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Socorros alternativos

por João Campos, em 29.07.19

Depois das golas inflamáveis para protecção em caso de incêndio distribuídas pela Protecção Civil, aqui fica uma ideia para as campanhas de segurança balnear: basta o Instituto de Socorros a Náufragos trocar as bóias de salvação tradicionais das praias por uma destas, no mais moderno estilo vintage (o tom de ferrugem é a opção mais barata; pode-se arranjar material em cores mais interessantes).

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Aceita-se ajuste directo. Dr. Cabrita, não tem de quê. 

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Enganos académicos

por João Campos, em 25.07.19

Tem sido interessante ler algumas defesas de Boris Johnson - sobretudo à direita, mas também uma ou outra à esquerda - por ele ser um "intelectual", um "académico", formado "em Balliol" (Oxford, vá), estudioso dos clássicos latinos e helénicos. A propósito disto ocorrem-me duas coisas mais ou menos óbvias. A primeira, que comparar o currículo universitário do novo primeiro-ministro britânico à mediocridade académica da nossa classe política não significará grande coisa - perante a "licenciatura" de Sócrates, o "currículo" de Passos Coelho ou o "português falado" de António Costa,  qualquer licenciado com um curso (qualquer curso) concluído com média de 12 nos quatro (três? cinco?) anos regulamentares que saiba a diferença entre um sujeito e um predicado parecerá um prodígio. E a segunda, quase tão evidente como a primeira, que um bom aluno não é necessariamente um bom profissional, seja na sua área de estudo ou em alguma outra. Dito de outra forma: Johnson até poderá ser um intelectual de primeira água (não faço ideia se o será), mas isso, por si só, será insuficiente para que seja um bom primeiro-ministro, ou até um primeiro ministro razoável. É um pouco como um fato de três peças: ao vesti-lo, um grunho até poderá parecer elegante, mas nunca deixará de ser um grunho. E, convenhamos: de grunhos licenciados e bem vestidos está este mundo cheio.

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Rutger Hauer (1944-2019)

por João Campos, em 24.07.19

I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.

Blade Runner (1982)

Há actores que precisam de uma carreira considerável para serem lembrados. Rutger Hauer precisou apenas de improvisar um monólogo nos minutos finais de Blade Runner para alcançar a imortalidade. 

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As ovelhas

por João Campos, em 15.07.19

Fui passar o fim-de-semana à terra, aproveitando a passagem por lá tanto da minha irmã como de um amigo de infância emigrado. Normalmente, a ida à aldeia não serviria de pretexto à bloga (só talvez pela açorda de marisco na Zambujeira do Mar, que continua extraordinária), mas quando ontem já preparava o regresso a Lisboa esta notícia do Público fez-me pensar se a viagem de Intercidades prevista para as 19:25 não se revelaria atribulada. 

Comboio Intercidades atropela ovelhas e fica parado quatro horas

O comboio saiu de Lisboa pouco depois das 14h e chegará ao Algarve com quatro horas de atraso.

Em circunstâncias normais, um acidente desta natureza com o comboio que faz o percurso Lisboa - Faro não devia causar atrasos na composição que faria o percurso inverso horas mais tarde, mas quem viaja com frequência na CP sabe que hoje em dia as circunstâncias da ferroviária serão tudo menos normais. Se o comboio acidentado a ir para baixo fosse o mesmo comboio que devia voltar para cima mais tarde, e se não houvesse uma composição de reserva, o atraso seria inevitável. Sabendo que a minha namorada estava nas imediações de Sete Rios, pedi-lhe que passasse na estação e tentasse saber alguma coisa. 

"Aqui não têm qualquer informação de atraso", diz ela pelo telefone. "Dizem que os comboios não são os mesmos, e que o comboio não bateu num rebanho de ovelhas, mas apenas numa ovelha".

Não fiquei especialmente descansado, mas não havia muito mais a fazer (e dei por mim a pensar quão grande teria de ser uma ovelha capaz de rebentar com uma locomotiva). Perto da hora fui para a estação, encontrei um antigo colega de escola e entretemo-nos à conversa. Como era de esperar, às 19:25 não vimos nenhum comboio atravessar o arco da ponte da muito arruinada Estrada Nacional 266, logo antes de entrar na estação de Santa Clara - Sabóia. Os minutos foram passando. Nada de comboio, e nada de informação - a estação encontra-se há muito encerrada, funcionando apenas como apeadeiro, pelo que não há um empregado a quem se possa perguntar algo. Os altifalantes permaneceram em silêncio. O aparelho de contacto estava avariado ou desligado - premia-se um botão, ouvia-se um pi-pi-pi, e nada. A "linha de apoio" da CP continua muda - imagino que seja mais fácil comunicar com Proxima Centauri do que obter "apoio" da ferroviária. Perto das 20:00 (já com meia hora de atraso, portanto), lá soou qualquer coisa nos altifalantes roucos da estação: que ia chegar um comboio Intercidades às 20:30, perdão, às 20:10, e mais algumas palavras imperceptíveis. Mas era melhor do que nada - era, finalmente, uma informação. 

Só quando vimos um comboio a vir de Norte quando devia vir de Sul é que percebemos mesmo o que se passava.

O comboio parou e, em menos de nada o revisor viu-se rodeado por todos os passageiros que aguardavam em Santa Clara - Sabóia. E esclareceu: aquele era o comboio que saíra de Lisboa pouco depois das 14:00 e que tivera o tal incidente com a ovelha ou as ovelhas. E aquele era também o comboio que partiria de Faro com destino a Lisboa, e que devia parar naquela estação às 19:25 (estaríamos perto das 20:15). Considerando que a viagem entre Sabóia e Faro leva uma hora e quinze minutos, é fazer as contas (para recordar as sábias palavras do Guterres) ao tempo que ainda teríamos de esperar ali, no meio de nenhures, numa estação fechada e muito pouco abrigada, com a noite já a cair. Perante os protestos, lá balbuciou um "eu entendo, mas não é culpa minha", enfiou-se na carruagem e partiu rumo ao Algarve.

Sendo da terra, pude voltar a casa dos meus pais para jantar (os outros passageiros não tiveram a mesma sorte), antes de regressar à estação para tentar a única alternativa a uma espera longa e incerta, ou ao adiar da viagem para o dia seguinte: apanhar um comboio "especial" que a CP faz às Sextas de Lisboa para Faro, e aos Domingos de Faro para Lisboa, e que devia parar ali às 21:25. Lá chegou com cinco minutos de atraso: uma automotora de três carruagens com todos os lugares ocupados e com dezenas de passageiros amontoados pelo chão. Foi assim que voltei da província para a capital neste Verão de 2019: sentado no chão de uma automotora, felizmente entretido a ler banda desenhada (ao contrário dos telemóveis e dos tablets, os livros e as bandas desenhadas nunca ficam sem rede ou sem bateria); à minha frente, um velhote de pé - saiu na Funcheira, sorte dele -, um homem de meia idade sentado no chão a olhar para o vazio e outro, de pernas cruzadas no chão, a fazer qualquer coisa num computador portátil. Dois estudantes sentavam-se nos degraus da porta e falavam de futebol, passando de craques recentes a partidas disputadas décadas antes de terem nascido. Havia crianças e idosos a permanecer de pé, gente sentada em cima de malas e no chão, a desviar-se sempre que alguém queria chegar à casa de banho, a levantar-se quando a posição se tornava insuportável. O revisor, esse, nunca apareceu - e imagino que terá mantido o mínimo contacto possível com os passageiros. 

