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Delito de Opinião

Engana-me que eu gosto*

José Meireles Graça, 15.10.21

Assentemos em alguns pontos: o eleitor é distraído, a democracia equívoca, a economia contraintuitiva, os ricos sanguessugas e parasitas e as burocracias do Poder opacas.

Distraído porque a política interessa a poucos. As bolhas das redes sociais, os campus das universidades, e as redacções dos jornais e televisões, estão cheias de gente que julga que não é assim, mas é. A notícia do político que beneficiou abusivamente uns camaradas, do outro que deu uma golpada, ou daqueloutro que empregou a família, não comove ninguém, senão para confirmar o cidadão cínico, que se imagina sábio, na ideia de que eles estão lá para se encherem e que, no fundo, são todos uma cambada de ladrões. E a indignação fica guardada para o que se deixa apanhar na malha da Justiça. Ai dele, que além de vigarista era burro, deviam era fechá-lo numa masmorra qualquer, e atirar fora a chave.

A democracia como a entendem os meus concidadãos não aguenta explicações muito sofisticadas, que contemplem direitos do indivíduo que a maioria não tenha o direito de ofender. Pelo contrário: a ideia de que uns caramelos defendam coisas diferentes das que a maioria esmagadora subscreve só é aceite se os caramelos em questão pertencerem a uma tribo reconhecida e aceite pela comunidade, em nome do convívio das tribos. E as minorias gozam de tantas mais defesas – ia a dizer privilégios – quanto mais aguerridas e quanto mais subscrevam o progressismo, entendido como o aumento dos direitos materiais, como se os que beneficiam uns não implicassem quase sempre obrigações para outros. A menor minoria de todas, que é a pessoa, é o parente pobre desta engrenagem – ai dela se não pertence a nada, nem ao povo trabalhador, nem ao lobby gay, nem ao sindicato, nem ao clube, nem à associação patronal, nem ao partido, nem é cigano ou preto, nem, nem.

Os ricos começam por ser suspeitos porque, como é geralmente sabido, para o serem ou herdaram ou aldrabaram. Ora, em herdar não há mérito; e em vigarizar também não, muito ao contrário, como se prova pelo facto de a maioria das pessoas que não são ricas ser perfeitamente capaz, se o fosse, não apenas de dar provas de grande generosidade, mas também de evidenciar um gosto no consumo, uma discrição no comportamento e um discernimento na hora de investir muito superiores.

Aliás, a necessidade de ricos é um lero-lero. É mais ou menos consensual que a gestão privada não é superior à pública: não vão todos os dias à falência empresas privadas, lesando o Fisco, os fornecedores e os próprios trabalhadores? E não tem o capitalismo crises cíclicas, implicando sempre destruição de valor? Se a justificação para a existência de ricos for o investimento, então não se percebe por que razão não fica este limitado à esfera pública, onde semelhantes males sempre se podem evitar.

É certo que em todos os pontos em que esta experiência foi (e continua a ser, naqueles de onde só não foge quem não pode ou está no poder) ensaiada o resultado foi escassez e travagem do progresso. E esta infeliz constatação  levou a que lúcidas pessoas de esquerda (isto é, as que entendem que na igualdade está a felicidade) tenham congeminado o melhor de dois mundos: para investir criam-se empresas, que têm personalidade jurídica diferente da dos seus proprietários; estas personalidades colectivas não comem, não bebem, não têm amantes, mas taxam-se como se fossem pessoas, o que permite engordar o que as pessoas reais pagam mas sem que se apercebam – a empresa, se puder, vende mais caro porque existe para distribuir lucros ou dividendos e investir, não para pagar impostos, os clientes pagam, e no que pagam está ínsito outro imposto, esse visível, que é o IVA (além de outros impostos indirectos e alcavalas sortidas, dependendo do bem ou serviço). No que os proprietários recebem há um imposto à parte – entre nós, até ver, 28%.

A ideia de taxar a empresa assenta no pressuposto de que a punção sai dos bolsos dos proprietários, e seria portanto uma falsificação da taxa que realmente incide sobre os rendimentos daqueles. E em alguma medida isto poderá suceder, mas, sendo a natureza humana o que é, é mais provável que quem resulta ofendido seja o cliente, que paga mais, o trabalhador, que recebe menos, e a capacidade de investimento com recursos próprios, que fica diminuída.

Esta opacidade, tão espessa que o comum dos mortais acha que são as empresas, e não os seus clientes (ou os trabalhadores, que poderiam ser mais bem remunerados), que pagam o IRC, como se entende? A explicação é simples: nem sequer o IVA, cuja taxa figura nas facturas, desperta atenção. A margem do fornecedor, que é sempre, por comparação, ridícula, é que suscita comoções, como se viu por estes dias com o preço dos combustíveis. Isso e a sua real ou putativa riqueza que, se for visível, logo é objecto de cobiça: então esses patifes do Pingo Doce têm milhões, é? Ora, deviam fazer como os do Continente, que também têm mas ao menos sustentam um jornal progressista (e aliás a esses dois grupos Nosso Senhor ainda os vai castigar, que com Lidls, Intermarchés, Mercadonas e o mais que se verá, um destes dias, se não se põem a pau, alguns deles ainda vão mazé para aquela coisa dos PERs, ou lá o que é).

Temos portanto que na fiscalidade o que parece não é. E na economia também: se eu, no caso de ter acne e o mais remoto respeito por comunistas e frei Anacleto Louçã, acreditasse que no dia em que toda a riqueza fosse igualmente distribuída acabava a pobreza, não andaria longe do que, à escala nacional, acredita a maior parte do eleitorado. O que ajuda a explicar (isso e não a suposta incapacidade das elites, mesmo que exista) o atraso relativo do nosso país.

Pois bem: muitas multinacionais, com trocas e baldrocas (o que, na gíria, se chama engenharia financeira), baldam-se aos impostos. E alguns países, e não apenas aqueles onde se localizam offshores, ajudam-nas nesse meritório esforço. Ora isto não pode ser. E não pode por causa da concorrência desleal: Dos países, que atraem empresas, ou melhor, sedes de empresas, só para estas aproveitarem taxas baixas de imposto, mas sem benefícios reais para as populações locais (dizem economistas de nomeada, uma variedade de pessoas que tem excessiva inclinação para expectorar quantidades prodigiosas de asneiras); e das próprias empresas, a quem sobram os meios que faltam às menos engenhosas na trapaça legal, ou simplesmente mais pequenas.

Daí que haja uma universal satisfação com uma taxa mínima de 15% de IRC para empresas multinacionais com a qual esta tia apparatchik rejubila, falando em “momento histórico” e numa "questão básica de justiça”.

Nem o momento, nem a taxa, nem ela, são históricos, sequer de rodapé, e a justiça pouco tem a ver com isto. Mesmo que outros burocratas supranacionais, como este Mathias Cormann, também embandeirem em arco, e dificilmente apareça algum prócere que não se junte ao coro. E estou certo que Marcelo, se ainda o não fez, haverá de saudar este grande passo, para o qual deve ter contribuído pelo menos um português (há sempre pelo menos um, nem que seja a servir cafés), assim como Guterres (ainda que neste caso não se esteja bem a ver qual será o efeito positivo que a medida tenha no aquecimento global, que não o deixa dormir) ou Costa, este porque a União, em que ele tem, segundo a comunicação social portuguesa, uma voz preponderante, deu um precioso contributo para este feliz desenlace.

Sucede que combater a concorrência desleal é meritório. Mas se o objectivo fosse apenas esse (e admitindo, o que apenas concedo para efeito do que digo a seguir, que a competição fiscal entre países não é uma boa defesa dos contribuintes, e que esta história da eliminação das vantagens relativas de uns países sobre outros não é uma porta que se abre para todo o tipo de efeitos perversos) então o aumento de receitas previsto iria permitir o correspondente alívio de outros impostos. A boa da Ursula, ou o belga-australiano com mau aspecto que preside à OCDE, ou a turba dos dirigentes que já se pronunciaram ou virão a pronunciar-se, porém, disso não falarão.

Com boas razões. Um economista de quem sou amigo disse-me há tempos: Epá, as pessoas em todo o lado pedem mais e mais coisas ao Estado e o dinheiro de algum lado tem de vir.

A mim parece que o dinheiro que vier das multinacionais, se esta loucura mansa for avante, aquelas cobrarão, de uma forma ou de outra, aos seus clientes. E já me estou a ver a pagar muito mais pelo programa de tratamento de texto que estou neste momento a usar e por mais um sem-número de coisas que agora não descortino.

Aqueles, e são a maioria, que não pagam IRS, ficarão contentes. Isto de impostos sobre os ricos é mais do que justo. Aplaudirão portanto nas redes sociais, pertencentes a multinacionais, às quais acedem em telemóveis produzidos por outras multinacionais. Elas é que vão encostar a barriga ao balcão – elas, não eles, acham.

 

* Publicado no Observador

Lisboa a jogging

José Meireles Graça, 29.09.21

As pessoas vivem cada vez mais em cidades e há cada vez mais pessoas com automóveis, donde há cada vez mais dificuldades em circular e em estacionar. É assim em toda a parte e mesmo as cidades que perdem habitantes não os perdem para o campo, mas para outras cidades – aquelas onde há empregos.

Tudo boas notícias, em que pese aos trombeteiros de desgraças. Porque a vida no campo pode ser encantadora nos livros esquecidos de Trindade Coelho, em alguns lembrados de Júlio Dinis ou até n’A Cidade e as Serras, mas foi uma vida de miséria, doença, ignorância, morte prematura e brutalidade. Os aldeões começaram a dar à sola logo que puderam – para o Brasil, Lisboa, Porto, outras cidades e, aí pelos anos 50 e crescentemente, França, Alemanha e outros países do boom do pós-guerra.

Hoje, já quase não é a gente do campo que emigra porque o campo se mecanizou, e logo não tem gente; nem o manancial de braços para emigração é o mesmo porque as mulheres, desde a invenção da pílula nos anos 60, e a sua participação no mercado de trabalho, deram em não abraçar carreiras de produtoras de surtos populacionais.

O automóvel começou por ser um luxo acessível a uma insignificante minoria mas cedo apareceram industriais a oferecê-lo ao povo trabalhador pelo expediente da produção em massa, da qual o pioneiro foi o revolucionário Ford. Na Europa do pós-guerra o Carocha, o Joaninha, o 2 CV, o Fiat 600 chegaram à classe média num tempo de crescimento económico acelerado e dinamismo. E embora os automóveis pequenos e baratos tivessem como propósito motorizar a maior quantidade possível de pessoas no menor espaço de tempo, cedo se desenhou um padrão ainda hoje em vigor: soluções e luxos dos modelos mais caros iam com o tempo “descendo” na hierarquia dos modelos (uma boa lembrança, talvez, para os indignados hoje com o que há quem pague por certos automóveis: sosseguem que o que invejam há-de chegar ao vosso charêlo).

Automóvel próprio e capitalismo deram-se bem. E não é de estranhar que, desde sempre, a esquerda tivesse torcido o nariz ao transporte individual. A de hoje, depois da falência do comunismo, já não diz aquelas coisas redondas e confortáveis das certezas marxistas: propriedade colectiva dos meios de produção, distribuição equitativa dos bens materiais, economia planificada e a outra meia-dúzia de pérépépés.

Mas continua a comprar toda a sorte de engenharias sociais nas quais o colectivo aparece à frente do individual. E que melhor lugar do que as cidades, onde os automóveis criam problemas difíceis de resolver, para, em nome de coisas preocupantes como a poluição, a sustentabilidade (que ninguém sabe bem o que é, mas tanto melhor), os cheiros, a saúde e ainda um par de botas, para combater esse símbolo da liberdade individual, do sucesso material, e da diferença entre as pessoas, que é o maldito veículo?

A propósito da recente eleição de Moedas o assunto veio à baila. Parece que o novo presidente não é adepto de ciclovias, pelo menos algumas, e deseja promover a construção de parques de estacionamento, ó que loucura.

Diz Fernanda Câncio, com argúcia: “É que tal medida não se limita a tornar mais atrativo o uso de carro; faz mais penoso o dos transportes públicos de superfície - a Carris - pois quanto mais carros houver a circular menos os transportes públicos são eficazes”.

Não se pode negar que se houver mais carros a circular etc. Porém, se admitirmos que a construção de parques retira carros do estacionamento na via pública, detalhe que a Fernanda escapou, não é um salto ilógico pensar que pode compensar na fluidez da circulação, assim como passagens desniveladas também contribuem para esse resultado… ou não? E a preclara que me desculpe mas, já que fala em transportes de superfície, poderia porventura encarar a hipótese da sombra de uma suspeita de que talvez fosse avisado falar de transportes debaixo do chão, isto é, do metro. E isto porque o metro pode concorrer com vantagem com o transporte de superfície, visto que, ao contrário do que julgam as Fernandas deste mundo, o cidadão, se tiver uma boa alternativa ao automóvel, usa-a. Não talvez o cidadão que tenha muitos recursos, mas sem dúvida a maioria. Ora, o metro é tipicamente investimento público (poderia não ser, mas isso são outros quinhentos), de modo que é ouro sobre azul: colectivo, investimento, grande infraestrutura que os sindicatos podem paralisar, alavancando portanto a influência social do povo trabalhador, boas credenciais ecológicas e assim… que tal? Até se podem pintar as carruagens de um vermelho inspirador, no intervalo de uns moços com acne as picharem com grafiti intensamente artísticos, comunicando ao burguês ensimesmado as mundividências da juventude revoltada.

