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Apos um momento #metoo (final)

por João André, em 15.10.18

Há pouco mais de uma semana decidi colocar uma série de posts com o título "Após um momento "metoo". Continham apenas uma frase com que as acusações/declarações de mulheres são frequentemente confrontadas. Não enquadrei, justifiquei, não me coloquei de qualquer dos lados. Deixei apenas a frase.

 

Houve quem tenha notado isso. Notaram também que deixei os comentários abertos, algo que nunca faço. Eliminei apenas um por grosseria*. De resto fui deixando e nem sequer intervi nas conversas. Não era minha intenção ser foco de nada, antes deixar a discussão avançar. Também não reflectirei sobre os comentários (no momento em que escrevo são 159 no total, média de quase 20 por post). Estão lá para qualquer pessoa ler e não vou pronunciar-me sobre eles. Cada um que tire as suas ilações sem comentários da minha parte.

 

Não é obviamente acidente que esta sequência tenha surgido após o caso Mayorga-Ronaldo, embora as declarações acima tenham surgido apenas da minha memória e não tenham sido levantadas de qualquer texto de opinião ou comentário específico. Podiam ter sido após as declarações contra Aziz Ansari ou Harvey Weinstein. Podiam ter sido após declarações de Jimmy Bennet contra Asia Argento, apenas se mudando o sexo das pessoas.

 

A razão de eu ter iniciado esta lista foi para ressalvar o tratamento a que as mulheres que acusam homens (mais ainda que homens que acusam, seja outros homens ou mulheres) são sujeitas. Uma acusação não é obviamente equivalente a uma condenação nem o pode ser. Uma mulher que tenha a coragem de fazer tal acusação não merece automaticamente ser considerada acima de suspeita. No caso de Kathryn Mayorga, só ela e Ronaldo estiveram naquele quarto naquele momento. Só eles poderão saber o que se passou. Se o souberem: a memória prega partidas tramadas e ambos podem apresentar relatos distintos estando completamente certos do que dizem.

 

Cristiano Ronaldo, como qualquer outra pessoa, é inocente até ao momento em que um tribunal o declare culpado. Isto é do mais puro senso comum. A decência exige que o deixemos agora em paz, para preparar a sua defesa, judicial - perante a justiça, privada - perante os seus entes queridos, e pública - se assim o entender. Não merece que devassemos agora a sua vida e não merece que os media vão agora em busca de "provas" de inocência ou culpabilidade. Ronaldo sempre defendeu ferozmente a sua vida privada - não a devassemos sem razão. Há uma acusação, os media publicaram essa informação factual e a história que a sustenta, além de terem ouvido o lado de Ronaldo, como lhes compete.

 

Ronaldo, como escrevi, é inocente até ser julgado culpado. Só que isso não implica que Mayorga é culpada (de difamação/extorsão...) até ser julgada inocente. Merece exactamente o mesmo respeito da parte do público e dos media que Ronaldo. Não merece que se acredite piamente na sua história (que tem buracos, como seria normal em qualquer história com 9 anos, ainda mais se envolver eventos traumáticos reais) nem que seja acusada de mentir. Ronaldo não sairá incólume desta história, é certo. Ela também não. Mesmo que ela acabe a receber algum milhão de dólares de Ronaldo, ficará sempre com rótulos colados à sua testa. Ele o mesmo.

 

Nestas histórias há sempre vítimas. A minha série de posts quis apenas lembrar que algumas vítimas sâo-no antes, durante e depois de um processo de acusação/denúncia. Lembremo-nos disso quando, do conforto das nossas cadeiras nos tornarmos cruzados do São Facebook.

 

Posts: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8.

 

* - actualização: apaguei também os comentários de luckylucky pelas razões que lhe expliquei no passado. Nos meus posts ele não comenta nem para dizer bom dia.

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Após um momento #metoo (8)

por João André, em 12.10.18

«Conveniente que ninguém mais tenha visto, não é?»

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Após um momento #metoo (7)

por João André, em 11.10.18

«Ela só quer publicidade!»

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Após um momento #metoo (6)

por João André, em 10.10.18

«Será que foi assim tão sério? Parece-me que está a exagerar.»

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Após um momento #metoo (5)

por João André, em 09.10.18

«Ela sabe o que está a fazer à reputação dele?»

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Após um momento #metoo (4)

por João André, em 08.10.18

«Porque é que não foi logo dizer nada à polícia?»

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Após um momento #metoo (3)

por João André, em 07.10.18

«Ela quer é o dinheiro!»

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Após um momento #metoo (2)

por João André, em 06.10.18

«Que tinhas vestido?»

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Censuras

por João André, em 05.10.18

Há um anónimo que, num post meu mais abaixo, perguntou «Quando é que o Delito de Escumalha vai parar de censurar comentários anti-fascistas?».

 

Não o aceitei e foi removido. Esclareço:

1. Sou de esquerda e detesto o fascismo ou outros totalitarismos.

2. Sou a favor da liberdade de expressão.

3. Sou a favor de trocas de ideias de forma honesta, france, e educada.

4. Não retiro a liberdade de expressão a ninguém.

5. Mesmo que eu quisesse, não conseguiria retirar a liberdade de expressão a ninguém: não tenho poderes para tal.

6. Vejo o Delito de Opinião é uma casa, com cada pessoa responsável pela sua divisão.

7. Na minha divisão imponho eu as regras. Quais? Ver acima.

8. Quem não respeitar as regras da minha divisão não se expressa nela.

9. Quem quiser expressar-se de uma forma que eu não aceito, pode sempre fazê-lo noutras caixas de comentários (se os responsáveis o aceitarem), no seu próprio blogue, no Facebook, Twitter, etc, nas caixas de comentários de jornais, em artigos de jornais, em anúncios de jornal, com partidos políticos, em cima de uma caixa no Speakers' Corner, etc, etc, etc.

 

No post em questão aceitei comentários com os quais discordo de forma veemente, mas não os censurei porque não eram ofensivos. Considero os fascistas (não é o mesmo que dizer "a direita") essencialmente um nojo, mas igualmente o considero os "anti-fascistas" que julgam poder atropelar todas as regras de decência de uma sociedade normal.

 

Espero que esteja claro.

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Após um momento #metoo (1)

por João André, em 05.10.18

«Ela não sabia ao que ia?»

 

Nota: a cada dia virá um...

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Química aplicada

por João André, em 03.10.18

Os prémios Nobel científicos estão atribuídos e aquele que me salta de imediato à vista é o da Química, atribuído a Frances Arnold, George Smith e Gregory Winter. O trabalho deles foi dedicado à evolução controlada (directed evolution) de enzimas no caso de Arnold, e de modificação genética de fagos (phages) no caso de Smith e Winter. Metade do prémio foi para Arnold, o que me parece da mais pura justiça quando se olha pra o enorme campo de aplicações que a tecnologia tem, embora a parte do trabalho de Smith e Winter, com aplicações na medicina, talvez acabe com mais atenção.

 

O trabalho de Arnold permitiu controlar a evolução de enzimas (proteínas especiais capazes de catalisar - isto é, acelerar, ou iniciar em condições adversas - reacções químicas) para gerar propriedades que de outra forma não seriam possíveis de encontrar. A forma como controlou a evolução foi com a introdução de mudanças genéticas aleatórias e posteriormente mantendo as enzimas cujas mutações genéticas levaram a propriedades úteis. Isto é comparável à analogia das slot machines onde é possível manter certas rodas em posições fixas (como quando se obtém cerejas, estas não mudam mais, até termos a sequência desejada).

 

No caso, o que Arnold fez foi, por exemplo, partir de uma enzima que pudesse catalizar uma reacção específica (de X com Y, por exemplo) e ir introduzindo mudanças interessantes. Podia então tornar a enzima estável em solventes orgânicos (as enzimas são habitualmente estáveis em água) e dando-lhe eficiência superior a temperaturas mais baixas. Assim seria possível eliminar o uso de catalisadores inorgânicos, frequentemente muito caros e ambientalmente adversos e catalizar a reacção a temperaturas mais baixas. A quantidade de aplicações desta tecnologia é infindável.

 

O trabalho de Smith e Winter teve duas partes. Os fagos são uma espécie de vírus para as bactérias, ou seja, invadem as bactérias e obrigam-nas a gastar os seus recursos a produzir cópias dos fagos, assim destruindo a bactéria e perpetuando o ciclo. O que Smith fez foi descobrir como mudar o material genético do fago para produzir determinadas proteínas à sua superfície. Isto permitiu usar os fagos para identificar qual a relação entre genes e proteínas cuja produção codificam (isto é, de certa forma descobriram quais eram os genes que tinham a "receita" para cada proteína). Isto é fundamental para a compreensão dos nossos "códigos genéticos".

 

Como estas proteínas são produzidas à superfície do fago, Winter levou-o um passo mais à frente e usou a tecnologia para produzir anticorpos específicos. Os anticorpos são como que detectores moleculares altamente específicos. Um anticorpo que encontre o seu "alvo" ligar-se-à ao mesmo e não o largará. Se os colocarmos na superfície de um corpo (seja uma célula, seja um nanotubo, por exemplo) o anticorpo capturará o seu alvo de forma controlada. São usados em cromatografia de afinidade para retirar componentes tóxicos específicos de líquidos (por exemplo na purificação de medicamentos na indústria farmacêutica).

 

O que Winter fez foi usar a tecnologia para colocar anticorpos específicos na superfície dos fagos para determinar quais os anticorpos que poderiam ser usados para fazer terapias específicas para tratar, por exemplo, doenças autoimunes ou cancros. Isto permitiu desenvolver medicamentos muito mais eficazes, porque muito mais específicos na forma como seleccionam os seus alvos. Na quimioterapia, o objectivo no passado foi o de introduzir venenos (é o que os medicamentos de quimioterapia são) para matar as células cancerosas esperando que estas morressem mais depressa que as saudáveis. É por isso que os pacientes sofrem imenso durante a terapia e é também por isso que algumas terapias não funcionam (o paciente aguenta menos o veneno que o cancro). A técnica de Winter permite reduzir o impacto ao tornar o veneno mais selectivo.

 

Há alturas em que o prémio Nobel da Química celebra descobertas fundamentais (no seu sentido mais... "fundamental"). As que hoje foram laureadas contemplam aplicações vastas e com enorme impacto no mundo. Como engenheiro químico, este é um prémio cuja atribuição facilmente subscrevo.

 

PS - quaisquer imprecisões ou erros na informação prestada acima são minha responsabilidade. Se detectarem imprecisões, ficarei agradecido caso mas indiquem para corrigir o texto.

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Bolsonaro e Trump

por João André, em 03.10.18

Leio em muitos lados a comparação entre Trump e Bolsonaro e fico incrédulo. Bolsonaro não é Trump. Trump é um populista, com tendências autoritárias e uma ténue compreensão de democracia. No entanto é o presidente de um país com créditos democratas bem fundados e que compreende que tem limites no seu poder (mesmo que não goste deles).

 

Bolsonaro é um fascista que apoia ditadores, louva torturadores, ameaça mulheres, gays e pessoas não brancas. Se for eleito (o que é improvável, embora as alternativas não sejam para sorrir) Bolsonaro ou será um presidente paralisado pela sua incapacidade de se mover em democracia (pelo que percebi, só conseguiu passar 2 leis em toda a sua carreira de mais de duas décadas no senado) ou optará pela força. Nenhuma das opções é agradável e são infinitamente piores que aquilo que acontece nos EUA.

 

Trump é mau, não tenho dúvida. Mas Bolsonaro seria um desastre.

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Tribunais, sensibilidades e política nos EUA

por João André, em 03.10.18

Na semana passada vivemos um caso que não é inédito mas que felizmente tem sido raro: um nomeado para o Supremo Tribunal dos Estados Unidos a defender-se de uma acusação de assédio sexual (mantenhamos este termo genérico, que não sei como classificar legalmente os casos Hill vs Thomas e Blasey Ford vs Kavanaugh). Nesta situação há que tomar duas medidas a priori:

 

1) existe presunção de inocência para Kavanaugh - não há qualquer prova (ou sequer evidência, fora testemunhos) que Kavanaugh tenha cometido qualquer crime.

2) respeito para a acusadora - até se ouvir a sua acusação e como ela feita, não podemos atacar o testemunho ou a alegada experiência.

 

Na falta de provas ou de uma investigação conclusiva por parte da polícia, o caso acaba por se reduzir a em quem acreditamos. Depois de ter visto os testemunhos de um e de outro, sei quem saiu mais credível (Blasey Ford), mas isso não significa que Kavanaugh tenha cometido os actos de que é acusado. A sua fúria nasce de uma frustração perfeitamente legítima em alguém inocente e que está a ser acusado sem ter nada feito para isso. Se Kavanaugh não cometeu os actos (penso que nunca o saberemos realmente) de que o acusa Blasey Ford, então é normalíssimo que fique furioso com a devassa da sua vida privada. É normal que se sinta impotente com as consequências a que está sujeito ele próprio do ponto de vista profissional (se não for eleito, a sua carreira legal estará em risco) e privado (a sua família estará a sofrer).

 

Por outro lado, Blasey Ford surgiu como perfeitamente credível. É muito difícil que Blasey Ford esteja a inventar o caso que descreveu com detalhe e de forma tão poderosa. É difícil acreditar que possa ser tão boa actriz (nos filmes os actores têm muitos takes para conseguir o tom desejado) ou que fosse capaz de criar detalhes tão convincentes. É no entanto possível que esteja equivocada com os responsáveis pelo acto - passaram muitos anos e um trauma cria lacunas na memória que o cérebro tenta colmatar com outros dados. Só que, se assim for, ela sofreu de facto esse ataque/assédio e sofreu também por isso. Ao longo de décadas.

 

E é por isso que escrevo. Não escrevo porque creia que Kavanaugh ou Blasey Ford sejam sinceros ou estejam a mentir, mas porque Kavanaugh não se estava a candidatar para um qualquer posto de trabalho nem a defender-se criminalmente. Por não estar perante um questionário da polícia nem num tribunal a responder a uma acusação de crime, a barra para o julgar deve ser mais baixa: não é precisa uma certeza absoluta de culpa para se ter uma opinião. Não é correcto, mas é a natureza humana e ainda mais a natureza da política. Ou seja: Kavanaugh não tem que demonstrar que é inocente (num tribunal é a acusação que tem que provar a sua culpa, não o contrário) mas tem que lutar pela sua imagem. Blasey Ford faz exactamente o mesmo.

 

A outra questão que referi é o facto de esta ser apenas mais uma entrevista para um emprego para a vida, no posto mais independente no sistema dos EUA. Isso significa que Kavanaugh deveria ter demonstrado algo mais que frustração e combatividade. Deveria ter demonstrado vontade de responder honestamente às perguntas que lhe foram colocadas (ficou longe disso) e deveria, no mínimo, ter demonstrado simpatia para com Blasey Ford, de quem disse «Não questiono que a Dr. Ford tenha sido atacada sexualmente por alguma pessoa nalgum momento. Mas eu nunca o fiz a ela nem a ninguém.» (tradução minha). Não o fez em momento nenhum e transformou a sua audiência num momento de "eu, eu eu" muito zangado e de ataques à esquerda e aos democratas.

 

Relembremos que Kavanaugh vai no futuro, se for confirmado no cargo, ter de ouvir e deliberar de forma objectiva (embora sempre parcial, de acordo com a sua visão e opinião) sobre casos que surjam de todo o lado. Poderá ter de deliberar sobre casos de sindicatos, de círculos eleitorais, de liberdades pessoais, de casos específicos de género. Perante o discurso que teve nas respostas (ou falta delas) às questões colocadas, Kavanaugh demonstrou ser completamente inadequado para o cargo para o qual foi nomeado. Kavanaugh surgiu como alguém sem a menor capacidade de ouvir opiniões ou questões de que não goste, com as quais não concorda e sem a mínima sensibilidade para com o sofrimento de uma pessoa (que admitiu ser possível).

 

Com tudo isto, parece-me óbvio que o caminho que os Republicanos deveriam trilhar é o de retirar a nomeação de Kavanaugh e escolher outro juíz. Poderiam escolher outro juíz igualmente conservador de entre os nomes mencionados no passado. A Five Thirty Eight publicou várias análises do posicionamento na escala liberal-conservador dos actuais juízes e dos potenciais nomeados no passado (aqui, aqui e aqui, por exemplo). Não faltam portanto opções de juízes igualmente conservadores que provavelmente passariam na nomeação sem excessivos problemas (ou polémicas). Há várias razões para os republicanos estarem a insistir em Kavanaugh:

1. Pensam que Kavanaugh é de facto o melhor candidato para a posição. É possível, mas perante uma larga lista de possíveis nomeados, é difícil acreditar que a bagagem que Kavanaugh traria agora não elimine as suas possíveis vantagens judiciais.

2. Têm receio que o atraso na nomeação de um novo juíz os penalize nas eleições intercalares. É possível que a base republicana considere a falta de um novo juíz uma fraqueza, mas seria igualmente fácil (e lógico, porque verdadeiro) vender tal situação como culpa dos democratas e retirar daí dividendos eleitorais.

3. Há receio que os Republicanos percam o Senado. É sempre possível que uma avalanche democrata capturasse as duas câmaras (neste momento parece haver boas probabilidades de isso acontecer na câmara baixa) mas improvável. Neste momento o mesmo Five Thirty Eight projecta uma probabilidade de 2 em 7 para os democratas o conseguirem. É sempre possível, mas improvável, porque há relativamente poucos lugares em disputa para o Senado nestas eleições.

4. Trump. O presidente americano não quer perder a batalha. Nomeou uma pessoa e sentiria como uma ofensa pessoal se tivesse que escolher outro candidato. Se Kavanaugh falhar nalgum momento (por exemplo, se se demonstrar que mentiu ao Senado), Trump não terá problemas em o descartar e humilhar (lidar com Trump é um jogo de alto risco), mas até lá Trump não se moverá um milímetro da sua posição. E o Partido Republicano está completamente vendido à sua base mais barulhenta e extremista, não arriscando perder o apoio dos trumpistas, independentemente dos riscos eleitorais que isso acarrete.

 

No final, a não ser que nas próximas 36 horas o FBI descubra evidências novas ou que conclua que Kavanaugh mentiu deliberadamente na sua audiência (omissões que podem ser desculpadas pelo tempo passado não serão relevantes), Kavanaugh será confirmado como o novo membro do Supremo Tribunal. Nessa altura, o Partido Republicano terá conseguido o seu objectivo mais próximo: garantir que o último bastião das liberdades nos EUA esteja nas suas mãos. Dessa forma, não fará qualquer diferença que percam eleições. Quaisquer medidas legislativas podem ser encaminhadas para os tribunais e assim ser contestadas perante um painel de juízes com simpatias para com as suas posições.

 

E Kavanaugh, o juíz que bebia demais, talvez tenha tido comportamentos inaceitáveis com mulheres, não demonstra o mínimo de simpatia com outros e só pensa em si mesmo, será um deles. Não é a melhor perspectiva para o farol da democracia no mundo.

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Atrair emigrantes sem mel

por João André, em 05.09.18

O governo veio recentemente a público com o plano de atrair emigrantes através de um corte de 50% no IRS (se o entendi bem). Não pretendo falar da bondade, benefícios ou eficácia da medida para o país. Prefiro referir-me antes do ponto de vista dos emigrantes, sem nunca pretender falar por mais niguém que por mim.

 

A realidade é que, antes de mais, não é muito provável que eu venha a beneficiar desta medida. Independentemente das vantagens que eu pudesse obter dela, há razões pessoais que me prendem a onde estou. Há no entanto uma questão prática que gostaria de abordar: qual o benefício, em dinheiro, da medida.

