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Eduardo Lourenço

por José Meireles Graça, em 02.12.20

Morreu Eduardo Lourenço e a comunicação social explodiu em ditirambos: no Público, por antonomásia o jornal do regime, o homem é “o gigante que nos desvendou Pessoa, Portugal e a Europa” e, no I, “o intelectual que decifrou o enigma português”. Marcelo informou que o finado era “figura essencial do Portugal que vivemos” e Costa recordou “o amigo com quem aprendeu muito”; o Conselho de Ministros decretou luto nacional; e quem é quem no mundo da opinião, conhecida ou discreta, profunda ou superficial, desarrincou textos muitíssimo inspirados.

Claro que nunca escreveu nada que fosse muito lido senão por quem leva a sério lá essas coisas de letra redonda que entende mal, ou fizesse escola, ou estabelecesse doutrina, ou apontasse caminhos que não fossem os da mais chã banalidade no pensamento e na acção. Mas tinha uma receita. Como disse um ignoto comentador no Facebook, essa rede dois dias pejada de citações do vulto desaparecido:

E então, a Ordem dos Psicanalistas já veio dar testemunho do seu pesar? Morreu o confrade que se especializou na homeopatia para a pátria no sofá.

Essa era de facto a especialidade, a par de arroubos líricos em torno da imarcescível alma portuguesa e mergulhos na psique da nacionalidade, consoante os dias e as circunstâncias. Quem tiver dúvidas ou pecados a expiar pode conferir neste repositório de citações.

Pobre homem, talvez não merecesse, pela sua simplicidade, que era provavelmente genuína, o prémio que dá a pátria aos seus próceres da cultura quando morrem velhos: o estatuto de génios retroactivos, em vez de diuturnidades.

Não mereceria talvez, também, estas regras desabusadas porque foi um homem bom o que morreu; e na lavoura do pensamento e da escrita são precisos muitos para que, de longe em longe, um se livre da lei da morte.

Descanse em paz e nós até ao próximo génio que o mundo oficial assim declarar.

Como o país

por José Meireles Graça, em 25.11.20

Em Agosto do ano passado contava uma história, verídica mas inverosímil, sobre uma empresa destruída pelo Fisco com base em acusações suportadas em irregularidades contabilísticas que foram interpretadas, sem qualquer base probatória ou sequer senso comum, como indícios seguros de evasão fiscal.

O texto era extenso e mesmo assim cortei nos detalhes, para não o tornar intragável, mas arrolava o essencial. Com desconto das proporções, e desculpa pela hipérbole, a historieta era um exemplo da banalidade do mal.

Ao falar deste conceito, diz a Wikipédia:

“… agiu segundo o que acreditava ser o seu dever, cumprindo ordens superiores e movido pelo desejo de ascender em sua carreira profissional, na mais perfeita lógica burocrática”.

“… o mal não é uma categoria ontológica, não é natureza, nem metafísica. É político e histórico: é produzido por homens e se manifesta apenas onde encontra espaço institucional para isso - em razão de uma escolha política. A trivialização da violência corresponde… ao vazio de pensamento, onde a banalidade do mal se instala”.

Temos um alegado crime – a evasão fiscal; temos a derrogação de uma regra básica do direito criminal – quem acusa tem o ónus da prova; temos o abandalhamento total de qualquer consistência da acusação – nem precisa de ser razoavelmente indiciária; temos a recompensa dos agentes – merecem o louvor das chefias na proporção das exacções que praticam, em cujos proveitos participam; temos a aprovação pública – o cidadão que recebe do Estado mais do que para ele julga contribuir entende que quem é acusado de evasão o está a roubar e o que contribui mais do que recebe entende que, se todos pagarem mais, seja como for, é menos esbulhado; temos a ignorância da opinião pública e da publicada – a primeira é confortada na ideia de que, salvo prova em contrário, quem detém meios de produção é caracteristicamente, além de inepto, ladrão, e a segunda dá todos os dias provas da sua prodigiosa ignorância, embrulhada num parti-pris estatista e anti iniciativa privada; e temos um poder político que encontra sempre boas razões para aumentar a punção fiscal, com a qual compra votos por distribuição de benefícios, e não acha nunca oportuno, ou justo, ou desejável, aliviar a pressão fiscal porque, fazendo-o, corre o risco de ser apeado.

Altos níveis de fiscalidade, baseados em escolhas políticas, são aceitáveis desde o momento que o regime tenha, como tem, legitimidade democrática. Com isso compromete-se o desenvolvimento, mata-se a iniciativa e garante-se a dependência das esmolas dos países ricos (um ouro do Brasil que, tal como o original, se julga que não terá fim), a par de um lento e firme deslizar para o último lugar da riqueza no nosso continente, mas é a receita que o eleitorado tem comprado.

Mas não comprou um corpo de funcionários inimputáveis nem poderes demenciais sem escrutínio válido. O recurso aos tribunais implica ou pagamento do que não é devido, ou a apresentação de garantias de valor equivalente, que inexistem tanto mais quanto delas se necessite, e recursos para esperar porque as sentenças vêm com o vagar que se toma como uma respeitável tradição. Mesmo para quem a eles possa aceder, executar as sentenças é um calvário; nas despesas incorridas o Estado não participa; e a Administração pode tranquilamente pontapear o Direito, mesmo o que ela própria redigiu e o político acéfalo de serviço assinou, porque a sentença que exonera o contribuinte não castiga o funcionário que levantou o auto – é como se o cidadão, que se queixa de ter sido agredido numa esquadra de polícia, visse o tribunal dar-lhe razão e o polícia agressor, além do prémio de desempenho, pudesse tranquilamente continuar a escaqueirar as trombas não suficientemente humildes de quem teve o azar de com ele tropeçar no caminho.

O eleitorado esta realidade não comprou, mas ela mantem-se porque ignorada pela opinião pública, a qual  se inteirada decerto pensaria: ora bem, se os acusaram alguma coisa devem ter feito – que é o que dizem as pessoas que têm um reflexo condicionado de acatamento da autoridade e acreditam que para privar as pessoas da sua liberdade é necessário o respeito de um conjunto de regras que a civilização impôs, mas para as privar da sua fazenda não.

Ignorada pela opinião pública, uma velha rameira que de todo o modo o cidadão dono do seu nariz deveria tratar com sobranceria, mas também pelos jornalistas, uma turba decaída que se quer encostar ao Estado na exacta medida em que perdeu, por razões várias, o seu modo de vida pouco antes de ter perdido a gramática, e pelos decisores políticos, que com razão recuam com horror nas obscuras matérias fiscais, que são deixadas para os especialistas.

Destes, o principal é a invariavelmente sinistra figura do Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, cuja missão é garantir a quem o nomeou que não haverá quebra de receitas, agradar aos esbirros que nominalmente estão sob a sua direcção, lisonjear a comunicação social confortando-a na ideia de que está a combater eficazmente a evasão fiscal e aldrabar os parlamentares fazendo-os crer que não vivemos num Estado de Polícia fiscal. O actual é igual a esse título aos anteriores (incluindo o dos tempos da troica, um ostensivo desastre que tenho vergonha de reconhecer ter sido escolhido pelo partido de que sou militante), e todos têm sido pessoas moralmente desprezíveis. É moralmente desprezível quem, em nome da perseguição a infractores, não se importa de coonestar procedimentos que não pode deixar de saber que triturarão inocentes.

Deixemos lá isso, o que lá vai lá vai.

Não vai. Porque o edifício e as máquinas referidos na história para que remete o primeiro parágrafo foram leiloados em Dezembro e o conjunto foi arrematado por um valor que, mesmo sendo como foi de uva mijona, excedia largamente a totalidade do endividamento da firma, se excluirmos as indemnizações ao pessoal (decorrentes da insolvência que o Fisco induziu), a parte do endividamento que era, na realidade, capital, por não ser exigível nem implicar serviço de dívida, e a imaginária dívida fiscal, baseada em vendas sem factura que nunca existiram nem poderiam ter existido dada a natureza dos bens, os destinatários, que eram em mais de quatro quintos clientes de outros países, e o volume, por se tratar de bens de equipamento de grande atravancamento que implicariam gigantescas movimentações de TIRs clandestinos – uma fantasia que só poderia caber na cabeça retorcida de umas moças ou moços que ganham a vida estragando a de outros, sob a férula de uma hierarquia de agentes da Gestapo.

Pois bem: volvido quase um ano sobre o leilão, nenhum credor recebeu um centavo, o arrematante não pagou um cêntimo, e nenhum antigo fornecedor pôde sequer fazer encontro de contas com o IVA que perdeu porque a celerada legislação existente não o permite sem o reconhecimento definitivo dos créditos, e mesmo isso com apertados prazos já excedidos. Tudo isto porque o edifício foi construído sobre três lotes num parque industrial pertencente a uma câmara municipal, que os vendeu, licenciou devidamente a obra há mais de vinte anos e passou a competente licença de utilização, como o fez uma miríade de serviços públicos envolvidos, incluindo o ministério da Indústria.

A Câmara em questão não deveria ter vendido três lotes contíguos e autorizado a construção em cima deles porque o Plano de Pormenor da zona não o permitia; ou então deveria ter previamente alterado o Plano, coisa que não podia fazer porque tinha de estar em vigor por dez anos, como explicou candidamente, muitos anos volvidos, um diligente funcionário da edilidade; e quando o maldito Plano foi alterado a autarquia exigiu um novo processo de licenciamento para corrigir a sua asneira, com as competentes despesas, taxas e sabe Deus que alterações, como se a fábrica não tivesse estado a funcionar no maior respeito da legalidade desde que o Parque nasceu.

É esse licenciamento que, oficialmente, está a encravar tudo; e o que sobre este derradeiro embaraço realmente penso peço licença para guardar para mim.

Até porque, a esta altura do texto creio que quem começou a ler já deve estar farto – mas que embrulhada.

Como o país.

 

Moreira das proclamações

por José Meireles Graça, em 17.11.20

Jorge Moreira da Silva, um homem aberto, moderno, cosmopolita, inovador e arejado, na opinião do próprio, publica um artigo de opinião no Público onde, fremente de virtuosa indignação, acha mal que o seu colega José Manuel Bolieiro, cuja “competência” sublinha, tenha feito um acordo com O Chega!. “Não se fazem acordos com partidos xenófobos, racistas, extremistas e populistas. Com partidos que, por ignorância ou perversidade moral, propalam propostas incompatíveis com a dignidade humana. Ponto!”, exclama, e eu até tremi de comoção – este Moreira sabe como tanger as cordas dos nossos mais lídimos sentimentos, vou ali beber um chá de camomila e comer um bocadinho de tofu com queijo das ilhas para me acalmar.

Não sou nem adepto nem advogado do Chega! – não preciso de versões exacerbadas e oportunistas de vários tipos de asneirol que já tinham o seu cantinho no meu partido, que acolhe, e bem, muitas capelas.

Sucede porém que almas simples como a minha gostam das coisas bem explicadinhas. E este discurso escuteiral suscita-me várias questões, a começar pela curiosidade de saber quem é este prócere do PSD, cujo nome me era familiar.

Era, e com razão: Já em tempos tropecei neste empresário do ramo das tretas ecológicas, e sobre ele bordei considerações da maior pertinência, que estão aqui. Um passado ominoso, é o caso de dizer.

Depois, acha que o Chega! é uma data de coisas que será ou não (os próprios, se acham que a carapuça não lhes serve, que se defendam, se entenderem que o que diz Jorge vale a pena refutar) mas deve ter pouca confiança em Bolieiro, no PSD e CDS locais e no acordo. Porque toda a gente envolvida neste negócio deve saber o que lhe convém, que é apear o PS, e é precisa muita falta de confiança para imaginar que o Chega!, parceiro minoritário, está em condições de cobrar um preço que democratas não possam pagar.

Jorge “… recorda que em 2015 deu voz à primeira reação oficial da PaF na noite eleitoral defendendo que ‘quem ganha governa’ e que mantém a posição contra as coligações ‘negativas para derrubar o governo liderado pelo partido mais votado…” 

Olha que bem. E como o tal governo feito por quem ganhou não conseguiria governar porque não aprovaria coisa alguma, seria necessário acreditar que o eleitorado, em novas eleições, corrigiria o torto, dando a maioria absoluta a quem não a deu dias antes, e castigando o partido proscrito com quem ninguém quisesse fazer acordos. Isto, com o PCP, sobre o qual, tirando os comunistas, ninguém tem ilusões, talvez tivesse pernas para andar (deixo de lado as implicações constitucionais, que não são as mesmas para o governo do país e o das ilhas). Mas com o Chega!? Não me parece.