Lá cheguei a Lisboa minutos antes da meia-noite. E em Sete Rios, onde ninguém iria embarcar naquele comboio, já se sabia qualquer coisa: que o comboio Intercidades procedente de Faro com destino a Lisboa Oriente circulava com um atraso de três horas e trinta e tal minutos, e que a hora prevista de chegada seria à uma e dezoito da manhã (mais o pedido de desculpas "pelos incómodos causados"). Uma informação que, cinco horas antes, teria decerto sido útil para os passageiros que esperavam em Sabóia - e, imagino, nas Amoreiras e nas Ermidas (talvez na Funcheira ou em Messines se soubesse de alguma coisa, o que não será de todo garantido), mas que ali pouca utilidade teria. Quem habita no interior - naquele interior só lembrado quando há desgraças - não merece comboios pontuais, e muito menos informação sobre os atrasos. Esperem ou amontoem-se nos comboios, se quiserem. Da próxima vez que o Marcelo e o Costa se lembrarem de ir fazer propaganda para o interior, sugiro que viajem como eu e muitos outros viajámos hoje: sentados durante no chão sujo de uma automotora durante horas. Talvez lhes servisse de lição antes de dizerem asneiras e fazerem promessas vazias. 

O amigo emigrado que encontrei no fim-de-semana disse-me que na Alemanha, onde vive, os passageiros ficam fulos se um comboio se atrasa dois minutos. Pensei muito nisso hoje (ontem) à tarde. Talvez a culpa de todos estes atropelos até seja nossa: bufamos pelos atrasos e pelas supressões constantes, mas acomodamo-nos. Não reclamamos, não partimos a loiça, não abanamos umas carruagens, não fazemos um motim numa bilheteira, não cobrimos um ministro ou um secretário de estado de alcatrão e penas. Nada. Encolhemos os ombros a cada declaração autista de um (ir)responsável político. Gracejamos quando o atraso se repete (e repete). Cagamos umas larachas - para usar uma expressão da terra - nas redes sociais e ficamos por aí, apaziguados pela falsa empatia dos likes e dos emojis furiosos. Enfim, seremos ovelhas, também - e nesse sentido até teremos talvez sorte pelo atraso dos comboios, que pelo menos assim não nos colhem na linha. 

 

ADENDA: Devia ter transcrito este post para as folhas do livro de reclamações, já que me saiu bem melhor. Pormenor interessante: um utente que queira fazer uma reclamação na Estação de Sete Rios terá de escrever de pé, sobre o balcão estreito, quase em cima de quem precisar de utilizar a bilheteira. Enfim, dadas as condições de viagem que a CP me proporcionou ontem, não deixa de ser ironicamente adequado ver-me obrigado a passar longos minutos de pé a preencher os formulários e a descrever o ocorrido. 

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O imaterialismo aplicado aos serviços públicos

por João Campos, em 24.06.19

“Não se pode deixar de dar nota que os atrasos também são o resultado de um fenómeno próprio e específico da procura que tem a ver com o facto de a generalidade dos cidadãos optar, sistematicamente, por se dirigir aos mesmos serviços, à mesma hora – antes da abertura do atendimento ao público”, explicou [Anabela Pedroso, Secretária de Estado da Justiça]. (via Observador)

A lógica é admirável: se os cidadãos não forem para as filas dos serviços públicos, não há filas nos serviços públicos. Dito de outro modo: os serviços públicos funcionam globalmente bem se não forem utilizados. É o princípio do SIRESP (o serviço de comunicações de emergência que funciona sempre bem desde que não haja emergências) aplicado às lojas do cidadão e às repartições de registo civil. Nem sei por que motivo há-de o Governo ficar por aqui. Aguardo que o Secretário de Estado das Infraestruturas diga que a culpa dos problemas dos transportes é dos utentes, que os utilizam; ou que o Secretário de Estado da Saúde venha a público defender que os problemas actuais do SNS não se devem às cativações ou à simples irresponsabilidade do Governo, mas sim aos utentes, que teimam em adoecer, em frequentar hospitais e, maçada das maçadas, em agendar cirurgias. Como se não tivessem nada melhor para fazer.

(como é bom de ver, a culpa da falta de obstetras durante o Verão nos hospitais de Lisboa, mas também nos de Beja e de Portimão - a província não faz muitas manchetes - não se deve a nenhuma falha do Ministério da Saúde, mas sim a todas as mulheres que, malvadas, ousaram engravidar algures entre Novembro e Dezembro do ano passado)

Daqui até à filosofia vai um passo de bebé, desde que o bebé nasça no Outono ou na Primavera: se um serviço público abrir e ninguém estiver lá para tratar de alguma coisa, ela faz algum som? Julgo que o exercício funcionava melhor com a árvore e a floresta, mas essas, enfim, arderam em 2017 (e, lá está: se não fosse as árvores...). Fiquemos então com as repartições públicas, exemplo de imaterialismo que julgo não ter ocorrido a Berkeley.

Mais admirável do que a lógica só mesmo o descaramento. Mas esse será tudo menos imaterial.

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A praia ou o sofá

por João Campos, em 27.05.19

Passaram mais umas eleições, com a inevitável abstenção estratosférica e com os não menos habituais comentários, oficiais ou oficiosos, a tratar os abstencionistas como leprosos. Ouve-se e lê-se de tudo. Que a culpa é do sol e da praia (ou da chuva e do sofá, se estamos no Outono). Ou da bola, quando rola. Que falta "educação para a cidadania", o que quer que isso signifique. Que quem não vota não tem direito de se queixar. Que isto ia lá era com o voto obrigatório e com multas pesadas para os malandros dos incumpridores - passe a lei de Godwin à portuguesa, o nosso salazarito colectivo emerge sempre nestas situações.

(já agora: não, o voto não devia ser obrigatório - haver países em que o é não justifica coisa alguma, o voto é um direito que se conquistou e não um dever que foi imposto, e consigo pensar em vários motivos perfeitamente válidos para não se ir às urnas que não poderiam ser justificados perante uma "Autoridade Eleitoral". Já nos basta a Tributária e as suas derivas kafkianas.)

Tanto se fala e escreve, e poucos arriscam explicações mais simples. Se calhar a meteorologia, a bola, a cidadania ou falta dela, ou apenas a preguiça, não são tanto causas como pretextos. Dito de outra forma: é possível que os portugueses não votem porque os candidatos, escolhidos de forma opaca e com méritos na sua maioria duvidosos, por partidos mais virados para dentro do que para fora, não entusiasmam ninguém. Rigorosamente ninguém. Nem antes da campanha, quando ainda estão mais ou menos calados e se pode pensar que têm algo interessante para dizer, e muito menos durante a campanha, quando abrem por fim a boca e se percebe que dali não sai nada de jeito - e o pouco que sai, regra geral, sai num português sofrível. Olhe-se para o PS: levou para a Europa Pedro Silva Pereira, esse Sócrates da loja dos 300, numa lista liderada por Pedro Marques. Pedro Marques: um homem com o carisma, a personalidade, e a eloquência de uma tábua de contraplacado (a sério: uma estante "Billy" da Ikea dá mais vida a uma sala*). E a lista dele foi a mais votada, pelo que ninguém das outras listas se ficará a rir com propriedade.

