Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Não compreendem

por José Meireles Graça, em 15.07.20

A Câmara Municipal de Lisboa é um lugar mágico: Foi ali que, numa manhã gloriosa de Outubro de 1910, José Relvas proclamou a República a meia dúzia de basbaques, feliz iniciativa que o telégrafo se encarregou de comunicar ao resto do país.

O novo regime veio garantir que o Poder Moderador não mais seria exercido por quem derivasse a sua legitimidade de ser filho de seus pais, mas antes por uma litania de filhos da mãe, e que a bandeira do país “modesta e grave, como convém a quem viu tanto perigo e tanto mar”, seria substituída por uma pletora de símbolos e cores inspiradas nas bandeiras de países africanos ainda por nascer.

O lugar de presidente da Câmara do, na opinião dos locais, concelho mais importante do país, viria a ser do maior relevo. E, em nossas vidas, vimos dali sair para a presidência da República vultos como Sampaio, autor dos mais entediantes e esquecíveis discursos que a banalidade militante já produziu, ou para a presidência do Conselho de Ministros Santana Lopes, um conhecido apreciador de peças musicais que nem os respectivos autores reconheceriam, e António Costa, uma desgraça palavrosa e vácua que detém a suprema habilidade de convencer os magistrados da opinião de que nutre para o país outra ideia que não seja a sobrevivência do vasto exército de clientes que sentou à mesa do Orçamento.

Pois bem: quem hoje ostenta o colar de mayor é um tal Medina, que se distinguiu por beijar o chão que o seu antecessor pisava com as nédias patas e que, de um início tímido feito de discursatas de circunstância, desabrochou num atrevido político de mão cheia ao qual se augura um risonho futuro, na hipótese de no país haver condições para continuar a progredir o retrocesso.

Pois este portento teve a ideia (não me foi possível até ao momento apurar se original ou copiada de outras paragens progressistas) de pintar de cores garridas o piso de certas ruas lisboetas. Entrevistados pelas televisões, os locais dizem coisas, como é costume os locais dizerem, um achando que o azul era adequado à próxima vitória do FCP e outro que discordava daquele tom de verde; e nas redes sociais instalou-se a polémica. Há quem lembre que aquelas tintas vão poluir (com o atrito do trânsito a pintura vai à vida e as partículas alojam-se algures, esperando-se todavia que não nos pulmões dos senhores edis), que a manutenção vai custar uma pipa de nota, que isto beneficia o comércio ou que pelo contrário o prejudica, que a ideia é muito bonita ou horrível.

Neste artigo explica-se vagamente o que vai na cabeça destas luminárias municipais e percebe-se que as horrendas pinturezas fazem parte de um quadro mental que inclui ciclovias, proibições de trânsito automóvel, diminuição de lugares de estacionamento, promoção de uma vida saudável e “mudanças de comportamento a longo prazo”.

“A ideia da cor é só para delimitar o espaço, marcá-lo para que as pessoas saibam que, agora, podem andar no meio da rua. Sem constrangimentos. O alcatrão não proporciona essa segurança. Além disso, a tinta é autonivelante, o que facilita a estadia em esplanadas’, explica o gabinete do vereador Miguel Gaspar”.

(Fui ver, por curiosidade, quem era este Gaspar, confiante em que se tratava de um dos dementes do Bloco. Não, é oriundo das mesmas coudelarias do Presidente).

Que pensar?

A discussão é surpreendentemente mansa. Quarenta anos de socialismos sortidos tiveram este resultado: É possível uma manifestação para “lutar” pelos direitos da comunidade LBGT (o “T” é de turbo, salvo erro), ou dos pretos, ou dos palestinos, ou dos imigrantes, ou dos cães e gatos abandonados, ou dos brasileiros que Bolsonaro oprime, ou dos brancos que oprime Trump. E, não há muito tempo, dos reformados, dos desempregados, dos empregados explorados, das vítimas da austeridade e de todo o cidadão que odiasse Passos. Manifestações de ofendidos pela prepotência das mudanças e em nome dos legítimos interesses prejudicados, isso não. A Câmara é de esquerda, é do povo, e o povo não se manifesta contra si mesmo, não é verdade?

Números: Os números estão ausentes, seja quanto custam estas frescuras, seja a quem foram adjudicados os trabalhos, por quanto e de que forma, quanto tempo se aguentam as obras sem necessidade de renovação, e quanto custará o reforço do policiamento (se a Câmara pinta para se publicitar, os artistas de rua também quererão enriquecê-las pelo efeito de lhes imprimir, pintando, as suas mensagens para o mundo cruel e injusto).

Trânsito: A ideia de que, numa cidade como Lisboa,  onde se está sempre a subir ou a descer, salvo para quem se deslocar ao longo da frente ribeirinha e de mar, e onde há muito mais velhos do que jovens, se pode significativamente substituir o transporte automóvel por bicicletas, releva de delírio. E como, para o automóvel que vai sendo perseguido e acantonado, não se criam alternativas de transporte colectivo (nem se criarão: borrar umas ruas e expectorar uns discursos e palpites não tem o mesmo grau de dificuldade que criar uma rede de transportes eficiente) do que estamos a falar é de um crime de moda de pensamento moderninho.

Prognóstico: Os munícipes, de Lisboa e dos outros concelhos, não costumam fazer a ligação entre o custo de obras e o que lhes sai do bolso. Isto decorre da opacidade do sistema fiscal e das contas dos municípios, das transferências de subsídios da UE (com frequência disponíveis apenas para fantasias), da falta de rigor da gestão financeira (ainda que empalideça em confronto com o regabofe do poder central), e da isenção de IRS para mais de metade dos contribuintes. Se o munícipe acha que são os outros que pagam, haveria de preocupar-se com o custo porquê? Não preocupa. E assim Medina, e os outros medinas todos que enxundiam o país como uma praga de gafanhotos, têm de fazer. Fazer o quê? Qualquer merda, desde que pareça progresso. A comunicação social, um vasto depósito de patetas de cujas cabeças está ausente qualquer ideia séria e comedida de respeito pela coisa pública, que foi substituído por concertos, trincas e mincas da política caseira, ideias gerais sobre tudo, e sobretudo erróneas, além de piolhos e lêndeas, faz o resto. De modo que as ruas pintadas vieram para ficar, até serem substituídas por outro disparate.

Estética: O alcatrão é preto, o granito cinzento. Alterar a cor tradicional é uma ideia anti conservadora porque o conservador acha que a tradição não tem de ter imutabilidade, mas a sua alteração deve ser justificada com as vantagens, sob pena de gratuitidade. O espalhafato, o berrante ó-pra-mim, o mudamos porque sim, são pirosos. E a quem assim não entenda a demonstração não pode ser feita porque não a compreenderia. Medina e os outros, claro, são desses – não compreendem.

Esplanadas

por José Meireles Graça, em 10.07.20

De regresso de uma curta ausência, voltei à minha pista pedestre/ciclística, para o habitual passeio de pouco mais de 6 km, ao fim da tarde. Há a meio uma zona de descanso, com um bebedouro e bancos. Nestes nunca me sentei porque são bancos com design, isto é, de betão e desprezando a função, o que faz com que, como estão à torreira do sol, devam estar a escaldar, e como são mal desenhados devam ser desconfortáveis.

O conjunto, projectado decerto por um desses arquitectos contemporâneos cujo sonho é reinventar a roda, estava há muito rodeado de fitas e grades por causa do extremoso cuidado da edilidade com a Covid, que hoje já estavam removidas. Compreende-se: um dos frequentadores podia surpreender uma das frequentadoras descansando de suas corridas e, enternecido pelo aspecto afogueado da jovem, e pelos seus shorts e top reveladores, entabular amigáveis conversações que, não sendo seguro que desembocassem na produção de um novel munícipe, e portanto potencial contribuinte, poderiam ainda assim espoletar um novo surto de infecção.

Não que interessasse muito: a própria pista esteve encerrada enquanto durou o confinamento, com a adequada vigilância da Polícia Municipal, não fosse algum munícipe, dos poucos que por lá andam, lembrar-se de ir fazer exercício e, pior, pôr em causa o claríssimo abuso de autoridade dos senhores edis. Que evidentemente não têm competência para impedir a circulação por causa de manias da vereação e terrores de uma população atordoada pelo massacre obsessivo da comunicação social, que reclama proibições, multas, interditos e toda a sorte de abusos – porque a causa parece justa, o medo é muito, e a ignorância ainda mais.

Quando se fizer a história que vale a pena, isto é, não a da Covid, mas a da vasta reacção de pânico injustificado que tomou conta do mundo, haverá lugar para pôr em contexto o poderoso impulso que a doença deu a toda a casta de estatismos, toda a sorte de intervenções e estupidezes das grandes e pequenas autoridades, todo o reforço injustificado de poderes das polícias, todo o desnecessário dano para a economia, e toda a dificuldade para fazer regressar esses monstros para dentro das respectivas caixas.

Entretanto, e para a pequena história, houve inesperados benefícios. Na minha cidade, havia falta de esplanadas: a Câmara local sempre teve uma palavra a dizer, porque o espaço é público, e essa costumava ser não.

Não porque o poder se mostra em todo o seu esplendor quando rejeita a pretensão do requerente; não porque os engenheirozinhos, os arquitectozinhos, os vereadorzinhos têm a sua tradição, e essa não é a de facilitar, anuir, concordar, mas a de colocar obstáculos que lhes justificam a importância.

Sucede que as regras de afastamento que ditaram a redução do número de lugares nos restaurantes levaram a que quem pudesse tivesse pedido para fazer uma esplanada, e quem a tinha para a aumentar. E foi permitido.

No centro da cidade (o novo, essencialmente do séc. XIX) a praça é periodicamente sujeita ao capricho e à moda, ou à ideia que dela fazem os parolos locais: Já teve jardim e coreto, o jardim já teve uma cerca e portões, já teve uma estátua, a fonte que lá está substituiu outra (embora não exactamente no mesmo local) que foi exilada, e em 2011 houve uma requalificação, que consistiu em tornar o espaço insusceptível de ser um lugar de convívio: quase não há sombra, o piso empedrado (desenhando uma planta do centro da cidade, utilíssima para quem vier de helicóptero) reverbera o calor, e de um dos lados colocaram um extenso e dispendioso gradeamento dourado separando o nada de coisa nenhuma, uma obra de arte de uma tal Ana Jotta que em devido tempo irá para a sucata (a obra, não a artista, que felizmente não conheço), seu destino natural.

Nos passeios alargados, onde aliás circula menos gente do que em tempos pretéritos porque a cidade cresceu, tem outros polos e outros hábitos, cabem à vontade esplanadas. E começam-se a ver, não por causa do senso, que não costuma ser atributo inerente à condição de autarca, mas da Covid.

Donde, concluo filosoficamente que Deus, às vezes, escreve direito por linhas tortas, e a Covid também.

O campeão da manha

por José Meireles Graça, em 01.07.20

Ultimamente tenho dado comigo a simpatizar com o nosso PM.

Calma, não mudei de opinião: o homem tem sobre o país, a economia e o mundo meia dúzia de ideias (e mais não seria preciso, se elas fossem boas), todas erradas, e isso no seu lado substantivo. No adjectivo, isto é, no feitio, no carácter, na cultura, nos modos, até mesmo na toilette, também não melhorou nadinha.

Por partes: Na luminosa cabecinha dos dirigentes do PS o país nasceu em 1974, titubeou à procura de amparo até 1986, sentou-se à mesa dos ricos em 1992, numa festa por multas para a qual contribuiu com boa disposição e anedotas, e é ocioso pensar nele fora do “quadro” da UE, da qual vem a chuva e o bom tempo. E continuará a vir até, quando chegarmos ao eldorado de uma federação, ficarmos com o mesmo estatuto que o Arkansas nos EUA, mas com óptimas praias que aquele infeliz Estado não tem, como dolorosamente lhe falta também o galo de Barcelos, os pastelinhos de Belém e uma quantidade adequada de dentistas e empregados de mesa.

