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Delito de Opinião

Vacinas, cegueira e desorganização

João André, 16.03.21

Nestas discussões sobre vacinas acaba por se ver um nível de discussão que me confunde. Quando se fala da vacina contra o sarampo, poliomielite ou tosse convulsa, a questão dos (idiotas) anti-vacinas é apenas sobre "a vacina", não sobre a origem dela. Ninguém pergunta qual a empresa que a fornece. Aceitamos que foi aprovada e que oferecerá protecção directa ou indirecta (quando entendemos a diferença). No caso do COVID-19 discutimos sobre o tipo de vacina que receberemos. AstraZeneca, Pfizer, Moderna ou "a russa" ou "a chinesa". Não entendemos os princípios nem como funcionam, mas queremos ou não queremos só porque.

Claro que isto começa com os governantes que também não entendem nada disto e, apesar de serem instruídos por quem o entenda, acabam a dizer asneiras de tempos a tempos. Isto só resulta na população a acumular confusão. Se os políticos não entendem, como o conseguiremos nós? (não é irrazoável). Isto estende-se às negociações sobre a compra de vacinas. Os governantes parecem ter ouvido da AstraZeneca a frase «Temos capacidade para produzir e entregar X milhões de doses por mês» e aceitaram tal declaração como uma promessa. Pessoalmente entendo que terá sido esse o problema com as entregas da vacina na Europa: governantes que não entendem que ter "capacidade" não implica que essa seja atingida de forma regular. O meu carro poderá ter capacidade para atingir 200 km/h na autoestrada sem trânsito e com descidas, mas isso não significa que conduzirei de Lisboa ao Porto a essa velocidade média.

Claro que isto pode ser resolvido se existir uma administração pública com pessoas suficientes para ter especialistas nestas áreas ou, em alternativa, possam contratar consultores para estas áreas (desde que identifiquem tal necessidade). A Comissão Europeia terá muitos especialistas em cotas de peixe ou regulamento para queijos, mas provavelmente nunca terão tido uma única negociação para entrega de medicamentos.

Esta situação vem também demonstrar como este semi-confederalismo da UE não oferece nada. Nem a independência dos estados nem as sinergias dos federalismos. Os EUA têm uma administração federal repleta de especialistas em diversas áreas que trabalham nas suas competências independentemente do partido na Casa Branca ou que domina o Capitólio. A Europa tem especialistas em meia dúzia de áreas e falha nas outras. É uma área mais onde se aprender.

O pior presidente na história dos EUA

João André, 08.01.21

Li abaixo o post do José Meireles Graça e fiquei pasmado. Não entro pela sua opinião sobre a qualidade do trabalho que fez (cada um que tire as suas opiniões), mas pela forma como viu estes últimos meses como «uma mancha indelével no seu mandato». Deixo duas notas que me parecem relevantes.

1. Não houve fraude eleitoral nas eleições. Isto foi confirmado múltiplas vezes pelos estados, pelas instituições federais e pelo simples facto de os democratas não terem tido resultados tão bons no Congresso e Senado como para a presidência. Deixo este ponto aqui porque é importante deixar factos, não fantasias propaladas por pessoas com alucinações de conspirações por répteis que tomaram conta dos EUA.

2. e mais importante. Mesmo que alguém pense que Trump fez um bom trabalho legislativo e administrativo, não há forma de contornar o facto de ele ter fomentado uma divisão na população do país que não se via desde a Guerra Civil, bem como não há forma de ignorar que ele motivou e atiçou a turba de aloucos que invadiu o centro da Democracia dos EUA. Donald J. Trump é o homem que, enquanto presidente, quis dividir o país e iniciou uma insurreição. Isto não é desculpável nem que ele tivesse conseguido eliminar a pobreza no país.

Não compreender este aspecto fundamental faz-me confusão. A atitude de Trump perante qualquer norma democrática (e ao longo de todo o seu mandato, não apenas nos últimos meses) não é uma mancha. Mancha no mandato é o que teve Bill Clinton quando perdoou Marc Rich ou mentiu para esconder um encontro sexual. Se um presidente não cumpre a sua função primária, defender a Constituição do país e liderar toda a população e acaba por quase ser o arquitecto de uma descida aos infernos, então não há outra forma de ver as coisas: Donald J. Trump é o pior presidente da história dos EUA.

Maradona, o maior de sempre - porque eu o digo

João André, 21.12.20

O Pedro deixou aqui há dias um post sobre notícias acerca da morte de Maradona. Noto que o Pedro parece não gostar de ver Maradona a ser considerado o melhor futebolista de todos os tempos. É direito seu, como é óbvio. Não há uma forma de definir quem o possa ter sido e até surgir alguém que marque 1.000 golos, vença 4 campeonatos do mundo, 10 bolas de ouro e 15 ligas dos campeões, não creio que a discussão alguma vez termine. Mas deixo umas notas.

Antes de mais o óbvio que referi acima e reitero: o L'Équipe, tal como o Pedro, pode considerar quem quiser o melhor de todos os tempos. E colocar tal afirmação na capa. Chatearmo-nos com isso é inútil.

Em resposta ao Pedro, seria fácil dizer que Maradona teve um Campeonato do Mundo com uma equipa mediana e foi finalista com uma equipa medíocre numa altura em que era essa a principal competição futebolística do mundo (a Liga dos Campeões vinha ainda a uns anos).

Lembremos também que Maradona (como Pelé, Di Stefano, Beckenbauer e muitos outros), viveu num período pré-Bosman. O acordão Bosman veio não só abrir as portas às equipas europeias para terem múltiplos jogadores estrangeiros como, num período de boom económico, permitiu a criação das super-equipas que vemos hoje. Maradona teve no Nápoles Careca e Alemão como principais colegas. Messi teve o luxo de ter mais de metade da equipa espanhola campeã do mundo e Ronaldo também não andou a sofrer. Até Mbappé (potencialmente o próximo dominador) tem direito a luxo à sua volta. São períodos bem diferentes.

Há ainda as regras do jogo. Algumas "cacetadas" que dariam hoje vermelho directo não seriam mais que faltas nos anos 80. Algumas vezes nem isso. Ver Maradona (ou Futre, ou Stojkovic ou outros mestres do drible desses tempos) é vê-los a fintar com bola e com pernas, fazendo a bola fugir e depois mantendo o equilíbrio perante a perna adversária ou evitando-a. Não haveria a possibilidade das cavalgadas dos génios de hoje.

Maradona conseguiu ser campeão de Itália numa altura em que a competição era mais cerrada que a Liga dos Campeões de hoje (ou talvez igualmente difícil). Teve como adversários a Juventus, o Milan (Sachi, Gullit, van Basten), a Sampdoria, o Inter, o Hellas Verona (tinham na altura Elkjaer e Briegel) e outros tantos. Não era coisa pouca.

Mas sejamos sinceros: Maradona teve outromais que um Ronaldo não tem. Magia. Uma magia que não se viu antes e não se viu depois. Havia coisas que Maradona fazia com uma bola nos pés que não fazia sentido sequer imaginar. Maradona imaginava, visualizava e executava. Além disso era uma personalidade cativante que falava para (pelas?) massas mais desprezadas. Até a sua ligação à mafia napolitana era assente nesse apelo popular dele. Fazer a pergunta sobre "o que tinha ele que Ronaldo não tinha" não faz sentido nem em termos futebolísticos nem em termos pessoais. Era óbvio aquilo que um e outro tinham (tem) ou não. Mas aquilo que Ronaldo não tem e nunca terá é uma paixão sem limites. Não é crítica a Ronaldo, porque tal paixão é prejudicial. Mas é sem a menor dúvida a razão para o fascínio que a figura de Maradona exerce.

Quanto ao fascínio futebolístico. Bom, quem não o compreender tem muitos desportos com que se entreter. Crochet, por exemplo.

As estações do ano como entrada em discussões sobre Ciência

João André, 10.12.20

Estava há uns dias, juntamente com um amigo, a explicar a passagem para o Inverno a uma criança, quando o meu amigo descreveu as mudanças de estações como sendo resultado de o nosso planeta passar meio ano a aproximar-se do Sol e meio ano a afastar-se dele. Esta frase não é errada, mas não explica as estações, e fez-me lembrar como durante grande parte da minha vida, mesmo depois de eu compreender qual a razão para a existência de estações, eu continuei a ter na cabeça essa definição.

Foi muito cedo ao na minha vida escolar que eu aprendi que o Sol tem dois pontos na sua órbita em que está mais afastado e Sol (penso que se chama afélio em portuguêsn, ou aphelion em inglês) e dois pontos em que está mais perto (periélio, ou perihelion). Por causa disto e do conceito de as estações serem resultado da órbita em torno do Sol, é muito fácil pensar nelas como resultado da distância. Infelizmente é errado.

O problema começa porque apesar de haver de facto uma diferença na distância ao Sol, esta é muito pequena entre o afélio e o periélio e completamente insignificante no que diz respeito a estações. No afélio, a Terra está a cerca de 152 milhões de km do Sol. No periélio está a 147 milhões de km do Sol. A diferença de distência entre as duas posições pode parecer grande (cerca de 5 milhões de km) mas representa apenas 3% de diferença entre elas. As representações esquemáticas que vemos nos livros infelizmente transmitem a ideia errada, quase como se a diferença fosse o dobro (veja-se o exemplo abaixo).

