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28

por Luís Naves, em 19.06.20

As democracias têm muitas formas de entrar em declínio. Podem fossilizar, podem ser controladas por fanáticos ou oligarquias, podem não conseguir modernizar-se a tempo. Há exemplos de sistemas democráticos que não sobreviveram a desastres económicos ou quando as instituições do seu país começaram a esboroar-se por qualquer razão humana. Os regimes não são eternos e o sistema democrático pode no futuro tornar-se um anacronismo, porventura substituído por algo melhor que, por defeito de imaginação, ainda não concebemos. As democracias morrem quando não há escolha, quando nos impingem as mesmas mentiras, ditas pelas mesmas pessoas; quando os velhos partidos já não se renovam por senilidade e os novos começam a cometer os erros dos antigos. A democracia morre quando o que devia ser debatido livremente passa a ser discutido com pedras no bolso, com a intolerância a falar mais alto. As democracias morrem quando deixa de haver responsáveis e ninguém quer saber; quando se faz descaradamente o mesmo que antes se criticou aos adversários. A democracia está condenada quando há regras para os poderosos e outras regras para a maioria, quando deixa de haver escrutínio e equilíbrio, quando se instalam realidades manipuladas, mas é sobretudo durante crises económicas, feitas de insegurança e desespero, que crescem os piores sintomas da febre: falta de transparência, diabolização do outro e supressão de ideias.

27

por Luís Naves, em 16.06.20

A pandemia podia ter destruído preconceitos sobre aquelas profissões invisíveis que antes nem eram consideradas, mas que se revelaram cruciais para a sobrevivência. Bastava sair à rua durante a quarentena para perceber a importância dos trabalhadores dos supermercados, que corriam risco diário; era finalmente possível compreender a importância dos motoristas de transportes ou dos profissionais de saúde (tantas vezes maltratados); ou dos agricultores que continuaram a produzir os alimentos ou dos comerciantes de bairro que os distribuíam e vendiam. Houve um pequeno período em que se aplaudiram os esforços dos médicos e enfermeiros, mas essa fase emocional já passou. Quem é que hoje quer saber das condições de trabalho nos hospitais? Enquanto os dirigentes se protegiam, funcionários mal pagos e sem qualificações estavam nos sítios mais expostos, a arrumar produtos de supermercado, a conduzir viaturas, a proteger cidadãos, a recolher o lixo, a limpar resíduos perigosos e a assegurar a segurança das infra-estruturas. Muitos eram os mesmos indivíduos sem estudos que o neoliberalismo transformou em gente descartável. As pessoas comuns são melhores do que pensam os seus dirigentes, mas o povo continua a ser visto como o burro de carga que tudo consegue tolerar. É gente dispensável e sem influência, frequentemente precária e pobre, cuja voz não interessa. Os da linha da frente não pertenciam a castas instaladas, não formaram clientelas políticas e vão continuar a vergar a mola sem que alguém lhes agradeça.

26

por Luís Naves, em 14.06.20

Para se compreender o que se passa no mundo, julgo que é necessário considerar dois fenómenos aparentemente separados, a fragmentação das sociedades e a revolução mediática. Nos últimos quarenta anos, nos países avançados, o poder dependeu de uma classe média cuja satisfação era a prioridade de qualquer governante competente. Este grupo maioritário decidia eleições e confiava em meios de comunicação tradicionais que controlavam a circulação de ideias. Em cima da vasta alteração tecnológica que acabou com a estabilidade laboral, surgiu em 2008 uma crise que minou a confiança nas instituições e criou uma economia endividada e mais instável. Agora, chega o terceiro golpe consecutivo, a paragem económica completa por dois meses, que dará origem a falências e desemprego. A classe média, que era uniforme, divide-se actualmente entre uma metade que enriquece e outra que empobrece. Uns sentem-se inseguros, os outros mais confiantes do que nunca. A tudo isto, acresce o segundo fenómeno, que tem a ver com o controlo da circulação de ideias (ou de perspectivas da realidade). Os meios de comunicação tradicionais perderam esse controlo. Toda a gente tem um smartphone e pode filmar uma atrocidade na rua. As imagens espalham-se como um vírus, mesmo quando os fragmentos são incompletos ou fora do contexto. Já não há realidade única, mas muitas, algumas que se desmentem entre si, o que força a sociedade a dividir-se em bolhas, onde se refugiam tribos incapazes de aceitar pontos de vista alternativos. Com a pandemia e os seus efeitos, esta mudança geral só pode acentuar-se. A fragmentação torna difíceis as coligações, vai enfraquecer instituições e dividir alianças. A grande mudança não estará na relação entre potências, mas nas tensões internas de cada uma, alimentadas por descontentamento, guerras culturais e a percepção de insegurança. O tempo das potências é mais lento, mas todas terão problemas internos. Os EUA continuarão a liderar o mundo, a China terá dificuldade em contornar os obstáculos à sua ascensão, a UE depende da Alemanha para formar um núcleo duro de países e a Rússia precisa de gerações para superar as suas limitações demográficas.