 

Vejamos os números em termos genéricos: O salário médio em 2016 era de 1.108 €. O salário médio para profissionais qualificados: 901 €. O salário médio para profissionais altamente qualificados, 1.407 €. O valor de IRS pago para cada grupo era, respectivamente, 147 €, 97 € e 232 € por mês (usando um simulador do Montepio que obtive da net). Mensalmente isso daria em poupanças de 74 €, 48 € e 116 €. Assumindo que ambos os membros de um casal voltariam, beneficiariam do regime, e receberiam o mesmo (improvável), as poupanças seriam a dobrar.

 

Olhando simplesmente para o meu caso, decidi comparar o custo de vida entre Maastricht. Pelo que se vê neste calculador, eu precisaria de perto de 2.850 € por mês (líquidos) para ter o mesmo nível de vida que 3.600 € ofereceriam em Maastricht (o valor não é particularmente alto para um casal). Mesmo para o valor médio de profissionais altamente qualificados, não chegaria lá nem em valores brutos. Uma poupança de 232 € por mês não beliscariam isto.

 

Isto é só um exemplo e o simulador vale o que vale. Poder-se-ia olhar antes para Amesterdão ou Düsseldorf ou Londres (tudo com base de 3.600 € por mês para um casal na cidade), locais onde seria mais provável ver os portugueses. O resultado acaba sempre semelhante: se levarmos os prováveis salários líquidos (brutos menos IRS reduzido menos contribuições sociais), o emigrante perdera qualidade de vida (do ponto de vista financeiro) ao regressar.

 

Haverá certamente outras vantagens, mas a verdade é que será difícil atrair muitos portugueses à custa desta medida. Isto sem entrar pelo lado dos hábitos do trabalho ou outras vantagens. Haverá quem regresse, mas arrisco dizer que já o considerariam antes. Dos outros, não espero regressos à custa disto.

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Truques não privados - Mau serviço SAPO e DN

por João André, em 05.09.18

A nova Regulação Geral de Protecção de Dados (tradução pessoal) tem vindo a obrigar os diversos sites a pedir aos visitantes para aceitar ou gerir a política de uso de cookies. Na maioria dos casos, os sites optam por tratar os cookies de publicidade programática em bloco, com a opção de os tratar de forma individual. Isto é, os visitantes podem optar por aceitar ou rejeitar todos os cookies deste tipo ou então ir de empresa em empresa e permitir ou rejeitar o uso destes cookies. Para mais, a situação padrão mais comuns é ter estes cookies desactivados, sendo possível simplesmente reactivá-los com um clique do rato no botão oferecido para isso.

 

Não é o que fazem alguns sites portugueses. O SAPO (onde este blogue está alojado) e o Diário de Notícias (provavelmente outros também) preferem eliminar a opção de aceitar ou rejeitar em bloco os cookies de terceiros e, além disso, a opção padrão é tê-los activos. Dado que a lista, completamente exaustiva, não só é longa como obriga a muito tempo para ser vista de forma individual, o resultado é que os visitantes acabam por optar por manter estes cookies (ver a imagem abaixo).

 

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Isto é simplesmente uma vergonha e gozar com a nova lei. É a situção em que os administradores decidiram colocar o máximo de entraves para obrigar as pessoas a aceitar os cookies e a prescindir da sua privacidade. Podemos concrodar ou não com a lei e as formas de a implementar, mas a atitude do SAPO, do DN e outros é simplesmente uma falta de respeito.

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Memórias subjectivas (5) - senta-te comigo

por João André, em 03.08.18

Esta memória surgiu-me quando vinha a ouvir a música no carro. Havia em tempos passados de adolescência várias canções capazes de unir quase toda a gente que as ouvisse, fossem punks, góticos, rockabillies, metálicos, betinhos, alternativos ou outra coisa qualquer que neste momento vou esquecendo. Uma das canções que nos levantava sempre era a que se chamava "senta-te" (Sit Down).

 

Havia algo na canção que nos agarrava. Começava com o piano inicial, suave, na voz de embalo de Tim Booth que nos falava dos momentos do escuro na cama, quando todos os sonhos e, especialmente, os pesadelos nos falavam ao ouvido, na solidão do quarto. Mesmo sem ouvir - ou perceber - a letra, havia o tom em si que nos agarrava desde o início. Tínhamos o tom negro inicial, mas que era seguido de um crescendo que cantava sobre esperança e nos lembrava que não estaríamos sozinhos. Ele, o James (Tim Booth era simplesmente o veículo conhecido apenas de quem comprasse as revistas da época)  dizia-nos que estávamos com ele, que ele também tinha vivido os mesmos momentos e deles tinha saído. A chamada para nos sentarmos, feita em ritmo elevado e que nos levava a saltar, era o convite para partilharmos aquele mmento de celebração e de partilha, a epifânia que nós, por muito que nos sentíssemos sós, não o estávamos.

 

Ler a letra da canção, para quem a entendesse, fosse pelo inglês fosse pelo significado, leváva-nos ao patamar seguinte. Booth faláva-nos dos momentos negros, dos sentimentos extremos doces e amargos que não confessávamos a ninguém, mas que ele nos confessava a nós. Falava depois da incerteza, da prece a um Deus que não se sabia existir. Mesmo para quem não acreditasse em Deus (e quem verdadeiramente acredita ou não em Deus aos 13-14 anos?) , havia sempre a noção de acreditar em algo, alguém, naqueles anos de ausência da âncora que os pais tinham sido durante mais de uma década e que, de repente, já não eram, não sabendo nós bem porquê.

 

Havia no entanto os momentos na canção que indicavam a esperança depois do desespero, da angústia. Booth cantava a crença que havia uma onda que aguentaria o nosso peso, que nos levaria de onde estávamos para--- algures mais além. Cantava depois de umas riquezas não explicadas mas que sabíamos implícitamente quais eram e, noutra confissão, explicava que até poderia viver pobre se não soubesse que elas existiam. Tinha então que almejar a elas, ou a parte delas. Era o outro momento de desespero, o outro momento de depressão confessado apenas a nós, que o ouvíamos.

 

Mas depois voltava a pedir-nos que nos sentássemos com ele. O pedido inicial era para nos explicar a partilha, a confissão que o tornava um de nós, fosse qual fosse a idade dele. Os pedidos seguintes eram para agora sermos nós a partilhar os nossos sentimentos com ele. Carregássemos sentimentos de tristeza, de loucura ou de ridículo, de desadequação a uma sociedade que nos apontava como corpos estranhos. Sentávamo-nos então com Booth/James numa partilha de amor, medo, ódio e, ultimamente, lágrimas, as lágrimas que não éramos capazes de verter perante mais ninguém.

 

Esta canção era ouvida essencialmente em dois momentos, um de solidão e outro em grupos, o mais vasto possível. Para ser ouvida propriamente em solidão era necessário fecharmo-nos no quarto, numa casa idealmente vazia, com persianas semicerradas para criar um lusco-fusco adequado ao sabor delicodoce da canção. A música deveria ser ouvida múltiplas vezes enquanto nos deitávamos de costas na cama com lágrimas que correriam sem soluços, simplesmente de forma livre, como se de repente as comportas se abrissem apenas o suficiente para deixar passar o excesso de angústia, numa forma de aliviar aqueles apertos no peito que por vezes sentíamos serem demais. Era um momento de partilha apenas com James/Booth, num silêncio profundo mesmo com a música em volume elevado, numa solidão em que sentíamos tocar todos os outros no mundo que se sentiam da mesma forma. Era uma solidão que nos fazia sentir parte de uma comunidade, em oposição às multidões da escola que nos faziam sentir unicamente sós.

 

A outra forma de a ouvir era em grupo, idealmente numa discoteca ou em festas (de anos ou outras). Nunca se ouvia esta música no início da festa ou demasiado cedo na discoteca. Era sempre necessário o período de abandono que a escuridão da discoteca ou a multidão barulhenta da festa proporcionava. Antes de alguém se atrever a colocar a cassete (ou disco) a tocar a música, era necessário que os participantes do ritual tivessem já dançado de forma solta, sem passos, simplesmente girando de cabeça solta, como se os músculos do pescoço não existissem. Enquanto houvesse pessoas a ensair certos movimentos, enquanto houvesse rapazes a impressionar raparigas, enquanto as raparigas estivessem a dançar em grupos - ao invés de dançar sós num grupo - e a falar/gritar aos ouvidos umas das outras, enquanto as condições não estivessem reunidas, não se tocaria a canção. Era necessário o cansaço que baixa as barreiras, que liberta as inibições emocionais, que, no fundo, nos resumisse à nossa insegurança mais básica e nos levasse ao momento de escuridão de que Booth/James cantava.

 

Assim que as primeiras notas do piano soassem num ambiente escuro, apenas com uma pequena luz poouco mais que de presença, todos sabíamos o que vinha e gritávamos juntamente com o público na canção - era sempre a versão ao vivo da canção - em antecipação do que aí vinha. Com o início entrávamos num balanço quase cordenado mesmo quando dessincronizado. Rapazes agarravam raparigas pela cintura, por detrás, mesmo quando eram apenas amigas ou às vezes nem isso. Não era um momento de amor, mas era um momento de paixão, de emoção intensa que obrigava a que fosse partilhado. Rapazes abraçavam-se a outros rapazes de uma forma que seria ofensiva noutras situações. Raparigas abraçavam-se também e choravam abertamente, no único momento em que isso não repeleria os rapazes. Os momentos iniciais de calma, de piano a unir toda a gente, eram então seguidos do pedido para nos sentarmos juntos com James/Booth. E era isso que fazíamos, figuradamente, que literalmente saltávamos, em saltos coordenados seguindo o ritmo da canção. Éramos os animais do circo que eram guiados alegremente pelas palavras e notas da canção. Partilhávamos aqueles momentos em conjunto, numa comunhão que não sentíamos possível em mais nenhum momento. Enquanto saltávamos juntos sentíamo-nos todos um único ser, novamente sós no nosso colectivos, mas alegres por isso mesmo, por sermos quem éramos, jovens e com todo o horizonte pela frente. Estávamos sós na multidão, mas felizes por isso, porque estávamos todos sós da mesma forma.

 

Sit Down terá poupado muitas sessões de terapia a muita gente. Numa altura de angústias, de incertezas, de desenquadramento num mundo que não nos compreendia e que não compreendíamos, a música oferecia-nos a libertação, a compreensão e esperança que precisávamos. Em solidão a música seria seguida por silêncio, para apreciarmos devidamente o que nos tinha oferecido, aquele momento e aquela clareza de espírito que tinha trazido consigo. Em grupo a música era essencialmente o momento de regressar. Na discoteca a música seria seguida pelo acender de luzes e pela debandada geral. Mesmo nas sessões de matinés, em que saíamos para uma rua cheia de luz encandescente, havia um sentimento de vazio e de oportunidade de voltarmos a encher o nosso copo de emoções. Todas as emoções de adolescência eram dolorosas porque excessivamente extremas. Sit Down oferecia o momento de esvaziarmos o nosso corpo dessas emoções, mesmo que só por um pouco, oferecia o abandono e o alívio pelos quais todos os adolescentes anseiam.

 

Não posso falar por todos os adolescentes que ouviram a música na mesma altura que eu, apenas pela comunidade onde me inseria. Sit Down era um hino não comentado, apenas vivido. Conhecia quem, como eu, se recusasse a ter a música na colecção de cassetes, por medo de banalizar o seu efeito, mesmo que não o soubéssemos e não o reconhecêssemos. Era uma música para ser ouvida a espaços, só quando estivéssemos com necessidade do alívio e da partilha que trazia.

 

Quando a ouvi hoje não senti o mesmo porque não sinto as mesmas coisas que quando tinha 13-14-15-16 anos de idade. Não tenho os sentimentos extremos desses tempos. Também não senti qualquer nostalgia por esses tempos, como algumas outras canções poderiam trazer, outras canções que nos fazem recordar tempos bons e esquecer os sentimentos de desadequação, de ausência e de não pertencer a nenhum lado, a nada nem ninguém. Sit Down faz-me lembrar precisamente as angústias desses tempos sem que as relativize ("nem sabíamos que eram os melhores momentos das nossas vidas" é um tema frequente quando se discute a adolescência). Faz-me lembrar que os sentimentos dessa altura, por muito que fosse uma altura maravilhosa para quem a veja desta distância, era um período unicamente difícil.

 

Mas ao ouvir a canção lembro esses sentimentos sem os viver. Sinto essencialmente esse momento de união - não com os amigos de hoje ou os amigos de então como são hoje. Sinto-me novamente unido aos amigos desses tempos precisamente nesses tempos, como se fosse transportado para aquela discoteca, pequena, suja, mal cheirosa, escura, e me pusesse a saltar com a multidão, unido pela música e apesar da distância temporal. É uma união ténue, porque não sinto o mesmo, mas sinto a recordação do sentimento e isso, pelos minutos que dura a canção, basta.

 

Por 5 a 7 minutos, sento-me, juntamente com o adolescente que éramos naquels momentos de partilha. O único adolescente único e colectivo que existia no mundo, ou pelo menos na cidade, discoteca ou sala onde a música fosse ouvida. E sorrio como então.

 

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A camisola não paga Ronaldo

por João André, em 17.07.18

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Quando surgiu a notícia da transferência de Ronaldo para a Juventus, uma das frases que mais ouvi (e que se ouve ou lê cada vez que alguma trasnferência deste tipo é completada) foi: «vai pagar isso só em camisolas.» Ora, esta afirmação está errada, não apenas em geral mas também para Ronaldo, não importa aquilo que aconteça. É por isso que a notícia do DN (e de quem mais siga pelo mesmo caminho) não está simplesmente errada: demonstra imensa preguiça jornalística.

 

Vejamos a notícia. Diz o DN que «Ronaldo já rendeu pelo menos 54 milhões à Juventus». As contas são feitas por a Juventus ter anunciado já ter vendido 520 mil camisolas de Ronaldo com preços a oscilar entre os 104 € e os 144 €. Ora isto são contas que nem de merceeiro (os merceeiros compreendem a necessidade de pagar eles próprios pelos produtos que vendem) e que não reflectem nem as margens de lucro para os clubes nem as dinâmicas de vendas.

 

 

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Um guarda redes com cãibras a aguentar um prolongamento e a defender dois penalties. Um médio a perder a bola por lhe dar um torque e não ter pernas para a ir buscar mas depois a recuperar a bola e a virá-la de flanco. Um avançado a mal poder correr excepto quando cheirou uma bola e lhe acertou de forma perfeita para acabar com o sonho inglês. Um jogador a marcar dois penalties em jogos decisivos depois de correr 120 minutos em cada e nós a sabermos que estaria pronto para repetir a dose no terceiro jogo consecutivo. Um desempenho de sonho a negar a equipa do melhor jogador do mundo e outro funcional, da equipa secundária, quando não precisaria de o fazer. Três jogos consecutivos a recuperar de desvantagens para se apurar para a final com o equivalente de um jogo a mais e um dia menos. E isto é só o mundial da Croácia.

 

(Hrvatska! Hrvatska! - ouve-se da minha janela, gritado a 950 km de distância)

 

A Inglaterra sonhou como não o fazia há 28 anos e conseguiu ser parada sem que o cortejo de juízes surgisse no horizonte. A Rússia sacudiu a etiqueta de segunda pior equipa do mundial para estar a um passe (ou remate) das meias-finais. A Bélgica recuperou de uma desvantagem de dois golos contra o Japão e depois venceu o Brasil, em desempenhos que deixaram os adeptos do mundo inteiro (excepto japoneses e brasileiros, à vez) a torcer por eles. Lukaku especialmente deixou água na boca contra os japoneses ao não tocar a bola antes do último remate do jogo e a fazer verdadeiro bullying artístico a quem lhe apareceu pela frente - ou pelo ombro - frente aos brasileiros. Meunier, no seu jeito de gigante desengonçado e trapalhão tem sido calmamente o melhor lateral direito do mundial - a sua ausência foi excessivamente notada. Outros dois laterais direitos deram-nos aqueles que poderão ter sido os melhores ou mais belos golos do mundial.

 

(pausa para respirar)

 

Ronaldo teve um jogo a falar da melhor cabra de todos os tempos** e foi abafado por dois golos excepcionais, um deles resultante de uma tabelinha de 100 metros. O VAR apareceu na fase de grupos e deve ter bebido tanta vodka que desapareceu nas eliminatórias. Mbappé apanhou uma multa por excesso de velocidade num jogo e decidiu atormentar as polícias de trânsito nas defesas adversárias apenas em trajectos curtos. Lilian Thuram foi descoberto na Rússia, 24 anos mais novo e com outra cor de pele, mas não engana ninguém. De Bruyne foi dando lições de geometria euclidiana com os seus passes saídos directamente do Elementos. O cliché inglês da fila às espera do comboio em forma de bola nos livres indirectos e cantos.

 

(Neymar rebola... e rebola... e rebola...)

 

Os remates de Coutinho. Godín a defender toda a área, duro quando necessário, com souplesse quando possível. Varane a varrer a sua defesa no ar e no chão, mais rápido que Hazard a correr, que Fellaini a saltar e mais forte que Lukaku, mas sempre com classe. Kanté a varrer a direita e a esquerda de Pogba - ao mesmo tempo. A trivela de Quaresma. Os 3 metros e meio de altura de Yerri Mina. A trivela de Quaresma. Aliou Cissé a destilar coolness. A trivela de Quaresma. O Japão a jogar para perder o último jogo na fase grupos e ser apurado por serem bons rapazes. Neuer a ala esquerdo. Kroos a fazer de Bom, Mau e Vilão num único jogo. Quase duas vezes. Honda a entrar em campo para marcar um golo do empate ao fim de 6 minutos. A Inglaterra a vencer um desempate por penalties.

 

(esperemos: o Panamá está ainda a celebrar os golos)

 

El-Hadary a não ser substituído depois de ser o mais velho jogador a jogar um mundial e a defender um penalty. Tal memória deveria ter sido gravada para sempre sem necessidade de o ver a conceder golos. Marrocos a dominar 3 jogos e não vencer nenhum. Dinamarca e França a oferecerem uma cura para o stress. Já disse que a Islândia se qualificou para um mundial com uma população de 300 mil? O cineasta vindo do frio a defender um penalty ao melhor jogador do mundo*. Rojo a mostrar aos seus avançados como se marca um golo. Os dois suíços que provocaram os sérvios por causa do Kosovo depois de serem provocados pelos russos. O guarda redes iraniano que dormiu no chão mas que defendia quase tudo, inclusivamente um penalty do mais valioso trintão do mundo***. Lozano. Kompany porque simplesmente gosto do tipo. Fellaini porque é daqueles tipos que é impossível de não se gostar quando estamos longe dos seus cotovelos. Kane porque vai ser o melhor marcador com 3 penalties, 2 sobras e 1 bola tabelada na canela. Auto-golos porque vão ultrapassar Kane. Brasil a ser eliminado mais cedo que há 4 anos mas com melhor sabor na boca.

 

(preparar o fim)

 

Um mundial de sol, festa, jogos abertos como não há muito, jogadores a lutar até ao limite das forças e ainda mais além, selecções a celebrar mesmo depois de serem goleadas, um anfitrião a abrir as janelas fechadas à muito para mostrar que sabe de hospitalidade mesmo quando volte a fechar a casa, de pena por as equipas africanas não passarem a fase de grupos depois de iluminarem os seus jogos no campo e nas bancada, equipas a serem eliminadas sem recriminação, cerveja a esgotar, a presidente croata, a ausência de Putin, alfabetos cirílico e latino, sol da meia-noite - ou perto disso.

 

E teremos sempre a quaresma de Trivela em Saransk.

 

* - escolha pessoal, discordem à vontade.

** - Referência à barbicha - goatee em inglês - e a GOAT, acrónimo para Greatest Of All Times.

*** - pelo menos no futebol.

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Notas de meio do Mundial

por João André, em 01.07.18

Quis escrever mais vezes sobre o mundial no meu outro estaminé mas não tem sido possível. Agora que o mundial de Portugal temrinou, ficam uns apontamentos.

