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Delito de Opinião

20 perguntas à civilização

beatriz j a, 15.01.22

1. Valerá a pena a "civilização" se traz consigo a perda da liberdade de desobedecer, da liberdade de ir para outro lugar e da liberdade de criar novos arranjos sociais?

2. Estamos presos numa ideologia individualista ou conseguimos transformar a civilização em ajuda mútua, cooperação social, activismo cívico e hospitalidade?

3. Reduzimos as nossas possibilidades de futuros melhores? Quantas possibilidades nos restam agora, num mundo de políticas cujas populações são em número de dezenas ou centenas de milhões?

4. Estaremos melhor juntos ou separados? Estamos no princípio do fim da era da globalização?

5. Teremos tornado a vida mais difícil para a próxima geração? Será que a próxima geração vai ficar pior?

6. Como usar a tecnologia para abrandar as alterações climáticas provocadas pelo homem?

7. O trabalho escraviza?

8. Qual é a realidade da imigração? Sempre houve migrações, mas nunca o tema foi tão tóxico.

9. O que é a vida?

10. O que é a felicidade?

11. Estamos dispostos a sacrificar o ego à ditadura do diagnóstico médico?

12. Como acabar ou abrandar as desigualdades sociais?

13. Como nos podemos envolver com os problemas que enfrentamos universalmente (isto é, alterações climáticas, crescimento populacional, etc...) de uma forma que seja sensível a todas as religiões, crenças culturais e políticas particulares do mundo?

14. Em que é que grandes nações, como a China, se poderão transformar e transformar-nos a todos: na sociedade, na guerra, na indústria e na política?

15. Há alguma realidade fora da língua que falamos?

16. Seremos capazes de desfragmentar as nossas opiniões e culturas o suficiente para nos unirmos sob um objectivo comum e um esforço colectivo para a melhoria da humanidade e da nossa biosfera?

17. Como contrariar o apelo do irracional?

18. Que objectivos de educação queremos ter?

19. Estamos preparados para seres humanos biónicos?

20. Como preservar a privacidade sem a qual não há liberdade?

 
(também publicado no blog azul)

Limites

beatriz j a, 11.01.22

Recentemente dois casos chamaram-me a atenção. O primeiro através de J.K. Rowling. Na Escócia, um homem acusado de violar uma mulher pediu ao chefe da polícia que o registasse como uma mulher, porque, disse, sentia-se uma mulher. O chefe da polícia disse que sim, provavelmente com receio de ter os problemas que J.K. Rowling teve -críticas e ofensas virulentas- quando comentou publicamente o absurdo, declarando: "A Guerra é Paz. A Liberdade é Escravidão. O indivíduo com orgãos sexuais masculinos que te violou é uma mulher". 

Levando o caso à sua conclusão extrema, este violador, biologica e sexualmente masculino, que diz sentir-se mulher e todos os outros que resolverem seguir o seu exemplo, podem, na sequência, pedir para serem transferidos para prisões de mulheres. 
 
Outro caso que gerou críticas virulentas foi o da antiga nadadora e funcionária da selecção norte-americana, há décadas,  Cynthia Millen, por dizer que Lia Thomas, uma nadadora «trans», sexualmente masculina de nascença, da Universidade da Pensilvânia, está a "destruir" o desporto. Thomas competia pela equipa masculina antes de declarar-se mulher e passar para a equipa feminina. Passou a ganhar as provas todas e bate recordes femininos a torto e a direito. "A natação é um desporto em que corpos biológicos competem contra corpos e não identidades contra identidades", disse Millen. A Associação Nacional de Desporto das Universidades diz que a terapia hormonal anula o facto de Lia ser biologicamente um homem, coisa que Millen e outras mulheres não aceitam como provado e muito menos evidente.
Levando o caso à sua conclusão extrema, todos os homens que não ganham competições no seu género masculino, podem declarar-se mulheres, tomar hormonas, passar-se para as equipas femininas e acabar no hall of fame do desporto feminino.
 
Digo já que não tenho nenhum problema em que as pessoas se sintam mulheres ou homens ou outra coisa qualquer, como o indivíduo que fez cirurgias para parecer um felino porque sente-se um felino. Se um João me disser que se sente Maria não tenho problema em passar a chamar-lhe Maria e tratá-lo como tal. Porém, tenho problemas com a injustiça no domínio da ética e com o absurdo no domínio da racionalidade. Platão argumentava que quando há dificuldade em decidir de um assunto deve usar-se como critério levar o argumento até ao extremo e ver se resulta em absurdo inaceitável. Sendo esse o caso, deve abandonar-se. 
 
