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Delito de Opinião

A Animação é para crianças (ou não) - 10

João Campos, 24.06.22

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O Cristal Encantado
Título original: The Dark Crystal
Realização: Jim Henson e Frank Oz
Argumento: David Odell, com base numa história original de Jim Henson
Produção: ITC Entertainment e Henson Associates
Ano: 1982
Duração: 93 minutos
País: EUA

O Cristal Encantado é um dos mais originais filmes de fantasia alguma vez feitos.

Começo por pedir desculpa aos leitores pela batota, a primeira de duas que cometerei ao longo desta série de textos sobre cinema de animação (a segunda ainda poderá ser discutível, mas esta é descarada): O Cristal Encantado não é um filme de animação, mas um filme de marionetas. A sua produção envolveu a construção de cenários reais e a manipulação dos bonecos do Jim Henson Creature Workshop. Dito isto, se ao cinema de animação já custa livrar-se do estigma de desenhos animados serem infantis, para os filmes (cada vez mais raros) de marionetas essa tarefa será ainda mais difícil (sim, eu sei dos Marretas, obrigado), pelo que me parece encaixar bem aqui. E, claro, as marionetas têm uma característica em comum com a animação, para além da vida que ganham com o desempenho de voz: não envelhecem. 

Claro que o motivo verdadeiro é outro: simplesmente apetece-me escrever sobre O Cristal Encantado, sem dúvida um dos meus filmes preferidos, que em 93 minutos mostra um breve momento de um mundo secundário fascinante, e que continua a ser uma revelação quarenta anos volvidos sobre a sua estreia. Aquele mundo, e as criaturas maravilhosas que o habitam, saíram da imaginação prodigiosa de uma das pessoas que mais admiro, e que perdemos demasiado cedo: Jim Henson. Da sua mente fértil saiu a Rua Sésamo, de longe a série mais importante da minha vida, saíram bonecos que se tornaram ícones mundiais, e saíram dois filmes magníficos: O Labirinto, com Jennifer Connely e o grande David Bowie, e este, O Cristal Encantado.

Mas O Cristal Encantado é de alguma forma um corpo estranho na obra de Henson: não só pelo detalhe da construção do universo ficcional de Thra, mas também pela trama mais adulta e mais sombria - a história, afinal, tem como ponto de partida um genocídio que não vemos mas que sentimos presente. Jen, um dos últimos Gelflings vivos, recebe dos enigmáticos Místicos com quem viveu desde criança uma missão: encontrar Aughra, recuperar o fragmento do Cristal Encantado e regenerá-lo, resgatando Thra do domínio cruel dos Skeksis e reestabelendo assim o equilíbrio natural do mundo. 

É essa demanda que serve de fio condutor a O Cristal Encantando, levando o ingénuo Jen a descobrir todo um mundo de criaturas maravilhosas - algumas inocentes, outras nem por isso. A imaginação de Henson encontrou um par à altura no talento de Brian Froud, que elaborou a arte conceptual que está na base de Thra, e o talento do Jim Henson Creature Workshop deu vida aos pachorrentos Místicos, aos tenebrosos Skeksis (decerto as marionetas mais assustadoras de Henson, a par dos Garthim que eles usam em combate), aos inocentes Gelflings, aos efusivos Podlings, à rabugenta Mãe Aughra (com o seu assombroso planetário), ao maravilhoso Fizzgig - enfim, podia continuar a adjectivar cada uma das criaturas de Thra, e mesmo assim não faria justiça ao trabalho notável de Henson e Froud. Afinal, como esquecer a Mãe Aughra, ou o sinistro Chamberlain?

Este mundo, ao mesmo tempo tão detalhado e deixando adivinhar tanto que fica por mostrar, é que faz de O Cristal Encantado um filme tão singular: podemos reconhecer aqui e ali as suas várias influências, mas o todo que Henson, Oz e Froud construíram é absolutamente original, e a mestria técnica que lhe deu vida talvez não tenha ainda hoje paralelo, quarenta anos passados desde a sua estreia. Não há ali grandes efeitos especiais, tirando um ou outro efeito de luz (que envelheceram mal, ao contrário do resto): todos os cenários foram construídos, todas as marionetas foram montadas e animadas. É certo que a trama do filme encaixa com facilidade na clássica jornada do herói, mas as personagens que Jen encontra dão à sua aventura uma textura muito particular, conduzindo a um desfecho que, podendo ser algo previsível, não deixa de ser ousado. E se é verdade que há muito no filme que espectadores mais novos possam apreciar, também é possível que os Skeksis, e uma ou outra cena do filme, possam impressionar um pouco, fazendo de O Cristal Encantado um filme menos "familiar" do que o resto da sua obra.

Henson ainda chegou a imaginar uma sequela, mas as ideias que tinha partiram com ele, na sua morte prematura em 1990. O filme, porém, teve poder suficiente para perdurar, e o seu mundo secundário tem sido alargado ao longo dos anos por outros meios e noutros formatos. Em 2019 estreou na Netflix O Cristal Encantado: A Era da Resistência, uma série maravilhosa que combina efeitos digitais com marionetas extraordinárias, infelizmente só com uma temporada. Olho para as minhas estantes e encontro livros de ilustração, álbuns de banda desenhada e até uma Mãe Aughra a espreitar a um canto. E sei que regressarei ao filme, uma e outra vez, com o mesmo encantamento da primera.

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A Animação é para crianças (ou não) - 9

João Campos, 17.06.22

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Divertida-Mente
Título original: Inside Out
Realização: Pete Docter e Ronnie Del Carmen
Argumento: Pete Docter, Meg LeFauve e Josh Cooley
Baseado numa história de Pete Docter e Ronnie Del Carmen
Produção: Pixar Animated Studios, Walt Disney Pictures
Ano: 2015
Duração: 95 minutos
País: Estados Unidos

Inside Out* é o pináculo criativo da Pixar.

Tenho uma relação algo ambivalente com a Pixar. Por um lado, é-me impossível não reconhecer a enorme qualidade dos seus filmes, da animação aos guiões (e recordo-me sempre do impacto de Toy Story). Por outro lado, sempre que vejo as imagens promocionais dos novos filmes fico com a sensação de que os estúdios estão muito confortáveis com o estilo e o registo que lhe são habituais, não precisando por isso de arriscar muito. E talvez tenham razão: os seus filmes caem bem junto do público e os prémios que interessam estão assegurados à partida. Se formos ver a última década da Pixar, encontramos filmes algo esquecíveis (The Good Dinossaur, Onward), algumas pérolas (Coco, Soul), temas algo batidos (Brave) e um sem número de sequelas que não vou nomear. Neste caldo, Inside Out destaca-se desde logo pela sua absoluta originalidade.

Sim, já vimos em inúmeros filmes, animados ou não, as dores de crescimento das personagens na transição da infância para adolescência. O que até 2015 não tínhamos ainda visto era essa transição a partir do ponto de vista das próprias emoções. É esta a premissa brilhante de Inside Out: seguimos a mudança da jovem Riley e da sua família do Minnesota para São Francisco, e a perturbação emocional que isso lhe causa, através a Alegria, da Tristeza, da Raiva, da Repulsa e do Medo - as emoções que vivem na sua mente e assumem o controlo combinado das suas acções. Perante o impacto da mudança, a Tristeza começa a ganhar preponderância, e perante a ameaça de alterar a carga emocional de várias memórias nucleares de Riley, a Alegria vê-se obrigada a agir. E o resultado dessas acções é desastroso, lançando a Alegria e a Tristeza para uma aventura nos confins da mente da jovem rapariga.