25

por Luís Naves, em 12.06.20

António Vieira foi um dos maiores prosadores da língua portuguesa e uma das figuras marcantes do século XVII. Em várias ocasiões, enfrentou os poderosos e arriscou a vida com as suas críticas da escravatura e da brutalidade da colonização do Brasil. Apesar da grandeza evidente da obra, o padre tem em Lisboa uma estátua pindérica, que foi vandalizada por uns bárbaros que não compreendem nada. Pelo mundo civilizado proliferam hoje uns grupos minoritários que estão a lançar a moda da destruição das identidades nacionais: eles atacam símbolos, vandalizam o que lhe dá na veneta, desrespeitam as autoridades e desafiam as instituições democráticas. É um método de atacar liberdades e começa-se pela auto-estima de quem se pretende arrasar. Confunde-se protesto com rebelião, a crítica transforma-se em perseguição e assédio. As interpretações da história não são imutáveis e a nossa leitura do passado muda com as gerações, mas a revisão não pode ser feita por levianos. É um disparate aplicar a nossa grelha moral a pessoas do passado, que viveram em contextos diferentes. Um país que sempre menorizou ou perseguiu os seus maiores em vida, quer apagá-los de novo depois de mortos. António Vieira foi um grande escritor que devemos ler e admirar e foi também uma figura do seu tempo, que podemos tentar compreender melhor. A profanação da sua estátua em nome do anti-racismo é uma barbaridade imbecil, um crime contra o património da nossa nação. (E não tentem contestar a nossa liberdade de ter um património colectivo). Claro que estas guerras de cultura servem apenas para nos distrair das verdadeiras crises. Temos problemas de pobreza e má distribuição de rendimento, temos muito desemprego e teremos em breve ainda mais, vem aí uma hecatombe económica e não precisamos destas discussões parvas. Ou serão distracções oportunas?

Nota: Não vivemos em tempos de desistências. Sendo os meus textos aqui sistematicamente alvo de provocações de alguns comentadores que não apreciam o estilo, aviso que passarei a usar o privilégio de não aprovar comentários que, confundindo crítica com assédio, procuram condicionar ou distorcer as opiniões do autor.

24

por Luís Naves, em 11.06.20

Esta não será uma simples transformação nem foi apenas a quarentena que pôs as pessoas meio loucas. Isto vai mais fundo. O liberalismo parece condenado ou estará, no mínimo, em fase terminal. O nosso futuro inclui sobretudo a expansão das legiões da intolerância, como vemos em todos estes episódios da aplicação de uma moralidade contemporânea ao passado e, talvez ainda mais perigoso, o triunfo da intransigência na política e da mentira no pensamento. As discussões que antes pertenciam ao domínio das velhas instituições democráticas saltam para a rua e perdeu-se a transparência que ainda havia, a favor de maquinações feitas por organizações misteriosas sobre as quais sabemos muito pouco, nomeadamente sobre quem as financia e porquê. Os meios de comunicação (e era aqui que queria chegar) tendem a ser trincheiras militantes ou baratas tontas. É ocultado tudo aquilo que possa sair da narrativa conveniente. O próximo ciclo político vai ter menos referências do jornalismo e mais aldrabices, com guerras de cultura mais aceleradas e incivilizadas. As redes sociais serão os palcos privilegiados da política, os campos de batalha que vão determinar quem passa ao nível seguinte. O caos económico global beneficia meia dúzia de homens já estupidamente ricos, como nunca houve em tempo algum, donos das empresas que venceram a grande ruptura digital. Cada um é génio ou filantropo e alguns têm dinheiro para ir à lua. Toda esta comoção, que as suas criações amplificam, é como se não fosse nada com eles.

