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14

por Luís Naves, em 23.01.20

A processo de destituição de Donald J. Trump parece ser um caso clássico de erro político, devido ao drama de enredo labiríntico, em linguagem que poucos entendem. No âmago do episódio estão pressões sobre um líder estrangeiro (what else is new?) para alegadas vantagens eleitorais, mas a partidarização das provas foi de tal forma grosseira que metade do país jamais aceitará a condenação. Isto discute-se sem poder tocar no embaraçoso negócio ucraniano de Hunter Biden, filho do candidato presidencial democrata Joe Biden. Fevereiro é decisivo para a escolha dos democratas e a corrida já se resume ao institucional Biden (que terá a Ucrânia para explicar) ou o rebelde Bernie Sanders, cujo movimento populista incomoda as oligarquias. O que nos leva ao essencial. Trump foi à bolha de Davos explicar aos senhores do mundo: vocês fartam-se de fazer dinheiro comigo; podem não gostar de mim, mas estão todos muito mais ricos. Neste processo de destituição, se olharmos para além do folclore, não vemos nenhuma ameaça à ordem liberal ou às instituições da república americana, apenas um partido a dar um tiro no pé e um presidente que prepara a sua reeleição.

13

por Luís Naves, em 22.01.20

Há situações de violência na sociedade que não estão relacionadas com racismo, mas com classes sociais, pobreza, incerteza laboral, más condições de vida, alcoolismo, problemas mentais, desintegração familiar. E, no entanto, em cada dia que passa, assistimos a simplificações de rixas ou incidentes nos bairros duros. Foi um caso de racismo evidente, gritam uns, quando tudo indica que se tratou de algo mais complexo, sem dúvida ligado à vida dos subúrbios. Parece haver uma espécie de hipersensibilidade para a melanina, pigmento que protege do sol e existe em todo o mundo vivo. Do ponto de vista científico, ninguém sabe o que é isso da raça, pois a despigmentação ocorre nas populações, de forma natural, em dois ou três mil anos. Viemos todos de África, mas os marxistas contemporâneos (estou apenas a registar um facto curioso) abandonaram a explicação da luta de classes e insistem em criar caldinhos com base naquele milímetro da pele, fazendo borbulhar conflitos cujos motivos são outros: o desenraizamento das comunidades, a desagregação das culturas, a desigualdade económica. Não é possível sair desta chinfrineira: quem tiver dúvidas sobre o racismo como explicação universal, é racista. 

12

por Luís Naves, em 20.01.20

O partido Livre não me interessa, mas foi impossível não reparar no patético espectáculo desta organização, no fim-de-semana, e preocupou-me a subserviência da comunicação social, que neste caso parece incapaz de fazer as perguntas certas. Foi extraordinária a hipocrisia do julgamento conceptual feito em público à deputada do partido, Joacine Katar-Moreira, que disse com toda a franqueza aquilo que os seus inquisidores mereciam ouvir. Este partido inenarrável parece estar agora envolvido num exercício cínico de fritar a deputada em fogo lento: dizem que só um milagre a salva de perder a confiança do partido, mas adiaram a decisão de lhe retirar a confiança. E ninguém pergunta o óbvio: para quê adiar uma decisão que está tomada e que só um milagre muda? A deputada foi eleita pelos votos do povo, não pelo partido, mas foi Rui Tavares (o verdadeiro líder do Livre) quem comentou os factos na RTP, num episódio de manipulação da opinião pública que devia envergonhar os contribuintes. A propósito de comentar as eleições primárias no PSD, Tavares falou mais de dez minutos sobre a tentativa de expulsão da deputada, num tom fariseu e sonso que não enganava ninguém. Joacine foi um instrumento útil para as ambições desta gente, mas perdeu os seus direitos e pode ser lançada aos lobos.

