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Fotografias tiradas por aí (412)

por José António Abreu, em 17.06.18

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Porto, 2018. 

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Fotografias tiradas por aí (411)

por José António Abreu, em 10.06.18

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Lago Bled, Eslovénia, 2018.

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Fotografias tiradas por aí (410)

por José António Abreu, em 27.05.18

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Porto, 2018. (Sim, continuo a gostar de batráquios.)

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Fotografias tiradas por aí (409)

por José António Abreu, em 20.05.18

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Perto de Ervedal da Beira, concelho de Oliveira do Hospital, 2018. 

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Fotografias tiradas por aí (408)

por José António Abreu, em 13.05.18

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Porto, 2018. 

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Fotografias tiradas por aí (407)

por José António Abreu, em 06.05.18

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Porto, 2018. 

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Fotografias tiradas por aí (406)

por José António Abreu, em 29.04.18

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Perto de Oliveira do Hospital, 2018. 

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Fotografias tiradas por aí (405)

por José António Abreu, em 15.04.18

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Praia, Cabo Verde, 2007. 

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Fotografias tiradas por aí (404)

por José António Abreu, em 08.04.18

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Águeda, 2017. 

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Fotografias tiradas por aí (403)

por José António Abreu, em 01.04.18

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Estremoz, 2018. 

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Fotografias tiradas por aí (402)

por José António Abreu, em 25.03.18

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Barragem da Aguieira, 2017. 

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Fotografias tiradas por aí (401)

por José António Abreu, em 18.03.18

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Entre Gouveia e Celorico da Beira, 2017. 

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Fotografias tiradas por aí (400)

por José António Abreu, em 11.03.18

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Braga, 2015.

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Fotografias tiradas por aí (399)

por José António Abreu, em 04.03.18

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Vila Nova de Gaia, 2014.

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Pensamento da semana

por José António Abreu, em 04.03.18

Nos sonhos, como nas utopias, não existem compromissos. Quando os sonhos ficam demasiado intensos, acordamos. Estar acordado (mais do que apenas estar vivo) implica aceitar compromissos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

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Fotografias tiradas por aí (398)

por José António Abreu, em 25.02.18

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Exposição de fotografias de Steve McCurry, Porto, 2017.

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Fotografias tiradas por aí (397)

por José António Abreu, em 18.02.18

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Coimbra, 2017.

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Fotografias tiradas por aí (396)

por José António Abreu, em 11.02.18

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Porto, 2017.

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Diário semifictício de insignificâncias (37)

por José António Abreu, em 07.02.18

Vou à estação dos CTT da Galiza (parece que vai encerrar) buscar uma encomenda. Espero cerca de três minutos (um período tão razoável que só pode constituir o motivo de encerramento) e depois sou atendido por um senhor cordato, mas lento. Muito, muito lento. Examina o talão deixado na minha caixa do correio de um lado e do outro, verifica cuidadosamente a data e a hora em que é suposto a encomenda já estar disponível, pergunta-me, em voz baixa e ritmo pausado, se sou o próprio (sou), pede-me o cartão de cidadão (que já coloquei sobre o balcão), não compara as assinaturas mas demora uma eternidade a transcrever o número, levanta-se (devagar), arruma (devagar) umas quantas cartas dentro de um tabuleiro, e segue (devagar) com ele para o interior da estação, onde fica durante quase tanto tempo como o que eu esperei até ser atendido. Regressa finalmente (devagar), com a minha encomenda nas mãos.

Houve um instante, ainda antes de ele se levantar da cadeira, em que estive prestes a irritar-me (sabe-se lá se não o acusaria de constituir o motivo de fecho da estação). Felizmente, apercebi-me a tempo do nome afixado na etiqueta que trazia ao peito. «José Plácido». Como ficar irritado com alguém que se limita a fazer jus ao nome?

 

(Agora que escrevinho isto, apercebo-me de que também se pode ver a coisa por outro ângulo: às vezes a irritação dissipa-se por motivos muito estranhos.)

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Fotografia tiradas por aí (395)

por José António Abreu, em 04.02.18

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Perto do Pocinho, 2016. 

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Diário semifictício de insignificâncias (36)

por José António Abreu, em 31.01.18

Nas últimas semanas tem sido um fartote de gripes à minha volta. Fui apanhado por uma (acho estranho que se diga que nós é que as apanhamos), mas bastante ligeira, o que me deixou satisfeito (gosto quando a minha resiliência me surpreende pela positiva). Agora dizem que o pior já passou. Até ao próximo Inverno, certamente, porque os vírus estão cada vez mais evoluídos e os humanos cada vez mais susceptíveis. Basta constatar a facilidade com que se ofendem. 

Quando alguém espirra perto de mim, digo «Santinho». Toda a gente no Porto diz «Viva». Ou «Biba», dependendo da zona onde cresceu. Noutros pontos do país dizem «Saúde». Gosto mais de «Santinho», apesar da conotação com doenças outrora mortais. É mais incongruente. Como os próprios espirros.

E a propósito. Sem surpresa, os meus olhos preferidos pertencem a uma mulher. De um momento para o outro, o meu cérebro nem consegue pensar nuns olhos masculinos dignos de registo. Os do Paul Newman, talvez, que hoje em dia já devem ter perdido grande parte do encanto. Naturalmente, o meu sorriso favorito também é de uma mulher. Há dezenas deles em dezenas delas, para ser sincero. Sorrisos que fazem com que me apaixone durante dez segundos, dez minutos, dez dias. Com vozes, é mais difícil. Tenho - e ouço - mais música cantada por mulheres do que por homens, o que há-de significar alguma coisa, mas certas vozes femininas são instrumentos de tortura que deviam estar cobertos pelas convenções aplicáveis. Os meus risos preferidos voltam a pertencer a mulheres - e ao Ricky Gervais. Contudo, se pensasse no assunto, teria que classificar como meu favorito o espirro de um homem. L., lá do emprego. Tem mais ou menos a minha idade e um espirro by the book. Composto, sereno, sonicamente irrepreensível. A exacta tradução de um balão de banda desenhada: «Atchim!» Tão diferente do meu, espalhafatoso e anárquico.

Mas não penso nisso, claro. Ninguém pensa.

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Fotografias tiradas por aí (394)

por José António Abreu, em 28.01.18

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Porto, 2017. 

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Diário semifictício de insignificâncias (35)

por José António Abreu, em 27.01.18

Uma das poucas coisas que dão satisfação à minha mãe é agora já poder morrer. Até há poucas semanas, se morresse não poderia ser sepultada na campa dos pais. Uma das três irmãs (todas mais novas) antecipara-se. Todavia, agora já passou o número de anos suficiente para que o enterro naquela campa volte a ser possível. Foi a melhor notícia que ela teve nos últimos tempos.

Não sei se me sinta satisfeito por ela (com ela), se deprimido. Frequentemente, eu apanhava-me a pensar que o raio do prazo era o principal motivo para ela se manter viva. Agora, resto eu, que estou quase sempre longe, e, em menor grau, o meu pai, que hoje em dia a preocupa e exaspera em igual medida.

Ainda por cima, sobra-lhe uma irmã. É certo que se trata da mais nova de todas, e que parece andar de boa saúde, mas não deixa de constituir um risco apreciável: a minha mãe não o admite, mas aquilo que neste momento mais a assusta é poder ver-se novamente ultrapassada na corrida à campa dos pais.

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Fotografias tiradas por aí (393)

por José António Abreu, em 21.01.18

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Águeda, 2018. 

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Fotografias tiradas por aí (392)

por José António Abreu, em 14.01.18

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Porto, 2012. 

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Fotografias tiradas por aí (391)

por José António Abreu, em 07.01.18

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Porto, 2017.

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Fotografias tiradas por aí (390)

por José António Abreu, em 31.12.17

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Portugal, 2017. Ou uma última homenagem ao «ano saboroso» de um António Costa certamente mais habituado a locais sprinklados e aos topos de gama que os colegas do partido, bem como os respectivos familiares e amigos, usam para chegar aos empregos que os dois últimos anos lhes providenciaram.

 

(Se fizerem questão de saber: perto de Oliveira do Hospital, há uma semana.)

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Três álbuns de música clássica lançados em 2017

por José António Abreu, em 31.12.17

 

Antonio Pappano, Saint-Saëns: Carnaval dos Animais & Sinfonia Nº 3 "Órgão".

Edição Warner Classics.