E é na representação da mente humana que Inside Out se revela prodigioso, pela forma como representa de forma tão simples e eficaz conceitos tão abstractos como emoções e memórias. Se aquelas são as protagonistas, estas são um dos principais ganchos narrativos, e o filme em momento algum receia explorar a abstracção e a subjectividade que lhes são inerentes (por exemplo, a noção de que uma memória pode ser diferente dependendo da emoção que nos domina no momento em que a recordamos, o que faz de cada recordação não algo estático, fixo no tempo e no espaço, mas algo fluído e incerto). E ao colocar as emoções no centro da narrativa, Inside Out consegue demonstrar, com uma maturidade surpreendente, como todas as emoções são necessárias para uma existência equilibrada, e que as emoções de carga mais negativa (digamos assim) não só têm o seu lugar, como são absolutamente indispensáveis.

Convenhamos que o que não falta é filmes adultos que não conseguem um décimo da carga emocional que Inside Out alcança nos seus 95 minutos.

A animação colorida, vibrante e expressiva da Pixar é perfeita para Inside Out, dando uma vida singular à mente de Riley e contribuindo de forma decisiva para tornar cada uma das emoções numa personagem única - com Pete Docter e Ronnie Del Carmen a usarem a cor de forma muito engenhosa, com as cores garridas da vida interior de Riley a contrastar com os tons mais esbatidos da sua vida familiar e social. Não há grande volta a dar aqui: para este tema e para este conceito, a animação é o formato artístico superior; nenhuma realização convencional (à falta de melhor termo) conseguiria contar esta história com a mesma eficácia e com o mesmo encantamento. 

*Uma vez mais, recorro ao título original do filme - como é bom de ver, quem quer que tenha adaptado o título da versão portuguesa de Inside Out fez um péssimo trabalho. O título português consegue não só ser um trocadilho desinspiradíssimo, como é também um bom (mau) exemplo do tal preconceito que reduz o cinema de animação aos desenhos animados infantis da manhã e às sessões de cinema da tarde. Enfim, é um título infeliz que está longe, muito longe de fazer justiça àquele que será talvez o melhor filme saído dos estúdios da Pixar até agora.

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A Animação é para crianças (ou não) - 8

João Campos, 10.06.22

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Cidade Assombrada
Título original: Kôkaku Kidôtai (Ghost in the Shell)
Realização: Mamoru Oshii
Argumento: Kazunori Itō
Baseado no manga homónimo de Masamune Shirow (1989-1991)
Produção: Production I.G., Bandai Visual, Manga Entertainment
Ano: 1995
Duração:113 minutos
País: Japão

Ghost in the Shell* será talvez a melhor sequela não-oficial que Blade Runner alguma vez terá.

Trouxe este filme ao Delito pela primeira vez há doze anos, quando publiquei uma série com os meus 15 filmes preferidos de ficção científica - à época, claro. Se repetisse hoje o exercício faria uma lista muito diferente (excepto os três primeiros, que se mantêm, e decerto se manterão por longos anos). Mas dela não retiraria Ghost in the Shell, um filme extraordinário que condensou várias influências do cyberpunk dos anos 80 e 90 para se tornar, também ele, um filme marcante e influente. Voltaria a incluí-lo, e o conhecimento acumulado de mais doze anos de muita ficção científica permitir-me-iam escrever mais algumas linhas.

Referi-o como uma sequela não-oficial de Blade Runner de forma muito livre. Antes de qualquer outra coisa, Ghost in the Shell é a adaptação para cinema de animação da banda desenhada homónima de Masamune Shirow. Será sem dúvida um dos meus três títulos favoritos da Nona Arte, uma história cyberpunk vertiginosa que quebrou algumas das tradições do género, afastando-se das cidades nocturnas e sombrias e de protagonistas criminosos para mostrar uma Newport diurna e futurista, vista pelos olhos de uma força policial de elite. Mas o mangá de Shirow e o filme de Ridley Scott percorrem territórios temáticos similares - a definição de consciência, a relevância da memória, e do que significa ser humano num mundo com corpos artificiais indistinguíveis; e ao adaptar aquelas pranchas densas e detalhadas, Oshii decidiu manter os temas centrais e recuperar o carácter melancólico e soturno (mas nem sempre nocturno) da Los Angeles de Scott.

E tal como Scott, Oshii teve o mérito de entender que adaptar um texto - uma banda desenhada, neste caso - não significa transpor o texto de um formato para outro, exercício que de resto só muito raramente resulta. Assim, a Motoko Kusanagi de Shirow atrevida e bem humorada de Shirow deu lugar à enigmática e introspectiva Major Kusanagi de Oshii, mais adequada à cidade soturna onde a trama de Ghost in the Shell tem lugar. A Secção 9 de Segurança Pública é reduzida aos seus elementos essenciais - Batou, parceiro de Kusanagi, inconfundível com os seus olhos artificiais; Togusa, novato e sem qualquer implante cibernético; e Aramaki, chefe do departamento e profundo conhecedor dos meandros políticos daquele Japão futurista. E a vasta trama do livro é condensada na narrativa do “Puppetmaster”, um hacker com um talento impossível e um segredo impensável. 

O resultado é um filme notável pela forma como gere sequências vertiginosas de acção, momentos de violência quase grotesca, e passagens mais introspectivas com um ritmo perfeito - nada ali está fora do sítio, tudo faz sentido, cada momento alimenta o seguinte sem falta ou excesso. A banda sonora tornou-se icónica, desde o coro do genérico inicial até às batidas minimalistas que pautam o filme (a sequência de planos da cidade à chuva é magnífica e inesquecível). Ghost in the Shell é em simultâneo como thriller, como filme de acção e como trama filosófica, suscitando mais perguntas do que respostas - e em momento algum esses elementos deixam de funcionar.

Que não se pense pelas minhas palavras que Ghost in the Shell se limitou a ir buscar influências ao textos, às pranchas e aos filmes que o antecederam - tal como Akira anos antes, Ghost in the Shell foi uma pedrada no charco da animação japonesa, tornando-se num fenómeno de culto no Japão e no Ocidente, abrindo caminho ao anime na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. As Wachowskis referiram o filme de Oshii como uma das principais influências de The Matrix, e mesmo James Cameron assumiu a inspiração para Avatar. E a Motoko Kusanagi do filme ter-se-á tornado talvez na versão mais conhecida da personagem: nas várias (e excelentes) séries televisivas que se seguiram, a Major está mais próxima da interpretação de Oshii do que da personagem concebida por Shirow. O que demonstra, mais uma vez, como uma boa adaptação pode - deve - ser muito mais do que uma mera transposição.


*Excepcionalmente, não me refiro ao filme pelo seu título em português, por a tradução não fazer qualquer sentido. Percebo a dificuldade de traduzir ou adaptar “ghost” e “shell” dado o significado que assumem no filme - “ghost” como consciência ou até mesmo alma, e “shell” como corpo, sobretudo se artificial. Mas alguém poderia ter feito algum esforço, sei lá.

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A Animação é para crianças (ou não) - 7

João Campos, 03.06.22

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Akira
Realização: Katsuhiro Otomo
Argumento: Katsuhiro Otomo e Izo Ashimoto
Baseado no manga homónimo de Katsuhiro Otomo (1982-1990)
Produção: Tokyo Movie Shinsha
Ano: 1988
Duração: 124 minutos
País: Japão

É muito provável que sem Akira - tanto o mangá original de Katsuhiro Otomo como o filme que o próprio Otomo realizou e estreou em 1988 - a banda desenhada, a animação e a ficção científica fossem muito diferentes daquelas que conhecemos, tanto no Japão como no Ocidente.

