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Trump 2.5 (anos)

por João André, em 25.07.19

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Ao fim de sensivelmente dois anos e meio de uma presidência Trump, estamos agora em plena viagem de pré(?)-campanha presidencial nos EUA. É de lamentar que nos ciclos noticiosos de hoje em dia mal haja tempo para uma administração americana começar a funcionar antes de começar a campanha seguinte.

Que dizer ao fim deste período de era Trump? Independenetemente de quaisquer juízos de valor, tem que se aceitar que Trump tem sido altamente eficaz na forma como tem cumprido as suas promessas de campanha. A sua mais emblemática, a do muro na fronteira com o México, não se concretizou. Aqui terá falhado de forma estranha, especialmente quando teve quase dois anos de maioria no Congresso e Senado, mas teve também uma oposição interna no Partido Republicano que terá complicado a implementação esta promessa. Hoje tem o Partido Republicano (quase) completamente controlado mas o Partido Democrata controla o Congresso, pelo que o muro, se vier a ser construído, terá que esperar pelas próximas eleições intercalares. Na ausência do Muro (não que faça muita diferença, existe muro em larga parte da fronteira, construído por presidentes republicanos e democratas no passado), Trump aumentou as medidas dissuasoras para imigrantes e pessoas em busca de asilo. O Muro não existe, mas dificilmente os apoiantes de Trump se podem queixar.

 

 

Há 50 anos...

por João André, em 20.07.19

... menos 12 horas.

earthrise apollo 11.jpgBuzz Aldrin on the moon.jpgbuzz aldrin flag.jpg

 

Sinal fechado

por João André, em 02.07.19

Hoje estava a ouvir música e passou a minha versão preferida de Sinal Fechado de Chico Buarque, gravada num concerto ao vivo com Maria Bethânia (todo o álbum é fantástico). Mais que no original, esta versão, encurtada, dá a noção clara da urgência da letra e da forma como tratamos certas relações. Na era de Facebook, e-mail, skype e tantos outras redes sociais, a música continua a ressoar com intensidade. Algumas das pessoas com quem mais me relaciono no Facebook não serão aquelas que mais pensaria em visitar quando vou a Portugal, mesmo que tenha saudades delas. São pessoas que me alegraria ver, encontrar para beber um café e saber alguma coisa mais deles. Se "pegar(am) o lugar no futuro", como vai o "sono tranquilo", mesmo que por apenas alguns minutos.

Sei no entanto que, mesmo que não seja vão, que possa reencontrar essas pessoas, será num quase equivalente de num sinal fechado, com a pressa, "alma dos nossos negócios", num momento em se "anda a cem" (mil?). A maior probabilidade, no entanto, é que se os voltar a ver, eles acabem por se "sumi(r) na poeira das ruas" (ou dos electrões). A realidade é que, de todas as pessoas que terei conhecido ao longo da minha vida, mesmo daquelas com quem terei partilhado pedaços mais pessoais, mais ou menos íntimos, com quem terei partilhado experiências, vivências ou lições, das pessoas que ficaram com algo de mim, por ínfimo que terá sido, a realidade mesmo é que provavelmente não as voltarei a ver.

São pessoas que levam uma parte de mim com elas para o resto das suas vidas, talvez a partilhem com outros, completamente inconscientes disso, seja essa parte boa ou má. E eu farei o mesmo. Sem as ver. E fico feliz que assim seja, porque por muito que não as volte a ver, fizeram parte da minha vida, fizeram parte de momentos bons ou maus, ou bons e maus. E eu delas.

E, quem sabe, pode ser que um sinal fechado, ou o seu equivalente, as traga até mim, ou a mim a elas. Antes de eu "beber alguma coisa rapidamente" terei a possibilidade de lhes dizer:

"- Eu prometo, não esqueço, não esqueço...
- Por favor, não esqueça, não esqueça...
- Adeus!
- Adeus!
- Adeus!"

