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Apos um momento #metoo (final)

por João André, em 15.10.18

Há pouco mais de uma semana decidi colocar uma série de posts com o título "Após um momento "metoo". Continham apenas uma frase com que as acusações/declarações de mulheres são frequentemente confrontadas. Não enquadrei, justifiquei, não me coloquei de qualquer dos lados. Deixei apenas a frase.

 

Houve quem tenha notado isso. Notaram também que deixei os comentários abertos, algo que nunca faço. Eliminei apenas um por grosseria*. De resto fui deixando e nem sequer intervi nas conversas. Não era minha intenção ser foco de nada, antes deixar a discussão avançar. Também não reflectirei sobre os comentários (no momento em que escrevo são 159 no total, média de quase 20 por post). Estão lá para qualquer pessoa ler e não vou pronunciar-me sobre eles. Cada um que tire as suas ilações sem comentários da minha parte.

 

Não é obviamente acidente que esta sequência tenha surgido após o caso Mayorga-Ronaldo, embora as declarações acima tenham surgido apenas da minha memória e não tenham sido levantadas de qualquer texto de opinião ou comentário específico. Podiam ter sido após as declarações contra Aziz Ansari ou Harvey Weinstein. Podiam ter sido após declarações de Jimmy Bennet contra Asia Argento, apenas se mudando o sexo das pessoas.

 

A razão de eu ter iniciado esta lista foi para ressalvar o tratamento a que as mulheres que acusam homens (mais ainda que homens que acusam, seja outros homens ou mulheres) são sujeitas. Uma acusação não é obviamente equivalente a uma condenação nem o pode ser. Uma mulher que tenha a coragem de fazer tal acusação não merece automaticamente ser considerada acima de suspeita. No caso de Kathryn Mayorga, só ela e Ronaldo estiveram naquele quarto naquele momento. Só eles poderão saber o que se passou. Se o souberem: a memória prega partidas tramadas e ambos podem apresentar relatos distintos estando completamente certos do que dizem.

 

Cristiano Ronaldo, como qualquer outra pessoa, é inocente até ao momento em que um tribunal o declare culpado. Isto é do mais puro senso comum. A decência exige que o deixemos agora em paz, para preparar a sua defesa, judicial - perante a justiça, privada - perante os seus entes queridos, e pública - se assim o entender. Não merece que devassemos agora a sua vida e não merece que os media vão agora em busca de "provas" de inocência ou culpabilidade. Ronaldo sempre defendeu ferozmente a sua vida privada - não a devassemos sem razão. Há uma acusação, os media publicaram essa informação factual e a história que a sustenta, além de terem ouvido o lado de Ronaldo, como lhes compete.

 

Ronaldo, como escrevi, é inocente até ser julgado culpado. Só que isso não implica que Mayorga é culpada (de difamação/extorsão...) até ser julgada inocente. Merece exactamente o mesmo respeito da parte do público e dos media que Ronaldo. Não merece que se acredite piamente na sua história (que tem buracos, como seria normal em qualquer história com 9 anos, ainda mais se envolver eventos traumáticos reais) nem que seja acusada de mentir. Ronaldo não sairá incólume desta história, é certo. Ela também não. Mesmo que ela acabe a receber algum milhão de dólares de Ronaldo, ficará sempre com rótulos colados à sua testa. Ele o mesmo.

 

Nestas histórias há sempre vítimas. A minha série de posts quis apenas lembrar que algumas vítimas sâo-no antes, durante e depois de um processo de acusação/denúncia. Lembremo-nos disso quando, do conforto das nossas cadeiras nos tornarmos cruzados do São Facebook.

 

Posts: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8.

 

* - actualização: apaguei também os comentários de luckylucky pelas razões que lhe expliquei no passado. Nos meus posts ele não comenta nem para dizer bom dia.

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Após um momento #metoo (8)

por João André, em 12.10.18

«Conveniente que ninguém mais tenha visto, não é?»

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Após um momento #metoo (7)

por João André, em 11.10.18

«Ela só quer publicidade!»

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Após um momento #metoo (6)

por João André, em 10.10.18

«Será que foi assim tão sério? Parece-me que está a exagerar.»

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Após um momento #metoo (5)

por João André, em 09.10.18

«Ela sabe o que está a fazer à reputação dele?»

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Após um momento #metoo (4)

por João André, em 08.10.18

«Porque é que não foi logo dizer nada à polícia?»

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Após um momento #metoo (3)

por João André, em 07.10.18

«Ela quer é o dinheiro!»

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Após um momento #metoo (2)

por João André, em 06.10.18

«Que tinhas vestido?»

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Censuras

por João André, em 05.10.18

Há um anónimo que, num post meu mais abaixo, perguntou «Quando é que o Delito de Escumalha vai parar de censurar comentários anti-fascistas?».

 

Não o aceitei e foi removido. Esclareço:

1. Sou de esquerda e detesto o fascismo ou outros totalitarismos.

2. Sou a favor da liberdade de expressão.

3. Sou a favor de trocas de ideias de forma honesta, france, e educada.

4. Não retiro a liberdade de expressão a ninguém.

5. Mesmo que eu quisesse, não conseguiria retirar a liberdade de expressão a ninguém: não tenho poderes para tal.

6. Vejo o Delito de Opinião é uma casa, com cada pessoa responsável pela sua divisão.

7. Na minha divisão imponho eu as regras. Quais? Ver acima.

8. Quem não respeitar as regras da minha divisão não se expressa nela.

9. Quem quiser expressar-se de uma forma que eu não aceito, pode sempre fazê-lo noutras caixas de comentários (se os responsáveis o aceitarem), no seu próprio blogue, no Facebook, Twitter, etc, nas caixas de comentários de jornais, em artigos de jornais, em anúncios de jornal, com partidos políticos, em cima de uma caixa no Speakers' Corner, etc, etc, etc.

 

No post em questão aceitei comentários com os quais discordo de forma veemente, mas não os censurei porque não eram ofensivos. Considero os fascistas (não é o mesmo que dizer "a direita") essencialmente um nojo, mas igualmente o considero os "anti-fascistas" que julgam poder atropelar todas as regras de decência de uma sociedade normal.