11

por Luís Naves, em 16.01.20

Estava a ver um jogo de futebol pela televisão e, a certo ponto, disse em voz alta que o treinador devia tirar o jogador fulano. Passados dois ou três minutos, o tal jogador marcou um grande golo que deu a vitória à minha equipa. É simples: não percebo nada de futebol. Claro que sei distinguir uma obra de arte, aquela finta inesperada, seguida do pontapé perfeito que mais parece um poema. Mas, por favor, não levem a sério as minhas opiniões sobre quem deve jogar. Se isto é tão evidente no futebol (ou na medicina), qual a razão de não ser óbvio nas artes? O amador não é entendido e os artistas trabalham para o esquecimento, pois só um felizardo em mil sobreviverá ao juízo do tempo, com sorte à mistura, como aconteceu por exemplo a Fernando Pessoa. Imaginem que Pessoa escrevia ao gosto da época, sem a liberdade artística que teve por ser quase anónimo; que ouvia os conselhos de amigos que sabiam tanto de poesia como eu de futebol (os heterónimos são um disparate, Fernando); ou que, em vez de ser conhecido apenas por um punhado de artistas, o poeta decidisse seguir as modas. Felizmente, ele decidiu a nosso favor, as gerações futuras: o pouco que publicou em vida era inacessível para as massas e muito do que não publicou era demasiado estranho, mesmo para entendidos. Ainda hoje nos parece um milagre.

10

por Luís Naves, em 15.01.20

Uma escultura encomendada por uma autarquia foi vandalizada, altura em que surgiu um clamor em relação ao custo, com muitos comentários sobre a inexistência de qualquer elemento estético. O autor, Pedro Cabrita Reis, veio a terreno defender o seu trabalho e explicou o que devia ser óbvio: o artista define o que é ou não é arte, mas essa ideia continuou a chocar alguns indignados, para quem o julgamento cabe apenas a quem observa a obra. Ora, só o artista pode fazer arte; só ele tem a capacidade de criar algo inteiramente novo naquela circunstância; o crítico ou o amador podem ter opiniões, podem olhar para outro lado, podem apreciar, rejeitar, aceitar, mas isso não altera nada. Quando a encomenda usou dinheiro público, podemos penalizar eleitoralmente quem a fez, temos essa liberdade, mas o tempo é o único grande crítico. Se a obra não for boa, não sobreviverá a esse julgamento. Aqueles que defendem o fim da liberdade artística deviam ponderar no que verdadeiramente afirmam: confundem o seu gosto com o da sociedade e têm uma bola de cristal que lhes diz como a obra será vista pelas gerações do futuro. Desta forma, impedem toda a arte futura, pois impõem o seu gosto limitado. 

9

por Luís Naves, em 13.01.20

Vem isto a propósito de um post mais abaixo, do José Teixeira (jpt) sobre a censura no Facebook a um blogue controverso. Alguém comentou que o Facebook é uma empresa privada e tem o direito de reservar o acesso aos seus serviços, mas a questão infelizmente não é assim tão simples. Aceita-se o poder monopolista da empresa e, sobretudo, a influência ideológica que esta terá, se puder seleccionar as ideias difundidas. Que controlo exerce a sociedade sobre um serviço que, na prática, influencia a política e reduz os cidadãos a produto de negócio? Por outro lado, poucos têm reparado no extraordinário poder acumulado pelos híper-capitalistas, outrora empresários que não faziam prisioneiros e agora transformados em pacíficos defensores das causas puras, que financiam através de instituições de aparência inócua, distribuindo dinheiro e prémios a intelectuais e outros bem-pensantes que ficam a dever favores. Estes magnatas são gente discreta, cujas verdadeiras intenções não conhecemos, e o fenómeno tem qualquer coisa de inédito: no século passado, a esquerda costumava criticar com unhas e dentes os capitalistas que se metiam em política; agora, a hipocrisia não incomoda uma alma.