É-me mesmo muito difícil criticar alguém que diga "eu até ia às urnas, mas para votar no Pedro Marques ou no Nuno Melo mais vale ir à praia." Ou alguém que, após um debate televisivo de umas eleições europeias onde ninguém fala da Europa e do qual não se retira nada para além de uma bela dor de ouvido, decida que ficar em casa a ver um jogo da segunda liga checa num canal do cabo é capaz de ser mais interessante. Eu, gostando pouco de praia e cada vez menos de futebol, percebo perfeitamente o impulso.

Sim, há a opção de ir e votar branco (para a qual devia mesmo haver um quadradinho no boletim) ou de anular o voto rabiscando qualquer coisa no papel. Mas o autismo dos comentários aos abstencionistas (esses malandros) não deixa antever interpretações especialmente sagazes ao fenómeno, caso tivesse relevância. Com toda a probabilidade, os partidos vencedores diriam: "rejeitaram os outros". E os vencidos responderiam: "a maioria dos eleitores não vos escolheu". O Presidente, tal como agora manifesta (manifesta?) preocupação pela abstenção, congratular-se-ia pela afluência às urnas. E tudo ficaria na mesma.

Mal por mal, venha a praia ou o sofá.

(Já agora, e em jeito de declaração de interesses: fui votar nas Europeias do último domingo, e se a memória não me falha desde os dezoito anos apenas faltei a um acto eleitoral; possivelmente as Europeias de 2004. Terá sido a bola, lá está.)

*Garanto que os suecos não me pagaram para dizer isto.

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Pensamento da semana

por João Campos, em 21.04.19

A  morte é o último refúgio dos deuses.

Os avanços da ciência todos os dias privam o divino dos seus poderes de criação do Universo - teorizámos o Big Bang e a Relatividade, pisámos o solo lunar, enviámos sondas aos vários planetas do Sistema Solar (duas delas encontram-se nas nossas fronteiras estelares), e ainda há dias tivemos a oportunidade de contemplar com assombro, pela primeira vez na História, o ambiente que envolve um buraco negro a 55 milhões de anos-luz de distância no tempo e no espaço. Um feito científico e tecnológico notável, para nos mostrar algo que reside a uma distância incompreensível. Também a criação humana escapou ao domínio dos deuses, por Darwin e por todos os que se lhe seguiram - não fomos criados pelo sopro divino mas pela evolução dos primeiros organismos a residir no lodo primordial, que aos tropeções pelas eras nos permitiram chegar aqui, milhares de milhões de anos volvidos. A vida será um milagre, talvez, mas menos pelas suas múltiplas interpretações divinas do que pela sua fascinante improbabilidade.

Resta a morte, absoluta na sua inverosimilhança e no seu mistério. É nela, e não no espaço, que reside a fronteira final. O derradeiro abismo. Como o horizonte de eventos do buraco negro M87* - nem a luz lhe escapa, e tudo o que ultrapassa as suas fronteiras cósmicas esvai-se para lá do nosso conhecimento. Sabemos da existência da morte e da sua inevitabilidade; tentamos não pensar nela no nosso dia-a-dia, e tentamos preparar-nos para ela sempre que se nos impõe. É um exercício fútil: não há doença incurável, acidente irreparável ou velhice prolongada que nos permita antecipar o fatidico momento em que o coração de alguém que nos é querido pára de bater e a sua pessoa, única e irrepetível, desaparece para lá do nosso alcance. Resta o vazio que essa pessoa deixa, as memórias que nos acompanharão até ao fim, e o desejo improvável de a voltarmos a encontrar. É aqui que as respostas da ciência se revelam insuficientes, incapazes que oferecer consolo ou de alimentar uma esperança que escapa à lógica e a razão. E é neste vazio tão vasto e diminuto, e nesta esperança impossível, que sobrevivem os deuses.

 

Este pensamento acompanhou o Delito durante toda a semana.

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Douglas Rain faleceu ontem, aos 90 anos. É possível que o nome diga muito pouco à maioria dos leitores; a sua fotografia, se aqui fosse publicada, pouco mais diria. Mas este círculo vermelho e a sua voz grave tornaram-se inesquecíveis quando, há cinquenta anos, construíram a mais famosa inteligência artificial da ficção científica: HAL 9000, o tripulante incorpóreo da Discovery na sua expedição à órbita de Júpiter para confirmar o elusivo primeiro contacto feito com o monólito lunar. Falo de 2001: A Space Odyssey, claro; todo o segundo acto do filme pertence à expressividade impossível que Rain confere ao olho inescrutável que vigia cada recanto da nave espacial, um feito notável quando pensamos que, num filme com tão pouco diálogo, praticamente todas as palavras relevantes são proferidas pela personagem tornada presente pela sua voz. Do orgulho inicial ao impulso homicida, da determinação pela continuidade de uma missão que não consegue compreender até ao desespero dos momentos finais, quando Dave Bowman, suspenso em gravidade zero, lhe desliga os circuitos de memória um por um - o tom enganadoramente monocórdico de Rain transmite todas as emoções da personagem com subtileza, sem esforço aparente. Voltei a confirmar isto mesmo nos últimos meses, nas duas oportunidades que tive de rever a obra-prima de Stanley Kubrick no grande ecrã: inúmeras visualizações depois, o HAL 9000 continua tão fascinante e ameaçador como da primeira vez que o ouvi. Douglas Rain, o actor, talvez tenha tido uma passagem discreta pela Terra; mas a sua voz, essa, perdurará entre as estrelas. 

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O apêndice

por João Campos, em 26.09.18

Segundo o Público, António Costa tenciona manter "todos os membros do Governo", isto a propósito da novela Tancos e do maluquinho de aldeia que passeia pelas imediações do Ministério da Defesa. No que diz respeito a Azeredo Lopes, as declarações de Costa são manifestamente generosas - dado o absurdo da actuação do ministro desde o Verão do ano passado, o homem estará muito longe de ser um membro do Governo, ou de qualquer Governo. Na melhor das hipóteses será um apêndice: é um vestígio sabe-se lá de quê, não tem utilidade prática, volta e meia dá uma valente dor de barriga e removê-lo é uma maçada. 

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Pouca terra, e pouca vergonha

por João Campos, em 24.08.18

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Sim, pelos vistos a CP tem um serviço que permite a entidades públicas e privadas fretarem comboios. Sim, é possível que esses comboios tenham prioridade na passagem em relação às composições regulares que percorrem as linhas (não sei se têm ou não, nem julgo que esse seja o ponto pertinente). E não, em circunstâncias normais não seria sequer notícia o facto de o Partido Socialista fretar um comboio para levar os seus militantes em excursão até à festa do partido em Caminha - aliás, seria sem dúvida uma excelente escolha. O problema é que as circunstâncias presentes da CP e do seu serviço ferroviário (passe a generosidade) são tudo menos normais - e não houve uma alma no PS capaz de dizer em voz alta que uma viagem de ida e volta de Lisboa e Pinhal Novo até Caminha num comboio fretado à CP talvez não fosse a melhor ideia quando a CP tem sido notícia pelos atrasos e pelas supressões de comboios, pelas avarias constantes, pela falta de asseio nas composições, pelo ar condicionado avariado em dias de muito calor, pela falta de informações, pelo serviço Intercidades a ser feito por automotoras do serviço Regional, e pela degradação generalizada do serviço que presta de Norte a Sul do país. 