O Arkansas já forneceu um Presidente e é justamente famoso pelas suas melancias. A comparação deixa a desejar pelo lado das cucurbitáceas mas resulta vantajosa no confronto entre Durão Barroso e Clinton – o primeiro nunca foi embaraçado, que se saiba, com histórias picantes em torno de charutos apagados. É porém um dos Estados mais pobres da União, e nada indica que venha a deixar de o ser. Esse destino ser-nos-á poupado, acreditam à volta de 90% dos 14 milhões de portugueses vivos, entre residentes e expatriados, pelo efeito do princípio dos vasos comunicantes aplicado à riqueza, que não se verifica em lado nenhum mas os europeístas, e Costa com eles, dizem que terá miraculosamente lugar aqui na Ibéria.

Quanto à economia, acha que a tal riqueza cresce pelo efeito de se a dividir por um número crescente de dependentes do Estado, desde que este se encarregue, baseando-se nas opiniões dos ungidos por diplomas das madraças de economia socialista, de fazer aqueles investimentos de grande rasgo e lucidez que um destes séculos porão o país a liderar o mundo nisto e naquilo, nos intervalos de falências periódicas.

O mundo de Costa é o da UE e logo a seguir o da ONU, onde o mestre de cerimónias é o seu colega e luzido estadista Guterres. Portugal está sempre do lado dos bons, isto é, aqueles sempre prontos a tomar medidas para combater as alterações climáticas, a desigualdade entre os antigos sexos, hoje géneros, e entre ricos e pobres e o Norte e o Sul, o imperialismo israelita, a América de Trump e o Brasil de Bolsonaro, a injustiça numa palavra.  Desde que tal combate se faça unicamente nas sociedades onde se pode fazer, isto é, no Ocidente; nas outras não, que deixaria evidente a horrível ideia de as civilizações não serem todas equivalentes.

Para quem ache que o que se deve procurar num político é o mesmo que se deseja para a namorada, o sogro, a nora, o amigo ou o sócio, isto é, para quem determine o seu voto não por ideias mas pelos sinais exteriores do feitio, Costa não serviria se o eleitor se incomodasse com a naturalidade e frequência com que mente, o português sumário em que se exprime, e até mesmo as farpelas com que se atavia quando decide ser natural. Mas não incomoda e, de toda a evidência, a sua popularidade deve muito ao andor em que a comunicação social beata e comprada o carrega e, sobretudo, aos bodos judiciosos que distribuiu pelo maior número possível de dependentes. Nada que não possa ser revertido – o seu antigo patrão Sócrates também foi um menino de ouro até dar com os clássicos burros na água.

Sucede que este homem tem a fina inteligência dos sobreviventes, que é mais adequadamente descrita como esperteza (transformou uma derrota numa vitória, comprou com mestria apoios inesperados, quebrou tradições da sua igreja partidária dando a impressão de fidelidade aos santinhos da congregação, apoiou-se nos serviços de um hábil vigarista que já despediu e recompensou, dominou competentemente uma comunicação social que conseguiu se demitisse completamente das suas funções) e foi até agora bafejado pela sorte, que porém acabou com a chegada da maldita Covide.

O país fez, para lidar com o problema, o que faz sempre – copiou. E como por toda a parte (salvo na Suécia e pouco mais) a receita consistiu primeiro em conseguir que as unidades de cuidados intensivos não fossem inundadas de casos que lhes ultrapassassem as capacidades (o achatar da curva) mas rapidamente evoluiu para a esperança louca de estrangular a pandemia com o prolongamento e endurecimento de medidas de isolamento, Costa foi obrigado (acredito que a contragosto – é o meu palpite) a acompanhar. Portugal não é hoje, e de há muito, um país independente, nem dispõe de qualquer autonomia face ao que decidem os directórios europeus, mas cabe notar que de qualquer modo a economia levaria sempre um grande tombo, qualquer que fosse o mix de políticas adoptadas, por causa da quebra do turismo e da exportação.

De modo que o pobre Costa deve ter visto há muito (antes da camarilha acéfala de que se rodeou, que anda aliás a dormir) o terreno a fugir-lhe debaixo dos pés e apostou as fichas no maná europeu (que vai espatifar, a esperteza não chega para ter um ataque de clarividência em economia, nem ele pode vir dos gurus da especialidade), no desconfinamento e na propaganda.

Daí o ataque de fúria na famosa reunião no Infarmed. A ministra Temido julga que a alhada em que estamos metidos é a da Covide, que das galinhas sem cabeça que pontificam na matéria, isto é, médicos de especialidades várias, virá alguma solução que preste, e que a máquina da Saúde pública, as polícias, a patética DGS, o stop-and-go de medidas em que com habilidade se transfere a responsabilidade das políticas públicas para os comportamentos individuais, são necessárias e suficientes para estancar o desastre.

Mas não são. O problema, antes de outra coisa qualquer, sempre foi de engenharia (como diz um amigo meu, dono de uma excelente cabeça, ainda que lá não more um jota de ciências sociais, particularmente história, que sobranceiramente despreza), isto é, de meios e organização para lidar com ele. Ora, a administração pública portuguesa nunca se distinguiu pela eficiência; o SNS sobrevive com crónica falta de meios, que foram desviados para comprar votos; a elite política, que é quem decide, calha ser socialista, ou seja, farinha do mesmo saco da massa ignara dos governados; e para limitar os estragos convinha falar cada vez menos da doença e cada vez mais da recuperação, o que é difícil porque o génio histérico que saiu da lâmpada agora não quer lá regressar.

Tudo leva a crer que isto vai acabar mal, e não me refiro à doença, que se vai juntar ao catálogo das outras com as quais um certo número de pessoas de idade se passa todos os anos para o outro lado, mas à economia.

Sócrates lixou-se não por causa das suas roubalheiras, que nunca teriam sido denunciadas se o país não tivesse falido, mas pela vinda da troica. E o mesmo eleitorado, que lhe deu vitórias e agora lhe dá desprezo, está aí pronto para crucificar quem esteja ao leme quando o desemprego subir sem subsídios e quando a austeridade não puder ser mais disfarçada com expedientes.

De modo que o homem, com uma mão de cartas baixas díspares, está a fazer das tripas coração porque vê o monte das fichas a diminuir e pergunta a si mesmo se, com o galo com que está, conseguirá recuperar. E vê uma brutinha como a ministra Marta, que não conhece as regras do jogo e não sabe interpretar os sinais dos outros parceiros de mesa, a insistir em apostas altas sem bluff? É um desespero.

De onde vem então a minha alegada simpatia do primeiro parágrafo, só disto? Não. Deu protagonismo a duas mulheres, cada uma medíocre à sua maneira (no caso da Directora-Geral com laivos de comicidade patética, no da ministra com uma imagem atraente de política queque), e isso sempre me pareceu estranho. Percebi agora, através das declarações de um homem de mão que orna a Câmara de Lisboa com a sua irrelevância, que as duas senhoras são na realidade fusíveis, destinados a queimar na eventualidade de alguma coisa correr demasiado mal, como está a suceder em Lisboa.

Bem visto. E como não peço desculpa a ninguém por ter uma grande admiração por Victor Lustig, tiro com respeito o meu chapéu ao prestidigitador Costa – não me tinha lembrado desta jogada. É verdade que o país não ganha nada com isso, e quase certo que desta vez os truques não vão chegar. Mas que o nosso António, como o descreviam com ternura os dois compères na Quadratura do Círculo, é o campeão da manha, lá isso é.

IPO

por José Meireles Graça, em 24.06.20

Tenho na garagem um charêlo com mais de 20 anos, que não se vende por razões sentimentais das autoridades domésticas e porque, de longe em longe, dá jeito.

Um luxo: levando em conta o custo do seguro, imposto de circulação (na realidade um imposto sobre a propriedade) e inspecção periódica mais valia alugar um carro quando fosse necessário.

Há uns anos o pagamento do IUC passou a fazer-se no aniversário do registo do automóvel, uma habilidosa mudança legislativa dos patifes que enxundiam a AT, contando que muitos condutores se esqueçam - se se esquecem do aniversário das consortes, por que raio haveriam de se lembrar do da porcaria do carro. A GNR, na realidade, para efeitos do trânsito automóvel, uma polícia fiscal, aplica multas terroristas em caso de esquecimento ou falta de dinheiro – este imposto e as multas respectivas castigam muitas vezes não a distracção mas a pobreza.

Multas gravosas são também devidas no caso da falta do abençoado selo da inspecção periódica. E por isso na semana passada levei o coche a um desses centros onde se fingem análises rigorosas e desisti porque havia aí uns 20 carros à frente; e a mesma coisa noutro da cidade que tem a honra de me contar nos seus naturais.

Ontem, porém, foi o dia. Esperei aí apenas umas duas horas debaixo de um sol abrasador e, quando chegou a minha vez, e porque o “perito” era novo, lá veio o diálogo surreal:

Abra o capot, por favor.

Para que efeito?

Preciso de pôr uns cabos no motor.

O motor não é à frente.

Então abra atrás.

Posso abrir (saindo do automóvel porque a tampa da mala só abre com a chave da ignição) mas por lá também não tem acesso ao motor, que é central.

Ah, e como vou fazer para ter acesso ao motor?

Não faço ideia, creio que por baixo, pondo o carro no elevador.

 

O homem resolveu o problema a contento, depois de obrigar a um tempo interminável com o motor às 3.000 RPM e gastando ainda mais com várias jigajogas para testar a suspensão e os travões.

Gosto destas partes gagas. E como não posso, como desejaria, enfiar uma carga de lenha no legislador que pariu estes inferninhos, faço parte daquela minoria de cidadãos impliquentos que têm, por funcionários, um respeito menos do que obsequioso, e pelas autoridades um escasso quanto baste.

Porque, sejamos claros, aqueles condutores que, debaixo de um sol escaldante, aguardam pacientemente que se lhes verifiquem os carros a troco de mais de trinta euros (o valor tem quebrados com cêntimos para dar a impressão que resulta de um qualquer cálculo científico e não de puro arbítrio; e porque a ideia de que um serviço público deve ter em conta a comodidade do público não cabe na cabeça de nenhum funcionário, e menos ainda na de um secretário de Estado qualquer com pressa de ir ao próximo workshop sobre o simplex) acreditam provavelmente que o que estão ali a fazer tem a ver com segurança rodoviária.

Mas não tem. Ninguém tem um carro a cair de podre se o puder ter em bom estado; ninguém circula com um carro com a direcção desalinhada, ou os travões em mau estado, ou os pneus gastos, se tiver meios para o reparar; ninguém, constatando que o veículo gasta anormalmente, deixará de o tentar corrigir; e, sobretudo, não faltam defeitos graves que um veículo pode ter, e que não são detectáveis pelos procedimentos normais de inspecção, como a Deco (uma organização socialista que, para resolver qualquer problema, reclama sempre mais funcionários e legislação) descobriu aqui há uns anos.

Investiram-se milhões para criar estes centros de parlapatice rodoviária; criou-se um corpo nacional de funcionários especializados em não fazer absolutamente nada de útil, enquanto há oficinas que têm dificuldade em recrutar mecânicos; deixou-se nascer um grupo de interesses que, à boleia da segurança rodoviária, torna impossível qualquer reforma que o prejudique; queimam-se milhares de horas de trabalho de pessoas que têm realmente que fazer e estão de guarda aos seus veículos, à espera de vez; e mobilizam-se armadas de burocratas que vão expelindo legislação, desde que em Dezembro de 1999 se transpuseram para o direito interno as elucubrações de uns anónimos do Conselho Europeu ou da Comissão (mais de meia dúzia de decretos-lei, desde então, e um número indeterminado de circulares e instruções de iluminados).

E então, a inspecção não serve mesmo para nada?

Serve:

Para a polícia se dispensar de verificar o estado do piso dos pneus (estes têm, actualmente, uns travessões que indicam o grau de usura), ou qualquer outra coisa, e perderem tempo a ver o bendito selo, no afã de passar a multazinha;

Para detectar desconformidades que nada têm a ver com segurança: há uns anos tive de substituir uma placa de matrícula porque a parte amarela estava desmaiada pelo sol (o mesmo amarelo com o mês e ano de registo que um legislador azeiteiro lisboeta achou que era indispensável figurar e agora um seu colega, com melhor gosto e possivelmente sem interesses em stands de automóveis, acha dispensável no modelo mais recente da mesma placa).

Para justificar multas, defesas, incumprimentos, ocupação dos tribunais com trivialidades, penhoras, e receita fiscal.