Parece que Moedas defende que “os 20 primeiros minutos de estacionamento sejam gratuitos em toda a cidade e paguem menos [os residentes] 50% em todos os parquímetros”. Como o espaço público é escasso, e só por o ser é que se justifica que a sua ocupação com automóveis seja paga; e como a medida é discriminatória em relação a quem, provavelmente por não ter escolha, vive longe: sinto-me tentado a concordar com Fernanda (o que teria ainda a vantagem suplementar de lhe ser agradável, dado que, sem a conhecer pessoalmente, simpatizo com ela). Sucede porém que mesmo aqui talvez a ideia de Moedas seja somente a de ajudar a facilitar a fixação de residentes, um objectivo meritório. Não sei, não conheço verdadeiramente Lisboa nem os seus problemas, e ainda menos tenho dados que fundamentem ou contrariem uma opção deste tipo.

“… não há ‘cidade sustentável’ ou sequer mundo sustentável assim, e sabemo-lo há décadas. Só falta usar esse saber para salvar o que é possível - coisa que andamos coletivamente, cidade, país e mundo, a adiar ad aeternum.”

Ahem, eu conto mais décadas de vida do que a autora e não sei nada disso. E ficaria muito surpreendido se cidades muito grandes, médias ou pequenas, planas ou às subidas e descidas, com ou sem zonas de expansão fácil, novas em países novos, de traça medieval ou dos séculos XVIII ou XIX, cidades que crescem e cidades que estagnam, em que as políticas habitacionais e urbanísticas foram numas assim e noutras assado, devessem todas ter as mesmas soluções para os mesmos problemas. E, por singular coincidência, em todas a solução fosse a proibição, a bicicleta, os Medinas, a trotinete e a Carris.

A verdade é que, a acreditar nisto (e é legítimo duvidar porque a afirmação provém de quem tem interesse em engordar os números para fundamentar políticas anti automóvel), entram em Lisboa todos os dias 400.000 carros, que se somam aos 200.000 dos residentes.

O número é impressionante (mais automóveis do que habitantes!), mas conviria saber quanto tempo, em média, ficam dentro da cidade, e onde, para saber que espaço é realmente necessário. A área de Lisboa é ligeiramente maior do que 100 quilómetros quadrados, e destes também não sei quantos são de arruamentos e praças, mas convém ter noção das proporções: A 10 metros quadrados por cada automóvel o espaço ocupado seria de 6% do total se todos os automóveis estivessem ao mesmo tempo dentro de portas e se não se pudessem empilhar. Um trabalho paciente deveria poder habilitar a chegar a conclusões, incluindo a de apurar o que, ao certo, vai tanta gente fazer à cidade, e o que se poderia fazer para diminuir esse fluxo sem tocar na liberdade das pessoas.

Depois, conviria fomentar a construção de silos nos pontos de maior pressão, ou nas cercanias (respeitando minimamente a envolvência, não se trata de silos como se fosse em Nairobi, que nem toda a Lisboa é a calçada de Carriche). Fomentar quer dizer, por exemplo, isentar de taxas de licenciamento de obra e acelerar o respectivo processo. Naqueles locais ou zonas onde a circulação seja particularmente difícil, o parqueamento, DEPOIS de disponibilizado em garagens, deve ser simplesmente proibido na via pública, ao menos nas horas úteis. E poder-se-ia inclusive, para contentar estatistas e em homenagem à maioria de esquerda que existe em Lisboa, mesmo fora dos jornais e televisões, negociar o preço do estacionamento nos parques privados, em troca da isenção do custo do licenciamento e da proibição do estacionamento. Salazar controlava o preço do pão e não consta que as padarias fossem à falência.

“… agora que vamos finalmente poder andar na rua sem as máscaras pandémicas teremos de trocá-las pelas antipoluição. Novos tão velhos tempos”.

Estou muito feliz neste passo por poder sossegar Fernanda, dado provavelmente estar mais ao corrente da evolução do automóvel, pretérita e prevista, do que ela: os motores actuais são muito menos poluentes do que no passado (gasolina sem chumbo, escapes catalíticos, gestão da combustão computadorizada, etc.); e a tendência crescente do uso de automóveis eléctricos, cuja poluição fica a montante, nas minas e centrais de produção de energia, e a jusante, nos resíduos, portanto não em Lisboa, graças a Deus, poupa a cidade. Donde a máscara (que já no caso da Covid era de duvidosa utilidade) pode definitivamente regressar unicamente aos dias do Carnaval propriamente dito.

Em suma: Tenho a solução? Desconfio: problemas difíceis não se costumam resolver com soluções fáceis, e nesta equação faltam muitos factores.

Mas também quem parte de princípios errados não pode chegar a conclusões certas: Cercear uma verdadeira conquista dos trabalhadores em nome do colectivo e das ideias da moda de esquerda, a mim, parece-me uma coisa dos velhos tempos.

O Leal fascista

José Meireles Graça, 26.09.21

Chamar alguém de fascista é um insulto que infelizmente os comunistas degradaram pelo excesso de uso.

Tudo pela Nação, nada contra a Nação, era o mote da seita, que oferecia um modelo completo de governação. Tão completo que, tecnicamente, ninguém é fascista salvo os apaniguados de Mussolini, todos os outros defensores de regimes estatistas subscrevendo diferenças em relação ao modelo original, com características próprias que, nuns casos mais e noutros menos, dele se afastavam.

É o que dizem os entendidos de respeito, que se recusam a classificar o regime salazarista, por exemplo, de fascista. E não dizem os comunistas porque, como o fascismo histórico foi derrotado, e o seu principal estadista pendurado de cabeça para baixo numa praça em Milão, tachar alguém de fascista já implica que defende ideias derrotadas, para além de odiosas.

As palavras, porém, ganham vida própria, e que se danem os rigores históricos e os tecnicismos. E na verdade, se reduzíssemos o fascismo a uma doutrina que faz prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores individuais e que é representado por um governo autocrático, centralizado na figura de um ditador, quase nenhum regime seria hoje fascista, salvo talvez o chinês; mas se substituirmos nação por humanidade, raça por género, e governo por centrão rotativista, então fascistas há por aí avonde.

Fascista, para um comunista, é todo aquele que defende a liberdade económica e portanto aceita a desigualdade material que daí resulta; e para mim, que não sou menos do que um comunista e tenho igual direito de me borrifar para o rigor dos conceitos, fascista é todo aquele que vê com bons olhos o atropelo de direitos individuais em nome de um bem maior que arbitrariamente define. Dantes era a nação e agora é o que se queira: podem ser os direitos das mulheres e por isso se pretendem estabelecer regras processuais penais diferentes para os crimes contra elas; podem ser os “direitos” dos animais sencientes (senciência que exclui desde logo, abençoadamente, as lombrigas, mas não, incompreensivelmente, os ratos), e por isso se pretende acabar com as touradas; e pode ser o SNS e por isso há quem entenda que todo o vício (exagero: não é todo, é apenas aquele que possa originar doenças ou achaques e que o portador de tais opiniões não tenha) deve ser activamente combatido pelo Estado a golpes de proibições e sanções, em nome da sustentabilidade do SNS, que deve começar “a ser encarada como obrigação de cada um de nós”.

O truque consiste em defender um valor qualquer que seja consensual, neste caso a “sustentabilidade” do SNS, e absolutizá-lo. Isso faz com que a voz ou o comportamento dissonante sejam antissociais, e fica aberta a porta para a repressão. Que se danem os direitos individuais, sem cuja compressão valores colectivos imaginariamente superiores podem ser ofendidos, desde logo pela livre expressão da opinião.

É daqui que vem o combate às notícias falsas e o labéu do negacionismo: para que as notícias sejam falsas alguém assim as define, muito mais do que alguém assim as demonstra, e o negacionismo considerado perigoso é o que belisca a verdade oficial, não o que, no mercado das ideias, se cobre de ridículo. Que haja uns cómicos a acreditar que a terra é plana, ou que a humanidade nasceu exactamente há oito mil anos, duzentos e trinta e um dias, não são notícias que valha a pena censurar; mas que no imenso catálogo das medidas da “luta” anticovid, se considerem inúteis muitas, abusivas outras, contraproducentes bastantes, indutoras de males maiores do que os pressupostamentes evitados a maior parte – isso é que não pode ser. E não pode porque que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando se chegar à altura de mandar, é o que o Poder deseja, a bem da grei. E como, dada a urgência, por causa do progresso das infecções e da intranquilidade pública que a comunicação social alimenta, a opinião exige medidas: do que se precisa é de obediência porque a altura de mandar já era ontem.

Temos então que há uns depositários de uma acendrada noção do que é o bem público que sabem, o que sabem calha coincidir com o que julga saber a maior parte do eleitorado e neste quadro os que discordam podem até às vezes, em nome da liberdade, dizer o que lhes vai na alma, desde que obedeçam. E, se não obedecerem, são completamente livres de o fazerem desde que não tenham os mesmos direitos que os bons cidadãos: podem perfeitamente achar que não se devem vacinar, mas não podem entrar num restaurante aos fins de semana sem exibir um certificado, nem viajar de avião, nem, nem. Hoje. E amanhã ou vivem da forma que os savonarolas da saúde acham indicada ou terão o direito de ir ao privado, porque ao público não, que está reservado a quem exiba certificados vários de bom comportamento.

Fernando Leal da Costa é um destes iluminados. Às tolices arrogantes que defende no Observador Henrique Pereira dos Santos responde cordata e certeiramente: recomendo a leitura para se entender a maneira insidiosa como o fascismo higiénico faz o seu caminho e quais são os argumentos ao dispor das pessoas de senso.

Este conflito é novo: de um lado estão os amantes da liberdade e do outro os fascistas, enquanto dantes de um lado estavam fascistas de esquerda e do outro fascistas de direita.

Fernando Leal da Costa, que foi governante no tempo da troica, é um fascista. E antes que venha por aí uma horda de comunistas abrir-me os braços e declarar, os olhos húmidos de emoção camaradesca, que vi finalmente a luz, declaro:

Fernando é tão fascista como os comunistas, mas mais perigoso do que estes, que estão acantonados na sua aldeia de cro-magnons, porque parece muito civilizado.

Declaração de voto

José Meireles Graça, 23.09.21

Domingo há eleições, mas têm pouco interesse.

Os executivos municipais sabem que não podem mexer no quadro de pessoal senão para o engordar, que devem subsidiar festas e a “cultura”, arranjar os jardins e tratar da recolha de lixos, dar uma mãozinha às freguesias, regular o trânsito e o estacionamento, tratar dos cemitérios e do abastecimento de água, e, em todas estas coisas e uma miríade de outras, serem muito modernos.

Se a moda é infernizar a vida do automobilista, “requalificando” ruas pelo expediente de lhes alargar os passeios, que se limitam com pilaretes, pois que seja; se a UE dá milhões para fazer ciclovias, mesmo onde as cidades não são planas e por isso nem um só automóvel é substituído pela bicicleta, que não serve para ir às compras nem para levar os miúdos à escola, ou os velhos ao centro de saúde – venham elas, as ciclovias, que a canalhada vai para lá pedalar ao lá-vem-um, equipada a preceito no Decathlon; se há dinheiro para separar o lixo é que é já a seguir, umas vezes enterram-se uns contentores gigantones e outras faz-se umas ilhas às cores onde os munícipes separam com gosto os detritos, seguros que é assim que se faz “lá fora”.

Pavilhões multiusos onde os cantores da moda vão ganir as melodias que ficam no ouvido, e mesmo as que não ficam, ou onde se fazem feiras temáticas; um museuzinho onde se recolhem uns trastes com vago interesse regional ou histórico; o centro cultural onde se fazem exposições de fotografia ou de pinturezas contemporâneas, quando não se passam umas fitas cinematográficas cujo enorme interesse um indivíduo encardido, com caspa e óculos, vem explicar aos gentios; a piscina, se não houver mar ou rio, casos em que, no primeiro, se autoriza a construção de um paredão de prédios em frente à praia e no outro se instala com desvelo uma praia fluvial; a rotunda que artistas consagrados enriquecem com as suas esculturas, ou o que por isso passa no parecer dos entendidos: são tudo exemplos do que se toma por gestão municipal. E, embora geralmente sem grande entusiasmo, as câmaras municipais chegam a ponto de fazer saneamento e pavimentar arruamentos degradados, ainda que nestes, desgraçadamente, jamais consigam que as tampas do dito fiquem à face.

Esta, a gestão municipal, entra em paroxismo com o aproximar das eleições, seguros que estão os edis de que o eleitor médio, se vir muitas obras, fica satisfeito, mesmo sabendo que a urgência é interesseira, e as obras nem sempre as mais judiciosas ou necessárias.

Tudo isto está próximo da vida do cidadão, muito mais por vezes do que o que se discute na AR. Mas o salário mínimo, ou o médio, ou a pensão, ou o que diga respeito à saúde, ou ao ensino, ou à liberdade de opinião, ou à legislação penal, ou qualquer outra legislação que não seja de posturas, não está em discussão. E por isso estas eleições são vistas, com alguma razão, como um ritual.

