quando os eleitores rejeitam a ordem vigente e escolhem, no meio de grande resistência, uma nova geração de políticos que reflecte as novas gerações de pessoas. Estamos a assistir a uma dessas viragens regulares, muito semelhante à que ocorreu no final dos anos 70, inícios dos anos 80, quando os governos do mundo industrializado foram varridos pela vaga liberal, na altura chefiada por Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Tudo o que recordo desse tempo é semelhante ao que vemos agora. A simples intenção de tentar perceber os factos suscita reacções de grande violência retórica por parte daqueles que não aceitam qualquer mudança e que tentam defender o mundo anterior. E, no entanto, as sociedades viram as páginas que querem virar. Em várias democracias avançadas, (o movimento começou no Reino Unido, alastrou aos Estados Unidos) significativas franjas do eleitorado rejeitaram a ordem instituída e votaram a favor de projectos nacionalistas, que defendem o recuo da globalização, a limitação das migrações, o regresso daquilo a que chamam os valores tradicionais, além do reforço da soberania, incluindo no plano económico. Esta é, de alguma forma, a inversão do ciclo liberal da era de Reagan e Thatcher, mas há também a recusa veemente dos avanços sociais ligados ao Maio de 68, os quais visavam contestar as estruturas da autoridade e negar a moral dominante. A ordem instituída (jornalismo, mercados, partidos) tenta travar a enxurrada diabolizando o adversário emergente. Foi o que aconteceu nos anos 80, quando o tsunami liberal era classificado abaixo de fascismo. A definição estava errada, como se viu, e o novo poder alastrou um pouco por todo o lado, tornou-se a ortodoxia, acelerou a globalização, derrubou o Muro de Berlim e, agora, depois de mostrar os seus limites na Grande Recessão, é a velha ordem que ameaça ser substituída.

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A divisão europeia

por Luís Naves, em 24.10.18

Quem acredita que a União Europeia é uma construção sólida deve ler este artigo de Timothy Less, na revista The New Statesman. O autor explica o que está na base da rebelião contra a ordem liberal construída nos últimos cinquenta anos, indo muito além das teses simplistas que tenho tentado criticar aqui no Delito, para grande incompreensão de alguns leitores. Há na Europa um conflito cada vez mais evidente entre a visão progressista liderada por Macron, de uma união cosmopolita e multicultural, em integração acelerada orientada pelas potências, em oposição à tese conservadora, liderada por Orbán, que teme a diluição das identidades nacionais, o poder das burocracias não-eleitas e as migrações em massa. Parece muito lúcida a passagem sobre os eventuais efeitos da próxima recessão e os possíveis cenários de cisão na Europa, sobretudo a hipótese de tudo evoluir para um núcleo duro, onde não vão caber as periferias.

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O maior problema da democracia

por Luís Naves, em 02.10.18

O maior problema da democracia não está em reconhecer a vontade popular. Essa questão sempre existiu e os políticos que a ignoram estão por sua conta e risco, condenados à inevitável punição eleitoral. O maior problema das democracias contemporâneas é a captura das instituições por interesses especiais. Todos os conflitos importantes a que assistimos têm a ver com este fenómeno: na Catalunha, na União Europeia, nas presidenciais brasileiras ou nas nomeações para o Supremo Tribunal americano. Minorias mobilizadas, com influência nos meios de comunicação, nos partidos, nos mercados ou nas academias, tentam conquistar posições de controlo nas instituições que regulam a sociedade, manipulam a nomeação de juízes ou travam políticos emergentes, ignorando todas as opiniões contrárias. Na Catalunha, por exemplo, os independentistas são a minoria, mas tomaram conta das instituições regionais e da televisão pública, diabolizaram todos os que pensam de outra forma e não se incomodam em destruir a convivência. Esta semana estamos na fase final de um caso extraordinário da política nos EUA, onde um juiz nomeado para o supremo tem a sua vida devassada, acusado de ter cometido uma agressão sexual quando tinha 17 anos: ninguém discute a veracidade do caso ou os méritos do juiz, mas se bebia ou se esteve envolvido em lutas de bares durante a adolescência. A política transformou-se numa luta permanente, onde grupos minoritários tentam impor as respectivas agendas a todas as instituições, pequenas e grandes, sejam órgãos políticos ou associações, escolas ou empresas, júris de concursos ou cargos de liderança, espaços de comentário e até nas organizações que nada representam, mas que podem tornar-se úteis para a causa. Uma vez conquistada a instituição por estes interesses especiais, não entra ninguém de fora.