 

Duas das mais famosas obras de Camille Saint-Saëns foram compostas quase em simultâneo e dificilmente poderiam ser mais diferentes. Toda a gente conhece pelo menos excertos de O Carnaval dos Animais, um divertimento para dois pianos e ensemble de nove músicos, que inclui segmentos dedicados, entre outros, ao leão, ao elefante, ao burro, aos «animais de orelhas compridas» (coelhos, lebres), aos galináceos, aos peixes, às tartarugas e (num toque de humor gaulês) aos pianistas. Saint-Saëns compôs O Carnaval dos Animais como um exercício de descontracção durante os trabalhos da sinfonia nº 3. Temendo que prejudicasse a sua imagem de compositor «sério», determinou que a obra apenas poderia ser tornada pública após a sua morte, limitando-se a autorizar algumas sessões privadas (entre as quais uma para o amigo Franz Liszt) e a publicação do movimento "Cisne", adaptado para violoncelo e um único piano. O Carnaval veio finalmente a público em 1922 - um ano após a morte de Saint-Saëns - e depressa se tornou uma das obras mais populares do francês. 

Nesta edição, os pianos são tocados por Antonio Pappano e por Martha Argerich. O acompanhamento é providenciado por um ensemble composto a partir dos solistas de orquestra da Academia Nacional de Santa Cecília, de Roma. Da delicadeza e lirismo do «Cisne» à pomposidade do «Elefante», tudo soa perfeito. E, ainda que ela já tenha interpretado «Os Pianistas» várias vezes, é sempre uma delícia ouvir Martha Argerich fingir que está a aprender a tocar piano.

Pappano conduz a orquestra de Santa Cecília na Sinfonia Nº 3 "Órgão", um trabalho numa linha neoclássica, mas cheio de passagens delicadas e sensuais, que a orquestra delineia perfeitamente (e os técnicos da Warner captam de forma igualmente brilhante).

(Não descobri um vídeo relacionado com esta gravação. N'O Carnaval dos Animais, acompanhada por, entre outros, Gidon Kremer, Argerich pode ser vista aqui.)

 

***

 

 

Max RichterThree Worlds: Music From Woolf Works.

Edição Deutsche Grammophon.

 

A melhor música composta para servir de complemento a imagens (sejam elas ao vivo, como num bailado, ou num suporte tecnológico qualquer, como num filme) sobrevive mesmo longe destas. Para apreciar a música que Tchaikovsky compôs para O Lago dos Cisnes não precisamos de ter alguma vez visto o bailado. Para sentir a intensidade d'A Cavalgada das Valquírias não é necessário conhecer a ópera de Wagner - ou o filme de Coppola - onde ela surge.

Na realidade, a melhor música sobrevive mesmo que não se conheçam quaisquer referências a seu respeito. Pode ouvir-se e apreciar-se a Sétima Sinfonia, de Shostakovich, sem saber que é apelidada de «Leninegrado» - e porquê. Pode ser-se fã de Tears in Heaven, de Eric Clapton, desconhecendo o acontecimento que lhe esteve na origem.

Por vezes, não saber demasiado até se revela benéfico. É hoje difícil ouvir Wagner sem sentir estar a partilhar um prazer com Hitler. Na maioria das casos, porém, conhecer as obras para as quais a música foi composta, ou os acontecimentos que a inspiraram, ou as circunstâncias que já a moldaram, permite analisar melhor a obra e constitui um factor positivo de ligação emocional. (Também salva algumas obras menores, que não levaríamos a sério se não estivessem relacionadas com, por exemplo, um filme que nos marcou.) 

Tudo isto para referir que pouca gente conhecerá Woolf Works, um bailado de Wayne McGregor baseado em três livros de Viginia Woolf (Mrs. DallowayOrlando e The Waves), mas que isso não é necessário para apreciar a música composta para ele por Max Richter. A música de Richter é suficientemente forte para dispensar o apoio de imagens concretas ou até o conhecimento da fonte de inspiração. Mas conhecer os livros ajuda. Torna mais fácil perceber por que razão nos temas baseados em Mrs. Dalloway a música é geralmente suave mas está cheia de interrogações; por que razão nos temas inspirados por Orlando a sonoridade é mais variada, com mistura de estilos e de sonoridades (incluindo componentes electrónicas); e porque o único mas longo tema dedicado a The Waves é - perdoe-se-me a falta de imaginação - ondulante, melancólico e extremamente belo. Todo o álbum (que inclui apenas parte dos temas compostos para o bailado) é perpassado por constantes interrogações, por aquela busca incessante, feita a partir de múltiplos pontos de vista, que caracteriza a literatura de Virginia Woolf.

Devo ainda mencionar os segmentos de abertura de cada bloco. Em grande medida, neles procura-se adicionar contexto para os que (ainda) não leram Woolf, e reforçar a ligação à música dos que já leram. Mas também servem para deixar claro qual o tema principal que guiou Richter - e, décadas antes, Woolf: os mecanismos da memória, as suas imperfeições, o modo como molda a história. O primeiro segmento é composto por um excerto da única gravação conhecida da voz de Woolf, no qual ela refere que as palavras da língua inglesa estão cheias de ecos e de memórias do passado, e que isso dificulta imenso a tarefa do escritor. No segundo, a actriz Sarah Sutcliffe lê um excerto de Orlando, igualmente focado nas questões da memória (Memory is the seamstress, and a capricious one at that...). Finalmente, no terceiro, a actriz Gillian Anderson (e como a sua voz inconfundível causa um instante de surpresa inteiramente adequado) lê a nota de suicídio que Woolf deixou ao marido.

Depois de Philip Glass já ter composto uma excelente banda sonora para o filme The Hours, Richter prova o que qualquer leitor de Woolf consegue sentir: a prosa dela é altamente musical.

 

***

 

 

Barbara HanniganCrazy Girl Crazy.

Edição Alpha.

 

Barbara Hannigan deixa-me sem palavras (e, todavia, desconfio que vou escrever umas quantas). Como soprano, tornou-se o rosto e a voz da incomparável Lulu, de Alban Berg (admitamos que com alguma concorrência por parte de Patricia Petibon), deslumbrou nesse objecto estranho que é Le Grand Macabre, de Ligeti, conseguiu que escrevessem para ela o principal papel feminino de uma das melhores óperas das últimas décadas, fez paródias com pasta dentífrica que incluem lamentos sobre «no more all-night boning», e - convém referi-lo, já que estamos a 31 de Dezembro - ainda se dedicou a festas de passagem de ano. Como comunicadora, revela uma excelente capacidade de expressão e um delicioso sentido de humor. Como mulher, é atraente (vale o que vale, mas não vale a pena esconder que vale alguma coisa). E, desde há alguns anos, é também maestrina. Quando ela canta (postulemos que o termo admite fronteiras amplas) e simultaneamente dirige a orquestra, até Ligeti fica irresistível (bom, quase).

Há cerca de 4 meses, Hannigan lançou Crazy Girl Crazy, um álbum no mínimo peculiar. Inica-se com Sequenza III, de Luciano Beria, que basicamente consiste em nove minutos de exercícios vocais (calma, não se vão já embora). Seguem-se temas de Lulu, quase todos instrumentais (Lulu, a personagem, tem apenas uma canção - nem se lhe poderá chamar ária - em toda a ópera, e é curta). No final, surgem os treze minutos mais sublimes da música de 2017 (não, não exagero e também não admito opiniões contrárias, excepto se provenientes de canídeos ou de outros animais com capacidade para ouvir frequências inaudíveis para os humanos). Dificilmente se classificará Gershwin entre os compositores mais experimentalistas - ou mais pessimistas -, mas ele admirava profundamente a música de Berg, que encontrou em Viena em 1928 e que até lhe autografou uma fotografia. Com a ajuda do compositor e orquestrador Bill Elliot, Hannigan dedica-se a extrair da música do norte-americano um nível de inquietude que acaba por transformá-la numa sequência adequada a tudo o que a precede, sem lhe eliminar o carácter festivo que permite fechar o álbum em tom de alegria e optimismo. E, no fundo, me permite a mim fazer o mesmo em relação a 2017.

(Nota destinada a pessoas simultaneamente observadoras e picuinhas: a versão apresentada no vídeo acima é cerca de um minuto mais curta do que a versão inserida no álbum; a do álbum é ainda melhor.)

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Câmara de Lisboa. Avenças em gabinetes do PS chegam a aumentar 80%.

 

Lisboa tem excepção que permite mais 96 assessores e ‘plafond’ de 20 milhões.