Há no plano nacional escolhas de políticas, e no local sobretudo de pessoas, que se distinguem umas das outras porque quem não está diz que fará melhor as mesmas coisas que faz quem está. Que isto é assim prova-se pelo facto de quase sempre quem esteja ganhe, mesmo que tido por corrupto, mesmo que parlapatão, mesmo que, em casos extremos, um completo imbecil, da variedade que chega a acreditar no que diz em discursos de Mirabeau de aldeia com internet. O eleitor que acha muito bem o que faz o senhor Presidente vai lá, à urna; o que não acha bem nem deixa de achar, mas é ferrenho do mesmo partido ou pelo contrário da oposição, também; e os outros ficam em casa, que de todo o modo isto de políticos, como sabe com grande certeza e imensa superioridade quem não se dá ao trabalho de votar, é tudo farinha do mesmo saco.

Uma visão demasiado negativa, a minha? Talvez, mas de um abstencionista é que não é, mas antes da variedade de eleitores que, não tendo ilusões sobre o prodigioso acervo de tolices que mora nas municipais cabeças, que reproduzem democraticamente os disparates que habitam as dos eleitores, ainda assim não esquece que estas eleições, como todas, têm uma leitura nacional.

Leitura nacional no conjunto e também num ou noutro município em que as coisas possam mudar, por razões circunstanciais.

Lembro-me de dois casos: um é o da Figueira, onde o antigo menino dourado do PSD se reformará, produzindo talvez algum bem. É justo: Santana Lopes nunca teve gravitas, que sempre substituiu por uma mercurial inconstância, mas é impoluto e serviu. Os pecadilhos que Sampaio pretextou para lhe calçar uns patins empalidecem perante os abusos sul-americanos do governo em funções, que Marcelo e os comunistas de serviço amparam; e quem lhe verberava a inconsistência para o desempenho das funções de líder do PSD deve estar satisfeito porque lá consistente Rio é – na asneira.

O outro é Lisboa, a sala de visitas do país. Uma sala de visitas onde todos os erros da gestão municipal aparecem magnificados pela mediocridade estentórea de Medina e a abundância de dinheiro: a descaracterização, o ódio ao automóvel, a obscuridade da gestão das empresas municipais, o caos dos transportes públicos, a torrefacção de recursos, a elefantíase dos quadros, a via dolorosa dos licenciamentos, a obsessão com ciclovias e quanto modernismo acéfalo anda no ar, e um longo etc. que boas cabeças na Assembleia Municipal e no espaço público não cessam de denunciar.

Moedas não é, por muitas razões, personagem que esteja no meu altar de figuras públicas, aliás singularmente pouco povoado. Mas tem superfície, enquanto Medina, a despeito do colo da comunicação social, é uma inexistência intelectual. E em Lisboa como no resto do país o PS faz parte dos problemas, não das soluções. No dia em que a direita regresse ao poder (e esse dia virá, fatalmente) será precisa uma oposição, cujo papel é essencial. Mas nem para isso este PS serve, embrulhado que está em comprometedoras alianças com partidos antidemocráticos, envenenado com tiques autoritários e manipuladores e mexicanizado na promiscuidade com uma comunicação social que, na sua maior parte, para renascer precisa de falir.

De modo que, seja por amor a Lisboa (sim, há quem ame aquela cidade, valha-os Deus) ou ao país, há que votar Moedas.

E aqui, na minha cidade? O candidato da coligação PSD/CDS nem sei quem é, nem desejo saber o que pensa, que é para não me incomodar, mas tem o meu voto – o PS é quem está, e deve ser removido.

CDS? Foi desse partido que me desfiliei publicamente, em texto que a mim já interessa pouco, ao partido quase nada e à opinião pública absolutamente, o que tudo está na ordem natural das coisas.

Mas o Chega! defende soluções, em matéria penal, que bastam para me pôr a milhas, mesmo sem escabichar outros aspectos programáticos; e a IL, para onde se inclina a maior parte dos meus amigos, é regionalista, credo. Como a regionalização é uma porta aberta para o gigantismo do Estado, a promoção da corrupção e a diminuição da liberdade (308 terreiros do Paço são uma visão dos infernos, o original tem ao menos a virtude de ficar longe), e eu sou centralista com um Estado mínimo, t’arrenego.

Temos então que me ofereço para exemplo. Quem não for comunista, não tiver negócios com o município, nem dele depender, ou não acreditar no senso de frei Anacleto Louçã e na fé venezuelana que as suas assessoras no Parlamento professam; ou quem for socialista mas achar que este PS precisa de uma cura de oposição: tem um remédio, vota onde vir o símbolo do CDS.

Bernardim atraiçoado

José Meireles Graça, 15.09.21

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Depois que elas foram idas

e que a água assossegou,

Joana, as abas erguidas,

entrar pela água ordenou;

e assentando-se, então,

as sapatas descalçou,

e, pondo-as sobre o chão,

por dentro de água entrou

e a Jano pelo coração.

 

Se fosse hoje, e as águas as do Vouga, e o lugar S. Pedro do Sul, Joana ainda prendia o vestido nesta torneira que alguém pôs no meio do rio sabe-se lá para quê, e então é que Jano ficava de todo.

O Conde de Rebelo*

José Meireles Graça, 14.09.21

Todo o lisboeta sabe onde fica a Avenida Duque de Ávila; e eu também, desde que a invenção do GPS me habilitou a aceder com facilidade aos lugares mais recônditos.

Agora, quem foi o duque poucos saberão. E fazem muito bem porque aquele distinto nobilitado (primeiro conde, primeiro marquês e primeiro duque daquela designação – Ávila porque era o seu nome e Bolama porque desenlaçou um obscuro conflito com o Reino Unido em torno de uma ilhota guineense) teve uma carreira política brilhante, tendo sido deputado, várias vezes ministro e presidente do Conselho, além de presidente da Câmara dos Pares, mas não deixou nenhuma obra, pensamento, escrito, política, iniciativa ou realização memorável.

É lembrado unicamente por ter proibido as Conferências do Casino, umas reuniões inócuas onde o escol intelectual da sociedade portuguesa se propunha “criticar o status quo político, social e cultural português da época, as suas instituições, os seus valores, a sua visão do mundo: a Monarquia, a Igreja Católica, a Universidade de Coimbra, o sistema de ensino, o meio literário, a imprensa, o liberalismo económico e a organização social que daí advinha, e o espírito conservador, acomodado, abúlico, que caracterizava a sociedade de então”.

Aquela nata constatava a decadência e o relativo atraso do país, e queria debater os remédios. Nada, porém, oferecia de concreto, salvo um socialismo mais ou menos romântico, um republicanismo larvar, um anticlericalismo militante, a necessidade da morigeração de costumes e uma denúncia consistente dos mecanismos políticos e do pântano nacional – “choldra torpe” lhe chamou Eça via o alter ego João da Ega.

As Conferências não são lembradas pelo que de relevo lá se disse, mas porque a chamada Geração de 70 se desentranhou em homens brilhantes, entre eles Eça, o escritor que, com Camões, Camilo e Pessoa, produziu o melhor a que a literatura portuguesa já ascendeu (é a minha opinião; e quem tiver outra que se dane). Dali não seria provável que saísse qualquer projecto consistente. Nem poderia: a ideia de que um artista, seja ele escritor, músico, pintor, escultor, dançarino ou arquitecto, é depositário de alguma espécie de lucidez ou sabedoria que falha ao comum dos mortais era na altura, e é hoje, uma fantasia; e a condição de intelectual e pensador, então e agora, produz com frequência suficientes e pesporrentes. É certo que os sábios tendem a ser cultos, mas os cultos burros, não poucas vezes – não faltam exemplos nas cátedras da opinião.

Daquela geração dourada saíram republicanos, políticos da monarquia constitucional, até socialistas, e alguns que por obras valerosas da lei da morte se libertaram. O que não saiu foram soluções para o atraso: estas começariam a desenhar-se mais de meio século mais tarde, com o Estado Novo, que se ocupou primeiro da dívida, depois das infraestruturas públicas e, a seguir à II Guerra e sobretudo desde a adesão à AECL, da convergência.

O regime viria a suicidar-se com a Guerra Colonial, e estava de todo o modo exaurido: a burguesia, que entretanto crescera, queria a Europa, e esta a democracia, de modo que se finou do modo que sabemos – uma história que só agora se começa a poder contar sem demasiados sobressaltos, por as guerras do fascismo e do seu anti estarem obsoletas, em que pese a comunistas e outros die-hard.

Poder-se-ia supor que acho mal que os senhores D. Pedro V e D. Luís tivessem nobilitado o ilhéu. De modo nenhum: não partilho do generalizado desprezo por quem dedica a vida ao serviço público, nem exijo que os líderes políticos sejam pessoas de excepcional craveira, nem acho que a comunidade tenha alguma coisa a ganhar se a actividade política não tiver nenhum apelo para os melhores, e muito menos entendo que quem anda no meio tenha alguma variedade de sarna.

Com uma carreira política, se não se for desonesto, não se enriquece. E mesmo que a condução desastrada do país tenha levado a que o que alguém chamou elevador social (expressão detestável, mas não estou com vagar para escabichar outra) tenha encravado, e que portanto haja políticos que veem na carreira pública as oportunidades que não veem noutras actividades, daí não decorre que o país não deva distinguir percursos ilustres.

De mais a mais quando essas carreiras se baseiam em generalizada, permanente e reiterada aprovação, por nulo que seja o objecto da estima popular.

Pensei este texto para o nosso Primeiro Costa, que deixará em herança a maior dívida da nossa história (não conferi: sei lá como estava a dívida em 1385 ou 1834 ou 1892, mas nem por isso a alegação parece pouco verdadeira), os jovens e os talentos que emigram, a população que decresce, o Estado obeso, a impostagem opressiva, a AT inquisitorial, a comunicação social domesticada, o deslizar do país para os últimos lugares do desenvolvimento, a alienação do módico de soberania que nos resta na EU, e um longo etc.

Ia sugerir que, quando Costa fosse ocupar uma sinecura e uma datcha em Bruxelas, era justo que a República pedisse ao senhor D. Duarte que o nomeasse barão. Tinha inclusive pensado no nome: barão de Santos, indo pescar-lhe ao nome, ou de S. Sebastião da Pedreira, à naturalidade.

Mas tropecei nesta notícia, em que o Presidente da República se ocupa com ternura do destino ­­do referido Costa, opinando com argúcia que em 2023 sairá, uma grande desgraça que de resto (isso Marcelo não diz porque é uma pessoa estóica) encara com aflição.

E fez-se luz: Comparar Costa ao duque de Ávila é um grande exagero, desde logo porque o segundo se exprimia em bom português e passava por conservador, enquanto o primeiro usa um dialecto próprio e não se sabe bem o que seja politicamente, se alguma coisa, mas de direita é que não. É certo que a graduação em barão, e não conde ou duque, já traduzia uma hierarquização, mas toda a arquitectura do raciocínio me começou a parecer forçada.

Forçada para Costa, mas que assenta como uma luva ao próprio Marcelo: A herança de Costa é uma pré-falência do regime. E ninguém jamais o encarnou, ao regime, mais completamente do que o nosso Presidente, que, ao contrário dos Vencidos da Vida, lisonjeia o ego popular enunciando-lhe as superioridades imaginárias da Situação, e o bem fundado das escolhas que faz, e das políticas e das pessoas que, com a graça de Deus, as executam.

De modo que o senhor D. Duarte decerto não se lembrou, mas alguém lhe deveria sugerir, que um título para Marcelo seria da maior justiça e oportunidade: conde de Rebelo não estaria mal.

 

*Publicado no Observador

Um homem bom

José Meireles Graça, 14.09.21

Um homem bom, culto, educado, sensível, afável, inteligente – um Senhor, resumiu uma amiga minha que não suspeito de excessivas simpatias socialistas.

Outro que estimo, esse sim socialista toda a vida, mas da variedade rara que não é cega para os defeitos nem das pessoas, nem do seu partido, nem do regime, abundou num panegírico obviamente sentido.

Alguns amigos meus escorreitamente de direita mas com reflexos condicionados (são a maior parte, enquanto dos não amigos a quase totalidade) precipitaram-se a cascar no falecido porque era, e sempre agiu como, um homem de esquerda, esquecendo a convenção que manda não dizer mal dos mortos aquando do seu passamento.

As convenções não existem por acaso: esta que obriga à contenção garante-nos que quando chegar a nossa vez ninguém vai para o velório roer-nos na pele; e lembra aos crentes que todos são igualmente filhos de Deus, e aos não-crentes que todo o homem, por detestável que seja, tem um lado bom.

De modo que enquanto fui lendo e ouvindo o desparrame de elogios dei provas de louvável inacção, excepto no mural de uma outra amiga, em que não resisti (mas estou arrependido) a dizer: Sim, falava um inglês óptimo, vestia bem e toda a vida foi um socialista convencional, com as ideias convencionais da espécie que foram evoluindo sempre no sentido de se aceitar hoje o que se rejeitou ontem. Se a esperança média de vida estivesse nos 150 anos teria acabado por ser liberal, com a condição de o liberalismo ter entretanto ficado obsoleto.