8

por Luís Naves, em 09.01.20

Vejamos as principais potências da União Europeia: o Reino Unido confirmou nas urnas a sua saída do clube; em Espanha, há um novo governo progressista, com maioria de dois votos, que depende das cedências que forem feitas aos independentistas catalães e que serão inaceitáveis para mais de metade do país; em Itália, a direita na oposição tem ampla maioria nas sondagens e um governo chefiado pelo populista eurocéptico Matteo Salvini pode estar à distância de escassos meses; em França, um presidente impopular enfrenta protestos de rua contra reformas urgentes, que a cada dia se mostram mais improváveis; na Alemanha, a chanceler Merkel perdeu autoridade e o seu partido está fraco nas sondagens, pelo que, se houver eleições, o país pode ficar numa situação ainda mais pantanosa; entretanto, na Europa Central, cresce uma aliança de países liderada pela Polónia, em contestação da ortodoxia de Bruxelas. Os europeus continuam a depender da energia russa e da protecção militar americana. Em pleno abrandamento económico, a União Europeia demonstrou mais uma vez, na crise iraniana, que deixou de contar na ordem global. E, apesar de tudo, os noticiários continuam a dizer que a Europa se prepara para liderar isto e dar cartas naquilo.

7

por Luís Naves, em 08.01.20

No maravilhoso mundo da nova comunicação, o futuro pede escala, fragmentação e vazio. O consumidor de informação passou a ser o produto e, em troca, nem sequer recebe informação, mas entretenimento. O poder está nas plataformas agregadoras. Os jovens deixaram de ler e já só vêem vídeos; em média, as pessoas olham sete horas e meia por dia para ecrãs de todo o tipo. É aqui que está o negócio, milhões a seguirem histórias inexistentes, como o cão com a cauda na cabeça ou a irritação das massas com a vedeta que não mencionou os fogos na Amazónia do ponto de vista das alterações climáticas. Activismo, celebridades, política light, esta é a mistura para as próximas décadas, numa espécie de revolução cultural descerebrada e pós-moderna, em que multidões em fúria vão agitar o pequenino livro vermelho das banalidades. Um cretino terá mais força do que o maior especialista. Os factos deixaram de importar, o voto deixou de contar. A internet é a verdadeira realidade.

6

por Luís Naves, em 07.01.20

Há pessoas que se incomodam muito com tudo aquilo que sai da narrativa oficial. Preferem as versões confortáveis e as versões habituais. É natural, a sociedade portuguesa é profundamente conservadora, tem horror a mudanças e desconfia de imediato de todas as ideias que não sejam conforme aquilo que é o costume, ou seja, as ideias que não repitam a lengalenga folclórica, as banalidades regimentais, as barbaridades da praxe. Em Portugal, sempre se incineraram os pensamentos divergentes. Nada mudou. A diferença irrita e merece o exílio. A controvérsia é sempre uma escolha de trincheiras. É por isso que não temos debates nem sociedade civil. Qualquer pensamento que não tombe no conformismo é logo confrontado com críticas incompreensíveis e ataques que torcem a argumentação até que esta esteja docilmente domesticada. Isto explica em grande parte a nossa vocação para cauda da Europa.

5

por Luís Naves, em 06.01.20

Os defensores da União Europeia na linha de Bruxelas costumam ter quatro argumentos: UE e Europa são sinónimos; sem UE não haverá paz no continente; as limitações do poder europeu não estão no excesso de Europa, mas na falta dela; todos os problemas são criados pelo nacionalismo. Ora, estes argumentos parecem frágeis. A paz nos últimos 70 anos explica-se pela protecção americana; na questão do sinónimo, a ideia de Europa não exclui Rússia ou Grã-Bretanha, mas o projecto político da UE pode passar sem as duas; não há maneira de verificar o terceiro argumento, mas as limitações terão outros motivos, por exemplo, dependência energética, irrelevância militar e a incapacidade de liderar as recentes transformações tecnológicas; por último, o nacionalismo não foi a causa directa de nenhuma das três calamidades europeias no anterior milénio (peste negra do século XIV, guerras religiosas do século XVII ou fascismo e comunismo no século XX). Embora sem a rivalidade dos impérios não se possa compreender o grande suicídio europeu na Primeira Guerra Mundial, também podemos dizer que o poder das nações foi uma das alavancas no milagre da ascensão europeia nos últimos 250 anos.