O Regime Jurídico das Autarquias Locais (RJAL) permite aos grandes municípios (com mais de 100 mil habitantes) terem 22 membros nos gabinetes dos vereadores e do presidente da câmara. Dada a sua dimensão, Lisboa é objecto de uma excepção que é aprovada, mandato após mandato, pelo executivo municipal. De acordo com a proposta de Fernando Medina aprovada em reunião de câmara no início deste mandato — apenas com a abstenção dos dois vereadores do PCP — os vereadores, os respectivos grupos políticos e o presidente podem contratar 96 pessoas para os gabinetes: 71 assessores e 25 funcionários de apoio administrativo. A estes 96 juntam-se os 22 já garantidos. Contas finais: 118 assessores/adjuntos.

 

Um dado já estabelecido, mas que a notícia confirma - ide lê-la, ide -, é o cuidado tocante, nesta época de insensibilidade e egoísmo, que os socialistas revelam no apoio à famiglia. Perdão, à família.

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2017 e o futuro radioso

por José António Abreu, em 30.12.17

 

«Sabes qual é o primeiro objectivo de qualquer consultor?»

«Reduzir custos ao cliente?»

«Não sejas ingénuo.»

«Então qual é?»

«Descobrir formas de prolongar o contrato de consultoria.»

 

Ora portanto: em 2017, funcionários públicos e pensionistas continuaram a recuperar rendimentos, mas nas escolas a comida surgiu crua ou com lagartas, nas penitenciárias os almoços e jantares foram diminuindo de tamanho, nos hospitais agravaram-se as condições de salubridade e aumentaram as listas de espera para cirurgias urgentes, nas vilas e aldeias a Protecção Civil não conseguiu evitar a morte de mais de uma centena de cidadãos, nos quartéis os militares foram incapazes de evitar roubos de armas, nas instituições de solidariedade social cometeram-se desvios de fundos públicos sem que, não obstante a existência de denúncias, a tutela se desse ao incómodo de averiguar, e nos bancos continuou a meter-se dinheiro público, ainda que num caso - como os socialistas gostam - por portas travessas.

Também em 2017, categorias variadas de funcionários públicos nada incomodados com as irrelevâncias mencionadas no parágrafo anterior lembraram-se de começar a lutar com o governo por «direitos» (leia-se: dinheiro) que até 2016 o governo parecia achar não apenas justos, mas benéficos para a economia (agora parece só achá-los justos). Patrocinada pelo PCP através da CGTP, a luta deverá continuar em 2018 e ser bastante divertida, mas potencialmente muito cara, para quem está de fora.

Do lado das coisas que não aconteceram em 2017 conta-se, por tradição nacional e para não perturbar Catarinas e Jerónimos, a implementação de reformas que todos (enfim, todos os que ideologicamente se situam fora da extrema esquerda) sabem ser indispensáveis, e que todos (ver parêntesis anterior) também sabem que seriam menos dolorosas de realizar em época de crescimento económico, ainda que esse crescimento ronde os 2%, muito abaixo dos cerca de 3% da vizinha Espanha ou dos valores que seriam de esperar em qualquer economia minimamente equilibrada saindo de uma fase de correcção das contas públicas durante a qual o PIB contraiu 8% (convém ter presente que, neste caso, 2 não chega a uma quarta parte de 8, pelo facto de o denominador ter ficado mais baixo*). E, todavia, as exportações de bens e de serviços mostram-se excelentes, não obstante os recentes e tristes problemas com o pernil de porco destinado a um dos países-modelo do Bloco e do PCP, facto que só pode deixar um indivíduo a ponderar o que diabo travará Portugal. O clima, talvez. O excesso de eucaliptos. A venda de salgadinhos nos hospitais.

Enfim, continuemos, que é forçoso reconhecer um inegável mérito à Geringonça: em 2017, tornou abundantemente claro que o primeiro objectivo do Estado é alimentar o próprio Estado. (A anedota do início perde alguma piada ao chegar aqui, não perde?)

 

E o futuro? Quais as perspectivas para 2018, 2019, 2020, e por aí fora? Numa palavra, sublimes, que Centeno lidera o Eurogrupo, a Alemanha está com governação suspensa e até as agências de notação vêm subindo os ratings da república para níveis de 2010. Há uma nuvenzita negra, uma manchinha no radar, mas poucos a referem, até para evitarem imediatas acusações de «pessimismo» e - pior ainda - de «passismo» (um termo que 2018 poderá não conseguir apagar do léxico nacional). Eu - garanto - vou fazê-lo exclusivamente por motivos de sistematização: o que acontecerá a um país com o nível da dívida pública portuguesa (em queda apenas ligeira) e o nível de encargos do Estado português (entre já assumidos e previsíveis, com tendência para subida), quando a economia mundial abrandar, especialmente se abrandar muito (se houver um crash bolsista, por exemplo)? O que fará um governo com as contas públicas novamente desequilibradas e dificuldades de financiamento externo? Na verdade, é facílimo antever o primeiro passo: subirá ainda mais os impostos, estrangulando ainda mais empresas e cidadãos, e lançando novamente milhares de funcionários do sector privado no desemprego. Mas, porque fazê-lo nem sempre aumenta as receitas e invariavelmente aumenta as despesas do Estado, é capaz de não chegar. Com ou sem programa de assistência internacional, pode ser necessário cortar pensões, bem como salários no sector público, de forma ainda mais brutal do que na última ocasião (a vitória de Pirro que as «devoluções» rápidas e a garantia de «progressões» constituiriam para professores, enfermeiros e demais funcionários do Estado), ou até avançar para despedimentos no sector público (o horror, o horror). Ou então, chegados a esse improvável cenário, talvez possamos ser verdadeiramente criativos e salvaguardar os direitos dos trabalhadores ligados ao Estado libertando os presos, obrigando os alunos a trazerem refeições de casa, equipando os militares com fisgas e encerrando os hospitais.

Vai-se a ver e nessa altura, ainda que com milhentas ressalvas de temporalidade, o Tribunal Constitucional aceitará tudo. E o Bloco de Esquerda, enquanto parceiro de uma coligação governamental maioritária, imitará os parceiros do Syriza e, como ainda agora fez nas alterações à lei do financiamento partidário, aceitará o contrário do que jura defender.

Mas de momento corre tudo bem e, porque outra coisa não merecemos, assim continuará. Um excelente ano de 2018 para todos.

 

* Perdoe-se-me a nota presunçosa, mas a matemática não é o ponto forte nacional, como a generalidade das estatísticas e três bancarrotas em cerca de 30 anos confirmam.

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Música recente (157)

por José António Abreu, em 26.12.17

Béla Fleck e Abigail Washburn, álbum Echo in the Valley.

Dois banjos, duas vozes, efeitos acústicos simples que podem ser reproduzidos durante os concertos (por exemplo, pés a bater ou a deslizar no chão) e nada mais, porque nada mais é necessário. O segundo álbum do casal dos banjos (há quem profetize que o filho, nascido em 2013, se revelará o Messias dos banjos) prova mais uma vez quão pouco é indispensável para fazer grande música.

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Capítulo 4

Forças do Mercado

 

«E agora?»

«Agora vamos fazer brinquedos iguais para todas as crianças e distribui-los», respondeu o duende barbudo, com o gorro do Pai Natal enfiado na cabeça. Alguns dos outros duendes haviam de dizer que ele podia não acreditar em hierarquias, mas tratara logo de se apoderar dos símbolos do poder cessante.

«Sem o Pai Natal e sem as renas? Como os vamos transportar? E como é que vamos pagar os materiais?»

«Como é que ele fazia?»

«Nos últimos anos, o negócio cresceu por causa dos patrocínios. Da Coca-Cola e outras multinacionais.»

«Isso não pode ser. Esses contratos têm de ser rasgados.»

«E então onde é que vamos buscar o dinheiro?»

O duende barbudo coçou a barba. Apercebeu-se de que ela tinha um nó, mas resistiu a desfazê-lo naquele momento.

«Se calhar», disse lentamente, «até nem seria má ideia aproveitarmos o dinheiro da Coca-Cola para boicotarmos a lógica capitalista da distribuição de brinquedos. Temos é que manter a morte do velho em segredo.»

Toda a gente concordou quase imediatamente que era isso mesmo que se devia fazer.