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Estatísticas e evolução do basquetebol

por João André, em 24.06.19

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Apesar de já algumas vezes ter escrito sobre desporto aqui, habitualmente debruço-me sobre futebol. O curioso é que nunca o joguei de forma oficial, apenas com amigos. O desporto que pratiquei um total de cerca de 10 anos (entre adolescência e depois a partir dos 28) foi o basquetebol. Comecei a jogar basquetebol quando a RTP começou a mostrar aos domingos alguns resumos da NBA, com o seu clipe ao som de Joe Cocker a cantar You are so beautiful e que capturava o fascínio que o desporto e a liga ofereciam. Não comecei a jogar basquetebol por causa disso. Tinha apenas, a convite de um amigo, ir experimentar um treino e fiquei agarrado.

 

 

A morte do bloguismo decente

por João André, em 16.06.19

O jpt postou abaixo um texto sobre a falta de qualidade do jornalismo desportivo dando múltiplos exemplos (que subscrevo, pelo menos na descrição dele). A certa altura escreve:

«19ª notícia: desenvolvimentos sobre a acusação a Cristiano Ronaldo de ter violado uma prostituta americana»

Assim mesmo. Uma "prostituta americana". Não é engano. Nas notícias sobre as acusações de violação a Neymar, a acusadora é simplesmente "mulher". No passado escrevi sobre o assunto e não o quero fazer agora. Até pensei que pudesse ser citação directa do que escreveu o Record, mas depois de procurar a mais recente notícia sobre o assunto no site, encontrei uma onde Mayorga aparece identificada como "modelo", coisa que já não será há muito.

Parece-me então que Kathryn Mayorga foi automaticamente qualificada por jpt como prostituta. O crime? Pelo que vejo, e isto é conclusão minha, ter tido a audacidade de acusar Ronaldo, já que no caso de Neymar a acusadora não recebeu igual rótulo.

Fico esclarecido sobre a qualidade do bloguismo neste caso. De nojo.

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Europa: o outro sítio

por João André, em 27.05.19

Nasci em 1975, num país mal saído da ditadura. Não passei pelo Verão Quente, senão no conforto do útero. Cresci num país a melhorar aos poucos, com momentos piores que outros mas que a minha idade não me permitia lembrar. A maior parte das minhas memórias vêm de 1985-86, pelo que qualquer memória que tenho associa Portugal à União Europeia (na altura a CEE). A minha vida activa apanha-me quase exclusivamente com Portugal como parte do EURO, que afortunadamente eliminou o termo ECU. A minha primeira viagem fora do país que não envolvesse comprar caramelos em Ayamonte foram umas férias a limpar escritórios em Londres. A entrada não requereu mais que um bilhete de identidade. O meu primeiro passaporte foi pedido já com uns 22 anos de idade e terá recebido um carimbo. Não visitei todos os países da UE nem do espaço Schengen, mas já visitei uns quantos. Vivo num país que não é o do meu nascimento e trabalho noutro, sendo que sou obrigado a deslocar-me a vários países da UE/Schengen com frequência. A Europa não é para mim um conceito ou um objectivo: é uma realidade diária.

É por isso que tenho dificuldade em conceber tanta gente a votar em partidos que, por ideologia ou populismo, estejam contra a UE. Isto não quer dizer que seja uma posição inválida ou errada por si mesma, apenas que tenho tanta dificuldade em concebê-la como em compreender que há pessoas que se mutilem extensivamente por motivos estéticos. Há bons argumentos contra a UE, contra uma integração mais profunda ou em favor de manter a UE mas reduzir a sua influência na vida dos estados membros. Infelizmente raras vezes vejo esses argumentos apresentados de forma séria. Em geral são-no conjuntamente com falsidades referentes à ingerência que a UE tem na vida dos países individuais (como em todo o debate em torno de Brexit).

