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Les beaux esprits... e tal e coisa

por João André, em 18.05.18

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 Os meus amigos sportinguistas (especialmente aqui no blogue) que me perdoem, mas é-me difícil resistir.

 

Espero no entanto que as coisas se resolvam depressa e com o mínimo de prejuízo para o Sporting. Zero prejuízo é já impossível.

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Ferindo a democracia

por João André, em 09.05.18

Com a decisão de quebrar a parte dos EUA no acordo nuclear com o Irão, Trump causou diversas tensões com aliados e outros países. Não me vou pronunciar sobre os méritos da decisão em si: quem me lê sabe qual a minha posição e, além disso, não vem espantar ninguém quando era já uma promessa de campanha. A única surpresa é ter vinda só ao fim de quase ano e meio de mandato e não ter sido tomada à primeira oportunidade.

 

Aquilo que me tem parecido que falta ver é a forma como também esta decisão vem enfraquecer as democracias (não só a dos EUA). Quando um país assina um acordo ou um tratado deve manter-se fiel ao mesmo enquanto as partes o respeitarem. Isto foi o caso aqui. Quando um país, após a mudança de governo, decide rasgar um acordo que respeitou os seus instrumentos democráticos está a enviar a mensagem que a democracia não pode ser confiada, porque à menor mudança de governo os acordos deixarão de ter valor.

 

Esta decisão vem apenas dar munição a ditadores e outros líderes autoritários (a diferença é pequena mas ainda vai existindo) quando querem atacar as democracias liberdades. Vem dar a possibilidade de apontar o dedo aos EUA e dizer que lideranças estáveis (tradução: imutáveis) são melhores porque os parceiros e os cidadãos sabem que o rumo não mudará abruptamente a cada 4 anos.

 

Uma democracia moderna tem determinados mecanismos para garantir equilíbrio entre os seus diversos pilares, os quais têm a obrigação de garantir que os acordos são para respeitar enquanto país. Não o fazer acaba por ferir a democracia mais que qualquer aprendiz de feiticeiro que ganhe a presidência. Seria bom que os políticos nos EUA o percebessem antes que comecem a erodir o sistema que dizem defender.

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Publicidade à má fila

por João André, em 04.05.18

O meu blogue de desporto (OK, essencialmente futebol) reacordou da hibernação. A revisão dos jogos das meias-finais da Liga dos Campeões (1ª mão aqui, 2ª mão aqui) já lá está. Entretanto irei fazer a minha antevisão da final e mais tarde, se o tempo mo permitir, voltarei para o meu ritual de falhar completamente as expectativas do mundial.

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por João André, em 25.04.18

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Na Catalunha nem bons ventos nem bom senso

por João André, em 30.03.18

Há muito que penso que a "questão catalã" teria sido resolvida mais ou menos satisfatoriamente se tanto o governo de Rajoy como o anterior governo regional de Puigdemont tivessem tido juízo. Rajoy só teria que ter resolvido as questões do novo Estatut de forma a satisfazer o Tribunal Constitucional para o barulho se reduzir. Puigdemont, por seu lado, forçou uma questão com decisões para as quais não tinha o menor mandato. Até anunciar os resultados do dito cujo referendo, Puigdemont estava claramente a infringir a lei e qualquer lógica democrática liberal. Após ele e os seus correlegionários serem lançados aos calabouços, foi Rajoy (e Madrid) quem perdeu muita da sua força moral.

 

Neste momento não me pronuncio sobre a independência da Catalunha. É óbvio que não existem condições para a mesma. Nos melhores dias, os independentistas chegam no máximo a 50% e nunca me parece ter havido discussão sobre que tipo de sistema constitucional existiria no novo país. Seria simplesmente uma espécie de "República". Isto não chega.

 

Só que, sendo isto verdade, não faz qualquer sentido Madrid persistir na sua perseguição a Puigdemont e outros. É óbvio que não estão em risco de iniciar uma insurreição, nada na Catalunha nos dá essa impressão. Há tensão, mas ainda não vi uma única reportagem a dar a ideia de um barril de pólvora pronto a explodir. Os dirigentes independentistas infringiram a lei, mas o princípio da razoabilidade deveria dominar aqui: o procurador geral (ou equivalente em Espanha) deveria simplesmente pedir a liberdade condicional para os dirigentes enquanto esperam pelo julgamento. E, a não ser que de facto se dê como provada, num julgamento justo e imparcial, a conspiração para cometer actos verdadeiramente insidiosos (a vontade de independência ainda não o é), a máxima pena a que estes dirigentes deveriam ser condenados seria uma suspensão de cargos públicos por um determinado período.

 

Andar a lançar mandatos de captura internacionais só vem dar fogo à lenha dos independentistas, que aproveitam para insistir (com base na sua leve maioria no Parlamento Catalão) na escolha desses dirigentes para presidente da Generalitat. É uma insistência algo parva, mas estão no seu direito. Aquilo em que dará será novas eleições após Maio (se bem entendi, é esse o limite para a formação do governo), as quais poderão dar resultados que ninguém conseguirá prever.

 

Há muitas coisas que vão faltando no caso catalão: fúria independentista, repressão autoritária, e essencialmente bom senso, em Barcelona e Madrid. E, mais que Puigdemont e outros dirigentes, quem vai sofrendo com isto tudo são os catalães, independentistas ou não, que vêem a incerteza diária complicar-lhes a vida.

 

 

PS - no entanto isto não se compara nem de perto nem de longe à Turquia ou à Rússia como o Luís quer fazer passar. A comparação é tão disparatada que nem vale a pena falar no assunto. Comparar com Hungria ou Polónia ainda compreenderia, mas com dois autocratas que nunca irão ser votados para fora do cadeirão? Não gozem comigo.

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Pelo fim do dia anual da mulher

por João André, em 08.03.18

Desde que comecei a pensar no assunto que passei a não gostar do Dia Internacional da Mulher. Fazia sentido a sua celebração quando surgiu, mas não celebro aquilo que passou a representar: o dia em que os homens prestam atenção às mulheres como antigamente comprariam indulgências. Passou a ser então uma espécie de vávula de escape para a consciência. Não faz mal o comportamento machista ou misógino nos outros dias se se oferecerem flores (hoje em dia virtuais) no dia 8 de Março. Como li (ou ouvi) em tempos: por ano há um Dia Internacional da Mulher e 364 Dias Internacionais do Homem.

 

Não é uma questão apenas de como os homens se comportam (e não se pense que eu não me incluo neste grupo). Parte da responsabilidade é também das mulheres, que enchem os seus murais do Facebook, os seus feeds to Twitter ou os seus blogs com comentários de celebração do ser mulher, celebração das mulheres nos seus círculos (pessoais ou profissionais), e o orgulho de ser mulher. Não tenho nada contra isso, mas especialmente o primeiro e terceiro casos fazem-me confusão. Como celebrar ou ter orgulho em algo sobre o que não se tem influência. Seria o mesmo que dizer que se tem orgulho em ter dois pés ou uma boca. Há naturalmente circunstâncias em que isto muda (operações, acidentes) mas nenhum de nós pode influenciar o sexo com que nasceu.

 

Da mesma forma que não vale a pena celebrar o ser-se feminina. Uma mulher que se identifique como tal mas goste de crescer os pêlos, arrotar, vestir-se de calças e camisa de flanela, colocar uma tatuagem a dizer "Amor de Mãe", ver filmes de acção, beber cerveja, e, horror dos horrores, preferir mulheres, será menos digna de ser chamada "mulher"? Pode ser menos interessante do ponto de vista estético (e a estética muda com o tempo), mas não podemos reduzi-la a algo menos que Catherine Deneuve ou Natália Correia.

 

O Dia Internacional da Mulher é então o dia em que as mulheres são lembradas e acarinhadas por serem aquilo que sempre são. Deveríamos no entanto vê-lo como um dia em que reflectimos sobre o papel das mulheres, os seus direitos, aquilo que conquistaram (com ou sem ajuda) num mundo dominado por homens e aquilo que ainda falta conquistar. O papel de movimentos como os actuais #metoo ou #timesup é fundamental, mais que qualquer flor, virtual ou não, oferecida num único dia do ano. Não mudará o mundo só por si, mas lembra o mundo dos desafios que as mulheres e os homens (estamos neste mundo juntos) continuam a enfrentar.

 

Este dia 8 de Março de 2018 é então um belo dia para relembrar tudo o que foi exposto no último ano. Um colunista que eu leio (a propósito de outros temas) gosta d eescrever que a luz do sol é o melhor desinfectante. Se assim é, estes últimos 365 dias têm vindo a desinfectar muitos dos corredores infectos no mundo. E a limpeza, como aconteceu no passado, tem sido feita por mulheres.

 

E, assim, deixo o meu voto. Por para elas serem importantes, deixo às minhas mulheres os meus votos de um Feliz Dia Internacional da Mulher. E o meu desejo muito sincero que seja um dos últimos que se celebrem apenas de ano a ano.

 

#PressforProgress

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Do contrato entre realizadores e espectadores

por João André, em 06.03.18

O Diogo deixou aqui abaixo a opinião dele sobre o The Shape of Water. Não o vi, por isso o post não se refere ao filme em si,  mas achei particularmente interessante o comentário sobre o facto de aceitarmos incongruências por o filme ser sobre um monstro anfíbio com poderes curativos. O João Campos apontou a objecção dele a esta lógica nos comentários, mas gostaria de deixar umas linhas sobre um aspecto que vai sendo cada vez mais descurado em filmes modernos: as regras da suspensão de descrença (suspension of disbelief em inglês).

 

Um aspecto essencial de qualquer narrativa é a consistência da mesma. Isso significa que, independentemente do realismo dela, toda a narrativa tem que ser consistente em si mesma. Podemos aceitar um Super Homem que veio de Krypton e que tem poderes extraordinários à custa da exposição ao nosso Sol e a uma "menor gravidade", mas se de repente lhe adicionássemos os poderes de, digamos, o Homem Aranha devido a uma piucada de uma aranha radioactiva, isso seria difícil de engolir. Com James Bond podemos aceitar a figura de um cavalheiro com enorme perícia em combate (armado e desarmado), enorme charme e enormes conhecimentos em tudo o que é área, mas o que vai vendendo os filmes é o facto de sabermos que está sempre perto de morrer (mesmo quando sabemos que escapará). Se de repente passasse a ser quase invulnerável e não tivesse qualquer dificuldade, então o interesse reduzir-se-ia rapidamente.

 

Há uma cena no filme Rambo III que me deixou sempre perto das lágrimas de riso. Rambo está no campo soviético e, ao disparar a metralhadora ao nível do rés do chão num ângulo de talvez 90º, acaba por matar soldados num ânmgulo de 180º no rés do chão e na varanda do 1º andar. Aceitamos que Rambo é capaz de ser o melhor combatente no mundo - é esse o "contrato" que o espectador tem com os autores do filme - mas ainda assim ele tem que respeitar as leis da física. Por muito que possamos aceitar que todo um campo inimigo não é capaz de lhe acertar, ele tem que pelo menos apontar na direcção dos inimigos para os poder atingir. É essa a diferença entre Rambo III e Commando, com Schwarzenegger em modo de Exterminador Implacável aind amais eficaz que o ciborgue desses filmes.

 

É por isso que o caso apontado pelo Diogo, de uma mulher de limpeza ter acesso a um laboratório secreto, pode parecer uma quebra deste contrato. Os responsáveis pela limpeza de laboratórios podem entrar neles, mas habitualmente os objectos de investigação não estão disponíveis.

 

Ainda assim muito depende de como a situação seja filmada e resolvida. Não tendo visto o filme não me pronuncio sobre esse caso específico, mas concordo com o João Campos: mesmo que entremos no domínio do impossível, há sempre regras a ser respeitadas no cinema. Sob pena de a magia ser quebrada.

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Plástico: descartável?

por João André, em 05.03.18

Ja andava há uns tempos para escrever sobre a questão dos plásticos. Há já muito que vejo no Facebook e LinkedIn os posts e comentários e partilhas dedicados à catástrofe que é o plástico. A razão sobre querer escrever sobre o assunto é o facto de se dizer e escrever muita coisa que me parecia excessivamente alarmista e se apresentarem soluções que não fariam muito sentido. O trabalho recente da Economist sobre o assunto, bem como o pensamento da semana da Joana, fizeram-me finalmente decidir a colocar umas palavras sobre a questão.

 

Antes de mais o principal ponto a retirar sobre a questão do plástico (da qual o uso de sacos é apenas um dos aspectos): o impacto real do uso de plásticos nos nossos ecossistemas não é suficientemente claro. Sabemos que há impactos. Alguns deles abaixo:

- resíduos de plásticos entopem escoamento de águas causando inundações ou zonas de água estagnada (que se tornam em vectores de doenças);

- plásticos em aterros mal geridos levam a infiltração de compostos químicos nocivos no solo e em lençóis subterrâneos;

- plásticos que são colocados nos esgotos levam aos entupimentos das canalizações (o famoso fatberg de Londres foi causado também por plásticos) e, se tratados, podem levar à libertação de compostos químicos com efeitos nocivos na nossa fisiologia (por exemplo o Bisfenol A) directamente nos nossos cursos de água;

- as "ilhas" artificiais de plástico que flutuam nos nossos oceanos vão sendo quebradas aos poucos através da acção do sol e sal e causam a libertação de microplásticos que acabam por entrar na cadeia alimentar de seres marinhos.

 

Outros impactos existem, mas a questão essencial é o facto de não sabermos muito bem qual o efeito real. O grande problema que vemos no plástico é o facto de ser, bem, visível. Montes de plástico em praias ou nos oceanos são fáceis de ver. Já uma descarga de químicos, a qual pode ser muito mais problemática para o ambiente, pode ser invisível (o efluente pode parecer simplesmente água) a não ser que cause uma zona eutrófica, a qual é normalmente muito visível e causa efeitos imediatos.

 

No entanto o plástico é, pelo menos segundo a Economist, um problema essencialmente em países em desenvolvimento. Nos países desenvolvidos há todo um sistema de gestão dos resíduos que captura e trata os resíduos plásticos. Seja por reutilização, aterro, reciclagem, incineração, compostagem ou outros. Já quando falamos do Bangladesh e da Nigéria, o problema torna-se mais notório por não existir um sistema claro de remoção do plástico da sociedade (este é um problema que sublinha claramente um dos papéis fundamentais do estado e explica porque é que as maluqueiras libertárias não passam de parvoíces).

 

Claro, isto não quer dizer que o problema não possa existir em países desenvolvidos, mas quando olhamos para a pegada ecológica de cada solução. A Economist reporta que um saco de algodão teria que ser reutilizado 131 vezes para ter a mesma pegada ecológica que um saco de plástico de uso único. O valor passaria para 173 vezes caso o saco seja reutilizado como saco do lixo. Suponho que bastaria reutilizar o saco de plástico 3 vezes para as compras (os meus cá em casa são reutilizados mais vezes que isso) para passar para o triplo. Imagine-se: 393 vezes a fazer compras, a duas vezes por semana, daria que o saco de algodão teria quer ser mantido mais de 3 anos e meio para ter a mesma pegada que um saco de plástico.

 

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Porque razão acontece isto? Essencialmente porque os plásticos são quase um produto secundário do processamento do petróleo e gás natural. Cerca de 4% do petróleo que é processado acaba a ser utilizado em plásticos. É normalmente a fracção de C5-C9 (moléculas com de 5 a 9 átomos de carbono) que é recuperada do processo de destilação do crude que acaba por ser utilizada (após outros processos químicos) como monómeros (ou moléculas base) para a produção de polímeros (alguns dos quais são plásticos). Dado que a maior parte do petróleo seria utilizada na mesma como combustível ou para outros fins, o resultado é que a principal pegada ecológica já foi feita com a extracção e processamento da matéria prima.

 

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Isto significa que a solução, pelo menos no horizonte visível (várias décadas) não será banir o plástico do nosso dia a dia, mas procurar soluções, muitas delas já testadas e disponíveis, para mitigar o problema que exista a jusante do seu uso. Uma das soluções de que se fala muito é o uso de plásticos biodegradáveis, mas há aqui uma confusão. por biodegradável entendemos um material que possa ser degradado a um ritmo relativamente elevado (digamos, cerca de 3 a 6 meses) por agentes biológicos (bactérias, fungos, outros microorganismos). O problema é que a maioria dos plásticos não são facilmente biodegradáveis. São compostáveis, mas idealmente em condições industriais, isto é, num meio relativamente húmido, arejado (a presença de oxigénio é fundamental) e com temperaturas relativamente elevadas. Temos então as seguintes distinções nesta área:

- plásticos biodegradáveis, habitualmente o poli-ácido láctico (PLA). Apenas o são em condições de temperatura e humidade específicas e idealmente na presença de sol (ou radiação ultravioleta) e oxigénio. Se estes plásticos vão parar a aterros podem causar ainda mais problemas, dado que os aterros são construídos para evitar exposição a sol e oxigénio e acabariam a causar a degradação, muito lenta, destes plásticos em metano, um gás com muito maior efeito estufa que o CO2. Além disso, o PLA é produzido habitualmente a partir do milho (açúcares são extraídos do milho e processados para levar à produção do PLA). É um processo sustentável mas o milho necessário acaba por utilizar área arável à produção de alimentos.

- plásticos compostáveis, normalmente produzidos através da incorporação de pequenos aditivos em plásticos tradicionais (embora o PLA também posse ser considerado compostável). As condições ideais de compostagem são as industriais, com humidade, oxigénio e temperaturas (de 50 a 70 °C). Se a compostagem for em casa os tempos podem ser muito mais longos e em alguns casos nem sequer é aconselhável.

 

Outras soluções passam pela reutilização simples dos resíduos plásticos. Há projectos de inserção do plástico em estradas, na construção de embalagens (garrafas de plástico e caixas para transporte das mesmas, por exemplo), na construção de edifícios, etc. Estes projectos não necessitam que o plástico seja reciclável, dado que não é necessário que possuam características específicas para tal, bastando as habituais à maioria dos polímeros termoplásticos.

 

E, por fim, temos a questão da reciclagem. Os grandes desafios neste aspecto são a necessiade de recolher o plástico, separá-lo entre reciclável e não reciclável, e processá-lo a valores baixos (uma vez que os plásticos são produtos secundários do petróleo, qualquer baixa no preço deste torna a reciclagem cara). Nos países desenvolvidos a integração de processos de recolha e separação do plástico está já bastante desenvolvida. Já o preço, apesar de continuar a ser um problema, não o é excessivamente, sendo que muitas das dificuldades advêm de a maioria das empresas que se especializam nesta área serem relativamente pequenas e terem dificuldades em capturar economias de escala.

 

Sobra, por fim, o aterro (de que não gosto, mas sinceramente não sei qual a alternativa) e a incineração (que pode ser optimizada - com custos - para limitar a libertação de gases com efeitos estufa ou compostos nocivos).

 

Então onde ficamos com as embalagens alternativas? Não são de descartar, por assim dizer (lamento, não resisti). Enquanto extrairmos o petróleo e não tivermos soluções alternativas para todos os materiais que ele nos permite criar, continuaremos a ter o plástico nas nossas vidas. É sempre possível reutilizar sacos de algodão, preferir garrafas de vidro ou latas de alumínio (o alumínio é reciclável quase ad aeternum), ir por embalagens de papel. Não esqueçamos contudo que qualquer um destes materiais tem os seus custos específicos e que a energia para os produzir não é insignificante. O vidro exige temperaturas elevadas para fundir os silicatos, o alumínio necessita de ser extraído e purificado, o papel necessita que abatamos árvores e as processemos em pasta. Todos são recicláveis, mas o vidro continua a necessitar de temperaturas elevadas (o alumínio penso que um pouco menos), o papel pode apenas ser reciclado algumas vezes até deixar de ter propriedades úteis. E se estes materiais não forem recolhidos devidamente podem acabar também no mar e perturbar os ecossistemas).

 

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A conclusão é a habitual para qualquer cientista (ou engenheiro): não há uma solução global e completa e necessitamos de mais informação para compreender aquilo que vemos. Mais ainda, a principal solução é logística e social, sendo necessário que os países mais responsáveis pela poluição plástica (por não terem sistemas de recolha do mesmo, não tanto pelo seu uso) criem uma infraestrutura de suporte ao uso do mesmo. Até lá bem podemos começar a evitar o plástico (nada tenho contra isso), mas o plástico continuará a não ser verdadeiramente descartável das nossas vidas.

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Memórias subjectivas (4)

por João André, em 26.02.18

A escola

Quando era assim para o pequenininho, a escola só começava lá para os 5-7 anos quando se entrava na primária. Existia já a figura do jardim-escola e da pré-escola, mas eram apenas "o jardim" e "a pré" e ninguém levava aquilo a sério porque não havia trabalhos de casa, faltas, castigos, reguadas, contas e o máximo que se fazia eram umas ondinhas esquisitas que serviam de preparação para aprender os ús e os émes.

 

Claro que é difícil recuar muito tempo sem que a memória comece a falhar ou a pregar partidas. Por isso mesmo eu levanto dúvidas sobre aquela repetição constante dos desenhos de barcos e casas, sempre os mesmos e que talvez possam ter sido feitos uma única vez e eu os recorde ad eternum simplesmente porque o cérebro gosta de nos pregar partidas. Se a nossa biografia é como a lembramos, os episódios de criança devem mais às memórias filiais tingidas pela ternura. Mesmo invocando o meu Trump pessoal, é difícil crer que tenha sido a criança mais precoce, educada, simpática e divertida do mundo, como a família mais velha faz parecer.

