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Douglas Rain faleceu ontem, aos 90 anos. É possível que o nome diga muito pouco à maioria dos leitores; a sua fotografia, se aqui fosse publicada, pouco mais diria. Mas este círculo vermelho e a sua voz grave tornaram-se inesquecíveis quando, há cinquenta anos, construíram a mais famosa inteligência artificial da ficção científica: HAL 9000, o tripulante incorpóreo da Discovery na sua expedição à órbita de Júpiter para confirmar o elusivo primeiro contacto feito com o monólito lunar. Falo de 2001: A Space Odyssey, claro; todo o segundo acto do filme pertence à expressividade impossível que Rain confere ao olho inescrutável que vigia cada recanto da nave espacial, um feito notável quando pensamos que, num filme com tão pouco diálogo, praticamente todas as palavras relevantes são proferidas pela personagem tornada presente pela sua voz. Do orgulho inicial ao impulso homicida, da determinação pela continuidade de uma missão que não consegue compreender até ao desespero dos momentos finais, quando Dave Bowman, suspenso em gravidade zero, lhe desliga os circuitos de memória um por um - o tom enganadoramente monocórdico de Rain transmite todas as emoções da personagem com subtileza, sem esforço aparente. Voltei a confirmar isto mesmo nos últimos meses, nas duas oportunidades que tive de rever a obra-prima de Stanley Kubrick no grande ecrã: inúmeras visualizações depois, o HAL 9000 continua tão fascinante e ameaçador como da primeira vez que o ouvi. Douglas Rain, o actor, talvez tenha tido uma passagem discreta pela Terra; mas a sua voz, essa, perdurará entre as estrelas. 

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O apêndice

por João Campos, em 26.09.18

Segundo o Público, António Costa tenciona manter "todos os membros do Governo", isto a propósito da novela Tancos e do maluquinho de aldeia que passeia pelas imediações do Ministério da Defesa. No que diz respeito a Azeredo Lopes, as declarações de Costa são manifestamente generosas - dado o absurdo da actuação do ministro desde o Verão do ano passado, o homem estará muito longe de ser um membro do Governo, ou de qualquer Governo. Na melhor das hipóteses será um apêndice: é um vestígio sabe-se lá de quê, não tem utilidade prática, volta e meia dá uma valente dor de barriga e removê-lo é uma maçada. 

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Pouca terra, e pouca vergonha

por João Campos, em 24.08.18

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Sim, pelos vistos a CP tem um serviço que permite a entidades públicas e privadas fretarem comboios. Sim, é possível que esses comboios tenham prioridade na passagem em relação às composições regulares que percorrem as linhas (não sei se têm ou não, nem julgo que esse seja o ponto pertinente). E não, em circunstâncias normais não seria sequer notícia o facto de o Partido Socialista fretar um comboio para levar os seus militantes em excursão até à festa do partido em Caminha - aliás, seria sem dúvida uma excelente escolha. O problema é que as circunstâncias presentes da CP e do seu serviço ferroviário (passe a generosidade) são tudo menos normais - e não houve uma alma no PS capaz de dizer em voz alta que uma viagem de ida e volta de Lisboa e Pinhal Novo até Caminha num comboio fretado à CP talvez não fosse a melhor ideia quando a CP tem sido notícia pelos atrasos e pelas supressões de comboios, pelas avarias constantes, pela falta de asseio nas composições, pelo ar condicionado avariado em dias de muito calor, pela falta de informações, pelo serviço Intercidades a ser feito por automotoras do serviço Regional, e pela degradação generalizada do serviço que presta de Norte a Sul do país. 

 

Bem vistas as coisas, não admira que tal não tenha ocorrido a ninguém. Abunda muita coisa no PS de António Costa - arrogância, prepotência, incompetência, esperteza saloia, uma profunda ignorância e um ainda mais profundo desprezo pelos cidadãos. Já a vergonha, essa, é mais difícil de apanhar por lá do que um comboio a horas na Linha do Algarve. Parafraseando Elisa Ferreira, "os comboios são da CP, são do PS". 

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Pouca terra

por João Campos, em 20.08.18

Já não será talvez notícia o descalabro do serviço ferroviário da CP. São os atrasos diários e as supressões frequentes de comboios, com nenhum aviso e poucas alternativas. São as saunas forçadas nos dias mais quentes, em composições cujos sistemas de ar condicionado não funcionam quando as temperaturas exteriores ultrapassam os 40º (algo que, convenhamos, não é exactamente incomum em boa parte do país durante os meses de Verão). É a falta de limpeza de estações e carruagens - ainda há umas semanas, na viagem que fiz no Intercidades que liga Lisboa a Faro, deparei-me com uma casa-de-banho acabada de abrir coberta, literalmente, de mijo e merda. É a falta de manutenção dos comboios e a utilização de automotoras dos serviços Regionais em percursos feitos pelos Intercidades, sem que a redução de qualidade seja acompanhada pela redução do preço do bilhete*. E, claro, é a indiferença generalizada de quem está no poleiro para com a degradação evidente e inegável dos comboios de Portugal. Como disse, talvez nada disto seja notícia - mas nem por isso deve deixar de ser noticiado. Merece por isso destaque o Público pelas excelentes reportagens que tem vindo a publicar sobre o assunto, como se pode conferir na etiqueta comboiosDurante esta semana serão publicadas cinco reportagens sobre o serviço em algumas linhas de comboio, no dossier  "A ver passar comboios" - arrancou hoje com a ligação cada vez mais precária no que resta da Linha do Alentejo*, num texto que deve ser acompanhado por esta excelente reportagem fotográfica. Aguardo pelas restantes com expectativa.

 

* No início do Verão, e quando o serviço da CP já estava a descarrilar, houve quem fosse para a comunicação social reclamar pelo fim da concessão à Fertagus - que presta um bom serviço, ainda que caro, aos habitantes da margem Sul do Tejo - e pela entrega desse percurso... à CP. Ele há coisas do arco da velha. 

** Sobre a linha do Alentejo, convém não esquecer que a ligação directa por Intercidades entre Beja e Lisboa acabou no início de 2011, e a linha entre Beja e a Funcheira - e o Algarve, portanto - foi suprimida no final de 2011. Curiosamente, em 2011 foi inaugurado o Aeroporto... de Beja. Isto talvez já nem seja do arco da velha. 

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Sim, Guillermo, ganhaste mesmo - desta vez não houve engano no envelope 

 

Apesar de dar alguma atenção aos prémios norte-americanos do cinema, não costumo esforçar-me para ver todos, ou sequer a maioria, dos filmes nomeados ao Óscar para Melhor Filme. Boa parte dos filmes nomeados, sendo (regra geral) pelo menos bons filmes, ou não me despertam interesse ou não me despertam interesse suficiente para pagar o bilhete de cinema (ou não estrearam ainda por cá, como aconteceu neste ano com Lady Bird, que só chegará às salas portuguesas nos próximos dias). Por norma, acabo por ver um ou dois - os nomeados de ficção científica ou fantasia, quando os há, e um ou outro filme que me chame a atenção. Inevitavelmente, é bastante raro ganhar um filme que eu tenha visto e pelo qual estivesse a torcer. Aconteceu nos prémios de 2004, que finalmente distinguiram a extraordinária adaptação cinematográfica de Peter Jackson a The Lord of the Rings com 11 Óscares para The Return of the King. Aconteceu em 2015, com o  Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) de Alejandro Iñárritu, que não sendo exactamente um filme de género aproxima-se um pouco daqueles territórios temáticos e tem um carácter referencial intrigante (para além de um Michael Keaton inspiradíssimo). E aconteceu em 2018, com o único filme nomeado que vi a conquistar a estatueda dourada: o belíssimo The Shape of Water de Guillermo Del Toro. 

 

É uma combinação curiosa: uma fábula fantástica enquadrada numa trama de espionagem do tempo da Guerra Fria, onde Del Toro actualiza inúmeras referências do cinema que o maravilhou noutros tempos (Creature of the Black Lagoon) e de contos intemporais (A Bela e o Monstro, e as suas múltiplas variações) numa história sobre uma mulher muda e para todos os efeitos invisível e o monstro proverbial, profundamente alienígena e ainda assim mais humano do que os homens que o mantém cativo e o torturam. Mais do que uma história de amor improvável, The Shape of Water é um filme sobre o carácter decisivo dos pequenos gestos, sobre a irrelevância das diferenças, sobre a coragem, sobre a empatia - algo tão em falta nos dias que correm. Juntamos a isto uma grande banda sonora, interpretações notáveis de um grande elenco (o prémio para Melhor Actriz Principal também teria sido bem entregue a Sally Hawkins, e chegará o dia em que se dará o devido valor às interpretações de actores como Doug Jones, eterno colaborador de Del Toro), e o virtuosismo técnico a que os filmes do realizador mexicano já nos habituaram, e temos um digno vencedor do Óscar. 

 

Não será, é certo, o melhor filme da sua carreira - essa distinção caberá sem dúvida ao extraordinário El Laberinto Del Fauno, que nunca chegou à categoria principal dos Óscares por ser falado... em espanhol. Mas nem por isso The Shape of Water deixa de ser um excelente representante tanto de géneros habitualmente desprezados pela crítica como da filmografia e da iconografia inconfundíveis de Del Toro, onde o banal se encontra em constante diálogo com a estranheza. Será sem dúvida um dos realizadores contemporâneos que mais aprecio. Dele recordo HellboyHellboy 2: The Golden Army, duas transposições notáveis e visionárias da banda desenhada de Mike Mignola numa época onde alguns fracassos ruidosos nas adaptações de banda desenhada não deixavam antever o frenesim que se instalaria no género alguns anos mais tarde. E recordo o som e a fúria de Pacific Rim, talvez o mais divertido blockbuster dos últimos anos, que me fez sentir como um miúdo na sala de cinema. É pena que Del Toro nunca chegue a concretizar o derradeiro capítulo da trilogia Hellboy que planeou, e que Ron Perlman tanto queria fazer. Como é pena que tenha acabado por não realizar a adaptação de The Hobbit, como esteve previsto; é provável que tivesse dado uma interpretação muito própria à história clássica de Tolkien, algo que Peter Jackson, amarrado aos espartilhos dos estúdios e ao seu próprio legado na Terra Média, já não conseguiu fazer.

 

Mas ainda ouviremos falar muito dele; oportunidades decerto não faltarão para que Guillermo Del Toro nos encante de novo com as suas fábulas e os seus monstros. E para que volte a demonstrar, como demonstrou em The Shape of Water e como fez questão de sublinhar no seu discurso de Domingo à noite, que a grande ficção de género não tem de se resumir ao escapismo a que muitos a condenam sem a conhecer - ela olha antes para o presente a partir do ponto de vista da imaginação. 

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Pensamento da semana

por João Campos, em 10.02.18

Conseguimos eliminar doenças que há não muito tempo dizimavam populações inteiras. Conseguimos viver muito mais tempo, e com mais saúde, do que os nossos antepassados; e mesmo que o nosso tempo de vida nos pareça sempre curto, temos a possibilidade de viajar e de conhecer mais mundo do que alguma vez foi possível. Conseguimos criar uma rede de comunicação instantânea que une todos os pontos do globo e que coloca praticamente todo o conhecimento da Humanidade disponível à distância de alguns cliques. Conseguimos sequenciar o genoma humano. Conseguimos explorar os abismos oceânicos. Conseguimos quebrar as barreiras e colocar uma missão permanente na órbita baixa do planeta. Conseguimos pisar a Lua, conseguimos levar o engenho humano até aos limites do Sistema Solar, e conseguimos, através desse mesmo engenho, vislumbrar distâncias incompreensíveis no tempo e no espaço. Sim: isto não chega a todos, infelizmente, mas o potencial existe. E eis que chegámos ao prodigioso ano de 2018: à era da pós-verdade, dos factos alternativos, da equiparação do método científico a palpites orgulhosamente ignorantes, de um orgulho nacionalista tão absurdo como perigoso, do regresso do ódio pela diferença, de um fanatismo religioso que envergonharia populações medievais.

 

Se estivesse a ver isto de fora talvez fosse capaz de apreciar a ironia. 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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 Ursula K. Le Guin em 1985 (fotografia de Brian Drake para o The Times, via Los Angeles Times)

 

In reading a novel, any novel, we have to know perfectly well that the whole thing is nonsense, and then, while reading, believe every word of it. Finally, when we're done with it, we may find - if it's a good novel - that we're a bit different from what we were before we read it, that we have been changed a little, as if by having met a new face, crossed a street we never crossed before. But it's very hard to say just what we learned, how we were changed.

