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O cartel do pensamento

por Luís Naves, em 15.11.20

Sempre me perguntei: para quê escrever quando as nossas palavras são iguais às dos outros? Infelizmente, a pergunta não é deste tempo, em que acelera o fecho das mentes. As opiniões de hoje são de tal maneira idênticas entre si, que se torna difícil aceitar convicções fora de limites estreitos. Existe uma espécie de cartel do pensamento que combate ferozmente as teses heterodoxas. Por outro lado, assistimos a um fenómeno de banalização, em que triunfa a informação fútil e onde muitos falam de cátedra sobre coisas que não compreendem. O ambiente é propício a manipulações, teorias da conspiração e cepticismo. Também vivemos numa época má para a resistência. As pessoas parecem ter receio de participar em discussões e desconfiam à partida da fiabilidade das informações que lhes chegam pelos canais tradicionais, cada vez mais fragmentados. Foi o que aconteceu no antigo regime, o público sentia-se enganado e não acreditava naquilo que lia. O que nos leva a um incidente menor. Ontem, pessoas que se manifestavam contra o recolher obrigatório ameaçaram agredir um jornalista. O repórter teve de abandonar o local protegido pela polícia, apenas porque o seu cálculo do número de presentes não coincidia com o palpite de quem protestava. Ao desconfiarem do mensageiro, os ingénuos manifestantes perderam uma oportunidade para debater a questão que motivava o protesto. A frustração não os fez avançar um milímetro. O que estava em causa era como preservar um sector vital da economia evitando a desordem e contendo ao mesmo tempo a expansão de um vírus perigoso. Há milhares de restaurantes em perigo de fechar nas próximas semanas ou meses? Empregos e negócios ameaçados? O que se pode fazer? Aparentemente, os meios de comunicação ainda não levam nada disto a sério e o público parece apático. E aqui chegamos à outra faceta do mundo contemporâneo: a hipocrisia. Se formos ao fundo da rua, ao restaurante que frequentamos, estaremos solidários com o proprietário, vamos lamentar que ele despeça um dos empregados e achar mal que aumente os preços. Depois, quando fechar portas, encolhemos os ombros e dizemos cá para nós, em voz baixinha: ‘que pena, aquele sítio era tão porreiro’. 

Analogias

por Luís Naves, em 14.11.20

Nos meios de comunicação e textos de opinião são feitas frequentes analogias entre o nosso tempo e os anos 30 do século passado. No entanto, ao contrário do que aconteceu nessa década, não temos movimentos fascistas e comunistas com força para derrubar o sistema democrático nem crise económica suficientemente devastadora para justificar tais movimentos; não há países humilhados em tratados internacionais nem necessidade de inverter derrotas militares ou de ocupar territórios vizinhos. A luta de classes está desacreditada e a ideia de raça superior é ridícula. O capitalismo e a democracia não mergulharam em crise existencial e o totalitarismo não encanta nenhuma alma. Assim, o paralelo mais correcto parece ser com 1900. O nosso sistema é marcado por mudanças tecnológicas, má distribuição da riqueza, rupturas culturais, oligarquias em torres de marfim, globalização acelerada, direitos humanos ao serviço da ideia imperial, bons e os maus nacionalismos, legião de descontentes, aceleração das comunicações e triunfo do capitalismo sem fronteiras. Há ONG de hoje que parecem missionários de 1900, temos também radicais anarquistas, terrorismo de baixa intensidade, corrida aos armamentos e equilíbrio de poder entre dois grupos de impérios. As semelhanças são fantásticas. Por isso, torna-se mais estranha a desajeitada fixação nos anos 30. Qual é o objectivo de agitar este fantasma? Talvez seja a intenção de desvalorizar o voto de milhões de pessoas que tentam contestar o poder surdo das oligarquias. A nossa democracia corre o risco de ser subvertida não por grupos radicalizados que defendem tirania estatal ou a teoria da raça superior, mas por liberais que querem suprimir o voto do povo ignorante e criar uma sociedade dividida racialmente, sem fronteiras e com salários sempre baixos, com a gente comum agarrada à droga da dívida eterna.