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O primeiro problema que deveria existir com esta visualização seria o mais óbvio: os períodos em que a Terra está mais afastada correspondem também ao início do Inverno e do Verão. Os momentos em que está mais próxima correspondem ao início de Outono e Primavera.

Isto significa que essa diferença de 3% na distância não é significativa para as mudanças de estação. É antes a quantidade de exposição solar que faz a diferença. Como toda a gente sabe, a Terra tem uma inclinação em relação ao seu eixo orbital de cerca de 23° (tive de ir ver o valor exacto, não me lembrava). Isso significa que a quantidade de radiação solar que atinge um local específico na Terra durante um dia vai mudando ao longo do ano. por outras palavras, o dia é mais longo ou mais curto. Isso significa que a quantidade de energia que uma região (para o caso, hemisfério Norte ou Sul) recebe é maior no período perifélio a perifélio em que está mais exposto ao Sol.

É essa radiação extra dependente do tempo e não da distância, que faz a diferença. O hemisfério recebe mais energia, aquece a atmosfera (e os Ocanos, que são enormes reservatórios de energia) e muda o clima.

Estes pontos não são óbvios para uma criança e foi o problema que tive ao mostrar um livro com uma ilustração muito semelhante à de cima. As distâncias estão tão mal representadas e são tão mal elaboradas que as crianças não compreendem porque razão não influenciam o clima. É o mesmo problema que teríamos com a distância da Terra à Lua. Se dissermos a alguém que imagine a Terra do tamanho de uma bola de basquetebol e imagine, nessa escala, a distância a que está a Lua (do tamanho de uma bola de ténis), a maioria responderá com distâncias mais ou menos do comprimento do braço. No entanto, a Lua estaria a mais de 7 metros de distância. As distâncias reais são difíceis de transmitir.

Faço esta reflexão, talvez pela milésima vez (não estão todas no blogue) para comentar o estado da educação científica. Não só a forma como a educação científica é algo desprezada quando falamos de cultura geral (o que leva a muitas incompreensões, como na actual pandemia), mas também na forma como é apresentada, com aproximações que não ajudam à compreensão real daquilo que se quer descrever.

Este tema (cultura científica), é um onde já me debrucei no passado. Podem ler alguns dos posts aqui. No que diz respeito às distâncias e às estações, desta vez a criança entendeu (e o meu amigo compreendeu a dificuldade), pelo que só posso considerar-me satisfeito. Uma pessoa de cada vez.

As transferências futebolísticas como caso-estudo de gestão

João André, 14.10.20

Andei com afazeres pessoais e sem tempo para parvoíces, por isso foi engraçado espreitar os desenvolvimentos no futebol europeu e descobrir (uns dias tarde) que Rúben Dias tinha ido para o Manchester City e que Otamendi tinha seguido na direcção oposta. Tirando questões desportivas para o lado (como o facto de os centrais do meu Benfica terem agora uma média de idades superior à da mãe de Eusébio), achei engraçada a discussão que li nos posts de alguns amigos sobre se tinham sido duas vendas (Dias para um lado e Otamendi para o outro) ou uma troca (vendendo Dias por dinheiro e Otamendi).

Ora, sem querer estar a fazer afirmações peremptórias sobre a gestão dos dois clubes, deixo aqui a explicação para serem duas vendas e porque razão resultaram em lucro para ambos os clubes.

Ponto 1) Dias foi vendido por 56,6 m€ e assinou contrato por 6 anos. Otamendi foi vendido por 15 m€ e assinou por 3 anos.
Ponto 2) os clubes usam a amortização do valor da aquisição do jogador ao longo do contrato nas suas práticas de contabilidade. Isto significa que Dias custa cerca de 9,5 m€ por ano ao Man City e Otamendi 5 m€ por ano ao Benfica.
Ponto 3) o dinheiro recebido pela transferência é imediatamente contabilizado. Ou seja, o Benfica recebeu 56,6 m€ e o Man City 15 m€.
Ponto 4) Os valores para 2020 foram então 1) para o Benfica, de 56,6 m€ de redimento e 5 m€ de custos, i.e., 51,6 m€ de lucro e; b) para o Man City, de 15 m€ de rendimento e 9,5 m€ de custos, i.e., 5,5 m€ de lucro. Isto, claro, ignora a questão da amortização das transferências anteriores, especificamente da de Otamendi para o Man City (já lá chego).

Temos então que ambos os clubes lucraram. Claro que para 2021 ambos irão ter gastos, mas isso gere-se nessa altura, usando outras transferências.

O mesmo aconteceu na "troca" de Arthur e Pjanić entre Barcelona e Juventus. O primeiro foi para a Juventus por 72 m€ e o segundo para o Barcelona por 60 m€. Teoricamente isto resultaria num gasto líquido para a Juventus de 12 m€, mas não. Pjanić assinou por 4 épocas (custo de 15 m€ por época) e Arthur por 5 anos (14,4 m€ por ano). Isso significa que o Barcelona lucrou 57 m€ e a Juventus 45,6 m€. Isto sem contabilizar o valor residual dos contratos (já lá vou). Isso foi fundamental para o Barcelona poder equilibrar as contas e não entrar em conflito com o Financial Fair Play da UEFA.

O valor residual é outra história. Vamos usar Pjanić. O custo da sua transferência, por época, é de 15 m€. No entanto, ao fim de 2 anos, o seu custo residual é de 30 m€ (dos 60 m€ iniciais, 2x 15 m€ foram já pagos). Se nesse momento assinar um novo contrato por mais 2 anos, os 30 m€ residuais são distribuídos pelos 4 anos do novo contrato, trazendo assim os custos para 7,5 m€ por ano (alguns clubes oferecem novos contratos aos seus jogadores mais caros também por isto). Se no final dos 2 anos do novo contrato (4 no total) ele for vendido, os 15 m€ de valor residual têm que ser contabilizados como custo.

Isso significa que os meus cálculos acima da troca "Dias/Otamendi têm que ser revistos. Dias subiu pela formação, pelo que estes custos são insignificantes. Já Otamendi custou 44.5 m€ ao Man City em 2015. Não sei quantos contratos terá assinado, mas vamos assumir que apenas assinou uma extensão de 3 anos após 3 anos do contrato inicial. Nesse caso o custo residual foi de 5,8 m€. Fazendo assim as contas, a troca de Dias por Otamendi custou (contabilisticamente) uns 300 mil € ao Man City. Isto sem contabilizar salários, prémio, bónus e comissões, claro.

Isto tornou-se técnico, é certo, mas é curioso e faz-nos pensar. Uma das razões porque os grandes clubes continuam a dominar financeiramente poderá ser não só pelo seu poder financeiro inicial, mas também porque conseguem mais facilmente atrair gestores e contabilistas criativos que mantêm as contas em terreno positivo, mesmo quando os gastos são elevados. E não se pense que se trata apenas dos grandes clubes: todos o fazem, mas alguns são mais criativos que outros. Tudo isto me faz pensar que as universidades poderiam incluir transferências de futebolistas nas aulas de gestão financeira. Tenho a impressão que acordaria alguns alunos.

Pensamento da Semana

João André, 04.10.20

Livros sobre gestão são habitualmente uma fraude. Existem em 3 tipos: 1) compêndios de senso comum que cabem em duas páginas e esticados em forma de encher chouriços para dar um livro. 2) pré-conceitos e teorias que nunca foram aplicados ou quando aplicados, não foram bem sucedidos porque não o foram correctamente. 3) listas do que foi feito pelo gestor/autor e que foi bem sucedido, onde um caso de sucesso (teórico) valida toda uma nova teoria.

Há livros que apoiam a gestão, como livros sobre diferentes culturas, psicologia, etc, que são úteis, mas os livros de gestão, de management (não podemos falar em português, não serve), não dizem mais que vacuidades, coisas óbvias ou criam "conceitos" sem qualquer sentido.

Há no entanto um tipo de livros que é perfeito para se aprender management. Esta gestão não passa de gestão de pessoas, desde indivíduos a grupos. A melhor fonte que existe para compreender pessoas e saber como lidar com elas é a Literatura. Os clássicos. Os clássicos foram escritos por homens e mulheres que, antes de mais, observaram e estudaram outras pessoas. São clássicos não só pela qualidade da escrita mas também pela forma como os seus mundos são reais ou são excelentes alegorias do real. São estes os verdadeiros livros de management.

Há mais lições de gestão numa página de Guerra e Paz que em toda a obra de Stephen Covey. Jane Austen seria capaz de concentrar How to Win Friends and Influence People em 2 páginas. Os Maias poderia ser lido como um estudo de políticas internas na direcção de uma empresa.

Leiam os clássicos. Está lá tudo. E dão muito mais prazer.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante esta semana

Memórias subjectivas (6)

João André, 25.09.20

A Ana Rita foi o meu primeiro amor. Uso o termo "amor" de forma liberal, porque "paixão" seria completamente inapropriado. É que eu tinha entre 8 e 10 anos na altura. Não recordo exactamente a Ana Rita, apenas que era do meu grupo dos tempos livres, para onde ia depois da escola, e que eu terei confessado isso um dia à minha mãe, que provavelmente sorriu, disse algo como "sim filho?, que bom..." e voltou à sua vida pensando que eu estaria a crescer demasiado depressa. Uns anos mais tarde (ou provavelmente meses), veio a Elsa. A minha memória faz-me pensar que terá sido muito depois da Ana Rita, mas pode ter sido um mês apenas. Nessa altura isso era muito tempo. Sei no entanto que era da minha turma no 1º ano do ciclo (5º ano hoje) e que era bastante mais desenvolvida que eu (leia-se: notava-se que já tinha algum peito). Dizer que uma rapariga era mais desenvolvida que eu não é uma confissão excepcional: qualquer rapariga da minha idade era mais desenvolvida que eu. Eu diria que qualquer mulher com uma diferença de idade de cerca de 10 anos será mais desenvolvida que eu ainda hoje. Mas na altura isso era normal: é que eu era um rapaz, e os rapazes são completamente imaturos em relação a raparigas.

