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22

por Luís Naves, em 19.03.20

Ao longo da vida, assisti do camarote a quatro grandes mudanças no mundo. A primeira chegou tardiamente a Portugal, sob a forma de revolução. Na altura, não entendi quase nada, mas agora percebo que houve uma espécie de tsunami social, económico e político que trouxe o país para a normalidade contemporânea. A segunda alteração foi simbolizada pela queda do Muro de Berlim e marcou o fim da Guerra Fria. Vieram depois o 11 de Setembro de 2001, que mudou o nosso sentido de segurança física, e a grande recessão de 2008, que abalou a segurança económica, mas estes dois movimentos estavam ligados a perturbações tecnológicas mais complexas. Não parece ousado dizer que a nossa vida vai levar outra volta. Muitas mudanças podem ser boas, as duas primeiras foram-no, mas esta vai atingir uma sociedade envelhecida e habituada a certos privilégios. Não coloca ponto final numa guerra que nos podia aniquilar nem abre os costumes a novas ideias, antes vem na sequência das outras duas mudanças, a encerrar-nos um pouco mais no medo: o que se aproxima ameaça erodir a abundância, fechar os portões de algumas liberdades, promete dividir ainda mais as gerações e as classes. Os historiadores do futuro talvez olhem para os 50 anos anteriores a 2020 como uma interessante anomalia, onde por acidente estávamos nós, entretanto esquecidos.

21

por Luís Naves, em 18.03.20

Samuel Pepys escreveu no seu diário, um dos mais famosos da literatura inglesa, páginas muito citadas sobre o incêndio de Londres de 1666 e tem entradas terríveis sobre a peste de 1665: é fácil perceber que não houve medidas de mitigação; o ceifeiro fazia a sua colheita e a sociedade arrastava-se na melancolia de contemplar a mortandade, sem imaginar como combater aquilo. No romance de Albert Camus, A Peste, Orão está isolada, em quarentena, mas a vida mantém-se, apesar da calamidade pública: os cafés estão abertos, é possível ir ao cinema. Em consequência, a doença alastra durante uma eternidade. No livro de José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, as vítimas de epidemia são colocadas num campo de concentração, uma espécie de zona vermelha mais próxima do que estamos a viver. A quarentena que calhou ao nosso tempo, e que terá a sua própria literatura, vai um passo além, separando cada indivíduo o mais possível de todos os outros. Somos ilhas num arquipélago, mas a vida prossegue, ligada à velocidade da luz, através de meios de comunicação que superam o contacto físico. Estamos separados uns dos outros e muito perto, o que é paradoxal.

20

por Luís Naves, em 15.03.20

Estas coisas acontecem de cem em cem anos. Ainda estávamos em Janeiro e discutia-se o processo de destituição do inquilino da Casa Branca. Nessa altura, muita gente escreveu que a morte de um general iraniano ia custar caro aos americanos, que no mínimo seriam expulsos do Médio Oriente. Tudo isto agora nos parece anterior à guerra anterior. No Irão, país comandado por gente do século XIV, morre-se à porta do hospital; já ninguém quer saber da campanha eleitoral na América, muito menos da independência da Catalunha; e já ninguém se lembra dos temas fracturantes que entre nós se discutiam com emoção (que temas eram esses, exactamente?). O mundo mudou e vai mudar ainda mais: muitos vão defender os muros que ontem criticavam, seja para migrantes sírios ou turistas espanhóis; muitos vão condenar os políticos que ontem consideravam geniais ou indispensáveis; muitos vão pedir mais segurança, mais distância em relação aos outros, mais repressão de comportamentos irreflectidos, menos tolerância para açambarcadores e outros parasitas. Depois, a grande vassoura da opinião pública vai remover os governantes que falharam e será reconstruida uma economia menos dependente da globalização, das fábricas chinesas e das decisões dos burocratas de Bruxelas.

19

por Luís Naves, em 11.03.20

Tentei recordar-me das coisas que pensei cinco dias atrás, dos excertos brilhantes de um livro que li, de uma conversa interessante, do filme fantástico que passou na televisão e que eu não conhecia; tentei recordar-me dos sonhos e das pessoas com quem me cruzei nas ruas e que me pareceram irrepetíveis e fascinantes; tentei fixar as memórias que me escapavam como a água a escorrer pelos dedos, mas das quais só me restam gotas. Ficaram os farrapos daquilo que vivi nesse dia e que talvez tenha sido um dos dias mais repletos da minha vida, não sei. Tudo se evaporou e diluiu na atmosfera invisível, o que se vive é a matéria que se esquece, aquele rosto, aquela sensação, aquela ideia única que nunca mais nos vai ocorrer, todos os sinais do tempo, não das coisas imutáveis, como a luz tépida da primavera que surge em cada ano durante uma manhã, mas os momentos únicos que as palavras não podem definir e que se perdem para sempre.