O homem acredita nisto. Já eu acho que quem nisto acredita é aventureiro, Jorginho que tenha lá paciência. E como, na prática, o PS não deixará, com entusiasmo, de encarar com a maior simpatia estes pontos de vista, cabe lembrar a afirmação cínica de Salazar: em política, o que parece é.

Os cínicos, às vezes, têm razão.

Ihor Homeniuk

por José Meireles Graça, em 16.11.20

Sobre Ihor Homeniuk, o não-preto, não-imigrante de balsa, não-refugiado, não-cigano, não-muçulmano, disse o que, a meu ver, convinha. E, a certo ponto, preopinava:

“Em Portugal o princípio da responsabilidade objectiva está consagrado na doutrina, mas em nenhum outro lugar: é longa a lista de responsáveis que não apenas não se deixam abater pelas desgraças que ocorrem sob a sua tutela mas que são inclusive reconduzidos, como aconteceu por exemplo com o lamentável Costa que presidiu à cegueira contumaz do Banco de Portugal, ou promovidos, como tinha acontecido com o seu antecessor, um desastre que hoje goza a tranquila reforma a que fez jus com uma carreira de dislates cá dentro, e obediência obsequiosa lá fora”.

Estava, é claro, a falar do ministro da administração interna, “uma nulidade gordurenta e palavrosa”, e da directora do Serviço Nacional de Estrangeiros e Fronteiras.

Esta senhora (que, aliás, ao ter estado calada até agora deu de si as melhores indicações) vem, quando questionada sobre se tinha posto o lugar à disposição do ministro da Administração Interna, que tutela o SEF, ou se tinha pensado demitir-se, dizer o seguinte:

"Não. É uma responsabilidade à qual eu não podia fugir. Por muito duro que seja o momento com que tive que lidar, abandonar não adiantaria nada e não iria introduzir nenhuma mudança positiva, que eu achava que era possível introduzir para que este trágico e hediondo acontecimento não seja nunca esquecido e nos catapulte para garantir que nenhum Ihor volta a sofrer o que este cidadão ucraniano sofreu nas instalações do SEF."

Ou seja: sob sua direcção, três patifes assassinaram sob tortura, no desempenho de funções públicas e por causa delas, um homem; não o poderiam ter feito se a cultura do serviço e do lugar não criasse o ambiente para estas coisas serem possíveis e naturais; e o responsável máximo descobre agora que é necessário introduzir uma “mudança positiva”, e julga-se a pessoa indicada para a produzir.

Julga mal. Porque se é preciso morrer uma pessoa para os responsáveis descobrirem o que fazer para evitar assassínios no desempenho das funções, isso significa que sofre de indesculpável ignorância. E nem preciso conhecer a senhora, ou o serviço, ou a gente deplorável que lá trabalha (que me perdoem as excepções: há sempre flores no meio do entulho) para imaginar a miríade de pequenos abusos que criam o caldo de cultura para os grandes. Cristina Gatões percebe isto? Se percebesse, tinha-se demitido.

Direita caviar

por José Meireles Graça, em 13.11.20

No Público, um órgão oficioso do regime, completo com colunas de opinião desalinhada que lhe dão o conveniente verniz da independência, saiu um “abaixo-assinado” cujos autores informam que nem foram apoiantes de Trump nem o são do Chega!, uma clarificação que quem, como eu, os conheça, acha dispensável, e relevante para os outros apenas na medida em que, se forem devotos de uma das várias igrejas de esquerda, ficam confortados na ideia de que a direita admissível é apenas a que está dentro do perímetro que definem como espaço democrático e tolerável.

O título é “A clareza que defendemos” e o texto nada tem de claro – por isso é que o traduzi no parágrafo anterior.

Conto com vários amigos pessoais no ilustre grupo, cujo único cimento discernível é o tratar-se de não-socialistas; conhecendo-os pela maior parte, é gente que leio com atenção e proveito; e a alguns honro (este verbo é irónico, para as pessoas que precisam se lhes explique tudo bem explicadinho) com a minha admiração, como é o caso do Carlos Guimarães Pinto, que suspendeu a banca de ensaísta e teórico para se enfarruscar na luta política activa.

Pois bem: lamento dizer que estes meus confrades fariam muito melhor pela causa da regeneração do País se, nesta maré, tivessem feito o favor de ficarem calados.

Por razões tácticas desde logo: A direita ou regressa ao Poder com um programa mínimo comum ou não regressa. Há por aí umas teses solertes segundo as quais o precedente criado pela Geringonça não tem de ser seguido porque o péssimo exemplo de trazer o PCP e os dementes do Bloco para a área da governabilidade não deve ser emulado à direita com a inclusão do Chega!, mas implicam uma equivalência que não tem razão de ser: o Chega! tem no seu programa partes que não são palatáveis (nem para mim nem para a maior parte do eleitorado), comportamentos erráticos, e militantes infrequentáveis. Mas não tem nada, nem na teoria nem na prática, que ponha em causa o regime democrático. Não se pode dizer o mesmo do PCP, cujos textos doutrinários continuam a considerar a democracia formal como burguesa, e a defesa dela como instrumental para um projecto de conquista do Poder. Que esse projecto não tenha pernas para andar importa pouco: sempre o PCP defende as medidas que conduzam à preponderância do Estado e não do indivíduo, à nacionalização dos meios de produção e não à liberdade económica, ao controlo da opinião e não à sua liberdade, à minagem do aparelho de Estado e não à sua profissionalização. Logo, uma Caranguejola NÃO É equivalente à Geringonça.

Depois, a caracterização como “amálgama” de sentimentos nacionalistas, identitários, tribais, demagógicos, incendiários, revanchistas, padece do amalgamismo (gramáticos: sei que a palavra não existe) que diz querer combater porque, na realidade, confunde excessos de linguagem com genuínas, e perfeitamente legítimas, ansiedades e preocupações com o supranacionalismo de instituições largamente inimputáveis como a UE, a ONU ou a OMS, desvaloriza o sentimento de pertença e o patriotismo como sendo velharias históricas, e abre a porta a limitações à liberdade de opinião pela insistência na caracterização de discursos como genericamente inaceitáveis, logo que contendam com conceitos mal definidos como “xenofobia”, “racismo”, “iliberalismo” (que diabo será isto – a versão europeia ou a anglo-saxónica?) e o mais que a polícia do pensamento de esquerda entende ser território off-limits da opinião.

A saúde do espaço público ganharia, é certo, com civilidade no discurso e brida nas paixões. Mas isso é a forma, não a substância. A estas ilustres personalidades, que decerto chamam abaixo-assinado ao manifesto para não se confundir com os muitos que intelectuais comunistas e outros que têm a mania que não o são faziam no tempo de Passos, conviria lembrar o que comunistas e bloquistas chamavam no Parlamento aos membros do Governo de então: ladrões.

A esquerda costuma saber onde está com a cabeça. A direita, nem sempre.

Trump

por José Meireles Graça, em 08.11.20

E pronto, o eleitorado americano calçou uns patins a Trump. Mesmo que este tenha razão na alegação de numerosas chapeladas (e terá, a esquerda lá e cá funda a sua legitimidade na superioridade moral das suas posições, e portanto tem um incentivo para cortar nos cantos da democracia formal em nome de um bem maior) é implausível que as aldrabices (para não falar das dificuldades de prova) sejam suficientes para obscurecer a diferença de votos, mais de 4 milhões, mesmo que nos Estados que, por terem deixado de ser vermelhos para passar a ser azuis, ela seja insignificante ou muito pequena (à volta de 0,6% no Wisconsin,  2,6% no Michigan e, sobretudo, 0,6% na Pensilvânia, que, no conjunto, representam 46 votos).

O velho Trump foi vítima do seu feitio e da sua incontinência verbal - não lhe bastava uma comunicação social hostil, que lá como cá há muito substituiu qualquer pretensão de contar histórias, relatar notícias, e guardar as opiniões para as respectivas colunas, para passar a inventar umas, seleccionar as outras, e tingir tudo com a defesa de causas que invariavelmente são as da esquerda. Foi semeando um rasto de insultos gratuitos (como o feito a John McCain) e um impressionante rol de contradições e palavreado chulo no seu meio de eleição, o Twitter, um esgoto a céu aberto para iletrados. Twitter que aliás lhe cortou com descaramento o pio várias vezes porque a plutocracia que manda nas redes entende que tem o direito de educar as multidões, um abuso que Trump, se tivesse sido reeleito, haveria de querer coarctar.

Se tivesse juízo e na sua cabeça um tanto primária coubessem muitas variáveis, já teria concedido: há guerras que, em nome de bens maiores, não vale a pena travar; e perder, quando se deixa uma herança honrosa, não transforma ninguém em loser – a democracia não é o regime em que o povo tem razão, é aquele em que tem legitimidade para dar e tirar poder a quem o entregou.

E é honrosa, a herança? Claro que sim. A ideia de que se pode ter razão, e encontrar apoios, quando se ofendem os bonzos da opinião publicada; que os consensos de especialistas em geoestratégia, imigração, clima, ambiente, economia, saúde pública e o mais que afecta a vida da colectividade podem ser ignorados quando o senso, análise de custo/benefício, detecção de interesses ocultos, e opiniões qualificadas alternativas, apontam outro caminho: é o melhor que Trump deixa. Biden é um escravo do establishment, e a sua vice, provavelmente, uma esquerdista raivosa. Quando chegar a hora de os mandar à vida o agente dessa salutar mudança terá menos problemas em dizer o que lhe vai na alma porque o gelo do conformismo já está quebrado.

Gente que precisa de descer ao concreto apreciará talvez uma lista em que tropecei por acaso, no Facebook (outra rede que precisa de uma severa vergastada pelas costas abaixo, a ver se deixa de policiar o discurso), de Bruno Gouveia. Não conferi, nem concordo com todas as medidas. Mas como herança não está mal. Donald, que passou a vida a dizer olhem para o que eu digo, não o que faço, deveria ter recomendado o oposto. E, saindo, nem por isso deixa de ser, de muito longe, o candidato mais votado de sempre: 71 milhões votaram nele e 75 milhões contra ele.

* Três projetos de lei para beneficiar os povos nativos. Um compensa a tribo Spokane pela perda das suas terras em meados de 1900, outro financia programas de língua nativa e o terceiro dá reconhecimento federal à tribo Chippewa em Montana.

* Finalizou a criação da Força Espacial como o 6º braço militar.

* Lei para tornar a crueldade com os animais um crime federal para que os abusadores de animais enfrentem consequências mais duras.

* O crime violento caiu a cada ano em que ele esteve no cargo, após ter aumentado durante os 2 anos antes de ele ser eleito.

* US $100 milhões para consertar o problema de infraestrutura de água em Flint, Michigan.

* Em 2018, os EUA ultrapassaram a Rússia e a Arábia Saudita para se tornarem o maior produtor mundial de petróleo bruto.

* Lei que impõe aos farmacêuticos a partilha de informações sobre preços de medicamentos.

* O “Allow States and Victims to Fight Online Sex Trafficking Act” (FOSTA), que inclui a “Stop Enabling Sex Traffickers Act” (SESTA), que tanto dá aos policias como às vítimas novas ferramentas para combater o tráfico sexual.

* Projecto de lei que exige que os aeroportos forneçam locais adaptados a mães que amamentam.

* Os 25% de norte-americanos com rendimentos mais baixos tiveram um aumento de rendimentos de 4,5% em novembro de 2019.

* O maior projecto de lei de protecção e conservação da natureza numa década, que designou 375.000 acres como área protegida.

* O Save our Seas Act, que financia US $10 milhões por ano para limpar toneladas de plástico e lixo do oceano.

* Projecto de lei que permitiu a importação de medicamentos do Canadá para que os preços dos medicamentos caíssem.

* Uma ordem executiva que força todos os provedores de saúde a divulgarem o custo dos seus serviços para que os americanos possam comparar preços.

* Ao assinar a ordem, Trump disse que nenhum americano deveria ser apanhado de surpresa por contas de serviços médicos com os quais nunca concordou antecipadamente.

* Os hospitais agora são obrigados a anunciar as suas taxas padrão de serviços, que incluem o preço com o desconto que um hospital está disposto a aceitar.

* Nos oito anos anteriores à sua posse, os preços dos medicamentos prescritos aumentaram em média 3,6% ao ano. Com Trump, os preços dos medicamentos registaram quedas ano a ano e em nove dos últimos dez meses, com queda de 1,1%.

* Criou uma Linha Direta de VA da Casa Branca para ajudar os veteranos e familiares directos de veteranos.