23

por Luís Naves, em 10.06.20

Sempre achei pouco credível o romance de Ray Bradbury Fahrenheit 451, uma distopia em que os livros foram banidos, são queimados e decorados por pessoas vivas. Observando o meu tempo, já não acho a ideia assim tão incrível. Em vários países cresce um movimento de contestação a figuras históricas e símbolos do passado. As estátuas são identificadas com tinta e segue-se um julgamento popular à maneira da revolução cultural. Depois, são derrubadas por uma turba feroz e qualquer tentativa de as repor será combatida com tumultos. Ao mesmo tempo, limita-se o acesso do público a obras de arte associadas a ideias que os manifestantes considerem perturbadoras. Pode ser uma pintura, um filme, um livro. O mecanismo de destruir estátuas não é novo, mas esteve sempre ligado a mudanças de regime. A prática de banir livros ou retirar filmes também não é nova, foi comum em épocas de intolerância e banalizada por fanáticos religiosos. A identidade das pessoas e dos povos está profundamente ligada à memória, por isso o novo radicalismo político não pretende fazer a revisão da história, mas apagá-la. É a melhor maneira de criar comunidades divididas e assegurar que numa época fragmentada se torne fácil abolir os factos. As diversas polícias do pensamento competem para impor a ortodoxia de vanguardas revolucionárias que dominam universidades e que procuram conquistar os meios de comunicação e as redes sociais. Sem ligações às origens, sem ideias próprias, desprovidos da alma, somos levados como crianças para onde eles nos quiserem levar. Para sítios desolados, como acontece na tirania comum.

22

por Luís Naves, em 19.03.20

Ao longo da vida, assisti do camarote a quatro grandes mudanças no mundo. A primeira chegou tardiamente a Portugal, sob a forma de revolução. Na altura, não entendi quase nada, mas agora percebo que houve uma espécie de tsunami social, económico e político que trouxe o país para a normalidade contemporânea. A segunda alteração foi simbolizada pela queda do Muro de Berlim e marcou o fim da Guerra Fria. Vieram depois o 11 de Setembro de 2001, que mudou o nosso sentido de segurança física, e a grande recessão de 2008, que abalou a segurança económica, mas estes dois movimentos estavam ligados a perturbações tecnológicas mais complexas. Não parece ousado dizer que a nossa vida vai levar outra volta. Muitas mudanças podem ser boas, as duas primeiras foram-no, mas esta vai atingir uma sociedade envelhecida e habituada a certos privilégios. Não coloca ponto final numa guerra que nos podia aniquilar nem abre os costumes a novas ideias, antes vem na sequência das outras duas mudanças, a encerrar-nos um pouco mais no medo: o que se aproxima ameaça erodir a abundância, fechar os portões de algumas liberdades, promete dividir ainda mais as gerações e as classes. Os historiadores do futuro talvez olhem para os 50 anos anteriores a 2020 como uma interessante anomalia, onde por acidente estávamos nós, entretanto esquecidos.

21

por Luís Naves, em 18.03.20

Samuel Pepys escreveu no seu diário, um dos mais famosos da literatura inglesa, páginas muito citadas sobre o incêndio de Londres de 1666 e tem entradas terríveis sobre a peste de 1665: é fácil perceber que não houve medidas de mitigação; o ceifeiro fazia a sua colheita e a sociedade arrastava-se na melancolia de contemplar a mortandade, sem imaginar como combater aquilo. No romance de Albert Camus, A Peste, Orão está isolada, em quarentena, mas a vida mantém-se, apesar da calamidade pública: os cafés estão abertos, é possível ir ao cinema. Em consequência, a doença alastra durante uma eternidade. No livro de José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, as vítimas de epidemia são colocadas num campo de concentração, uma espécie de zona vermelha mais próxima do que estamos a viver. A quarentena que calhou ao nosso tempo, e que terá a sua própria literatura, vai um passo além, separando cada indivíduo o mais possível de todos os outros. Somos ilhas num arquipélago, mas a vida prossegue, ligada à velocidade da luz, através de meios de comunicação que superam o contacto físico. Estamos separados uns dos outros e muito perto, o que é paradoxal.

