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Delito de Opinião

Pensamento da semana

João Campos, 12.09.21

“The saddest aspect of life right now is that science gathers knowledge faster than society gathers wisdom.” (Isaac Asimov)

Apesar de tudo, Asimov, falecido no já distante ano de 1992, era um optimista. Nos dias que correm pode-se duvidar com legitimidade de que a sociedade no seu todo esteja a ganhar algum tipo de sabedoria, sensatez, discernimento, juízo - há várias possibilidades de tradução de wisdom, mas no final vai dar ao mesmo.

 

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20 anos

João Campos, 11.09.21

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A memória é uma coisa tramada.

Diz-se que todos nos lembramos de onde estávamos a 11 de Setembro de 2001. Não serei excepção, claro, apesar de não ter a certeza de toda a memória que tenho daquela tarde ter acontecido exactamente como me lembro, e de haver alguns detalhes que não parecem bater certo (um dia talvez traga aqui a memória incompleta e incerta que tenho da primeira vez que vi The Matrix, sem dúvida o filme da minha vida). Tinha 16 anos. Lembro-me de ter chegado à aldeia, decerto vindo de Odemira apesar de as aulas ainda não terem começado (julgo que começavam sempre um pouco mais tarde em Setembro; não tenho memória do que terei ido fazer à vila, talvez qualquer coisa relacionada com as matrículas, talvez confirmar os horários). Não sei se regressei de autocarro; é provável que não, pois o autocarro não me permitiria chegar pouco antes das 14:00. Decerto terei tido boleia, mas de quem, não faço a mais pequena ideia.

Enfim, como dizia, lembro-me de chegar à aldeia, de a caminhar pela rua principal, e de ter visto várias pessoas de pé no interior do café a olhar fixamente para a televisão. Entrei e no pequeno ecrã vi duas torres, uma delas a arder. Alguém, não me lembro quem, explicou pouco depois que um avião tinha colidido contra a torre, mas não se sabia bem o que tinha acontecido, se teria sido acidente ou não. Mas em poucos minutos todas as dúvidas se dissiparam quando assistimos em directo à colisão de outro avião contra a segunda torre.

Fui para casa almoçar, liguei a televisão do meu quarto e continuei a acompanhar o directo a partir de Nova Iorque com a minha mãe. Lembro-me de vermos aquelas imagens juntos, das torres em chamas, dos relatos de outra colisão contra o Pentágono e de um quarto avião despenhado algures no campo. A minha mãe a dada altura comentou que com um estrago daqueles as torres deviam desabar; disse-lhe que talvez não, que o embate tinha sido bastante alto. Um palpite pouco informado que se desfez em poucos minutos, quando assistimos com horror ao desabamento da primeira torre. A segunda cairia pouco depois.

Até àquele dia nunca tinha prestado grande atenção às Torres Gémeas. Eram dois arranha-céus numa cidade distante e cheia de arranha-céus, e nada mais. Mas a partir dali nunca mais as esqueci. Hoje, ao ver filmes e séries anteriores a 2001, é impossível não reparar naquele par de edifícios, no vazio que a sua destruição deixou. E no simbolismo dessa destruição, que fez despertar imensa gente para a política, como eu despertei naquele dia. As minhas memórias do 11 de Setembro de 2001 podem ser imperfeitas e difusas, mas lembro-me perfeitamente da noção de que alguma coisa tinha acabado de mudar no mundo - e tenho a certeza de que tudo foi diferente a partir daquele momento.

Pensamento da semana

João Campos, 16.05.21

Hoje em dia não falta quem se esqueça de que a liberdade de expressão não inclui dever de assistência ou mesmo de palco. Dito de outra forma: temos o direito de nos exprimirmos, mas ninguém tem o dever de nos ouvir, ou de nos dar espaço (físico ou virtual) para dizermos o que nos passa pela cabeça. Não deixa de ser curioso que tantos auto-intitulados defensores da liberdade de expressão pareçam ignorar este detalhe. 

 

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Malandrice, empatia e fair-play

João Campos, 11.05.21

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Em Agosto de 2019 tive a oportunidade de passar duas semanas a trabalhar na Malásia na companhia de colegas com os quais até aí só falara por telefone ou chat. Quis a sorte que os astros se alinhassem e que cá em casa pudéssemos tirar partido disto: a minha companheira conseguiu tirar férias, conseguimos comprar-lhe um bilhete, e lá fomos até ao Sudeste Asiático (em vôos separados, o que foi uma chatice, mas valeu a pena). Enquanto eu passei os dias a trabalhar, ela entreteve-se a passear por Kuala Lumpur - algo bastante conveniente também para mim, pois provavelmente não teria ido a metade dos sítios que visitei naqueles finais de tarde se não estivesse acompanhado (não sou grande turista, admito, enquanto a Ana planeou tudo, tratou de comprar bilhetes para os monumentos a visitar, etc).

