Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Achatamento da curva? Talvez, mas...

por João André, em 31.03.20

Quando falamos em números de casos e mortes da pandemia, eu normalmente sigo o site que a Johns Hopkins University criou. Ali eles colocam os números de casos e mortes por país, excepto em alguns países maiores e de maior interesse, onde dão também mortes por região ou estado. Tende a ser o site que a maior parte dos jornais que vou lendo vai usando.

Um dos gráficos mais interessantes é o de novos casos por dia. Pode ser visto globalmente, para o mundo inteiro, ou por país. O mesmo para o número cumulativo de casos. Também tem a opção de ver a evolução num gráfico (semi-)logarítmico mas vou deixar isso para outra altura.

Uma coisa que se começa a notar é o achatamento da curva quando olhamos para novos casos (o gráfico vem sob a forma de um histograma, mas não faz diferença para o caso) e parece que estamos a deixar a porção exponencial quando os vemos de forma cumulativa. Olhar para os gráficos da Coreia do Sul dá uma ideia melhor do que estou a falar.

20200331 Johns Hopkins SKO Cum.JPG20200331 Johns Hopkins SKO diario.JPG

Gráficos para a Coreia do Sul. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

Os gráficos demonstram bem a evolução. Como existiram poucos casos a início, houve depois um rápido aumento, seguido de estabilização e depois uma dimiuição de novos casos, o número dos quais tem sido mais ou menos constante nos últimos tempos. Em parte isto mostra o aumento súbito de casos, mas também aponta para a possibilidade de esse aumento súbito ter surgido de forma mais articial, e ser resultado do aumento do número de testes feito.

Para o caso português, vemos que estaremos agora a estabilizar o número de novos casos diários (ver gráficos). Isto poderia indicar que estamos a atingir o pico de casos no nosso país.

20200331 Johns Hopkins POR Cum.JPG20200331 Johns Hopkins POR diario.JPG

Gráficos para Portugal. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

Há contudo precauções a tomar. Da mesma forma que os casos na Coreia do Sul poderão ter reflectido a súbita disponibilidade de testes, em Portugal o número máximo de casos poderá reflectir apenas o número máximo de testes que o país é capaz de fazer por dia. Se o máximo de testes que for possível fazer em Portugal num único dia andar pelos 800 a 1.000, será esse o número máximo de casos que aparecerão nas estatísticas, mesmo que o número real de novos casos seja de 1.200, 3.000 ou até de meio milhão.

O mesmo pode ser visto para Itália, Espanha ou EUA (gráficos abaixo).

20200331 Johns Hopkins ESP Cum.JPG20200331 Johns Hopkins ESP diario.JPG

Gráficos para Espanha. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

20200331 Johns Hopkins ITA Cum.JPG20200331 Johns Hopkins ITA diario.JPG

Gráficos para a Itália. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

20200331 Johns Hopkins USA Cum.JPG20200331 Johns Hopkins USA diario.JPG

Gráficos para os EUA. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

O melhor exemplo de como isto provavelmente será real é o dos EUA. Houve um aumento rápido do número de novos casos diários a início e de repente atingiu-se quase como que um patamar por volta dos 18 a 20 mil casos diários. Certamente que os EUA estarão a testar mais que 20 mil pessoas por dia, mas apenas uma parte terá contraído o vírus. Se a percentagem de pessoas com COVID-19 for mais ou menos estável, o número de novos casos poderá então estar na mesma limitado pelo número de testes administrados. Por exemplo: se 400 mil pessoas forem testadas diáriamente e apenas 5% tiverem o vírus, apenas 20 mil novos casos surgirão. Se fossem 4 milhões, poderíamos ter 200 mil casos diários.

Obviamente que isto é apenas uma hipótese, mas na ausência de outros dados (número de testes por dia, número de testes negativos, etc), é um cenário plausível e, com as notícias que há constantemente pedidos para mais testes, até mesmo provável. Não contemplo aqui as pessoas que terão contraído o vírus e estarão assimptomáticas ou com sintomas muito ligeiros e completamente indistinguíveis dos da gripe, dado que esas pessoas provavelmente não serão testadas.

Concluindo. Devemos ter cuidado com notícias que falam em achatamento da curva ou em estarmos a atingir o pico da crise. É possível (assim o desejo) mas há mais situações a considerar. Vamos vendo caso a caso.

Dat kan niet

por João André, em 29.03.20

Já vivendo e/ou trabalhando há uns bons anos entre Holanda, Alemanha e Bélgica, há uma coisa de que me apercebi: cada país tem as suas características gerais e estas, com maior ou menor variação interna, definem os seus habitantes como grupo e definem em traços grossos as suas decisões. Dirão muitos, e com boa razão, que eu já o deveria saber há muito. Acontece que vivi durante muito tempo com a ilusão que somos todos europeus e essencialmente semelhantes. As diferenças que eu hoje percebo como regionais num único país em tempos entendi como regionais pela Europa inteira.

Os holandeses, como todos os outros povos, têm as suas caracaterísticas genéricas. Notam-se mais quando estão em grupo - em especial quando os encontramos em grupo fora da Holanda, por contraste aos demais - mas estão sempre presentes. Essas características em si não são boas nem más, depende dos pontos de vista de cada um, preferências pessoais e situações individuais. O moralismo é uma característica que lhes é frequentemente atribuída, mas eu prefiro olhar para eles como julgando frequentemente actos e pessoas. Isto está obviamente ligado à moralidade, mas eu prefiro pensar nessa característica desligando-lhe esse elemento. Cada um julga pelo seu prisma, que em muitos casos é moral e noutros não tanto.

Ora mais que moralistas, os holandeses têm um hábito enraizado de julgar outros. Todos o fazemos, não há povo que não o faça e não acredito que haja quem não o faça, mesmo que o façam de forma bem intencionada. O julgamento holandês, mais que moralista, é informado por uma crença de existir uma forma correcta de fazer as coisas. Os holandeses gostam de discutir toda e qualquer decisão ou posição e esperam que os outros tenham uma opinião sobre qualquer assunto, seja ele qual for. Da mesma forma, valorizam que toda a gente contribua, mesmo que seja simplesmente para repetir o que os outros disseram. Quem não tem uma opinião é visto com desconfiança, como não estando preparado.

Tendo um cunho tao colegial, as posições tomadas por holandeses são também muito fortes e enraizadas. Uma vez decidido um rumo, é frequente vê-los decididos a avançar mesmo quando lhes são apresentados dados suficientes para o colocar em causa. Se um holandês disser «isso não pode ser», seja lá qual for o tom, está a indicar algo que não vai considerar de forma nenhuma. É uma tradução de «dat kan niet» e não consigo imaginar expressão mais forte na língua holandesa.