O segundo Carter

por Luís Naves, em 07.11.20

Não seria surpreendente que Donald Trump viesse a ser visto no futuro como uma espécie de Richard Nixon, um presidente que suscitou ódios tremendos e saiu pela porta pequena, mas que fica na História dos EUA por três motivos demasiado sérios: a saída do padrão ouro, a viagem a Pequim e a negociação do fim da guerra do Vietname. Estes três acontecimentos estão entre os mais importantes da segunda metade do século XX e abriram caminho a uma época de prosperidade, ao triunfo na guerra fria, à alteração radical do equilíbrio de poder e à ascensão económica da China. Além da importância histórica destes momentos, os republicanos recuperaram do escândalo Watergate em apenas cinco anos, a ponto de conseguirem uma maré vermelha que elegeu Ronald Reagan. Na segunda metade da década de 70, a América viveu dias difíceis, com o descrédito das instituições, a inflação galopante, os choques petrolíferos e a estagnação da economia. O presidente deste período, Jimmy Carter, foi talvez o pior da série da Era pós-45. É possível fazer uma analogia parcial com o presente: Trump sai pela porta baixa, mas travou o processo de globalização, possivelmente a acção política mais relevante das duas primeiras décadas deste século. Sendo um dos presidentes mais odiados de sempre, ele conquistou milhões de americanos que se consideram prejudicados pelo sistema que ajudou à sua derrota. Quanto a Joe Biden, tem tudo para ser uma espécie de Carter, pois é o mínimo denominador comum em que assentam as ambições dos múltiplos grupos que o elegeram. Num contexto de crise geral, o homem forte foi humilhado, entra o homem fraco, o ressentimento fará o resto.

Trapalhada e perigo

por Luís Naves, em 06.11.20

Está a terminar a contagem dos votos nos Estados Unidos e Joe Biden prepara-se para vencer a Casa Branca, por margem mínima, talvez com irregularidades à mistura. Esta vitória parece ser o triunfo da máquina sobre a emoção. Trump representa uma rebelião de eleitores que se consideram vítimas do sistema, desencadeou devoção e ódios na mesma proporção, foi torpedeado sem contemplações. Biden é um político profissional que usou de forma habilidosa as ferramentas ao seu dispor. As manifestações nunca passaram certos limites de violência, a politização da pandemia foi a grande oportunidade, a tudo isto somou-se o voto por correspondência, mecanismo pouco seguro, onde o aparelho político terá sido decisivo. O Partido Democrático tem agora de pagar as facturas e esta pode revelar-se a parte difícil, pois parece que os dirigentes não aprenderam e vão preferir o ajuste de contas com a era Trump e com os deploráveis que votaram no presidente derrotado. Se Biden venceu, tem uma enorme dívida com os afro-americanos, mas não se vê como pode satisfazer esta comunidade. É também interessante verificar (e não é só Trump a dizer isto) que o Partido Republicano pertence agora aos trabalhadores e o democrático é o das elites, a América virada ao contrário. Se o processo não descarrilar na fase judicial, tudo indica que os americanos terão um líder idoso, com passado sem brilho, que fará avançar interesses não eleitos: o poder financeiro, a comunidade de espiões e diplomatas, o negócio das novas tecnologias, os barões da globalização desenfreada e os ideólogos e propagandistas da contracultura. Biden não entusiasma ninguém e o mais certo é não completar o mandato. O que estas eleições também revelam é um problema mais profundo da América: será o quinto presidente consecutivo com escassas qualidades pessoais. A intervenção de Trump, ontem, só confirmou a crise institucional: nunca se viu nada assim, um presidente tratado como se fosse líder da oposição numa ditadura, a acusar os adversários de fraude em larga escala. Se for verdade, a democracia está em perigo; se for mentira, isto é uma trapalhada sem nome. 