No início da primeira semana calhou a visita à Torre de Kuala Lumpur. Saí do trabalho, meti-me num Grab (a versão local da Uber), e fui ter com a Ana à entrada da torre. Vista magnífica do topo, a dar a dimensão real da capital malaia. Naquele tempo ainda se viajava, pelo que não faltavam por ali turistas de inúmeras nacionalidades - percebíamos pelas palavras que íamos ouvindo, de idiomas europeus como o francês ou o italiano a idiomas asiáticos para nós incompreensíveis. E, como não podia deixar de ser, não éramos os únicos portugueses nas imediações - identificámos o casal como sendo português assim que saíram do elevandor, mesmo antes mesmo de os ouvirmos falar, pois o rapaz vestia uma camisola do Sporting.

Aqui talvez valha a pena explicar que dois dias antes (um dia e meio se considerarmos o fuso horário?) o Benfica tinha derrotado o Sporting por 5-0 na Supertaça.

Inevitavelmente, o primeiro pensamento que me ocorreu foi aproximar-se do meu compatriota, levantar a mão e dizer-lhe na língua de Camões "dá cá mais cinco". Ainda nos rimos a imaginar a cena, eu e a Ana, que como eu é também benfiquista. Já o segundo pensamento - não sou muito impulsivo - foi um pouco mais empático: a dezasseis mil quilómetros de casa, com ar de quem tinha discutido com a namorada no elevador, e ainda a ressacar pela derrota distante contra o eterno rival, decerto que a última coisa que aquele rapaz quereria encontrar no topo daquela torre naquele magnífico fim de tarde seria um sacana de um benfiquista a gozar o prato. Seria cruel, convenhamos. Com isso em mente (e com algum instinto de auto-preservação, confesso - não sou especialmente bem constituído, estava para aí a trezentos metros de altitude, e a ciência ainda não me deu um jetpack), optei por não dizer nada. E continuámos, eu e a Ana, a deliciar-nos com aquela vista espantosa de Kuala Lumpur, que com o cair da noite se assemelhava mais e mais às vastas metrópoles da ficção científica cyberpunk de que ambos somos fãs (a fotografia lá no topo não é grande coisa pois nem a câmara nem o fotógrafo eram grande coisa, mas fica o registo).

Recupero esta memória, que hoje parece tão distante, no dia em que o Sporting se sagra campeão nacional de futebol. A esta altura do campeonato já não tinha nenhum cavalo nesta corrida - do pouco que vi do Benfica em campo não me pareceu que merecessem ganhar o que quer que seja, e fora do campo a coisa dá asco - pelo que o resultado do jogo de hoje me era mais ou menos indiferente. Por norma, se tiver de escolher entre o Porto e o Sporting até prefiro ver os leões a vencer, se bem que nunca saia a perder dos confrontos - afinal, as derrotas leoninas são sempre um bom pretexto para provocações malandras aos meus amigos sportingistas.

Mas a verdade é que são justamente esses amigos quem importa hoje. Os anos têm-me tornado mais introvertido, mas tenho a sorte de manter muito bons amigos - e, entre eles, vários sportinguistas. Alguns já ouviram (leram) as inevitáveis provocações em privado, claro, e ainda terei mais algumas para os próximos dias. As piadas, admita-se, até se escrevem sozinhas (da última vez que isto tinha acontecido ainda andava eu na escola secundária, agora só em 2040, etc). Mas hoje esses amigos estão felizes, tão felizes como eu estava naquele entardecer há dois Verões, numa cidade espantosa que até então nunca tinha pensado visitar; e eu, pela parte que me toca, fico feliz pelos meus amigos. Por isso, e porque o desporto vale nada sem fair play, dedico esta memória, estas provocações bem intencionadas e este texto mal amanhado (começa a faltar-me prática, a Teresa Ribeiro bem me avisou há uns anos num jantar do Delito) aos meus amigos lagartos de tantos e tantos anos - ao João e ao Jorge, ao Miguel e ao Fernando, à Susana e ao Ricardo. E ao nosso Pedro Correia, claro, e aos leões e às leoas do Delito. Hoje a festa é vossa - aproveitem!

Seria uma boa rábula humorística se não fosse verdade

João Campos, 10.05.21

No Público: Governo exige teste para sair de Longueira-Almograve, mas a farmácia está noutra freguesia. Se fosse um sketch do Herman ou do Gato Fedorento, o diálogo entre o morador do Almograve e o GNR no cruzamento da Longueira seria algo assim:

- Posso sair da freguesia?
- Pode, com um teste negativo.
- E onde posso fazer um teste?
- Numa farmácia.
- Mas o Almograve não tem farmácia. Posso sair para ir à farmácia de Milfontes fazer o teste?
- Não, não pode sair do Almograve sem um teste negativo.
- Mas então não posso sair da freguesia.
- Com um teste negativo pode.
- Mas se só posso fazer o teste na freguesia vizinha...
- Isso já não é problema meu. Olhe, pergunte ao Cabrita.

 

(Teste negativo, e não positivo, claro - obrigado à leitora Bea pelo reparo!)

Pensamento da semana

João Campos, 17.01.21

Não seremos amanhã quem somos hoje, nem manteremos no futuro todos os pontos de vista que defendemos no passado. É normal que assim seja. Mais do que isso: é necessário. Ao contrário do que se pensa, a coerência não é exactamente uma virtude, algo desejável de preservar incondicionalmente - à partida, durante as nossas vidas continuamos a aprender, a crescer, a evoluir. Só os fanáticos se mantêm coerentes ao longo do tempo, e fazem-no através da mais absoluta imobilidade.