18

por Luís Naves, em 02.03.20

Parem o planeta, que saio nesta paragem. É um salve-se quem puder, a total falta de vergonha, o delírio e a gritaria histérica. Não me recordo de nada assim, nem nos piores momentos da Guerra Fria, quando podíamos ser todos incinerados em dez minutos, nem quando entrou em colapso o bloco comunista e os perigos pareciam imensos, nem durante os momentos mais severos da última crise financeira, não me recordo de ver estas massas de gente em movimento, o psicodrama das epidemias, a demagogia e o pânico de mãos dadas, este horror mascarado, a repugnância pelos outros e o medo da própria sombra. Sou muito jovem, sem memória daqueles séculos de que só ouvi falar, quando a civilização deslizava para o abismo sem motivo aparente. Sim, sei que tudo isto é superficial, o exagero do mundo mediático em que vivemos, sei que no fundo os humanos pertencem a uma espécie com inteligência, que o bem no fim triunfa, mas custa a acreditar, custa manter alguma crença nesta actualidade hipócrita que se olha ao espelho.

17

por Luís Naves, em 08.02.20

O líder do PSD, Rui Rio, não acredita que o seu partido seja de direita e quer conquistar o centro. Rio está a ver o que mais ninguém vê ou anda incrivelmente iludido. Na realidade, nos países europeus, o centro implodiu. Os eleitores vivem inquietos, recusam a uberização do trabalho, detestam ser a classe precária, e votam cada vez em maior número contra a estabilidade, que interpretam como estagnação. Em França e Alemanha, dois países traumatizados pelo passado das suas direitas, foi desenvolvido um sistema de cordão sanitário que começou por excluir partidos extremistas que não passavam dos 10 por cento. Só que os descontentamentos somam hoje 30 a 40 por cento e não é possível excluir tanta gente. Os partidos dos extremos crescem com os votos que as formações centristas rejeitaram durante anos, ao não reconhecerem os problemas da antiga classe operária, agora empobrecida e sem futuro. Os extremos ocupam o lugar vago e ganham terreno, apesar da resistência dos sistemas de poder, dos meios de comunicação, das elites académicas e das pressões financeiras. O eleitorado do centro é aquele que quer mais do mesmo e, nos tempos que vamos viver, será a minoria. Por isso, Rio parece ter ficado na guerra anterior, a lutar por um eleitorado que já não existe.

16

por Luís Naves, em 05.02.20

Tornou-se moda dizer que isto ou aquilo equivale a fascismo ou nazismo. Aplica-se a acusação a presidentes e deputados escolhidos em eleições livres, dirigentes partidários menores, comentadores de tuítes, enfim, a quem não tiver sólidas credenciais para se proclamar moralmente superior a tudo o resto. As pessoas que se dedicam a este exercício de ignorância estão na realidade a negar a história e a desculpar as ditaduras. Julgam prevenir o mal, mas banalizam o horror. Se o CDS é nazi, então o nazismo não pode ter sido assim tão mau; se Donald Trump, Salvini ou Bolsonaro são fascistas, Mussolini está desculpado. Acima de tudo, isto impede-nos de discutir as questões do nosso tempo. A relativização do antissemitismo ou do Holocausto, as comparações absurdas com épocas diferentes da nossa, a equivalência racional entre ideias banais e ideias genocidas ou ainda a crença não democrática de que os eleitores podem e devem ser ignorados, tudo isto vai além da tese estúpida para entrar nos territórios do perigosamente estúpido.

Blog da Semana

por Luís Naves, em 03.02.20

Reflexões, pequenas crónicas, ideias soltas, uma espécie de diário que Maria João Caetano tem reunido de maneira paciente. Escrita de qualidade, uma casa generosa, vão lá confirmar, chama-se A Gata Christie.