 

Avancemos antes no tempo até à primária, a qual fiz em duas escolas, a primeira longe de casa porque os meus pais estavam sempre em viagem e passava os dias com a minha tia e avó. Nesses tempos tive o meu primeiro ataque de pânico ao seguir num autocarro de casa para a terreola para ir à escola já na segunda-feira e um pneu furado me fez chegar com enorme atraso. O medo - completamente infundado - do castigo pelo atraso manteve-se para sempre comigo e ainda hoje o tenho quando me atraso para ir trabalhar (mesmo sem reuniões).

 

A primeira classe é mal recordada. Mesmo muito mal. As seguintes provavelmente também o serão, mas têm a vantagem de terem sido todas na mesma escola e com a mesma professora e assim ser possível empacotá-las e fazê-las parecer mais completas. Recordo que a professora era invariavelmente justa mas já bastante dura para a época, com puxões de orelhas, chapadas e reguadas ainda a serem administradas sempre que os resultados não correspondiam ao desejado. Ainda hoje recordo ter recebido todo o cardápio quando - de forma pouco característica - fui o único incapaz de resolver um problema de divisão. É hoje inconcebível imaginar que tempos houve em que as professoras podiam de facto castigar assim os alunos e ainda bem que assim é.

 

Até por volta do 6º ou 7º ano a minha vida era relativamente simples, mesmo nos ambientes frequentemente cruéis das escolas. As escolas que frequentei nessa altura tinham bastantes alunos de meios sociais mais degradados (dos chamados "bairros sociais", designação que não sei se ainda subsistirá) e tinham notas bastante fracas, sendo a reprovação de ano (o chumbo) muito frequente. Apesar de isso ser receita para um aluno razoavelmente bom e pequeno sofrer, a verdade é que eu ajudava bastante os meus colegas com trabalhos de casa e nos testes e eles, em retribuição, mantinham-me protegido. Era algo que eu nem notava, mas ainda hoje estou imensamente agradecido a todos esses colegas que ajudaram a que o meu período do ciclo fosse algo mais suportável.

 

O meu ano de glória foi indubitavalmente o 6º (ou o "segundo ano do ciclo" como era conhecido na altura). Não só me ofereceu as melhores notas da minha carreira escolar (até com 4 a trabalhos manuais e educação física, casos únicos na minha vida) como me permitiu a distinção como um jogador de futebol de escola com talentos reconhecíveis. Como caí numa turma de apenas 9 rapazes, dos quais seis eram múltiplos repetentes e dois dos outros não gostavam de futebol, acabava por ter a possibilidade de jogar com frequência nas peladinhas inter-turmas. Sendo o mais pequeno, acabava por ser invariavelmente enviado para a defesa (tínhamos dois bons guarda-redes, para meu alívio) na qual eu até me dava bem. Não só não tinha muito que fazer (os nossos matulões de 3 a 5 anos mais velhos que eu dominavam o jogo e pouco sobrava para mim) como quando algum atacante me aparecia à frente eu executava a minha famosa manobra defensiva: "chuta a bola e se falhares a bola acertas na canela". Noutras circunstâncias eu seria sumariamente espancado com tais tácticas, mas quando tinha anjos da guarda que me pareciam um cruzamento entre Kareem Abdul-Jabar e Mike Tyson, a vontade de me castigarem rapidamente desaparecia dos elementos ofendidos.

 

(Neste aspecto devo deixar um pequeno parêntesis para o grande jogo desse ano: o encontro 2ºP (nós) contra 7ºA (os outros). Ao longo de várias semanas que havia a discussão sobre qual seria a melhor equipa da escola. A oportunidade de dissipar dúvidas ia sendo adiada, porque nós éramos das turmas da tarde e eles das turmas da manhã. Contudo, um dia lá se organizou o jogo. Tudo preparado. Nós e eles com os melhores jogadores disponíveis (o nosso guarda-redes tinha febre mas não podia faltar). O campo atrás do pavilhão estava ladeado por um grupo de espectadores que ainda hoje não deve ter sido repetido naquele sagrado terreno. O resultado é que não foi de acordo com o esperado. O 7ºA abriu o jogo com um golo pelo avançado deles, um cruzamento entre touro, cavalo e locomotiva, sem requintes técnicos mas que, lançado, só seria parado por um helicóptero Apache. Era o aviso e fiquei preocupado: se não conseguia acertar no bicho, como o parar? Não houve problema. A verdade é que não voltei a ver a bola. Vencemos por 7-1 (apesar de um golo deles após o final, quando o nosso guarda-redes já tinha saído da baliza) e a humilhação ainda deve ser suficiente para aqueles indivíduos esconderem a cara quando passam em vista da escola.)

 

A minha coroa de glória académica nesse 2º ano do ciclo foi um teste de história, disciplina para a qual tinha apetência e onde as notas acima de 90% eram não só frequentes como corriqueiras. Na véspera de um teste alguém surgiu no final de uma aula com o enunciado do teste da outra turma, a que tinha os testes sempre depois de nós e que eram sempre iguais. Por uma vez éramos nós a poder saber o teste com antecipação: um dia inteiro!! Toda a gente copiou o enunciado (nessas alturas, inexplicavelmente, os nossos telefones não tinham o CamScanner nem tiravam fotografias nem eram, imagine-se, portáteis) menos eu. Não sei ainda hoje explicar porquê. Seria por uma mistura de medo, vergonha, ética e confiança, talvez. Sei que não o fiz. No dia seguinte, com um enunciado que, inevitavelmente, não era igual ao que tinha sido profusamente copiado, toda a gente caiu por terra. Em toda a turma houve duas notas acima dos 50%. A de um colega que teve talvez 51% ou 52% (pelo menos imagino o caso assim) e a minha, também inevitavelmente, com 99% (não sei onde terei colocado mal a vírgula). Desde esse momento que fui visto como uma espécie de feiticeiro, epsecialmente  história, que era capaz de prodígios intensos. Depois veio o 7º ano.

 

A partir do 7º ano, habituado à excelência fácil das minhas notas, caí numa mediania profunda da qual só fui resgatado já no 11º ano por uma fúria contra um colega que gostava de gozar com quem tinha notas piores (quase todos). No desejo de lhe mostrar quem era acabei por melhorar as minhas notas a ponto de conseguir entrar na universidade. Hoje, à distância destes anos, posso também agrader-lhe pela parvoíce. O facto de o ter enfrentado em pleno balneário conferiu-me um certo prestígio extra que nada mal fez à minha imagem na escola (aos 15-16 anos isto contava).

 

A escola em Leiria tinha certos aspectos interessantes. Um deles era a enorme quantidade de góticos que continha. Em Coimbra descobri que a tendência andava pelo punkrockabilly mas Leiria, em respeito pelo castelo, preferia os tons mais escuros. Talvez por isso seja hoje em dia o palco do festival EntreMuralhas (sim, um dos organizadores é um amigo, mas não desses tempos). Era uma cidade já orgulhosamente freak mas infelizmente sem prestígio por isso em tempos sem internet, Twitter, Facebook ou outros instrumentos que realçam o carácter da cidade. Características fundamentais dos góticos, nessa altura ainda em versão soft, era o uso de roupas escuras - claro! - botas Doc Martens com biqueira de aço (nada de imitações) para os pontapés nas sessões de mosh, ar taciturno, mãos permanentemente nos bolsos e postura liieramente dobrada. O curioso é que estes góticos, vistos como servos do diabo por qualquer senhora com mais de 50 anos da zona velha da cidade (onde estavam os bares), eram dos mais bem comportados da escola. Poucos fumavam, quando bebiam não abusavam e eram frequentemente bons alunos. Não fosse aquela roupa velha inspirada por Belzebu e até seriam bons moços, diria a Sra. Adosinda da Rua Direita (sei hoje que se chama Rua Barão Viamonte).

 

A escola onde andei no liceu era a Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo. A outra localizada também na cidade era a Escola Secundária Domingos Sequeira e uma outra, algo fora, era a Escola Afonso Lopes Vieira. E eram inevitavelmente conhecidas como o Liceu, Escola Comercial e Escola da Gândara, respectivamente (se os alunos não recordavam os nomes dos escritores que tinham que aprender nas salas de aula como recordariam os nomes das escolas onde andavam?). Como era lógico, os alunos do Liceu não se davam com os da Escola Comercial. Nem pensar nisso. Como poderíamos falar com eles? Pior que isso só darmo-nos com os da Escola da Gândara. Que ralé!! Ainda hoje me é um mistério a razão desta separação, mesmo (ou especialmente) depois de já na universidade ter namorado brevemente com uma antiga aluna da Escola Comercial, mas tenho a certeza que as razões eram boas. Ainda hoje olho de soslaio pra a Escola Comercial, cujo único aspecto bom era ter espaço para estacionar quando saía ao fim de semana uns anos mais tarde.

 

Um dos grandes mistérios que ainda hoje me assombra é o efeito do 8º ano. Toda a gente falava de o 8º ano ser o ano mais difícil, onde muitos alunos reprovavam. Ainda não sei porquê. Teria um grau de dificuldade mais elevado, isso seria lógico para todos os anos, mas dificilmente seria como uma entrada na universidade. Ainda assim, com ou sem mistério, a verdade é que sofri nesse ano o meu momento de maior tremideira: passei com dsuas "negativas" (a Francês e a Físico-Química - ironia para um engenheiro químico). Também experimentei um momento que acabou por ser determinante na minha vida: ao ver uma pequena exposição dos alunos de Quimicotecnia (opção que existia apenas naquela escola), gostei o suficiente para a querer adicionar como segunda opção quando seguindo para o 9º ano. Acabei nela e, como se costuma dizer, o resto é (má) história.

 

O Liceu tinha obviamente muitos recantos. Havia a zona de baixo, onde havia apenas duas salas que só eram usadas no verão (creio que por serem menos quentes, embora eu não o notasse muito). Havia o ginásio e balneários, zona onde tínhamos que nos vestir a tal velocidade (as toalhas molhadas podem ser chicoteadas a velocidades de Mach 5) que recrutas do exército seriam vistos como lesmas. Havia também a mitológica sala da associação de estudantes, cuja maior virtude era poder ser trancada com uma chave que os alunos da mesma possuíam e que lhes permitia passar os intervalos a fumar. No entanto o espaço mais selvagem, com uma fauna que teria deslumbrado David Attenbourough, era o pátio. Chamar pátio a uma espaço coberto, em forma de galeria, e aberto para os campos e basquetebol, era talvez um exagero, mas era esse o nome e o espaço era sagrado. Havia delimitações claras que hoje não recordo mas que obedeciam a regras muito estritas. Os fumadores ficavam mais para os lados da parede, para nãos erem vistos pelos professores. Os punks ficavam mais longe da porta de entrada, a conversar encostados aos pilares. A miúdas ficavam a conversar e a ver a Bravo (ali ninguém saberia ler alemão e não era pela literatura que queriam a revista) sentadas no degrau que separava o pátio do campo. Os trestantes andavam por ali, em classes sociais completamente estratificadas e bem delimitadas. Não seria boa ideia a ninguém ingressar nos espaços de classes acima sob pena de levar o tratamento "croquete" (ser molhado e depois rebolado na caixa de areia). Já se alguém decidisse passar pelas classes mais baixas, era de bom tom fazê-lo com encontrões e um par de calduços. Até ficaríamos desapontados se isso não acontecesse.

 

Suponho que ainda hoje assim seja: a estratificação das classes entre alunos do secundário é tão normalizada e estrita que seria mais fácil a um intocável casar com um brâmane do que a um aluno do 8º ano ir pedir um cigarro a um do 11º. Note-se que os do 12º ano eram outro caso. Eram já adultos e não se incomodavam com os mais novos. Até adoptavam alguns, em substituição de cães. Estas delimitações eram no entanto flexíveis quando se transpunham os portões da escola, para fora, para o mundo real. Aí a possibilidade de interacção era real, embora sempre contida. Era-me então possível falar directamente com alguma rapariga gira e popular (sim, pleonasmo) sem receio de humilhação (mesmo pedir-lhe as horas em plena escola era arriscado). Os mais novos atreviam-se a pedir lume aos mais velhos e até havia quem bebesse uma cerveja em conjunto ao sábado em pleno Terreiro. Ainda hoje não entendo como era possível compreender estas regras todas e não ser possível tirar mais que um 12 num simples teste de matemática do 10º ano.

 

Claro que tudo isto tinha que terminar. Findo o 12º ano, veio a entrada para a faculdade. No último dia faziam-se as festas, assinavam-se os anuários uns dos outros sem preocupação com classes (era um sucesso conseguir um simples gatafunho do brutamontes que passava o ano a bater-nos n cabeça quando nos via) ou sem consideração para com qualquer familiariedade (metade das assinaturas devem ser de pessoas que eu conhecia no máximo de vista). Era também o momento em que alguns dos professores desciam ao pátio e conversavam connosco, nos perguntavam o que iríamos fazer e quais os nossos sonhos. O momento em que a escola, toda e completmente, se reunia num grupo sem separações, em amizade e numa antecipada saudade.

 

Se todo o ano tivesse sido assim, talvez esse período da minha vida fosse menos conturbado. Contudo, seria menos recordado. E, em todo o caso, éramos adoslescentes. Estar conturbados era a única coisa que todos sabíamos sem ser ensinados. Com, ou sem escola.

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Pensamento da semana

por João André, em 18.02.18

Um mundo completamente ligado electronicamente permite-nos partilhar a nossa vida. Mostramos viagens, sorrisos, festas, roupas, carros, concertos, sucessos profissionais. Fazemos likes aos outros na esperança que façam o mesmo a nós e invejamos. Invejamos o sucesso, o dinheiro, os parceiros, os amigos, a disponibilidade, os corpos, os brinquedos, a família. Invejamos a vida.

 

A vida toda? Não. Apenas metade dela. A outra, a que não vemos e que nos ajuda a crescer para podermos, saibamos aprender e tenhamos sorte, ter aquela que mostramos aos outros. Pena então que a vida que mostramos não seja aquela que melhor serviria os outros. Que tragédia tão electrónica. Que tragédia tão humana.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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A Cidade do Cabo seca

por João André, em 07.02.18

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Imagem da albufeira da barragem de Theewaterskloof (zona da Cidade do Cabo) a 27 de Novembro de 2017.

google street view theewaterskloof 2010.JPG

 Imagem aproximadamente do mesmo ponto em Março de 2010 (imagem Google Maps).

 

No final de Novembro do ano passado estive na África do Sul em trabalho. O propósito da minha visita era avaliar o problema da seca em algumas das localizações da empresa no país. O caso mais premente era (e é-o cada vez mais) o da Cidade do Cabo.

 

Ao aterrar, fomos logo informados pela tripulação que a região estava a passar por um período de seca e que deveríamos tentar poupar tanto quanto possível de água. O aeroporto estava cheio de avisos sobre o problema da seca e até os placards electrónicos na auto-estrada nos lembravam do problema. Os avisos repetiam-se um pouco por todo o lado. O hotel estava cheio desses avisos, a carta de boas-vindas do hotel lembrava-o, o restaurante onde jantei servia água engarrafada para evitar consumo local.

 

Na fábrica falavam já do dia zero, o dia em que deixará de haver abastecimento doméstico de água e toda a gente terá de recolher a sua dose diária em pontos específicos espalhados pela cidade. Neste momento o dia zero está planeado para 11 de Maio, mas poderá ser antecipado (quando lá estive falavam do início de Julho). Nessa altura toda a gente terá à sua disposição apenas 25 litros de água por pessoa. Se isso parece muito, considere-se que essa água é necessária para beber, tratar da higiene pessoal, cozinhar, limpar casa, roupa, etc. Além disso, para ter essa água será necessário passar provavelmente longos períodos em filas à espera de vez.

 

Isto sucede porque o nível das barragens que abastecem a Cidade do Cabo está a níveis baixíssimos. A maior barragem da região, de Theewaterskloof e que tem capacidade para mais de metade da água contida em barragens na zona, está neste momento a 12,3% da sua capacidade. A partir do momento em que chegue a 10%, poder-se-à considerar como seca, uma vez que é muito difícil extrair a água. Isso significa que a estimativa de 11 de Maio, que é baseada na tendência geral do total das barragens, poderá ser antecipada. Isto porque a partir do momento em que Theewaterskloof chegue aos 10%, a sua capacidade poderá ser corrigida para zero.

 

Quem quiser ver os valores actuais pode vir a esta página para se informar dos valores actuais. Se lerem o relatório diário com o nível de cada barragem, tenham em consideração que as barragens de Steebras Lower e Steenbras Upper são essencialmente reservatórios com capacidade reduzida para onde flui a água que chega dos recursos a montante.

 

Quando vi a barragem de Theewaterskloof fiquei, confesso, chocado. Sabia que iria ver volumes baixos, mas não imaginava o cenário de desolação. Quando preparei o meu relatório da visita coloquei imagens retiradas do Google Street View em 2010 para contrastar com as fotografias que fiz na altura (ambas as fotografias encimam este post). O contraste é brutal, até porque em Março os níveis históricos das barragens da região são mais baixos que em Novembro. Outra coisa que me chocou foram as nuvens de poeira em determinadas áreas, especialmente a forma como eram empurradas pelo vento para povoações nas imediações da barragem.

 

O objectivo da minha visita, além de avaliar a situação, era a de procurar soluções para tratar o efluente da fábrica de forma a produzir água potável que pudesse ser utilizada internamente e fornecida à população da cidade. Aquilo que me voltou a chocar foi o facto de a cidade não fazer o mesmo: o efluente municipal, depois de tratado, estava a ser despejado no mar. A água residual da população era tratada como um recurso não renovável.

 

O que me parece claro é que a situação na região do Cabo Ocidental está a ser essencialmente a de funcionar como o canário na mina de carvão em relação ao impacto das alterações climáticas na disponibilidade de água. Esta é uma situação de seca que será mitigada no futuro, quando as chuvas voltarem, mas tal como na Austrália na "Seca do Milénio", as condições não voltaram a ser as mesmas. O mundo tem que continuar a procurar soluções para mitigar o efeito das alterações climáticas, mas é necessário criar soluções técnicas para os desafios imediatos. A Cidade do Cabo está a começar a acordar para eles. Em Portugal pergunto-me quando isso será feito.

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A acusação para censurar

por João André, em 19.01.18

O Pedro dedicou dois posts para acusar os movimentos #metoo e Time's Up de censura. Tenho a certeza que a única coisa que o Pedro está a pensar é que estes movimentos têm que controlar a sanha acusatória e está a procurar colocar água na fervura. Está no entanto a fazê-lo de forma errada.

 

A verdade é que me estou nas tintas para as acusações a Woody Allen. Ele já as sofre há décadas (e com boas razões) e nunca teve reais problemas. Também me estou nas tintas para as acusações às outras figuras do entretenimento. Estas surgem precisamente porque os seus alvos são pessoas que têm uma imagem a defender e, como tal, estão mais expostas e não podem reagir de forma tão agressiva como alguns outros.

 

Quantas acusações ficam por fazer? Quantas mulheres espalhadas por todo o tipo de indústrias não falam do que sofrem por medo? Ou quantas são ameaçadas, chantageadas, ignoradas e - sim!, digamo-lo - censuradas por terem acusado alguém? O The Guardian reportou uma cultura de abusos na ONU e subsequente cultura de encobrimento. Quantos outros locais não são iguais? Quantas mulheres foram abusadas por Weinstein ao longo dos anos porque estas acusações não surhiram mais cedo?

 

A verdade é que se este movimento cometará exageros (qual o movimento que não o faz?, pergunto eu mais uma vez) também estará a ajudar as mulheres a finalmente falar das suas situações com menos medo ou, pelo menos, sabendo que têm outras mulheres que as compreendem, que sofreram o mesmo.

 

Acusar este movimento de censura, quando ainda não tem um ano de existência, quando veio a público de forma mais clara ainda não há um mês, não serve para mais que querer empurrar as mulheres para o buraco onde estiveram enfiadas e dizer-lhes «fica mas é quietinha e tem respeito pela mão que te dá de comer!». Na verdade, mesmo sem essa intenção, acusar o movimento de censura nada mais fará que o censurar. São tácticas trumpianas.

 

Querem que estas mulheres saiam do buraco? Deixem-nas falar. Deixem-nas acusar. Quando as acusações não tiverem fundamento, deixem que isso seja apurado de forma correcta. Quererem que elas se calem é voltar a oprimi-les. Quantas mais mulheres falarem, mais facilmente os casos graves se compreenderão.

 

Até lá, não notei que Allen, Franco ou Ansari tenham perdido contratos. Já as mulheres que os acusaram possivelmente estão hoje a ser riscadas de listas. Não admira que algumas escolham o anonimato*.

 

* - ela não é anónima. Está perfeitamente identificada para o/a jornalista que a entrevistou. Não dar o nome publicamente numa entrevista não é anonimato. Como o Pedro bem o deveria saber.

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#metoo - um pequeno preço a pagar (2)

por João André, em 14.01.18

O Pedro Correia seleccionou dois textos nesta temática como comentários da semana. Compreendo-o, houve depois do meu mais alguns posts muito relevantes sobre o assunto aqui no blogue. Noto que os dois textos são ambos escritos por homens e vão na mesma direcção: "coitados de nós que agora passámos a ser perseguidos e já não podemos dizer nada que somos logo perseguidos".

 

Claro, cada um tem a sua opinião, mas ninguém tem direito aos seus factos. Se há casos de mulheres que exageram nas acusações e na pose incendiária e desejo de justiça/vingança, também é certo que a esmagadora maioria dos casos de acusações constituem, no mínimo, comportamento impróprios. Não se trata na maioria dos casos de mulheres a queixar-se de abordagens sexuais, mas da forma como essas abordagens foram feitas.

 

Como escrevi, haverá quem se queixe e terá razões para isso, mas aquilo que deveremos ter que fazer será recalibrar as nossas atitudes para aceitar que o objecto do nosso desejo pode não considerar os nossos avanços tão inofensivos quanto isso. Se os homens não compreendem a necessidade de aceitar este simples facto, então o "preço a pagar" é ainda mais que ajustado.