 

Espero que esteja claro.

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Após um momento #metoo (1)

por João André, em 05.10.18

«Ela não sabia ao que ia?»

 

Nota: a cada dia virá um...

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Química aplicada

por João André, em 03.10.18

Os prémios Nobel científicos estão atribuídos e aquele que me salta de imediato à vista é o da Química, atribuído a Frances Arnold, George Smith e Gregory Winter. O trabalho deles foi dedicado à evolução controlada (directed evolution) de enzimas no caso de Arnold, e de modificação genética de fagos (phages) no caso de Smith e Winter. Metade do prémio foi para Arnold, o que me parece da mais pura justiça quando se olha pra o enorme campo de aplicações que a tecnologia tem, embora a parte do trabalho de Smith e Winter, com aplicações na medicina, talvez acabe com mais atenção.

 

O trabalho de Arnold permitiu controlar a evolução de enzimas (proteínas especiais capazes de catalisar - isto é, acelerar, ou iniciar em condições adversas - reacções químicas) para gerar propriedades que de outra forma não seriam possíveis de encontrar. A forma como controlou a evolução foi com a introdução de mudanças genéticas aleatórias e posteriormente mantendo as enzimas cujas mutações genéticas levaram a propriedades úteis. Isto é comparável à analogia das slot machines onde é possível manter certas rodas em posições fixas (como quando se obtém cerejas, estas não mudam mais, até termos a sequência desejada).

 

No caso, o que Arnold fez foi, por exemplo, partir de uma enzima que pudesse catalizar uma reacção específica (de X com Y, por exemplo) e ir introduzindo mudanças interessantes. Podia então tornar a enzima estável em solventes orgânicos (as enzimas são habitualmente estáveis em água) e dando-lhe eficiência superior a temperaturas mais baixas. Assim seria possível eliminar o uso de catalisadores inorgânicos, frequentemente muito caros e ambientalmente adversos e catalizar a reacção a temperaturas mais baixas. A quantidade de aplicações desta tecnologia é infindável.

 

O trabalho de Smith e Winter teve duas partes. Os fagos são uma espécie de vírus para as bactérias, ou seja, invadem as bactérias e obrigam-nas a gastar os seus recursos a produzir cópias dos fagos, assim destruindo a bactéria e perpetuando o ciclo. O que Smith fez foi descobrir como mudar o material genético do fago para produzir determinadas proteínas à sua superfície. Isto permitiu usar os fagos para identificar qual a relação entre genes e proteínas cuja produção codificam (isto é, de certa forma descobriram quais eram os genes que tinham a "receita" para cada proteína). Isto é fundamental para a compreensão dos nossos "códigos genéticos".

 

Como estas proteínas são produzidas à superfície do fago, Winter levou-o um passo mais à frente e usou a tecnologia para produzir anticorpos específicos. Os anticorpos são como que detectores moleculares altamente específicos. Um anticorpo que encontre o seu "alvo" ligar-se-à ao mesmo e não o largará. Se os colocarmos na superfície de um corpo (seja uma célula, seja um nanotubo, por exemplo) o anticorpo capturará o seu alvo de forma controlada. São usados em cromatografia de afinidade para retirar componentes tóxicos específicos de líquidos (por exemplo na purificação de medicamentos na indústria farmacêutica).

 

O que Winter fez foi usar a tecnologia para colocar anticorpos específicos na superfície dos fagos para determinar quais os anticorpos que poderiam ser usados para fazer terapias específicas para tratar, por exemplo, doenças autoimunes ou cancros. Isto permitiu desenvolver medicamentos muito mais eficazes, porque muito mais específicos na forma como seleccionam os seus alvos. Na quimioterapia, o objectivo no passado foi o de introduzir venenos (é o que os medicamentos de quimioterapia são) para matar as células cancerosas esperando que estas morressem mais depressa que as saudáveis. É por isso que os pacientes sofrem imenso durante a terapia e é também por isso que algumas terapias não funcionam (o paciente aguenta menos o veneno que o cancro). A técnica de Winter permite reduzir o impacto ao tornar o veneno mais selectivo.

 

Há alturas em que o prémio Nobel da Química celebra descobertas fundamentais (no seu sentido mais... "fundamental"). As que hoje foram laureadas contemplam aplicações vastas e com enorme impacto no mundo. Como engenheiro químico, este é um prémio cuja atribuição facilmente subscrevo.

 

PS - quaisquer imprecisões ou erros na informação prestada acima são minha responsabilidade. Se detectarem imprecisões, ficarei agradecido caso mas indiquem para corrigir o texto.

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Bolsonaro e Trump

por João André, em 03.10.18

Leio em muitos lados a comparação entre Trump e Bolsonaro e fico incrédulo. Bolsonaro não é Trump. Trump é um populista, com tendências autoritárias e uma ténue compreensão de democracia. No entanto é o presidente de um país com créditos democratas bem fundados e que compreende que tem limites no seu poder (mesmo que não goste deles).

 

Bolsonaro é um fascista que apoia ditadores, louva torturadores, ameaça mulheres, gays e pessoas não brancas. Se for eleito (o que é improvável, embora as alternativas não sejam para sorrir) Bolsonaro ou será um presidente paralisado pela sua incapacidade de se mover em democracia (pelo que percebi, só conseguiu passar 2 leis em toda a sua carreira de mais de duas décadas no senado) ou optará pela força. Nenhuma das opções é agradável e são infinitamente piores que aquilo que acontece nos EUA.

 

Trump é mau, não tenho dúvida. Mas Bolsonaro seria um desastre.

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Tribunais, sensibilidades e política nos EUA

por João André, em 03.10.18

Na semana passada vivemos um caso que não é inédito mas que felizmente tem sido raro: um nomeado para o Supremo Tribunal dos Estados Unidos a defender-se de uma acusação de assédio sexual (mantenhamos este termo genérico, que não sei como classificar legalmente os casos Hill vs Thomas e Blasey Ford vs Kavanaugh). Nesta situação há que tomar duas medidas a priori:

 

1) existe presunção de inocência para Kavanaugh - não há qualquer prova (ou sequer evidência, fora testemunhos) que Kavanaugh tenha cometido qualquer crime.