Ora, estes casos e outros semelhantes desembocam em evidentes absurdos. Sabendo-se que os homens são biologicamente diferentes das mulheres, como é que num hospital se pode tratar um doente se não se souber categorizá-lo? Trata-se, em vez disso, a sua identidade? Imagine-se um pedófilo que diz identificar-se com a categoria de adolescente ou de criança, reivindicar ser incluído nos espaços, jogos e brincadeiras das crianças. Absurdo? Pois é, mas trata-se apenas de levar o argumento até ao seu limite. Imagine-se levar uma turma em visita de estudo e pôr «rapazes trans» a dormir nos quartos das «raparigas biológicas» e acontecer haver uma violação. Absurdo? Pois é, mas trata-se apenas de levar o argumento até ao seu limite. 
 
A questão, pois, é essa mesma: qual é o limite?
 
(publicado também no blog azul)
 

Pensamento da semana

beatriz j a, 09.01.22

Seria bom que os políticos, os psicólogos e os comentadores da comunicação social mudassem a sua linguagem ao falarem da saúde mental dos adolescentes e deixassem de usar termos como «catástrofe» ou expressões como «sequelas para a vida». Os diagnósticos de depressão catastrófica generalizada são uma constante nos meios de comunicação social e como os adolescentes são muito impressionáveis e amplificam tudo o que ouvem, interiorizam a ideia de que o seu sofrimento é uma doença que os danificou para a vida. Essa interiorização reforça o sentimento de desesperança, dramatiza as dificuldades e o próprio sofrimento. 

Os médicos são educados para verem os problemas através da lupa da doença, mas a medicalização generalizada do sofrimento humano leva à perda de significado das vivências próprias da idade. A maioria dos adolescentes vive em casas pequenas, sem grande privacidade e a convivência por períodos longos, forçada pelos confinamentos, fez aumentar os conflitos familiares, já de si naturais, dado que estão numa fase da vida de construção da identidade, ainda sem grande capacidade de regular emoções: ficam tensos, irritados, emocionalmente desequilibrados, angustiados. Falta-lhes a socialização que permite a expansão emocional e vivencial, aprender a regular as emoções, a relativizar os momentos de sofrimento através dos momentos de alegria, a construir a auto-confiança. A maioria dos adolescentes não é doente, está apenas num momento de desequilíbrio.

Em vez de assustarem os adolescentes e os pais com discursos catastrofistas e de desesperança, melhorem as condições de vida das pessoas, contratem psicólogos para as escolas, melhorem a educação. 

Enquanto estamos vivos, estamos sempre a respirar e a qualidade do ar que respiramos influencia a saúde. Da mesma maneira, enquanto somos vivos estamos sempre a respirar o ar cultural que nos rodeia e a qualidade do ar cultural que respiramos influencia as possibilidades de vida - que se escolham e construam as possibilidades positivas.

(também publicado no blog azul)

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Uma questão em duas perguntas

beatriz j a, 08.01.22

Se as pessoas que escrevem programas políticos que já deram mau resultado no passado e as que executam programas políticos com maus resultados são as mesmas, não será uma loucura confiarmos nelas e nas suas políticas? Não cabem na definição atribuída a Einstein, segundo a qual, "Loucura é fazer a mesma coisa vezes sem conta, mas esperando resultados diferentes"?

Legislativas: 36 debates

beatriz j a, 31.12.21

 

Para que servem os debates  dos candidatos às legislativas?

Nesta entrevista ao Presidente da Associação Sindical de Juízes Portugueses, Manuel Soares aborda os principais problemas da Justiça em Portugal, clarifica os seus contornos e aponta alguns caminhos de solução.

Isso mesmo é o que queria ouvir dos candidatos às legislativas: que expliquem o que vão fazer, sendo eleitos, relativamente aos principais problemas do país. Não falo de os ouvir dizer que 'vão incentivar isto ou apostar naquilo ou valorizar aqueloutro tema'. Refiro-me a dizerem, relativamente à justiça, à educação, à saúde, ao emprego, às desigualdades, ao problema da baixa natalidade, da banca, do abandono do interior e outros, quais os nós do problema, como vão desatá-los e com que objectivo. Por exemplo, como lemos nesta entrevista ao Presidente da Associação Sindical de Juízes Portugueses, um nó do problema da justiça é a sua morosidade e outro é o seu acesso ser restrito a quem tem muito dinheiro ou nenhum dinheiro, deixando de fora a maioria da população. Sendo assim, como vão os candidatos atacar esses dois problemas da justiça. E não interessam respostas vagas de petições de princípio como dizer que vão investir na justiça, melhorar o sistema e outras generalidades afins. Queremos saber em concreto as medidas que vão ser tomadas, as razões dessas escolhas e os objectivos pretendidos. 
 
