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Delito de Opinião

Como dizer pogrom em árabe?

João André, 13.10.23

Amanhã passará uma semana desde o maior massacre de judeus desde a II GUerra Mundial. A palavra pogrom, que se desejaria banida depois da criação do Estado de Israel, voultou a ser invocada para fazer referência ao massacre de mais de 1.200 pessoas - note-se, pessoas - por uma organização não apenas terrorista mas, especialmente depois de 7 de Outubro de 2023 (o qual já vi referido como Sábado Negro) - uma organização que pode ser cada vez mais descrita como fascista ou até nazi.

Não há desculpas para o que aconteceu e procurá-las nos últimos anos de política israelita (ou de outros países no Médio Oriente) é menorizar o sofrimento de quem morreu ou foi ferido ou raptado, é familiar destas vítimas ou qualquer outra pessoa com coração que não esteja demasiado dessensibilizada para reconhecer o sofrimento de pessoas que nada fizeram para ser assim atacadas.

Quando olhamos para estes actos é normal para certas pessoas procurar justificações e para outras apontar o dedo simplesmente ao Mal. A realidade é que há sempre explicações, por preversas e repugnantes que sejam, como neste caso, que são vendidas pelos responsáveis como "justificação". Se a política de Israel em relação à Palestina não tem sido justa há já décadas, não há forma de justificar a "retaliação" do Hamas à mesma. Especialmente quando, pelo que vou lendo de comentadores que se debruçam sobre as políticas na região e mais dela sabem que eu, o Hamas pretendia especialmente evitar uma aproximação da Arábia Saudita a Israel.

Há 9 anos escrevi sobre este assunto em dois posts, numa altura em que Israel entrou em Gaza. Na altura considerei que a ameaça do Hamas era menor. Talvez tivesse razão na altura, mas obviamente que o tempo ou me explicou o quanto estava enganado ou mudou a equação. O que não muda são as consequências: após massacre de israelitas que nada mais faziam que viver as suas vidas, o exército israelita (Forças de Defesa de Israel, FDI) vai entrar num território onde a esmagadora maioria das pessoas também apenas pretende o mesmo. Como li hoje num artigo, "o Anjo da Morte lambe os beiços".

Note-se que isto poderá também ser parte do que pretende o Hamas. Se o FDI empurrar os palestinianos para o Egipto, vai possivelmente acabar a colocá-los entre a espada e a parede e a levar à indignação do mundo árabe. Suponho que seja essa a intenção do Hamas, para quem a população palestiniana não mais é que um campo de recrutamento e fonte de mártires da causa. O ódio do Hamas levou ao massacre de israelitas inocentes*. Uma retaliação cega de Israel, especialmente por odem de um fraco e incompetente Netanyahu, poderá fazer o mesmo a palestinianos. O Anjo da Morte, de facto.

Pergunto-me então, se no meio do sangue que já foi derramado e à espera daquele que ainda correrá, se os facínoras do Hamas saberão como dizer pogrom em árabe.

 

* Nota: não aceitarei qualquer comentário que seja ofensivo para com judeus, israelitas em geral ou palestinianos. Posso aceitar pontos de vista distintos em relação ao conflito, mas não sobre a moralidade do massacre. Quem não quiser respeitar este ponto de vista terá o comentário eliminado.

O beijo que ajudou a limpar a toxicidade

João André, 01.09.23

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Depois do Mundial de futebol feminino estive perto de escrever um texto. Foi o mundial mais bem sucedido de sempre, com mais espectadores, com mais entusiasmo, foi expandido para 32 equipas e várias das equipas estreantes deram excelente conta de si. A qualidade do futebol foi excelente e deu-me muito mais prazer que a esmagadora maioria das competições futebolísticas que vi nos últimos 10 a 20 anos. Muito sinceramente penso que quaisquer investidores que coloquem o seu dinheiro no futebol feminino terão um retorno enorme dentro de apenas 5 anos.

No entanto tudo isto foi ofuscado pelo caso com Jenni Hermoso e Luis Rubiales. Não descrevo o caso em si além disto: ele deu-lhe um beijo na boca sem ter qualquer razão para isso fora a sua própria vontade. Mas posso adicionar elementos de que a maioria da imprensa portuguesa não parece ter feito caso.

Há cerca de 1 ano, 15 jogadoras da selecção espanhola escreveram uma carta à Federação indicando que não queriam voltar à selecção enquanto certas coisas não mudassem. Acusaram a falta de profissionalismo, respeito, apoio, etc. Houve também uma pouco velada crítica ao seleccionador e a exigência implícita que ele fosse demitido porque elas não tinham confiança nele. Na altura a Federação espanhola fez finca-pé e as 15 jogadoras decidiram não voltar, ao mesmo tempo que a Federação as afastou enquanto não renunciassem às exigências. 3 das jogadoras acabaram por o fazer e jogar nestes campeonatos do mundo.

Na altura, apesar de não terem subscrito a carta, algumas outras jogadoras solidarizaram-se com o conteúdo e as subscritoras. Uma delas foi Alexia Putellas, já 2 vezes considerada a melhor jogadora do mundo, e outra foi Jenni Hermoso, que era na altura também a capitã da selecção espanhola. O resultado para estas foram advertências e, no caso de Hermoso, ver retirada a braçadeira de capitão. Foi então punida por ter tomado uma posição.

Agora avancemos para este cenário. Uma empresa acaba de ter os melhores resultados da sua história e festejam esse feito. No processo, um dos empregados mais séniores, que no passado tinha sido líder de equipa mas depois despromovido após apoiar alguns dos seus colegas mais juniores numa reclamação, é beijado na boca pela presidente da empresa, a qual tinha diso responsável pela despromoção. O empregado decide ignorar, contente que está pelo que foi alcançado, mas depois queixa-se do ocorrido, afinal de contas, a presidente não lhe pediu para lhe dar um beijo e, mesmo que o tivesse feito, não era coisa para se fazer em público.

Após a queixa, a presidente inicialmente parece receptiva a pedir desculpas mas depois queixa-se das mentalidades, faz finca-pé, diz que a mentalidade de mariquinhas está a destruir a sociedade e que o beijo não foi mais que "um beijinho".

É óbvio onde quero chegar com isto - e se não for peçam ajuda que eu não estou para explicar. O chefe máximo abusou da sua posição e fez algo que não podia, de maneira nenhuma, fazer. Nem seria necessário falar de toxicidade masculina. Isto é simplesmente despropositado em qualquer situação. Mas o machismo que ainda é reinante na Espanha (e não só, Portugal não se escapa, nem a maioria dos países), apesar de menos proeminente que no passado, não pode ser removido da equação. Rubiales comportou-se assim porque entendeu que podia fazê-lo. Porque é o presidente e porque é um homem.

Jenni Hermoso decidiu de outra forma. As outras jogadoras, várias treinadoras e treinadores e até alguns jogadores, e muito da população também. E é o irónico disto, porque agora já não há outro caminho: ao cometer um acto de abuso, de toxicidade, Rubiales terá ajudado a limpar o ar.

Oppenheimer e a Bomba Atómica

João André, 19.07.23

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À esquerda, Robert Oppenheimer. À direita, Cillian Murphy em Oppenheimer.

Estreou esta semana Oppenheimer, o novo filme de Christopher Nolan. Não o vi ainda, embora tencione fazê-lo. Nolan é um cineasta que me enche as medidas quando vejo os seus filmes, embora raramente eu a ele regresse. Não é alguém que me deixe com vontade de esclarecer alguma coisa na história ou na mensagem. Nisso penso que ele é algo simplista (Nolan é um admirador de Michael Bay, cada um que tire as ilações que entender), mas é um cineasta fantástico no que diz respeito à imagem. Não espero que Oppenheimer seja diferente.

Não é no entanto o filme em si nem Nolan que me levam a escrever. É a história da construção da Bomba Atómica. É que esta é uma história incrível, com personagens fascinantes - Robert Oppenheimer talvez seja de facto a mais complexa de todas - e todo um cenário, desde o início do século XX até 1952, quando a primeira bomba de hidrogénio (ou bomba termonuclear, ou bomba de fusão) foi detonada. E toda esta história é contada majestosamente por Richard Rhodes na sua monumental obra The Making of the Atomic Bomb (link na Amazon, link na Wikipedia), um livro fenomenal que já li duas vezes (e ouvi em audiolivro outras duas) e que infelizmente não parece estar publicado em português.

Não vou eu contar num post uma história tão complexa que precisou de mais de 800 páginas para ser colocada em papel. No entanto aponto para pequenos pormenores como a dissolução de duas medalhas Nobel em Copenhaga (para as esconder dos nazis), as preocupações filosóficas de Bohr (que emerge como o maior gigante numa história de gigantes), uma visão de Leo Szilard que evocava um livro de HG Wells, um duo de tia (Lise Meitner) e sobrinho (Otto Frisch) que fizeram descobertas fundamentais no campo, um ataque às instalações da Norsk Hydro (revisitado em Hollywood anos mais tarde) seguido da história de um afundamento de um ferry e de um famoso violinista, descrições horrendas do resultado de bombardeamentos, uma narração em segunda mão das descrições de narradores infiáveis sobre um encontro entre Heisenberg e Bohr, a fuga de Bohr da Dinamarca, a origem de nomes de código, a escolha do cientista mais rápido na equipa de Fermi para levar amostras para análise, etc. O livro é rico em detalhes, explica os princípios técnicos com clareza e simplicidade e pouco a pouco para os leitores os poderem apreender e ainda nos leva mais longe que simplesmente Agosto de 1945, chegando então à "Super" de Teller e Ulam detonada em 1952.