2) respeito para a acusadora - até se ouvir a sua acusação e como ela feita, não podemos atacar o testemunho ou a alegada experiência.

 

Na falta de provas ou de uma investigação conclusiva por parte da polícia, o caso acaba por se reduzir a em quem acreditamos. Depois de ter visto os testemunhos de um e de outro, sei quem saiu mais credível (Blasey Ford), mas isso não significa que Kavanaugh tenha cometido os actos de que é acusado. A sua fúria nasce de uma frustração perfeitamente legítima em alguém inocente e que está a ser acusado sem ter nada feito para isso. Se Kavanaugh não cometeu os actos (penso que nunca o saberemos realmente) de que o acusa Blasey Ford, então é normalíssimo que fique furioso com a devassa da sua vida privada. É normal que se sinta impotente com as consequências a que está sujeito ele próprio do ponto de vista profissional (se não for eleito, a sua carreira legal estará em risco) e privado (a sua família estará a sofrer).

 

Por outro lado, Blasey Ford surgiu como perfeitamente credível. É muito difícil que Blasey Ford esteja a inventar o caso que descreveu com detalhe e de forma tão poderosa. É difícil acreditar que possa ser tão boa actriz (nos filmes os actores têm muitos takes para conseguir o tom desejado) ou que fosse capaz de criar detalhes tão convincentes. É no entanto possível que esteja equivocada com os responsáveis pelo acto - passaram muitos anos e um trauma cria lacunas na memória que o cérebro tenta colmatar com outros dados. Só que, se assim for, ela sofreu de facto esse ataque/assédio e sofreu também por isso. Ao longo de décadas.

 

E é por isso que escrevo. Não escrevo porque creia que Kavanaugh ou Blasey Ford sejam sinceros ou estejam a mentir, mas porque Kavanaugh não se estava a candidatar para um qualquer posto de trabalho nem a defender-se criminalmente. Por não estar perante um questionário da polícia nem num tribunal a responder a uma acusação de crime, a barra para o julgar deve ser mais baixa: não é precisa uma certeza absoluta de culpa para se ter uma opinião. Não é correcto, mas é a natureza humana e ainda mais a natureza da política. Ou seja: Kavanaugh não tem que demonstrar que é inocente (num tribunal é a acusação que tem que provar a sua culpa, não o contrário) mas tem que lutar pela sua imagem. Blasey Ford faz exactamente o mesmo.

 

A outra questão que referi é o facto de esta ser apenas mais uma entrevista para um emprego para a vida, no posto mais independente no sistema dos EUA. Isso significa que Kavanaugh deveria ter demonstrado algo mais que frustração e combatividade. Deveria ter demonstrado vontade de responder honestamente às perguntas que lhe foram colocadas (ficou longe disso) e deveria, no mínimo, ter demonstrado simpatia para com Blasey Ford, de quem disse «Não questiono que a Dr. Ford tenha sido atacada sexualmente por alguma pessoa nalgum momento. Mas eu nunca o fiz a ela nem a ninguém.» (tradução minha). Não o fez em momento nenhum e transformou a sua audiência num momento de "eu, eu eu" muito zangado e de ataques à esquerda e aos democratas.

 

Relembremos que Kavanaugh vai no futuro, se for confirmado no cargo, ter de ouvir e deliberar de forma objectiva (embora sempre parcial, de acordo com a sua visão e opinião) sobre casos que surjam de todo o lado. Poderá ter de deliberar sobre casos de sindicatos, de círculos eleitorais, de liberdades pessoais, de casos específicos de género. Perante o discurso que teve nas respostas (ou falta delas) às questões colocadas, Kavanaugh demonstrou ser completamente inadequado para o cargo para o qual foi nomeado. Kavanaugh surgiu como alguém sem a menor capacidade de ouvir opiniões ou questões de que não goste, com as quais não concorda e sem a mínima sensibilidade para com o sofrimento de uma pessoa (que admitiu ser possível).

 

Com tudo isto, parece-me óbvio que o caminho que os Republicanos deveriam trilhar é o de retirar a nomeação de Kavanaugh e escolher outro juíz. Poderiam escolher outro juíz igualmente conservador de entre os nomes mencionados no passado. A Five Thirty Eight publicou várias análises do posicionamento na escala liberal-conservador dos actuais juízes e dos potenciais nomeados no passado (aqui, aqui e aqui, por exemplo). Não faltam portanto opções de juízes igualmente conservadores que provavelmente passariam na nomeação sem excessivos problemas (ou polémicas). Há várias razões para os republicanos estarem a insistir em Kavanaugh:

1. Pensam que Kavanaugh é de facto o melhor candidato para a posição. É possível, mas perante uma larga lista de possíveis nomeados, é difícil acreditar que a bagagem que Kavanaugh traria agora não elimine as suas possíveis vantagens judiciais.

2. Têm receio que o atraso na nomeação de um novo juíz os penalize nas eleições intercalares. É possível que a base republicana considere a falta de um novo juíz uma fraqueza, mas seria igualmente fácil (e lógico, porque verdadeiro) vender tal situação como culpa dos democratas e retirar daí dividendos eleitorais.

3. Há receio que os Republicanos percam o Senado. É sempre possível que uma avalanche democrata capturasse as duas câmaras (neste momento parece haver boas probabilidades de isso acontecer na câmara baixa) mas improvável. Neste momento o mesmo Five Thirty Eight projecta uma probabilidade de 2 em 7 para os democratas o conseguirem. É sempre possível, mas improvável, porque há relativamente poucos lugares em disputa para o Senado nestas eleições.