A afirmação poderá parecer hiperbólica a quem nunca tiver lido ou visto Akira, mas quem conhece sabe do que falo. A influência das pranchas e da animação de Otomo é inegável: desde logo na banda desenhada, com o cyberpunk japonês a expandir-se com títulos notáveis como Ghost in the Shell de Masamune Shirow ou Battle Angel Alita de Yukito Kishiro; por sinal, duas obras que encontraram influências bem distintas em Akira. Nos videojogos, títulos japoneses consagrados em todo o mundo como Metal Gear Solid ou Final Fantasy VII foram beber abundantemente a Otomo. E na animação, para além das referências mais óbvias, como a adaptação cinematográfica de Ghost in the Shell por Mamoru Oshii, importa falar do fenómeno de culto que o filme gerou nos anos 80 e 90, e do contributo decisivo que deu para a animação japonesa se afirmar na Europa, nos Estados Unidos, e daí para o resto do mundo. Muito do sucesso que a animação japonesa conheceu no Ocidente a partir da segunda metade dos anos 90 pode ser explicado por este filme singular de 1988. 

Na sua essência, Akira, o filme, é uma versão condensada da banda desenhada de Otomo, com uma trama cyberpunk localizada na Neo-Tokyo em 2019, reconstruída em redor da enorme e misteriosa cratera de impacto que assinala a destruição da capital japonesa em 1988 e marca o início da Terceira Guerra Mundial. Tudo isto é passado no momento em que o filme começa, claro: nele seguimos o bando de adolescentes delinquentes que cruza Neo-Tokyo nas suas motas à procura de sarilhos, liderados por Kaneda e Tetsuo. Um acidente num antigo viaduto, porém, leva Tetsuo a descobrir um poder inesperado, e obriga Kaneda a enfrentar as forças militares da cidade, grupos políticos subversivos, seres com poderes extraordinários, e os seus próprios amigos.

Akira ocupa um lugar de destaque dentro do movimento cyberpunk da ficção científica que marcou os anos 80, a par de obras como o filme Blade Runner de Ridley Scott, o romance Neuromancer de William Gibson e a antologia de ficção curta Mirrorshades, editada por Bruce Sterling - há entre elas um nexo narrativo, temático e estético cuja influência ainda hoje se faz sentir. Otomo transpõe com mestria as suas próprias pranchas para uma animação magnífica, que continua espantosa ao fim de mais de três décadas, e dá a cada cena uma intensidade tremenda, quase eléctrica na sua violência, à medida que vai desvendando o mistério que envolve Tetsuo, os militares e o misterioso “Akira”. Já passaram mais de trinta anos sobre a sua estreia, e nem por isso o filme perdeu força. Pelo contrário: continua influente, pertinente e assombroso. E a mota vermelha de Kaneda continua a ser um ícone da cultura popular global, identificada com facilidade em qualquer parte do mundo.

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A Animação é para crianças (ou não) - 6

João Campos, 27.05.22

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Wolfwalkers
Realização: Tomm Moore e Ross Stewart
Argumento: Will Collins, com base numa história de Moore e Stewart
Produção: Cartoon Saloon, Mélusine
Ano: 2020
Duração: 103 minutos
Países: Irlanda, Luxemburgo e França

Wolfwalkers foi o melhor filme de 2020 que pouca gente viu. 

Não estou sequer certo de que tenha estado em exibição nas salas portuguesas por alturas do Natal de 2020; se esteve, terá certamente sido por poucos dias, com a azáfama da quadra e o contexto pandémico a abafarem a estreia. Foi distribuído em streaming pela Apple TV, onde tanto quanto sei ainda é possível vê-lo, mas a segunda grande desvantagem do streaming (a primeira é a falta do grande ecrã, claro) também lhe terá retirado alcance: afinal, quem pode hoje em dia subscrever a quantidade cada vez maior de plataformas digitais, com os seus conteúdos exclusivos?

Os problemas de distribuição em nada diminuem a qualidade dos filmes, claro - e seja no grande écrã de uma sala de cinema ou no pequeno ecrã da televisão das nossas salas, Wolfwalkers é uma pequena maravilha. Será talvez o filme mais juvenil que trarei a esta série, mas também será decerto um dos mais prodigiosos em termos artísticos. Não é por acaso que há já quem se refira ao Cartoon Saloon como os Estúdios Ghibli da Europa: a cada novo filme os estúdios irlandeses e os seus parceiros europeus exploram novos territórios narrativos e novos estilos artísticos, até à data com enorme sucesso. Este enquadra-se na "trilogia irlandesa" de Moore, explorando, tal como A Canção do Mar e Brendan e o Mundo Secreto de Kells, aspectos da história e do folclore da Irlanda.

Wolfwalkers recua à Kilkenny setecentista (pormenor: Kilkenny é também a cidade onde o Cartoon Saloon está sedeado) para contar a história de duas crianças: a rebelde Robyn, filha do caçador inglês Bill Goodfellowe, convocado àquela região pelo Lorde Protector para exterminar os lobos que dominam a floresta local e aterrorizam os cidadãos; e Mehb, cujo espírito se transforma num lobo enquanto dorme, e assim defende a floresta com a sua alcateia das incursões dos lenhadores de Kilkenny. A animação, nunca é demais dizer, é absolutamente magnífica no traço vivo e irregular - um desenho animado em estado puro, se quisermos - e na utilização da cor, com Moore e Steward a adaptarem o estilo a cada momento: a cidade de Kilkenny é sempre rígida e geométrica, em tons mais esbatidos, como uma gravura antiga viva; já a floresta é toda ela curvilínea e irregular, numa explosão constante de cores vivas, na vertigem desenfreada da alcateia por entre as árvores. 

E é com esta animação espantosa que acompanhamos as aventura das duas raparigas, da qual se podem fazer várias leituras: sobre os papéis femininos naqueles tempos, sobre a colonização pela figura do Lorde Protector, símbolo da opressão inglesa; e sobre o conflito eterno entre a civilização e a natureza. Podemos pensar nas semelhanças com A Princesa Mononoke - a floresta dominada por criaturas mágicas com lobos como protectores, uma rapariga selvagem forte e resoluta, a civilização como elemento destruidor do mundo natural. Nesse aspecto o filme de Moore e Stewart será menos ambíguo - menos complexo? - do que a obra-prima de Miyazaki, mas nem por isso deixa de ser menos tocante, incidindo mais sobre a força colonizadora de uma entidade externa (no caso, a Inglaterra personificada no Lorde Protector) e sobre a forma como cada personagem luta para aceitar a sua natureza e para fazer o que está certo. 

Se os Óscares primassem pela justiça, Wolfwalkers teria saído da cerimónia de 2021 com a estatueta de Melhor Filme de Animação. Salvo raríssimas excepções, porém, este prémio está destinado à Disney ou à Pixar - que, não desfazendo, há anos que não surpreendem com os seus filmes de animação. Ficou pela nomeação da Academia, pelos vários Prémios Annie conquistados, pela aclamação da crítica e pelo carinho do público que o viu. A maioria dos filmes desta série serão exclusivamente para adultos, mas para Wolfwalkers deixo a recomendação sem reservas a miúdos e graúdos.

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A Animação é para crianças (ou não) - 5

João Campos, 20.05.22

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Paprika
Realização: Satoshi Kon
Argumento: Satoshi Kon e Seishi Minakami
Baseado no romance homónimo de Yasutaka Tsutsui (1993)
Produção: Madhouse
Ano: 2006
Duração: 90 minutos
País: Japão

Paprika é o filme que Inception poderia ter sido se Christopher Nolan tivesse imaginação.

Ao contrário do thriller de Nolan, nada é geométrico ou previsível nesta adaptação do romance de Yasutaka Tsutsui, onde se imagina um futuro próximo no qual foi desenvolvida uma tecnologia que permite o acesso aos sonhos de quem a utiliza. Atsuko Chiba, líder da equipa que desenvolveu o aparelho, começa a utilizá-lo ilegalmente para ajudar pacientes psiquiátricos a superar os seus traumas e as suas neuroses, assumindo nos sonhos do pacientes o alter-ego Paprika. É assim que conhece o detective Toshimi Konakawa, preso num sonho recorrente relacionado com um caso que nunca conseguiu resolver.