O filme de Nolan foi baseado no livro American Prometheus, uma biografia de Oppenheimer. Será talvez a melhor fonte para o filme, dado que se debruça sobre especificamente Oppenheimer, não sobre a bomba. No entanto, para quem queira adquirir mais informação sobre aquele que terá sido o maior projecto científico da história da Humanidade, o livro de Rhodes será inultrapassável.

Pensamento da Semana

João André, 09.07.23

A cada geração se ouve uma variação de "no meu tempo é que era" numa crítica implícita às gerações mais novas. Não só se ignora que todos somos iguais com pequenas diferenças decorrentes de mudanças na sociedade como, e mais importante, se prefere ignorar que se uma geração tem determinada característica, isso se deve em grande parte às gerações anteriores.

Por isso, da próxima vez que quisermos queixarmo-nos dos millenials ou da geração Z ou seja lá qual for a designação deles, lembremo-nos que somos os pais ou avós e que a responsabilidade de os criar e educar é nossa. Se algo não correu bem, os culpados estão a olhar para nós no espelho.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

Um futuro cada vez mais quente

João André, 30.06.23

A temperatura não existe. ou melhor, existe, mas é uma medida da energia de um sistema. Quanto maior a energia de um sistema, mais a temperatura pode subir, desde que esse sistema se mantenha constante. Se o sistema puder mudar, a temperatura pode manter-se inalterada. Uma forma de pensar nisto é através de diluição de algo que esteja ao lume. Se adicionarmos mais água a uma temperatura mais baixa, a temperatura da água ao lume reduz-se. Outra forma seria pensar no aquecimento de um gás. Se se permitir que o gás a ser aquecido se expanda, ou seja, se "estenda" por um volume maior, a temperatura não mudará. O oposto, como é óbvio, também é verdade: se comprimirmos um gás sem o aquecermos, a temperatura aumentará, porque aumentará também a interacção entre as moléculas do gás. A temperatura é assim uma forma de medir a actividade termodinâmica de um sistema, como se podem usar os testes Pisa para avaliar um sistema de ensino.

Porquê referir isto? Porque quero falar de Aquecimento Global (AG) mas para o fazer preciso de começar por explicar que "aquecimento global" é apenas uma forma de olhar para fenómenos termodinâmicos na nossa atmosfera à escala... bem, global.

Nota prévia antes de continuar a ler este longo post. Nos comentários não aceitarei ataques às ideias de Aquecimento Global, a sua origem antropogénica ou aos seus efeitos nas Alterações Climáticas. Estes são hoje factos científicos e não estou para aceitar negacionistas. Todos os comentários nesse sentido serão apagados. Quem quiser discordar comigo na análise em si, pode fazê-lo, mas não vou debater se a realidade é real.

O que é o Aquecimento Global?
Quando falamos em AG estamos a referir-nos ao aumento das temperaturas médias que se tem verificado por todo o planeta ao longo de sensivelmente o último século e meio. Quando falamos em temperaturas médias estamos a falar em todas as temperaturas que são medidas ao longo de todo o dia, em todos os dias do ano, em milhares de localizações distintas por todo o planeta. Todas estas medidas são somadas, divididas pelo número de medições e lá temos a temperatura média (hoje em dia será simultaneamente mais complexo e mais simples mas manterei as explicações a um nível mais básico). Por exemplo, se medirmos a temperatura em Lisboa, Faro e Porto em 3 momentos distintos do dia teremos um total de 9 medições as quais podem ser adicionadas e divididas por 9 para dar um valor médio. Se fizermos o mesmo para os 18 distritos (do continente) e por hora, seriam 432 pontos por dia e fazendo o mesmo para todos os concelhos e também por hora ao longo do ano estaríamos a falar em quase 2,7 milhões de medições.

A importância de fazer estas ressalvas tem a ver com a necessidade de olhar para lá de "estamos há uma semana com calor, prova de AG" ou "se há AG como explicam este frio?". Haverá sempre temperaturas extremas numa e outra direcção, mas em si mesmas não significam nada (embora tomadas em conjunto até sejam indicação de AG, mas já lá chego). Seria o mesmo que ver um eucalipto no Pinhal de Leiria e propôr a mudança de nome do mesmo.

O Aquecimento Global é real e está perfeitamente documentado. Há hoje muito poucas pessoas que se deêm ao trabalho de o negar. Haverá quem proponha razões alternativas (de forma séria ou nem por isso) mas o aumento das temperaturas a nível global é indesmentível. Para facilitar a compreensão, podem olhar para o vídeo abaixo, que apresenta de forma visual esta evolução.

Se damos então por aceite que as temperaturas estão a aumentar, porque razão se está isto a passar? Como já toda a gente saberá, o principal culpado é o dióxido de carbono, CO2 na sua notação química. O CO2 é um gás com efeito de estufa, tal como muitos outros, mas para entender o que isso quer dizer precisamos de compreender o conceito de efeito de estufa. Como sabemos, a principal fonte de calor para o nosso planeta é o Sol. A radiação solar chega ao nosso planeta especialmente na forma de ultravioleta e luz visível e aquece as moléculas que com ela interagem (parte da energia é reflectida de volta ao espaço). Esta radiação aumenta a energia dos objectos (aqui objectos é tudo desde moléculas a montanhas e oceanos) e estes depois libertam parte dessa energia na forma de radiação infravermelha, menos energética que a ultravioleta e visível.

Ora, as moléculas de gases tendem a absorver radiação em comprimentos de onda distintos, ou seja, em partes específicas do espectro. A ragião na qual o CO2 se especializa é precisamente na zona da radiação infravermelha, o que significa que o CO2 tem tendência a absorver a radiação que deixa o nosso planeta e, em condições normais, voltaria ao espaço. Note-se que não é a única molécula que o faz. A água, muito mais presente na atmosfera, tem também o mesmo efeito de estufa, tal como metano ou ozono e muitos outros. E ainda bem que assim é. Sem o efeito estufa destes gases, o nosso planeta não teria uma temperatura média por volta dos 14 ºC mas uma temperatura média inferior a 0 ºC e a Terra parecer-se-ia então mais com Europa, o satélite de Júpiter, que com este globo azul.

Ao longo da História do planeta, as concentrações destes gases mudaram muito na nossa atmosfera. Há múltiplas razões para isso, algumas internas (vulcanismo, geologia) e outras externas (ciclos de Milankovitch - ou Milanković - que determinam a quantidade de radiação solar a que o nosso planeta está exposto e causam efeitos na biosfera que levam a mudanças na composição da atmosfera). Só que estas variações habitualmente ocorrem ao longo de milhões de anos. Para a escala de tempo que nos interessa, a de seres humanos, a concentração destes gases com efeito de estufa tem estado mais ou menos constante ao longo dos últimos 12 mil anos, especialmente no caso do CO2, que se manteve entre as 260 e 270 partes por milhão (ppm) na atmosfera. Isto é, até cerca de meados do século XIX.

Por essa altura, como se sabe, começou a Revolução Industrial, que foi alimentada graças às reservas de carvão - primeiro - e petróleo - posteriormente - que foram sendo encontradas no nosso subsolo. Carvão e petróleo são compostos de carbono que quando queimados na presença de oxigénio formam dióxido de carbono entre outros compostos (a química é como uma criança em idade pré-escolar, uma desarrumada). A partir do início da Revolução Industrial, as necessidades de energia explodiram o que levou a uma explosão do consumo de carvão e petróleo e à libertação de CO2 para a atmosfera. Isto levou a um círculo virtuoso no efeito que a ciência e tecnologia tiveram na sociedade e vicioso no efeito que as inovações daí resultantes tiveram na atmosfera. Um exemplo: o aumento de indústria permitiu um aumento de eficiência na agricultura, o que levou a uma redução na mão de obra necessária para a mesma e aumento na produção de produtos alimentares. Isso levou a um aumento da mão de obra disponível para a indústria, o que exacerbou o efeito inicial e levou a um aumento da população - coajudado pelas melhorias científicas no combate às doenças. Tivemos então necessidade de descobrir melhores formas de produção na agricultura o que permitindo a descoberta do processo de Haber-Bosch para fixação de azoto para fertilizantes, processo o qual exigiu o uso de grandes quantidades de energia. E etc.

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Evolução da concentração de CO2 ao longo dos últimos 40 mil anos. Medidos a partir de gelo do Árctico e do Observatório de Mauna Loa.

A concentração de CO2 na atmosfera explodiu assim, dos sensivelmente 270 ppm em 1880, até aos 410 ppm actuais. Normalmente o nosso planeta controla o nível de CO2 através do ciclo de carbono, onde o CO2 que é libertado por processos naturais (decomposição, respiração, processos geológicos ocasionais ou regulares de baixa intensidade) é compensado pela absorção através de fotosíntese (terrestre ou aquática) e sequestro no subsolo (como quando matéria orgânica fica enterrada). Historicamente houve momentos ocasionais em que o planeta libertou mais CO2 que aquele que era habitualmente absorvido, tipicamente através de vulcanismo, ou outros em que a fotosíntese foi comprometida a nível global devido a catástrofes repentinas (como supervulcões ou impactos de asteróides) ou mais progressivas (como mudanças climáticas causadas por mudanças geográficas, por exemplo o fecho do istmo do Panamá).