O ataque dos índios

por Luís Naves, em 30.10.20

Nos melhores westerns costuma haver uma cena em que uma das personagens diz qualquer coisa inócua, seguindo-se a brutal irrupção do ataque dos índios. Em Stagecoach, de John Ford (um dos exemplos) alguém que viaja na diligência diz aos outros passageiros: como não nos voltamos a encontrar, proponho um brinde. Todos concordam, ele está a beber da sua pequena garrafa, de repente ouvimos um som sibilante e o velhinho mais simpático do grupo cai morto e trespassado por uma seta. A ideia do filme é desviar a atenção do perigo para, de súbito, podermos ser surpreendidos. Funciona muito bem na narrativa, mas na vida real é uma coisa patética. Ontem, houve um atentado islamista em Nice: um terrorista entrou numa igreja católica e esfaqueou várias pessoas, matando três. O caso está a causar certa comoção, porque a França esteve sob fortes críticas das autoridades de países muçulmanos (incluindo o presidente turco) a propósito dos supostos excessos retóricos na reacção à morte de um professor de liceu, degolado há uma semana por um islamista, após ter mostrado as caricaturas de Maomé na aula. A indignação dos fanáticos nem se entende bem, pois a resposta francesa foi a do costume, com manifestações e discursos, vigílias e textos indignados, muitas palavras, mas nenhuma acção concreta. Pelo contrário, houve tentativas de relativizar o problema, como se o país não estivesse sob o ataque de fanáticos. Um bispo português, num twitter mais do que lamentável, culpava os europeus por não respeitarem as religiões (ainda bem que isto não foi na igreja dele). Um comentador da rádio pública fazia uma salgalhada entre o ataque do terrorista em Nice e a defesa que os conservadores polacos estão a fazer das suas igrejas, no contexto da contestação ao tribunal constitucional da Polónia, que emitiu uma decisão controversa sobre a lei de aborto, desencadeando manifestações contra os católicos. Para este radialista, em ambos os casos estamos perante o mesmo tipo de obscurantismo religioso. É cada vez mais evidente que nós, europeus, capitulámos na defesa da nossa liberdade. De alguma forma perversa, a culpa é nossa, por não sermos suficientemente tolerantes com estes maluquinhos que nos querem cortar a goela. Deixámos de entender o perigo que enfrentamos e, provavelmente, esta é uma excelente altura para surgir alguém a propor um brinde, já que é improvável que nos voltemos a encontrar.

28

por Luís Naves, em 19.06.20

As democracias têm muitas formas de entrar em declínio. Podem fossilizar, podem ser controladas por fanáticos ou oligarquias, podem não conseguir modernizar-se a tempo. Há exemplos de sistemas democráticos que não sobreviveram a desastres económicos ou quando as instituições do seu país começaram a esboroar-se por qualquer razão humana. Os regimes não são eternos e o sistema democrático pode no futuro tornar-se um anacronismo, porventura substituído por algo melhor que, por defeito de imaginação, ainda não concebemos. As democracias morrem quando não há escolha, quando nos impingem as mesmas mentiras, ditas pelas mesmas pessoas; quando os velhos partidos já não se renovam por senilidade e os novos começam a cometer os erros dos antigos. A democracia morre quando o que devia ser debatido livremente passa a ser discutido com pedras no bolso, com a intolerância a falar mais alto. As democracias morrem quando deixa de haver responsáveis e ninguém quer saber; quando se faz descaradamente o mesmo que antes se criticou aos adversários. A democracia está condenada quando há regras para os poderosos e outras regras para a maioria, quando deixa de haver escrutínio e equilíbrio, quando se instalam realidades manipuladas, mas é sobretudo durante crises económicas, feitas de insegurança e desespero, que crescem os piores sintomas da febre: falta de transparência, diabolização do outro e supressão de ideias.

27

por Luís Naves, em 16.06.20

A pandemia podia ter destruído preconceitos sobre aquelas profissões invisíveis que antes nem eram consideradas, mas que se revelaram cruciais para a sobrevivência. Bastava sair à rua durante a quarentena para perceber a importância dos trabalhadores dos supermercados, que corriam risco diário; era finalmente possível compreender a importância dos motoristas de transportes ou dos profissionais de saúde (tantas vezes maltratados); ou dos agricultores que continuaram a produzir os alimentos ou dos comerciantes de bairro que os distribuíam e vendiam. Houve um pequeno período em que se aplaudiram os esforços dos médicos e enfermeiros, mas essa fase emocional já passou. Quem é que hoje quer saber das condições de trabalho nos hospitais? Enquanto os dirigentes se protegiam, funcionários mal pagos e sem qualificações estavam nos sítios mais expostos, a arrumar produtos de supermercado, a conduzir viaturas, a proteger cidadãos, a recolher o lixo, a limpar resíduos perigosos e a assegurar a segurança das infra-estruturas. Muitos eram os mesmos indivíduos sem estudos que o neoliberalismo transformou em gente descartável. As pessoas comuns são melhores do que pensam os seus dirigentes, mas o povo continua a ser visto como o burro de carga que tudo consegue tolerar. É gente dispensável e sem influência, frequentemente precária e pobre, cuja voz não interessa. Os da linha da frente não pertenciam a castas instaladas, não formaram clientelas políticas e vão continuar a vergar a mola sem que alguém lhes agradeça.