4

por Luís Naves, em 05.01.20

O esforço humano anda ligado à desilusão, mas a vida contemporânea parece esquecida dessa regra. Deixou de haver tempo para as coisas amadurecerem, desapareceu a paciência e as pessoas exigem não menos do que a hipnose sublime, de preferência sem terem de pagar. Tudo é espectáculo, floreado retórico, hipérbole, ou dito de outra forma, nada é o que parece, nem na política, nem na cultura. De certa maneira, voltámos um pouco à época barroca, visualmente exagerada, mas relativamente pobre de conteúdo. As elites de então viviam numa bolha, queriam construir um mundo utópico, de cima para baixo, e adoravam fogo-de-artifício, espécie de arte vistosa que dez minutos depois se esqueceu facilmente, tal como hoje nos esquecemos da falsa realidade que preenche as nossas televisões. Com todas as suas qualidades, esse tempo acabou em desilusão, como acabam todos.

3

por Luís Naves, em 04.01.20

Do nevoeiro vinha o gemido melancólico de um monstro desconhecido, uma espécie de choro sem lágrimas, prolongado, de alguém que pedia misericórdia. Nunca tinha pensado que os monstros também tivessem assim grandes tristezas. Este devia ser o último da sua espécie. Escondia-se na névoa do rio e lamentava-se ali, julgando que ninguém ouvia os seus queixumes, sentindo o fim próximo, e que não era apenas certeza da extinção da sua própria consciência, mas a de todas as criaturas semelhantes que tinham existido por milhões de anos e cujas vidas, culminando na sua, seriam em breve para sempre esquecidas, à excepção de uns quantos fósseis enigmáticos que podiam dar a uma praia para que os encontrasse um outro descendente desta Terra. Na derradeira solidão, a mais completa, o monstro lamentou-se durante horas, depois o nevoeiro dissipou, o sol brilhou sobre o largo rio e não se ouviu mais aquela lástima. Era o último da espécie, nenhum osso deu à costa, por certo o cadáver do monstro afundou-se no lodo e ali ficou.

2

por Luís Naves, em 03.01.20

Por razões que não são inteiramente claras, vivemos na era da incerteza. Ideias sobre a natureza imprecisa da realidade passaram para a consciência popular, foram absorvidas, por assim dizer, por uma sociedade cada vez mais fragmentada, onde muitas pessoas se sentem inseguras. Essa ambiguidade produz desconfiança em relação às instituições, que estão geralmente em declínio. Talvez isso explique que nos países desenvolvidos o eleitorado prefira líderes que parecem ter tudo sob controlo e que, por isso, são criticados pelos poderes mediáticos em perda de graça. A descrença contemporânea pode estar ligada ao envelhecimento da população ou à infantilização da juventude, mas também parece que os antigos conflitos entre classes deixaram de ser percebidos como tal e são hoje interpretados como a insatisfação injustificada de pessoas cuja opinião não conta. A cultura é hoje dominada por sentimentos de culpa, mitologias identitárias e lutas simplificadas entre o bem e o mal.

1

por Luís Naves, em 02.01.20

Quando no supermercado saímos para pagar, a fila do lado é sempre mais rápida. Em todos os restaurantes os empregados servem sempre primeiro as mesas dos clientes que chegaram depois de nós. Aliás, o trânsito é menos intenso no outro lado da autoestrada, os comboios que vemos viajam no sentido oposto ao do nosso comboio e as rosas do vizinho são mais viçosas, apesar do nosso quintal ter melhor solo e melhor exposição solar. Há outras regras gerais no mundo: as mulheres dos outros são mais bonitas e os carros dos amigos são mais luxuosos. No emprego, o tipo que trabalha ao nosso lado, e que é imbecil, recebe mais elogios da chefia, a qual prefere gabar o seu talento e desprezar o nosso. Para piorar uma situação já de si péssima, os pingos da chuva, que se deviam espalhar de forma uniforme, concentram a sua queda sobre o nosso corpo. Felizmente, porque tudo se compensa, no nosso caso o tempo passa mais depressa do que para os outros.