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O estado da arte

por Luís Naves, em 29.09.18

Discute-se muito se os penduricalhos de Mapplethorpe são arte ou censura, mas podíamos talvez discutir o estado da arte, os teatros vazios e os teatros fechados, as livrarias a abarrotarem de subprodutos, a indigência do cinema, as instituições subfinanciadas, a falência imparável dos jornais. Devíamos questionar o estado da arte, se temos uma literatura exportável, se as bibliotecas renovam as colecções, se os museus estão seguros, se os artistas nacionais trabalham de borla, se o ensino artístico melhorou ou se é melhor que os talentos procurem outros países. Podíamos discutir isto, mas mergulhámos numa espécie de sonambulismo, a debater os méritos da fotografia americana, tema que teria inegável interesse, se os bárbaros não estivessem já instalados deste lado da muralha.

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A vaga anti-democrática europeia

por Luís Naves, em 13.09.18

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Confesso a minha perplexidade em relação ao que se passou no Parlamento Europeu, assunto a que o jpt faz referência aqui, e sobre o qual tenho lido textos verdadeiramente delirantes na imprensa portuguesa. Não imagino a lógica do voto do PCP, admito que seja a enunciada no post, mas julgo que isso é uma discussão muito cá da paróquia. Sou jornalista há trinta anos, fui repórter em três guerras e nunca assisti a tal dissonância entre realidade e percepção pública, como aconteceu neste caso do relatório Sargentini e da ameaça de suspensão de votos que paira sobre o governo húngaro. O relatório que os eurodeputados aprovaram é uma estranha mistura de mentiras, opiniões e histórias antigas, ultrapassadas após cedências já feitas pelo governo acusado. O relatório cria uma narrativa falseada da realidade e, tal como o PM húngaro disse nos sete minutos que lhe deram para falar, o resultado estava decidido à partida. A aprovação do documento teve mais a ver com a relação futura entre Alemanha e França, com as angústias do centro-direita antes das eleições europeias ou com a histeria federalista. Uma coisa é certa: um país de pequena dimensão foi punido de maneira exemplar, num sério aviso a todos os pequeninos que se atrevam a sair da linha justa. É um exemplo do que se pretende para a nova ordem europeia.

 

 

 

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A razão dos senhores do Castelo

por Luís Naves, em 12.09.18

Um dos maiores problemas da União Europeia é sem dúvida o défice democrático e de transparência no processo de tomada de decisões. Já aqui escrevi que a UE contemporânea faz lembrar o genial romance de Franz Kafka, O Castelo, onde não se entende muito bem como funciona a hierarquia, quem manda nela, como se decide e que intenções têm os burocratas que a compõem, muito menos se percebe a quem respondem e quem os controla. Os eleitores não são ali chamados. A UE tem um percursor, a monarquia dual austro-húngara, que era uma entidade política genuinamente multicultural, onde conviviam povos diferentes, em língua e religião, mas numa harmonia invulgar nessa época. O império era democrático, próspero e relativamente pacífico (suicidou-se por causa da insensatez de alguns idiotas), mas tinha fortes contradições, como bem assinalaram os grandes escritores que viveram neste espaço político. Tal como Kafka fantasiou a partir dessa realidade, há hoje contradições na UE que desafiam a razão. Como se justifica que um presidente da Comissão consiga no mesmo discurso dizer aos britânicos que estes, ao saírem da UE, não podem pertencer ao mercado único (que ajudaram a construir e do qual cumprem todas as regras), e nas frases seguintes o mesmo presidente defenda a ratificação urgente de acordos de livre comércio com países terceiros? O Canadá, por exemplo, verá anuladas as tarifas a 98% dos produtos transaccionados. A Noruega, que não é membro da UE, tem acesso pleno ao mercado único. O Japão negociou um acordo de livre comércio (e ainda bem que o fez). Ora, os ingleses, que, repito, cumprem toda a legislação, têm direito a um Brexit punitivo e os comentadores aplaudem, contentes com esse evidente absurdo. Se isto não se parece com os senhores do castelo, então é parecido com o quê?