A princípio, até pareceu que ia resultar. Manteve-se secreta a morte do Pai Natal em todas as comunicações, incluindo com a Coca-Cola, e fizeram-se as encomendas aos fornecedores como de costume. Mas depois o presidente da Coca-Cola exigiu falar pessoalmente com o Pai Natal. O duende barbudo pegou no telefone e disse: «Ho-ho-ho!», ao que o presidente da Coca-Cola respondeu: «Você não é o Pai Natal. O que se passa aí?» O duende barbudo inventou uma desculpa que envolvia uma doença tropical grave («provavelmente apanhou-a na viagem do ano passado»), mas o presidente da Coca-Cola não ficou convencido e enviou uma equipa de consultores ao Pólo Norte. Sem quaisquer hesitações ou remorsos, mas com mais dificuldade do que teriam antecipado (eram criaturas surpreendentemente resilientes), os duendes mataram-nos. Dias depois, contudo, chegou outra equipa. Como a primeira, era constituída por gente ainda nova, vestindo aquele tipo de roupas que as pessoas nas latitudes mais temperadas pareciam achar ser adequada para a neve. Houve de imediato muitas perguntas básicas e tomada de apontamentos, mas depressa os duendes lhes puseram fim através do mesmo método que haviam usado dias antes. Perante os corpos caídos na neve, ligeiramente triste por não ter conseguido evitar fazer um rasgão numa parka que, embora pouco adequada ao Pólo Norte, era bonita e de boa marca, o duende barbudo resmungou: «Não é possível que continuem a enviá-los. Afinal, quantos consultores pode ter a Coca-Cola?» Mesmo nesses tempos já antigos, verificou-se que tinha ainda bastante mais. Os duendes foram-nos abatendo e finalmente eles deixaram de aparecer. (Num dado que merecia algum estudo – existissem consultores interessados em fazê-lo –, a Coca-Cola viria a apresentar os melhores resultados da sua história nos anos imediatamente seguintes a estes acontecimentos.) Estava-se então já em Dezembro e os duendes pensaram que o pior fora ultrapassado. Mas então a Coca-Cola enviou um telegrama avisando ter despachado uma carta registada a denunciar o contrato de financiamento. Na carta, que chegou dias depois no comboio Expresso Polar, acrescentava-se que, em resultado de uma alínea existente no contrato («cuja cópia se anexa»), a Coca-Cola podia indefinidamente, se assim o entendesse, usar a imagem do Pai Natal na sua publicidade. O duende barbudo ficou tão furioso que chegou a arrancar pêlos da barba, mas nada havia a fazer. Realizou-se uma última reunião geral, que decorreu aos berros, com muitos lamentos e acusações. Não havia dinheiro para pagar aos fornecedores, que ainda só haviam enviado uma pequena parte dos produtos e se recusavam a enviar o resto. Pior: também não havia dinheiro para pagar salários. Alguém mencionou um velho mito segundo o qual o Pai Natal teria um tesouro escondido algures e procedeu-se a uma busca desesperada, com muita destruição de instalações e de equipamento, mas, se o conteúdo da gaveta de uma mesinha-de-cabeceira do quarto do Pai Natal ainda suscitou risos e piadas deselegantes («Alguém tem andado a portar-se mal...», «Agora percebe-se o ‘ho-ho-ho’ que se ouvia durante a noite…», «Com este frio, as pilhas hão-de durar pouco», «Também se arranja em tamanho XS?»), nada de valor significativo foi encontrado. Nessa altura a raiva dos duendes voltou-se contra o duende barbudo, que tentou fugir. Foi apanhado, morto à paulada como se fosse uma foca e espetado num pau. Dizem que era tão resiliente que as barbas lhe continuaram a crescer durante meses.

 

E foi assim que, nesse ano, pela primeira vez, o Pai Natal não visitou as casas dos meninos bem comportados durante a noite de Natal. Muitas crianças ficaram tristes e muitos pais irritados. Tendo retirado os anúncios em que usava a imagem do Pai Natal no início de Dezembro, as vendas da Coca-Cola não foram afectadas. No ano seguinte, os pais já não confiaram no Pai Natal e adquiriram brinquedos que, durante a noite, pé ante pé, foram colocar debaixo da árvore ou pendurar na chaminé, consoante a tradição de cada sítio ou país. Naturalmente, os pais mais ricos compraram presentes mais caros. Como, de forma geral, os pais preferiram manter a ilusão das crianças, continuando a falar-lhes no Pai Natal, a Coca-Cola voltou a usar a imagem dele na publicidade.

No Pólo Norte, os vestígios da aldeia do Natal desapareceram. Os duendes espalharam-se pelo planeta. Às vezes, vê-se um ou outro por aí (na Irlanda, são confundidos com leprechauns e, em Portugal, há conhecedores desta triste história que defendem que alguns comentadores televisivos de reduzida estatura ainda são «crianças do Pólo»). Quanto ao destino de Rodolfo, não existem certezas. Mas todos os anos as televisões mostram a saída do Pai Natal da Lapónia, no seu trenó puxado por renas. Se o Pai Natal é claramente um velhote com barbas e barriga postiças, as renas são verdadeiras. E a da frente parece estar sempre a caminhar com cuidado extremo. Algumas pessoas suspeitam que tal se deve ao esforço que tem de fazer para não levantar voo. Há também quem diga que, por vezes, o nariz dela brilha como se fosse uma lâmpada. Mas outras pessoas defendem que aquele estilo de passada é a forma normal das renas caminharem e que o brilho se deve apenas a gelo na ponta do nariz e a televisores mal regulados. É possível que nem a Coca-Cola conheça a verdade.

 

FIM

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Fotografias tiradas por aí (389)

por José António Abreu, em 24.12.17

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Porto, 2017.

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Capítulo 3

Revolução

 

Foi em meados de Outubro, e o duende barbudo havia de dizer que fazia todo o sentido ter sido naquela altura. O dia amanheceu com uns amenos vinte e três graus negativos, mas soprava um vento fresco vindo de Sul (no Pólo Norte o vento vem sempre do Sul e tende a criar remoinhos) que se metia pela gola das camisolas e arrefecia o nariz e a ponta das orelhas. O Pai Natal despediu-se da Mãe Natal com um beijo e um mau pressentimento. Ela disse: «Põe o gorro e não comas porcarias.» No Pólo Norte, havia poucos legumes e vegetais, mas ela dizia sempre aquilo.

Ao chegar à fábrica, o Pai Natal descobriu que pouco mais de uma dúzia de duendes comparecera ao trabalho. Tentou parecer bem disposto, esboçou mesmo um «ho-ho-ho» que saiu pouco convincente, e, porque não valia a pena dizer-lhes para irem trabalhar (faltava muita gente essencial para operar as máquinas e, de resto, quantos brinquedos poderia fazer aquele conjunto de gatos pingados?) ficou a conversar com eles, a explicar-lhes que não podia alterar assim as regras de um momento para o outro, a pedir-lhes que o ajudassem a convencer os colegas a esperarem pelo início do ano seguinte, altura em que poderiam discutir a questão mais calmamente. A certa altura, começou a repetir-se, mas continuou a falar porque – sentiu um bocadinho de vergonha ao percebê-lo – não queria deixá-los e ficar sozinho. Por um lado, sentia-se agradecido àqueles duendes, os mais fiéis, os poucos que continuavam a confiar nele; por outro, sabia que ia pôr-se a pensar na injustiça que tudo aquilo constituía e isso só lhe faria mal.

A conversa decorria há mais de uma hora quando se ouviu o ruído da multidão a aproximar-se. O Pai Natal foi à janela e disse «Oh-oh!» (Quando dizia apenas duas vezes, era sinal de preocupação.) Lá fora havia mais de uma centena de duendes. Tinham cartazes, mas – o que era muito mais preocupante – também tinham forquilhas, paus e machados. Embora a maioria fosse do sexo masculino, viam-se igualmente várias mulheres. Aos berros, o duende barbudo exigiu que o Pai Natal fosse lá fora. O Pai Natal hesitou. Leu alguns dos cartazes: O Natal é para Todos, Pai Natal - Símbolo do Imperialismo, Brinquedos Iguais para Crianças Iguais, A Chaminé dos Ricos é Mais Larga. Abriu a porta e saiu. O duende barbudo, brandindo uma forquilha, avançou dois passos e declarou que os trabalhadores haviam decidido tomar as instalações. O Pai Natal que se afastasse ou sofreria as consequências.

O Pai Natal tentou um «Oh-oh-oh!» pausado e em voz de desafio que não lhe saiu bem. Depois acrescentou: «O que é isto? Estão a expulsar-me da minha própria empresa? Fui eu quem pôs isto tudo de pé.»

