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Delito de Opinião

O estado de incompreensão

Luís Naves, 26.02.24

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Começa a ser demasiado evidente que a guerra da Ucrânia está perdida, mas os comentadores, com raras exceções, continuam a iludir a realidade. Na frente de combate, o lado ucraniano parece à beira do colapso, não há munições e as baixas acumulam-se. O país ficou arruinado e a estratégia de não se permitir o fim do massacre revela a mais pura hipocrisia.

A ideia da América era reduzir as capacidades militares russas sem perder soldados americanos, mas assistimos à destruição progressiva da Ucrânia, que fornece a carne para canhão. O Ocidente queria gerir o fim do império russo, mas apenas reanimou o adversário. Dizem agora que os russos invadem a Europa se a Ucrânia perder, mas oculta-se que o lado europeu da NATO gasta seis vezes mais dinheiro em defesa do que a Rússia. Se nem nos conseguimos defender com tal abundância, a verba serviu para quê? Portugal é um dos entusiastas na defesa da Ucrânia, diz que vai até ao fim, mas não consegue pagar o seu próprio compromisso na NATO de 2% do PIB em defesa.

Esta guerra de dois anos matou talvez meio milhão de pessoas e provocou na Europa brutais aumentos no custo da energia e dos alimentos. A sabotagem dos gasodutos NordStream foi ignorada e o gás natural americano é comprado ao triplo do preço do gás russo. Os nossos dirigentes diziam que a Rússia ia colapsar sob o peso das sanções, mas as sanções saíram do bolso dos europeus. Bruxelas também permitiu a entrada livre de produtos agrícolas ucranianos mais baratos, que não cumpriam as regras da política agrícola comum, e os agricultores europeus entraram em revolta. Não deixa de ser curioso que a metade mais fértil das terras agrícolas ucranianas fosse comprada antes da guerra por multinacionais americanas (também sauditas e europeias) que querem escoar os seus produtos.

 

 

A guerra no fim do mundo

Luís Naves, 06.01.24

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Se algum intelectual ou pacifista tentasse saber o motivo daquela guerra, teria dificuldade em adiantar uma explicação convincente. Questões de espaço, a extrema vaidade da espécie, algum defeito da inteligência ou a simples desconfiança entre os beligerantes, tudo isso poderia servir de justificação. Nunca saberemos. O facto conhecido é que estes animais não conseguiram chegar a um acordo de paz. Odiavam-se sem limites segundo fronteiras de língua, religião e cultura. Foi também uma questão de crista, ou seja, de uma minúscula diferença no aspecto exterior dos membros da espécie.
As colunas militares arrasavam tudo à sua volta, os campos de cultivo, as quintas de herbívoros comestíveis, os canais de irrigação. Há um dado inegável: os répteis com crista atacaram o território inimigo quando estavam já em situação desesperada, reduzidos a menos de um terço do número que existira no início da guerra.
O confronto durara pelo menos três gerações e a violência tinha levado estas bestas ferozes à beira da extinção. Não havia qualquer possibilidade de tréguas. O exército dos que tinham crista entrou pela selva e queimou tudo o que ali existia, avançou quase até ao fim da península e foi devastando as pequenas cidades dos répteis sem crista, não poupando adultos ou crias, destruindo até os ovos ainda nos seus ninhos, mesmo quando estavam à beira de terminar a incubação, o que era um grande crime.
Foi um massacre intenso e o comandante da força não conseguia explicar aos seus soldados o motivo daquela acção genocida. Era assim, tinha sido sempre assim, disse ele aos oficiais do estado-maior da campanha, na euforia da vitória iminente, quando celebravam a queda próxima da cercada capital inimiga, onde um pequeno grupo de resistentes prometia lutar até ao último dinossauro.
Foi então que, por instinto, os oficiais ergueram em uníssono a cabeça, viram aquele sol brilhante, ainda para lá das nuvens e estas desfizeram-se e havia um globo de luz intensa que parecia mover-se. Não tiveram tempo para mais nada, nem sequer para entenderem o que lhes acontecia.
Passados 65 milhões de anos, sabemos agora que os oficiais da força invasora observaram com estupefacção o asteróide em queda. O mesmo para a força sitiada, todos contemplaram o brilho final das suas existências. A espécie extinguiu-se, o que teria provavelmente acontecido sem intervenção dos céus. Da civilização que existiu naquela época distante não restou qualquer indício, nem uma triste memória, pois tudo foi engolido pelo tempo e pela terra, transformado em pedra e poeira.