 

Portugal

O primeiro jogo, contra a Espanha, deu-me esperança que Ronaldo estivesse ao seu melhor nível e Portugal jogasse bem o suficiente para o apoiar. A Espanha tinha-me parecido estar a jogar bastante bem e só tendo sido batida por uma boa organização defensiva e uma actuação brilhante de Ronaldo. Os jogos subsequentes, de Portugal e Espanha, indicaram que talvez não fosse bem assim, nem para Portugal nem para a Espanha (à hora que escrevo está empatada a um golo com a Rússia).

 

Portugal tinha a desculpa contra a Espanha de saber que não veria muito a bola. Contra Marrocos e Irão isso não sucederia. Fernando Santos insistiu em esquemas e jogadores que pouco ou nada fizeram e com toda a gente à espera que Ronaldo resolvesse tudo. Contra Marrocos Portugal teve muita sorte em não perder (esta também é necessária) e contra o Irão o jogo foi sofrível e mesmo com o penalty mal assinalado em favor do Irão o resultado não foi incorrecto.

 

Contra o Uruguai Fernando Santos corrigiu alguns erros tácticos, mas algo tarde e de forma dubiosa. Com Bernardo Silva na ala direita, era necessário jogar com um lateral mais inclinado a procurar a linha final para permitir a Bernardo Silva mais liberdade. Infelizmente isto surgiu ao 4º jogo, sem verdadeiras rotinas, e Cédric não mereceria ser enviado para o banco. No ataque haveria alguma lógica em jogar com Gonçalo Guedes, mas apenas se fosse um avançado mais móvel. Encostado aos centrais, especialmente Godín e Gimenez, foi o equivalente a oferecer-lhes um chá mate. Mais tarde fez entrar Quaresma para alargar o jogo, mas infelizmente retirou Adrien em vez de João Mário (que, sendo apenas sofrível, fez o seu melhor jogo do mundial).

 

O azar foi também que o melhor jogador português do mundial, Pepe, cometeu um erro enorme que deu o segundo golo aos uruguaios. Há no entanto alturas em que temos que dar o mérito ao adversário. Fernando Santos foi emendando a mão e Portugal não jogou mal, mas os Uruguaios têm uma defesa quase impenetrável. O resto da equipa é disciplinada e com mais garra charrua por jogador que o resto das equipas mundiais em conjunto. E, no ataque, têm dois avançados de enorme qualidade, que jogam de olhos fechados, sacrificam-se pela equipa e não são egoístas. A comandar tudo, provavelmente o melhor seleccionador dos últimos 20 ou 30 anos: Tabarez. Os uruguaios marcaram primeiro em duas ocasiões. Depois de concederem um golo, só o fariam outra vez se Ronaldo descobrisse alguma coisa especial. Não o conseguiu e Portugal volta para casa.

 

Jogadores

Positivo: Patrício, Pepe, José Fonte, Cédric, Adrien, Quaresma (apesar de ter tentado ser expulso contra o Uruguai) e Ronaldo. Note-se que os considero positivos, não necessariamente muito bons.

Razoáveis: William, Guerreiro, Moutinho, Ricardo.

Negativos: João Mário, Bernardo (apesar de ter melhorado imenso no último jogo), Guedes.

 

Os únicos que foram muito bons, e ainda assim, apenas a espaços, foram Ronaldo, Patrício e Pepe. Os único que foi consistentemente muito mau foi João Mário. Guedes esteve perto, mas teve algum trabalho de equipa decente nos dois primeiros jogos (ao mesmo tmmepo que demonstrava cabalmente o erro de o colocar a ponta de lança). Destes grupos, não há queixas a Patrício porque nada podia fazer nos golos que sofreu (talvez o primeiro do Uruguai, mas seria difícil). Os outros despareceram de tempos a tempos e foi nesta inconsistência que Portugal teve uma passagem pouco notória no mundial.

 

Outras notas

Deutschland... Auf Widersehen... Nao é preciso alemão para compreender a sua eliminação. Uma velhinha grega basta: hubris.

 

Equipas que impressionaram até agora: Uruguai, Croácia, Bélgica, Inglaterra (estas duas tiveram pouca oposição), Senegal, Nigéria (sim, sei que estas foram eliminadas), Colômbia.

 

Equipas que desiludiram: Argentina, Egipto, Polónia.

 

Equipas que vão avançando à custa do talento: França e Espanha.

 

Equipa neste momento mais capaz de vencer: Brasil. Tiveram um início semi-impressionante, dando a ideia que faltava sempre alguma coisa. Contra a Sérvia pareceu ter aparecido essa coisa extra. Se a mantiverem, terão a melhor equipa para vencer.

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Colonialismo por meio ambiente

por João André, em 25.06.18

Trabalho actualmente numa empresa global que vende produtos directamente ao consumidor. A empresa opera em todos os continentes em volumes elevados (é a empresa líder mundial no seu sector) e devido a esses volumes tem também que tratar dos seus desperdícios, inclusive a água residual - é aqui que eu entro.

 

Recentemente, em dois países africanos, as regras de descarga de águas residuais - após tratamento - foram apertadas. Nada de novo ou de pouco esperado, são zonas de difícil acesso à água e com poluição suficiente da pouca água que possuem. O problema é que os limites de descarga foram apertados de tal forma que essencialmente espelham as melhores normas de países desenvolvidos.

 

Até aqui tudo bem. Nas fábricas em países desenvolvidos os nossos sistemas de tratamento de águas residuais está preparados para atingir estes limites onde eles estão em vigor (varia de país para país, estado para estado e até de munucipalidade para municipalidade). O problema é que, como se poderia esperar, quanto mais apertados forem estes limites, mais dinheiro custa o tratamento, o que aumenta os custos operacionais da fábrica.

 

E eis a dificuldade em África ou outros países em desenvolvimento: como pagar este aumento de custos? Nos países desenvolvidos o custo acrescido em termos de €/kg de produto é mais ou menso semelhante aos de África, isto porque as soluções são tecnológicas e os provedores da mesma não conseguem reduzir muito estes custos só à custa de mão de obra mais barata. Como o custo do produto em África é muito mais baixo (em alguns casos estamos a falar de valores 50 vezes mais baixos), será muito mais complicado pagar o aumento de custos. Em alguns casos poderá levar as empresas a simplesmente fechar as fábricas porque economicamente não faz sentido fazer a actualização destes sistemas. Não é o caso da minha empresa, mas conseguiria perceber a racionalidade.

 

Isto leva-me a pensar na forma como os países desenvolvidos acabam por manter os países em desenvolvimento com atrasos estruturais. Os países desenvolvidos foram tendo séculos para ir melhorando sistemas (dos quais o de tratamento de águas residuais é apenas um caso) à medida que as suas economias melhoravam, a tecnologia se desenvolvia e os limites iam apertando pouco a pouco. Muitas vezes estes limites são apertados de valores muito altos (quando os limites existem de todo) para normas essencialmente de primeiro mundo e isto torna-se uma condição para certas ajudas estruturais aos países em causa. Quando isto sucede, não será de espantar que as empresas fujam destes mercados de margens tão curtas.

 

Por um lado desejo o máximo de protecção ambiental (e outras) em países em desenvolvimento, que as suas populações sofrem já o suficiente para terem de lidar com poluição do ar e poluição e falta de água. Por outro lado, colocar tais exigências acaba por garantir que o desenvolvimento económico seja ainda mais lento e aumente o fosso para os países ricos. Conscientemente ou não, torna-se uma nova forma de colonialismo: colonialismo por meio ambiente.

 

Como na esmagadora maioria dos casos, não sei a solução. Eu apenas posso propor soluções e ajudar as fábricas a manter custos baixos. Mas se os países ricos ajudassem a resolver os problemas que criam, isso seria uma excelnte ideia.

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Guerras de tarifas

por João André, em 18.06.18

Há um aspecto curioso desta guerra de tarifas que trump está a iniciar: ele provavelmente ganhá-la-à a não ser que os democratas ganhem a maioria no Congresso em Novembro. Note-se, não acredito em guerras de comércio/tarifas e penso que só há perdedores absolutos, mas em termos relativos os EUA irão quase de certeza vencer este conflito.

 

A questão é que os EUA são o país mais poderoso do mundo, com a maior economia do mundo e com a maior capacidade de absorver estes choques. Irão certamente sofrer (as tarifas irão causar estragos nos EUA, como noutros países) mas os outros países sofrerão mais. Quando a poeira assentar, o que veremos serão provavelmente situações piores da parte de todos os países, mas menos no caso dos EUA, que têm um mercado interno que lhes permitirá repôr os produtos perdidos (mesmo que a custos mais elevados e de forma menos eficiente).

 

Ou seja: os países perderão todos nesta guerra de tarifas, mas perdendo menos (provavelmente muito menos) que os outros, os EUA acabarão por reforçar a sua posição dominante no panorama económico mundial. O risco que correm - além de perdas em termos não-relativos - é que o resto do mundo deixe de depender deles. No longo prazo os EUA poderão acabar por perder, mas nessa altura Trump já terá o segundo mandato no papo...

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Um exemplo construtivo

por João André, em 25.05.18

Não sou sportinguista e assisto à crise dos leões com um misto de precupação e SchadenfreudeSchadenfreude porque como benfiquista é-me difícil não o fazer, mesmo sabendo que é de mau gosto. Mais importante no entanto é a precupação com uma instituição centenária e fundamental ao desporto português e, sim, também ao Benfica.

 

Nesta outra casa do Pedro e outros autores do Delito de Opinião, muitos posts se têm escrito sobre a crise. Vale a pena ir lendo se se tiver tempo. Há no entanto um autor que eu não costumo ler mas que, para mim, tem sido um exemplo nos últimos tempos.

 

O Pedro Azevedo tem aproveitado este período para apresentar as suas ideias para o Sporting, numa série de posts com o título "Há vida para além do défice". Estes posts são um exemplo, não apenas para um Sporting que vive muito de um momento cujo alfa e ómega da discussão é "Bruno de Carvalho fora!", mas para toda a sociedade portuguesa, que vive em estados de sebastianismos permanentes, sempre à espera que alguém apresente uma solução para os seus problemas, idealmente sem que tenham que fazer seja o que for.

 

Seria bom que mais pessoas fizessem o mesmo: apresentassem as suas ideias para os problemas dos quais se queixam. Não precisam de ser soluções perfeitas. Muitas vezes apenas alguns conceitos, por imperfeitos que sejam, servem de excelente ponto de partida para uma discussão construtiva. No caso do Sporting, era óptimo que mais pessoas pegassem nesta discussão e a levassem mais além. O Pedro Azevedo tem dado o seu contributo, espero que alguém pegue nele.

 

Até porque Schadenfreude é uma coisa muito feia...

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Les beaux esprits... e tal e coisa

por João André, em 18.05.18

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 Os meus amigos sportinguistas (especialmente aqui no blogue) que me perdoem, mas é-me difícil resistir.

 

Espero no entanto que as coisas se resolvam depressa e com o mínimo de prejuízo para o Sporting. Zero prejuízo é já impossível.

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Ferindo a democracia

por João André, em 09.05.18

Com a decisão de quebrar a parte dos EUA no acordo nuclear com o Irão, Trump causou diversas tensões com aliados e outros países. Não me vou pronunciar sobre os méritos da decisão em si: quem me lê sabe qual a minha posição e, além disso, não vem espantar ninguém quando era já uma promessa de campanha. A única surpresa é ter vinda só ao fim de quase ano e meio de mandato e não ter sido tomada à primeira oportunidade.

 

Aquilo que me tem parecido que falta ver é a forma como também esta decisão vem enfraquecer as democracias (não só a dos EUA). Quando um país assina um acordo ou um tratado deve manter-se fiel ao mesmo enquanto as partes o respeitarem. Isto foi o caso aqui. Quando um país, após a mudança de governo, decide rasgar um acordo que respeitou os seus instrumentos democráticos está a enviar a mensagem que a democracia não pode ser confiada, porque à menor mudança de governo os acordos deixarão de ter valor.

 

Esta decisão vem apenas dar munição a ditadores e outros líderes autoritários (a diferença é pequena mas ainda vai existindo) quando querem atacar as democracias liberdades. Vem dar a possibilidade de apontar o dedo aos EUA e dizer que lideranças estáveis (tradução: imutáveis) são melhores porque os parceiros e os cidadãos sabem que o rumo não mudará abruptamente a cada 4 anos.

 

Uma democracia moderna tem determinados mecanismos para garantir equilíbrio entre os seus diversos pilares, os quais têm a obrigação de garantir que os acordos são para respeitar enquanto país. Não o fazer acaba por ferir a democracia mais que qualquer aprendiz de feiticeiro que ganhe a presidência. Seria bom que os políticos nos EUA o percebessem antes que comecem a erodir o sistema que dizem defender.

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Publicidade à má fila

por João André, em 04.05.18

O meu blogue de desporto (OK, essencialmente futebol) reacordou da hibernação. A revisão dos jogos das meias-finais da Liga dos Campeões (1ª mão aqui, 2ª mão aqui) já lá está. Entretanto irei fazer a minha antevisão da final e mais tarde, se o tempo mo permitir, voltarei para o meu ritual de falhar completamente as expectativas do mundial.

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por João André, em 25.04.18

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Na Catalunha nem bons ventos nem bom senso

por João André, em 30.03.18

Há muito que penso que a "questão catalã" teria sido resolvida mais ou menos satisfatoriamente se tanto o governo de Rajoy como o anterior governo regional de Puigdemont tivessem tido juízo. Rajoy só teria que ter resolvido as questões do novo Estatut de forma a satisfazer o Tribunal Constitucional para o barulho se reduzir. Puigdemont, por seu lado, forçou uma questão com decisões para as quais não tinha o menor mandato. Até anunciar os resultados do dito cujo referendo, Puigdemont estava claramente a infringir a lei e qualquer lógica democrática liberal. Após ele e os seus correlegionários serem lançados aos calabouços, foi Rajoy (e Madrid) quem perdeu muita da sua força moral.

 

Neste momento não me pronuncio sobre a independência da Catalunha. É óbvio que não existem condições para a mesma. Nos melhores dias, os independentistas chegam no máximo a 50% e nunca me parece ter havido discussão sobre que tipo de sistema constitucional existiria no novo país. Seria simplesmente uma espécie de "República". Isto não chega.

 

Só que, sendo isto verdade, não faz qualquer sentido Madrid persistir na sua perseguição a Puigdemont e outros. É óbvio que não estão em risco de iniciar uma insurreição, nada na Catalunha nos dá essa impressão. Há tensão, mas ainda não vi uma única reportagem a dar a ideia de um barril de pólvora pronto a explodir. Os dirigentes independentistas infringiram a lei, mas o princípio da razoabilidade deveria dominar aqui: o procurador geral (ou equivalente em Espanha) deveria simplesmente pedir a liberdade condicional para os dirigentes enquanto esperam pelo julgamento. E, a não ser que de facto se dê como provada, num julgamento justo e imparcial, a conspiração para cometer actos verdadeiramente insidiosos (a vontade de independência ainda não o é), a máxima pena a que estes dirigentes deveriam ser condenados seria uma suspensão de cargos públicos por um determinado período.

 

Andar a lançar mandatos de captura internacionais só vem dar fogo à lenha dos independentistas, que aproveitam para insistir (com base na sua leve maioria no Parlamento Catalão) na escolha desses dirigentes para presidente da Generalitat. É uma insistência algo parva, mas estão no seu direito. Aquilo em que dará será novas eleições após Maio (se bem entendi, é esse o limite para a formação do governo), as quais poderão dar resultados que ninguém conseguirá prever.

 

Há muitas coisas que vão faltando no caso catalão: fúria independentista, repressão autoritária, e essencialmente bom senso, em Barcelona e Madrid. E, mais que Puigdemont e outros dirigentes, quem vai sofrendo com isto tudo são os catalães, independentistas ou não, que vêem a incerteza diária complicar-lhes a vida.

 

 

PS - no entanto isto não se compara nem de perto nem de longe à Turquia ou à Rússia como o Luís quer fazer passar. A comparação é tão disparatada que nem vale a pena falar no assunto. Comparar com Hungria ou Polónia ainda compreenderia, mas com dois autocratas que nunca irão ser votados para fora do cadeirão? Não gozem comigo.

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Pelo fim do dia anual da mulher

por João André, em 08.03.18

Desde que comecei a pensar no assunto que passei a não gostar do Dia Internacional da Mulher. Fazia sentido a sua celebração quando surgiu, mas não celebro aquilo que passou a representar: o dia em que os homens prestam atenção às mulheres como antigamente comprariam indulgências. Passou a ser então uma espécie de vávula de escape para a consciência. Não faz mal o comportamento machista ou misógino nos outros dias se se oferecerem flores (hoje em dia virtuais) no dia 8 de Março. Como li (ou ouvi) em tempos: por ano há um Dia Internacional da Mulher e 364 Dias Internacionais do Homem.

 

Não é uma questão apenas de como os homens se comportam (e não se pense que eu não me incluo neste grupo). Parte da responsabilidade é também das mulheres, que enchem os seus murais do Facebook, os seus feeds to Twitter ou os seus blogs com comentários de celebração do ser mulher, celebração das mulheres nos seus círculos (pessoais ou profissionais), e o orgulho de ser mulher. Não tenho nada contra isso, mas especialmente o primeiro e terceiro casos fazem-me confusão. Como celebrar ou ter orgulho em algo sobre o que não se tem influência. Seria o mesmo que dizer que se tem orgulho em ter dois pés ou uma boca. Há naturalmente circunstâncias em que isto muda (operações, acidentes) mas nenhum de nós pode influenciar o sexo com que nasceu.

 

Da mesma forma que não vale a pena celebrar o ser-se feminina. Uma mulher que se identifique como tal mas goste de crescer os pêlos, arrotar, vestir-se de calças e camisa de flanela, colocar uma tatuagem a dizer "Amor de Mãe", ver filmes de acção, beber cerveja, e, horror dos horrores, preferir mulheres, será menos digna de ser chamada "mulher"? Pode ser menos interessante do ponto de vista estético (e a estética muda com o tempo), mas não podemos reduzi-la a algo menos que Catherine Deneuve ou Natália Correia.

 

O Dia Internacional da Mulher é então o dia em que as mulheres são lembradas e acarinhadas por serem aquilo que sempre são. Deveríamos no entanto vê-lo como um dia em que reflectimos sobre o papel das mulheres, os seus direitos, aquilo que conquistaram (com ou sem ajuda) num mundo dominado por homens e aquilo que ainda falta conquistar. O papel de movimentos como os actuais #metoo ou #timesup é fundamental, mais que qualquer flor, virtual ou não, oferecida num único dia do ano. Não mudará o mundo só por si, mas lembra o mundo dos desafios que as mulheres e os homens (estamos neste mundo juntos) continuam a enfrentar.

 

Este dia 8 de Março de 2018 é então um belo dia para relembrar tudo o que foi exposto no último ano. Um colunista que eu leio (a propósito de outros temas) gosta d eescrever que a luz do sol é o melhor desinfectante. Se assim é, estes últimos 365 dias têm vindo a desinfectar muitos dos corredores infectos no mundo. E a limpeza, como aconteceu no passado, tem sido feita por mulheres.

 

E, assim, deixo o meu voto. Por para elas serem importantes, deixo às minhas mulheres os meus votos de um Feliz Dia Internacional da Mulher. E o meu desejo muito sincero que seja um dos últimos que se celebrem apenas de ano a ano.