Quem tiver visto os filmes anteriores de Satoshi Kon sabe da prelidecção do cineasta japonês por narrativas que questionem os limites da realidade, onde as fronteiras entre o real e o imaginado se esbatem ao ponto da paranóia. Paprika não é excepção, e à medida que o filme avança vemos como os sonhos transbordam na realidade (ou será ao contrário?), com Chiba e Konakawa a aventurarem-se num autêntico pesadelo freudiano onde o impossível é apenas uma questão de perspectiva.

E é nestes territórios temáticos que a animação se revela absolutamente superior. Sim, o que não falta é filmes "reais" a explorar dimensões oníricas (até conseguimos ouvir, sem ouvir, os famosos acordes de harpa), uns com mais virtuosismo e imaginação do que outros. Mas se há forma artística perfeita para explorar os sonhos, essa forma será sem dúvida a animação, e Satoshi Kon, um animador excepcional, sabia-o bem: livre dos limites técnicos da filmagem convencional, pode levar a premissa de Paprika até às suas últimas consequências, numa animação colorida, vibrante, a espaços psicadélica, onde as imagens mais absurdas do inconsciente das personagens ganham uma extraordinária vida. Dito isto, talvez o feito mais extraordinário de Paprika seja nunca perder de vista as suas personagens, que servem de âncora à efusividade onírica da narrativa. Kon pode estar interessado em explorar e extrapolar os limites dos sonhos, mas regressa sempre aos sonhadores, independentemente da forma que possam assumir - às suas motivações, aos seus medos, aos seus traumas, aos seus desejos.

Perdemos Satoshi Kon demasiado cedo - faleceu em 2010, com apenas 46 anos, vítima de cancro. Deixou-nos quatro longas-metragens e uma série televisiva em pouco menos de quinze anos, mas o que não falta é carreiras de décadas com menos trabalhos tão relevantes e tão influentes. Paprika, o seu último filme, será sem dúvida o pináculo do seu trabalho e um resumo perfeito dos seus temas que lhe eram mais caros.

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A Animação é para crianças (ou não) - 4

João Campos, 13.05.22

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O Homem Duplo
Título original: A Scanner Darkly
Realização e argumento: Richard Linklater
Baseado no romance homónimo de Philip K. Dick (1977)
Produção: Thousand Words, Section Eight, Detour Filmproduction, 2 Arts Entertainment
Ano: 2006
Duração: 100 minutos
País: Estados Unidos

O Homem Duplo será talvez a mais fiel adaptação de Philip K. Dick alguma vez filmada.

E foi filmado mesmo: Richard Linklater usou a técnica de animação rotoscópica para animar as deambulações e peripécias de Keanu Reeves, Winona Ryder, Robert Downey Jr. e Woody Harrelson numa Los Angeles distópica e devastada pelo consumo de drogas. E por uma droga em particular: a Substância D, alucinogénica e viciante como nenhuma outra. De tal forma que o Governo sobe a parada na guerra às drogas, utilizando agentes infiltrados como Bob Arctor/Fred (Reeves) e técnicas de vigilância cada vez mais invasivas.

Qualquer leitor de Philip K. Dick sabe que nas suas histórias nada é aquilo que parece, e ninguém é exactamente quem aparenta ser. O Homem Duplo, o livro, não é excepção - escrevi aqui no Delito sobre ele há muitos anos, quando o li pela primeira vez (dediquei também um parágrafo ao filme). E Linklater cedo percebeu que a vertigem de Arctor/Fred a espiar-se a si mesmo e a comunicar com suspeitos, colegas e chefes através do scramble suit jamais funcionaria tão bem em filmagem convencional como em animação. Reconhecemos Reeves, Ryder, Downey Jr e Harrelson facilmente através da rotoscopia, mas as cores saturadas e as linhas traçadas e esbatidas complementam muito bem a trama ao torná-la progressivamente mais surreal, e geram algumas cenas inesquecíveis. Como as duas alucinações do Charles Freck interpretado por Rory Cochrane, personagem secundária que rouba o filme naqueles dois breves momentos.

Já todos teremos visto adaptações audiovisuais de Philip K. Dick, de Blade Runner a Total Recall ou até à recente antologia televisiva Electric Dreams. Nenhuma, porém, conseguiu capturar tão bem a paranóia e a dissolução da realidade, cerne da obra do escritor, como o Homem Duplo. Não só pela absoluta fidelidade do guião, mas também - sobretudo, diria - pela utilização da animação, que pelas suas características é o formato perfeito para este tipo de histórias. Linklater percebeu-o, e fez um filme espantoso.

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A Animação é para crianças (ou não) - 3

João Campos, 06.05.22

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O Túmulo dos Pirilampos
Título original: Hotaru no haka
Realização e argumento: Isao Takahata
Baseado no conto homónimo de Akiyuki Nosaka (1967)
Produção: Estúdios Ghibli
Ano: 1988
Duração: 89 minutos
País: Japão

O Túmulo dos Pirilampos é um dos mais espantosos filmes de animação que já vi - e talvez o único até à data que jamais quererei rever.

Isao Takahata, colega de Hayao Miyazaki nos Estúdios Ghibli, adaptou para animação o conto semi-autobiográfico de Akiyuki Nosaka que decorre durante os últimos meses da Segunda Guerra Mundial. A acção, porém, decorre longe das grandes batalhas navais ou das linhas de combate, mas na região da cidade de Kobe, arrasada durante um bombardeamento dos Aliados. Por entre as ruínas seguimos o adolescente Seita e a sua irmã Setsuko, deixadas à sua sorte quando a mãe sucumbe aos ferimentos causados pelo ataque.

Sabemos desde os primeiros momentos como o filme vai acabar: Takahata mostra-o desde logo. Mas isso não retira nem um pouco da força da história que está a contar, da tragédia daqueles dois irmãos arrancados às suas infâncias por uma guerra que não desejavam ou sequer compreendiam, e a sua odisseia desesperada pela destruição que lhes roubará tudo. A animação colorida e vibrante de Takahata não disfarça o impacto emocional devastador daquela hora e meia. Bem pelo contrário: amplifica-o, torna-o ainda mais comovente e angustiante.

Se O Túmulo dos Pirilampos fosse um filme “convencional”, com actores e imagens reais, seria, com toda a justiça, considerado um dos grandes dramas de guerra do cinema mundial, e não seria menos falado e aclamado do que, por exemplo, A Lista de Schindler. O preconceito contra a animação ter-lhe-á retirado alcance, mas não retirou nem um pouco do seu poder. Takahata mostra como poucos quem são as verdadeiras vítimas daquela guerra, de qualquer guerra: as pessoas comuns, forçadas a sobreviver em desespero, obrigadas a tudo para aguentar mais um dia. E sobretudo as crianças, sempre as crianças. Pela natureza dos seres humanos, será um filme sempre actual: dificílimo de ver, e impossível de se lhe ficar indiferente.

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A Animação é para crianças (ou não) - 2

João Campos, 29.04.22

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A Princesa Mononoke
Título original: Mononoke-hime
Realização e argumento: Hayao Miyazaki
Produção: Estúdios Ghibli
Ano: 1997
Duração: 134 minutos
País: Japão

De todos os filmes de animação que já vi, A Princesa Mononoke é sem dúvida o meu favorito.

Um realizador e argumentista com menos experiência e menor sensibilidade cairia inevitavelmente nas armadilhas e nos clichés daquele tipo de história: antagonismo entre o mundo natural e a civilização industrial; herói vindo deste para aquele mundo, acabando por lutar pela sua preservação; os bons selvagens em inferioridade numérica perante os colonizadores industriais, evidentemente vilões; o salvador iluminado (e branco, se fosse um filme produzido no Ocidente). Na verdade não precisamos de imaginar como se poderia cair nos lugares-comuns destas ideias, pois já os vimos em obras como Danças com Lobos, Pocahontas ou Avatar.