No entanto, a queima de combustíveis fósseis - os tais que resultaram do sequestro de matéria orgânica no subsolo ao longo de milhões de anos e subsequente transformação em carvão, petróleo ou gás natural - acabou por causar um desequilíbrio no ciclo de carbono que não pôde ser compensado no curto período de tempo que passou desde que a industrialização em massa começou. Aliás, olhando para o gráfico acima até se pode ver um ligeiro aumento na concentração de CO2 desde há 6-7 mil anos até sensivelmente o século XIX, o qual é atribuído por muitos ao surgimento das civilizações humanas, que dominaram o fogo e foram desflorestando partes do planeta. Claro que tais acções terão no máximo causado um ligeiro aumento na concentração de CO2, e que, sendo muito gradual, ajudaria a Natureza a equilibrar tal aumento.

Nota: o último máximo glacial teve lugar há cerca de 20-26 mil anos, um período que terá começado há cerca de 33 mil anos e a "deglaciação" (as minhas desculpas pela tradução canhestra de deglaciation) há cerca de 19-20 mil anos. Estas datas são muito fluidas, devido a estes momentos terem começado em períodos diferentes no globo. O importante a reter é como isto se reflecte também nos níveis de CO2 no ar. Não falarei sobre as origens da glaciação, mas note-se que no período do máximo glacial o nível do mar reduziu-se bastante e grande parte da superfície do planeta, sobre terra ou água, foi coberta por gelo que é, na maior parte das vezes, opaco. Isto terá reduzido a fotosíntese mas também a respiração, resultando (ou reforçando) a queda nos níveis de CO2. Já agora, essa queda do nível da água do mar também permitiu a criação de uma ponte terrestre entre a Ásia e a América e a migração de humanos para esse continente. De notar também que ainda vivemos num período glacial, ou seja, ainda estamos numa Idade do Gelo. Isto porque ter gelo de forma permanente nos pólos ou a altitudes relativamente baixas não é comum na história do nosso planeta. Ou seja, a história da humanidade existe num período glacial.

Resumindo: CO2 é um gás com efeito de estufa e fundamental para manter a temperatura no planeta mais alta do que seria sem ele. Ao longo dos últimos 150 anos temos enviado mais CO2 para a atmosfera que aquele que o nosso planeta pode remover, levando a um aumento da concentração do CO2. Isto tem levado a um aumento da temperatura média global até aos cerca de 1,2 ºC mais que no período pré-industrial e que terá certamente alguma influência num planeta que tem existido num estado de era glacial desde que os seres humanos modernos surgiram.

Alterações Climáticas
Como acima falei no conceito de Aquecimento Global (AG), tenho agora que falar no conceito de Alterações Climáticas (AC). Enquanto AG se refere a um efeito termodinâmico como referi acima, AC refere-se ao efeito que tal aquecimento tem no clima em geral. Antes de mais é necessário distinguir entre Clima e Tempo (no sentido metereológico, claro). O primeiro equivale a uma muito extensa floresta, enquanto que o segundo equivale mais a uma árvore, bosque ou a um pequeno sector na dita floresta. Quando adicionamos "Global" a Clima, então as escalas mudam completamente e o próprio termo deixa de fazer sentido. Não existe "Um Clima" global, antes uma colecção de climas mais localizados, mesmo que muito mais (e às vezes menos) extensos que uma região de um país. Um Clima também descreve uma dinâmica, enquanto que o Tempo descreve um momento. Podemos ter microclimas causados por montanhas, vales, lagos ou desertos e que se estendem por áreas comparativamente reduzidas. O Tempo, por sua vez, é uma descrição das condições num período e geografia reduzidos.

Usando estas definições podemos então olhar para a relação entre AG e AC. Como indiquei acima, o aumento de temperatura global médio no período industrial é de 1,2 ºC. Como comentei no início do post, a temperatura não existe por si mesma, sendo antes uma indicação da energia de um sistema. Assim sendo, é possível fazer uma estimativa de quanta energia é necessário adicionar à atmosfera do nosso planeta para aumentar a temperatura média em 1,2 ºC. Aqui, e como gosto de experimentar coisas novas que me poupem trabalho porque sou algo preguiçoso, recorri ao novo e famoso ChatGPT para me simplificar a tarefa. Pelos seus cálculos, e sabendo uma estimativa do volume e massa totais da atmosfera, bem como a sua capacidade calorífica em J/kg.ºC - Joules por kilograma e graus Celsius (um valor de 1 J/kg.ºC significa que 1 Joule de energia irá elevar em 1 ºC uma quantidade de 1 kg do material em causa) - podemos multiplicar a massa da atmosfera pelos 1,2 ºC e chegar a um valor de 6,6 x 10^21 Joules adicionados à atmosfera terrestre por acção da industrialização do planeta [para explicação: dado que o sistema de edição de texto do SAPO Blogs não me permite usar a notação habitual de potências, usarei o conceito de 10^x para o descrever. Para quem não esteja acostumado a isto, 10^x é um "1" com um número de zeros igual ao valor de x. Assim, 10^2 é 100, 10^0 é 1 e 10^20 é um 1 com 20 zeros.]. Para dar uma perspectiva, é um valor equivalente a 15 vezes o consumo global de energia em 2019 (ou para sermos apocalípticos, 110.000.000 - 110 milhões - de bombas equivalentes à de Hiroshima). Note-se que este valor refere-se ao aumento de energia na atmosfera, mas não à energia que nós próprios libertámos com o consumo de combustíveis fósseis (e outras actividades). A essa energia também se adiciona a energia que, como explicado acima, deixou de ser libertada para o espaço (mais uma fonte para dados sobre energia).

Se hoje deixássemos de aumentar as nossas emissões (ou seja, se mantivessem ao nível presente, o chamado "Net Zero"), é provável que a temperatura aumente a um ritmo de 0,2 ºC por década, chegando a cerca de 1,5 ºC em 2050. [Não encontro a fonte de onde retirei este valor. Este outro artigo fala num aumento total de 0,3 ºC mas baseia-se num artigo de 2010, quando os modelos era muito menos robustos e quase não levavam em conta outros factores]. Esse aumento corresponderia a cerca de 8,25 x 10^21 J de energia mais que nos níveis pré-industriais e um aumento de 1,65 x 10^21 J de energia nos próximos 27 anos. Ou seja, imaginemos que estaríamos a rebentar 27.500.000 (vinte se sete milhões e meio) de bombas de Hiroshima, ou um milhão de bombas de Hiroshima por ano (sem os efeitos de radioactividade, claro).

Qual a importância desta energia então? Bom, o problema é que o nosso planeta não é homogéneo. Os sistemas complexos têm o hábito de querer homogeneizar tudo ainda mais que burocratas em Bruxelas. Isso significa que zonas que estão quentes tentarão "ir" para zonas frias, mas como isso só é possível movendo massas de ar, quando o fazem também "empurram" as massas de ar dessas zonas frias, que depois podem ir para onde não se espera. É em parte (e de forma extremamente simplificada) que um aquecimento da atmosfera no Ártico pode levar a temperaturas muito baixas em zonas onde isso não se esperaria, por empurrar o ar mais frio para Sul. Outras complicações ocorrem quando os oceanos são levados em conta. O valor de energia que referi acima corresponde apenas ao aumento de energia na atmosfera necessário para chegar aos 1,2 ou 1,5 ºC. Mas os oceanos também absorvem energia, e em maior quantidade que a atmosfera (porque são muito massivos e porque a água tem grande capacidade absorção de calor, para não falar na vida, que também absorve a sua parte). Isso significa que a energia libertada foi provavelmente maior que aquela que apontei acima (para valores mais sólidos teria de se falar com especialistas em climatologia).

Isso significa que não só a atmosfera aquece, mas também que os oceanos estão a aquecer. Aliás, sem o efeito moderador dos oceanos, o aumento de temperatura teria sido provavelmente muito superior (note-se: é também por isso que as estações tendem a "mostrar-se" mais tarde que a data em que começam, porque os oceanos ou absorvem parte do calor extra da nova estação ou compensam o arrefecimento libertando parte do seu calor da estação anterior). Mas isso significa também que a temperatura dos oceanos aumenta o que, além de diversos efeitos na vida aquática, tem duas imediatas consequências: aumenta a evaporação de água e perturba a circulação termoalina. Vamos explicar estes conceitos e seus efeitos.

A evaporação é mais simples de compreender, como é claro. A temperatura aumenta, a água evapora mais facilmente e assim introduz-se mais vapor de água na atmosfera. Isto tem dois efeitos: a humidade aumenta e a quantidade de nuvens também. A influência destes dois factores é complicada de determinar, mas a humidade poderá ser a mais importante (isto é avaliação pessoal). As nuvens sobem à atmosfera e, sendo compostas de cristais de gelo, aumentam o albedo (uma medida de capacidade de reflexão de luz, servindo para "medir" quão branca uma superfície é) do nosso planeta. Isso faz com que mais energia solar seja reflectida de volta ao espaço e ajuda a diminuir o aquecimento. Por outro lado, a humidade tem o efeito contrário: o vapor de água é também um gás com efeito de estufa e o seu aumento na atmosfera levará a que mais calor que chegue ao planeta fique preso na atmosfera em vez de ser irradiado de volta ao espaço. Por outro lado, nuvens são passageiras e podem formar-se menos em temperaturas mais elevadas. A humidade total não muda significativamente, dado que efeitos de redução (saturação e chuva) levam a que a água chegue ao solo ou oceanos de onde se voltará a evaporar. (por isso a minha observação pessoal que o efeito de humidade contribui mais para o aquecimento que as nuvens para o arrefecimento). Claro que a humidade e nuvens não se dispersam igualmente por todo o planeta, pelo que mais água e nuvens levarão a um aumento, potencialmente brutal, da precipitação em determinadas zonas.