Mas o maior falhanço da Europa provém dos seus partidos mais tradicionais, do centro ou não. Confrontados com a estridência dos partidos populistas ou extremistas (e nos extremos faz pouca diferença se de direita ou esquerda), esses partidos têm optado por cooptar parte dos argumentos para os tentar esvaziar. Casos há em que funciona, mas habitualmente é por pouco tempo e faz sempre lembrar a fábula da rã e do escorpião. A verdade é que as cópias são sempre piores que os originais e, quando temos os países tradicionais ou do centro a copiar os argumentos anti-Europa ou anti-imigração, normalmente soam ocos e falsos. Porque o são.

A Europa é para mim uma realidade diária, escrevi eu. É também um objecto da Evolução, tão real quanto a biológica. Nao há uma meta para um projecto Europeu, é um projecto cujas balizas estarão sempre a mover-se e, se as alcançarmos, teremos que procurar novas. A natureza humana é uma de descontentamento e será sempre necessário adaptar a Europa para que continue a ser um ideal em vez de realidade.

Em tempos a série The Twilight Zone teve um episódio chamado A Nice Place to Visit. Nele um ladrão morria depois de um assalto e acabava num lugar onde tudo lhe corria bem. Recebia o dinheiro que quisesse, ia ao casino e vencia sempre, com a bola da roleta a cair nas suas escolhas e as suas mãos nas cartas a serem sempre perfeitas. Ao fim de algum tempo comçava a odiar o lugar e pedia para ir para "o outro sítio". Claro que o twist é óbvio: ele já estava no outro sítio. Se a Europa não evoluir, se apenas for o melhor sítio do mundo para viver, não tardará muito a que seja também "o outro sítio". Nesse aspecto, introduzir imperfeições é boa ideia. Talvez possamos almejar, em vez de definhar.

Pensamento da semana

por João André, em 23.02.19

Pré-internet, tínhamos a ditadura do microfone. Quem o possuía controlava a comunicação. Na idade da internet o microfone foi democratizado e passámos a ter a ditadura do megafone. Quem grita mais alto vence.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Rebolar na lama

por João André, em 14.02.19

«Nunca lutes com um porco na lama. Ficas sujo e o porco gosta»

Esta frase vem-me frequentemente à cabeça quando leio caixas de comentários (aqui ou noutros locais, especialmente Facebook). A quantidade de pessoas que pululam nas mesmas para fazer avançar as suas agendas anti-liberais, quando não mesmo fascistas (a níveis diferentes) é elevada e, mais importante, são extremamente activas. São pessoas que ou compram quaisquer teorias, por mais disparatadas que sejam, desde que se oponham ao establishment e recusam quaisquer provas ou dados ou lógica que lhes desmontem a argumentação. Nisto caem as conspirações anti-semitas, negacionistas das alterações climáticas, anti-migração, liberais extremistas, antivaxxers, extremistas raciais (habitualmente brancos) ou culturais (habitualmente judaico-cristãos europeus e brancos e embora também os haja árabes e islamistas, não andam nas mesmas caixas).

Com eles não há discussão. Há apenas gritos e rejeição de toda e qualquer argumentação que lhes negue as opiniões. E preciso rejeitar ciência? Faça-se. É necessário demonizar outros povos ou culturas? Vamos a isso. Relativizar sofrimentos ou riscos? Fácil. Mentir? Uma constante.

Na Europa vemos cada vez mais disso. Salvini é neste momento o mais destacado representante na forma como está a controlar completamente o seu parceiro-fantoche de coligação e toma atitudes que estão contra qualquer decência. Orban na Hungria parece querer fazer avançar tudo o que lhe convenha, mesmo que tenha que avançar conspirações anti-semitas, obrigar trabalhadores a ficar no trabalho sem salário, proibir a entrada de imigrantes que nem sequer o almejam, dar contratos e proteger subsídios da família e amigos. Na Polónia Kaczyński tenta seguir o conceito Orban. Na Turquia Erdogan caminha para a ditadura usando o espantalho Güllen. Fora da Europa, na Venezuela felizmente o ditador é incompetente (sem Cuba já teria deaparecido). Nos EUA Trump continua a denegrir toda e qualquer pessoa que discorde dele (até tenta levar Bezos para a lama referindo-se à sua vida privada). No Brasil Bolsonaro agita o espantalho inexistente da ameaça do comunismo. O casos surgem quase todos os dias.