 

#PressforProgress

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Do contrato entre realizadores e espectadores

por João André, em 06.03.18

O Diogo deixou aqui abaixo a opinião dele sobre o The Shape of Water. Não o vi, por isso o post não se refere ao filme em si,  mas achei particularmente interessante o comentário sobre o facto de aceitarmos incongruências por o filme ser sobre um monstro anfíbio com poderes curativos. O João Campos apontou a objecção dele a esta lógica nos comentários, mas gostaria de deixar umas linhas sobre um aspecto que vai sendo cada vez mais descurado em filmes modernos: as regras da suspensão de descrença (suspension of disbelief em inglês).

 

Um aspecto essencial de qualquer narrativa é a consistência da mesma. Isso significa que, independentemente do realismo dela, toda a narrativa tem que ser consistente em si mesma. Podemos aceitar um Super Homem que veio de Krypton e que tem poderes extraordinários à custa da exposição ao nosso Sol e a uma "menor gravidade", mas se de repente lhe adicionássemos os poderes de, digamos, o Homem Aranha devido a uma piucada de uma aranha radioactiva, isso seria difícil de engolir. Com James Bond podemos aceitar a figura de um cavalheiro com enorme perícia em combate (armado e desarmado), enorme charme e enormes conhecimentos em tudo o que é área, mas o que vai vendendo os filmes é o facto de sabermos que está sempre perto de morrer (mesmo quando sabemos que escapará). Se de repente passasse a ser quase invulnerável e não tivesse qualquer dificuldade, então o interesse reduzir-se-ia rapidamente.

 

Há uma cena no filme Rambo III que me deixou sempre perto das lágrimas de riso. Rambo está no campo soviético e, ao disparar a metralhadora ao nível do rés do chão num ângulo de talvez 90º, acaba por matar soldados num ânmgulo de 180º no rés do chão e na varanda do 1º andar. Aceitamos que Rambo é capaz de ser o melhor combatente no mundo - é esse o "contrato" que o espectador tem com os autores do filme - mas ainda assim ele tem que respeitar as leis da física. Por muito que possamos aceitar que todo um campo inimigo não é capaz de lhe acertar, ele tem que pelo menos apontar na direcção dos inimigos para os poder atingir. É essa a diferença entre Rambo III e Commando, com Schwarzenegger em modo de Exterminador Implacável aind amais eficaz que o ciborgue desses filmes.

 

É por isso que o caso apontado pelo Diogo, de uma mulher de limpeza ter acesso a um laboratório secreto, pode parecer uma quebra deste contrato. Os responsáveis pela limpeza de laboratórios podem entrar neles, mas habitualmente os objectos de investigação não estão disponíveis.

 

Ainda assim muito depende de como a situação seja filmada e resolvida. Não tendo visto o filme não me pronuncio sobre esse caso específico, mas concordo com o João Campos: mesmo que entremos no domínio do impossível, há sempre regras a ser respeitadas no cinema. Sob pena de a magia ser quebrada.

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Plástico: descartável?

por João André, em 05.03.18

Ja andava há uns tempos para escrever sobre a questão dos plásticos. Há já muito que vejo no Facebook e LinkedIn os posts e comentários e partilhas dedicados à catástrofe que é o plástico. A razão sobre querer escrever sobre o assunto é o facto de se dizer e escrever muita coisa que me parecia excessivamente alarmista e se apresentarem soluções que não fariam muito sentido. O trabalho recente da Economist sobre o assunto, bem como o pensamento da semana da Joana, fizeram-me finalmente decidir a colocar umas palavras sobre a questão.

 

Antes de mais o principal ponto a retirar sobre a questão do plástico (da qual o uso de sacos é apenas um dos aspectos): o impacto real do uso de plásticos nos nossos ecossistemas não é suficientemente claro. Sabemos que há impactos. Alguns deles abaixo:

- resíduos de plásticos entopem escoamento de águas causando inundações ou zonas de água estagnada (que se tornam em vectores de doenças);

- plásticos em aterros mal geridos levam a infiltração de compostos químicos nocivos no solo e em lençóis subterrâneos;

- plásticos que são colocados nos esgotos levam aos entupimentos das canalizações (o famoso fatberg de Londres foi causado também por plásticos) e, se tratados, podem levar à libertação de compostos químicos com efeitos nocivos na nossa fisiologia (por exemplo o Bisfenol A) directamente nos nossos cursos de água;

- as "ilhas" artificiais de plástico que flutuam nos nossos oceanos vão sendo quebradas aos poucos através da acção do sol e sal e causam a libertação de microplásticos que acabam por entrar na cadeia alimentar de seres marinhos.

 

Outros impactos existem, mas a questão essencial é o facto de não sabermos muito bem qual o efeito real. O grande problema que vemos no plástico é o facto de ser, bem, visível. Montes de plástico em praias ou nos oceanos são fáceis de ver. Já uma descarga de químicos, a qual pode ser muito mais problemática para o ambiente, pode ser invisível (o efluente pode parecer simplesmente água) a não ser que cause uma zona eutrófica, a qual é normalmente muito visível e causa efeitos imediatos.

 

No entanto o plástico é, pelo menos segundo a Economist, um problema essencialmente em países em desenvolvimento. Nos países desenvolvidos há todo um sistema de gestão dos resíduos que captura e trata os resíduos plásticos. Seja por reutilização, aterro, reciclagem, incineração, compostagem ou outros. Já quando falamos do Bangladesh e da Nigéria, o problema torna-se mais notório por não existir um sistema claro de remoção do plástico da sociedade (este é um problema que sublinha claramente um dos papéis fundamentais do estado e explica porque é que as maluqueiras libertárias não passam de parvoíces).

 

Claro, isto não quer dizer que o problema não possa existir em países desenvolvidos, mas quando olhamos para a pegada ecológica de cada solução. A Economist reporta que um saco de algodão teria que ser reutilizado 131 vezes para ter a mesma pegada ecológica que um saco de plástico de uso único. O valor passaria para 173 vezes caso o saco seja reutilizado como saco do lixo. Suponho que bastaria reutilizar o saco de plástico 3 vezes para as compras (os meus cá em casa são reutilizados mais vezes que isso) para passar para o triplo. Imagine-se: 393 vezes a fazer compras, a duas vezes por semana, daria que o saco de algodão teria quer ser mantido mais de 3 anos e meio para ter a mesma pegada que um saco de plástico.

 

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Porque razão acontece isto? Essencialmente porque os plásticos são quase um produto secundário do processamento do petróleo e gás natural. Cerca de 4% do petróleo que é processado acaba a ser utilizado em plásticos. É normalmente a fracção de C5-C9 (moléculas com de 5 a 9 átomos de carbono) que é recuperada do processo de destilação do crude que acaba por ser utilizada (após outros processos químicos) como monómeros (ou moléculas base) para a produção de polímeros (alguns dos quais são plásticos). Dado que a maior parte do petróleo seria utilizada na mesma como combustível ou para outros fins, o resultado é que a principal pegada ecológica já foi feita com a extracção e processamento da matéria prima.

 

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Isto significa que a solução, pelo menos no horizonte visível (várias décadas) não será banir o plástico do nosso dia a dia, mas procurar soluções, muitas delas já testadas e disponíveis, para mitigar o problema que exista a jusante do seu uso. Uma das soluções de que se fala muito é o uso de plásticos biodegradáveis, mas há aqui uma confusão. por biodegradável entendemos um material que possa ser degradado a um ritmo relativamente elevado (digamos, cerca de 3 a 6 meses) por agentes biológicos (bactérias, fungos, outros microorganismos). O problema é que a maioria dos plásticos não são facilmente biodegradáveis. São compostáveis, mas idealmente em condições industriais, isto é, num meio relativamente húmido, arejado (a presença de oxigénio é fundamental) e com temperaturas relativamente elevadas. Temos então as seguintes distinções nesta área:

- plásticos biodegradáveis, habitualmente o poli-ácido láctico (PLA). Apenas o são em condições de temperatura e humidade específicas e idealmente na presença de sol (ou radiação ultravioleta) e oxigénio. Se estes plásticos vão parar a aterros podem causar ainda mais problemas, dado que os aterros são construídos para evitar exposição a sol e oxigénio e acabariam a causar a degradação, muito lenta, destes plásticos em metano, um gás com muito maior efeito estufa que o CO2. Além disso, o PLA é produzido habitualmente a partir do milho (açúcares são extraídos do milho e processados para levar à produção do PLA). É um processo sustentável mas o milho necessário acaba por utilizar área arável à produção de alimentos.

- plásticos compostáveis, normalmente produzidos através da incorporação de pequenos aditivos em plásticos tradicionais (embora o PLA também posse ser considerado compostável). As condições ideais de compostagem são as industriais, com humidade, oxigénio e temperaturas (de 50 a 70 °C). Se a compostagem for em casa os tempos podem ser muito mais longos e em alguns casos nem sequer é aconselhável.

 

Outras soluções passam pela reutilização simples dos resíduos plásticos. Há projectos de inserção do plástico em estradas, na construção de embalagens (garrafas de plástico e caixas para transporte das mesmas, por exemplo), na construção de edifícios, etc. Estes projectos não necessitam que o plástico seja reciclável, dado que não é necessário que possuam características específicas para tal, bastando as habituais à maioria dos polímeros termoplásticos.

 

E, por fim, temos a questão da reciclagem. Os grandes desafios neste aspecto são a necessiade de recolher o plástico, separá-lo entre reciclável e não reciclável, e processá-lo a valores baixos (uma vez que os plásticos são produtos secundários do petróleo, qualquer baixa no preço deste torna a reciclagem cara). Nos países desenvolvidos a integração de processos de recolha e separação do plástico está já bastante desenvolvida. Já o preço, apesar de continuar a ser um problema, não o é excessivamente, sendo que muitas das dificuldades advêm de a maioria das empresas que se especializam nesta área serem relativamente pequenas e terem dificuldades em capturar economias de escala.

 

Sobra, por fim, o aterro (de que não gosto, mas sinceramente não sei qual a alternativa) e a incineração (que pode ser optimizada - com custos - para limitar a libertação de gases com efeitos estufa ou compostos nocivos).

 

Então onde ficamos com as embalagens alternativas? Não são de descartar, por assim dizer (lamento, não resisti). Enquanto extrairmos o petróleo e não tivermos soluções alternativas para todos os materiais que ele nos permite criar, continuaremos a ter o plástico nas nossas vidas. É sempre possível reutilizar sacos de algodão, preferir garrafas de vidro ou latas de alumínio (o alumínio é reciclável quase ad aeternum), ir por embalagens de papel. Não esqueçamos contudo que qualquer um destes materiais tem os seus custos específicos e que a energia para os produzir não é insignificante. O vidro exige temperaturas elevadas para fundir os silicatos, o alumínio necessita de ser extraído e purificado, o papel necessita que abatamos árvores e as processemos em pasta. Todos são recicláveis, mas o vidro continua a necessitar de temperaturas elevadas (o alumínio penso que um pouco menos), o papel pode apenas ser reciclado algumas vezes até deixar de ter propriedades úteis. E se estes materiais não forem recolhidos devidamente podem acabar também no mar e perturbar os ecossistemas).

 

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A conclusão é a habitual para qualquer cientista (ou engenheiro): não há uma solução global e completa e necessitamos de mais informação para compreender aquilo que vemos. Mais ainda, a principal solução é logística e social, sendo necessário que os países mais responsáveis pela poluição plástica (por não terem sistemas de recolha do mesmo, não tanto pelo seu uso) criem uma infraestrutura de suporte ao uso do mesmo. Até lá bem podemos começar a evitar o plástico (nada tenho contra isso), mas o plástico continuará a não ser verdadeiramente descartável das nossas vidas.

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Memórias subjectivas (4)

por João André, em 26.02.18

A escola

Quando era assim para o pequenininho, a escola só começava lá para os 5-7 anos quando se entrava na primária. Existia já a figura do jardim-escola e da pré-escola, mas eram apenas "o jardim" e "a pré" e ninguém levava aquilo a sério porque não havia trabalhos de casa, faltas, castigos, reguadas, contas e o máximo que se fazia eram umas ondinhas esquisitas que serviam de preparação para aprender os ús e os émes.

 

Claro que é difícil recuar muito tempo sem que a memória comece a falhar ou a pregar partidas. Por isso mesmo eu levanto dúvidas sobre aquela repetição constante dos desenhos de barcos e casas, sempre os mesmos e que talvez possam ter sido feitos uma única vez e eu os recorde ad eternum simplesmente porque o cérebro gosta de nos pregar partidas. Se a nossa biografia é como a lembramos, os episódios de criança devem mais às memórias filiais tingidas pela ternura. Mesmo invocando o meu Trump pessoal, é difícil crer que tenha sido a criança mais precoce, educada, simpática e divertida do mundo, como a família mais velha faz parecer.

 

Avancemos antes no tempo até à primária, a qual fiz em duas escolas, a primeira longe de casa porque os meus pais estavam sempre em viagem e passava os dias com a minha tia e avó. Nesses tempos tive o meu primeiro ataque de pânico ao seguir num autocarro de casa para a terreola para ir à escola já na segunda-feira e um pneu furado me fez chegar com enorme atraso. O medo - completamente infundado - do castigo pelo atraso manteve-se para sempre comigo e ainda hoje o tenho quando me atraso para ir trabalhar (mesmo sem reuniões).

 

A primeira classe é mal recordada. Mesmo muito mal. As seguintes provavelmente também o serão, mas têm a vantagem de terem sido todas na mesma escola e com a mesma professora e assim ser possível empacotá-las e fazê-las parecer mais completas. Recordo que a professora era invariavelmente justa mas já bastante dura para a época, com puxões de orelhas, chapadas e reguadas ainda a serem administradas sempre que os resultados não correspondiam ao desejado. Ainda hoje recordo ter recebido todo o cardápio quando - de forma pouco característica - fui o único incapaz de resolver um problema de divisão. É hoje inconcebível imaginar que tempos houve em que as professoras podiam de facto castigar assim os alunos e ainda bem que assim é.

 

Até por volta do 6º ou 7º ano a minha vida era relativamente simples, mesmo nos ambientes frequentemente cruéis das escolas. As escolas que frequentei nessa altura tinham bastantes alunos de meios sociais mais degradados (dos chamados "bairros sociais", designação que não sei se ainda subsistirá) e tinham notas bastante fracas, sendo a reprovação de ano (o chumbo) muito frequente. Apesar de isso ser receita para um aluno razoavelmente bom e pequeno sofrer, a verdade é que eu ajudava bastante os meus colegas com trabalhos de casa e nos testes e eles, em retribuição, mantinham-me protegido. Era algo que eu nem notava, mas ainda hoje estou imensamente agradecido a todos esses colegas que ajudaram a que o meu período do ciclo fosse algo mais suportável.

 

O meu ano de glória foi indubitavalmente o 6º (ou o "segundo ano do ciclo" como era conhecido na altura). Não só me ofereceu as melhores notas da minha carreira escolar (até com 4 a trabalhos manuais e educação física, casos únicos na minha vida) como me permitiu a distinção como um jogador de futebol de escola com talentos reconhecíveis. Como caí numa turma de apenas 9 rapazes, dos quais seis eram múltiplos repetentes e dois dos outros não gostavam de futebol, acabava por ter a possibilidade de jogar com frequência nas peladinhas inter-turmas. Sendo o mais pequeno, acabava por ser invariavelmente enviado para a defesa (tínhamos dois bons guarda-redes, para meu alívio) na qual eu até me dava bem. Não só não tinha muito que fazer (os nossos matulões de 3 a 5 anos mais velhos que eu dominavam o jogo e pouco sobrava para mim) como quando algum atacante me aparecia à frente eu executava a minha famosa manobra defensiva: "chuta a bola e se falhares a bola acertas na canela". Noutras circunstâncias eu seria sumariamente espancado com tais tácticas, mas quando tinha anjos da guarda que me pareciam um cruzamento entre Kareem Abdul-Jabar e Mike Tyson, a vontade de me castigarem rapidamente desaparecia dos elementos ofendidos.

 

(Neste aspecto devo deixar um pequeno parêntesis para o grande jogo desse ano: o encontro 2ºP (nós) contra 7ºA (os outros). Ao longo de várias semanas que havia a discussão sobre qual seria a melhor equipa da escola. A oportunidade de dissipar dúvidas ia sendo adiada, porque nós éramos das turmas da tarde e eles das turmas da manhã. Contudo, um dia lá se organizou o jogo. Tudo preparado. Nós e eles com os melhores jogadores disponíveis (o nosso guarda-redes tinha febre mas não podia faltar). O campo atrás do pavilhão estava ladeado por um grupo de espectadores que ainda hoje não deve ter sido repetido naquele sagrado terreno. O resultado é que não foi de acordo com o esperado. O 7ºA abriu o jogo com um golo pelo avançado deles, um cruzamento entre touro, cavalo e locomotiva, sem requintes técnicos mas que, lançado, só seria parado por um helicóptero Apache. Era o aviso e fiquei preocupado: se não conseguia acertar no bicho, como o parar? Não houve problema. A verdade é que não voltei a ver a bola. Vencemos por 7-1 (apesar de um golo deles após o final, quando o nosso guarda-redes já tinha saído da baliza) e a humilhação ainda deve ser suficiente para aqueles indivíduos esconderem a cara quando passam em vista da escola.)

 

A minha coroa de glória académica nesse 2º ano do ciclo foi um teste de história, disciplina para a qual tinha apetência e onde as notas acima de 90% eram não só frequentes como corriqueiras. Na véspera de um teste alguém surgiu no final de uma aula com o enunciado do teste da outra turma, a que tinha os testes sempre depois de nós e que eram sempre iguais. Por uma vez éramos nós a poder saber o teste com antecipação: um dia inteiro!! Toda a gente copiou o enunciado (nessas alturas, inexplicavelmente, os nossos telefones não tinham o CamScanner nem tiravam fotografias nem eram, imagine-se, portáteis) menos eu. Não sei ainda hoje explicar porquê. Seria por uma mistura de medo, vergonha, ética e confiança, talvez. Sei que não o fiz. No dia seguinte, com um enunciado que, inevitavelmente, não era igual ao que tinha sido profusamente copiado, toda a gente caiu por terra. Em toda a turma houve duas notas acima dos 50%. A de um colega que teve talvez 51% ou 52% (pelo menos imagino o caso assim) e a minha, também inevitavelmente, com 99% (não sei onde terei colocado mal a vírgula). Desde esse momento que fui visto como uma espécie de feiticeiro, epsecialmente  história, que era capaz de prodígios intensos. Depois veio o 7º ano.

 

A partir do 7º ano, habituado à excelência fácil das minhas notas, caí numa mediania profunda da qual só fui resgatado já no 11º ano por uma fúria contra um colega que gostava de gozar com quem tinha notas piores (quase todos). No desejo de lhe mostrar quem era acabei por melhorar as minhas notas a ponto de conseguir entrar na universidade. Hoje, à distância destes anos, posso também agrader-lhe pela parvoíce. O facto de o ter enfrentado em pleno balneário conferiu-me um certo prestígio extra que nada mal fez à minha imagem na escola (aos 15-16 anos isto contava).

 

A escola em Leiria tinha certos aspectos interessantes. Um deles era a enorme quantidade de góticos que continha. Em Coimbra descobri que a tendência andava pelo punkrockabilly mas Leiria, em respeito pelo castelo, preferia os tons mais escuros. Talvez por isso seja hoje em dia o palco do festival EntreMuralhas (sim, um dos organizadores é um amigo, mas não desses tempos). Era uma cidade já orgulhosamente freak mas infelizmente sem prestígio por isso em tempos sem internet, Twitter, Facebook ou outros instrumentos que realçam o carácter da cidade. Características fundamentais dos góticos, nessa altura ainda em versão soft, era o uso de roupas escuras - claro! - botas Doc Martens com biqueira de aço (nada de imitações) para os pontapés nas sessões de mosh, ar taciturno, mãos permanentemente nos bolsos e postura liieramente dobrada. O curioso é que estes góticos, vistos como servos do diabo por qualquer senhora com mais de 50 anos da zona velha da cidade (onde estavam os bares), eram dos mais bem comportados da escola. Poucos fumavam, quando bebiam não abusavam e eram frequentemente bons alunos. Não fosse aquela roupa velha inspirada por Belzebu e até seriam bons moços, diria a Sra. Adosinda da Rua Direita (sei hoje que se chama Rua Barão Viamonte).