Representação da circulação termoalina.

Já a circulação termoalina é mais complexa. Refere-se a uma circulação da água nos oceanos causada por diferenças de densidade da água a profundidades distintas. Há aqui alguns aspectos a reter. À medida que a água arrefece, a sua densidade aumenta. À medida que água é retirada ao oceano, seja por evaporação ou congelação, a água líquida que fica no oceano tem uma salinidade maior e fica igualmente mais densa. Isto, juntamente com ventos e outros fenómenos, é responsavel pela circulação termoalina, a qual se pode resumir (de forma extremamente simplificada) da seguinte forma. A água que vem do equador e trópicos, quente e à superfície do oceano, segue na direcção dos pólos. À medida que se aproxima dos pólos vai arrefecendo devido à diferença de temperatura e evaporação (a evaporação causa uma baixa de temperatura do líquido que evapora, chama-se a isso arrefecimento por evaporação). Isto faz com que a água fique mais densa (temperatura mais baixa e salinidade mais elevada) e vai assim afundando para o fundo do oceano. A isto acrescem fenómenos extra relacionados com o congelamento da água, mas estes são complexos e não entrarei por aí. À medida que afunda, esta água vira em direcção ao equador e trópicos e volta a aquecer e a ascender, numa troca com a água mais quente e menos densa acima.

O processo descrito acima, que como disse simplifiquei enormemente, permite transportar enormes quantidades de calor e equilibrar o clima no planeta. A forma como se distribui é fortemente responsável pelo facto de o Porto e Nova Iorque terem climas bastante distintos apesar de estarem sensivelmente à mesma latitude. A circulação termohalina transporta a água mais quente mais perto da Europa que da América do Norte, pelo que acaba por influenciar os climas nos dois continentes.

Só que também aqui pode haver problemas. O AG está a causar um aumento das temperaturas em todo o lado, especialmente em certas regiões. uma delas é o Ártico, que está assim a derreter mais que normalmente seria o caso. Isto não causa o problema que a maior parte das pessoas poderá imaginar: o nível das águas do mar não aumenta significativamente porque o gelo no círculo polar ártico está na sua grande maioria a flutuar na água, pelo que se derreter não causará aumento do nível da água (não contabilizo aqui a Gronelândia). Só que esse gelo é de água essencialmente pura, a qual iria então diluir as águas ao redor e assim perturbar a circulação termoalina. Isso sucederia porque ao introduzir água pura no oceano e diminuir a salinidade da água, iria impedir que a mesma afundasse da mesma forma. Isso poderia levar a uma perturbação das correntes o que mudaria completamente a forma como o calor é transportado pelos oceanos. Isto pode parecer pouco, mas deixo um exemplo da sua importância. Há cerca de 3 milhões de anos, o Istmo do Panamá fechou, eliminando a circulação entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Isto causou enormes perturbações no clima a nível global, tendo possivelmente sido responsável por uma desertificação de grandes partes de África, levando a que certas regiões passassem de florestas a savanas e outras ficassem completamente desertificadas. Uma teoria é que tais modificações climáticas e do terreno terão levado a que as florestas de que dependiam os nossos antepassados desapareceram levando a que tivessem que se adaptar (evoluíssem) para uma posição mais erecta e assim iniciassem o percurso que levou ao Homo sapiens (isto seria apenas uma contribuição para essa evolução, tais adaptações nunca resultariam de apenas um tipo de pressão ambiental).

E isto é só a introdução.

Sistemas complexos e mudanças metereológicas
Em qualquer sistema, as dinâmicas são tais que o sistema procura o equilíbrio. Este equlíbrio pode ser muito simples ou mais complexo. Se abrirmos as portas e janelas de nossa casa, aquecida, o sistema atmosférico rua-casa irá mudar de forma a criar um novo equilíbrio, no qual a temperatura e pressão é igual em todo o lado. A casa arrefecerá e a rua irá aquecer, mesmo que de forma insignificante (devido à grande diferença de volumes). Quando temos um sistema em equlíbrio, não devemos no entanto pensar que o mesmo se manterá sempre em equilíbrio ou que perturbações no equilíbrio levarão a ajustes simples. Quanto mais complexo o sistema, mais probabilidades há para variações fortes ou inesperadas devido às muitas interdependências entre os factores (temperatura influencia pressão que influencia volume, que influencia circulação de ar, que influencia evaporação, etc...). Este tipo de reacções, onde as consequências de uma variação ou perturbação são inesperadas ou não proporcionais à dita perturbação podem indicar não-linearidade do sistema, ou seja, não há relação directa entre a acção e a reacção (uso aqui linguagem o mais simples possível para descrever conceitos que são essencialmente matemáticos e que não domino suficientemente). Um exemplo de um sistema que parece não-linear aos nosso olhos é o conceito de drifiting com automóveis: quando um carro faz uma curva em grande velocidade e começa a deslizar com as rodas traseiras. O instinto de um condutor é de virar o volante na direcção da curva para endireitar o carro, mas isto apenas resulta num pião. A solução passa por virar o volante na direcção oposta à curva e deixar o carro continuar a deslizar enquanto completa a curva. Conceito explicado de forma interessante e acessível aqui.

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Visualização de um exemplo de perturbação do equilíbrio de um sistema (aqui unidimensional, por isso numa linha) retirado daqui. Note-se como o ponto de equçíbrio pode ser encontrado de novo (a linha recta no meio) mas pode não ser estável.

Voltando a sistemas complexos, quando a perturbação não só é introduzida no sistema como continua a ser introduzida, as consequências podem ser bastante inesperadas. A contínua emissão de gases de efeito de estufa para a nossa atmosfera é um exemplo de um sistema complexo (a nossa atmosfera, o clima, os oceanos, o planeta em si) a ser alterado por uma perturbação constante (e crescente) ao longo de um período de tempo muito longo (as emissões). Neste caso, pode até acontecer que, se amanhã deixássemos de emitir gases com efeito de estufa, o sistema não encontrasse um novo ponto de equlíbrio senão ao fim de períodos de tempo muito longos, certamente mais que vidas humanas. Poderíamos até encontrar pontos semelhantes ao nosso equilíbrio anterior (relativamente ao ciclo de carbono) mas que não estivessem em equilíbrio, porque as perturbações levaram a outras modificações no sistema que contribuem para uma convergência do sistema muito mais difícil e longa que aquela que seria possível sem a perturbação. No nosso caso, isto pode acontecer graças a pontos de inflexão na Natureza. Alguns deles são:

  • alterar os oceanos o suficiente para que extinções massivas de plankton tenha lugar e assim desapareça um dos maiores reservatórios de CO2.
  • as temperaturas sobem o suficiente para que o permafrost em latitudes elevadas comece a descongelar significativamente e a libertar as suas imensas reservas de metano, que é um gás com efeito de estufa cerca de 20x mais forte que o CO2.
  • A floresta amazónica é reduzida e perturbada o suficiente para que a sua dinâmica deixe de ser orientada pra regeneração e comece a causar a sua auto-destruição. Isto não é causado apenas por AC, mas pela desflorestação, mas as AC podem ser depois responsáveis por um empurrar da floresta para o precipício.
  • O gelo nos pólos (especialmente na Antártida e na Gronelândia) derrete o suficiente para criar uma situação onde mesmo que a temperatura voltasse a diminuir, o gelo continuaria a derreter, devido a menor albedo (superfícies mais escuras absorvem mais calor), lubrificação por água líquida do espaço entre gelo e rocha (que levaria a deslizamento mais rápido dos glaciares para o mar).
  • Derretimento dos gelos em montanhas como os Himalaias, que fornecem água a alguns dos mais importantes rios na Ásia. Esses rios (por exemplo o Ganges e o Indus) podem então perder caudal o que, além de potencialmente levar a fomes a escalas inacreditáveis, poderia levar também a desertificação da região e assim fazer perder um enorme reservatório de carbono.

Para ser claro: não é certo que os pontos referidos acima venham a suceder e há estudos que apontam para a sua improbabilidade, mas a comunidade científica identificou estes e vários outros pontos de inflexão que podem não só perturbar o complexo sistema que é o clima global como inclusivamente acelerar e alimentar essa perturbação. Um exemplo de uma perturbação que poderia levar a uma consequência oposta refere-se à circulação termoalina. Tal como se comenta de forma canhestra no filme The Day After Tomorrow, a perturbação da circulação (como referi acima) poderia reduzir o transporte de água mais quente para os pólos e assim causar uma queda de temperatura no hemisfério norte, levando assim a uma glaciação mais semelhante aos últimos picos de glaciação (mas não em dias, como no filme, antes em séculos). Não é claro se isso realmente aconteceria (a circulação termoalina e a sua influência no clima é um outro sistema tão complexo que não o compreendemos completamente), mas essa possibilidade existe definitivamente.