Só assim é possível diferenciar e escolher candidatos. 
 
É tempo de sermos exigentes com os candidatos políticos porque são as pessoas que vão ter acesso ao orçamento do nosso desenvolvimento e com ele melhorar, ou hipotecar, o nosso futuro, particular e colectivo. Se querem meter a mão no saco do dinheiro têm que dizer-nos, muito concretamente, como vão utilizá-lo para melhorar a nossa vida.
 
Também temos que ser exigentes com os jornalistas que lhes vão fazer perguntas. Não queremos jornalistas-freteiros que estão ali a fazer de boneco para que os candidatos descarreguem as suas demagogias.
 
No que me respeita, tenho menos interesse em ver debates entre candidatos, do que em ver entrevistas bem conduzidas, com jornalistas especialistas ou conhecedores dos grandes dossiers do país (justiça, saúde, educação, economia, etc.) que saibam fazer as perguntas certas e não deixem os entrevistados entrar na conversa de generalidades formais, vazias de conteúdo, de tão abrangentes que são. Essa é a estratégia dos políticos para não se comprometerem de maneira que os eleitores não os possam diferenciar e, eventualmente, afastar-se deles. Contudo, o que queremos mesmo é diferenciá-los para podermos fazer escolhas esclarecidas e consequentes.
 
É preciso que fique claro se os candidatos estão por dentro dos grandes problemas do país, se têm medidas pensadas e quais, ou se não têm nenhuma ideia dos problemas e têm a intenção de ir navegando à vista. Mesmo que não estejam ali apenas para distribuir cadeiras pelos correligionários, não somos um país rico que possa dar-se ao luxo de ter governantes que levam os anos todos da legislatura a perceber como deveriam ter resolvido os problemas. 
 
A ideia de debates entre candidatos só tem interesse, quanto a mim, porque os adversários trazem à tona assuntos que os jornalistas, por vezes, têm medo - ou nenhum interesse - em abordar e porque vemos a maneira como aguentam a pressão do contraditório. No entanto, na maior parte das vezes esses debates são meros espectáculos de ataques ad hominem que em nada ajudam a diferenciar as políticas específicas de uns candidatos relativamente aos outros.
 
Gostava que não se pusesse o pé no futuro com os vícios do passado. Vamos ver.
 
(texto também piblicado no blog azul)
 

Ementa de Natal

beatriz j a, 25.12.21

 



Receita para umas Festas de Natal Felizes

         (Em homenagem a minha mãe)

     
         Condimentos:
 
                           Tome 12 meses completos.

        Limpe-os cuidadosamente de toda a amargura, ódio e inveja.

         Corte cada mês em 28, 30, ou 31 pedaços diferentes, mas não cozinhe todos ao mesmo tempo.

       Prepare um dia de cada vez com os seguintes ingredientes:

      - Uma parte de fé
      - Uma parte de paciência
      - Uma parte de coragem
      - Uma parte de trabalho

Junte a cada dia uma parte de esperança, de felicidade e boa-vontade.

Misture bem, com uma parte de dignidade, uma parte de meditação e uma parte de entrega.

Tempere com uma dose grande de bom espírito, uma pitada de alegria, um pouco de acção, e uma boa medida de humor.

   Coloque tudo num recipiente de amor.

      Cozinhe bem, ao fogo de uma alegria radiante.    

         Guarneça com um riso franco e sirva sem reserva. 
 
(publicado também no blog azul)
 

Pôr as coisas em perspectiva

beatriz j a, 23.12.21

 

Voltou a falar-se muito da inépcia da justiça a propósito da prisão cinematográfica de Rendeiro e da prisão tardia de Pinho. Por entre as muitas críticas que se fazem à justiça -os preços absurdos que a afastam do cidadão comum, a interpretação da lei que permite aos acusados escapar-se-lhe com a interposição infindável de recursos, a promiscuidade com o poder político- há uma que me parece não levar em conta a evolução da ciência e da tecnologia. Falo da lentidão da justiça.