A amiga referida acima desancou-me. E, sem a contestar, prometi que algum dia diria o que realmente penso do homem, desassombradamente. Será hoje.

Não ponho em dúvida que Jorge Sampaio fosse o ser humano admirável que os que o conheciam pessoalmente descrevem. E portanto a mim talvez me conviesse, numa existência paralela, para sogro, ou genro, ou amigo, ou conviva de jantar, assim como lhe poderia comprar um carro usado, pedir um favor com a certeza de, se estivesse na mão dele, mo conceder, ou fazer-lhe eu um favor a ele se mo pedisse e igualmente eu pudesse anuir, com a certeza de não abusar. Creio até que da sua experiência de vida seria possível retirar não digo utilidade mas satisfação da minha curiosidade, e iluminação de alguns passos dos sucessos abrileiros ou até da minha ignorância nesta ou naqueloutra matéria.

Mas o que era pessoalmente um político só tem interesse na medida em que ilumine passos de um percurso, não serve para aquilatar dos méritos ou deméritos das escolhas que fez e das decisões que tomou. Quando muito, poderá ser útil para acepilhar algumas rugosidades de interpretação, mas não mais (estes dois verbos, “aquilatar” e “acepilhar”, foram aqui metidos a martelo para agradar a uma outra amiga, dilecta, que os detesta pelo uso imoderado que deles fazem magistrados em sentenças pomposas).

Sucede que sobre Sampaio, no tempo em que o seu ponto de vista contava, fui expectorando algumas opiniões, à medida que o próprio ejaculava as dele.

Por exemplo, sobre a dissolução da AR, a pretexto da falta de gravitas e auctoritas do então primeiro-ministro, na realidade um expediente para alcandorar ao poder o seu partido, que era maioritário nas sondagens, chamava a atenção para o precedente criado; a propósito de uma entrevista em que o celebrado alinhavava umas banalidades contava aqui a história da sua famosa frase para a História: Há vida para além do défice!; e comentava um artigo no Público em que o preclaro confiava a sua aflição com o Brexit e se aliviava das suas cogitações sobre o futuro da União Europeia, do mundo, de Portugal e mais um par de botas

Concluía este último assim (eu, não ele): Temos que ver, temos que falar!

Que só não é um resumo da sua vida porque algumas vezes tomou decisões (corajosas, dizem os admiradores): quando se decidiu candidatar à liderança do PS, à Câmara de Lisboa e à presidência da Républica, ou quando aderiu ao PS após abandonar o MES e fundar outra irrelevância esquerdosa, a Intervenção Socialista. Decisões corajosas e iniciativas de um ominoso pioneirismo como a aliança com comunistas para obter o colar de presidente da Câmara, na qual se distinguiu por não ter feito absolutamente nada digno de registo.

E há muito mais? Não há, excepto acrescentar talvez que, parece, também tocava piano.

Suspeito que era, como músico, ainda mais medíocre do que como político. Isto se se achar, como eu acho, que não vale a pena ter muitas vitórias se elas forem sempre em desserviço do país.

Regresso de férias

José Meireles Graça, 03.09.21

A trombuda no balcão tinha começado a trabalhar há pouco tempo, vestia bem de cara e do resto e a fila não era grande. Como a companhia era low-cost e recente (creio, nunca tinha ouvido falar da WIZZ) seria de esperar que a moça tivesse melhor catadura. Enfim, era uma maldita diaba teutónica, partilhando o país de nascimento com o monstro Adolfo, há que dar um desconto. Ao ver os cartões de embarque, impressos no hotel, perguntou pelos PLC.

Qu’é essa merda, teria perguntado se estivesse a tratar da logística, tarefa que felizmente competia, no grupo familiar, a pessoa mais competente e aprazível do que eu.

PLC quer dizer passenger locator card e a necessidade de semelhante papeleta constava de um e-mail da companhia de aviação que não foi lido até ao fim. As companhias, quando ganham tiques majestáticos, e ganham quase sempre, julgam que as tretas que ejaculam merecem atenção. É preciso ir a um site e preencher as seguintes informações:

Nome completo

Nº do documento de identificação

Data de nascimento

Género (prevê a hipótese “outro”, que seria o que me conviria, por ser da variedade que não reconhece géneros mas apenas sexos, mas parece que é uma que não está reconhecida entre as 73 oficiais)

Morada completa em Portugal

Número de telemóvel

Endereço de correio electrónico

Morada permanente

O preenchimento tem macetes: para indicar datas tem de se ticar nos calendariozinhos disponibilizados, Deus nos livre de simplesmente escrever; e para indicar o número de telefone tem de se pôr “+” e o indicativo do país, mesmo que o que lá está pré-assumido esteja correcto. Senão, nicles.

Vencido o Gólgota informático, recebe-se no e-mail o tal cartão. Mas, para o abrir, é precisa uma chave, que vem a ser o número do documento de identificação. Deus nos livre porém de pôr espaços onde não há (os cartões de cidadão, ao contrário dos antigos bilhetes de identidade, têm espaços e letrinhas, sabe Deus para quê), ou não os pôr havendo, que o sistema não está para frescuras: não abre e pronto.

Parece que quem não tiver esses telefones que dão acesso à internet, ou não souber navegar nos mares da burocracia internética, recebe um papel para preencher. Em teoria. Na prática, os únicos papéis que vi disponibilizar foram guardanapos, para quem encomendasse bebidas.

Durante o almoço no aeroporto, porque havia tempo, desembrulhou-se a meada e cada uma das pessoas do alegre grupo de três ficou munida do cartão de cidadão, do digital de vacinação, do de embarque e deste PLC. Sem o primeiro não se existe e sem o de embarque não se viaja, e doutra maneira não se vê que possa ser.

Agora, que sem o de vacinação se seja um pária que nem consegue ser servido num restaurante, dormir num hotel ou ver um espectáculo, custa a engolir: quem se quer proteger vacina-se, mas como o vacinado continua a poder infectar e ser infectado (ao contrário de outras vacinas para outras doenças, por exemplo o sarampo) não se vê qual é o bem comum que a obrigatoriedade protege - a menos que seja a autoridade, sem peias, das autoridades, que precisamente não é um bem mas um mal, e dos piores.

De cedência em cedência, estamos lentamente a ficar chineses na irrelevância dos direitos do indivíduo e na prepotência intrusiva dos poderes públicos. E isto seria, se a comunicação social não fosse um corpo de eunucos analfabetos, atentos, veneradores e obrigados aos poderes, fonte de permanente escândalo.

Mas no meu querido Portugal as coisas ganham, às vezes, contornos inesperados. Porque o tal cartão PLC não foi pedido nem na porta de embarque, nem no avião, nem à chegada, nem em lado nenhum. Em suma, não serve para nada.

Portugal é um país, e não deve haver muitos, onde por vezes se encontra o que se diz ser um atributo divino: fazer direito por linhas tortas.

De férias

José Meireles Graça, 21.08.21

No passeio até à ria de Alvor fui surpreendido, quase a chegar, com o voo grácil de um galharoz anão, uma visão rara, e logo a seguir dois nefelins rasando a água.

Para subir para o paredão há muitos caminhos, através da areia escaldante, serpenteando por entre a flora dunar – cardos, bromélias, feno das areias, cactos, inúmeras outras plantas. Interpelando-me isolada numa clareira, a flor espectacular de uma braquissária reticulata oferecia aos meus olhos deslumbrados as suas onze pétalas – uma fúcsia, três verde menta e as restantes de um azul anilado raiado de infinito.

Fiquei comovido com a experiência e venho aqui partilhá-la, confiando em que alguém fará ideia do que estou a dizer. Não posso ajudar porque, como inventei o nome dos pássaros e da flor, não me encontro em condições de informar do significado destes encontros fauno-florais.

Falamos Mas Infelizmente*

José Meireles Graça, 18.08.21

No tempo da troika pus uma surdina em considerações demasiado ácidas sobre os então responsáveis: o país estava sob tutela, tinha a autonomia que os credores consentiam e inimigos do Governo não faltavam.

Os comunistas gostariam de escaqueirar tudo e renegociar a dívida, por a União Europeia não ser uma versão do Comintern, caso em que o seu deles alegado patriotismo passaria a internacionalismo; o Bloco, com mais acne do que hoje (confessam-se agora social-democratas – o bem que fazem uns lugares no aparelho de Estado e a participação na governação), afinava pelo mesmo diapasão, ou recomendava mesmo o calote; e a comunicação social explicava com empenho, convencendo muitos, que a falência do país não foi engendrada pelo PS mas pela crise, e que não foi este indispensável partido, mas a execranda Oposição, a negociar o Memorando de Entendimento.

Passos desenrascou-se bem e ganhou um crédito que muitos (e eu com eles) acham que, para bem do país, permanece intocado, à espera de investimento.

Apesar dos jornais e das televisões, a PàF ganhou em Outubro de 2015, ficando a 9 deputados da maioria absoluta. Na campanha não fora apresentada a coligação vermelha, mas com ela o menino de oiro da comunicação social, e do Portugal de Abril (isto é, deste que ao fim de quatro décadas se bate para não ser ultrapassado pela Letónia, Eslováquia e Roménia, além dos outros que já nos deixaram para trás, porque pela Polónia e Hungria é já praticamente trigo limpo), o estadista Costa, tirou da cartola a maioria de esquerda e lá está, e dura, e rebrilha na sua satisfação nédia de farsante.

Pensava à época que o que sobrava a Passos Coelho em tranquila determinação faltava em calculismo; e que os cortes na despesa pública, que foram por demais tímidos, bem escusavam de ter sido transversais aos funcionários, assim como a classe dos pensionistas e reformados poderia talvez ter sido deixada em paz. Mais valia ter encerrado serviços inúteis, por grande que fosse o berreiro, porque o eleitor médio, que não é exactamente uma águia, pode entender, se lhe explicarem, que o serviço tal não serve para nada, mas jamais aceitará que a ele lhe cortem um xis do magro rendimento enquanto há ricos que se repoltreiam no consumo do supérfluo. Uma triste realidade que a esquerda explora e que prestigiados economistas, com a típica incapacidade da classe para entender os mecanismos da criação de riqueza, alimentam com a interminável treta dos progressos na igualdade.

Vítor Gaspar, o do brutal aumento dos impostos (que o demagogo Centeno viria a diminuir de paleio e engordar na realidade), nem nisso acertou: deixou a taxa máxima do IVA em paz quando o consumidor, na realidade, estava maduro, à época, para, à boleia da troika, engolir sem pestanejar a punção que, por incidir no consumo e não no rendimento, é menos visível.

Um erro de casting, esse Vítor, e o verdadeiro responsável pela vitória coxa nas eleições. Nunca apreciei a peça, embora achasse imensamente gratificante a forma serena como rebatia com suficiência as objurgatórias da canzoada oposicionista, e recordo-me de me perguntar quanto daquilo era escolha própria e quanto exigência dos alvazis que a troika para cá despachou.

Enfim, o que lá vai lá vai. Ou não vai: porque a luminária, em vez de gozar o sossego burocrático das altas funções internacionais onde se encaixou, vem dizer coisas. As coisas são um estendal de asneiras convencionais, tão ostensivas que fui conferir, não fosse o jornalista, como é típico da classe, ter treslido.

É um post em que se defende, a propósito da Covid, uma “acção colectiva” para fomentar o acesso a vacinas, garantir financiamento crítico e acelerar a transição para um mundo mais verde, digital e inclusivo. Este palavreado, só por si, é o mantra das agências internacionais, que traduzido costuma querer dizer mais poder, mais estudos, mais burocratas para debitar inanidades, mais malbaratamento de fundos públicos, mais corrupção e o costumeiro abismo entre as intenções proclamadas e as realizações. O bom do Guterres, especialista neste paleio de chacha, assinaria com gosto, logo que lhe secassem as calças encharcadas por uma das inundações que as alterações climáticas provocam e que não teriam lugar se alguém prestasse atenção aos seus lancinantes apelos.

Aqui, porém, no fim, listam-se medidas que têm a ver com a difusão de vacinas no que dantes se chamava o terceiro mundo (é o que já está há umas décadas para se desenvolver e que entretanto se dividiu em países em vias disto e em vias daquilo) e nada vejo, pelo contrário, de criticável, mesmo que uma parte seja praticamente ininteligível para quem, como eu e quase toda a gente, não domina o jargão burocrático que esta gente desenvolveu para não ser compreendida.

Podia Gaspar e a chefe que co-assina, uma tal Gita Gopinath, manter a análise sumária dos níveis de endividamento por grupos de países, relatar o que o FMI tem feito para ajudar durante a crise Covid (que é atribuída em exclusivo à doença e não às decisões governamentais para lidar com ela) e passar às medidas, que aliás ganhavam com maior detalhe. Mas não: a este funcionalismo apátrida a inimputabilidade sobe à cabeça e, invariavelmente, julga-se autorizado a ministrar conselhos que excedem em muito os propósitos do organismo em que presta serviço.

O jornalista do Jornal Económico traduziu bem e sigo-lhe o resumo: “Os governos mundiais devem procurar melhorar a eficiência, simplificar os códigos fiscais, reduzir a evasão fiscal e aumentar a progressividade.”