Ursula K. Le Guin, na introdução a The Left Hand of Darkness (1969)

 

Para a ficção científica literária, a morte de Ursula K. Le Guin representa o desaparecimento de toda uma época: Le Guin começou a publicar no início dos anos 60, já nos derradeiros anos da famosa "Golden Age" do género; atravessou a revolução da "New Wave" no final dessa década, e continuou pelas décadas de 70 e 80. Seria talvez a última autora clássica do género: no tributo que lhe presta nas páginas do Los Angeles Times, o escritor John Scalzi descreve Le Guin como "a supporting column of the genre, on equal footing and bearing equal weight to Verne or Wells or Heinlein or Bradbury." Mas talvez seja mais do que isso. Verne, Wells e Heinlein (e Clarke, e Asimov) são clássicos pela fundação e pelo desenvolvimento do género, mas Le Guin não seguiu as pisadas dos homens que a antecederam: a sua obra tornou-se clássica não pela continuidade que deu ao cânone da ficção científica, mas pela rejeição desse cânone, pelo expandir dos horizontes de todo o género, e pela forma exemplar como demonstrou que a Ideia, pedra angular da ficção científica, pode não lhe bastar. 

 

E demonstrou-o pela palavra, em contos e livros excepcionais. Diria ser impossível esquecer The Ones Who Walk Away From Omelas, uma parábola poderosíssima escrita em poucas páginas. Ou a ambiguidade de The Dispossessed, com a sua trama dividida entre a sociedade anarquista de Anarres e a sociedade capitalista de Urras, uma reflexão pertinente num terreno pantanoso onde autores menores se afundariam aos primeiros passos. Ou The Left Hand of Darkness, com a sua desconstrução da identidade de género e o seu estudo meticuloso sobre a importância, e a irrelevância, da diferença. Ou - provavelmente o meu preferido - The Lathe of Heaven, livro-tributo a Philip K. Dick, no qual Le Guin leva até às últimas consequências a ideia de que de boas intenções está o Inferno cheio. Sempre com uma prosa excepcional e uma humanidade ímpar, que contribuíram para a elevação e afirmação de um género literário sempre considerado marginal. Para todos os efeitos, a literatura de ficção científica teve em Le Guin mais do que uma das suas maiores vozes - teve nela também uma das suas mais ferozes defensoras. 

 

Mas não se ficou pela ficção científica: a série Earthsea figura entre a melhor fantasia literária já publicada, espantosa pela sua diversidade natural e pela subtileza das suas influências orientais, que representaram uma lufada de ar fresco para um género à época dominado pela sombra de Tolkien e pelo sem-número de imitadores que se lhe seguiram. A aventura de Ged ao longo da trilogia original, em A Wizard of EarthseaThe Tombs of Atuan, e The Farthest Shore, conta com quase cinqueta anos, e não perdeu nem um pouco da sua força. 

 

Cá em casa, na biblioteca que temos vindo a construir, nenhum autor surge tantas vezes. Se tivesse de nomear o meu livro preferido de ficção científica, provavelmente não escolheria um título de Le Guin; mas se tivesse de escolher um escritor ou escritora preferido, não hesitaria na resposta. Ocorrem-me vários livros que me mudaram de alguma forma, mas apenas Le Guin o conseguiu tornar a fazer a cada novo livro ou conto que li. Ainda tenho alguns por ler, tal como a poesia, os ensaios, as inúmeras crónicas - textos dispersos felizmente compilados e editados em anos recentes. Mais do que nunca, aguardo por essas leituras com muita expectativa.

 

Ursula Kroeber Le Guin faleceu anteontem na sua casa de Portland, nos Estados Unidos. Tinha 88 anos, e escreveu livros extraordinários. 

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Outras galáxias muito distantes (7)

por João Campos, em 18.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Esta é a última das sugestões de galáxias a descobrir na literatura e na banda desenhada. Pelo menos, por agora.

 

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 Ody-C

Uma odisseia no feminino

 

Esta curta série de sugestões de leitura de space opera começou na banda desenhada, pelo que me parece muito adequado concluí-la também com banda desenhada. E com uma não menos sofisticada: se Saga inova pela forma como pega nos elementos clássicos do género e os recombina numa narrativa moderna e arrojada, já Ody-C recupera uma das mais clássicas histórias da cultura ocidental - a Odisseia de Homero -, dá-lhe uma nova perspectiva pela alteração do género de praticamente todas as personagens, e transporta-a para um futuro espacial e psicadélico narrado por Matt Fraction e ilustrado de forma assombrosa por Christian Ward.

 

Seria talvez simples reduzir Ody-C a uma versão gender-bent da Odysseia - aliás, seria porventura simples para os autores limitarem-se a essa ideia original. É certo que são exploradas algumas das passagens mais icónicas da Odisseia, como o encontro com Polifemo ou a visita a Éolo, mas Fraction e Ward levam mais longe as atribulações de Ulisses, Menelau e Agamemnon, aqui Odyssia, Ene e Gamem, uma vez terminada a guerra centenária contra Troiia-VII. Se alguns mitos são simplesmente adaptados, outros são transformados com vista à criação de um universo ficcional próprio - e as viagens de regresso das três rainhas-guerreiras, perante a oposição de um panteão liderado por Zeus que vê nas proezas marciais das três combatente e no saque de Troiia-VII um desafio ao seu poder, combinam de forma tão elegante como surpreendente as inspirações clássicas (homéricas e não só) com alguns elementos tradicionais da space opera numa narrativa moderna. 

 

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Fraction opta por narrar esta odisseia de forma pouco convencional, aludindo ao poema épico original com um texto breve e minimalista tanto na descrição como no diálogo - é uma opção porventura estranha para alguns leitores, mas que se revela muito eficaz no modo como se funde à ilustração tão inventiva como psicadélica de Ward, cheia de cores e de formas improváveis. Folhear as páginas dos fascículos ou dos paperbacks é uma experiência singular, que não remete para a tradição dos comics norte-americanos mas antes para algumas bandas desenhadas europeias; e se à primeira vista é impossível não reparar na arte de Christian Ward, uma leitura mais atenta revela a forma hábil com que pega nas ideias que as palavras de Matt Fraction evocam para recriar com absoluta originalidade personagens que todos já vimos vezes sem conta em inúmeras narrações dos mitos da Grécia Antiga. 

 

Pelo tom e pelo estilo muito próprios, é possível que Ody-C não seja uma banda desenhada para todos os leitores - as críticas tendem a polarizar-se entre quem não consegue entrar na história pela forma como esta é narrada e entre quem se maravilha a cada página pela forma imaginativa como uma história tão contada pode ser reinventada com tanta originalidade e com tanto arrojo conceptual e artístico. Pesoalmente, coloco-me no segundo grupo: das bandas desenhadas que comecei a ler em 2017, Ody-C estará sem dúvida entre as melhores. Merece uma oportunidade, e deixa uma garantia: goste-se ou não, não se lhe ficará indiferente. 

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Outras galáxias muito distantes (6)

por João Campos, em 11.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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Ancillary Justice

A irrelevância do género

 

Como penúltima sugestão de leitura nesta série sobre a space opera moderna deixo um dos livros mais falados nos círculos da ficção científica literária dos últimos anos: Ancillary Justice, o romance de estreia da norte-americana Ann Leckie que em 2013 conquistou críticos, leitores, e praticamente todos os prémios relevantes do género. E fê-lo com uma mistura muito bem sucedida de alguns dos mais convencionais elementos narrativos que associamos à space opera - impérios galácticos, alienígenas, inteligências artificiais, aventuras em planetas exóticos - com reflexões pertintenes sobre a natureza humana e sobre um tema muito em voga: a identidade de género. 

 

Nesse sentido, é possível vermos em Ancillary Justice uma continuação lógica da desconstrução da identidade e dos papéis de género que Ursula K. Le Guin (é inevitável: regressamos sempre a ela) desenvolveu no longínquo ano de 1968: em The Left Hand of Darkness Le Guin imagina no planeta remoto de Gethen uma civilização onde os seres humanos são efectivamente andróginos (simplifico), cujas características sexuais fluídas fazem com que as diferenças de género que conhecemos não tenham lugar. Leckie, admita-se, não chega a ir tão longe como Le Guin na imaginação de fisiologias alternativos e de ritos sociais elaborados. A pergunta que coloca, sendo bem mais simples do que as questões e os problemas que o contacto do terráquio Genly Ai com os seres humanos de Gethen suscitam, nem por isso é menos intrigante: se numa sociedade não existem diferenças práticas entre géneros, faz sentido manter uma pré-determinação masculina na linguagem? Para descobrir a resposta, Leckie desenvolveu toda uma trama na qual apenas se conhece o género de uma das personagens numa referência fugaz, colocando todos os pronomes e todos os indicadores linguísticos de género no feminino.

 

O resultado é uma experiência invulgar de leitura que coloca em evidência as ideias pré-concebidas dos leitores, sejam conscientes ou inconscientes, sobre pos papéis de género: o conhecimento de algo tão elementar como o género de uma personagem influencia de forma decisiva o modo como lemos essa personagem. A ausência de algo tão elementar torna a leitura algo desorientante no início - sabemos que a protagonista, Breq, tem de facto um corpo feminino, mas o facto de não sabermos isso de qualquer outra personagem induz a um jogo constante de adivinhação pelos maneirismos e pelas atitudes. No entanto, mais interessante do que descobrir a resposta é perceber que a resposta não tem qualquer relevância ou significado - que aquelas personagens são importantes pelas suas acções e pelas suas palavras, e não por características biológicas pré-determinadas. 

 

Só por isto, a leitura de Ancillary Justice seria sempre um exercício intrigante e pertinente, mas poder-se-ia argumentar que este exercício, por interessante que possa ser, não chega para fazer um bom livro. Leckie sabia-o bem, e por isso apresentou-o não pela teoria mas pela prática, enquandrando-o numa aventura ritmada e conceptualmente estimulante. Breq, outrora uma inteligência artificial multifacetada ao comando da nave militar Justice of Toren, viu-se traída e destruída, reduzida a um derradeiro corpo biológico - e durante anos procura recuperar toda a informação sobre o que aconteceu nos últimos dias da Justice of Toren, para se vingar de quem a destruiu a si e eliminou as suas tripulantes. Convenhamos: naves espaciais há muitas na ficção científica, mas poucas foram aquelas que assumiram o protagonismo das suas histórias...

 

A história de Breq/Justice of Toren tem continuidade - ao romance inaugural de 2013 seguiram-se Ancillary SwordAncillary Mercy, em 2014 e 2015. Sabendo que a surpresa do primeiro livro se esbate nas sequelas, Leckie encaminha a trama para caminhos menos percorridos no género. Mas os leitores que não se queiram comprometer com uma série mais vasta ficam muito bem servidos só com Ancillary Justice - a sua narrativa funciona de forma autónoma, a experiência de leitura é inesquecível e, no contexto das conversas da actualidade, será difícil encontrar na ficção científica literária algum livro mais pertinente. 

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Outras galáxias muito distantes (5)

por João Campos, em 04.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 Hyperion / The Fall of Hyperion

Chaucer e Keats no espaço

 

Ao contrário do que se possa pensar, a produção literária da ficção científica na década de 80 não se resumiu ao neo-noir tecnológico do cyberpunk (por mais vasta que tenha sido a sombra de Neuromancer). Na sombra das especulações cibernéticas de William Gibson, Bruce Sterling e Pat Cadigan a vetusta space opera ia sendo recuperada e reinventada, com títulos como The Snow Queen de Joan D. VingeDownbelow Station de C.J. Cherryh (ambos premiados com o prémio Hugo em 1981 e 1982 respectivamente), e com o início de sagas que marcaram o género, como a Culture de Iain M. Banks ou a Vorkosigan Saga de Lois McMaster Bujold. Mas é já na transição dos anos 80 para a década de 90 que foi publicado um dos textos mais ambiciosos e bem conseguidos que o género já conheceu: o díptico HyperionThe Fall of Hyperion, do norte-americano Dan Simmons.

 

O título soará familiar a quem conhecer a poesia de Keats - e, de facto, o poeta romântico é uma presença constante na trama que Simmons tece num futuro no qual a Humanidade alcançou a Singularidade e expandiu-se por inúmeros planetas da galáxia com a ajuda das inteligências artificiais conhecidas como Technocore (serei intencionalmente vago em alguns momentos - é difícil falar destes dois livros revelar demasiado). Mas essa expansão não foi pacífica - e, de facto, no momento em que a trama arranca a Humanidade prepara-se para a guerra com os enigmáticos Ousters. Nas vésperas dessa guerra, sete peregrinos são seleccionados para fazer a derradeira peregrinação a Hyperion, um planeta remoto e que não teria nada de extraordinário se não possuísse duas coisas únicas: as lendárias "Time Tombs", um conjunto de monumentos localizados num vale onde o tempo se desloca do futuro para o passado, e o seu guardião, o não menos lendário Shrike, uma monstruosidade bio-mecânica feita de metal e coberto de espinhos. Reza a lenda que o Shrike responderá à questão de um dos peregrinos, e matará os restantes...