Miyazaki, porém, evita todas essas armadilhas com mestria e elegância. Dotado de uma sensibilidade única e de uma capacidade tão invulgar como extraordinária de contar histórias cativantes sem necessitar de heróis bonzinhos, de vilões exagerados (ou sequer de vilões: veja-se Totoro), ou de trincheiras morais bem demarcadas, o mestre japonês tece em A Princesa Mononoke uma narrativa envolvente e ambígua, convidando o espectador a acompanhar aquelas personagens e a reflectir sobre as suas palavras e os seus actos, sem nunca tentar conduzir essa reflexão para determinada posição moral. Como tal, nenhuma dessas personagens é, em momento algum, simples. Por isso Ashitaka, o príncipe exilado após ser forçado a eliminar o Deus Javali enlouquecido, tenta encontrar a paz sem conseguir sempre evitar a violência. Por isso San e Moro, a Deusa Lobo, cometem atrocidades no decorrer da sua guerra pela preservação da floresta do Deus Veado. E por isso Oboshi, enquanto devasta a floresta e as suas criaturas para a prospecção mineira, defende uma população composta por gente rejeitada, que no Japão feudal que serve de cenário distante ao filme seria ostracizada, escravizada, ou assassinada.

O resultado é um filme espantoso pela sua ambiguidade e pela sua recusa intransigente de Miyazaki em reduzir as facções que San e Oboshi representam a boas ou más - são heróicas e desprezáveis, são antagónicas, são falíveis, e serão porventura irreconciliáveis, mas em momento algum são simples. E ganham vida pela pela animação formidável de Miyazaki, crua nas sequências mais violentas (e este será sem dúvida o filme mais violento do realizador), etérea na travessia pela floresta repleta de kodamas, e sempre evocativa ao mostrar tanto seres humanos como divindades naturais. Junta-se a estes ingredientes uma banda sonora excepcional e temos um dos grandes filmes dos anos 90.

E, claro, é mais um excelente exemplo das espantosas personagens femininas de Hayao Miyazaki: San e Oboshi juntam-se à vasta galeria de raparigas e mulheres icónicas do realizador japonês, onde figuram Chihiro, Nausicaä, Kiki ou Sofî.

É possível que A Viagem de Chihiro seja a longa metragem mais completa e mais bem conseguida de Hayao Miyazaki (lá chegarei no decorrer desta série), mas tudo o que disse acima ajuda a explicar por que motivo A Princesa Mononoke será sempre o meu filme preferido do mestre japonês. Já tive por duas vezes a oportunidade de o ver no grande ecrã: a mais recente foi em Março, no decorrer do festival Monstra 2022. E espero poder desfrutar deste privilégio mais vezes: Miyazaki merece sempre ser visto numa boa sala de cinema. Será sem dúvida o maior realizador de animação vivo; e pela sua vasta e excepcional obra será também, e com toda a justiça, um dos grandes cineastas do nosso tempo.

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A Animação é para crianças (ou não) - 1

João Campos, 22.04.22

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A Fuga
Título original: Flugt
Realização: Jonas Poher Rasmussen
Argumento: Jonas Poher Rasmussen e Amin Nawabi
Produção: Vários
Ano: 2021
Duração: 90 minutos
Países: Dinamarca, França, Noruega, Suécia

Uma vez que ainda é possível vê-lo em algumas salas de cinema portuguesas, começo esta série com Flee.

Filme aclamado do dinamarquês Jonas Poher Rasmussen, Flee conta a história real de Amin Nawabi e da sua fuga de um Afeganistão mergulhado na guerra civil de 1989-92. A animação magnífica e vibrante surge intercalada por breves passagens com imagens reais, de arquivo, do que era a vida em Kabul nos anos 80, da transformação trazida pela guerra civil, da vida dos refugiados numa Moscovo pós-soviética e das tentativas desesperadas, quando não mortais, da fuga da opressão russa para o sonho de uma vida melhor na Europa democrática.

Num registo que combina com mestria a narrativa e o documentário, vamos acompanhando Amin, já adulto e a viver na Dinamarca com o companheiro, Kasper, a narrar a um amigo realizador a história da sua vida. Vemo-lo em criança a correr pelas ruas da capital afegã, no seio da sua família; acompanhamos a fuga com a mãe, as duas irmãs e o irmão, de uma Kabul sitiada, onde os jovens no fim da adolescência eram capturados e forçados a combater e onde qualquer diferença era motivo de vergonha e de castigo; observamos a vida da família numa decrépita e violenta Moscovo nos anos que se seguiram à queda da União Soviética; e seguimos as tentativas do seu irmão mais velho, a viver na Suécia, para conseguir fazer a sua família chegar bem a um país seguro. Amin nunca contara aquela história antes, e à medida que a vai narrando vai percebendo, e nós com ele, como aquela longa fuga em criança e adolescente marcou e condicionou o homem em que se viria a tornar, as opções que tomou na sua vida adulta, e o preço que pagou, ele e a família, pela sua segurança.

Todos os nomes são fictícios, claro, mas em momento algum esse pormenor retira impacto ao relato. Pois aquela história é a história de muitos afegãos que fugiram do seu país, daqueles anos até ao presente. E poderia também ser a história de inúmeras pessoas de todo o mundo, que fugiram dos seus países natais em busca de algo tão elementar como um tecto e uma vida sem terror. Dificilmente um filme poderia ter um tema mais actual do que este.

Flee esteve nomeado, entre muitos outros prémios, para três Óscares: Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Documentário, e Melhor Filme de Animação. Perdeu este último para mais um filme da Disney, claro - a categoria parece atribuída à partida para qualquer filme da Disney ou da Pixar. É pena: Flee é um filme extraordinário, e mostra na perfeição como a animação pode ser utilizada para narrar histórias adultas com uma carga emocional tremenda. Ainda será possível vê-lo nas salas de cinema portuguesa, e não o poderia recomendar mais.

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A Animação é para crianças (ou não) - 0

João Campos, 21.04.22

Mais do que pelos filmes, realizadores, actores e técnicos premiados, a cerimónia dos Óscares de 2022 ficará na memória colectiva por uma bofetada em directo. Foi isto que se discutiu longamente nos dias que se seguiram, na televisão e nas redes sociais, até à exaustão.

Mas mais do que discutir a principal cena infeliz da noite, a mim interessa-me chamar a atenção para outra cena infeliz, até por ser intencional e ensaiada, e que só vi ser discutida em alguns recantos mais interessados (e interessantes) das redes sociais: a breve rábula que antecedeu a entrega do Óscar de Melhor Filme de Animação, com três actrizes que já representaram (ou, no caso de Halle Bailey, que irá ainda representar) princesas da Disney a remeter a animação para as memórias e para o entretenimento infantis. Como se, para nem ir mais longe, aquela não fosse uma das categorias para as quais o espantoso Flee, de Jonas Poher Rasmussen, estava nomeado.

É um preconceito infelizmente comum, persistente e redutor. A maioria de nós recordar-se-á dos desenhos animados da infância, naturalmente, mas reduzir a arte da animação a temas para crianças é ridículo e absurdo. Saem todos os anos imensos filmes de animação dirigidos aos mais novos, claro, mas o que não falta é filmes de animação mais complexos e ousados, que jamais seriam adequados ao público infantil. Nem por isso, porém, deixam de faltar por aí auto-proclamados cinéfilos que se afirmam incapazes de seguir um filme de animação, ignorando assim o trabalho admirável de realizadores como Brad Bird, Ari Folman ou Hayao Miyazaki - e só por ignorância ou embirração se poderá argumentar que argumentar que Miyazaki não é um dos maiores cineastas vivos.