Isto é factual, mas será talvez meta-factual. A diferença não é apenas que as raparigas amadurecem física e psicologicamente mais cedo que os rapazes, mas que os rapazes não parecem amadurecer de todo no que diz respeito a raparigas. Se víssemos um gráfico do desenvolvimento emocional de rapazes por tópicos ao longo dos anos, veríamos uma progressão em todas as categorias e estas mais ou menos ao mesmo nível. No que diz respeito a raparigas, os rapazes atingiriam um determinado nível por volta dos 8 a 10 anos e ficariam nesse nível por uns 15 anos. Eu não era diferente. Mais: era pior.

Não que eu fosse parvo para as raparigas. Não, nem pensar (pelo menos não mais que a minha androcondição impõe). Cresci numa família essencialmente matriarcal e rodeado de mulheres, quase só com exemplos femininos. Aprendi muito cedo a respeitar as mulheres. Só que eu era um... como exprimir isto bem? Bom, com a palavra de então: um coninhas. Não é que eu não fosse fixe - não, não era - mas era quase o oposto de fixe. Não tinha roupas de marca, não lia revistas fosse do que fosse, não tinha música em casa para lá das cassetes dos meus pais e preferia ficar a ler (fosse onde fosse) do que ir para o centro comercial subir e descer as escadas rolantes. Isso significa que quando tinha que interagir com uma rapariga que eu não conhecesse minimamente, ficava com os méritos orais de Frankenstein num momento de paralisia mental. A maior parte das raparigs que me conhecessem provavelmente perguntariam como poderiam encontrar a cor de rouge que eu usava quando as conhecia e jurariam a pés juntos não serem vistas na minha presença a não ser que fosse num momento de caridade cristã.

Em resumo: eu era um nerd antes de saber o que era um nerd e nem sequer sabia queStar Trek começara como série.

Isso significa que eu não tive namoradas. Os sentimentos de desejo e atracção estavam lá, como em todos os rapazes. Hormonas são hormonas e não pedem licença ao nosso cérebro para começarem a festa no nosso corpo. Por isso continuei a ter paixões ao longo da minha vida. A seguinte foi a C. (a partir daqui deixo as iniciais, que algumas das pobres vítimas ainda serão conhecidas e prefiro manter o anonimato delas - e esconder as minhas vergonhas). Eu tinha uns 12 anos e ela era da minha turma. Note-se que não era a rapariga mais gira da turma, mas havia algo que me atraía. Possivelmente porque eu me sentava com ela na aula de Trabalhos Manuais (ou Educação Visual, não sei) e ela era simpática para mim. Isso era quanto bastava: alguma rapariga que desejasse a minha devoção infinita, para obter um escravo só precisaria de se lembrar do meu nome enquanto me passasse a borracha para apagar a asneira que eu tivesse desenhado. Isto seria verdade para a maioria dos rapazes, mas para aqueles que estavam no fundo da cadeia alimentar da escola, como eu, tinham reacções algo diferentes.

A C., fora esses momentos que ela nem saberia existirem, mal notaria a minha existência. Ela namorava um rapaz mais velho e andava com o grupo de raparigas populares da escola, uma boa parte delas oriundas da minha turma. Era das coisas mais curiosas: eu dava-me bem com todas as raparigas populares da minha turma. Passava as tardes em casa de uma delas (que era uma amiga da família) e era lá que umas duas vezes por semana o grupo se juntava. Nessa intimidade e afastados de todos, eu era aceite pelo grupo. Todas as raparigas se riam comigo, em vez de se rirem de mim, e tratavam-me como se eu fosse... normal. Uma vez descida a encosta para chegar à escola... eu era novamente o antepenúltimo rapaz mais giro da turma e que tinha ficado atrás do miúdo conhecido como "Formiga".

Depois da C. não se passou muito. Tinha mais com que me preocupar. Mudei de escola, cheguei ao Secundário e a puberdade tornou-me excessivamente consciente da minha própria incapacidade de interagir de forma decente com raparigas. Afundei-me nos livros, nos filmes e passava os recreios a ler com outro amigo nerd (ainda mais que eu) e os momentos de ócio a perguntar-me se alguma vez teria uma namorada. Suponho que terei escrito má poesia, mas felizmente não tenho provas físicas disso. Até à S.

A S. foi provavelmente a primeira rapariga que realmente amei. Amar, como nós entendemos a palavra de forma adulta. Claro que o meu amor era obsessivo, doentio e consumia-me de forma inapelável, mas era um amor verdadeiro. Não era uma paixoneta por uma rapariga gira, popular e que me teria um dia dirigido um sorriso. Era real. Dado que esse amor não trouxe com ele qualquer cura para o meu embaraço perante raparigas, eu continuei sem agir. Vi a S. a começar a namorar o R., um rapaz enorme, o dobro do tamanho dela, popular mas burro como uma manada de vacas, e não comprendia. Ele não era engraçado, simpático, esperto nem sequer fumava. Tinha talvez umas roupas de boas marcas, mas não era o único. Até hoje é um mistério. Claro que a minha imaginação concebeu cerca de 1.763.901 formas de o R. ser exterminado (ou pelo menos removido de cena) em momentos que me elevariam a herói da S. Claro que passei meses sem dar o mais pequeno passo.

Até que, num momento de loucura, após um encontro de fim de semana da turma, lhe perguntei quando ia para casa, se queria namorar comigo. O estômago estava provavelmente na zona dos tímpanos, o fígado dava voltas em torno do esófago, o coração fzia iô-iô entre os pés e o cabelo enquanto esperava uma resposta. Seria agradável dizer que ela confessou o amor que sentia por mim e que teríamos passado por um periodo infinito de felicidade (i.e., cerca de um mês), mas a verdade é que ela sorriu com compaixão e me disse que não.

A obsessão não amainou e ameaço consumir-me excessivamente. Durante os testes, eu olhava para ela, durante as aulas, eu observava-a. A R. e a T. fizeram-me chegar as suas manifestações de interesse pelas vias regulares: dizendo à amiga, que explicou à prima, que disse ao irmão, que informou o colega de futebol, que passou isso ao colega de turma que por acaso ia comigo no autocarro nº 4 durante 3 paragens - convém explicar que elas eram ambas da minha turma, mas estas coisas não se dizem de forma directa. Por esta altura eu já não andaria pelo antepenúltimo lugar, mas não era popular. Ainda assim a R. e T. eram giras, simpáticas e eu dava-me muito bem com elas. Mas não eram a S.

Até que decidi - sim, decidi - que não seria mais consumido pela paixão. Decidi-me a largar esse desejo pela S. A fechar o meu coração à sua existência. Caso contrário, não viveria. Foi mais fácil do que eu supunha. Num dia eu passava os dias a pensar nela e a observá-la,  um par de dias mais tarde não o fazia. Suponho que o meu amor terá abrandado e que aquilo que eu sentia era antes de mais uma obsessão - adolescentes são solo fértil para as cultivar - e que o amor teria decidido seguir em velocidade de cruzeiro. No entanto era como se eu tivesse sentido o meu coração a endurecer (já expliquei que eu lia muito e via muitos filmes?) e passei depois vários anos até sentir que me tinha apaixonado novamente, já na universidade.

A universidade é outro tempo e não falo nisso. Foram 20 anos mas era eu já (mais ou menos) adulto. Não conta para estas memórias.

Falar da Ana Rita, da Elsa, da C. e da S. não é dar conta de toda a minha vida amorosa até aos 18 anos. Nada disto refere os namoricos de Verão, os jogos de bate-pé (cujas regras me pareciam algo esotéricas), os beijos (chochos, no termo estranhamente apropriado que usávamos) em excursões - perdão, "visitas de estudo" - ou festas e idas às matinés da discoteca local. Aos poucos tais actividades foram removendo a minha incapabilidade de interagir com raparigas de forma mais física (se as circunstâncias fossem assexuadas, eu dava-me melhor com raparigas que qualquer outro rapaz que eu conhecia) e aprendi aquilo que qualquer rapaz deve aprender na adolescência. Nunca fui popular, mas não precisava de o ser. Quando olho para trás, vejo que desejei, tive paixões e amei. Não fui particularmente retribuído, mas para dizer a verdade pouca gente que eu conheço diz que o tenha sido. Penso que a minha experiência amorosa, enquanto cresci, terá sido um exemplo da de qualquer rapaz, com as pequenas variações devidas às personalidades individuais. Todas as raparigas que fizeram parte desse meu imaginário estão gravadas na minha memória exactamente como eram na altura, mesmo quando as conheço hoje, mulheres da minha idade. Não tenho nostalgia, mas tenho uma enorme gratidão por terem sido parte tão importante da minha vida. Mesmo que nunca o tenham sabido.