26

por Luís Naves, em 14.06.20

Para se compreender o que se passa no mundo, julgo que é necessário considerar dois fenómenos aparentemente separados, a fragmentação das sociedades e a revolução mediática. Nos últimos quarenta anos, nos países avançados, o poder dependeu de uma classe média cuja satisfação era a prioridade de qualquer governante competente. Este grupo maioritário decidia eleições e confiava em meios de comunicação tradicionais que controlavam a circulação de ideias. Em cima da vasta alteração tecnológica que acabou com a estabilidade laboral, surgiu em 2008 uma crise que minou a confiança nas instituições e criou uma economia endividada e mais instável. Agora, chega o terceiro golpe consecutivo, a paragem económica completa por dois meses, que dará origem a falências e desemprego. A classe média, que era uniforme, divide-se actualmente entre uma metade que enriquece e outra que empobrece. Uns sentem-se inseguros, os outros mais confiantes do que nunca. A tudo isto, acresce o segundo fenómeno, que tem a ver com o controlo da circulação de ideias (ou de perspectivas da realidade). Os meios de comunicação tradicionais perderam esse controlo. Toda a gente tem um smartphone e pode filmar uma atrocidade na rua. As imagens espalham-se como um vírus, mesmo quando os fragmentos são incompletos ou fora do contexto. Já não há realidade única, mas muitas, algumas que se desmentem entre si, o que força a sociedade a dividir-se em bolhas, onde se refugiam tribos incapazes de aceitar pontos de vista alternativos. Com a pandemia e os seus efeitos, esta mudança geral só pode acentuar-se. A fragmentação torna difíceis as coligações, vai enfraquecer instituições e dividir alianças. A grande mudança não estará na relação entre potências, mas nas tensões internas de cada uma, alimentadas por descontentamento, guerras culturais e a percepção de insegurança. O tempo das potências é mais lento, mas todas terão problemas internos. Os EUA continuarão a liderar o mundo, a China terá dificuldade em contornar os obstáculos à sua ascensão, a UE depende da Alemanha para formar um núcleo duro de países e a Rússia precisa de gerações para superar as suas limitações demográficas.

25

por Luís Naves, em 12.06.20

António Vieira foi um dos maiores prosadores da língua portuguesa e uma das figuras marcantes do século XVII. Em várias ocasiões, enfrentou os poderosos e arriscou a vida com as suas críticas da escravatura e da brutalidade da colonização do Brasil. Apesar da grandeza evidente da obra, o padre tem em Lisboa uma estátua pindérica, que foi vandalizada por uns bárbaros que não compreendem nada. Pelo mundo civilizado proliferam hoje uns grupos minoritários que estão a lançar a moda da destruição das identidades nacionais: eles atacam símbolos, vandalizam o que lhe dá na veneta, desrespeitam as autoridades e desafiam as instituições democráticas. É um método de atacar liberdades e começa-se pela auto-estima de quem se pretende arrasar. Confunde-se protesto com rebelião, a crítica transforma-se em perseguição e assédio. As interpretações da história não são imutáveis e a nossa leitura do passado muda com as gerações, mas a revisão não pode ser feita por levianos. É um disparate aplicar a nossa grelha moral a pessoas do passado, que viveram em contextos diferentes. Um país que sempre menorizou ou perseguiu os seus maiores em vida, quer apagá-los de novo depois de mortos. António Vieira foi um grande escritor que devemos ler e admirar e foi também uma figura do seu tempo, que podemos tentar compreender melhor. A profanação da sua estátua em nome do anti-racismo é uma barbaridade imbecil, um crime contra o património da nossa nação. (E não tentem contestar a nossa liberdade de ter um património colectivo). Claro que estas guerras de cultura servem apenas para nos distrair das verdadeiras crises. Temos problemas de pobreza e má distribuição de rendimento, temos muito desemprego e teremos em breve ainda mais, vem aí uma hecatombe económica e não precisamos destas discussões parvas. Ou serão distracções oportunas?