 

Esta história parece-me simplesmente mais um episódio nas mudanças sociais que elegeram Trump: uma categoria/classe de cidadãos (neste caso, homens) perdem parte do seu poder. E reagem contra isso. Os comentários que o Pedro seleccionou, relevantes como a maioria dos que surgiram ao longo desta semana, fazem parte dessa lógica. A da falácia do espantalho. Nisto, estou com a Teresa.

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#metoo - um pequeno preço a pagar

por João André, em 10.01.18

Uma das consequências do movimento #metoo and #balancetonporc é o sentimento de medo que se tem instalado entre a população masculina. Em parte isto tem-se reflectido essencialmente em figuras públicas, mas de tempos a tempos ouvimos falar de situações em empresas ou comentários genéricos sobre investigações acerca de abusos sistemáticos. Agora surge uma carta aberta de um colectivo de 100 mulheres no Le Monde que defende a «liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual».

 

Esta carta sugere aquilo que deveria ser óbvio: num mundo de maturidade, de decência, e de igualdade, a liberdade de importunar uma mulher (ou um homem) por um homem (ou outra mulher) numa tentativa de flirt, de sedução, deveria ser incontestável. Ninguém se deveria incomodar com comentários que insinuem intenções sexuais, nem com contactos físicos decentes (toques na mão, contacto de joelho com joelho, mãos discretamente nos ombros, etc, dependendo de cada um/a). Da mesma forma que a pesosa em causa deveria ter completa liberdade de rejeitar o interesse e ficar em paz e sossego. A insistência deveria ser permitida, bem como a reiteração, de forma mais insistente, da rejeição. Estas são regras, que não devem necessitar de ser escritas, que permitem a coabitação numa sociedade normal.

 

O que vemos no entanto é que os homens começam a sentir-se ameaçados. Têm que justificar comentários ou gestos completamente inocentes e sem segundas intenções, têm que explicar que aceitaram rejeições sem dificuldades e seguiram em frente, sem tomar quaisquer outras medidas contra quem os rejeitou, ou que talvez tenham tido gestos ou comentários pouco apropriados no momento mas pediram desculpas à pessoa em causa. Começam agora a ter que fazer pedidos públicos de desculpa (tanto mais quanto mais públicas sejam as figuras),  como se a população em geral tivesse alguma coisa que ver com estas situações.

 

Temos então um mundo onde os homens começam a ter medo, a ter que pedir desculpas e a perder emprego com acusações das mulheres.

 

Já vem tarde!

 

O problema com abusos sexuais ou comportamentos indecentes não está descrito em nenhum manual. Uma violação não está consumada apenas com um acto sexual. A percepção da pessoa que sofre é o elemento fundamental. As mulheres (são quase sempre mulheres) podem sentir-se agredidas com actos aparentemente inócuos se o balanço de poder entre elas e o abusador for altamente desequilibrado para o lado deste. Um homem que demonstre interesse numa mulher num bar tem menos poder que um colega numa posição superior (hierarquicamente, financeiramente ou simplesmente graças à sua influência na organização). Se o primeiro pode ser rejeitado com alguma seguramça, existe sempre o medo que o colega decida agir contra a mulher e arruinar-lhe a carreira ou a reputação.

 

No caso de violações, o principal dano não é sexual, antes psicológico. Isto é válido para mulheres e homens, que sofrem de sentimentos de impotência e vergonha por terem sido forçados a actos contra os seus desejos. O acto pode não passar por mais que serem observados a tomar banho (como Weinstein foi acusado de pedir/exigir) e ser considerado na mesma como violação.

 

O último e mais importante aspecto do desequilíbrio d epoder entre homens e mulheres está na questão da força física. Em média uma mulher é fisicamente mais fraca que um homem e terá dificuldades em se defender se o homem a quiser agredir. Este aspecto é de tal forma determinante que desequilibra até situações onde mulheres detêm poder hierárquico sobre homens. Este é, além disso, o aspecto mais determinante também do ponto de vista histórico e que tem sido a principal fundação da desigualdade entre homens e mulheres que dura até aos dias de hoje.

 

Assim sendo, a minha visão é simples: as mulheres têm sofrido ao longo de séculos (milénios). São desconsideradas nas opiniões, mal pagas (quando são pagas), ignoradas, sofrem mais facilmente com qualquer acusação da parte de homens, são descriminadas inclusivamente devido à sua própria fisiologia. Se os homens têm que sofrer durante uns anos ou décadas, serem acusados injustamente de atitudes impróprias - ó desgraça, infâmia - e serem obrigados a esclarecer acções e gestos e pedir desculpas por terem sido talvez pouco sensíveis às percepções das mulheres, assim seja. Metade da população mundial tem sido favorecida de forma (demasiadas vezes) brutal. Se agora alguns deles têm que passar a ter mais atenção e podem sofrer, é um preço que devemos estar completamente dispostos a pagar.

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Um ano de Trumpismo

por João André, em 03.01.18

Ao longo de 2017 fui-me abstendo de comentar a presidência de Trump. Fi-lo essencialmente por três razões: 1) nao tenho humanamente tempo para comentar toda a estupidez que sai da Casa Branca a um ritmo diário; 2) seria cansativo para qualquer leitor; 3) a asneira poderia muito bem ser minha e vale a pena não condenar alguém excessivamente cedo (especialmente quando eu não vou ser lido por ele e não o posso influenciar). Agora, ao fim do primeiro ano de Trump na Casa Branca, tento deixar uma reflexão.

 

Antes de mais é-me complicado escrever "trumpismo". A única característica do "trumpismo" enquanto política é a crença de Trump num mundo de soma zero, onde há vencedores e vencidos em cada conversa, diálogo ou negociação e a medida em que cada parte é vencedora é a mesma em que a outra é vencida. Esta visão é obviamente errada: basta ver o resultado de negociações que ponham fim a guerras, que acabam com o sofrimento da esmagadora maioria das pessoas. Haverá quem perca (por exemplo a indústria do armamento) mas nunca na mesma medida em que os outros vençam.

 

Já as outras características que Trump tem usado ao longo desta sua presidência não são políticas. Narcisismo, bullying, insultos, estupidez, egoísmo, interesse pessoal, mentira, etc, nada disso é política, mesmo quando usados ao serviço da mesma. Estas características são apenas aquelas que, a menos que me engane muito, colocarão Trump como o pior presidente da história dos EUA (ou muito perto disso).

 

Como o avaliar? Comecemos com as suas vitórias. Aqui teve duas: nomeou Neil Gorsuch para o Supremo Tribunal e conseguiu passar a sua reforma do sistema de impostos. Tudo o resto até ao momento pouco teve de vitória. Mudar leis para permitir às empresas poluir mais ou colocar centenas de milhar de pessoas em risco de serem deportadas do país onde viveram toda a sua vida não são vitórias. São actos de estupidez e maldade. Nem há argumentação em defesa do que ele fez.

 

A nomeação de Gorsuch pode ser vista como uma vitória, mesmo que o seja mais do braço parlamentar, quando impediu Obama de cumprir o seu papel e apresentar o seu nomeado. Gorsuch veio inclinar a balança do Supremo Tribunal para o lado mais conservador mas, para ser sincero, Trump parece ao menos ter escolhido alguém com sólidas credenciais intelectuais, ao contrário de algumas das suas outras escolhas para juízes, tão incapazes que até conservadores lançam as mãos aos céus. Mesmo assim é bom lembrar que Gorsuch foi aquilo a que os americanos chamam um gimme, tão fácil num congresso completamente dominado pelo Partido Republicano que seria o mesmo que aceitar elogios por um pôr do sol bonito.

 

Os impostos então. É uma clara vitória, isso sem dúvida. Trump conseguiu avançar com a sua reforma, a mais profunda desde Reagan, mesmo contra as objecções do seu próprio partido. Conseguiu ainda colocar-lhe cláusulas que provavelmente acabarão com o Affordable Care Act, conseguindo assim aquilo que não foi possível por via legal normal. Claro que conseguiu esta vitória de uma forma exclusivamente partisan, sem diálogo, sem apoio de mais ninguém, contra todos os conselhos dos especialistas, contra aquilo que todos os estudos indicam e de uma forma que vai aumentar o défice, aumentar a carga fiscal da esmagadora maioria dos americanos depois da próxima eleição (que coincidência) e aumentar a sua fortuna e a dos membros do seu gabinete. Mas foi uma vitória. Para a sua conta bancária, pelo menos.

 

De resto? Bom, não só não conseguiu impedir a Coreia do Norte de adquirir um arsenal nuclear credível (embora provavelmente ninguém o conseguisse), mas conseguiu também hostilizar o ditador que tem o dedo nesse mesmo arsenal. Claro, os EUA provavelmente não temem verdadeiramente o arsenal norte-coreano. Uma coisa é possuir um míssil com alcance para chegar a Washington DC, outra é acertar no alvo e ainda outra é conseguir que o mesmo não seja abatido pelas defesas americanas. Além disso os EUA sabem que podem transformar a Coreia do Norte num planalto se forem atacados. Não serão os norte-americanos a sofrer com a estupidez e egotismo de Trump. Poderão antes ser os sul-coreanos, que morreriam às centenas de milhar se as hostilidades começassem a sério; ou os norte-coreanos que já são oprimidos mais que qualquer outro povo no planeta e que morreriam aos milhões. Mas Trump já provou que se está nas tintas para o sofrimento que causa a outros.

 

Que mais? Decidiu aceitar a transferência da embaixada em Israel para Jerusalém. Não contente com isso e perante a condenação internacional, decidiu "punir" o resto do mundo ao cortar financiamento de programas da ONU. Agora, pensando que ainda há quem possa sofrer mais, ameaça cortar o financiamento aos palestinianos, especificamente à Autoridade Palestiniana. Mais uma vez estupidez pura: se pensa que os palestinianos irão agora baixar os braços depois de serem punidos, vai provavelmente ser acordado ao som de bombas. Mas não vai ser ele a sofrê-las, serão antes os israelitas a morrer, aqueles que ele diz querer ajudar a proteger. Mais: o processo de paz na Palestina chegou ao fim por muito tempo. Dado que os EUA são indispensáveis ao mesmo, não será retomado tão cedo. Lá poupou umas viagens ao genro, o manequim que tem uma enorme pasta que deve servir de pisa papéis lá em casa.

 

Saiu da UNESCO. A sério, que lógica tem isto? Esqueceram-se de designar a monstruosidade que é a torre Trump como património da Humanidade?

 

Saiu do acordo de Paris. Basta ver a reacção da indústria americana para saber que foi mais uma estupidez.

 

Está a tentar destruir alianças de décadas na Europa. A curto prazo é mau para os europeus. A longo prazo nem tanto. Entretanto a CIA, o FBI e a NSA devem andar a tentar reparar os danos para poderem continuar a receber informação.

 

Ainda vai acabar com o Irão a construir armas nucleares. Sinceramente, o homem deve querer que o resto do mundo se arme.

 

A sua administração fez um bom trabalho com um furacão e depois, quando o outro caiu sobre os hispânicos, decidiu que esses não mereciam a mesma atenção.

 

Não deixou uma palavra de crítica à Rússia (não falo da investigação sobre o potencial conluio, isso pertence á justiça dos EUA) mas criou um vazio que Xi Jinping tem vindo a aproveitar para expandir a influência chinesa, essa grande democracia.

 

Conseguiu em um ano perder um porta-voz, um chefe de staff, um conselheiro nacional para a segurança, dois directores de comunicação e a única mulher negra que tinha num posto sénior. As suas nomeações para as centenas de posições que já deveria ter preenchido têm sido tarde e esmagadoramente masculinas e brancas (80%, se não me engano). Conseguiu ainda que o seu Secretário de Estado tivesse a relevância de um peixe fora de água.

 

Claro. posso estar errado. Trump pode estar a quebrar o molde dos políticos mas poderá conseguir resultados que o mundo deseja desde há décadas. Poderá conseguir levar a paz ao médio oriente, atingir uma nova era de colaboração entre as Coreias, desenvolver a economia dos EUA para níveis não atingidos desde há muito e obter uma conciliação interna no seu país entre as diversas correntes de pensamento. Já houve coisas mais estranhas a acontecer (se bem que me falha a memória do que fosse).

 

No entanto penso que não e, para dizer a verdade, não sei o que seria pior.  Se um mundo mais inseguro, menos próspero, mais intolerante, mais desigual e mais dominado por ditadores ou iliberais; ou um mundo que está melhor mas que lá chegou devido a um ogre na Casa Branca. Por agora fico-me. Talvez volte ao assunto no próximo ano se ainda cá estivermos.

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Anonimato na net

por João André, em 18.12.17

O post da Patrícia toca em vários pontos essenciais. Reflicto abaixo sobre um deles: devemos ou não aceitar comentários anónimos nos nossos posts?

 

Eu permito-os por três razões que deixo em comentário no post dela:

1. Quem queira ser troll não deixa de o ser por causa de ser anónimo. Basta abrir contas falsas e depois espalhar o seu lixo. Mesmo que seja bloqueado nada o impede de abrir mais contas. Bloqueá-lo não muda nada: a revisão de um comentário antes da sua aprovação continua a ter de ser feita.

2. Há pessoas que preferem não abrir contas. Compreendo isso: é mais uma conta para lembrar, mais um destino para spam e mais uma forma de poder ser seguido pelos algoritmos da net. Além disso há comentadores que acabam por assinar na mesma. Lembro-me agora do nosso comentador João de Brito.

3. Um nome, na net, nada significa. Qualquer um de nós pode assinar com o alias que preferir sem que isso signifique seja o que for.

 

Já quanto à "censura" que alguns comentadores clamam quando não aprovamos os comentários, tenho os seguintes pontos.

1. Não é censura. A censura é uma limitação grave da liberdade de expressão. Ao não aprovar um comentário ofensivo, agressivo, ou indecente, não impedimos qualquer liberdade de expressão. O comentador em causa continua a ser livre de colocar o mesmo comentário no Facebook, no Instagram, num blogue pessoal ou, se os donos tiverem estômago para isso, noutros blogues ou em jornais.

2. Limpar comentários nas caixas de cada um dos autores é um acto de higiene. Ninguém pensa que estamos a impedir liberdade de expressão às moscas quando removemos o lixo de nossas casas.

3. A democracia só o é de forma verdadeira quando existe um debate respeitoso. O ruído impede-o e, como tal, comentários ou opiniões agressivos e/ou ofensivos impedem uma discussão correcta. Como tal, numa discussão, ao limparmos eses comentários estamos a promover a democracia. Eu não retirarei o comentário não ofensivo de alguém que proclame a inferioridade de alguém de uma crença específica, mas fá-lo-ei a alguém que posteriormente insulte o autor desse comentário.

 

O problema das caixas de comentários é que se tornaram repositórios de frustrações. Eliminar opiniões não faz sentido, até porque isso não é possível (só eliminamos um registo das mesmas). Faz muito mais sentido que apenas sejam retirados os comentários que ultrapassem os limites das regras da sociedade. Já os outros, é sempre melhor que sejam publicados. Primeiro porque é assim que funcionam sociedades livres; segundo porque por vezes são apenas desabafos e nada mais; por último porque ficam registados para o futuro e podem ser usados para confrontar os seus autores.

 

A responsabilidade, ao contrário da opinião, não é um direito. É um dever. De todos.

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Dar a Bola de Ouro (voltando à vaca fria)

por João André, em 13.12.17

Há 4 anos escrevi um post sobre a atribuição da Bola de Ouro. Na altura o prémio era concedido pela FIFA juntamente com o France Football. Desde o ano passado que voltou a ser atribuído apenas pelo France Football, com a FIFA a passar a conceder o prémio The Best. A diferença entre um e outro é que o prémio da FIFA é atribuído após a votação dos seleccionadores e capitães das selecções do mundo inteiro, enquanto que o prémio da France Football advém do resultado das votações de jornalistas seleccionados a partir de publicações europeias.

 

A diferença na escolha do júri não é incipiente. Se a votação em 2010 e 2013 tivesse sido a partir dos jornalistas, os vencedores teriam sido Sneijder e Robben em vez de Messi e Ronaldo, respectivamente. Aliás, ver o pódio de 2000 para cá (escolhi 2000 para coincidir com maior uso de internet e maior mediatização do prémio) dá a ideia que jogadores menos mediáticos serão mais facilmente escolhidos pelos jornalistas que pela FIFA e pelo seu painel de seleccionadores e capitães. Basta ver algumas das escolhas. A FIFA colocou no pódio apenas dois jogadores (Kahn e Cannavaro, uma vez cada) que não fossem médios atacantes ou avançados. Por oposição a FF fê-lo 6 vezes (ignorando o período de atribuição conjunta).

 

Estas considerações não servem para indicar qual o melhor troféu (eu tenho a minha preferência, mas não a imponho, é apenas isso, uma preferência). Serve apenas para demonstrar que grupos diferentes de pessoas podem ter critérios diferentes. Em 2013 fiz o exercício sobre quais poderiam ser os escolhidos de acordo com diferentes critérios. Farei agora o mesmo.

 

1. Jogador mais talentoso. Este ano eu continuaria a votar em Messi por continuar a ser o mais talentoso. Em segundo teria provavelmente Neymar e em terceiro escolheria mais rapidamente Isco que Ronaldo se obrigado a ir ao Real Madrid.

 

2. O jogador mais decisivo. Difícil escolher. Ronaldo foi decisivo na fase mais importante da Liga dos Campeões, mas Isco andou com a equipa às costas na liga e até na LdC (embora fosse Ronaldo a marcar os golos). Messi manteve o Barcelona vivo na Liga apesar da letargia dos colegas. A importância de Lewandowski notou-se essencialmente quando teve que jogar contra o Real Madrid preso com cuspo e arames. Ainda assim é perfeitamente legítimo escolher Ronaldo no ano em que o Real Madrid venceu liga e Europa.

 

3. O melhor jogador da melhor equipa. Depende de como escolher o melhor da melhor equipa (que foi o Real Madrid). Ronaldo marcou os golos mais importantes na Europa para o Real Madrid. Isco fez a equipa jogar e levou a bola às zonas onde Ronaldo (que já não é dado a cavalgadas) pode ser decisivo. Modrić foi o pêndulo de toda a equipa. Casemiro deu-lhe equilíbrio e Marcelo largura. Cada um escolhe o que prefere. Eu teria ido por Isco neste critério.

 

4. O jogador mais completo. Sobre o que se considera "completo", reveja-se o que escrevi no passado. Para mim é difícil imaginar jogadores mais completos que Pogba. Outros candidatos: Kroos, Modrić, Messi, Verratti, Dybala, De Bruyne, Kanté. Este ano eu teria ido por um de 3: Kanté, Pogba ou De Bruyne.

 

5. Estatísticas. Quem quiser verificar isso, pode ir a WhoScored.com e procurar os seus jogadores preferidos. Especialmente com as novas múltiplas métricas por onde escolher. Eu fiz uma análise simples usando as estatísticas do site acima. Escolhi as métricas de golos, assistências, tackles, intercepções e passes chave (tudo por jogo). A seguir dei uma pontuação a cada métrica: 8 por golo, 5 por assistência, 1 por tackle, 2 por intercepção e 2 por passe chave. Cada um poderá fazer o mesmo e dar valores diferentes. Duas observações: não especifiquei apenas o ano de 2017, usei antes os dados disponíveis para 2016/17 e 2017/18, pelo que os jogadores que tenham tido um bom final de 2016 serão beneficiados. A segunda observação é que tratei todas as métricas como iguais, não dando qualquer peso a jogos específicos (como a final da LdC). Com esses dados cheguei ao gráfico abaixo para uma selecção (pessoal, apenas de jogadores das 5 principais ligas e que tenham jogado na Europa) de jogadores.

grafico estatisticas jogadores 2017.jpg

Pontos totais por jogador e por jogo. A cores diferentes Cristiano Ronaldo, Lionel Messi, Neymar e Alexis Sanchez. A linha laranja indica a pontução de Ronaldo.

 

Com este exercício, acabamos com 14 jogadores com pontuação superior à de Ronaldo. Mais uma vez, isto não indica importância das acções, apenas a estatística específica. Nesta métrica, Messi venceria, com Neymar muito por perto e Coutinho a encerrar o pódio.

 

6. Uma mistura de todos os critérios acima. Seria a minha escolha e, suponho, a da maioria das pessoas, embora com pesos diferentes para cada aspecto (texto copiado de há 4 anos). Desta forma eu iria por Messi dada a forma como carregou com o Barcelona às costas com os colegas completamente irreconhecíveis. Estejam à vontade para discordar. Daqui por um mês eu poderei fazer o mesmo.

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O desafio da gestão da água em Portugal

por João André, em 22.11.17

Agora que a seguir aos incêndios começam a surgir os alertas para a falta de água, vale a pena reflectir sobre o desafio estrutural de abastecer água, potável e não potável, a uma população. Portugal é um caso onde este desafio já deveria ter sido assumido há muito de forma interpartidária: é um país pouco húmido, com zonas mais áridas, forte concentração populacional em centros urbanos no litoral e uma costa marítima muito extensa. É também um país com forte implantação de energias renováveis, o que é bastante útil no caso do abastecimento de água.

 

Uma primeira reflexão deve ser feita no que diz respeito à escassez da água. Tenho frequentemente que explicar a amigos que a água não é um bem escasso, ou pelo menos não o é da mesma forma que o petróleo o é. Toda e qualquer molécula de água que é consumida na esmagadora maioria dos processos de humanos (consumo humano, irrigação, lavagens, incorporação noutras bebidas, etc) continua a existir após o seu "consumo". Mesmo nos casos raros em que a molécula de água é decomposta nos seus átomos (como por exemplo em electrólise), estes acabam por se reconstituir na atmosfera (é o facto de a molécula de água ser um arranjo tão favorável para o hidrogénio e o oxigénio que a torna tão estável e útil). Isso significa que não há razão para se considerar a água um recurso finito, antes transformável.