Ó pobres diabos, donde vos vem a autoridade para informar os governos do que “devem” fazer? Melhorar a eficiência sem dúvida, ainda que ela não aumente pelo facto de uma dupla de funcionários dizer que isso é necessário; simplificar os códigos, bem, é uma óptima ideia, se bem que os legisladores que os fizeram complicados talvez não apreciem que lhes puxem as orelhas; e reduzir a evasão fiscal nem se discute, apenas se estranha que à força de a reduzir ela ainda não tenha acabado. Mas aumentar a progressividade?! Tenho novidades para vocês, ó duo revolucionário: a progressividade e o seu grau são ideias políticas muitíssimo discutíveis, objecto portanto de escolhas que os eleitores devem sufragar, em democracia, e os ditadores fazerem, em ditadura. Convém informar portanto os eleitores, no primeiro caso, e os ditadores, no segundo, que Vítor e Gita já decidiram a matéria, numa reunião depois do almoço em Washington, consultando os seus apontamentos.

“Aumentar a capacidade do Estado de recolher impostos e alavancar o papel do sector privado também será chave, defendem os economistas, advertindo que, enquanto a pandemia persistir, a política orçamental deve permanecer ágil e pronta às circunstâncias em constante evolução.”

Alavancar o papel do sector privado é uma chave clássica para o progresso nas sociedades modernas, não há que negar. Mas como isso quer com frequência dizer que a capacidade do Estado para extorquir recursos deve diminuir, e não aumentar, Vitó e Gitinha devem ter achado que o post estava com parágrafos a menos, pelo que lhe incluíram este, enigmático.

“… os países terão de ver como podem mobilizar recursos domésticos e aumentar a qualidade dos gastos, podendo, por exemplo, fortalecer os sistemas de impostos para aumentar receita.”

Aumentar a qualidade dos gastos pelo expediente de cobrar mais impostos é uma ideia digna de figurar no átrio de todos os Paços do Concelho do nosso país, para habilitar as edilidades a, com a consciência em paz, aumentar o IMI e reforçar o seu plano de construção de ciclovias e pavilhões multiusos, dois importantes factores no progresso das comunidades locais. Já no país, desde a famosa paixão pela educação com que Guterres se distinguiu, e que nos habilitou a exportar arquitectos para o Dubai, enfermeiros para o Reino Unido, engenheiros para a Alemanha e restantes licenciados para call centers, o Estado não tem cessado de dar exemplos de qualidade nos gastos. Tudo leva a crer que tivesse o PRR uma maior componente de fundos perdidos e construir-se-ia um novo Convento de Mafra, desta vez sob a designação Palácio dos Congressos Fortemente Progressistas, devidamente descarbonizado.

“No âmbito fiscal, ambos saudaram o histórico acordo internacional sobre a taxação de empresas, apoiado por mais de 130 países, considerando que vai parar a corrida para baixo na diminuição de taxas utilizadas como fator de concorrência entre países.”

No acordo referido não está previsto que as receitas geradas pelos aumentos de IRC sirvam para aliviar outros impostos, nem que as empresas que, por serem multinacionais, pagam taxas muito baixas, deixem de repercutir os aumentos nos seus clientes, o que tudo significa o mesmo, isto é, mais Estado e menos indivíduo. Mas como a exequibilidade desta governança além-países é mais do que duvidosa, pode o resultado prático ser apenas a desejada machadada na competição fiscal, ao menos dentro da União. A qual competição, se nunca tivesse existido, teria dificultado que um país como a Irlanda nos tivesse ultrapassado a cem à hora e outros mais devagar. Vítor Gaspar dá aqui provas não se sabe bem do quê – talvez seja patriotismo.

Há mais, mas é sempre o mesmo discurso asneirático, não vale a pena comentar. Disse acima que nunca apreciei Vítor Gaspar, mas dei-lhe o desconto do estado de necessidade: não havia tempo para pensar, era preciso agir.

Erro meu: nele, pensar é excessivamente parecido com não o fazer.

 

* Publicado no Observador

Regresso à escola

José Meireles Graça, 14.08.21

De regresso de uma breve saída, passei no meu velho Liceu (agora Escola Secundária porque pouco tempo depois do Vinte e Cinco do Quatro um secundário qualquer assim crismou aqueles estabelecimentos) e, num impulso, fui visitá-lo. Não pela entrada principal, que está fechada, mas pela nova, que se distingue por ser um pórtico enorme cheio de grades e com uma casota para o porteiro. O qual ainda esboçou o gesto de me interpelar mas desistiu dado o meu distraído aceno de pessoa superior – o homem achou decerto que seria alguma autoridade académica, nem todos os agentes desta vestindo mal e tendo aspecto de amanuenses.

Os revestimentos do chão e das paredes não são os mesmos, há portas onde dantes a passagem era livre, e passagens livres onde dantes havia portas, onde era a Secretaria, que passou para as salas de desenho, agora está uma Portaria, e quase tudo o mais mudou de sítio, salvo as minhas salas de aula, por onde passeei, há 50 anos, preguiça e insolência. O mobiliário é porém muito diferente – com aquelas mesas os moços e as moças confirmarão as suas corcundas, que já vinham cultivando de pequeninos porque os pais modernos não acham pedagógico ligar às posturas, o que já sucedia com as antigas carteiras, que porém tinham outras vantagens. É óbvio que ali se torraram milhões do saudoso Parque Escolar, vê-se a mão de arquitectos e designers, duas classes profissionais que se ocupam uma a produzir ofensas à paisagem e outra a rechear os interiores de lixo pouco funcional, se não for nórdico, e de limitada duração, se for, mas o resultado final não está mal: o edifício é em granito, alterar-lhe a traça não é viável, havia boas madeiras que seria pena escavacar, salvo as portas, que não sobreviveram possivelmente porque, se forem em vidro, é mais fácil fiscalizar os tumultos e as faltas de respeito que me dizem fazerem hoje parte das mais actualizadas práticas pedagógicas.

Entrei e virei à esquerda, o percurso que penosamente fiz, de manhã, centenas de vezes. E, já a meio, fui interpelado por uma funcionária, inquirindo se “desejava alguma coisa”. Desejava: Queria saber onde paravam as escadas em que terminava aquele corredor, que não as estava a ver. E como ela me olhasse avaliatoriamente, fui dizendo que tinha sido ali aluno há 50 anos e estava a fazer uma romagem de saudade.

A moça (tudo o que tenha menos de 50 hoje, para mim, são “moças”) esclareceu que as escadas estavam lá, mas não se viam porque o corredor fora prolongado e havia, à direita, uma porta que a elas dava acesso. E vi, claramente visto, que nas engrenagens daquela cabeça o objecto a precisar de classificação, que era eu, já havia recebido luz verde como não constituindo qualquer perigo. Está já a decorrer a campanha para as eleições locais e numa primeira apreciação poderia ser o caso de ser eu um candidato enxerido a meter o nariz nos estabelecimentos de ensino. Mas não parecia comunista porque esses costumam andar de camisa aos quadrados e pochette; bloquista também não porque nem tenho acne nem uso tshirts com aspecto de pijama gasto; psd ainda vá, mas a variedade local não é desempoeirada como são os de Oeiras, e dá-se o caso de que eu estava de camisa por fora das calças; do Chega! nada, que não tenho peito cabeludo; e betinho do CDS ou da IL isso sim, mas é gente inofensiva.

De modo que passeei por onde quis, sozinho, saí tranquilamente por onde entrei, agradeci à funcionária que estava imersa numa conversa telefónica por causa, ao que pude perceber, de um incidente doméstico, e relato todos estes factos porque me parece não serem destituídos daquele interesse que, se soubesse qual é, não esconderia.

Prá gaveta

José Meireles Graça, 02.08.21

A gaveta do título há muito está cheia e é portanto um artifício retórico, toda a cangalhada que recebo pelo correio guardo em pastas e o que venha interneticamente não imprimo, no louvável propósito de poupar as florestas. Do texto que segue, que enviei hoje para um e-mail qualquer da Autoridade Tributária, suprimi nesta transcrição partes que não interessam para a economia da história, bem como nomes.

"Boa tarde.

Na sequência de um pedido de atendimento presencial, para esclarecimento do significado do V/ enigmático ofício (cópia em anexo, ficheiro IRS2020Reembolso.pdf), cuja resposta, por e-mail de 29 de Julho último, transcrevo abaixo, dirigi-me hoje pelas 11H00 à repartição da AT em Fafe.

Notas:

  1. O funcionário que atendeu ignorava tudo sobre a marcação e pretendia saber qual a secção desejada. Inteirado de que eu não estava ao corrente do organograma da repartição, mas que o assunto tinha a ver com IRS, foi, de posse do meu cartão de cidadão, consultar um colega, que informou tratar-se de contencioso;
  2. Na secção respectiva um outro funcionário, após pesquisa no computador, esclareceu que se tratava de uma penhora por uma senhora agente de execução, e que os detalhes estariam no Tribunal de Comércio de Guimarães. Do que constava no processo extraiu cópia, que anexo (ficheiro PenhoraIRS2020.pdf), que contém as informações de que careço, excepto as coordenadas da senhora agente de Execução, na presunção decerto de que esta teria informado directamente o penhorado. Coisa que não fez, talvez por achar que a AT o faria e por estar eventualmente assoberbada, um grande contratempo que aflige igualmente a AT, o Tribunal de Comércio e as restantes repartições públicas, razão pela qual o cidadão rabeia entre elas por mor de saber a natureza exacta dos abusos e prepotências de que é vítima.

Sobram-me duas perguntas:

  1. Os Vossos funcionários não estão, ao contrário do que a lei (nº 4 do art.º 7º do Dec.Lei nº 135/99, de 22 de Abril) impõe, identificados por que razão? Não se ignora que a Autoridade Tributária é um Estado dentro do Estado, e compreende-se a natural relutância de alguns funcionários em se identificarem enquanto prestam um serviço que é tipicamente odioso, mas mesmo assim não parece aceitável que a AT, cuja actividade é regulada por leis que violam o Estado de Direito (como na inversão do ónus da prova), leve a sua marginalidade a esse Estado ao ponto de o ignorar;
  2. A informação de que necessitava, e que me foi disponibilizada, não constava do V/ ofício acima referido por que motivo? Acaso a “directora de serviços” que o assina (xxxxx xxxxxxx xxxxxxx) ignora que o site cuja visita recomenda (Portal das Finanças) é um labirinto ininteligível onde, se por milagre se encontrar alguma informação útil, é provável que esteja desactualizada? E poupa na informação porquê? Se a senhora gosta de fazer segredinhos talvez fosse apropriado significar-lhe que obrigar milhares (suponho que sejam milhares) de cidadãos a dirigirem-se a repartições para saberem o que não lhes deveria ter sido ocultado gera incómodos e desperdícios cuja medida, se alguém se preocupasse em defender o interesse público, justificaria a sua remoção para outras funções mais compatíveis com as suas competências.

Não espero, como é evidente, qualquer resposta. Nem estou habituado (contrariando mais uma vez a lei, que obriga a responder – o legislador, quando estabelece obrigações para serviços e funcionários não prevê sanções, razão pela qual garante que a lei não será cumprida) nem, quando a resposta vem, costuma estar redigida em são português, antes na língua de pau que tem curso nos coutos da Administração Pública.

José xxxxx xxxxxxxx xx Meireles Graça

Cont. nº xxxxxxxxx"

 

 

 

Fleuma

José Meireles Graça, 30.07.21

O socialismo, a dívida, a Covid, são doenças endémicas. E estas enfermidades originam atitudes e declarações que não deixam esquecermo-nos delas, mas que devemos encarar fleumaticamente.

Por exemplo, um molusco gastrópode escreveu hoje no Tweet: Que chato, não é? INE anuncia esta sexta-feira o maior crescimento de sempre da economia portuguesa.

Quase verdade, uma tal Sónia confirma: No 2º trimestre o PIB cresceu 15,5% em relação a igual período do ano anterior.  A jornalista embandeira em arco e nós com ela, embora talvez fosse oportuno lembrar que o crescimento poderia ainda ser maior se a economia, em 2020, tivesse caído mais.

Estes dois cidadãos, dos quais um não tem cara de parvo, estão afectados de socialismo crónico. Incurável.

O endividamento de 753,3 mil milhões significa pouco: é 4 vezes superior ao PIB anual, portanto que saia bastante, muito, excessivamente, demasiado, torridamente, dos limites da imaginação, não interessa realmente por aí além. Uma dívida destas é coisa de tal modo lunática que a solução só pode ser de natureza celestial.

E a Covid? Estamos bem, obrigado. Poderíamos estar melhor, porém: toda a gente conhece os sintomas mas a doutrina não tem prestado excessiva atenção aos danos indirectos que a doença provoca nas capacidades cognitivas de seres sencientes aparentemente normais, como se demonstra pelo e-mail que abaixo transcrevo, dirigido a uma multinacional da saúde, e que evidentemente não terá resposta.