E de segurança, nada? Ora bem, o tal charêlo tem, há mais de uma dúzia de anos, o tensor do cinto de segurança do condutor avariado. Isto significa que o cinto não está lá a fazer nada, estando mais lasso do que as contas públicas. A Deco, se consultada, diria decerto que era preciso rever as normas, a ver se se consegue aumentar a lista de procedimentos até se perder não duas horas mas um dia, e pagar não um pouco mais de 30 euros mas meio salário mínimo. Pois bem, o cinto nunca ninguém viu. Ainda bem, desmontar aquela cangalhada seria um grande nó cego – o carro foi concebido por uns ingleses que já faliram, tem partes de ciência oculta.

Nunca ninguém viu que o cinto não funciona e quase ninguém vê os absurdos burocráticos que o moderno estado mete-se-em-tudo põe na vida das pessoas.

O carro, para a idade, não anda mal. E nós poderíamos andar melhor se víssemos os defeitos onde eles estão. Mas é como o cinto, está onde deve estar porque é obrigatório. Se funciona ou não – isso não interessa nada.

Quatro notícias e um funeral

por José Meireles Graça, em 18.06.20

I

A Liga dos Campeões será em Lisboa, anunciou ontem o PM numa sessão solene no Palácio de Belém, estrelada pelo dono do estabelecimento, o presidente da AR e o da Câmara, um Gomes que superintende no futebol e outras altas personalidades.

No brilhante improviso que Costa preparou, abundou na honra que a UEFA concedeu ao nosso país, na confiança demonstrada pela disciplina que o bom povo português evidenciou ao acatar as sábias determinações do governo com o qual a Providência nos abençoou, e no exaltante prémio que semelhante distinção constitui para os profissionais de saúde.

Marcelo, por sua vez, declarou à RTP3 “ser a marca Portugal aquela que vence e que se vai afirmar”.

II

Mas nem só de alegrias são feitos estes momentos. A Dinamarca, hoje, reabriu as fronteiras mas excluiu Portugal, expressamente, de semelhante benefício, com grave dano para aqueles afortunados turistas portugueses que tivessem a intenção de ir ver, tiritando de frio, a Pequena Sereia, ou pagar por um bilhete de acesso ao Tivoli o preço de um jantar para cidadãos honestos.

III

Há dias, milhões de brasileiros ficaram gelados com a confissão do PM Costa, que admitiu não lhes permitir a vinda a Portugal e aguardam, angustiados, uma decisão definitiva na matéria, não do governo português ou do senhor Presidente, cujos sentimentos de arreigado amor aos nossos irmãos de além-mar não carecem de sublinhado, mas de quem detém poderes de última instância.

IV

Soube-se hoje que está finalmente em gestação o Banco de Fomento, cujo parto apenas aguarda autorização do Banco de Portugal, que depende de Frankfurt, e de Bruxelas, que só depende de quem seja louro. Agregará dois organismos que ninguém sabia que existiam e destina-se a suprir as falhas da Caixa Geral de Depósitos, que é um banco excessivamente igual aos outros. O reforço do capital da CGD não convém porque dá muito nas vistas, e estima-se conveniente diversificar os instrumentos de controle da economia, que dá por vezes ainda sinais de indesejável independência.

Estas as quatro notícias, escolhidas de entre outras que ilustram como vai a nossa alegre casinha. Que diz este residente?

O nosso principal produto de exportação em notoriedade é hoje Ronaldo, como antes foi Eusébio, e o país ganha com isso. Mas produzirmos regularmente génios da bola não é sintoma de nenhuma verdadeira superioridade; o excesso de importância que o que gira à volta do jogo ganhou entre nós, a promiscuidade entre o poder suspeito, e com frequência corrupto, das instâncias futeboleiras e dos poderes públicos, não é sadio; nem, finalmente, a erecção dos triunfos desportivos em desígnio nacional nos engrandece ou resolve qualquer problema. Marcelo acha que sim, da mesma forma que entende que a sua fotografia em todos os lares, por cima de uma corbeille de flores de plástico, traduz outra coisa que não acefalia colectiva. Mas Marcelo é um prestidigitador: toda a gente vê o que lá não está, isto é, lhe imagina poderes que não tem, competência que lhe passou sempre ao largo, e brilhantismo que, se existe, é o das lantejoulas. A sua palavra nunca é a do mais alto magistrado da Nação porque nunca disse nada que tenha um prazo de validade superior a uns dias nem jamais teve nenhuma ideia sobre coisa alguma que não fosse maria-vai-com-as-outras ou, pior, que não seja uma das rodilhices pelas quais o supõem florentino.

Anunciar com solenidade no palácio de Belém uma fase final de futebol só não é motivo para as gargalhadas de escárnio do país porque o país não sabe rir de si mesmo. Uma elite do pensamento e da magistratura de influência poderia fazê-lo – se existisse.

O caso da Dinamarca é menos grave do que parece. A nossa embaixada naquele país viquingue já veio esclarecer que, com uns telefonemas e martelando os números, a coisa se pode compor.

Costa, a sua entourage, o PS, os restantes partidos com excepção dos comunistas e primos, as pessoas que, inclinando as ponderosas cabeças, opinam nos meios de comunicação, são ferozmente europeístas, como o é a maioria da população, que acha que ser colonizado não vai resultar no benefício do colonizador. Daí que se aceite como normal, sem um frémito, sem um coice, que as relações com o Brasil ou outras ex-colónias dependam do que diz ou deixa de dizer Bruxelas. Não há que temer: Logo que Bolsonaro seja substituído retornará o clima que nunca deixou de existir nos discursos, e Marcelo, numa viagem de Estado, encantará os locais com ternurentas selfies, e ensaiará uns passos de samba – ele, para bailarino, tem jeito.

O Banco de Fomento fomentará investimentos tolos, corrupções sortidas, delírios dirigistas e tráfico de influências. Nada que justifique insónias: alguma coisa se há de aproveitar e depois do BES e do Novo Banco, da CGD, do BPN, do Montepio, e j’en passe, o contribuinte desenvolveu anticorpos: isso de bancos a falir ou a precisar de arame é lá coisa de engenharias financeiras dos ricos, o PS defende-nos. E a Caixa está fora disto, que é nossa, razão pela qual lá metemos periodicamente dinheiro.

E o funeral do título? Seria o funeral do país, que não tem moeda, nem bancos privados, nem grandes empresas que não sejam de mercearias, nem Orçamento que não precise de pré-aprovação estrangeira, nem controle de fronteiras, nem eleitores em número suficiente que não dependam do Estado, nem política externa que não seja cortejar os que têm tudo isso; mas tem a maior dívida pública da sua história e um deslizar teimoso para os últimos lugares do desenvolvimento.

Seria, mas não é. A menos que Portugal fosse apenas a mole que aprova este estado de coisas. Mas a geração mais bem formada de sempre terá filhos e netos, e estes não pensarão o que pensavam os pais; a União Europeia ou cai com estrondo, vítima da contradição entre os seus dirigentes e beneficiários apátridas e os nacionalistas que se supõem extintos, ou recua para o mercado único do qual nunca deveria ter saído; e para Portugal, que já cá anda há quase 900 anos, e aguentou 60 de Filipes, mais fomes, pestes e guerras, não haverá de ser nada.

Entretanto, no próximo Sábado começa o Verão. E nada obsta a que, entre 12 e 23 de Agosto, se saia da praia para o café mais próximo, à hora dos jogos. Podia ser pior.

Em Maio pintamos a manta

por José Meireles Graça, em 14.06.20

No mês passado, mal apareceram, comi cerejas. Nunca ao borralho porque nesta altura do ano não acendo a lareira e a tradição já não é o que era, ainda que houvesse vários dias em que o aquecimento global se absteve de mostrar a sua hedionda cabeça, renúncia excessivamente vulgar aqui para os meus lados.

Atochei-me de cerejas, dias a fio, mas dou-me conta de que faltou a ração anual de análises argutas sobre o Maio de 68, substituídas pela pandemia da histeria covidiana.

E foi pena. Que todos os anos redescubro com gosto quão diferente ficou o planeta depois daquele mês prometeico, a deslumbrante personalidade das estrelas que lideraram o movimento, em particular Cohn-Bendit, a aflição de De Gaulle, e a sombra imensa que a França, talvez pela última vez, projectou no mundo à boleia dos interessantes moços universitários que procuravam a praia debaixo dos paralelepípedos que arrancavam para atirar à polícia fascista (coisa que, incidentalmente, me confirmou na ideia de que o alcatrão, apesar de mais benéfico para as suspensões automóveis, tem conotações reaccionárias que têm passado desapercebidas à doutrina).

Isto lembro. Profundidades agudas bem queria recordar, mas são submergidas pelos meus preconceitos de alma simples: aquele rapazio azougado não tinha conhecido a guerra nem privações, os paizinhos que os sustentavam viviam um clima económico de progresso ininterrupto desde o pós-guerra e não viam com bons olhos que se afagasse o lombo dos meninos com vergastadas, e a esquerda em peso pendurou-se no movimento, dando-lhe uma força que não havia nenhum motivo real para ter.

Mas ficou a marca registada do disparate: os jovens, em particular se universitários, são depositários de alguma forma de lucidez que escasseia aos pais, a propriedade e a ordem pública são danos colaterais necessários do direito à manifestação, e a generosidade e a pureza imarcescível das intenções estão sempre do lado dos manifestantes, e o egoísmo, os interesses das classes possidentes e o fascismo do lado das autoridades.

Para complicar as coisas, os jovens na Primavera de Praga, pela mesma altura, e os americanos por causa da guerra do Vietname, antes e depois de 1968, os de Tiananmen onze anos mais tarde e os de Hong-Kong hoje, estiveram (discutivelmente talvez no caso do Vietname, assunto que não vou resolver aqui, por falta de vagar) e estão do lado certo da História.

Isto é uma complicação porque torna impossível, sem qualificações, arrumar a miudagem no caixote da desordem merecedora de repressão. De modo que conviria precisar que todas as manifestações são legítimas em regimes ditatoriais, mesmo que para reivindicar disparates, ou protestar contra fantasmas, mas deixam de o ser, em regimes de democracia representativa com os atributos clássicos, se implicarem a prática de crimes, isto é, a prática de actos que, se levados a cabo por um cidadão isolado, assim seriam considerados pela lei penal.

Deixemos de lado, de momento, a formação das polícias, o controle de manifestações, o casamento entre o direito à manifestação e outros direitos (como o de livre circulação, p. ex.). E olhemos para o caso das maluqueiras das pichagens das estátuas e das reivindicações, que ainda cá não chegaram mas chegarão, de remoção de estátuas de colonialistas, racistas, machistas, esclavagistas e outros istas sortidos.

Aquela canalhada do Maio de 68, de que falava acima, está hoje no poder: a maior parte é socialista ou social-democrata, e guarda dos ardores da juventude a saudosa memória de quando tinham testosterona a mais (eles; a hormona equivalente delas não me lembro de momento qual era) e calculismo a menos; muitos nunca chegaram a interromper a forte corrente de ar que lhes circulava no meio das orelhas e estão hoje, entre nós, no Bloco e no PCP; e todos, ou quase, hesitam na conveniência de cascar em desordeiros, sob pretexto de que têm acne, coitadinhos.

Fazem mal. Porque danificar estátuas, ou outra propriedade, pública ou privada, não é um caso de opinião porque é de polícia. Assim esta investigue, como lhe compete, e os tribunais castiguem, sem atenuantes se forem maiores de idade, sem agravantes mesmo que sejam precisos exemplos.

E quanto à remoção de estátuas, ou pinturas, ou outro testemunho qualquer que ofenda a delicada sensibilidade de ofendidos diversos? Quem, para existir, sinta um irresistível apelo a que se acertem contas com uma História que geralmente conhece mal, e uma incontrolável aversão a mortos cuja biografia é incapaz de interpretar à luz do tempo deles, o que tem a fazer é ou dedicar-se ao estudo ou aderir a um partido político que lhe patrocine os ódios de estimação. No primeiro caso, pode ir estudar para a madraça do professor Boaventura e, no segundo, engrossar as fileiras do Bloco, do Livre ou doutra agremiação destinada a arrebanhar chanfrados. No PCP não me parece, que aquela gente é mais para o derrube do capitalismo, e menos para acolher frescuras.