 

Esta distinção importa porque significa que a água pode ser obtida a partir de múltiplas fontes ou - e é este o aspecto essencial - reutilizada. Aliás, observar um mapa mundial da acessibilidade de água para consumo ajuda a perceber a distinção. O gráfico abaixo mostra Portugal numa situação pouco melhor que Espanha e França, pior que vários países africanos e melhor que Bélgica, Holanda e Alemanha, países líderes no campo. Uma das razões para isso é a disparidade temporal do acesso à água. Nos países africanos a disponibilidade de água depende da época das chuvas - fora destas pode haver falta de água. O mesmo acontece historicamente com a Índia. No caso dos países do centro da Europa o problema prende-se mais com a qualidade da água disponível. Nestes países o nível de industrialização levou a que os cursos de água estejam frequentemente poluídos. No caso da Holanda acresce o problema de terem recuperado terra ao mar: os recursos hídricos estão frequentemente contaminados com sal.

 

Global+Water+Availability.jpg

Fonte: National Geographic

 

Como resolvem estes países o seu problema? "Simples": tratam a água de forma proactiva e agressiva e consideram-na um recurso fundamental. A qualidade é monitorizada constantemente e ajustada conforme o necessário. Além disso os recursos hídricos estão incorporados no processo de gestão de água, não só no aspecto da captação de água mas também na descarga da mesma depois de tratada. Só que isto não deveria ser suficiente e é muitas vezes um desperdício. A gestão correcta deveria ser muito mais eficiente.

 

Um caso que conheci é o da cidade de Aachen. Nesta cidade alemã (muitos portugueses ainda a conhecem pelo nome francês de Aix-la-Chapelle) junto às fronteiras com a Holanda e  Bélgica o sistema de tratamento e captação de água é integrado. As águas residuais municipais são recebidas pelas estações, tratadas e descarregadas nos cursos de água naturais da região. As águas destas fontes são captadas, tratadas e enviadas para a cidade. Isto cria um ciclo mais ou menos fechado que parece ser eficiente (e de certa forma é-o).

 

Olhe-se no entanto para o mapa abaixo, onde coloquei os pontos de e para onde a água é bombeada, por onde flui e onde é tratada (atente-se a legenda). O mapa abaixo não referencia diferenças de altitude entre os diversos pontos (este artigo do Aachener Zeitung tem uma ilustração que o mostra).

agua aachen ligacoes.jpg

Legenda: 1 - Estação de tratamento de águas residuais. 2 - Albufeira que recebe (por bombagem) as água tratadas em 1. 3 - Estação de bombagem de água para 4. 4 - Albufeira. 5 - Barragem que liga com outra Albufeira. 6 - Estação de bombagem de água para outra albufeira. 7 - Estação de produção de água potável. 8 - Aachen.

Linhas vermelhas: água bombeada (as linhas não descrevem o percurso real). Linhas verdes: água em curso natural (rio, albufeira). Losangos: estações de tratamento e/ou bombagem. Círculo: barragem com passagem natural de água.

 

Aquilo que eu gostaria de salientar é a distância, mínima, entre a estação de tratamento de águas residuais e a estação de produção de água potável. Também seria bom indicar que a água que é descarregada nos cursos de água naturais não tem uma qualidade muito distinta da da água que é captada para produção de água potável. Isso significaria que seria tecnicamente simples tratar o efluente da estação de tratamento de águas residuais para produzir a água potável necessária para a cidade de Aachen. E isto seria possível muito mais próximo da cidade.

 

Há outras questões técnicas que teriam de ser resolvidas. Levar a água residual ao nível de potável é relativamente simples, mas não é possível com eficiência a 100% (a segunda lei da termodinâmica impede-o naturalmente, mas tecnicamente seria inviável). Haveria portanto que encontrar uma solução para a fracção do efluente. No entanto não é esse o maior impedimento para tal opção.

 

O maior impedimento é humano: as pessoas não querem beber água tratada, independentemente da qualidade que seja assegurada. Queremos beber água "natural", que imaginamos nunca contaminada em ponto nenhum ou, em alternativa, que tenha sido "purificada" pela Natureza. Claro que isto é uma fantasia. A maior parte da água que existe no mundo não é fresca (i.e., não é salina). Da água fresca, apenas cerca de 30% está disponível e não sequestrada como gelo. E da disponível, apenas uma parte está à superfície da Terra.

 

water availability.jpg

Disponibilidade de água no mundo. Tirada daqui.

  

Ainda assim, sistemas como o que descrevi acima (reuso indirecto) ajudam à fantasia. Os humanos rejeitam de tal forma o reuso directo de água (tornar a água imediatamente potável, por oposição ao uso indirecto) que preferem sempre que possível dessalinizar água do mar. Isto faz sentido em certas situações, como no Médio Oriente, em zonas costeiras áridas (Califórnia) ou em ilhas-estado muito populosas como Singapura, mas é energeticamente menos eficiente (pressões equivalentes a 60 atmosferas são necessárias para produzir 60 L de água dessalinizada por cada 100 L de água bombeada, por exemplo).

 

O reuso directo de água, bem como o reuso de água não potável (como no caso de irrigação) poderia baixar drasticamente a necessidade de captar água a partir de fontes à superfície ou subterrâneas, além de baixar imenso o custo do tratamento da água. Igualmente importante seria potenciar a captação e gestão de água da chuva, criando bacias que recebessem o excesso de água. Esta prática milenar existiu por todo o mundo e terá sido aperfeiçoada na Índia, mas a expansão humana e industrialização destruíram muitas das opções que existiam ao cortar cursos naturais (ou de mão humana mas muito antigos) de água.

 

Portugal tem algumas condições excelentes para não ser um país com escassez de água. As zonas mais populosas são também as mais prósperas e onde a indústria está mais desenvolvida e também onde em teoria é mais fácil implementar sistemas integrados de gestão de água. Isso significa que seria simples implementar sistemas técnicos de reuso em cidades como Lisboa ou Porto (ou outras) e reduzir de imediato as necessidades de captação de água e, consequentemente, diminuir o risco causado por períodos de seca.

 

Nas zonas menos populosas, os sistemas de reuso de água não potável seriam perfeitos. Nestes casos parte do efluente que sai das ETARs poderia ser redireccionado para irrigação e outra parte poderia ser tratado para uso como água potável para as populações. outra vantagem que Portugal poderia ter relaciona-se com o uso de energias renováveis. O uso de água é mais intensivo durante o dia, altura em que a energia solar (especialmente a térmica, no caso de sistemas de evaporação/condensação) está disponível. Além disso as albufeiras são reservatórios perfeitos de água que podem ser integrados correctamente na gestão local e fornecem a energia a partir das barragens.

 

Por fim, para complementar e onde necessário, seria possível recorrer à água do mar para obter água em caso de necessidade. Com a maioria da população portuguesa a viver provavelmente não mais que 30-50 km do mar, a dessalinização, mesmo que menos eficiente energeticamente, poderia ser usada para complementar o abastecimento quando necessário.

 

Resolver o problema da disponibilidade de água, em Portugal ou noutros países, não se pode basear simplesmente numa ou noutra solução. Não existe uma solução mágica que resolva tudo. É necessário integrar a poupança de água, com a gestão dos recursos hídricos (inclusivamente do ponto de vista geológico) e harmonizar isso com os sistemas de tratamento e reuso de água, bem como criar opções d emitigação de casos extremos, como a dessalinização.

 

Se tal fosse feito, estou em crer que hoje não seria organizar comboios para andar a transportar água entre localidades. Todos os nossos municípios poderiam ser auto-suficientes.

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Fumo nos olhos

por João André, em 20.11.17

Falar nos casos do cinema francês (ou mundial) onde as personagens surgem de cigarro na mão ou na boca duplicaria o número de palavras usadas historicamente neste blogue. Explicar que nalguns casos não faria sentido não mostrar o cigarro (como com biografias) seria extenuante. Apontar que em certas situações o cigarro faz parte da caracterização da personagem seria uma perda de tempo.

 

Note-se que não sou um fumador, nunca fui um fumador e nunca dei sequer uma passa que fosse em toda a minha vida. Obrigava os meus pais a abrir as janelas do carro ou da sala sempre que começavam a fumar, estivesse sol ou chuva, calor ou frio. Fui também um entusiástico apoiante das medidas que restringiam o uso do tabaco em espaços públicos. Sou da opinião que se o tabaco desaparecesse da face do planeta, só haveria benefícios e nenhum prejuízo (embora saiba que isso é impossível).

 

Banir o tabaco dos filmes no futuro faz pouco sentido. Limitar a exposição de filmes antigos que exibem tabaco é ridículo e colocar uma classificação etária superior num filme que mostre personagens a fumar é simplesmente idiótico. Alguns dos comentários  neste artigo do The Guardian explicam tudo, mas gosto particularmente da comparação com a violência. Se filmes com violência (mesmo que muito "leve") não levam com tais excomunhões, por que razão cair sobre o tabaco? Levar a campanhas para remoção do tabaco em filmes futuros onde tal não seja necessário (tratando-o como a nudez: se não oferece nada, não faz sentido) já faria algum sentido.

 

O fumo do tabaco é irritante e - para mim - detestável. Mas pertence à história da humanidade e é parte da cultura. Tentar bani-lo dos nossos filmes teria tanto sentido como lançar fumo para os olhos...

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Coisas a resolver até ao Mundial

por João André, em 13.10.17

Felizmente que me enganei e que Portugal se qualificou sem engulhos para o Mundial. A Suíça ajudou, apresentando-se como uma equipa muito fraquinha que só não perdeu por bastante mais porque não calhou. Quem os apanhar nos play-off não se deverá preocupar por aí além.

 

Agora que Portugal está apurado, está na hora de começar a preparar o trabalho para uma competição de um mês onde haverá potencialmente 7 jogos (média de um jogo a cada 4 dias). Há certas áreas que Fernando Santos terá que definir depressa.

 

 

Também publicado aqui.

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Os independentistas catalães encheram a boca (e os nossos ouvidos e olhos) com a afirmação que o voto no "referendo" foi "democracia". Ontem muitos milhares de catalães demonstraram o que é a verdadeira democracia: liberdade de expressão alicerçada em envolvimento cívico. Os independentistas já o exerceram no passado, muitas vezes em tom de folclore mas nem por isso menos válido.

 

Seria bom que o voltassem a exercer noutras vertentes importantes, a começar pelo debate sobre o que querem. Deixo uma listinha de perguntas (se calhar já o debateram, mas não passou "cá para fora"):

1. Que tipo de estado independent gostariam de ter? Monarquia ou República? (e escusam de me dizer "obviamente República", os mais barulhentos dizem-no, mas ainda não vi esse debate).

2. Assumindo que é de facto República, querem-na de que tipo? Presidencialista? Semi-presidencialista? Outra?

3. Qual o período de transição para a indepenedência de facto? 1 ano? 2 anos? 20 anos?

4. Quem terá direito à nacionalidade catalã? Todos os que vivam no território? Só os que a desejam? Quem fale catalão? Pensarão na dupla nacionalidade (espanhola e catalã) para quem o desejar?

5. Integração noutras alianças? União Europeia, sim ou não? (note-se que mesmo que a resposta seja "sim", isso implica um período largo de ajustamento). Integração na NATO? No espaço Schengen? Outras?

6. Que tipo de relação gostariam de ter com Espanha? Convém aceitar que, pelo menos durante uns tempos não será de fronteiras abertas. Quais os compromissos que seriam aceitáveis?

7. Que moeda? O Euro desaparece no início, porque mesmo que o desejem não o podem ter assim que passem a ser independentes (primeiro têm que ser aceites na UE e só depois podem pedir acesso à moeda única).

8. Quais as fronteiras reclamadas?

9. Como definir a transição de coisas como exército, justiça, sistema prisional, sistema de educação, pensões, etc?

10. Quem pagaria os custos do divórcio? (à la Brexit)?

 

Estas são só algumas sugestões de temas para o debate. Outros, com melhor conhecimento que eu, poderão sugerir alguns mais. Fica só a minha contribuição para a intelligentsia pró-independência do nosso burgo.

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Benefícios do Ensino Superior em Portugal

por João André, em 30.09.17

Num dia de "reflexão", decidi reflectir sobre outra coisa que não as eleições: o valor dos estudos em Portugal. Não sendo um especialista com acesso a dezenas de bases de dados nem com tempo para passar meses de volta de folhas de cálculo, fiz uns quantos rápidos baseados em dois dados: os rendimentos brutos anuais de acordo com o grau máximo de educação atingido (valores de 2014 do INE) e os valores de IRS a pagar de acordo com cada escalão.

 

Munido destes valores decidi descobrir qual o valor monetário de um grau académico. Há ressalvas a considerar:

- Apenas considerei como valor base o de pessoas com o secundário (a actual escolaridade mínima obrigatória). Os valores abaixo são ignorados.

- Considerei as seguintes durações: secundário sem reprovações até aos 18 anos de idade; o bacharelato como sendo de 3 anos (sem anos extra); a licenciatura de 5 anos (1 ano extra); o mestrado de 5 + 2 anos (2 anos extra); e o doutoramento de 5 + 2 + 4 anos (3 anos extra).

- A reforma chega aos 67 anos de idade (necessária para estimar os rendimentos e contribuição totais).

- Considerei que os alunos de mestrado e doutoramento recebem um salário anual do grau abaixo (de mestrado com salário de licenciado, de doutorado com salário de mestrado). Há um erro mas é a aproximação que decidi fazer.

- Para o salário anual de mestrado (não explícito nos dados do INE) estimei a média entre licenciatura e doutoramento.

- O valor que retirei dos dados do INE é médio para o resto da carreira contribuitiva. Isto é duvidoso especialmente porque é muito provável que alguém com mestrado obtido hoje acabe a aumentar significamente os seus rendimentos à medida que, ao longo das décadas, o valor da sua educação aumente. Mas é a aproximação que me foi possível.

 

Ressalvas feitas, vamos aos valores.

 

Valor do grau académico

No gráfico 1, está o valor dos rendimentos brutos totais que uma pessoa pode auferir ao longo da sua carreira contribuitiva. Também adicionei a diferença que se obtém em relação a uma educação a terminar no secundário.

 

rendimentos brutos totais portugal.jpg

Figura 1: rendimentos brutos totais ao longo da carreira profissional.

 

O valor de um grau académico em Portugal salta de imediato à vista. Um simples bacharelato aumenta em 65% os rendimentos. Curiosamente, ter uma licenciatura não ajuda muito, com os anos extra necessários à mesma a reduzirem os rendimentos totais (a diferença anual entre bacharelato e licenciatura é de apenas 250 €/ano). A partir do mestrado obtém-se paridade em relação ao bacharelato e com o doutoramento atinge-se o valor mais alto, embora não por valores muito elevados (cerca de 1.000 €/ano).

 

rendimentos liquidos totais portugal.jpg

Figura 2: rendimentos líquidos totais ao longo da carreira profissional.

 

E se optarmos por olhar para os rendimentos líquidos? Nesse caso a situação piora para os licenciados e mestres. A vantagem sobre o bacharelato chega apenas com o doutoramento e, em termos líquidos, é de apenas 450 €/ano. Em perspectiva, pagará os cafés diários.

 

Com base nestes valores parece claro que o melhor grau académico para a carreira profissional será o bacharelato. Em 3 anos está terminado, o que significa que a independência financeira está mais próxima, e ao longo da carreira não é muito pior que ter um doutoramento. Claro que aqui não está contabilizado o maior valor de reforma que o doutorado terá, mas num ponto de vista estritamente de carreira profissional, o bacharelato parece ter a melhor relação custo/benefício (quando o custo é o esforço pessoal e de tempo e o benefício os rendimentos).

 

Valor contribuitivo para o Estado

Fala-se sempre do benefício do grau académico, mas não olhamos muito para aquilo que ele oferece ao Estado do ponto de vista contribuitivo. Ora, se alguém tem rendimentos superiores, irá também pagar mais impostos (até devido à subida nos escalões). No que resulta isso?

 

contribuicao fiscal corrigida portugal.jpg

Figura 3: impostos pagos por cada indivíduo de acordo com a educação atingida (reflectindo rendimentos durante mestrado e doutoramento).

 

O que vemos aqui é que, um indivíduo que tenha um grau académico acabará a pagar ao longo da sua carreira contribuitiva essencialmente mais do dobro que alguém que tenha apenas estudos secundários. Ter um bacharelato faz entrar no cofre do estado tanto em valores extra como alguém com o secudário ao longo da sua vida. ou seja, um bacharel paga ao estado mais de 3.500 €/ano por ter estudado. Um licenciado um pouco menos. Um mestre e um doutor pagam ao estado pelo privilégio cerca de 4.00 e 4.500 €/ano extra, respectivamente (em relação ao bacharel).

 

Só que esta não seria a contribuição total. Idealmente adicionaríamos também o valor do IVA pago ao fazer compras. Aqui decidi fazer novas aproximações:

- A taxa de IVA escolhida foi a intermédia (13%), para reflectir que muitos dos gastos são com bens a IVA reduzido. O valor pode estar errado (não encontrei informação sobre taxas médias de IVA na minha busca rápida) e certamente será diferente de acordo com os rendimentos disponíveis (indivíduos com menores rendimentos gastarão uma maior percentagem dos mesmos em bens d eprimeira necessidade a uma taxa mais baixa). Seja como for, é a aproximação escolhida.

- O valor do IVA foi aplicado sobre a totalidade dos rendimentos líquidos. Isto estará novamente errado (haverá quem faça investimentos ou poupanças), mas é a aproximação que escolhi.

 

contribuicao fiscal corrigida portugal + IVA.jpg

Figura 4: Impostos toais pagos com IVA adicionado.

 

Os valores aqui não alteram o cenário relativo da figura 3, apenas aumentam em termos absolutos. Dessa forma podemos calcular o valor acrescentado que os graus académicos trazem ao estado: aproximadamente 4.500 €/ano para bacharelato e licenciatura, 5.000 €/ano para o mestrado e 5.500 €/ano para o doutoramento. Podemos colocar isto em perspectiva ao olha para o custo de um aluno do ensino superior em Portugal (figura 5, retirado da página 275 da tese de doutoramento de Maria Luísa Machado Cerdeira, "O Financiamento do Ensino Superior Português: A partilha de custos").

 

custo por aluno.jpg

Figura 5: Custo anual para o estado de cada aluno no ensino superior. Valores apenas até 2008.

 

Mesmo aceitando que o valor para o Estado era de apenas 3.610 €/ano/aluno em 2008 e que estes tenderiam a aumentar durante a recessão, podemos ver que a contribuição fiscal acrescida graças á posse do grau académico compensa largamente esse custo aos cofres do país. Imaginando um valor máximo de 4.438 €/ano/aluno (valores de 2001) e adicionando mil euros, uma licenciatura (aceitando 5 anos de estudos mais um ano extra) seria paga em sete anos e meio, com o resto da vida contribuitiva a ser lucro. No caso de bacharelatos, mestrados e doutoramentos, o curso universitário seria pago ainda mais depressa. Mesmo que se adicione um ano extra para compensar quem estuda e não contribui da mesma forma (porque não pode trabalhar, saiu do país ou abandonou os estudos antes de os concluir), parece óbvio que o estado beneficia financeiramente de oferecer a educação superior.

 

Obviamente que este retorno do investimento não leva em conta o valor acrescido que, esperamos, os indivíduos com graus superiores trarão à sociedade, seja do ponto de vista de eficiências, seja através de novos negócios que gerem riqueza. Estes benefícios deveriam ser então traduzidos em maiores receitas fiscais do lado do IRC (através do aumento de lucros) ou também do IRS (através de maior emprego). Não é linear, obviamente, mas seria esse o princípio.

 

Conclusões

E que concluir destas 3-4 horas de procura e escrita (e uns 10 minutos de leitura)? Bom, primeiro que nada que os estudantes pouco beneficiam de estudar para lá do bacharelato. As empresas portuguesas parecem não valorizar os dois anos extra de estudos através de salários mais elevados. As razões disso não conheço, apenas constato os valores. Por outro lado parece que ter mestrado e/ou doutoramento será benéfico, mesmo que por pouco. onde os graus mais elevados provavelmente se traduzirão em benefícios será no tecto salarial máximo que se pode atingir ao longo da carreira, o qual provavelmente aumentará com o nível de ensino atingido. Apesar disso, isso só será realidade em alguns casos.

 

Por outro lado, o Estado parece ter benefícios financeiros claros em oferecer os estudos. Dado que as propinas constituirão 20-25% dos custos por aluno, é possível argumentar que se o Estado tornasse o ensino completamente grátis não perderia muito. Dado que haverá certamente estudantes que decidem não seguir para o ensino superior devido ao custo das propinas (a que acrescem os de alojamento, alimentação, materiais de estudo, viagens, etc) e que alguns desistirão dos mesmos porque deixam de ter meios para os pagar, poderia muito bem suceder que um ensino 100% gratuito aumentasse a base de recrutamento de estudantes, o que só beneficiaria a qualidade.

 

Conclusão final? O país não valoriza os estudantes do superior como deveria mas beneficia imenso deles. Apesar das ineficiências, haverá certamente poucas áreas do estado onde haja tantas vantagens entre o serviço prestado e o benefício retirado. Ou, noutras palavras, o Ensino compensa. E muito.