(Enfim, os leitores - adultos - de banda desenhada sabem bem do que falo, pois a Nona Arte é vista com frequência da mesma forma. Como se houvesse algo de errado com desenhos, estáticos ou animados.)

Para demonstrar quão errados são estes preconceitos, ao longo das próximas semanas deixarei aqui no Delito várias sugestões de filmes de animação para os leitores descobrirem ou redescobrirem. Alguns dos filmes que mencionarei podem ser vistos por toda a família, possuindo elementos que podem fazer as delícias dos mais novos enquanto dão aos adultos algo em que pensar. Outros, porém, não serão de todo aconselhados a crianças - são filmes adultos, feitos por adultos e para adultos. Começarei amanhã, e continuarei nas sextas-feiras seguintes.

Pensamento da semana

João Campos, 05.03.22

"(...) The rumours that you have heard are true: he has indeed arisen again and left his hold in Mirkwood and returned to his ancient fastness in the Dark Tower of Mordor. That name even you hobbits have heard of, like a shadow on the borders of old stories. Always after a defeat and a respite, the Shadow takes another shape and grows again."

"I wish it need not have happened in my time", said Frodo.

"So do I", said Gandalf, "and so do all who live to see such times. All we have to decide is what to do with the time that is given us."

The Lord of the Rings: The Fellowship of the Rings, de J.R.R. Tolkien - que combateu na Primeira Guerra Mundial, viveu durante a Segunda, viu vários Senhores das Trevas ascenderem e caírem no seu tempo, e nem por isso perdeu a esperança. Afinal, Morgoth e Sauron caíram.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Uma voz contra o relativismo bélico em Portugal

João Campos, 25.02.22

Sou insuspeito de nutrir alguma simpatia pelo actual Governo e pelos seus vários elementos - Augusto Santos Silva incluído - mas não posso deixar de aplaudir a sua resposta ontem, no Parlamento, à vergonhosa intervenção do deputado comunista João Oliveira que o Pedro já destacou mais abaixo. Ponderada, eloquente, sem meias-palavras e sem as insuportáveis adversativas que tanta gente usa para tentar "justificar" ou "compreender" a agressão de Putin à Ucrânia. A última frase, lapidar, será sem dúvida um justo e adequadíssimo epitáfio à passagem do ainda líder parlamentar do PCP, não reeleito nas últimas Legislativas, pela Assembleia da República.

(Aliás, nos últimos dias o Governo tem estado especialmente bem, tanto na condenação inequívoca da agressão russa como na solidariedade estendida ao povo ucraniano)

Regressar a "The Matrix"

João Campos, 21.12.21

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The Matrix , o filme original de 1999, é o meu Star Wars ou Star Trek.

Só já em adulto tive a oportunidade de ver a trilogia original de George Lucas, pelo que o encanto que alguns dos meus amigos também aficionados da ficção científica mantêm pelas aventuras do clã Skywalker acabou por me passar um pouco ao lado; como costumo dizer, as únicas memórias de infância que tenho de Star Wars são não dos filmes mas dos anúncios televisivos de brinquedos que passavam na época do Natal. Já de Star Trek nada vi (excepto os filmes mais recentes, que são esquecíveis e irrelevantes); conheço as referências mais evidentes, as personagens mais famosas, o formato da Enterprise, e pouco mais. Crescer nas décadas de 80 e 90 no interior do país sem vídeo, sem televisão por satélite, e sem acesso a cinemas fez com que praticamente todos os filmes que vi até aos 15 anos tenham passado num dos quatro canais generalistas (salvo uma mão-cheia de sessões de cinema ambulante dos anos 90), sem a conveniência das gravações automáticas e das boxes. Os primeiros filmes de ficção científica de que me lembro - os Back to the Future, o Alien e o Aliens, o Terminator 2 - foram por isso apanhados na programação, e não me lembro da primeira que os vi.

Mas lembro-me da primeira vez que vi The Matrix. Mais ou menos.

Na verdade, não tenho a certeza de a minha lembrança da primeira vez que vi The Matrix seja inteiramente verdadeira, o que não deixa de ser irónico dado o tema do filme. A memória é esta: estava no nono ano, algures entre o final de 1999 e o primeiro semestre de 2000, e o professor de Matemática levou a turma para a sala de vídeo, puxou o carrinho com a televisão e o vídeo, e introduziu no vídeo uma cassete pirata. Disse-nos algo como: vocês aqui nunca podem ver cinema, e este filme é demasiado importante para vocês não verem. Pôs o filme a passar e apagou as luzes. Naquele pequeno ecrã - era o que se arranjava na altura - vi uma cena inicial com uns efeitos verdes curiosos, seguida de uma cena típica de polícias de rua a discutir jurisdição com os agentes engravatados de um FBI ou outra agência do género. "No, lieutenant, your men are already dead", diz o agente. A cena passa para o interior do prédio aparentemente devoluto onde um grupo de polícias cerca uma hacker vestida de cabedal preto e se prepara para a prender - quando ela ataca o polícia mais próximo, salta, a imagem pára com ela em pleno ar, a câmara gira em redor da sala, e com um pontapé certeiro a hacker projecta o polícia mais próximo contra a parede do outro lado da sala, antes de caminhar pela parede, neutralizar todos os outros, e se colocar em fuga.

Não tenho ninguém que me possa confirmar esta memória. Afinal, qual dos meus antigos colegas do 9.ºE do ano lectivo 1999-2000 se lembrará daquela sessão de cinema? Para a maioria, terá sido apenas mais um filme, um bom pretexto para não passarmos duas horas às voltas com a fórmula resolvente ou cálculos de trigonometria. Mas quaisquer que sejam os detalhes, lembro-me perfeitamente de ter ficado com aquela primeira imagem de bullet time gravada na retina. Ali estava algo que nunca tinha visto, e que alguma vez teria imaginado. E a melhor parte é que dali para a frente o filme só melhorou, tanto nos efeitos especiais como na trama.  

Quando já tinha uma Playstation 2, a minha irmã ofereceu-me o DVD de The Matrix, que vi vezes incontáveis. Longas foram as conversas sobre o filme que mantive durante os anos do Secundário com o Nuno, grande amigo ainda hoje, e com o nosso professor de Filosofia e de Psicologia, o Jorge. Quando The Matrix Reloaded estreou em 2003, consegui convencer os meus pais a irem ao centro comercial da Guia - eles foram fazer as compras do mês, e eu e o Nuno fomos ver o filme. Não falámos de outra coisa no regresso, claro, e mais conversa houve após as aulas de Psicologia nas semanas que se seguiram (lembro-me de o professor não ter apreciado alguns elementos do filme, a contrastar com o entusiasmo dos dois alunos). O lançamento de Reloaded foi acompanhado por um videojogo para a PS2, Enter the Matrix, que comprei e joguei de fio a pavio (a trama acompanha Niobe, a personagem de Jada Pinkett-Smith), e por um DVD com nove curtas de animação japonesa, Animatrix, que comprei assim que pude, e que vi e revi vezes sem conta -  a última vez foi há um par de meses, e continuam impressionantes ao fim de dezoito anos. Não joguei The Matrix Online e The Path of Neo pois o tempo não dava para tudo. Quando The Matrix Revolutions estreou já estava em Lisboa, e lembro-me de sair da universidade com uma colega, também fã, e de irmos a correr para o Colombo para tentar apanhar lugar na primeira sessão da estreia mundial; chegámos esbaforidos, conseguimos dois bilhetes em lugares distantes, mas isso pouco importava. Vibrámos com a Batalha de Zion, acompanhámos a última aventura do Neo, ficámos imenso tempo cá fora, maravilhados, a falar sobre o filme que tínhamos acabado de ver.