 

Bem vistas as coisas, não admira que tal não tenha ocorrido a ninguém. Abunda muita coisa no PS de António Costa - arrogância, prepotência, incompetência, esperteza saloia, uma profunda ignorância e um ainda mais profundo desprezo pelos cidadãos. Já a vergonha, essa, é mais difícil de apanhar por lá do que um comboio a horas na Linha do Algarve. Parafraseando Elisa Ferreira, "os comboios são da CP, são do PS". 

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Pouca terra

por João Campos, em 20.08.18

Já não será talvez notícia o descalabro do serviço ferroviário da CP. São os atrasos diários e as supressões frequentes de comboios, com nenhum aviso e poucas alternativas. São as saunas forçadas nos dias mais quentes, em composições cujos sistemas de ar condicionado não funcionam quando as temperaturas exteriores ultrapassam os 40º (algo que, convenhamos, não é exactamente incomum em boa parte do país durante os meses de Verão). É a falta de limpeza de estações e carruagens - ainda há umas semanas, na viagem que fiz no Intercidades que liga Lisboa a Faro, deparei-me com uma casa-de-banho acabada de abrir coberta, literalmente, de mijo e merda. É a falta de manutenção dos comboios e a utilização de automotoras dos serviços Regionais em percursos feitos pelos Intercidades, sem que a redução de qualidade seja acompanhada pela redução do preço do bilhete*. E, claro, é a indiferença generalizada de quem está no poleiro para com a degradação evidente e inegável dos comboios de Portugal. Como disse, talvez nada disto seja notícia - mas nem por isso deve deixar de ser noticiado. Merece por isso destaque o Público pelas excelentes reportagens que tem vindo a publicar sobre o assunto, como se pode conferir na etiqueta comboiosDurante esta semana serão publicadas cinco reportagens sobre o serviço em algumas linhas de comboio, no dossier  "A ver passar comboios" - arrancou hoje com a ligação cada vez mais precária no que resta da Linha do Alentejo*, num texto que deve ser acompanhado por esta excelente reportagem fotográfica. Aguardo pelas restantes com expectativa.

 

* No início do Verão, e quando o serviço da CP já estava a descarrilar, houve quem fosse para a comunicação social reclamar pelo fim da concessão à Fertagus - que presta um bom serviço, ainda que caro, aos habitantes da margem Sul do Tejo - e pela entrega desse percurso... à CP. Ele há coisas do arco da velha. 

** Sobre a linha do Alentejo, convém não esquecer que a ligação directa por Intercidades entre Beja e Lisboa acabou no início de 2011, e a linha entre Beja e a Funcheira - e o Algarve, portanto - foi suprimida no final de 2011. Curiosamente, em 2011 foi inaugurado o Aeroporto... de Beja. Isto talvez já nem seja do arco da velha. 

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Sim, Guillermo, ganhaste mesmo - desta vez não houve engano no envelope 

 

Apesar de dar alguma atenção aos prémios norte-americanos do cinema, não costumo esforçar-me para ver todos, ou sequer a maioria, dos filmes nomeados ao Óscar para Melhor Filme. Boa parte dos filmes nomeados, sendo (regra geral) pelo menos bons filmes, ou não me despertam interesse ou não me despertam interesse suficiente para pagar o bilhete de cinema (ou não estrearam ainda por cá, como aconteceu neste ano com Lady Bird, que só chegará às salas portuguesas nos próximos dias). Por norma, acabo por ver um ou dois - os nomeados de ficção científica ou fantasia, quando os há, e um ou outro filme que me chame a atenção. Inevitavelmente, é bastante raro ganhar um filme que eu tenha visto e pelo qual estivesse a torcer. Aconteceu nos prémios de 2004, que finalmente distinguiram a extraordinária adaptação cinematográfica de Peter Jackson a The Lord of the Rings com 11 Óscares para The Return of the King. Aconteceu em 2015, com o  Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) de Alejandro Iñárritu, que não sendo exactamente um filme de género aproxima-se um pouco daqueles territórios temáticos e tem um carácter referencial intrigante (para além de um Michael Keaton inspiradíssimo). E aconteceu em 2018, com o único filme nomeado que vi a conquistar a estatueda dourada: o belíssimo The Shape of Water de Guillermo Del Toro. 

 

É uma combinação curiosa: uma fábula fantástica enquadrada numa trama de espionagem do tempo da Guerra Fria, onde Del Toro actualiza inúmeras referências do cinema que o maravilhou noutros tempos (Creature of the Black Lagoon) e de contos intemporais (A Bela e o Monstro, e as suas múltiplas variações) numa história sobre uma mulher muda e para todos os efeitos invisível e o monstro proverbial, profundamente alienígena e ainda assim mais humano do que os homens que o mantém cativo e o torturam. Mais do que uma história de amor improvável, The Shape of Water é um filme sobre o carácter decisivo dos pequenos gestos, sobre a irrelevância das diferenças, sobre a coragem, sobre a empatia - algo tão em falta nos dias que correm. Juntamos a isto uma grande banda sonora, interpretações notáveis de um grande elenco (o prémio para Melhor Actriz Principal também teria sido bem entregue a Sally Hawkins, e chegará o dia em que se dará o devido valor às interpretações de actores como Doug Jones, eterno colaborador de Del Toro), e o virtuosismo técnico a que os filmes do realizador mexicano já nos habituaram, e temos um digno vencedor do Óscar. 

 

Não será, é certo, o melhor filme da sua carreira - essa distinção caberá sem dúvida ao extraordinário El Laberinto Del Fauno, que nunca chegou à categoria principal dos Óscares por ser falado... em espanhol. Mas nem por isso The Shape of Water deixa de ser um excelente representante tanto de géneros habitualmente desprezados pela crítica como da filmografia e da iconografia inconfundíveis de Del Toro, onde o banal se encontra em constante diálogo com a estranheza. Será sem dúvida um dos realizadores contemporâneos que mais aprecio. Dele recordo HellboyHellboy 2: The Golden Army, duas transposições notáveis e visionárias da banda desenhada de Mike Mignola numa época onde alguns fracassos ruidosos nas adaptações de banda desenhada não deixavam antever o frenesim que se instalaria no género alguns anos mais tarde. E recordo o som e a fúria de Pacific Rim, talvez o mais divertido blockbuster dos últimos anos, que me fez sentir como um miúdo na sala de cinema. É pena que Del Toro nunca chegue a concretizar o derradeiro capítulo da trilogia Hellboy que planeou, e que Ron Perlman tanto queria fazer. Como é pena que tenha acabado por não realizar a adaptação de The Hobbit, como esteve previsto; é provável que tivesse dado uma interpretação muito própria à história clássica de Tolkien, algo que Peter Jackson, amarrado aos espartilhos dos estúdios e ao seu próprio legado na Terra Média, já não conseguiu fazer.

 

Mas ainda ouviremos falar muito dele; oportunidades decerto não faltarão para que Guillermo Del Toro nos encante de novo com as suas fábulas e os seus monstros. E para que volte a demonstrar, como demonstrou em The Shape of Water e como fez questão de sublinhar no seu discurso de Domingo à noite, que a grande ficção de género não tem de se resumir ao escapismo a que muitos a condenam sem a conhecer - ela olha antes para o presente a partir do ponto de vista da imaginação. 