Alguns números

por Luís Naves, em 07.10.19

As análises eleitorais apreciam as percentagens, mas o número total de votos ajuda a visualizar factos escondidos. Exemplo: em dez anos, o País perdeu quase 600 mil eleitores. Nas legislativas de domingo votaram menos de 5,1 milhões de pessoas, o menor valor em duas décadas. Ora, em 2009 e 2005, o número de votantes andou em redor de 5,7 milhões. As taxas de abstenção em percentagem são, portanto, uma ilusão. Claro que muitos portugueses emigraram e a população está em queda, mas isso não justifica o desaparecimento de 10% dos eleitores em dez anos e de 3% nos quatro últimos. Só há uma explicação: a abstenção subiu.
Nos valores absolutos há outros dados: o PSD perdeu cerca de 740 mil votos em relação a 2011 e os partidos que fizeram a gerigonça perderam, no total, 55 mil votos em quatro anos. Sim, ao contrário do que foi dito, a geringonça perdeu eleitores, à custa sobretudo do Partido Comunista, que teve o seu pior resultado do século. Neste domingo, a direita tradicional teve também, de forma objectiva, o seu pior resultado. Não há volta a dar: com 1,4 milhões de votos, Rui Rio conseguiu atingir os mínimos do PSD.
Pelo lado dos vitoriosos, o triunfalismo não parece adequado. Em 1999, o PS venceu as eleições com 2,3 milhões de votos e foi o pântano; desta vez, os socialistas ganharam com 1,8 milhões de votos e, sendo minoritários, dispõem de várias combinações de poder. Tudo mudou, mas a erosão socialista continua. O PS ganhou 300 mil eleitores em relação a 2011, mas esse foi o ano da bancarrota. Embora tenha recuperado um pouco, António Costa está neste momento ainda a 720 mil votos do máximo da maioria absoluta de José Sócrates. Com um acréscimo de 120 mil após quatro anos de Governo, o PS ficou 130 mil eleitores abaixo da barreira dos 2 milhões. Até agora, todos os vencedores estiveram acima desse limite (2015 foi o ano em que a regra se perdeu, já que a governação caiu nos braços do segundo partido).
Por outro lado, tornou-se mais fácil entrar no parlamento: os três novos partidos parlamentares tiveram em redor de 65 mil votos cada, mas o BE entrou em 2002 com 132 mil. Obviamente, os eleitores vivem em regiões urbanas e a campanha concentra-se nas regiões onde não existe voto útil, mas parecem resultados frágeis, mesmo que estas formações cresçam, como aconteceu com o PAN e os próprios bloquistas. Apesar de ter perdido 58 mil votos face a 2015, o Bloco de Esquerda continua a ser um partido em crescimento, pois em vinte anos triplicou a votação. O melhor resultado foi em 2009, com a atracção de eleitores que provavelmente tinham contribuído, quatro anos antes, para a maioria absoluta dos socialistas (2,6 milhões de votos, o melhor resultado partidário do século).
Os números também sugerem que não há bipolarização, pelo contrário, existe fragmentação. Longe vão os tempos em que o arco da governação dominava o sistema. Somando PS, CDS e PSD desde 1999, obtém-se um número sempre superior a 4 milhões de votos, excepto a partir de 2015, quando os partidos de poder começaram a perder fôlego. Nas legislativas de 2019, o trio da elite não foi além de 3,5 milhões de votos, havendo 1,6 milhões nos restantes partidos, que podemos definir como de protesto: dito de outra forma, o protesto passou de 15% em 1999 para 31% em 2019. E, em duas décadas, os partidos da governação perderam um milhão de votos.
Em resumo, estas eleições tiveram menos eleitores, deram origem a maior fragmentação do parlamento, representaram os piores resultados da direita numa geração e acentuaram a tendência de redução do espaço dos partidos tradicionais, um dos quais, o CDS, luta pela sobrevivência. Com o descontentamento a crescer e o voto de protesto a consolidar-se, a democracia pode já estar em crise ou mudança.