Nota: Não vivemos em tempos de desistências. Sendo os meus textos aqui sistematicamente alvo de provocações de alguns comentadores que não apreciam o estilo, aviso que passarei a usar o privilégio de não aprovar comentários que, confundindo crítica com assédio, procuram condicionar ou distorcer as opiniões do autor.

24

por Luís Naves, em 11.06.20

Esta não será uma simples transformação nem foi apenas a quarentena que pôs as pessoas meio loucas. Isto vai mais fundo. O liberalismo parece condenado ou estará, no mínimo, em fase terminal. O nosso futuro inclui sobretudo a expansão das legiões da intolerância, como vemos em todos estes episódios da aplicação de uma moralidade contemporânea ao passado e, talvez ainda mais perigoso, o triunfo da intransigência na política e da mentira no pensamento. As discussões que antes pertenciam ao domínio das velhas instituições democráticas saltam para a rua e perdeu-se a transparência que ainda havia, a favor de maquinações feitas por organizações misteriosas sobre as quais sabemos muito pouco, nomeadamente sobre quem as financia e porquê. Os meios de comunicação (e era aqui que queria chegar) tendem a ser trincheiras militantes ou baratas tontas. É ocultado tudo aquilo que possa sair da narrativa conveniente. O próximo ciclo político vai ter menos referências do jornalismo e mais aldrabices, com guerras de cultura mais aceleradas e incivilizadas. As redes sociais serão os palcos privilegiados da política, os campos de batalha que vão determinar quem passa ao nível seguinte. O caos económico global beneficia meia dúzia de homens já estupidamente ricos, como nunca houve em tempo algum, donos das empresas que venceram a grande ruptura digital. Cada um é génio ou filantropo e alguns têm dinheiro para ir à lua. Toda esta comoção, que as suas criações amplificam, é como se não fosse nada com eles.

23

por Luís Naves, em 10.06.20

Sempre achei pouco credível o romance de Ray Bradbury Fahrenheit 451, uma distopia em que os livros foram banidos, são queimados e decorados por pessoas vivas. Observando o meu tempo, já não acho a ideia assim tão incrível. Em vários países cresce um movimento de contestação a figuras históricas e símbolos do passado. As estátuas são identificadas com tinta e segue-se um julgamento popular à maneira da revolução cultural. Depois, são derrubadas por uma turba feroz e qualquer tentativa de as repor será combatida com tumultos. Ao mesmo tempo, limita-se o acesso do público a obras de arte associadas a ideias que os manifestantes considerem perturbadoras. Pode ser uma pintura, um filme, um livro. O mecanismo de destruir estátuas não é novo, mas esteve sempre ligado a mudanças de regime. A prática de banir livros ou retirar filmes também não é nova, foi comum em épocas de intolerância e banalizada por fanáticos religiosos. A identidade das pessoas e dos povos está profundamente ligada à memória, por isso o novo radicalismo político não pretende fazer a revisão da história, mas apagá-la. É a melhor maneira de criar comunidades divididas e assegurar que numa época fragmentada se torne fácil abolir os factos. As diversas polícias do pensamento competem para impor a ortodoxia de vanguardas revolucionárias que dominam universidades e que procuram conquistar os meios de comunicação e as redes sociais. Sem ligações às origens, sem ideias próprias, desprovidos da alma, somos levados como crianças para onde eles nos quiserem levar. Para sítios desolados, como acontece na tirania comum.

22

por Luís Naves, em 19.03.20

Ao longo da vida, assisti do camarote a quatro grandes mudanças no mundo. A primeira chegou tardiamente a Portugal, sob a forma de revolução. Na altura, não entendi quase nada, mas agora percebo que houve uma espécie de tsunami social, económico e político que trouxe o país para a normalidade contemporânea. A segunda alteração foi simbolizada pela queda do Muro de Berlim e marcou o fim da Guerra Fria. Vieram depois o 11 de Setembro de 2001, que mudou o nosso sentido de segurança física, e a grande recessão de 2008, que abalou a segurança económica, mas estes dois movimentos estavam ligados a perturbações tecnológicas mais complexas. Não parece ousado dizer que a nossa vida vai levar outra volta. Muitas mudanças podem ser boas, as duas primeiras foram-no, mas esta vai atingir uma sociedade envelhecida e habituada a certos privilégios. Não coloca ponto final numa guerra que nos podia aniquilar nem abre os costumes a novas ideias, antes vem na sequência das outras duas mudanças, a encerrar-nos um pouco mais no medo: o que se aproxima ameaça erodir a abundância, fechar os portões de algumas liberdades, promete dividir ainda mais as gerações e as classes. Os historiadores do futuro talvez olhem para os 50 anos anteriores a 2020 como uma interessante anomalia, onde por acidente estávamos nós, entretanto esquecidos.