“Fiz pelas 15H30 uma TAC ao tórax no Hospital Velho de Guimarães. A técnica que me atendeu, cujo nome não retive, foi inteirada, porque perguntou, da razão para o exame: dificuldades respiratórias. Apesar disso, insistiu pela necessidade da máscara (o farrapo que alegadamente protege da Covid), que fui obrigado a conservar durante o exame. Durante este, preveniu a senhora, uma voz iria recomendar "encher o peito de ar" - precisamente a dificuldade que originou o exame. A mesma técnica informou, a final, que o abuso e a inépcia (qualificação minha) se destinavam a protegê-la de infecção, tendo-me abstido de lhe significar que semelhante desgraça seria um grande benefício para os serviços. Acham VV. Exªs que isto são boas práticas?”

Fleuma, disse acima. Umas vezes precisamos de mais, outras nem por isso.

A econotribo

José Meireles Graça, 27.07.21

Em tempos, a propósito de um programa da Rádio Observador, casquei em não sei quê do que disseram três economistas residentes. Um deles, um socialista com cujas opiniões antieuropeístas concordo, discordando de tudo o mais, não deve ter tomado conhecimento da minha objurgatória; outro, aliás outra, uma opinion maker com a qual simpatizo, não reagiu; e o terceiro, o mais próximo, provavelmente, das minhas opiniões, e portanto o mais sensato, encabritou-se por espaço de dois minutos no Twitter, levando a coisa para um plano pessoal completamente alheio aos meus propósitos, salvo numa leitura pouco atenta.

Um prof da especialidade, com quem me dou interneticamente muito bem, achou graça; um seu colega não ficou demasiado longe de me achar burro; e um amigo chegado, com óptima cabeça e aquela desgraçada formação, inteirou-me de que “deves ter alguma coisa contra os economistas”.

Tenho e acho que se deve ter porque é gente demonstravelmente perigosa: não há política económica moderna mal-sucedida que não seja inspirada por gurus daquela ciência oculta; e todos os desastres foram previstos por algum sacerdote da seita desdenhado pelos colegas, que todavia, com o prestígio adquirido, nunca mais acertou na previsão de coisa alguma. A despeito do recurso extensivo a disciplinas científicas ancilares, como a matemática, um dialecto próprio que com o tempo foi sendo desenvolvido, e uma produção de papers que não caberia na biblioteca de Alexandria, é tropa que não se entende: há economistas liberais de múltiplas declinações, social-democratas e socialistas de várias obediências, até mesmo (que Nosso Senhor, na Sua infinita misericórdia, lhes perdoe) comunistas à velha boa maneira e outros que, credo!, não são comunistas, apenas pretendem depurar o capitalismo dos seus defeitos e acabar com as desigualdades, de modo a que, já próximo da perfeição, lhe aconteça o mesmo que  ao burro do escocês.

Exemplos de próceres destes clãs toda a gente conhece:  Daniel Bessa é um liberal entre muitos; Cavaco era o exemplo acabado do social-democrata, tão completa e cegamente que, com geral admiração de quem sempre o admirou, continua a ser; Mário Centeno passa por socialista (talvez com algum exagero porque, provavelmente, nem o próprio chega a alcançar aquilo que é); de comunistas talvez o mais conhecido seja Eugénio Rosa, e o consagrado frei Anacleto Louçã é ainda o melhor exemplo do adepto da economia sem ricos, por causa da igualdade, mas com grandes taxas de crescimento da felicidade, um indicador bem mais justo do que o PIB.

(chamo-lhe “frei” porque a peça tem um palavreado intensamente untuoso, lá está, freirático; e porque paira sobre tudo o que diz uma espessa nuvem de superioridade moral – para frei Anacleto as pessoas de direita, isto é, as que assim define, são pecadores que ainda não viram a luz que lhe ilumina o coração amantíssimo).

Escolhi estes porque, tirando o comunista, são ou eram professores; e pensando coisas muitas diferentes têm sempre um grande cuidado, no discurso, em não ferir as susceptibilidades uns dos outros (“não ponho em causa a competência do professor xis, mas não terá porventura completa razão porque pérépépé”). É isso um claro sintoma de que estes clãs constituem uma tribo – a econotribo.

De longe em longe, aparece um adiantado mental que desperta entusiasmo – foi o caso, por exemplo, de entre os listados acima, de Cavaco, quando ainda era ministro das finanças de Sá Carneiro. O pobre homem veio a deixar marca, no seu futuro consulado, como coveiro dos restos do manicómio em autogestão que herdara, tendo ancorado o país firmemente à Europa e sobretudo aos seus fundos, a par do papel central do Estado na economia e na vida dos cidadãos – um legado deletério que nem o próprio nem a corte de apaniguados reconhece como tal.

Pois bem, apareceram agora dois economistas com um discurso relativamente inovador, ambos tendo despertado grande entusiasmo nas minhas hostes.

Um é Nuno Palma, que seguia há muito e a quem já me referi bastas vezes com geral aprovação. Palma é um historiador económico, e só posso esperar que os seus trilhos de investigação sejam aprofundados – conhecer e entender o passado é a maneira mais segura de evitar erros porque há pouca coisa de novo debaixo da roda do Sol.

Nuno despertou uma multiplicidade de reacções de mandarins da opinião, por ter tocado num nervo quando, incidentalmente, se referiu, de mais a mais num encontro partidário, ao Estado Novo como não tendo sido, do ponto de vista do desempenho económico, o desastre que a propaganda abrileira fez passar para a opinião pública como dado adquirido.

Já Ricardo Reis, numa notável entrevista, veio dizer sem ambages o que alguns dos seus pares – os mais lúcidos, num meio em que semelhante artigo escasseia – dão a entender com abundância de quiquiquis, mas a coisa tem sido razoavelmente silenciada.

Percebe-se porquê: a opinião de esquerda atacaria o moço sem contemplações se este não estivesse protegido por credenciais académicas estrangeiras impecáveis e uma carreira invejável lá fora. O quê, os americanos, que são o sal da terra, respeitam este tipo? Tem de ser muito bom. E como o muito bom diz coisas inconvenientes o melhor é não as amplificar. Já a opinião de direita, em se tratando de próceres da Academia, também não tem grande interesse em promover o estrangeirado, não vá ele lembrar-se de regressar: cá no torrão lugares não há muitos.

Palma, benza-o Deus, tem outro tipo de protecção: historiadores falam do passado, que não interessa a ninguém, portanto pode-se-lhes bater; com ideias para o futuro é que temos a burra nas couves.

Que diz então Reis? Identifica três razões para a nossa estagnação: i) Impostos excessivos; ii) Má alocação de capital; iii) Empresas zombie.

Diz bastante mais, é claro, e coisas que valem a pena. Sucede porém que nisto, que é o essencial, discordo de um terço.

A referência a empresas zombie não é uma novidade: numa definição, são empresas que, ao longo de mais de uma década de existência, não geram lucros suficientes na sua actividade regular, dependendo persistentemente de crédito bancário. Isto, segundo a literatura pertinente desta moda de pensamento, tem como efeito diminuir a produtividade por sector, além de encorajar a sobrevivência no mercado de firmas ineficientes, uma vez que o acesso “fácil” a crédito bancário lhes permite continuar a sua actividade. Esta mobilização de recursos, por sua vez, diminui o crédito disponível para empresas viáveis, dificultando o seu crescimento e a continuidade das que existem, e impossibilitando o nascimento de inovadoras e mais produtivas.

Este discurso assenta obviamente no pressuposto de que os bancos não sabem o que andam a fazer ꟷ quem sabe são os académicos, os mesmos que enxundiam os quadros da entidade de supervisão e, frequentemente, dos próprios bancos. E, a julgar pela história recente destes, poder-se-ia legitimamente achar que é assim – bancários são gente que, efectivamente, não sabe o que anda a fazer.

Sucede que não saberão, talvez, cabendo porém lembrar que o caso particular do BES (que apoiou sem dúvida empresas zombie) não ilustra uma qualquer inépcia de gestão, mas antes jogos de poder, incluindo o poder político, além de complicadas relações familiares, também elas de poder. Correu mal, mas se formos lá atrás o que vamos encontrar é uma reprivatização assente em muita vontade e pouco capital – o PREC deixou sombras compridas. Isto para não falar da crise de 2008, espoletada por uma bolha no imobiliário que chegou cá porque às nossas praias, e às de quase todo o mundo desenvolvido, chega o lixo todo. Porque os bancos americanos apoiaram empresas zombie? Não, porque apoiaram zombies propriamente ditos, impingindo-lhes casas que não poderiam pagar se alguma coisa abanasse, como abanou.

Fizeram-no por causa dos prémios de gestão e porque a sustentabilidade das organizações cedeu o passo à eficiência, medida em resultados que esqueceram a prudência.

Não se permite que haja na gestão bancária, provavelmente por boas razões, o instituto falimentar do mesmo tipo que existe para as empresas comuns. Aliás, os bancos não são firmas, são instituições crescentemente reguladas. E não é portanto razoável esperar que sejam particularmente bem geridos, até porque um dos mecanismos para isentar os decisores de responsabilidades pelo que corre mal é colectivizar as decisões, diluindo-as em colégios de pessoas albardadas de sólida formação académica, sobrando-lhes normalmente em teias de aranha teóricas o que lhes falta em experiência.

Mesmo com todas estas limitações, quem decide emprestar pretende um ganho. E esse, ao contrário do que pode caber na cabeça esquemática de um académico, pode estar mais na empresa suficiente do que na muita boa – a muito boa tende a discutir o preço, esmagando as margens, e a suficiente (na realidade portuguesa esta, e não a outra, é que é frequente) pode, com uma adequada avaliação de risco, proporcionar muito maiores ganhos.

A treta da produtividade do sector significa pouco porque, sendo aritmeticamente inegável que se as empresas com pior desempenho forem eliminadas a média sobe, isso não nos garante que o que se perdeu acresça automaticamente para quem ficou, incluindo os postos de trabalho. Por exemplo, se umas empresas exportadoras num determinado sector forem relativamente débeis o seu encerramento pode beneficiar apenas concorrentes estrangeiros; além do que, com frequência, o melhor desempenho tem mais a ver com políticas de marketing ou outras que afectam o numerador, sem tocar na produtividade material dos bens produzidos, o que significa que o mercado passará apenas a pagar mais por menos. Num exemplo paralelo, cabe lembrar que o salário mínimo português, que está demasiado perto do médio, sinal seguro de disfunção, passaria a estar menos no caso de, sem mais, despedir um número suficiente de trabalhadores com aquele salário mínimo, mantendo os outros, coisa que aliás parece ter sucedido recentemente por causa do aumento do desemprego na restauração. Uma evolução positiva, portanto, segundo indicadores acéfalos, excepto para os desempregados.

De resto, ou se acredita no mercado ou não: este fará a selecção pelos melhores critérios, que são os que resultam da soma das escolhas dos agentes individuais. Falta de dinheiro para emprestar não parece que haja: se, armados de paciência, formos ouvir um quadro de topo de um banco, é fatal como o destino que este, inclinando a cabeça ponderosa, murmure com gravidade que dinheiro há, o que falta são projectos com qualidade. E enquanto se espera pelos tais projectos vai sobrando financiamento para automóveis, férias e electrodomésticos, mais fácil de obter do que, por exemplo, para leasing de máquinas industriais, coisa que não estou absolutamente certo de que se tenha conhecimento nos think tanks de americanices.

Pretender que decisões de gabinete, em obediência a métricas discutíveis, são o melhor piloto para orientar políticas de crédito, sem mais, e que as empresas mais eficientes não podem por si liquidar as menos eficientes, desafia, entre outras coisas, o senso e a experiência.

E isto dando de barato que os instrumentos contabilísticos para fazer estas análises são fiáveis (não são, uma das falhas mais gritantes das análises financeiras é a crença na comparabilidade dos balanços e contas de empresas nacionais, com completo descaso do campo de minas que é o plano de contabilidade, as suas incidências fiscais e a capacidade que têm aqueles documentos para traduzir a verdadeira situação das empresas).

Carlos Pereira da Cruz, um consultor de gestão que respeito muito e que acima linquei, diz há muito: Deixem as empresas morrer.

Também digo. As que estão moribundas, desde que com a condição certificada por médico competente e não por um distante director do hospital. Sem isso, e se fosse gestor bancário, pensava duas vezes antes de liquidar uma empresa. Preferiria diminuir lentamente a exposição, subindo entretanto ao preço. Isto, claro, se, sendo CEO o professor Reis, lhe conseguisse explicar que a realidade portuguesa não é bem a que imagina. Talvez ao fim de algum tempo, inteligente como é, já não precisasse de explicação alguma.

 

Publicado no Observador

Otelo

José Meireles Graça, 25.07.21

Hoje é dia de lembrar o herói de Abril para toda a esquerda, e de palavreado inconsequente para a maior parte da chamada direita. As ideias que Otelo amassou para o país eram uma amálgama de guevarismos delirantes ao serviço de uma imensa vaidade, um alto grau de inconsciência e uma teimosa estupidez. Este aspecto, a estupidez, que o levava a asneirar com grande suficiência se inquirido fosse sobre o que fosse, não fará parte dos necrológios, como não fará a sua fria crueldade nem os assassinados pelas FP25, senão de forma enviesada. “Deus tenha misericórdia da sua alma”, disse o meu amigo João Távora. João é um católico fervoroso, e respeitador da convenção segundo a qual não se diz mal dos defuntos no dia do seu passamento. Eu não sou nem uma coisa nem, em se tratando de figuras históricas, a outra. Para me associar à contenção fora preciso que em algum momento este triste exemplar de homem tivesse mostrado alguma forma de arrependimento.