4. Trump. O presidente americano não quer perder a batalha. Nomeou uma pessoa e sentiria como uma ofensa pessoal se tivesse que escolher outro candidato. Se Kavanaugh falhar nalgum momento (por exemplo, se se demonstrar que mentiu ao Senado), Trump não terá problemas em o descartar e humilhar (lidar com Trump é um jogo de alto risco), mas até lá Trump não se moverá um milímetro da sua posição. E o Partido Republicano está completamente vendido à sua base mais barulhenta e extremista, não arriscando perder o apoio dos trumpistas, independentemente dos riscos eleitorais que isso acarrete.

 

No final, a não ser que nas próximas 36 horas o FBI descubra evidências novas ou que conclua que Kavanaugh mentiu deliberadamente na sua audiência (omissões que podem ser desculpadas pelo tempo passado não serão relevantes), Kavanaugh será confirmado como o novo membro do Supremo Tribunal. Nessa altura, o Partido Republicano terá conseguido o seu objectivo mais próximo: garantir que o último bastião das liberdades nos EUA esteja nas suas mãos. Dessa forma, não fará qualquer diferença que percam eleições. Quaisquer medidas legislativas podem ser encaminhadas para os tribunais e assim ser contestadas perante um painel de juízes com simpatias para com as suas posições.

 

E Kavanaugh, o juíz que bebia demais, talvez tenha tido comportamentos inaceitáveis com mulheres, não demonstra o mínimo de simpatia com outros e só pensa em si mesmo, será um deles. Não é a melhor perspectiva para o farol da democracia no mundo.

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Atrair emigrantes sem mel

por João André, em 05.09.18

O governo veio recentemente a público com o plano de atrair emigrantes através de um corte de 50% no IRS (se o entendi bem). Não pretendo falar da bondade, benefícios ou eficácia da medida para o país. Prefiro referir-me antes do ponto de vista dos emigrantes, sem nunca pretender falar por mais niguém que por mim.

 

A realidade é que, antes de mais, não é muito provável que eu venha a beneficiar desta medida. Independentemente das vantagens que eu pudesse obter dela, há razões pessoais que me prendem a onde estou. Há no entanto uma questão prática que gostaria de abordar: qual o benefício, em dinheiro, da medida.

 

Vejamos os números em termos genéricos: O salário médio em 2016 era de 1.108 €. O salário médio para profissionais qualificados: 901 €. O salário médio para profissionais altamente qualificados, 1.407 €. O valor de IRS pago para cada grupo era, respectivamente, 147 €, 97 € e 232 € por mês (usando um simulador do Montepio que obtive da net). Mensalmente isso daria em poupanças de 74 €, 48 € e 116 €. Assumindo que ambos os membros de um casal voltariam, beneficiariam do regime, e receberiam o mesmo (improvável), as poupanças seriam a dobrar.

 

Olhando simplesmente para o meu caso, decidi comparar o custo de vida entre Maastricht. Pelo que se vê neste calculador, eu precisaria de perto de 2.850 € por mês (líquidos) para ter o mesmo nível de vida que 3.600 € ofereceriam em Maastricht (o valor não é particularmente alto para um casal). Mesmo para o valor médio de profissionais altamente qualificados, não chegaria lá nem em valores brutos. Uma poupança de 232 € por mês não beliscariam isto.

 

Isto é só um exemplo e o simulador vale o que vale. Poder-se-ia olhar antes para Amesterdão ou Düsseldorf ou Londres (tudo com base de 3.600 € por mês para um casal na cidade), locais onde seria mais provável ver os portugueses. O resultado acaba sempre semelhante: se levarmos os prováveis salários líquidos (brutos menos IRS reduzido menos contribuições sociais), o emigrante perdera qualidade de vida (do ponto de vista financeiro) ao regressar.

 

Haverá certamente outras vantagens, mas a verdade é que será difícil atrair muitos portugueses à custa desta medida. Isto sem entrar pelo lado dos hábitos do trabalho ou outras vantagens. Haverá quem regresse, mas arrisco dizer que já o considerariam antes. Dos outros, não espero regressos à custa disto.

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Truques não privados - Mau serviço SAPO e DN

por João André, em 05.09.18

A nova Regulação Geral de Protecção de Dados (tradução pessoal) tem vindo a obrigar os diversos sites a pedir aos visitantes para aceitar ou gerir a política de uso de cookies. Na maioria dos casos, os sites optam por tratar os cookies de publicidade programática em bloco, com a opção de os tratar de forma individual. Isto é, os visitantes podem optar por aceitar ou rejeitar todos os cookies deste tipo ou então ir de empresa em empresa e permitir ou rejeitar o uso destes cookies. Para mais, a situação padrão mais comuns é ter estes cookies desactivados, sendo possível simplesmente reactivá-los com um clique do rato no botão oferecido para isso.

 

Não é o que fazem alguns sites portugueses. O SAPO (onde este blogue está alojado) e o Diário de Notícias (provavelmente outros também) preferem eliminar a opção de aceitar ou rejeitar em bloco os cookies de terceiros e, além disso, a opção padrão é tê-los activos. Dado que a lista, completamente exaustiva, não só é longa como obriga a muito tempo para ser vista de forma individual, o resultado é que os visitantes acabam por optar por manter estes cookies (ver a imagem abaixo).

 

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Isto é simplesmente uma vergonha e gozar com a nova lei. É a situção em que os administradores decidiram colocar o máximo de entraves para obrigar as pessoas a aceitar os cookies e a prescindir da sua privacidade. Podemos concrodar ou não com a lei e as formas de a implementar, mas a atitude do SAPO, do DN e outros é simplesmente uma falta de respeito.

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Memórias subjectivas (5) - senta-te comigo

por João André, em 03.08.18

Esta memória surgiu-me quando vinha a ouvir a música no carro. Havia em tempos passados de adolescência várias canções capazes de unir quase toda a gente que as ouvisse, fossem punks, góticos, rockabillies, metálicos, betinhos, alternativos ou outra coisa qualquer que neste momento vou esquecendo. Uma das canções que nos levantava sempre era a que se chamava "senta-te" (Sit Down).