21

por Luís Naves, em 18.03.20

Samuel Pepys escreveu no seu diário, um dos mais famosos da literatura inglesa, páginas muito citadas sobre o incêndio de Londres de 1666 e tem entradas terríveis sobre a peste de 1665: é fácil perceber que não houve medidas de mitigação; o ceifeiro fazia a sua colheita e a sociedade arrastava-se na melancolia de contemplar a mortandade, sem imaginar como combater aquilo. No romance de Albert Camus, A Peste, Orão está isolada, em quarentena, mas a vida mantém-se, apesar da calamidade pública: os cafés estão abertos, é possível ir ao cinema. Em consequência, a doença alastra durante uma eternidade. No livro de José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, as vítimas de epidemia são colocadas num campo de concentração, uma espécie de zona vermelha mais próxima do que estamos a viver. A quarentena que calhou ao nosso tempo, e que terá a sua própria literatura, vai um passo além, separando cada indivíduo o mais possível de todos os outros. Somos ilhas num arquipélago, mas a vida prossegue, ligada à velocidade da luz, através de meios de comunicação que superam o contacto físico. Estamos separados uns dos outros e muito perto, o que é paradoxal.

20

por Luís Naves, em 15.03.20

Estas coisas acontecem de cem em cem anos. Ainda estávamos em Janeiro e discutia-se o processo de destituição do inquilino da Casa Branca. Nessa altura, muita gente escreveu que a morte de um general iraniano ia custar caro aos americanos, que no mínimo seriam expulsos do Médio Oriente. Tudo isto agora nos parece anterior à guerra anterior. No Irão, país comandado por gente do século XIV, morre-se à porta do hospital; já ninguém quer saber da campanha eleitoral na América, muito menos da independência da Catalunha; e já ninguém se lembra dos temas fracturantes que entre nós se discutiam com emoção (que temas eram esses, exactamente?). O mundo mudou e vai mudar ainda mais: muitos vão defender os muros que ontem criticavam, seja para migrantes sírios ou turistas espanhóis; muitos vão condenar os políticos que ontem consideravam geniais ou indispensáveis; muitos vão pedir mais segurança, mais distância em relação aos outros, mais repressão de comportamentos irreflectidos, menos tolerância para açambarcadores e outros parasitas. Depois, a grande vassoura da opinião pública vai remover os governantes que falharam e será reconstruida uma economia menos dependente da globalização, das fábricas chinesas e das decisões dos burocratas de Bruxelas.

19

por Luís Naves, em 11.03.20

Tentei recordar-me das coisas que pensei cinco dias atrás, dos excertos brilhantes de um livro que li, de uma conversa interessante, do filme fantástico que passou na televisão e que eu não conhecia; tentei recordar-me dos sonhos e das pessoas com quem me cruzei nas ruas e que me pareceram irrepetíveis e fascinantes; tentei fixar as memórias que me escapavam como a água a escorrer pelos dedos, mas das quais só me restam gotas. Ficaram os farrapos daquilo que vivi nesse dia e que talvez tenha sido um dos dias mais repletos da minha vida, não sei. Tudo se evaporou e diluiu na atmosfera invisível, o que se vive é a matéria que se esquece, aquele rosto, aquela sensação, aquela ideia única que nunca mais nos vai ocorrer, todos os sinais do tempo, não das coisas imutáveis, como a luz tépida da primavera que surge em cada ano durante uma manhã, mas os momentos únicos que as palavras não podem definir e que se perdem para sempre.