Era a resposta errada. O duende berrou: «Só conseguiu fazê-lo com a ajuda de centenas de trabalhadores a quem sempre pagou uma ninharia! E para manter um sistema injusto, que privilegia os mais ricos! Não o voltaremos a avisar: saia da frente ou afastá-lo-emos à força.»

As caras dos duendes que haviam vindo trabalhar surgiram nas janelas, o que só pareceu irritar mais o duende barbudo. «Traidores!», gritou. «Preferem ficar do lado do capital em vez de se juntarem aos vossos camaradas!» E logo a seguir, sem dar hipótese ao Pai Natal de voltar a falar: «Em frente! À carga!»

Correu para diante, um bocadinho aos tropeções porque os pés se lhe enterravam na neve, com a forquilha apontando para a frente. Durante um instante, foi o único a mover-se, mas depois todos os outros o seguiram, largando os cartazes e agitando as armas.

O Pai Natal constituía um alvo fácil. Tentou desviar-se, mas a forquilha atingiu-o no joelho esquerdo. Era uma táctica antiga dos duendes quando batalhavam seres de maiores dimensões: atingi-los nas pernas, de modo a fazê-los tombar, e depois acabar com eles. Quase resultou mais uma vez. O Pai Natal soltou um único «Oh!» abafado, rodopiou, quase caiu, mas, de forma surpreendentemente ágil para alguém tão velho e tão volumoso, conseguiu manter-se em pé e fugiu a coxear para o interior da fábrica.

O que se passou a seguir foi tão violento que mais vale não descermos a um nível de pormenor muito grande. O ataque à fábrica incluiu o arremesso de cocktails molotoff, feitos com óleo de foca, e, porque tudo isto era novidade para os duendes e alguns haviam percebido mal as instruções do duende barbudo, também de alguns pudins molotof. Com as instalações a arder, o Pai Natal e os duendes que tinham ido trabalhar foram obrigados a sair e os restantes lançaram-se a eles. O duende barbudo voltou a atacar o Pai Natal com a forquilha e desta vez espetou-lha na perna direita. O Pai Natal caiu e depois já não teve hipótese. A última coisa que disse foi um «Oh» muito baixinho e prolongado.

 

Os duendes olharam para as renas. Via-se que elas sentiam o perigo. Mantinham-se juntas, de cabeça erguida, orelhas espetadas, narinas a tremer, como que detectando o odor a sangue espalhado pela neve.

«O que lhes vamos fazer?» perguntou um dos duendes.

«Não podemos confiar nelas» disse o duende barbudo. E acrescentou: «Temos de as matar. De resto, a carne dá-nos jeito.»

Dirigiu-se para o redil. Os outros seguiram-no.

As renas pareciam atordoadas e nem tentaram voar. Limitaram-se a correr de um lado para o outro. À medida que iam sendo atingidas nas pernas por machados ou facas, caíam e eram rapidamente abatidas. Só depois de estarem todas mortas, a neve mais vermelha do que branca, é que os duendes se aperceberam de que Rodolfo não estava entre elas. Procuraram-no, mas em vão. Rodolfo, a rena preferida do Pai Natal, conseguira escapar.

Mais tarde, alguns duendes viriam a manifestar remorsos pela morte das renas, mas nenhum recusou a sua parte da carne.

 

A Mãe Natal julgava-se bondosa e, por isso, muito apreciada, mas tal não era inteiramente verdade. Bastantes duendes, especialmente do sexo feminino, achavam-na falsa, demasiado habituada aos benefícios de ser casada com o Pai Natal e nada preocupada com as dificuldades deles. Claro que apenas o diziam quando ela não estava presente, pelo que a Mãe Natal continuava a manter a ilusão. No dia da revolta, as coisas passaram-se tão depressa que ela nem chegou a perceber a verdade.

Fora às traseiras buscar um par de costelas de alce e preparava-se para as meter na frigideira previamente untada com gordura de foca quando o duende barbudo e outros dois duendes entraram sem bater à porta. A Mãe Natal achou isto muito estranho. Mas depois pensou que o Pai Natal devia ter sofrido um acidente e nem chegou a criticar o duende barbudo e os outros dois duendes pela falta de respeito. Perguntou apenas: «Aconteceu alguma coisa ao meu Nico?» (Só costumava chamar-lhe assim quando estavam sozinhos, mas naquele momento, com a preocupação, escapou-lhe.)

Ligeiramente surpreendido por ela não se ter apercebido de nada, o duende barbudo disse: «Em nome da Revolução, vimos prendê-la.»

A Mãe Natal franziu a testa. «Em nome da quê? Agora não tenho para brincadeiras, tenho que fazer o almoço.»

Voltou-se outra vez para o fogão e tratou de colocar as costeletas na frigideira. Como a gordura de alce já estava quente, começaram imediatamente a ouvir-se estalinhos.

O duende barbudo dissera aos outros que não iam magoar a Mãe Natal, apenas prendê-la num barracão até ser decidido o que fazer com ela. Dissera-o porque não queria suscitar discussões e porque lera ser esse o procedimento correcto a ter com familiares do líder deposto. Mas a verdade é que também lera que, mais tarde, eles deviam ser executados a tiro, o que o deixara com muitas dúvidas sobre a lógica do processo (infelizmente, o livro era vago neste ponto). Deixar a Mãe Natal viva significava correr o risco de que ela conseguisse manobrar os duendes que fossem entretanto perdendo o ímpeto revolucionário. E seguir o procedimento do livro criava ainda um problema logístico: por imposição da Coca-Cola, preocupada com a possibilidade de reportagens negativas, as armas de fogo verdadeiras estavam proibidas no Pólo Norte e até as de brinquedo eram fabricadas em quantidades cada vez menores.

Assim, quando a Mãe Natal lhe voltou as costas para tratar das costeletas, o duende barbudo viu uma oportunidade para acabar de imediato com o assunto. Deitou a mão ao atiçador da lenha que estava pousado ao lado do fogão (não há gás canalizado no Pólo Norte), saltou para cima de uma cadeira, e acertou com ele na cabeça da Mãe Natal. Ela ficou muito surpreendida, mas durante pouco tempo, porque ele lhe bateu mais duas vezes logo a seguir, fazendo-a cair no chão.

Então o duende barbudo saltou da cadeira e, perante o ar espantado – e até um bocadinho horrorizado  - dos outros dois duendes, disse: «Pronto. Agora a Revolução está completa. Se alguém perguntar, ela tentou fugir.»

Cheirou o ar, onde já se notava o odor das costeletas a fritar, e pensou que a Mãe Natal podia ter muitos defeitos, entre os quais uma total indiferença pelas injustiças sociais, mas que sabia cozinhar, lá isso sabia.

 

O capítulo 4 (de 4) será publicado amanhã às 11 horas e 11 minutos.

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Capítulo 2

Contestação

 

Nessa noite, o Pai Natal percorreu devagar os menos de cem metros que separavam a fábrica de brinquedos da sua casa. Estava muito preocupado. Sentia necessidade de conversar com alguém e ponderou contornar a casa e ir ter com Rodolfo ao cercado das renas. Mas acabou por entrar, deparando com a Mãe Natal a costurar mais um gorro vermelho com uma borla branca. Todos os anos obrigava o marido a levar pelo menos duas dúzias de gorros no trenó. Dizia-lhe: «Não faz mal levares a mais, faz mal é levares a menos. Já sabes que o vento te arranca sempre alguns da cabeça e que perdes mais uns quantos a descer pelas chaminés. E também sabes que, sem a cabeça protegida, te constipas imediatamente. Não queres passar outra Passagem de Ano na cama, pois não?» Ela tinha razão, mas o Pai Natal detestava vê-la fazer os gorros porque não conseguia deixar de se sentir uma criança pequena e irresponsável, que era preciso proteger.

Sentou-se ao lado dela e contou-lhe o que sucedera. A Mão Natal ouviu-o enquanto cosia a borla à ponta do gorro, e depois disse: «Não há-de ser assim tão grave.» Espetou a agulha numa almofadinha pequena que colocou dentro da caixa de costura e pousou o gorro no braço da cadeira. «O jantar é outra vez foca.»