 

Esta história integra um projecto mais vasto, contos de dois minutos de leitura. A colecção pode ser encontrada aqui

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Fantasmas do passado

Luís Naves, 05.01.24

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A Ucrânia está a ser destruída e não tem hipótese de vencer a guerra, os ocidentais sabem disso, mas continuam a alimentar a ilusão de um país que resiste à invasão militar não provocada. Na realidade, houve uma provocação ao longo de quase duas décadas. Os EUA queriam levar a Ucrânia para a NATO e sabiam que a Rússia não ia tolerar esse alargamento ou a perda da Crimeia. De alguma forma, é a segunda guerra da Crimeia (houve outra no século XIX); esta porventura ainda mais complexa, envolvendo o conflito indirecto entre Estados Unidos e Rússia, com o campo de batalha na Ucrânia. Temos aqui o verdadeiro motivo do conflito: a tentativa de gerir o iminente colapso do império russo, uma fantasia que fermentou na imaginação dos peritos que conceberam o plano em Washington. Moscovo invadiu, sofreu sanções devastadoras, não se rendeu, a estratégia da NATO falhou. Ao fim de dois meses de combates, quando os exércitos russo e ucraniano estavam perto de um acordo de paz, os ocidentais prometeram todo o apoio para a continuação das operações militares. Os ucranianos agarraram-se à jangada da ajuda, que durou até agora. Centenas de milhares de mortos depois, a situação é desesperada: não há munições, dinheiro ou soldados, estão a ser recrutadas mulheres para a linha da frente e a "minoria" russa na Ucrânia perdeu direitos cívicos (é especialmente falsa a narrativa da luta entre um regime autoritário e uma democracia). A Rússia está mais forte, mas a retórica dos ocidentais insiste na estratégia falhada. Os europeus aceitaram as imposições americanas e mostraram a sua nulidade. Os impopulares governos da UE não sabem como sair do desastre. A Ucrânia será um país de refugiados e órfãos, perde um quinto do território e vai sair disto com o fardo de uma paz cartaginesa bem pior da que conseguia em Abril de 2021. Os ressentimentos vão durar uma geração. Por enquanto, evitou-se a terceira guerra mundial, do mal o menos.

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Mudança de sistema

Luís Naves, 04.01.24

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Um colunista do New York Times (Thomas Friedman) que esteve trinta anos a escrever sobre as delícias da globalização perguntava recentemente o que se passa no nosso mundo. Depois da pergunta, seguia-se um texto de negação e perplexidade. Fora da bolha, a globalização dogmática criou perdedores, o mundo está endividado até ao pescoço, há uma dissonância entre o que se afirma nos meios da política e a realidade dos eleitores, as potências ocidentais criaram um sistema que as beneficia em qualquer circunstância, as elites vencem sempre e controlam uma comunicação social domesticada. O mundo dito liberal não respeita as opiniões da maioria, há países bons e maus, cidadãos decentes e descartáveis, monopólios convenientes e outros menos. A maquinaria hipócrita do poder está à vista. Esta ordem internacional criou diferenças de casta, acabou com o elevador social e destruiu o Estado-providência. A hegemonia americana esgotou-se e está a ser desafiada ao vivo e a cores. Apesar da resistência, a globalização vai recuar nos próximos anos e haverá tendência para ser criado um sistema de equilíbrio entre potências. A alternativa é a proliferação de guerras cada vez mais violentas.

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Um assunto difícil

Luís Naves, 19.12.23

O meu post anterior não foi muito bem compreendido e regresso ao tema. Um conflito não é necessariamente assunto para escolher barricadas ou para aplicar interpretações ideológicas. Em relação a Gaza, pergunto-me onde estão os pacifistas, os moderados, os cristãos? Nas últimas semanas assistimos a um massacre sistemático de civis, mas quem critica estas acções é logo acusado de ser amigo de terrorista ou antissemita.