Este é apenas um dos aspectos que aponta para como a evolução de sistemas complexos e perturbações ao equílibrio nos mesmos podem parecer um contrasenso. Um aquecimento global leva a um arrefecimento localizado mas vasto, por exemplo. Nalgumas zonas as chuvas aumentam e noutras o clima fica mais seco. Há várias consequências imprevistas quando conduzimos uma experiência não monitorizada num sistema complexo, como é o caso da industrialização contínua (ainda hoje prossegue) do nosso planeta no meio de uma atmosfera e uma hidrosfera que mal compreendemos. A isto ainda acrescem outros pormenores que à partida não consideraríamos. Um exemplo pode ser o aumento de chuvas que leve a uma desertificação de certas regiões. Isto pode suceder se, numa região cuja geografia, geologia, fauna e flora, estão habituadas a um determinado padrão de precipitação, o clima mudar de forma a que esta precipitação aumente ou, alternativamente, se concentre em períodos de tempo mais curtos. Neste caso, chuvas mais intensas poderiam causar um lavar dos solos mais intenso que o habitual, assim removendo a camada superior dos mesmos (que albergará a maior parte dos nutrientes necessários para as plantas) e assim cause uma diminuição da cobertura verde. Os animais acabam igualmente por desaparecer (morrendo ou migrando) o que exacerba o problema ao perturbar ainda mais o equilíbrio (animais consomem plantas e pestes, introduzem nutrientes no solo, ajudam com a polinização, etc). O desaparecimento de plantas também retira capacidade de retenção de água ao solo e na ausência de raízes saudáveis, deixa igualmente de proteger essa camada superior de solo. Ao fim de algum tempo, a região poderá ter mais chuva, mas reter menos água e vegetação, assim ficando mais desertificada (note-se que a desertificação por seu turno provavelmente reduziria depois a precipitação na região).

De certa forma, podemos pensar de forma extremamente simplificada e grosseira no nosso clima como se fosse um anel elástico em volta de um dedo e o qual esticamos com o outro. Esticamos um pouco e depois relaxamos, esticamos e relaxamos, de forma contínua e sem parar. É um ritmo constante e existe algum equilíbrio. Contudo, a perturbação pode ser se começarmos a esticar mais mas a relaxar menos. A tensão no elástico cresce e até pode acontecer partir ou escapar do nosso dedo. A direcção que tomaria seria impossível de prever apenas saberíamos que o equlíbrio deixaria de existir. O mesmo acontece, mas em ordens de grandeza extraordinariamente maiores, com o clima. É por isso que termos dias frios no Verão ou mesmo toda uma estação de Verão ou Primavera mais fria que o habitual não nega um aquecimento global. Pode até ser uma confirmação do mesmo.

A árvore e as florestas
Note-se que embora um qualquer extremo meterológico (calor, frio, inundações, secas) possa estar ligado ao AG e às AC, não quer dizer que o possamos dizer. Temos vindo a ver as notícias sobre fogos, inundações ou outros eventos e os comentários, frequentemente precipitados, de jornalistas sobre estarem ligados às AC. Isto é precipitado porque não podemos dizer, de forma inequívoca, que um evento específico não teria lugar sem o despejar massivo de gases com efeito de estufa na atmosfera. Aquilo que podemos frequentemente fazer é apontar para um aumento da frequência ou intensidade de eventos extremos como indicação das AC. Aqui não falamos de ver tais tendências (aumento de frequência e intensidade) e usarmos esse argumento para defender um ponto de vista. Essas tendências eram esperadas pelos cientistas há já muito e seriam previsíveis por qualquer pessoa que compreenda sistemas complexos.

Estes extremos em si mesmos são obviamente um problema grave, mas não são sequer toda a história. Um dos seus efeitos é que podem em si mesmos ampliar o problema em si. Secas podem fazer desaparecer reservas de água como lagos que ajudam a um arrefecimento localizado e suportam vegetação. O aumento de temperaturas diminui a cobertura de gelo em glaciares que ajuda a reflectir luz do sol e reduzir temperaturas. Tempestades costeiras podem ajudar a erodir as próprias costas e a fazer desaparecer protecções naturais contra o mar.

Pegando neste último aspecto, há ainda que notar que aparentes pequenas variações em certos parâmetros (como uma subida de cerca de 20 cm do nível do mar desde 1880) podem ter consequências muito piores do que pensamos. A Natureza, não costuma funcionar de forma gradual, antes tende a absorver mudanças até atingir a sua capacidade máxima de o fazer e depois reagindo de forma mais intensa. Isso significa que um aumento do nível do mar de 20 cm pode parecer pouco, mas dado declive muito gradual de muitas zonas costeiras (como praias), a perda de terreno pode ser muito mais grave. A regra geral é dizer que cada 1 cm que o nível do mar sobe causa a perda de 1 m de praia (com variações acima ou abaixo destes valores, dependendo da situação). A perda de 20 cm significa então a perda de 20 m de praia. Se isto parece pouco, consideremos outros aspectos: a perda de praia também aumenta a erosão e a intrusão de água salgada no subsolo; torna o terreno sobre o qual erguemos as nossas construções menos firme e assim arriscamos maiores danos estruturais entre outros riscos. Pior ainda são as variações. O nível da água do mar não é constante, como qualquer pessoa que vê marés sabe. É antes uma medida média, como a da temperatura. As marés mudam o nível e as estações do ano também. Quando existem tempestades, o nível da água pode ser vários metros mais elevado, o que é amplificado ainda mais quando existe uma subida da água do mar pré-existente.

Neste caso temos então na nossa analogia uma dependência entre as árvores (episódios isolados) e a floresta (a multiplicidade de tais incidentes) no sentido que embora não possamos identificar Alterações Climáticas através de episódios localizados no tempo e no espaço, podemos com enorme margem de segurança apontar para um aumento destes episódios como indicativos das AC. Ainda mais, tais episódios têm o potencial de amplificar as tendências globais, seja de forma directa, seja de forma mais indirecta, para não falar nos efeitos cumulativos de tais episódios no planeta.

A direcção a tomar
É neste momento que os leitores esperarão o meu comentário sobre energias renováveis, racionalização do uso de energia (vulgo: melhorar a poupança da mesma) ou até mesmo uma diatribe contra um mundo moderno que dá prioridade a desenvolvimentos económicos predadores do sistema global em que vivemos. Nenhum destes pontos estará errado e longe da minha mente. No entanto tenho uma visão diferente e mais fatalista: penso que nada funcionará e que estamos a caminho da catástrofe climática e que não vamos conseguir evitá-la de forma nenhuma.

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Comparação dos custos de energia por tipo e por região para 2020 (fonte aqui).

Antes de mais uns pontos sobre o que fazer para mitigar esta situação ou, se possível, revertê-la. As tecnologias para geração de energia existem. As energias fotovoltaica e eólica estão hoje bem estabelecidas e perfeitamente competitivas, com um custo por MWh consistentemente competitivas com, ou abaixo dos, de combustíveis fósseis, mesmo sem contribuições de subsídios ou benefícios fiscais. À medida que se vai aumentando a capacidade instalada, estes custos continuarão a cair, assim como com a melhoria da tecnologia disponível (incluindo a reciclagem dos materiais para produção de moinhos e painéis). A estas tecnologias acrescem outras como a geotérmica, o biogás, a hídrica ou o nuclear. Não sou um adepto da energia nuclear, mas vejo o risco para o clima como sendo várias ordens de magnitude superior ao risco da energia nuclear, desde que devidamente gerida e actualizada de um ponto de vista tecnológico. Energia das marés está no entanto ainda a vários anos de distância e o mesmo se pode dizer, mas de forma ainda mais certeira, sobre a fusão nuclear. Note-se que o uso de combustíveis fósseis é inevitável no curto (e talvez também médio) prazo, dado que demorará ainda algum tempo até que se consiga instalar suficiente capacidade de geração de energia a partir de fontes renováveis para substituir as actuais centrais.

Outras medidas necessárias estão no campo da racionalização do uso de energias. São as medidas que, a nível privado e doméstico, passam por coisas como isolamento térmico ou uso de bombas de calor em casa. Também na indústria há muitas medidas que se podem tomar e que existem há já muito e só não são tomadas de forma mais diversificada porque exigem investimentos. Estes passam pela recuperação de recursos na produção, uso de tecnologias alternativas ou melhoramentos dos equipamentos e processos para reduzir o uso de energia. Em alguns casos até podem passar por questões logísticas onde produtos são transportados para a frente e para trás por questões logísticas (um exemplo real que conheço: uma bebida que é produzida numa fábrica, transportada em tanques para outra onde se enchem as latas e transportada de volta à primeira para as latas serem colocadas nos packs de 6 ou 12 para venda).

Teríamos outras opções ainda que passam por questões como o uso de fontes de energia alternativas para o transporte (baterias, e-combustíveis, hidrogénio, etc) ou mudanças nos hábitos pessoais (diminuição de consumo de carne, uso de transportes públicos ou bicicletas, redução no consumo de outros produtos como roupas). Até mesmo aceitar que os nossos efluentes, após tratados, sejam reutilizados e recolocados na nossa rede de distribuição de água seria importante para reduzir o desperdício de recursos. Estes aspectos exigem em grande parte uma mudança de mentalidade que não se consegue de forma fácil e exigiriam medidas pouco populares para serem alcançadas (proibições não fariam sentido, mas medidas populares como impostos também não seriam fáceis de implementar).

Há ainda opções como tentar reverter a presente situação, como com a descarbonização da atmosfera, seja de forma natural através de mais áreas verdes que absorvam o CO2; através de medidas tecnológicas para remover o CO2 e depois o usar (em químicos ou e-combustíveis) ou sequestrar; ou até mesmo através de geoengenharia como as ideias para arrefecer o planeta usando alguma forma de redução da exposição solar ou promoção de crescimento de fitopláncton nos nossos oceanos. É muito possível que uma combinação destas e outras soluções venham a ser necessárias para ajudar a reduzir a temperatura - ou no mínimo limitar o seu aumento - mas estamos longe de as conseguir, seja por motivos económicos, práticos ou devido à incerteza das mesmas.