 

Depressa começou a ficar evidente que a situação era grave. Nos cinco meses que passara no Pólo Norte, o duende barbudo conseguira arregimentar meia dúzia de duendes para as suas ideias. Falava-lhes dos direitos do proletariado (por vezes dizia «os direitos dos mais pequenos contra os grandes», o que, considerando o tamanho dos duendes, era uma forma duplamente traiçoeira de espicaçar os ânimos), da redistribuição da riqueza, do colocar o poder ao serviço do povo. O Pai Natal julgava ter sempre tratado os duendes com respeito. Desde logo, não haveria certamente muitas empresas no mundo que dessem emprego a tantas pessoas que, mesmo não o sendo, apresentavam características parecidas com as pessoas com deficiências de crescimento. Mas o duende barbudo – um tudo-nada baixo, mesmo para os padrões dos duendes, facto que, matutava por vezes o Pai Natal, talvez não se encontrasse totalmente desligado do fervor com que defendia as suas ideias políticas – dizia-lhes que reparassem como eram explorados; como, nas semanas anteriores ao Natal, as horas extraordinárias eram numerosas e mal pagas; como as refeições eram pouco variadas e nem sequer incluíam Coca-Cola, apesar do contrato chorudo que o Pai Natal tinha com a empresa; como não dispunham de seguro de saúde nem de plano de poupança para a reforma; como certas máquinas e utensílios – martelos, serrotes, baldes, pincéis – eram comprados sem levar em atenção o tamanho dos duendes. Enfim, enchia-lhes a cabeça com ideias que, para muitos ali no Pólo Norte, constituíam inteira novidade. E resultava. À noite, em casa, os casais de duendes discutiam-nas, olhando para os filhos pequenos – mesmo muito, muito pequenos -, deitados nos berços ou brincando no chão. Perguntavam-se o que aconteceria se o Natal passasse de moda ou o Pai Natal decidisse reformar-se. No dia seguinte, vinham ter com ele e exigiam escolas e universidades para os filhos e planos de poupança reforma para eles próprios.

Mas se os meses anteriores à conversa entre o Pai Natal e o duende barbudo  haviam sido difíceis, tudo se complicou muito mais logo a seguir.

Três ou quatro dias após a conversa, o Pai Natal soube que o duende barbudo convocara uma reunião da comissão de trabalhadores e conseguira convencer a maioria dos duendes que faziam parte dela a exigir alterações na política da empresa. O Pai Natal não ficou surpreendido; o duende barbudo soubera rodear-se de gente que não lhe faria frente e na comissão de trabalhadores estavam apenas duendes facilmente influenciáveis e não muito espertos. A comissão exigiu uma reunião com o Pai Natal, mas esta até correu bem ao Pai Natal, que teve apenas de prometer estudar formas de aumentar ligeiramente («dentro dos prazos e do orçamento disponíveis») o número de brinquedos mais caros e distribuir esse acréscimo pelas crianças mais pobres. O duende barbudo não gostou nada do resultado da reunião e, nos dias seguintes, tratou de convencer toda a gente de que as promessas vagas do Pai Natal eram insuficientes. Uma semana depois, o Pai Natal recebeu um pré-aviso de greve. Ainda não se entrara no período de trabalho mais crítico do ano e o Pai Natal, depois de procurar nos livros o que era suposto dizer naquelas ocasiões (era inexperiente no assunto, uma vez que se tratava da primeira greve na história da fábrica de brinquedos do Pólo Norte), suportou a paragem com declarações de respeito pelos direitos dos trabalhadores. O problema é que a esta primeira greve seguiu-se outra, que até incluiu uma manifestação em frente à fábrica, com gritos de ordem e arremesso de pedaços de gelo e de bolas de neve (no Pólo Norte é difícil arranjar pedras). No dia seguinte, alguém fez explodir um pequeno armazém cheio de carros de bombeiros que haviam sobrado do ano anterior. O Pai Natal estava convencido de que o bombista fora o duende barbudo, mas não tinha provas. As opiniões extremaram-se e o Pai Natal tentou aproveitar as reticências de alguns duendes, que não aprovavam o uso da violência, mesmo que ela fosse apenas dirigida contra sobras de inventário. Não resultou. O duende barbudo foi-os convencendo de que o Pai Natal estava a ser hipócrita e quase todos acabaram do lado dele.

E depois veio o dia fatídico.

 

O capítulo 3 (de 4) será publicado amanhã às 10 horas e 32 minutos.

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Capítulo 1

Injustiça

 

Notícias e tendências demoravam a chegar ao Pólo Norte, mas o Pai Natal sabia que podia vir a ter problemas. Frequentemente dizia à Mãe Natal: «A revolução bolchevique está a mudar muitas coisas. Mais tarde ou mais cedo, essas novas ideias vão chegar cá.» A Mãe Natal olhava-o distraída e, em tom de quem estava mais interessada em decidir o que fazer para o jantar, perguntava: «Por que é que haviam de se meter contigo? Forneces alegria a crianças espalhadas por quase todo o mundo. Quem é que pode levar isso a mal?» Ao mesmo tempo, abria a caixa da costura ou punha uma cafeteira ao lume. O Pai Natal dominava uma ligeira irritação, pensava que mais valia falar com Rodolfo do que com a mulher (o que por vezes fazia), e remetia-se a um silêncio preocupado. Quando tudo aconteceu, só ficou admirado por ter demorado tanto tempo.

Como seria de esperar, foi o duende barbudo admitido cinco meses antes e que rapidamente exigira a formação de uma comissão de trabalhadores quem primeiro se apercebeu do facto ao examinar os planos de produção. Bateu à porta do gabinete do Pai Natal e perguntou-lhe sem rodeios: «Por que é que as crianças ricas recebem brinquedos mais caros? Não deviam ser todos do mesmo preço? Ou até ao contrário: os brinquedos melhores para as crianças pobres, que as ricas já têm suficientes?»

Os olhos do Pai Natal, sentado atrás da grande secretária onde, por esta altura do ano, se empilhavam sempre enormes pilhas de papel com nomes, moradas, relatórios de comportamento e listas de brinquedos disponíveis, conseguiam ainda assim estar a um nível ligeiramente mais elevado do que os do duende barbudo, que permanecia em pé entre a secretária e a porta. Devido aos montes de papel, o Pai Natal quase nem lhe via a barba, parecida com a dele próprio mas totalmente preta. No entanto, via-lhe os olhos, e estes mostravam uma firmeza tão grande que o Pai Natal se sentiu de repente muito pequenino – mais pequeno do que o duende barbudo. Consciente de que chegara o momento, usou a resposta preparada durante anos: «Tentamos dar às crianças os brinquedos que elas pedem. É esse o nosso compromisso e é isso que faz a felicidade delas. É verdade que as crianças ricas pedem coisas mais caras, mas deveríamos desiludi-las? São apenas crianças.»

O Pai Natal testara aquele argumento na Mãe Natal várias vezes e ela sempre parecera achá-lo bastante sólido. Mais importante: experimentara-o também em Rodolfo, cujo nariz se iluminara por um instante, sinal inequívoco de admiração ou de alegria (ou de constipação, mas o Pai Natal escolhera sempre momentos em que Rodolfo andava de boa saúde). O duende barbudo, todavia, não pareceu impressionado (o Pai Natal sabia que não o devia ter contratado; sentira-o imediatamente após tê-lo feito) e disse que aquele não era um bom argumento; que, evidentemente, as crianças mais pobres pediam coisas mais baratas porque era aquilo que conheciam e que imaginavam ao seu alcance; que, ao fazer a vontade às crianças mais ricas, estas habituavam-se a ter todos os seus desejos satisfeitos e a conseguirem sempre tudo sem esforço, o que as transformava em adultos sem respeito pelos outros; que, sendo o Natal uma época do ano em que se procura transmitir um imagem de respeito, igualdade e paz, e procurando o Pai Natal transformar-se no símbolo desses ideais – aqui o duende acrescentou qualquer coisa sobre «o que, pelo menos numa fase intermédia, talvez seja útil, porque sempre retira protagonismo à Igreja» –, devia procurar corrigir as injustiças em vez de as reforçar; finalmente, que os tempos haviam mudado e que já era altura de essas mudanças chegarem ao Pólo Norte.

Enquanto o duende barbudo falava (o que sucedeu durante bastante tempo, embora tudo o que ele disse se encontre no parágrafo anterior), o Pai Natal procurava descobrir um modo de lhe dizer que não iria alterar regras que vinham funcionando tão bem há já dezenas de anos só para satisfazer os desejos revolucionários de um duende que – o Pai Natal já o percebera – gostava mais de falar do que de trabalhar. Incapaz de arranjar um argumento que fosse simultaneamente firme e amigável, permaneceu calado, olhando o duende barbudo nos olhos. Este acabou por ser forçado a perguntar: «Então? Vai alterar as regras este ano?»