Como escrevi antes, dois milhões de pessoas não podem sair de uma estreita língua de território, onde não há comida, água ou energia. As populações estão a ser bombardeadas nos mesmos locais para onde fugiram seguindo as instruções do próprio exército israelita. Morrem centenas de inocentes diariamente e a operação militar visando a destruição do Hamas está apenas a criar o próximo monstro que vai ameaçar o futuro de Israel.

Ao longo da história recente, as sucessivas derrotas do lado palestiniano apenas provocaram a radicalização da geração seguinte. Do outro lado, a primeira geração política do Estado israelita teve de lutar pela sobrevivência, a segunda conquistou um espaço de segurança e a terceira conseguiu a hegemonia regional. Também houve a derrota no Líbano que mostrou os limites dessa terceira política, que só agravou o problema dos palestinianos sem destino.

A reacção ao ataque terrorista de 7 de Outubro visa essencialmente a inviabilização da vida em Gaza. Se for impossível habitar aquele local, as pessoas terão de ir para outro sítio. Isto chama-se limpeza étnica. Conduzida pelos partidos mais extremistas de Israel, a nova estratégia vai criar ódios ainda mais fortes do que os anteriores. Não os podem matar a todos e vemos isto na expressão naufragada de sobreviventes que olham os escombros sob os quais estão as suas famílias.

Estamos a falar de famílias inteiras exterminadas para garantir que se apanhou um único membro do Hamas. Israel é um Estado e pertence à comunidade internacional, não pode ignorar regras humanitárias. Atacar hospitais, escolas ou templos? Destruir bairros inteiros com as pessoas lá dentro? Impedir a passagem de comida? Como será o futuro? O território vai ser arrasado? Limitar estas atrocidades não é uma questão ideológica, mas de simples humanidade.

O que pensei enquanto fazia o presépio

Luís Naves, 18.12.23

O que se passa em Gaza e na Cisjordânia é uma vergonha para o mundo civilizado e tem de parar. As atrocidades são dos dois lados, mas o Ocidente só está a armar um deles. Bombardeados sem piedade, os civis não têm para onde fugir, presos num território que vai da Amadora a Odivelas, onde não há comida, água ou energia. Diariamente, morrem centenas de crianças inocentes, mas os nossos líderes (sempre preocupados com os valores europeus) continuam num silêncio cúmplice e vão celebrar com devoção o Natal do menino Jesus que nasceu em Belém, o mesmo sítio onde se passam coisas dramáticas que envergonham a nossa humanidade. Podemos dizer que tudo isto remonta ao mandato britânico (em 1929, havia na Palestina 150 mil judeus e 600 mil árabes, a imigração em massa de judeus perseguidos na Europa começava a criar um clima de tensão), podemos ir a 1948 (Estado de Israel e a calamidade árabe) ou a 1967 e a outras datas, mas não convém recuar muito, pois percebemos que os alvos de hoje nos túneis de Gaza são descendentes dos habitantes daquele território há dois mil anos, vizinhos e contemporâneos do menino que nasceu em Belém, embora as sucessivas gerações tenham mudado muitas vezes de língua e de religião. A história recente foi de luta pela sobrevivência de Israel, de triunfo e supremacia regional, mas assistimos hoje, neste momento, a uma guerra que inclui a vingança e a aparente intenção de expulsar dois milhões de palestinianos (rumo talvez à Europa), perante o silêncio dos nossos próprios líderes. Estes, certamente, lamentam a morte de famílias inteiras e a destruição de bairros inteiros com as pessoas lá dentro, afinal não são bárbaros, mas não parecem querer fazer alguma coisa contra isso.