E depois temos os trolls deles. Muitos deles serão pagos, outros simplesmente idiotas úteis. Veremos nos próximos meses o resultado das suas acções nas eleições europeias.

Não conheço a solução. Sei que entrar nessas discussões é inútil. Regulação para evitar a propagação de falsidades nas redes sociais (ou caixas de comentários de media) seria útil, mas não suficiente. Discutir como lidar com o uso de mentiras em campanhas eleitorais seria boa ideia. Não falo de promessas que niguém irá cumprir (não há inocentes nesse aspecto), antes do uso de mentiras óbvias. Entretanto, o melhor seria evitar dar-lhes um megafone maior que o que têm. Ignorar esta suinidade não resolve o problema, mas não piora e não suja mais ninguém.

A vingança de Malthus

por João André, em 11.02.19

Em 1798, Thomas Malthus escreveu o seu "An Essay on the Principle of Population", onde, de forma muito resumida, previa que a disponibilidade de recursos levaria a um aumento de população até um ponto onde os primeiros não sustentariam a segunda, isto é, os recursos seriam insuficientes para a população. Os recursos a que se referia eram essencialmente a produção de alimentos e a sua visão foi influente o suficiente para se falar em catástrofe malthusiana ou em pensamento malthusiano.

 

Malthus não tinha (penso) uma previsão para o momento em que o crescimento da população seria restringido pela disponibilidade de alimentos, mas seja como for, as suas previsões não se cumpriram até à II Guerra Mundial. Malthus tinha no entanto apontado guerra, peste e fome como instrumentos de controlo do crescimento populacional. Neste contexto, a Grande Fome (Great Famine, no original) na Irlanda em meados do século XIX, a I Guerra Mundial e a Gripe Espanhola de 1918 apoiariam as suas teses. Ainda assim, após a II Guerra Mundial, no período de desenvolvimento económico e científico que se seguiu à catástrofe, a produção agrícola disparou, especialmente através da Revolução Verde. Alguns neo-malthusianos apontaram que tal apenas reforçaria as teses de Malthus, dado que este apontava a sobre-abundância de alimentos como a causa para o aumento rápido da população.

 

Houve no entanto dois aspectos que contrariaram a tese de Malthus. Por um lado, a tecnologia continuou a permitir um aumento da produção de alimentos ao ponto que, hoje, seria teoricamente possível alimentar toda a população do planeta, mesmo sendo esta consideravelmente mais vasta que em 1960. O segundo aspecto é o facto de a prosperidade, inicialmente nos países ricos e mais tarde nos restantes, leva a uma redução da taxa de natalidade, especialmente quando a prosperidade vem associada a uma maior educação das mulheres. A população tem continuado a aumentar, mas a ritmos variáveis e, nos países ricos, só aumenta devido ao influxo de imigrantes e a um aumento da esperança de vida. Num livro recente, os autores argumentam que, ao contrário do que se espera, este fenómeno relacionado com a educação feminina levará a uma diminuição da população mundial já dentro de 3 décadas (não li o livro, apenas deixo o link para o artigo).

 

Parece então que a catástrofe malthusiana pode ser evitada. Pelo menos do lado dos alimentos. Mas será completamente evitável?