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A L. é uma amiga minha catalã. Até aqui nada de especial, não sou o único, nem ela é a única amiga catalã. Só que a L., apesar de nascida na Catalunha e lá ter crescido a vida inteira, tem as raízes na Galiza. Os pais mudaram-se para a Catalunha antes de ela nascer em busca de melhor vida. A L. (e irmãos) nasceram e cresceram em democracia e ao abrigo da Constituição de 1978. Entre eles fala o catalão. Com os pais o castelhano (ou espanhol, quem quiser que use o termo preferido). A L. vai várias vezes por ano à Galiza. É também a favor do referendo e, parece-me, da independência da Catalunha. Só que neste aspecto tem menos certezas: «sinto-me também espanhola» respondeu ela na única vez que entrei na discussão pelo lado dos afectos.

 

Já conheci outros catalães que são acérrimos defensores da independência. Outros são a favor de manter as coisas como são, aumentar a autonomia ou, já me aconteceu, reduzir a mesma. Se tiver que estimar, penso que haverá mais gente a favor da independência que contra ela. Mas raro é aquele que tem uma ideia do que acontece depois. Claro, isto é a amostra que tenho ao meu dispor e nada representativa de nada na Catalunha.

 

A melhor forma de avaliar a presente opinião, à falta de um voto real, é a ferramenta das sondagens. Apresento em baixo a que a Economist publicou na edição da semana passada. Não se trata de ver se há ou não maioria para a independência (não há). Para mim o mais revelador é como o apoio à independência subiu de cerca de 15% em 2006 para quase 50% em 2013/14 (depois de uma subida fortíssima a partir de 2009) e agora caiu novamente para cerca de 35%. É obviamente tentador atribuir este apoio à recessão económica: os catalães viram a sua vida piorar, culparam um dos governantes (entre os dois à escolha) e o outro aproveitou para fazer o mesmo. O mesmo mecanismo que leva ao crescimento de forças anti-democráticas.

 

economist_polls catalonia independence.png

 

É simples e algo simplista. Muitos outros factores terão influenciado este apoio à independência. Até poderia apontar o pico da equipa do Barcelona FC quando treinada por um catalão favorável à independência e a jogar com múltiplos jogadores formados "na casa", muitos deles também catalães. Isto é ainda mais importante quanto o Barcelona foi, no passado, um foco de reunião dos catalães.

 

Só que o crescimento rápido também aponta para uma população com opiniões algo efémeras. Não é um crescimento sustentado, resultante de uma ou mais gerações a serem expostas aos malefícios da nação espanhola. É uma mudança que surge ao sabor dos posts no Facebook, Tweets e manifestações que são festas. É um crescimento que deveria fazer parar para pensar. É um crescimento obviamente resultante de um período de propaganda intensa dos partidos independentistas que tentaram (e não conseguiram) controlar a Generalitat.

 

Significa isso que um referendo estará fora de questão? Obviamente que não. Todas as populações devem ter direito à sua independência se o desejarem. Só que o "povo" catalão não é exactamente oprimido. Tem uma autonomia enorme e poucas são as áreas em que não tem autodeterminação. A sua língua é inclusivamente protegida e pode ser usada nas escolas sem problemas (há muitos outros países onde isso não sucede com línguas regionais). Ainda assim apenas 36% da população aponta o catalão como língua de identidade (47% fá-lo com o espanhol/castelhano). Contribuirão mais do que recebem, no balanço total, em termos fiscais. No entanto, sendo uma região mais rica, isso sucederia sempre, como sucede noutros países ou na UE. Aquilo que não têm é independência. Querem alcançá-la? É legítimo. Só que tal deve ser feito por meios legítimos.

 

A Espanha aprovou a sua actual constituição, que proclama o Estado como indivisível, no referendo de 1978. A Catalunha também votou nesse referendo e um total de 61,4% dos eleitores aprovaram a mesma (90,46% a favor com abstenção de 32,09%). Não se pode dizer que a Catalunha não tenha sido ouvida na discussão ou que a tenha rejeitado. Ora, se assim foi, o resto do país pode e deve ser ouvido na discussão sobre a independência da Catalunha, dado que foi isso que aprovaram há 40 anos. Não o fazer, como pretendem os governantes catalães, é de facto ilegal e um atentado aos direitos daqueles, maioria ou minoria, que preferem manter as coisas como estão.

 

Está mais que visto que, se o referendo de 1 de Outubro for avante, o resultado será esmagadoramente a favor da inependência. Sê-lo-ia mesmo que Rajoy, com o seu estilo de touro raivoso, não tivesse quase militarizado a situação. Isto porque, sendo visto como ilegal, os catalães contra a independência não iriam comparecer. Aquilo que resultará será um aumentar das tensões de forma desnecessária.

 

A melhor forma de resolver o problema teria sido simples: o Estado espanhol aceitaria dar mais algumas concessões aos catalães (inclusive a simbólica de aceitar a língua catalã como parte da identidade) em troca de um referendo organizado pelo país. Se esse referendo, que deveria ter discussões esclarecedoras e as consequências de qualquer independência bem claras, desse na independência, então assim fosse. Só que essa independência deveria ser tão clara como o voto em favor da constituição de 1978. Caso contrário deveria ser rejeitada.

 

O Reino Unido, sem grandes alaridos nem pesos legais, assim procedeu em relação à Escócia. Os escoceses acabaram por preferir ficar no RU. Pessoalmente penso que os catalães acabariam por perceber que, por muito que possam pagar à Espanha, o facto de nela estarem integrados trar-lhes-á muitos outros benefícios. No caso da L., penso que traria também paz de espiríto.

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Jornalixo científico e reflexos sociais

por João André, em 05.09.17

Há uns tempos surgiu um artigo no Independent que andou a dar a volta por Facebook e alguns blogs. O artigo do Independent, que tinha por título "Atheists are less open-minded than religious people, study claims" citava o estudo de um investigador da Université Catholique de Louvain onde este apresentava os resultados da análise das posições de pessoas religiosas e não religiosas a afirmações que analisavam a sua abertura de espírito.

 

O primeiro aspecto que na altura me incomodou foi a forma como os comentários ao partilhar a notícia do Independent (ou subsequentes) pareceram incidir apenas sobre o título da notícia, dando como adquirido que os ateus são simplesmente menos tolerantes que pessoas religiosas, assim, sem quaisquer outras considerações. As pessoas religiosas apresentaram a notícia como prova que são mais tolerantes e as não religiosas atacaram o estudo sem notar mais do que o facto de sair de uma universidade católica, como se a origem fosse automaticamente desqualificadora de rigor.

 

Em qualquer dos casos é pena. Primeiro porque o título da notícia equipara pessoas "não crentes" a "ateus" (algo que o título do artigo também faz). Depois porque qualquer conclusão retirada do artigo do independent é abusiva, dado que o artigo em si é curto, pouco informativo sobre o estudo e não apresenta as devidas ressalvas que qualquer estudo científico de qualidade deve apresentar.

 

A mais importante destas é o facto de o artigo salientar que é um estudo preliminar e que a amostra é pequena (por exemplo: os prticipantes que se declararam como ateus ou agnósticos constituíam 60% da amostra - dificilmente corresponde à realidade de qualquer sociedade moderna, por muito secular que seja. Por outro lado, os resultados indicaram que em certos indicadores, os não crentes demonstravam menos abertura de espírito a outros conceitos e noutros demonstravam mais. Ou seja, comportavam-se tal e qual os crentes: nalguns aspectos são mais dogmáticos e noutros menos. Aquilo que o artigo terá trazido de forma mais clara é precisamente o facto que os não crentes não são sempre mais tolerantes. Isto deveria ser óbvio, mas é também para isso (para provar ou contrariar a sabedoria "popular") que a ciência existe. [outras leituras sobre o artigo/notícia].

 

O que o artigo do Independent demonstra novamente em relação aos jornais é como estes estão mal equipados para tratar os assuntos científicos. Não os compreendem, lêem o essencial, fazem meia dúzia de perguntas de algibeira aos autores (quando fazem) e escrevem as conclusões mais sensacionalistas de que forem capazes. Aquilo que a disseminação do artigo vem provar, por outro lado, é que os consumidores destas "notícias" por via das redes sociais aceitam a primeira linha do cabeçalho do post, não lêem o que têm em frente, não compreendem o que lêem se o fizerem e que quando criticam o fazem através do preconceito mais à mão (neste caso: "os ateus são obviamente intolerantes" ou "tinha que ser de uma universidade católica").

 

No fundo, isto não passa do mesmo ciclo que refere o Pedro. Jornalixo, apenas aplicado à Ciência.

 

[Pequena nota: refiro o nome francês da universidade porque há duas universidades belgas que seriam traduzidas da mesma forma, a referida acima e a Katholieke Universiteit Leuven. No passado eram uma e a mesma universidade e apenas se separaram por idiomas em 1968. Penso que ainda existem sinergias entre elas, especialmente no que diz respeito a bibliotecas, administração e algumas iniciativas, mas para todos os efeitos são universidades diferentes]

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A abundância e monocultura da informação

por João André, em 14.08.17

Quando surgiu a internet (ou, pelo menos, quando a World Wide Web se popularizou e expandiu), não faltou quem argumentasse que um novo iluminismo surgiria, sustentado pelo acesso livre à informação que o novo meio proporcionava. Pessoalmente não tinha opinião e estava na altura mais interessado nas possibilidades de trocas de ficheiros que se me abriam. No entanto sempre me pareceu que tais ideias eram excessivamente optimistas. Não o pensava porque tivesse uma visão do que iria (ou sequer poderia) suceder, mas porque sempre me pareceu que um meio não determina nada. É o uso que a população faz do mesmo que decide o futuro.

 

O que temos hoje é uma riqueza de informação inigualável na história humana. Não só inigualável mas inclusivamente inimaginável apenas há 20-30 anos. Há 100 anos este futuro não seria tanto de sonho mas de pesadelo para quem tinha acesso, mesmo que limitado, à informação. Mesmo os arautos desse e-iluminismo não sonhariam com a expansão que vimos, não imaginariam a existência de Google, Facebook, Twitter, YouTube ou tantos outros.

 

Só que tal acesso ao conhecimento vem com um problema: perante tanta informação, como escolher aquilo que se deseja aprender ou, uma vez feita essa escolha, como decidir qual a informação mais fiável. Em parte este dilema de escolha reflecte aquele o que o consumidor ocidental moderno enfrenta cada vez que entra num supermercado: há tanta escolha de produtos que se torna impossível saber qual a escolha certa. E isto apenas num espaço limitado onde a decisão e a justeza da escolha reflectem apenas e só preferência pessoais.

 

Na internet, quando procurando informação, a escolha torna-se mais complicada, uma vez que em múltiplos casos existe uma escolha correcta (no que á sua exactidão ou conclusões diz respeito), a qual não depende das nossas preferências ou convicções pessoais, por muito que delas estejamos... convictos.

 

Há actualmente dois tipos de situações que sofrem com isto: acontecimentos políticos e factos científicos. Um exemplo claro do primeiro é o fenómeno trump e clivagem esquerda/direita que se vê cada vez mais na sociedade (a dos EUA, como canário na mina de carvão, serve de aviso). A população, na presença de enormes quantidades de informação, vê-se na situação de ter de escolher qual aquela que usa. Nesta decisão cada vez mais vemos que a exactidão da mesma pouca importância tem. Nos EUA os partidários da direita preferem crer num tweet de Trump mais que nas reportagens de jornais e televisões com décadas de reputação de honestidade; enquanto que há muitos na esquerda que ignoram a realidade para crer que Bernie Sanders não só teria trucidado Trump como o fará novamente (ou Elizabeth Warren por ele) se receber a oportunidade.

 

Outros exemplos são as narrativas alternativas que vemos na Polónia, Hungria, Venezuela, Brasil, Portugal, Inglaterra, etc, etc, etc... dependendo de qual o meio de comunicação que seja usado. Para quem queira informação de qualidade, o dilema chega ao ponto de deixar de se acreditar no próprio meio preferido perante o bombardeamento de informação alternativa e contraditória.  Se eu ler o Washington Post estou de facto a ler notícias solidamente construídas e analisadas ou a ver propaganda anti-Trump e anti-GOP? De certa forma, mesmo estando eu contra os argumentos da direita estridente que domina parte dos media americanos, torna-se um caso em que deixo de saber se as minhas referências não começarão a optar pelas mesmas tácticas para combater os opositores. Não é uma mentira repetidas vezes o suficiente para se tornar verdade, mas nesta guerra basta provocar dúvida.

 

O mesmo vemos no segundo caso: factos científicos. Aqui o problema é a liberdade de opinião. A liberdade de opinião não é um direito, ao contrário do que se costuma afirmar. A liberdade de opinião, seja ela qual for e esteja ou não bem ou mal sustentada em factos, é absoluto facto para todos nós. Ninguém é privado da sua opinião, por muito repressiva que uma sociedade seja. Aquilo de que podemos ser privados é da liberdade de expressar essa opinião ou de a criar de forma livre. Há formas repressivas de reduzir o acesso à informação não desejada, mas há também a forma não repressiva: o bombardeamento da informação falsa. E não há campo onde isso seja mais visível que o da ciência.

 

Os cientistas, por treino, são pesosas altamente cépticas, não só do que os rodeia como dos próprios resultados. É quase impossível encontrar um cientista a afirmar que uma determinada teoria está correcta a 100%. Há sempre espaço para a dúvida, para casos especiais, para excepções causadas por variáveis não conhecidas. É por isso que a ciência avança: porque há sempre alguém que tem dúvida que a explicação existente seja suficiente.

 

No entanto a sociedade não funciona assim. A sociedade acredita na democratização da informação, no poder do contaditório. Isso faz com que se dê peso a mais às dúvidas, quais brechas no edifício teórico, e se dê mais tempo a quem expressa as suas ideias de forma categórica e convincente. É por isso que movimentos como o anti-vacinas ou anti-estatinas conseguem enorme destaque. Porque os seus proponentes pegam em pequenas excepções, em dúvidas ou faltas de convicção dos cientistas, bem como na ignorância científica da população e preconceitos da mesma, para fazer avançar as suas agendas motivadas exclusivamente pelo interesse pessoal.

 

O caso mais claro que existe deste problema do acesso à informação boa e má na internet é o da execrável Jenny McCarthy, que afirmou ter obtido o seu grau académico na "universidade do Google", demonstrando perfeitamente como é possível encontrar informação em favor das convicções pessoais, por mais que estejam demonstradas como erradas. O mesmo se poderia referir à mania da comida orgânica, anti-glúten, veganismo radical, anti isto e anti aquilo.

 

No fundo, e voltando ao meu ponto inicial, o problema torna-se o acesso à informação. Esta está democratizada e não hierarquizada em função da sua veracidade ou verificabilidade. A isto acresce a noção, errada, que toda a gente tem direito à sua opinião (confundido opiniões e factos) sem que tenha que a defender ou sustentar de alguma forma. A internet permite que todas as opiniões sejam tratadas da mesma forma, independentemente do seu valor. E, sendo um repositório de todas as opiniões do mundo, resulta que cada vez menos as teremos.

 

De certa forma, após o quase deserto de informação do passado, temos um jardim do Éden da informação a dar lugar a monoculturas da informação. E isto não é bom.

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Os pios dos ogres

por João André, em 14.08.17

Nos tempos de Chávez a Venezuela entrou num período de experiências de esquerda que foram resvalando em aceleração sempre constante para o autoritarismo. Chávez ia conseguindo manter uma semelhança de democracia à custa do seu carisma que lhe davam apoio de boa parte da população e o mantinham no poder, mesmo perante o desastre para onde ia fazendo o país avançar. Com Maduro a opção da "revolução bolivariana" passou a ser o despotismo directo que só por sorte (eu sei, eu sei...) ainda não deu em guerra civil.

 

Perante o que vamos vendo a Venezuela vai ficando cada vez mais isolada e provavelmente só Cuba ainda ia dando apoio ao regime (sinceramente não sigo o suficiente a situação). Era uma questão de tempo até Maduro cair de podre por pressão externa e interna (pelo menos asism o esperava). Depois veio Trump dizer que não excluía a opção militar para intervir na Venezuela.

 

Ainda não termos visto muitas reacções às declarações é simbólico de como os outros países da região vêem a actual situação venezuelana e da enorme falta de credibilidade que Trump conseguiu "construir" em 6 meses. No entanto, se voltar à carga, Trump poderá conseguir unir de tal forma a região em torno de Maduro que este julgará que Chávez lhe apareceu outra vez na forma de um passarinho a piar tweet tweet. Nem é de excluir que, se Maduro começar a executar pessoas e disser que são traficantes, Trump acabe por dar uma volta de 180 graus e arranje um novo best friend forever.

 

E, de permeio, os venezuelanos vão sofrendo de ogre a ogre.

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Na semana passada estive na principal conferência científica da minha área técnica e vi que o foco continua a ser quase exclusivamente (ou pelo menos com esmagador peso) na investigação dita fundamental. A investigação aplicada pareceu quase ausente e poucos exemplos existiram entre apresentações orais e de posters que recaíssem em casos industriais, mesmo a nível piloto.

 

Sempre existiram diferenças entre o tipo de investigação que os países tendem a apoiar (habitualmente por razões históricas). A Alemanha sempre teve o hábito de ter uma investigação muito aplicada, resultado de as empresas do seu Mittelstand normalmente deixarem determinado tipo de investigação para as universidades sob a forma de contractos. Outros países perferiram investigações mais fundamentais, para desenvolver conceitos absolutamente novos, que pudessem ser disruptivos nas suas indústrias. Esta é uma generalização grosseira (normalmente este tipo de foco é mais específico da instituição que do país), mas serve para dar uma ideia da separação entre os tipos de investigação.

 

Só que hoje todas as universidades parecem optar por investigação fundamental e cada vez menos seguir pelo lado da aplicada (pelo menos no que diz respeito à engenharia). Pessoalmente considero isso um resultado dos rankings de universidades, os quais colocam um peso muito elevado na componente de investigação, especialmente pelo lado das publicações. Ora, dado que as empresas raramente permitem a publicação dos seus resultados, isso faz com que as universidades, para poder manter um númro de publicações aceitável, optam pelo atalho de fazer apenas investigação fundamental, mais rápida e, por via do seu carácter completamente exploratório, menos passível de sofrer com resultados negativos.

 

Isso torna as uniersidades - ou os seus professores - paradoxalmente mais conservadores na sua escolha de temas. No ciclo actual de financiamento a apresentação de resultados preliminares e a demonstração de capacidade (sob a forma de competências ou equipamento) para executar a investigação proposta tornam-se factores determinantes para a concessão do projecto. Isso faz com que os professores acabem a propor inúmeras variações sobre os mesmos temas, conseguindo financiar projectos consecutivamente com os resultados do projecto anterior. Uma compração seria investigar teoricamente a aderência de pneus à estrada propondo de cada vez novos desenhos para os perfis, novos materiais ou novas dimensões, sem nunca avançar para um produto final.

 

O resultado é um mundo científico que cada vez mais se desliga do mundo industrial devido ao risco que existe de fazer investigação que não permite a publicação ou, devido à sua natureza, dará origem a menos publicações para a mesma quantidade de trabalho. Em resposta a isso as empresas começam a fazer a sua própria investigação, a qual recai também nos temas com que os seus cientistas se sentem confortáveis e não introduzem quaisquer verdadeiras inovações, apenas fazem avanços incrementais. Isto sucede especialmente porque a indústria vive do conceito do retorno sobre o investimento (Return on Investment - ROI, no jargão inglês). Uma investigação mais arriscada demora mais tempo e custa mais dinheiro, tanto em desenvolvimento como em novo equipamento e na implementação. A opção é então por projectos mais conservadores e seguros.

 

Temos então que as opções que a sociedade moderna fez para dar um impulso à investigação - criar rankings e colocar grande peso na publicação científica - poderá causar pelo menos em parte o efeito oposto. Claro que estou a simplificar o caso, mas ver, pelo 15º ano consecutivo, o tema de mixed matrix membranes para remoção de dióxido de carbono, uma solução que a indústria continua a rejeitar como pouco relevante, deixa-me sempre desiludido com a investigação de professores que, de outra forma, admiro.

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A "obscenidade" das transferências no futebol

por João André, em 07.08.17

Neymar Jr. transferiu-se para o Paris St. Germain pelo valor mais alto da história do futebol: 222 milhões de euros. Com este valor vieram os adjectivos: obsceno, pornográfico, ofensivo, etc. Não se trata apenas dos 222 milhões da transferência, mas também dos 30 milhões líquidos por época, os 38 milhões em pagamentos aos agentes envolvidos (incluindo o pai de Neymar). Assumindo uma taxa de 50%, o custo da transferência será de 112 milhões por ano ao longo de 5 anos (assumindo que o salário se mantém constante, o que nunca é certo).

 

A primeira pergunta que se impõe é: conseguirá o PSG pagar tal investimento sem infringir as regras do Fair Play financeiro da UEFA? Esta pergunta é relevante não apenas de um ponto de vista financeiro mas também moral: se o clube consegue pagar os custos, como dizer que é imoral?

 

 

Também aqui.

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Pensamento da semana

por João André, em 29.07.17

Vale tanto compreender a segunda lei da termodinâmica como o solilóquio de Hamlet.

Nos dias de hoje talvez valha mesmo mais.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Gentil Martins: opiniões ou bocas

por João André, em 17.07.17

Em 1955, Albert Einstein escreveu o prefácio para o livro de Charles Hapgood, o qual se dedicava a (tentar) destruir a teoria do movimento dos continentes [1]. Hapgood não gostava do conceito e parecia ser defensor da ideia de pontes terrestres entre continentes para explicar a existência de espécies semelhantes (quando não a mesma espécie) de animais terrestres e plantas em continentes diferentes e não adjacentes. Mais tarde, a teoria da deriva dos continentes (na realidade de placas, mas isso confirmou-se apenas mais tarde) acabou por se afirmar, devido ao trabalho de outros cientistas.