Os suspeitos do costume

Luís Naves, 17.12.23

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A ordem internacional dominada pelo Ocidente está em desagregação e precisamos de entender a que se deve a resistência do grupo de nações a que se convencionou chamar o "sul global". Nos últimos anos, as regras foram impostas pelos interesses de uma elite restrita que ganhou com as sucessivas crises. O enriquecimento pornográfico da casta superior dos países ricos coincidiu com a frustração e crescente rebelião das classes médias, mas também com a queda de países pobres, atolados em dívidas. A crise financeira de 2008 foi uma calamidade para metade do mundo; depois, na pandemia de Covid, houve distribuição desigual das vacinas e valeu tudo para as apanhar primeiro que os outros; a guerra da Ucrânia mostrou que até potências nucleares podem ser atingidas por devastadoras sanções financeiras, que foram apesar de tudo um fracasso, pelo menos até agora. A duplicidade do ocidente ficou bem visível no conflito de Gaza (os bombardeamentos e as vítimas inocentes não são todos iguais), mas também nos mercados que esfolam meio-mundo, no comércio global sem limites e nas alterações climáticas. Não é possível manter o campo inclinado e continuar a impor regras de jogo que beneficiam sistematicamente os suspeitos do costume.

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Intimidação

Luís Naves, 16.12.23

Em post anterior, jpt reage a uma situação que o deixou justamente perplexo e zangado. Compreendo a sua frustração.
Escrevi toda a minha vida, trabalhei em boas publicações e tenho pensado muito no colapso dos meios de comunicação, que ocorreu em câmara lenta durante a minha carreira e agora parece acelerar. Os monopólios tecnológicos estão a destruir a imprensa e a paisagem mediática do futuro será diferente, como explico neste texto de ficção.
O bullying de alguns comentadores que vêm a este blog destruir o trabalho dos autores é mais preocupante do que parece. Na realidade, os falsos leitores querem atacar as ideias heterodoxas e silenciar o inconformismo de quem aqui escreve. Trata-se de uma forma de intimidação. Estas pessoas não têm interesse em discutir ideias ou comentar aquilo que foi escrito. Presumem coisas inexistentes, insultam, não respeitam os outros, tiram conclusões sobre o carácter ou as opiniões dos autores. A certo ponto, estes fartam-se de levar pancada e desistem. Os verdadeiros leitores também.
Os comentadores irresponsáveis vão minando esta modesta hipótese de resistência e de liberdade de expressão. Impondo a sua censura, fazem o jogo das grandes corporações monopolistas que estão a sufocar financeiramente os órgãos de comunicação tradicionais e a comprometer a diversidade. Sem recursos de publicidade, os jornais, rádios e televisões são forçados a despedir os melhores jornalistas ou a pagar salários de miséria. A independência vai desaparecendo. Sendo gratuitos, os blogs podiam servir de refúgio, podiam manter vivas as discussões, mas também eles estão a ser arrasados pelos idiotas úteis.

A discussão que não teremos

Luís Naves, 05.12.23

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Era conveniente que houvesse uma discussão, nem que fosse pequena, sobre o contexto das eleições legislativas. Estão a chegar más notícias económicas, com exportações em queda e taxas de juro elevadas. As contas certas são para o povo e este não tem dinheiro para pagar as dívidas, a casa, a educação e a comida. Muitas empresas nacionais não vão aguentar a quebra no consumo, o País continua endividado e a esquerda está numa bolha a falar em fantasias. A inflação abrandou e os preços da energia baixaram, mas este último efeito será temporário, pois há uma crise no Médio Oriente e não se pode excluir a possibilidade de outro choque petrolífero. Atravessamos uma época complexa, de transição energética, viragem tecnológica, fragilidade europeia e mudança radical na ordem internacional. O que têm os partidos a dizer sobre as divisões europeias em torno das políticas de imigração, dos projectos federalistas ou das fontes de energia? Infelizmente, na campanha serão apenas discutidos assuntos da espuma e serão feitas promessas irrelevantes. Portugal é um país envelhecido, que gasta 11% do PIB em pensões. Educação, defesa, saúde, justiça, todos estes sectores estão sem recursos. Não será fácil baixar impostos ou fazer reformas que estimulem o crescimento. As indústrias não se fixam e a realidade não dá votos.