Os holandeses são vistos como muito directos na sua comunicação. É simplesmente a forma de ser deles. Frequentemente essa componente é visto como mais, como ofensiva. Não é, ou pelo menos não é suposto ser. Quando alguém se ofende com as mensagens que eles enviam, os holandeses ficam genuinamente confusos: não compreendem porque razão alguém se há-de ofender com uma opinião dada francamente, honestamente e de forma directa, sem rodeios. Da mesma forma, as culturas que preferem rodeios (e a nossa gosta deles mais que os holandeses, mas francamente menos que os japoneses), não conseguem entender porque razão alguém fala assim, sem enquadrar antes a sua opinião.

Quando um ministro holandês diz que gostaria de investigar o que foi feito antes de entregar dinheiro, está genuinamente a indicar que gostava de saber porque razão a preparação não existia. Do ponto de vista dele não existe um ataque, antes uma avaliação honesta e sincera de uma situação e a explicação para a sua relutância. Quando um governante de outro país lhe diz que as declarações são repugnantes, ele não entende e ficará ainda mais reluctante em tomar a decisão de apoiar financeiramente. Na óptica dele, este é apenas mais um dado para avaliação da situação e é um que lhe diz que os outros querem o dinheiro e não querem prestar contas. O governante, no entanto, vê as declarações do holandês como uma quebra de um espírito europeu.

Note-se que não sei o que Hoekstra pensou nem qual o objectivo de Costa quando cada um prestou as suas declarações. Apenas faço uma análise perante aquilo que sei da cultura holandesa. E tudo nesta situação irá empurrar os holandeses, mais ainda que no passado, para uma posição de «dat kan niet». E não creio que qualquer pessoa que tenham nos respectivos staffs lhes explicará as diferenças culturais, ou, explicando-as, que as entendam. Para certos aspectos é necessário viver tais diferenças ou comunicá-las de forma clara.

O que isto significa é que os holandeses, já convencidos da sua justeza na questão dos eurobonds (ou coronabonds como alguns lhes chamam agora), fincarão ainda mais os pés perante as posições dos outros países. Para um holandês, não deve haver segredos (as finanças holandesas conhecem o montante que tenho no banco sem que eu lhes diga nada) e como tal, verificar as acções dos outros é algo absolutamente normal. Para um português (ou espanhol, italiano, etc), espreitar pela janela de casa é bisbilhotar e ofensivo. Um holandês tem a sua janela do rés do chão com as cortinas abertas.

Podemos agora argumentar para a frente e para trás quem tem razão ou não. A verdade é que depende da bússola pessoal e de para onde aponta o norte de cada um. Os holandeses, por exemplo, decidiram avançar para um percurso de combate ao covid-19 que é diferente da maior parte da Europa. Aconselham as pessoas a não ir trabalhar se o puderem fazer a partir de casa, fecham escolas, mas não fecharam nada. O valor mais recente de casos é de cerca de 10 mil, mas deve ser brutalmente subavaliado, dado que não estão a fazer testes a não ser a certos grupos (pessoas que têm que ser internadas com problemas, pessoas com sintomas indicativos que pertençam a grupos de risco, etc) e apenas nos hospitais (onde só se entra em emergências ou com o médico de família a indicá-lo). É uma estratégia e há muitos que avisam ser má, mas é a que foi decidida há semanas e os holandeses não mudam de rumo. Dat kan niet.

Em relação aos eurobonds, a posição que cada um terá depende também da sua bússola e da sua perspectiva perante a Europa. Comecei por escrever que vejo os povos como muito mais diferentes do que no passado, mas isso não significa que nos veja como separados. Há uma história comum (que em Portugal é muito ignorada) e o projecto de construção europeia tem centenas de anos. De certa forma, é aquilo que nos une, mais que qualquer outra coisa (mais que qualquer cristianismo que motivou algumas das piores guerras do continente). A ideia de uma Europa que nem sequer tem fronteiras decentemente marcadas a não ser por caprichos de cartógrafos. É uma ideia indefinida, mas existe. E é o que nos une.

É suficiente para os eurobonds? Cada um que pense por si. Sei qual a opinião dos holandeses. Dat kan niet.

Isto está para piorar... e muito

por João André, em 23.03.20

Isto não vai melhorar tão cedo, na realidade a vida vai piorar. Mesmo que amanhã, por milagre, se anuncie que não há mais novos casos, continuará a haver casos nos outros países. E os que existem no própro país poderão continuar a contaminar outras pessoas. E aqueles que estão assimptomáticos poderão continuar a ser vecotres de transmissão. E as crianças podem não ser tão afectadas mas até por isso mesmo poderão contaminar outras pessoas se tiverem o vírus mas não a doença. Não, não vai melhorar tão cedo.

Mas vai piorar. Os locais mais óbvios para o ver são os restaurantes e hóteis e cinemas e teatros e cafés. Mas há também as empresas de transporte de passageiros ou mercadorias a serem afectadas. As fábricas que estão paradas por não fabricarem nada de fundamental para estes momentos. O desporto que não pode continuar porque vive do contacto. Até mesmo empresas que vivem da publicidade online porque não vale a pena comprar anúncios para atingir pessoas que gora não são consumidores.

Isto vai demorar, e muito. As pessoas vão recebendo salários por inteiro ou perto disso, mas a certa altura os cofres dos estados vão dizer chega. A solução será ir ao mercado e contrair dívida, mas também os bancos estão apertados, tendo já perdido biliões e biliões (sim, o bilião português, não o billion inglês) com as quedas nos mercados. Os bancos centrais ajudam dentro do que podem, mas é dinheiro virual que arrisca criar depois uma inflacção desenfreada. Vai demorar.

E depois de a produção retomar o seu caminho, nada vai ser como antes. Muitas empresas poderão simplesmente reenviar os seus trabalhadores para os seus postos de trabalho e voltar ao que faziam antes, ams pdoerão descobrir que o mercado já não existe. Uma empresa de automóveis vai descobrir que as poupanças dos consumidores desapareceram ou que o crédito apertou. As pessoas esperarão para comprar. Uma empresa de sumos pode descobrir que fornecedores não aguentaram o período e desapareceram, além de os consumidores provavelmente hesitarem antes de escolherem o seu Compal de pêssego em vez de um copo de água da torneira. As empresas que vivem de melhorar processos - de ajudarem outros a fazer mais com menos - poderão descobrir que os seus clientes não têm liquidez para comprar os seus produtos ou serviços e que estão a colocar todos os seus esforços em voltar a ganhar dinheiro.

E isto antes de vermos o realinhamento no panorama empresarial. Muitas empresas não sobreviverão, nuns sectores mais que noutros, e as que sobrevivam irão aproveitar-se para melhorar a sua posição. Isso a certa altura levará provavelmente a aumentos de preços. Basta imaginar que a TAP iria à falência. A Air France poderia aumentar as rotas para os voos para Paris mas, sem concorrência, poderia tentar espremer mais lucro de cada passageiro, especialmente sabendo que quem fizesse a viagem provavelmente iria pagar mais por necessidade.