 

A escola onde andei no liceu era a Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo. A outra localizada também na cidade era a Escola Secundária Domingos Sequeira e uma outra, algo fora, era a Escola Afonso Lopes Vieira. E eram inevitavelmente conhecidas como o Liceu, Escola Comercial e Escola da Gândara, respectivamente (se os alunos não recordavam os nomes dos escritores que tinham que aprender nas salas de aula como recordariam os nomes das escolas onde andavam?). Como era lógico, os alunos do Liceu não se davam com os da Escola Comercial. Nem pensar nisso. Como poderíamos falar com eles? Pior que isso só darmo-nos com os da Escola da Gândara. Que ralé!! Ainda hoje me é um mistério a razão desta separação, mesmo (ou especialmente) depois de já na universidade ter namorado brevemente com uma antiga aluna da Escola Comercial, mas tenho a certeza que as razões eram boas. Ainda hoje olho de soslaio pra a Escola Comercial, cujo único aspecto bom era ter espaço para estacionar quando saía ao fim de semana uns anos mais tarde.

 

Um dos grandes mistérios que ainda hoje me assombra é o efeito do 8º ano. Toda a gente falava de o 8º ano ser o ano mais difícil, onde muitos alunos reprovavam. Ainda não sei porquê. Teria um grau de dificuldade mais elevado, isso seria lógico para todos os anos, mas dificilmente seria como uma entrada na universidade. Ainda assim, com ou sem mistério, a verdade é que sofri nesse ano o meu momento de maior tremideira: passei com dsuas "negativas" (a Francês e a Físico-Química - ironia para um engenheiro químico). Também experimentei um momento que acabou por ser determinante na minha vida: ao ver uma pequena exposição dos alunos de Quimicotecnia (opção que existia apenas naquela escola), gostei o suficiente para a querer adicionar como segunda opção quando seguindo para o 9º ano. Acabei nela e, como se costuma dizer, o resto é (má) história.

 

O Liceu tinha obviamente muitos recantos. Havia a zona de baixo, onde havia apenas duas salas que só eram usadas no verão (creio que por serem menos quentes, embora eu não o notasse muito). Havia o ginásio e balneários, zona onde tínhamos que nos vestir a tal velocidade (as toalhas molhadas podem ser chicoteadas a velocidades de Mach 5) que recrutas do exército seriam vistos como lesmas. Havia também a mitológica sala da associação de estudantes, cuja maior virtude era poder ser trancada com uma chave que os alunos da mesma possuíam e que lhes permitia passar os intervalos a fumar. No entanto o espaço mais selvagem, com uma fauna que teria deslumbrado David Attenbourough, era o pátio. Chamar pátio a uma espaço coberto, em forma de galeria, e aberto para os campos e basquetebol, era talvez um exagero, mas era esse o nome e o espaço era sagrado. Havia delimitações claras que hoje não recordo mas que obedeciam a regras muito estritas. Os fumadores ficavam mais para os lados da parede, para nãos erem vistos pelos professores. Os punks ficavam mais longe da porta de entrada, a conversar encostados aos pilares. A miúdas ficavam a conversar e a ver a Bravo (ali ninguém saberia ler alemão e não era pela literatura que queriam a revista) sentadas no degrau que separava o pátio do campo. Os trestantes andavam por ali, em classes sociais completamente estratificadas e bem delimitadas. Não seria boa ideia a ninguém ingressar nos espaços de classes acima sob pena de levar o tratamento "croquete" (ser molhado e depois rebolado na caixa de areia). Já se alguém decidisse passar pelas classes mais baixas, era de bom tom fazê-lo com encontrões e um par de calduços. Até ficaríamos desapontados se isso não acontecesse.

 

Suponho que ainda hoje assim seja: a estratificação das classes entre alunos do secundário é tão normalizada e estrita que seria mais fácil a um intocável casar com um brâmane do que a um aluno do 8º ano ir pedir um cigarro a um do 11º. Note-se que os do 12º ano eram outro caso. Eram já adultos e não se incomodavam com os mais novos. Até adoptavam alguns, em substituição de cães. Estas delimitações eram no entanto flexíveis quando se transpunham os portões da escola, para fora, para o mundo real. Aí a possibilidade de interacção era real, embora sempre contida. Era-me então possível falar directamente com alguma rapariga gira e popular (sim, pleonasmo) sem receio de humilhação (mesmo pedir-lhe as horas em plena escola era arriscado). Os mais novos atreviam-se a pedir lume aos mais velhos e até havia quem bebesse uma cerveja em conjunto ao sábado em pleno Terreiro. Ainda hoje não entendo como era possível compreender estas regras todas e não ser possível tirar mais que um 12 num simples teste de matemática do 10º ano.

 

Claro que tudo isto tinha que terminar. Findo o 12º ano, veio a entrada para a faculdade. No último dia faziam-se as festas, assinavam-se os anuários uns dos outros sem preocupação com classes (era um sucesso conseguir um simples gatafunho do brutamontes que passava o ano a bater-nos n cabeça quando nos via) ou sem consideração para com qualquer familiariedade (metade das assinaturas devem ser de pessoas que eu conhecia no máximo de vista). Era também o momento em que alguns dos professores desciam ao pátio e conversavam connosco, nos perguntavam o que iríamos fazer e quais os nossos sonhos. O momento em que a escola, toda e completmente, se reunia num grupo sem separações, em amizade e numa antecipada saudade.

 

Se todo o ano tivesse sido assim, talvez esse período da minha vida fosse menos conturbado. Contudo, seria menos recordado. E, em todo o caso, éramos adoslescentes. Estar conturbados era a única coisa que todos sabíamos sem ser ensinados. Com, ou sem escola.

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Pensamento da semana

por João André, em 18.02.18

Um mundo completamente ligado electronicamente permite-nos partilhar a nossa vida. Mostramos viagens, sorrisos, festas, roupas, carros, concertos, sucessos profissionais. Fazemos likes aos outros na esperança que façam o mesmo a nós e invejamos. Invejamos o sucesso, o dinheiro, os parceiros, os amigos, a disponibilidade, os corpos, os brinquedos, a família. Invejamos a vida.

 

A vida toda? Não. Apenas metade dela. A outra, a que não vemos e que nos ajuda a crescer para podermos, saibamos aprender e tenhamos sorte, ter aquela que mostramos aos outros. Pena então que a vida que mostramos não seja aquela que melhor serviria os outros. Que tragédia tão electrónica. Que tragédia tão humana.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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A Cidade do Cabo seca

por João André, em 07.02.18

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Imagem da albufeira da barragem de Theewaterskloof (zona da Cidade do Cabo) a 27 de Novembro de 2017.

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 Imagem aproximadamente do mesmo ponto em Março de 2010 (imagem Google Maps).

 

No final de Novembro do ano passado estive na África do Sul em trabalho. O propósito da minha visita era avaliar o problema da seca em algumas das localizações da empresa no país. O caso mais premente era (e é-o cada vez mais) o da Cidade do Cabo.

 

Ao aterrar, fomos logo informados pela tripulação que a região estava a passar por um período de seca e que deveríamos tentar poupar tanto quanto possível de água. O aeroporto estava cheio de avisos sobre o problema da seca e até os placards electrónicos na auto-estrada nos lembravam do problema. Os avisos repetiam-se um pouco por todo o lado. O hotel estava cheio desses avisos, a carta de boas-vindas do hotel lembrava-o, o restaurante onde jantei servia água engarrafada para evitar consumo local.

 

Na fábrica falavam já do dia zero, o dia em que deixará de haver abastecimento doméstico de água e toda a gente terá de recolher a sua dose diária em pontos específicos espalhados pela cidade. Neste momento o dia zero está planeado para 11 de Maio, mas poderá ser antecipado (quando lá estive falavam do início de Julho). Nessa altura toda a gente terá à sua disposição apenas 25 litros de água por pessoa. Se isso parece muito, considere-se que essa água é necessária para beber, tratar da higiene pessoal, cozinhar, limpar casa, roupa, etc. Além disso, para ter essa água será necessário passar provavelmente longos períodos em filas à espera de vez.

 

Isto sucede porque o nível das barragens que abastecem a Cidade do Cabo está a níveis baixíssimos. A maior barragem da região, de Theewaterskloof e que tem capacidade para mais de metade da água contida em barragens na zona, está neste momento a 12,3% da sua capacidade. A partir do momento em que chegue a 10%, poder-se-à considerar como seca, uma vez que é muito difícil extrair a água. Isso significa que a estimativa de 11 de Maio, que é baseada na tendência geral do total das barragens, poderá ser antecipada. Isto porque a partir do momento em que Theewaterskloof chegue aos 10%, a sua capacidade poderá ser corrigida para zero.

 

Quem quiser ver os valores actuais pode vir a esta página para se informar dos valores actuais. Se lerem o relatório diário com o nível de cada barragem, tenham em consideração que as barragens de Steebras Lower e Steenbras Upper são essencialmente reservatórios com capacidade reduzida para onde flui a água que chega dos recursos a montante.

 

Quando vi a barragem de Theewaterskloof fiquei, confesso, chocado. Sabia que iria ver volumes baixos, mas não imaginava o cenário de desolação. Quando preparei o meu relatório da visita coloquei imagens retiradas do Google Street View em 2010 para contrastar com as fotografias que fiz na altura (ambas as fotografias encimam este post). O contraste é brutal, até porque em Março os níveis históricos das barragens da região são mais baixos que em Novembro. Outra coisa que me chocou foram as nuvens de poeira em determinadas áreas, especialmente a forma como eram empurradas pelo vento para povoações nas imediações da barragem.

 

O objectivo da minha visita, além de avaliar a situação, era a de procurar soluções para tratar o efluente da fábrica de forma a produzir água potável que pudesse ser utilizada internamente e fornecida à população da cidade. Aquilo que me voltou a chocar foi o facto de a cidade não fazer o mesmo: o efluente municipal, depois de tratado, estava a ser despejado no mar. A água residual da população era tratada como um recurso não renovável.

 

O que me parece claro é que a situação na região do Cabo Ocidental está a ser essencialmente a de funcionar como o canário na mina de carvão em relação ao impacto das alterações climáticas na disponibilidade de água. Esta é uma situação de seca que será mitigada no futuro, quando as chuvas voltarem, mas tal como na Austrália na "Seca do Milénio", as condições não voltaram a ser as mesmas. O mundo tem que continuar a procurar soluções para mitigar o efeito das alterações climáticas, mas é necessário criar soluções técnicas para os desafios imediatos. A Cidade do Cabo está a começar a acordar para eles. Em Portugal pergunto-me quando isso será feito.

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A acusação para censurar

por João André, em 19.01.18

O Pedro dedicou dois posts para acusar os movimentos #metoo e Time's Up de censura. Tenho a certeza que a única coisa que o Pedro está a pensar é que estes movimentos têm que controlar a sanha acusatória e está a procurar colocar água na fervura. Está no entanto a fazê-lo de forma errada.

 

A verdade é que me estou nas tintas para as acusações a Woody Allen. Ele já as sofre há décadas (e com boas razões) e nunca teve reais problemas. Também me estou nas tintas para as acusações às outras figuras do entretenimento. Estas surgem precisamente porque os seus alvos são pessoas que têm uma imagem a defender e, como tal, estão mais expostas e não podem reagir de forma tão agressiva como alguns outros.

 

Quantas acusações ficam por fazer? Quantas mulheres espalhadas por todo o tipo de indústrias não falam do que sofrem por medo? Ou quantas são ameaçadas, chantageadas, ignoradas e - sim!, digamo-lo - censuradas por terem acusado alguém? O The Guardian reportou uma cultura de abusos na ONU e subsequente cultura de encobrimento. Quantos outros locais não são iguais? Quantas mulheres foram abusadas por Weinstein ao longo dos anos porque estas acusações não surhiram mais cedo?

 

A verdade é que se este movimento cometará exageros (qual o movimento que não o faz?, pergunto eu mais uma vez) também estará a ajudar as mulheres a finalmente falar das suas situações com menos medo ou, pelo menos, sabendo que têm outras mulheres que as compreendem, que sofreram o mesmo.

 

Acusar este movimento de censura, quando ainda não tem um ano de existência, quando veio a público de forma mais clara ainda não há um mês, não serve para mais que querer empurrar as mulheres para o buraco onde estiveram enfiadas e dizer-lhes «fica mas é quietinha e tem respeito pela mão que te dá de comer!». Na verdade, mesmo sem essa intenção, acusar o movimento de censura nada mais fará que o censurar. São tácticas trumpianas.

 

Querem que estas mulheres saiam do buraco? Deixem-nas falar. Deixem-nas acusar. Quando as acusações não tiverem fundamento, deixem que isso seja apurado de forma correcta. Quererem que elas se calem é voltar a oprimi-les. Quantas mais mulheres falarem, mais facilmente os casos graves se compreenderão.

 

Até lá, não notei que Allen, Franco ou Ansari tenham perdido contratos. Já as mulheres que os acusaram possivelmente estão hoje a ser riscadas de listas. Não admira que algumas escolham o anonimato*.

 

* - ela não é anónima. Está perfeitamente identificada para o/a jornalista que a entrevistou. Não dar o nome publicamente numa entrevista não é anonimato. Como o Pedro bem o deveria saber.

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#metoo - um pequeno preço a pagar (2)

por João André, em 14.01.18

O Pedro Correia seleccionou dois textos nesta temática como comentários da semana. Compreendo-o, houve depois do meu mais alguns posts muito relevantes sobre o assunto aqui no blogue. Noto que os dois textos são ambos escritos por homens e vão na mesma direcção: "coitados de nós que agora passámos a ser perseguidos e já não podemos dizer nada que somos logo perseguidos".

 

Claro, cada um tem a sua opinião, mas ninguém tem direito aos seus factos. Se há casos de mulheres que exageram nas acusações e na pose incendiária e desejo de justiça/vingança, também é certo que a esmagadora maioria dos casos de acusações constituem, no mínimo, comportamento impróprios. Não se trata na maioria dos casos de mulheres a queixar-se de abordagens sexuais, mas da forma como essas abordagens foram feitas.

 

Como escrevi, haverá quem se queixe e terá razões para isso, mas aquilo que deveremos ter que fazer será recalibrar as nossas atitudes para aceitar que o objecto do nosso desejo pode não considerar os nossos avanços tão inofensivos quanto isso. Se os homens não compreendem a necessidade de aceitar este simples facto, então o "preço a pagar" é ainda mais que ajustado.

 

Esta história parece-me simplesmente mais um episódio nas mudanças sociais que elegeram Trump: uma categoria/classe de cidadãos (neste caso, homens) perdem parte do seu poder. E reagem contra isso. Os comentários que o Pedro seleccionou, relevantes como a maioria dos que surgiram ao longo desta semana, fazem parte dessa lógica. A da falácia do espantalho. Nisto, estou com a Teresa.

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#metoo - um pequeno preço a pagar

por João André, em 10.01.18

Uma das consequências do movimento #metoo and #balancetonporc é o sentimento de medo que se tem instalado entre a população masculina. Em parte isto tem-se reflectido essencialmente em figuras públicas, mas de tempos a tempos ouvimos falar de situações em empresas ou comentários genéricos sobre investigações acerca de abusos sistemáticos. Agora surge uma carta aberta de um colectivo de 100 mulheres no Le Monde que defende a «liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual».

 

Esta carta sugere aquilo que deveria ser óbvio: num mundo de maturidade, de decência, e de igualdade, a liberdade de importunar uma mulher (ou um homem) por um homem (ou outra mulher) numa tentativa de flirt, de sedução, deveria ser incontestável. Ninguém se deveria incomodar com comentários que insinuem intenções sexuais, nem com contactos físicos decentes (toques na mão, contacto de joelho com joelho, mãos discretamente nos ombros, etc, dependendo de cada um/a). Da mesma forma que a pesosa em causa deveria ter completa liberdade de rejeitar o interesse e ficar em paz e sossego. A insistência deveria ser permitida, bem como a reiteração, de forma mais insistente, da rejeição. Estas são regras, que não devem necessitar de ser escritas, que permitem a coabitação numa sociedade normal.

 

O que vemos no entanto é que os homens começam a sentir-se ameaçados. Têm que justificar comentários ou gestos completamente inocentes e sem segundas intenções, têm que explicar que aceitaram rejeições sem dificuldades e seguiram em frente, sem tomar quaisquer outras medidas contra quem os rejeitou, ou que talvez tenham tido gestos ou comentários pouco apropriados no momento mas pediram desculpas à pessoa em causa. Começam agora a ter que fazer pedidos públicos de desculpa (tanto mais quanto mais públicas sejam as figuras),  como se a população em geral tivesse alguma coisa que ver com estas situações.

 

Temos então um mundo onde os homens começam a ter medo, a ter que pedir desculpas e a perder emprego com acusações das mulheres.

 

Já vem tarde!

 

O problema com abusos sexuais ou comportamentos indecentes não está descrito em nenhum manual. Uma violação não está consumada apenas com um acto sexual. A percepção da pessoa que sofre é o elemento fundamental. As mulheres (são quase sempre mulheres) podem sentir-se agredidas com actos aparentemente inócuos se o balanço de poder entre elas e o abusador for altamente desequilibrado para o lado deste. Um homem que demonstre interesse numa mulher num bar tem menos poder que um colega numa posição superior (hierarquicamente, financeiramente ou simplesmente graças à sua influência na organização). Se o primeiro pode ser rejeitado com alguma seguramça, existe sempre o medo que o colega decida agir contra a mulher e arruinar-lhe a carreira ou a reputação.

 

No caso de violações, o principal dano não é sexual, antes psicológico. Isto é válido para mulheres e homens, que sofrem de sentimentos de impotência e vergonha por terem sido forçados a actos contra os seus desejos. O acto pode não passar por mais que serem observados a tomar banho (como Weinstein foi acusado de pedir/exigir) e ser considerado na mesma como violação.

 

O último e mais importante aspecto do desequilíbrio d epoder entre homens e mulheres está na questão da força física. Em média uma mulher é fisicamente mais fraca que um homem e terá dificuldades em se defender se o homem a quiser agredir. Este aspecto é de tal forma determinante que desequilibra até situações onde mulheres detêm poder hierárquico sobre homens. Este é, além disso, o aspecto mais determinante também do ponto de vista histórico e que tem sido a principal fundação da desigualdade entre homens e mulheres que dura até aos dias de hoje.

 

Assim sendo, a minha visão é simples: as mulheres têm sofrido ao longo de séculos (milénios). São desconsideradas nas opiniões, mal pagas (quando são pagas), ignoradas, sofrem mais facilmente com qualquer acusação da parte de homens, são descriminadas inclusivamente devido à sua própria fisiologia. Se os homens têm que sofrer durante uns anos ou décadas, serem acusados injustamente de atitudes impróprias - ó desgraça, infâmia - e serem obrigados a esclarecer acções e gestos e pedir desculpas por terem sido talvez pouco sensíveis às percepções das mulheres, assim seja. Metade da população mundial tem sido favorecida de forma (demasiadas vezes) brutal. Se agora alguns deles têm que passar a ter mais atenção e podem sofrer, é um preço que devemos estar completamente dispostos a pagar.