 

2018 viu um aumento da consciência social um pouco por todo o lado. Foi a questão dos plásticos; foi o aviso que poderá já ser quase tarde demais para evitar aumentos de temperatura catastróficos; foi a informação que metade da Great Barrier Reef, bem como 15-30% (as estimativas variam) dos corais do oceano estarão a morrer de forma acelerada (e o IPCC estima que se o aumento de temperatura ficar apenas nos 1,5 ºC, 70-90% dos corais desaprecerão); foi a notícia recente que pelo menos um terço dos glaciares do massivo Hindu Kush-Himalaias estarão a desaparecer; foi o aparente aumento da frequência de episódios de tempo extremos (calor na Austrália, frio nos EUA, tufões e tempestades tropicais em alturas incomuns e em zonas onde não sucedem frequentemente); é a seca em múltiplas partes do mundo; são os insectos a desaparecer, etc, etc, etc.

 

Tudo isto está relacionado com uma coisa: uma voracidade pelos recursos do planeta que não tem par em qualquer outra altura dos 4,5 mil milhões de anos da Terra. Não se trata só das alterações climáticas induzidas pelo aquecimento global causado pela actividade antropogénica. O problema dos plásticos está também relacionado com isto: os recursos naturais (vidro, papel, madeira, etc) são limitados e não têm a variedade de usos que os polímeros (no caso, com à base de petróleo) oferecem. O declínio das populações de insectos está correlacionada com as revoluções verdes e o uso extensivo de insecticidas que permanecem no solo durante anos e que destroem as larvas de onde oclodiriam os novos insectos. As populações animais estão em declínio, em parte pela desflorestação e em parte pela caça. Em alguns casos a caça, especialmente de herbívoros de grande porte ou de predadores de topo, é tão ou mais responsável quanto desflorestação intensiva.

 

Isto reflecte uma realidade muito malthusiana. Não tanto pelo lado dos alimentos, mas pelo lado do desenvolvimento ou conforto ou luxos. O aumento do consumo de carne nos países em via de desenvolvimento é responsável por muitos dos actuais problemas climáticos. O desejo de ter os mais recentes brinquedos electrónicos (o iPhone 234.2 ou o iPad ou o Tesla ou a nova TV plasma-LCD curva a 360º ou as luzes LED que iluminam permanentemente por baixo da sanita para o caso de ser necessário apanhar a escova de dentes. Tudo isto, bem como todos os outros bens que poderiam ser mencionados, exigem recursos para a sua produção (ou para fornecer os serviços envolvidos), sendo que muitos deles não estarão ligados directamente ao produto (o plástico ou o metal do produto que teremos na mão) mas serão essenciais para a sua existência, na forma das cadeias de produção, nomeadamente no transporte, construção do equipamento envolvido na sua produção, equipamento auxiliar ou outros recursos (no limite até na produção do balcão da loja que vende o produto).

 

Todos estes recursos, além disso, são de via única, ou seja, não são recuperáveis. Há elementos nos sistemas de reciclagem ou reuso que ajudam a evitar esta armadilha, como o ciclo da água ou do carbono (por exemplo o CO2 libertado na queima de combustíveis é capturado por árvores que depois morrem e se afundam no subsolo acabando por dar origem a mais combustívei fósseis). A dificuldade é que não só a reciclagem nunca pode ser perfeita (a 2ª lei da termodinâmica impede-o) mas em termos de engenharia actual (ou prevista para o próximo século) não é possível sequer estar perto de 100% de eficiência. Isso significa que mesmo um hipotético cenário Soylent Green não permitiria sustentabilidade.

 

Isso significa que de um ponto de vista matemático, iremos sempre acabar por consumir mais recursos do que recuperamos num sistema fechado. No caso do nosso planeta, este problema pode ser resolvido devido aos sistemas implícitos de reciclagem do planeta (água, CO2, sais, temperatura, etc), mas estes são tão lentos que exigem uso ponderado dos recursos. No entanto a população continua a crescer e a pedir mais recursos per capita. Isso significa que continuaremos a usar mais recursos do que os que temos disponíveis e atingiremos um momento em que a procura ultrapassará a oferta. E não vale a pena defendermo-nos falando em tecnologia porque esta resolve os problemas utilizando mais de outros recursos. A revolução verde é um excelente exemplo: foi possível graças a novos fertilizantes e pesticidas, mas estes têm também os seus custos em termos de recursos de outro tipo (outras matérias primas, energia...).