 

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As (poucas) leituras de 2020

João Campos, 01.01.21

Ao contrário do Pedro, que pelos vistos se fartou de ler em 2020, eu tive um ano péssimo de leituras. Tão mau, aliás, que talvez tenha de recuar a 2007 para chegar a um ano em que tenha lido tão pouco. É possível que para algumas pessoas o confinamento e o teletrabalho tenham proporcionado mais tempo para ler, mas não foi esse o meu caso. Longe disso, aliás. Não por faltarem os livros para ler - as estantes estão bem abastecidas -, nem sequer por faltar o tempo. O que faltou foi mesmo a disponibilidade mental para me dedicar à leitura. Nunca tive o hábito de deixar leituras interrompidas, mas neste ano isso aconteceu em três ou quatro ocasiões - não por os livros não serem interessantes, mas porque pausas de um dia rapidamente davam lugar a várias semanas dominadas pelo cansaço. Como muita gente terá percebido durante 2020, as vantagens oferecidas pelo teletrabalho escondem alguns inconvenientes, como o esboroar progressivo dos horários e das rotinas; no final dos inúmeros dias intermináveis de trabalho apetecia-me com mais frequência transitar da secretária para o sofá e ficar a ver televisão, ou ligar a Playstation e perder-me por umas horas num videojogo mais ruidoso e colorido (salvaram-me o Horizon: Zero Dawn na primavera e o No Man's Sky no Outono).

Claro que sempre li alguma coisa - quanto mais não seja porque a banda desenhada é sempre mais apetecível quando falta a vontade de me embrenhar num livro mais denso. Aqui ficam então algumas sugestões das minhas leituras de 2020.

The Vanished Birds, de Simon Jimenez (Del Rey Books, 2020)

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Um dos aspectos mais fascinantes da ficção científica literária reside no diálogo constante entre o passado e o futuro do género. Aos leitores menos habituados o género oferece uma multitude temática capaz de agradar a todos os gostos (assim se supere o preconceito habitual), mas aos conhecedores um livro de ficção científica oferece pelo menos um nível de leitura adicional: o da descoberta (ou redescoberta) das múltiplas influências e referências que surgem a cada linha, que dão forma àquele mundo secundário, e que conferem ao texto coordenadas muito precisas na vasta cartografia do género.

The Vanished Birds, romance de estreia do escritor de ascendência filipina Simon Jimenez, é um exemplo perfeito desse diálogo. O seu primeiro capítulo, uma história autónoma que decorre num planeta remoto, recupera de The Forever War (e, vá, da Teoria da Relatividade) a noção de que viajar pelo espaço é também viajar pelo tempo, e com ela constrói um romance improvável. A trama principal, desenvolvida numa estrutura narrativa nem sempre sequencial, é reminiscente tanto das modernas space operas políticas da tradição de M. John Harrison ou de Iain M. Banks como das histórias de gente comum a fazer pela vida no vazio do espaço - recordemos Firefly na televisão, ou a série Wayfarers de Becky Chambers na literatura (ou a Expanse de James S.A. Corey em ambas). E uma das ideias fundamentais do texto é levantado de Alfred Bester e do eterno The Stars My Destination. Mas desengane-se quem julgar que The Vanished Birds é apenas uma amálgama de ideias já usadas, recentes ou antigas: Jimenez utiliza todas essas influências para criar um futuro espacial muito próprio, tão verosímil como fascinante, e para contar uma história envolvente e cativante, com personagens verdadeiramente humanas. E isto com uma prosa magnífica, que embala todo o texto.

Há largos meses que tencionava trazer The Vanished Birds para o Delito, mas o texto permanece inacabado nos rascunhos - a impressão que o livro me deixou foi tremenda (o primeiro capítulo é magnífico, e jamais esquecerei as imagens da longínqua memória romântica de uma das personagens principais no terceiro), e talvez por isso me seja tão difícil escrever sobre ele, por paradoxal que isso possa ser. Foi não só o melhor livro que li em 2020, como um dos melhores livros que li em muitos anos. Nada mau para um livro de estreia.

Transmetropolitan, de Warren Ellis e Darick Robertson (Vertigo/DC Comics, 1997-2002)

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Já tinha começado a ler Transmetropolitan há alguns anos (tenho até ideia de ter mencionado o primeiro volume numa conversa no último jantar do Delito a que fui - noutros tempos, quando ainda havia convívios e socialização fora dos espaços virtuais), mas por algum motivo deixei a colecção e a leitura a meio. A colecção foi concluída ao longo do ano e à leitura dediquei-me durante o mês de Dezembro.

