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O debate

por José Meireles Graça, em 22.09.20

O deputado da Iniciativa Liberal debateu na SicN sobre a taxa única de IRS com um ex-deputado do Bloco, um expatriado  que se juntou aos portugueses que, com trânsfugas de outras nacionalidades, fingem que deputam no Parlamento Europeu.

O assunto não tem nem de longe tanto interesse como as mamas de Cristina Ferreira, que ultimamente têm uma preocupante tendência para crescer, nem muito menos a mais recente tolice de um governo qualquer, ou do nosso, para fechar a porta à Covid, o fantasma que não vai matar quase ninguém, enquanto os residentes que não morrem de doenças sérias não tratadas, fome ou exaustão, criam dívidas que julgam que não vão pagar.

Mas um partido político tem de ter bandeiras. E esta, a da taxa única, não tem nenhuma hipótese de ser desfraldada no alto de uma colina de preconceitos, o que não quer dizer que não valha a pena agitá-la – todas as bandeiras vencedoras hoje já foram vencidas no passado.

O tal ex-deputado do Bloco, de nome Gusmão, recita a vulgata da seita, que no caso consiste em dizer que muitos poupam 50 euros (esqueceu-se com admirável manha de esclarecer que seria por mês) enquanto uns poucos, os ricos, guardam milhares que não lhes fazem falta; que isto criaria um buraco nas contas públicas que só poderia ser tapado com cortes no SNS e no ensino público; e que nos países mais desenvolvidos (começou por dizer com aquela lata mentirosa de que os adeptos de Frei Anacleto Louçã e Soror Mariana detêm o segredo que era em todos os da UE, depois centrou-se na Holanda como o farol que, nesta matéria, deveríamos seguir) havia várias taxas de IRS, a mais gravosa sempre altíssima.

Cotrim Figueiredo, com serenidade, rebateu as indignações daquele pai dos pobres. Não disse tudo o que poderia ter dito (por exemplo, ficou por referir que a comparação de taxas sem referir os montantes a partir dos quais se aplicam significa que em Portugal se considera rico, para o efeito de o acabrunhar com impostos, quem é apenas remediado) mas nem houve tempo nem é possível dizer tudo sobre uma matéria complexa, e um debate velho, onde a cada argumento de um lado cabe um argumento do outro, quase sempre ficando de fora os pressupostos de cada trincheira.

Que pressupostos são esses? Do lado do indignado, são a superioridade moral (ele defende os pobres, o opositor os ricos), que é recorrente na esquerda em geral e aparece no Bloco dobrada em raiva virtuosa; a concepção da economia como um jogo de soma nula, isto é, em que as perdas de uns são os ganhos de outros; a ideia de que o investimento, e a gestão, públicos, são equivalentes no desempenho ao investimento e gestão privados; e a opinião de que a igualdade material entre os cidadãos é um bem em si, que não carece de demonstração por ser uma verdade axiomática.

Claro que não há qualquer superioridade moral da esquerda em geral, muito menos de um moço de aspecto piolhoso com os olhos coruscantes de ódio aos ricos, debitando argumentos serventuários de uma trombeteada generosidade e uma oculta inveja; na economia que cresce pouco ou nada, como foi o caso durante a maior parte da história da humanidade, os ganhos de uns eram efectivamente as perdas de outros, mas deixou de ser necessariamente assim desde fins do séc. XVIII; se a gestão privada fosse igual à pública, a nacionalização dos meios de produção não teria produzido, como invariavelmente produziu, sociedades de generalizada carência; e é preciso uma grande dose de cegueira para não ver que os países que nos vêm ultrapassando na hierarquia dos rendimentos por cabeça têm muitas coisas que nos faltam, uma delas sendo a competitividade e a simplicidade fiscais – a igualdade, ou melhor, a obsessão igualitarista, não faz parte desse lote.

Gusmão, estás por fora, meu chapa, a única coisa que contigo pode progredir é o retrocesso. Que poderias ter dito ao teu opositor que enriquecesse o debate? Algumas reflexões, dentro dos pressupostos dele que, já se vê, tem paciência, são os bons: que a fiscalidade simples e modesta, em vez de complicada e rapace, é adjuvante do crescimento, mas que há um tempo de espera que não é seguro que as nossas calamitosas contas públicas possam suportar. Pelo que começar pela reforma do IRC talvez fosse mais judicioso; que o nosso Estado gordo é uma mochila demasiado pesada para um viajante que quer andar mais depressa do que os outros, pelo que a reforma de que toda a gente fala ou implica extinções de serviços espúrios ou não é reforma; e que o Estado de Direito é para valer em todos os domínios, e que portanto a inversão do ónus da prova em matéria fiscal, os poderes inquisitoriais de uma casta de funcionários inimputáveis pagos com prémios pelos seus abusos são perversões a eliminar como condição prévia a qualquer reforma fiscal.