Há pouco tempo, saiu um livro que faz ver Otelo à luz que merece. Para quem viveu aquela época lembra factos soterrados e traz alguns novos; para quem não viveu a “gesta” do 25 de Abril e a primeira quinzena de anos que se lhe seguiu, desvenda o sinistro projecto, e as proezas criminosas, do herói que hoje figura nos ditirambos de quem tem banca na opinião oficial e oficiosa, e no comunicado da presidência da República, caracteristicamente inócuo – se um asteróide atingisse o Alentejo, causando milhares de mortos e feridos, Marcelo associar-se-ia às famílias na sua dor, indo proporcionar-lhes selfies para pôr nas salinhas de entrada, e felicitaria o SNS por ter adequados stocks de mercúrio-cromo.

Nada disto tem, para o futuro, mais importância do que a que têm as pequenas histórias. E Otelo só não se juntará à galeria dos Fuas Roupinho, Hermenegildo Capelo, ou Marcelino da Mata, porque nenhum destes, ou dos outros heróis portugueses, ficou conhecido pela sua vaidade nem por ser depositário de doutrinas dementes em nome das quais estivesse disposto a praticar crimes.

O que deve suscitar reflexão é o algodão em rama opinativo: não tanto o do dia de hoje, que se justifica pelo respeito aos costumes, mas o que se adivinha. Otelo foi condenado, num processo em que ficou abundantemente provada a sua responsabilidade num projecto terrorista que se traduziu por assassínios, assaltos e tropelias menores, num tempo em que as instituições democráticas já estavam a funcionar, e foi indultado e amnistiado muito antes do fim do cumprimento da pena.

As razões para o indulto e a amnistia que as escabiche quem tiver curiosidade de procurar nos porões da história recente. As decisões foram legais, e assentavam num desejo de “pacificação” por uma banda (isto é, a recuperação para o jogo democrático das correntes de extrema-esquerda), e prémio ao estratega do golpe militar por outro: devemos-te o regime, toma lá um perdão, e ficamos quites.

Bom negócio, sem dúvida, para quem o aprovou, o PS e o PCP, sob o patrocínio de Mário Soares. Ficou claro então, como já havia ficado antes, e viria a ficar depois, que a esquerda em Portugal, mesmo que amalgamá-la seja injusto (Mário Soares jamais se aliaria com o PCP para governar), defende os seus.

Não seria má ideia ter isso presente, começando por não pôr Otelo no altar do excesso do equilíbrio e da compreensão: o santo é de pau carunchoso, a igreja é a da esquerda, alguns dos clérigos que vão ao púlpito são terroristas que circulam com naturalidade no meio das pessoas e os fiéis de outras obediências são apenas tolerados: nós.

Pensamento da semana

José Meireles Graça, 18.07.21

Há mais de dois anos que andamos a “ouvir a ciência”, e a Graça, e a Marta, e agora a Mariana, sobre o rapa/tira/põe/deixa das medidas. E agora que um tipo de camuflado fez a única coisa que as pessoas realmente entendem e que merece respeito, que era vacinar a eito, é que ficamos com a cabeça tão completamente desnorteada que aceitamos que para saber onde podemos ir, e quando, e para quê, é necessário um manual de instruções actualizado há menos de oito dias.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Meteorologia cínica

José Meireles Graça, 14.07.21

Telmo Azevedo Fernandes, um dos fundadores de uma (cada vez menos) discreta organização, de nome Oficina da Liberdade, escreveu há dias o seguinte:

A LUSA diz que vai nascer um jornal digital "Setenta e Quatro", dedicado à investigação, que quer contribuir para reforço da democracia. Esqueceu-se de dizer que o respectivo director é afiliado do Bloco de Esquerda e, dos dois proprietários, um é deputado do BE e o outro a advogada que entregou na PGR uma longa fundamentação a pedir a ilegalização do Chega por revelar uma ideologia racista e fascista.

Pensei até que houvesse incompatibilidade entre a função de deputado e de accionista de um jornal...

Em todo o caso, fica abaixo transcrição dos princípios da entidade proprietária do jornal e foto de um dos accionistas etc. etc.

Lendo o resto, percebe-se que é mais uma folha de couve para a difusão do ideário lunático/gramsciano/troca-tintas do conselheiro frei Anacleto Louçã e sus muchachos. E como o vegetal é neste caso virtual, e supondo que não vai pagar os conteúdos, tratar-se-ia na realidade de um blogue.

Achei isto reconfortante: a ideia de que a blogosfera esteja decadente, suplantada pelas redes dos palpites sumários, em particular o esgoto a céu aberto que é o Twitter, desconsola; e se aos blogues se começar a chamar jornais on-line, nada a opor.

Por mim o assunto ficava por aqui, e nem retive o nome da coisa – com o Aventar, o Entre as Brumas da Memória e alguns poucos blogues mais, a que somo ocasionalmente as colunas de magistrados da opinião esquerdista como o meu estimado Daniel Oliveira, e outros não tão bem atamancados, já estou servido da minha dose hebdomadária de demagogias e demências sortidas, para mascar.

Porém, um amigo exilado com quem falo esporadicamente referiu de passagem o tal jornal, comentando: “Cheira-me que vai ser polígrafo 3”.

O amigo em questão interessa-se tanto ou mais do que eu pela terra que lhe deu o ser, mas não (ainda?) o estatuto que lhe convém pela formação e história de vida, e tem o cinismo (ele diria decerto, e infelizmente com razão, realismo) que às vezes me falta. De modo que arrebitei a orelha, sobretudo quando acrescentou “mas eu na tal carta digital vi menos censura e mais negócio. Criar uma linha bazuca para financiar ‘inovação’ na CS…”

Já escrevi sobre isso. E não me escapou a parte da propaganda bazuquiana sobre o investimento na comunicação social, mas não fiz a ligação. Fez ele: “O objetivo é esse. Impresa já la está. Agora venham mais uns amigos. Vamos ver quanto chove”.

Previsões meteorológicas, já se sabe, não são de fiar. Esta, porém, quer-me parecer que é absolutamente segura.

 

P.S.: Entretanto, o tal pasquim já tem site. Confere.

Saneamentos

José Meireles Graça, 06.07.21

Em tempos, o Facebook suspendeu-me um amigo por 30 dias, por causa de uma piada qualquer aparentemente racista (e que fosse, a piada e ele; mas, incidentalmente, o amigo em questão de racista tem nada). Irritado, escrevi um texto onde reflectia sobre as redes sociais.

Acabava assim: Fizeram-me falta os 30 dias do meu amigo. Não é esquerdista, não é preto nem cigano, não é pobre nem explorado, não é situacionista nem convencional. Azar dele: os tempos vão para quem pensa como deve ser; para os outros há suspensões.

De então para cá o mesmo incontinente verbal já foi suspenso várias vezes, pelas mais diversas razões, e calhou conhecê-lo em pessoa: é, como previa, igual ao que previa. Se vivêssemos na mesma cidade, é provável que frequentássemos o mesmo café, nos sentássemos às mesmas mesas e asneirássemos com pertinácia, à vez; e seguro que com ele aprendesse alguma coisa porque isso é o normal quando se têm percursos de vida, experiências, formações e interesses muito diferentes, se houver um fundo inato de tolerância, curiosidade, alguma coisa para a troca e predisposição para levar o mundo, sempre que possível, na desportiva.

O Facebook é um café em ponto grande, tão grande que há uma quantidade infinita de grupinhos que não se podem ver uns aos outros, e numerosos clientes dos quais a prudência aconselha a manter uma confortável distância. Mas todos têm o direito de beber a sua meia-de-leite, ou a imperial, ou o bagaço, ou o que seja, é ao gosto de cada qual. E se o camarada tem por hábito arrotar, ou cuspir, ou mesmo vomitar, o espaço sobra e por isso o dono do estabelecimento não se incomoda, até porque os bêbados e os malcomportados tendem a juntar-se uns aos outros ou, quando venham às mesas dos civilizados, serem acolhidos com fleuma nuns casos, e com abundância de pontapés noutros.

Não se incomoda com isso, e faz muito bem, mas três coisas lhe importam: a primeira é que se diga mal do Governo; a segunda são mentiras; e a terceira a nudez.

Governo é como quem diz, não é bem isso: é mais um conjunto de ideias que acha que desagradam aos costureiros das tendências e à maioria dos clientes. Mentiras também não, é mais, além das propriamente ditas, verdades ou hipóteses que não tenham chancelas oficiais dos mandarins do pensamento. E nudez porque, coitado, é americano e lhe ensinaram de pequenino que é pecado, além do que muitos clientes são também daquela infeliz nacionalidade, ou não são mas ingeriram na infância quantidades consideráveis de pudicícia e hipocrisia.

Pois bem: há dias o meu mural, velhinho de dez anos e pesado de milhares de histórias, fotografias, links, reflexões, levou completo sumiço: nada, zero, niente, kaput. Alguém num servidor em Denver, Colorado, alterou a palavra-passe e o endereço de e-mail, de modo que semelhante arca do tesouro estará talvez perdida para a humanidade, que ficará com certeza impassível enquanto eu furibundo. Adiante, que talvez o meu eu pretérito ainda venha a renascer.

Sucede que outro amigo, da variedade com vastíssima plateia, notoriedade pública e créditos firmados como autor de crónicas, no caso sobretudo sobre assuntos económicos e de políticas públicas, reproduziu há dias uma capa da revista Playboy onde aparecia a Lenka do Preço Certo de mamas ao léu, num comentário. No dia seguinte, ao querer publicar um link para outro assunto, ficou ciente de que estava impedido de o fazer. Chegou-lhe a mostarda ao nariz e bazou de vez – não está para aturar insolências moralistas de uns merdas que ninguém sabe quem são e que, quase planetariamente, decidem o que se pode e não publicar num meio que só teve o sucesso que teve, e que se traduz em incontáveis milhões para os proprietários, porque deu voz a quem não a tinha, ou permitiu ampliar os púlpitos de alguns pregadores, preservando o direito de cada um ler apenas o que lhe interessa, escrever para grupos ou, se houver audiência, um público mais vasto, e interagir com quem aceite interacções.

Grandes burros, o sucesso cega-os: quase toda a gente é conformista e aprecia indignar-se contra os que não o são. Mas são estes o chamariz, o exercício da liberdade de opinião incomoda mas a sua ausência acaba por fazer os ambientes enjoativos.

Suponho que se vai arrepender: quem está habituado a um café imenso achará qualquer outro acanhado; e o paleio de que há coisas muito mais produtivas para fazer, sendo de conteúdo verdadeiro, deixa de lado que pois sim mas nem só de pão vive o homem – também vive de se irritar com disparates, dar umas ensinadelas nos dias bons a alguns pedantes, receber outras nos maus, aturar uma turba de irrelevantes, aprender alguma coisa sobre o que lhe interessa e o que julgava que não lhe interessava, e divertir-se no durante e nos intervalos.

A mim, que porque sou velho sou mais sensato (também já era em novo, mas não quero pôr-me para aqui com gabarolices), não é impossível que isto irrite mais do que a ele. É genericamente um tipo de esquerda, no sentido de que liga muito mais importância à igualdade material entre os cidadãos, e tem muito mais confiança nos poderes demiúrgicos do Estado, do que eu. Mas não é um idiota que diz coisas porque sim, antes se dá ao trabalho de as medir, e como é de profissão professor de economia, usa ancorar-se em doutrina, estudos, pareceres, tudo embrulhado em despretensão, a que soma uma declinação própria. Por último, e sem ser o menos, não se leva demasiado a sério, em contraste com a suficiência que é quase uma marca d’água da profissão, e aprecia discretear nas redes sobre o que se chama a espuma dos dias, a qual não é menos saborosa do que a na parte de cima de um fino (imperial, para quem viver nas partes para onde o Saara se vai expandir primeiro) bem tirado.

O Facebook vai fazer-lhe falta, e ele a mim. Razões porque o aconselho a fazer o que se fazia nos tempos da Velha Senhora: encontrar maneiras de dizer o que se quer de forma que os coronéis deixem passar.

Somos muitos a apreciar-te, Luís Aguiar-Conraria, mesmo na versão light, que não é a mesma dos artigos de opinião. E se isso não te diz grande coisa, informo que também não falta quem não te grame: queres dar-lhes essa alegria?

Atrás de mim virá*

José Meireles Graça, 29.06.21

O Amigo é moderno, tem fortes sentimentos pró-internéticos, lê jornais online, opina nas redes, surfa nas ondas da informação consultando artigos, seguindo links? Ora bem, então já milhares de vezes disse “sim”, ou mais provavelmente “yes”, ao aviso de que aquele sítio que quer visitar utiliza cookies e se preocupa com a sua segurança. Cookies não sabe bem o que sejam, nem quer saber, e faz muito bem; e ao extenso palavreado em que o dono do sítio avisa para isto e aquilo sempre se poupou – senão, em vez de ter acesso ao que quer ler, perdia tempo com vacuidades. E, para proteger a sua reserva de não sei quê, não lia nada, o que aliás nove vezes em cada dez é efectivamente o recomendável, mas a gente não sabe adiantadamente.