* Os funcionários da VA são responsabilizados por mau desempenho, com mais de 4.000 funcionários da VA removidos e suspensos até agora.

* Ordem executiva que exige que os Secretários de Defesa, Segurança Interna e Assuntos de Veteranos apresentem um plano conjunto para fornecer aos veteranos acesso a tratamento de saúde mental durante a transição para a vida civil.

* Por causa de um projecto de lei assinado e defendido por Trump, em 2020, a maioria dos funcionários federais verá seu salário aumentar em média 3,1% - o maior aumento em mais de 10 anos.

* Sancionou uma lei de até 12 semanas de licença parental paga para milhões de trabalhadores federais.

* Fornecimento de medicamentos de prevenção do HIV gratuitamente a 200.000 pacientes sem seguro, por ano, durante 11 anos.

* Trump assinou um pedido que permite que pequenas empresas se agrupem na compra de seguros para obter um preço melhor.

* A Lei de Prevenção de Mortes Maternas, que fornece financiamento para a redução das taxas de mortalidade, mais altas para negros americanos.

* Em 2018, assinou o inovador First Step Act, um projecto de lei de justiça criminal que promulgou reformas que tornam o sistema de justiça mais justo e ajudam ex-presidiários a retornar com sucesso à sociedade.

* As reformas do First Step Act abordaram as injustiças nas leis de condenação que prejudicavam desproporcionalmente os negros americanos e reformaram os mínimos obrigatórios para revisão de sentenças injustas.

* Mais de 90% dos que beneficiam das reduções retroactivas de penas no First Step Act são negros americanos.

* O First Step Act oferece programas de reabilitação para presidiários, ajudando-os a reintegrar na sociedade e a não retornar ao crime.

* Aumentou o financiamento para Faculdades e Universidades Historicamente Negras (HBCUs) em mais de 14%. Aliás, essa foi das suas primeiras medidas assim que tomou posse.

* Assinou legislação perdoando a dívida do furacão Katrina que ameaçava os HBCUs.

* As vendas de novas residências unifamiliares tiverem aumentos de 31,6% em outubro de 2019, inferiores aos registados apenas um ano antes.

* Tornou as HBCUs uma prioridade ao criar o cargo de director executivo da Iniciativa da Casa Branca em HBCUs.

* Recebeu o Prémio Bipartidário da Justiça numa faculdade historicamente negra, pelas suas reformas da justiça criminal.

* A taxa de pobreza caiu para um mínimo de 11,8% em 17 anos.

* As taxas de pobreza para afro-americanos e hispano-americanos atingiram os seus níveis mais baixos desde que os EUA começaram a reunir esses dados.

* Projecto de lei que cria cinco monumentos nacionais, expande vários parques nacionais, adiciona 1,3 milhão de acres de área selvagem e reautoriza permanentemente o Fundo de Conservação de Terra e Água.

* Comprometeu US $124 milhões para reconstruir a infraestrutura de água rural.

* Mais de 7 milhões de empregos criados desde a eleição.

* Mais de 400.000 empregos industriais criados desde sua eleição.

* Nomeou 5 embaixadores abertamente gays.

* Ordenou que Ric Grenell, seu embaixador assumidamente gay na Alemanha, liderasse uma iniciativa global para descriminalizar a homossexualidade em todo o mundo.

* Por meio da iniciativa Anti-Trafficking Coordination Team (ACTeam), a polícia federal mais do que dobrou as condenações de traficantes de seres humanos e aumentou o número de réus acusados em 75% nos distritos da ACTeam.

* Em 2018, o Departamento de Justiça (DOJ) desmantelou uma organização que era a principal fonte da Internet de anúncios relacionados com a prostituição resultando em tráfico sexual.

* Novas orientações anti-tráfico para combater mais eficazmente o tráfico humano.

* As Investigações de Segurança Interna da Imigração e Alfândega prenderam 1.588 criminosos associados ao tráfico humano.

* O Departamento de Saúde e Serviços Humanos forneceu fundos para apoiar o National Human Trafficking Hotline para identificar os perpetradores e dar às vítimas a ajuda de que precisam.

* A linha directa identificou 16.862 casos potenciais de tráfico humano.

* Forneceu subsídios para organizações que apoiam vítimas de tráfico humano - atendendo a quase 9.000 casos de 1 de julho de 2017 a 30 de junho de 2018.

* O Departamento de Segurança Interna contratou mais especialistas em assistência às vítimas, ajudando as vítimas a obter recursos e apoio.

* Pediu ao Congresso que aprove uma legislação de escolha de escola para que nenhuma criança fique presa a uma escola por causa de seu código postal.

* Assinou uma legislação de financiamento em setembro de 2018 que aumentou o financiamento para a escolha de escolas em US $42 milhões.

* Os cortes de impostos promovem a escolha da escola, permitindo que as famílias usem 529 planos de poupança para o ensino fundamental e médio.

* Sob sua liderança, o ISIS perdeu a maior parte de seu território e foi amplamente desmantelado.

* O líder do ISIS, Abu Bakr Al-Baghdadi, foi morto.

* Assinou a primeira reautorização CTE da Perkins desde 2006, autorizando mais de US $mil milhões para os estados a cada ano financiar programas de educação vocacional e de carreira.

* Ordem executiva expandindo as oportunidades de aprendizagem para alunos e trabalhadores.

* Ordem executiva proibindo o governo dos EUA de discriminar os cristãos ou punir expressões de fé.

* Ordem executiva que permite ao governo reter dinheiro de campus universitários considerados anti-semitas e que não conseguem combater o anti-semitismo.

* Ordenou a suspensão do dinheiro dos impostos dos EUA para organizações internacionais que financiam ou realizam abortos.

* Impôs sanções aos socialistas na Venezuela que mataram os seus cidadãos.

* Concluído acordo comercial com a Coreia do Sul.

* Acordo com a União Europeia para aumentar as exportações de energia dos EUA para a Europa.

* Retirou os EUA do acordo TPP.

* Garantiu US $250 mil milhões em novos acordos comerciais e de investimento na China e US $12 mil milhões no Vietnam.

* Concedeu até US $12 mil milhões em ajuda para agricultores afectados por retaliação comercial injusta.

* Já libertou mais de uma dúzia de reféns dos EUA, incluindo aqueles que Obama não conseguiu libertar.

* Assinou a Lei de Modernização da Música, a maior mudança na lei de direitos autorais em décadas.

* “Iniciativa Pronto para Trabalhar” para ajudar a conectar os empregadores directamente com ex-presidiários.

* A legislação histórica de corte de impostos incluiu novos incentivos para promover o investimento em comunidades mais pobres em todo o país.

* 8.764 comunidades em todo o país foram designadas como zonas de oportunidade.

* As zonas de oportunidade devem gerar US $100 mil milhões em investimentos de capital privado de longo prazo em comunidades economicamente desfavorecidas em todo o país.

* Sancionou o Fundo de Compensação de Vítimas do 11 de Setembro.

* Assinou programas de financiamento de prevenção ao suicídio de veteranos.

* O mercado de acções atingiu recordes históricos.

* O desemprego afro-americano atingiu o nível mais baixo de sempre.

* O desemprego hispano-americano atingiu o nível mais baixo de sempre.

* O desemprego asiático-americano atingiu o nível mais baixo de sempre.

* A taxa de desemprego feminino há 65 anos que não era tão baixa.

* O desemprego juvenil há 50 anos que não era tão baixa.

* A menor taxa de desemprego já registada.

* The Pledge to America’s Workers resultou no compromisso de empregadores em treinar mais de 4 milhões de americanos.

* Como resultado da lei tributária republicana, as pequenas empresas têm a taxa marginal máxima mais baixa em mais de 80 anos.

* Número recorde de regulamentos eliminados que prejudicam as pequenas empresas.

* Reforma da previdência exigindo que adultos fisicamente aptos que não têm filhos trabalhem ou procurem trabalho se estiverem na previdência.

* O FDA aprovou medicamentos genéricos mais acessíveis do que nunca na história.

* Programa reformado do Medicare para impedir que os hospitais sobrecarreguem os idosos de baixos rendimentos com seus medicamentos.

* Legislação do direito de experimentar, permitindo que pacientes terminais experimentem o tratamento experimental que não era permitido antes.

* Assegurou US $6 mil milhões em novos fundos para combater a epidemia de opioides.

* Assinou o VA Choice Act e VA Accountability Act, expandiu os serviços de tele-saúde VA, ambulatórios e atendimento de saúde mental e primário urgente no mesmo dia.

* A produção de petróleo dos EUA atingiu o máximo de todos os tempos, tornando os US menos dependentes do petróleo do Médio Oriente.

* Os EUA são exportadores líquidos de gás natural pela primeira vez desde 1957.

* Os aliados da NATO aumentaram os seus gastos com defesa por causa da sua campanha de pressão.

* Retirou os Estados Unidos do Acordo Climático de Paris e, no mesmo ano, os EUA lideraram o mundo por terem a maior redução nas emissões de carbono.

* Juízes do tribunal de circuito confirmados mais rapidamente do que em qualquer outra nova administração.

* Mudou a Embaixada dos EUA em Israel para Jerusalém.

* Concluiu um novo acordo comercial com México e Canadá.

* Chegou a um acordo inovador com a UE para aumentar as exportações dos EUA.

* Tarifas impostas à China em resposta à transferência forçada de tecnologia da China, roubo de propriedade intelectual e suas práticas comerciais cronicamente abusivas, concordou com um acordo comercial com a China.

* Legislação assinada para melhorar a Linha Directa Nacional de Suicídios.

* Legislação de cancro infantil mais abrangente de todos os tempos, que avançará na pesquisa do cancro infantil e aprimorará os tratamentos.

* A Lei de Reduções de Impostos e Empregos, dobrou o valor máximo do crédito tributário infantil disponível para os pais e elevou os limites de rendimentos para que mais pessoas pudessem reivindicá-lo.

* Sancionou a lei de um aumento de US $2,4 mil milhões no financiamento do Fundo de Cuidado e Desenvolvimento Infantil, fornecendo um total de US $8,1 mil milhões aos Estados para financiar o cuidado infantil para famílias de rendimentos mais baixos.

* O Crédito Tributário para Cuidados de Crianças e Dependentes (CDCTC) fornece um crédito fiscal igual a 20-35% das despesas com cuidados infantis, $3.000 por criança e $6.000 por família + Contas de Despesas Flexíveis (FSAs).

* Em 2019, assinou a Lei de Colaboração, Responsabilidade, Pesquisa, Educação e Apoio do Autismo (CARES) que aloca US $1,8 mil milhões em financiamento nos próximos cinco anos para ajudar pessoas com transtorno do espectro do autismo e para ajudar as suas famílias.

* Em 2019, sancionou dois pacotes de financiamento que fornecem quase US $19 milhões em novos financiamentos para programas de pesquisa e educação específicos para o lúpus, bem como US $41,7 mil milhões adicionais em financiamento para o National Institutes of Health (NIH), o maior financiamento de Lúpus de SEMPRE.

O que não fez Trump em 4 anos? Será também por isto que o odeiam?

* Não fez guerra com nenhum país, quer do Médio Oriente ou qualquer outro.

*Trump não alterou uma virgula à legislação sobre emigração existente. Limitou-se a cumpri-la.

*Quem começou a contruir o Muro, foi Clinton.

Bush e Obama continuaram e não acabaram.

* Quem primeiro separou os filhos dos supostos pais emigrantes ilegais e os instalou em jaulas foi Obama.

*. A única coisa que os EUA não cumprem do Acordo de Paris é pagarem à China e a outros para que esses possam poluir à vontade.

*Os EUA continuam a respeitar todas as regras e são os que este ano mais cumpriram.

Aliás, os EUA, que nunca ratificaram o Tratado de Kioto, foram os únicos que o cumpriram. Portugal e muitos outros países ratificaram, mas nunca o cumpriram.

* Trump não se limitou a eliminar um terrorista, eliminou mais de que um. Com pré-aviso às populações afegãs em risco, lançou a maior bomba não nuclear que existe sobre os talibãs e pôs os afegãos em negociações de paz.

* Levou ao Acordo de Paz entre Israel e a Palestina.

Novo layout

por José Meireles Graça, em 02.11.20

Há tempos o Facebook resolveu alterar o layout a pretexto de umas imaginárias melhorias. Agora que já estou mais habituadinho acho que percebi a necessidade: deslocaram mais coisas para o cabeçalho para a publicidade se ver melhor.

Andei uns tempos agarrado à versão antiga, com o apoio de um site que queria servir os milhões que, como eu, não apreciaram a baldroca. Mas começou tudo a funcionar mal, os moços do site não podiam ganhar a guerra com o czar Zuckerberg.