Ao mesmo tempo vemos que o mundo continua a consumir cada vez mais energia e continua a ser mais fácil para a maioria das empresas e países reverter para as tecnologias mais antigas como carvão ou gás do que optar por soluções renováveis. Em parte isto deve-se a conservadorismo de empresas e engenheiros, mas igualmente devido à pressão exercida por grupo de interesse na indústria fóssil para manter o status quo da forma mais longa possível. Onde as indústrias renováveis não têm ainda a mesma eficiência é no lobbying, onde as indústrias de combustíveis fósseis levam um século de avanço e sabem como manipular os políticos e os eleitorados, inclusivamente criando imagens "verdes" das suas próprias indústrias para disfarçar as sua políticas reais e falam em opções tecnológicas que, parecendo apoiar uma descarbonização da economia, na realidade perpetuam a mesma (basta olhar para o conceito do "hidrogénio azul").

O futuro
Sei que isto soa fatalista quando olhamos para tantos avanços nas últimas duas décadas, mas a realidade é que não avançamos depressa o suficiente. Penso que iremos viver num mundo cada vez mais quente e onde o aumento de temperatura irá acelerar constantemente. Isto porque os modelos climáticos que vemos e que referem consenso são conservadores. Para que se entenda: um consenso de 1,0-2,5 ºC, por exemplo, não corresponde a uma maioria de opinião ou sequer a um aceitar de toda a gente que esses valores são os mais prováveis. Um exemplo com 3 cientistas diferentes seria dos seguintes intervalos: 1,0-3,0 ºC; 3,0-5,0 ºC; 1,5-2,5 ºC. Aquilo com que o três cientistas concordariam é que o planeta aqueceria no mínimo 1,0 ºC e pelo menos poderia chegar aos 2,5 ºC. Mesmo o que previria o intervalo entre 3 e 5 ºCaceitaria um mínimo destes valores. O consenso acabaria assim por ser o valor menor.

Por isso creio que os aumentos serão maiores. A cada dia se descobrem novos dados que apontam para um reforçar do ciclos de feedback no clima, onde consequências do aumento das temperaturas amplificarão esse efeito (descrevi alguns acima). Os modelos também são por força conservadores por não poderem integrar todos os dados possíveis, em grande parte devido à complexidade dos modelos matemáticos e em parte devido à capacidade de computação disponível. À medida que os modelos melhoram e os computadores aumentam a sua capacidade de processo, vamos vendo novos dados, a maioria dos quais tendem a rever os aumentos de temperatura para cima. Uma vez que ainda mal estamos no início do processo de descarbonização da economia, que há pouca vontade política para forçar estados, empresas e público e tomar as medidas necessárias e que as empresas do status quo continuam a beneficiar de apoios e a poder influenciar a narrativa, tudo isto me faz pensar que o futuro não é verde. É muito escuro.

As consequências serão enormes. A agricultura será provavelmente a mais clara vítima à medida que certas regiões que alimentam grande parte do planeta deixem de o conseguir fazer devido às alterações climáticas. A tecnologia ajudará, mas mesmo esta contribuirá para a libertação de CO2 e acredito que não avance depressa o suficiente para compensar uma aceleração do deteriorar das condições. Depois teremos os deslocados do clima, pessoas que fugirão das águas que subirão, de terrenos que não suportem as suas construções, de economias que cairão ou chegarão mesmo a colapsar por não serem possíveis com as mudanças climáticas. Também teremos muitos que irão simplesmente ansiar por um clima mais ameno e onde não haja risco de vida por saírem de casa para ir buscar a pouca água disponível à única fonte da região. Ainda veremos as migrações de fauna e flora, que levarão doenças a zonas onde elas não existiam e reduzirão a presença de animais e plantas que sempre fizeram parte da região. Tudo isto aumentará a tensão entre regiões e países, que lutarão por acesso a recursos e para evitarem serem invadidos por refugiados climáticos ou sequer para manterem as suas posições priveligiadas.

Note-se, isto não acontecerá amanhã ou no próximo ano, antes ao longo de décadas. Creio que nasci numa das últimas décadas de acalmia climática que as novas gerações irão sofrer muito. É uma visão pessimista e não sei como explicar o quanto desejo estar errado. Mas sinto não o estar.

 

PS - este texto foi escrito durante um relativamente longo período de tempo. Por isso o estilo pode mudar ao longo do mesmo, devido à diferente perspectiva de como o escrever que terei tido em diferentes dias. Peço a vossa tolerância para tais falhas.

Colónia e o Carnaval

João André, 18.02.23

(E-Mail a uma velha amiga escrita de rajada na noite de quinta-feira passada)

Cheguei hoje de Colónia. Fui ontem, para uma feira e conferência. Colónia no Carnaval é algo louca. É uma cidade em si estranha, tem um sabor das velhas cidades portuárias, com bêbados, prostitutas e prostitutos e emigrantes e cheia de humanidade, no sentido de seres humanos, com todas as virtudes e defeitos que daí chegam. No Carnaval fica engalanada. Verdade, não cheguei na semana do Carnaval, mas na Alemanha e especialmente na Renânia do Norte Westfalia o Carnaval começa na quinta feira e prolonga-se enquanto há cerveja o que em Colónia, na terra da Kölsch, é mesmo muito tempo. Fiquei num Hotel da cadeia Accor e isso notava-se na generalidade, mas mesmo em tais sítios franchisados se notava a influência da cidade, na venda de senhas para a bebida, no stand a vender entrada para as festas da cidade, na mesinha de onde se ia vendendo a cerveja na festa dessa noite - ontem, quarta feira - no bar do hotel e que por uma noite se transformou de aguadeiro de hotel de viajante profissional para se transformar em festa do bar de direito ou das matemáticas, que até a mesa fazia lembrar as nossas dos convívios. As pessoas passavam vestidas, algumas mascaradas de alguma coisa, bombeiros, polícias, soldados, putas, enfermeiras, sei lá o quê, outras pessoas apenas punham uns fatos coloridos com as cores da festa, com uns galões a indicarem serem algum príncipe da festa local ou do grupo específico a que perte cem, com uns chapéus a fazerem lembrar aquelas boinas de sargento da GNR em pequeno ou aqueles chapéus que se faziam dobrando uma folha de papel e que noutras circunstâncias serviam de barco de papel mas sem a outra parte no centro. Estas pessoas também gostam de se adornar com penas coloridas, azuis, amarelo, vermelhas. E outras pessoas ainda não se mascaram de nada, apenas pegam nas roupas mais coloridas que tenham e que não combinem e vai tudo junto, talvez com o colete de visibilidade do carro para compor o conjunto e umas coisas pintadas nas bochechas. Tudo anda pela rua e a sensação é a de irem sempre a caminho de alguma festa, de algum ajuntamento. Fora a cor parecem ir simplesmente juntas, sem grande barulho, sem grande agitação. Não há cervejas ou outras bebidas nas mãos, curiosamente, mas o cheiro a charro é muito óbvio, provavelmente comprado uns dias antes em viagem específica à Holanda para os ir buscar e esperar escapar ao controlo da polícia alemã na fronteira que não gosta desta importação, mas só esta, que de fruta ou vegetais já não se importam. Ontem à noite fui jantar a um daqueles restaurantes feitos a partir de uma cervejaria local. Comida típica destes sítios, com as carnes, as salsichas, as couves, em sauerkraut ou couve roxa, mais as batatas em forma de fritada com cebola e muito molho em cima de tudo, mais umas saladas assim assim e mal escorridas com a água a passar para o resto do prato. Sentaram-me numa mesa para 8 inicialmente ao lado de um casal que ainda não o era, ou seja, um homem e uma mulher nos seus vinte e muitos, claramente a tentar descobrir o que o outro poderia ser, com as discussões sobre aquilo que gostam ou não na comida e com a trapalhice na voz, palavras e gestos que vem de quem ainda não sabe bem como se comportar, especialmente ele. Quase lhe disse com ternura que ela estava para já interessada nele e que escusava de meter os pés pelas mãos mas provavelmente só lhe fazia pior e além disso faz parte da dança, sem vermos as figuras de urso dos outros como saberemos aquilo que queremos neles, como saberá ela o que tem que fazer para o melhorar, para o fazer crescer. Os homens sem as mulheres não crescem, somos crianças eternas, mesmo com elas somos crianças, cheias de importância e de sentido de valor, que os atribuímos nos mesmos uns aos outros, claro está, mas continuamos e continuaremos a ser crianças, mesmo quando aprendemos a ser mulheres (sim, mulheres). Mas claro está que não disse nada, só me ri para dentro e apreciei o espectáculo ouvindo de soslaio e desejando-lhes um bom jantar e uma boa noite quando acabei - muito depressa porque estava com sono e queria ir-me deitar - e saí para voltar ao hotel. O caminho entre o hotel e o restaurante reflectia também o carácter da cidade, de Colónia, Köln, com ruas escuras, meio sujas e pouco recomendáveis, onde salões de beleza, bares e restaurantes obviamente de escalão elevado, conviviam lado a lado ou uns metros adiante de salões de massagens tailandeses, salões de tatuagem e sex shops gay com anúncios de sexo e filmes.