18

por Luís Naves, em 02.03.20

Parem o planeta, que saio nesta paragem. É um salve-se quem puder, a total falta de vergonha, o delírio e a gritaria histérica. Não me recordo de nada assim, nem nos piores momentos da Guerra Fria, quando podíamos ser todos incinerados em dez minutos, nem quando entrou em colapso o bloco comunista e os perigos pareciam imensos, nem durante os momentos mais severos da última crise financeira, não me recordo de ver estas massas de gente em movimento, o psicodrama das epidemias, a demagogia e o pânico de mãos dadas, este horror mascarado, a repugnância pelos outros e o medo da própria sombra. Sou muito jovem, sem memória daqueles séculos de que só ouvi falar, quando a civilização deslizava para o abismo sem motivo aparente. Sim, sei que tudo isto é superficial, o exagero do mundo mediático em que vivemos, sei que no fundo os humanos pertencem a uma espécie com inteligência, que o bem no fim triunfa, mas custa a acreditar, custa manter alguma crença nesta actualidade hipócrita que se olha ao espelho.

17

por Luís Naves, em 08.02.20

O líder do PSD, Rui Rio, não acredita que o seu partido seja de direita e quer conquistar o centro. Rio está a ver o que mais ninguém vê ou anda incrivelmente iludido. Na realidade, nos países europeus, o centro implodiu. Os eleitores vivem inquietos, recusam a uberização do trabalho, detestam ser a classe precária, e votam cada vez em maior número contra a estabilidade, que interpretam como estagnação. Em França e Alemanha, dois países traumatizados pelo passado das suas direitas, foi desenvolvido um sistema de cordão sanitário que começou por excluir partidos extremistas que não passavam dos 10 por cento. Só que os descontentamentos somam hoje 30 a 40 por cento e não é possível excluir tanta gente. Os partidos dos extremos crescem com os votos que as formações centristas rejeitaram durante anos, ao não reconhecerem os problemas da antiga classe operária, agora empobrecida e sem futuro. Os extremos ocupam o lugar vago e ganham terreno, apesar da resistência dos sistemas de poder, dos meios de comunicação, das elites académicas e das pressões financeiras. O eleitorado do centro é aquele que quer mais do mesmo e, nos tempos que vamos viver, será a minoria. Por isso, Rio parece ter ficado na guerra anterior, a lutar por um eleitorado que já não existe.

16

por Luís Naves, em 05.02.20

Tornou-se moda dizer que isto ou aquilo equivale a fascismo ou nazismo. Aplica-se a acusação a presidentes e deputados escolhidos em eleições livres, dirigentes partidários menores, comentadores de tuítes, enfim, a quem não tiver sólidas credenciais para se proclamar moralmente superior a tudo o resto. As pessoas que se dedicam a este exercício de ignorância estão na realidade a negar a história e a desculpar as ditaduras. Julgam prevenir o mal, mas banalizam o horror. Se o CDS é nazi, então o nazismo não pode ter sido assim tão mau; se Donald Trump, Salvini ou Bolsonaro são fascistas, Mussolini está desculpado. Acima de tudo, isto impede-nos de discutir as questões do nosso tempo. A relativização do antissemitismo ou do Holocausto, as comparações absurdas com épocas diferentes da nossa, a equivalência racional entre ideias banais e ideias genocidas ou ainda a crença não democrática de que os eleitores podem e devem ser ignorados, tudo isto vai além da tese estúpida para entrar nos territórios do perigosamente estúpido.

Blog da Semana

por Luís Naves, em 03.02.20

Reflexões, pequenas crónicas, ideias soltas, uma espécie de diário que Maria João Caetano tem reunido de maneira paciente. Escrita de qualidade, uma casa generosa, vão lá confirmar, chama-se A Gata Christie.

15

por Luís Naves, em 29.01.20

Ninguém está inteiramente satisfeito com o destino que lhe calhou em sorte. Toda a gente quer emagrecer ou perder um vício qualquer, toda a gente sonha com parceiros de fábula, viagens inesquecíveis, fortuna e felicidade. A vida de cada indivíduo parece cheia de falhas, incompleta. Em cada novo ano, surge aquele ritual um pouco pateta de dizer que melhores dias virão. Cada um acredita que pode despir a pele da sua personagem e mudar de vida como quem muda de fato. Não se trata exactamente de metamorfose, processo longo e planeado, mas de uma transformação instantânea, que nos renova e purifica num momento mágico. Infelizmente, os desejos em excesso têm geralmente o degrau onde tropeçamos e que não se deve confundir com as possibilidades de sonhar acordado. Enfim, às tantas é melhor olhar apenas em frente, esquecendo o passado, essa prisão guardada por fantasmas.


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