Ai e tal, diz o Daniel (que quer, o grande magano, ser lido na íntegra e eu bem gostava se estivesse disposto a dar um cêntimo para o Pravda do regime) que “as estátuas não são sagradas, a democracia sim”. Bem visto, Daniel: uma pessoa que ache toda esta querela em torno das estátuas grotesca; e que se recuse a aceitar que a arruaça é uma forma legítima de obrigar à inclusão no debate democrático de questões que praticamente nenhum democrata jamais sentiu necessidade de que lá estivessem – não respeita a democracia, que é “sagrada”.

Ahem, eu do sagrado desconfio, que sou agnóstico; e dá-se o caso de achar que a democracia nos convém a nós, mas não a toda a gente, em toda a parte, em todo o tempo. Mas, com os conhecimentos que tenho dos procedimentos, esclareço: a remoção de estátuas não está na ordem do dia; a repressão a maluqueiras às quais se quer conferir respeitabilidade, sim.

Tavares Moreira

por José Meireles Graça, em 10.06.20

Há muito tempo, fiz uma aposta com ele, no Quarta República, a um jantar, que o Euro se desfaria no prazo de 10 anos. Ele ganhou, constato hoje melancolicamente, e não paguei. Discutimos um pouco sobre a bebida, que eu queria que fosse champanhe mas ele achava que devia ser espumante. Achei estranho, à época, que tivesse dito expressamente que a obrigação resultante da aposta era natural, isto é, não era exigível legalmente mas quem pagasse o faria mesmo assim em cumprimento dela.

Isto não era conversa de economista, e só hoje percebi que também tinha o curso de Direito, isto é, entendia raciocínios com muitas variáveis.

Numa campanha eleitoral, foi fazer uma visita à fabriqueta que eu então dirigia, em Guimarães, e encarou com bonomia e boa disposição os disparates com os quais lhe torrei a paciência.

Creio que foi vítima da anedota triste que entre nós circula com a lisonjeira designação de Justiça, e lembro-me de lhe ter deixado de ouvir a voz no espaço público por, entre nós, os acusados por crimes de colarinho branco terem direito a ser assados em lume brando, mas não a ser condenados ou absolvidos.

Requiescat in pace.

Deseconomias

por José Meireles Graça, em 06.06.20

As causas do relativo atraso do nosso país, da Revolução Industrial para cá, têm ocupado os melhores espíritos. Não vou dar o meu pobre contributo para esse assunto, por razões que não cabem aqui, senão para dizer que a maior parte das análises que conheço contêm uma parte da verdade e que esse atraso, ao contrário da lenda, se atenuou durante o Estado Novo, diminuiu aceleradamente na sua parte final, e voltou a parecer estar a caminho de ser vencido nos consulados cavaquistas.

Foi na década de 60, coincidentemente, que começou a imparável ascensão da classe dos economistas, incrustando-se no aparelho de planeamento e regulação económica do Estado, até ao estatuto de excesso de visibilidade, influência e prebendas que é hoje norma.

O país desliza faz tempo, com lentidão e persistência, para os últimos lugares do desenvolvimento na Europa, que não cessa de perder importância no mundo; nos últimos quarenta e poucos anos registaram-se três falências, e não uma quarta porque entretanto a caranguejola europeia, para o edifício do Euro não correr o risco de ruir, o ligou à máquina do BCE; e a recente sobre-reacção do mundo em relação à Covid, cujos custos económicos pudicamente se não querem adivinhar mas afligirão mais quem já estava em estado catatónico, faz prever o pior.

Somos todos responsáveis, desde logo o eleitor, que largamente merece o que lhe acontece, por escolher com devoção a mãe-galinha socialista e a vasta patrulha de pais da pátria estatistas e engenheiros sociais. Mas não todos por igual: na magistratura da opinião avultam os economistas, tenham paciência se não gostam que se lhes o diga, que nós já temos por os aturar.

Daí que me tenha dado na cabeça, por causa de um programa na rádio, cascar na classe. No caso, tomando como pretexto três economistas, sobre cujas vidas privadas sei nada e cuja opinião ouço, porque merecem, com atenção. (Um deles, julgando ver numa frase uma insinuação pouco lisonjeira a percursos de vida, abespinhou-se – já lhe pedi desculpa publicamente).

O resultado está aqui. Enjoy.

Instituto do Abuso Legal

por José Meireles Graça, em 04.06.20

No blogue de uma amiga unilateral (isto é, eu gosto dela, que não retribui desde que confessou que não estava mais disposta a tolerar os meus “sarcasmos” – olha logo eu que sou tão contido nas palavras) tomei conhecimento desta publicação no Facebook de João Sedas Nunes, que não conheço, a respeito da mãe, a escritora Maria Velho da Costa.

A história é escandalosa e João, que a narra contidamente mas com mágoa, diz a certo passo:

“Trago isto a público (enfim, tanto quanto este estaminé é público), não para demandar reparação (ou pedido de desculpas), mas para contribuir para a tomada de consciência de uma forma extrema de desrespeito que dificilmente pode ser ‘compreendida’ sem invocar a impunidade do funcionário que, investido de um poder de Estado, não presta verdadeiramente contas a ninguém”.

Se exigisse desculpas, não duvido que o director do estabelecimento as prestasse – a falecida não era uma pessoa qualquer. E acredito que não era impossível que, se houvesse um regulamento qualquer para garantir que estas coisas não sucedem, mandaria “abrir um inquérito”.

Do resultado do inquérito, que de todo o modo levaria um ror de tempo, ninguém  ouviria falar; se concluísse pela culpa de alguém a sanção seria levíssima, senão o director teria os sindicatos à perna, e por certo quereria preservar um bom ambiente de trabalho; e se não existisse regulamento nenhum, ou o homem encarregava alguém de fazer uma moxinifada que ninguém iria ler e menos ainda cumprir ou faria uma circular para os destinatários encolherem os ombros e o autor ficar com a satisfação do dever cumprido.

Gente profunda dirá que isto é um problema cultural. Mas não é, por ser um de impunidade. A mesma impunidade e o mesmo desprezo com que a sinistra figura do Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais declarava há dias, sob pressão da Provedoria do Cidadão, que “não deixa de haver preocupação de conjugar o fim da suspensão do processo executivo comum com este entendimento, de forma a salvaguardar os interesses do Estado”, isto para justificar a falta de cumprimento da lei por parte do departamento do qual é Inquisidor-geral.

Claro que este enxerto da prepotência inquisitorial fiscal, comparando-a com uma história triste, que merece respeito, não será propriamente muito elegante da minha parte. Mas elegância não é exactamente a minha qualidade mais saliente num longo rosário delas; paciência e contenção também não – só contaria a história no Facebook depois de, não obtendo satisfação, ter tratado a direcção do Instituto de Medicina Legal, não com os sarcasmos de que se queixava a Joana Lopes, mas abaixo de cão.

George Floyd

por José Meireles Graça, em 03.06.20

Temos o privilégio masoquista, que nos dão as redes quase instantaneamente, de assistir a execuções extrajudiciais.

Não a todas, claro, nem sequer à maior parte. Apenas àquelas que são praticadas em sociedades democráticas onde o uso de telemóveis para esse efeito não acarrete riscos sérios para os cineastas amadores, ou onde sejam os próprios justiceiros fardados obrigados a filmar os seus actos, como sucede em alguns estados (ou apenas condados? Não apurei) americanos.

Os States estão a ferro e fogo por causa desta última e, como de costume, proliferam as análises profundas, quase sempre nem tanto, a elaboração de receitas para os males americanos, feita por locais e estrangeiros, e o atrelar pornográfico da indústria de causas a esta desgraça que deveria envergonhar a land of the free, home of the brave – e de facto envergonha um número crescente, que se traduz no gigantismo da parte não-violenta das manifestações.

Não vou resolver o problema da violência americana (das armas, do crime, dos gangs, das minorias violentas e segregadas, das instituições penais, seja a legislação, os tribunais, as polícias ou as prisões) porque não sei. E isso não constitui qualquer embaraço porque o problema é de tal modo complexo que não terá solução para o mês que vem, ou na próxima presidência, e certamente não a teve até agora.

A reivindicação simplista da proibição do porte de armas choca com a cultura americana, com a Constituição (numa leitura discutível, mas em boa parte inútil porque a questão não é de hermenêutica jurídica) e com a tradição do crime com arma de fogo, das quais há incontáveis milhões, o que implica, no caso de proibição, facilitar a vida a criminosos e dificultá-la a quem se quer defender.

Os gangs e as minorias (com excepção da negra, que é um caso à parte) resultam de ser a América uma terra de atracção, e ter desde sempre permitido o maior grau de liberdade cultural e religiosa das suas comunidades, com o único cimento da igualdade dos cidadãos perante a lei, a língua inglesa (esta a abrir brechas) e um patriotismo de adopção fundado na excepcionalidade americana e na consciência de um destino comum. A liberdade de ser diferente, que está na génese da América, está também na génese de um apartheid soft de culturas paralelas, unidas pela Coca-cola, as calças de ganga e a falta de maneiras à mesa, porque o país foi feito com o lúmpen de outros.

O caso dos negros é bem mais complicado por a comunidade descender de escravos e ter um longo e doloroso percurso, bem conhecido, até atingir, apenas nos anos 60, a igualdade perante a lei em todo o território, mesmo assim perdurando um rasto de desvalia factual que as políticas ingénuas de discriminação positiva, criando privilégios que despertam ressentimentos em outras comunidades, e alimentando sentimentos de entitlement na negra, muito pouco têm feito para diminuir. A isto acresce a desestruturação das famílias, os bairros problemáticos onde reina a violência, o tráfico de droga e crimes sortidos, o ensino medíocre para alunos que veem na rua o futuro que não está na escola, e uma litania de vários problemas, mais intratáveis uns que outros

A esquerda, lá como cá, costuma arrumar o problema da criminalidade debaixo da epígrafe “desigualdade”. Com razão: numa sociedade igualitarista há menos progresso material, e polícia mais eficiente porque ainda não se inventaram sociedades igualitaristas sem reforço dos poderes do Estado, e eliminação dos cidadãos. O mesmo poder que serve para destruir as oposições, estrangular a iniciativa e reprimir os que querem cometer o crime de enriquecer serve para controlar os outros. A América não tem porém essa tradição, e foi aliás por não a ter, para além de razões geo-estratégicas, que se tornou numa super-potência, dada a prodigiosa vitalidade do seu aparelho produtivo.

Não tem essa tradição mas tem outras, por exemplo a de eleger magistrados (que não sejam federais) e certos polícias (os xerifes dos saudosos westerns). E isto significa que uns e outros têm um altíssimo grau de dependência em relação à opinião pública, que se comunica aliás ao resto da estrutura policial e judiciária, mesma a nomeada, com excepção talvez dos juízes do Supremo, que o são vitaliciamente. Este sistema tem vantagens mas, no plano criminal, está longe de demonstrado que as concepções populares de justiça sejam… justas. O medo aos criminosos, a ira popular e o simplismo das reacções criam o caldo de cultura para a violência do Código Penal, a desumanidade das cadeias, a negociação de penas contra confissões, na prática extorquidas para o acusador público mostrar serviço ao eleitor, e o reforço dos poderes das polícias, que conseguiram ser legalmente inimputáveis.

Na realidade, pode-se dizer com boas razões que a América tem um sistema penal bárbaro (coisa que os americanistas, que são legião, aliás negam) porque são uma sociedade violenta, ou que o sistema penal contribui (é a minha posição, mas não sou americanista nem sofro de outras doenças infecto-contagiosas) para essa violência.

O que não se deveria dizer é que o assassinato de George Floyd foi necessariamente um acto de racismo porque o crime foi presenciado por outros agentes, dos quais pelo menos dois são de ascendência não-wasp; porque a percentagem de negros que morre às mãos da polícia é maior do que a de brancos, mas o polícia que aborda um negro sabe que a probabilidade de este ser um criminoso é muito maior do que se for um branco; e, sobretudo, porque a alegação de racismo só envenena as coisas: as polícias precisam de ter códigos de conduta que incluam sanções severas por ofensa de direitos de cidadania, que são iguais para todos. Sanções agravadas porque o polícia deve ter especiais obrigações, dado o poder de que dispõe, não especiais direitos. Protegido o indivíduo nos seus direitos, está protegida a comunidade a que pertence – o que carece de sanção são actos ilícitos, não a imaginada ou real motivação.