 

Os sete peregrinos não se conhecem, nem sabem por que motivo foram seleccionados, mas cada um tem um motivo para estar naquele lugar naquele momento - e Simmons evoca Chaucer para construir em Hyperion um mosaico fascinante ao estilo dos célebres Canterbury Tales. Cada peregrino (excepto um) contará a sua história individual durante a longa viagem até às Time Tombs de Hyperion, formando um vasto puzzle do qual o Shrike será uma peça fundamental. Simmons, porém, leva mais longe a ideia do mosaico, desenvolvendo cada história de forma muito particular em termos temáticos. Um dos peregrinos narra uma história de horror; outro, um conto de ficção científica militar a aludir a Starship Troopers. Há um drama familiar, uma intriga política, uma aventura cyberpunk e até uma história época que abarca vários séculos e várias etapas da expansão da Humanidade pelas estrelas. Hyperion não terá sido o primeiro romance de ficção científica a empregar uma estrutura narrativa em mosaico, mas poucos o terão feito com a mesma ambição e com o mesmo engenho, conseguindo mostrar múltiplas facetas do género enquanto desenvolve uma trama intensa com o arrojo conceptual que faz parte da matriz da space opera.

 

Se Hyperion olha para o passado separado das várias personagens para contextualizar o presente da trama, The Fall of Hyperion encarrega-se de desenvolver essa trama - de forma inevitavelmente mais linear, é certo, mas nem por isso menos interessante. Cada uma das histórias do primeiro volume suscitou mais perguntas do que respostas, e cabe a esta segunda parte explorar o destino dos peregrinos e da sua visita ao Shrike. Simmons faz esta exploração com mestria, polvilhando-a de referências literárias e religiosas que convidam à releitura, sem nunca perder de vista a história que pretende contar. O resultado é aquela que será talvez a minha obra preferida dentro do género: um par de livros excepcionais tanto para os leitores mais experientes como para quem ainda não se aventurou na ficção científica. 

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Outras galáxias muito distantes (4)

por João Campos, em 28.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

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The Culture

A utopia ambígua*

 

Se considerarmos a distância a que a Humanidade se encontra de estabelecer uma presença permanente e relevante fora do planeta Terra, será porventura inevitável que qualquer noção de civilização de escala galáctica ganhe contornos utópicos. O que não impediu a ficção científica, nas suas várias vertentes, de imaginar um sem-número de impérios e de sociedades interestelares, quase sempre povoadas por aventureiros destemidos e alienígenas exóticos, mais ou menos hostis. Ainda assim, e por mais anos-luz que estes impérios abarquem, a maioria das sociedades galácticas clássicas permanece estranhamente semelhante aos paradigmas políticos, económicos e sociais da Terra: as mesmas estruturas de poder, os mesmos problemas económicos, as mesmas classes sociais. Em suma, os mesmos problemas de sempre. Talvez por isso a Culture de Iain M. Banks continue a ser tão relevante.

 

Não é que Banks rejeite o antropomorfismo tradicional das space operas - optou, sim, por extrapolá-lo na melhor tradição da ficção científica, interrogando-se sobre como seria uma sociedade cujo domínio científico e tecnológico a libertasse das limitações do mundo que conhecemos. Eis que surge a Culture, um vasto território espacial (seria impreciso designá-lo por impérioreino, ou qualquer outra designação territorial humana) governado por inteligências artificiais (Minds) tão benevolentes como matreiras, e dotadas de um sentido de humor peculiar. As Minds convivem com uma humanidade profundamente alterada pelas possibilidades infinitas abertas pela ciência, e integrada numa sociedade que não conhece o conceito de escassez. Assim, cada indivíduo é livre de se dedicar aos seus gostos pessoais como bem entender (não existe trabalho no sentido habitual do termo, e não existindo leis escritas, as normas assentam num contrato social implícito) e de viver onde quiser - num planeta, num vasto anel orbital ao estilo de Ringworld, numa esfera de Dyson, ou até num dos tremendos Global Systems Vehicles.

 

Como é bom de ver, uma sociedade idílica e hedonista parece um péssimo cenário para uma space opera rocambolesca, dada a inexistência de um conflito de sirva de motor narrativo. Não por acaso, as tramas que Banks explora não se centram tanto no dia-a-dia dos cidadãos no centro da Culture, mas nos intercâmbios que esta estabelece com a sua vizinhança galáctica - e é aqui que entram os elementos do Contact, o corpo diplomático da Culture, e as Special Circumstances, que na prática funciona como uma agência de espionagem e inteligência para intervenções mais ou menos subtis entre outros povos. É, portanto, na orla da Culture que Banks coloca a acção das suas histórias - nas histórias dos agentes das Special Circumstances, nos contactos estabelecidos entre civilizações tão distintas, na diplomacia necessária e nos conflitos inevitáveis. Mas também nos seus inimigos - a título de exemplo, o protagonista de Consider Phlebas é um mercenário contratado por uma civilização em guerra declarada com as Minds. E é essa abordagem que dá a Banks um ponto de vista único para a civilização que ele próprio concebeu. Através das suas persoangens e das odisseias em que as coloca, consegue mostras as engrenagens da sua utopia galáctica enquanto questiona os seus princípios basilares e a justiça das suas acções.

 

Mais do que uma série literária, a Culture é um universo ficcional desenvolvido entre 1987 e 2012 em nove romances e uma colectânea de contos. A ordem de leitura não será por isso relevante - Use of Weapons, o livro cuja capa ilustra este texto, é o terceiro romance da Culture publicado, e será uma introdução perfeita. Mas por notáveis que sejam os seus textos - e são -, aqui estamos perante um dos casos em que o cliché de o todo ser maior do que a soma das suas partes se revela verdadeiro: mais do que um ou dois livros, o legado de Banks para a space opera moderna reside na forma como pegou nas aventuras frenéticas que fizeram escola no género e as extrapolou com uma criatividade e um arrojo conceptual ímpares, mostrando que há vida para além dos impérios galácticos de outros tempos. E - seria inevitável referi-lo - reside ainda na nomenclatura bem humorada das Minds: não é todos os dias que podemos ler uma aventura espacial cujas naves têm nomes como No More Mr. Nice Guy, Unfortunate Conflict of Evidence, ou Just Another Victim of the Ambient Morality (entre muitos outros). Infelizmente, a morte prematura de Iain M. Banks em 2013 colocou um fim abrupto às suas histórias - mas as que cá deixou mantém toda a sua imaginação e pertinência.

 

*E sim, antes que alguém pergunte, sei que o subtítulo foi "pedido" à Ursula K. Le Guin.

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Outras galáxias muito distantes (3)

por João Campos, em 21.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 The Centauri Device

Sem heróis ou vilões

 

Em 1974 estávamos ainda a três anos da estreia de Star Wars e já longe da época dourada do género nos anos 50, do sucesso da série original de Star Trek nos anos 60, e do entusiasmo pelo espaço que as missões norte-americanas e soviéticas tinham trazido pouco tempo antes. Na ficção científica literária, persistiam ainda os ecos da "New Wave" que no final da década de 60 trouxera para o género um experimentalismo estilístico, narrativo e temático que até então fora escasso. Não surpreende, portanto, que também as fórmulas testadas da space opera, com os seus heróis ousados, vilões impiedosos, rebeldes com coração de ouro e aventuras em proporções quase mitológicas, tenham sido colocadas em causa por alguns autores. Um deles foi o britânico M. John Harrison, com um livro notável, ainda que imperfeito: The Centauri Device

 

O propósito de Harrison foi declarado: a desconstrução dos elementos basilares da space opera, como o herói faz a narrativa progredir e que que serve para o leitor nele se projectar, um universo compreensível e reconhecível para os seres humanos, e, na sua essência, antropocêntrico. Assim, o protagonista, John Truck, não é um herói predestinado a salvar a galáxia, mas um camionista espacial vagamente indiferente ao que o rodeia; a humanidade expandiu-se para o espaço e projectou até lá as suas piores tendências e atitudes; e, no vazio interestelar, toda a sorte de bizarrias humanas e pós-humanas floresceu. Inevitavelmente, surge o clássico macguffin - o tal Centauri Device do título -, entram em jogo várias facções políticas em conflito por ele, e emerge por fim Truck, ligado ao tal macguffin por um detalhe que escapa ao seu controlo. 

 

Uma narrativa mais convencional traçaria uma linha clara entre bonsmaus, lançaria Truck na demanda pelo bem, colocaria alguns obstáculos no seu percurso, e resolveria a coisa de forma mais ou menos satisfatória. Harrison, porém, nunca quis ser convencional, e em momento algum posiciona o seu protagonista como herói ou escapa para a desconstrução fácil pela via do anti-herói. Truck não quer salvar o mundo ou lixar o mundo; quer apenas que o mundo o deixe em paz. As várias facções em conflito não são maniqueístas - cada uma delas reclama a sua causa como justa, e em nome dessa causa estão dispostas a todo o tipo de atrocidades. E o mundo onde se movimentam está muito longe dos universos limpos, estilizados e optimistas de outras histórias; é, sim, um universo sujo, caótico e, na melhor das hipóteses, indiferente.

 

Apesar da sua prosa excepcional, de várias passagens memoráveis e de um desenlace atrevido, The Centauri Device estará longe de ser uma das melhores space operas que podemos ler hoje em dia - o próprio Harrison considera-o o pior livro que já escreveu (o que talvez diga muito dos seus romances posteriores). Mas a sua importância não pode ser desprezada, e é por isso que o trago aqui: o seu exercício de desconstrução não só demonstrou quão gastas estavam as fórmulas clássicas do género, como lançou as sementes para o seu ressurgimento, uma década mais tarde. Dito de outra forma: é muito provável que sem a pedrada no charco que foi The Centauri Device não tivessem surgido autores como Iain M. Banks, Alastair Reynolds ou Ken MacLeod, entre muitos outros que modernizaram a vetusta space opera e a trouxeram para o século XXI. Qualquer leitor que queira explorar estes temas terá inevitavelmente de passar por este livro. E decerto não dará a viagem por perdida. 

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Outras galáxias muito distantes (2)

por João Campos, em 18.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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The Snow Queen

Space Opera no feminino

 

The Snow Queen, de Joan D. Vinge, é um caso curioso: foi publicado em 1980, no mesmo ano da estreia de The Empire Strikes Back, venceu o prémio Hugo para melhor romance no ano seguinte, gerou duas sequelas e uma prequela... e, trinta anos volvidos, numa época de pleno ressurgimento da space opera na literatura, na banda desenhada e nos meios audiovisuais, e quando o debate sobre as mulheres e o feminismo na ficção científica se tornou mais pertinente do que nunca, este livro, em tempos descrito como um "Star Wars feminista", está praticamente esquecido.

 

E a descrição tem algum mérito, mesmo sendo o esquecimento tão injusto. Para todos os efeitos, The Snow Queen terá talvez sido uma das últimas space operas relevantes desenvolvida com os moldes mais ou menos tradicionais das histórias épicas de outros tempos: tal como George Lucas, Vinge foi beber à "jornada do herói" de Joseph Campbell e aplicou a teoria a uma galáxia distante povoada por civilizações fascinantes e repleta de mitos de uma época dourada antiga, quase lendária. É muito possível, porém, que as semelhanças terminem aí. Se por um lado a sua grande influência narrativa não residiu nos westerns norte-americanos mas no conto clássico de Hans Christian Andersen, por outro lado The Snow Queen não tem qualquer ambiguidade no seu género: ao contrário de Star WarsThe Snow Queen é assumidamente ficção científica, com um rigor inatacável na construção do seu universo ficcional: o planeta Tiamat, onde decorre a maior parte da trama, não se resume a um único cenário com um clima uniforme: possui climas variados e regiões distintas, dos inúmeros arquipélagos tropicais do hemisfério Sul ao continente montanhoso e gelado do Norte. E os vários elementos científicos e tecnológicos que são apresentados estão longe de ser meros adereços, sendo fundamentais para a narrativa e ilustrando na perfeição a célebre máxima de Arthur C. Clarke: qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.

 

E, claro, há a questão feminista. Vinge até pode ter seguido, mesmo que em traços largos, a lição de Campbell, mas optou por escrever antes a jornada de uma heroína, Moon, cujo percurso a levará inevitavelmente ao confronto com Arienrhod, a Rainha de Gelo do título, monarca absoluta de Tiamat durante o inverno de 150 anos que as mecânicas orbitais do planeta impõem aos povos que nele habitam (estes detalhes nunca são irrelevantes aqui). E se podemos encontrar na Moon das primeiras páginas o arquétipo do jovem inocente que cresceu num lugar remoto sem fazer ideia de quão longe o destino a levará, já em Arienrhod está presente uma ambiguidade rara em romances e personagens desta natureza: em muitos momentos parece uma vilã convencional na ambição e na corrupção, mas Vinge escreve-a com maior profundidade, e os seus objectivos em momento algum são tão simples como aparentam. A Moon e a Arienrhod juntam-se personagens como Jerusha, uma inspectora policial num mundo maioritariamente masculino, ou Gundhalinu, um jovem inspector cuja classe social das suas origens contrasta com o seu destacamento em Tiamat. E muitas outras, num elenco vasto para  o qual a diversidade - de género, de cor da pele, de estratos sociais e de orientações sexuais - não serve apenas para preencher uma qualquer quota (é possível que o tema não tivesse no início dos anos 80 a pertinência que tem hoje), mas para tornar a civilização composta pelos vários mundos apresentados mais verosímil. Não deixa de ser interessante notar que algo tão evidente tenha demorado tanto tempo a ser interiorizado por um género no qual a construção de mundos assume tanta importância.