«Não posso. É demasiado tarde.»

«Não é demasiado tarde. Os brinquedos ainda estão por fabricar.»

«Mas as encomendas de material têm de seguir nos próximos dias. Não há tempo para as alterar.»

«Não é preciso alterá-las. Quando muito, apenas corrigir quantidades. E depois refazer as listas de entrega, fazendo corresponder os brinquedos mais caros às crianças mais pobres.»

«Como se isso fosse fácil… Os brinquedos mais caros demoram mais tempo a produzir, até ao Natal já não há tempo. E também são mais caros. Não temos orçamento para alterar assim as quantidades.»

O duende barbudo ficou um instante em silêncio. Depois apontou para um cartaz na parede.

«Isso são tudo desculpas. O que você não quer é chatear a Coca-Cola. A sua fama disparou quando eles o começaram a apoiar. Quanto é que lhe pagam por ano?»

O Pai Natal sabia que estava em terreno cada vez mais perigoso. Para gente como o duende barbudo, a Coca-Cola era um símbolo de tudo o que ia mal no mundo.

«Isso não vem ao caso. A Coca-Cola é o nosso principal financiador, sim, e tem o direito de usar a nossa imagem. Mas isso não quer dizer que mandem em nós.»

Não era inteiramente verdade. O contrato estabelecia regras; qualquer alteração nas mesmas tinha de ser discutida entre ambas as partes e a Coca-Cola dispunha de um número incrivelmente elevado de advogados, que arranjavam sempre imensos problemas.

O duende barbudo disse: «Não acredito em si. Mas também não interessa. Vou convocar uma reunião da comissão de trabalhadores. E pode ter a certeza de que se tomarão medidas para alterar esta injustiça.»

Depois virou costas e saiu do gabinete. Foi o princípio do fim.

 

O capítulo 2 (de 4) será publicado amanhã às 10 horas e 56 minutos.

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Música recente (156)

por José António Abreu, em 21.12.17

Tarja, álbum From Spirits and Ghosts.

Tenho pouca paciência para álbuns de Natal. De vez em quando, porém, surgem alguns que, indo além do terreno mil vezes pisado, me conseguem atrair. É o caso de Midwinter Graces, de Tori Amos, ou de A Drifter in the Snow, de Aimee Mann. Posso agora juntar à lista este From Spirits and Ghosts, da finlandesa Tarja Turunen. Ao contrário dos referidos, é composto quase exclusivamente por versões de temas que toda a gente conhece, mas adaptados com uma faceta gótica que lhes adiciona um toque especial, fazendo pensar em Natais ao estilo dos filmes de Tim Burton. De resto, Tarja não quis deixar dúvidas e acrescentou um subtítulo esclarecedor: Score for a Dark Christmas. Porque, no fim de contas, tradicionalmente o Natal é - ou devia ser - um instante de harmonia e calor numa época do ano escura e fria. 

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O tamanho do meu interesse pelas eleições no PSD

por José António Abreu, em 20.12.17

Zero vírgula zero. Valor arredondado à vigésima casa decimal. Sendo que um PSD forte e diferente do albergue de interesses pessoais e corporativos que é hoje o PS seria essencial para o desenvolvimento do país.

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Música recente (155)

por José António Abreu, em 19.12.17

Björk, álbum Utopia.

A tendência actual para fugir ao humano, ou pelo menos a muitas das formas e hábitos que o têm caracterizado, consegue ser um pouco mais do que ligeiramente irritante. Contudo, se alguém, pela sinceridade e coerência demonstradas ao longo do tempo (é lembrar "Human Behaviour", do álbum Debut, já lá vão vinte e quatro anos), merece alguma indulgência, esse alguém é Björk. Depois de um álbum em que sarava as feridas de uma relação sentimental terminada, apresenta desta feita um álbum luminoso, no qual parece buscar um ideal em que o humano se dissolva nas restantes formas de vida do planeta (e até mesmo no próprio planeta). Algumas letras são básicas, o modo como Björk pronuncia os 'r' lembra a lengalenga sobre o rato que roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia, e o som de passarinhos chega a exasperar, mas justifica amplamente uma audição.

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Diário semifictício de insignificâncias (34)

por José António Abreu, em 18.12.17

Aguardo sozinho no passeio a mudança do semáforo quando uma miúda (loura, sete ou oito anos) me grita da janela de trás de um carro que passa: «Adeus!»

Com atraso, devolvo-lhe o cumprimento. Fico a sorrir, mas depois começo a perguntar-me por que razão gritara ela «adeus». Por que não «Olá», «Bibó Porto» ou «És velho»? Será um presságio?

Tenho imenso cuidado a atravessar a rua e em todo o trajecto até casa. Mas durante o jantar quase me engasgo. Se amanhã não acordar, fica tudo explicado.

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Fotografias tiradas por aí (388)

por José António Abreu, em 17.12.17

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Porto, 2005.

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Jazz de 2017

por José António Abreu, em 17.12.17

Há neste blogue quem acompanhe muito mais o universo do jazz do que eu (estás aí, José Navarro de Andrade?). Seja como for, vou permitir-me a desfaçatez de salientar alguns álbuns lançados em 2017. Dentro de cada grupo, a ordem é alfabética.

 

 

ÁLBUNS INSTRUMENTAIS

 

Anouar BrahemBlue Maqams. Há quem não goste do «som ECM» (não é verdade, José Navarro?). Admitindo que os lançamentos por vezes se confundem uns com os outros, eu gosto. A música da ECM descontrai-me e eu preciso de ser descontraído com uma certa frequência. Blue Maqams é um álbum sublime do tunisino Brahem, um tudo-nada mais próximo do jazz do que muitos dos seus outros trabalhos (que diria mais ligados à música tradicional árabe). A colaboração de Dave Holland, Jack DeJohnette e Django Bates - todos excelentes - terá certamente algo a ver com o assunto.

(Vídeo promocional. Pequeno, que a ECM é um nadinha forreta nestas coisas.)

 

Dan Tepfer TrioEleven Cages. Todos os anos saem inúmeros álbuns de trios. De entre a minúscula fracção que ouvi, este, do trio liderado pelo pianista norte-americano (nascido em Paris) Dan Tepfer, é um dos meus favoritos.

 

Jaimie BranchFly or Die. Estou num meio-termo irritante no que respeita ao jazz (o que sou forçado a admitir por estes dias...): a minha paciência para a enésima gravação de clássicos é limitada, mas os sons mais experimentais raramente me atraem. Fly or Die, o primeiro álbum da trompetista norte-americana Branch, é razoavalmente experimental mas permanece melódico.

 

Mário Laginha, Julien Argüelles e Helge Andreas NorbakkenSetembro. Aqui com o auxílio do saxofonista inglês Julien Argüelles e do percussionista norueguês Helge Andreas Norbakken, Laginha continua a fazer excelente música, num registo leve e subtil. Quem desejar simultaneamente manter-se nos portugueses e um som mais vanguardista, pode experimentar The Attic, de Rodrigo Amado, Gonçalo Almeida e Marco Franco, um álbum ao vivo gravado na Parede em 2015, mas lançado apenas este ano.

 

Miles OkazakiThe Trickster. Tendo a fugir de álbuns baseados em guitarra eléctrica (detesto solos de guitarra eléctrica com mais de, vá lá, dez segundos). No entanto, gosto deste. Inspirados nos jogos a que os deuses clássicos se entregavam para espantar o ócio e conviver com os humanos, os temas mantêm uma faceta maliciosa, sugerindo brincadeiras ocasionalmente perversas (os deuses clássicos teriam muitos problemas na Hollywood dos dias actuais).

 

Nomade OrquestraEntreMundos. Dez brasileiros que fazem música de fusão com um cunho tipicamente carioca (e daí, carioca talvez não seja o termo mais adequado, uma vez que eles são de São Paulo).

 

The Comet is Coming, Death to the Planet. Um EP adequado ao sentimento dos tempos, com faixas intituladas Start Running e Final Eclipse. Estranhamente - ou talvez não -, revela-se bastante optimista, numa linha 'que se lixe isto tudo'.