20

por Luís Naves, em 15.03.20

Estas coisas acontecem de cem em cem anos. Ainda estávamos em Janeiro e discutia-se o processo de destituição do inquilino da Casa Branca. Nessa altura, muita gente escreveu que a morte de um general iraniano ia custar caro aos americanos, que no mínimo seriam expulsos do Médio Oriente. Tudo isto agora nos parece anterior à guerra anterior. No Irão, país comandado por gente do século XIV, morre-se à porta do hospital; já ninguém quer saber da campanha eleitoral na América, muito menos da independência da Catalunha; e já ninguém se lembra dos temas fracturantes que entre nós se discutiam com emoção (que temas eram esses, exactamente?). O mundo mudou e vai mudar ainda mais: muitos vão defender os muros que ontem criticavam, seja para migrantes sírios ou turistas espanhóis; muitos vão condenar os políticos que ontem consideravam geniais ou indispensáveis; muitos vão pedir mais segurança, mais distância em relação aos outros, mais repressão de comportamentos irreflectidos, menos tolerância para açambarcadores e outros parasitas. Depois, a grande vassoura da opinião pública vai remover os governantes que falharam e será reconstruida uma economia menos dependente da globalização, das fábricas chinesas e das decisões dos burocratas de Bruxelas.

19

por Luís Naves, em 11.03.20

Tentei recordar-me das coisas que pensei cinco dias atrás, dos excertos brilhantes de um livro que li, de uma conversa interessante, do filme fantástico que passou na televisão e que eu não conhecia; tentei recordar-me dos sonhos e das pessoas com quem me cruzei nas ruas e que me pareceram irrepetíveis e fascinantes; tentei fixar as memórias que me escapavam como a água a escorrer pelos dedos, mas das quais só me restam gotas. Ficaram os farrapos daquilo que vivi nesse dia e que talvez tenha sido um dos dias mais repletos da minha vida, não sei. Tudo se evaporou e diluiu na atmosfera invisível, o que se vive é a matéria que se esquece, aquele rosto, aquela sensação, aquela ideia única que nunca mais nos vai ocorrer, todos os sinais do tempo, não das coisas imutáveis, como a luz tépida da primavera que surge em cada ano durante uma manhã, mas os momentos únicos que as palavras não podem definir e que se perdem para sempre.

18

por Luís Naves, em 02.03.20

Parem o planeta, que saio nesta paragem. É um salve-se quem puder, a total falta de vergonha, o delírio e a gritaria histérica. Não me recordo de nada assim, nem nos piores momentos da Guerra Fria, quando podíamos ser todos incinerados em dez minutos, nem quando entrou em colapso o bloco comunista e os perigos pareciam imensos, nem durante os momentos mais severos da última crise financeira, não me recordo de ver estas massas de gente em movimento, o psicodrama das epidemias, a demagogia e o pânico de mãos dadas, este horror mascarado, a repugnância pelos outros e o medo da própria sombra. Sou muito jovem, sem memória daqueles séculos de que só ouvi falar, quando a civilização deslizava para o abismo sem motivo aparente. Sim, sei que tudo isto é superficial, o exagero do mundo mediático em que vivemos, sei que no fundo os humanos pertencem a uma espécie com inteligência, que o bem no fim triunfa, mas custa a acreditar, custa manter alguma crença nesta actualidade hipócrita que se olha ao espelho.

17

por Luís Naves, em 08.02.20

O líder do PSD, Rui Rio, não acredita que o seu partido seja de direita e quer conquistar o centro. Rio está a ver o que mais ninguém vê ou anda incrivelmente iludido. Na realidade, nos países europeus, o centro implodiu. Os eleitores vivem inquietos, recusam a uberização do trabalho, detestam ser a classe precária, e votam cada vez em maior número contra a estabilidade, que interpretam como estagnação. Em França e Alemanha, dois países traumatizados pelo passado das suas direitas, foi desenvolvido um sistema de cordão sanitário que começou por excluir partidos extremistas que não passavam dos 10 por cento. Só que os descontentamentos somam hoje 30 a 40 por cento e não é possível excluir tanta gente. Os partidos dos extremos crescem com os votos que as formações centristas rejeitaram durante anos, ao não reconhecerem os problemas da antiga classe operária, agora empobrecida e sem futuro. Os extremos ocupam o lugar vago e ganham terreno, apesar da resistência dos sistemas de poder, dos meios de comunicação, das elites académicas e das pressões financeiras. O eleitorado do centro é aquele que quer mais do mesmo e, nos tempos que vamos viver, será a minoria. Por isso, Rio parece ter ficado na guerra anterior, a lutar por um eleitorado que já não existe.