15

por Luís Naves, em 29.01.20

Ninguém está inteiramente satisfeito com o destino que lhe calhou em sorte. Toda a gente quer emagrecer ou perder um vício qualquer, toda a gente sonha com parceiros de fábula, viagens inesquecíveis, fortuna e felicidade. A vida de cada indivíduo parece cheia de falhas, incompleta. Em cada novo ano, surge aquele ritual um pouco pateta de dizer que melhores dias virão. Cada um acredita que pode despir a pele da sua personagem e mudar de vida como quem muda de fato. Não se trata exactamente de metamorfose, processo longo e planeado, mas de uma transformação instantânea, que nos renova e purifica num momento mágico. Infelizmente, os desejos em excesso têm geralmente o degrau onde tropeçamos e que não se deve confundir com as possibilidades de sonhar acordado. Enfim, às tantas é melhor olhar apenas em frente, esquecendo o passado, essa prisão guardada por fantasmas.

14

por Luís Naves, em 23.01.20

A processo de destituição de Donald J. Trump parece ser um caso clássico de erro político, devido ao drama de enredo labiríntico, em linguagem que poucos entendem. No âmago do episódio estão pressões sobre um líder estrangeiro (what else is new?) para alegadas vantagens eleitorais, mas a partidarização das provas foi de tal forma grosseira que metade do país jamais aceitará a condenação. Isto discute-se sem poder tocar no embaraçoso negócio ucraniano de Hunter Biden, filho do candidato presidencial democrata Joe Biden. Fevereiro é decisivo para a escolha dos democratas e a corrida já se resume ao institucional Biden (que terá a Ucrânia para explicar) ou o rebelde Bernie Sanders, cujo movimento populista incomoda as oligarquias. O que nos leva ao essencial. Trump foi à bolha de Davos explicar aos senhores do mundo: vocês fartam-se de fazer dinheiro comigo; podem não gostar de mim, mas estão todos muito mais ricos. Neste processo de destituição, se olharmos para além do folclore, não vemos nenhuma ameaça à ordem liberal ou às instituições da república americana, apenas um partido a dar um tiro no pé e um presidente que prepara a sua reeleição.

13

por Luís Naves, em 22.01.20

Há situações de violência na sociedade que não estão relacionadas com racismo, mas com classes sociais, pobreza, incerteza laboral, más condições de vida, alcoolismo, problemas mentais, desintegração familiar. E, no entanto, em cada dia que passa, assistimos a simplificações de rixas ou incidentes nos bairros duros. Foi um caso de racismo evidente, gritam uns, quando tudo indica que se tratou de algo mais complexo, sem dúvida ligado à vida dos subúrbios. Parece haver uma espécie de hipersensibilidade para a melanina, pigmento que protege do sol e existe em todo o mundo vivo. Do ponto de vista científico, ninguém sabe o que é isso da raça, pois a despigmentação ocorre nas populações, de forma natural, em dois ou três mil anos. Viemos todos de África, mas os marxistas contemporâneos (estou apenas a registar um facto curioso) abandonaram a explicação da luta de classes e insistem em criar caldinhos com base naquele milímetro da pele, fazendo borbulhar conflitos cujos motivos são outros: o desenraizamento das comunidades, a desagregação das culturas, a desigualdade económica. Não é possível sair desta chinfrineira: quem tiver dúvidas sobre o racismo como explicação universal, é racista. 

12

por Luís Naves, em 20.01.20

O partido Livre não me interessa, mas foi impossível não reparar no patético espectáculo desta organização, no fim-de-semana, e preocupou-me a subserviência da comunicação social, que neste caso parece incapaz de fazer as perguntas certas. Foi extraordinária a hipocrisia do julgamento conceptual feito em público à deputada do partido, Joacine Katar-Moreira, que disse com toda a franqueza aquilo que os seus inquisidores mereciam ouvir. Este partido inenarrável parece estar agora envolvido num exercício cínico de fritar a deputada em fogo lento: dizem que só um milagre a salva de perder a confiança do partido, mas adiaram a decisão de lhe retirar a confiança. E ninguém pergunta o óbvio: para quê adiar uma decisão que está tomada e que só um milagre muda? A deputada foi eleita pelos votos do povo, não pelo partido, mas foi Rui Tavares (o verdadeiro líder do Livre) quem comentou os factos na RTP, num episódio de manipulação da opinião pública que devia envergonhar os contribuintes. A propósito de comentar as eleições primárias no PSD, Tavares falou mais de dez minutos sobre a tentativa de expulsão da deputada, num tom fariseu e sonso que não enganava ninguém. Joacine foi um instrumento útil para as ambições desta gente, mas perdeu os seus direitos e pode ser lançada aos lobos.