Ronaldo, o belo psicópata

João André, 14.09.20

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Quando Ronaldo alcançou na semana passada os 101 golos em jogos internacionais (apenas a 8 do recorde absoluto de Ali Daei), lembrei-me deste artigo de 2019 sobre Federer, Nadal e Djokovic. E lembrei-me dele essencialmente porque numa carreira da selecção já com 17 anos, Ronaldo marcou 46 dos 101 golos desde 2016 (e 2020 mal conta para isto), ou seja, depois dos 30. Se recuarmos a 2013, quando tinha 28 anos quando atingiu o que seria o pico para a maioria dos jogadores na sua posição, marcou 64 golos (e ainda houve o período em que não jogou muito pela selecção), ou seja, mais de 60% dos golos.

Podemos escrever muito sobre os motivos: a forma como a selecção melhorou em pessoal e em orientação técnica, podemos referir a ética e as qualidades únicas de Ronaldo, a sua inacreditável capacidade física mesmos aos 35 anos e até a forma como soube adaptar o seu jogo, minimizando-o mas tornand-se mais focado e excepcionalmente eficaz a marcar golos. Eu prefiro referir a sua fome e aquilo que nos diz.

É comum referir a forma como Ronaldo trabalha imenso, tem cuidado com o seu corpo e a vontade que continua a ter de vencer. Falar disso como se fosse excepcional é no entanto errado: não creio que o seja. Ronaldo é um ser humano excepcional, mas as suas características mentais provavelmente são comuns a vários outros desportistas, alguns dos quais poderão não passar da mediania mas só atingirão tal nível precisamente devido a esse desejo e dedicação. Gosto sempre de me lembrar de António Pereira, que conseguiu um recorde nacional e o 11º lugar nos Jogos Olímpicos de 2008 nos 50 km marcha e que se preparava apenas após passar pelo menos 8 horas por dia na sua profissão de electricista e que teria recebido como apoio apenas um par de sapatilhas oferecidas pela sua autarquia (cito de memória). Talvez a sua dedicação e fome não fossem menor que a de Ronaldo, mas os seus meios, especialmente físicos, eram-no certamente.

No entanto Ronaldo tem um aspecto que o distingue: apesar de continuar a vencer troféus e a arrecadar prémios individuais, a sua fome de mais não diminui. É comum ver equipas de enorme qualidade a perderem capacidade de vencer à medida que os seus jogadores "enchem a pança" e, apesar de a sua qualidade desportiva não ser menor, deixarem de conseguir competir como no passado. Alex Ferguson durou imenso como treinador (manager seria mais correcto) do Manchester United precisamente porque sabia ser necessário renovar a equipa (além de tomar decisões difíceis quando necessário). Ronaldo é dos poucos jogadores que nunca parecem satisfeitos com o que alcançaram e querem sempre mais, mesmo que seja do mesmo.

Federer, Nadal e Djokovic têm vindo a dominar o ténis nos últimos 15 anos, mais ou menos. E têm cada um mais Grand Slams que qualquer outro jogador. Independentemente de como eles sejam vistos por cada observador no que diz respeito às suas posições nas listas dos melhores de sempre, não há quaquer dúvida que a sua fome de títuos é verdadeiramente inacreditável. É verdade que cada um teve períodos de seca. Federer abrandou para passar mais tempo com a família, Djokovic para fazer o mesmo e reencontrar a sua fome de títulos e Nadal por motivos físicos, mas cada vez que qualquer um deles entra no court, os seus adversários sabem que estão a lutar para sobreviver e que qualquer erro será severamente punido.

No artigo acima, refere-se que um psicólogo desportivo considera os 3 como psicópatas, mas "em bom". Não entro nos detalhes, porque farei asneira num campo que não domino, mas a ideia é interessante, porque de facto, além das características físicas, aquilo que muitos dos grandes desportistas da história parecem partilhar é uma fome insaciável e uma capacidade de punir quaisquer lapsos de concentração.

Ronaldo parece ser um deles. A forma como é determinado a vencer todo e qualquer troféu, todo e qualquer jogo, todo e qualquer duelo individual, toda e qualquer jogada, evidencia uma pessoa com algum tipo de diferença na forma como o seu cérebro funciona. Parece ser alguém que quer esmagar o adversário, não porque tenha prazer na humilhação, mas porque retira prazer na forma como vence tudo. Num artigo que li, outros jogadores da selecção comentam como ele tem essa atitude competitiva mesmo a jogar ténis de mesa ou cartas. O recente "hagio-documentário" sobre Michael Jordan, The Last Dance, apontava para o mesmo tipo de comportamento pela antiga estrela dos Chicago Bulls.

Por isso mesmo, ainda que os seus dotes físicos estejam em declínio, a sua mentalidade levá-lo-à a procurar sempre mais. Talvez um dia isso o leve a procurar objectivos dolorosamente fora do seu alcance, talvez um dia vejamos Ronaldo a arrastar-se pelos campos em busca de duelos que possa vencer, nem que seja um raro golo ou um raro drible. Não o creio: Ronaldo demonstrou já ser inteligente o suficiente para saber que terá que se retirar. E, seja como for, há sempre outro tipo de desafios para focar a sua determinação.

Diamante bem polido

João André, 02.07.20

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Só conhecem Adam Sandler de comédias inanes, sensivelmente idiotas e quase indistinguíveis entre si?

Os desportistas que vêem em filmes têm papéis irrelevantes, são maus actores ou os filmes são veículos sem qualquer interesse?

Têm saudades de filmes sobre cidades, frenéticos e com uma energia contagiante?

Uncut Gems (o IMDb diz-me que em português se chama Diamante Bruto) é o filme para vós.

Peguei no filme porque tinha lido várias coisas interessantes sobre ele no The Ringer. Não tinha muito interesse em ver mais um filme com Adam Sandler e parecia-me que ele esgotara os papéis interessantes ao aparecer em Punch-Drunk Love, de Paul Thomas Anderson. Enganei-me. Os irmãos Safdie, que realizaram e escreverm o filme, injectam um ritmo intenso na história e Sandler dá o corpo a tudo o que lhe atirem. O seu Howard Ratner fala depressa, vive de uma dívida para a outra enquanto distribui roupas e malas Gucci, equilibra uma vida entre Manhattan onde tem o negócio e a amante que é também a sua empregada e a vida familiar, fora da cidade, com a sua mulher que já não o suporta e os filhos, com quem tem relações por mensagem e com quem discute pouco mais que basquetebol.

O ritmo é desde o início completamente alucinado. Os irmãos Safdie (juntamente com Ronald Bronstein) dão a ideia de ter escrito centenas de páginas de diálogo e Sandler faz o seu melhor para o dizer todo no filme. Mesmo quando não se filma mais que Sandler a caminhar pela rua ao telefone, o uso de zoom com câmaras colocadas de longe levam a um constante tremer subtil da imagem que nos transmite o nervosismo das personagens e a incerteza das situações. Outro uso inteligente da câmara é dentro dos carros, com as personagens apertadas e a aumentar a situação de claustrofobia e de cerco que se vai apertando em torno de Ratner. E a solução para todos os seus problemas é uma opala que ele quer vender em leilão.

A opala é o mcguffin que faz avançar o filme, mas são as suas personagens que o fazem respirar. Sandler como Ratner é simplesmente brilhante e faz perguntar porque razão não o vemos mais vezes em papéis dramáticos. As outras personagens, mesmo com tempo limitado, conseguem respirar e ter espessura. Julia Fox é uma revelação como Julia, a namorada de Ratner. Idina Menzel tem uma interpretação de enorme subtileza e espessura como a mulher de Ratner. Lakeith Stanfield demonstra novamente (pelo menos para mim), o alcance das suas capacidades dramáticas como Demani, um colaborador de Ratner que lhe traz potenciais clientes. No entanto é Kevin Gernett, a representar uma versão semi-imaginada dele próprio, que rouba o filme.

Garnett atrai qualquer atenção por causa da sua estatura (2,11 m). Um plano que o inclua a ele e a outros actores vai levar à existência de muito espaço não preenchido por outras pessoas. Os irmãos Safdie compreendem isto e normalmente filmam Garnett de forma individual, em grandes planos ou, se necessário com outros actores, enchendo o cenário de objectos. Isso não impede Garnett de agarrar as cenas. Para quem não saiba, Kevin Garnett foi um jogador de basquetebol da NBA. Era um dos melhores da sua geração e visto como uma dos melhores jogadores de sempre na sua posição. Era também conhecido como um jogador de enorme intensidade, tanto com a bola como a comunicar com outros jogadores.

Isso é facilmente visível no filme. Há uma ou outra frase que não sai com a convicção que se esperaria de um actor profissional, mas a intensidade do olhar de Garnett, a sua presença, os seus silêncios e o seu à vontade no mundo de alta velocidade em volta dele, acabam por ser magnéticos. A melhor cena do filme é quando, perto do fim, Ratner faz uma espécie de discurso/pedido a Garnett. Este fica calado a maior parte do tempo, mas a energia da cena é palpável e demonstra a química entre ele e Sandler.

Os irmãos Safdie pretendem nos seus filmes capturar as suas experiências a viver e crescer em Nova Iorque, especialmente em certos períodos temporais. Essencial para eles é demonstrar a vida de certas zonas e os hábitos dos judeus da cidade. Fazem-no não como tema, mas como enquadramento, não muito diferente daquilo que Woody Allen foi fazendo ao longo de décadas: criar histórias a partir dos ambientes e vivências pessoais. O resultado final é diferente, mas o paralelo existe e pareceu-me claro. Chamar a este filme um cruzamento entre Scorsese e Allen seria abusivo, mas não completamente errado.