Imagino que muita gente gostou, a mesma que acha que o moderno é sempre melhor e pronto: vale para toilettes, daí que os locutores da Sic se apresentem com fatos arrepanhados, um número abaixo do que compete; para os interiores mais recentes dos carros topo-de-gama (isto é, os que os jornalistas invejosos assim denominam), que têm uma quantidade de luzes de várias cores que os transforma em discotecas para alucinados; para restaurantes, que começam a perder clientela quando conservam demasiado tempo a mesma decoração porque o cliente, que aprecia lixo moderno no prato, também o quer na decoração; e para piroseiras sortidas, que o engenho para vender sucata inventa.

Há muito tempo, herdei o gabinete, e temporariamente o lugar, de uma pessoa que estimava e respeitava muito. Tinha uma velhíssima secretária de madeira, salvo erro em mogno, e o resto a condizer. Pois o presidente (era uma câmara municipal, e a personagem fatalmente um socialista) insistiu em que a mobília fosse substituída por uma coisa mais arejada. Não foi, claro, enquanto lá estive o velho móvel serviu como fazia há décadas, e abstive-me de lembrar caridosamente ao enxerido que o que precisava de substituição era o blusão de napel em que se apresentava e o shampoo que usava, se usava, porque tinha caspa.

Pois bem, descobri num canto do novo arranjo daquela rede que tinha para cima de mil pedidos pendentes para gostar de páginas. E, penosamente, fui mondar aquilo, descobrindo com espanto que:

Há tantos, mas tantos, mediadores imobiliários, que não se me dá imaginar que o seu número deve ser igual ao de casas à venda; há uma prodigiosa colecção de prosadores e poetas, em número que estimo pelo menos igual ao de leitores; indivíduos que se apresentam como “político” preencheriam sem esforço várias assembleias da república; e gente a vender coisas da mais variada índole é tanta que facilmente abasteceria de forma satisfatória todo o mercado do Bangladesh se lá cessassem de produzir fosse o que fosse.

A malta das escritas distingue-se geralmente por frases profundas e inspiracionais, se forem prosadores, e pungentes e nobres sentimentos se forem poetas, uns e outros reclamando atenção às suas peregrinações interiores rumo à alma que creem dourada. Dito de outro modo, para ler uns é preciso pôr um escafandro e para outros montar umas asas, dois exercícios completamente fora do meu alcance.

Sucede que, mesmo que esta amostra não seja representativa, e com excepção dos intelectuais, traduz uma realidade triste: são pessoas a fazer pela vida, muitas com mérito, e que, pela maior parte, terão um sucesso menos do que moderado.

A nossa economia é tíbia, as oportunidades escassas, o capital disponível praticamente nulo, a fiscalidade rapace, sôfrega e arrogante, o Estado omnipresente nas esquinas da vida e endividado até às orelhas, o futuro incerto, agora mais ainda do que no passado.

À sombra desse Estado é onde toda a gente que não quer ou não pode emigrar se quer abrigar porque o passadio é menos mau e o futuro mais seguro. E a nossa tragédia é que o país não cresce porque o Estado é obeso; quem o quiser emagrecer compra inimigos; o país investe fortemente na educação para exportar mão-de-obra qualificada que, se tiver sucesso, não volta aqui a pôr os pés; e a quase totalidade da Academia, mormente nas áreas ligadas a estas coisas, digladia-se quanto à forma de o administrar, enquanto se vai queixando do empresariado que temos, por causa da formação que dizem que lhe falta, e que todavia é suplementado, todos os anos, com fornadas de gestores altamente qualificados. Os quais, por saberem falar inglês, dão à sola porque por cá publicam anúncios no Facebook nos intervalos do trabalho no call center ou no takeaway.

¿Por qué no te callas, Mário?

por José Meireles Graça, em 27.10.20

Mário Centeno faria um grande favor não apenas a nós mas até a si mesmo se guardasse as suas opiniões. A nós porque já estamos abundantemente servidos de tolices, que a comunicação social serve em doses homéricas; a si porque, para voltar a dar algum brilho à cadeira de Governador depois dos exercícios das duas nulidades que o precederam no lugar, bastava estar calado.

Recebeu de prémio a sinecura do Banco de Portugal como recompensa por ter sido um demagogo que traduziu para economês as habilidades sonsas do seu chefe calculista, cobrindo com palavreado técnico quanto disparate foi feito em nome da compra de votos e da retórica anti-austeridade, só não empanando no processo as cores da sua seita de alquimistas da economia porque aquela, desgraçadamente, não tem brilho que se possa deslustrar. E deu à sola logo que lhe pareceu que se estava em fim de festa.

Deixou em herança a maior dívida na história do País, uma administração pública pletórica, um SNS exangue que nem sequer conseguiu tapar o buraco da redução do horário semanal, uma completa ausência de reformas e um deslizar consistente para os últimos lugares da tabela de rendimento por cabeça na Europa.

E isto quando beneficiou de um surto de turismo sem precedentes, fruto de circunstâncias que não criou, uma União acomodatícia, e um Banco Europeu que trocou os rigores que já foram seus pelo vale-tudo da facilitação quantitativa ou lá como se chama agora o regabofe.

Dizia há dias um amigo (Jorge Costa) no Facebook:

 

Quantas empresas sobreviverão ao bombardeamento do OE 2021? Para as empresas, aquelas instituições que empregam, investem ou exportam, o OE 2021 é literalmente o annus horribilis:

--> Vão ter de pagar mais 30% em IRC. Mais 1.150 milhões de euros do que seria justificado pela sua atividade económica em 2021, uma vez que são obrigadas a devolver na íntegra o Pagamento Especial por Conta adiado em 2020. Ainda não levantaram sequer a cabeça, ainda não chegaram, muito longe disso, à tona de água, e levam com mais 30% de IRC do que no ano anterior. Sem a liquidação do Pagamento Especial por Conta de 2020, o IRC aumentaria apenas 1,4%, ou 60 Milhões de Euros. Quantas empresas sobreviverão a este bombardeamento? Porquê reaver num só ano, num ano em que a economia estará a anos-luz de recuperar do choque a que foi sujeita, todo o Pagamento Especial por Conta adiado?

--> Vão ter de pagar mais 478 Milhões de Euros de contribuições sociais, do adiamento concedido em 2021. Idem.

--> Vão ter de pagar mais 1.628 Milhões de Euros de contribuições e impostos do que aquilo que justifica o seu nível de negócio em 2021.

--> Se forem grandes (eheheh, chega-se a grande empresa em Portugal quando se atinge 50 Milhões de Euros e se emprega 250 trabalhadores) e tiverem lucros, ficam impedidas de aceder aos benefícios que o Governo ainda não terá removido (garantias, empréstimos, etc.), se eliminarem um que seja posto de trabalho. Por outras palavas, só acedem a benefícios se não fizeram nada, absolutamente nada, para se reestruturarem e responderem aos desafios de mudança a que o choque brutal na economia as sujeitou.

--> Para as micro e pequenas também há um belo brinde: um aumento do salário mínimo de 3,7%, depois de um aumento de 5,8% em 2020, perfazendo um aumento de 10% em dois anos, durantes os quais a produtividade caiu em termos acumulados.

--> Mas pronto, não sejamos demasiado exigentes, o Governo - momento de humor negro, macabro do relatório do OE 2021 - garante que as apoia porque NÃO lhes aumenta os impostos. Mas que rematados @%&/"! da 9&%$.

Quantas empresas vão sobreviver a este bombardeamento? Quantas dezenas de milhar de trabalhadores perderão os seus empregos depois desta conjugação de ataques vitais em plena crise?

Não sou tão pessimista como Jorge, não tanto porque ele não tenha razão, mas porque há socialistas que têm empresas e, agora que o Bloco se dessoldou da Geringonça, e o PCP está morto por isso, o excesso de barulheira e bandeiras pretas à porta de empresas fechadas encontrarão eco na comunicação social, que precisa de fingir que tem um módico de independência. Razões pelas quais a pílula amarga será dourada com um surto de medidas trombeteadas como de grande rasgo – o ministro Leão já provou ter aprendido a cartilha do seu antigo chefe.

Há algum rasto disto na conferência organizada pelo Jornal de Negócios onde Centeno foi expectorar cogitações? Não: há o passar da mão pelo pêlo do Governo (“A resposta em V ‘quase perfeito’ que a economia deu à redução parcial do confinamento…’), o conselho aos bancos, que devem conceder crédito mas ter muito cuidado (por que razão um académico paraquedizado num lugar político se sente autorizado a dar aulas a quem gere é um mistério, e outro maior por que motivo haverá gestores que prestam atenção à banalidade), e o asneirol sem ambages. Centeno acha que “uma extensão das medidas de apoio daria lugar a uma indesejável manutenção do emprego e da afetação de crédito a empresas inviáveis, o que pesará nas perspetivas de crescimento futuras, sempre dependentes da realocação de recursos escassos”.

Está a falar de quê?

Do apoio de bancos às empresas? Não lhe dê isso cuidado, a banca tem uma larga tradição de apoiar empresas inviáveis, que são com frequência aquelas nas quais as autoridades veem grande futuro, e negócios especulativos, que são com frequência os que têm o patrocínio dos poderes do dia. Mas não deve ser disto que está a falar. No mais, isto é, nas PMEs que não têm os números de telemóvel certos, os cuidados que há superabundam, mesmo que com ocasionais insolvências, um preço a pagar pela economia de mercado.

Em apoios públicos? Então estes devem ser, quando existam, universais, isto é, aplicarem-se a quem preencha determinados requisitos, e independerem de decisões casuísticas. Não se pode confiar em poderes públicos para decidir o que são e não são empresas viáveis, e menos ainda no Banco de Portugal, de cujo responsável actual se pode duvidar (eu duvido) que tenha sequer competência para gerir um minimercado. A menos, já se vê, que esquecesse aquilo que julga que sabe.

¿Por qué no te callas, Mário?

 

Quartéis da terceira idade

por José Meireles Graça, em 26.10.20

O SNS 24 diz que os sintomas da Covid-19 são a febre, a tosse e a dificuldade respiratória, dor de garganta, corrimento nasal, dores de cabeça e/ou musculares e cansaço, a perda parcial ou total do olfato e a diminuição ou perda do paladar.

Esta lista, que não implica que quem está infectado apresente todos os sintomas, é acrescentada volta e meia com outros. Mas nem a literatura médica nem a opinião publicada se têm referido às perturbações mentais que o vírus induz em pessoas que detenham poder público no âmbito do “combate” à doença.

Sabe-se que os jornalistas arranjaram uma desculpa óptima para produzirem sem trabalho “informação”, pelo caminho lisonjeando a sua fantasia de que estão desempenhando um útil papel numa causa de interesse público – basta ecoarem-se uns ao outros no copy/paste de opiniões alarmistas, diligentemente traduzidas pelo google translator quando calha a desgraça comunicada ser lá de fora; que plutocratas e reformadores sociais sortidos julgam que o reforço do papel do Estado é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada para engenheirar uma sociedade nova, e o homem novo, dos seus delírios totalitários; que, aqui e em quase toda a parte, os políticos fazem tudo e o seu contrário para convencer a opinião pública de que estão a fazer o melhor possível. E como o melhor possível não chega porque o raio da doença segue inelutavelmente o seu caminho, vão multiplicando as regras de conduta obrigatórias, não tanto por estarem certos de que são as melhores, mas porque precisam, para sobreviver, de convencer as pessoas que a culpa do que corre mal é das que têm comportamentos que as autoridades proíbem.

Tudo isto é vulgar e sabido. Que as galinhas sem cabeça que nos governam não hesitam em terraplanar o Estado de Direito quando julgam que isso pode atrasar a propagação da doença, também; que o supremo magistrado da Nação as únicas instituições cujo regular funcionamento quer assegurar são a sua preciosa saúde e a sua popularidade, idem; e que a maior parte da opinião pública, aterrorizada, compra qualquer discurso autoritário, sobretudo quando são censurados discursos alternativos, aspas.

Mas deveria haver limites, não tanto ao disparate porque esse, com governos socialistas, é de essência, mas nas cabriolas histriónicas dos responsáveis políticos. E também na desprezível subserviência de uma comunicação social que há muito deixou o seu papel de quarto poder para se transformar, quase sem excepções, em agência de propaganda de causas, a primeira das quais é a sua miserável pitança.