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Pensamento da semana

por João Campos, em 10.02.18

Conseguimos eliminar doenças que há não muito tempo dizimavam populações inteiras. Conseguimos viver muito mais tempo, e com mais saúde, do que os nossos antepassados; e mesmo que o nosso tempo de vida nos pareça sempre curto, temos a possibilidade de viajar e de conhecer mais mundo do que alguma vez foi possível. Conseguimos criar uma rede de comunicação instantânea que une todos os pontos do globo e que coloca praticamente todo o conhecimento da Humanidade disponível à distância de alguns cliques. Conseguimos sequenciar o genoma humano. Conseguimos explorar os abismos oceânicos. Conseguimos quebrar as barreiras e colocar uma missão permanente na órbita baixa do planeta. Conseguimos pisar a Lua, conseguimos levar o engenho humano até aos limites do Sistema Solar, e conseguimos, através desse mesmo engenho, vislumbrar distâncias incompreensíveis no tempo e no espaço. Sim: isto não chega a todos, infelizmente, mas o potencial existe. E eis que chegámos ao prodigioso ano de 2018: à era da pós-verdade, dos factos alternativos, da equiparação do método científico a palpites orgulhosamente ignorantes, de um orgulho nacionalista tão absurdo como perigoso, do regresso do ódio pela diferença, de um fanatismo religioso que envergonharia populações medievais.

 

Se estivesse a ver isto de fora talvez fosse capaz de apreciar a ironia. 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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 Ursula K. Le Guin em 1985 (fotografia de Brian Drake para o The Times, via Los Angeles Times)

 

In reading a novel, any novel, we have to know perfectly well that the whole thing is nonsense, and then, while reading, believe every word of it. Finally, when we're done with it, we may find - if it's a good novel - that we're a bit different from what we were before we read it, that we have been changed a little, as if by having met a new face, crossed a street we never crossed before. But it's very hard to say just what we learned, how we were changed.

Ursula K. Le Guin, na introdução a The Left Hand of Darkness (1969)

 

Para a ficção científica literária, a morte de Ursula K. Le Guin representa o desaparecimento de toda uma época: Le Guin começou a publicar no início dos anos 60, já nos derradeiros anos da famosa "Golden Age" do género; atravessou a revolução da "New Wave" no final dessa década, e continuou pelas décadas de 70 e 80. Seria talvez a última autora clássica do género: no tributo que lhe presta nas páginas do Los Angeles Times, o escritor John Scalzi descreve Le Guin como "a supporting column of the genre, on equal footing and bearing equal weight to Verne or Wells or Heinlein or Bradbury." Mas talvez seja mais do que isso. Verne, Wells e Heinlein (e Clarke, e Asimov) são clássicos pela fundação e pelo desenvolvimento do género, mas Le Guin não seguiu as pisadas dos homens que a antecederam: a sua obra tornou-se clássica não pela continuidade que deu ao cânone da ficção científica, mas pela rejeição desse cânone, pelo expandir dos horizontes de todo o género, e pela forma exemplar como demonstrou que a Ideia, pedra angular da ficção científica, pode não lhe bastar. 

 

E demonstrou-o pela palavra, em contos e livros excepcionais. Diria ser impossível esquecer The Ones Who Walk Away From Omelas, uma parábola poderosíssima escrita em poucas páginas. Ou a ambiguidade de The Dispossessed, com a sua trama dividida entre a sociedade anarquista de Anarres e a sociedade capitalista de Urras, uma reflexão pertinente num terreno pantanoso onde autores menores se afundariam aos primeiros passos. Ou The Left Hand of Darkness, com a sua desconstrução da identidade de género e o seu estudo meticuloso sobre a importância, e a irrelevância, da diferença. Ou - provavelmente o meu preferido - The Lathe of Heaven, livro-tributo a Philip K. Dick, no qual Le Guin leva até às últimas consequências a ideia de que de boas intenções está o Inferno cheio. Sempre com uma prosa excepcional e uma humanidade ímpar, que contribuíram para a elevação e afirmação de um género literário sempre considerado marginal. Para todos os efeitos, a literatura de ficção científica teve em Le Guin mais do que uma das suas maiores vozes - teve nela também uma das suas mais ferozes defensoras. 

 

Mas não se ficou pela ficção científica: a série Earthsea figura entre a melhor fantasia literária já publicada, espantosa pela sua diversidade natural e pela subtileza das suas influências orientais, que representaram uma lufada de ar fresco para um género à época dominado pela sombra de Tolkien e pelo sem-número de imitadores que se lhe seguiram. A aventura de Ged ao longo da trilogia original, em A Wizard of EarthseaThe Tombs of Atuan, e The Farthest Shore, conta com quase cinqueta anos, e não perdeu nem um pouco da sua força. 

 

Cá em casa, na biblioteca que temos vindo a construir, nenhum autor surge tantas vezes. Se tivesse de nomear o meu livro preferido de ficção científica, provavelmente não escolheria um título de Le Guin; mas se tivesse de escolher um escritor ou escritora preferido, não hesitaria na resposta. Ocorrem-me vários livros que me mudaram de alguma forma, mas apenas Le Guin o conseguiu tornar a fazer a cada novo livro ou conto que li. Ainda tenho alguns por ler, tal como a poesia, os ensaios, as inúmeras crónicas - textos dispersos felizmente compilados e editados em anos recentes. Mais do que nunca, aguardo por essas leituras com muita expectativa.

 

Ursula Kroeber Le Guin faleceu anteontem na sua casa de Portland, nos Estados Unidos. Tinha 88 anos, e escreveu livros extraordinários. 

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Outras galáxias muito distantes (7)

por João Campos, em 18.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Esta é a última das sugestões de galáxias a descobrir na literatura e na banda desenhada. Pelo menos, por agora.

 

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 Ody-C

Uma odisseia no feminino

 

Esta curta série de sugestões de leitura de space opera começou na banda desenhada, pelo que me parece muito adequado concluí-la também com banda desenhada. E com uma não menos sofisticada: se Saga inova pela forma como pega nos elementos clássicos do género e os recombina numa narrativa moderna e arrojada, já Ody-C recupera uma das mais clássicas histórias da cultura ocidental - a Odisseia de Homero -, dá-lhe uma nova perspectiva pela alteração do género de praticamente todas as personagens, e transporta-a para um futuro espacial e psicadélico narrado por Matt Fraction e ilustrado de forma assombrosa por Christian Ward.

 

Seria talvez simples reduzir Ody-C a uma versão gender-bent da Odysseia - aliás, seria porventura simples para os autores limitarem-se a essa ideia original. É certo que são exploradas algumas das passagens mais icónicas da Odisseia, como o encontro com Polifemo ou a visita a Éolo, mas Fraction e Ward levam mais longe as atribulações de Ulisses, Menelau e Agamemnon, aqui Odyssia, Ene e Gamem, uma vez terminada a guerra centenária contra Troiia-VII. Se alguns mitos são simplesmente adaptados, outros são transformados com vista à criação de um universo ficcional próprio - e as viagens de regresso das três rainhas-guerreiras, perante a oposição de um panteão liderado por Zeus que vê nas proezas marciais das três combatente e no saque de Troiia-VII um desafio ao seu poder, combinam de forma tão elegante como surpreendente as inspirações clássicas (homéricas e não só) com alguns elementos tradicionais da space opera numa narrativa moderna. 