11

por Luís Naves, em 16.01.20

Estava a ver um jogo de futebol pela televisão e, a certo ponto, disse em voz alta que o treinador devia tirar o jogador fulano. Passados dois ou três minutos, o tal jogador marcou um grande golo que deu a vitória à minha equipa. É simples: não percebo nada de futebol. Claro que sei distinguir uma obra de arte, aquela finta inesperada, seguida do pontapé perfeito que mais parece um poema. Mas, por favor, não levem a sério as minhas opiniões sobre quem deve jogar. Se isto é tão evidente no futebol (ou na medicina), qual a razão de não ser óbvio nas artes? O amador não é entendido e os artistas trabalham para o esquecimento, pois só um felizardo em mil sobreviverá ao juízo do tempo, com sorte à mistura, como aconteceu por exemplo a Fernando Pessoa. Imaginem que Pessoa escrevia ao gosto da época, sem a liberdade artística que teve por ser quase anónimo; que ouvia os conselhos de amigos que sabiam tanto de poesia como eu de futebol (os heterónimos são um disparate, Fernando); ou que, em vez de ser conhecido apenas por um punhado de artistas, o poeta decidisse seguir as modas. Felizmente, ele decidiu a nosso favor, as gerações futuras: o pouco que publicou em vida era inacessível para as massas e muito do que não publicou era demasiado estranho, mesmo para entendidos. Ainda hoje nos parece um milagre.

10

por Luís Naves, em 15.01.20

Uma escultura encomendada por uma autarquia foi vandalizada, altura em que surgiu um clamor em relação ao custo, com muitos comentários sobre a inexistência de qualquer elemento estético. O autor, Pedro Cabrita Reis, veio a terreno defender o seu trabalho e explicou o que devia ser óbvio: o artista define o que é ou não é arte, mas essa ideia continuou a chocar alguns indignados, para quem o julgamento cabe apenas a quem observa a obra. Ora, só o artista pode fazer arte; só ele tem a capacidade de criar algo inteiramente novo naquela circunstância; o crítico ou o amador podem ter opiniões, podem olhar para outro lado, podem apreciar, rejeitar, aceitar, mas isso não altera nada. Quando a encomenda usou dinheiro público, podemos penalizar eleitoralmente quem a fez, temos essa liberdade, mas o tempo é o único grande crítico. Se a obra não for boa, não sobreviverá a esse julgamento. Aqueles que defendem o fim da liberdade artística deviam ponderar no que verdadeiramente afirmam: confundem o seu gosto com o da sociedade e têm uma bola de cristal que lhes diz como a obra será vista pelas gerações do futuro. Desta forma, impedem toda a arte futura, pois impõem o seu gosto limitado. 

9

por Luís Naves, em 13.01.20

Vem isto a propósito de um post mais abaixo, do José Teixeira (jpt) sobre a censura no Facebook a um blogue controverso. Alguém comentou que o Facebook é uma empresa privada e tem o direito de reservar o acesso aos seus serviços, mas a questão infelizmente não é assim tão simples. Aceita-se o poder monopolista da empresa e, sobretudo, a influência ideológica que esta terá, se puder seleccionar as ideias difundidas. Que controlo exerce a sociedade sobre um serviço que, na prática, influencia a política e reduz os cidadãos a produto de negócio? Por outro lado, poucos têm reparado no extraordinário poder acumulado pelos híper-capitalistas, outrora empresários que não faziam prisioneiros e agora transformados em pacíficos defensores das causas puras, que financiam através de instituições de aparência inócua, distribuindo dinheiro e prémios a intelectuais e outros bem-pensantes que ficam a dever favores. Estes magnatas são gente discreta, cujas verdadeiras intenções não conhecemos, e o fenómeno tem qualquer coisa de inédito: no século passado, a esquerda costumava criticar com unhas e dentes os capitalistas que se metiam em política; agora, a hipocrisia não incomoda uma alma.

8

por Luís Naves, em 09.01.20

Vejamos as principais potências da União Europeia: o Reino Unido confirmou nas urnas a sua saída do clube; em Espanha, há um novo governo progressista, com maioria de dois votos, que depende das cedências que forem feitas aos independentistas catalães e que serão inaceitáveis para mais de metade do país; em Itália, a direita na oposição tem ampla maioria nas sondagens e um governo chefiado pelo populista eurocéptico Matteo Salvini pode estar à distância de escassos meses; em França, um presidente impopular enfrenta protestos de rua contra reformas urgentes, que a cada dia se mostram mais improváveis; na Alemanha, a chanceler Merkel perdeu autoridade e o seu partido está fraco nas sondagens, pelo que, se houver eleições, o país pode ficar numa situação ainda mais pantanosa; entretanto, na Europa Central, cresce uma aliança de países liderada pela Polónia, em contestação da ortodoxia de Bruxelas. Os europeus continuam a depender da energia russa e da protecção militar americana. Em pleno abrandamento económico, a União Europeia demonstrou mais uma vez, na crise iraniana, que deixou de contar na ordem global. E, apesar de tudo, os noticiários continuam a dizer que a Europa se prepara para liderar isto e dar cartas naquilo.