É isso que explica que esta notícia tenha passa despercebida:

Forças Armadas em acções de sensibilização em todos os lares do país, diz o título e, lendo, ficamos a saber que elas vão aos lares para "ações presenciais de sensibilização e demonstração sobre boas práticas relacionadas com cuidados gerais, pessoais e na instituição a adotar, utilização de equipamentos de proteção individual, limpezas e desinfeções e circuitos a implementar, com o objetivo de contribuírem para a segurança de auxiliares, utentes e funcionários." Ou seja, as Forças Armadas são especialistas nestas matérias, quem está nos lares não. E ficamos a saber que nunca houve falta de dinheiro, nem pessoal, nem inspecções, nem conservação das instalações, nem investimento. Do que havia falta era de formação dada por furriéis. Mais valia transformar desde já os quartéis em lares da terceira idade e acabar com o ministério.

E não seria talvez má ideia: Este ministro poderia ser da maior utilidade como técnico de limpezas, a condição de perfeito idiota não o inibe para o desempenho satisfatório dessas funções.

Memórias

por José Meireles Graça, em 25.10.20

Acontece-me ultimamente ter a desagradável sensação de que já disse isto. O facto, a terceiros, não impressiona: ninguém se lembra, e menos ainda procura, do que eu já disse. Depois, imagino um tetraneto que tenha, por quem eram os tetravós, a mesma curiosidade eu que tenho pelos meus, e que talvez ache graça a eventos incompreensíveis perdidos na memória dos tempos e a um antepassado incontinente verbal.

Daí que tenha começado a construir uma base de dados, com a data, o título, e os assuntos, de todos os artigos que já escrevi em blogues finados ou actuais, por aqui e por ali. Isso implica às vezes reler e tropeçar em coisas que hoje não diria, outras que não diria da mesma maneira, outras obsoletas e outras – a maioria ꟷ sem interesse nem sequer para mim. Também aparecem textos absolutamente seminais sobre matérias do maior relevo, como foi o caso com um luminoso post sobre a problemática do bacalhau fritado.

Algumas pessoas que beneficiaram da minha consistente aversão já se passaram para o Inferno, ou para rendosos tachos, ou para um merecido anonimato; mas classes profissionais destinatárias de não poucas objurgatórias não se extinguiram, lamentavelmente, e estão aí pujantes, a reclamar que se lhes vergastem as orelhas.

A mais saliente dessas é a dos economistas. Hoje tenho mais amigos dentro dessa agremiação do que os que contava então, e acontece-me a contragosto concordar com isto ou aquilo, reconhecer-lhes inteligência, e constatar desconsolado que alguns – os melhores ꟷ chegam a ponto de ter dúvidas e serem modestos, pelo que reforcei o desgraçado vício de lhes ouvir os arrazoados. Mas não mudei substancialmente de opinião, que, em Janeiro de 2013, era esta:

Tenho para mim que o grau de doutor em ciências económicas deveria automaticamente inibir o infeliz académico do desempenho de quaisquer funções públicas com competências legislativas naquela área, salvo exame prévio de normalidade cognitiva.

 

É fácil, com alguns exemplos, perceber o porquê deste parti-pris: boa parte das decisões que a cada novo orçamento se tomam, assim como as avulsas que se vão tomando ao longo do ano, destina-se a corrigir os efeitos perversos das anteriores; os economistas que forem europeístas admitem agora pacificamente que o Euro nunca deveria ter entrado em vigor sem uma muito maior dose de integração, nomeadamente sem veleidades independentistas em matéria orçamental e financeira; e o grau de incapacidade para fazer a mais leve previsão razoável só ombreia com a suficiência com que se fazem novas previsões igualmente fantasistas.

 

Mas isto é uma constatação; e cabe perguntar que mecanismo perverso é esse que faz com que a economia seja tão difícil de entender para a maior parte dos especialistas nela, a tal ponto que não há desastre verificado, e com frequência facilmente previsível, que não tenha tido o alto patrocínio de gurus da ciência económica.

 

Como princípio de explicação, creio que a exigência mesma da carreira académica, com a sua interminável bibliografia, a sua incessante procura de casos pregressos para demonstrar uma causalidade, constatar uma correlação, afinar uma tese que se intui: casa mal com uma realidade em permanente mutação, sobre a qual se pretende agir sem haver nem o tempo nem os meios para sequer a entender. Acresce que os agentes económicos são pessoas; e só não recomendo psicólogos para tomarem decisões sobre economia por ter fortes suspeitas de que esta variedade de teóricos está mais vocacionada para consolar cidadãos a quem faleceu um ente querido.

 

Depois, o principal mecanismo da criação de riqueza, se tem na sua base o conhecimento científico que depois a tecnologia aplica, passa pelas empresas e, dentro destas, sobretudo pelas pequenas. Ora, a realidade das empresas é de tal natureza que não dispensa o saber de experiência feito - a formação em gestão habilita sobretudo na emissão de opiniões sobre a gestão dos outros, como se evidencia com o facto infeliz de as centenas de gestores que as universidades despejam no mercado se absterem cuidadosamente, no geral, de fazer empresas.

 

Seria todavia precipitado dizer que deveria haver empresários ao leme das decisões políticas: o conhecimento deles vale para a empresa, quando muito para o ramo, e a receita do sucesso de hoje não é necessariamente a mesma do de amanhã; o País não é uma empresa, o grau de complexidade das decisões é infinitamente maior ter meia dúzia de perspectivas correctas e ideias acertadas sobre gestão é curto (lembro-me do defunto engº Belmiro de Azevedo que, inquirido sobre as reformas necessárias ao País, começou uma vez pelo organograma do Governo, com aquela suficiência que resultou tão bem nos negócios, e resultaria tão mal se a tentasse transpor para a carreira política que sensatamente evitou).

 

Resta o senso comum que, contraditoriamente, nada tem de comum no seio dos economistas que nos governam e, pior, raramente se traduz em bom senso. Se não, como explicar isto que um advogado escreve?

 

Notas: i) Texto editado; ii) O advogado referido no último parágrafo é, se não estou em erro, o dr. Ferreira de Almeida, que felizmente ainda anda por aí, embora já não se dê tão frequentemente ao trabalho de escrever; iii) O incidente para o qual o link remete era a abusiva obrigação, que o Fisco impôs, de novas máquinas registadoras, quase um pecadilho antes da longa lista de exacções em que aquele organismo inquisitorial se especializou; iv) O ministro da época era o desastre Vítor Gaspar, felizmente desaparecido nas profundezas do FMI, detestado pela esquerda acéfala, isto é, toda, e por aquela parte da direita, minoritária, que achava a austeridade necessária mas por via do corte de despesas e não do aumento de receitas. A parte restante achava que se deveria cortar nas despesas mas desde que ninguém fosse despedido, não se extinguissem serviços que invariavelmente eram essenciais para quem deles beneficiava, e portanto efectuou grandes poupanças no papel higiénico, no ar condicionado e com os famosos cortes transversais em salários e pensões, que tinham a grande virtude de resolver problemas no imediato, e nenhuns no futuro.

Não mudei de opiniões. E como o futuro próximo é de austeridade, chame-se o que se lhe chamar, o textinho venerando continua actual. Por isso o repesco.

O altar da Pátria

por José Meireles Graça, em 23.10.20

Um conterrâneo telefonou-me para informar que tinha passado na RTP2 um filme sobre Guimarães e que nele figuravam algumas pessoas que conhecíamos.

Fui ver. A película chama-se Torres & Cometas, um título enigmático que graciosamente é desvendado, em parte, pela apresentação escrita e, no resto, pelo filme propriamente dito. Cometas são o homem da câmara, Gonçalo Tocha, e o carregador do microfone; e torres uma que está na igreja de S. Pedro, no centro novo da cidade, cujo edificado é principalmente do séc. XIX, e outra que não está lá mas que deveria estar, como somos informados por um entusiasta local. O qual acha a igreja (aliás basílica, informa com orgulho), “uma das mais bonitas de Portugal”. Presumimos que, se lhe fosse acrescentada a torre que ficou a faltar, ficaria uma das mais bonitas da península.

A igreja aparece mais do que uma vez, de modo que a tragédia do par que ficou ímpar deve ter impressionado a alma sensível do realizador. E não houve portanto tempo para mostrar a de Nossa Senhora da Oliveira, ou a de S. Francisco, ou a das Dominicas, ou a da Misericórdia, ou a dos Santos Passos, que todas, entre outras, talvez tenham mais créditos arquitectónicos e históricos que o templo perante o qual Tocha encalhou.

Encalhou noutras marés: largos minutos são consumidos com microfones avariados que o operador tenta consertar pelo expediente de olhar para eles, e nós para ele; assistimos a várias conversas de telemóvel cuja pertinência ou interesse num filme sobre a cidade ficam envoltos em mistério, uma delas junto ao busto de João Franco, que ouve com serenidade as irrelevâncias; e no interior de uma livraria alguns intelectuais locais trocam impressões, mormente sobre o facto de estar a chover.

A participação de intelectuais não fica por aqui: num grupo um perora indignado a favor do Obamacare e contra os bancos, no meio de um silêncio aquiescente. E o espectador pode concluir, descansado, que na Capital Europeia da Cultura (o filme é dessa época e foi repetido agora, decerto por ser um marco miliário na história da cidade, da RTP2 e dos dislates) há gente que lê livros e tem opiniões. Das boas, isto é, de esquerda, e dos bons, isto é, dos consagrados pelos bonzos do pensamento.

A certo passo, somos surpreendidos por um carrinho de bebé que rola por uma ribanceira com uma moça, desesperada, a correr atrás. E o episódio deve ter um significado profundo porque o mesmo carrinho, e a mesma moça, aparecem mais à frente noutro local mas na mesma desesperante situação. Se fosse frequentador dos círculos esclarecidos, já decerto me teriam explicado a simbologia implícita no episódio.

Outro mistério é a estátua de Mumadona. Ou melhor, a razão pela qual as pessoas passam por trás da estátua e não pela frente. Como fica numa praça que atravesso frequentemente a pé, e também eu passo por trás, espero conciliar o sono apesar de não conseguir dilucidar a questão, que o filme não esclarece.

Não falta também um momento poético: somos preparados magistralmente, numa gruta na Penha, para uma epifania: e ela vem sob a forma de barulho de água a correr, que lembra o barulho da água a correr.

Não são apenas estes os motivos de forte interesse: vemos uma manifestação junto à Casa das Artes, onde um popular exaltado exibe uma cartaz do tamanho de um cartão de visita; uma banda que assassina com diligência a Abertura 1812; uma loja de ferragens que vende espadas como a de D. Afonso Henriques; Cavaco Silva que sobe a um palco para dizer não sei quê, e outros senhores que fazem discursos patrióticos; um alfarrabista que não chega a dizer nada que se ouça porque também ninguém lhe perguntou; um bairrista excitado que garante que o monte da Penha tem 617 metros de altura, enquanto o do Sameiro, em Braga, regista apenas 400 e tal, prova evidente da superioridade do altar da Pátria; uma azougada e muito jovem banda de S. Torcato, com original música pimbo-folclórica e uma coreografia dos primórdios do music hall em Freamunde;  e um erudito que quer demolir os edifícios junto à torre da Alfândega, que é “fantástica”, para salientar aquele “símbolo temporal e espiritual” (o símbolo animal devemos ser nós que estamos a ver).

Um filme repleto de história e comédia, diz a apresentação e, na parte da comédia, é verdade. Involuntária.

Gringos

por José Meireles Graça, em 18.10.20

Não vi o debate entre Trump e o snowflake Biden.

Mas com relatos e comentários de amigos, desamigos e consultores de vária pinta, nacionais e estrangeiros, cujos artigos me chegam via internet, foi como se tivesse visto.

Fiz bem em entreter-me com outras coisas. Que é humano, compreensível e inevitável ligar à empatia que têm ou não os candidatos. E o meu candidato é tão transparentemente grosseiro e primário que se torna difícil defendê-lo, e um sacrifício ouvi-lo.

A famosa pergunta “compraria um carro usado a este homem?” foi, parece, usada para castigar Nixon na campanha eleitoral que levou à eleição de Kennedy. E quando muito mais tarde o mesmo Nixon chegou à presidência veio a confirmar com o caso Watergate que comprar-lhe um carro usado era um negócio de alto risco. De Trump, realmente, pode-se legitimamente suspeitar que até o seu handicap no golfe seja uma vigarice, de modo que comprar-lhe um carro também não parece uma ideia muito atilada.

Sucede que Kennedy ficou na memória como o cabeça de uma casa real que os tão igualitaristas americanos nunca tiveram, e o autor de frases grandiloquentes mas ocas (“ask not what your country can do for you – ask what you can do for your country”), ou de desafios espectaculares e empolgantes significando muito e realizando nada (“Ich bin ein Berliner”). Deixou saudades e, fossem outros os tempos, tinha perfil para um D. Sebastião americano. Já Nixon ninguém recorda com saudade, mas foi um excelente presidente.