 

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Fraction opta por narrar esta odisseia de forma pouco convencional, aludindo ao poema épico original com um texto breve e minimalista tanto na descrição como no diálogo - é uma opção porventura estranha para alguns leitores, mas que se revela muito eficaz no modo como se funde à ilustração tão inventiva como psicadélica de Ward, cheia de cores e de formas improváveis. Folhear as páginas dos fascículos ou dos paperbacks é uma experiência singular, que não remete para a tradição dos comics norte-americanos mas antes para algumas bandas desenhadas europeias; e se à primeira vista é impossível não reparar na arte de Christian Ward, uma leitura mais atenta revela a forma hábil com que pega nas ideias que as palavras de Matt Fraction evocam para recriar com absoluta originalidade personagens que todos já vimos vezes sem conta em inúmeras narrações dos mitos da Grécia Antiga. 

 

Pelo tom e pelo estilo muito próprios, é possível que Ody-C não seja uma banda desenhada para todos os leitores - as críticas tendem a polarizar-se entre quem não consegue entrar na história pela forma como esta é narrada e entre quem se maravilha a cada página pela forma imaginativa como uma história tão contada pode ser reinventada com tanta originalidade e com tanto arrojo conceptual e artístico. Pesoalmente, coloco-me no segundo grupo: das bandas desenhadas que comecei a ler em 2017, Ody-C estará sem dúvida entre as melhores. Merece uma oportunidade, e deixa uma garantia: goste-se ou não, não se lhe ficará indiferente. 

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Outras galáxias muito distantes (6)

por João Campos, em 11.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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Ancillary Justice

A irrelevância do género

 

Como penúltima sugestão de leitura nesta série sobre a space opera moderna deixo um dos livros mais falados nos círculos da ficção científica literária dos últimos anos: Ancillary Justice, o romance de estreia da norte-americana Ann Leckie que em 2013 conquistou críticos, leitores, e praticamente todos os prémios relevantes do género. E fê-lo com uma mistura muito bem sucedida de alguns dos mais convencionais elementos narrativos que associamos à space opera - impérios galácticos, alienígenas, inteligências artificiais, aventuras em planetas exóticos - com reflexões pertintenes sobre a natureza humana e sobre um tema muito em voga: a identidade de género. 

 

Nesse sentido, é possível vermos em Ancillary Justice uma continuação lógica da desconstrução da identidade e dos papéis de género que Ursula K. Le Guin (é inevitável: regressamos sempre a ela) desenvolveu no longínquo ano de 1968: em The Left Hand of Darkness Le Guin imagina no planeta remoto de Gethen uma civilização onde os seres humanos são efectivamente andróginos (simplifico), cujas características sexuais fluídas fazem com que as diferenças de género que conhecemos não tenham lugar. Leckie, admita-se, não chega a ir tão longe como Le Guin na imaginação de fisiologias alternativos e de ritos sociais elaborados. A pergunta que coloca, sendo bem mais simples do que as questões e os problemas que o contacto do terráquio Genly Ai com os seres humanos de Gethen suscitam, nem por isso é menos intrigante: se numa sociedade não existem diferenças práticas entre géneros, faz sentido manter uma pré-determinação masculina na linguagem? Para descobrir a resposta, Leckie desenvolveu toda uma trama na qual apenas se conhece o género de uma das personagens numa referência fugaz, colocando todos os pronomes e todos os indicadores linguísticos de género no feminino.

 

O resultado é uma experiência invulgar de leitura que coloca em evidência as ideias pré-concebidas dos leitores, sejam conscientes ou inconscientes, sobre pos papéis de género: o conhecimento de algo tão elementar como o género de uma personagem influencia de forma decisiva o modo como lemos essa personagem. A ausência de algo tão elementar torna a leitura algo desorientante no início - sabemos que a protagonista, Breq, tem de facto um corpo feminino, mas o facto de não sabermos isso de qualquer outra personagem induz a um jogo constante de adivinhação pelos maneirismos e pelas atitudes. No entanto, mais interessante do que descobrir a resposta é perceber que a resposta não tem qualquer relevância ou significado - que aquelas personagens são importantes pelas suas acções e pelas suas palavras, e não por características biológicas pré-determinadas. 

 

Só por isto, a leitura de Ancillary Justice seria sempre um exercício intrigante e pertinente, mas poder-se-ia argumentar que este exercício, por interessante que possa ser, não chega para fazer um bom livro. Leckie sabia-o bem, e por isso apresentou-o não pela teoria mas pela prática, enquandrando-o numa aventura ritmada e conceptualmente estimulante. Breq, outrora uma inteligência artificial multifacetada ao comando da nave militar Justice of Toren, viu-se traída e destruída, reduzida a um derradeiro corpo biológico - e durante anos procura recuperar toda a informação sobre o que aconteceu nos últimos dias da Justice of Toren, para se vingar de quem a destruiu a si e eliminou as suas tripulantes. Convenhamos: naves espaciais há muitas na ficção científica, mas poucas foram aquelas que assumiram o protagonismo das suas histórias...

 

A história de Breq/Justice of Toren tem continuidade - ao romance inaugural de 2013 seguiram-se Ancillary SwordAncillary Mercy, em 2014 e 2015. Sabendo que a surpresa do primeiro livro se esbate nas sequelas, Leckie encaminha a trama para caminhos menos percorridos no género. Mas os leitores que não se queiram comprometer com uma série mais vasta ficam muito bem servidos só com Ancillary Justice - a sua narrativa funciona de forma autónoma, a experiência de leitura é inesquecível e, no contexto das conversas da actualidade, será difícil encontrar na ficção científica literária algum livro mais pertinente. 

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Outras galáxias muito distantes (5)

por João Campos, em 04.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 Hyperion / The Fall of Hyperion

Chaucer e Keats no espaço

 

Ao contrário do que se possa pensar, a produção literária da ficção científica na década de 80 não se resumiu ao neo-noir tecnológico do cyberpunk (por mais vasta que tenha sido a sombra de Neuromancer). Na sombra das especulações cibernéticas de William Gibson, Bruce Sterling e Pat Cadigan a vetusta space opera ia sendo recuperada e reinventada, com títulos como The Snow Queen de Joan D. VingeDownbelow Station de C.J. Cherryh (ambos premiados com o prémio Hugo em 1981 e 1982 respectivamente), e com o início de sagas que marcaram o género, como a Culture de Iain M. Banks ou a Vorkosigan Saga de Lois McMaster Bujold. Mas é já na transição dos anos 80 para a década de 90 que foi publicado um dos textos mais ambiciosos e bem conseguidos que o género já conheceu: o díptico HyperionThe Fall of Hyperion, do norte-americano Dan Simmons.

 

O título soará familiar a quem conhecer a poesia de Keats - e, de facto, o poeta romântico é uma presença constante na trama que Simmons tece num futuro no qual a Humanidade alcançou a Singularidade e expandiu-se por inúmeros planetas da galáxia com a ajuda das inteligências artificiais conhecidas como Technocore (serei intencionalmente vago em alguns momentos - é difícil falar destes dois livros revelar demasiado). Mas essa expansão não foi pacífica - e, de facto, no momento em que a trama arranca a Humanidade prepara-se para a guerra com os enigmáticos Ousters. Nas vésperas dessa guerra, sete peregrinos são seleccionados para fazer a derradeira peregrinação a Hyperion, um planeta remoto e que não teria nada de extraordinário se não possuísse duas coisas únicas: as lendárias "Time Tombs", um conjunto de monumentos localizados num vale onde o tempo se desloca do futuro para o passado, e o seu guardião, o não menos lendário Shrike, uma monstruosidade bio-mecânica feita de metal e coberto de espinhos. Reza a lenda que o Shrike responderá à questão de um dos peregrinos, e matará os restantes...