Sim, Reloaded e Revolutions são inferiores ao original. Ao contrário de The Matrix, que envelhece como um bom vinho, a componente visual das sequelas não sobreviveu bem à passagem do tempo. Em Reloaded, o combate no castelo de Merovingian continua belíssimamente coreografada, e famosa perseguição na autoestrada de Reloaded continua electrizante até ao momento final, onde se notam todas as costuras da explosão e do resgate de Morpheus e do Keymaker; em Revolutions, se a batalha de Zion continua imponente, já o combate entre Neo e Smith no final parece saída de um videojogo bem datado. Dito isto, sempre tive um fraquinho por ambos, talvez por todo aquele universo ficcional sempre me ter maravilhado pelas possibilidades infinitas que encerra; e a trama de ReloadedRevolutions, sempre tão vilipendiada, continua a fascinar-me por aquilo que mostra, por aquilo a que alude, e por todas as ideias que deixa nas entrelinhas. Talvez as Wachowskis tenham pecado por terem deixado demasiadas pontas soltas (a Persephone de Monica Bellucci, por exemplo), muitas pistas em infodumps palavrosos, e poucas resoluções concretas; por outro lado, à época isso permitiu que teorias e interpretações florescessem em message boards com discussões animadas: lembro-me de acompanhar alguns, que me fizeram pensar em aspectos distintos dos filmes, contribuindo para que formulasse a minha própria impressão de toda a história (de forma muito resumida: Zion será também um simulacro).

Dentro de um par de dias terei talvez a oportunidade de confirmar isto, ou de me embrenhar um pouco mais pela toca do coelho, com o regresso de The Matrix ao grande ecrã. The Matrix Resurrections é o título do novo filme, desta vez realizado apenas por Lana Wachowski, e com Keanu Reeves e Carrie-Anne Moss num regresso improvável, considerando o desfecho de Revolutions. Mantenho há muito tempo que poucos universos ficcionais poderiam ter a capacidade de The Matrix para se reinventar nesta época de eternos remakes e sequelas ilimitadas; afinal, a premissa inclui várias versões da matriz e múltiplas reencarnações (versões?) dos seus conceitos fundamentais. Esperava que mais cedo ou mais tarde houvesse mais um filme, mais por insistência da Warner Brothers do que pela vontade das Wachowskis - a trilogia original gerou demasiado dinheiro e foi demasiado icónica para ficar perdida entre 1999 e 2003. Não esperava o regresso de Neo e Trinity, e estou muito curioso para ver como Lana Wachowski vai pegar na trama que concluiu há dezoito anos. As expectativas, essas, são moderadas - creio que a componente visual será forte, a avaliar pelos trabalhos mais recentes da realizadora (o excelente Cloud Atlas, o derivativo Jupiter Ascending, e a brilhante Sense8 para a Netflix) - mas tenho dúvidas de que este regresso se consiga aproximar da fasquia elevadíssima do filme original e das curtas de Animatrix

O que pouco importa, na verdade. Tal como em 2003, mal posso esperar para regressar à sala de cinema e ver uma nova entrada deste universo ficcional que tanto me diz (sobretudo num ano com este, em que tão poucas vezes pude ver filmes no grande ecrã). Como disse no início do texto, The Matrix é o meu Star Wars: foi o filme que me ficou sempre na memória, que aos catorze ou quinze anos me impressionou como nenhum outro desde a famosa sessão de cinema ambulante na Casa do Povo da aldeia, quando o Sr. António Feliciano (o mais conhecido projeccionista ambulante do país) levou lá o Jurassic Park pouco depois da estreia. Com uma diferença crucial: se o clássico do Spielberg me mostrou algo de que eu já gostava (dinossauros), já o filme de culto das Wachowskis abriu-me os horizontes de forma inesperada. Graças a The Matrix passei a ver com outros olhos o cinema em geral e a ficção científica em particular. As inúmeras conversas durante o Secundário, a par do meu interesse nascente pela escrita, levaram o meu professor a emprestar-me um livro de ficção científica, e desde aí nunca mais parei de ler o género. Olho agora para trás, metaforica e literalmente, e vejo uma estante com centenas de livros, muitos lidos, e muitos ainda a aguardar leitura; recordo os inúmeros filmes que vi, e que continuo a ver sempre que posso; penso em todos os amigos que fiz ao longo dos anos devido ao gosto partilhado pela ficção científica, em convenções, tertúlias, jantares e blogues. E tudo isso tem na sua origem aquele momento difuso em que o tempo parou, dentro e fora do ecrã da televisão, para a câmara rodar em torno de Trinity.

The Vast of Night

João Campos, 12.12.21

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Vi ontem à noite The Vast of Night, um belíssimo filme independente de ficção científica retro, hoje disponível numa plataforma de streaming. Realizado em 2019 por Andrew Patterson, com um orçamento de $700 000,00, serve não só para nos cativar durante 90 minutos assombrosos, como também para ilustrar dois pontos esquecidos com frequência nestes tempos. O primeiro: a ficção científica é, antes de mais, a ficção das ideias. E o segundo, em jeito de corolário do primeiro: para se fazer um bom filme de ficção científica não é necessário um orçamento multi-milionário dedicado e imensa pirotecnia visual; na verdade, basta uma boa ideia (que nem tem de ser original, podendo apenas ser explorada de um ponto de vista novo) bem trabalhada, com um guião bem escrito, um par de actores talentosos e bem dirigidos, e uma realização tão segura como ousada.

A ideia é simples, e já a vimos em inúmeros contos, filmes (Close Encounters virá logo à memória), e mitos populares (Roswell, claro): nos anos 50, numa localidade remota dos Estados Unidos, Fay, uma jovem operadora de switchboard, detecta acidentalmente uma transmissão ininteligível de origem desconhecida, que se sobrepõe às comunicações e transmissões locais. Intrigada, contacta Everett (Jake Horowitz), o radialista local, para tentar perceber o que está a captar. É certo que não é preciso um conhecimento vasto de ficção científica para se perceber, logo nos primeiros momentos, onde a trama irá dar, mas os desempenhos espantosos de Sierra McCornick e de Jake Horowitz (com a química evidente entre ambos; há tanto subtexto que se pode ler em cenas sem qualquer diálogo), sobretudo nos planos longos e contínuos que Patterson filma com surpreendente mestria, são suficientes para agarrar. Sim, suspeitamos desde cedo como a história vai acabar, mas queremos ver como Fay e Everett lá chegam.

O que não tem faltado nos últimos anos é filmes de ficção científica insípidos, apesar dos seus orçamentos de sete, oito e nove dígitos. Mesmo em Portugal, onde a ficção científica raramente aparece no grande ecrã (assim de repente vêm-me dois péssimos exemplos à memória da última década). Para quem quiser aprender como se faz, The Vast of Night tem sem dúvida muito para ensinar.

Pensamento da semana

João Campos, 12.09.21

“The saddest aspect of life right now is that science gathers knowledge faster than society gathers wisdom.” (Isaac Asimov)

Apesar de tudo, Asimov, falecido no já distante ano de 1992, era um optimista. Nos dias que correm pode-se duvidar com legitimidade de que a sociedade no seu todo esteja a ganhar algum tipo de sabedoria, sensatez, discernimento, juízo - há várias possibilidades de tradução de wisdom, mas no final vai dar ao mesmo.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

20 anos

João Campos, 11.09.21

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A memória é uma coisa tramada.

Diz-se que todos nos lembramos de onde estávamos a 11 de Setembro de 2001. Não serei excepção, claro, apesar de não ter a certeza de toda a memória que tenho daquela tarde ter acontecido exactamente como me lembro, e de haver alguns detalhes que não parecem bater certo (um dia talvez traga aqui a memória incompleta e incerta que tenho da primeira vez que vi The Matrix, sem dúvida o filme da minha vida). Tinha 16 anos. Lembro-me de ter chegado à aldeia, decerto vindo de Odemira apesar de as aulas ainda não terem começado (julgo que começavam sempre um pouco mais tarde em Setembro; não tenho memória do que terei ido fazer à vila, talvez qualquer coisa relacionada com as matrículas, talvez confirmar os horários). Não sei se regressei de autocarro; é provável que não, pois o autocarro não me permitiria chegar pouco antes das 14:00. Decerto terei tido boleia, mas de quem, não faço a mais pequena ideia.