Mas isto que nos interessa, a nós portugueses? Seja o presidente o Francisco ou o Manuel, estamos condenados a estar do lado americano porque isso é do nosso interesse, e quem quer que seja o ungido sempre as instituições americanas defenderão, com maior ou menor lucidez, o deles. Portugal, um vago país situado algures no norte de África, se é que não está lá para o meio do continente negro, ainda por cima com menos autonomia que a Lusitânia no tempo dos Romanos, significa quando muito a necessidade de insinuar aqui uma ameaça pouco discreta, e ali um aceno com uma mão-cheia de dólares. Os locais borram-se com a primeira, e são muito sensíveis à segunda.

Porém. Porém.  Trump é o candidato do anti bem-pensismo. Não dá nada para o peditório do MeToo, do Antifa, da destruição das universidades americanas pela rasoira do conformismo progressista, da importação de uma imaginária social-democracia nórdica que lhe mataria o dinamismo económico, nem das discriminações positivas que vão instalando, em nome da igualdade, um sistema de apartheid. Nenhuma dessas coisas nem das outras que compõem o ramalhete do esquerdismo travestido de progresso da humanidade que entre nós tem o seu principal representante nos dementes do Bloco e, edulcorado, no PS.

De modo que Biden é o candidato da esquerda portuguesa, acolitada no caso por uma mole de idiotas úteis que julgam que não lhe estão a fazer o jogo; e Trump, dentro do campo democrático, o contrário disso.

É assim que quem, por detestar compreensivelmente o homem, precisar de boas razões, poderá talvez lembrar-se de que: não ganhou o Nobel da Paz mas não bateu o record, que detém Obama, de assassinatos políticos selectivos em países longínquos;  não iniciou guerras nem andou pelo mundo, como os neocons, a despejar bombas com o louvável propósito de converter os bombardeados à democracia; estabeleceu boas relações com ditadores que não deixariam de o ser se as relações fossem más; identificou a ascensão da China como o principal problema do futuro, com isso alertando salutarmente as democracias; deu passos sérios para a paz no Médio Oriente e na península coreana, ignorando os avisos de peritos em geoestratégia fajuta; tentou desvalorizar a Covid, que cedo intuiu não ter a perigosidade que vários interesses racionais e medos irracionais lhe conferem, procurando evitar que os danos colaterais fossem maiores do que os propriamente ditos; e combateu o Estado regulamentar, um cancro que mina as economias.

Era melhor se abandonasse o Twitter, não falasse de improviso, contratasse uma boa equipa para lhe redigir discursos, guardasse as gabarolices para o grupo de amigos em Mar-a-Lago e jogasse mais golfe.

Mas é o que há. Podia ser pior. Como Biden, por exemplo.

Sociedade perfeita

por José Meireles Graça, em 14.10.20

Cristina Ferreira perguntou aos admiradores, que são inúmeros e incluem Sua Excelência o senhor Presidente da República, se calculavam até que horas seria ela capaz de aguentar os saltos altos, ontem.

A notícia é omissa quanto ao momento em que Cristina pôde calçar umas confortáveis pantufas, imagina-se que com pompons, decerto porque havia outra matéria assaz mais preocupante, e que era o inacreditável desplante de se apresentar em público com um cinto da Gucci posto ao contrário.

Fosse eu o responsável em Portugal daquela prestigiada marca e isto teria consequências: como é que se podem impingir aquelas piroseiras às donas de casa que invejam a vida dos famosos se gente de representação põe os gês de cabeça para baixo? Está mal.

O assunto justifica indignação mas como, por indesculpável idiossincrasia, o tema modas, bordados e tretas sortidas não me atrai tanto quanto ao Professor Marcelo, tive a fraqueza de me preocupar com esta denúncia do velho senador Mota Amaral.

O Governo Regional dos Açores quis dirigir-se aos eleitores significando-lhes à superfície umas maravalhas sobre o processo de voto em mobilidade para as próximas regionais de 25 de Outubro, na realidade lembrando o extremoso cuidado que aquele órgão dedica às ovelhas que pastoreia.

Fê-lo, porém, através de mensagem da Autoridade Tributária, porque esta sabe muito bem onde mora toda a gente, e toda a gente lhe presta atenção, não vá vir a caminho uma multa, uma penhora, um aviso, uma ameaça, um abuso, tudo com a garantia, de que a “Autoridade” dispõe, de ser inimputável e inapelável.

Está de parabéns o Governo Regional e os ignotos dirigentes locais da AT (que, incidentalmente, gente excessiva como eu achará que deveriam ser expedidos para a condição de aposentados compulsivos, por manifesta incapacidade para compreenderem os limites da sua função).

De parabéns porque a ideia pode ser aproveitada no plano nacional. Por mim, encararia como uma evolução natural que, com base nas informações que tem sobre despesas com a saúde e a alimentação, a AT prodigalizasse recomendações sobre bons hábitos alimentares e vida sadia. E é claro que outros organismos públicos que se ocupam do bem-estar das populações, e que têm dificuldade em passar as mensagens e preocupações inerentes ao seu múnus, como a “Autoridade” Nacional de Emergência e Protecção Civil e a GNR, também poderiam recorrer aos músculos da AT

Isto como primeiro passo para benefícios fiscais para quem tivesse uma vida exemplar, e castigo para os restantes.

Não podemos recuar no caminho de uma sociedade perfeita.

Vírus de Estado

por José Meireles Graça, em 06.10.20

Lobo Xavier, a quem desejo rápidas melhoras (desejo mesmo: não se deve querer o mal dos outros e além do mais aprecio quase tanto a pessoa como detesto a personagem política) apanhou a Covid. Hoje soube-se que, aparentemente, não infectou ninguém na reunião do Conselho de Estado de 29 de Setembro, um órgão criado para o presidente da República fingir que ouve várias correntes da sociedade civil e da elite, e os teóricos representantes desta para fingirem que sabem o que uma é e que pertencem à outra.

A reunião foi na terça-feira passada e nela estava Ursula von der Leyen para dizer coisas pias, uma etapa no seu tour da União com aquele meritório propósito.

Lobo Xavier soube que era pestífero no domingo dia 4, disso informou a Presidência, e os presentes na reunião, avisados, correram a fazer testes. Marcelo não, que já tinha feito. Cidadãos preocupados, aliás, cientes de que Marcelo é hipocondríaco, suspeitam que é pouco provável que apanhe a Covid, sortudo como é, mas não é de excluir que à força de esgaravatar as fossas nasais ainda venha a ter um problema do foro otorrinolaringológico.

A menos que ainda venha a aparecer outro infectado tudo acabou portanto em bem.

Ontem porém era dia de a classe política abrileira se comemorar e às imaginárias conquistas do republicanismo e Marcelo, pela quarta vez, orou as mesmas irrelevâncias dos três anos anteriores, com o costumeiro discurso cheio de mensagens e recados para os outros pastores da grei. O autarca da capital achou que também tinha coisas a comunicar (uma impossibilidade ontológica – Medina é capaz de falar mas não de dizer seja o que for que valha a pena ouvir) e os partidos políticos, dentro da tradição, censuraram ou aplaudiram o discurso com o paleio de chacha que usam para estas marés.

Sucede que a assistir à elocução marceliana estava o PM, o presidente da AR, os quatro presidentes dos tribunais superiores e cinco vereadores da Câmara de Lisboa, tudo gente estimável que desperdiçou a oportunidade de não pôr ali os pés.

Ursula não estava nem tinha de estar (coitada – que estopada deve ter sido a reunião de terça com o incontinente Marcelo) mas, se calhasse fazer sentido participar das cerimónias, não compareceria porque, segundo os regulamentos em vigor, se isolou até hoje – diz a própria.

Temos portanto regulamentos em vigor que se aplicam a toda a gente, Frau Ursula incluída, mas não ao nosso Presidente, nem ao nosso Primeiro-ministro, nem ao presidente do Tribunal Constitucional.

Não os censuro. Eles sabem, eu sei, e toda a gente com um mínimo de discernimento percebe que quem fez um teste com resultados negativos não tem, senão por um excesso de cuidado, de se autoisolar à espera de fazer um segundo.

E depois, se as autoridades acham que os direitos constitucionalmente garantidos podem ser torpedeados em homenagem ao cagaço que induziram nas pessoas comuns, não parece excessivo que leis e regulamentos possam sofrer um ligeiro entorse se quem as faz se exime ao seu cumprimento em nome da festa do regime.

Dito de outro modo:  quem pode o mais pode o menos. Ursula, provavelmente, não entenderia o raciocínio. Diabo de alemã.

Ihor Homeniuk

por José Meireles Graça, em 01.10.20

No aeroporto de Lisboa foi assassinado sob tortura um ucraniano por funcionários do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.

O caso não causou grande comoção. A vítima não era um preto, não chegou numa jangada podre, não era “exilado” político do Brasil ou da Hungria, não vinha fugida de uma das guerras do imperialismo, nem era um muçulmano perseguido pela intolerância de governos sobranceiros que não veem com bons olhos a religião da pás (de pás catrapás).

A falta de comoção pública é um libelo contra o povo das bandeiras, isto é, a esquerda das manifs; a malta dos hossanas à autoridade e às polícias, isto é, algumas personalidades de direita; a massa dos indignados nas redes, isto é, a gente das maiúsculas, pontos de exclamação e fúria proporcional à falta de gramática e de senso; e um insulto à memória de Ihor Homeniuk, que nem depois de morto merece atenção.

O Ministério Público tomou conta da ocorrência e acusou ontem três abnegados inspectores. O julgamento será o que tiver de ser e muitos dos colegas dos réus dirão talvez para os seus botões: Chiça, exageraram. Lá uns cascudos, de preferência sem deixar marcas, vá que não vá; agora morrer não, que grande galo!

Permito-me imaginar isto porque o assassínio nunca poderia ter lugar num ambiente onde o exercício da autoridade respeitosa e respeitável fosse a norma. O ministro da pasta, que calha no caso ser uma nulidade gordurenta e palavrosa, agitou-se muito e fez o mínimo: inquéritos e demissões. Mas não lhe ocorreu nem demitir o director nacional do serviço nem se demitir ele. Em Portugal o princípio da responsabilidade objectiva está consagrado na doutrina, mas em nenhum outro lugar: é longa a lista de responsáveis que não apenas não se deixam abater pelas desgraças que ocorrem sob a sua tutela mas que são inclusive reconduzidos, como aconteceu por exemplo com o lamentável Costa que presidiu à cegueira contumaz do Banco de Portugal, ou promovidos, como tinha acontecido com o seu antecessor, um desastre que hoje goza a tranquila reforma a que fez jus com uma carreira de dislates cá dentro, e obediência obsequiosa lá fora.

Num lar em Reguengos morreram 18(!) pessoas, e igualmente na maior paz pública: aquilo foi lá num depósito de velhos improdutivos, a cair da tripeça, e descobriu-se que a terra é um couto de politiqueiros para os quais Portugal é um torrãozinho de açúcar que dividem entre si. Que importa? Nada: a lamentável funcionária que nos entra em casa todos os dias, há meses, e que é autora de uma impressionante litania de asneiras, abusos, equívocos e normas sortidas ao quilo, para todas as pessoas e situações, onde a inconsciência se mistura com a incongruência e o desnorte, diz o quê?

Diz isto: Fez-se o melhor possível, com diligência e sacrifício. As famílias dos mortos deveriam, infere-se, estar gratas porque os velhos, a bem dizer, morreram devidamente supervisionados. E como a patroa que costuma estar sentada ao lado abanando em concordância a sua bem penteada cabeça lhe dá cobertura, Graça Freitas sente-se autorizada, em pleno Parlamento, a declarar que não é patriótico dizer que a nossa (a dela) informação não é boa. Ou seja, uma funcionária comprovadamente medíocre, que já deveria ter sido substituída há muito, dá aulas de nacionalismo, patriotismo e salazarismo serôdios. Venham-nos cá dizer que não é razoável substituir generais no meio das batalhas. Talvez não seja - excepto se forem sargentos.

Há algum fio condutor no meio disto tudo? Há, e é este: Fora das causas da indústria de causas o Estado não pode ser posto em causa. Porque o Estado somos nós todos e, portanto, o edifício social abala quando se põe em causa a sua superestrutura.