E isto é no cenário de a vacina aparecer ou de os governos avançarem com a decisão de aceitar mortes em troca de um módico de normalidade. Até lá tudo será ainda mais complicado, com ou sem achatamento da curva.

Sim, vai demorar. E o pior está para vir. A doença que mais matará não será o covid-19.

A ascensão e queda de Skywalker

por João André, em 22.03.20

Vi finalmente o mais recente (e último?) episódio da série Star WarsThe Rise of Skywalker, e para distrair do vírus decidi escrever um pouco sobre o filme.

Ver este filme, depois de ter visto as spinoffs, é como voltar a beber uma cerveja comercial, bem sucedida, com enorme penetração no mercado, mas sensaborona e banal, depois de provar algumas cervejas artesanais, interessantes mesmo quando com falhas. E nesta lista de spinoffs incluo naturalmente o Rogue One, Solo: A Star Wars Story mnas também o episódio VIII, The Last Jedi. Nesse filme Rian Johnson tinha decidido pegar a maior parte das histórias sobre a galáxia, os jedi, a família Skywalker e tantos outros e gozar com eles. Foi um filme imperfeito, mas foi, pela primeira vez desde há muito, original. Deu em contestação, com fãs a pedir a cabeça de Johnson (que tinha sido alihavado para realizar também o filme seguinte) e J.J. Abrams a voltar às rédeas.

E Abrams deu-nos um filme muito Abrams. Ou seja, um best of, com piscares de olho mais subtis ou completamente explícitos mais estes que aqueles) à saga e um esforço às vezes excessivo para nos fazer esquecer o filme anterior. Aliás, se nos créditos iniciais se tivesse adicionado mais uma linha de informação, o filme de Johnson até nem teria sido necessário.

Abrams tem feito uma carreira de reciclagem. Isso em si nada tem de mal. Ele é um artesão habitualmente competente, sabe coser bem uma história, oferece alguns pózinhos de cultura pop e consegue habitualmente encontrar espaço para um ou outro golpe de asa visual. O filme onde ele não o tinha conseguido, que tinha terminado de forma amorfa e sem interesse, fora o seu segundo episódio de Star Trek, Into Darkness. Depois de ter reimaginado a franchise, pareceu já não ter muito mais para criar. Foi reciclar ideias do passado mas, já sem o efeito de novidade dos elementos que criou, o filme foi aborrecido. Aqui sucedeu o mesmo. The Force Awakes tinha sido um bom filme. Reciclava muita coisa, mas estabelecia um novo começo para a série, introduzia personagens novas (e dava nova energia a antigas) e criava uma nova linha condutora para ser explorada. Se tivesse surgido uns 5 anos após The Return of the Jedi, teria sido um filme banal e estafado e sem muitas ideias. Vindo ao fim de tanto tempo e após o desastre da sequela/prequela Binks, vinha como uma lufada de ar fresco.

Mas Abrams perdeu isso. O argumento não tem ponta por onde se lhe pegue, parecendo que alguém pegou nos post-its da sessão de brainstorming e começou a pô-los em sequência na mesa do argumentista para que os colasse de alguma forma. Ressuscitar Leia é fan service puro e duro. A sua presença de nada serve e é apenas uma forma de recordar Carrie Fisher usando pedaços de diálogo gravados antes da sua morte. Tem tanta relevância como os risos gravados de uma sitcom dos anos 80. trazer Billie Dee Williams também apenas serve para encher chouriços (nada tem para fazer) e faz pena que o esforço para introduzir uma personagem como Rosie (Kelly Marie Tran) tenha sido deitado fora (o Merry Brandybuck tem mais relevância).

Mesmo as sequências de acção não têm grande apelo, são genéricas e poderiam ter sido feitas com um bocejo como treino para aspirantes a realizadores de Wuxia como trabalho de casa. Não há cenários de beleza estilística e apenas o grande cubo (ou prisma ou lá o que era) dos Sith tinha potencial, mas nunca vemos mais que uns vislumbres. Até a frota de Superstar Destroyers acaba por pecar por excessiva, parecendo excessivamente um trabalho de copy-paste.

As únicas surpresas, se lhes podemos chamar isso, são o facto de não existirem surpresas. Passe o tempo a esperar por algum golpe de asa, alguma coisa que me fizesse pensar "não estava à espera disto", mas tudo é tão telegrafado, com tantas indicações prévias, que quando as supostas surpresas aparecem nada têm de surpreendente. Abrams até coloca Palpatine a ter uma descargazinha eléctrica das mãos só para o caso de nos termos esquecido (ou não termos visto os filmes anteriores).

O filme vale pela relação de Rey e Ren (se fossem verdadeiros daria pano para mangas aos tablóides), mas mesmo isto é estragado no fim (não o conto para o caso de não terem visto) ao mudarem a natureza do conflito entre eles e estragarem novamente o trabalho de Johnson no filme anterior. Vale que Adam Driver e Daisy Rider conseguem sustentar o filme quando lhes dão algo mais para fazer que brincar às espadas (e aos médicos), mas mesmo assim há pouco, muito pouco.

Conclusão? O filme é um bom final para uma série que deveria ter ficado na gaveta depois do "episódio VI". Não houve verdadeira linha condutora, tentou-se espremer o sumo por onde foi possível. Ninguém sabia muito bem para onde se deveria ir, como e porquê. Não houve ninguém para dizer não ou lembrar que, a certa altura, as pessoas querem uma história ou personagens que nos façam sentir alguma coisa. A Disney sabe fazer isto, como demonstrou com Marvel Cinematic Universe. Nao é arte pura mas é entretenimento de enorme qualidade. Star Warsdeixou de o ser. Passou a ser uma forma de fazer dinheiro, uma ida à caixa automática. Como alegoria, esta imagem está de acordo com o seu último (?) filme: uma acção robotica e com pouco de criatividade.

Uma ocupação

por João André, em 20.03.20

Ao contrário da maioria das pessoas, não vejo a presente crise como uma guerra. Numa guerra existe um conflito em uma ou mais frentes de combate e onde a sociedade se mobiliza para ajudar no conflito através de, por exemplo, um aumento nos seus meios de produção. Neste momento não temos verdadeiramente isso. À parte o esforço para produzir máscaras, desinfectantes e ventiladores, a maioria dos meios de produção estão ou parados ou a funcionar como de costume.

Para mim estamos a viver uma ocupação. O inimigo já se instalou, após a blitzkrieg que encetou contra a nossa sociedade, nos nossos espaços e já determina a nova forma de viver. É uma ocupação que viremos a repelir, mas para o presente vivemos ocupados.

Que importa isso se o resultado é o mesmo? A verdade é que as ocupações não se terminam ficando em casa. A sociedade definha e morre se isso suceder. Neste momento é essencial cumprir estas regras de isolamento, mas um dia em breve virá onde as sociedades decidirão que a long prazo essa solução apenas servirá para as destruir.