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A crise da habitação

Luís Naves, 28.11.23

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Não há dúvida de que o país está mal. Muitos sectores descontentes, médicos, militares, professores, trabalhadores de todas as profissões, agricultores, classe média. A maioria sente que não há dinheiro para nada, rendas proibitivas, comida caríssima, salários estagnados, empresas em dificuldades. Depois, os ricos andam numa festa que ninguém entende, há sinais exteriores de riqueza e bolha de satisfação, mas é só para clientelas. Os socialistas estão a desperdiçar o último grande pacote comunitário em ilusões de energias não testadas. Não se fala muito disso, mas não haverá mais abundância de fundos. Depende do que irá acontecer na Ucrânia, mas as elites europeias já decidiram que vão financiar outro grande alargamento, o que significa que Portugal será a curto prazo contribuinte líquido da UE. Os socialistas criaram um sistema de pensamento mágico que consumiu os recursos escassos do país. As sucessivas crises da III República desperdiçaram as poupanças da população, depois o capital, agora estão a gastar o derradeiro dinheiro europeu. Estoiraram com a habitação e com as pequenas empresas, não há indústrias e os jovens não têm perspectivas. Este será um país de velhos, com painéis solares nas marquises e a vergar a mola no turismo.

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Mudança

Luís Naves, 27.11.23

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As mudanças dos últimos 30 anos foram tremendas. Toda a gente quer comunicar e isso estoirou com os canais tradicionais da circulação de informação. Esta ficou demasiado barata para sustentar os meios de antigamente. Temos redes sociais e telemóveis, o conhecimento acumula-se, a ponto de se tornar difícil, no meio da amálgama da quantidade, distinguir aquilo que é mais válido. Esta vaga da digitalização mudou as organizações, a política e o comércio, também acelerou a criação de uma civilização mundial, alterando costumes e línguas, até as próprias nações. As pessoas sentem ansiedade em relação ao futuro e a vida tornou-se mais incerta. Há também um endividamento colossal, talvez insustentável. A acumulação de conhecimento foi acompanhada pela redução abrupta do custo dos transportes, o que tornou acessível a produção de todos os mercados, mas a mudança ainda não terminou. Nos próximos anos chega uma nova onda, de energia barata e inteligência artificial: teremos electrificação dos transportes, transição energética e mais incógnitas. A segunda aceleração acumula os seus efeitos sobre a anterior, as locomotivas empurram-se uma à outra.

imagem: IA, Night Café

Tragédia

Luís Naves, 25.11.23

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Membro do partido do poder, Davyd Arakhamia participou nas negociações com os russos no início da guerra. Este importante dirigente de Kiev veio agora reconhecer em público que havia um acordo que previa paz em troca de neutralidade, mas Kiev recuou, após pressões do PM britânico, Boris Johnson. O que queriam os russos? A garantia de que a Ucrânia não entraria na NATO. Isto aconteceu em Março de 2022, era conhecido, mas foi agora explicado na própria televisão ucraniana. Qual era então a soberania dos ucranianos? Nenhuma, mas o apoio europeu baseou-se no argumento de que Kiev tem o direito de proteger a sua soberania. Milhares de mortos depois, a guerra está a correr mal: na frente, há centenas de baixas diárias e os soldados têm falta de munições. Há informações sobre motins, descontentamento, desvio de armas, corrupção em larga escala, grandes dificuldades em vários locais. Sem opções, com um bloqueio de estradas na Polónia, o governo de Kiev tenta a fuga para a frente e está a recrutar mulheres, adolescentes e velhos. A estratégia ocidental de apoiar a Ucrânia por quanto tempo fosse necessário deu origem a uma tragédia com milhões de refugiados e ao colapso de um país que enfrenta a derrota iminente.