Finalmente: a escumalha infecta que se associou às manifestações para destruir propriedade, assaltar estabelecimentos e causar confrontos deu uma grande ajuda a Trump, que sabe perfeitamente que o grosso do eleitorado, que está em casa, não aprecia motins. Semelhante facto não me incomoda, mas infirma a tese, corrente entre nós nos meios de gente aguda, de que a direita é estúpida. A de Ventura será sem dúvida primária, por muito sucesso que se lhe atribua (o homem ainda hoje se aliviou de sabão macaco opinativo, a benefício de cowboys justicialistas) mas a esquerdista Antifa, entre nós representada pelos dementes do Bloco, é, além de estúpida, criminosa: gente que coonesta a ideia de que há boas razões para pilhagens e incêndio de casas e automóveis, em nome de uma sociedade alternativa mal explicada, não merece figurar no perímetro da respeitabilidade.

That’s all folks.

Paraministro

por José Meireles Graça, em 01.06.20

A primeira vez que ouvi falar num paraministro foi numa notícia em que Catarina se aliviava de umas banalidades a armar ao sentido de Estado mas não liguei – coisas lá do aquário da politiquice lisboeta e das trincas e mincas da Geringonça.

Que um ministro, ou o Primeiro, ou o Presidente, tenham uns amigos ignotos com os quais trocam umas impressões está no arranjo ordinário das coisas. E que esses interlocutores tenham um café em Freamunde ou sejam empresários do ramo dos petróleos não deve surpreender ninguém. A comunicação social tem até fórmulas consagradas para estes encontros fortuitos, se os topar ou receber encomenda para os noticiar: no primeiro caso trata-se de auscultar a sociedade civil e no segundo inteirar-se dos problemas do sector.

Mas, afinal, o tal paraministro não é mais um gambozino que a Tina da Companhia de Teatro das Visões (In)úteis inventou para o Bloco fingir importância: existe mesmo, fala, e tem opiniões.

Um tipo que navega na massa escura do crude sabe da logística do produto, dos offshores por onde se movimenta o arame, que costas é preciso afagar, quais os números de telefone que convém ter, onde estão os bons restaurantes, e que tudo isso deve estar rodeado de grande discrição. Deve também perceber alguma coisa de relações internacionais e de economia, no que umas e outra podem afectar o ramo, pelo que convém não ter formação naquelas áreas, para não ter o trabalho suplementar de se despir de preconceitos académicos.

O tal Costa Silva parece preencher o quadro. Infelizmente, logo na primeira entrevista, expele uma quantidade prodigiosa de tolices.

Vejamos primeiro o problema, depois a solução, e, finalmente, o que diz o preclaro.

Uma doença nova, comprovadamente benigna, provocou uma sobre-reacção mundial, baseada no medo induzido pela ignorância dos seus verdadeiros contornos, por alguns serviços de saúde terem sido submergidos, pelo facto de afectar sobretudo pessoas de idade, por ser muito contagiosa, por assintomáticos também poderem contagiar, e por parecer ter sido contida por medidas radicais do governo ditatorial de uma superpotência opaca, que as democracias tentaram emular.

As burocracias mundiais ou regionais (OMS ou EU, p. ex.) abraçaram com gosto o reforço da sua importância; os governos cederam às opiniões públicas em pânico, pilotado por uma comunicação social geralmente acéfala que se especializou na facilidade do drama sem perspectiva nem trabalho de contextualização; e as economias afundaram, mesmo para aqueles que adoptaram abordagens menos penalizadoras, por causa das interdependências internacionais.

No nosso caso, o consagrado Ronaldo das Finanças fala numa quebra de 7%, portanto deverá ser entre 10-15%.

Este o problema. Agravado no caso português pelo abismo entre a propaganda dos apoios e a realidade: ninguém sabe ao certo, nem é possível saber porque a informação não é de confiança, que parte do apoio ao layoff é que já foi paga; e até mesmo o reembolso do IRS (resultante em si de uma pilhagem) o próprio ministro reconhece, sem vestígios de vergonha porque não a tem, que está a ser atrasado.

A solução vem de um prodigioso bolo europeu de 750 mil milhões de Euros, dos quais nos tocariam à volta de 26 mil milhões (15 dados e o resto emprestado) se, no complicado processo decisório da EU, o número não levasse um corte de cabelo, como possivelmente levará.

Quem tiver curiosidade pode ler as minúcias da coisa, p.ex. neste texto de um especialista nestas tranquibérnias, no caso o Prof. Doutor Paulo Trigo Pereira (trato-o assim, com os títulos todos, porque o homem é comicamente cioso destes penachos).

Muito dinheiro, em suma: de volta os pacotes Delors, o comboio europeu, o agora-é-que-vai-ser. Não estivesse a expressão tingida da abominação cavaquista, e corríamos o risco de ver ressuscitado o famoso pelotão da frente que aquele grande estadista consagrou, conjuntamente com outros memoráveis disparates.

Não vai ser. Desde logo porque a UE fala de prioridade aos investimentos nas áreas da transformação ecológica e digital, além de outras piedades, que traduzidas para Portugal querem dizer torrar montes de dinheiro em investimentos não reprodutivos e fantasias promovidas por visionários e vigaristas sortidos, que vêm ocupar o lugar deixado vago pelos engenheiros do progresso - na encarnação anterior estavam mais virados para a formação profissional. Depois porque todo o pacote se destina a ser reembolsado com impostos europeus, a começar a cobrar de 2028 em diante, e que se virão juntar aos que já existem. E finalmente porque em lado nenhum, em momento nenhum, se fala de reforma do Estado, o que quer dizer que a economia, logo que recupere com ajuda algum fôlego, continuará a carregar o fardo da classe média. Aquela que, se não fosse o Estado onde se acolhe, segundo o intelectual Pacheco, não existiria; e aquela que é mal paga porque a economia não é eficiente, dada a fatalidade de os empresários não serem dinamarqueses.

Deixemos isto. Que diz ao certo o mago do Plano de Recuperação Económica, que o elaborou em dois dias? A julgar pela entrevista, é um documento de grande arrebatamento, que não deixará decerto, quando vir a luz do dia, de provocar nuns cólicas, noutros gargalhadas, e nos socialistas aplausos.

“… no caso da TAP, o Estado também deve intervir – com o objetivo claro de evitar que ‘empresas rentáveis se afundem e entrem em estado de coma”. E a intervenção terá de contemplar a “preservação dos postos de trabalho” ou a “qualificação dos trabalhadores”.

Ahem, a TAP é uma empresa rentável?! E vai recuperar sem adequar os seus quadros à procura que tiver, e tendo ainda o enternecedor cuidado de dar formação às meninas do balcão das reclamações?

“A médio e longo prazo, o plano é composto por ‘dois eixos estratégicos’ que, realça o gestor, estão ‘limitados aos recursos financeiros’ disponíveis. Num primeiro momento, a aposta é na modernização das estruturas físicas do país, como seja ‘qualificar a rede viária’ ou intervir nas estruturas portuárias, ou de ‘energia’”, fundamentais para alavancar as exportações do país”.

Nós, de eixos, aprendemos alguma coisa durante a crise da Covid, por causa de tanto gráfico com que fomos mimoseados. E isto nos dá a lucidez para adiantar timidamente que mais autoestradas, mais dinheiro em Sines, e mais corrupios no alto dos montes, não nos parece assim muito bem. Da última vez, a receita, em vez de incentivar o desenvolvimento, provocou o risco de calotes e uma demorada penitência.

“Ao mesmo tempo, é preciso ‘acelerar a transição digital’ na administração pública e, em especial, no tecido empresarial das pequenas e médias empresas – um dos pontos do segundo eixo, mais virado para as infraestruturas digitais. E antecipa o ‘enorme impacto na economia’ que o aumento das competências digitais possa vir a ter”.

Isso da transição digital sabemos o que é. Em vez de termos um bilhete de identidade barato temos um cartão de cidadão caro; e em vez de nos zangarmos com funcionários mal-encarados enfurecemo-nos com o computador e os sites do Governo. Quanto ao tecido empresarial das PMEs, Costa, deixa lá isso: as empresas aceitam tudo o que lhes quiseres dar, em troca de fingirem que têm um grande respeito por gurus da gestão de aviário; menos conselhos e apoios para fazerem o que não lhes sirva para nada.

“Costa Silva fala, ainda, em ‘estender a fibra ótica a todo o território nacional’, depois do recurso às tecnologias, durante a pandemia, ter espelhado as desigualdades sociais entre os alunos”.

Parece razoável. Tanto que é legítimo duvidar que se faça. Acontece muito, quanto se está sobrecarregado a fazer uma quantidade de inutilidades, escassear o tempo para o que é preciso.

“À RTP, o gestor garantiu que o Serviço Nacional de Saúde, depois de ter respondido à pressão da Covid-19, vai ver o ‘investimento reforçado’, numa clara aposta em ‘equipamentos e recursos humanos’, concluiu Costa Silva”.

É o que se chama fechar com chave de ouro. Mas não são necessárias pressas: já tanto utente esticou o pernil por causa de consultas, tratamentos e operações adiadas que durante algum tempo a pressão deve diminuir.

Em suma: Dizem deste homem que irá substituir Siza Vieira, que irá substituir Centeno, que irá substituir o Governador do BdP.

Tudo leva a crer que quem o convidou não irá ser substituído. Daqui a uns anos, acontecerá ao glorioso PM que descobre estas pérolas o mesmo que ao malogrado Sócrates: nunca ninguém votou nele.

Gravidez prematura

por José Meireles Graça, em 21.05.20

As eleições presidenciais são, salvo erro, daqui a oito meses, pelo que é cedo para em torno delas se fazer uma barulheira.

Muita coisa pode mudar, e vai mudar, neste lapso de tempo. Ninguém sabe a extensão do desastre económico que o confinamento provocou e provocará; ninguém que contornos assumirá a recuperação; ninguém se o bodo europeu dos 500.000 milhões verá a luz do dia sob a forma de empréstimos ou dádivas, e se empréstimos com que prazo, e se dádivas quanto e para quê.

Sabe-se alguma coisa sobre todas estas coisas. Sobre o maná, v.g. este europeísta frenético, ou este eurorealista; sobre o desastre, v.g. aqui. E quem tiver interesse que procure ensaios de economistas sobre a recessão, e artigos de politólogos sobre as alhadas da EU, munindo-se de uma embalagem de ben-u-ron ou brufen, consoante a quantidade de informação a consumir e o estado do aparelho digestivo, porque vai ficar com a cabeça a zoar.

A popularidade do Governo, do PM e do Presidente bate recordes: o funcionário continua a receber salário, e os pensionistas a pensão, sem cortes; se for trabalhador por conta de outrem, e estiver em layoff, recebe ou está à espera de receber dois terços enquanto poupa em casa; os desempregados já são mais 71.000  até Abril (em quase 400.000), mas recebem subsídio; e, finalmente, não tem havido falta de medidas autoritárias (que agradam a uma população aterrorizada e carente do que acredita ser liderança), nem de sessões diárias de “esclarecimento”, às quais as televisões e jornais dão a sua preciosa ajuda, ao ponto de calarem vozes incómodas, com pano de fundo de compra descarada de favores.

Nada disto pode durar. Costa, que tem a agudeza dos sobreviventes, já percebeu que o seu consulado depende da extensão dos estragos e de a Europa solidária bancar o descalabro. E não tem evidentemente ilusões sobre a natureza da popularidade dos políticos: Sócrates teve uma maioria absoluta, mas saiu pela porta baixa e hoje, se não tivéssemos confiança no sistema eleitoral, poderíamos julgar que tinha falsificado as eleições, tal é a dificuldade em encontrar quem confesse que o apoiou. Excepto, é claro, os que, como o próprio Costa e boa parte do Governo, o acompanharam na montagem da falência, mas que se reciclaram com grande sucesso em ingénuos enganados.

Daí que estar a discutir presidenciais agora seja uma evidente extemporaneidade.