Mesmo que dentro de 4 a 12 semanas cheguemos a um ponto onde terminam as infecções e os casos param de aumentar e estamos na situação que a China vive presentemente, é muito provável que isso seja só temporário. Seja por causa do tempo ou por causa do aumento das interacções sociais, o vírus voltará e com a mesma força que anteriormente. A solução passará, novamente, por estas medidas de isolamento.

Que sucede então com a sociedade? Pára. A saúde mental dos indivíduos piorará. Chegaremos aos limites do que a população estará disposta a tolerar. Talvez sejamos capazes de continuar até se desenvolver e produzir em massa uma vacina eficaz, mas até lá aguentaremos a sociedade? A produção industrial da China caiu cerca de 20% no período de lockdown que foi imposto. E as medidas mais sérias foram apenas na provícia de Hubei (apesar de terem sido bastante fortes em toda a China). Imaginemos o mesmo a passar-se na Europa e por um período mais alargado. As liberdades na Europa são mais latas e a cultura é também diferente do que teríamos na Coreia do Sul ou Taiwan. É provável que demore mais tempo até estas medidas funcionarem.

Isso significa que os mercados se afundarão (ou continuarão a afundar), as empresas fecharão e enormes quantidades de pessoas ficarão desempregadas, o que agravará o problema. A certa altura, o risco será o de vermos a sociedade a colapsar.

Não sei a solução, mas acredito que o paradigma mude em breve, para uma situação onde se tentará promover ao máximo uma mudança de comportamentos mas onde as empresas retomarão as suas actividades de forma (quase) regular. Esta é uma situação em que o número de pessoas que poderão morrer aumentará, mas penso que haverá um momento em que as sociedades optarão por essa alternativa.

Não digo que é o que se deve fazer, antes que é provável que cheguemos ao momento de ter de fazer essa escolha (ou semelhante). A verdade é que até haver uma vacina ou a doença se tornar endémica, não teremos segurança. E ficar em casa será em breve incomportável. A ver vamos no que termina esta ocupação.

Manifesto do movimento

por João André, em 17.03.20

Boa tarde e bem vindos a esta conferência de imprensa. Permitam-me que me apresente: sou conhecido pela comunidade científica como o SARS-CoV-2, pela cientificamente semiiterada (e francamente presunçosa) como Covid-19 e pelo público em geral como coronavírus. Mas podem chamar-me Quim. Adiante.

Antes de mais permitam-me transmitir como eu e os meus irmãos clones estamos aborrecidos por nos chamarem Coronavírus. Isso é um nome de família distante, que nem sequer toda a gente tem. É como vocês serem chamados pelo mesmo nome que aquele primo em terceiro grau por casamento do tio da vossa mãe . Mais uma vez é irrelevante, mas queria trazer isto à vossa atenção.

É importante para mim (e como somos quase todos clones, também para os outros) explicar que aquilo que estamos a fazer não é causar uma doença. Não é essa de forma nenhuma a nossa intenção. Nós solidarizamo-nos com as pessoas presentemente a sofrer e os nossos pensamentos e as nossas preces estão com todos os que estão com problemas de saúde. Também compreendemos que haja muitas pessoas afectadas, sem poderem sair de casa, a terem de trabalhar no que puderem, sem saberem de onde asirá o próximo cheque. Compreendemos também estes problemas e asseguramos que estamos em plena solidariedade para também com estas pessoas.

A razão de ser disto tudo é que estamos a fazer avançar - e com tremendo sucesso até agora, posso já dizer - um novo movimento. É um movimento que pretende devolver o poder às pessoas, fazê-las quebrar as correntes que lhes prendem os pulsos e os tronozelos e lhes restringem a liberdade. Porque é de liberdade que falamos hoje. Os vossos estados tornaram-se estados-amas, onde tudo o que vocês fazem depende em maior ou menor grau daquilo que o estado determina. A forma como vocês nos tentam evitar demonstra-o, seguindo as indicações que os governos vos dão, recolhendo-se em casa, sem saberem o que fazer. Estas limitações têm tolhido o espírito humano, que descobriu os mundos novos e abraçou novas culturas e ideias.

Mas não desesperem! Há já sinais de mudança. Ao comprarem máscaras para a cara, toneladas de papel higiénico e atulharem a casa de bananas perecíveis ao fim de 3 dias estão a demonstrar esse espírito rebelde que é a fonte de todas as iluminações de onde surge o progresso e a mudança. É claro que são coisas inúteis e estúpidas de fazer, ams temos que começar em algum lado e vão demonstrando assim o desprezo para o conselho do estado amo.

O nosso é um movimento universal - para já global, mas esperem que alguém vá ao espaço - e que não ignora ninguém. Não somos sexistas, não somos racistas, não escolhemos credos ou crenças ou ideologias (embora os comunistas...) Abraçamos toda a gente e esperamos que toda a gente se abrace (e de preferência se beije e assoe aos outros, dá jeito). Queremos transmitir as ideias do nosso movimento, de um pensamento individualista e anti-estabelecimento e que se rege pelas mais nobres ideias de alguns dos maiores pensadores humanos. De Hayeck retiramos as suas noções de individualismo (embora ele nos parecesse algo comuna às vezes), de Lénine o desejo de destruir a aristocracia e a burguesia dominantes (embora aquela ideia de uma ditadura do proleteriado nos pareça demasiado fofinha). Queremos que o mundo largue estas amarras e avance para um novo futuro, onde cada pessoa faz por si e não precisa do estado (que esperamos tenha colapsado).

Claro que isto é incomportável num mundo de 7 milhões e prometemos fazer o nosso melhor para o conseguir com números mais fáceis de gerir. Não desejamos mal a ninguém, claro está, mas quem não nos aguentar é fraco e na verdade não merece viver. Não somos tão fortes quanto desejamos, mas esperamos que venha uma ou outra mutaçãozinha que nos ajude a reduzir o rebanho mais eficazmente. Outros primos, se quiserem.

Sei que parece cruel, mas as revoluções nunca foram fáceis e não se fazem omeletes sem partir uns ovos, especialmente quando ainda estamos a aprender fazer as omeletes. Por isso abandonem as indicações dos governos, convivam uns com os outros, espirrem e tossam nas caras uns dos outros e não lavem as mãos. Facilitarão este futuro risonho que será melhor para vocês, ou melhor, aqueles de vocês que sobreviverem. É para vosso bem.

Não irei responder a perguntas neste momento mas estou disposto a apertar mãos. Obrigado.

Hoje especialistas, ontem "especialistas"

por João André, em 17.03.20

Com a pandemia a todo o gás e as pessoas enfiadas (fechadas) em casa, começam a surgir por todo o lado as manifestações de agrado, os elogios, os aplausos a profissionais de saúde que tratam de quem está doente, vão para a frente da batalha (na actual analogia bélica), aconselham a população, investigam o problema e procuram soluções.