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Um ano de Trumpismo

por João André, em 03.01.18

Ao longo de 2017 fui-me abstendo de comentar a presidência de Trump. Fi-lo essencialmente por três razões: 1) nao tenho humanamente tempo para comentar toda a estupidez que sai da Casa Branca a um ritmo diário; 2) seria cansativo para qualquer leitor; 3) a asneira poderia muito bem ser minha e vale a pena não condenar alguém excessivamente cedo (especialmente quando eu não vou ser lido por ele e não o posso influenciar). Agora, ao fim do primeiro ano de Trump na Casa Branca, tento deixar uma reflexão.

 

Antes de mais é-me complicado escrever "trumpismo". A única característica do "trumpismo" enquanto política é a crença de Trump num mundo de soma zero, onde há vencedores e vencidos em cada conversa, diálogo ou negociação e a medida em que cada parte é vencedora é a mesma em que a outra é vencida. Esta visão é obviamente errada: basta ver o resultado de negociações que ponham fim a guerras, que acabam com o sofrimento da esmagadora maioria das pessoas. Haverá quem perca (por exemplo a indústria do armamento) mas nunca na mesma medida em que os outros vençam.

 

Já as outras características que Trump tem usado ao longo desta sua presidência não são políticas. Narcisismo, bullying, insultos, estupidez, egoísmo, interesse pessoal, mentira, etc, nada disso é política, mesmo quando usados ao serviço da mesma. Estas características são apenas aquelas que, a menos que me engane muito, colocarão Trump como o pior presidente da história dos EUA (ou muito perto disso).

 

Como o avaliar? Comecemos com as suas vitórias. Aqui teve duas: nomeou Neil Gorsuch para o Supremo Tribunal e conseguiu passar a sua reforma do sistema de impostos. Tudo o resto até ao momento pouco teve de vitória. Mudar leis para permitir às empresas poluir mais ou colocar centenas de milhar de pessoas em risco de serem deportadas do país onde viveram toda a sua vida não são vitórias. São actos de estupidez e maldade. Nem há argumentação em defesa do que ele fez.

 

A nomeação de Gorsuch pode ser vista como uma vitória, mesmo que o seja mais do braço parlamentar, quando impediu Obama de cumprir o seu papel e apresentar o seu nomeado. Gorsuch veio inclinar a balança do Supremo Tribunal para o lado mais conservador mas, para ser sincero, Trump parece ao menos ter escolhido alguém com sólidas credenciais intelectuais, ao contrário de algumas das suas outras escolhas para juízes, tão incapazes que até conservadores lançam as mãos aos céus. Mesmo assim é bom lembrar que Gorsuch foi aquilo a que os americanos chamam um gimme, tão fácil num congresso completamente dominado pelo Partido Republicano que seria o mesmo que aceitar elogios por um pôr do sol bonito.

 

Os impostos então. É uma clara vitória, isso sem dúvida. Trump conseguiu avançar com a sua reforma, a mais profunda desde Reagan, mesmo contra as objecções do seu próprio partido. Conseguiu ainda colocar-lhe cláusulas que provavelmente acabarão com o Affordable Care Act, conseguindo assim aquilo que não foi possível por via legal normal. Claro que conseguiu esta vitória de uma forma exclusivamente partisan, sem diálogo, sem apoio de mais ninguém, contra todos os conselhos dos especialistas, contra aquilo que todos os estudos indicam e de uma forma que vai aumentar o défice, aumentar a carga fiscal da esmagadora maioria dos americanos depois da próxima eleição (que coincidência) e aumentar a sua fortuna e a dos membros do seu gabinete. Mas foi uma vitória. Para a sua conta bancária, pelo menos.

 

De resto? Bom, não só não conseguiu impedir a Coreia do Norte de adquirir um arsenal nuclear credível (embora provavelmente ninguém o conseguisse), mas conseguiu também hostilizar o ditador que tem o dedo nesse mesmo arsenal. Claro, os EUA provavelmente não temem verdadeiramente o arsenal norte-coreano. Uma coisa é possuir um míssil com alcance para chegar a Washington DC, outra é acertar no alvo e ainda outra é conseguir que o mesmo não seja abatido pelas defesas americanas. Além disso os EUA sabem que podem transformar a Coreia do Norte num planalto se forem atacados. Não serão os norte-americanos a sofrer com a estupidez e egotismo de Trump. Poderão antes ser os sul-coreanos, que morreriam às centenas de milhar se as hostilidades começassem a sério; ou os norte-coreanos que já são oprimidos mais que qualquer outro povo no planeta e que morreriam aos milhões. Mas Trump já provou que se está nas tintas para o sofrimento que causa a outros.

 

Que mais? Decidiu aceitar a transferência da embaixada em Israel para Jerusalém. Não contente com isso e perante a condenação internacional, decidiu "punir" o resto do mundo ao cortar financiamento de programas da ONU. Agora, pensando que ainda há quem possa sofrer mais, ameaça cortar o financiamento aos palestinianos, especificamente à Autoridade Palestiniana. Mais uma vez estupidez pura: se pensa que os palestinianos irão agora baixar os braços depois de serem punidos, vai provavelmente ser acordado ao som de bombas. Mas não vai ser ele a sofrê-las, serão antes os israelitas a morrer, aqueles que ele diz querer ajudar a proteger. Mais: o processo de paz na Palestina chegou ao fim por muito tempo. Dado que os EUA são indispensáveis ao mesmo, não será retomado tão cedo. Lá poupou umas viagens ao genro, o manequim que tem uma enorme pasta que deve servir de pisa papéis lá em casa.

 

Saiu da UNESCO. A sério, que lógica tem isto? Esqueceram-se de designar a monstruosidade que é a torre Trump como património da Humanidade?

 

Saiu do acordo de Paris. Basta ver a reacção da indústria americana para saber que foi mais uma estupidez.

 

Está a tentar destruir alianças de décadas na Europa. A curto prazo é mau para os europeus. A longo prazo nem tanto. Entretanto a CIA, o FBI e a NSA devem andar a tentar reparar os danos para poderem continuar a receber informação.

 

Ainda vai acabar com o Irão a construir armas nucleares. Sinceramente, o homem deve querer que o resto do mundo se arme.

 

A sua administração fez um bom trabalho com um furacão e depois, quando o outro caiu sobre os hispânicos, decidiu que esses não mereciam a mesma atenção.

 

Não deixou uma palavra de crítica à Rússia (não falo da investigação sobre o potencial conluio, isso pertence á justiça dos EUA) mas criou um vazio que Xi Jinping tem vindo a aproveitar para expandir a influência chinesa, essa grande democracia.

 

Conseguiu em um ano perder um porta-voz, um chefe de staff, um conselheiro nacional para a segurança, dois directores de comunicação e a única mulher negra que tinha num posto sénior. As suas nomeações para as centenas de posições que já deveria ter preenchido têm sido tarde e esmagadoramente masculinas e brancas (80%, se não me engano). Conseguiu ainda que o seu Secretário de Estado tivesse a relevância de um peixe fora de água.

 

Claro. posso estar errado. Trump pode estar a quebrar o molde dos políticos mas poderá conseguir resultados que o mundo deseja desde há décadas. Poderá conseguir levar a paz ao médio oriente, atingir uma nova era de colaboração entre as Coreias, desenvolver a economia dos EUA para níveis não atingidos desde há muito e obter uma conciliação interna no seu país entre as diversas correntes de pensamento. Já houve coisas mais estranhas a acontecer (se bem que me falha a memória do que fosse).

 

No entanto penso que não e, para dizer a verdade, não sei o que seria pior.  Se um mundo mais inseguro, menos próspero, mais intolerante, mais desigual e mais dominado por ditadores ou iliberais; ou um mundo que está melhor mas que lá chegou devido a um ogre na Casa Branca. Por agora fico-me. Talvez volte ao assunto no próximo ano se ainda cá estivermos.

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Anonimato na net

por João André, em 18.12.17

O post da Patrícia toca em vários pontos essenciais. Reflicto abaixo sobre um deles: devemos ou não aceitar comentários anónimos nos nossos posts?

 

Eu permito-os por três razões que deixo em comentário no post dela:

1. Quem queira ser troll não deixa de o ser por causa de ser anónimo. Basta abrir contas falsas e depois espalhar o seu lixo. Mesmo que seja bloqueado nada o impede de abrir mais contas. Bloqueá-lo não muda nada: a revisão de um comentário antes da sua aprovação continua a ter de ser feita.

2. Há pessoas que preferem não abrir contas. Compreendo isso: é mais uma conta para lembrar, mais um destino para spam e mais uma forma de poder ser seguido pelos algoritmos da net. Além disso há comentadores que acabam por assinar na mesma. Lembro-me agora do nosso comentador João de Brito.

3. Um nome, na net, nada significa. Qualquer um de nós pode assinar com o alias que preferir sem que isso signifique seja o que for.

 

Já quanto à "censura" que alguns comentadores clamam quando não aprovamos os comentários, tenho os seguintes pontos.

1. Não é censura. A censura é uma limitação grave da liberdade de expressão. Ao não aprovar um comentário ofensivo, agressivo, ou indecente, não impedimos qualquer liberdade de expressão. O comentador em causa continua a ser livre de colocar o mesmo comentário no Facebook, no Instagram, num blogue pessoal ou, se os donos tiverem estômago para isso, noutros blogues ou em jornais.

2. Limpar comentários nas caixas de cada um dos autores é um acto de higiene. Ninguém pensa que estamos a impedir liberdade de expressão às moscas quando removemos o lixo de nossas casas.

3. A democracia só o é de forma verdadeira quando existe um debate respeitoso. O ruído impede-o e, como tal, comentários ou opiniões agressivos e/ou ofensivos impedem uma discussão correcta. Como tal, numa discussão, ao limparmos eses comentários estamos a promover a democracia. Eu não retirarei o comentário não ofensivo de alguém que proclame a inferioridade de alguém de uma crença específica, mas fá-lo-ei a alguém que posteriormente insulte o autor desse comentário.

 

O problema das caixas de comentários é que se tornaram repositórios de frustrações. Eliminar opiniões não faz sentido, até porque isso não é possível (só eliminamos um registo das mesmas). Faz muito mais sentido que apenas sejam retirados os comentários que ultrapassem os limites das regras da sociedade. Já os outros, é sempre melhor que sejam publicados. Primeiro porque é assim que funcionam sociedades livres; segundo porque por vezes são apenas desabafos e nada mais; por último porque ficam registados para o futuro e podem ser usados para confrontar os seus autores.

 

A responsabilidade, ao contrário da opinião, não é um direito. É um dever. De todos.

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Dar a Bola de Ouro (voltando à vaca fria)

por João André, em 13.12.17

Há 4 anos escrevi um post sobre a atribuição da Bola de Ouro. Na altura o prémio era concedido pela FIFA juntamente com o France Football. Desde o ano passado que voltou a ser atribuído apenas pelo France Football, com a FIFA a passar a conceder o prémio The Best. A diferença entre um e outro é que o prémio da FIFA é atribuído após a votação dos seleccionadores e capitães das selecções do mundo inteiro, enquanto que o prémio da France Football advém do resultado das votações de jornalistas seleccionados a partir de publicações europeias.

 

A diferença na escolha do júri não é incipiente. Se a votação em 2010 e 2013 tivesse sido a partir dos jornalistas, os vencedores teriam sido Sneijder e Robben em vez de Messi e Ronaldo, respectivamente. Aliás, ver o pódio de 2000 para cá (escolhi 2000 para coincidir com maior uso de internet e maior mediatização do prémio) dá a ideia que jogadores menos mediáticos serão mais facilmente escolhidos pelos jornalistas que pela FIFA e pelo seu painel de seleccionadores e capitães. Basta ver algumas das escolhas. A FIFA colocou no pódio apenas dois jogadores (Kahn e Cannavaro, uma vez cada) que não fossem médios atacantes ou avançados. Por oposição a FF fê-lo 6 vezes (ignorando o período de atribuição conjunta).

 

Estas considerações não servem para indicar qual o melhor troféu (eu tenho a minha preferência, mas não a imponho, é apenas isso, uma preferência). Serve apenas para demonstrar que grupos diferentes de pessoas podem ter critérios diferentes. Em 2013 fiz o exercício sobre quais poderiam ser os escolhidos de acordo com diferentes critérios. Farei agora o mesmo.

 

1. Jogador mais talentoso. Este ano eu continuaria a votar em Messi por continuar a ser o mais talentoso. Em segundo teria provavelmente Neymar e em terceiro escolheria mais rapidamente Isco que Ronaldo se obrigado a ir ao Real Madrid.

 

2. O jogador mais decisivo. Difícil escolher. Ronaldo foi decisivo na fase mais importante da Liga dos Campeões, mas Isco andou com a equipa às costas na liga e até na LdC (embora fosse Ronaldo a marcar os golos). Messi manteve o Barcelona vivo na Liga apesar da letargia dos colegas. A importância de Lewandowski notou-se essencialmente quando teve que jogar contra o Real Madrid preso com cuspo e arames. Ainda assim é perfeitamente legítimo escolher Ronaldo no ano em que o Real Madrid venceu liga e Europa.

 

3. O melhor jogador da melhor equipa. Depende de como escolher o melhor da melhor equipa (que foi o Real Madrid). Ronaldo marcou os golos mais importantes na Europa para o Real Madrid. Isco fez a equipa jogar e levou a bola às zonas onde Ronaldo (que já não é dado a cavalgadas) pode ser decisivo. Modrić foi o pêndulo de toda a equipa. Casemiro deu-lhe equilíbrio e Marcelo largura. Cada um escolhe o que prefere. Eu teria ido por Isco neste critério.

 

4. O jogador mais completo. Sobre o que se considera "completo", reveja-se o que escrevi no passado. Para mim é difícil imaginar jogadores mais completos que Pogba. Outros candidatos: Kroos, Modrić, Messi, Verratti, Dybala, De Bruyne, Kanté. Este ano eu teria ido por um de 3: Kanté, Pogba ou De Bruyne.

 

5. Estatísticas. Quem quiser verificar isso, pode ir a WhoScored.com e procurar os seus jogadores preferidos. Especialmente com as novas múltiplas métricas por onde escolher. Eu fiz uma análise simples usando as estatísticas do site acima. Escolhi as métricas de golos, assistências, tackles, intercepções e passes chave (tudo por jogo). A seguir dei uma pontuação a cada métrica: 8 por golo, 5 por assistência, 1 por tackle, 2 por intercepção e 2 por passe chave. Cada um poderá fazer o mesmo e dar valores diferentes. Duas observações: não especifiquei apenas o ano de 2017, usei antes os dados disponíveis para 2016/17 e 2017/18, pelo que os jogadores que tenham tido um bom final de 2016 serão beneficiados. A segunda observação é que tratei todas as métricas como iguais, não dando qualquer peso a jogos específicos (como a final da LdC). Com esses dados cheguei ao gráfico abaixo para uma selecção (pessoal, apenas de jogadores das 5 principais ligas e que tenham jogado na Europa) de jogadores.

grafico estatisticas jogadores 2017.jpg

Pontos totais por jogador e por jogo. A cores diferentes Cristiano Ronaldo, Lionel Messi, Neymar e Alexis Sanchez. A linha laranja indica a pontução de Ronaldo.

 

Com este exercício, acabamos com 14 jogadores com pontuação superior à de Ronaldo. Mais uma vez, isto não indica importância das acções, apenas a estatística específica. Nesta métrica, Messi venceria, com Neymar muito por perto e Coutinho a encerrar o pódio.

 

6. Uma mistura de todos os critérios acima. Seria a minha escolha e, suponho, a da maioria das pessoas, embora com pesos diferentes para cada aspecto (texto copiado de há 4 anos). Desta forma eu iria por Messi dada a forma como carregou com o Barcelona às costas com os colegas completamente irreconhecíveis. Estejam à vontade para discordar. Daqui por um mês eu poderei fazer o mesmo.

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O desafio da gestão da água em Portugal

por João André, em 22.11.17

Agora que a seguir aos incêndios começam a surgir os alertas para a falta de água, vale a pena reflectir sobre o desafio estrutural de abastecer água, potável e não potável, a uma população. Portugal é um caso onde este desafio já deveria ter sido assumido há muito de forma interpartidária: é um país pouco húmido, com zonas mais áridas, forte concentração populacional em centros urbanos no litoral e uma costa marítima muito extensa. É também um país com forte implantação de energias renováveis, o que é bastante útil no caso do abastecimento de água.

 

Uma primeira reflexão deve ser feita no que diz respeito à escassez da água. Tenho frequentemente que explicar a amigos que a água não é um bem escasso, ou pelo menos não o é da mesma forma que o petróleo o é. Toda e qualquer molécula de água que é consumida na esmagadora maioria dos processos de humanos (consumo humano, irrigação, lavagens, incorporação noutras bebidas, etc) continua a existir após o seu "consumo". Mesmo nos casos raros em que a molécula de água é decomposta nos seus átomos (como por exemplo em electrólise), estes acabam por se reconstituir na atmosfera (é o facto de a molécula de água ser um arranjo tão favorável para o hidrogénio e o oxigénio que a torna tão estável e útil). Isso significa que não há razão para se considerar a água um recurso finito, antes transformável.

 

Esta distinção importa porque significa que a água pode ser obtida a partir de múltiplas fontes ou - e é este o aspecto essencial - reutilizada. Aliás, observar um mapa mundial da acessibilidade de água para consumo ajuda a perceber a distinção. O gráfico abaixo mostra Portugal numa situação pouco melhor que Espanha e França, pior que vários países africanos e melhor que Bélgica, Holanda e Alemanha, países líderes no campo. Uma das razões para isso é a disparidade temporal do acesso à água. Nos países africanos a disponibilidade de água depende da época das chuvas - fora destas pode haver falta de água. O mesmo acontece historicamente com a Índia. No caso dos países do centro da Europa o problema prende-se mais com a qualidade da água disponível. Nestes países o nível de industrialização levou a que os cursos de água estejam frequentemente poluídos. No caso da Holanda acresce o problema de terem recuperado terra ao mar: os recursos hídricos estão frequentemente contaminados com sal.

 

Global+Water+Availability.jpg

Fonte: National Geographic

 

Como resolvem estes países o seu problema? "Simples": tratam a água de forma proactiva e agressiva e consideram-na um recurso fundamental. A qualidade é monitorizada constantemente e ajustada conforme o necessário. Além disso os recursos hídricos estão incorporados no processo de gestão de água, não só no aspecto da captação de água mas também na descarga da mesma depois de tratada. Só que isto não deveria ser suficiente e é muitas vezes um desperdício. A gestão correcta deveria ser muito mais eficiente.

 

Um caso que conheci é o da cidade de Aachen. Nesta cidade alemã (muitos portugueses ainda a conhecem pelo nome francês de Aix-la-Chapelle) junto às fronteiras com a Holanda e  Bélgica o sistema de tratamento e captação de água é integrado. As águas residuais municipais são recebidas pelas estações, tratadas e descarregadas nos cursos de água naturais da região. As águas destas fontes são captadas, tratadas e enviadas para a cidade. Isto cria um ciclo mais ou menos fechado que parece ser eficiente (e de certa forma é-o).

 

Olhe-se no entanto para o mapa abaixo, onde coloquei os pontos de e para onde a água é bombeada, por onde flui e onde é tratada (atente-se a legenda). O mapa abaixo não referencia diferenças de altitude entre os diversos pontos (este artigo do Aachener Zeitung tem uma ilustração que o mostra).

agua aachen ligacoes.jpg

Legenda: 1 - Estação de tratamento de águas residuais. 2 - Albufeira que recebe (por bombagem) as água tratadas em 1. 3 - Estação de bombagem de água para 4. 4 - Albufeira. 5 - Barragem que liga com outra Albufeira. 6 - Estação de bombagem de água para outra albufeira. 7 - Estação de produção de água potável. 8 - Aachen.

Linhas vermelhas: água bombeada (as linhas não descrevem o percurso real). Linhas verdes: água em curso natural (rio, albufeira). Losangos: estações de tratamento e/ou bombagem. Círculo: barragem com passagem natural de água.