O que mais impressiona em Transmetropolitan quando o lemos em 2020 talvez seja a presciência incrível da trama urdida por Warren Ellis, centrada numa eleição presidencial norte-americana disputada entre um incumbente péssimo e um candidato terrível - várias são as passagens que, se retiradas das pranchas, podiam perfeitamente descrever os círculos de Donald Trump, com um cinismo que há vinte e poucos anos talvez fosse excessivo. E no olho do furacão eleitoral está Spider Jerusalem, o infame jornalista que abandona o exílio auto-imposto nas montanhas para regressar à Cidade e ao jornalismo. Ao longo dos dez volumes trade paperback vamos acompanhando as reportagens de Jerusalem e conhecendo aquela metrópole futurista, na melhor tradição da ficção científica cyberpunk de William Gibson, com extrapolações tecnológicas e sociais mirabolantes (há gatos mutantes, humanos geneticamente modificados, publicidade invasiva, bowel disruptors, etc). A ilustração de Darick Robertson e o seu olho atento para o detalhe dão à Cidade uma textura palpável, e algumas pranchas pedem mais atenção pelas inúmeras referências e jogos de palavras que incluem (recordo-me sempre dos cigarros de marca "Carcinoma Angels", ao mesmo tempo um jogo de palavras macabro e uma alusão a um conto notável de Norman Spinrad, por exemplo). É uma banda desenhada intensa, violenta, a todos os níveis excessiva - toda a criação de Spider Jerusalem é inspirada em Hunter S. Thompson, pelo que os leitores podem ter uma ideia do que os espera. Mas por hiperbólica que possa ser, Transmetropolitan é também uma ode ao Jornalismo, à profissão que já foi considerada o quarto poder, e um alerta para a corrupção política. Nestes tempos de declínio da imprensa e de recrudescência do populismo político talvez esta mensgem seja mais relevante do que nunca.

Nausicaä of the Valley of the Wind, de Hayao Miyazaki (Viz Media, 1982-1994)

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Os leitores decerto conhecerão Hayao Miyazaki pelos extraordinários filmes de animação japonesa que realizou desde o início dos anos 80 (e se não conhecem, não sei que vos diga). O que talvez menos gente saiba é que o mestre da animação também fez algumas incursões pela banda desenhada, e que o seu prodigioso filme de 1984, Nausicaä of the Valley of the Wind, é na verdade uma adaptação de uma longa banda desenhada da sua autoria.

Com um traço espantoso, Miyazaki constrói um futuro pós-apocalíptico no qual uma guerra e o cataclismo ecológico que se lhe seguiu destruiram a civilização tal como a conhecemos - restam pequenos reinos e cidades dispersas por zonas costeiras que uma Natureza agressiva ainda não consumiu. E a trama segue Nausicaä, a jovem princesa do Vale do Vento, forçada pelas circunstâncias a envolver-se numa guerra que não é a sua enquanto tenta compreender e aplacar a violência do mundo natural. É uma história fascinante e surpreendentemente violenta quando desviamos o olhar daquelas pranchas lindíssimas e nos lembramos de que foram ilustradas pelo autor de My Neighbour Totoro ou Kiki's Delivery Service. Nela, porém, também reconhecemos alguns motivos e temas recorrentes na obra cinematográfica de Miyazaki, como a dualidade Natureza/Indústria, o protagonismo dado a personagens femininas inspiradoras, que em momento algum assumem o papel de damsel in distress (Miyazaki, como Atwood, também já era ecologista e feminista antes das modas), e o absoluto fascínio por máquinas voadoras e pelo desafio constante à gravidade. Existe uma edição antiga em português, salvo erro em seis volumes, que pode ser encontrada em algumas bibliotecas e, com sorte, em alfarrabistas. Mas a edição em inglês da Viz Media, com dois lindíssimos volumes em capa dura, ficará muito bem em qualquer estante de banda desenhada.

Sex Criminals, de Matt Fraction e Chip Zdarsky (Image Comics, 2013-2020)

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No final de 2019, quando todas as publicações se dedicaram a fazer as listas das melhores obras "da década", descobri esta banda desenhada invulgar, que já tinha visto em algumas lojas especializadas mas que por algum motivo não me tinha despertado a atenção. Não sei que expectativas tinha em relação a Sex Criminals, mas não esperava de todo o que encontrei: uma banda desenhada cómica e atrevida, com um twist inesperado às tramas de super-heróis: a protagonista, Suzie, descobre na adolescência o seu super-poder: quando atinge um orgasmo o tempo pára para toda a gente... menos para ela. Literalmente. E quando conhece Jon e descobre que ele tem o mesmo poder (digamos assim), o próximo passo torna-se lógico: parar o tempo com um orgasmo e assaltar um banco. Por uma boa causa, claro: salvar a biblioteca onde Suzie trabalha.

É uma leitura tão pouco convencional como divertida - logo na primeira parte, as passagens nas quais Suzie recorda a sua juventude e a descoberta da sua capacidade invulgar são hilariantes, sem no entanto deixarem de ter uma certa familiaridade para qualquer leitor que ainda tenha presente toda a estranheza da adolescência. E o humor mantém-se em algums momentos mais pueris, e na ilustração talentosa de Chip Zdarsky, repleta de alusões e de piadas que noutro contexto seriam demasiado juvenis, mas que ali funcionam na perfeição. Dito isto, Sex Criminals é mais do quem uma mera banda desenhada cómica com sexo como pano de fundo: é também uma história profundamente humana sobre relações, desenvolvida com duas personagens empáticas que Fraction desenvolve na perfeição.

Apesar de Sex Criminals ter chegado ao fim este ano, ainda não terminei a leitura da série - comecei por comprar as duas magníficas edições deluxe da Image, pelo que aguardarei até ao Verão para adquirir o terceiro volume e ler então esta excelente banda desenhada até ao fim.