 

The Snow Queen foi o primeiro livro de ficção científica que li, algures entre 2001 e 2002 - e, à época, recuperou não só o meu gosto pela leitura como me fez descobrir um género que julgava praticamente exclusivo do cinema, da televisão e de alguma banda desenhada. E é curioso notar como contribuiu de forma acidental para a minha resposta adversa ao hype em redor de The Force Awakens há dois anos. O marketing da Disney, sintonizado com o zeitgeist, vendeu bem o seu peixe: temos agora uma mulher como protagonista e um stormtrooper afro-americano! Para o universo criado por Lucas isto talvez tenha sido uma novidade (e a representação é sempre salutar, acrescente-se), mas um leitor mais atento ao género não terá deixado de reparar que lhe serviam comida requentada. Eu reparei: muito antes da Rey de Daisy Ridley e do Finn de John Boyega (ambos excelentes, note-se) já me tinha maravilhado havia muito com a determinação de Moon e com o carácter de Gundhalinu (cujo papel secundário no primeiro livro se tornou principal nos seguintes). Afinal, a diversidade não chegou às galáxias distantes só no século XXI. 

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Outras galáxias muito distantes (1)

por João Campos, em 14.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 Saga

Uma odisseia familiar

 

Não seria incorrecto se descrevesse Saga como um cruzamento entre a space fantasy de Star Wars numa versão para adultos e a tragédia familiar de Romeu & Julieta. De facto, a a trama escrita por Brian K. Vaughan e ilustrada por Fiona Staples tem lugar num universo ficcional onde naves espaciais convivem sem dissonância com formas de magia e de misticismo, e toda a acção decorre do amor improvável entre dois soldados de facções inimigas num conflito de dimensões galácticas. Mas, não sendo incorrecta, esta descrição pecará por ser demasiado redutora: as semelhanças tanto com a série de filmes iniciada por George Lucas como com a tragédia escrita por Shakespeare terminam logo nas primeiras páginas da banda desenhada com o nascimento de Hazel, filha da relação proibida entre Alana, nativa do planeta Landfall, e Marko, oriundo da lua de Wreath. Perseguida por ambas as facções e pelos vários grupos a elas associados, a recém-formada família enceta uma fuga pela galáxia, procurando proporcionar a Hazel uma infância tão normal quanto possível - e por normal entende-se aqui um foguetão-árvore enquanto casa, uma babysitter fantasma, amizades incertas e inimigos determinados. 

 

Autores menos experientes (talentosos) começariam a história pelo infodump clássico para estabelecer as origens do conflito, as facções, o alastrar da guerra, os protagonistas. Vaughan, porém, não perde tempo com os clichés do costume: Hazel nasce, Alana e Marko estão em fuga, e todo aquele universo abre-se perante o leitor numa trama especialmente bem urdida, onde o frenesim da perseguição se alterna com pequenos momentos familiares. Quem apreciar as aventuras espaciais pela acção sentir-se-á em casa nas páginas de Saga, mesmo que nelas não abundem os intensos combates de naves que tanto sucesso fizeram (fazem) no cinema: a história segue sempre a bom ritmo, as peripécias e as reviravoltas sucedem-se sem perder de vista as persongens complexas e ambíguas que a atravessam. Mas Saga é mais do que a aventura: por entre as peripécias galácticas de Alana, Marko e Hazel, Vaughan vai tecendo algumas reflexões sobre a diferença e o preconceito, sobre a futilidade da guerra e os fantasmas que esta deixa, e sobre questões familiares raramente abordadas na tradição dos comics norte-americanos. Ou, pelo menos, raramente abordadas de forma simultaneamente aventureira e intimista.

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À mestria narrativa de Vaughan junta-se a ilustração assombrosa de Fiona Staples, repleta de vivacidade, a alternar entre os planos mais vastos e os momentos mais intimistas sem nunca perder o pé. Os seus alienígenas são expressivos, diversos e fascinantes, parte integrante da trama em curso e não apenas um cenário glorificado para meia dúzia de cenas - alguns, como o "Lying Cat", já conquistaram o seu lugar no imaginário da cultura popular contemporânea. Prova viva de que a banda desenhada não é apenas um mero texto ilustrado mas uma simbiose entre a palavra e a imagem, a arte de Staples dá toda uma nova dimensão à trama, conferindo a todo aquele universo uma cor sem paralelo. E mais do que isso: uma sensualidade rara neste formato. Disse no início do texto que Saga seria algo como "Star Wars para adultos", e não me referia apenas à profundidade e à pertinência do texto e da mensagem de Vaughan mas também ao arrojo do desenho de Staples, sem tabus e em momento algum gratuito ou desnecessário. A capa da primeira edição, que ilustra este texto, é disso um óptimo exemplo, e gerou a sua dose de polémica à data de publicação (mesmo estando longe de ser uma imagem explícita, ou mesmo a imagem mais explícita desta banda desenhada).

 

Com o primeiro capítulo publicado pela Image Comics em 2012, Saga encontra-se ainda em publicação - se formos contabilizar as colectâneas em paperback, está actualmente no sétimo volume, com oitavo a ter publicação prevista para o início de Janeiro próximo. Felizmente, vivemos uma pequena época de ouro para a banda desenhada em Portugal (algo que não acontece com a literatura deste género), tanto em edições nacionais como nas edições traduzidas, e Saga está a ser publicada por cá pela G Floy Studios em boas edições e bom preço. Seja no original ou em português, é-me impossível recomendá-la mais: no que à space opera contemporânea (ou space fantasy, se quisermos ser picuinhas com a terminologia) diz respeito, Saga é uma obra ímpar.

 

(Para os leitores que possam querer uma sugestão de banda desenhada nestes temas, mas menos atrevida, que sirva de prenda de Natal para os mais novos, recomendo Valérian, que a reboque do filme que estreou no Verão até está a ser reeditada por cá: é um clássico, é divertida, e ainda que aqui e ali esteja algo datada, em alguns aspectos continua à frente do seu tempo. Saga, sendo extraordinária, não é de todo uma banda desenhada para crianças)

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Impressiona a quantidade de gente que das suas tribunas na televisão, na imprensa, ou nas infames redes sociais continua a não perceber ou a fingir não perceber que o problema político do desastre de Pedrógão Grande em Junho e do novo desastre da zona Centro-Norte em Outubro não foi a meteorologia ou a floresta mas a (des)protecção civil. A meteorologia, como é evidente, não é culpa de nenhum Governo (deixemos a discussão sobre as alterações climáticas para outra ocasião), e a floresta até será responsabilidade (ou irresponsabilidade) parcial de Governos passados, presentes, e futuros; mas a organização actual das estruturas de prevenção a incêndios, a preparação corrente dos meios de combate ao fogo, e a coordenação dos meios de socorro a pessoas e bens são competências da responsabilidade do Governo presente (como foram de Governos passados, e serão de Governos futuros). E nesse campo, tanto em Junho como em Outubro, o Governo presente falhou em toda a linha, demonstrando a cada momento uma impreparação assustadora e uma arrogância desmedida - as declarações proferidas nas últimas 24 horas pelo Secretário de Estado da Administração Interna, pela Ministra da Administração Interna e pelo Primeiro-Ministro são mais do que irresponsáveis e insensíveis; são inaceitáveis. Não, a demissão dos responsáveis políticos do MAI não resolve nada em termos práticos - não recupera o que se perdeu, não resolve problemas estruturais de décadas, nem soluciona agora o que falhou há pouco. Mas perante os colapsos sucessivos a que assistimos, parece-me imperativo  afastar quem demonstrou de forma cabal não só não estar à altura dos cargos que ocupa, como também não ser capaz de fazer o que for necessário fazer daqui para a frente. É uma questão de responsabilidade política, sim, e também de capacidade política. Ou, neste caso, de irresponsabilidade política e de incapacidade política.

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António de Macedo (1931 - 2017)

por João Campos, em 05.10.17

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É muito provável que o cinema português não o saiba, já que o votou ao esquecimento prematuro, mas com a morte de António de Macedo perdeu um dos seus mais talentosos, mais ousados, e mais originais cineastas. Tive o privilégio de conhecer pessoalmente antes de descobrir a sua obra - era presença assídua no Fórum Fantástico, tanto como convidado como na qualidade de espectador, e ouvi-lo era sempre um privilégio pela lucidez, pelo humor, pelas histórias mirabolantes que contava. Só mais tarde encontrei a literatura fantástica que escreveu e os filmes que realizou enquanto lhe foi possível. Há cerca de um mês vi na Cinemateca a sua primeira longa-metragem, Domingo à Tarde (1965), adaptada do romance de Fernando Namora; mas guardo especial memória de descobrir o assombroso O Princípio da Sabedoria (1975) há poucos anos, numa sessão memorável.

 

No ano passado, o DocLisboa encerrou com Nos Interstícios da Realidade, ou o Cinema de António de Macedo, um documentário realizado por João Monteiro, do Motelx, sobre o papel fundador de António de Macedo no "Cinema Novo" e sobre a forma como foi sendo afastado e esquecido. Deverá ser exibido dentro de pouco tempo em salas de cinema de todo o país, após a ante-estreia de ontem na Cinemateca, e não o poderia recomendar mais. Entre o documentário e as homenagens dos últimos anos, é possível que a obra de António de Macedo seja resgatada ao esquecimento e que ocupe o seu lugar merecido na história do cinema português. Já era tempo.

 

António de Macedo faleceu hoje, aos 86 anos.  

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Blogue da semana

por João Campos, em 01.10.17

Já o recomendei aqui pelo menos numa ocasião, há muito tempo (quem diria que já passaram sete anos...). Mas mesmo na época de declínio da blogosfera continua pontualmente a publicar a cada domingo novos segredos anónimos partilhados em forma de postal. Começou em 2005, como um blogue que cedo se metamorfoseou numa comunidade online, numa exposição itinerante nos Estados Unidos, em múltiplas conferências pelo território americano, sem nunca perder de vista o seu formato original (em ambos os sentidos da palavra). Por isso, e pela segunda vez, o Postsecret será o blogue da semana. 

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Fórum Fantástico 2017

por João Campos, em 28.09.17

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A Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro (Telheiras) vai receber nos próximos três dias a décima edição do Fórum Fantástico, com conferências, apresentações e workshops sobre ficção científica, fantasia e horror em todas as suas formas e sub-géneros. Haverá exposições, espaços e actividades para miúdos (e graúdos), uma feira do livro, e até uma sessão ao vivo de um programa de televisão extinto. O programa completo do Fórum pode ser consultado aqui, a entrada é livre, e toda a gente é bem-vinda.  

 

(E sim, apesar de a campanha autárquica ser um autêntico filme de horror, de o "dia de reflexão" ser um conceito algo distópico, e de haver candidatos com propostas tão lunáticas que nem na ficção científica de série B teriam lugar, ainda ninguém se lembrou de sugerir a proibição de convenções deste tipo em época de eleições. É aproveitar, pois convenhamos: os nossos políticos já tiveram ideias mais rebuscadas)

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A epifania

por João Campos, em 27.09.17

No Público, a propósito da muito oportuna reedição de The Dispossessed de Ursula K. Le Guin pela Saída de Emergência (com o título Os Despojados), escreve o crítico Luís Miguel Queirós:

Ao contrário da ficção policial, onde para cada Raymond Chandler se arranjam com facilidade três ou quatro Agatha Christie, Margaret Millar ou Patricia Highsmith, a ficção científica é ainda hoje, em boa medida, um mundo de homens. No alto firmamento dos Ray Bradbury, Stanislaw Lem ou Philip K. Dick, uma só autora brilha praticamente isolada: Ursula K. le Guin. E tal como os melhores do género, talvez de qualquer género, os seus livros não são verdadeiramente catalogáveis e podem ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica. O que vale também para a sua incursão na chamada ficção fantástica, a pentalogia de Terramar, que se recomenda sem reservas a leitores que já não conseguem suportar nenhum dos incontáveis descendentes de J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin (bastante) incluído. 

 

Só neste primeiro parágrafo teríamos pano para muitas mangas. Poderíamos, se quiséssemos, falar do desconhecimento que o crítico demonstra quando à ficção científica contemporânea (os três autores citados já morreram, e, polémicas à parte, uma leitura na diagonal dos títulos nomeados aos prémios Hugo e Nébula dos últimos seis ou sete anos seria talvez esclarecedora quanto a questões sobre o género de quem escreve o género). Ou mesmo da sua ignorância quanto à ficção científica dita "clássica" - Le Guin será um dos maiores vultos do género, sem dúvida, mas nunca terá ouvido falar de Alice Sheldon (mais conhecida por James Tiptree Jr.), de C.J. Cherryh, ou de Octavia Butler? Ou até, caso nos quiséssemos aventurar noutros territórios, demonstrar como a "chamada ficção fantástica" [sic] não se resume a Tolkien e aos seus discípulos, e de caminho recomendar, sei lá, Neil Gaiman ou Terry Pratchett. Enfim, o tempo é escasso, pelo que me vou ficar pela frase que destaquei a negrito.