Enfim, como dizia, lembro-me de chegar à aldeia, de a caminhar pela rua principal, e de ter visto várias pessoas de pé no interior do café a olhar fixamente para a televisão. Entrei e no pequeno ecrã vi duas torres, uma delas a arder. Alguém, não me lembro quem, explicou pouco depois que um avião tinha colidido contra a torre, mas não se sabia bem o que tinha acontecido, se teria sido acidente ou não. Mas em poucos minutos todas as dúvidas se dissiparam quando assistimos em directo à colisão de outro avião contra a segunda torre.

Fui para casa almoçar, liguei a televisão do meu quarto e continuei a acompanhar o directo a partir de Nova Iorque com a minha mãe. Lembro-me de vermos aquelas imagens juntos, das torres em chamas, dos relatos de outra colisão contra o Pentágono e de um quarto avião despenhado algures no campo. A minha mãe a dada altura comentou que com um estrago daqueles as torres deviam desabar; disse-lhe que talvez não, que o embate tinha sido bastante alto. Um palpite pouco informado que se desfez em poucos minutos, quando assistimos com horror ao desabamento da primeira torre. A segunda cairia pouco depois.

Até àquele dia nunca tinha prestado grande atenção às Torres Gémeas. Eram dois arranha-céus numa cidade distante e cheia de arranha-céus, e nada mais. Mas a partir dali nunca mais as esqueci. Hoje, ao ver filmes e séries anteriores a 2001, é impossível não reparar naquele par de edifícios, no vazio que a sua destruição deixou. E no simbolismo dessa destruição, que fez despertar imensa gente para a política, como eu despertei naquele dia. As minhas memórias do 11 de Setembro de 2001 podem ser imperfeitas e difusas, mas lembro-me perfeitamente da noção de que alguma coisa tinha acabado de mudar no mundo - e tenho a certeza de que tudo foi diferente a partir daquele momento.

Pensamento da semana

João Campos, 16.05.21

Hoje em dia não falta quem se esqueça de que a liberdade de expressão não inclui dever de assistência ou mesmo de palco. Dito de outra forma: temos o direito de nos exprimirmos, mas ninguém tem o dever de nos ouvir, ou de nos dar espaço (físico ou virtual) para dizermos o que nos passa pela cabeça. Não deixa de ser curioso que tantos auto-intitulados defensores da liberdade de expressão pareçam ignorar este detalhe. 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Malandrice, empatia e fair-play

João Campos, 11.05.21

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Em Agosto de 2019 tive a oportunidade de passar duas semanas a trabalhar na Malásia na companhia de colegas com os quais até aí só falara por telefone ou chat. Quis a sorte que os astros se alinhassem e que cá em casa pudéssemos tirar partido disto: a minha companheira conseguiu tirar férias, conseguimos comprar-lhe um bilhete, e lá fomos até ao Sudeste Asiático (em vôos separados, o que foi uma chatice, mas valeu a pena). Enquanto eu passei os dias a trabalhar, ela entreteve-se a passear por Kuala Lumpur - algo bastante conveniente também para mim, pois provavelmente não teria ido a metade dos sítios que visitei naqueles finais de tarde se não estivesse acompanhado (não sou grande turista, admito, enquanto a Ana planeou tudo, tratou de comprar bilhetes para os monumentos a visitar, etc).

No início da primeira semana calhou a visita à Torre de Kuala Lumpur. Saí do trabalho, meti-me num Grab (a versão local da Uber), e fui ter com a Ana à entrada da torre. Vista magnífica do topo, a dar a dimensão real da capital malaia. Naquele tempo ainda se viajava, pelo que não faltavam por ali turistas de inúmeras nacionalidades - percebíamos pelas palavras que íamos ouvindo, de idiomas europeus como o francês ou o italiano a idiomas asiáticos para nós incompreensíveis. E, como não podia deixar de ser, não éramos os únicos portugueses nas imediações - identificámos o casal como sendo português assim que saíram do elevandor, mesmo antes mesmo de os ouvirmos falar, pois o rapaz vestia uma camisola do Sporting.

Aqui talvez valha a pena explicar que dois dias antes (um dia e meio se considerarmos o fuso horário?) o Benfica tinha derrotado o Sporting por 5-0 na Supertaça.

Inevitavelmente, o primeiro pensamento que me ocorreu foi aproximar-se do meu compatriota, levantar a mão e dizer-lhe na língua de Camões "dá cá mais cinco". Ainda nos rimos a imaginar a cena, eu e a Ana, que como eu é também benfiquista. Já o segundo pensamento - não sou muito impulsivo - foi um pouco mais empático: a dezasseis mil quilómetros de casa, com ar de quem tinha discutido com a namorada no elevador, e ainda a ressacar pela derrota distante contra o eterno rival, decerto que a última coisa que aquele rapaz quereria encontrar no topo daquela torre naquele magnífico fim de tarde seria um sacana de um benfiquista a gozar o prato. Seria cruel, convenhamos. Com isso em mente (e com algum instinto de auto-preservação, confesso - não sou especialmente bem constituído, estava para aí a trezentos metros de altitude, e a ciência ainda não me deu um jetpack), optei por não dizer nada. E continuámos, eu e a Ana, a deliciar-nos com aquela vista espantosa de Kuala Lumpur, que com o cair da noite se assemelhava mais e mais às vastas metrópoles da ficção científica cyberpunk de que ambos somos fãs (a fotografia lá no topo não é grande coisa pois nem a câmara nem o fotógrafo eram grande coisa, mas fica o registo).

Recupero esta memória, que hoje parece tão distante, no dia em que o Sporting se sagra campeão nacional de futebol. A esta altura do campeonato já não tinha nenhum cavalo nesta corrida - do pouco que vi do Benfica em campo não me pareceu que merecessem ganhar o que quer que seja, e fora do campo a coisa dá asco - pelo que o resultado do jogo de hoje me era mais ou menos indiferente. Por norma, se tiver de escolher entre o Porto e o Sporting até prefiro ver os leões a vencer, se bem que nunca saia a perder dos confrontos - afinal, as derrotas leoninas são sempre um bom pretexto para provocações malandras aos meus amigos sportingistas.

Mas a verdade é que são justamente esses amigos quem importa hoje. Os anos têm-me tornado mais introvertido, mas tenho a sorte de manter muito bons amigos - e, entre eles, vários sportinguistas. Alguns já ouviram (leram) as inevitáveis provocações em privado, claro, e ainda terei mais algumas para os próximos dias. As piadas, admita-se, até se escrevem sozinhas (da última vez que isto tinha acontecido ainda andava eu na escola secundária, agora só em 2040, etc). Mas hoje esses amigos estão felizes, tão felizes como eu estava naquele entardecer há dois Verões, numa cidade espantosa que até então nunca tinha pensado visitar; e eu, pela parte que me toca, fico feliz pelos meus amigos. Por isso, e porque o desporto vale nada sem fair play, dedico esta memória, estas provocações bem intencionadas e este texto mal amanhado (começa a faltar-me prática, a Teresa Ribeiro bem me avisou há uns anos num jantar do Delito) aos meus amigos lagartos de tantos e tantos anos - ao João e ao Jorge, ao Miguel e ao Fernando, à Susana e ao Ricardo. E ao nosso Pedro Correia, claro, e aos leões e às leoas do Delito. Hoje a festa é vossa - aproveitem!