Até lá, espero ler mais do que em 2020.

Um homem normal na Casa Branca

João Campos, 19.11.20

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O título, claro, alude ao excelente texto que o Pedro Correia publicou ontem sobre Harry Truman. Mas neste caso serve para aludir não ao 33.º mas ao 44.º Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que deu há dias uma entrevista muito interessante a Jeffrey Goldberg para a The Atlantic a propósito do seu novo livro. Ao fim de quatro anos de decreto-via-twitter, de birras ridículas, de gritaria incoerente e com fraco domínio do idioma materno, é refrescante regressar ao discurso articulado, ponderado e frequentemente autocrítico de Obama. Quatro anos de chinfrineira infantil - quase foram suficientes para esquecer que este era o tom normal e expectável num Presidente norte-americano.

Deixo a sugestão para a leitura da entrevista, que vale bem a pena. E destaco duas passagens: a primeira, a propósito da ascensão do populismo de direita nos EUA e de um certo paradoxo (digamos assim) de masculinidade:

Obama: (...) If you think about populists from the past, someone like Huey Long—he wasn’t from the right; he was a classic populist, rooted in the earth; he knows the lives of the people he is rallying; he genuinely understands them. I guess I would not have expected someone who has complete disdain for ordinary people to be able to get attention and then the following from those very same people.

I guess I’m also surprised by, and this is not an original thought on my part—but I think about the classic male hero in American culture when you and I were growing up: the John Waynes, the Gary Coopers, the Jimmy Stewarts, the Clint Eastwoods, for that matter. There was a code. This is something I always emphasize. I may be African American but I’m African and American. This is part of me. The code of masculinity that I grew up with that harkens back to the ’30s and ’40s and before that—there’s a notion that a man is true to his word, that he takes responsibility, that he doesn’t complain, that he isn’t a bully; in fact he defends the vulnerable against bullies. And so even if you are someone who is annoyed by wokeness and political correctness and wants men to be men again and is tired about everyone complaining about the patriarchy, I thought that the model wouldn’t be Richie Rich—the complaining, lying, doesn’t-take-responsibility-for-anything type of figure.

I think that indicates the power of television in the culture that sometimes I miss because I don’t watch a lot of TV. I certainly don’t watch reality shows. And sometimes I’d miss things that were phenomena. But I thought there was a shift there. I write about it to some degree. I actually have great admiration for a lot of those traditions, what were ascribed to be masculine qualities. When you think about the Greatest Generation, you think about sacrifice. (...)

E a segunda, sobre o impacto das redes sociais na democracia:

(...)

Goldberg: Do you hold the companies responsible?

Obama: I don’t hold the tech companies entirely responsible, because this predates social media. It was already there. But social media has turbocharged it. I know most of these folks. I’ve talked to them about it. The degree to which these companies are insisting that they are more like a phone company than they are like The Atlantic, I do not think is tenable. They are making editorial choices, whether they’ve buried them in algorithms or not. The First Amendment doesn’t require private companies to provide a platform for any view that is out there. At the end of the day, we’re going to have to find a combination of government regulations and corporate practices that address this, because it’s going to get worse. If you can perpetrate crazy lies and conspiracy theories just with texts, imagine what you can do when you can make it look like you or me saying anything on video. We’re pretty close to that now.

Goldberg: It’s that famous Steve Bannon strategy: flood the zone with shit.

Obama: If we do not have the capacity to distinguish what’s true from what’s false, then by definition the marketplace of ideas doesn’t work. And by definition our democracy doesn’t work. We are entering into an epistemological crisis. (...)

Para mais contexto, é ler na íntegra.

Cinema em tempos de pandemia

João Campos, 05.10.20

No Sound + Vision, João Lopes deixa-nos uma reflexão muito pertinente sobre o impacto da pandemia no cinema - em concreto, sobre o impacto no modelo de negócio assente em multiplexes e nas grandes estreias de origem norte-americana, que têm sido sucessivamente adiadas. Sobretudo após Tenet, de Christopher Nolan, ter dficado aquém das expectativas na bilheteira (sim: chegámos a um ponto em que 307 milhões de dólares de bilheteira global representam, se não um fracasso, pelo menos uma desilusão). Do artigo, destaco dois pontos:

Curiosamente, em alguns contextos, incluindo o português, as reposições de filmes clássicos, dos mais diversos períodos e origens, têm atraído um número considerável de compradores de bilhetes, proporcionalmente superior. Não generalizemos, claro. Trata-se de um circuito de dimensão reduzida, com um peso nas contas globais do mercado inevitavelmente menor do que a área dos multiplex.