16

por Luís Naves, em 05.02.20

Tornou-se moda dizer que isto ou aquilo equivale a fascismo ou nazismo. Aplica-se a acusação a presidentes e deputados escolhidos em eleições livres, dirigentes partidários menores, comentadores de tuítes, enfim, a quem não tiver sólidas credenciais para se proclamar moralmente superior a tudo o resto. As pessoas que se dedicam a este exercício de ignorância estão na realidade a negar a história e a desculpar as ditaduras. Julgam prevenir o mal, mas banalizam o horror. Se o CDS é nazi, então o nazismo não pode ter sido assim tão mau; se Donald Trump, Salvini ou Bolsonaro são fascistas, Mussolini está desculpado. Acima de tudo, isto impede-nos de discutir as questões do nosso tempo. A relativização do antissemitismo ou do Holocausto, as comparações absurdas com épocas diferentes da nossa, a equivalência racional entre ideias banais e ideias genocidas ou ainda a crença não democrática de que os eleitores podem e devem ser ignorados, tudo isto vai além da tese estúpida para entrar nos territórios do perigosamente estúpido.

Blog da Semana

por Luís Naves, em 03.02.20

Reflexões, pequenas crónicas, ideias soltas, uma espécie de diário que Maria João Caetano tem reunido de maneira paciente. Escrita de qualidade, uma casa generosa, vão lá confirmar, chama-se A Gata Christie.

15

por Luís Naves, em 29.01.20

Ninguém está inteiramente satisfeito com o destino que lhe calhou em sorte. Toda a gente quer emagrecer ou perder um vício qualquer, toda a gente sonha com parceiros de fábula, viagens inesquecíveis, fortuna e felicidade. A vida de cada indivíduo parece cheia de falhas, incompleta. Em cada novo ano, surge aquele ritual um pouco pateta de dizer que melhores dias virão. Cada um acredita que pode despir a pele da sua personagem e mudar de vida como quem muda de fato. Não se trata exactamente de metamorfose, processo longo e planeado, mas de uma transformação instantânea, que nos renova e purifica num momento mágico. Infelizmente, os desejos em excesso têm geralmente o degrau onde tropeçamos e que não se deve confundir com as possibilidades de sonhar acordado. Enfim, às tantas é melhor olhar apenas em frente, esquecendo o passado, essa prisão guardada por fantasmas.

14

por Luís Naves, em 23.01.20

A processo de destituição de Donald J. Trump parece ser um caso clássico de erro político, devido ao drama de enredo labiríntico, em linguagem que poucos entendem. No âmago do episódio estão pressões sobre um líder estrangeiro (what else is new?) para alegadas vantagens eleitorais, mas a partidarização das provas foi de tal forma grosseira que metade do país jamais aceitará a condenação. Isto discute-se sem poder tocar no embaraçoso negócio ucraniano de Hunter Biden, filho do candidato presidencial democrata Joe Biden. Fevereiro é decisivo para a escolha dos democratas e a corrida já se resume ao institucional Biden (que terá a Ucrânia para explicar) ou o rebelde Bernie Sanders, cujo movimento populista incomoda as oligarquias. O que nos leva ao essencial. Trump foi à bolha de Davos explicar aos senhores do mundo: vocês fartam-se de fazer dinheiro comigo; podem não gostar de mim, mas estão todos muito mais ricos. Neste processo de destituição, se olharmos para além do folclore, não vemos nenhuma ameaça à ordem liberal ou às instituições da república americana, apenas um partido a dar um tiro no pé e um presidente que prepara a sua reeleição.

13

por Luís Naves, em 22.01.20

Há situações de violência na sociedade que não estão relacionadas com racismo, mas com classes sociais, pobreza, incerteza laboral, más condições de vida, alcoolismo, problemas mentais, desintegração familiar. E, no entanto, em cada dia que passa, assistimos a simplificações de rixas ou incidentes nos bairros duros. Foi um caso de racismo evidente, gritam uns, quando tudo indica que se tratou de algo mais complexo, sem dúvida ligado à vida dos subúrbios. Parece haver uma espécie de hipersensibilidade para a melanina, pigmento que protege do sol e existe em todo o mundo vivo. Do ponto de vista científico, ninguém sabe o que é isso da raça, pois a despigmentação ocorre nas populações, de forma natural, em dois ou três mil anos. Viemos todos de África, mas os marxistas contemporâneos (estou apenas a registar um facto curioso) abandonaram a explicação da luta de classes e insistem em criar caldinhos com base naquele milímetro da pele, fazendo borbulhar conflitos cujos motivos são outros: o desenraizamento das comunidades, a desagregação das culturas, a desigualdade económica. Não é possível sair desta chinfrineira: quem tiver dúvidas sobre o racismo como explicação universal, é racista. 