 Todo um microcosmos numa caminhada que não durou mais que 10 minutos para cada lado. Hoje de manhã a sala de pequeno almoço estava mais ou menos normal, excepto os mascarados a beber cerveja nas travessas com buracos para fazer caber os copos que iam bebendo e recolocando depois de vazios. Na cervejaria restaurante era o mesmo. O empregado ia trazendo a cerveja, não havia pergunta sobre qual, era sim cerveja ou não cerveja e se sim ele ia adicionando marcas no encosto para saber quantas tínhamos bebido, havias de gostar. No hotel depois quando fui sair e entregar a chave lá estavam as mesmas pessoas do dia anterior, mas desta vez mascaradas. A miúda que me atendeu estava mascarada de pirata e ficava engraçada com o estilo que tinha. Não cabia naquele cenário de hotel de cadeia, mas para isso também não cabia a instalação para a festa dessa noite e onde já ia bombando a música de carnaval de algum palco onde tinha já começado a celebração e de onde iam fazendo transmissão ao vivo e que eles tinham nos ecrãs do bar do hotel juntamente com a música. Na feira havia também alguns sinais, nalguns stands de empresas alemãs algumas pessoas tinham cedido à tentação de levar uns adereços, nada de extremo que somos alemães e isto é um ambiente profissional e mais logo sim posso ir emborcar-me à grande mas agora não posso exagerar, o que para mim tudo bem, não gosto de Carnaval. Mas era engraçado ver. No final do dia voltei. A estação cheia de mascarados, algumas grades de cerveja já se viam e o comboio já tinha música de festa em alguns lados. Aachen também festeja em grande por isso havia quem se preparar-se para festa por lá mas vamos ser sinceros, ir de Colónia para Aachen para o Carnaval era o mesmo que ir de Roma para Pisa na semana santa.

Agora estou aqui, prestes a ir dormir e quis partilhar contigo. E só me vem um pensamento: estou velho.

Natal e Fim de Ano

João André, 23.12.22

Desde que era pequeno que tenho festejado de uma forma ou outra o Natal. Tinha até uma certa sorte de ter duas noites de Natal, dado que o meu avô paterno era sacristão e, como tinha que estar de serviço à missa a 24, só reuníamos a família paterna na noite de 25. Duas noites de Natal consecutivas e, tendo eu o meu aniversário em Dezembro, até tinha direito a receber múltiplas prendas porque toda a gente se lembrava "ah pois, o Joãozinho fez anos há pouco tempo".

Devo notar no entanto que nunca foram noites de Natal muito religiosas. Lá havia a referência a prendas "do menino Jesus", coisa que me deixava confuso com a logística dele e do Pai Natal em entregar as prendas - lá me convenci que o Pai Natal deixava Portugal para o Menino Jesus e que dividiam territórios - mas fora a história de o meu avô ser sacristão, não tínhamos grande presença da religião. Era uma festa de família. Com os anos isso não mudou. Cresci não crente (que é uma maneira mais simpática de dizer ateu até à medula num blogue povoado de bons cristãos cuja Fé não quero incomodar) e como tal a religião sempre foi como a água num submarino: está ali em todo o lado mas não entra. É o ambiente em que me movo neste período - não nego a religiosidade do Natal, como é óbvio - mas deixa-me indiferente. Adiante, isto não era para falar de religião especificamente. Esclarecimento feito.

Hoje, numa Holanda que dá relativamente pouca importância ao Natal no sentido que nós o damos, numa família internacional onde a minha cara metade não liga ao dia 25, e com os preços dos bilhetes de aviões a tornarem uma viagem a Portugal um custo ridículo para 7 ou 8 dias passados essencialmente em casa, acabei por ir ligando pouco. Temos as prendas, a árvore, amanhã haverá Bacalhau e os telefonemas à família e... já está. Aproveitarei o dia 26 ser feriado por cá, tirarei o resto da semana porque também preciso de descansar e estará feito o período festivo. Penso que esta falta de espírito natalício advém também de não ver televisão (as transmissões, que temos o aparelho) e não ser inundado pelos votos de Boas Festas! a cada 5 minutos. Nas ruas ao redor não há decorações festivas, as lojas não fazem grande esforço (as prendas foram no período do Sinterklaas - São Nicolau - a 5-6 de Dezembro) e a atmosfera não existe.

O fim do ano torna-se assim apenas isso, um final de ano. Um momento para balanços do ano, de pensar no que foi e vai ser, de enviar os votos de boas festas a amigos e colegas e de desejar que este mundo louco melhore.

Então, e respeitando esta lógica, deixo aqui os meus desejos de um Santo Natal a quem o festeje de forma religiosa, bom período festivo a outros que festejem o Natal, feliz Hanukkah (tenho dois amigos que o festejam e como tal lembro-me dele) a quem o celebre e votos que para o ano de 2023 as coisas não piorem - já seria um passo em frente em relação aos últimos anos. Gostaria de ser mais festivo, mas talvez me falte o espírito ou talvez eu seja simplesmente um pessimista. Seja como for, bom Natal, bom Ano Novo e muita saúde para vós e vossos, co-autores e leitores.

Cem Prémios Nobel justamente atribuídos (65)

João André, 21.11.22

1982, Prémio Nobel da Literatura

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Gabriel García Márquez, «pelos seus romances e contos, nos quais o fantástico e a realidade são combinados num rico mundo compósito e imagnário, reflectindo a vida e conflitos e um continente».  

Foi um dos grandes autores da minha vida, daqueles que me agarraram do início e nunca me largaram. Cen Anos de Solidão continua a ser o meu livro preferido dele, embora O Outono do Patriarca ou O Amor nos Tempos de Cólera sejam talvez obras superiores. Ainda hoje regresso a ele a espaços e não é por acaso que foi nele que fui encontrar a minha inspiração para esta série de posts (a que tenho de voltar um dia). 

Cem Prémios Nobel justamente atribuídos (63)

João André, 20.11.22

1956, Prémio Nobel da Física

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John Bardeen, Walter House Brattain, William Bradford Shockley, «pelas suas investigações sobre semicondutores e a sua descoberta do efeito do transístor».

Simplesmente: sem este trabalho, não poderíamos ter este post.

Bardeen tem ainda a distinção de ser a única pessoa a ganhar o Prémio Nobel da Física duas vezes. A primeira foi esta, a segunda em 1972 pelo seus trabalhos no campo de superconductividade.

Cem Prémios Nobel justamente atribuídos (62)

João André, 19.11.22

2003, Prémio Nobel da Química

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Peter Agre, Roderick MacKinnon, «por descobertas acerca de canais nas membranas de células». No caso de Agre, explicitou-se a sua «descoberta dos canais de água» e no caso de MacKinnon, os «estudos estruturais e mecanísticos dos canais de iões».

Este prémio teve um significado especial para mim, por ter sido atribuído na altura em que iniciei o meu doutoramento em tecnologia de membranas. O trabalho de Agre e MacKinnon permitiu a descoberta das Aquaporinas, proteínas que controlam a passagem de água e iões pela parede das membranas. Estas proteínas foram, depois de isoladas, incorporadas frequentemente em membranas sintéticas para melhorar o seu desempenho e aumentar o rendimento das mesmas. Há mesmo uma empresa dinamarquesa, precisamente com o nome de Aquaporin, que incorporou estas proteínas nas suas membranas para as utilizar em processos de purificação de água.

Cem Prémios Nobel justamente atribuídos (61)

João André, 19.11.22

1954, Prémio Nobel da Física

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Max Born, «pela sua investigação fundamental em mecânica quântica, especialmente pela sua interpretação estatística da função de onda».
Walther Bothe, «pelo método de coincidência e as suas descobertas feitas com ele».

O trabalho de Born a descrever matematicamente o campo emergente da Física a nível quântico foi de suprema importância. Por curiosidade, foi a Born que Einstein terá dito pela primeira vez, por carta, que "Deus não joga aos dados". A frase mais correcta seria traduzida de forma mais completa na correspondência como «Mecânica Quântica é deveras imponente. No entanto algo me diz que não é a completa verdade. A teoria oferece muito, mas não nos aproxima dos segredos d'"O Antigo".  De qualquer forma, estou convencido que Ele não joga aos dados».

O método de coincidência não deve ser entendido como "coincidência" em termos coloquiais, como algo que acontece por acaso ao mesmo tempo. Na física e no trabalho de Bothe, a coincidência deve ser lida como "co-incidência", significando duas coisas que acontecem ao mesmo tempo - ou no caso de partículas, são co-incidentes no mesmo detector - o que significa que não existe coincidência em termos coloquiais, ou seja, algo acontece por ser resultado da mesma acção. Não vou explicar a Física subjacente porque está algo para lá da minha capacidade de o fazer, mas foi de fundamental importância para o estudo de Física de Partículas.

Um último momento de deslumbre

João André, 18.11.22

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Na carreira de Cristiano Ronaldo houve um momento que me deslumbrou completamente, daqueles que me deixou encantado. Foi no jogo do play-off de qualificação para o mundial do Brasil, na segunda mão, na Suécia. Foi em parte um jogo publicitado como Ronaldo contra Ibrahimović mas que acabou demonstrando que embora o sueco fosse de facto excepcional, Ronaldo estava a outro nível.