Revejo-me muito nestas palavras: posso dizer sem exagero que nos últimos dois anos desloquei-me mais vezes a salas de cinema para ver reposições de filmes antigos (clássicos, se quisermos) do que para ver estreias. Acompanhei algumas, é certo, mas tenho frequentado menos as grandes salas dos centros comerciais (as grandes salas independentes desapareceram) e mais os circuitos alternativos da Cinemateca, do Nimas e de algumas iniciativas independentes como o Cinepop. Em 2020, julgo só ter assistido à estreia de Tenet, nas salas do El Corte Inglés; mas revi no Inverno Eyes Wide Shut, 2001: A Space Odyssey e A Clockwork Orange no Nimas, onde por estes dias tenho aproveitado para descobrir a obra extraordinária de Akira Kurosawa, num ciclo de grande qualidade que só é pena estar limitado a Lisboa e ao Porto (e sim, as três horas e meia - sem intervalo - de Seven Samurai valem bem a pena numa sala de cinema, mesmo com máscara). Em Janeiro e Fevereiro a pequena sala da Avenida 5 de Outubro, um dos últimos refúgios do cinema independente em Lisboa, enchia a cada uma destas sessões (aliás, lembro-me da enorme fila para Eyes Wide Shut a serpentear pelo passeio da avenida numa noite chuvosa); e nestes dias julgo só não encher porque, enfim, as normas da DGS não o permitem (e bem).

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O fenómeno nem é de agora - no ano passado vi com alguma surpresa e muita satisfação a esplanada da Cinemateca cheia de gente de todas as idades para assistir à reposição de The Night of the Hunter, o clássico de Charles Laughton com um dos papéis mais memoráveis de Robert Mitchum. Esgotadas as cadeiras, não faltou quem se dispusesse a sentar-se no chão para ver o filme. E duvido de que no final alguém tenha dado aquelas duas horas por perdidas.

Não estamos a falar de estreias, de filmes novos, promovidos pela enorme máquina comercial de Hollywood. No meu caso, até há dias nunca tinha visto qualquer filme de Kurosawa, mas tenho quase todos os filmes de Kubrick em DVD, e talvez os possa encontrar em algum dos serviços de streaming que subscrevo. The Night of the Hunter é um dos meus filmes preferidos, pelo que já o vi várias vezes no computador - mas não pude deixar passar a oportunidade de o ver no grande ecrã. O mesmo provavelmente poderá dizer-se da maior parte das pessoas que encheu a sessão de 2001 em Fevereiro ou de Yojimbo, o Invencível agora em Outubro - haverá quem nunca tenha visto os filmes mas saiba que Kubrick e Kurosawa valem o preço do bilhete, claro; no entanto, acredito que maioria daquelas pessoas tinha já visto os filmes, e estava disposta a pagar para os rever nas condições ideais para se ver um bom filme:  no grande ecrã de uma sala de cinema.

É certo que não será o público que vai ao Nimas e à Cinemateca - conhecedor, e por isso exigente - que irá salvar os multiplexes no pós-covid 19, seja lá quando isso for. Mas talvez se encontrem aqui algumas pistas para a recuperação do cinema nos tempos difíceis que se avizinham.

Os puzzles de Christopher Nolan

João Campos, 13.09.20

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Uma das coisas de que mais senti falta durante os longos meses de confinamento foi de ir ao cinema. Bem sei que já abriram há alguns meses, mas até aqui ainda não tinha estreado um filme que me despertasse interesse suficiente para lá voltar. Essa estreia chegou finalmente no final de Agosto, com Tenet, de Christopher Nolan.

A minha relação com a filmografia de Nolan é um tanto ou quanto ambivalente. Não vi (ainda) alguns dos seus êxitos originais, como Memento (2000) ou The Prestige (2006), tendo começado a acompanhá-lo a partir de The Dark Knight (2008), o segundo filme da trilogia de Batman que realizou com a DC Comics (e que inclui o excelente Batman Begins, de 2005, e o terrível The Dark Knight Rises, de 2012). A partir daí fui acompanhando as suas incursões pela ficção científica, com o desapontante Inception (2010) e o excelente, ainda que imperfeito, Interstellar (2014). Reconheço a Nolan mérito suficiente para ficar curioso sempre que regressa ao meu género preferido, e Tenet não me desiludiu. Aliás, vê-lo acabou por se revelar numa experiência surpeendente, não tanto pelo filme em si, mas por uma breve epifania que me proporcionou mais ou menos a meio dos seus cento e cinquenta minutos.

 

 

Pensamento da semana

João Campos, 09.08.20

Mais ou menos como um fumador que decide contabilizar finalmente quanto dinheiro gasta por ano em tabaco, talvez se registasse um sobressalto colectivo se fôssemos calcular a quantidade de tempo - tempo finito, emprestado, como bem lembrou o Pedro na semana passada - que desperdiçamos online a propósito de coisas - sei lá, livros, filmes, séries, jogos, políticos, ideias, pessoas - de que não gostamos. De todos os desperdícios da sociedade contemporânea, talvez este seja mesmo o maior.

 

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A extinção do "australopithecus futebolis"?

João Campos, 28.07.20

No fim-de-semana, comentei cá em casa que os comentadores do "Governo Sombra" estavam mais bem acompanhados na grelha televisiva no canal antigo - na SIC o programa vai para o ar na madrugada de Sexta para Sábado logo a seguir a um reality show manhoso (passe o pleonasmo), enquanto na TVI era antecedido pelo "Mais Futebol", provavelmente o único programa civilizado sobre futebol da televisão portuguesa. Não que acompanhe programas de futebol, modalidade à qual ligo menos a cada ano (não me consigo lembrar de qual foi o último jogo que assisti na íntegra, agora que penso nisso), mas sempre que por algum motivo passava pela TVI 24 durante a emissão do programa e lá parava durante alguns minutos não podia deixar de notar no tom cordial e animado da conversa, e em algumas rubricas curiosas. E este tom era notório pelo contraste para com a esmagadora maioria dos programas de "comentário" de futebol dos canais por cabo. Comentário entre aspas, entenda-se, pois aqueles espaços resumem-se aos marmanjos iletrados que compõem os painéis a ladrar e a rosnar uns para os outros durante horas, mais ou menos como fazem os cães lá na aldeia às duas da manhã quando alguém passa e um se lembra de ladrar.