 

Vijay Iyer SextetFar From Over. Expansivo, alternando harmonia e dissonância, Ocidente e Oriente, com os seis músicos (entre os quais o baterista Tyshawn Sorey, que também lançou um novo álbum em 2017) perfeitamente em sincronia.

(Vídeo de promoção. Pequeno, que a ECM, etc.)

 

Yazz AhmedLa Saboteuse. Provavelmente o álbum de jazz que mais ouvi este ano. Ahmed é uma trompetista britânica, que cresceu no Bahrain e já colaborou com os Radiohead. O álbum - o seu segundo - usa sonoridades árabes de modo absolutamente infeccioso (no bom sentido).

 

 

ÁLBUNS MISTOS 

 

Ahmad JamalMarseille. Uma declaração de amor à cidade, de um mestre do piano que completou 87 anos em 2017.

(Video de um dos temas.)

 

Linda May Han Oh, Walk Against Wind. Nasceu na Malásia, cresceu em Perth e toca contrabaixo em Nova Iorque. Walk Against Wind (bom título) inclui temas de uma elegância sombria, ligeiramente cinematográfica. 

 

Nate Smith, Kinfolk: Postcards from Everywhere. Outro álbum que ouvi bastante vezes em 2017, talvez porque se situa naquele registo que estabelece a ponte para o pop/rock.

 

 

ÁLBUNS VOCAIS

 

SomiPetite Afrique. Somi é uma nova-iorquina com raízes nigerianas. Os seus dois álbuns lembram-me os dois principais romances de Chimamanda Ngozi Adichie. O primeiro - The Lagos Music Salon - leva o ouvinte até à Nigéria (tal como Half a Yellow Sun); este segundo debruça-se sobre uma zona do Harlem nova-iorquino ocupada por imigrantes de origem africana (tal como Americanah foca a integração dos imigrantes africanos nos Estados Unidos).

Zara McFarlane, Arise. Se Somi vai beber directamente a África, McFarlane chega lá através das Caraíbas. Talvez a música de McFarlane não seja bem jazz, mas, como deixei claro no início, eu também não percebo grande coisa do assunto. (Já chegaste, José Navarro?)

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O segundo melhor amigo do mundo

por José António Abreu, em 14.12.17

George Clooney ofereceu um milhão de dólares a cada amigo. Como o Santos Silva, utilizou malas com dinheiro mas - totó - pagou os impostos devidos. Entretanto, Vieira da Silva já declarou nem sequer saber onde fica Hollywood.

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Música recente (154)

por José António Abreu, em 12.12.17

Charlotte Gainsbourg, álbum Rest.

 Submergindo inseguranças e tristezas em ondas de som, Gainsbourg cria um caleidoscópio que não ficaria mal como banda sonora de um filme de terror à italiana (pode não parecer, mas é um elogio).

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Diário semifictício de insignificâncias (33)

por José António Abreu, em 11.12.17

Vou buscar as folhas à impressora e revejo-as uma a uma. Modéstia à parte, está um trabalho do caraças. De pouco me servirá, no entanto. Tudo somado, na maioria das organizações, a função mais importante da competência é ajudar a perpetuar a incompetência alheia.

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Fotografias tiradas por aí (387)

por José António Abreu, em 10.12.17

Blogue_Paris2009.jpg

Paris, 2009. 

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Música recente (153)

por José António Abreu, em 08.12.17

Mavis Staples, álbum If All I Was Was Black.

Staples tem setenta e oito anos. Viu muito, em quase oito décadas. Passou pelas guerras da Coreia, do Vietname e do Golfo, por momentos de divisão entre os norte-americanos, como as lutas pelos direitos sociais na década de 1960, e por momentos de união, como o que se seguiu aos atentados de 11 de Setembro de 2001 (durou pouco). Hoje, com a sociedade mais uma vez dividida, mantém a esperança. Os dez temas, compostos para ela por Jeff Tweedy, dos Wilco (e que excelente trabalho ele fez), não fogem aos problemas, mas pegam-lhes numa perspectiva optimista, salientando a necessidade de entendimento e de superação. A voz experiente de Staples adiciona peso às palavras e a sonoridade, uma mistura de R&B com Country, dois estilos tão tipicamente norte-americanos, um mais associado à comunidade negra, o outro à comunidade branca, constitui a cereja no topo do bolo de um álbum baseado na ideia de união. 

 

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Diário semifictício de insignificâncias (32)

por José António Abreu, em 06.12.17

Fecho o Kindle. Acho que suspiro (mas talvez não, que seria má literatura). Isto de ler livros electrónicos  - cada vez mais, graças ao maravilhoso Acordo Ortográfico -, e de a Amazon fazer promoções a dois e três dólares por livro, leva-me a experimentar autores que tenho quase a certeza de não ir apreciar. O prazer da confirmação é nulo ou, pelo menos, está longe de compensar outra sensação, antiga e insidiosa: a maior vergonha nem é todos os livros que não li e devia ter lido, mas os que li no lugar deles.

Possuo uma desculpa, todavia, quase tão antiga mas bastante menos espontânea: são estas derivas (dos clássicos para o mainstream, do mainstream para os nichos, dos nichos para o experimentalismo) que, na literatura, no cinema, na música, na arte, na gastronomia, até no vestuário, tornam cada pessoa única. Se todos lêssemos, ouvíssemos e víssemos o mesmo, ainda que esse mesmo fosse o melhor em cada campo, que piada teria o mundo?

Evidentemente, não resulta. Continuo a sentir-me um idiota. Muito pouco singular e, graças aos esforços para acreditar na desculpa, até um nadinha ridículo.

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Música recente (152)

por José António Abreu, em 05.12.17

Protomartyr, álbum Relatives in Descent.

Um hino de raiva e inquietação, sinuoso e politicamente carregado, como a sonoridade punk (ou pós-punk, ou qualquer coisa assim) praticamente exige. 

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Sempre que um português é eleito para um cargo internacional, o establishment político e comentadorístico nacional exulta. O cargo em si e o que ele implica interessam pouco. O que interessa é o «reconhecimento» das «qualidades» de mais um cidadão português por entidades estrangeiras, fazendo das referidas «qualidades» não apenas indiscutíveis como uma extensão das qualidades (sem aspas, que algumas hão-de ter) dos embevecidos políticos e comentadores.

Evidentemente, também há em tudo isto uma componente de hipocrisia. Em Portugal não se criticam portugueses que ascendem a cargos internacionais (ainda que - por exemplo - tenham sido péssimos primeiros-ministros) do mesmo modo que não se critica (pela frente) gente que acabou de ser galardoada com um prémio qualquer ou que acabou de falecer. Parece mal.

É pois entre a parolice do deslumbramento e a cobardia da necessidade de manter aparências que a eleição de Mário Centeno vinha já sendo encarada como uma estrondosa vitória para o país em geral e para o governo em particular. Contudo, uma dose de ilusão permeava - e permeia - igualmente todo o processo. Em arroubos de entusiasmo, António Costa e alguns comentadores mais optimistas não se coibiram de sugerir que instalar Centeno à frente do Eurogrupo constituiria uma lança em África capaz de alterar o curso das políticas orçamentais da Zona Euro. É esquecer vários detalhes: a situação do governo alemão, temporariamente mais preocupado com outros assuntos; o facto de a eleição resultar muito mais de acordos entre famílias políticas europeias (o Partido Popular Europeu já detém as presidências da Comissão e do Conselho) do que de real mérito; o destino de várias figuras  tragicómicas que, nos últimos anos, de Hollande ao par Tsipras-Varoufakis, iam fazer precisamente isso. Mas, acima de tudo, é esquecer que as instituições europeias têm o condão de moldar as pessoas aos cargos e não o contrário. De resto, quando as pessoas são portuguesas, até costuma ser fácil. Pense-se em Durão Barroso ou nessa eminência que chegou a garantir que o euro acabaria com as preocupações orçamentais portuguesas, Vítor Constâncio. À frente do Eurogrupo, Centeno terá que ajudar a fazer cumprir as regras orçamentais europeias, ainda que elas não sejam ideais para a política de eterno adiamento favorecida pelo governo português, e nem deverá experimentar grandes pruridos em fazê-lo. O ofuscante oportunismo que em 2015 lhe permitiu enfiar na gaveta as convicções em relação ao mercado de trabalho permitir-lhe-á certamente colocar os interesses da «Europa» - e de uma carreira internacional - à frente dos de António Costa e respectivos acólitos. O que, a acontecer, Costa só poderá achar natural: o oportunismo é algo que ele entende perfeitamente.

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