 

Aquilo que eu gostaria de salientar é a distância, mínima, entre a estação de tratamento de águas residuais e a estação de produção de água potável. Também seria bom indicar que a água que é descarregada nos cursos de água naturais não tem uma qualidade muito distinta da da água que é captada para produção de água potável. Isso significaria que seria tecnicamente simples tratar o efluente da estação de tratamento de águas residuais para produzir a água potável necessária para a cidade de Aachen. E isto seria possível muito mais próximo da cidade.

 

Há outras questões técnicas que teriam de ser resolvidas. Levar a água residual ao nível de potável é relativamente simples, mas não é possível com eficiência a 100% (a segunda lei da termodinâmica impede-o naturalmente, mas tecnicamente seria inviável). Haveria portanto que encontrar uma solução para a fracção do efluente. No entanto não é esse o maior impedimento para tal opção.

 

O maior impedimento é humano: as pessoas não querem beber água tratada, independentemente da qualidade que seja assegurada. Queremos beber água "natural", que imaginamos nunca contaminada em ponto nenhum ou, em alternativa, que tenha sido "purificada" pela Natureza. Claro que isto é uma fantasia. A maior parte da água que existe no mundo não é fresca (i.e., não é salina). Da água fresca, apenas cerca de 30% está disponível e não sequestrada como gelo. E da disponível, apenas uma parte está à superfície da Terra.

 

water availability.jpg

Disponibilidade de água no mundo. Tirada daqui.

  

Ainda assim, sistemas como o que descrevi acima (reuso indirecto) ajudam à fantasia. Os humanos rejeitam de tal forma o reuso directo de água (tornar a água imediatamente potável, por oposição ao uso indirecto) que preferem sempre que possível dessalinizar água do mar. Isto faz sentido em certas situações, como no Médio Oriente, em zonas costeiras áridas (Califórnia) ou em ilhas-estado muito populosas como Singapura, mas é energeticamente menos eficiente (pressões equivalentes a 60 atmosferas são necessárias para produzir 60 L de água dessalinizada por cada 100 L de água bombeada, por exemplo).

 

O reuso directo de água, bem como o reuso de água não potável (como no caso de irrigação) poderia baixar drasticamente a necessidade de captar água a partir de fontes à superfície ou subterrâneas, além de baixar imenso o custo do tratamento da água. Igualmente importante seria potenciar a captação e gestão de água da chuva, criando bacias que recebessem o excesso de água. Esta prática milenar existiu por todo o mundo e terá sido aperfeiçoada na Índia, mas a expansão humana e industrialização destruíram muitas das opções que existiam ao cortar cursos naturais (ou de mão humana mas muito antigos) de água.

 

Portugal tem algumas condições excelentes para não ser um país com escassez de água. As zonas mais populosas são também as mais prósperas e onde a indústria está mais desenvolvida e também onde em teoria é mais fácil implementar sistemas integrados de gestão de água. Isso significa que seria simples implementar sistemas técnicos de reuso em cidades como Lisboa ou Porto (ou outras) e reduzir de imediato as necessidades de captação de água e, consequentemente, diminuir o risco causado por períodos de seca.

 

Nas zonas menos populosas, os sistemas de reuso de água não potável seriam perfeitos. Nestes casos parte do efluente que sai das ETARs poderia ser redireccionado para irrigação e outra parte poderia ser tratado para uso como água potável para as populações. outra vantagem que Portugal poderia ter relaciona-se com o uso de energias renováveis. O uso de água é mais intensivo durante o dia, altura em que a energia solar (especialmente a térmica, no caso de sistemas de evaporação/condensação) está disponível. Além disso as albufeiras são reservatórios perfeitos de água que podem ser integrados correctamente na gestão local e fornecem a energia a partir das barragens.

 

Por fim, para complementar e onde necessário, seria possível recorrer à água do mar para obter água em caso de necessidade. Com a maioria da população portuguesa a viver provavelmente não mais que 30-50 km do mar, a dessalinização, mesmo que menos eficiente energeticamente, poderia ser usada para complementar o abastecimento quando necessário.

 

Resolver o problema da disponibilidade de água, em Portugal ou noutros países, não se pode basear simplesmente numa ou noutra solução. Não existe uma solução mágica que resolva tudo. É necessário integrar a poupança de água, com a gestão dos recursos hídricos (inclusivamente do ponto de vista geológico) e harmonizar isso com os sistemas de tratamento e reuso de água, bem como criar opções d emitigação de casos extremos, como a dessalinização.

 

Se tal fosse feito, estou em crer que hoje não seria organizar comboios para andar a transportar água entre localidades. Todos os nossos municípios poderiam ser auto-suficientes.

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Fumo nos olhos

por João André, em 20.11.17

Falar nos casos do cinema francês (ou mundial) onde as personagens surgem de cigarro na mão ou na boca duplicaria o número de palavras usadas historicamente neste blogue. Explicar que nalguns casos não faria sentido não mostrar o cigarro (como com biografias) seria extenuante. Apontar que em certas situações o cigarro faz parte da caracterização da personagem seria uma perda de tempo.

 

Note-se que não sou um fumador, nunca fui um fumador e nunca dei sequer uma passa que fosse em toda a minha vida. Obrigava os meus pais a abrir as janelas do carro ou da sala sempre que começavam a fumar, estivesse sol ou chuva, calor ou frio. Fui também um entusiástico apoiante das medidas que restringiam o uso do tabaco em espaços públicos. Sou da opinião que se o tabaco desaparecesse da face do planeta, só haveria benefícios e nenhum prejuízo (embora saiba que isso é impossível).

 

Banir o tabaco dos filmes no futuro faz pouco sentido. Limitar a exposição de filmes antigos que exibem tabaco é ridículo e colocar uma classificação etária superior num filme que mostre personagens a fumar é simplesmente idiótico. Alguns dos comentários  neste artigo do The Guardian explicam tudo, mas gosto particularmente da comparação com a violência. Se filmes com violência (mesmo que muito "leve") não levam com tais excomunhões, por que razão cair sobre o tabaco? Levar a campanhas para remoção do tabaco em filmes futuros onde tal não seja necessário (tratando-o como a nudez: se não oferece nada, não faz sentido) já faria algum sentido.

 

O fumo do tabaco é irritante e - para mim - detestável. Mas pertence à história da humanidade e é parte da cultura. Tentar bani-lo dos nossos filmes teria tanto sentido como lançar fumo para os olhos...

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Coisas a resolver até ao Mundial

por João André, em 13.10.17

Felizmente que me enganei e que Portugal se qualificou sem engulhos para o Mundial. A Suíça ajudou, apresentando-se como uma equipa muito fraquinha que só não perdeu por bastante mais porque não calhou. Quem os apanhar nos play-off não se deverá preocupar por aí além.

 

Agora que Portugal está apurado, está na hora de começar a preparar o trabalho para uma competição de um mês onde haverá potencialmente 7 jogos (média de um jogo a cada 4 dias). Há certas áreas que Fernando Santos terá que definir depressa.

 

 

Também publicado aqui.

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Os independentistas catalães encheram a boca (e os nossos ouvidos e olhos) com a afirmação que o voto no "referendo" foi "democracia". Ontem muitos milhares de catalães demonstraram o que é a verdadeira democracia: liberdade de expressão alicerçada em envolvimento cívico. Os independentistas já o exerceram no passado, muitas vezes em tom de folclore mas nem por isso menos válido.

 

Seria bom que o voltassem a exercer noutras vertentes importantes, a começar pelo debate sobre o que querem. Deixo uma listinha de perguntas (se calhar já o debateram, mas não passou "cá para fora"):

1. Que tipo de estado independent gostariam de ter? Monarquia ou República? (e escusam de me dizer "obviamente República", os mais barulhentos dizem-no, mas ainda não vi esse debate).

2. Assumindo que é de facto República, querem-na de que tipo? Presidencialista? Semi-presidencialista? Outra?

3. Qual o período de transição para a indepenedência de facto? 1 ano? 2 anos? 20 anos?

4. Quem terá direito à nacionalidade catalã? Todos os que vivam no território? Só os que a desejam? Quem fale catalão? Pensarão na dupla nacionalidade (espanhola e catalã) para quem o desejar?

5. Integração noutras alianças? União Europeia, sim ou não? (note-se que mesmo que a resposta seja "sim", isso implica um período largo de ajustamento). Integração na NATO? No espaço Schengen? Outras?

6. Que tipo de relação gostariam de ter com Espanha? Convém aceitar que, pelo menos durante uns tempos não será de fronteiras abertas. Quais os compromissos que seriam aceitáveis?

7. Que moeda? O Euro desaparece no início, porque mesmo que o desejem não o podem ter assim que passem a ser independentes (primeiro têm que ser aceites na UE e só depois podem pedir acesso à moeda única).

8. Quais as fronteiras reclamadas?

9. Como definir a transição de coisas como exército, justiça, sistema prisional, sistema de educação, pensões, etc?

10. Quem pagaria os custos do divórcio? (à la Brexit)?

 

Estas são só algumas sugestões de temas para o debate. Outros, com melhor conhecimento que eu, poderão sugerir alguns mais. Fica só a minha contribuição para a intelligentsia pró-independência do nosso burgo.

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Benefícios do Ensino Superior em Portugal

por João André, em 30.09.17

Num dia de "reflexão", decidi reflectir sobre outra coisa que não as eleições: o valor dos estudos em Portugal. Não sendo um especialista com acesso a dezenas de bases de dados nem com tempo para passar meses de volta de folhas de cálculo, fiz uns quantos rápidos baseados em dois dados: os rendimentos brutos anuais de acordo com o grau máximo de educação atingido (valores de 2014 do INE) e os valores de IRS a pagar de acordo com cada escalão.

 

Munido destes valores decidi descobrir qual o valor monetário de um grau académico. Há ressalvas a considerar:

- Apenas considerei como valor base o de pessoas com o secundário (a actual escolaridade mínima obrigatória). Os valores abaixo são ignorados.

- Considerei as seguintes durações: secundário sem reprovações até aos 18 anos de idade; o bacharelato como sendo de 3 anos (sem anos extra); a licenciatura de 5 anos (1 ano extra); o mestrado de 5 + 2 anos (2 anos extra); e o doutoramento de 5 + 2 + 4 anos (3 anos extra).

- A reforma chega aos 67 anos de idade (necessária para estimar os rendimentos e contribuição totais).

- Considerei que os alunos de mestrado e doutoramento recebem um salário anual do grau abaixo (de mestrado com salário de licenciado, de doutorado com salário de mestrado). Há um erro mas é a aproximação que decidi fazer.

- Para o salário anual de mestrado (não explícito nos dados do INE) estimei a média entre licenciatura e doutoramento.

- O valor que retirei dos dados do INE é médio para o resto da carreira contribuitiva. Isto é duvidoso especialmente porque é muito provável que alguém com mestrado obtido hoje acabe a aumentar significamente os seus rendimentos à medida que, ao longo das décadas, o valor da sua educação aumente. Mas é a aproximação que me foi possível.

 

Ressalvas feitas, vamos aos valores.

 

Valor do grau académico

No gráfico 1, está o valor dos rendimentos brutos totais que uma pessoa pode auferir ao longo da sua carreira contribuitiva. Também adicionei a diferença que se obtém em relação a uma educação a terminar no secundário.

 

rendimentos brutos totais portugal.jpg

Figura 1: rendimentos brutos totais ao longo da carreira profissional.

 

O valor de um grau académico em Portugal salta de imediato à vista. Um simples bacharelato aumenta em 65% os rendimentos. Curiosamente, ter uma licenciatura não ajuda muito, com os anos extra necessários à mesma a reduzirem os rendimentos totais (a diferença anual entre bacharelato e licenciatura é de apenas 250 €/ano). A partir do mestrado obtém-se paridade em relação ao bacharelato e com o doutoramento atinge-se o valor mais alto, embora não por valores muito elevados (cerca de 1.000 €/ano).

 

rendimentos liquidos totais portugal.jpg

Figura 2: rendimentos líquidos totais ao longo da carreira profissional.

 

E se optarmos por olhar para os rendimentos líquidos? Nesse caso a situação piora para os licenciados e mestres. A vantagem sobre o bacharelato chega apenas com o doutoramento e, em termos líquidos, é de apenas 450 €/ano. Em perspectiva, pagará os cafés diários.

 

Com base nestes valores parece claro que o melhor grau académico para a carreira profissional será o bacharelato. Em 3 anos está terminado, o que significa que a independência financeira está mais próxima, e ao longo da carreira não é muito pior que ter um doutoramento. Claro que aqui não está contabilizado o maior valor de reforma que o doutorado terá, mas num ponto de vista estritamente de carreira profissional, o bacharelato parece ter a melhor relação custo/benefício (quando o custo é o esforço pessoal e de tempo e o benefício os rendimentos).

 

Valor contribuitivo para o Estado

Fala-se sempre do benefício do grau académico, mas não olhamos muito para aquilo que ele oferece ao Estado do ponto de vista contribuitivo. Ora, se alguém tem rendimentos superiores, irá também pagar mais impostos (até devido à subida nos escalões). No que resulta isso?

 

contribuicao fiscal corrigida portugal.jpg

Figura 3: impostos pagos por cada indivíduo de acordo com a educação atingida (reflectindo rendimentos durante mestrado e doutoramento).

 

O que vemos aqui é que, um indivíduo que tenha um grau académico acabará a pagar ao longo da sua carreira contribuitiva essencialmente mais do dobro que alguém que tenha apenas estudos secundários. Ter um bacharelato faz entrar no cofre do estado tanto em valores extra como alguém com o secudário ao longo da sua vida. ou seja, um bacharel paga ao estado mais de 3.500 €/ano por ter estudado. Um licenciado um pouco menos. Um mestre e um doutor pagam ao estado pelo privilégio cerca de 4.00 e 4.500 €/ano extra, respectivamente (em relação ao bacharel).

 

Só que esta não seria a contribuição total. Idealmente adicionaríamos também o valor do IVA pago ao fazer compras. Aqui decidi fazer novas aproximações:

- A taxa de IVA escolhida foi a intermédia (13%), para reflectir que muitos dos gastos são com bens a IVA reduzido. O valor pode estar errado (não encontrei informação sobre taxas médias de IVA na minha busca rápida) e certamente será diferente de acordo com os rendimentos disponíveis (indivíduos com menores rendimentos gastarão uma maior percentagem dos mesmos em bens d eprimeira necessidade a uma taxa mais baixa). Seja como for, é a aproximação escolhida.

- O valor do IVA foi aplicado sobre a totalidade dos rendimentos líquidos. Isto estará novamente errado (haverá quem faça investimentos ou poupanças), mas é a aproximação que escolhi.

 

contribuicao fiscal corrigida portugal + IVA.jpg

Figura 4: Impostos toais pagos com IVA adicionado.

 

Os valores aqui não alteram o cenário relativo da figura 3, apenas aumentam em termos absolutos. Dessa forma podemos calcular o valor acrescentado que os graus académicos trazem ao estado: aproximadamente 4.500 €/ano para bacharelato e licenciatura, 5.000 €/ano para o mestrado e 5.500 €/ano para o doutoramento. Podemos colocar isto em perspectiva ao olha para o custo de um aluno do ensino superior em Portugal (figura 5, retirado da página 275 da tese de doutoramento de Maria Luísa Machado Cerdeira, "O Financiamento do Ensino Superior Português: A partilha de custos").

 

custo por aluno.jpg

Figura 5: Custo anual para o estado de cada aluno no ensino superior. Valores apenas até 2008.

 

Mesmo aceitando que o valor para o Estado era de apenas 3.610 €/ano/aluno em 2008 e que estes tenderiam a aumentar durante a recessão, podemos ver que a contribuição fiscal acrescida graças á posse do grau académico compensa largamente esse custo aos cofres do país. Imaginando um valor máximo de 4.438 €/ano/aluno (valores de 2001) e adicionando mil euros, uma licenciatura (aceitando 5 anos de estudos mais um ano extra) seria paga em sete anos e meio, com o resto da vida contribuitiva a ser lucro. No caso de bacharelatos, mestrados e doutoramentos, o curso universitário seria pago ainda mais depressa. Mesmo que se adicione um ano extra para compensar quem estuda e não contribui da mesma forma (porque não pode trabalhar, saiu do país ou abandonou os estudos antes de os concluir), parece óbvio que o estado beneficia financeiramente de oferecer a educação superior.

 

Obviamente que este retorno do investimento não leva em conta o valor acrescido que, esperamos, os indivíduos com graus superiores trarão à sociedade, seja do ponto de vista de eficiências, seja através de novos negócios que gerem riqueza. Estes benefícios deveriam ser então traduzidos em maiores receitas fiscais do lado do IRC (através do aumento de lucros) ou também do IRS (através de maior emprego). Não é linear, obviamente, mas seria esse o princípio.

 

Conclusões

E que concluir destas 3-4 horas de procura e escrita (e uns 10 minutos de leitura)? Bom, primeiro que nada que os estudantes pouco beneficiam de estudar para lá do bacharelato. As empresas portuguesas parecem não valorizar os dois anos extra de estudos através de salários mais elevados. As razões disso não conheço, apenas constato os valores. Por outro lado parece que ter mestrado e/ou doutoramento será benéfico, mesmo que por pouco. onde os graus mais elevados provavelmente se traduzirão em benefícios será no tecto salarial máximo que se pode atingir ao longo da carreira, o qual provavelmente aumentará com o nível de ensino atingido. Apesar disso, isso só será realidade em alguns casos.

 

Por outro lado, o Estado parece ter benefícios financeiros claros em oferecer os estudos. Dado que as propinas constituirão 20-25% dos custos por aluno, é possível argumentar que se o Estado tornasse o ensino completamente grátis não perderia muito. Dado que haverá certamente estudantes que decidem não seguir para o ensino superior devido ao custo das propinas (a que acrescem os de alojamento, alimentação, materiais de estudo, viagens, etc) e que alguns desistirão dos mesmos porque deixam de ter meios para os pagar, poderia muito bem suceder que um ensino 100% gratuito aumentasse a base de recrutamento de estudantes, o que só beneficiaria a qualidade.

 

Conclusão final? O país não valoriza os estudantes do superior como deveria mas beneficia imenso deles. Apesar das ineficiências, haverá certamente poucas áreas do estado onde haja tantas vantagens entre o serviço prestado e o benefício retirado. Ou, noutras palavras, o Ensino compensa. E muito.

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A L. é uma amiga minha catalã. Até aqui nada de especial, não sou o único, nem ela é a única amiga catalã. Só que a L., apesar de nascida na Catalunha e lá ter crescido a vida inteira, tem as raízes na Galiza. Os pais mudaram-se para a Catalunha antes de ela nascer em busca de melhor vida. A L. (e irmãos) nasceram e cresceram em democracia e ao abrigo da Constituição de 1978. Entre eles fala o catalão. Com os pais o castelhano (ou espanhol, quem quiser que use o termo preferido). A L. vai várias vezes por ano à Galiza. É também a favor do referendo e, parece-me, da independência da Catalunha. Só que neste aspecto tem menos certezas: «sinto-me também espanhola» respondeu ela na única vez que entrei na discussão pelo lado dos afectos.

 

Já conheci outros catalães que são acérrimos defensores da independência. Outros são a favor de manter as coisas como são, aumentar a autonomia ou, já me aconteceu, reduzir a mesma. Se tiver que estimar, penso que haverá mais gente a favor da independência que contra ela. Mas raro é aquele que tem uma ideia do que acontece depois. Claro, isto é a amostra que tenho ao meu dispor e nada representativa de nada na Catalunha.