 

Havia algo na canção que nos agarrava. Começava com o piano inicial, suave, na voz de embalo de Tim Booth que nos falava dos momentos do escuro na cama, quando todos os sonhos e, especialmente, os pesadelos nos falavam ao ouvido, na solidão do quarto. Mesmo sem ouvir - ou perceber - a letra, havia o tom em si que nos agarrava desde o início. Tínhamos o tom negro inicial, mas que era seguido de um crescendo que cantava sobre esperança e nos lembrava que não estaríamos sozinhos. Ele, o James (Tim Booth era simplesmente o veículo conhecido apenas de quem comprasse as revistas da época)  dizia-nos que estávamos com ele, que ele também tinha vivido os mesmos momentos e deles tinha saído. A chamada para nos sentarmos, feita em ritmo elevado e que nos levava a saltar, era o convite para partilharmos aquele mmento de celebração e de partilha, a epifânia que nós, por muito que nos sentíssemos sós, não o estávamos.

 

Ler a letra da canção, para quem a entendesse, fosse pelo inglês fosse pelo significado, leváva-nos ao patamar seguinte. Booth faláva-nos dos momentos negros, dos sentimentos extremos doces e amargos que não confessávamos a ninguém, mas que ele nos confessava a nós. Falava depois da incerteza, da prece a um Deus que não se sabia existir. Mesmo para quem não acreditasse em Deus (e quem verdadeiramente acredita ou não em Deus aos 13-14 anos?) , havia sempre a noção de acreditar em algo, alguém, naqueles anos de ausência da âncora que os pais tinham sido durante mais de uma década e que, de repente, já não eram, não sabendo nós bem porquê.

 

Havia no entanto os momentos na canção que indicavam a esperança depois do desespero, da angústia. Booth cantava a crença que havia uma onda que aguentaria o nosso peso, que nos levaria de onde estávamos para--- algures mais além. Cantava depois de umas riquezas não explicadas mas que sabíamos implícitamente quais eram e, noutra confissão, explicava que até poderia viver pobre se não soubesse que elas existiam. Tinha então que almejar a elas, ou a parte delas. Era o outro momento de desespero, o outro momento de depressão confessado apenas a nós, que o ouvíamos.

 

Mas depois voltava a pedir-nos que nos sentássemos com ele. O pedido inicial era para nos explicar a partilha, a confissão que o tornava um de nós, fosse qual fosse a idade dele. Os pedidos seguintes eram para agora sermos nós a partilhar os nossos sentimentos com ele. Carregássemos sentimentos de tristeza, de loucura ou de ridículo, de desadequação a uma sociedade que nos apontava como corpos estranhos. Sentávamo-nos então com Booth/James numa partilha de amor, medo, ódio e, ultimamente, lágrimas, as lágrimas que não éramos capazes de verter perante mais ninguém.

 

Esta canção era ouvida essencialmente em dois momentos, um de solidão e outro em grupos, o mais vasto possível. Para ser ouvida propriamente em solidão era necessário fecharmo-nos no quarto, numa casa idealmente vazia, com persianas semicerradas para criar um lusco-fusco adequado ao sabor delicodoce da canção. A música deveria ser ouvida múltiplas vezes enquanto nos deitávamos de costas na cama com lágrimas que correriam sem soluços, simplesmente de forma livre, como se de repente as comportas se abrissem apenas o suficiente para deixar passar o excesso de angústia, numa forma de aliviar aqueles apertos no peito que por vezes sentíamos serem demais. Era um momento de partilha apenas com James/Booth, num silêncio profundo mesmo com a música em volume elevado, numa solidão em que sentíamos tocar todos os outros no mundo que se sentiam da mesma forma. Era uma solidão que nos fazia sentir parte de uma comunidade, em oposição às multidões da escola que nos faziam sentir unicamente sós.

 

A outra forma de a ouvir era em grupo, idealmente numa discoteca ou em festas (de anos ou outras). Nunca se ouvia esta música no início da festa ou demasiado cedo na discoteca. Era sempre necessário o período de abandono que a escuridão da discoteca ou a multidão barulhenta da festa proporcionava. Antes de alguém se atrever a colocar a cassete (ou disco) a tocar a música, era necessário que os participantes do ritual tivessem já dançado de forma solta, sem passos, simplesmente girando de cabeça solta, como se os músculos do pescoço não existissem. Enquanto houvesse pessoas a ensair certos movimentos, enquanto houvesse rapazes a impressionar raparigas, enquanto as raparigas estivessem a dançar em grupos - ao invés de dançar sós num grupo - e a falar/gritar aos ouvidos umas das outras, enquanto as condições não estivessem reunidas, não se tocaria a canção. Era necessário o cansaço que baixa as barreiras, que liberta as inibições emocionais, que, no fundo, nos resumisse à nossa insegurança mais básica e nos levasse ao momento de escuridão de que Booth/James cantava.

 

Assim que as primeiras notas do piano soassem num ambiente escuro, apenas com uma pequena luz poouco mais que de presença, todos sabíamos o que vinha e gritávamos juntamente com o público na canção - era sempre a versão ao vivo da canção - em antecipação do que aí vinha. Com o início entrávamos num balanço quase cordenado mesmo quando dessincronizado. Rapazes agarravam raparigas pela cintura, por detrás, mesmo quando eram apenas amigas ou às vezes nem isso. Não era um momento de amor, mas era um momento de paixão, de emoção intensa que obrigava a que fosse partilhado. Rapazes abraçavam-se a outros rapazes de uma forma que seria ofensiva noutras situações. Raparigas abraçavam-se também e choravam abertamente, no único momento em que isso não repeleria os rapazes. Os momentos iniciais de calma, de piano a unir toda a gente, eram então seguidos do pedido para nos sentarmos juntos com James/Booth. E era isso que fazíamos, figuradamente, que literalmente saltávamos, em saltos coordenados seguindo o ritmo da canção. Éramos os animais do circo que eram guiados alegremente pelas palavras e notas da canção. Partilhávamos aqueles momentos em conjunto, numa comunhão que não sentíamos possível em mais nenhum momento. Enquanto saltávamos juntos sentíamo-nos todos um único ser, novamente sós no nosso colectivos, mas alegres por isso mesmo, por sermos quem éramos, jovens e com todo o horizonte pela frente. Estávamos sós na multidão, mas felizes por isso, porque estávamos todos sós da mesma forma.