É em parte isso que explica a mudança de nomes para Autoridades disto e daquilo (o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras só não mudou porque se prestava a equívocos chamar àquilo Autoridade de Estrangeiros), as multas demenciais, as necessidades de licenciamento para um catálogo sempre crescente de actividades, os poderes absurdos de que dispõem os esbirros do Fisco ou os da ASAE, ou o reforço dos das administrações locais, que pontapeiam com perfeita impunidade o Estado de Direito (como tem sido recorrentemente demonstrado nas regiões autónomas). À boleia da Covid, esta diarreia autoritária atingiu o paroxismo: uma extraordinária e minuciosa colecção de normas para actos, incluindo comezinhos, incluindo privados, sem sombra de respeito nem por tradição, nem empresas, nem crianças, nem escolas, nem família, nem indivíduo, nem cidadão. Que este, tolhido de medo, subscreva este lixo ordenacional não muda nada: nunca nenhum regime teve falta de bufos, carrascos, maria-vai-com-as-outras, invejosos e gente pronta a engolir quanta tolice a quantidade adequada de propaganda ideológica lhe enfia pela garganta.

Claro que o Estado não somos todos nós; apenas quem lhe dá corpo sob a forma de leis e ordens, e reparte lugares, prebendas e benesses. E como, em democracia, há o risco de hoje serem uns e amanhã outros, convêm três coisas: uma é que haja um cuidada repartição de lugares de modo a que as mudanças não causem excessiva comoção – daí o que se passa nas CCDRs; outra é que a massa dos eleitores perpetue este estado de coisas, para o que é preciso contentar o maior número com migalhas, mesmo que o preço seja a estagnação – daí a progressividade dos impostos sobre o rendimento, a opacidade e rapacidade do sistema fiscal e a generalização do sistema de subsídios, a indivíduos e empresas, criando adequadas relações de dependência; e, finalmente, que haja uma barragem permanente de propaganda, com algumas vozes dissonantes se tiver de ser – daí os subsídios à comunicação social, as manobras para controlar televisões e o sucesso do monstro Covid, pouco eficiente a matar pessoas e muito liberdades.

De modo que receio que a morte de Ihor e a dos dezoito anónimos seja como a do soldado desconhecido: são danos colaterais, erros dos generais é que não foram com certeza.

Rastas

por José Meireles Graça, em 30.09.20

Há dias a SicN apresentou um pivot preto, de rastas, e as redes fervilharam de comentários. Diversas personalidades acharam útil pronunciarem-se e a candidata presidencial Gomes escreveu, entusiasmada, no Twitter: Boa, SicNotícias!

Boa coisa nenhuma. Porque gente com influência no espaço público não deveria ter nada a dizer sobre um facto anódino como é a raça (dão licença, neste contexto, para usar a palavra?). Dizer seja o que for implica que a selecção do moço não se baseou unicamente nas qualidades profissionais para o desempenho do lugar. Ana, ou quem quer que seja, conhece o processo de selecção? Não? Então o que tem a fazer é fechar a matraca.

Se a Sic tivesse ido buscar um dos ou uma das analfabetas que costuma recrutar para tais lugares, ninguém estranharia. Por que carga de água é que este não-assunto se transformou num?

Sei a resposta: a estúpida guerra das raças nos EUA serve de arma de arremesso na luta política local. E entre nós parte-se do princípio que nos convém, além da coca-cola e dos jeans, importar esta querela porque somos imensamente modernos  e são precisas bandeiras, causas, militantes e perspectivas de vida que as discriminações positivas abrem para quem se achar vítima de qualquer coisa. Não sei se Mamadou Ba, o conhecido militante da vitimização rácica, já se pronunciou, nem interessa: se ainda não disse nada, virá com a virtuosa indignação que lhe rende a notoriedade que de outro modo não teria.

De modo que as tropas do meu lado do espectro não deveriam ter quase nada a dizer, e do que tenho visto, tirando a suspeita de oportunismo da Sic, e um injustificado aplauso, o que tenho visto é contenção, salvo no que toca às rastas.

E têm feito muito bem. Que era o que mais faltava se, com medo das acusações de racismo, o novo locutor estivesse ao abrigo de que se lhe critique o aspecto. Naquela prestigiada estação já eles andam quase sempre de fatos arrepanhados e sapatos afiambrados, que algum azeiteiro director de imagem acha decerto que lhes ficam muito bem. E agora aparece um de rastas? Olha, Cláudio, presta atenção que sou teu amigo: isso tem associações identitárias (uma sarilhada delas) para as quais me estou nas tintas, e tu também talvez estejas. Mas têm igualmente, desculpa lá, um aspecto sujo: lavar essa gaforina deve ser o cabo dos trabalhos.

Não me venhas com a conversa de que as locutoras têm cabeleiras ainda maiores e ninguém se lembra de achar que têm mau aspecto. Porque maiores serão mas não têm esse ar empastado. Depois, nunca houve limite para os disparates das modas mas os pivots não são exactamente modelos nem gurus das tendências.

Deverias querer, Cláudio, distinguir-te pela dicção e pela pertinência das perguntas quando tiveres de as fazer. Toma nota.

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Debate e cidadania

por José Meireles Graça, em 28.09.20

Bruno Alves, proprietário de uma excelente cabeça, disse numa rede, a propósito de um debate sobre a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento: “De um lado, o pessoal achou que Oliveira ‘destruiu’, ‘humilhou’, ‘arrasou’, ‘arrumou’, ‘limpou’ ou ‘deixou KO’ Sousa Pinto. Do outro, a conclusão foi de que Sousa Pinto ‘destruiu’, ‘humilhou’, ‘arrasou’, ‘arrumou’, ‘limpou’ ou ‘deixou KO’ Oliveira. O que só quer dizer que ficou demonstrada a absoluta inutilidade do debate político”.

Foi realmente assim, confirmo. Mas não subscrevo a ideia da inutilidade: quando o assunto se presta a diferenças nítidas esquerda/direita, e se não houver um patente desnível da capacidade argumentativa dos debatedores, o normal é que cada um veja como campeão aquele cujas ideias subscreve. Isto justificaria realmente que todos os debates desta natureza fossem inúteis se não se desse o caso de as ideias que as pessoas têm sobre a forma como o Estado deve intervir na vida dos cidadãos evoluírem.

Evoluem, sim. Tanto que todos conhecemos pessoas que se deslocaram para a direita do espectro, defendendo hoje o que antes censuravam, e, ao contrário, pessoas que se deslocaram para a esquerda, perdendo a capacidade de detectar tolices.

O próprio Daniel Oliveira é um exemplo disso, tanto que no seu extenso percurso político já esteve muito mais à esquerda. E gente incuravelmente optimista como eu, que simpatizo com o homem, vai a ponto de imaginar que, se a esperança média de vida estivesse nos 120 anos, aquele ilustre comentador da Sic ainda podia bem acabar em liberal.

Os debates fazem parte deste lento processo de alquimia: em sólidos edifícios de certezas um dia um argumento pode abrir uma fenda imperceptível; mais à frente a fenda pode evoluir para uma brecha; e um belo dia já há uma cratera e o habitante muda de poiso. Um debate não chega e, nesse sentido, é inútil; são necessários muitos, e são portanto essenciais.

O Bruno sabe bem disto. Irritou-se foi com a acrimónia, que realmente era dispensável, ainda que por mim ache que o que se perdeu em civilidade se ganhou em sinceridade. E se lá estivesse ainda era pior porque nem sequer entendo, como Sérgio, que o programa da disciplina devesse ser outro, mas antes que nem sequer deveria existir, ao menos sob a forma obrigatória. E a indignação moralista de Daniel, que guardou do Bloco aquele tique de depositário de uma superioridade moral que imagina ser atributo daquela seita tresloucada que ajudou a fundar, convenhamos: faz perder a cabeça a um santo.

Não vou juntar o meu arrazoado ao que inúmeros (desde logo os dois contendores, ambos em artigos no Expresso) já disseram: quem quiser que vá ler, além deles, o que escreveram, por exemplo, António Barreto ou Mário Pinto.

Somente chamo a atenção para este facto que, por demasiado óbvio, passa despercebido: quase toda as pessoas de direita são contra esta Cidadania e Desenvolvimento; e quase todas as de esquerda são a favor.

O que significa que, a mim, não me passa pela cabeça educar os filhos de Daniel. Se, por exemplo, o bom do intelectual quiser oferecer às netinhas carrinhos e não bonecas, não vá as prendinhas inculcarem nos tenros espíritos das meninas ideias preconcebidas sob géneros, por mim faz favor; mas já vejo com maus olhos que a escola diga à minha neta que, se o vovô lhe deu bonecas e não carrinhos, fez muito mal porque o paizinho tem tanta obrigação de cuidar dos filhos como a mãezinha.

Talvez tenha. Mas isso é um assunto nosso – não de Daniel, nem da escola, nem do legislador.

E então, este Sérgio, deputado socialista, ou, já agora, António Barreto, são de direita? Não. Apenas têm a ideia peregrina de que, no combate das ideias, é um golpe baixo formatar os filhos de uns nas ideias dos pais de outros. Ou pelo menos é assim que interpreto. Mas, lá está, não sou um espectador isento.

O debate

por José Meireles Graça, em 22.09.20

O deputado da Iniciativa Liberal debateu na SicN sobre a taxa única de IRS com um ex-deputado do Bloco, um expatriado  que se juntou aos portugueses que, com trânsfugas de outras nacionalidades, fingem que deputam no Parlamento Europeu.

O assunto não tem nem de longe tanto interesse como as mamas de Cristina Ferreira, que ultimamente têm uma preocupante tendência para crescer, nem muito menos a mais recente tolice de um governo qualquer, ou do nosso, para fechar a porta à Covid, o fantasma que não vai matar quase ninguém, enquanto os residentes que não morrem de doenças sérias não tratadas, fome ou exaustão, criam dívidas que julgam que não vão pagar.

Mas um partido político tem de ter bandeiras. E esta, a da taxa única, não tem nenhuma hipótese de ser desfraldada no alto de uma colina de preconceitos, o que não quer dizer que não valha a pena agitá-la – todas as bandeiras vencedoras hoje já foram vencidas no passado.

O tal ex-deputado do Bloco, de nome Gusmão, recita a vulgata da seita, que no caso consiste em dizer que muitos poupam 50 euros (esqueceu-se com admirável manha de esclarecer que seria por mês) enquanto uns poucos, os ricos, guardam milhares que não lhes fazem falta; que isto criaria um buraco nas contas públicas que só poderia ser tapado com cortes no SNS e no ensino público; e que nos países mais desenvolvidos (começou por dizer com aquela lata mentirosa de que os adeptos de Frei Anacleto Louçã e Soror Mariana detêm o segredo que era em todos os da UE, depois centrou-se na Holanda como o farol que, nesta matéria, deveríamos seguir) havia várias taxas de IRS, a mais gravosa sempre altíssima.

Cotrim Figueiredo, com serenidade, rebateu as indignações daquele pai dos pobres. Não disse tudo o que poderia ter dito (por exemplo, ficou por referir que a comparação de taxas sem referir os montantes a partir dos quais se aplicam significa que em Portugal se considera rico, para o efeito de o acabrunhar com impostos, quem é apenas remediado) mas nem houve tempo nem é possível dizer tudo sobre uma matéria complexa, e um debate velho, onde a cada argumento de um lado cabe um argumento do outro, quase sempre ficando de fora os pressupostos de cada trincheira.

Que pressupostos são esses? Do lado do indignado, são a superioridade moral (ele defende os pobres, o opositor os ricos), que é recorrente na esquerda em geral e aparece no Bloco dobrada em raiva virtuosa; a concepção da economia como um jogo de soma nula, isto é, em que as perdas de uns são os ganhos de outros; a ideia de que o investimento, e a gestão, públicos, são equivalentes no desempenho ao investimento e gestão privados; e a opinião de que a igualdade material entre os cidadãos é um bem em si, que não carece de demonstração por ser uma verdade axiomática.

Claro que não há qualquer superioridade moral da esquerda em geral, muito menos de um moço de aspecto piolhoso com os olhos coruscantes de ódio aos ricos, debitando argumentos serventuários de uma trombeteada generosidade e uma oculta inveja; na economia que cresce pouco ou nada, como foi o caso durante a maior parte da história da humanidade, os ganhos de uns eram efectivamente as perdas de outros, mas deixou de ser necessariamente assim desde fins do séc. XVIII; se a gestão privada fosse igual à pública, a nacionalização dos meios de produção não teria produzido, como invariavelmente produziu, sociedades de generalizada carência; e é preciso uma grande dose de cegueira para não ver que os países que nos vêm ultrapassando na hierarquia dos rendimentos por cabeça têm muitas coisas que nos faltam, uma delas sendo a competitividade e a simplicidade fiscais – a igualdade, ou melhor, a obsessão igualitarista, não faz parte desse lote.