 

A melhor forma de avaliar a presente opinião, à falta de um voto real, é a ferramenta das sondagens. Apresento em baixo a que a Economist publicou na edição da semana passada. Não se trata de ver se há ou não maioria para a independência (não há). Para mim o mais revelador é como o apoio à independência subiu de cerca de 15% em 2006 para quase 50% em 2013/14 (depois de uma subida fortíssima a partir de 2009) e agora caiu novamente para cerca de 35%. É obviamente tentador atribuir este apoio à recessão económica: os catalães viram a sua vida piorar, culparam um dos governantes (entre os dois à escolha) e o outro aproveitou para fazer o mesmo. O mesmo mecanismo que leva ao crescimento de forças anti-democráticas.

 

economist_polls catalonia independence.png

 

É simples e algo simplista. Muitos outros factores terão influenciado este apoio à independência. Até poderia apontar o pico da equipa do Barcelona FC quando treinada por um catalão favorável à independência e a jogar com múltiplos jogadores formados "na casa", muitos deles também catalães. Isto é ainda mais importante quanto o Barcelona foi, no passado, um foco de reunião dos catalães.

 

Só que o crescimento rápido também aponta para uma população com opiniões algo efémeras. Não é um crescimento sustentado, resultante de uma ou mais gerações a serem expostas aos malefícios da nação espanhola. É uma mudança que surge ao sabor dos posts no Facebook, Tweets e manifestações que são festas. É um crescimento que deveria fazer parar para pensar. É um crescimento obviamente resultante de um período de propaganda intensa dos partidos independentistas que tentaram (e não conseguiram) controlar a Generalitat.

 

Significa isso que um referendo estará fora de questão? Obviamente que não. Todas as populações devem ter direito à sua independência se o desejarem. Só que o "povo" catalão não é exactamente oprimido. Tem uma autonomia enorme e poucas são as áreas em que não tem autodeterminação. A sua língua é inclusivamente protegida e pode ser usada nas escolas sem problemas (há muitos outros países onde isso não sucede com línguas regionais). Ainda assim apenas 36% da população aponta o catalão como língua de identidade (47% fá-lo com o espanhol/castelhano). Contribuirão mais do que recebem, no balanço total, em termos fiscais. No entanto, sendo uma região mais rica, isso sucederia sempre, como sucede noutros países ou na UE. Aquilo que não têm é independência. Querem alcançá-la? É legítimo. Só que tal deve ser feito por meios legítimos.

 

A Espanha aprovou a sua actual constituição, que proclama o Estado como indivisível, no referendo de 1978. A Catalunha também votou nesse referendo e um total de 61,4% dos eleitores aprovaram a mesma (90,46% a favor com abstenção de 32,09%). Não se pode dizer que a Catalunha não tenha sido ouvida na discussão ou que a tenha rejeitado. Ora, se assim foi, o resto do país pode e deve ser ouvido na discussão sobre a independência da Catalunha, dado que foi isso que aprovaram há 40 anos. Não o fazer, como pretendem os governantes catalães, é de facto ilegal e um atentado aos direitos daqueles, maioria ou minoria, que preferem manter as coisas como estão.

 

Está mais que visto que, se o referendo de 1 de Outubro for avante, o resultado será esmagadoramente a favor da inependência. Sê-lo-ia mesmo que Rajoy, com o seu estilo de touro raivoso, não tivesse quase militarizado a situação. Isto porque, sendo visto como ilegal, os catalães contra a independência não iriam comparecer. Aquilo que resultará será um aumentar das tensões de forma desnecessária.

 

A melhor forma de resolver o problema teria sido simples: o Estado espanhol aceitaria dar mais algumas concessões aos catalães (inclusive a simbólica de aceitar a língua catalã como parte da identidade) em troca de um referendo organizado pelo país. Se esse referendo, que deveria ter discussões esclarecedoras e as consequências de qualquer independência bem claras, desse na independência, então assim fosse. Só que essa independência deveria ser tão clara como o voto em favor da constituição de 1978. Caso contrário deveria ser rejeitada.

 

O Reino Unido, sem grandes alaridos nem pesos legais, assim procedeu em relação à Escócia. Os escoceses acabaram por preferir ficar no RU. Pessoalmente penso que os catalães acabariam por perceber que, por muito que possam pagar à Espanha, o facto de nela estarem integrados trar-lhes-á muitos outros benefícios. No caso da L., penso que traria também paz de espiríto.

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Jornalixo científico e reflexos sociais

por João André, em 05.09.17

Há uns tempos surgiu um artigo no Independent que andou a dar a volta por Facebook e alguns blogs. O artigo do Independent, que tinha por título "Atheists are less open-minded than religious people, study claims" citava o estudo de um investigador da Université Catholique de Louvain onde este apresentava os resultados da análise das posições de pessoas religiosas e não religiosas a afirmações que analisavam a sua abertura de espírito.

 

O primeiro aspecto que na altura me incomodou foi a forma como os comentários ao partilhar a notícia do Independent (ou subsequentes) pareceram incidir apenas sobre o título da notícia, dando como adquirido que os ateus são simplesmente menos tolerantes que pessoas religiosas, assim, sem quaisquer outras considerações. As pessoas religiosas apresentaram a notícia como prova que são mais tolerantes e as não religiosas atacaram o estudo sem notar mais do que o facto de sair de uma universidade católica, como se a origem fosse automaticamente desqualificadora de rigor.

 

Em qualquer dos casos é pena. Primeiro porque o título da notícia equipara pessoas "não crentes" a "ateus" (algo que o título do artigo também faz). Depois porque qualquer conclusão retirada do artigo do independent é abusiva, dado que o artigo em si é curto, pouco informativo sobre o estudo e não apresenta as devidas ressalvas que qualquer estudo científico de qualidade deve apresentar.

 

A mais importante destas é o facto de o artigo salientar que é um estudo preliminar e que a amostra é pequena (por exemplo: os prticipantes que se declararam como ateus ou agnósticos constituíam 60% da amostra - dificilmente corresponde à realidade de qualquer sociedade moderna, por muito secular que seja. Por outro lado, os resultados indicaram que em certos indicadores, os não crentes demonstravam menos abertura de espírito a outros conceitos e noutros demonstravam mais. Ou seja, comportavam-se tal e qual os crentes: nalguns aspectos são mais dogmáticos e noutros menos. Aquilo que o artigo terá trazido de forma mais clara é precisamente o facto que os não crentes não são sempre mais tolerantes. Isto deveria ser óbvio, mas é também para isso (para provar ou contrariar a sabedoria "popular") que a ciência existe. [outras leituras sobre o artigo/notícia].

 

O que o artigo do Independent demonstra novamente em relação aos jornais é como estes estão mal equipados para tratar os assuntos científicos. Não os compreendem, lêem o essencial, fazem meia dúzia de perguntas de algibeira aos autores (quando fazem) e escrevem as conclusões mais sensacionalistas de que forem capazes. Aquilo que a disseminação do artigo vem provar, por outro lado, é que os consumidores destas "notícias" por via das redes sociais aceitam a primeira linha do cabeçalho do post, não lêem o que têm em frente, não compreendem o que lêem se o fizerem e que quando criticam o fazem através do preconceito mais à mão (neste caso: "os ateus são obviamente intolerantes" ou "tinha que ser de uma universidade católica").

 

No fundo, isto não passa do mesmo ciclo que refere o Pedro. Jornalixo, apenas aplicado à Ciência.

 

[Pequena nota: refiro o nome francês da universidade porque há duas universidades belgas que seriam traduzidas da mesma forma, a referida acima e a Katholieke Universiteit Leuven. No passado eram uma e a mesma universidade e apenas se separaram por idiomas em 1968. Penso que ainda existem sinergias entre elas, especialmente no que diz respeito a bibliotecas, administração e algumas iniciativas, mas para todos os efeitos são universidades diferentes]

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A abundância e monocultura da informação

por João André, em 14.08.17

Quando surgiu a internet (ou, pelo menos, quando a World Wide Web se popularizou e expandiu), não faltou quem argumentasse que um novo iluminismo surgiria, sustentado pelo acesso livre à informação que o novo meio proporcionava. Pessoalmente não tinha opinião e estava na altura mais interessado nas possibilidades de trocas de ficheiros que se me abriam. No entanto sempre me pareceu que tais ideias eram excessivamente optimistas. Não o pensava porque tivesse uma visão do que iria (ou sequer poderia) suceder, mas porque sempre me pareceu que um meio não determina nada. É o uso que a população faz do mesmo que decide o futuro.

 

O que temos hoje é uma riqueza de informação inigualável na história humana. Não só inigualável mas inclusivamente inimaginável apenas há 20-30 anos. Há 100 anos este futuro não seria tanto de sonho mas de pesadelo para quem tinha acesso, mesmo que limitado, à informação. Mesmo os arautos desse e-iluminismo não sonhariam com a expansão que vimos, não imaginariam a existência de Google, Facebook, Twitter, YouTube ou tantos outros.

 

Só que tal acesso ao conhecimento vem com um problema: perante tanta informação, como escolher aquilo que se deseja aprender ou, uma vez feita essa escolha, como decidir qual a informação mais fiável. Em parte este dilema de escolha reflecte aquele o que o consumidor ocidental moderno enfrenta cada vez que entra num supermercado: há tanta escolha de produtos que se torna impossível saber qual a escolha certa. E isto apenas num espaço limitado onde a decisão e a justeza da escolha reflectem apenas e só preferência pessoais.

 

Na internet, quando procurando informação, a escolha torna-se mais complicada, uma vez que em múltiplos casos existe uma escolha correcta (no que á sua exactidão ou conclusões diz respeito), a qual não depende das nossas preferências ou convicções pessoais, por muito que delas estejamos... convictos.

 

Há actualmente dois tipos de situações que sofrem com isto: acontecimentos políticos e factos científicos. Um exemplo claro do primeiro é o fenómeno trump e clivagem esquerda/direita que se vê cada vez mais na sociedade (a dos EUA, como canário na mina de carvão, serve de aviso). A população, na presença de enormes quantidades de informação, vê-se na situação de ter de escolher qual aquela que usa. Nesta decisão cada vez mais vemos que a exactidão da mesma pouca importância tem. Nos EUA os partidários da direita preferem crer num tweet de Trump mais que nas reportagens de jornais e televisões com décadas de reputação de honestidade; enquanto que há muitos na esquerda que ignoram a realidade para crer que Bernie Sanders não só teria trucidado Trump como o fará novamente (ou Elizabeth Warren por ele) se receber a oportunidade.

 

Outros exemplos são as narrativas alternativas que vemos na Polónia, Hungria, Venezuela, Brasil, Portugal, Inglaterra, etc, etc, etc... dependendo de qual o meio de comunicação que seja usado. Para quem queira informação de qualidade, o dilema chega ao ponto de deixar de se acreditar no próprio meio preferido perante o bombardeamento de informação alternativa e contraditória.  Se eu ler o Washington Post estou de facto a ler notícias solidamente construídas e analisadas ou a ver propaganda anti-Trump e anti-GOP? De certa forma, mesmo estando eu contra os argumentos da direita estridente que domina parte dos media americanos, torna-se um caso em que deixo de saber se as minhas referências não começarão a optar pelas mesmas tácticas para combater os opositores. Não é uma mentira repetidas vezes o suficiente para se tornar verdade, mas nesta guerra basta provocar dúvida.

 

O mesmo vemos no segundo caso: factos científicos. Aqui o problema é a liberdade de opinião. A liberdade de opinião não é um direito, ao contrário do que se costuma afirmar. A liberdade de opinião, seja ela qual for e esteja ou não bem ou mal sustentada em factos, é absoluto facto para todos nós. Ninguém é privado da sua opinião, por muito repressiva que uma sociedade seja. Aquilo de que podemos ser privados é da liberdade de expressar essa opinião ou de a criar de forma livre. Há formas repressivas de reduzir o acesso à informação não desejada, mas há também a forma não repressiva: o bombardeamento da informação falsa. E não há campo onde isso seja mais visível que o da ciência.

 

Os cientistas, por treino, são pesosas altamente cépticas, não só do que os rodeia como dos próprios resultados. É quase impossível encontrar um cientista a afirmar que uma determinada teoria está correcta a 100%. Há sempre espaço para a dúvida, para casos especiais, para excepções causadas por variáveis não conhecidas. É por isso que a ciência avança: porque há sempre alguém que tem dúvida que a explicação existente seja suficiente.

 

No entanto a sociedade não funciona assim. A sociedade acredita na democratização da informação, no poder do contaditório. Isso faz com que se dê peso a mais às dúvidas, quais brechas no edifício teórico, e se dê mais tempo a quem expressa as suas ideias de forma categórica e convincente. É por isso que movimentos como o anti-vacinas ou anti-estatinas conseguem enorme destaque. Porque os seus proponentes pegam em pequenas excepções, em dúvidas ou faltas de convicção dos cientistas, bem como na ignorância científica da população e preconceitos da mesma, para fazer avançar as suas agendas motivadas exclusivamente pelo interesse pessoal.

 

O caso mais claro que existe deste problema do acesso à informação boa e má na internet é o da execrável Jenny McCarthy, que afirmou ter obtido o seu grau académico na "universidade do Google", demonstrando perfeitamente como é possível encontrar informação em favor das convicções pessoais, por mais que estejam demonstradas como erradas. O mesmo se poderia referir à mania da comida orgânica, anti-glúten, veganismo radical, anti isto e anti aquilo.

 

No fundo, e voltando ao meu ponto inicial, o problema torna-se o acesso à informação. Esta está democratizada e não hierarquizada em função da sua veracidade ou verificabilidade. A isto acresce a noção, errada, que toda a gente tem direito à sua opinião (confundido opiniões e factos) sem que tenha que a defender ou sustentar de alguma forma. A internet permite que todas as opiniões sejam tratadas da mesma forma, independentemente do seu valor. E, sendo um repositório de todas as opiniões do mundo, resulta que cada vez menos as teremos.

 

De certa forma, após o quase deserto de informação do passado, temos um jardim do Éden da informação a dar lugar a monoculturas da informação. E isto não é bom.

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Os pios dos ogres

por João André, em 14.08.17

Nos tempos de Chávez a Venezuela entrou num período de experiências de esquerda que foram resvalando em aceleração sempre constante para o autoritarismo. Chávez ia conseguindo manter uma semelhança de democracia à custa do seu carisma que lhe davam apoio de boa parte da população e o mantinham no poder, mesmo perante o desastre para onde ia fazendo o país avançar. Com Maduro a opção da "revolução bolivariana" passou a ser o despotismo directo que só por sorte (eu sei, eu sei...) ainda não deu em guerra civil.

 

Perante o que vamos vendo a Venezuela vai ficando cada vez mais isolada e provavelmente só Cuba ainda ia dando apoio ao regime (sinceramente não sigo o suficiente a situação). Era uma questão de tempo até Maduro cair de podre por pressão externa e interna (pelo menos asism o esperava). Depois veio Trump dizer que não excluía a opção militar para intervir na Venezuela.

 

Ainda não termos visto muitas reacções às declarações é simbólico de como os outros países da região vêem a actual situação venezuelana e da enorme falta de credibilidade que Trump conseguiu "construir" em 6 meses. No entanto, se voltar à carga, Trump poderá conseguir unir de tal forma a região em torno de Maduro que este julgará que Chávez lhe apareceu outra vez na forma de um passarinho a piar tweet tweet. Nem é de excluir que, se Maduro começar a executar pessoas e disser que são traficantes, Trump acabe por dar uma volta de 180 graus e arranje um novo best friend forever.

 

E, de permeio, os venezuelanos vão sofrendo de ogre a ogre.

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Na semana passada estive na principal conferência científica da minha área técnica e vi que o foco continua a ser quase exclusivamente (ou pelo menos com esmagador peso) na investigação dita fundamental. A investigação aplicada pareceu quase ausente e poucos exemplos existiram entre apresentações orais e de posters que recaíssem em casos industriais, mesmo a nível piloto.

 

Sempre existiram diferenças entre o tipo de investigação que os países tendem a apoiar (habitualmente por razões históricas). A Alemanha sempre teve o hábito de ter uma investigação muito aplicada, resultado de as empresas do seu Mittelstand normalmente deixarem determinado tipo de investigação para as universidades sob a forma de contractos. Outros países perferiram investigações mais fundamentais, para desenvolver conceitos absolutamente novos, que pudessem ser disruptivos nas suas indústrias. Esta é uma generalização grosseira (normalmente este tipo de foco é mais específico da instituição que do país), mas serve para dar uma ideia da separação entre os tipos de investigação.

 

Só que hoje todas as universidades parecem optar por investigação fundamental e cada vez menos seguir pelo lado da aplicada (pelo menos no que diz respeito à engenharia). Pessoalmente considero isso um resultado dos rankings de universidades, os quais colocam um peso muito elevado na componente de investigação, especialmente pelo lado das publicações. Ora, dado que as empresas raramente permitem a publicação dos seus resultados, isso faz com que as universidades, para poder manter um númro de publicações aceitável, optam pelo atalho de fazer apenas investigação fundamental, mais rápida e, por via do seu carácter completamente exploratório, menos passível de sofrer com resultados negativos.

 

Isso torna as uniersidades - ou os seus professores - paradoxalmente mais conservadores na sua escolha de temas. No ciclo actual de financiamento a apresentação de resultados preliminares e a demonstração de capacidade (sob a forma de competências ou equipamento) para executar a investigação proposta tornam-se factores determinantes para a concessão do projecto. Isso faz com que os professores acabem a propor inúmeras variações sobre os mesmos temas, conseguindo financiar projectos consecutivamente com os resultados do projecto anterior. Uma compração seria investigar teoricamente a aderência de pneus à estrada propondo de cada vez novos desenhos para os perfis, novos materiais ou novas dimensões, sem nunca avançar para um produto final.

 

O resultado é um mundo científico que cada vez mais se desliga do mundo industrial devido ao risco que existe de fazer investigação que não permite a publicação ou, devido à sua natureza, dará origem a menos publicações para a mesma quantidade de trabalho. Em resposta a isso as empresas começam a fazer a sua própria investigação, a qual recai também nos temas com que os seus cientistas se sentem confortáveis e não introduzem quaisquer verdadeiras inovações, apenas fazem avanços incrementais. Isto sucede especialmente porque a indústria vive do conceito do retorno sobre o investimento (Return on Investment - ROI, no jargão inglês). Uma investigação mais arriscada demora mais tempo e custa mais dinheiro, tanto em desenvolvimento como em novo equipamento e na implementação. A opção é então por projectos mais conservadores e seguros.

 

Temos então que as opções que a sociedade moderna fez para dar um impulso à investigação - criar rankings e colocar grande peso na publicação científica - poderá causar pelo menos em parte o efeito oposto. Claro que estou a simplificar o caso, mas ver, pelo 15º ano consecutivo, o tema de mixed matrix membranes para remoção de dióxido de carbono, uma solução que a indústria continua a rejeitar como pouco relevante, deixa-me sempre desiludido com a investigação de professores que, de outra forma, admiro.

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A "obscenidade" das transferências no futebol

por João André, em 07.08.17

Neymar Jr. transferiu-se para o Paris St. Germain pelo valor mais alto da história do futebol: 222 milhões de euros. Com este valor vieram os adjectivos: obsceno, pornográfico, ofensivo, etc. Não se trata apenas dos 222 milhões da transferência, mas também dos 30 milhões líquidos por época, os 38 milhões em pagamentos aos agentes envolvidos (incluindo o pai de Neymar). Assumindo uma taxa de 50%, o custo da transferência será de 112 milhões por ano ao longo de 5 anos (assumindo que o salário se mantém constante, o que nunca é certo).

 

A primeira pergunta que se impõe é: conseguirá o PSG pagar tal investimento sem infringir as regras do Fair Play financeiro da UEFA? Esta pergunta é relevante não apenas de um ponto de vista financeiro mas também moral: se o clube consegue pagar os custos, como dizer que é imoral?

 

 

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