 

Imagino que quando o crítico literário médio se vê obrigado a ler um bom livro de ficção científica, seja um texto contemporâneo ou a reedição de um clássico, a epifania seja inevitável: afinal, isto não tem nada que ver com Star Wars ou Star Trek ou aquelas merdas comerciais e vagamente infantis de que os nerds parecem gostar! Afinal há aqui um questionar da natureza da realidade, uma exploração das questões de género, um olhar crítico ao sistema capitalista / comunista / anarquista! E, logo de seguida, chega o orgasmo, o clímax do pretensiosismo: afinal, aquele outro livro desta senhora até vem n' O Cânone Ocidental do Harold Bloom! Como é evidente, ao crítico literário médio nunca irá ocorrer que talvez as suas premissas estivessem erradas, e que talvez a ficção científica enquanto género literário não se resuma apenas às talking squids in outer space com que Margaret Atwood enfureceu meio mundo há trinta anos, Ursula K. Le Guin incluída, a propósito de The Handmaid's Tale (excelente, já agora) ter ganho o prémio Arthur C. Clarke. Nada disso. Se a realidade não se ajusta aos preconceitos, é mais fácil negar a realidade e manter os preconceitos (uma atitude muito em voga, admita-se). Dito de outra forma: se aqueles livros são bons, então não podem ser ficção científica - serão "fábulas", talvez, porventura "parábolas", quiçá "metáforas" (as definições não são muito criativas). Ou então até são ficção científica, sim, mas são tão bons que "transcendem o género". Ou, como diz o crítico, "não são catalogáveis", podendo até - pasme-se! - "ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica". É de ir às lágrimas ou ao vómito, conforme a disposição.

 

A crítica acaba por ser positiva - spoiler alert, o livro levou "quatro estrelas" -, mas em 2017 já não há paciência para o snobismo literário para com a ficção dita "de género" (já escrevi longamente sobre o tema aqui). No cinema, pelo menos, alguns críticos já perceberam (não todos, mas o caminho faz-se caminhando) e são capazes de apreciar um filme de ficção científica sem vergonha e sem necessidade de recorrer à referência highbrow, aos clichés corriqueiros e às desculpas esfarrapadas. Mas na crítica literária publicada pelos vistos ainda há um longo caminho a percorrer. O que não surpreenderá quando reparamos que esses críticos parecem ter parado no tempo em 1994. Ou, se as referências que Luís Miguel Queirós tem da ficção científica literária servem de exemplo, algures entre as décadas de 50 e 60. Alguém se compadeça e lhes envie um DeLorean. 

 

(Aos leitores, recomendo  pouco a crítica e muito The Dispossessed. É um livro notável.)

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Pensamento da semana

por João Campos, em 22.07.17

"E conhecereis a pós-verdade, e a pós-verdade vos aprisionará."

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Old Spice

por João Campos, em 21.07.17

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Curioso, o timing da demissão de Sean Spicer: será apenas uma cortina de fumo para um momento particularmente bizarro (passe o eufemismo) da administração Trump, ou terá Spicer finalmente cedido aos gritos desesperados de socorro da última vértebra da sua espinha dorsal? Por um lado, e por mais tempestuosa que tenha sido a sua relação com a imprensa (passe outro eufemismo), não consigo deixar de sentir alguma simpatia pelo ex-porta-voz da Casa Branca: sempre que o vi na televisão a proferir os disparates mais inusitados fiquei com a sensação de que não acreditava verdadeiramente neles; que, algures no canto mais recôndito da sua mente, ele sabia quão absurdas eram as suas palavras e as suas acções. De resto, o contraste com o fanatismo gelado de Sarah Huckabee Sanders, com a alucinação permanente de Kellyanne Conway, e com o aspecto de Voldemort-de-trazer-por-casa do outro imbecil que emergiu há um par de meses para debitar dois ou três disparates não podia ser mais evidente. Enfim, propaganda por propaganda, prefiro aquela que seja divertida, e as declarações delirantes de Spicer sempre proporcionaram algumas gargalhadas, tanto pelo próprio como pela forma como "alimentou" momentos muito inspirados nos programas de John Oliver, Stephen Colbert, ou Trevor Noah. Enfim, ou muito me engano (e espero enganar-me), ou os norte-americanos ainda irão ter muitas saudades de Sean Spicer. 

 

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DDO Memória

por João Campos, em 07.07.17

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Não sei se se lembram, mas houve um tempo em que bastava um ministro fazer uns corninhos a um deputado em plena assembleia da república para ser sumariamente demitido. Bons tempos, esses. 

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Não é exactamente inédito vermos o fantástico a desbravar os territórios sinuosos da depressão - leia-se, a título de exemplo, Low, a notável banda desenhada em curso de Rick Remender e Greg Tocchini. Nem mesmo a incursão pelo género kaiju/mecha, tão caro à ficção científica japonesa, é exactamente original como metáfora neste tema - recorde-se a brilhante e retorcida série Neon Genesis Evangelion, através da qual Hideaki Anno terá exorcisado os seus próprios demónios em meados dos anos 90. Ainda assim, existe algo de profundamente refrescante em Colossal, o mais recente filme do realizador e argumentista espanhol Nacho Vigalondo. Talvez isso se deva à magnífica Gloria de Anne Hathaway, obrigada pelo desemprego e pelo refúgio no álcool a abandonar a cosmopolita Nova Iorque e a regressar à vila esquecida da sua infância, onde descobre que o seu descontrolo pessoal tem a consequência improvável de materializar um kaiju gigantesco em Seoul. Ou talvez se deva ao guião coeso, a alternar com mestria a ligeireza e o absurdo da premissa fundametnal do filme com o lado mais soturno dos fantasmas que Gloria enfrenta, sem nunca perder de vista a história que pretende contar. Ou talvez se deva à realização segura de Vigalondo, que num género com tendência para o som e para a fúria opta por um silêncio bem doseado e por uma sobriedade visual quase revolucionárias - sabe que é nas suas personagens, e não na pirotecnia, que reside o coração do filme, por mais fantásticos e colossais que sejam os monstros que projectam.

 

 

Ou talvez seja por tudo isto e por qualquer afinidade que cada espectador encontre com aquelas personagens, com os seus relacionamentos conturbados, com as situações que enfrentam, com as consequências imprevistas das suas acções e omissões. Pois por mais fantástica ou absurda que possa ser a premissa de Colossal, ela mais não é do que uma metáfora especialmente bem construída para uma ou outra situação que, cada um à sua maneira, todos acabamos por conhecer tão bem. 

 

(Colossal encontra-se actualmente em exibição numa mão-cheia de cinemas da grande Lisboa e do Porto)

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Black Hole Sun

por João Campos, em 19.05.17

Na adolescência, naqueles poucos anos que antecederam o Napster, o mp3 e a Internet generalizada, ainda cheguei a gravar algumas mix-tapes da rádio e dos CD a que conseguisse deitar a mão. Tinha a tendência de repetir alguns temas, duas ou três músicas que sabia querer sempre ouvir, independentemente do estado de espírito. Black Hole Sun, dos Soundgarden, era uma dessas músicas. É, ainda: mais de duas décadas separam-me da descoberta daquele single de Superunknown, um dos discos de referência do movimento grunge de Seattle, e continuo a ouvi-lo com o mesmo prazer. 

 

Não restam muitos dos grandes nomes do grunge. Kurt Cobain morreu no auge dos Nirvana, ainda na primeira metade dos anos 90. Layne Staley, dos Alice in Chains, desapareceu no início da última década. E agora perdemos Chris Cornell, vocalista dos Soundgarden naqueles anos, e mais tarde dos Audioslave. Foi com esta banda, formada com os músicos dos Rage Against the Machine, que o vi uma vez num dos melhores concertos a que assisti, com direito a uma inesquecível versão acústica desta Black Hole Sun, com Cornell sozinho em palco. Ainda não havia muitos telemóveis com câmara, pelo que desse momento não tenho outro registo que não a memória. Chega perfeitamente.

 

 

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O que é que a União Europeia já fez por nós?

por João Campos, em 28.03.17

(a propósito deste post do Pedro)

 

JERÓNIMO: Sugou-nos até ao tutano, a União Europeia. Tirou-nos tudo, e não só a nós, mas também aos nossos pais, e aos pais dos nossos pais.

CATARINA: E aos pais dos pais dos nossos pais.

JERÓNIMO: Sim.

CATARINA: E aos pais dos pais dos pais dos nossos pais.

JERÓNIMO: Pois, sim, certo, Catarina. Já percebemos. E o que é que a União Europeia nos deu em troca?

ANTÓNIO: O mercado comum?

JERÓNIMO: Hã?

ANTÓNIO: O mercado comum.

JERÓNIMO: Ah, sim, isso. Sim, deram-nos isso. É bem verdade, sim.

MILITANTE #3: E a livre circulação.

CATARINA: Pois é, a livre circulação. Lembras-te da maçada que era viajar para fora do país antes?

JERÓNIMO: Pronto, está bem, admito que o mercado comum e a livre circulação foram duas coisas que a União Europeia nos deu.

JOÃO: E o Euro.

JERÓNIMO: Bom, sim, o Euro é óbvio. Quer dizer, nem é preciso falar nisso, não é? Mas tirando o mercado comum, a livre circulação, e o Euro...

MILITANTE #1: Mais turistas.

ANTÓNIO: Mais investimento.

MILITANTES: Sem dúvida, sem dúvida.

MILITANTE #2: O Programa Erasmus.

MILITANTES: Ah...

JERÓNIMO: Está bem, está bem, já percebi.

MILITANTE #1: E os fundos europeus.

MILITANTES: Ah, pois, os fundos...

JOÃO: Ora aí está uma coisa de que iríamos mesmo sentir falta se a União Europeia acabasse, Reg. Os fundos.

MILITANTE #1: Acesso à justiça comunitária.

CATARINA: E desde que estamos na União Europeia temos mais disciplina nas contas públicas, Reg.

JOÃO: Eles bem tentam que sejamos mais disciplinados nas finanças. Convenhamos que num país destes se não fosse por eles lá em Bruxelas também não nos iríamos maçar muito com isso.

MILITANTES: Eh eh eh eh eh.

JERÓNIMO: Muito bem, mas para além do mercado comum, da livre circulação, do Euro, dos turistas, do investimento, do Programa Erasmus, dos fundos europeus, do acesso à justiça comunitária e do rigor orçamental, o que é que a União Europeia alguma vez fez por nós?

ANTÓNIO: Trouxe paz para a Europa?

JERÓNIMO: Paz para a Europa? Bardamerda para isso!

 

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Blogue da semana

por João Campos, em 19.02.17

Numa época em que os blogues caíram em desuso e foram ultrapassados pela irrelevância acelerada das redes sociais, é sempre interessante notar que ainda existem alguns fenómenos de longevidade - blogues criados durante a época de maior dinamismo da blogosfera que durante o seu ocaso têm mantido tanto a actividade regular como a pertinência. É o caso do Rascunhos, que desde 2006 tem vindo a deixar óptimas sugestões de leitura e reflexões interessantes sobre os livros e as bandas desenhadas que a Cristina Alves, com quem já tive o privilégio de partilhar algumas mesas redondas no Fórum Fantástico, vai lendo (e lê muitos). Pela longevidade e pela qualidade, será o blogue desta semana.

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John Hurt (1940 - 2017)

por João Campos, em 28.01.17

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Conta a lenda de que a célebre chestburster scene foi filmada sem que o elenco soubesse de que a criatura alienígena iria explodir em sangue e entranhas do peito de John Hurt - ideia de Ridley Scott para obter do elenco de Alien uma reacção mais genuína. O resultado foi uma das mais icónicas cenas do cinema tanto de horror como de ficção científica - e uma que o próprio John Hurt parodiaria oito anos depois no Spaceballs do lendário Mel Brooks. Hurt foi o oprimido Winston em 1984, o revolucionário Gilliam em Snowpiercer e o tirano Sutler em V for Vendetta; foi o Elephant Man de David Lynch e o Professor Broom dos dois Hellboy de Guillermo Del Toro (duas adaptações de banda desenhada tristemente subvalorizadas e esquecidas). Entrou, entre muitos outros filmes e inúmeras séries televisivas, em Only Lovers Left AliveTinker Taylor Soldier SpyMelancholiaJackie (a estrear em breve), Dr. Who, Merlin e The Storyteller. Emprestou também a sua voz inconfundível à animação - foi, por exemplo, o Aragorn da adaptação animada de The Lord of the Rings realizada por Ralph Bakshi em 1978. Não havia - não há - muitos actores com o seu carisma. John Hurt morreu hoje, aos 77 anos. 