 

Isto significa que, no fim das contas, Malthus acabará por ter razão. O planeta terá recursos limitados, mesmo contabilizando as entradas (energia solar, gravidade...) no sistema. O nosso ritmo de consumo, seja de forma directa (comida) ou indirecta (recursos para fertilizantes) será sempre mais intenso que a capacidade de reposição dos mesmos no planeta. Em alguns aspectos, estaremos pior (água, biodiversidade, clima) que noutros e teremos que fazer mais e mais depressa, mas em todos os aspectos o nosso desenvolvimento está a ultrapassar a capacidade que o planeta tem de o sustentar. A vingança, mesmo indesejada, acabará por chegar.

Apos um momento #metoo (final)

por João André, em 15.10.18

Há pouco mais de uma semana decidi colocar uma série de posts com o título "Após um momento "metoo". Continham apenas uma frase com que as acusações/declarações de mulheres são frequentemente confrontadas. Não enquadrei, justifiquei, não me coloquei de qualquer dos lados. Deixei apenas a frase.

 

Houve quem tenha notado isso. Notaram também que deixei os comentários abertos, algo que nunca faço. Eliminei apenas um por grosseria*. De resto fui deixando e nem sequer intervi nas conversas. Não era minha intenção ser foco de nada, antes deixar a discussão avançar. Também não reflectirei sobre os comentários (no momento em que escrevo são 159 no total, média de quase 20 por post). Estão lá para qualquer pessoa ler e não vou pronunciar-me sobre eles. Cada um que tire as suas ilações sem comentários da minha parte.

 

Não é obviamente acidente que esta sequência tenha surgido após o caso Mayorga-Ronaldo, embora as declarações acima tenham surgido apenas da minha memória e não tenham sido levantadas de qualquer texto de opinião ou comentário específico. Podiam ter sido após as declarações contra Aziz Ansari ou Harvey Weinstein. Podiam ter sido após declarações de Jimmy Bennet contra Asia Argento, apenas se mudando o sexo das pessoas.

 

A razão de eu ter iniciado esta lista foi para ressalvar o tratamento a que as mulheres que acusam homens (mais ainda que homens que acusam, seja outros homens ou mulheres) são sujeitas. Uma acusação não é obviamente equivalente a uma condenação nem o pode ser. Uma mulher que tenha a coragem de fazer tal acusação não merece automaticamente ser considerada acima de suspeita. No caso de Kathryn Mayorga, só ela e Ronaldo estiveram naquele quarto naquele momento. Só eles poderão saber o que se passou. Se o souberem: a memória prega partidas tramadas e ambos podem apresentar relatos distintos estando completamente certos do que dizem.

 

Cristiano Ronaldo, como qualquer outra pessoa, é inocente até ao momento em que um tribunal o declare culpado. Isto é do mais puro senso comum. A decência exige que o deixemos agora em paz, para preparar a sua defesa, judicial - perante a justiça, privada - perante os seus entes queridos, e pública - se assim o entender. Não merece que devassemos agora a sua vida e não merece que os media vão agora em busca de "provas" de inocência ou culpabilidade. Ronaldo sempre defendeu ferozmente a sua vida privada - não a devassemos sem razão. Há uma acusação, os media publicaram essa informação factual e a história que a sustenta, além de terem ouvido o lado de Ronaldo, como lhes compete.