No fim, o filme é essencialmente um dos melhores que vi nos últimos anos. Agarrou-me do princípio ao fim e se o final é algo brutal, não deixa de ser igualmente em linha com o resto do filme. Quando pensamos no momento é como se sempre soubéssemos que aquilo iria acontecer, que as personagens estavam fadadas a terminar assim.

Diamante em bruto? Talvez a pedra do filme. O filme em si é das pedras mais preciosas que se pode ter.

A História e o pedestal

João André, 30.06.20

Faz-me pena a questão das estátuas vandalizadas ou derrubadas, não porque isso não faça necessariamente sentido, mas porque acima de tudo distrai do essencial: várias (quase todas, diria) sociedades são de facto estruturalmente racistas, mesmo que apenas como herança do passado.

É hoje indiscutível que as condições em que cada pessoa nasce e cresce condiciona fortemente o seu futuro. Há quem destrua todas as condições de privilégio em que nasce e outros que ultrapassam as limitações do seu ambiente. Em geral, contudo, quem nasce pobre tem de subir um plano inclinado e quem nasce mais confortável terá uma inclinação mais suave pela frente.

O racismo passado criou condições para múltiplas pessoas serem condicionadas fortemente a terem montanhas bem íngremes pela frente só devido à cor da pele dos seus antepassados. O similarity bias continua a garantir que tais montanhas se mantenham inclementes mesmo quando se consegue começar a subir. Isto é também indiscutível. Há casos em que certos grupos conseguem ultrapassar essas dificuldades mas habitualmente obtêm um patamar intermédio entre o grupo dominante e o grupo mais fortemente discriminado. Um exemplo extremo eram os indianos na África do Sul, discriminados mas acima dos negros (situação que continuará).

No fundo tudo se resume a um aspecto simples: acreditamos que há grupos que são mais ou menos capazes devido à cor da sua pele ou à sua origem geográfica? Se sim, então a visão é racista (os estudos honestos modernos continuam a negar tal conceito) mas a situação actual é compreensível e uma consequência destas diferenças. Se se entender (como eu) que não há qualquer diferença significativa nas capacidades das pessoas de grupos diferentes, então é a sociedade que é racista se não virmos uma representação em cargos públicos, nos quadros das empresas, nas universidades, etc, razoavelmente equivalente à distribuição dos diferentes grupos na sociedade.

Esta é a realidade actual e não é por o presidente anterior dos EUA ser negro (ou mestiço) ou o primeiro-ministro português ser de descendência goesa que o resto da sociedade é não-racista. E se é racista, é normal que haja grupos cujas frustrações colectivas mantidas ao longo de séculos a certa altura extravasam. Ainda mais normal é que estas se manifestem em símbolos desse passado, sejam estes símbolos do racismo (nos EUA, Jefferson Davis) ou apenas representantes do seu tempo (George Washington ou Thomas Jefferson, que possuíram escravos).

Relembremos: as estátuas não são a priori história, antes representam figuras históricas. Nalguns casos as estátuas pertencem à história, pelo que representam, pelo que demonstram, pela arte que as construiu. Não devem por isso ser destruídas, mas não significa que tenham que ser mantidas. Não devemos simplesmente juntar uma turba furiosa para as derrubar, mas a presença de tal exigência deveria levar a uma reflexão sobre o valor da mesma estátua e a validade de a manter. Isso sim, ajudaria a pensar a história. O resto é apenas esconder o passado debaixo do pedestal.

Futebol ou Saúde? Saúde!

João André, 30.06.20

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Quando se começou a história do "desconfinamento", vieram logo os clubes perguntar se poderiam jogar. Questões de dinheiro, está claro, especialmente para os maiores. Muita discussão houve sobre os jogos à porta fechada, se fariam ou não sentido. Aquilo que para mim não fez sentido foi recomeçar de todo os jogos. Não porque "futebol sem espectadores não é futebol", como dizem muitos do redondo das suas barriguinhas que devem ter dados os últimos toques na bola ao mesmo tempo que Maradona atava ingleses. Tão só porque o futebol, mesmo sem espectadores no estádio, não deixa de ter espectadores fora dele, espectadores que se juntam para ver jogos e, em certas alturas, para festejar desfechos.

As imagens acima demonstram o que se passou em Nápoles, cidade há muito privada de alegrias desportivas e também a sofrer das medidas italianas, e em Liverpool, onde o principal clube local (e possivelmente nacional) não vencia o campeonato há 30 anos, numa altura em que a competição ainda nem existia na forma actual. Os adeptos vieram à rua festejar e o distanciamento social resumiu-se a não conviverem com adeptos de outros clubes.

A Liga Belga decidiu cancelar o resto da época e atribuir o título ao clube que estava em primeiro lugar quando a interromperam. A Liga Holandesa abandonou a época, cancelou subidas e descidas de divisão e não atribuiu o título, apenas atribuindo as qualificações para competições europeias com base na classificação no momento da interrupção. Fizeram isto seguindo as ordens do governo holandês de cancelar eventos públicos até 1 de Setembro. A Liga Francesa também cancelou o resto da época e as classificações ficaram as do momento da interrupção, dando também título.

Talvez haja países onde as condições permitam continuar as ligas sem grandes problemas, como foi o caso da Alemanha, que prosseguiu o campeonato e após o final não se viram grandes celebrações pela cidade de Munique. Nos restantes países, a melhor solução talvez fosse simplesmente não se jogar mais (e o mesmo é válido para as competições europeias). No caso português, isso poderia passar por anular a competição como na Holanda ou cancelar o restante como na Bélgica e França. Eu teria preferido esta segunda opção, dando o título ao FC Porto (que liderava na altura da interrupção) e restantes lugares de acordo com as suas posições.

Não haveria soluções ideais, mas parece hoje claro que o COVID-19 está a regressar e a ganhar força. Ir pela solução que privilegiasse a saúde seria talvez a opção menos má.

 

PS - como benfiquista, tal escolha ter-me-ia poupado às tristes figuras do meu clube. Está claro que o Benfica não soube gerir a interrupção. Já o Sporting de vários dos meus colegas de blogue parece tê-lo feito bem.

Colonizar Marte

João André, 10.06.20

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Recentemente a SpaceX tornou-se a primeira empresa privada a enviar seres humanos para a Estação Espacial Internacional (ISS). Foi um feito que abre as portas a uma nova era de exploração espacial, onde certo tipo de operações poderá passar para a mão de privados e libertar a NASA (e outras agências públicas) para se concentrar em objectivos mais científicos e menos mundanos e reduzir o custo das operações de suporte (a SpaceX, bem como Blue Origin e outras, fazem os seus lançamentos a custos bem mais baixos que a NASA, ESA ou Roscosmos).

No entanto, o objectivo declarado de Elon Musk, o principal responsável pela SpaceX (e várias outras empresas), é o de levar seres humanos a Marte e criar lá as primeiras colónias. É um objectivo admirável e que um dia será possível, mas quando penso nele a longo prazo, penso que há um erro de cálculo no conceito de Marte como "nova casa" para os seres humanos.

Marte é um planeta com cerca de 53% do tamanho da Terra e apenas 10% da massa do nosso planeta. A atmosfera de Marte tem apenas 0,6% da pressão da da Terra e é composta em 95% de dióxido de carbono. A atmosfera está directamente relacionada com a massad o planeta, dado que a sua espessura depende imenso da gravidade que o planeta exerce. A nossa atmosfera não existe por haver alguma barreira por cima do nosso planeta que evita que os  gases escapem. Tal como nós próprios, os gases que compõem a nossa atmosfera mantêm-se presos ao planeta porque a gravidade não os "deixa" escapar. No caso de Marte, tal não é possível.

 

Isolamento a levantar

João André, 10.05.20

Uns tempos sem tempo para nada, que isto de ter a prole em casa complica a vida a dois pais que têm de trabalhar, especialmente com as reuniões a aumentar em relação ao normal.

Mas vá que amanhã reabrem as escolas e creches. Na Holanda e noutros países. E isso leva-me a pensar nas diferenças. Na Holanda há já muito que os isolamentos têm sido softs. A vizinha de baixo tem a cada 3 dias um jantarzinho no pátio com amigos. Separação de metro e meio? Pois claro. Os supermercados têm entradas e saídas separadas com fitas, porque se sabe que as fitas impedem a passagem do vírus, isto é país de gente cumpridora. Até os corredores de supermercado têm as fitinhas nalgumas zonas a obrigar-nos a seguir um determinado percurso, género IKEA. Se nos esquecermos de alguma coisa lá atrás? Vamos em contramão porque não podemos ir à volta, a fita não deixa. As lojas dão todas o cestinho à entrada, é para contar as pessoas lá dentro. Vem com criança porque não a pode deixar com ninguém? Leve mais um cesto.

Já a Bélgica é mais misteriosa para mim. Fecharam a fronteira e eu não posso entrar. Sabe-se bem que os holandeses são uns contaminadores e não podem entrar nesse paraíso sem COVID-19 que é a Bélgica. Já uma loja que atravessa a fronteira entre Holanda e Bélgica? Metem-se as tais fitas dentro da loja a separar (isto foi há semanas, não sei como está agora). Mais uma vez, o vírus é boa gente, não vai atravessar.