 

Os sete peregrinos não se conhecem, nem sabem por que motivo foram seleccionados, mas cada um tem um motivo para estar naquele lugar naquele momento - e Simmons evoca Chaucer para construir em Hyperion um mosaico fascinante ao estilo dos célebres Canterbury Tales. Cada peregrino (excepto um) contará a sua história individual durante a longa viagem até às Time Tombs de Hyperion, formando um vasto puzzle do qual o Shrike será uma peça fundamental. Simmons, porém, leva mais longe a ideia do mosaico, desenvolvendo cada história de forma muito particular em termos temáticos. Um dos peregrinos narra uma história de horror; outro, um conto de ficção científica militar a aludir a Starship Troopers. Há um drama familiar, uma intriga política, uma aventura cyberpunk e até uma história época que abarca vários séculos e várias etapas da expansão da Humanidade pelas estrelas. Hyperion não terá sido o primeiro romance de ficção científica a empregar uma estrutura narrativa em mosaico, mas poucos o terão feito com a mesma ambição e com o mesmo engenho, conseguindo mostrar múltiplas facetas do género enquanto desenvolve uma trama intensa com o arrojo conceptual que faz parte da matriz da space opera.

 

Se Hyperion olha para o passado separado das várias personagens para contextualizar o presente da trama, The Fall of Hyperion encarrega-se de desenvolver essa trama - de forma inevitavelmente mais linear, é certo, mas nem por isso menos interessante. Cada uma das histórias do primeiro volume suscitou mais perguntas do que respostas, e cabe a esta segunda parte explorar o destino dos peregrinos e da sua visita ao Shrike. Simmons faz esta exploração com mestria, polvilhando-a de referências literárias e religiosas que convidam à releitura, sem nunca perder de vista a história que pretende contar. O resultado é aquela que será talvez a minha obra preferida dentro do género: um par de livros excepcionais tanto para os leitores mais experientes como para quem ainda não se aventurou na ficção científica. 

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Outras galáxias muito distantes (4)

por João Campos, em 28.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

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The Culture

A utopia ambígua*

 

Se considerarmos a distância a que a Humanidade se encontra de estabelecer uma presença permanente e relevante fora do planeta Terra, será porventura inevitável que qualquer noção de civilização de escala galáctica ganhe contornos utópicos. O que não impediu a ficção científica, nas suas várias vertentes, de imaginar um sem-número de impérios e de sociedades interestelares, quase sempre povoadas por aventureiros destemidos e alienígenas exóticos, mais ou menos hostis. Ainda assim, e por mais anos-luz que estes impérios abarquem, a maioria das sociedades galácticas clássicas permanece estranhamente semelhante aos paradigmas políticos, económicos e sociais da Terra: as mesmas estruturas de poder, os mesmos problemas económicos, as mesmas classes sociais. Em suma, os mesmos problemas de sempre. Talvez por isso a Culture de Iain M. Banks continue a ser tão relevante.

 

Não é que Banks rejeite o antropomorfismo tradicional das space operas - optou, sim, por extrapolá-lo na melhor tradição da ficção científica, interrogando-se sobre como seria uma sociedade cujo domínio científico e tecnológico a libertasse das limitações do mundo que conhecemos. Eis que surge a Culture, um vasto território espacial (seria impreciso designá-lo por impérioreino, ou qualquer outra designação territorial humana) governado por inteligências artificiais (Minds) tão benevolentes como matreiras, e dotadas de um sentido de humor peculiar. As Minds convivem com uma humanidade profundamente alterada pelas possibilidades infinitas abertas pela ciência, e integrada numa sociedade que não conhece o conceito de escassez. Assim, cada indivíduo é livre de se dedicar aos seus gostos pessoais como bem entender (não existe trabalho no sentido habitual do termo, e não existindo leis escritas, as normas assentam num contrato social implícito) e de viver onde quiser - num planeta, num vasto anel orbital ao estilo de Ringworld, numa esfera de Dyson, ou até num dos tremendos Global Systems Vehicles.

 

Como é bom de ver, uma sociedade idílica e hedonista parece um péssimo cenário para uma space opera rocambolesca, dada a inexistência de um conflito de sirva de motor narrativo. Não por acaso, as tramas que Banks explora não se centram tanto no dia-a-dia dos cidadãos no centro da Culture, mas nos intercâmbios que esta estabelece com a sua vizinhança galáctica - e é aqui que entram os elementos do Contact, o corpo diplomático da Culture, e as Special Circumstances, que na prática funciona como uma agência de espionagem e inteligência para intervenções mais ou menos subtis entre outros povos. É, portanto, na orla da Culture que Banks coloca a acção das suas histórias - nas histórias dos agentes das Special Circumstances, nos contactos estabelecidos entre civilizações tão distintas, na diplomacia necessária e nos conflitos inevitáveis. Mas também nos seus inimigos - a título de exemplo, o protagonista de Consider Phlebas é um mercenário contratado por uma civilização em guerra declarada com as Minds. E é essa abordagem que dá a Banks um ponto de vista único para a civilização que ele próprio concebeu. Através das suas persoangens e das odisseias em que as coloca, consegue mostras as engrenagens da sua utopia galáctica enquanto questiona os seus princípios basilares e a justiça das suas acções.

 

Mais do que uma série literária, a Culture é um universo ficcional desenvolvido entre 1987 e 2012 em nove romances e uma colectânea de contos. A ordem de leitura não será por isso relevante - Use of Weapons, o livro cuja capa ilustra este texto, é o terceiro romance da Culture publicado, e será uma introdução perfeita. Mas por notáveis que sejam os seus textos - e são -, aqui estamos perante um dos casos em que o cliché de o todo ser maior do que a soma das suas partes se revela verdadeiro: mais do que um ou dois livros, o legado de Banks para a space opera moderna reside na forma como pegou nas aventuras frenéticas que fizeram escola no género e as extrapolou com uma criatividade e um arrojo conceptual ímpares, mostrando que há vida para além dos impérios galácticos de outros tempos. E - seria inevitável referi-lo - reside ainda na nomenclatura bem humorada das Minds: não é todos os dias que podemos ler uma aventura espacial cujas naves têm nomes como No More Mr. Nice Guy, Unfortunate Conflict of Evidence, ou Just Another Victim of the Ambient Morality (entre muitos outros). Infelizmente, a morte prematura de Iain M. Banks em 2013 colocou um fim abrupto às suas histórias - mas as que cá deixou mantém toda a sua imaginação e pertinência.

 

*E sim, antes que alguém pergunte, sei que o subtítulo foi "pedido" à Ursula K. Le Guin.

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Outras galáxias muito distantes (3)

por João Campos, em 21.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 The Centauri Device

Sem heróis ou vilões

 

Em 1974 estávamos ainda a três anos da estreia de Star Wars e já longe da época dourada do género nos anos 50, do sucesso da série original de Star Trek nos anos 60, e do entusiasmo pelo espaço que as missões norte-americanas e soviéticas tinham trazido pouco tempo antes. Na ficção científica literária, persistiam ainda os ecos da "New Wave" que no final da década de 60 trouxera para o género um experimentalismo estilístico, narrativo e temático que até então fora escasso. Não surpreende, portanto, que também as fórmulas testadas da space opera, com os seus heróis ousados, vilões impiedosos, rebeldes com coração de ouro e aventuras em proporções quase mitológicas, tenham sido colocadas em causa por alguns autores. Um deles foi o britânico M. John Harrison, com um livro notável, ainda que imperfeito: The Centauri Device

 

O propósito de Harrison foi declarado: a desconstrução dos elementos basilares da space opera, como o herói faz a narrativa progredir e que que serve para o leitor nele se projectar, um universo compreensível e reconhecível para os seres humanos, e, na sua essência, antropocêntrico. Assim, o protagonista, John Truck, não é um herói predestinado a salvar a galáxia, mas um camionista espacial vagamente indiferente ao que o rodeia; a humanidade expandiu-se para o espaço e projectou até lá as suas piores tendências e atitudes; e, no vazio interestelar, toda a sorte de bizarrias humanas e pós-humanas floresceu. Inevitavelmente, surge o clássico macguffin - o tal Centauri Device do título -, entram em jogo várias facções políticas em conflito por ele, e emerge por fim Truck, ligado ao tal macguffin por um detalhe que escapa ao seu controlo. 