Talvez seja estranho lembrar um jogo já tão antigo (amanhã faz 9 anos) e para um Mundial onde Portugal não se cobriu de glória, mas foi a memória mais indelével que tenho de Ronaldo como jogador e especialmente ao serviço da selecção. Sei que podemos lembrar outros jogos excepcionais, onde Ronaldo foi o ataque da selecção portuguesa, ou aqueles onde os seus esforços arrancaram vitórias ou empates mesmo no fim ou cujos esforços mantiveram a selecção portuguesa num jogo, mesmo quando ele próprio não marcou. Poderíamos falar nos 3 golos à Espanha no último mundial, no salto estratosférico para marcar de cabeça ao serviço do Manchester United contra a Roma, na energia, no desejo e na intensidade que transmitiu (às vezes) sentado no banco durante a final do Euro 2016, no pontapé de bicicleta ao serviço do real Madrid contra a Juventus e que levantou as bancadas.

Todos esses momentos e muitos outros são memoráveis e emblemáticos de Ronaldo, mas eram momentos que Ronaldo parecia estar sempre a postos de oferecer, de mostrar como podia mudar um jogo, deslumbrar espectadores, companheiros de equipa e até adversários. Momentos que nunca imaginámos estarem fora do alcance dele. Só que, por alguma razão, eu nunca senti em momento nenhum de Ronaldo que ele seria inevitável, que fosse o que fosse que sucedesse em campo, ele acabaria por marcar ou fazer outra coisa qualquer que garantisse uma vitória. Excepto nessa noite de Novembro de 2013 na Suécia.

Portugal tinha chegado a esse jogo com uma vantagem de 1-0 do jogo em Lisboa e ampliou-a no início da segunda parte. Só que Ibrahimović acordou, marcou dois golos e deu a sensação que poderia mudar o jogo. Por apenas um segundo. Porque havia algo em Ronaldo naquela noite que o fazia intocável. Não era aquele seu gesto de "calma, eu estou aqui". Era uma leveza nos movimentos, na corrida, uma determinação que não parecia pesar-lhe, como se já soubesse qual seria o resultado. Não vinha da sua inacreditável determinação mas de outra fonte que ele nem sempre demonstrou: serenidade. A partir do momento em que Ronaldo arrancou para o seu segundo golo da noite e para o 2-2 que na prática já deixaria a eliminatória entregue, eu soube que não haveria problemas. Poderia descer um exército de Klingons para o parar e ele acabaria por marcar. Foi um jogo algo transcendente que eu só tinha vivido como adepto uma única vez.

Lembro isso hoje quando olho para a forma como Ronaldo teve a sua carreira. Em tempos li um artigo que avançava a teoria de um psicólogo de Federer, Nadal e Djoković serem psicópatas (mas de uma boa forma). Sem entrar em detalhes técnicos que não domino, o essencial é que esses 3 grandes do ténis teriam uma obsessão tão grande de vencer que não tinham problemas em destruir quem lhes aparecesse pela frente e que tal obsessão continuava bem viva ao fim de quase 20 anos. Penso que Ronaldo é semelhante. O desporto é colectivo e não individual, mas a obsessão de Ronaldo é individual e arde da mesma forma hoje quanto ardia quando há pouco mais de 20 anos marcou o seu primeiro golo sénior pelo Sporting. Será talvez esse o aspecto que o aproximou tanto a Alex Ferguson, outro obsessivo pela vitória.

A dificuldade que tal obsessão acarreta é no entanto a compreensão dos limites. Seja da idade (Federer) limites do próprio corpo (Nadal) ou da sua influência em aspectos não desportivos (Djoković). Costuma-se dizer, quando vemos atletas a prolongar a carreira, que "a idade é só um número. A alternativa é a expressão "o Pai Tempo é imbatido". Como em tudo, a entropia vence e há um momento em que o número passa mesmo a ser idade. A dificuldade para certos atletas é compreendê-lo e, para atletas excepcionais e que sempre dependeram tanto de um corpo afinado até ao mais ínfimo detalhe e de um desejo obsessivo de ser o melhor, tal facto torna-se impossível de aceitar. Creio ser isso o que vemos hoje com Ronaldo.

Não vou discutir os méritos do Ronaldo de hoje nem se de facto ainda é o melhor ou um dos melhores do mundo. Deixo-me pela simples observação: o Ronaldo de hoje já não é o Ronaldo de há 15 anos, nem de há 10 ou 5 anos e direi que nem sequer o de há um ano. Ronaldo vai ficando mais lento e vai conservando a sua energia cada vez mais, o que reduz a sua contribuição para um jogo cada vez mais focado em pressão alta e contribuição constante. Não é justo, mas é um facto. Não é o único. A isto poderão acrescer outros aspectos privados sobre os quais não especularei, mas realço apenas um: a perda de um filho durante o parto, algo que pode deitar abaixo qualquer ser humano. Não vou imaginar como Ronaldo se sentiu, mas é difícil não imaginar que tal situação não o tenha afectado também a nível profissional.

Temos então a partir de domingo o início de um mundial que nunca deveria ter sido atribuído ao Qatar mas que seja como for vai ter lugar. Será quase de certeza o último da carreira de Ronaldo. Penso que ele possivelmente já não deveria jogar de início e deveria guardar a sua energia para atormentar defesas adversárias já cansadas na segunda parte (especialmente no calor do Médio Oriente) e ir motivando os seus companheiros de equipa, mas eu não sou seleccionador nem sequer jogador. Sou apenas adepto. E como adepto, espero apenas que Ronaldo, no seu declínio, possa ainda oferecer uma repetição dessa noite sueca de há 9 anos e me deslumbre. Possivelmente uma tal exibição não seria o suficiente para trazer um troféu, mas é talvez o meu maior desejo para esse mundial: um jogo em que Ronaldo é intocável. Já me bastaria.

 

PS - este texto foi sendo escrito ao longo de várias semanas, com mudanças e correcções. Não quis incorporar quaisquer referências à entrevista de Ronaldo que foi transmitida nos últimos dois dias. Deixo apenas um desejo para o seu futuro pós-mundial: que regresse ao seu Sporting para fechar o ciclo, nem que seja por uma época antes de ir ganhar milhões para os EUA. Faço este desejo também como benfiquista.

Cem Prémios Nobel justamente atribuídos (58)

João André, 13.11.22

1978, Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina

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Werner Arber, Daniel Nathans e Hamilton O. Smith, «pela descoberta de enzimas de restrição e a sua aplicação nos problemas de genética molecular».

Este trabalho permitiu o desenvolvimento de técnicas (ADN recombinante) que hoje permitem manipulação de ADN para induzir a produção de compostos que um determinado organismo não produziria. Um exemplo disto é a produção de insulina, que antes era obtida a partir de animais (como porcos) e hoje é produzida usando bactérias modificadas para produzir insulina humana.

Outros tipos de uso estão no diagnóstico e análise de laboratório e até mesmo na modificação de organismos mais complexos como animais modificados geneticamente. Apesar destes usos mais estranhos e aberrantes (p.e. peixes fluorescentes), a tecnologia melhorou muito a nossa sociedade e a qualidade de vida de muitas pessoas.

Cem Prémios Nobel justamente atribuídos (57)

João André, 13.11.22

1997, Prémio Nobel da Química

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Paul D. Boyer e John E. Walker, «pela sua elucidação do mecanismo enzimático referente à síntese de adenosina trifosfato (ATP)».
Jens Christian Skou, «pela primeira descoberta de uma enzima transportadora de iões, a Na+, K+ -ATPase».

Creio que devo uma clarificação pelo salto de 34 anos entre o último Prémio Nobel da Química que escolhi e este. Estas escolhas reflectem dois factores:
1) a Química entrou numa era muito mais específica e que requer um entendimento mais profundo não só da disciplina como das subdisciplinas e especialidades que aquele que eu possuo. Isso leva-me a não ser capaz de distinguir suficientemente bem a importância de muitos dos trabalhos distinguidos;
2) muito do trabalho distinguido foi-o por refinamentos em trabalhos mais gerais e mais fundamentais (no sentido de "ciência fundamental", como em "fundações de uma casa") e como tal receberá menos atenção. Há também mais tentação de dar atenção aos grandes pioneiros do passado em detrimento dos grandes cientistas da actualidade. Estas minhas escolhas reflectem também essa tendência, à qual não sou imune.

Haveria outros trabalhos que poderiam estar aqui. Apenas dois anos antes foi distinguido o trabalho que explicou a decomposição da camada de ozono, uma das descobertas com maior impacto no nosso mundo nos últimos anos. Porque não o ressalvei aqui? Talvez para evitar discussões políticas. Preferi antes apontar para descobertas que entram em campos onde existe muito do trabalho em Química que tem sido laureado: a bioquímica.

Neste caso, a importância de compreender os mecanismos ligados às moléculas de ATP e à sua importância para as células de seres vivos. O trabalho de Skou é, para mim, ainda de maior importância, por identificar a forma como as nossas células controlam a entrada e saída de iões.

Cem Prémios Nobel justamente atribuídos (56)

João André, 12.11.22

1952, Prémio Nobel da Física

 

Felix Bloch e Edward Mills Purcell, «pelo desenvolvimento de novos métodos de medição precisa de magnetismo nuclear e descobertas em relação a estas».

O trabalho abriu caminho à Ressonância Magnética como a conhecemos hoje e ao seu uso no diagnóstico médico. A tecnologia tem imensos outros usos, desde ser fundamental para a análise de substâncias, determinar a qualidade de produtos e processos numa variedade de indústrias, servir como um dos instrumentos de análise do subsolo e muitas outras aplicações que mal compreendo.

Felix Bloch foi mais um dos muitos cientistas que abandonaram o seu país natal (no seu caso a Suíça) devido a serem judeus ou terem raízes judias e encontrou o seu refúgio pessoal e profissional nos EUA.