 

Em 2007 James Watson, um dos cientistas premiados com o Prémio Nobel da Química por terem descoberto a estrutura do ADN, fez declarações no sentido de os africanos serem menos inteligentes que "nós" (ocidentais brancos, presume-se). Apesar de este ser um tópico muito controverso, há cada vez mais indicações de os resultados do passado em que Watson se basearia serem muito devidos a condições socio-económicas (e ambientais) e também a questões de percepção (uma auto-percepção do grupo a que se pertence como menos inteligente foi positivamente correlacionado com resultados piores em testes de QI). O irónico foi que, pouco tempo depois das declarações de Watson, os resultados de análises ao seu ADN tenham indicado uma forte componente africana subsariana.

 

Esta introdução serve apenas para indicar que o argumento de autoridade é dos piores que existem em discussões sérias. Um especialista é, por definição, tal apenas e só no seu campo de especialidade. Quanto mais lato for o campo, menor será a sua competência. Quando terminei a minha tese de doutoramento eu poderia ser considerado o principal especialista mundial no tema (para quem tenha curiosidade: o uso de membranas de matriz mista para conversões enzimáticas), mas era um tema com um único especialista: eu próprio. Se eu começasse a expandir o campo (membranas de matriz mista, membranas em geral, membranas em conversões enzimáticas, etc, eu deixava rapidamente de ser um especialista e passava ser pouco mais que um leigo).

 

Isto veio-me à memória acerca da polémica sobre as declarações de Gentil Martins. Uma das defesas feitas (por outros) em seu nome foi o seu passado como médico, como alguém que sempre lutou por aquilo em que acreditou e que muito fez pela nossa sociedade. Tudo isto é verdade, mas não torna as suas declarações (quaisquer que sejam, mesmo que apenas sobre o tempo) mais ou menos válidas. Estas devem ser sustentadas por si mesmas.

 

Deixo então o argumento de autoridade de lado e olho apenas para as declarações proferidas por alguém a um jornal: «[A homossexualidade] é uma anomalia, é um desvio da personalidade». Ora esta visão está já mais que desmontada e demonstrada como falsa. Entrar por argumentos técnicos que podem ser encontrados por quem o deseje não adianta nada (ademais por alguém que, como eu, é apenas leigo). Deixo um único link, para alguém que já pegou neste assunto múltiplas vezes, a Ana Matos Pires, no jugular.

 

Vis também um outro argumento: que Gentil Martins tem direito à sua opinião. Aqui há duas perspectivas que devem ser analisadas. A primeira é a do direito à opinião, mas a existência de um direito não torna a pessoa imune ao dever. Aliás, o facto de existir um direito deveria estar sempre associada ao dever correspondente. Neste caso, o direito à opinião deve vir associado ao dever de apoiar essa opinião em factos, não preconceitos. Gentil Martins não o fez. Como deveria ser lembrado, toda a gente tem direito à sua opinião, mas não aos seus factos. Além disso há que lembrar que o direito à opinião não o escuda de ataques à mesma.

 

O outro lado do direito relaciona-se a quem profere a opinião. Nota: aqui contradigo-me quando aponto a importância da posição de Gentil Martins, mas faço-o conscientemente. Se a importância da opinião de Gentil Martins não deve ser sobrevalorizada apenas por vir de quem vem, já o alcance da mesma deve ser considerado. Gentil Martins é uma voz com peso e relevância, pelo que a sua contribuição, especialmente num debate feito com argumentos que poderão teoricamente tocar na sua área de especialidade, é importante. Por isso mesmo a opinão de Gentil Martins tem que vir apoiada por factos e sustentada por estudos actuais e deve reflectir, senão a opinião dominante (não tem que o fazer), pelo menos uma oposição a ela que tenha sustentação mínima.

 

Gentil Martins não deu, portanto, uma opinião. Transmitiu a sua preferência pessoal. Vindas de mim, se alguém me quisesse entrevistar, tais declarações seriam apenas "uma boca". Vindas de Gentil Martins, desta forma, não chegam a formar uma opinião.


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[1] - A Short History of Nearly Everything, de Bill Bryson. Capítulo 12, "The Earth Moves", edição em pdf.

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Apontar o dedo mas em direcção ao futuro

por João André, em 20.06.17

Lamento: não sou um especialista em florestas, ordenamento do território, incêndios, limpeza de matas, logísticas nem nada do género. Sou um "tudólogo" não encartado que merece o epíteto de generalista que sabe nada sobre tudo. Sou um especialista que sabe tudo sobre nada. Não sei a quem apontar o dedo a não ser aos mesmos de sempre: ao ministério, às autarquias, aos proprietários, à Natureza, etc.

 

Andei no passado pelos lados do Pedrógão Grande mas não conheço a zona. Sou de Leiria mas Pedrógão Grande fica mais perto de Coimbra que de Leiria. Estudei em Coimbra mas para Natureza na zona fui à Pampilhosa da Serra mais frequentemente (e ainda assim pouco).

 

Em resumo: sei pouco sobre o assunto. Gostaria de ser como os que sabem muito. Como os jornalistas, comentadores, ministros e secretários de estado, autarcas e responsáveis civis. Ou aspirantes a tal.

 

Sei apenas isto: 1) que morreram pessoas que não necessitavam de morrer; 2) que se poderia fazer mais (pode-se sempre fazer mais) para evitar as condições existentes e que há especialistas (daqueles a sério) que há décadas explicam o quê (a vários governos de todas as cores políticas); 3) que a Natureza é por vezes indomável e que por muito que nos preparemos há sempre o risco de não ser suficiente.

 

Neste momento não me interessa saber quem foi culpado. Apontar o dedo não trará ninguém à vida. Gostaria apenas que as lições fossem aprendidas e que as medidas fossem tomadas, não apenas em Pedrógão Grande mas no resto do país. E se não forem tomadas, que alguém possa ser acusado de homicídio por negligência (ou outro crime no caso de destruição de propriedade) quando a situação se repetir.

 

O passado não se muda com um apontar de dedo. Já o futuro poderá ser mudado com os incentivos correctos. Só é preciso acabar com as politiquices. E os "especialistas" de trazer por casa. Ou de falar na televisão.

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Viver as escolhas que fazemos

por João André, em 02.05.17

Li hoje o enésimo post sobre aquilo que as pessoas, ao chegarem ao fim das suas vidas, lamentavam. Em quase todos os casos se fala em lamentar o que não se fez e não aquilo que se fez. Lamentamos não ter passado mais tempo com a família, não ter aceite aquela oportunidade do outro emprego, não ter feito uma certa viagem, etc.

 

Confesso que ainda me falta algum tempo para poder ser considerado como estando "no final da minha vida", mas este raciocínio, como descrito acima, parece-me conter uma falácia. É normal que lamentemos aquilo que não fizemos precisamente porque não o fizemos. Envolve um desconhecido que podemos glamorizar e imaginar como perfeito. Aquilo que fizemos é conhecido, dissecado e esquecido, fora um ou outro elemento mais memorável. O que não fizemos pode ser construído como queremos.

 

Infelizmente, quando este tipo de posts (ou estudos) surgem, nunca há ninguém a fazer a mais simples das perguntas: porquê? Porque razão lamenta não ter feito viagem X quando fez viagens A, B e C. Porque razão lamenta não ter aceite posição A em vez de B? Fiz ocasionalmente esse exercício. A resposta é invariavelmente dada no condicional: «poderia ter sido...», «se calhar teria...», «quem sabe se não teria...». Não há uma certeza absoluta sobre o melhor desfecho dessa escolha. A única excepção é o lamento de não ter passado mais tempo com família.

 

Pessoalmente opto por outra forma de pensar ou viver: aceitar e perguntar a mim mesmo o que posso retirar daquilo que fiz, de que maneira aprendi, cresci. As escolhas definem-nos, não só pelo que demonstram sobre nós quando as fazemos mas também pela forma como nos influenciarão no futuro. Aceitá-las, mais que lamentar tê-las feito, parece-me melhor filosofia do que esperar pelos últimos anos e reimaginar uma história pessoal contrafactual. Especialmente quando a factual pode e deve ser tão interessante como a outra.

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I&D e Inovação

por João André, em 26.04.17

Todos os anos a empresa onde trabalho tem um dia dedicado a criar novas ideias tecnológicas que possam ser usadas. Várias empresas são convidadas para apresentar ideias que sejam interessantes e, se existir potencial, poderão ser convidadas a participar de um projecto. Isto, claro, à parte quaisquer ideias ou projectos de I&D que sejam desenvolvidos internamente ou em colaboração com parceiros. O objectivo é apenas ter um dia dedicado a descobrir o melhor que existe em oferta no mercado.

 

No início do dia há sempre um convidado que faz um "discurso motivacional". Desta vez tivemos um convidado que falou sobre inovação em grandes empresas e como as grandes empresas frequentemente ficam tão presas no seu ciclo de sucessos passados e modelos de negócio que (até ver) funcionam perfeitamente, e deixam de investir em inovação. Para ilustrar o seu ponto de vista, pegou no relatório da PwC sobre inovação e apresentou alguns números.

 

Fê-lo também usando comparações entre empresas de indústrias semelhantes. Volkswagen vs Tesla, IBM vs Apple, Microsoft vs Google (Alphabet...), etc; e ia pedindo para indicar qual seria a empresa com mais orçamento de I&D e a mais inovadora. O top-10 em ambas as categorias na lista da PwC está abaixo.

 

i&d vs inovacao.JPG

Valores em milhares de milhões de dólares.

 

Nesta comparação, sublinhou como a VW tem o orçamento de I&D mais elevado do mundo, mas não consegue surgir nas empresas mais inovadoras. Foi aqui que me comecei a irritar com a apresentação. É já comum este tipo de "gurus" apresentarem conclusões baseadas em conceitos que formaram antes de elaborarem hipóteses, mas este caso aborreceu-me mais que o habitual. A razão para isso é simples: quis fazê-lo para demonstrar que investimento em I&D, mesmo como proporção das receitas, não correspondem a mais e/ou melhor inovação.

 

Nas palavras imortais do Dr. Homer Simpson: Duh!... Penso que qualquer pessoa o poderia dizer. Gastar dinheiro, só por si, não significa nada. Num caso absurdo, se a VW gastar mil milhões de dólares em bancos de células, poderia dizer que o gastava em I&D, mas provavelmente não melhoraria em nada a sua inovação.

 

O que falta na análise são duas coisas: a) como se define inovação e, b) como se qualifica o investimento de I&D?

 

Inovação

O livro do apresentador dá uma definição e muitas outras poderão ser usadas. No entanto, o ranking da PwC foi criado após consultas com especialistas em inovação. Ou seja, é um ranking completamente qualitativo e subjectivo e provavelmente ignorará os muitos milhares de empresas que são essencialmente desconhecidas e muito mais inovadoras que uma Apple ou uma Tesla.

 

Pense-se na Tesla. Qual a sua inovação? Não criou o conceito de carro eléctrico. Não produziu sequer o primeiro para venda. É um carro tecnologicamente avançado, mas não tem nada de excepcionalmente novo. Muitos "especialistas" em gestão de inovação apontam para o seu software, mas mesmo este nada tem de especialmente inovador. A principal inovação da Tesla foi no seu modelo de negócio - vender directamente ao consumidor - e mesmo este está a ser parcialmente abandonado. Há muitas outras inovações, é certo, mas não serão, no seu alcance e conceito, diferentes das de uma Ford que produz um novo motor a gasolina de 1.000 cc com 100 hp ou de uma Mercedes que cria um novo sistema de estacionamento automático.

 

O mesmo se pode apontar em parte para a Apple. O iPod não foi inovador pelo que trouxe - já existiam leitores de MP3 - mas pela sua qualidade e design e, essencialmente, pela sua ligação ao iTunes. O iPad não foi novo - a Microsoft tinha apresentado o seu Tablet PC em 2001 - mas foi apresentado não como um novo tipo de PC mas antes como um novo produto. Quando a Apple trouxe o iPhone para o mercado foi a primeira verdadeira e completa inovação tecnológica revolucionária que apresentou na sua i-Family. Não foi pequena e não pretendo menorizar o que foi feito, mas a percepção da inovação na Apple é influenciada pela forma como alterou a cultura popular. No entanto, a maior inovação que a Apple trouxe foi diferente e económica: o seu modelo de negócio. Conta, obviamente, como inovação, mas outras empresas que terão feito o mesmo e de forma mais influente (Google, Amazon, Facebook) aparecem abaixo da Apple.

 

Ou seja: na impossibilidade de colocar números no ranking de inovação, as empresas foras classificadas em função do élan que possuem. Dificilmente a melhor forma d emedir inovação.

 

O investimento em I&D

Este é um aspecto mais difícil de avaliar. Comparando com a VW com a Tesla, chegamos à conclusão que o orçamento da Tesla é cerca de 5% do da VW. Em parte isto deve-se ao tamanho das empresas. A Tesla tem cerca de 5% dos empregados da VW e um alcance das operações mais pequeno. Além disso, a VW está distribuída também no negócio das partes, tem divisões de serviços, logística, etc.

 

Além disso, a VW provavelmente terá uma forma diferente de qualificar os orçamentos, mais em linha com o de outras empresas alemãs (das que conheci). As empresas alemãs têm o hábito de considerar uma despesa de I&D tudo o que esteja tangencialmente relacionado com tal. Um novo equipamento, mesmo que já em tamanho industrial, será pago desse orçamento. O mesmo para todos os custos com ele relacionado (instalação, teste, início de funções, avaliação, manutenção, etc). O mesmo se pode dizer para actividades de debottleneckingtroubleshooting, (lamento mas não conheço termos portugueses) ou simples melhorias incrementais nos seus processos ou sistemas.

 

Outras empresas poderão não o fazer. Conheci empresas (especialmente americanas) que preferiam colocar qualquer investimento acima de um determinado valor (por exemplo, 200 mil dólares) na categoria de "investimentos", mesmo quando destinado a I&D. Isso automaticamente baixa o valor investido em I&D. Se a Tesla usar esta prática (e creio que a usa, olhando para o seu orçamento de I&D - baixíssimo), isto ajuda a explicar a sua diferença para a VW. Algumas outras empresas fazem outsourcing da investigação, decidindo quais as áreas interessantes e escolhendo parceiros. Isso transfere o investimento em I&D, que é indirecto, para categorias como "parcerias" ou "serviços".

 

Por outro lado, o investimento da VW em I&D é de 11,6% das suas receitas (12.3 mil milhões a dividir por 105,651 mil milhões), enquanto que o da Tesla é de 17,7%. O da Apple, no entanto, é de apenas 3,5%, o que pode ser resultado de receitas elevadíssimas ou de outras práticas de contabilidade financeira.

 

Eu não concluo nada de diferente de todos os gurus que decidem que não existe relação entre orçamento de I&D e inovação (por outro lado não sou nenhum guru nem aspiro a sê-lo). Só que olho para os valores de forma crítica. A VW ou a Microsoft são empresas líderes nas suas indústrias e que têm sabido reinventar-se constantemente, mesmo quando enfrentam revezes graves. Uma Tesla já poderá ser muito inovadora, mas não sei se existirá daqui por 10 anos (prevê ter quase todos os seus lucros para lá de 2020).

 

Quando se tenta avaliar inovação, convém, antes de tudo, olhar para tendências históricas e descobrir aquilo que foi feito de forma correcta no passado e tentar adaptar tais lições ao presente. A gestão eficaz não muda só porque a tecnologia muda. No entanto, para quem quer vender um livro, o mais importante são os próximos 50 minutos mais 10 minutos para perguntas.

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25 de Abril

por João André, em 25.04.17

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Vacinação: a única escolha civilizada

por João André, em 19.04.17

Li hoje, atrasado como costumo estar no que respeita a notícias vindas de Portugal, que uma jovem de 17 anos morreu devido a sarampo, contra o qual não estava vacinada. De permeio leio também que contraiu a doença devido ao contacto com uma bebé de 13 meses igualmente não vacinada. Aqui é importante realçar que nem a bebé nem a jovem foram vacinadas por motivos não pessoais: a jovem tinha tido uma reacção alérgica quando vacinada em criança e a família escolheu não mais avacinar. A bebé não foi vacinada por «motivos clínicos», de acordo com o hospital onde ainda está internada.

 

É importante fazer esta distinção. A reacção alérgica às vacinas é rara mas existe. Poderia provavelmente ter sido controlada e não significaria que a jovem não podia ser vacinada. Antes que a sua vacinação (provavelmente parcial) deveria ter sido acompanhada por um médico. Não sei se poderia ter sido protegida contra o sarampo, mas talvez pudesse ter tido outras protecções imunitárias. Não sabemos. No caso da bebé, os motivos clínicos são provavelmente devido a um sistema imunitário mais frágil e que não suporta mesmo as vacinas com os seus agentes em forma mais atenuada. A morte (e a doença da bebé) é um azar na sua mais pura forma mas não deixa de ser uma tragédia.

 

É no entanto uma tragédia que coloca o país a falar dos movimentos anti-vacinação. Estes movimentos argumentam muita coisa, mas baseiam-se essencialmente numa coisa: ignorância. Há o velho argumento (completamente falso) da ligação entre vacinas e autismo. Há o argumento do uso de químicos nas vacinas (até eu tenho reservas em relação ao uso de monóxido de dihidrogénio) que demonstram pura ignorância (e estupidez na forma como rejeitam argumentos) sobre aquilo que é química (tudo o que vemos é "químico"). E quando os argumentos são, todos eles e sem excepção, desmontados, os antivaxx simplesmente escolhem outro tema, usam argumentos ignorantes ou falsos e voltam a gritar.

 

Infelizmente isto está a causar um aumentos dos surtos de doenças que há muito tinham quase desaparecido. Sarampo, tosse convulsa e outras começam cada vez mais a reaparecer, quando estavam já a caminho de erradicação (pelo menos em determinadas áreas). Se há área da medicina onde o sucesso é completa e absolutamente indiscutível é o das vacinas. Sabemos porque razão as vacinas funcionam e sabemos porque razão a vacinação de uma população é eficaz. Os vacinados ficam protegidos (a quase 100%, dependendo da doença) e protegem-se uns aos outros e aos (idealmente muito poucos e por razões clínicas) que não são vacinados.

 

Não vacinar por opção não é só estupidez: é um acto potencialmente perigoso e mortal, não só para a criança não vacinada mas também para os outros. Ao não se vacinar uma população, as pessoas não vacinadas deixam de receber a protecção da vacina nem a imunidade colectiva, mas permitem aos agentes patogénicos trocar informação e adaptar-se à existência de vacinas. Ou seja, a não vacinação aumenta o risco de forma directa a quem não é vacinado, de forma indirecta a quem não pode ser vacinado e de forma mais subtil a toda a população, inclusive a vacinada.

 

É por isso que, ao contrário do Ministro da Educação, eu sou da opinião que as escolas deveriam exigir a vacinação aos seus estudantes. Um rastreio deveria obviamente ser feito para saber se a vacinação é possível, mas nos cerca de 99% dos casos em que o é, as crianças ainda não vacinadas deveriam sê-lo sob pena de não poder frequentar a escola.

 

Haverá muita gente que considerará isso um ataque à liberdade individual. Infelizmente tais pessoas demonstram igualmente ignorância. A vacinação, como expliquei acima, não é um escolha pessoal, que afecta apenas a pessoa não vacinada. É uma questão de saúde pública. Mais, a escolha não afecta directamente a pessoa que a faz, mas habitualmente os seus filhos. Da mesma forma que pais de uma criança que viage sem cinto no assento da frente de um carro podem ser responsabilizados criminalmente no caso de morte por acidente, os pais deveriam ser igualmente responsabilizados no caso dos filhos contraírem doenças contra as quais poderiam ser vacinados.

 

Poucas invenções fizeram tanto para melhorar o mundo. O lado da vacina é o da civilização inteligente e solidária. O lado anti-vacinação, seja pelas razões que for, é o da barbárie. É nosso dever lutarmos pela primeira. Por nós, pelos nossos filhos e por toda a gente que vemos.

 

Adenda importante:

Leitura complementar, obrigatória e muito melhor e mais informada: Moda anti-vacinas é chorar de barriga cheia, de David Marçal. A sério, leiam, fazem a vós mesmos um favor.

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O clima tóxico do debate futebolístico

por João André, em 18.04.17

Ao ler os comentários desportivos, entre jornais e blogues, descubro que é dominado por um facciosismo clubístico ou sectário (quando intra-clube) que de tão barulhento não deixa espaço para quase nada mais. É um facciosismo que se repete mas bastante amplificado quando passa para as televisões, onde não existem debates, apenas gritos de claques engravatadas. Se eu passar os olhos pelo meu feed do Facebook descubro as mesmas tendências, com posts dedicados a alfinetadas (quando escritos por pessoas educadas), ataques declarados (quando o autor de vê como assertivo) ou mesmo insultos grosseiros.

 

Não é nada de novo. Quem se sentasse à mesa de um café há cerca de 20 anos já o poderia sentir. As conversas eram fortemente tingidas pelas cores clubísticas e envolviam habitualmente um certo nível de oposição aos outros clubes. Isto era normal e saudável, sendo que raramente as discussões atingiam níveis violentos, mesmo que apenas oralmente. Ainda assim os jornais e televsões mantinham posições mais ponderadas, mesmo quando orientados para um clube.

  

 

Também aqui.

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Stalking espacial

por João André, em 15.04.17

Um aspecto menos chato de viagens longas é a oportunidade de me pôr (pelo menos um pouco) em dia com os filmes mais (ou menos) recentes. Nesta última viagem vi vários, um melhores que outros (gostei bastante de Arrival e The Girl on the Train). Aquele sobre o qual escreverei é no entanto um filme com vários lá dentro e todos eles falhados: Passengers.