Mas tem uma origem: Ao que parece, Costa aldrabou, talvez por excesso de confiança, o Parlamento no caso da transferência de 850 milhões de euros para o Fundo de Resolução, com destino ao Novo Banco; o ministro das Finanças, que tinha autorizado a manobra, não apreciou ser envolvido na confusão decorrente da mentira e quis bater com a porta, coisa que aliás parece estar morto por fazer, para o efeito de se refastelar no Banco de Portugal; o presidente da República, o incontinente Celinho, meteu-se ao barulho para reconciliar os governantes desavindos; Costa não quer que Centeno dê já à sola, de mais a mais num caso em que não sairia bem na fotografia; o Ronaldo das Finanças, que precisa de Costa para chegar ao almejado BdP, concordou em fingir que o presidente o demoveu; e Costa, agradecido ao Presidente, e para distrair as atenções de todo o episódio bufo, inventou o apoio à reeleição de Marcelo.

Bem jogado, a tranquibérnia do Novo Banco já está meia esquecida e do que se fala é de eleições: Ana Gomes, a candidata da facção popularucha e exaltada do PS, cujo fonds de commerce é a luta anticorrupção, veio pôr-se em bicos de pés, zangada, e alguns próceres na prateleira já vieram lembrar que são os órgãos do partido, e não Costa, quem decide apoios; de repente aparece gente a apoiar o putativo candidato Ventura, cujo fonds de commerce é a segurança, a indignação anti tretas da extrema-esquerda e causas sortidas que não sejam de esquerda e andem à procura de patrono; e, nas redes, adiantam-se nomes de candidatos da direita para, no melhor dos casos, calçarem uns patins a Marcelo e, no pior, poupar o país à desgraça de uma marcha triunfal.

É provável que este assunto entre em banho-maria, submergido pelo que aí vem. Mas hoje, José Manuel Fernandes, pessoa atilada e geralmente com as opiniões alinhadas pelo lado bom do espectro político, defende num artigo uma tese extraordinária, que é esta: “… ter Marcelo em Belém suportado por uma votação substancial é melhor do que vê-lo lá demasiado tributário dos votos que António Costa lhe oferecer.”

Defende isto porque de Rio não se pode esperar nada que preste, mas é inamovível para já, André Ventura pesca até mais ver sobretudo na direita mas ainda não tem massa crítica para atingir uma votação significativa, nem aliás tem respostas aceitáveis para problemas que precisam de soluções que não sejam as que oferece, e Ana Gomes pode talvez, se o campo da direita estiver dividido com outros candidatos, forçar uma segunda volta, enfraquecendo a vitória de Marcelo.

Portanto, não valeria a pena ter candidatos alternativos, à direita, para perder – o que é preciso é dar força a Marcelo. Este, forte com essa força, e grávido de uma vitória esmagadora na primeira volta, mostraria, no segundo mandato, a fibra de que é feito.

Este raciocínio não tem pés nem cabeça, porquanto:

  1. A direita regressará ao poder quando a esquerda der com os burros na água, e não antes, esteja quem estiver na presidência da República. Dar com os burros na água, para efeitos eleitorais, quer dizer as pessoas viverem pior, não quer dizer o eleitorado perceber que com governos socialistas o país desliza para o último lugar da Europa. Isso o eleitorado pode assimilar, se os magistrados da opinião lhe martelarem a cabeça com a ideia, coisa que não fazem porque nela maioritariamente ainda não acreditam, e mesmo assim a longo prazo;
  2. Os principais problemas de Portugal, nesta fase, resolvem-se ou não em Bruxelas, Frankfurt e Estrasburgo, e os socialistas, na veste de diplomatas pedintes, pedem meças a quaisquer outros, incluindo as boas gentes do PSD, que nesta matéria são farinha do mesmo saco;
  3. Marcelo não pode ser um íman solitário, na presidência, para onde gravite a melhor gente de direita, porque Marcelo não é de direita: é católico, estatista, social-democrata, umbiguista e intriguista, isso ele é. Mas um íman? A plasticina é moldável, mas não é conhecida pelas suas propriedades de atracção;
  4. O poder da magistratura da presidência decorre da Constituição e da personalidade do presidente, não decorre da percentagem de votos com que foi eleito, nem se à primeira ou segunda volta;
  5. As tácticas servem para ganhar guerras se ao serviço de uma estratégia, senão são vitórias pírricas. Mas mesmo assim Pirro queria destruir Roma; e Marcelo quer apenas que gostem muito dele e o achem admirável;
  6. Oito meses são, politicamente, uma eternidade e, com as incógnitas do futuro próximo, sabe lá JMF se um candidato para perder irremediavelmente hoje não pode transformar-se num candidato para ganhar em Janeiro de 2021?

Pronto, pronto, já passou

por José Meireles Graça, em 18.05.20

Costa apela ao regresso à rua, a mesma que com empenho fez o possível para esvaziar.

Contraditoriamente, as agências governamentais continuam a parir manuais e normas e as polícias repoltreiam-se no seu papel de anjos armados da comunidade. Vejo, porém, agora, pessoas com tino e discernimento escandalizadas com o regulamento das praias, os semáforos e os outros delírios. Mas são as mesmas que não pestanejaram enquanto o Governo metodicamente cerceou liberdades e direitos sem as afectar directamente porque estavam em casa tolhidas de medo

Para quem estiver atento, o passeio de Costa, a as suas eructações piedosas, significam que a pandemia acabou. Que alguns regedores do PS ainda não estejam ao corrente do facto, e tripudiem em cima de direitos básicos com a impunidade que lhes dá um eleitorado que aprecia pouco a democracia, e nutre uma secreta atracção pela vergasta, não muda nada. Mesmo que um tribunal tenha lembrado a um desses que, mesmo numas ilhas perdidas no Atlântico, o regime ainda não é exactamente o de Odorico Paraguaçu.

As pessoas que tiveram exames, consultas e operações adiadas por causa do esvaziamento dos hospitais e centros de saúde, à espera do tsunami covidiano, têm três motivos para estarem gratas: o primeiro é que o seu sacrifício não ajudou, mas podia ter ajudado, no caso de as autoridades terem tido razão; o segundo é que houve profissionais de saúde que foram assoberbados, mas em compensação muitos outros puderam gozar um merecido descanso; e o terceiro é que, no caso provável de morte antecipada, têm direito a indulgências, por acordo que a ICAR, com o precedente do 13 de Maio em Fátima, não deixará de celebrar com o Governo com que a Divina Providência nos abençoou.

E, reconfortados por esta ideia, talvez pudéssemos imaginar que, da próxima, porque a Covid não foi o último vírus, ou bactéria, ou fungo, a irromper pelo mundo, estivéssemos todos um pouco mais cépticos e menos receptivos a acolher todo o cientista vidrado na sua especialidade, todo o político disposto a destruir o Estado de Direito em nome da popularidade, e todo o burocrata salivando pelo reforço do seu poder.

Não vai ser fácil: o spin vai ser que o vírus foi dominado pelas medidas, e que a calamidade das mortes por falta de assistência tempestiva, o desemprego, as falências, o crescimento da dívida, e o mais que se verá, são danos colaterais.

Mas as pessoas, que o diabo as leve, só têm que se queixar de si mesmas: Julgam que se pode alimentar crocodilos sem correr o risco de perder um braço? E imaginam que é fácil enjaular o leão depois de o deixar sair?

Admirável mundo velho

por José Meireles Graça, em 14.05.20

Na homilia de hoje proferida pela senhora oficialmente nomeada para a importante função de mãezinha da Nação, ficaram os crentes cientes de que “as medidas de desconfinamento decretadas pelo Governo não tiveram impacto na curva epidemiológica”.

Olha que bom. E, do quadrante confinocéptico, que com grande tolerância as autoridades consentem ainda exista desde que sem acesso relevante aos grandes meios de comunicação, Henrique Pereira dos Santos sossega-nos: as medidas tomadas não nos garantiram a imortalidade, uma falha difícil de engolir, mas caminha a Europa para a normalidade.

Não há falta de gente que, com ou sem a albarda das competentes credenciais académicas, previu que o desconfinamento não teria efeitos deletérios apreciáveis: é a mesma escumalha infecta e antissocial que achou que o confinamento repleto de medidas arbitrárias, tributárias apenas da imaginação de burocratas autoritários para sossegar o pânico que a comunicação social induziu em leitores e espectadores crédulos, apenas poderia atrasar a evolução da pandemia. Objectivo nobilíssimo, decerto, mas que poderia ser atingido sem causar o alucinante processo de destruição de riqueza cujos custos, incluindo em vidas humanas, ainda nem começaram a ser estimados.

Alguns fizeram-no muito cedo, como André Dias, diligentemente ignorado e por isso reduzido a falar para tribos de selvagens que têm o tique original de pensarem pela própria cabeça, e um respeito excessivamente moderado pela autoridade do discurso oficial. E o moço nem sequer se pode gabar de ter falta de companhia: são legião os académicos e especialistas em virologia, epidemiologia, pneumologia e ciências correlatas e ancilares que navegam nas mesmas águas negacionistas da “maior pandemia desde há cem anos”.

Uma legião não é o exército. E a corrente principal, em Portugal e em quase toda a parte (a excepção mais conhecida é a da Suécia) juntou-se à procissão histérica dos malagridas do fim dos tempos.

Não vale muito a pena tentar fazer o esquisso das razões de uns e outros: são demasiados os argumentos, alguns herméticos por fazerem apelo a conhecimentos especializados, e no fim, como no princípio, as pessoas acham bons aqueles que ilustram o seu parti-pris, e maus os outros. Resta que, quando a Covid se juntar às doenças que no curso das nossas vidas apanhamos ou não, quer exista ou não vacina, quer se encontrem anti-virais eficientes quer não, alguém terá tido razão, e não podem ser todos: houve muitos que tentaram suster o estouro da boiada e houve quem gritasse fogo! quando havia apenas umas chamazinhas que se podiam maneirar.

Nada do que foi, e continua a fazer-se, apelou à compreensão, inteligência e boa-vontade das pessoas. Antes às polícias foram dados poderes majestáticos, durante o estado de excepção, e se torpedearam direitos constitucionais, durante o de calamidade, um e outro deixando nas consciências e nos hábitos a ideia perniciosa de que os direitos de cidadania podem ser comprimidos sempre que o poder político de serviço, e o longo braço das agências que o servem, invoque a Saúde – como noutro tempo e lugares, ainda que com diferença de grau, se invocou a Raça, ou a Pátria, ou a construção da sociedade socialista.

Exagero, claro. Mas ainda hoje a DGS (um nome adequadamente evocativo) pariu um manual com 35 páginas sobre “Saúde e Actividades Diárias”, que é apenas o primeiro tomo de uma série. TODOS SOMOS AGENTES DE SAÚDE PÚBLICA, diz-se no Prefácio, assim, grafado com maiúsculas (o resto não li, por uma questão de sanidade). Aguardam-se ansiosamente os manuais em que, nas aulas de educação cívica, as crianças serão industriadas a fiscalizarem o comportamento sanitário dos pais iletrados; os do INATEL para os trabalhadores ocuparem o seu tempo livre de forma socialmente responsável, abstendo-se de espirrar e de bebidas perniciosas; e da Ordem dos Urologistas, se existe, para acabar com a anarquia na forma como se aparta o pénis após micção, para evitar a disseminação pelo ambiente de gotículas carregadinhas de micro-organismos potencialmente patógenos.

Mas são só os poderes formalmente públicos que se rebolam com prazer no esterco das normas arbitrárias e minuciosas, e no ambiente velado (quando não é descarado) de intimidação de qualquer comportamento desviante do padrão que com desvelo, ignorância criminosa e despudorado abuso as autoridades estabelecem como obrigatório?

Que nada, a procissão ainda vai no adro. Ainda há pouco vi um “Código de Boas Práticas de Higiene e Segurança Alimentar Para a Pequena Restauração e Bebidas” da AHRESP, com 64 páginas. Extraordinário: inúmeros pequenos restaurantes e bares não vão reabrir, por não poderem sobreviver cumprindo as regras oficiais, e muitos outros tentarão funcionar e serão assolados pela ASAE e outras polícias, que os soterrarão em multas, interditos, notificações e processos. E os sócios daquela agremiação, com incompreensível pusilanimidade, não atiram com o Código à cabeça da Direcção, como adjuvante dos merecidos pontapés com que a expulsem do miserável poleiro?