 

Sit Down terá poupado muitas sessões de terapia a muita gente. Numa altura de angústias, de incertezas, de desenquadramento num mundo que não nos compreendia e que não compreendíamos, a música oferecia-nos a libertação, a compreensão e esperança que precisávamos. Em solidão a música seria seguida por silêncio, para apreciarmos devidamente o que nos tinha oferecido, aquele momento e aquela clareza de espírito que tinha trazido consigo. Em grupo a música era essencialmente o momento de regressar. Na discoteca a música seria seguida pelo acender de luzes e pela debandada geral. Mesmo nas sessões de matinés, em que saíamos para uma rua cheia de luz encandescente, havia um sentimento de vazio e de oportunidade de voltarmos a encher o nosso copo de emoções. Todas as emoções de adolescência eram dolorosas porque excessivamente extremas. Sit Down oferecia o momento de esvaziarmos o nosso corpo dessas emoções, mesmo que só por um pouco, oferecia o abandono e o alívio pelos quais todos os adolescentes anseiam.

 

Não posso falar por todos os adolescentes que ouviram a música na mesma altura que eu, apenas pela comunidade onde me inseria. Sit Down era um hino não comentado, apenas vivido. Conhecia quem, como eu, se recusasse a ter a música na colecção de cassetes, por medo de banalizar o seu efeito, mesmo que não o soubéssemos e não o reconhecêssemos. Era uma música para ser ouvida a espaços, só quando estivéssemos com necessidade do alívio e da partilha que trazia.

 

Quando a ouvi hoje não senti o mesmo porque não sinto as mesmas coisas que quando tinha 13-14-15-16 anos de idade. Não tenho os sentimentos extremos desses tempos. Também não senti qualquer nostalgia por esses tempos, como algumas outras canções poderiam trazer, outras canções que nos fazem recordar tempos bons e esquecer os sentimentos de desadequação, de ausência e de não pertencer a nenhum lado, a nada nem ninguém. Sit Down faz-me lembrar precisamente as angústias desses tempos sem que as relativize ("nem sabíamos que eram os melhores momentos das nossas vidas" é um tema frequente quando se discute a adolescência). Faz-me lembrar que os sentimentos dessa altura, por muito que fosse uma altura maravilhosa para quem a veja desta distância, era um período unicamente difícil.

 

Mas ao ouvir a canção lembro esses sentimentos sem os viver. Sinto essencialmente esse momento de união - não com os amigos de hoje ou os amigos de então como são hoje. Sinto-me novamente unido aos amigos desses tempos precisamente nesses tempos, como se fosse transportado para aquela discoteca, pequena, suja, mal cheirosa, escura, e me pusesse a saltar com a multidão, unido pela música e apesar da distância temporal. É uma união ténue, porque não sinto o mesmo, mas sinto a recordação do sentimento e isso, pelos minutos que dura a canção, basta.

 

Por 5 a 7 minutos, sento-me, juntamente com o adolescente que éramos naquels momentos de partilha. O único adolescente único e colectivo que existia no mundo, ou pelo menos na cidade, discoteca ou sala onde a música fosse ouvida. E sorrio como então.

 

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A camisola não paga Ronaldo

por João André, em 17.07.18

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Quando surgiu a notícia da transferência de Ronaldo para a Juventus, uma das frases que mais ouvi (e que se ouve ou lê cada vez que alguma trasnferência deste tipo é completada) foi: «vai pagar isso só em camisolas.» Ora, esta afirmação está errada, não apenas em geral mas também para Ronaldo, não importa aquilo que aconteça. É por isso que a notícia do DN (e de quem mais siga pelo mesmo caminho) não está simplesmente errada: demonstra imensa preguiça jornalística.

 

Vejamos a notícia. Diz o DN que «Ronaldo já rendeu pelo menos 54 milhões à Juventus». As contas são feitas por a Juventus ter anunciado já ter vendido 520 mil camisolas de Ronaldo com preços a oscilar entre os 104 € e os 144 €. Ora isto são contas que nem de merceeiro (os merceeiros compreendem a necessidade de pagar eles próprios pelos produtos que vendem) e que não reflectem nem as margens de lucro para os clubes nem as dinâmicas de vendas.

 

 

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Um guarda redes com cãibras a aguentar um prolongamento e a defender dois penalties. Um médio a perder a bola por lhe dar um torque e não ter pernas para a ir buscar mas depois a recuperar a bola e a virá-la de flanco. Um avançado a mal poder correr excepto quando cheirou uma bola e lhe acertou de forma perfeita para acabar com o sonho inglês. Um jogador a marcar dois penalties em jogos decisivos depois de correr 120 minutos em cada e nós a sabermos que estaria pronto para repetir a dose no terceiro jogo consecutivo. Um desempenho de sonho a negar a equipa do melhor jogador do mundo e outro funcional, da equipa secundária, quando não precisaria de o fazer. Três jogos consecutivos a recuperar de desvantagens para se apurar para a final com o equivalente de um jogo a mais e um dia menos. E isto é só o mundial da Croácia.

 

(Hrvatska! Hrvatska! - ouve-se da minha janela, gritado a 950 km de distância)

 

A Inglaterra sonhou como não o fazia há 28 anos e conseguiu ser parada sem que o cortejo de juízes surgisse no horizonte. A Rússia sacudiu a etiqueta de segunda pior equipa do mundial para estar a um passe (ou remate) das meias-finais. A Bélgica recuperou de uma desvantagem de dois golos contra o Japão e depois venceu o Brasil, em desempenhos que deixaram os adeptos do mundo inteiro (excepto japoneses e brasileiros, à vez) a torcer por eles. Lukaku especialmente deixou água na boca contra os japoneses ao não tocar a bola antes do último remate do jogo e a fazer verdadeiro bullying artístico a quem lhe apareceu pela frente - ou pelo ombro - frente aos brasileiros. Meunier, no seu jeito de gigante desengonçado e trapalhão tem sido calmamente o melhor lateral direito do mundial - a sua ausência foi excessivamente notada. Outros dois laterais direitos deram-nos aqueles que poderão ter sido os melhores ou mais belos golos do mundial.