Na Alemanha levei um choque no supermercado quando lá fui fazer compras. Nada de problemas na fronteira, mas toda a gente no supermercado estava de máscara, que parece ser obrigatório. Até pensei que não me deixassem entrar, mas nem por isso. As caixas tinham a protecçãozinha de plexiglass e de resto os contactos eram minimizados. Claro que usar a máscara parecia boa ideia até as pessoas as irem tirando no parque de estacionamento, porque o vírus não gosta de carros, já se sabe, é ambientalista. Dentro do supermercado as pessoas eram mais disciplinadas a usar as máscaras - que às vezes eram apenas golas puxadas sobre a boca - e até as arranjavam a cada 5 minutos, mexendo nas bochechas e no nariz. Também coçavam os olhos. E mexiam no telemóvel. Porque aquela radiação do telemóvel, se causa cancres, também deve matar vírus, ou bactérias, ou bacilos, ou micróbios ou lá o que é o bicho.

O melhor são as pessoas que usam as luvinhas e as máscaras e depois de mexaer em tudo o que encontram, puxam do telemóvel e encostam-no ao ouvidinho, trazem perto da cara. E depois arranjam a máscar constantemente, ajustam óculos de sol, coçam o naríz e comem a comida com as luvas que não lavaram ou trocaram. Lá está, o vírus é simpático, não vai para a comida - eu também não ia para alguma desta comida que se compra na rua.

Mas está tudo bem. O isolamento levanta-se e os miúdos regressam à escola. Só dois dias por semana que as classes são divididas a meio. A entrada é proibida a pais, que apenas terão de se concentrar à porta da escola na rua apertada. E na creche só quatro poderão entrar ao mesmo tempo, que há apenas 4 peças de um objecto para entrar. Claro, os pais lá terão que esperar pela sua vez, com a sua prole, à entrada num corredor exterior com metro e meio de largura. Tudo lógico, obviamente. Nos parques? Vamos a um piquenique. As mantas estão a metro e meio das outras, por isso está tudo bem, não é?

É tudo muito bonito. Vamos a ver a beleza em Setembro. Não gostamos do isolamento? Esperemo pelo próximo Inverno. Espero enganar-me. Mas o isolamento (e não, não é a quarentena,isso é outra coisa) está a levantar. Para já.

Achatamento da curva? Talvez, mas...

João André, 31.03.20

Quando falamos em números de casos e mortes da pandemia, eu normalmente sigo o site que a Johns Hopkins University criou. Ali eles colocam os números de casos e mortes por país, excepto em alguns países maiores e de maior interesse, onde dão também mortes por região ou estado. Tende a ser o site que a maior parte dos jornais que vou lendo vai usando.

Um dos gráficos mais interessantes é o de novos casos por dia. Pode ser visto globalmente, para o mundo inteiro, ou por país. O mesmo para o número cumulativo de casos. Também tem a opção de ver a evolução num gráfico (semi-)logarítmico mas vou deixar isso para outra altura.

Uma coisa que se começa a notar é o achatamento da curva quando olhamos para novos casos (o gráfico vem sob a forma de um histograma, mas não faz diferença para o caso) e parece que estamos a deixar a porção exponencial quando os vemos de forma cumulativa. Olhar para os gráficos da Coreia do Sul dá uma ideia melhor do que estou a falar.

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Gráficos para a Coreia do Sul. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

Os gráficos demonstram bem a evolução. Como existiram poucos casos a início, houve depois um rápido aumento, seguido de estabilização e depois uma dimiuição de novos casos, o número dos quais tem sido mais ou menos constante nos últimos tempos. Em parte isto mostra o aumento súbito de casos, mas também aponta para a possibilidade de esse aumento súbito ter surgido de forma mais articial, e ser resultado do aumento do número de testes feito.

Para o caso português, vemos que estaremos agora a estabilizar o número de novos casos diários (ver gráficos). Isto poderia indicar que estamos a atingir o pico de casos no nosso país.

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Gráficos para Portugal. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

Há contudo precauções a tomar. Da mesma forma que os casos na Coreia do Sul poderão ter reflectido a súbita disponibilidade de testes, em Portugal o número máximo de casos poderá reflectir apenas o número máximo de testes que o país é capaz de fazer por dia. Se o máximo de testes que for possível fazer em Portugal num único dia andar pelos 800 a 1.000, será esse o número máximo de casos que aparecerão nas estatísticas, mesmo que o número real de novos casos seja de 1.200, 3.000 ou até de meio milhão.

O mesmo pode ser visto para Itália, Espanha ou EUA (gráficos abaixo).

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Gráficos para Espanha. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

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Gráficos para a Itália. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

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Gráficos para os EUA. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

O melhor exemplo de como isto provavelmente será real é o dos EUA. Houve um aumento rápido do número de novos casos diários a início e de repente atingiu-se quase como que um patamar por volta dos 18 a 20 mil casos diários. Certamente que os EUA estarão a testar mais que 20 mil pessoas por dia, mas apenas uma parte terá contraído o vírus. Se a percentagem de pessoas com COVID-19 for mais ou menos estável, o número de novos casos poderá então estar na mesma limitado pelo número de testes administrados. Por exemplo: se 400 mil pessoas forem testadas diáriamente e apenas 5% tiverem o vírus, apenas 20 mil novos casos surgirão. Se fossem 4 milhões, poderíamos ter 200 mil casos diários.

Obviamente que isto é apenas uma hipótese, mas na ausência de outros dados (número de testes por dia, número de testes negativos, etc), é um cenário plausível e, com as notícias que há constantemente pedidos para mais testes, até mesmo provável. Não contemplo aqui as pessoas que terão contraído o vírus e estarão assimptomáticas ou com sintomas muito ligeiros e completamente indistinguíveis dos da gripe, dado que esas pessoas provavelmente não serão testadas.

Concluindo. Devemos ter cuidado com notícias que falam em achatamento da curva ou em estarmos a atingir o pico da crise. É possível (assim o desejo) mas há mais situações a considerar. Vamos vendo caso a caso.

Dat kan niet

João André, 29.03.20

Já vivendo e/ou trabalhando há uns bons anos entre Holanda, Alemanha e Bélgica, há uma coisa de que me apercebi: cada país tem as suas características gerais e estas, com maior ou menor variação interna, definem os seus habitantes como grupo e definem em traços grossos as suas decisões. Dirão muitos, e com boa razão, que eu já o deveria saber há muito. Acontece que vivi durante muito tempo com a ilusão que somos todos europeus e essencialmente semelhantes. As diferenças que eu hoje percebo como regionais num único país em tempos entendi como regionais pela Europa inteira.

Os holandeses, como todos os outros povos, têm as suas caracaterísticas genéricas. Notam-se mais quando estão em grupo - em especial quando os encontramos em grupo fora da Holanda, por contraste aos demais - mas estão sempre presentes. Essas características em si não são boas nem más, depende dos pontos de vista de cada um, preferências pessoais e situações individuais. O moralismo é uma característica que lhes é frequentemente atribuída, mas eu prefiro olhar para eles como julgando frequentemente actos e pessoas. Isto está obviamente ligado à moralidade, mas eu prefiro pensar nessa característica desligando-lhe esse elemento. Cada um julga pelo seu prisma, que em muitos casos é moral e noutros não tanto.

Ora mais que moralistas, os holandeses têm um hábito enraizado de julgar outros. Todos o fazemos, não há povo que não o faça e não acredito que haja quem não o faça, mesmo que o façam de forma bem intencionada. O julgamento holandês, mais que moralista, é informado por uma crença de existir uma forma correcta de fazer as coisas. Os holandeses gostam de discutir toda e qualquer decisão ou posição e esperam que os outros tenham uma opinião sobre qualquer assunto, seja ele qual for. Da mesma forma, valorizam que toda a gente contribua, mesmo que seja simplesmente para repetir o que os outros disseram. Quem não tem uma opinião é visto com desconfiança, como não estando preparado.

Tendo um cunho tao colegial, as posições tomadas por holandeses são também muito fortes e enraizadas. Uma vez decidido um rumo, é frequente vê-los decididos a avançar mesmo quando lhes são apresentados dados suficientes para o colocar em causa. Se um holandês disser «isso não pode ser», seja lá qual for o tom, está a indicar algo que não vai considerar de forma nenhuma. É uma tradução de «dat kan niet» e não consigo imaginar expressão mais forte na língua holandesa.

Os holandeses são vistos como muito directos na sua comunicação. É simplesmente a forma de ser deles. Frequentemente essa componente é visto como mais, como ofensiva. Não é, ou pelo menos não é suposto ser. Quando alguém se ofende com as mensagens que eles enviam, os holandeses ficam genuinamente confusos: não compreendem porque razão alguém se há-de ofender com uma opinião dada francamente, honestamente e de forma directa, sem rodeios. Da mesma forma, as culturas que preferem rodeios (e a nossa gosta deles mais que os holandeses, mas francamente menos que os japoneses), não conseguem entender porque razão alguém fala assim, sem enquadrar antes a sua opinião.

Quando um ministro holandês diz que gostaria de investigar o que foi feito antes de entregar dinheiro, está genuinamente a indicar que gostava de saber porque razão a preparação não existia. Do ponto de vista dele não existe um ataque, antes uma avaliação honesta e sincera de uma situação e a explicação para a sua relutância. Quando um governante de outro país lhe diz que as declarações são repugnantes, ele não entende e ficará ainda mais reluctante em tomar a decisão de apoiar financeiramente. Na óptica dele, este é apenas mais um dado para avaliação da situação e é um que lhe diz que os outros querem o dinheiro e não querem prestar contas. O governante, no entanto, vê as declarações do holandês como uma quebra de um espírito europeu.