O baile do acaso

por Luís Naves, em 31.08.19

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Sempre me fascinou aquela ideia de que existem almas gémeas para cada um de nós e nestes dias modernos até se escrevem algoritmos para tentar iludir o grande baile do acaso em que vivemos e onde é possível que dois parceiros ideais se cruzem muitas vezes no meio da multidão sem jamais se encontrarem de facto. Há quem se apaixone em numerosas ocasiões na vida, há quem infelizmente não tenha ilusões sobre o amor, cada um sofre à sua maneira. Um dia, de forma cruel, podemos encontrar a nossa alma gémea já em fase adiantada dos anos e podemos talvez pensar no que teria acontecido se o destino nos fizesse encontrar a ambos mais cedo, mas será demasiado tarde para desfazer o que foi, as crianças que nasceram e cresceram em vez das que nunca existiram, as memórias que ficaram em vez das que nunca foram inventadas. Sempre me fascinou este mito enraizado de se esconder na escuridão furtiva do tempo aquela pessoa perfeita que era só para nós. Sempre me fascinou o mito de que há uma estação do nosso caminho onde fatalmente nos devemos encontrar os dois, desviando cada um a sua linha de vida, para ser tudo divino até à estação terminal onde morreremos tranquilos, na beatitude do amor autêntico e completo, o único que não passando pelas coisas corriqueiras da biografia humana é, por isso mesmo, inatingível.

Murmúrios e sussurros

por Luís Naves, em 29.08.19

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Não me interpretem mal, o sol brilha até com excesso de intensidade e vemos pessoas felizes ou em boa disposição; abrimos as redes sociais e chegam numerosos ecos de vidas satisfeitas e preenchidas; pelas televisões encontramos gente cheia de certezas e os políticos falam com confiança sobre o futuro, que tratam por tu. No entanto, por todo o lado há certos sinais ligeiros de inquietação, como se estivéssemos dentro de um romance negro, um mau romance, digo eu, pois o autor não soube colocar na paisagem brumas perturbadoras, nem o barulho alternado de remadores que se aproximam por um mar invisível, nem vozes sussurradas capazes de despertar receios. Esta história mal contada tem apenas alguns sinais ambíguos de pessoas desconhecidas que nos aparecem de súbito à frente, aparentemente desesperadas ou já sem fôlego; ou aqueles fantasmas que se arrastam sem destino pelos centros comerciais em busca do ar condicionado; ou aqueles velhos muito pobres, tão pobres que nunca fazem de pedintes. Por todo o lado vemos estes pequenos sinais que já não são notícia, da empresa em dificuldades que provavelmente terá de fechar, das vidas gastas, dos alucinados que se põem aos gritos na via pública, enquanto o mundo satisfeito mergulha nas importantes discussões da influência e no triunfo da futilidade.

Desconcerto

por Luís Naves, em 13.07.19

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Quase todas as pessoas de qualidade com quem me cruzei atravessaram nas suas vidas períodos de dificuldades. Também conheci muitos videirinhos, que andavam sempre contentes. Há um poema de Luís de Camões, Esparsa ao Desconcerto do Mundo, cujos primeiros versos descrevem este fenómeno de forma exemplar:


Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
(…)
O poeta achava que este desconcerto era do mundo, não apenas português, mas o facto é que conheço pessoas de qualidade que, lá fora, cumpriram o potencial. Se tivessem ficado, estes indivíduos seriam como os outros, com as mesmas histórias de chefes tóxicos, frustrações acumuladas, trabalhos não reconhecidos; teriam sido ultrapassados pelo mandarete recomendado ou pelo medíocre temido; teriam sido bloqueados pela «apagada e vil tristeza» de um País que se arrasta na pantanosa incapacidade. Enfim, talvez o desconcerto seja mesmo do mundo: um pouco por todo o lado manifestam-se interesses poderosos, triunfam arrivistas e instalam-se coveiros de instituições. Certos conflitos estão a limitar as democracias e a transformar o exercício da liberdade em amálgamas indiferenciadas, sem identidade ou ética, onde os deuses do falso igualitarismo diluem e relativizam valores antigos. A sociedade fragmenta-se e o poder é efémero, a arte combate a beleza, cada tribo tem a sua interpretação da realidade. Admito que aquilo a que assistimos seja até a transição para um mundo melhor, mas o poema de Camões deixa a pairar a ideia de que o desconcerto é sobretudo sintoma de declínio ou da transformação do mundo dos fortes no mundo dos fracos, quando a esperança dos bons for substituída definitivamente pela tirania dos maus.