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Os maus exemplos

por João Campos, em 19.01.17

Imagine que vai a um restaurante jantar com amigos. Senta-se à mesa, escolhe do menu a refeição, engana a fome com pão e manteiga, delicia-se com o prato escolhido e o vinho que o acompanha, e atreve-se ainda a uma sobremesa. No final, quando o empregado de mesa lhe traz a conta, paga e pede uma factura. "Dá jeito para o IRS", comenta de passagem. Ao que o empregado lhe responde que tem todo o direito à factura mas que não lha pode dar ali, no acto do pagamento. Pode, sim, dar-lhe um formulário postal que deverá preencher e enviar pelo correio, solicitando a dita factura. Ou, em alternativa, poderá, "a partir do conforto de sua casa" (diz isto como se estivesse a sugerir o prato do dia), aceder à página Web do restaurante e, após facultar alguns dados e seguir um formulário de sete etapas, e enfim obter a factura. Mas atenção: só poderá fazê-lo uma vez volvidas 48 horas sobre o pagamento, e apenas durante os cinco dias que se seguirem a essas 48 horas. 

"Mas não é obrigatório emitir uma factura se o cliente o solicitar?", pergunta, incrédulo. "É", responde o empregado, sempre a sorrir. "E emitimos. Basta enviar este formulário, ou aceder ao site."

. . .

 

Imagine que se dirige a uma loja de equipamentos electrónicos para comprar um telemóvel. Compara a oferta dos vários fabricantes dentro dos preços que estão ao seu alcance, pondera nas vantagens e desvantagens de uma mão-cheia de modelos, conversa um pouco com a técnica de serviço para esclarecer alguma dúvida, e por fim decide-se pelo aparelho que vai comprar. Dirige-se à caixa para pagar, e ao efectuar o pagamento solicita a factura. Enquanto lhe entrega o talão de pagamento e o recibo da garantia, a empregada diz-lhe que não é possível dar-lhe a factura ali, mas que poderá preencher o formulário que pode encontrar ali ao balcão para solicitar a factura pelo correio ou, em alternativa, poderá aceder à Internet, preencher o formulário de sete etapas que se encontra no site da loja, e descarregar a factura. "Até pode fazê-lo a partir deste telemóvel", graceja, sem no entanto deixar de o alertar que só poderá obter a factura por esta via 48 horas após o pagamento (nunca antes), e apenas durante os cinco dias que se seguem a essas 48 horas. 

"Mas se eu estou a pagar agora, por que motivo não posso ter já a factura?" pergunta, já sem conseguir disfarçar a irritação. 

"Porque o nosso sistema informático não permite a emissão de facturas imediatamente após o pagamento", esclarece a empregada, no tom exacto de quem está a repetir um matra pela enésima vez nos últimos dias. "Por isso poderá fazê-lo pelo correio, ou a partir do conforto de sua casa".

. . .

 

Será perfeitamente normal que o leitor ou a leitora considere qualquer uma das situações acima descritas como absurda. Nestes dias de voragem fiscal da Autoridade Tributária (o nome já é todo um programa), qualquer estabelecimento comercial privado legal que não tenha em funcionamento um sistema de emissão de facturas e que as emita a pedido do cliente teria o Fisco, a ASAE e sabe-se lá que mais Autoridades à perna para o habitual bullying tributário. Nestes tempos em que o Estado incentiva os contribuintes a solicitarem factura por tudo e mais alguma coisa (até podem ganhar prémios, veja-se bem), qualquer estabelecimento que se recuse à emissão da facturinha será decerto falado nas redes sociais pelos piores motivos. No entanto, e como não podia deixar de ser, o mau exemplo vem de cima: se o leitor ou a leitora for utente dos Transportes de Lisboa, que tanto quanto sei ainda é uma empresa pública, não poderá obter uma factura no acto do pagamento, seja este feito nas máquinas automáticas que encontramos nas estações do Metro ou nos balcões de atendimento do Metro ou da Carris: terá de preencher um formulário para solicitar a factura pelo correio, ou aceder a uma página Web, seguir um formulário de sete etapas e descarregar enfim a dita factura (mas só poderá fazê-lo 48 horas após o pagamento, e apenas durante os cinco dias que se seguirem). O motivo, conforme me explicou hoje um funcionário do Metro, é simples: em pleno 2017, ano em que todos transportamos no bolso aparelhos com maior capacidade de processamento do que a nave espacial que levou três astronautas à Lua em 1969, o software das máquinas automáticas e dos balcões de atendimento não está preparado para algo tão básico como... a emissão de facturas.

 

Que o Estado continue a permitir às empresas públicas aquilo que não permite às privadas dificilmente irá surpreender alguém nos dias que correm. O que espanta é que se ache isto normal

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Do descaramento

por João Campos, em 09.01.17

des·ca·ra·men·to 

substantivo masculino

  • 1. Falta de vergonha; desfaçatez.
  • 2. Impudência; desaforo.

"descaramento", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013

"descaramento", por Ricardo Salgado in Jornal de Negócios [em linha], 09-01-2017

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"Arrival", ou os novos encontros imediatos

por João Campos, em 17.11.16

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Numa época de aridez criativa mal disfarçada pelo frenesim narrativo, pela pirotecnia computorizada, e pela insistência na franchise que tomou conta das grandes produções de Hollywood, um filme como Arrival é mais do que refrescante - é insólido quase ao ponto do absurdo. Não encontramos, neste blockbuster do canadiano Denis Villeneuve (Sicario) que adapta para o cinema o magnífico conto Story of Your Life do norte-americano Ted Chiang, qualquer vestígio dos elementos que as produções deste tipo têm banalizado com insistência. Toda a acção do filme consiste, justamente, em evitar a acção (ao estilo de Hollywood, entenda-se); ao longo das suas quase duas horas não temos uma única perseguição, o único tiroteio que tem lugar decorre fora da tela, e ao invés de procurarem vencer a guerra pelo combate, os protagonistas esforçam-se por não travar de todo essa guerra.

 

O que, convenhamos, é raro num filme cuja premissa assenta na noção de "primeiro contacto", quando doze naves alienígenas monolíticas aterram no nosso planeta e fazem o mundo mergulhar no caos apenas e só pela sua presença. 

 

Ao invés de resolver a questão pela habitual via bélica, as autoridades dos vários países "visitados" optam, num primeiro momento, por tentar estabelecer contacto por outras vias. É aqui que surge a protagonista, num desempenho notável de Amy Adams: Louise Banks, linguista de renome, a quem o Exército norte-americano confia a liderança de uma equipa que consiga encontrar uma forma de comunicar com os alienígenas para compreender as suas intenções. A partir daqui, Arrival desenrola-se em simultâneo pelo drama pessoal de Louise e a tragédia que marca a sua vida, e pelo drama linguístico que os alienígenas colocam. Longe estão os territórios simplistas e batidos dos Star Wars a que nos acostumámos no cinema, em que o inglês se tornou na língua franca da galáxia: Arrival renuncia a esse legado para demonstrar não a impossibilidade mas a improbabilidade da comunicação com uma civilização extra-terrestre. Nesse sentido, estamos mais perto de um Close Encounters of the Third Kind de Spielberg ou mesmo de um Solaris de Tarkovsky; e, tal como nestes dois filmes (e em boa parte da ficção científica deste género), em Arrival aquilo que está verdadeiramente em causa não é tanto a chegada dos alienígenas como o impacto que essa chegada tem na vida das personagens que estamos a acompanhar. O resultado, esse, dificilmente poderia ser melhor.

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Do sentido de oportunidade

por João Campos, em 09.11.16

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Não sei se sabem, mas a Cinemateca vai repor às 21:30 de hoje o clássico Dr. Strangelove or: How I Stopped Worrying and Love the Bomb, de Stanley Kubrick. Dadas as circunstâncias, seria mesmo muito difícil encontrar programa mais apropriado para a noite de hoje. Até mais logo. 

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O arranjo floral

por João Campos, em 05.10.16
 

Se a memória não me falha, só na ficção científica vi o Secretário Geral das Nações Unidas ter alguma importância prática: foi em Childhood's End, romance de 1953 de Arthur C. Clarke. Logo na primeira parte do livro, a Terra recebe a inesperada visita de uma civilização alienígena que estaciona sobre as principais cidades do planeta naves colossais; o líder aparente dos Overlords escolhe o Secretário Geral da ONU como porta-voz da Humanidade, e é através dele que os extraterrestres comunicam à Humanidade o seu propósito, assim como a intenção de só após 50 anos ser revelada ao mundo a forma física dos visitantes. Fora do livro e da ficção científica, sempre tive a sensação de que o cargo é mais ou menos equivalente a uma jarra sobre um naperon, ou, se quisermos ser um bocadinho menos kitsch, a um arranjo floral no centro da mesa dessa relíquia da ordem emergente do pós-Segunda Guerra Mundial que é o Conselho de Segurança (que, por obsoleta que possa ser, é onde está de facto o poder). Sim, seria porventura simpático que Guterres se tornasse nesse arranjo floral, mas dado o cargo e dada a personagem, não há nesta eleição peculiar nada que mereça grande exaltação patriótica. 

 

(de qualquer forma, podemos ficar sempre com a imagem mirabolante que seria uma civilização alienígena não hostil a fazer o mítico "primeiro contacto" com Guterres)

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Dentes-de-leão

por João Campos, em 05.10.16

No more kings. Vimes had difficulty in articulating why this should be so, why the concept revolted in his very bones. After all, a good many of the patricians had been as bad as any king. But they were... sort of... bad on equal terms. What set Vimes's teeth on edge was the idea that kings were a different kind of human being. A higher lifeform. Somehow magical. But, huh, there was some magic, at that. Ankh-Morpork still seem to be littered with Royal this and Royal that, little old men who got paid a few pence a week to do a few meaningless chores, like the Master of the King's Keys or the Keeper of the Crown Jewels, even though there were no keys and certainly no jewels. 

Royalty was like dandelions. No matter how many heads you chopped off, the roots were still there underground, waiting to spring up again.

It seemed to be a chronic disease. It was as if even the most intelligent person had this little blank spot in their heads where someone had written: "Kings. What a good idea." Whoever had created humanity had left in a major design flaw. It was its tendecy to bend at the knees. 

Terry PratchettFeet of Clay (1996)

 

Neste 5 de Outubro em que se volta a assinalar com um feriado a Implantação da República (independentemente de poder ser essa ou outra efeméride a merecer o dia de descanso), parece-me apropriado regressar a um autor muito cá de casa: Terry Pratchett. Dizer que as suas sátiras são incomparáveis no género onde situou o mundo secundário de Discworld  - a fantasia literária - seria dizer mesmo muito pouco: é muito provável que no seu auge as sátiras de Pratchett tenham sido incomparáveis, ponto (leia-se Small Gods). Poucos temas dentro e fora do género escaparam ao seu olhar atento e à sua prosa aguçada; sendo britânico, e cultor de um género literário rico em reis e rainhas, seria talvez inevitável que também a monarquia servisse de mote para alguns jogos de palavras, para umas poucas gargalhadas e para uma ou outra reflexão. Como se pode ver por este trecho retirado do décimo-nono livro da série Discworld, no qual o Comandante da Guarda de Ankh-Morpork, Samuel Vimes, se vê a braços com uma série de homicídios e com a possibilidade de a monarquia regressar àquela cidade-estado histórica (ainda não terminei a leitura e tenho evitado spoilers, pelo que para já desconheço se Lorde Vetinari, governador absoluto de Ankh-Morpork, será substituído). E na obra completa podemos encontrar outras passagens sobre o tema, como esta outra, retirada de uma nota de rodapé (as notas de rodapé de Pratchett são famosas) do quarto livro da série, Mort, publicado em 1987, e que talvez ajude a explicar a ciência subjacente ao fenómeno da sucessão: 

 

The only thing known to go faster than ordinary light is monarchy, according to the philosopher Ly Tin Wheedle. He reasoned like this: you can't have more than one king, and tradition demands that there is no gap between kings, so when a king dies the succession must therefore pass to the heir instantaneously. Presumably, he said, there must be some elementary particles – kingons, or possibly queons – that do this job, but of course succession sometimes fails if, in mid-flight, they strike an anti-particle, or republicon. His ambitious plans to use his discovery to send messages, involving the careful torturing of a small king in order to modulate the signal, were never fully expanded because, at that point, the bar closed.

 

Aos leitores, votos de um bom feriado. 

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Blogue da semana

por João Campos, em 02.10.16

Escolher hoje um blogue para destacar como blogue da semana é-me bem mais difícil do que era em 2011 (e já nessa altura a coisa não era tão simples quanto isso). Por mais que por cá continuemos a blogar alegremente, a verdade é que a blogosfera institucionalizou-se e perdeu relevância. Os blogues de sugestões passaram a blogues de marcas, num formato publicitário um tanto ou quanto manhoso. Bloggers de qualidade deram origem a comentadores de imprensa medíocres; outros foram abandonando o formato, tanto com despedidas anunciadas como pela publicação cada vez mais irregular, até se tornar inexistente. As discussões efervescentes que acompanhávamos na blogosfera política de 2003 e 2004 transferiram-se, com prejuízo evidente, para redes sociais como o facebook e o twitter, menos palavrosas e mais amigas do soundbyte, da irrelevância, da tagarelice desmiolada, e do domínio muito limitado da língua portuguesa que os nossos (ir)responsáveis políticos exibem sem pudor ou vergonha. E a maioria da blogosfera política que resta seguiu a tendência do debate contaminado das redes sociais: entrincheirou-se, radicalizou-se, e deixou-se levar pelo ruído.