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Declínio

Luís Naves, 21.06.23

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Os números são do FMI. Em 1980, a economia chinesa, medida em paridades de poder de compra, valia 2,2% do total mundial; em 2028, deverá representar uma fatia de 19,7%. Os EUA andaram ao contrário, de 21,2% em 1980 para uma estimativa de 14,4% daqui a cinco anos. A soma de França, Alemanha e Itália está ainda pior, de 15,1% para 6,5%. Esta é a medida do nosso declínio económico. A desintegração das sociedades ocidentais é demasiado evidente. A internet dá-nos uma falsa sensação de progresso, mas as pessoas deixaram de ter valor. Na realidade, elas já não contam, temos uma cultura de futilidades e de busca do prazer, vivemos alheados das ameaças, seja a guerra ou a estagnação. O comportamento decadente dos ricos funciona como um modelo negativo, segundo a formulação poética de Camões de que "um fraco rei faz fraca a forte gente". A literatura vai desaparecendo. Há muita tecnologia, mas ninguém quer saber dos intelectuais que ainda tentam pensar sobre o mundo. De facto, poucos querem saber da pobreza, do fosso crescente entre o Ocidente e as suas fontes de matérias-primas, da hipocrisia das nossas elites desistentes, da fraqueza geral das lideranças, dos desgraçados que se afogam nos mediterrâneos da vida. Deslizamos para uma derrocada em câmara lenta e é assim, temos pena.

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Bolhas

Luís Naves, 20.06.23

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A azáfama dos estafetas que importámos de Islamabad mostra que cada vez mais as pessoas mandam vir comida de fora. Já não há tanta gente nos espectáculos, a circular nas ruas, nos restaurantes. Os funcionários habituaram-se a trabalhar em casa e talvez seja um novo modelo económico. Estamos na nossa bolha, cada um a ver a sua série, aliás, tornou-se normal falar de determinada ficção e os amigos encolherem os ombros: "viste aquela história?"; "essa não conheço"; "é fantástica, não deixes de ver", e segue-se a expressão de dúvida que termina com a conversa. Isto só costumava acontecer com os livros: "leste aquele romance tremendo?"; "não li"; e seguia-se o olhar de quem não tencionava ler. A literatura faleceu em combate e o mundo imaginário é produzido na América (e não tem a piada da Hollywood de antigamente). As bolhas em excesso são perigosas, sobem à cabeça e vão toldando os sentidos. Como o champanhe, o mito diz que não dá ressaca, mas dá. Estamos separados por microidentidades, só somos aquilo, cada identidade é um bom mercado; a curiosidade estreitou e só nos interessa aquele pedaço da realidade, daqui até ali, como nas balizas. Por falar nisso, em Portugal, tudo é bola, até os escândalos metem futebol. É o único assunto que nos pode indignar. Enfim, a modernidade parece maravilhosa: mostramos as nossas lindas vidas nas redes sociais e ficamos fechados em casa, à espera que apareçam dias felizes.

Civilização

Luís Naves, 18.06.23

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O sistema dos últimos 40 anos baseou-se na redução do Estado, no consumo desenfreado e na criação de pesadas dívidas. Os accionistas das empresas que cortassem dez mil trabalhadores ganhavam na bolsa e toda a gente achava que era excelente ideia enviar as fábricas para a Ásia. Esta fase do capitalismo não é sustentável do ponto de vista ambiental e criou ressentimentos. A população sente que não ganhou a sua justa fatia da incrível dose de riqueza que beneficiou sobretudo uma estreita hiperclasse. As desigualdades estão na origem da jacquerie de baixa intensidade a que alguns chamam movimento populista. Os problemas da civilização contemporânea vão mais longe: a ordem política está a estilhaçar-se e o ocidente não controla as mudanças; as rupturas tecnológicas são até inquietantes; vamos ter crescimento lento, desemprego, inflação, migrações em massa; o acesso aos recursos será difícil. Há uma corrida aos armamentos e a guerra a que assistimos na Europa não serve apenas para definir na Ucrânia a fronteira entre os blocos, mas é algo de mais complexo, com implicações globais. O mundo está irremediavelmente dividido e as classes médias deixaram de confiar nas suas elites, isso parece evidente.

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Onde está o socialista?