Isto e muitas outras coisas. Que talvez vejam a luz do dia quando houver uma quarta falência, ou o eleitorado descobrir que já só tem atrás de si a Albânia, ou, ou.

Até lá, alguém tem de manter acesa a chama do senso, do realismo e da esperança. Foi só por um quarto de hora? Ora, na Venezuela que Gusmão estima nem isso têm.

Lixo moderno

por José Meireles Graça, em 12.09.20

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Este caminho público do qual se vê a entrada é bordejado por três casas, e vai dar a uma antiquíssima rua, que todavia tem outros acessos mais cómodos. O serviço municipal de jardins limpa-a na ocasião de aparar a sebe, aí uma vez por mês. No mais, a parte que corre ao longo do meu terreno, que é a maior, está irrepreensivelmente limpa porque disso trato eu; e neste ponto, que é mais largo e onde por isso estacionam carros, a esterqueira é de rigor. Os locais deitam tudo para o chão e seria possível fazer um estudo sobre a sociedade de consumo, demografia e rendimentos desde 1975 (que foi quando para aqui vim), apenas com base nos detritos que se encontram. Por exemplo, dantes recolhia muitos cotonetes, sinal seguro de que havia bebés ou uma epidemia de otites; em tempos havia seringas e garrafas de água, indicação de por ali estadearem enfermeiros sedentos; e agora é mais embalagens de todo o tipo de alimentos, para chocolates, hambúrgueres, barras de não sei quê e outro lixo de que se alimentam as pessoas, além de garrafas, eletrodomésticos avariados, móveis fanados, maços de tabaco e, recentemente, máscaras contra o medo, invariavelmente azuis porque as de fantasia são mais usadas por pessoas de representação.

O estudo teria grande interesse. E, fosse eu um académico das ciências sociais, poderia fazer um paper muito bem acolhido pelos pares e ecoado na imprensa se estabelecesse, o que não parece particularmente difícil, adequadas correlações com a depauperação dos recursos naturais, a obesidade, a violência doméstica, o heteropatriacardo, as causas profundas da queda da taxa de natalidade e os males insanáveis do capitalismo.

Mas como não sou fico-me pela constatação de que já foi pior, digo-o com a tranquila autoridade de quase meio século de experiência. E a câmara local, que tem os tiques abomináveis de todas as outras, isto é, no essencial, ser um repositório de quanta moda cretina anda no ar da gestão local, e torra milhões com quadros pletóricos de inúteis e requalificações urbanísticas modernaças enquanto proliferam bairros de jagunços, para não falar do ódio militante ao automóvel, nem tudo fez mal: o centro velho da cidade, onde não ponho os pés, foi recuperado; os serviços de jardins e arborização têm feito há décadas um excelente trabalho; e por todo o lado há receptáculos de lixo ligeiro, onde se encontra o que estaria no chão se não existissem.

Quer dizer que é preciso paciência. As coisas poderiam ser aceleradas se houvesse incentivos, além dos recipientes, para as pessoas não sujarem, por exemplo isenção de taxa para quem se comprometesse, sob compromisso de honra, a manter limpo um xis número de metros em torno da sua habitação.

Ideia maluca, bem sei. Honra, compromissos, isenções… o paleio é mais adjudicações, taxas, multas, posturas, negócios verdes e obrigações.

É por isso que desconfio desta iniciativa. Pedante desde logo pela sigla inglesa. Bem sei que os locais, desde que dividam uma chafarica em duas, lhe chamam group, mas têm a desculpa de serem exportadores. A Câmara não tem desculpa nenhuma, a menos que o throw representado na sigla queira dizer vomitar por causa da parolice, caso em que lhe falta a partícula up. Depois, a notícia, cálculos e previsões não faz, o que em si interessa pouco: seria provavelmente propaganda. Diz o quê, então? Isto:

“O PAYT potencia a recolha selectiva através de um tarifário de resíduos no qual existe uma relação directa entre o pagamento e a produção de resíduos indiferenciados. Ou seja, os aderentes ao sistema pagam pelos sacos que utilizam para depositar o lixo indiferenciado que produzem e beneficiam de uma redução/isenção na taxa de resíduos que é cobrada na factura da água."