Note-se que não sei o que Hoekstra pensou nem qual o objectivo de Costa quando cada um prestou as suas declarações. Apenas faço uma análise perante aquilo que sei da cultura holandesa. E tudo nesta situação irá empurrar os holandeses, mais ainda que no passado, para uma posição de «dat kan niet». E não creio que qualquer pessoa que tenham nos respectivos staffs lhes explicará as diferenças culturais, ou, explicando-as, que as entendam. Para certos aspectos é necessário viver tais diferenças ou comunicá-las de forma clara.

O que isto significa é que os holandeses, já convencidos da sua justeza na questão dos eurobonds (ou coronabonds como alguns lhes chamam agora), fincarão ainda mais os pés perante as posições dos outros países. Para um holandês, não deve haver segredos (as finanças holandesas conhecem o montante que tenho no banco sem que eu lhes diga nada) e como tal, verificar as acções dos outros é algo absolutamente normal. Para um português (ou espanhol, italiano, etc), espreitar pela janela de casa é bisbilhotar e ofensivo. Um holandês tem a sua janela do rés do chão com as cortinas abertas.

Podemos agora argumentar para a frente e para trás quem tem razão ou não. A verdade é que depende da bússola pessoal e de para onde aponta o norte de cada um. Os holandeses, por exemplo, decidiram avançar para um percurso de combate ao covid-19 que é diferente da maior parte da Europa. Aconselham as pessoas a não ir trabalhar se o puderem fazer a partir de casa, fecham escolas, mas não fecharam nada. O valor mais recente de casos é de cerca de 10 mil, mas deve ser brutalmente subavaliado, dado que não estão a fazer testes a não ser a certos grupos (pessoas que têm que ser internadas com problemas, pessoas com sintomas indicativos que pertençam a grupos de risco, etc) e apenas nos hospitais (onde só se entra em emergências ou com o médico de família a indicá-lo). É uma estratégia e há muitos que avisam ser má, mas é a que foi decidida há semanas e os holandeses não mudam de rumo. Dat kan niet.

Em relação aos eurobonds, a posição que cada um terá depende também da sua bússola e da sua perspectiva perante a Europa. Comecei por escrever que vejo os povos como muito mais diferentes do que no passado, mas isso não significa que nos veja como separados. Há uma história comum (que em Portugal é muito ignorada) e o projecto de construção europeia tem centenas de anos. De certa forma, é aquilo que nos une, mais que qualquer outra coisa (mais que qualquer cristianismo que motivou algumas das piores guerras do continente). A ideia de uma Europa que nem sequer tem fronteiras decentemente marcadas a não ser por caprichos de cartógrafos. É uma ideia indefinida, mas existe. E é o que nos une.

É suficiente para os eurobonds? Cada um que pense por si. Sei qual a opinião dos holandeses. Dat kan niet.

Isto está para piorar... e muito

João André, 23.03.20

Isto não vai melhorar tão cedo, na realidade a vida vai piorar. Mesmo que amanhã, por milagre, se anuncie que não há mais novos casos, continuará a haver casos nos outros países. E os que existem no própro país poderão continuar a contaminar outras pessoas. E aqueles que estão assimptomáticos poderão continuar a ser vecotres de transmissão. E as crianças podem não ser tão afectadas mas até por isso mesmo poderão contaminar outras pessoas se tiverem o vírus mas não a doença. Não, não vai melhorar tão cedo.

Mas vai piorar. Os locais mais óbvios para o ver são os restaurantes e hóteis e cinemas e teatros e cafés. Mas há também as empresas de transporte de passageiros ou mercadorias a serem afectadas. As fábricas que estão paradas por não fabricarem nada de fundamental para estes momentos. O desporto que não pode continuar porque vive do contacto. Até mesmo empresas que vivem da publicidade online porque não vale a pena comprar anúncios para atingir pessoas que gora não são consumidores.

Isto vai demorar, e muito. As pessoas vão recebendo salários por inteiro ou perto disso, mas a certa altura os cofres dos estados vão dizer chega. A solução será ir ao mercado e contrair dívida, mas também os bancos estão apertados, tendo já perdido biliões e biliões (sim, o bilião português, não o billion inglês) com as quedas nos mercados. Os bancos centrais ajudam dentro do que podem, mas é dinheiro virual que arrisca criar depois uma inflacção desenfreada. Vai demorar.

E depois de a produção retomar o seu caminho, nada vai ser como antes. Muitas empresas poderão simplesmente reenviar os seus trabalhadores para os seus postos de trabalho e voltar ao que faziam antes, ams pdoerão descobrir que o mercado já não existe. Uma empresa de automóveis vai descobrir que as poupanças dos consumidores desapareceram ou que o crédito apertou. As pessoas esperarão para comprar. Uma empresa de sumos pode descobrir que fornecedores não aguentaram o período e desapareceram, além de os consumidores provavelmente hesitarem antes de escolherem o seu Compal de pêssego em vez de um copo de água da torneira. As empresas que vivem de melhorar processos - de ajudarem outros a fazer mais com menos - poderão descobrir que os seus clientes não têm liquidez para comprar os seus produtos ou serviços e que estão a colocar todos os seus esforços em voltar a ganhar dinheiro.

E isto antes de vermos o realinhamento no panorama empresarial. Muitas empresas não sobreviverão, nuns sectores mais que noutros, e as que sobrevivam irão aproveitar-se para melhorar a sua posição. Isso a certa altura levará provavelmente a aumentos de preços. Basta imaginar que a TAP iria à falência. A Air France poderia aumentar as rotas para os voos para Paris mas, sem concorrência, poderia tentar espremer mais lucro de cada passageiro, especialmente sabendo que quem fizesse a viagem provavelmente iria pagar mais por necessidade.

E isto é no cenário de a vacina aparecer ou de os governos avançarem com a decisão de aceitar mortes em troca de um módico de normalidade. Até lá tudo será ainda mais complicado, com ou sem achatamento da curva.

Sim, vai demorar. E o pior está para vir. A doença que mais matará não será o covid-19.

A ascensão e queda de Skywalker

João André, 22.03.20

Vi finalmente o mais recente (e último?) episódio da série Star WarsThe Rise of Skywalker, e para distrair do vírus decidi escrever um pouco sobre o filme.

Ver este filme, depois de ter visto as spinoffs, é como voltar a beber uma cerveja comercial, bem sucedida, com enorme penetração no mercado, mas sensaborona e banal, depois de provar algumas cervejas artesanais, interessantes mesmo quando com falhas. E nesta lista de spinoffs incluo naturalmente o Rogue One, Solo: A Star Wars Story mnas também o episódio VIII, The Last Jedi. Nesse filme Rian Johnson tinha decidido pegar a maior parte das histórias sobre a galáxia, os jedi, a família Skywalker e tantos outros e gozar com eles. Foi um filme imperfeito, mas foi, pela primeira vez desde há muito, original. Deu em contestação, com fãs a pedir a cabeça de Johnson (que tinha sido alihavado para realizar também o filme seguinte) e J.J. Abrams a voltar às rédeas.

E Abrams deu-nos um filme muito Abrams. Ou seja, um best of, com piscares de olho mais subtis ou completamente explícitos mais estes que aqueles) à saga e um esforço às vezes excessivo para nos fazer esquecer o filme anterior. Aliás, se nos créditos iniciais se tivesse adicionado mais uma linha de informação, o filme de Johnson até nem teria sido necessário.

Abrams tem feito uma carreira de reciclagem. Isso em si nada tem de mal. Ele é um artesão habitualmente competente, sabe coser bem uma história, oferece alguns pózinhos de cultura pop e consegue habitualmente encontrar espaço para um ou outro golpe de asa visual. O filme onde ele não o tinha conseguido, que tinha terminado de forma amorfa e sem interesse, fora o seu segundo episódio de Star Trek, Into Darkness. Depois de ter reimaginado a franchise, pareceu já não ter muito mais para criar. Foi reciclar ideias do passado mas, já sem o efeito de novidade dos elementos que criou, o filme foi aborrecido. Aqui sucedeu o mesmo. The Force Awakes tinha sido um bom filme. Reciclava muita coisa, mas estabelecia um novo começo para a série, introduzia personagens novas (e dava nova energia a antigas) e criava uma nova linha condutora para ser explorada. Se tivesse surgido uns 5 anos após The Return of the Jedi, teria sido um filme banal e estafado e sem muitas ideias. Vindo ao fim de tanto tempo e após o desastre da sequela/prequela Binks, vinha como uma lufada de ar fresco.

Mas Abrams perdeu isso. O argumento não tem ponta por onde se lhe pegue, parecendo que alguém pegou nos post-its da sessão de brainstorming e começou a pô-los em sequência na mesa do argumentista para que os colasse de alguma forma. Ressuscitar Leia é fan service puro e duro. A sua presença de nada serve e é apenas uma forma de recordar Carrie Fisher usando pedaços de diálogo gravados antes da sua morte. Tem tanta relevância como os risos gravados de uma sitcom dos anos 80. trazer Billie Dee Williams também apenas serve para encher chouriços (nada tem para fazer) e faz pena que o esforço para introduzir uma personagem como Rosie (Kelly Marie Tran) tenha sido deitado fora (o Merry Brandybuck tem mais relevância).

Mesmo as sequências de acção não têm grande apelo, são genéricas e poderiam ter sido feitas com um bocejo como treino para aspirantes a realizadores de Wuxia como trabalho de casa. Não há cenários de beleza estilística e apenas o grande cubo (ou prisma ou lá o que era) dos Sith tinha potencial, mas nunca vemos mais que uns vislumbres. Até a frota de Superstar Destroyers acaba por pecar por excessiva, parecendo excessivamente um trabalho de copy-paste.