São os especialistas, aqueles que há anos e anos, décadas e décadas, avisam que esta situação aconteceria. Que avisam, mesmo enquanto o fogo alastra, que outros fogos virão e algum será com toda a probabilidade pior. São aqueles que disseram mutio antes de uma TED Talk de Bill Gates que as novas epidemias surgiriam, que não estávamos preparados e que muita gente morreria. Até avisaram, numa pele em que não se sentiam bem por não serem especialistas nessa área, que teriam consequências económicas.

Na altura eram alarmistas. Eram os "especialistas" com o termo a ser pronunciado com desprezo. Eram aqueles que exageravam durante a pandemia do H1N1 ou a epidemia de SARS. Eram os "especialistas". Hoje são os salvadores. Especialistas.

A agenda está carregada

por João André, em 15.03.20

Marcelo anunciou que convocou um Conselho de Estado para quarta-feira para decidir se convoca um Estado de Emergência. Para daqui a 3 dias. Sobre uma emergência nacional. Certamente que isto foi porque é uma emergência, se fosse assim apenas, sei lá, urgentezito, talvez o convocasse para depois das férias... do Verão... que ainda tem que ir lavar a louça e ler uns 145 livros antes de se deitar e amanhã tem que passar a ferro. É pá, o pessoal tem coisas pra fazer, né? Não pode ser assim do pé pá mão.

Hipotético diálogo em 1384:

- Ó sô presidente, os castelhanos invadiram Portugal!
- Ó pá, isso não pode ser. Mandem selar o meu cavalo que tenho que ir aos paços convocar as cortes e decidir sobre o estado de emergência. Mas esperem, primeiro tenho que lavar aqui esta tina de mantos e capas e tenho de ir ali à biblioteca do mosteiro ler uns manuscritos. E vistas bem as coisas os nobres e o povo têm mais que fazer, né?, não os vamos chatear. Mandem antes uns correios para descobrir quando têm uns tempinhos para falar.
-...
(Nuno Álvares Pereira) - já os despachei de volta.

Covid-19, um testemunho (2)

por João André, em 15.03.20

Em 3 dias muitas coisas mudam.

Canadá:

walmart canada1.jpgwalmart canada2.jpgwalmart canada3.jpgwalmart canada4.jpgwalmart canada5.jpgwalmart canada6.jpg

Fotografias de ontem num Walmart em Toronto. Não tirei fotografias a todas as galerias que estavam desta forma. As zonas mais vazias eram as conservas e enlatados, papel higiénico e de cozinha, artigos de limpeza doméstica, massas e arroz, cereais de pequeno almoço e analgésicos/anti-inflamatórios. Também sumos e congelados estavam desta forma. Menos nos vegetais, mas aqueles que dá para manter mais tempo (batatas ou couves) também tinham prateleiras vazias.

O Canadá não decretou o encerramento de fronteiras, mas decidiu que voos originários de fora do país serão redireccionados para apenas alguns aeroportos seleccionados para poderem fazer avaliação. Tudo se mantém aberto, mas a situação pode ser reavaliada entretanto.

Holanda

O país anunciou hoje que escolas e creches e jardins-escolas fecharão até dia 6 de Abril (até ver). Apenas aceitarão crianças cujos pais trabalhem ambos em serviços fundamentais (p.e. serviços de saúde). As escolas estão a preparar formas de dar trabalhos para as crianças irem fazendo em casa.

Também os bares e restaurantes terão de fechar. O governo também vai disponibilizar 300 milhões de euros para ajudar PMEs. Neste momento ainda não vão fechar fronteiras.

Alemanha

O governo federal decidiu fechar as fronteiras com Áustria, Suíça, França e Luxemburgo, excepto para residentes, pessoas necessárias e pessoas que tenham que atravessar a fronteira para o trabalho. Outras fronteiras ficam para já abertas.

Ainda não há indicações a nível federal em relação a escolas e outros serviços.

Covid-19, um testemunho (1)

por João André, em 13.03.20

Trabalho na Alemanha e vivo na Holanda, perto das fronteiras com a Bélgica e Alemanha. A cerca de 30 km onde vivo está o principal foco alemão, na zona de Heinsberg. O principal foco holandês está a cerca de 60-80 km, a norte. Ambos estão relacionados com as celebrações de Carnaval, que são muito populares nestas zonas dos dois países. Eu pessoalmente tive de vir por motivos profissionais para o Canadá por algumas semanas e começo a perguntar-me como regressarei.

Medidas que vou vendo:

Na Holanda as medidas estão a ser tomadas a nível regional:

  • Fora da zona de Noord-Brabant, as escolas continuam abertas e as indicações são para as crianças ficarem em casa se tiverem qualquer tipo de sintomas, mesmo que seja apenas uma constipação.
  • Várias empresas na minha zona decidiram indicar aos seus funcionários que ficassem em casa. Fossem ao escritório apenas e só para ir buscar computadores, telefones, etc, para poderem continuar a trabalhar a partir de casa. Há funções que não podem ser executadas remotamente mas não sei como se está a lidar com estas. As medidas mais recentes pedem aos trabalhadores que fiquem em casa.
  • Os supermercados e demais lojas continuam a funcionar e não há açambarcamento claro. No entanto as pessoas estão a fazer as suas compras cedo e as prateleiras parecem algo despidas por algumas horas.
  • Alguns supermercados e cadeias de drogaria estão a limitar o número de analgésicos e anti-inflamatórios que se podem comprar. Os de dose adulta já estavam esgotados em alguns locais..*
  • Os eventos com mais de 100 pessoas são cancelados ou anulados.

Na Alemanha:

  • A zona de Heinsberg está essencialmente fechada. Os habitantes na região têm de ficar em casa porque os filhos estão desde há 3 semanas sem escola.
  • Os supermercados estão com mais problemas que na Holanda. Parte da razão é um atraso da parte dos supermercados alemães em adoptar compras por internet. Sem possibilidade de fazer estas compras, as pessoas são obrigadas a ir aos supermercados.
  • As empresas estão a começar a fazer planos para ter os seus trabalhadores a trabalhar a partir de casa.
  • Alguns estados começaram a fechar escolas. Também há casos de se removerem as horas de visita em hospitais.
  • Há medidas para garantir crédito ilimitado a empresas que dele precisem em resultado da situação.

No Canadá, em Ontário:

  • A medida mais notória foi a suspensão das ligas profissionais norte-americanas. Em Toronto houve um impacto psicológico forte especialmente com a medida da NHL (hockey no gelo).
  • Também o diagnóstico de Covid-19 da mulher do primeiro-ministro e a decisão deste de se isolar e trabalhar a partir de casa tiveram um impacto psicológico.
  • A maior parte das medidas são na direcção de educar e dar indicações. O número de casos no Canadá é ainda reduzido e não há medidas específicas.
  • Quando cheguei no início do mês não houve qualquer controlo no aeroporto. Isso terá mudado entretanto.