A Covid tem menos de 200 nanómetros de diâmetro. Mas tem as costas largas.

Cozinha europeia

por José Meireles Graça, em 07.05.20

Vital julga que isto é um problema de interpretações jurídicas da especialidade dele e, como bom constitucionalista que é, argumenta consistentemente a favor do aborto jurídico e lógico da UE, do Euro, do BCE e dos anónimos no Tribunal de Justiça da União.

Há mais de três décadas argumentava com igual consistência, abonado pela autoridade da sua cátedra (era um famoso professor doutor de Coimbra meu Deus), contra a saudosa CEE, antes de numa estrada de Damasco da vida ter sido atingido por uma chuva de estrelas que vieram alterar o tipo de cegueira de que sofria, substituindo, na qualidade de corpos celestes inspiradores, o lugar anteriormente ocupado pelo sol de Moscovo.

Em geral, questões de interpretação constitucional caseira, quando envolvam o Governo, costumam resolver-se do seguinte modo: os constitucionalistas que naveguem nas águas partidárias da Situação explicam, com paciência, profundidade, rigor e grande sofisticação técnica, por que razão esta tem razão; e os que naveguem nas águas partidárias da Oposição explicam, com grande sofisticação técnica, rigor, profundidade e paciência, por que não tem. O Tribunal Constitucional, como a Constituição na parte dos direitos económicos é de esquerda, costuma estar com a Situação quando se dê o caso de esta ser da mesma farinha daquele fundamental diploma e não estar caso seja vinho de outra pipa, com desculpa das metáforas.

Felizmente, desta vez antecipa-se uma esmagadora unanimidade porque a questão tem a ver com as nossas vidinhas, incluindo a de todos estes preclaros, e consiste neste facto irrefragável: a Alemanha banca ou não banca?

E juristas, economistas, políticos, técnicos de parqueamento automóvel, funcionários e trabalhadores unir-se-ão num grande clamor, ao mesmo tempo europeísta e nacionalista, que se lixe a contradição, clamando contra o egoísmo dos boches, se eles insistirem na loucura. Não faltarão procissões, levando num andor o ministro Nunes, que já ameaçou os banqueiros alemães e por isso não se lhe dá de ameaçar os juízes pindéricos de Karlsruhe, e o nosso Primeiro, que já pôs na ordem um ministro holandês e não hesitará, exsudando indignação e gordura, em dar à Europa uma lição sobre solidariedade e outras coisas superiores que lhe povoam a inspirada cabeça.

O Tribunal Constitucional alemão torce-se todo; o de Justiça da União põe-se em bicos de pés. Mas a questão não é de Direito Constitucional, nem Internacional, nem sequer do que realmente acha a chanceler ou a classe política dirigente alemã.

A questão é de opinião pública: O Euro é um absurdo disfuncional à sombra do qual os nossos políticos querem continuar a comprar votos mantendo uma classe média à sombra do Estado, para o que precisam de chumbo europeu dado; e aos Alemães, que o mandam para cá, convém uma moeda que é, para a economia deles, fraca, e que portanto lhes alavanca as exportações, e desconvém-lhes abanar um edifício, e um mercado, que representa ligeiramente mais de metade do total das suas exportações (à volta de 37% se só contarmos os países do Euro).

A classe política europeia, toda ela, defende a construção que é da sua autoria, à sombra da qual medrou, e que a recompensa generosamente. E fará o que for preciso para contentar toda a gente, incluindo os juízes alemães, nem que fosse preciso o Bundestag fazer na primeira maré umas emendas à Constituição, ou o Parlamento Europeu aos tratados.

E os teutões comuns? Na cabeça deles, os povos do Sul são uma boa récua de calões, mas não ignoram que o dinheiro (um pouco mais de 17 mil milhões de Euros em 2018) com que alimentam burocracias e parasitagens sortidas no espaço da União não chega a 2% do que exportam, e isto sem contar com o que regressa – pode-se lá fazer um investimento sem máquinas alemãs, incluindo Mercedes, Audis ou BMWs, para não falar das frotas de carros oficiais que enxundiam os ministérios? Não pode.

É certo que o que o BCE anda a fazer há muito deixou de ser algo que mentes comuns possam compreender, e o alemão que às sextas-feiras se embebeda só a sonhar etilizado é que pode descortinar algum sentido em coisas como juros negativos, dívidas triliónicas que excedem a imaginação, rotativas a trabalhar que não despertam o monstro da inflação, e outras maravilhas que quem explica tem o cuidado de o fazer de modo que não se entenda. Um ou outro haverá de, num pesadelo, intuir que as maluqueiras talvez sobrem para ele, mas ao acordar atribuirá o mau passo à cerveja.

Portanto, é pouco provável que aconteça alguma coisa de sério – algum cozinhado se há de arranjar, mesmo que o bodo aos pobres fique, como fica sempre, muito aquém da propaganda.

E Vidal e os outros vidais, que são mais que as mães nos 27? Têm muito trabalho pela frente, em negociações acaloradas entre os resignados que vão pagar o pato e os mal-agradecidos que o querem devorar. Os ossos, que se conservam muito tempo sem decair, sabe-se para quem ficam.

Consultas médicas

por José Meireles Graça, em 05.05.20

Na etiologia da infecção pela Covid há um factor estranho, mal estudado pela doutrina e pela comunidade científica, e que vem a ser a influência que o vírus exerce em pessoas que dele não são portadoras, em particular médicos, e que os faz ter opiniões arrogantes e suficientes sobre a forma de lidar com a pandemia, que não é um assunto exclusivamente médico (nem exclusivo aliás de nenhuma formação específica, a ideia de que há formações específicas para lidar com problemas complexos que envolvem conhecimentos científicos de índole vária mas têm uma dimensão social gravosa é em si uma simplificação ingénua, para não dizer primária).

O médico é essencial para tratar doenças, como o mecânico é essencial para reparar automóveis, mas nem a um se deve tolerar que seja muito mais do que um conselheiro do doente nem ao outro que decida como o cliente deve conduzir.

Portanto, aconselharia à população malcriada que anda nas redes do alarido (foi lá que originalmente publiquei este desabafo) a destratar quem, sobre as políticas públicas para lidar com a pandemia, tem opiniões cépticas, que se aconselhasse junto de especialistas, no caso psiquiatras, para o efeito de terapêuticas calmantes que carecem de receita médica.

Mas atenção, convém não entabular conversas demasiado extensas com o facultativo sobre o assunto do dia, não vá ele não ser um exemplo típico da espécie, caso em que se requer uma visita ao médico de família, para verificar a tensão.

Despedir ou não despedir

por José Meireles Graça, em 02.05.20

Pergunta-se: pode um funcionário superior de um partido político executar fielmente as instruções da direcção quando delas discorde por achar que ofendem na essência a identidade partidária?

E pode a direcção confiar num funcionário sabendo que ele entende não servir ela, a direcção, os melhores interesses do partido, e portanto do povo (os partidos políticos existem para agregar pessoas com pontos de vista semelhantes sobre a melhor gestão da coisa pública), em matérias relevantes?

A resposta à primeira pergunta é sim, dependendo do perfil psicológico do funcionário; e à segunda é não porque os responsáveis pelo sucesso ou insucesso partidário devem poder rodear-se de pessoal de confiança – a porta do sucesso é estreita e a competição feroz, era o que mais faltava se no leque das preocupações se tiver de incluir a disciplina funcional interna.

Portanto, o PCP tem razão e Casanova não. Mas já duas instâncias judiciais disseram que o funcionário tem de ser reintegrado. E o partido reagiu, afirmando ser "inaceitável que alguém queira impor ao PCP como quadro político a tempo inteiro uma qualquer pessoa que se oponha ao PCP ou esteja comprometida com outro projeto político, como decorreria da interpretação dos critérios que serviram de base a esta decisão".

Nesta notícia diz-se que "o que a sentença se limitou a fazer foi apenas aplicar a lei dos partidos no seu artigo 1º que diz que ‘as relações laborais entre os partidos políticos e os seus funcionários estão sujeitas às leis gerais do trabalho".

O artº 1º da Lei dos Partidos não diz nada disso, mas não vale a pena procurar a sentença, que certamente não contém o asneirol jornalístico, porque é claro que o trabalhador injustamente despedido tem direito à reintegração, seja nos partidos seja nas empresas, donde os tribunais não poderiam decidir de outro modo.

As leis do trabalho obrigam à reintegração mas não deviam. Porque uma relação laboral em que o trabalhador, com razão ou sem ela, foi objecto de despedimento, encontra-se ferida de morte, e não é a reintegração que a vai ressuscitar. Se a injustiça é um dano, a maneira de o corrigir é a indemnização, não a ideia de que uma empresa pode funcionar como um serviço público, onde cabem sempre todos porque o problema da sobrevivência, e portanto dos poderes que a chefia deve ter, inexiste.

Dir-se-á que regimes diferentes para funcionários públicos e privados ferem o princípio da igualdade. Mas o princípio da igualdade só pode ser ofendido em igualdade de circunstâncias. Sucede que o Estado não é uma empresa mas um partido político, para este efeito, é: nasce, quer sucesso no mercado, pode crescer, pode estiolar e pode morrer.

Donde, há nesta história uma justiça poética: o PCP tem razão em achar que é inconcebível ser obrigado a acolher um inimigo no seu seio; mas odeia os patrões, que nunca têm razão por nem sequer deverem existir.

A realidade, como de costume, teve a última palavra.

Tags:

O passarinho de Maduro

por José Meireles Graça, em 01.05.20

Lisboa.jpg

Porto.jpg

Há muito que o 1º de Maio é a festa da CGTP e dos comunistas: são eles que organizam, são sobretudo eles que discursam, e eles que abrilhantam, com o chapéu de sindicalistas, a efeméride, vindos de camioneta da província e dos arredores para Lisboa e Porto.

Se o dia for de sol juntam-se à festa mirones e compagnons de route de vária pinta. É como na festa do Avante!: vai lá muita gente fortalecer as forças progressistas que, se os donos do empreendimento estivessem em vias de tomar o poder, se juntava à reacção.

Este ano foi diferente, como se mostra nas fotografias acima. E como aqueles soldados da revolução não são, pela maior parte, daquelas cidades, importaria saber como diabo atravessaram as barreiras que impedem medievalmente as pessoas comuns de se deslocarem entre concelhos. Com credenciais da CGTP, segundo li, informação que não pude confirmar porque a comunicação social destes detalhes logísticos não tem tempo de se inteirar. Duvido que a GNR e a PSP, porém, se alguém quisesse ir rezar a Fátima pela salvação de um parente aflito, se deixasse amolecer por um papel do cura da freguesia, ou até mesmo do senhor cardeal Patriarca.

Que bonito espectáculo, ouço dizer. Peço licença para não me deixar comover e pelo contrário oferecer a minha interpretação:

Estas imagens são um símbolo do preço que o PCP cobra para apoiar o governo burguês do PS, e dizem isto: estamos cá, somos disciplinados e organizados, temos mais poder que a Igreja e qualquer outra instituição, e a interpretação autêntica da Constituição e das leis é a que fazemos e não qualquer outra.

Portanto, socialistas católicos, tenho notícias para vós: andais, como Maduro, a reboque de um passarinho que vos traz instruções de falecidos, e para a Nossa Senhora de Fátima estai-vos a borrifar. Mas eu, que nem católico sou, e que duvido que ali jamais tenha havido qualquer milagre, não estou.

Associativismo tuga

por José Meireles Graça, em 28.04.20

Há muitos anos, geria uma fábrica que se dedicava ao fabrico de móveis frigoríficos, que exportava para uma dúzia de países.

Um dia, comecei a ouvir falar do buraco de ozono e dos grandes malefícios que os gases que então se usavam em refrigeração causavam àquele precioso gás, decompondo-o.

A pressão para a substituição do gás acentuou-se e complicados procedimentos para recuperar o gás antigo e não o deixar escapar para a atmosfera, o maldito, em aparelhos velhos, foram sendo postos em prática. Entretanto, apareceram no mercado novos gases que requeriam outros compressores, outros evaporadores e outros condensadores. Tudo era mais caro e implicava investimentos, mas os móveis passaram, com orgulho, a ostentar etiquetas verdes, muito parecidas com as que a concorrência chinesa usava para o mesmo efeito sobre equipamentos com as antigas características – povo empreendedor, não queria desperdiçar os stocks que tinha, que bem os compreendia.