7

por Luís Naves, em 08.01.20

No maravilhoso mundo da nova comunicação, o futuro pede escala, fragmentação e vazio. O consumidor de informação passou a ser o produto e, em troca, nem sequer recebe informação, mas entretenimento. O poder está nas plataformas agregadoras. Os jovens deixaram de ler e já só vêem vídeos; em média, as pessoas olham sete horas e meia por dia para ecrãs de todo o tipo. É aqui que está o negócio, milhões a seguirem histórias inexistentes, como o cão com a cauda na cabeça ou a irritação das massas com a vedeta que não mencionou os fogos na Amazónia do ponto de vista das alterações climáticas. Activismo, celebridades, política light, esta é a mistura para as próximas décadas, numa espécie de revolução cultural descerebrada e pós-moderna, em que multidões em fúria vão agitar o pequenino livro vermelho das banalidades. Um cretino terá mais força do que o maior especialista. Os factos deixaram de importar, o voto deixou de contar. A internet é a verdadeira realidade.

6

por Luís Naves, em 07.01.20

Há pessoas que se incomodam muito com tudo aquilo que sai da narrativa oficial. Preferem as versões confortáveis e as versões habituais. É natural, a sociedade portuguesa é profundamente conservadora, tem horror a mudanças e desconfia de imediato de todas as ideias que não sejam conforme aquilo que é o costume, ou seja, as ideias que não repitam a lengalenga folclórica, as banalidades regimentais, as barbaridades da praxe. Em Portugal, sempre se incineraram os pensamentos divergentes. Nada mudou. A diferença irrita e merece o exílio. A controvérsia é sempre uma escolha de trincheiras. É por isso que não temos debates nem sociedade civil. Qualquer pensamento que não tombe no conformismo é logo confrontado com críticas incompreensíveis e ataques que torcem a argumentação até que esta esteja docilmente domesticada. Isto explica em grande parte a nossa vocação para cauda da Europa.

5

por Luís Naves, em 06.01.20

Os defensores da União Europeia na linha de Bruxelas costumam ter quatro argumentos: UE e Europa são sinónimos; sem UE não haverá paz no continente; as limitações do poder europeu não estão no excesso de Europa, mas na falta dela; todos os problemas são criados pelo nacionalismo. Ora, estes argumentos parecem frágeis. A paz nos últimos 70 anos explica-se pela protecção americana; na questão do sinónimo, a ideia de Europa não exclui Rússia ou Grã-Bretanha, mas o projecto político da UE pode passar sem as duas; não há maneira de verificar o terceiro argumento, mas as limitações terão outros motivos, por exemplo, dependência energética, irrelevância militar e a incapacidade de liderar as recentes transformações tecnológicas; por último, o nacionalismo não foi a causa directa de nenhuma das três calamidades europeias no anterior milénio (peste negra do século XIV, guerras religiosas do século XVII ou fascismo e comunismo no século XX). Embora sem a rivalidade dos impérios não se possa compreender o grande suicídio europeu na Primeira Guerra Mundial, também podemos dizer que o poder das nações foi uma das alavancas no milagre da ascensão europeia nos últimos 250 anos.

4

por Luís Naves, em 05.01.20

O esforço humano anda ligado à desilusão, mas a vida contemporânea parece esquecida dessa regra. Deixou de haver tempo para as coisas amadurecerem, desapareceu a paciência e as pessoas exigem não menos do que a hipnose sublime, de preferência sem terem de pagar. Tudo é espectáculo, floreado retórico, hipérbole, ou dito de outra forma, nada é o que parece, nem na política, nem na cultura. De certa maneira, voltámos um pouco à época barroca, visualmente exagerada, mas relativamente pobre de conteúdo. As elites de então viviam numa bolha, queriam construir um mundo utópico, de cima para baixo, e adoravam fogo-de-artifício, espécie de arte vistosa que dez minutos depois se esqueceu facilmente, tal como hoje nos esquecemos da falsa realidade que preenche as nossas televisões. Com todas as suas qualidades, esse tempo acabou em desilusão, como acabam todos.


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