Rebelião eleitoral

por Luís Naves, em 26.05.19

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Ainda é cedo para se perceber o que aconteceu nestas eleições europeias, mas parece ter ocorrido uma rebelião contra os partidos do sistema. Os socialistas já não lideram a esquerda europeia, pelo menos sozinhos, e ficaram atrás dos verdes em dois grandes países, França e Alemanha. O Partido Popular Europeu (PPE) e os Socialistas e Democratas (SD), que controlavam o parlamento, perderam o seu confortável monopólio e terão de juntar a família de partidos liberais ao núcleo dominante (Portugal não elegeu ninguém para este grupo). Os conservadores do PPE continuam a perder votos para uma direita radical que teve um desempenho mais ou menos: vitória em França e Itália, mas resultados decepcionantes na Holanda e Alemanha (Portugal também não tem ninguém neste grupo). Na nossa comunicação social, a amálgama de populistas, extremistas e reformistas é descrita como um conjunto homogéneo que tem a intenção de destruir a Europa, mas a coisa é mais complicada e consiste, na realidade, na ascensão de vários movimentos de protesto que pretendem mudanças, nem sempre compatíveis entre si. Finalmente, no Leste, há também um fenómeno claro, refiro-me à forma como os partidos pós-comunistas estão a ser cilindrados, agora não apenas na Hungria e na Polónia, mas em toda a região. O que significam estas rebeliões eleitorais? É cedo para percebermos, mas o voto de protesto na Europa aumentou; a crise financeira está finalmente a produzir os seus efeitos políticos e começa a viragem de ciclo (o fim da Era Merkel e o início de outra fase). O próximo parlamento europeu será bem mais interessante do que o anterior e o Brexit é inevitável. Em relação a Portugal, onde se instalou uma desilusão melancólica, o eleitorado acentua a agonia da direita, mas vota à esquerda sem a convicção do passado.

Verniz de civilização

por Luís Naves, em 25.05.19

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Num dos melhores episódios da série clássica Twilight Zone, O Abrigo, de 1961, conta-se a história de algumas famílias abastadas numa rua suburbana da América. No início, vemos a amizade desse grupo de vizinhos, na festa de aniversário em casa de um deles, médico; em conversa, o anfitrião é criticado pelo esforço e dinheiro que investiu na construção de um abrigo anti-nuclear. De súbito, a confraternização é interrompida pelo anúncio de rádio, que dá conta de um suposto ataque inimigo, com explosões dentro de 15 minutos. Rapidamente se instala o pânico, que vai crescendo até uma histeria criminosa, pois todos querem ter acesso ao abrigo anti-nuclear e acham injusto que só haja lugar para três sobreviventes. O episódio está muito bem escrito e resolvido, tem excelentes actores, e esta história continua a ser certeira. Já não há ameaça credível de extinção global em 15 minutos, mas existem outras formas de possíveis colapsos com culpa humana, porventura mais lentas, igualmente inexoráveis. As ameaças são evidentes: a insustentabilidade de uma economia de crise que atropela as pessoas, o sonambulismo da política, toda a nossa vida baseada em níveis de consumo irrealistas. E, no entanto, persiste uma espécie de alheamento, que nos faz rir de quem tenta construir abrigos contra catástrofes no futuro (não são os abrigos físicos, como no filme, mas soluções difíceis, que as sociedades travam com palavreado vazio). Se nada mudar, um dia não vamos tolerar o abrigo do vizinho, o que significa o estalar do verniz civilizacional naquele momento em que as pessoas perceberem que vem aí uma grande mudança e nem todos se salvam.


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