 

Ronaldo, como escrevi, é inocente até ser julgado culpado. Só que isso não implica que Mayorga é culpada (de difamação/extorsão...) até ser julgada inocente. Merece exactamente o mesmo respeito da parte do público e dos media que Ronaldo. Não merece que se acredite piamente na sua história (que tem buracos, como seria normal em qualquer história com 9 anos, ainda mais se envolver eventos traumáticos reais) nem que seja acusada de mentir. Ronaldo não sairá incólume desta história, é certo. Ela também não. Mesmo que ela acabe a receber algum milhão de dólares de Ronaldo, ficará sempre com rótulos colados à sua testa. Ele o mesmo.

 

Nestas histórias há sempre vítimas. A minha série de posts quis apenas lembrar que algumas vítimas sâo-no antes, durante e depois de um processo de acusação/denúncia. Lembremo-nos disso quando, do conforto das nossas cadeiras nos tornarmos cruzados do São Facebook.

 

Posts: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8.

 

* - actualização: apaguei também os comentários de luckylucky pelas razões que lhe expliquei no passado. Nos meus posts ele não comenta nem para dizer bom dia.

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Após um momento #metoo (8)

por João André, em 12.10.18

«Conveniente que ninguém mais tenha visto, não é?»

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Após um momento #metoo (7)

por João André, em 11.10.18

«Ela só quer publicidade!»

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Após um momento #metoo (6)

por João André, em 10.10.18

«Será que foi assim tão sério? Parece-me que está a exagerar.»

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Após um momento #metoo (5)

por João André, em 09.10.18

«Ela sabe o que está a fazer à reputação dele?»

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Após um momento #metoo (4)

por João André, em 08.10.18

«Porque é que não foi logo dizer nada à polícia?»

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Após um momento #metoo (3)

por João André, em 07.10.18

«Ela quer é o dinheiro!»

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Após um momento #metoo (2)

por João André, em 06.10.18

«Que tinhas vestido?»

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Censuras

por João André, em 05.10.18

Há um anónimo que, num post meu mais abaixo, perguntou «Quando é que o Delito de Escumalha vai parar de censurar comentários anti-fascistas?».

 

Não o aceitei e foi removido. Esclareço:

1. Sou de esquerda e detesto o fascismo ou outros totalitarismos.

2. Sou a favor da liberdade de expressão.

3. Sou a favor de trocas de ideias de forma honesta, france, e educada.

4. Não retiro a liberdade de expressão a ninguém.

5. Mesmo que eu quisesse, não conseguiria retirar a liberdade de expressão a ninguém: não tenho poderes para tal.

6. Vejo o Delito de Opinião é uma casa, com cada pessoa responsável pela sua divisão.

7. Na minha divisão imponho eu as regras. Quais? Ver acima.

8. Quem não respeitar as regras da minha divisão não se expressa nela.

9. Quem quiser expressar-se de uma forma que eu não aceito, pode sempre fazê-lo noutras caixas de comentários (se os responsáveis o aceitarem), no seu próprio blogue, no Facebook, Twitter, etc, nas caixas de comentários de jornais, em artigos de jornais, em anúncios de jornal, com partidos políticos, em cima de uma caixa no Speakers' Corner, etc, etc, etc.

 

No post em questão aceitei comentários com os quais discordo de forma veemente, mas não os censurei porque não eram ofensivos. Considero os fascistas (não é o mesmo que dizer "a direita") essencialmente um nojo, mas igualmente o considero os "anti-fascistas" que julgam poder atropelar todas as regras de decência de uma sociedade normal.

 

Espero que esteja claro.

Após um momento #metoo (1)

por João André, em 05.10.18

«Ela não sabia ao que ia?»

 

Nota: a cada dia virá um...

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Química aplicada

por João André, em 03.10.18

Os prémios Nobel científicos estão atribuídos e aquele que me salta de imediato à vista é o da Química, atribuído a Frances Arnold, George Smith e Gregory Winter. O trabalho deles foi dedicado à evolução controlada (directed evolution) de enzimas no caso de Arnold, e de modificação genética de fagos (phages) no caso de Smith e Winter. Metade do prémio foi para Arnold, o que me parece da mais pura justiça quando se olha pra o enorme campo de aplicações que a tecnologia tem, embora a parte do trabalho de Smith e Winter, com aplicações na medicina, talvez acabe com mais atenção.