Não digo que qualquer dos casos seja um exemplo ou não. Apenas os deixo como testemunho.

 

* - actualizado.

Com esta pandemia do Covid-19, vulgo Coronavirus, tem havido muita confusão, especialmente no que respeita à ideia que existe exagero na forma como se está a lidar com a situação e ao pânico ou pseudopânico que se tem gerado com a situação. Um dos problemas é porque a mensagem ou não está a ser correctamente transmitida ou está mal adaptada para o público em geral.

Há um risco considerável para a população em geral com o Covid-19? Sim, e é por isso que se tomam determinadas medidas. Há um risco considerável para cada indivíduo? Não. Há um risco acrescido relativamente à gripe sazonal (ou gripes sazonais, não existe uma gripe sazonal), mas é relativamente pequeno e normalmente específico para pessoas com problemas de saúde pré-existentes. A grande maioria parte das pessoas ou não terão sintomas, ou terão sintomas iguais às de outras gripes, ou terão sintomas mais chatos mas sem necessidade de qualquer tratamento adicional, apenas um período mais prolongado de recuperação do que o normal.

Porquê então estas medidas? Existem duas razões, interligadas, semelhantes, mas um pouco diferentes.

 

 

Joker - Are you talking to me?

por João André, em 10.03.20

Em 2001 saiu o filme Uma Mente Brilhante, de Ron Howard e com Russel Crowe. Venceu na altura o óscar de melhor filme do ano, mas sendo um veículo para Russel Crowe, este acabou por não receber a estatueta (que tinha recebido no ano anterior por Gladiador). Isto veio-me à memória com Joker, um filme que parece ter sido feito, à semelhança com Uma Mente Brilhante, para o seu actor principal receber o prémio de melhor actor. Ao contrário de Crowe, Joaquin Phoenix recebeu o seu óscar. Ao contrário do filme de 2001, Joker não ofereceu mais nada.

A principal coisa que me fica na memória depois de ver Joker é a performance de Phoenix. Não é simplesmente um desempenho, uma interpretação, é antes uma performance artística, só tangencialmente associada ao cinema. Joker não tem uma história, uma mensagem para transmitir. Tem um actor numa performance. Não tem personagens (nem mesmo a de Joker/Arthur Fleck). Tem um actor numa performance. Não tem uma linha sequencial. Tem um actor numa performance. Não tem princípio e não pretende ser um fim. Tem um actor numa performance.

Phoenix neste filme transmitiu-me duas imagens: a de freestylers, aqueles artistas que são capazes de imensos malabarismos com uma bola de futebol, de dar voltas e cambalhotas com a bola, de a fazer parar no pescoço e no peito, de dar toques quando sentados ou deitados ou de fazerem parecer que têm a bola colada ao corpo. Mas isso não é futebol. Outra imagem que me ficou foi a de João Grosso no palco de um teatro a declamar textos da Geração d'Orpheu, por volta de 1995. Ele estava sozinho em palco e declamava um ou mais textos de um dos autores, numa performance também muito física. Era um prazer ver, mas não havia qualquer interacção com o palco, outros actores ou espectadores (tenho a certeza que ele discordaria deste ponto). João Grosso bastava-se a si mesmo.

E foi isso que se passou com Joker. Joaquin Phoenix disse em entrevistas que tentou criar uma personagem com a qual ninguém se conseguisse identificar. Tentou que, sendo humano, o seu Arthur Fleck não pudesse ser definido de forma nenhuma, que fosse desfasado de um perfil completo. Isso nota-se claramente. Fleck tem problemas mentais e psicológicos, mas não parece ser essa a sua força motriz. A injustiça social afecta-o mas ele não a abraça como causa. Confessa querer fazer o mundo rir, mas cria piadas que só ele aprecia. A sua principal característica parece ser o egoísmo, mas só se manifesta nos seus momentos de sanidade.

Mais ninguém recebe traços mais que grosseiros. A sua vizinha é apenas um objecto. A sua mãe serve de Mcguffin. Thomas Wayne é um alvo para os seus desejos e serve apenas de arquétipo do bilionário que se julga benfeitor. Mesmo Murray Franklin parece ser não mais que uma chave para finalmente destrancar as psicoses mais violentas de Fleck. Escolher de Niro para o papel é apenas um piscar de olho nada subtil ao seu trabalho em O Rei da Comédia e Taxi Driver. Nenhuma destas personagens tem motivações, medos, desejos, inseguranças, felicidades. São apenas cones de trânsito para Phoenix navegar. Nada acrescentam à história. Se os autores tivessem escolhido uma criança, um vagabundo, um vendedor de rua ou um advogado, nada mudaria.

Este é um filme que tenta ser dos anos 70 sem ter a envolvência social desses tempos. Taxi Driver, Raging Bull, O Rei da Comédia, Mean Streets, etc, eram todos filmes que funcionavam nesses tempos porque eram imbuídos do espírito do tempo. Não são datados porque são filmes poderosamente humanos. Em Taxi Driver, Jodie Foster e Cybill Shepherd tinham personagens de carne e osso. O mesmo para Jerry Lewis em O Rei da Comédia ou Keitel em Mean Streets, Joe Pesci em Raging Bull ou outras personagens noutros filmes desses anos. Havia uma teia humana que sustentava os personagens principais. Em Joker, é como se Joaquin Phoenix passasse o filme em variações do “Are you talking to me?”, cena que também merece a sua referência directa.

No fim, sobra a performance de Joaquin Phoenix. Não é uma actuação em si mesma, antes um momento de arte abstracta. É brilhante e merece todos os elogios, mas não faz um filme. Lembrando a polémica dos filmes da Marvel, não sei se Scorsese chamaria a isto cinema.

Pensamento da semana

por João André, em 08.03.20

O mundo moderno cria especialistas em tudo e mais alguma coisa sem criar seres humanos. Não é uma questão de a cultura geral ser insuficiente, é o facto de o conceito de cutura geral ser bastas vezes incompreendido. Ler Shakespeare demonstrará cultura, mas desconhecer a segunda lei da termodinâmica, talvez mais grave que não conhecer o Bardo, não é vista como uma falha grave de cultura.

Não só deveríamos todos investir em saber mais, como deveríamos investir em saber pensar melhor, melhorar o espírito crítico e aplicá-lo a tudo o que vemos, ouvimos, lemos, sentimos. E deveríamos depois ter as ferramentas para poder raciocinar e argumentar as teses em discussão.

Nesse aspecto, além de falhas pessoais e da sociedade, há uma falha na escola, ao insistir num mundo de especialistas que ficam depois mancos de outras formas de conhecimento e razão. As humanidades deveriam manter sempre cadeiras de matemática e ciência (mesmo que geral). As ciências deveriam sempre insistir em línguas estrangeiras, literatura e filosofia.