 

(pausa para respirar)

 

Ronaldo teve um jogo a falar da melhor cabra de todos os tempos** e foi abafado por dois golos excepcionais, um deles resultante de uma tabelinha de 100 metros. O VAR apareceu na fase de grupos e deve ter bebido tanta vodka que desapareceu nas eliminatórias. Mbappé apanhou uma multa por excesso de velocidade num jogo e decidiu atormentar as polícias de trânsito nas defesas adversárias apenas em trajectos curtos. Lilian Thuram foi descoberto na Rússia, 24 anos mais novo e com outra cor de pele, mas não engana ninguém. De Bruyne foi dando lições de geometria euclidiana com os seus passes saídos directamente do Elementos. O cliché inglês da fila às espera do comboio em forma de bola nos livres indirectos e cantos.

 

(Neymar rebola... e rebola... e rebola...)

 

Os remates de Coutinho. Godín a defender toda a área, duro quando necessário, com souplesse quando possível. Varane a varrer a sua defesa no ar e no chão, mais rápido que Hazard a correr, que Fellaini a saltar e mais forte que Lukaku, mas sempre com classe. Kanté a varrer a direita e a esquerda de Pogba - ao mesmo tempo. A trivela de Quaresma. Os 3 metros e meio de altura de Yerri Mina. A trivela de Quaresma. Aliou Cissé a destilar coolness. A trivela de Quaresma. O Japão a jogar para perder o último jogo na fase grupos e ser apurado por serem bons rapazes. Neuer a ala esquerdo. Kroos a fazer de Bom, Mau e Vilão num único jogo. Quase duas vezes. Honda a entrar em campo para marcar um golo do empate ao fim de 6 minutos. A Inglaterra a vencer um desempate por penalties.

 

(esperemos: o Panamá está ainda a celebrar os golos)

 

El-Hadary a não ser substituído depois de ser o mais velho jogador a jogar um mundial e a defender um penalty. Tal memória deveria ter sido gravada para sempre sem necessidade de o ver a conceder golos. Marrocos a dominar 3 jogos e não vencer nenhum. Dinamarca e França a oferecerem uma cura para o stress. Já disse que a Islândia se qualificou para um mundial com uma população de 300 mil? O cineasta vindo do frio a defender um penalty ao melhor jogador do mundo*. Rojo a mostrar aos seus avançados como se marca um golo. Os dois suíços que provocaram os sérvios por causa do Kosovo depois de serem provocados pelos russos. O guarda redes iraniano que dormiu no chão mas que defendia quase tudo, inclusivamente um penalty do mais valioso trintão do mundo***. Lozano. Kompany porque simplesmente gosto do tipo. Fellaini porque é daqueles tipos que é impossível de não se gostar quando estamos longe dos seus cotovelos. Kane porque vai ser o melhor marcador com 3 penalties, 2 sobras e 1 bola tabelada na canela. Auto-golos porque vão ultrapassar Kane. Brasil a ser eliminado mais cedo que há 4 anos mas com melhor sabor na boca.

 

(preparar o fim)

 

Um mundial de sol, festa, jogos abertos como não há muito, jogadores a lutar até ao limite das forças e ainda mais além, selecções a celebrar mesmo depois de serem goleadas, um anfitrião a abrir as janelas fechadas há muito para mostrar que sabe de hospitalidade mesmo quando volte a fechar a casa, de pena por as equipas africanas não passarem a fase de grupos depois de iluminarem os seus jogos no campo e nas bancada, equipas a serem eliminadas sem recriminação, cerveja a esgotar, a presidente croata, a ausência de Putin, alfabetos cirílico e latino, sol da meia-noite - ou perto disso.

 

E teremos sempre a quaresma de Trivela em Saransk.

 

* - escolha pessoal, discordem à vontade.

** - Referência à barbicha - goatee em inglês - e a GOAT, acrónimo para Greatest Of All Times.

*** - pelo menos no futebol.

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Notas de meio do Mundial

por João André, em 01.07.18

Quis escrever mais vezes sobre o mundial no meu outro estaminé mas não tem sido possível. Agora que o mundial de Portugal temrinou, ficam uns apontamentos.

 

Portugal

O primeiro jogo, contra a Espanha, deu-me esperança que Ronaldo estivesse ao seu melhor nível e Portugal jogasse bem o suficiente para o apoiar. A Espanha tinha-me parecido estar a jogar bastante bem e só tendo sido batida por uma boa organização defensiva e uma actuação brilhante de Ronaldo. Os jogos subsequentes, de Portugal e Espanha, indicaram que talvez não fosse bem assim, nem para Portugal nem para a Espanha (à hora que escrevo está empatada a um golo com a Rússia).

 

Portugal tinha a desculpa contra a Espanha de saber que não veria muito a bola. Contra Marrocos e Irão isso não sucederia. Fernando Santos insistiu em esquemas e jogadores que pouco ou nada fizeram e com toda a gente à espera que Ronaldo resolvesse tudo. Contra Marrocos Portugal teve muita sorte em não perder (esta também é necessária) e contra o Irão o jogo foi sofrível e mesmo com o penalty mal assinalado em favor do Irão o resultado não foi incorrecto.

 

Contra o Uruguai Fernando Santos corrigiu alguns erros tácticos, mas algo tarde e de forma dubiosa. Com Bernardo Silva na ala direita, era necessário jogar com um lateral mais inclinado a procurar a linha final para permitir a Bernardo Silva mais liberdade. Infelizmente isto surgiu ao 4º jogo, sem verdadeiras rotinas, e Cédric não mereceria ser enviado para o banco. No ataque haveria alguma lógica em jogar com Gonçalo Guedes, mas apenas se fosse um avançado mais móvel. Encostado aos centrais, especialmente Godín e Gimenez, foi o equivalente a oferecer-lhes um chá mate. Mais tarde fez entrar Quaresma para alargar o jogo, mas infelizmente retirou Adrien em vez de João Mário (que, sendo apenas sofrível, fez o seu melhor jogo do mundial).