 

Enfim, nestes dias do declínio dos blogues são cada vez menos aqueles que acompanho e recomendo (acompanho algumas coisas muito pouco recomendáveis, admito). Uma vez que já escrevo no Delito de Opinião há alguns anos, esta tarefa já me calhou algumas vezes; e uma vez que o Pedro Mexia não voltou a regressar à blogosfera (que eu saiba; alguém me avise se estiver enganado), encontro-me sem outra alternativa que não optar pela repetição de sugestões que já dei em outras circunstâncias. O que, bem vistas as coisas, não é necessariamente mau: por um lado, repetir uma sugestão já antiga significa que o blogue resistiu ao tuíte (é assim que se traduz?) da sereia; por outro, essa repetição quer dizer que o blogue não só se mantém como se mantém com a mesma qualidade e quiçá com a mesma regularidade que lhe reconhecia quando o recomendei pela primeira vez. Ora o  blogue que hoje volto a destacar no Delito de Opinião não só preenche todos estes critérios (mantém qualidade, mantém regularidade, etc.) como é - continua a ser - mantido por um bom amigo e companheiro das andanças da ficção científica - e, após estes anos, continuamos amigos e continuamos (mais ele do que eu, reconheça-se) nas mesmas andanças. Mas o Intergalactic Robot, do Artur Coelho, não se resume à ficção científica que muito apreciamos: banda desenhada, cibercultura, e novas tecnologias são também recorrentes. Fica então a sugestão reiterada. 

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Do princípio ao fim (3)

por João Campos, em 25.09.16

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Permitam-me a batota de começar pelo fim, e aos quadradinhos.

 

É bem possível que o fim definitivo de Calvin & Hobbes, a tira cómica que Bill Watterson escreveu e ilustrou entre 1985 (o ano em que nasci) e 1995, marque o fim de uma época. De um tempo em que a banda desenhada ainda ocupava um lugar privilegiado nos jornais, e de um tempo em que estes ainda eram relevantes enquanto veículo de informação privilegiada. É provável que o próprio Watterson tenha adivinhado a segunda tendência - Calvin & Hobbes, afinal, foram uma tira de jornal especialmente sintonizada com o seu tempo, repleta de uma crítica cuja subtileza em nada lhe retirava mordacidade, e que, volvidas duas décadas, se revela tão persciente como pertinente. Basta recordarmos a importância das suas observações sobre a televisão e a cultura televisiva, mais actuais do que nunca tanto para o pequeno ecrã como para os múltiplos pequenos ecrãs que Watterson não adivinhou, mas que elevaram ainda mais a cultura do efémero contra a qual o pai de Calvin já se insurgia. Quanto à primeira, enfim, ficou famosa a recusa absoluta de compromisso na sua arte, algo que o levou ao isolamento após 1995 e que faz com que ainda hoje, quando a comercialização reina de forma absoluta, não exista merchandising oficial de Calvin & Hobbes. Só as tiras que Watterson escreveu e ilustrou, e que continuam a ser publicadas em inúmeros jornais em todo o mundo, e reeditadas em álbuns intemporais. Mas mais importante do que isso: no que à tira de jornal diz respeito, talvez Watterson tenha também elevado o formato ao seu expoente máximo. 

 

Convenhamos: não há nas tiras de jornal nada que se compare a Calvin & Hobbes. Não, nem Schulz - desculpem. Sem querer tirar mérito aos PeanutsCalvin & Hobbes não chega sequer a ser uma daquelas obras que eleva a fasquia - Watterson simplesmente jogava noutro campeonato, como nos comics norte-americanos de super-heróis jogaram Alan Moore e Neil Gaiman quando escreveram WatchmenThe Sandman, respectivamente. Se o seu olhar sobre a sociedade era especialmente arguto, já a sua perspectiva sobre a imaginação é inigualável: ninguém capturou como Watterson o absoluto prodígio da imaginação infantil. E fê-lo através de algo tão simples como a interação daquele miúdo vivaço de seis anos e do seu amigo imaginário, que para todas as outras personagens era apenas um tigre de peluche. Nos territórios férteis da imaginação de de Calvin jogámos calvinbola, demos vida a bonecos de neve (que se tornaram monstruosos), deixámos mensagens para extra-terrestres gravadas na neve, fizemos todo o tipo de travessuras em casa, na vizinhança ou na escola, discutimos filosofia num trenó. Fomos a Marte num reboque de bicicleta, viajámos no tempo numa caixa de cartão, vivemos aventuras noir com Tracer Bullet, tornámo-nos super-heróis com o Homem Estupendo, fomos aos confins do espaço com o Astronauta Spiff. Let's go exploring! foram as últimas palavras que lemos de Calvin e de Hobbes, como que um convite para que cada um de nós continuasse a descobrir aquelas aventuras - tanto as que Watterson nos deixou e que tão intransigentemente recusou continuar (um acto que só pode merecer aplauso), como todas aquelas que nunca escreveu, e que podemos imaginar livremente. Como só Calvin e Hobbes faziam. 

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Mariana "Mouch" Mortágua

por João Campos, em 18.09.16

"(...) do ponto de vista prático, a primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro."

 

Lendo esta frase fora de contexto, diria que talvez se tratasse de um trecho de uma hipotética tradução portuguesa de Atlas Shrugged - as palavras e a ideia que elas sugerem seriam facilmente proferidas por um dos vilões-caricatura que Ayn Rand usava para zurzir naquilo que percebia como "socialismo". Como se sabe, porém, a realidade tende a superar a ficção, e eis que afinal não foi um fictício Wesley Mouch mas sim a muito real Mariana Mortágua quem proferiu estas palavras, num comício (ou algo que lhe valha) do Partido Socialista. O que não deixa de ser um tanto ou quanto perturbador: qualquer pessoa que tenha lido Rand com um mínimo de atenção repara na inverosimilhança dos seus heróis, mas pelos vistos os vilões do Objectivismo não só não são implausíveis como ocupam posições de poder entre nós. Estamos bem arranjados.

(via O Insurgente)

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Os bois, os nomes, e os géneros

por João Campos, em 09.09.16

O destaque do Eduardo Pitta é interessante, mas merece um reparo. Apesar de os romances que o celebrizaram (Do Androids Dream of Electric Sheep?A Scanner Darkly e este The Man in the High Castle) poderem ser considerados distopias, será um tanto ou quanto redutor dizer que Philip K. Dick foi um dos guru da ficção distópica - e logo ele, figura maior da literatura de ficção científica, género que desenvolveu de forma ímpar em inúmeros contos a partir dos anos 50 (é ler RoogPaycheckSecond Variety, entre tantos outros) e em vários romances (aos que citei poderia juntar Ubik ou The Martian Time-Slip) que escreveu até à sua morte prematura em 1982. É sempre simpático ver a "elite" literária a olhar para o lado uma vez por acaso e a dar atenção a textos de géneros que regra geral considera menores, mesmo quando continua a ser incapaz de ver para lá das referências que toda a gente já conhece (The Man in the High Castle, estando muito longe de ser o melhor texto de PKD, até teve por cá uma outra edição há poucos anos, e uma adaptação televisiva recente); mas não lhe cairiam os parentes na lama por tratar os bois pelos nomes. 

 

(Também será muito discutível a afirmação de que [p]ara muita gente, Dick é o homem por trás de Blade Runner, o filme que Ridley Scott fez a partir do romance Do Androids Dream of Electric Sheep?; na história da literatura de ficção científica, e no contexto dos anos 50 e 60, PKD é tão incontornável como Heinlein, Asimov e Clarke; os seus romances e as suas colectâneas de contos continuam a ser reeditadas com regularidade no mercado de língua inglesa; e muitos outros textos seus têm sido adaptados para cinema e televisão. Dito de outra forma: é bem possível que PKD seja muita coisa para muita gente. Mas talvez não valha a pena entrar por aí.)

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A ladeira

por João Campos, em 05.08.16

Pode dizer-se muita coisa sobre o caso Rocha Andrade  - Galpgate? -, mas não se poderá dizer que todo o episódio não tem sido educativo no que à vetusta "ética republicana" diz respeito. Como os exemplos vêm, deviam vir, de cima, doravante os portugueses passam a estar mais preparados para lidar com a Autoridade Tributária (não se arranjava designação menos fascista?). Falhou o pagamento do imposto e recebeu a cartinha de multa com o jurozinho respectivo? Peço desculpa, Dona Autoridade, não sabia que isto devia ter sido pago há cinco anos; vou já ali regularizar a coisa e deixe lá isso dos juros, pode ser? Naturalmente, uma vez começada a descida da ladeira, o fundo da encosta é o limite - que é como quem diz, a lição bem pode ser aplicada às outras cabeças da hidra que é o Estado. Pois, Senhora EMEL, não sabia que não podia estacionar em cima da passadeira, mas guarde lá o bloquinho e esse tanganho para as rodas que eu tiro já o carro e fica tudo bem, não é? E como após falhar na curva já só resta mesmo o silvado, Ah, Menina ASAE, não sabia que tinha moscas na sopa, mas deixe-me ir ali ao tacho tirar as outras e a coisa passa.

 

É frequente comentar-se que em Portugal temos os políticos que merecemos; mas após anos e anos de chicos-espertos iletrados a chegarem a deputados e a ministros (a lista seria exaustiva, já que abrange todo o espectro partidário), começo a duvidar desse dizer popular. Que diabo: podemos até ter muitos defeitos, mas no fundo não fizemos mal a ninguém ao ponto de merecer isto. 

 

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Miyazaki em Agosto

por João Campos, em 31.07.16

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Não será só Kubrick a regressar às salas de cinema lisboetas em Agosto: numa excelente iniciativa do Museu do Oriente, a cada domingo do mês serão exibidas obras dos Estúdios Ghibli, a grande casa da animação japonesa, tornada numa referência de culto pelo talento do realizador Hayao Miyazaki. Do mestre poderemos assistir ao seu último filme, The Wind Rises (que estreou há não muito tempo), e aqueles que serão talvez os seus dois filmes maiores: Spirited Away, que lhe valeu um Óscar, e (o meu preferido) Princess Mononoke, que envergonha qualquer filme feito em qualquer parte do mundo sobre o eterno conflito entre o mundo natural e o mundo tecnológico. Que se desengane quem (ainda) pensar que a animação é coisa de miúdos: por detrás da animação vibrante e colorida de Miyazaki em Mononoke está uma história adulta, ambígua e multifacetada, cujas questões que suscita não têm respostas fáceis, cuja violência em momento algum surge de forma gratuita, e cujo desfecho memorável não podia estar mais longe dos desenlaces delicodoces que fizeram escola no Ocidente com a Disney. Para quem, como eu, só teve a oportunidade de ver este filme num ecrã de televisão ou de computador, esta será uma oportunidade rara para poder apreciar a melhor animação japonesa no grande ecrã; quem nunca viu, ou quem desconheça a obra de Miyazaki, terá aqui a possibilidade de descobrir um dos grandes realizadores do nosso tempo. Garanto que valerá a pena. 

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O regresso de Kubrick

por João Campos, em 26.07.16

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Na falta de um ciclo mais completo que permita às gerações mais novas (e velhas) ver no grande ecrã os clássicos de um dos maiores realizadores que o cinema já conheceu, temos de nos contentar com as migalhas que vão caindo aqui e ali. Há três anos - parece que foi ontem - caiu uma, quando Kubrick regressou finalmente a algumas salas de cinema portuguesas com o assombroso 2001: A Space Odyssey (ver a sequência da Stargate na segunda fila daquela sala enorme no El Corte Inglés será sempre uma das memórias mais marcantes que o cinema me deu). E a partir da próxima Quinta-feira cairá outra, quando o Cinema Ideal começar a passar, até meados de Agosto, a mais recente versão digital restaurada de Barry Lyndon, assinalando as quatro décadas do clássico de época que terá talvez ficado mais famoso pelo virtuosismo técnico de Kubrick (a célebre história das lentes equivalentes às usadas pela NASA). Sim, o virtuosismo é evidente em cada fotograma, autênticos quadros que Kubrick pintou na película - mas a história da ascensão e da queda do Redmond Barry que imortalizou Ryan O'Neal não lhe fica atrás. É uma oportunidade única para ver ou rever. 

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A França rende-se

por João Campos, em 10.07.16

... ao Éder. E pronto, é isto.