Gusmão, estás por fora, meu chapa, a única coisa que contigo pode progredir é o retrocesso. Que poderias ter dito ao teu opositor que enriquecesse o debate? Algumas reflexões, dentro dos pressupostos dele que, já se vê, tem paciência, são os bons: que a fiscalidade simples e modesta, em vez de complicada e rapace, é adjuvante do crescimento, mas que há um tempo de espera que não é seguro que as nossas calamitosas contas públicas possam suportar. Pelo que começar pela reforma do IRC talvez fosse mais judicioso; que o nosso Estado gordo é uma mochila demasiado pesada para um viajante que quer andar mais depressa do que os outros, pelo que a reforma de que toda a gente fala ou implica extinções de serviços espúrios ou não é reforma; e que o Estado de Direito é para valer em todos os domínios, e que portanto a inversão do ónus da prova em matéria fiscal, os poderes inquisitoriais de uma casta de funcionários inimputáveis pagos com prémios pelos seus abusos são perversões a eliminar como condição prévia a qualquer reforma fiscal.

Isto e muitas outras coisas. Que talvez vejam a luz do dia quando houver uma quarta falência, ou o eleitorado descobrir que já só tem atrás de si a Albânia, ou, ou.

Até lá, alguém tem de manter acesa a chama do senso, do realismo e da esperança. Foi só por um quarto de hora? Ora, na Venezuela que Gusmão estima nem isso têm.

Lixo moderno

por José Meireles Graça, em 12.09.20

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Este caminho público do qual se vê a entrada é bordejado por três casas, e vai dar a uma antiquíssima rua, que todavia tem outros acessos mais cómodos. O serviço municipal de jardins limpa-a na ocasião de aparar a sebe, aí uma vez por mês. No mais, a parte que corre ao longo do meu terreno, que é a maior, está irrepreensivelmente limpa porque disso trato eu; e neste ponto, que é mais largo e onde por isso estacionam carros, a esterqueira é de rigor. Os locais deitam tudo para o chão e seria possível fazer um estudo sobre a sociedade de consumo, demografia e rendimentos desde 1975 (que foi quando para aqui vim), apenas com base nos detritos que se encontram. Por exemplo, dantes recolhia muitos cotonetes, sinal seguro de que havia bebés ou uma epidemia de otites; em tempos havia seringas e garrafas de água, indicação de por ali estadearem enfermeiros sedentos; e agora é mais embalagens de todo o tipo de alimentos, para chocolates, hambúrgueres, barras de não sei quê e outro lixo de que se alimentam as pessoas, além de garrafas, eletrodomésticos avariados, móveis fanados, maços de tabaco e, recentemente, máscaras contra o medo, invariavelmente azuis porque as de fantasia são mais usadas por pessoas de representação.

O estudo teria grande interesse. E, fosse eu um académico das ciências sociais, poderia fazer um paper muito bem acolhido pelos pares e ecoado na imprensa se estabelecesse, o que não parece particularmente difícil, adequadas correlações com a depauperação dos recursos naturais, a obesidade, a violência doméstica, o heteropatriacardo, as causas profundas da queda da taxa de natalidade e os males insanáveis do capitalismo.

Mas como não sou fico-me pela constatação de que já foi pior, digo-o com a tranquila autoridade de quase meio século de experiência. E a câmara local, que tem os tiques abomináveis de todas as outras, isto é, no essencial, ser um repositório de quanta moda cretina anda no ar da gestão local, e torra milhões com quadros pletóricos de inúteis e requalificações urbanísticas modernaças enquanto proliferam bairros de jagunços, para não falar do ódio militante ao automóvel, nem tudo fez mal: o centro velho da cidade, onde não ponho os pés, foi recuperado; os serviços de jardins e arborização têm feito há décadas um excelente trabalho; e por todo o lado há receptáculos de lixo ligeiro, onde se encontra o que estaria no chão se não existissem.

Quer dizer que é preciso paciência. As coisas poderiam ser aceleradas se houvesse incentivos, além dos recipientes, para as pessoas não sujarem, por exemplo isenção de taxa para quem se comprometesse, sob compromisso de honra, a manter limpo um xis número de metros em torno da sua habitação.

Ideia maluca, bem sei. Honra, compromissos, isenções… o paleio é mais adjudicações, taxas, multas, posturas, negócios verdes e obrigações.

É por isso que desconfio desta iniciativa. Pedante desde logo pela sigla inglesa. Bem sei que os locais, desde que dividam uma chafarica em duas, lhe chamam group, mas têm a desculpa de serem exportadores. A Câmara não tem desculpa nenhuma, a menos que o throw representado na sigla queira dizer vomitar por causa da parolice, caso em que lhe falta a partícula up. Depois, a notícia, cálculos e previsões não faz, o que em si interessa pouco: seria provavelmente propaganda. Diz o quê, então? Isto:

“O PAYT potencia a recolha selectiva através de um tarifário de resíduos no qual existe uma relação directa entre o pagamento e a produção de resíduos indiferenciados. Ou seja, os aderentes ao sistema pagam pelos sacos que utilizam para depositar o lixo indiferenciado que produzem e beneficiam de uma redução/isenção na taxa de resíduos que é cobrada na factura da água."

Tradução: o serviço é o mesmo, mas mais caro. Como os aumentos de taxas não estão em odor de santidade, há que os embrulhar na retórica dos descontos e obscurecer o processo de tal modo que ninguém consiga apurar se o munícipe ganha ou perde no processo. E para fechar o canivete aos que constatem que perdem, levam já adiantada a explicação: produzem muito lixo, seus porcos.

Bem visto, e a manobra foi premiada, uma grande honra. Fui ver quem deu o prémio e aquilo é uma floresta de organismos verdíssimos, tudo dependurado na UE, uma organização benemérita que distribui dinheiro milagroso, que nunca foi nem vai ser cobrado, e prémios a quem pensa o que acha que se deve pensar.

A coisa ainda não chegou aos meus lados, que vivo na periferia. Mas chegará e não tenho dúvidas de que vou pagar mais. De vingança, seria capaz de deixar de limpar o caminho público. Seria. Mas não vou: tenho, de graça, pelo espaço público, o respeito que parte dos meus concidadãos, e a Câmara, dizem que têm.

Tenham juízo

por José Meireles Graça, em 11.09.20

Um amigo socialista pouco carregado (isto é, cor de rosa pastel e não choque), há dias ecoava uma colega de profissão que se queixava de que o PS, não obstante o cartaz de progressista, feminista e modernaço, não apoiava uma mulher para a Presidência. E dava-lhe razão, lembrando o descaso a que foi votada Maria de Belém nas últimas eleições, a benefício de uma completa nulidade palavrosa, qualificação minha, como Sampaio da Névoa (não, não grafei mal).

A queixa é sintomática. O mulherio anda nervoso e, se até há pouco se limitava a querer igualdade para níveis semelhantes de competência, agora reclama a obrigatoriedade de quotas em lugares de direcção, para já em empresas públicas e privadas cotadas, salvo erro, depois em grandes privadas e finalmente em todas, que não há cá ninhos. Se forem de esquerda, as queridas não precisam de desculpas, é imperioso impor justiça, igualdade e mais um par de botas até que as empresas fiquem de joelhos, altura em que devem ser salvas pelo Estado, pelo expediente de as nacionalizar. Se forem, ou se dizerem, de direita, há que rapar de um dos estudos – há dúzias – que demonstram, preto no branco, que em havendo mulheres na direcção, e não apenas homens, o desempenho da organização ganha com isso. Claro que, com interesse e recursos, se podem fazer estudos a demonstrar o contrário e até o contrário do contrário – pessoas ingénuas julgam que os estudos se fazem para entender o real, e não para o modificar, e que a distinção entre correlação e causalidade é fácil de estabelecer, ou que essa preocupação sequer existe; e que na escolha dos factores que influenciam um determinado fenómeno se selecionam os mais relevantes.

Elas votam, são maioria, e as pessoas que andam na política, e não simplesmente a comentam, têm as orelhas arrebitadas e o olho arregalado para topar a tendência. E a tendência é essa – mulherio a bem ou a mal, e se o resultado for que apareçam umas cómicas a asneirar, como a querida Jo, nada de mais: cómicos a asneirar é o que nunca faltou.

Depois, já há países onde o apoio à mulher foi mais longe, e onde menos pesam os handicaps daquela condição (maternidade, sobretudo) e as adoradas, donas da liberdade de escolher sem excessiva penalização financeira, fogem de certas profissões tipicamente masculinas e escolhem outras, que não eram para ser, mas afinal são, tipicamente femininas.

Esclareci o meu amigo, ou melhor, a amiga dele, que com justiça não me ligou pevas, que o PS não é misógino, mas nem Maria de Belém nem agora a pasionaria Gomes, de Estremoz, davam garantias ao regedor do PS de não lhe tolherem as mãos. Elas não, mas Marcelo sim. Daí que o PS apoie Marcelo, não venham cá com teorias da conspiração. E, com o coração apertado por ter defendido o PS, fui rezar um Acto de Contrição, e julgo-me absolvido.

Bem bem, temos portanto duas mulheres candidatas, que se dá o caso de serem duas abominações:

Marisa é uma carta batida e rebatida do Bloco, uma agremiação que os comunistas justamente desprezam por ser de revolucionários de pacotilha, e o resto do país, salvo alguns jovens e outros eternamente, por lhe parecer que os dirigentes têm acne, nas trombas ocasionalmente bem giras e nas ideias;

E Ana Gomes, que tem banca montada no negócio do combate à corrupção, que quer combater a golpes de declarações bombásticas, sempre poupando o principal agente facilitador da corrupção no país, que é o Estado omnipresente, e os seus camaradas, que entende terem, como o seu admirado Sócrates, um par de asas nas costas. Isto e causas sortidas, incluindo internacionais, decerto por achar que como usa sapatos de salto não se nota que se está a pôr em bicos de pés.

Restaria, para gente com a cabeça em cima dos ombros, Marcelo e o candidato da IL. E corre por aí uma tese peregrina segundo a qual a vitória de Marcelo é uma vitória da direita porque este, no segundo mandato, vai mostrar as suas credenciais de PPD e pôr o PS em sentido.

Claro que não vai. Para isso seria preciso que não fosse, mas é, um socialista que vai à missa, como Guterres, que aliás diz admirar, Deus lhe perdoe, e que tivesse para o país alguma ideia que vá além do ar do tempo e da preservação da estabilidade, que confunde com a sua popularidade, julgando ambas valores a defender.

Lá popular é – Cristina Ferreira também. E estabilidade tem garantido – a estabilidade da mediocridade que tem feito Portugal deslizar com pertinácia para os últimos lugares do desenvolvimento na UE. Mas o caderno de encargos para um Presidente que fosse eleito pelo Parlamento, com a Geringonça, desenharia Marcelo. Porquê então a maçada de uma eleição directa, e ainda por cima com a possibilidade, mesmo que remota, de a duas voltas?

Sobra o candidato da IL, que ninguém conhece (nem eu, e mais talvez devesse, por ser do Porto e circular em meios que não me são alheios) e precisava, para vencer a falta de notoriedade, de ter uma personalidade espectacular e abrasiva, ou alguma espécie de auctoritas, que julgo não tem. E, voltando ao princípio do post, é homem, que o diabo o carregue.

Então, tiro algum coelho da cartola? Tiro sim senhor, embora dele ninguém se tivesse lembrado e, por razões várias, incluindo o ser tarde, ninguém se vá lembrar.

Assunção Cristas não deixou, como dirigente do CDS, grandes saudades: por falta de consistência em algumas posições, por uma direcção errática, por parte do eleitorado ter dado à sola para o Chega e a IL, e por não ter sabido calçar os sapatos de Portas, que de toda a maneira ficariam sempre apertados ou largos.

Nada que a desqualificasse para fazer uma boa candidatura à Presidência. Não se lembraram decerto, os que a apearam, porque se a achassem muito boa não a tinham apeado, e os outros porque entenderam talvez que a sua derrota era demasiado recente ꟷ e de toda a maneira muitos não a apreciariam excessivamente.

Porém, eles são eles e eu sou eu, que me estou bem nas tintas para uns e outros.

E talvez, senão com toda a certeza, Marcelo seja invencível, como um cantor reles que vende muitos discos.

Mas haverá alguém que, sem ter a alma ancorada à esquerda, ache que Assunção não seria mulher para se medir com uma bloquista com a cabeça cheia das caraminholas da seita, e uma socialista com modos, e opiniões, de justiceira de Freamunde? Tenham juízo.


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