Tradução: o serviço é o mesmo, mas mais caro. Como os aumentos de taxas não estão em odor de santidade, há que os embrulhar na retórica dos descontos e obscurecer o processo de tal modo que ninguém consiga apurar se o munícipe ganha ou perde no processo. E para fechar o canivete aos que constatem que perdem, levam já adiantada a explicação: produzem muito lixo, seus porcos.

Bem visto, e a manobra foi premiada, uma grande honra. Fui ver quem deu o prémio e aquilo é uma floresta de organismos verdíssimos, tudo dependurado na UE, uma organização benemérita que distribui dinheiro milagroso, que nunca foi nem vai ser cobrado, e prémios a quem pensa o que acha que se deve pensar.

A coisa ainda não chegou aos meus lados, que vivo na periferia. Mas chegará e não tenho dúvidas de que vou pagar mais. De vingança, seria capaz de deixar de limpar o caminho público. Seria. Mas não vou: tenho, de graça, pelo espaço público, o respeito que parte dos meus concidadãos, e a Câmara, dizem que têm.

Tenham juízo

por José Meireles Graça, em 11.09.20

Um amigo socialista pouco carregado (isto é, cor de rosa pastel e não choque), há dias ecoava uma colega de profissão que se queixava de que o PS, não obstante o cartaz de progressista, feminista e modernaço, não apoiava uma mulher para a Presidência. E dava-lhe razão, lembrando o descaso a que foi votada Maria de Belém nas últimas eleições, a benefício de uma completa nulidade palavrosa, qualificação minha, como Sampaio da Névoa (não, não grafei mal).

A queixa é sintomática. O mulherio anda nervoso e, se até há pouco se limitava a querer igualdade para níveis semelhantes de competência, agora reclama a obrigatoriedade de quotas em lugares de direcção, para já em empresas públicas e privadas cotadas, salvo erro, depois em grandes privadas e finalmente em todas, que não há cá ninhos. Se forem de esquerda, as queridas não precisam de desculpas, é imperioso impor justiça, igualdade e mais um par de botas até que as empresas fiquem de joelhos, altura em que devem ser salvas pelo Estado, pelo expediente de as nacionalizar. Se forem, ou se dizerem, de direita, há que rapar de um dos estudos – há dúzias – que demonstram, preto no branco, que em havendo mulheres na direcção, e não apenas homens, o desempenho da organização ganha com isso. Claro que, com interesse e recursos, se podem fazer estudos a demonstrar o contrário e até o contrário do contrário – pessoas ingénuas julgam que os estudos se fazem para entender o real, e não para o modificar, e que a distinção entre correlação e causalidade é fácil de estabelecer, ou que essa preocupação sequer existe; e que na escolha dos factores que influenciam um determinado fenómeno se selecionam os mais relevantes.

Elas votam, são maioria, e as pessoas que andam na política, e não simplesmente a comentam, têm as orelhas arrebitadas e o olho arregalado para topar a tendência. E a tendência é essa – mulherio a bem ou a mal, e se o resultado for que apareçam umas cómicas a asneirar, como a querida Jo, nada de mais: cómicos a asneirar é o que nunca faltou.

Depois, já há países onde o apoio à mulher foi mais longe, e onde menos pesam os handicaps daquela condição (maternidade, sobretudo) e as adoradas, donas da liberdade de escolher sem excessiva penalização financeira, fogem de certas profissões tipicamente masculinas e escolhem outras, que não eram para ser, mas afinal são, tipicamente femininas.

Esclareci o meu amigo, ou melhor, a amiga dele, que com justiça não me ligou pevas, que o PS não é misógino, mas nem Maria de Belém nem agora a pasionaria Gomes, de Estremoz, davam garantias ao regedor do PS de não lhe tolherem as mãos. Elas não, mas Marcelo sim. Daí que o PS apoie Marcelo, não venham cá com teorias da conspiração. E, com o coração apertado por ter defendido o PS, fui rezar um Acto de Contrição, e julgo-me absolvido.

Bem bem, temos portanto duas mulheres candidatas, que se dá o caso de serem duas abominações:

Marisa é uma carta batida e rebatida do Bloco, uma agremiação que os comunistas justamente desprezam por ser de revolucionários de pacotilha, e o resto do país, salvo alguns jovens e outros eternamente, por lhe parecer que os dirigentes têm acne, nas trombas ocasionalmente bem giras e nas ideias;

E Ana Gomes, que tem banca montada no negócio do combate à corrupção, que quer combater a golpes de declarações bombásticas, sempre poupando o principal agente facilitador da corrupção no país, que é o Estado omnipresente, e os seus camaradas, que entende terem, como o seu admirado Sócrates, um par de asas nas costas. Isto e causas sortidas, incluindo internacionais, decerto por achar que como usa sapatos de salto não se nota que se está a pôr em bicos de pés.