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O Europeu dos pequeninos

por João Campos, em 01.07.16

Ouvi muita gente dizer que um Europeu de Futebol alargado a mais equipas - com a qualificação a abrir portas a selecções que em circunstâncias normais (o que quer que isso signifique) não chegariam à fase final - iria tornar o torneio num "passeio" para as equipas maiores, que teriam pela frente adversários teoricamente mais fracos. Entretanto, desde que o Europeu começou vimos a Croácia a classificar-se em primeiro num grupo com a Espanha e a República Checa; Gales a ultrapassar a Espanha e a Rússia; a Islândia e a Hungria a empurrarem Portugal para o terceiro lugar do grupo que todos diziam ser o mais fácil. E a coisa não acabou aí: nos oitavos de final vimos a Islândia a eliminar a Inglaterra e - hoje mesmo - Gales a mandar a favorita Bélgica para casa (e, enfim, temos visto Portugal a tropeçar até à meia-final, uma proeza que parece desafiar vários princípios da física, da biologia e, enfim, da sorte em geral). Não sei o que pensam agora aqueles que diziam que as equipas pequenas enfraqueciam a competição; sei, sim, que tenho gostado mesmo muito de ver as equipas pequenas a fazerem jogos espantosos e a alcançarem resultados inimagináveis há um mês. 

 

(agora é torcer para que a Islândia, certamente a jogar contra duas equipas, consiga a proeza de eliminar a França.)

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Bud Spencer (1929 - 2016)

por João Campos, em 27.06.16

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Na memória televisiva da minha infância ficarão sempre os filmes de Bud Spencer e Terence Hill - divertidíssimos no seu exagero e na química entre a dupla de italianos com nome artístico "à Hollywood". Carlo Pedersoli, imortalizado como Bud Spencer, morreu hoje aos 86 anos. A pouco e pouco, o mundo fica mesmo menos divertido.

 

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Sair da casca

por João Campos, em 26.06.16

Na RTP, promove-se a partida entre a Inglaterra e a Islândia a dizer algo do género (cito de memória): "afinal, a Inglaterra não quer sair do Euro, mas a Islândia é a favor do Brexit." Há dias, durante o jogo que opôs as selecções da Rússia e de Gales, um dos comentadores contou a história de uma actriz pornográfica que teria oferecido a um dos jogadores russos 16 horas de sexo se ele marcasse aos galeses (não marcou, evidentemente, o que só torna a cuscovilhice mais divertida). No mesmo jogo, perante a imagem de um adepto de Gales a chorar, comentou-se que ele (o adepto) ou estaria emocionado pela prestação da equipa, ou talvez tivesse apenas constatado que já não tinha trocos para a cerveja. E estes nem foram casos isolados: nos trechos promocionais dos jogos que transmite têm imperado os trocadilhos (muito secos, admita-se, mas ainda assim), as alusões humorísticas a algum contexto da actualidade, e os comentários durante as partidas têm sido marcados por inúmeras piadas e referências no mínimo invulgares às equipas, aos jogadores, aos treinadores, aos adeptos ou a outra coisa qualquer que passe pela cabeça dos comentadores de serviço.

 

É impressão minha, ou isto do europeu de futebol deu a volta ao miolo da emissora pública? Enfim, se deu, então já não era sem tempo, como se costuma dizer. Nestes dias tão sisudos é salutar ver a RTP a sair da casca e a adquirir sentido de humor. Esperemos que seja para manter, e que não se resuma a um epifenómeno suscitado por um torneio de futebol. 

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Charlie à água

por João Campos, em 22.06.16

Contaram-me o episódio cedo, mas só há pouco vi as imagens de Cristiano Ronaldo a tirar o microfone da mão do jornalista da Correio da Manhã TV e a atirá-lo para um lago (ao microfone, não ao jornalista). Ligo o computador e, nas poucas redes sociais que frequento, vejo gente a delirar com o acto do capitão da selecção portuguesa. Que foi bem feito (perante tão atrevida pergunta: Ronaldo, preparado para este jogo hoje?). Que a CMTV merece isso e pior. Que mesmo bom seria ver Ronaldo a atirar todos os microfones da CMTV para a água. Que o Correio da Manhã "comete crimes todos os dias" (a sério). E o meu facebook é muito restrito; nem faço ideia do que se andará a dizer nos twitters, nos comentários do youtube ou das notícias dos jornais online. 

 

Lembra-me aquela ocasião em que tanta gente aplaudiu de pé Marinho e Pinto pela "repreensão" a Manuela Moura Guedes há uns anos na TVI. Porque a emissora de Queluz praticava um mau jornalismo, porque Moura Guedes era agressiva, porque - pecado capital! - tinha "opiniões" (só os mais distraídos terão ficado surpreendidos quando o herói de tanta gente naquela noite acabou por se revelar num demagogo de primeira ordem, felizmente reduzido à sua irrelevância numa eleição recente).

 

Seria decerto interessante saber quantos destes maduros que hoje aplaudem Cristiano Ronaldo pelo arremesso do microfone também aplaudiram Marinho e Pinto naquela ocasião. Mas mais interessante ainda seria saber quantos dos que hoje verberam um jornal e um canal de televisão nas redes sociais foram "Charlie" nas mesmas redes sociais, manifestando-se pela liberdade de imprensa e de expressão perante um ataque atroz a ambas. É que são justamente estas liberdades que, afinal, defendem de forma tão cínica como selectiva: se for aquilo que consideram ser "bom jornalismo" (e isto é tão subjectivo!), deve ser protegido de tudo e de todos; já se for mau jornalismo, merece ser silenciado por demagogos e futebolistas, merece escárnio na irrelevância dos púlpitos virtuais, merece uma extinção que só peca por tardia. Sem perceberem que a liberdade de imprensa abrange tanto tablóides como os ditos "jornais de referência", ou que a liberdade de expressão não é compatível com os humores variáveis das trincheiras onde toda a gente se enfia em fúria hoje em dia: é aceitarmos ouvir palavras com que concordamos e palavras das quais discordamos. 

 

No fundo, sem perceberem que só dão força àqueles que mais desprezam estas e outras liberdades.

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Chamem os madeireiros

por João Campos, em 19.06.16

Diziam as más-línguas que a equipa enviada por Portugal ao Euro 2016 era a selecção do empresário Jorge Mendes. Nada mais falso. Como se viu por estes dois jogos, esta é antes a selecção da Portucel.

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Fartinho, fartinho

por João Campos, em 14.06.16

À hora a que escrevo estamos a pouco mais de cinco horas do jogo de Portugal contra a Islândia no Euro 2016, e eu já estou fartinho, fartinho de ouvir falar na selecção.

Pergunto-me se nos outros países (na Islândia, por exemplo) também é assim: o patriotismo alarve, tão ruidoso como inconsequente; os directos televisivos inanes, mal preparados (há pouco, enquanto almoçava, ouvi uma jornalista dizer que a selecção islandesa "estreava-se pela primeira vez num Europeu"), a entrar em restaurantes e talhos e salões de cabeleireiras para mostrar coisa nenhuma, a "entrevistar" quem nada tem para dizer (porque não há nada para dizer!), a ocupar tempo de antena com barulho que disfarça o vazio absoluto. A comunicação social a embandeirar em arco quem, afinal, nunca ganhou coisa alguma. Que comece rápido, e que acabe depressa. 

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O provincianismo chegou à província

por João Campos, em 10.06.16

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Durante muitos anos, a Pousada de Santa Clara terá talvez sido o único bastião do escasso turismo que se aventurava para o interior de Odemira (entenda-se aqui por interior tudo o que fica para lá do parque natural do sudoeste alentejano, que chega quase à própria vila). Eram outros tempos: o turismo rural ainda não tinha virado moda, e a ASAE ainda não tinha aniquilado a restauração local ao inviabilizar a gastronomia assente na caça e na pesca da região - se hoje não temos um restaurante digno desse nome em todo o interior do concelho, tempos houve em que as caldeiradas de achigã tinham fama suficiente para levar lá gente de bastante longe. Enfim, os preços proibitivos para os habitantes locais, o declínio das Pousadas de Portugal e a progressiva desertificação da região - a aldeia de Santa Clara é hoje uma sombra daquilo que era há vinte anos - acabaram por levar ao abandono da Pousada. Ficou apenas a sua vista espantosa para a barragem e para a serrania envolvente (a foto não é minha, note-se), e a interrogação permanente sobre aquilo que seria necessário para que uma terra com tanto para dar pudesse aproveitar o turismo da moda. 

 

Não sei se alguém já encontrou resposta para esta pergunta, mas a verdade é que após vários anos abandonada, parece que a Pousada de Santa Clara vai finalmente reabrir. Não sei se por iniciativa pública, privada, ou um misto das duas. Não sei se com gerência local ou com forasteiros (não é relevante). Não sei se com os preços exorbitantes de outrora ou se com uma oferta mais convidativa para quem quiser simplesmente subir a colina, tomar um café e apreciar a beleza daquele interior alentejano, ao mesmo tempo tão próximo e tão distante da costa. Mas, a fazer fé nas ofertas de emprego da zona, sei que a parvidade de Lisboa e do Al(l)garve já chegou aos montes que anunciam a norte o início da Serra de Monchique. Não podendo por algum motivo manter a designação de "pousada", a nova gerência podia ter optado por um dos vários sinónimos que a língua portuguesa oferece: estalagem, albergue, hospedaria. Mas não: como não podia deixar de ser, parece que a antiga Pousada de Santa Clara irá abrir com o mui lusitano nome de Santa Clara Country Hotel. O progresso até pode não chegar à minha Sabóia, à vizinha Santa Clara, e às outras aldeias da região; mas o provincianismo de importação lesboeta, esse, não falha. 

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Fora de série (12)

por João Campos, em 27.05.16

É muito provável que os nossos filhos e netos olhem um dia para os filmes e para as séries dos anos 80 e pensem: aquela gente era louca. Olhando nós para trás, não admira: perante o mundo cada vez mais entricheirado, mais intolerante, mais politicamente correcto e mais mal humorado, o atrevimento e a irreverência daquela década não tão distante quanto isso parece quase remetê-la para os confins longínquos da História. Não tenhamos ilusões: muitas produções dos eighties não chegariam hoje à pré-produção, pela certeza de que iriam ferir susceptibilidades num mundo onde o humor mais atrevido se tornou numa espécie em vias de extinção.

 

A série que vos trago hoje não teria qualquer hipótese de passar pelo politicamente correcto deste ano da graça, mas com muito pouca graça, de 2016: Sledge Hammer!. Numa época em um espirro vai ofender um ou outro grupo, as tropelias do polícia violento, misógino, e machista interpretado de forma inspirada por David Rasche iriam fazer a Internet - o palco de todas as indignações contemporâneas - esgotar o stock de forquilhas e archotes virtuais. Pouco importaria que a série fosse uma sátira especialmente bem conseguida ao Dirty Harry de Clint Eastwood e à tradição de bad cop dos anos 70. Pouco importaria que o registo propositadamente exagerado dos episósios em momento algum permitisse dar alguma seriedade às tiradas do inspector Sledge Hammer. Para as brigadas da indignação selectiva, nada daquilo seria admissível.

sledgehammer.jpg

Para mim e para o meu melhor amigo de infância, Sledge Hammer! não só era admissível como era uma delícia. É claro que não compreendíamos a sátira da série (nem teríamos as referências para tal), mas nem por isso deixávamos de nos divertir imenso com aquele humor deadpan, a ver Sledge Hammer desenrascar-se apesar da sua inusitada incompetência, a causar enxaquecas ao inesquecível Capitão Trunk e a safar-se de sarilhos diversos graças à determinação da sua segunda parceira Dori Doreau (a primeira, como se sabe, era a Magnum de calibre .44 pela qual Sledge Hammer seria capaz de colocar as mãos no fogo).

 

À distância destes anos, já não me consigo recordar qual era a minha idade exacta quando descobri Sledge Hammer!, ou em que canal a série passou (provavelmente na RTP, mas talvez já tenha sido na SIC daqueles primeiros e revolucionários anos). Mas lembro-me de vê-la, e da marca indelével que deixou: as imagens perduraram na minha memória, mesmo quando durante anos tentei, sem sucesso, recordar-me do título daquela série com o polícia maluco que falava com a Magnum. Enfim, maravilhas da Internet: o título foi recuperado e a série foi revista. Continua exagerada, atrevida e muito, muito divertida. E, ironia das ironias: ainda que seja profundamente filha do seu tempo e impossível de ser concebida noutra época que não nos anos 80, talvez a sua sátira seja mais actual e pertinente hoje, trinta anos volvidos, neste novo e estranho milénio.

 

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Very small indeed

por João Campos, em 25.04.16

A ideia de se criar um museu dedicado às notícias e à comunicação social é muito interessante e oportuna. A escolha de Sintra para instalar o museu é acertadíssima. A decisão de dar ao dito o nome de "News Museum" é tão infeliz e tão imbecil como as ideias peregrinas do Allgarve e da Lisbon South Bay. Não há globalização, viagens low cost, internet de banda larga, televisão por cabo com centenas de canais estrangeiros e livrarias online que nos valham: continuamos tão pequeninos e tão provincianos.

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