Vem isto a propósito da decisão anunciada pela SIC de terminar dois dos programas de "comentário" de futebol que têm nos seus painéis comentadores que representam clubes de futebol - ou, para ser rigoroso, comentadores que representam os "três grandes", pois dos restantes ninguém quer mesmo saber (diz-se que em Portugal só se liga a futebol, quando se fala de desporto, o que é manifestamente falso - na verdade, só se liga ao futebol de três clubes. O resto é cenário). O motivo para este cancelamento, ao que parece, é a "toxicidade" dos programas - uma toxicidade que não é de agora, mas que se terá porventura tornado mais evidente após os quase três meses de sossego a que a pandemia obrigou. Não sei se entre Março e Junho alguém sentiu falta daquelas horas de gritaria inútil nos canais de notícias; da parte que me toca, no que à comunicação social diz respeito a paragem forçada da bola terá sido uma das raras consequências positivas do confinamento. Houve muita coisa de que tive saudades durante os últimos meses (de algumas ainda tenho), mas não tive de todo saudades de passar por canais de notícias e de ver três ou quatro australopithecus futebolis a rosnar por causa de rumores da bola em vez de, sei lá, noticiários, documentários e outros programas informativos. Programas que até podiam não me interessar, mas que pelo menos não apelam aos piores instintos de quem neles participa, e da audiência que os segue.

E, ao que parece, a TVI já seguiu o exemplo da sua concorrente de Carnaxide, anunciando também o fim de dois destes programas.

É claro que, por si só, a decisão da SIC e da TVI de terminar os programas em causa não erradica, talvez nem reduza de forma significativa, a toxicidade de tudo o que rodeia o futebol contemporâneo, cada vez mais um factor de divisão, de segregação e de tribalismo cego e menos uma competição desportiva capaz de agregar adeptos rivais - não inimigos, mas rivais, a diferença é subtil e determinante. Mas nem por isso deixa de ser um sinal. Esperar que isto seja o início da extinção do australopithecus futebolis na televisão portuguesa talvez seja excesso de optimismo - há as audiências, claro, e é sempre possível que outros canais aproveitem o vácuo para reforçar os seus painéis de gritaria. Mas talvez haja mais canais a seguir o gesto, dando menos tempo de antena à intriga e à guerrilha promovidas pelos departamentos de comunicação de três agremiações e mais espaço ao que interessa no tema: à modalidade, ao futebol em si. Para já ainda é pouco, mas se isto contribuir para um bocadinho menos de ruído inútil na televisão, já não será mau.

Ian Holm (1931 - 2020)

João Campos, 19.06.20

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Fotografia de 2005 por Cambridge Jones/Getty Images, retirada da NBC News

 

Ian Holm pode não ter sido um actor associado com frequência ao papel de protagonista (no cinema, pelo menos; sobre a sua longa carreira no teatro não me poderei pronunciar), mas nem por isso deixou de se fazer notar - o carisma de algumas das suas personagens secundárias bastou para as tornar com frequência inesquecíveis.

O desempenho inevitável nos elogios fúnebres de hoje será talvez o seu Bilbo Baggins da adaptação de The Lord of Rings de J.R.R. Tolkien, já no crepúsculo da vida a abdicar relutantemente do Anel que lhe preservara a juventude. Na vasta trilogia de Peter Jackson as cenas de Holm não são longas mas ficam na memória, abrindo e encerrando toda a saga - com o início maravilhoso da sua festa de aniversário e o interlúdio melancólico de Rivendell no primeiro filme, The Fellowship of the Ring, e a sua partida para Valinor no epílogo de The Return of the King. Holm viria a regressar com Jackson à Terra Média na adaptação de The Hobbit, contada em analepse para lhe permitir passar o testemunho a Martin Freeman e fazer a ponte com a história original. Em The Fifth Element, de Luc Besson, interpretou o frenético Padre Vito Cornelius, último elemento de um culto antigo capaz de fazer a ligação com a civilização alienígena dos Mondoshawans e assim salvar o universo (ou, vá lá, permitir que o Korben e a Leeloo de Bruce Willis e da Milla Jovovich salvassem o universo). E no grande Brazil de Terry Gilliam foi  Mr. Kurtzmann, o titubeante chefe de Sam Lowry (Jonathan Pryce), a cargo de uma pequena parte de toda aquela burocracia infernal.