Urge reverter o desconhecimento que vem na forma de conhecimento ultra-específico e absoluto. Só conhecendo mais, saberemos o pouco que conhecemos. E questionaremos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Em favor de quotas

por João André, em 27.02.20

Este penso rápido do Pedro lembra-me um problema: numa sociedade igualitária, onde toda a gente tem as mesmas oportunidades e não há descriminação de nenhum tipo (não vou listar as diferentes possibilidades, são demasiadas), porque razão não temos uma sociedade menos dominada por homens brancos?

No título tenho a palavra "quotas". Durante muito tempo me perguntei se são boas ou más. Já fui contra, a favor, contra de novo, indecidido e agora sou francamente a favor (deixei passar provavelmente mais umas estações e apeadeiros nestas reflexões e este é um estado de espírito actual). Para falar em quotas tems que começar com uma pergunta: são os homens brancos mais capazes que mulheres e homens não-brancos? Deixo de lado as subdivisões de escandinavos, mediterrânicos, eslavos, etc e tal. Fiquemo-nos pela cor aproximada da pele.

Creio, espero que correctamente, que a esmagadora maioria das pessoas responderá com um sonoro NÃO! Então fica novamente a pergunta: porque não estão tais pessoas igualmente representadas em cargos superiores? Porque não têm o mesmo nível de educação (eu sei que mulheres até têm maior probabilidade de ter cursos superiores que os homens, mas iso apenas amplifica a minha questão)? Porque razão existe tal diferença salarial entre pessoas com a mesma educação e responsabilidades e experiência quando a única diferença é um cromossoma ou o tom de pele? E não falo apenas de Portugal, naturalmente, falo de todo o mundo.

A resposta é, para mim, óbvia: o racismo e machismo existem, estão vivos e muito bem de saúde. Não falo de racismo ou machismo pessoal, onde os indivíduos pensam que o outro é de facto inferior só por ser mais escuro ou ser mulher (embora o machismo seja muito mais aberto). Todos nós os teremos um pouco, mas isso será um resquício da nossa evolução, que favoreceria os nossos grupos (tribos), os quais durante a maior parte da nossa história eram constituídos por pessoas parecidas connosco. A suspeita de estrahos estará entranhada no nosso código genético, mas não é inultrapassável, longe disso. Penso que o racismo e machismo são essencialmente estruturais e legados de um passado onde eram claros, abertos, assumidos e até marcas de honra. Li esta semana que Churchill sugeriu o lema "Keep England White" em 1955, o que se não é suficiente para manchar a imagem do estadista, certamente dá uma nova perspectiva e um período tão recente. Isso só demonstra como séculos de história terão deixado uma sociedade tão entranhada de homens brancos que abrir as portas a outros se torna difícil.

Repito: não é uma questão de racismo ou machismo pessoal. Duvido que na maioria dos casos alguém que escolha um homem branco em deterimento de outro tipo de candidato no papel igualmente qualificado o faça por esses motivos. Será normalmente por questões de ter um perfil pessoal mais adequado, ou algo do género. Em inglês refere-se a isso como "better fit" e é aquilo que normalmente se chama de "similarity bias", ou seja, uma preferência por pessoas semelhantes a nós. Numa sociedade onde os homens brancos dominaram, isso significa que a preferência, mesmo que não intencional, será por outros homens brancos.

Para mim a solução passa por quotas, mas não nas direcções das empresas ou nos cargos mais altos seja de onde for. Tem que ser em todos os níveis em carreiras de todos os tipos, públicas ou privadas. Só assim se elimina essa tendência de escolher alguém semelhante ou, pelo menos, se colocam outras pessoas para a equilibrar o suficiente. Funcionaria? Não sei, mas é a melhor solução que imagino, já que a igualdade de oportunidades já falhou completamente. Haveria muitas outras medidas a tomar, mas apenas falo desta.

Há um benefício adicional: assumindo que a percentagem de pessoas com talento será idêntica independentemente de cor ou sexo, isso significa que num mundo onde os homens brancos são favorecidos, haverá muitos profissionais que estão subvalorizados. As empresas que praticarem alguma discriminação em desfavor de homens brancos poderão colher benefícios inesperados ao pescar num mar essencialmente livre de outros pescadores.

Estaremos simplesmente a ficar velhos?

por João André, em 27.02.20

Uma das coisas que mais me fascinam são os textos pessimistas. Não falo de textos como os do falecido Vasco Pulido Valente, que apesar de invariavelmente pessimista, tinha esse pessimismo como resultado de um pensamento apurado e meticuloso. Eu discordava frequentemente dele e não me agradava a acidez dele, mas o seu brio intelectual era quase sempre inatacável.

Quando falo de pessimismo, falo daquele que, na maioria das vezes, assume de forma directa ou indirecta um cunho de "no meu tempo..." ou "já não se fazem como antes", ou até de "os tempos mudaram muito". Esta última instância é normal: os tempos de facto mudaram muito. Temos a Indústria 4.0  - ou a 4ª revolução industrial, mas hoje em dia (cá estamos) as coisas só são levadas a sério com um ".0" algures no nome. Temos Internet. Temos redes sociais. Temos internacionalizações e viagens facilitadas. Temos notícias na ponta dos dedos com uma velocidade e variedade incomparável na história humana (mesmo quando a precisão e a minúcia sofrem). As mudanças são muitas, mas são essencialmente tecnológicas ou derivadas de tecnologia.

Só que não são novas. Um dos tipos de textos que mais gosto de ler na The Economist são aqueles que traçam paralelos das queixas presentes com as do passado. É frequente esses textos fazerem referência a alterações (jornais, cafés, comunicações, automóveis, etc) especialmente do final do século XIX e notarem as preocupações que tais alterações induziam nessa altura. Por vezes os textos começam com excertos de (por exemplo) 1895  e nós somos levados a pensar que se escreve sobre algum caso actual. O texto do Sérgio, sem fazer juízos específicos sobre ele, lembra-me isso. Leio-o e, dos temas que acompanho, concordo em traços gerais. Pergunto-me no entanto se tal texto, com uma ou outra modificação, não poderia ter sido escrito em 1950, ou 1920 ou 1880.

Lembro-me com frequência de quando a RTP1 e RTP2 eram as únicas televisões e os telejornais não excediam a meia hora (que a seguir vinha a novela e depois o filme). Não vou queixar-me da qualidade da informação, mas antes de como hoje temos informação sobre tudo e mais alguma coisa. Se um homem matar a mulher em Cabeça Gorda no Alentejo, teremos em algumas horas directos do local, com os repórteres a repetirem as mesmas coisas de hora a hora e a dizer o estado do tempo só para encher chouriços. Em 1991, esse assassinato seria provavelmente ignorado, dado que não se podia enviar o repórter lá e isso só seria um problema se sequer se soubesse de tal caso. A realidade é que há hoje muito mais abundância de notícias e, com a natureza humana inalterada, "if it bleeds it leads", as notícias más serão sempre amplificadas nos noticiários e nas nossas mentes.