A burocracia é assim: ao serviço de grandes princípios, impondo obrigações a quem produz seja o que for, estabelecendo procedimentos crescentemente minuciosos, e esgotando-se no cultivo da sua própria existência, cujo fim já ninguém lembra, a começar pelos burocratas.

De longe em longe, descobre-se com espanto que a estrutura pública criada para proteger ou alcançar um bem ou não serve para nada ou é deletéria; e reclama-se o rolar de cabeças, procurando com ardor um peito onde pendurar a medalha da execração pública.

Este o caso Navalny. Não houve magistrado da opinião que não viesse crucificar Medina (vejamos, por todos, o senador António Barreto), por se ter descoberto esta coisa extraordinária: o exercício do direito de manifestação, que a Constituição consagra, está assegurado, mas a Câmara Municipal de Lisboa certifica-se de que a vida de quem tiver interesse, e poder, em castigar os promotores das manifestações, fique facilitada. Incluindo autoridades estrangeiras, sem discriminação de regimes (facto ao qual, sem razão, a comunicação social atribui grande importância, como se o problema fosse a destrinça entre regimes “bons” e “maus” e não a subserviência a poderes alienígenas).

Ou seja, os opinantes (com a excepção, felizmente anódina, deste Vosso criado) consagram o princípio da responsabilidade objectiva: Medina, se não sabia, devia saber; e a respeitabilidade do órgão, no caso a Câmara, fica restaurada se o seu representante máximo cair abaixo do cavalo. O que, incidentalmente, dá jeito a quem lhe cobice o lugar e fornece uma excelente arma de arremesso político: estão a ver, estão a ver o que sucede quando são estas nódoas a liderar?

O saudoso Jorge Coelho (saudoso para mim, que lhe apreciava a manha, a variante idiossincrática do português em que se exprimia, e a evidência viva e transparente da condição de socialista exemplar, responsável pela inevitabilidade do nosso atraso relativo) é erigido como exemplo a seguir, por se ter demitido porque uma ponte caiu. Exemplo aliás não inédito, já muito antes dele se havia demitido o igualmente ministro Walter Rosa, por um motivo em que a culpa própria era ainda mais ténue. Mas acaso a demissão contribuiu, mesmo que remotamente, para mudanças de procedimentos que, com eles, não teriam sido possíveis?

Que fique claro: Fernando Medina não é presidente da Câmara no mesmo sentido em que o são os de Santo Tirso ou Freixo de Espada à Cinta. Não o é ele, como não eram António Costa ou Jorge Sampaio, duas fortíssimas personalidades de exaltante destino que deixaram na Câmara a memória da sua perfeita inutilidade.

O lugar é encarado como um estágio para voos mais altos, o que lisonjeia a vaidade do eleitor local, que imagina viver numa região que o resto do país deve gratificar com impostos, desvelo e respeito; o quadro pletórico de funcionários, ao qual há que somar os da floresta de empresas municipais, não tem nenhuma relação com as necessidades do município, e toda a ver com clientelas partidárias e tráficos de influências sortidos; e é provável que Medina tenha algumas ideias sobre urbanismo, espaços verdes, habitação, estacionamento, circulação automóvel, licenciamento da construção, segurança, esgotos e o mais de que se deve ocupar uma Câmara, mas seguro que invariavelmente naquela cabeça ovoide convivem apenas as banalidades da moda da gestão autárquica moderninha com os interesses do partido, do seu futuro político, e da sua imagem pública como comentador residente nas tevês, onde se alivia da vulgata socialista e europeísta para a gestão da coisa pública e os problemas da contemporaneidade.

Mas a patente mediocridade da personagem (cuja demonstração não cabe aqui, e seria aliás inútil – quem sobre a matéria tem dúvidas não a aceitaria, por ter a cabeça cheia dos mesmos disparates que afligem a figura) não é o que explica a inacreditável comunicação às embaixadas do nome dos inimigos dos regimes respectivos: nenhum presidente de Câmara pode estar ao corrente do que se passa em serviços elefantíacos, a menos que tenha a preocupação deliberada de fiscalizar desempenhos, fazer análises de custo/benefício, contemplar reduções, promover eficiências, cercear competências, rever atribuições, encerrar “serviços”. Em suma, arranjar inimigos: todas as carreiras políticas bem-sucedidas o são, há mais de quarenta anos, para quem expande o Estado, promove clientelas ou ao menos as mantém, e acrescenta o seu tijolo ao edifício do intervencionismo. Nas falências (vamos em três) há um contrariado inverter ou estancar do processo; e, passada a tormenta, volta-se ao mesmo, isto é, o PS volta ao mesmo, que lhe está na natureza e no instinto de sobrevivência. Os responsáveis sabem bem que o eleitor médio acha que o Estado são os outros, de modo que exigir mais e mais está na ordem natural das coisas, como está prometer mais e mais e, claro, cumprir uma parte do prometido.

Um pormenor que passou despercebido foi que a situação ficou ainda pior a partir da entrada em vigor de uma lei qualquer sobre protecção de dados, que foi interpretada ou aplicada assim e deveria ter sido assado. E como existe uma Comissão Nacional de Protecção de Dados fui ver para que serve e vim rendido. Quão útil e necessária, meu Deus; e um pouco cara também – à volta de um milhão e oitocentos mil euros por ano. Tem sete elementos, cinco Unidades de qualquer coisa e um número de funcionários que não pude apurar. É de prever que daqui a uns anos, de unidades, exista pelo menos uma dúzia, o orçamento se dê ao respeito tendo sido multiplicado por três, e haja uma adequada quantidade de vice-presidentes, dado que aparentemente a actual se encontra numa situação de solidão pouco compatível com a dignidade do lugar. Até porque a própria Câmara, ao que diz um jornal, tem adstritos a estas importantes funções 213 funcionários, e mal se entende que o organismo de cúpula não tenha pelo menos dez vezes mais.

Pergunta-se:

Medina merece ser torrado pela Oposição, a na câmara e a no país?

Medina deve demitir-se?

A demissão do funcionário que superintendia na trapalhada justifica-se?

Este atentado ao Estado de Direito terá consequências?

E responde-se, pela mesma ordem:

Merece: a comunicação dos nomes e endereços de manifestantes aos titulares dos interesses que as manifestações ofendem é um claro escarro na Constituição; e o papel das oposições não é, ao contrário do que acredita o indescritível Rio, fazer espargatas de raciocínio para diluir responsabilidades, é combater de faca nos dentes as falhas de quem está, tenha ou não culpa. Moedas, quando acusa Medina de ser “cúmplice” de Putin pode, retoricamente, exagerar, mas tem razão no sentido de que, objectivamente, é essa a consequência das informações. As restantes oposições só pecam por se concentrarem no pobre Medina (que, coitado, não tem arcaboiço para que mereça se lhe discutam as ideias) como se, removido o espécime, alguma coisa de substancial mudasse. Mas não: o incidente poderia perfeitamente ter tido lugar com Costa ou Sampaio, ainda que estes dois beneficiassem do entusiástico apoio da comunicação social, que sempre os passeou num andor.

Do ponto de vista do interesse público, a demissão não tem utilidade: virá outra nulidade das coudelarias do PS para o substituir; introduz-se um elemento de imprevisibilidade nas carreiras políticas, que ficam a depender de acasos desafortunados; talvez Medina perdesse pontos na guerra surda dentro do PS por lugares, sem que porém os seus concorrentes sejam presuntivamente melhores, e ainda com o benefício da vitimização para o próprio, que já tem de seu natural assinaláveis competências como choramingão; e reforça-se a inimputabilidade das burocracias.

O funcionário demitido não pode razoavelmente dizer que ignorava o processo. E como, que se saiba, não alertou os seus superiores para a prática de uma clamorosa ilegalidade (pelo contrário: Medina alega ignorância e eu acredito), resta que a porta da rua é a serventia que lhe convém. Até para sinalizar a todos os funcionários que, para a prática de ilegalidades, são necessárias ordens expressas e, se elas existirem, denúncias.

O Estado de Direito interessa muito a quem tenha ideias consistentes sobre a vida em comunidade, o progresso, o país, e a importância das liberdades que importa proteger e que são sobretudo as que defendem o indivíduo desalinhado ou vítima de abusos, em particular por parte do Estado. Ou seja, interessa a uma minoria: a maioria quer saber do ordenado, da pensão de reforma, da progressão na carreira e da igualdade, entendida como o combate aos ricos, que, se desaparecessem de vez, permitiriam que se acabasse com os pobres, os quais não há maneira de desaparecerem, e nos transformariam em remediados, que nos dias de boa disposição alguns de nós já acham que somos.

Este caso só ganhou relevo porque o exercício do direito de manifestação (que absolutamente respeito) é sobretudo coisa de moços com acne (isto é, bloquistas), empresários de causas, comunistas e soldados de bandeiras. E, do lado direito do espectro, porque o cadeirão de Medina dava jeito, nem que fosse só pelo valor simbólico de expulsar um dos corifeus patéticos da Situação.  O resto da opinião pública está muito mais interessada na Selecção, como Marcelo bem sabe. Donde, não senhor, de consequências zero.

 

* Publicado aqui

 

Portugal/Bélgica

José Meireles Graça, 28.06.21

O meu amigo de andanças feicebuquianas Pedro Brinca é professor de economia em Lisboa, ao que sei respeitado pelos pares e estimado pelos alunos, não sendo portanto provável que entenda grande coisa do assunto. Mas de futebol, reconheço contrariado, sabe. Isto é um problema porque a analisar os jogos não é menos sofisticado do que seria se estivesse a falar dos de xadrez, e outro tanto fazem os melhores comentadores, ainda que em geral sejam mais proficientes em geometria e matemática do que em gramática. Ora eu sou do tempo em que, para falar do jogo, os analistas, que nele viam o que toda a gente via, adoptavam um palavreado intensamente lírico, às vezes pitoresco e ainda mais frequentemente asneirento: as equipas distinguiam-se pelo pundonor e o jogador xis pelo arreganho, enquanto tal ponta-de-lança chutava com o pé que tinha mais à mão.

O melhor futebol era o brasileiro, e quem viu Tostão, Gérson, Rivellino, Pelé e inúmeros outros sabe do que estou a falar.

Depois vieram os engenheiros da bola, que descobriram que fintar um defesa é um risco e uma perda de tempo, até porque onde dantes havia um agora há dois, e se a coisa demorar três, de modo que o melhor é passar ao camarada que está mais bem colocado, porque toda a gente que está no campo corre que se mata, a ganhar posições quem ataca e a anulá-las quem defende.

De modo que há pelo menos dois jogos, um com bola e outro sem, e as capacidades atléticas, mais a precisão do passe, é que passaram a fazer a diferença, com o ocasional tipo de génio lá à frente, que porém não consegue marcar se a bola não lhe chegar ou, chegando, tiver uma chusma em cima dele.

Isto seria o menos. Mas como pela mesma maré também ficou assente que não sofrer golos é mais importante do que marcá-los, o jogo transformou-se num cansativo exercício de paciência em que duas equipas, em particular se tiverem níveis semelhantes de competência, ficam o tempo todo a “rodar a bola” (expressão consagrada pelos cognoscenti, catálogos ambulantes e infelizmente falantes de lugares-comuns), tolhidos de medo e à espera de um deslize.

O jogo Portugal/Bélgica foi assim: chato. Um belga foi feliz e, de meia-distância e porque nenhum defesa o atrapalhou, marcou; e um médio português, no caso Rafael Guerreiro, rematou, com grande galo, ao poste (para não falar de dois balões que não foram à baliza, de outros, o esférico moderno sobe muito), uma bola que seria indefensável.

Ou seja: perdemos e as análises são umas; e seriam outras se tivéssemos empatado e, talvez, ganho no prolongamento, onde o cansaço facilita as distracções – a enconar ganhamos improvavelmente o último campeonato, e este, pelo mesmo processo, também estava ao nosso alcance.

Eu, que sou intelectual de grandes cogitações e tendo a detestar todos os clubes com excepção do FC do Porto, portanto pessoa de elevação e distanciamento, há muito entendo que quem está enfarinhado nestas coisas não está a ver bem a questão.

A questão é esta: os jogadores são mais altos, mais atléticos, mais calculistas; os treinadores estudam os adversários cuidadosamente, de modo a anular-lhes as vantagens; e toda a gente, antes de jogar para ganhar, joga para não perder.

O calculismo vai a ponto de as faltas poderem ser “cirúrgicas”, porque a penalidade é menos gravosa do que o risco de uma jogada prosseguir, e, nos casos relativamente mais sérios, que dão origem a cartões amarelos, pode ela beneficiar não a equipa ofendida mas uma terceira que nem ali está, escândalo com o qual os adeptos convivem alegremente.

Lembremo-nos apenas de um exemplo: as medidas da baliza são as mesmas de sempre. Porém, os guarda-redes dos primórdios eram muito mais baixos (o assunto está particularmente bem documentado por causa das incorporações militares, onde sempre a altura dos mancebos foi medida), pelo que os contemporâneos levam vantagem.

Alterar regras? Nem pensar, dizem os amantes de futebol. O que de certo modo é reconfortante: comunas, bloquistas, socialistas, progressistas sortidos, rezam nesta matéria todos pela mesma cartilha, que é a conservadora.

Pena seja só no futebol.