Mas é em Alien de Ridley Scott que, para mim, Ian Holm tem a sua aparição definitiva no grande ecrã ao interpretar Ash, o cientista da tripulação que se transforma num inesperado antagonista. Bilbo Baggins e Vito Cornelius, e até mesmo Mr. Kurtzmann, são em si bastante diferentes, mas existe entre eles um fio condutor na interpretação simpática, apologética e algo desajeitada de Holm. Mas o andróide Ash não podia estar mais longe desse registo: frio, metódico, absolutamente dedicado a cumprir a missão secreta da Nostromo, mesmo sabendo que isso implicará a morte dos seus colegas de tripulação. O seu confronto com a Ellen Ripley de Sigourney Weaver não é muito menos aterrador do que o próprio alienígena.

Haverá vários outros papéis de Ian Holm para descobrir ou re-descobrir (aos anos que ando a ver se revejo a adaptação televisiva de Through the Looking Glass  que apanhei uma vez a passar na RTP2), mas estes, de quatro dos meus filmes preferidos, ficam-me na memória.

Filho de pais escoceses, Ian Holm nasceu a 12 de Setembro de 1931 em Goodmayes, Essex. Faleceu hoje aos 88 anos.

A (in)utilidade do protesto pacífico

João Campos, 02.06.20

A propósito do texto desta tarde da Maria Dulce Fernandes. Muito poderia ser dito sobre descrever-se motins violentos como terrorismo, mas deixarei de lado essa divagação. Do texto ficou-me sobretudo uma das últimas frases; julgo que não terá sido exactamente isto que a Maria Dulce queria dizer, mas acabou por ser isto que disse:

Não é possível apagar um crime hediondo praticando milhares de outros que tais, igualmente injustificáveis e desprezíveis. 

Não é, de facto. Mas motins violentos e homicídio - George Floyd não foi vítima de outra coisa - não são igualmente injustificáveis e desprezíveis. Nunca serão. 

Protestos pacíficos são muito bonitos e dão fotos catitas para as redes sociais, mas o mundo não muda com toda a gente a dar as mãos e a cantar a Imagine. Protestos pacíficos são, na verdade, uma forma muito eficaz de aparentar movimento sem sair do mesmo sítio, de mostrar apoio a uma causa sem grande convicção e, sobretudo, sem grande compromisso. Sem grande sacrifício. Marcha-se um bocadinho, sorri-se para as câmaras, proferem-se palavras de ordem estridentes e vazias, manifestam-se as melhores intenções do mundo - e, no final, vai cada manifestante à sua vidinha, e o mundo continua a rodar no mesmo sentido. Quem estava bem, continua bem; quem estava assim-assim continuará assim-assim; e quem estava mal, continuará mal.

Toda a gente sabe, afinal, que lugar está cheio de boas intenções.

(Por cá orgulhamo-nos de ter feito uma revolução sem derramar sangue. Esquecemo-nos - fingimos esquecer-nos, não dá muito jeito - é dos quase cinquenta anos de ditadura que aguentámos enquanto povo, mansamente, encolhendo os ombros, incapazes de partir a loiça. Bem vistas as coisas, não foi grande coisa a nossa revolta contra a tirania; salvo raríssimas excepções, limitámo-nos a esperar que o regime caísse de podre. Como teria de cair, inevitavelmente. Calhou terem sido quase cinco décadas; podiam ter sido seis ou sete.)

Mas divago. Colin Kaepernick protestou pacificamente contra a discriminação racial e a brutalidade policial nos EUA. Serviu de muito.

As imagens de violência que chegam das cidades norte-americanas são chocantes, de facto, e a sua fúria esconderá imensas injustiças e inúmeros aproveitamentos de uma indignação mais do que legítima. Mas de todas as imagens que vi até agora dos motins e da destruição causada impressiona sequer uma fracção do que choca o vídeo da morte de George Floyd, esmagado pelo joelho de um polícia e pela indiferença de outros dois ou três. Não houve ali a mais remota tentativa de "proteger e servir", como não houve qualquer esforço de praticar algo que se aproximasse de qualquer ideal de Justiça, por mais imperfeito que esse ideal pudesse ser. Houve, sim, um homicídio. Mais um.

Talvez os protextos violentos não mudem nada, mas desta vez ninguém poderá dizer que não ouviu.

Sobre este tema, e fazendo a ligação a um outro caso muito recente que, apesar de chocante e sintomático, felizmente não acabou com ninguém morto, recomendo as palavras de Trevor Noah.

 

 

Blogue da semana

João Campos, 05.04.20

É-me cada vez mais difícil escolher o blogue da semana, pois cada vez vou lendo menos e menos blogues. Mas ainda acompanho alguns webcomics e pelo que será um webcomic a minha sugestão de hoje.

Na verdade, já o sugeri uma vez, em 2013, e recomendei-o pela primeira vez no Delito em 2010 - prova de que continua a ser publicado e que preserva o bom humor que me fez começar a lê-lo há pelo menos dez anos. Falo do Bug Martini, de Adam Huber. Hoje em dia há novas tiras às Segundas, Quartas e Sextas, com pranchas coloridas ao Domingo, no modelo tradicional das tiras de jornal, a serem disponibilizadas aos subscritores do Patreon (um modelo que tem dado algum retorno a muitos artistas online). E no mês que passou o autor lançou uma campanha de Kickstarter para publicar o primeiro livro, um projecto antigo para o qual tive o gosto de contribuir.

Bug Martini fica assim como blogue webcomic da semana.