Hoje em dia o processo da prova é muito mais complexo do que era há vinte anos, quando pouco mais havia que a testemunha, alguns testes imprecisos e alguns documentos. Agora existem perícias científicas de toda a ordem: médicas, químicas, balísticas, métricas, genéticas, de vídeo, de áudio e um ror de outras que eu nem sei porque não conheço a justiça pelo lado do forro, por assim dizer. Para não falar da complexidade da própria legislação. Essas perícias mobilizam pessoas de várias instituições, cada uma e todas elas com as suas burocracias a cumprir. 

Sabendo nós que as instituições públicas estão em processo de desfalque de recursos humanos, parece-me inevitável que todos estes factores tenham influência no tempo que leva a finalizar-se um caso judicial. A vantagem, no entanto, é haver maior rigor nos processos e cometerem-se menos erros, nomeadamente erros que atiram para a cadeia pessoas inocentes - no passado isso devia ser comum e, se fizessem cá a revisão de processos como fazem nos EUA e em Inglaterra, acredito que assistiríamos ao que vemos passar-se lá que é libertarem-se pessoas ao fim de dez, quinze, vinte ou mais anos, por erros judiciais. Esses erros, apesar de tudo, são piores que os seus contrários, aqueles que deixam fugir os Rendeiros. 

 

(texto também publicado no blog, Azul)

E assim nasceu «La Bohème»

beatriz j a, 22.12.21

 

imagem da wiki

GiacomoPuccini.jpg

Giacomo Puccini nasceu neste dia, 22 de Dezembro, em 1858, em Lucca, Itália. Pertencia a uma família de músicos, tanto pelo lado do pai como da mãe, organistas e compositores da corte. O seu pai era mestre-de-capela, lugar que muitas vezes passava de pais para filhos.

A família não tinha muito dinheiro e Puccini, que desde cedo tocava orgão em várias igrejas, completava esse magro salário tocando músicas populares, ao piano, em bares e casas de má reputação locais.

Em 1879 foi assistir à representação da «Aida», uma ópera de Verdi. Esta representação afectou-o muito, emocionalmente, e teve um grande impacto nos seus planos de futuro. Decidiu abandonar a ideia de ser compositor da corte como o pai e, em vez disso, enveredar pelo caminho da composição teatral operática.
 
Depois de acabar os estudos em Lucca foi para o Conservatório de Milão com uma bolsa de estudos mais algum dinheiro de um tio que o ajudava. Porém, o dinheiro era sempre curto para os gastos. Puccini passou esses anos anos de estudante em Milão numa vida boémia. Fez muitas amizades no mundo da música e da literatura. Conheceu Mascagni, outro compositor, com quem partilhava um quarto numa mansarda. Cozinhavam no quarto para poupar dinheiro, mas como isso era proibido, tocavam música em altos berros, para abafar o ruído dos tachos e panelas. Juntavam ali outros amigos boémios do mundo da música e da literatura. E assim nasceu «La Bohème».
 
«La Bohème» é uma ópera de Puccini passada no ambiente boémio do Quartier Latin, em Paris, entre um grupo de músicos, pintores, filósofos e escritores com pouco ou nenhum dinheiro que vive entre os quartos de mansardas e os cabarés, sempre a fugir dos senhorios e das rendas. A história gira à volta de Rodolfo, poeta parisiense pobre que se apaixona por Mimi, uma costureirinha e do seu amigo Marcello, apaixonado por Musetta, uma cantora.
 
«La Bohème» é a ópera mais famosa, não só de Puccini, mas de todas as óperas de sempre. É extremamente popular e fácil de ver. No próximo ano o Teatro Nacional de São Carlos traz à cena uma representação da «La Bohème». Para quem nunca teve a experiência da ópera, «La Bohème» é talvez a melhor introdução que pode ter: música muito melodiosa, acção cativante. Tem duas das árias mais famosas de todo o repertório operático, Che gelida manina e  Mi chiamano Mimì.
 

Giacomo_Puccini_Albumblatt_Mi_chiamano_Mimi.jpg

Trecho partitura da ária "Mi chiamano Mimì", de La Bohème, com autógrafo de Puccini (1902). (Wiki)
 
(texto também publicado no blog, Azul)

Porta de entrada

beatriz j a, 21.12.21

 

O Delito fez-me um convite para colaborar com eles e eu aceitei participar desta experiência colectiva. Sou uma leitora assídua, de há anos, deste blog, que conseguiu manter o espírito crítico e aberto, fugir às polarizações culturais e políticas do nosso tempo e acolher sensibilidades diferentes. Ao transpor a porta de entrada do blog cumprimento todos os autores do blog e agradeço o simpático convite que implica a aceitação da minha maneira de ser, politicamente desalinhada.