 

Uma narrativa mais convencional traçaria uma linha clara entre bonsmaus, lançaria Truck na demanda pelo bem, colocaria alguns obstáculos no seu percurso, e resolveria a coisa de forma mais ou menos satisfatória. Harrison, porém, nunca quis ser convencional, e em momento algum posiciona o seu protagonista como herói ou escapa para a desconstrução fácil pela via do anti-herói. Truck não quer salvar o mundo ou lixar o mundo; quer apenas que o mundo o deixe em paz. As várias facções em conflito não são maniqueístas - cada uma delas reclama a sua causa como justa, e em nome dessa causa estão dispostas a todo o tipo de atrocidades. E o mundo onde se movimentam está muito longe dos universos limpos, estilizados e optimistas de outras histórias; é, sim, um universo sujo, caótico e, na melhor das hipóteses, indiferente.

 

Apesar da sua prosa excepcional, de várias passagens memoráveis e de um desenlace atrevido, The Centauri Device estará longe de ser uma das melhores space operas que podemos ler hoje em dia - o próprio Harrison considera-o o pior livro que já escreveu (o que talvez diga muito dos seus romances posteriores). Mas a sua importância não pode ser desprezada, e é por isso que o trago aqui: o seu exercício de desconstrução não só demonstrou quão gastas estavam as fórmulas clássicas do género, como lançou as sementes para o seu ressurgimento, uma década mais tarde. Dito de outra forma: é muito provável que sem a pedrada no charco que foi The Centauri Device não tivessem surgido autores como Iain M. Banks, Alastair Reynolds ou Ken MacLeod, entre muitos outros que modernizaram a vetusta space opera e a trouxeram para o século XXI. Qualquer leitor que queira explorar estes temas terá inevitavelmente de passar por este livro. E decerto não dará a viagem por perdida. 

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Outras galáxias muito distantes (2)

por João Campos, em 18.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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The Snow Queen

Space Opera no feminino

 

The Snow Queen, de Joan D. Vinge, é um caso curioso: foi publicado em 1980, no mesmo ano da estreia de The Empire Strikes Back, venceu o prémio Hugo para melhor romance no ano seguinte, gerou duas sequelas e uma prequela... e, trinta anos volvidos, numa época de pleno ressurgimento da space opera na literatura, na banda desenhada e nos meios audiovisuais, e quando o debate sobre as mulheres e o feminismo na ficção científica se tornou mais pertinente do que nunca, este livro, em tempos descrito como um "Star Wars feminista", está praticamente esquecido.

 

E a descrição tem algum mérito, mesmo sendo o esquecimento tão injusto. Para todos os efeitos, The Snow Queen terá talvez sido uma das últimas space operas relevantes desenvolvida com os moldes mais ou menos tradicionais das histórias épicas de outros tempos: tal como George Lucas, Vinge foi beber à "jornada do herói" de Joseph Campbell e aplicou a teoria a uma galáxia distante povoada por civilizações fascinantes e repleta de mitos de uma época dourada antiga, quase lendária. É muito possível, porém, que as semelhanças terminem aí. Se por um lado a sua grande influência narrativa não residiu nos westerns norte-americanos mas no conto clássico de Hans Christian Andersen, por outro lado The Snow Queen não tem qualquer ambiguidade no seu género: ao contrário de Star WarsThe Snow Queen é assumidamente ficção científica, com um rigor inatacável na construção do seu universo ficcional: o planeta Tiamat, onde decorre a maior parte da trama, não se resume a um único cenário com um clima uniforme: possui climas variados e regiões distintas, dos inúmeros arquipélagos tropicais do hemisfério Sul ao continente montanhoso e gelado do Norte. E os vários elementos científicos e tecnológicos que são apresentados estão longe de ser meros adereços, sendo fundamentais para a narrativa e ilustrando na perfeição a célebre máxima de Arthur C. Clarke: qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.

 

E, claro, há a questão feminista. Vinge até pode ter seguido, mesmo que em traços largos, a lição de Campbell, mas optou por escrever antes a jornada de uma heroína, Moon, cujo percurso a levará inevitavelmente ao confronto com Arienrhod, a Rainha de Gelo do título, monarca absoluta de Tiamat durante o inverno de 150 anos que as mecânicas orbitais do planeta impõem aos povos que nele habitam (estes detalhes nunca são irrelevantes aqui). E se podemos encontrar na Moon das primeiras páginas o arquétipo do jovem inocente que cresceu num lugar remoto sem fazer ideia de quão longe o destino a levará, já em Arienrhod está presente uma ambiguidade rara em romances e personagens desta natureza: em muitos momentos parece uma vilã convencional na ambição e na corrupção, mas Vinge escreve-a com maior profundidade, e os seus objectivos em momento algum são tão simples como aparentam. A Moon e a Arienrhod juntam-se personagens como Jerusha, uma inspectora policial num mundo maioritariamente masculino, ou Gundhalinu, um jovem inspector cuja classe social das suas origens contrasta com o seu destacamento em Tiamat. E muitas outras, num elenco vasto para  o qual a diversidade - de género, de cor da pele, de estratos sociais e de orientações sexuais - não serve apenas para preencher uma qualquer quota (é possível que o tema não tivesse no início dos anos 80 a pertinência que tem hoje), mas para tornar a civilização composta pelos vários mundos apresentados mais verosímil. Não deixa de ser interessante notar que algo tão evidente tenha demorado tanto tempo a ser interiorizado por um género no qual a construção de mundos assume tanta importância.

 

The Snow Queen foi o primeiro livro de ficção científica que li, algures entre 2001 e 2002 - e, à época, recuperou não só o meu gosto pela leitura como me fez descobrir um género que julgava praticamente exclusivo do cinema, da televisão e de alguma banda desenhada. E é curioso notar como contribuiu de forma acidental para a minha resposta adversa ao hype em redor de The Force Awakens há dois anos. O marketing da Disney, sintonizado com o zeitgeist, vendeu bem o seu peixe: temos agora uma mulher como protagonista e um stormtrooper afro-americano! Para o universo criado por Lucas isto talvez tenha sido uma novidade (e a representação é sempre salutar, acrescente-se), mas um leitor mais atento ao género não terá deixado de reparar que lhe serviam comida requentada. Eu reparei: muito antes da Rey de Daisy Ridley e do Finn de John Boyega (ambos excelentes, note-se) já me tinha maravilhado havia muito com a determinação de Moon e com o carácter de Gundhalinu (cujo papel secundário no primeiro livro se tornou principal nos seguintes). Afinal, a diversidade não chegou às galáxias distantes só no século XXI. 

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