Luís Naves, 18.05.23

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É difícil acreditar que os trabalhos da comissão parlamentar de inquérito à TAP não sejam tirados de uma peça de teatro do absurdo. Na parte Galamba do escândalo, a dose de surrealismo torna os factos quase inacreditáveis. Apesar de tudo, estamos a esquecer uma pergunta: o que é que isto tem a ver com socialismo? Esta gente, colocada no poder por um partido com história, sente que é dona dos bens administrados em nosso nome. O que fazer com um ministro que perdeu a pouca credibilidade que tinha, mas que pretende decidir em questões sensíveis? Estes socialistas de rótulo detestam os trabalhadores e atraiçoam impunemente os princípios da esquerda. Eles combatem a justiça e odeiam a igualdade. Eles têm uma incompetência genética, enchem a boca com tiradas hipócritas sobre os pobres, por quem têm a máxima indiferença. Defendem migrações em nome da compaixão, mas para baixar salários. São contra as instituições, a família, a democracia, eles estão-se nas tintas para os eleitores e para a república. Defendem a ganância do ultra-liberalismo que dizem combater, estão ao serviço da gamela, acham o povo miserável e gostariam de o poder ignorar.

Ligações duvidosas

Luís Naves, 11.05.23

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Uma comissão da Câmara dos Representantes dos EUA dominada pelos republicanos publicou um relatório sobre as ligações de negócios de Joe Biden a interesses estrangeiros e calculou que membros da família do então vice-presidente, nomeadamente o filho Hunter Biden, beneficiaram de pagamentos de 10 milhões de dólares, de empresas da Roménia, Ucrânia e China. Estas ligações eram conhecidas, mas não se sabia a dimensão do esquema, que nunca foi comunicado às autoridades, como era obrigatório.

Na Fox News comentou-se o assunto, houve quem falasse em "traição". No New York Times, a notícia foi empurrada para uma página menor, com um título que era desmentido pelo conteúdo, segundo o qual a comissão não encontrara nenhuma prova de crime. Pelo contrário, Biden mentiu sobre as ligações do filho a interesses chineses e algumas das empresas que fizeram pagamentos (sem aparente motivo) tinham relações criminosas. A campanha de Biden tentou esconder estes temas duvidosos.

Não há explicação para a intensidade com que os meios de comunicação sustentam narrativas obviamente falsas ou omitem informação relevante. Os exemplos são diários. O que leva a Imprensa de países democráticos a abdicar com tanta facilidade do seu cepticismo? É difícil responder a esta pergunta. O mundo saiu dos carris e isso representa um perigo para todos os interesses instalados. A comunicação social mudou e está a emigrar para as redes sociais, sobretudo para o twitter. Há aqui uma dose de velha luta de classes e outra de conflito pós-moderno, com os drones da nova linguagem a cancelar a dissidência, sem que isso pareça censura. Mas este caso deixa qualquer pessoa perplexa. Até que ponto os conflitos contemporâneos têm explicações mais sinistras?

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Crepúsculo

Luís Naves, 09.05.23

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O assunto nunca foi discutido, mas o que sobrar da Ucrânia será parte da União Europeia depois da guerra. Kiev precisa de toneladas de dinheiro e, logo que terminem os combates, todos pagam. Tal como acontece com Chipre, haverá um Estado-membro com gigantescas necessidades de subsídios, problemas demográficos, territórios ocupados por um país terceiro, mas desta vez em larga escala. O projecto é apressado e ambíguo. Não existe memória, nos últimos 40 anos, de uma Europa tão dividida e dependente: os americanos protegiam, a Rússia vendia minerais e energia, a China comprava os produtos da indústria. Essa forma de vida acabou. As divisões, entretanto, instalaram-se. Há um arco de países mais próximos de Londres (Holanda, Suécia, Polónia); potências de costas viradas (França, Itália, Alemanha); o sul empobrecido. O problema são os nacionalismos, que critérios misteriosos dividem entre bons e maus. Itália e Hungria têm nacionalismos maus, tal como aquele que levou ao Brexit; França, Portugal, Polónia são exemplos de bons nacionalismos. Varsóvia passou de um lado para o outro, por correr em pista própria na Ucrânia. A burocracia de Bruxelas, que ninguém elegeu, ostraciza governos eleitos, mas rema contra a maré de nacionalismos maus e descontentamentos péssimos que ameaçam dividir ainda mais um continente em estilhaços. De dedo sempre espetado, a Europa lá vai passando sermões a toda a gente, enquanto a escuridão cresce nas suas ruas. A curta experiência federal chega aos limites, as nações reaparecem.

imagem, Night Café (IA)