As únicas surpresas, se lhes podemos chamar isso, são o facto de não existirem surpresas. Passe o tempo a esperar por algum golpe de asa, alguma coisa que me fizesse pensar "não estava à espera disto", mas tudo é tão telegrafado, com tantas indicações prévias, que quando as supostas surpresas aparecem nada têm de surpreendente. Abrams até coloca Palpatine a ter uma descargazinha eléctrica das mãos só para o caso de nos termos esquecido (ou não termos visto os filmes anteriores).

O filme vale pela relação de Rey e Ren (se fossem verdadeiros daria pano para mangas aos tablóides), mas mesmo isto é estragado no fim (não o conto para o caso de não terem visto) ao mudarem a natureza do conflito entre eles e estragarem novamente o trabalho de Johnson no filme anterior. Vale que Adam Driver e Daisy Rider conseguem sustentar o filme quando lhes dão algo mais para fazer que brincar às espadas (e aos médicos), mas mesmo assim há pouco, muito pouco.

Conclusão? O filme é um bom final para uma série que deveria ter ficado na gaveta depois do "episódio VI". Não houve verdadeira linha condutora, tentou-se espremer o sumo por onde foi possível. Ninguém sabia muito bem para onde se deveria ir, como e porquê. Não houve ninguém para dizer não ou lembrar que, a certa altura, as pessoas querem uma história ou personagens que nos façam sentir alguma coisa. A Disney sabe fazer isto, como demonstrou com Marvel Cinematic Universe. Nao é arte pura mas é entretenimento de enorme qualidade. Star Warsdeixou de o ser. Passou a ser uma forma de fazer dinheiro, uma ida à caixa automática. Como alegoria, esta imagem está de acordo com o seu último (?) filme: uma acção robotica e com pouco de criatividade.

Uma ocupação

João André, 20.03.20

Ao contrário da maioria das pessoas, não vejo a presente crise como uma guerra. Numa guerra existe um conflito em uma ou mais frentes de combate e onde a sociedade se mobiliza para ajudar no conflito através de, por exemplo, um aumento nos seus meios de produção. Neste momento não temos verdadeiramente isso. À parte o esforço para produzir máscaras, desinfectantes e ventiladores, a maioria dos meios de produção estão ou parados ou a funcionar como de costume.

Para mim estamos a viver uma ocupação. O inimigo já se instalou, após a blitzkrieg que encetou contra a nossa sociedade, nos nossos espaços e já determina a nova forma de viver. É uma ocupação que viremos a repelir, mas para o presente vivemos ocupados.

Que importa isso se o resultado é o mesmo? A verdade é que as ocupações não se terminam ficando em casa. A sociedade definha e morre se isso suceder. Neste momento é essencial cumprir estas regras de isolamento, mas um dia em breve virá onde as sociedades decidirão que a long prazo essa solução apenas servirá para as destruir.

Mesmo que dentro de 4 a 12 semanas cheguemos a um ponto onde terminam as infecções e os casos param de aumentar e estamos na situação que a China vive presentemente, é muito provável que isso seja só temporário. Seja por causa do tempo ou por causa do aumento das interacções sociais, o vírus voltará e com a mesma força que anteriormente. A solução passará, novamente, por estas medidas de isolamento.

Que sucede então com a sociedade? Pára. A saúde mental dos indivíduos piorará. Chegaremos aos limites do que a população estará disposta a tolerar. Talvez sejamos capazes de continuar até se desenvolver e produzir em massa uma vacina eficaz, mas até lá aguentaremos a sociedade? A produção industrial da China caiu cerca de 20% no período de lockdown que foi imposto. E as medidas mais sérias foram apenas na provícia de Hubei (apesar de terem sido bastante fortes em toda a China). Imaginemos o mesmo a passar-se na Europa e por um período mais alargado. As liberdades na Europa são mais latas e a cultura é também diferente do que teríamos na Coreia do Sul ou Taiwan. É provável que demore mais tempo até estas medidas funcionarem.

Isso significa que os mercados se afundarão (ou continuarão a afundar), as empresas fecharão e enormes quantidades de pessoas ficarão desempregadas, o que agravará o problema. A certa altura, o risco será o de vermos a sociedade a colapsar.

Não sei a solução, mas acredito que o paradigma mude em breve, para uma situação onde se tentará promover ao máximo uma mudança de comportamentos mas onde as empresas retomarão as suas actividades de forma (quase) regular. Esta é uma situação em que o número de pessoas que poderão morrer aumentará, mas penso que haverá um momento em que as sociedades optarão por essa alternativa.

Não digo que é o que se deve fazer, antes que é provável que cheguemos ao momento de ter de fazer essa escolha (ou semelhante). A verdade é que até haver uma vacina ou a doença se tornar endémica, não teremos segurança. E ficar em casa será em breve incomportável. A ver vamos no que termina esta ocupação.

Manifesto do movimento

João André, 17.03.20

Boa tarde e bem vindos a esta conferência de imprensa. Permitam-me que me apresente: sou conhecido pela comunidade científica como o SARS-CoV-2, pela cientificamente semiiterada (e francamente presunçosa) como Covid-19 e pelo público em geral como coronavírus. Mas podem chamar-me Quim. Adiante.

Antes de mais permitam-me transmitir como eu e os meus irmãos clones estamos aborrecidos por nos chamarem Coronavírus. Isso é um nome de família distante, que nem sequer toda a gente tem. É como vocês serem chamados pelo mesmo nome que aquele primo em terceiro grau por casamento do tio da vossa mãe . Mais uma vez é irrelevante, mas queria trazer isto à vossa atenção.

É importante para mim (e como somos quase todos clones, também para os outros) explicar que aquilo que estamos a fazer não é causar uma doença. Não é essa de forma nenhuma a nossa intenção. Nós solidarizamo-nos com as pessoas presentemente a sofrer e os nossos pensamentos e as nossas preces estão com todos os que estão com problemas de saúde. Também compreendemos que haja muitas pessoas afectadas, sem poderem sair de casa, a terem de trabalhar no que puderem, sem saberem de onde asirá o próximo cheque. Compreendemos também estes problemas e asseguramos que estamos em plena solidariedade para também com estas pessoas.

A razão de ser disto tudo é que estamos a fazer avançar - e com tremendo sucesso até agora, posso já dizer - um novo movimento. É um movimento que pretende devolver o poder às pessoas, fazê-las quebrar as correntes que lhes prendem os pulsos e os tronozelos e lhes restringem a liberdade. Porque é de liberdade que falamos hoje. Os vossos estados tornaram-se estados-amas, onde tudo o que vocês fazem depende em maior ou menor grau daquilo que o estado determina. A forma como vocês nos tentam evitar demonstra-o, seguindo as indicações que os governos vos dão, recolhendo-se em casa, sem saberem o que fazer. Estas limitações têm tolhido o espírito humano, que descobriu os mundos novos e abraçou novas culturas e ideias.

Mas não desesperem! Há já sinais de mudança. Ao comprarem máscaras para a cara, toneladas de papel higiénico e atulharem a casa de bananas perecíveis ao fim de 3 dias estão a demonstrar esse espírito rebelde que é a fonte de todas as iluminações de onde surge o progresso e a mudança. É claro que são coisas inúteis e estúpidas de fazer, ams temos que começar em algum lado e vão demonstrando assim o desprezo para o conselho do estado amo.

O nosso é um movimento universal - para já global, mas esperem que alguém vá ao espaço - e que não ignora ninguém. Não somos sexistas, não somos racistas, não escolhemos credos ou crenças ou ideologias (embora os comunistas...) Abraçamos toda a gente e esperamos que toda a gente se abrace (e de preferência se beije e assoe aos outros, dá jeito). Queremos transmitir as ideias do nosso movimento, de um pensamento individualista e anti-estabelecimento e que se rege pelas mais nobres ideias de alguns dos maiores pensadores humanos. De Hayeck retiramos as suas noções de individualismo (embora ele nos parecesse algo comuna às vezes), de Lénine o desejo de destruir a aristocracia e a burguesia dominantes (embora aquela ideia de uma ditadura do proleteriado nos pareça demasiado fofinha). Queremos que o mundo largue estas amarras e avance para um novo futuro, onde cada pessoa faz por si e não precisa do estado (que esperamos tenha colapsado).

Claro que isto é incomportável num mundo de 7 milhões e prometemos fazer o nosso melhor para o conseguir com números mais fáceis de gerir. Não desejamos mal a ninguém, claro está, mas quem não nos aguentar é fraco e na verdade não merece viver. Não somos tão fortes quanto desejamos, mas esperamos que venha uma ou outra mutaçãozinha que nos ajude a reduzir o rebanho mais eficazmente. Outros primos, se quiserem.

Sei que parece cruel, mas as revoluções nunca foram fáceis e não se fazem omeletes sem partir uns ovos, especialmente quando ainda estamos a aprender fazer as omeletes. Por isso abandonem as indicações dos governos, convivam uns com os outros, espirrem e tossam nas caras uns dos outros e não lavem as mãos. Facilitarão este futuro risonho que será melhor para vocês, ou melhor, aqueles de vocês que sobreviverem. É para vosso bem.

Não irei responder a perguntas neste momento mas estou disposto a apertar mãos. Obrigado.