12

por Luís Naves, em 20.01.20

O partido Livre não me interessa, mas foi impossível não reparar no patético espectáculo desta organização, no fim-de-semana, e preocupou-me a subserviência da comunicação social, que neste caso parece incapaz de fazer as perguntas certas. Foi extraordinária a hipocrisia do julgamento conceptual feito em público à deputada do partido, Joacine Katar-Moreira, que disse com toda a franqueza aquilo que os seus inquisidores mereciam ouvir. Este partido inenarrável parece estar agora envolvido num exercício cínico de fritar a deputada em fogo lento: dizem que só um milagre a salva de perder a confiança do partido, mas adiaram a decisão de lhe retirar a confiança. E ninguém pergunta o óbvio: para quê adiar uma decisão que está tomada e que só um milagre muda? A deputada foi eleita pelos votos do povo, não pelo partido, mas foi Rui Tavares (o verdadeiro líder do Livre) quem comentou os factos na RTP, num episódio de manipulação da opinião pública que devia envergonhar os contribuintes. A propósito de comentar as eleições primárias no PSD, Tavares falou mais de dez minutos sobre a tentativa de expulsão da deputada, num tom fariseu e sonso que não enganava ninguém. Joacine foi um instrumento útil para as ambições desta gente, mas perdeu os seus direitos e pode ser lançada aos lobos.

11

por Luís Naves, em 16.01.20

Estava a ver um jogo de futebol pela televisão e, a certo ponto, disse em voz alta que o treinador devia tirar o jogador fulano. Passados dois ou três minutos, o tal jogador marcou um grande golo que deu a vitória à minha equipa. É simples: não percebo nada de futebol. Claro que sei distinguir uma obra de arte, aquela finta inesperada, seguida do pontapé perfeito que mais parece um poema. Mas, por favor, não levem a sério as minhas opiniões sobre quem deve jogar. Se isto é tão evidente no futebol (ou na medicina), qual a razão de não ser óbvio nas artes? O amador não é entendido e os artistas trabalham para o esquecimento, pois só um felizardo em mil sobreviverá ao juízo do tempo, com sorte à mistura, como aconteceu por exemplo a Fernando Pessoa. Imaginem que Pessoa escrevia ao gosto da época, sem a liberdade artística que teve por ser quase anónimo; que ouvia os conselhos de amigos que sabiam tanto de poesia como eu de futebol (os heterónimos são um disparate, Fernando); ou que, em vez de ser conhecido apenas por um punhado de artistas, o poeta decidisse seguir as modas. Felizmente, ele decidiu a nosso favor, as gerações futuras: o pouco que publicou em vida era inacessível para as massas e muito do que não publicou era demasiado estranho, mesmo para entendidos. Ainda hoje nos parece um milagre.

10

por Luís Naves, em 15.01.20

Uma escultura encomendada por uma autarquia foi vandalizada, altura em que surgiu um clamor em relação ao custo, com muitos comentários sobre a inexistência de qualquer elemento estético. O autor, Pedro Cabrita Reis, veio a terreno defender o seu trabalho e explicou o que devia ser óbvio: o artista define o que é ou não é arte, mas essa ideia continuou a chocar alguns indignados, para quem o julgamento cabe apenas a quem observa a obra. Ora, só o artista pode fazer arte; só ele tem a capacidade de criar algo inteiramente novo naquela circunstância; o crítico ou o amador podem ter opiniões, podem olhar para outro lado, podem apreciar, rejeitar, aceitar, mas isso não altera nada. Quando a encomenda usou dinheiro público, podemos penalizar eleitoralmente quem a fez, temos essa liberdade, mas o tempo é o único grande crítico. Se a obra não for boa, não sobreviverá a esse julgamento. Aqueles que defendem o fim da liberdade artística deviam ponderar no que verdadeiramente afirmam: confundem o seu gosto com o da sociedade e têm uma bola de cristal que lhes diz como a obra será vista pelas gerações do futuro. Desta forma, impedem toda a arte futura, pois impõem o seu gosto limitado. 


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