 

Nesta altura não incomodarei com a história do filme: numa viagem interespacial de 120 anos com destino a um novo planeta a ser colonizado surge um problema e um dos passageiros é acordado a 90 anos da chegada. Passa uns tempos sozinho, sente-se só e decide acordar uma mulher por quem se apaixona ao ver os seus vídeos. Ela obviamente apaixona-se por ee até descobrir que ele a acordou para morrer no espaço sem nunca ver o destino. Depois acontecem as tragédias e eles acabam por superar as dificuldades e as próprias diferenças. Fim.

 

Acto I - despertar

Jim é um mecânico (o pod dele diz "engenheiro mecânico" mas depois ignora isso o resto do tempo) que é um passageiro a bordo da nave Avalon que vai a caminho de uma nova colónia espacial. Teoricamente deveria dormir, tal como os 4.999 outros passageiros e os 256 (ainda andamos nos tempos do ZX Spectrum, aparentemente) membros da tripulação. Toda a gente deveria acordar da viagem de 120 anos a 4 meses do destino para poder ser preparada para as sua novas funções na colónia.

 

Depois de um impacto com um campo de asteróides (que nos filmes conseguem estar sempre miraculosamente perto uns dos outros) há um problema com o pod de hibernação e Jim acorda. Depois de descobrir que está sozinho anda pela nave (que se torna essencialmente uma nave de cruzeiro para recreação pessoal) e acaba a ter conversas com o barman-andróide Arthur. Fica nisto um ano até que o desespero se instala e contempla o suicídio. Este período é obviamente interessante, mas demasiado curto e mal explorado. Jim experimenta tudo o que a nave tem para oferecer, tenta entrar na zona de hibernação da tripulação para os acordar (claro que falha) mas falta uma verdadeira fase de instrospecção. A sequência de entretenimento vai sendo marcada pelo crescimento capilar e acaba abruptamente na vontade de acabar com tudo. E o filme está a perder gás.

 

Acto II - a bela adormecida

Entra Jennifer Lawrence, a bela adormecida chamada Aurora. Jim vê-a no seu pod e vasculha os arquivos da nave para ver os seus vídeos de apresentação e ler os seus trabalhos (ela é escritora). Jim apaixona-se (obsessiona-se seria uma palavra mais adequada, mas fiquemos pelo seu próprio termo) e debate (com ele mesmo e com o barman) se a deve acordar. Obviamente que acaba por o fazer (seria um belo chachet para Lawrence se só dormisse) mas finge que não sabe de nada.

 

Depois de uma fase de desespero, Aurora parece adaptar-se bem à nova realidade. Vai "saindo" com Jim, cria uma ligação com ele (ajuda que ele seja Chris Pratt, Adam Driver talvez tivesse mais azar) e acaba por se apaixonar pelo "último homem na Terra" (na nave, mas não vamos ser esquisitos). Tudo corre muito bem até que Arthur, sem noção dos sagrados deveres de confidencialidade dos barmen, acaba por lhe dizer que foi Jim que a acordou. Ele explica que se apaixonou, que debateu sobre se a devia acordar e decidiu-se a fazê-lo.

 

Aqui temos um segundo filme depois d'O Último Homem na Terra: A Assediada. Aurora deveria ter medo de alguém que obviamente não bate bem, mas aparentemente só tem fúria. Se num primeiro momento isso é normal, depois o medo deveria instalar-se, especialmente quando ele continua a persegui-la através de câmaras e da instalação sonora da nave. Ela não lhe pode fugir mas parece que também o aceita. Tenta evitá-lo mas não se livra dele (mesmo quando tem essa oportunidade). Infelizmente esta fase é muito mal escrita. Lawrence dá tudo o que tem, e é muito, mas não tem nada de especial com que trabalhar. O filme está feito para termos pena do pobre Jim e tudo conspira para isso.

 

Acto III - tudo corre mal

Este é o problema de muitos filmes de ficção científica hoje em dia. Mesmo quando o filme é acerca de outros temas, há sempre imensas coisas que podem correr mal. Neste caso tudo. Primeiro vemos que há funções que começam a não funcionar. Mais tarde vemos um membro da tripulação (Laurence Fishburne) a acordar devido a outro defeito no pod (que jeito que dá que seja da tripulação quando há tantos passageiros que poderiam acordar).

 

Ele acorda, consegue entrar nas partes do navio onde eles não podiam, diagnostica os problemas e descobre que irão todos morrer se não resolverem o problema original e de imediato morre por complicações de ter dormido demasiado tempo e o pod não ter tido as preocupações necessárias ao acordá-lo (deveria ter lavado os dentes). Ou então era porque era preto e isso não pode ser.

 

Jim e Aurora aproveitam ter ficado com a bracelete de Fishburne (não me lembro se tinha nome) e começam a ir aos sítios a que não tinham acesso e acabam por, depois de uma longa sequência de-tudo-corre-mal, salvar a nave. Jim sacrifica-se para o fazer quando se lembra que existem ainda mais 4.998 passageiros e 255 membros da tripulação e Aurora fica acometida de síndrome de Estocolmo e salva-o.

 

Epílogo

Depois do salvamento, Jim descobre que pode colocar Aurora a hibernar mas ela decide que prefere passar o resto da vida com ele numa nave de luxo (afinal de contas, é Chris Pratt) e aceita a proposta de casamento de Jim (que pena não vermos o barman-Arthur a oficiar a cerimónia com os robtos de limpeza a levar a aliança). O final é com os restantes passageiros a acordar e descobrir que a nave foi transformada numa quinta, incluindo galinhas, e ouvimos a voz-off de Aurora a dizer... qualquer coisa de profundo e de enorme significado que encontraremos em 348 memes nos próximos 3 meses. Também vemos Andy Garcia durante 15 segundos (deve ter ido visitar um amigo ao set e acabou como extra).

 

Conclusão

Temos então o filme "Último Homem na Terra", o filme "Stalker" e o filme "Horror no Espaço" tudo com uma camada delicodoce de romance. Nenhum convence. É pena, porque os dois primeiros teriam sido extremamente interessantes (o último era dispensável). Mas entretém e tem Jennifer Lawrence e Chris Pratt. E assim acontece.

 

A Ciência

Bom, a ciência do filme. Não falo. Há demasiadas coisas simples mal feitas.

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Depois do meu post pré-eleições holandesas acabei por não ter tempo de comentar os resultados. Tento agora corrigir isso, mesmo que a notícia já não esteja fresca.

 

O comentário mais comum aos resultados das eleições recaiu sobre a aparente derrota de Geert Wilders. As sondagens davam-lhe uns meses antes das eleições a possibilidade de vir a ser o partido (gosto de usar os termos Wilders e PVV como sinónimos. O facto de o PVV ter apenas Wilders como membro e não existir fora do raio de influência da sua cabeça oxigenada justifica esta opção) mais votado e isto acabou por não se verificar. Não só isto era parcialmente esperado (o PVV tem quase sempre piores resultados eleitorais que aqueles que as sondagens prevêem) como terá sido talvez um desfecho mais ao gosto de Wilders. Os restantes partidos tinham prometido não entrar num governo que incluísse o PVV e, mesmo que o VVD de Rutte renunciasse a esta promessa, nunca conseguiria governar sem mais apoios para lá de Wilders, o que efectivamente garantiria que o PVV continuaria na oposição.

 

Ainda cedo Wilders decidiu não fazer campanha, citando razões de segurança. Mesmo que as suas preocupações fossem justificadas - o que não é de maneira nenhuma garantido - isto convinha a Wilders, que certamente não queria a responsabilidade de ser o partido mais votado sem poder liderar um governo. Uma vitória obrigá-lo-ia a assumir uma postura mais responsável e mais alinhada com o "sistema", algo de que Wilders foge como o diabo da cruz. Resumindo-se a uma campanha de twitter e com aparições ocasionais na televisão, Wilders manteve a presença sem arriscar muito.

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Acima escrevi que Wilders teria aparentemente sido derrotado. Aparentemente em parte porque de facto não lhe teria interessado vencer, mas também porque o resultado só aparentemente seria considerado uma derrota depois de crescer o eleitorado cerca de 44%, com mais de 400 mil votantes extra. Além disso passou de um distante terceiro lugar para o segundo. Por último, porque conseguiu que outros partidos assumissem o seu discurso.

 

Wilders tinha vindo a radicalizar o seu discurso nos últimos anos e acabou num manifesto eleitoral de uma página com metade dos pontos dedicados aos seus ataques aos muçulmanos. Numa tentativa de controlar o seu deslize, Rutte tinha vindo a adoptar um discurso semelhante e culminou numa carta aberta aos holandeses onde dizia sobre os estrangeiros: «Sejam como nós ou vão embora» (tradução livre do holandês «Doe normaal of ga weg»). Mesmo que ignoremos esta carta altamente populista e, sim, xenófoba (os holandeses são heterogéneos o suficiente para terem grupos de Hendrick's e Ingrid's que poderiam ser considerados como diferentes), outras atitudes de Rutte e do seu provável futuro parceiro de governo CDA vinham a ser caracterizadas por ataques populistas iliberais.

 

Rutte beneficiou ainda nos últimos dias de campanha da guerra de palavras (e algo mais) com a Turquia, num confronto legítimo que lhe permitiu mostrar pose de estadista e ao mesmo tempo mostrar uma face de duro para com estrangeiros muçulmanos, defendendo os direitos dos holandeses. O caso poderia ter sido favorável a Wilders, mas a sua ausência do terreno atirou com o protagonismo para Rutte, que aproveitou.

 

Na verdade, o único grande perdedor destas eleições foi o PvdA (trabalhistas, de Dijsselbloem) que perdeu cerca de 75% dos votos em relação a 2012 e caiu de 38 para 9 deputados. Uma total incapacidade de se distinguir do VVD no governo, independentemente de qualquer bom trabalho feito, acabou por empurrar os eleitores para partidos que oferecessem algo de diferente. A maioria dos partidos acabou por beneficiar da mudança de voto por parte de 1.7 milhões de eleitores.

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O mais óbvio beneficiado disto foi o GL (GroenLinks, verdes) que cresceu mais de 300% com 700 mil de votos mais e chegou aos 14 deputados. De forma semelhante beneficiaram o CDA, o D66 (cerca de 500 mil votos extra) e vários pequenos partidos. Os 2 milhões de votos perdidos entre VVD e PvdA não bastam para compensar os mais de 3 milhões de votos extra conseguidos pelos pequenos partidos. A diferença veio acima de tudo do aumento de participação eleitoral, a qual chegou aos 82%.

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O próximo governo será logicamente liderado por Rutte e terá provavelmente como parceiros o CDA e o D66. Isso dá-lhe 71 dos 76 deputados necessários para governar. Os restantes poderão vir de um dos partidos mainstream mais pequenos (CU - União Cristã - com 5, PvdA com 9), do GL (com 14 deputados, mas uma união muito improvável) ou arriscará apoios parlamentares ocasionais jogando com as agendas dos partidos mais pequenos (como o PvdD - Partido dos Animais, o 50+ ou outros). Pessoalmente aposto numa integração de elementos do PvdA sem apoio parlamentar mas usando os mesmos para conseguir acordos pontuais para fazer passar a sua agenda. As próximas semanas de preparação de um programa de governo conjunto darão a resposta.

 

É fácil ficar entusiasmado perante a vitória de Rutte (apesar da perda de 10% dos votos), o surgimento do GL, a subida do D66 ou o ressurgimento do CDA. Igualmente a subida de participação eleitoral é um óptimo sinal, mas a verdade é que há nuvens no horizonte. O populismo xenófobo platinado de Wilders subiu significativamente e arrastou partidos mais do centro consigo.Não teve uma vitória arrebatadora mas tampouco desapareceu. Antes se pode dizer que ganhou um compasso de espera. A palvra, no que diz respeito á Europa, está agora nas mãos de Le Pen e Petry. Só se pode esperar que franceses e alemães não continuem a reiterar esta deriva populista.

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Se calhar até era boa ideia

por João André, em 25.03.17

Em relação às declarações de Jeroen Dijsselbloem (ler "Iérun Dêissélblum"), há que notar que a frase terá sido algo do género (cito de memória) de «Se eu gastar o meu dinheiro em mulheres e álcool, não vou pedir que mevenham ajudar».

 

Ao invés de o atacarem pelo que disse ou terá querido implicar, alguém devia ter feito o óbvio: olhar para a cara dele e ter dito: «Jeroen, filho, se calhar não te tinha feito mal...».

 

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Se eu votasse nas eleições holandesas

por João André, em 14.03.17

Vivo na Holanda, directa (registado como tal) ou indirectamente (registado noutro país mas tendo o domicílio familiar no país) desde Dezembro de 2003. Isto dá-me a possibilidade de conhecer o país um pouco mais que a generalidade dos portugueses e compreender aceitavelmente a sociedade do país. Não me arvoro em especialista. Há coisas nos holandeses que nunca entenderei. Há particularidades de que desgosto profundamente e, confesso, só não estou fora do país porque circunstâncias familiares têm conspirado para que isso não suceda.

 

Isto não quer dizer que a Holanda seja um país mau. Pelo contrário. É ordeiro, com baixos índices de criminalidade, ruas limpas, pessoas essencialmente educadas, muito pouca pobreza, bons sistemas sociais, etc. Se uma pessoa aceita os preceitos sociais (e o clima), o país é excelente para viver e será mesmo dos melhores possíveis. Só acontece que não se coaduna com a minha personalidade.

 

É por isso que nunca pedi a nacionalidade holandesa, apesar de ser capaz de preencher todos os requisitos para tal. Por isso e porque para o fazer teria que perder a nacionalidade portuguesa, algo que não contemplo em favor da holandesa. Se tivesse a nacionalidade, teria amanhã a possibilidade de votar nas eleições holandesas.

 

 

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Ground control to David Jones

por João André, em 09.02.17

Mais de um ano depois da sua morte, descubro-me de vez em quando a ouvir Blackstar e a imaginar Bowie a escapar a um ecrã de televisão e a anunciar que quem morreu foi Lazarus, não ele.

 

Noutros imagino Iman com um sorriso matreiro, num qualquer terraço ao sol, a sussurrar «Já era tempo de te livrares do Bowie, querido Mr. Jones».

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Retratos da minha viagem ao Egipto

por João André, em 28.01.17

Depois de todos estes apontamentos da viagem do Luís, decidi ir ao meu baú e ir procurar as minhas fotografias preferidas das que tirei quando estive no Egipto, em 2011. Nessa viagem comecei em Luxor, desci até Ashwan e depois fui de comboio para o Cairo. Não deixo notas sobre os locais, que o Luís já deixou bastantes e melhores que as minhas (aproveito e deixo links apenas para os posts dele). Apenas as ditas fotografias e os locais onde foram tiradas (esperando não fazer asneiras). Quem tenha curiosidade, pode sempre perguntar alguma coisa mais sobre elas.

 

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Vista a partir da entrada do templo de Edfu (creio).

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Voltando do templo de Hatchepsut (estaria nas costas).

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Nilo.

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Nilo.

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Nilo.

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Nilo.

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Crianças a brincar num ramo do Nilo.

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A caminho da ilha de Philae.

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No templo de Ísis, ilha de Philae.

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Templo de Karnak.

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Cairo, visto da mesquita de Mohammed Ali.

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 Pirâmides de Gizé, Cairo.

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Templo de Kom Ombo.

 

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Trump - dia 5

por João André, em 24.01.17

Nestes dias Trump conseguiu:

E ainda vamos só com 5 dias. Isto não vai acabar mesmo nada bem.

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A árvore e a floresta

por João André, em 20.01.17

Vou a caminhar pelo Pinhal de Leiria e a certa altura, ao passar por uma clareira, dou de caras com uma sequência de eucaliptos. Sigo através deles por mais uns 10 ou 200 metros e regresso aos eucaliptos. Dou um suspiro. O Pinhal de Leiria não se transformou num Eucaliptal de Leiria.

 

Muita gente que fala da neve no Algarve no âmbito das alterações climáticas teria a visão oposta.

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Lysenko-Trumpismo energético

por João André, em 19.01.17

Lysenko

No final dos anos 1920, um homem chamado Trofim Lysenko (deveria escrever-se Lissenko mas manterei a grafia inglesa) ascendeu a posições de poder na União Soviética. Lysenko era supostamente um agrobiólogo que rejeitava as teorias genéticas de Mendel e preferia uma visão ideologicamente mais em linha com a ortodoxia política.

 

Nesta visão, a evolução acontecia não por aleatoriedade e selecção natural, mas como resultado das experiências de vida dos progenitores. Na sua visão original, postulada por Lamarck, o exemplo era o do pescoço da girafa, que tinha vindo a alongar-se porque ao ser esticado para chegar aos ramos mais altos, as girafas promoviam a sua extensão, característica que passavam aos filhos.

 

Lysenko usou estas teorias, tão do agrado de quem se propunha a desenvolver um novo tipo de homem e de sociedade, para avançar a sua posição e implementar acções que terão sido tão responsáveis pela fome nos anos 30 (que recebeu o nome de Holodomor na Ucrânia) como as políticas económicas implementadas. Entre outras fantasias os cientistas "lysenkistas" (os outros eram aprisionados - se tivessem sorte) afirmavam ser capazes de converter centeio em trigo e trigo em cevada. Ou que poderiam converter trigo de Verão em trigo de Inverno (apesar da sua diferença genética), tudo isto numa única geração. O resultado destas políticas foi não só fome mas também um enorme atraso científico nas áreas da biologia, bioquímica e genética que ainda não terá sido devidamente compensado.

 

Trump

A partir de amanhã, Donaldo Trump terá o poder de começar a cumprir a sua promessa de mudar a orientação energética dos EUA para os combustíveis fósseis. É obviamente difícil de prever qual o resultado final, mas a vontade aparente de Trump em promover as indústrias do carvão e petróleo em prejuízo das energias renováveis (ou mesmo do gás natural, fóssil mas mais limpo) terá essencialmente dois resultados:

1. Os EUA passarão a poluir muito mais que até agora. Isso terá consequências de muito longo prazo na qualidade do ar e água, e no clima a nível mundial.

2. Os EUA ficarão para trás no desenvolvimento tecnológico das energias renováveis, o que terá consequências também em outras áreas tecnológicas e afastará muitos talentos do país.

 

Esta inclinação de Trump parece vir da sua incapacidade de compreender as novas tecnologias (o uso de Twitter não conta) e da sua tendência para um populismo com pouco contacto com a realidade. Tal como li noutro lado, a indústria do carvão já atingiu um tal nível de automatização que qualquer reactivação da mesmo nos EUA, mesmo no alcance que Trump prometeu, não traria mais que uma fracção dos empregos do passado. Pior que isso, no entanto, é o facto de as energias renováveis e adjacentes estarem, finalmente, maduras o suficiente para poderem substituir os combustíveis fósseis.

 

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Fonte 

 

Não vou aqui alongar-me com as questões dos custos da energia renovável (fica para outro post) e deixo apenas um gráfico (acima). O essencial da minha reflexão prende-se com a influência que uma visão ideológica e retrógrada sobre um aspecto de ciência e tecnologia terá nos restantes e no país em geral. Não se trata apenas da vontade de desinvestir na geração de conhecimento na área das energias renováveis. Trump promete também cortar os fundos que a NASA dedica ao estudo das alterações climáticas, o que ultimamente resultará num enorme défice de conhecimento que terá repercussões também no desenvolvimento das tecnologias do espaço.

 

Outras áreas que sofrerão serão a ciência dos materiais, diversas áreas de engenharia (civil, mecânica, naval, etc), os estudos do clima e metereologia, a área de big data e computer learning (ambos fundamentais para prever padrões de vento e exposição solar e optimizar os sistemas), acabando nas ciências fundamentais, uma vez que química, física e matemática beneficiam colateralmente dos fundos gastos no desenvolvimento das tecnologias renováveis.

 

O futuro poderá ser um em que o centro do conhecimento das energias do futuro não estará nos EUA mas sim na Europa, China, Japão, Brasil e/ou outros países ou regiões. Uma vez que o principal recurso do planeta é a energia, com a sua obsessão pelo carvão, Trump poderá fazer mais para comprometer os EUA com estas suas opções puramente ideológicas do que com qualquer outra escolha política ou ideológica.

 

Basta perguntar aos russos órfãos de Lysenko.

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Não, isto não pode ser o jornalismo em 2017

por João André, em 13.01.17

Nos últimos dias explodiu uma bomba de Carnaval adiantada nos EUA. O site de notícias Buzzfeed decidiu publicar um relatório, não confirmado, de um espião britânico especialista sobre a Rússia, onde estaria indicado que a Rússia teria material incriminatório sobre Donald Trump e que o poderia usar para influenciar o futuro presidente dos EUA.

 

A razão para o relatório dar este barulho todo está ligada a próprio Trump. É de facto possível vê-lo a cair na "honey trap". E possível imaginá-lo a compremeter outros para aassegurar algumas promessas que fossem para si vantajosas. É possível imaginá-lo como cedendo aos jogos de Putin ou sua entourage. É, portanto, credível nas conclusões.

 

Só que isso por si só não pode ser razão para justificar a publicação do relatório por parte de um meio de comunicação social que quer ser credível. É uma das regras de ouro do jornalismo: verificação independente. Tudo o que seja menos que isso é perseguição, especulação e falta de ética. Mesmo nas páginas de opinião tal documento estaria mal.

 

A primeira emenda da constituição dos EUA protege enormemente a liberdade de imprensa. Por vezes dá a sensação de ser demais, mas no geral os benefícios compensam enormemente os problemas. Isso significa que o site Buzzfeed consegue estar relativamente a salvo, especialmente com a sua indicação que o relatório não tinha confirmação. Só que isso não os deve deixar a alvo da condenação pública. A publicação de tal relatório pode de imediato ser usada para atacar Trump com informação, na melhor das hipóteses incerta, e na pior falsa. Isso não é estratégia de um bom meio de comunicação social. É a estratégia de lixo como o Breitbart "News".