 

O azar foi também que o melhor jogador português do mundial, Pepe, cometeu um erro enorme que deu o segundo golo aos uruguaios. Há no entanto alturas em que temos que dar o mérito ao adversário. Fernando Santos foi emendando a mão e Portugal não jogou mal, mas os Uruguaios têm uma defesa quase impenetrável. O resto da equipa é disciplinada e com mais garra charrua por jogador que o resto das equipas mundiais em conjunto. E, no ataque, têm dois avançados de enorme qualidade, que jogam de olhos fechados, sacrificam-se pela equipa e não são egoístas. A comandar tudo, provavelmente o melhor seleccionador dos últimos 20 ou 30 anos: Tabarez. Os uruguaios marcaram primeiro em duas ocasiões. Depois de concederem um golo, só o fariam outra vez se Ronaldo descobrisse alguma coisa especial. Não o conseguiu e Portugal volta para casa.

 

Jogadores

Positivo: Patrício, Pepe, José Fonte, Cédric, Adrien, Quaresma (apesar de ter tentado ser expulso contra o Uruguai) e Ronaldo. Note-se que os considero positivos, não necessariamente muito bons.

Razoáveis: William, Guerreiro, Moutinho, Ricardo.

Negativos: João Mário, Bernardo (apesar de ter melhorado imenso no último jogo), Guedes.

 

Os únicos que foram muito bons, e ainda assim, apenas a espaços, foram Ronaldo, Patrício e Pepe. Os único que foi consistentemente muito mau foi João Mário. Guedes esteve perto, mas teve algum trabalho de equipa decente nos dois primeiros jogos (ao mesmo tmmepo que demonstrava cabalmente o erro de o colocar a ponta de lança). Destes grupos, não há queixas a Patrício porque nada podia fazer nos golos que sofreu (talvez o primeiro do Uruguai, mas seria difícil). Os outros despareceram de tempos a tempos e foi nesta inconsistência que Portugal teve uma passagem pouco notória no mundial.

 

Outras notas

Deutschland... Auf Widersehen... Nao é preciso alemão para compreender a sua eliminação. Uma velhinha grega basta: hubris.

 

Equipas que impressionaram até agora: Uruguai, Croácia, Bélgica, Inglaterra (estas duas tiveram pouca oposição), Senegal, Nigéria (sim, sei que estas foram eliminadas), Colômbia.

 

Equipas que desiludiram: Argentina, Egipto, Polónia.

 

Equipas que vão avançando à custa do talento: França e Espanha.

 

Equipa neste momento mais capaz de vencer: Brasil. Tiveram um início semi-impressionante, dando a ideia que faltava sempre alguma coisa. Contra a Sérvia pareceu ter aparecido essa coisa extra. Se a mantiverem, terão a melhor equipa para vencer.

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Colonialismo por meio ambiente

por João André, em 25.06.18

Trabalho actualmente numa empresa global que vende produtos directamente ao consumidor. A empresa opera em todos os continentes em volumes elevados (é a empresa líder mundial no seu sector) e devido a esses volumes tem também que tratar dos seus desperdícios, inclusive a água residual - é aqui que eu entro.

 

Recentemente, em dois países africanos, as regras de descarga de águas residuais - após tratamento - foram apertadas. Nada de novo ou de pouco esperado, são zonas de difícil acesso à água e com poluição suficiente da pouca água que possuem. O problema é que os limites de descarga foram apertados de tal forma que essencialmente espelham as melhores normas de países desenvolvidos.

 

Até aqui tudo bem. Nas fábricas em países desenvolvidos os nossos sistemas de tratamento de águas residuais está preparados para atingir estes limites onde eles estão em vigor (varia de país para país, estado para estado e até de munucipalidade para municipalidade). O problema é que, como se poderia esperar, quanto mais apertados forem estes limites, mais dinheiro custa o tratamento, o que aumenta os custos operacionais da fábrica.

 

E eis a dificuldade em África ou outros países em desenvolvimento: como pagar este aumento de custos? Nos países desenvolvidos o custo acrescido em termos de €/kg de produto é mais ou menso semelhante aos de África, isto porque as soluções são tecnológicas e os provedores da mesma não conseguem reduzir muito estes custos só à custa de mão de obra mais barata. Como o custo do produto em África é muito mais baixo (em alguns casos estamos a falar de valores 50 vezes mais baixos), será muito mais complicado pagar o aumento de custos. Em alguns casos poderá levar as empresas a simplesmente fechar as fábricas porque economicamente não faz sentido fazer a actualização destes sistemas. Não é o caso da minha empresa, mas conseguiria perceber a racionalidade.

 

Isto leva-me a pensar na forma como os países desenvolvidos acabam por manter os países em desenvolvimento com atrasos estruturais. Os países desenvolvidos foram tendo séculos para ir melhorando sistemas (dos quais o de tratamento de águas residuais é apenas um caso) à medida que as suas economias melhoravam, a tecnologia se desenvolvia e os limites iam apertando pouco a pouco. Muitas vezes estes limites são apertados de valores muito altos (quando os limites existem de todo) para normas essencialmente de primeiro mundo e isto torna-se uma condição para certas ajudas estruturais aos países em causa. Quando isto sucede, não será de espantar que as empresas fujam destes mercados de margens tão curtas.

 

Por um lado desejo o máximo de protecção ambiental (e outras) em países em desenvolvimento, que as suas populações sofrem já o suficiente para terem de lidar com poluição do ar e poluição e falta de água. Por outro lado, colocar tais exigências acaba por garantir que o desenvolvimento económico seja ainda mais lento e aumente o fosso para os países ricos. Conscientemente ou não, torna-se uma nova forma de colonialismo: colonialismo por meio ambiente.

 

Como na esmagadora maioria dos casos, não sei a solução. Eu apenas posso propor soluções e ajudar as fábricas a manter custos baixos. Mas se os países ricos ajudassem a resolver os problemas que criam, isso seria uma excelnte ideia.

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