O problema está hoje esquecido, o buraco diminuiu consideravelmente entretanto, não sendo talvez de excluir que o ozono, ou o nível de outra porra qualquer, suba ou baixe anormalmente quando as patentes dos novos gases estiverem perto de caducar, ou quando um laboratório prestigiado vislumbrar uma tragédia ao dobrar da esquina e encontre nas seitas ecológicas eco para estas cavalgarem uma causa fresquinha.

A empresa era sócia da associação do sector. Mas já então tinha sobre o associativismo a mesma opinião que tenho hoje e, podendo sem inconvenientes de maior pôr-me ao fresco para assistir a conferências, workshops, e comparecer a confraternizações e almoçaradas, e mesmo não tendo dúvidas da grande utilidade que semelhantes convívios podiam ter para o efeito de conhecer gente com interesse para lobbying (o nome fino da cunha e do tráfico de influências), não me sobrava a paciência para ouvir teóricos da gestão, bancários, políticos, especialistas disto e daquilo e treteiros sortidos.

De modo que raramente pus os pés fosse no que fosse. Ademais, estas iniciativas do maior interesse (segundo os promotores) tinham lugar invariavelmente em Lisboa. Ora, na altura ainda não havia GPS, absolutamente necessário no meu caso por me acontecer por razões misteriosas, quando me deslocava àquela cidade por outros motivos, ir parar a Queijas.

Sucedeu que no auge da pressão para os industriais do sector se modernizarem, a tal associação enviou uma circular significando a grande necessidade, que cientificamente demonstrava com abundância de explicações, de nos livrarmos do freon, concluindo pela urgência de mudarmos (nós, os empresários) de mentalidade.

À moça que assinava o papel respondi rebatendo ponto por ponto os seus argumentos “científicos” com outros do mesmo jaez mas de fontes diferentes e antagónicas; esclarecendo que já estava a fazer as alterações necessárias, por razões estritamente comerciais; e que me recusava formalmente a permitir que me alterassem a mentalidade com a qual, à época, já convivia pacificamente há mais de três décadas.

Quando chegou a altura de renovar a pertença, declinei; e só voltei a ser sócio de uma associação (outra) muitos anos depois, numa altura em que era conveniente para ter acesso a informação que doutro modo não teria.

A Associação da Hotelaria, Restauração e Similares apresentou ao Governo, diz a SicN, uma inacreditável proposta de regras (“já validada pela ASAE”) para os restaurantes que inclui delírios como a tomada da temperatura dos clientes, a desinfecção das mãos destes, a obrigatoriedade de marcação prévia e a escolha do menu pelo telemóvel ou em tablet do estabelecimento .

Fui ver ao site para descobrir quem era esta extraordinária gente, mas não se aprende muito: a apresentação é a vulgar declaração sobre os nobres propósitos da agremiação, em prosa da escolaridade obrigatória; e as personalidades que povoam os órgãos dirigentes são naturalmente desconhecidas, mas não aparentam ser gente de avental de serviço e com familiaridade com tachos e panelas.

Vossas Senhorias não percebem o vosso papel: para estabelecer regras de saúde pública que ofendem e humilham as pessoas, ou que dão trabalho escusado, ou que implicam despesas que não seriam necessárias, ou que acrescem à carga de trabalho dos empregados, ou que limitam a quantidade de refeições que se podem servir, não é precisa uma associação: basta um grupo de burocratas qualquer da DGS capaz de copiar normas importadas de outros países, escolhidos de entre os de língua inglesa (francês não entendem e inglês também não, geralmente, mas julgam que sim) que se distingam pela minúcia da regulamentação, somar tudo, acrescentar algumas rodilhices imaginativas, salpicar com multas e fiscalizações,  e servir no legalês prolixo que o político abelhudo de serviço assina de cruz.

Uma associação empresarial, se está do lado do Estado, não está do lado certo. O lado certo é contra o Estado, no vosso caso a defender ferozmente a viabilidade dos restaurantes – os que sobrarem depois do golpe que lhes deram o medo das pessoas, as paragens compulsivas, a insuficiência dos apoios e o descalabro do turismo.

Representais os restauradores, é, anedotas tristes? Valeis ainda menos do que o advogado oficioso que ofereça, em defesa do seu cliente, o merecimento dos autos. Porque este ainda pode contar com a imparcialidade do juiz, que não tem de engolir necessariamente as fabricações do ministério público; e vós, ao Governo que diz mata!, acrescentais esfola.

Vírus socialista

por José Meireles Graça, em 24.04.20

De entre as muitas incógnitas que rodeiam a Covid19 uma não tem recebido praticamente nenhuma atenção, e essa é se a repugnante coisa é de esquerda, de direita ou do centro. Proponho-me dilucidar esta dúvida excruciante.

As medidas tomadas para garantir o afastamento social implicaram a suspensão de direitos constitucionalmente garantidos, o reforço dos poderes policiais, banalizando a detenção (o nome púdico que se inventou para qualificar a prisão sem julgamento) sob pretextos fúteis, a redução dos trabalhos parlamentares ao mínimo, o encerramento compulsivo de empresas, o encerramento total ou parcial de estabelecimentos que, podendo teoricamente funcionar, deixaram de o fazer por falta de clientes, a redução ou eliminação dos proveitos de trabalhadores independentes e profissionais liberais, o avolumar das dívidas do sector privado (que já eram de 191% do PIB em 2019, excluindo o sector financeiro, a que acrescem 150% do sector público não financeiro), o avolumar da dívida pública (que estava, no mesmo ano, mais ou menos em 250 mil milhões), o aumento demencial do risco de imparidades nos bancos e nas empresas que sobreviverem… a lista é infinita.

Tudo isto tem consequências na vida do Estado, que verá as suas receitas afundarem por depressão da actividade económica e as suas despesas crescerem por efeito do aumento da quantidade de desempregados com subsídio e de gente a necessitar de apoio, e na das pessoas, sobretudo, de imediato, daquelas (pequenos patrões, independentes) cuja vida depende de a ganharem todos os dias com o que vão fazendo…

Uma hecatombe. Importa perceber se é um mal menor, por que razão se aceitou, até agora pacificamente, uma tão inclusiva operação de suicídio colectivo, e o que explica a relativa tranquilidade da classe política, mormente a da parte dela que governa.

Do que se sabe da Covid, parece que a taxa de mortalidade é, se for, apenas ligeiramente superior à da gripe, ou seja, 0,1%; que, de forma muito mais acentuada que a gripe, atinge os velhos, sobretudo se maiores de 70 anos, mas poupa os jovens; que é mais contagiosa, incluindo por assintomáticos; que talvez deixe sequelas que a gripe não deixa, ao menos em alguns recuperados; e que requer um internamento mais longo, quando ele é necessário, incluindo naqueles casos que chegam aos cuidados intensivos.

Nunca se pararam países por causa de um risco de morte de 0,1%; e menos ainda se o principal grupo de risco, isto é, os maiores de 70 anos, representa, mesmo numa sociedade envelhecida como a nossa, 16% da população, convindo também não perder de vista que a média de idades dos que morrem pela Covid é superior à da esperança de vida (a confirmar, ignoro se é assim por toda a parte). E, antes que se me venha dizer que, estando a falar de morte, é insensível pôr a vida das pessoas num prato da balança, e no outro a economia, lembro que eu próprio estou muito perto daquele grupo de risco, e que as recessões causam, além de quantidades imensuráveis de sofrimento, mortes por suicídio, falta de assistência médica, subalimentação, e todo o cortejo de misérias que afligem os que não têm voz e estão longe da asa protectora do Estado e dos holofotes da opinião pública. De resto, uma das razões porque o SNS estava tão mal equipado para responder aos picos de afluência era a contenção de despesas, necessária por se ter optado por outras afectações da despesa pública, e isso por causa… da economia, a tal que agora devemos ignorar.

Se isto é assim, porquê então o fervoroso apoio inicial às medidas de contenção? A explicação encontra-se, simplesmente, no medo. Medo do desconhecido, medo do que nos toque pela porta, senão directamente ao menos a familiares queridos, medo de raciocinar no meio do estouro da boiada. E medo induzido pela histeria interesseira da comunicação social: esta não venderia um chavo se noticiasse tempestades dizendo que não levantaram telhados, não provocaram sérias inundações nem arrancaram árvores pela raiz. Daí que não vejamos quase nunca a taxa de mortalidade nem os contextos, e vejamos todos os dias opiniões de médicos e outros profissionais exaustos, cientistas sortidos a aproveitar a boleia para promoverem as suas disciplinas e as suas relevantes pessoas, e cidadãos com minúsculas cátedras de influência a juntarem-se à procissão da moda, que é a dos salvadores da pátria cheia de febre e tremuras, tolhida de pavor. Para não falar dos políticos que, se forem de esquerda, recebem de braços abertos o maná do reforço dos poderes do Estado e da sua importância na vida da colectividade e, se forem de direita, querem cavalgar a onda da opinião pública e não parecerem menos aflitos com a gestão da crise.

A boiada estoura mas pára pelo cansaço. E a razão pela qual está a diminuir de velocidade mas ainda não parou é que reformados e pensionistas são três milhões e seiscentos mil; funcionários públicos 683.000; trabalhadores em layoff (que ganham dois terços do salário mas poupam em deslocações e refeições fora de casa) à volta de um milhão; desempregados com subsídio aí uns 160.000, a crescer todos os dias; e trabalhadores ainda no activo serão não muito longe de 4 milhões.

Toda esta gente acha que o preço de não ir a concertos nem restaurantes, e ficar em casa a aturar a canalhada, não é demasiado alto para evitar riscos que lhe dizem ser descomunais. E teria razão se não fosse ela a pagar, a prazo, o custo da paralisia.

E decerto os funcionários públicos, reformados e pensionistas, o principal fonds de commerce do socialismo pátrio, só pagarão sob a forma de aumentos protraídos; os outros que se desenvencilhem quando a factura chegar.

O Governo aposta que não virá factura nenhuma, confiante em que a EU fará o que for preciso para não deixar desmoronar o edifício, sapado pelo estado calamitoso das finanças italianas e dos outros países do sul da Europa. E não só não virá factura, e portanto não haverá austeridade, mas inclusive a economia vai finalmente modernizar-se através do digital, do combate às alterações climáticas e da substituição de importações do Oriente, tudo sob a lúcida orientação de Siza ou doutro capitão socialista da indústria de perdigotos que estiver de turno.

Se a Europa vai cair nesta arola não sei – é possível que arranje umas meias tintas de bodo aos pobres (o nome técnico é subvenção) e empréstimos a pagar à la longue. Mas lá que vem arame, vem. Tanto que o patrão dos patrões do encosto ao Estado e da economia dirigida já esfrega as mãos.

É provável que a malta em casa se incline a inundar as ruas, mal o vírus seja notificado que o estado de emergência acabou; que as medidas de regresso à normalidade não sejam excessivamente respeitadas porque parte delas não tem outro propósito que não seja fingir que as anteriores foram razoáveis; que haja um estremecer de cidadania em relação a proibições absurdas, como a de limitação do acesso a praias, ou à forma desumana como se pretende decretar a prisão domiciliária sine die dos velhos, para o efeito de os proteger deles próprios; e que fique um rasto de reforço de estatismo porque seremos submergidos pela propaganda da imensa sorte que tivemos em atravessar esta fase sob a esclarecida, e benevolente, direcção das autoridades.

E então, a maldita Covid, sempre é da direita anacrónica, da esquerda progressista ou da outra nem tanto, do centro… como é que fica?

Ora bem, não é uma coisa boa, portanto deve ser de direita. Mas a verdade é que nasceu num país de retórica comunista, logo deve ser de esquerda. Porém, as medidas tomadas em múltiplos países implicaram diminuição das liberdades, e portanto tanto poderia ser fascista como comunista. O caso é difícil, mas não creio que seja necessário recorrer ao polígrafo: o vírus reforçou os poderes do Estado, veio com doses massivas de propaganda, infantilizou os cidadãos, provocou grande estragos na economia que vão ser corrigidos com dinheiro da Europa para promover himalaias de corrupção, amiguismo, e elefantes brancos. Donde, só pode ser socialista.


O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D