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A Era da fragmentação

por Luís Naves, em 11.09.18

Os acontecimentos do dia 11 de Setembro de 2001 ficaram na memória de todos, mas o que verdadeiramente mudou as nossas vidas foi a crise financeira que começou em Setembro de 2008, com o colapso do Lehman Brothers. A partir daí, vivemos uma época de fragmentação acelerada, caracterizada pela estagnação económica (a década perdida), a aparente dissolução dos valores, a mediocridade da política, a crispação do discurso da intolerância, o estilhaçar das classes sociais, o antagonismo sem ideologia e a irrelevância das vozes moderadas. Nestes últimos dez anos, tivemos a sensação de viver numa espécie de época pantanosa, em que se acentuou a ideia do próprio declínio da cultura, como se não houvesse rumo. A grande recessão teve causas complexas e nunca li uma explicação convincente. Aliás, os académicos ainda hoje discutem as causas da Grande Depressão dos anos 30 do século passado e talvez seja preciso esperar um século para que se compreenda o fenómeno que nos atingiu. Ora, se ainda hoje não entendemos inteiramente o que aconteceu, quem nos garante que já terminou o ciclo? Podemos conceber novos espasmos do processo, em que se acentuam divisões sociais e cresce o fosso entre vencedores e vencidos, em que ocorrem novos episódios de segmentação, em que voam estilhaços das classes sociais e saltam pedaços de tribos e de clãs, acentuando choques e contradições da época. Depois da fragmentação, haverá outra tendência, talvez até a contrária, mas uma coisa é certa: o mundo que estamos a construir será muito diferente daquele de onde saímos.

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A grande transformação

por Luís Naves, em 10.09.18

Na Europa Ocidental estamos a assistir a uma transição política que pode até ser o início de uma grande transformação. A mudança é alimentada pelo descontentamento de uma franja assinalável do eleitorado, a metade mais pobre da chamada classe média, que foi a parte derrotada na recente crise. Os motivos da insurreição são complexos e levarão anos a ser compreendidos, mas podem estar relacionados com o impacto de novas tecnologias, a contracção dos generosos sistemas de protecção social, a degradação dos serviços públicos, a insegurança física que muitas pessoas sentem nas próprias cidades e a pressão salarial dos migrantes. É fácil observar que cada um destes fenómenos tem maior efeito sobre pessoas mais pobres, as que vivem em bairros sociais ou as que dependem de empregos menos qualificados, a antiga classe operária, que os partidos de esquerda abandonaram. Em todos os países ocidentais, parte substancial da classe trabalhadora empobreceu, as fábricas mudaram de local e os empregos criados são mal pagos. A revolta que se designa como populista será a resposta dos eleitores à crescente insegurança, mas é também uma reacção a problemas concretos que as chamadas elites se recusam a reconhecer. Quando falo em elites, refiro-me ao conjunto de partidos tradicionais, burocracias e organizações, hierarquias académicas, grupos de influência empresarial, de intelectuais e vedetas mediáticas, ou seja, a bolha do topo, cuja narrativa da realidade rejeita qualquer argumento dos descontentes, desprezados como xenófobos, nacionalistas, irracionais, até como fascistas. É como se o voto destas pessoas já não contasse.

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