Fórmula de guerra

Luís Naves, 08.05.23

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Em muitas opiniões sobre a guerra da Ucrânia, a lógica dos autores é de que a paz só é possível se os russos retirarem dos territórios ocupados, incluindo Crimeia, se houver mudança de regime e julgamento internacional dos responsáveis do Kremlin, além de pagamento de indemnizações e libertação dos povos oprimidos do império russo. Nesta receita de guerra eterna, os ucranianos fornecem a carne para canhão. O Ocidente não parece ter uma fórmula que permita a paz, mas também não tem solução para a vitória. A UE prepara-se para novo pacote de sanções contra a Rússia (11º), embora em alguns países esteja a crescer a onda eleitoral do ricochete destas sanções (na Eslováquia ou Bulgária, por exemplo). Até agora, as medidas foram um fracasso. Em Março, a Rússia vendeu 8,1 milhões de barris de petróleo por dia, mais 600 mil barris diários do que no mês anterior. A UE ainda discute o que fazer com os diamantes e também se sabe que mais de 90% das empresas de países do G7 que iam abandonar o mercado russo ainda andam por lá. Isto é sobretudo um conflito sobre acesso a recursos (minerais, alimentos, energia). Nunca se percebeu qual era a estratégia americana, muito menos a estratégia europeia. Alguns queriam sangrar a Rússia, outros derrubar o regime de Vladimir Putin, todos sonhavam com o controlo das imensas riquezas. Na prática, apenas criaram um bloco hostil que no futuro terá poucas ligações com os países Ocidentais. Moscovo vira-se para a Ásia.

imagem, Dall-e

Tempestade

Luís Naves, 03.05.23

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António Costa decidiu manter um ministro sem credibilidade e agora chefia um governo mais precário e isolado, que se meteu num caldeirão onde a temperatura só pode aumentar. No primeiro dia, olha-se para a crise política numa perspectiva de 24 horas. Depois, quando passarem meses, os eleitores vão perguntar se vivem melhor do que no ano anterior. Não, as coisas vão de mal a pior, embora isso não se sinta na bolha dos governantes. 
Nenhum dos cenários possíveis favorece os socialistas, que segundo as sondagens desperdiçaram a maioria absoluta e podem ter perdido 800 mil votos no último ano. Se a intenção era provocar eleições, ainda é possível evitar uma derrota histórica, mas como será em 2024? Os principais partidos socialistas da família do PS (social-democratas europeus) vivem nesta sangria desde o início do século. Os motivos são complexos, esmiuçados por autores que sublinham a redução do Estado social ou o declínio da influência das classes trabalhadoras. Pode até haver ligação entre a queda da esquerda tradicional e a subida dos populismos.
Enfim, existem detalhes nacionais e um padrão geral. No Parlamento Europeu, a família socialista a que pertence o PS perdeu 8 milhões de votos entre as eleições de 2004 e 2019. Tem agora apenas 18,5%, menos dez pontos percentuais do que em 1999.
Na Alemanha, onde o SPD costumava vencer no século passado com resultados próximos de 40%, a vitória de 2021 limitou-se a 25,7% do eleitorado. O partido está no poder, sim, mas fragilizado. A esquerda pós-comunista polaca colapsou, como aliás está a acontecer em todos os países de leste: no caso polaco, a esquerda venceu em 2001 com 41% dos votos; limita-se agora a 12%. O declínio dos socialistas é evidente um pouco por todo o lado, na Holanda, Itália, Grécia, Espanha e Finlândia, mas em França houve uma hecatombe, da qual o PS francês ainda não recuperou.
Em Portugal, onde os socialistas dominaram desde 1975, agora arrisca-se tudo. Os eleitores detestam a instabilidade, recusam piruetas que só podem trazer mais dificuldades no dia-a-dia. Ao comprar uma guerra institucional e ao manter teimosamente um mau ministro, António Costa criou uma tempestade que ninguém esperava, a somar ao sufoco do custo de vida. Ainda não se percebe qual é a estratégia do primeiro-ministro, mas o País não lhe perdoará, nem ao seu partido, mais empobrecimento, incompetência e sobranceria.

imagem Night Café, IA