Estamos melhor hoje ou antes? Pessoalmente não creio que haja demasiada diferença, mas prefiro saber de mais um caso de violência doméstica, de insegurança rodoviária em Abrantes ou de falta de cuidados médicos em Sátão. Com essa informação sempre se pode exigir alguma coisa. De outra forma ficamos no nosso "vamos andando".

Há lados maus? Claro que sim, isso é inevitável. No entanto penso que, levando tudo em conta, o mundo continua, como sempre terá continuado desde há séculos, dois passos à frente e um atrás, a melhorar e a progredir. Teremos umas pestilências, guerras, fomes e mortes pelo caminho? Por algum motivo já vêm desde o Novo Testamento. São parte da natureza humana.

Por isso, mais que um regredir dos tempos, creio mais num avançar dos anos de quem profere (proferimos) estas palavras. Não é o mundo que está pior, mais perigoso ou mais feio. Creio que somos nós que estamos mais velhos. E o Restelo não está (pelo menos para mim) aqui nada perto.

E quando tinhas 16 anos?

por João André, em 20.12.19

A Time escolheu Greta Thunberg como pessoa do ano. Penso que ela não liga muito a isso e que se ligar será só pela forma como irão falar da sua causa.

Haverá muitas pessoas, incluindo neste blogue, que menorizarão a escolha. Falarão em como ela é obcecada, ou que devia ir para a escola, ou que isto ou aquilo.

A única coisa que lembro é: começando por se sentar no passeio com um cartaz, esta miúda de dezasseis (16!) anos colocou milhões de jovens envolvidos numa causa que lhes é importante: o seu futuro. Falou com líderes políticos, económicos e discursou, fluentemente, nas Nações Unidas. Conseguiu ainda atrair o ódio dos ogres políticos deste mundo (sim, como Trump ou Bolsonaro - os Putins ou Kims são piores).

Para quem ainda lhe cause urticária o que Thunberg conseguiu, deixo a pergunta: e tu, o que fizeste aos 16 anos?

Trump 2.5 (anos)

por João André, em 25.07.19

21518270_7ZzMF.jpeg

 

Ao fim de sensivelmente dois anos e meio de uma presidência Trump, estamos agora em plena viagem de pré(?)-campanha presidencial nos EUA. É de lamentar que nos ciclos noticiosos de hoje em dia mal haja tempo para uma administração americana começar a funcionar antes de começar a campanha seguinte.

Que dizer ao fim deste período de era Trump? Independenetemente de quaisquer juízos de valor, tem que se aceitar que Trump tem sido altamente eficaz na forma como tem cumprido as suas promessas de campanha. A sua mais emblemática, a do muro na fronteira com o México, não se concretizou. Aqui terá falhado de forma estranha, especialmente quando teve quase dois anos de maioria no Congresso e Senado, mas teve também uma oposição interna no Partido Republicano que terá complicado a implementação esta promessa. Hoje tem o Partido Republicano (quase) completamente controlado mas o Partido Democrata controla o Congresso, pelo que o muro, se vier a ser construído, terá que esperar pelas próximas eleições intercalares. Na ausência do Muro (não que faça muita diferença, existe muro em larga parte da fronteira, construído por presidentes republicanos e democratas no passado), Trump aumentou as medidas dissuasoras para imigrantes e pessoas em busca de asilo. O Muro não existe, mas dificilmente os apoiantes de Trump se podem queixar.

 

 

Há 50 anos...

por João André, em 20.07.19

... menos 12 horas.

earthrise apollo 11.jpgBuzz Aldrin on the moon.jpgbuzz aldrin flag.jpg

 

Sinal fechado

por João André, em 02.07.19

Hoje estava a ouvir música e passou a minha versão preferida de Sinal Fechado de Chico Buarque, gravada num concerto ao vivo com Maria Bethânia (todo o álbum é fantástico). Mais que no original, esta versão, encurtada, dá a noção clara da urgência da letra e da forma como tratamos certas relações. Na era de Facebook, e-mail, skype e tantos outras redes sociais, a música continua a ressoar com intensidade. Algumas das pessoas com quem mais me relaciono no Facebook não serão aquelas que mais pensaria em visitar quando vou a Portugal, mesmo que tenha saudades delas. São pessoas que me alegraria ver, encontrar para beber um café e saber alguma coisa mais deles. Se "pegar(am) o lugar no futuro", como vai o "sono tranquilo", mesmo que por apenas alguns minutos.

Sei no entanto que, mesmo que não seja vão, que possa reencontrar essas pessoas, será num quase equivalente de num sinal fechado, com a pressa, "alma dos nossos negócios", num momento em se "anda a cem" (mil?). A maior probabilidade, no entanto, é que se os voltar a ver, eles acabem por se "sumi(r) na poeira das ruas" (ou dos electrões). A realidade é que, de todas as pessoas que terei conhecido ao longo da minha vida, mesmo daquelas com quem terei partilhado pedaços mais pessoais, mais ou menos íntimos, com quem terei partilhado experiências, vivências ou lições, das pessoas que ficaram com algo de mim, por ínfimo que terá sido, a realidade mesmo é que provavelmente não as voltarei a ver.

São pessoas que levam uma parte de mim com elas para o resto das suas vidas, talvez a partilhem com outros, completamente inconscientes disso, seja essa parte boa ou má. E eu farei o mesmo. Sem as ver. E fico feliz que assim seja, porque por muito que não as volte a ver, fizeram parte da minha vida, fizeram parte de momentos bons ou maus, ou bons e maus. E eu delas.

E, quem sabe, pode ser que um sinal fechado, ou o seu equivalente, as traga até mim, ou a mim a elas. Antes de eu "beber alguma coisa rapidamente" terei a possibilidade de lhes dizer:

"- Eu prometo, não esqueço, não esqueço...
- Por favor, não esqueça, não esqueça...
- Adeus!
- Adeus!
- Adeus!"

Tags:

Estatísticas e evolução do basquetebol

por João André, em 24.06.19

rodman you are so beautiful.jpg

Apesar de já algumas vezes ter escrito sobre desporto aqui, habitualmente debruço-me sobre futebol. O curioso é que nunca o joguei de forma oficial, apenas com amigos. O desporto que pratiquei um total de cerca de 10 anos (entre adolescência e depois a partir dos 28) foi o basquetebol. Comecei a jogar basquetebol quando a RTP começou a mostrar aos domingos alguns resumos da NBA, com o seu clipe ao som de Joe Cocker a cantar You are so beautiful e que capturava o fascínio que o desporto e a liga ofereciam. Não comecei a jogar basquetebol por causa disso. Tinha apenas, a convite de um amigo, ir experimentar um treino e fiquei agarrado.

 

 


O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D