 

O trabalho de Arnold permitiu controlar a evolução de enzimas (proteínas especiais capazes de catalisar - isto é, acelerar, ou iniciar em condições adversas - reacções químicas) para gerar propriedades que de outra forma não seriam possíveis de encontrar. A forma como controlou a evolução foi com a introdução de mudanças genéticas aleatórias e posteriormente mantendo as enzimas cujas mutações genéticas levaram a propriedades úteis. Isto é comparável à analogia das slot machines onde é possível manter certas rodas em posições fixas (como quando se obtém cerejas, estas não mudam mais, até termos a sequência desejada).

 

No caso, o que Arnold fez foi, por exemplo, partir de uma enzima que pudesse catalizar uma reacção específica (de X com Y, por exemplo) e ir introduzindo mudanças interessantes. Podia então tornar a enzima estável em solventes orgânicos (as enzimas são habitualmente estáveis em água) e dando-lhe eficiência superior a temperaturas mais baixas. Assim seria possível eliminar o uso de catalisadores inorgânicos, frequentemente muito caros e ambientalmente adversos e catalizar a reacção a temperaturas mais baixas. A quantidade de aplicações desta tecnologia é infindável.

 

O trabalho de Smith e Winter teve duas partes. Os fagos são uma espécie de vírus para as bactérias, ou seja, invadem as bactérias e obrigam-nas a gastar os seus recursos a produzir cópias dos fagos, assim destruindo a bactéria e perpetuando o ciclo. O que Smith fez foi descobrir como mudar o material genético do fago para produzir determinadas proteínas à sua superfície. Isto permitiu usar os fagos para identificar qual a relação entre genes e proteínas cuja produção codificam (isto é, de certa forma descobriram quais eram os genes que tinham a "receita" para cada proteína). Isto é fundamental para a compreensão dos nossos "códigos genéticos".

 

Como estas proteínas são produzidas à superfície do fago, Winter levou-o um passo mais à frente e usou a tecnologia para produzir anticorpos específicos. Os anticorpos são como que detectores moleculares altamente específicos. Um anticorpo que encontre o seu "alvo" ligar-se-à ao mesmo e não o largará. Se os colocarmos na superfície de um corpo (seja uma célula, seja um nanotubo, por exemplo) o anticorpo capturará o seu alvo de forma controlada. São usados em cromatografia de afinidade para retirar componentes tóxicos específicos de líquidos (por exemplo na purificação de medicamentos na indústria farmacêutica).

 

O que Winter fez foi usar a tecnologia para colocar anticorpos específicos na superfície dos fagos para determinar quais os anticorpos que poderiam ser usados para fazer terapias específicas para tratar, por exemplo, doenças autoimunes ou cancros. Isto permitiu desenvolver medicamentos muito mais eficazes, porque muito mais específicos na forma como seleccionam os seus alvos. Na quimioterapia, o objectivo no passado foi o de introduzir venenos (é o que os medicamentos de quimioterapia são) para matar as células cancerosas esperando que estas morressem mais depressa que as saudáveis. É por isso que os pacientes sofrem imenso durante a terapia e é também por isso que algumas terapias não funcionam (o paciente aguenta menos o veneno que o cancro). A técnica de Winter permite reduzir o impacto ao tornar o veneno mais selectivo.

 

Há alturas em que o prémio Nobel da Química celebra descobertas fundamentais (no seu sentido mais... "fundamental"). As que hoje foram laureadas contemplam aplicações vastas e com enorme impacto no mundo. Como engenheiro químico, este é um prémio cuja atribuição facilmente subscrevo.

 

PS - quaisquer imprecisões ou erros na informação prestada acima são minha responsabilidade. Se detectarem imprecisões, ficarei agradecido caso mas indiquem para corrigir o texto.


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