 

O pior foi no entanto a justificação do editor chefe do Buzzfeed, escrevendo aos seus trabalhadores, que é «assim que vemos a função dos jornalistas em 2017». Ou seja, publicação de relatórios não verificados, escrevendo que os americanos podem decidir por si próprios. e sem fazer uma avaliação crítica ou proceder a uma investigação independente. Por outras palavras, o site Buzzfeed está a resumir o trabalho dos repórteres à função de multiplicadores de boatos com um mínimo de comentário paralelo, pouco menos que aquilo que bloggers fazem.

 

É indiferente qual o alvo de tal acção ou quem a comete. O jornalismo não é isto. Isto é o que fazem os sites de clickbait e notícias falsas. Do jornalismo espera-se mais, é por isso que está, sob uma forma ou outra, protegido pela constituição de qualquer estado de direito onde exista liberdade. A minha opinião sobre Trump não se modificou (talvez tenha piorado), mas qualquer pessoa merece um jornalismo correcto. Ao negar tal ao próximo presidente dos EUA, o site Buzzfeed não só se nega a fazê-lo como presta um péssimo serviço ao jornalismo em 2017.

 

PS - como é óbvio não deixarei qualquer link para o relatório.

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Delito à mesa (7)

por João André, em 03.01.17

Confesso que há muito que não tenho o hábito de ir a restaurantes. Sempre gostei de o fazer com amigos mas afazeres profissionais, ter saído de Portugal e ter por perto menos dos amigos com quem gosto de partilhar estes momentos, além da vida familiar que por vezes torna difícil a ida a restaurantes, tudo isto tem conspirado para que eu não tenha renovado os meus hábitos comensais públicos. Na falta dos mesmos, recorro a um hábito já antigo a que volto sempre que posso (ou por lá passo).

 

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O Zé Manel dos Ossos é uma instituição de Coimbra onde não há café no final da refeição, o vinho vem à escolha de branco ou tinto, copo ou jarro (garrafa também pode ser), as paredes estão escarrapachadas de papéis de toalha de mesa escrevinhados com saudações, poemas ou outras inspirações de rotundas barrigas, a fila à entrada pode ir dos 20 minutos à hora e meia para quem chega depois das 7 da noite e o espaço dá para uma meia dúzia de mesas e pouco mais. Quem quiser sofisticação e estilo bem pode ir a outro lado.

 

Conta a lenda que tudo começou quando o Sr. Zé Manel começou a recolher os ossos de um talho ao lado e a cozinhá-los com umas ervas, sal e outros truques que só serão transmissíveis em quintas-feiras de lua cheia depois de sacrificar um gato, um lagarto e um javali aos diversos deuses da gula nos intermináveis panteões da história universal. Facto é que os ossos, além do nome, dão o carácter ao restaurante. A maioria dos pratos incluem ossos de uma forma ou outra, mas os ossos a sério, aqueles que se pedem sem dizer nada mais além do número de convivas, esses são motivo só por si para uma espera de uma hora num beco de Coimbra aos 35 °C de uma noite de Verão.

 

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Os preços (além da qualidade) tornam o restaurante obrigatório entre estudantes, mas não se pense que enchem o espaço e o tornam impossivelmente "académico". Os simples factos de ser necessário enfrentar filas para entrar depois das 7 e meia da noite (ou tarde, depende da altura do ano), de se situar na Baixa (e fora dos circuitos habituais da Universidade) conspiram para controlar o fluxo de clientela e permitir que qualquer pessoa se sinta em casa. Uma vez dentro, há sempre o risco de o calor ser altíssimo e o espaço exíguo. Mas vale a pena aguentar tudo.

 

A melhor escolha inicial é dizer que se quer ossos. O empregado decide quanto vai trazer em função dos convivas à mesa (esqueçam as noções de doses se ali entram) e é possível ter tempo para decidir o que se vai comer. Mais uma vez, o ideal é escolher uma selecção de pratos e deixar que as quantidades fiquem à escolha da casa. Pessoalmente vou sempre pelas barriguinhas ou costeletas com arroz de feijão ou pela feijoada de javali. O vinho é despretensioso mas costuma ir muito bem com a comida e o ambiente.

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Não há pressão para se sair da mesa, apesar da fila que existe à porta. Há sempre contudo a oferta de mais bebidas, como que a lembrar-nos para consumirmos um pouco mais. Mas sem verdadeira pressão: a simpatia esteve sempre presente. No final não há café. A máquina ocupa espaço e, na realidade, ninguém lá vai para isso. E beber um café poderia ter o mesmo efeito que a folhinha de menta em The Meaning of Life.

 

A melhor demonstração do restaurante ocorreu quando um dia tive um jantar com os elementos de uma banda americana (que tinham dado um concerto organizado pela Ru( na noite anterior). Nesse dia alguns dos elementos da banda dormiram tarde e almoçaram já perto das seis da tarde. Vontade de jantar: perto de zero. Umas horas mais tarde tinham-se deliciado com a comida e iam rebolando alegremente para o hotel. Passados uns anos um amigo reencontrou um deles e foi imediatamente reconhecido com as palavras: «os ossos!».

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Resumindo: a visita ao Zé Manel dos Ossos vale sempre a pena. Sem pressas e com espaço no estômago. E escritas estas linhas, estou com vontade de marcar uma viagem a Coimbra para breve.

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Prevendo uma Presidência Trump

por João André, em 10.11.16

E passaremos a escrever Presidente Trump. Não sei se o farei, custa-me. Para explicar o que aconteceu, que se leiam os especialistas, coisa que não sou. Pelo que leio na imprensa internacional que respeito, alguma da tal em decadência, Trump terá vencido ao concentrar o voto do eleitorado branco sem educação superior mas não necessariamente de rendimentos mais baixos. De certa forma parece que Trump soube ir capturar os ressentimentos de todos os Archie Bunkers americanos para quem os candidatos nunca ou raramente falaram (não eram um verdadeiro grupo demográfico para as sondagens) e que queriam ser ouvidos.

 

Por isso Trump atacou muçulmanos, latinos, asiáticos, negros e todo o establishment que permitiu a ascenção de tais grupos. Por isso atacou também o comércio livre que permitiu aos EUA tornarem-se na nação mais rica - de longe - do planeta. Por isso admirou ditadores e autocratas que lembrassem a este grupo a força que perderam mas que ainda poderia ser deles.

 

Não invoco isto para explicar a vitória de Trump. Invoco isto para falar do que poderá vir a ser a sua presidência. É que Trump foi eleito por estas pessoas e sabe que não conseguirá reconquistar aqueles que antagonizou sem virar o seu eleitorado base contra si. Por isso é provável que não abrande a mensagem mas que a reforce. Por isso é provável que, uma vez na Casa Branca, não passe a ser mais moderado e centrista. Não poderá fazer tudo quanto gostaria, devido ao balanço de poder dos EUA e das leis que estão em vigor, mas não será certamente por falta de vontade.

 

Vejamos algo que poderá ser o caso mais desastroso: o golpe duplo de rasgar o NAFTA e erigir um muro na fronteira com o México. Se rasgar o acordo NAFTA acabará a, senão destruir, pelo menos a dar um golpe enorme na economia mexicana, que envia 80% das suas exportações através da fronteira. Se ao mesmo tempo colocar um muro na fronteira, teoricamente impede mexicano de entrar. Só que há aqui um problema: pessoas desesperadas - como os mexicanos ficariam numa economia a colapsar - correm os riscos que forem necessários. Os mexicanos acabariam a destruir a fronteira pelos meios que pudessem a menos que os EUA colocassem o exército ao longo da sua fronteira de 3.200 quilómetros. Isto destruiria a economia do país vizinho e criaria uma situação de guerra nas fronteiras do peóprio país. A piorar o cenário estaria o simples facto que os produtos que não chegassem do México teriam de ser produzidos internamente, a custos mais elevados (e assumindo que existiria mão de obra para tal). Isto levaria a um aumento da inflação, que levaria a aumentos de salários para manter a base satisfeita e acabaria numa economia completamente fora de controlo.

 

E esse é apenas um aspecto. Vejamos agora a política externa. É de crer que ou Trump terá um encontro com Putin nas primeiras semanas da sua presidência ou que Putin colocará o exército em exercícios extensivos nas fronteiras dos países bálticos, só para ver como Trump reage. Uma cimeira é mais provável e é altamente crível que Putin acabe a conseguir de Trump tudo o que quer. Não seria de espantar se Trump aceitasse uma intervenção russa na Síria ainda mais alargada que agora em troca de ficar com algum território (ou recursos) para si. Imagino facilmente Trump e Putin a dividir o território no Médio Oriente. Para cúmulo, com Trump a cumprir a promessa de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e a aceitar a expansão dos colonatos - além de rasgar o acordo com o Irão - a região acabaria ainda mais a ferro e fogo, numa revolta dos árabes aos piores níveis do passado. Uma Europa sem a protecção americana, um Médio Oriente em chamas e um extremo oriente com Coreia do Sul, Japão e Coreia do Norte numa corrida nuclear. Soa bem, não é?

 

E quanto à sociedade americana? Bom, Trump prometeu rasgar o Obamacare, algo que não pode ser feito sem grandes custos financeiros, independentemente do resto das consequências. Trump não deu nenhum plano de saúde - quase de certeza porque nem pensou no assunto - mas as indicações que deu já foram consideradas por republicanos como um apanhado sem sentido de propostas do passado. Seja como for, para não antagonizar a sua base, Trump terá que acelerar o desmantelamento do Obamacare, o que custará (muito) dinheiro (nada que o incomode) e que terá de ir buscar a outros lados (já lá vamos). Além disto, poderá nomear o próximo juiz do Supremo Tribunal e fazer tender a balança para o lado conservador. Como dois dos juízes liberais e um dos conservadores já estão com 78 ou mais anos de idade, poderá até escolher outros três. No final de um primeiro mandato poderia escolher 4 juízes, passando o equilíbrio de 4-4 (ou 5-4 a favor de conservadores) agora para 7-2 a favor de conservadores, os quais o seriam provavelmente ainda mais que o tradicional, dado que não enfrentariam oposição de monta no Congresso.

 

Estas mudanças na sociedade iriam embater em vários avanços ou situações presentes. As leis que sustentam Roe vs Wade seriam provavelmente alteradas e Trump chegou mesmo a prometer uma forma de punição para as mulheres que abortem. O casamento homossexual estará em risco se ele o puder conseguir e a NRA poderá obter concessões verdadeiramente escabrosas, como a possibilidade de licenças de porte de arma serem transportáveis entre estados (permitindo que criminosos possam adquirir armas noutros estados e levá-las para o seu). Além disto prometeu uma polícia mais musculada e com menos controlos externos. Mortes a tiro de suspeitos poderão tornar-se depressivamente mais comuns.

 

Tudo isto sem falar no próprio comportamento de Trump, que demonstrou já o seu desprezo por quase toda a gente que não seja família e a sua falta de respeito por qualquer pessoa que não seja Donald Trump. Mulheres estarão particularmente ameaçadas. Se não directamente pelo próprio Trump, então por outros que se revejam no seu (execrável) exemplo. A título muito pessoal, não me admirarei se acabarmos um dia com a notícia de Trump ter violado alguma estagiária em plena Casa Branca.

 

Os imigrantes nos EUA, por seu lado, poderão estar a tremer, sejam legais ou não. Há quem diga que deportar 11 milhões de pessoas é impraticável, mas os EUA têm um hábito de conseguir o impraticável. Se o fizerem haverá certamente muitas crianças atiradas fora com a água do banho. As consequências numa economia que em muitos sectores está dependente destas pessoas é essencialmente imprevisível. Já impedir a entrada de muçulmanos, mesmo que isto seja inconstitucional, pode ser conseguindo contornando o problema (como Trump já o fez), dizendo que será apenas com aumento do controlo (já de si extremamente exigente) de imigrantes vindos de "países com terrorismo islâmico". Isto na prática permitiria impedir a entrada de qualquer muçulmano mas também colocaria obstáculos à entrada de, por exemplo, franceses, ingleses ou belgas. O país de imigrantes (Trump é neto de um alemão e casado com uma eslovena) fecharia as portas como talvez nunca antes na sua história.

 

Financeiramente a situação é ainda mais preocupante. Trump prometeu acabar com as cláusulas que permitem a directores de hedge funds pagarem impostos mais baixos. Isto seria (pelo menos parcialmente) promissor se não fossem outras promessas, como cancelar a lei Dodd-Frank que mantém algumas medidas de controlo sobre a especulação financeira. Os financeiros poderiam não mais ter certas cláusulas para explorar, mas pdoeriam provavelmente explorar outras. E sendo Trump quem é, também é muito possível que passe leis que se destinem a beneficiar (ou às suas empresas) directamente. Os cálculos aos custos dos planos económicos e financeiros de Trump indicam uma explosão da dívida de quase 50% em 10 anos. Isto sem que os gastos viessem beneficiar muito a população em si. Adicionando a isto a sua tendência isolacionista que pode perfeitamente causar uma guerra comercial (os chineses, para salvar a face, estariam culturalmente e em princípio muito mais dispostos a sofrer tais consequências que os americanos). Mesmo não percebendo muito de economia, imagino que o valor do dólar teria tudo para cair, os preços internamente para subir e a inflacção para disparar. E se quando a economia americana tem uma constipação a economia mundial apanha uma pneumonia, imaginem-se as consequências da pneumonia americana.

 

Claro que é possível que Trump não faça tudo isto (é inclusivamente provável) e até é possível que faça só algumas destas coisas. É possível que o Congresso, o Partido Republicano, ou os lobbies lhe façam frente. É possível que ignore tudo isto e deixe Mike Pence fazer tudo (seria de si mau, mas não tanto quanto a alternativa). É possível que Trump seja capturado pelo establishment (uma Casa Branca a cumprir os seus caprichos é algo que mesmo a sua - suposta- fortuna não pode comprar). Mas o risco está aí. Acima está apenas uma análise a algumas das promessas de Trump. É simplista, mas menos que os planos em si. Se há alguma coisa que desejo, é que me venham dizer, daqui a 4 anos, que eu estava completamente errado.

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Hoje milhões de americanos (correcção: noter-americanos; nova correcção: estado-unidenses) irão às urnas. Cerca de 40 milhões já o terão feito por recurso ao voto antecipado. Se há democracias maiores, esta é a mais importante do mundo e mesmo quem não gosta do país terá dificuldades em o negar.

 

Na escolha do próximo presidente há 6 candidatos possíveis, 4 com visibilidade nacional mas só 2 têm reais possibilidades de vencer. Pessoalmente não subscrevo a tese do voto útil, especialmente num país como os EUA. Mesmo que um voto mais de acordo com a consciência e ideologia de cada um (em Gary Johnson para os Libertários ou Jill Stein para os Verdes, por exemplo) leve à eleição de alguém de quem não se goste, o país tem fundações democráticas sólidas que evitariam que uma presidência, independentemente da figura, acabasse num desastre consumado. Se o voto útil acontecer, deve ser porque o medo da eleição de alguém não desejado se sobrepõe às preferências individuais.

 

Não vou escrever muito sobre Donald Trump. A sua personalidade pública (aquela que podemos ver) é a de um ignorante, misógeno, xenófobo, racista, brutamontes, mitómano, egomaníaco e narcisista (estas duas também parecem fazer parte da sua faceta privada). Isso, por si só, é suficiente para o desqualificar de qualquer presidência.

 

Falar em Hillary Rodham Clinton é questionar a razão para o ódio que lhe é dirigido. Parece em parte provir da sua ambição, mas faz sentido perguntar se a de outros homens teria sido questionada. A sua parte na reforma (falhada) do sistema de saúde aquando da presidência de Bill Clinton também parece contribuir. Igualmente o seu muito criticável hábito de secretismo (que levou ao caso dos e-mails em servidores privados) a torna alvo de desconfiança. Não ajuda que seja uma mulher que não gere empatia, sendo mais cerebral e fria que aquilo que se esperaria. Contudo, nada que não se veja noutros políticos.

 

Este ódio que ela gera à direita é ainda mais estranho pelo simples facto de ela ser, mesmo dentro do panorama político americano, tudo menos uma esquerdista (os americanos preferem o irónico “liberal”). Na política americana ela deveria ser colocada no centro, com alguns pontos mais à esquerda mas nunca por muito. Na Europa ela seria colocada firmemente no território da democracia-cristã, num centro-direita claro.

 

Como seria a sua política como presidente? Provavelmente aborrecidamente sólida. O seu currículo como secretária de estado ou senadora indica que é conhecedora dos dossiers mas prefere avanços feitos por pequenos passos, sólidos mas sem aventuras. Também tem hábito de conseguir obter colaborações com republicanos, mesmo alguns que eram visceralmente contra ela. Não parece guardar (muitos) rancores e engole por vezes o orgulho para atingir os seus objectivos.

 

É vista pela esquerda como demasiado próxima aos grandes grupos empresariais. Isto é um facto. As suas presenças no circuito de discursos nos EUA trouxe-lhe uma fortuna agradável e forte proximidade a CEOs e outras figuras do mundo empresarial e financeiro dos EUA. No entanto isso deveria ser uma vantagem. Tais personalidades conseguem ter sempre acesso a qualquer presidente: os montantes que controlam ou influenciam, directa ou indirectamente, garante-o. Ter na presidência alguém que conhecem e com quem conversaram no passado garante um diálogo mais certo que aquele que Bernie Sanders (por exemplo) conseguiria. Isso poderá permitir mudanças a leis ou reformas que de outra forma veriam a oposição dessas pessoas.

 

A forma como Clinton aceitou incorporar propostas de Sanders também poderá jogar a seu favor na presidência. Pode lançar para a arena propostas mais à esquerda do que desejaria para, após a sua rejeição, propôr alternativas que incialmente preferiria. Sendo Clinton uma política orientada para procurar consenso, isso ajudá-la-ia imenso.

 

O principal obstáculo será sempre um congresso (e talvez um senado) controlado pelos republicanos. Isso em si não é mau. O sistema de checks and balances dos EUA procura precisamente esses equilíbrios entre os vários órgãos executivos (se bem que ter ambas as câmaras a operem-se-lhe pode ser demais). O obstáculo é que muitos republicanos começam a ver o valor de optar por uma política de terra queimada e de ataque ao sistema político de Washington, sem permitir a mais simples sombra de compromisso. Isso poderá levá-los a rejeitar toda e qualquer proposta de uma presidente Clinton, mesmo que vá de encontro aos seus interesses e ideias. No entanto, mais uma vez, a alternativa seria pior.

 

Do lado democrata, a alternativa era Bernie Sanders, alguém de quem eu estaria mais próximo ideologicamente. Num cenário europeu Sanders estaria talvez no centro esquerda (depende do país: nos países escandinavos até poderia assemelhar-se por vezes a um centrista). Só que nos EUA ele está tão à esquerda que teria oposição não apenas dos republicanos (mesmos em recorrerem a intransigências) mas também de muitos democratas. Tivesse ele sido escolhido como candidato democrata contra Trump e o cenário seria o de um frente a frente entre um futuro de parálise e outro de incompetência.

 

Penso que os americanos/norte-americanos/estado-unidenses acabarão por escolher Clinton. Escolher Trump será um desastre não por si mesmo (os checks and balances manter-se-iam) mas porque muitos representantes republicanos sentiriam a necessidade de o apoiar, quanto mais não seja para aproveitarem a onda. A escolha de Clinton é pouco apelativa pelo que promete, mas é sólida e basta em si mesma pelo aspecto transformativo que possui (a eleição da primeira mulher presidente após a eleição do primeiro presidente negro). É aborrecida mas isso não é necessariamente mau. No entanto, se finda a contagem Trump acabar na Casa Branca (e deitar fora os outros retratos presidenciais para os substituir pelo seu próprio), a culpa será em grande parte do próprio Partido Democrata.

 

PS: sobre a rejeição da esquerda a Hillary Clinton e os comentários de Slavoj Žižek, basta ler este comentário de Alexandra Lucas Coelho. Não subscrevo a sua visão de Clinton (embora não tenha o seu conhecimento específico), mas a sua análise é claríssima.

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O estado da arte da Ciência

por João André, em 31.10.16

No seu melhor a ciência deve procurar dar respostas a perguntas e, idealmente, descobrir novas perguntas que nos direccionem para novas áreas de conhecimento. A melhor forma de o conseguir é seguir o método científico. Analisar a pergunta, formular uma hipótese, testar a mesma e analisar os resultados. Tirar conclusões e repetir o processo. Nunca chegamos ao fim porque mesmo que os resultados confirmem perfeitamente a hipótese e respondam perfeitamente à questão, haverá sempre novas perguntas a responder.

 

Seguir simplesmente este processo é essencialmente inútil, há que disseminar a informação. De tempos a tempos são descobertos documentos de cientistas do passado que não se deram ao trabalho de publicar ideias ou resultados e que, se o tivessem feito, poderiam ter avançado o conhecimento numa determinada área por décadas. A forma ideal de disseminação de conhecimento é a revisão por pares, ou peer review no termo inglês mais em uso. Este método habitualmente funciona bem porque os revisores têm interesse em permitir apenas que a boa ciência seja publicada, dado que ajuda também os seus trabalhos.

 

No seu estado mais perfeito a revisão pelos pares é simples: um cientista (ou grupo) submete um manuscrito a um jornal, este pede a outros cientistas, com outras publicações no currículo, que examinem o mesmo e ofereçam as suas opiniões. Estas podem ser simples aprovações ou rejeições do trabalho na presente forma ou sugestões de correcções ou pedidos de esclarecimento. No final do processo, a palavra final é do editor do jornal, que habitualmente segue a opinião consensual e decide em que número o trabalho será publicado.

 

 

 

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