Restaria, para gente com a cabeça em cima dos ombros, Marcelo e o candidato da IL. E corre por aí uma tese peregrina segundo a qual a vitória de Marcelo é uma vitória da direita porque este, no segundo mandato, vai mostrar as suas credenciais de PPD e pôr o PS em sentido.

Claro que não vai. Para isso seria preciso que não fosse, mas é, um socialista que vai à missa, como Guterres, que aliás diz admirar, Deus lhe perdoe, e que tivesse para o país alguma ideia que vá além do ar do tempo e da preservação da estabilidade, que confunde com a sua popularidade, julgando ambas valores a defender.

Lá popular é – Cristina Ferreira também. E estabilidade tem garantido – a estabilidade da mediocridade que tem feito Portugal deslizar com pertinácia para os últimos lugares do desenvolvimento na UE. Mas o caderno de encargos para um Presidente que fosse eleito pelo Parlamento, com a Geringonça, desenharia Marcelo. Porquê então a maçada de uma eleição directa, e ainda por cima com a possibilidade, mesmo que remota, de a duas voltas?

Sobra o candidato da IL, que ninguém conhece (nem eu, e mais talvez devesse, por ser do Porto e circular em meios que não me são alheios) e precisava, para vencer a falta de notoriedade, de ter uma personalidade espectacular e abrasiva, ou alguma espécie de auctoritas, que julgo não tem. E, voltando ao princípio do post, é homem, que o diabo o carregue.

Então, tiro algum coelho da cartola? Tiro sim senhor, embora dele ninguém se tivesse lembrado e, por razões várias, incluindo o ser tarde, ninguém se vá lembrar.

Assunção Cristas não deixou, como dirigente do CDS, grandes saudades: por falta de consistência em algumas posições, por uma direcção errática, por parte do eleitorado ter dado à sola para o Chega e a IL, e por não ter sabido calçar os sapatos de Portas, que de toda a maneira ficariam sempre apertados ou largos.

Nada que a desqualificasse para fazer uma boa candidatura à Presidência. Não se lembraram decerto, os que a apearam, porque se a achassem muito boa não a tinham apeado, e os outros porque entenderam talvez que a sua derrota era demasiado recente ꟷ e de toda a maneira muitos não a apreciariam excessivamente.

Porém, eles são eles e eu sou eu, que me estou bem nas tintas para uns e outros.

E talvez, senão com toda a certeza, Marcelo seja invencível, como um cantor reles que vende muitos discos.

Mas haverá alguém que, sem ter a alma ancorada à esquerda, ache que Assunção não seria mulher para se medir com uma bloquista com a cabeça cheia das caraminholas da seita, e uma socialista com modos, e opiniões, de justiceira de Freamunde? Tenham juízo.

Musiquetas

por José Meireles Graça, em 02.09.20

Há tempos lembrei-me de coligir os textos que já escrevi desde 2011 – mais de mil. Um exercício de narcisismo oco: a maior parte estão datados e quase todos, se os republicasse, teria vontade de alterar – não que ganhassem necessariamente com o exercício, quem torto nasce etc.

Isto a benefício de um imaginário sobrinho-tetraneto, que decerto pensaria, se lesse, que bem estranhos eram os tempos do seu avoengo.

Dei-me conta de que jamais escrevi uma linha sobre música. Estranho: ouço-a há décadas, quase todos os dias, às vezes por horas, e tenho gostos perfeitamente delimitados.

Esta idiossincrasia é parte do problema: não partilho os gostos musicais de quase ninguém que conheça e, salvo um ou outro intérprete, por causa de uma ou outra canção, ou alguma qualidade distintiva, envolvo quase toda a música popular, nacional e estrangeira, contemporânea e pregressa, na mesma indiferença no melhor dos casos e, o mais das vezes, aversão.

Tanta que não vou a estabelecimentos com música ambiente; e, se os não puder evitar, acabo por pedir que ponham a música mais baixo, com a secreta esperança de que a desliguem. Coisa que costuma surpreender os proprietários ou empregados porque têm a ideia peregrina de que o barulho alegra o ambiente, e que o silêncio não se aguenta.

Sucede que a maioria das pessoas que gostam muito de música, se perguntadas sobre de que música gostam, dirão que a de qualidade; e inquiridas sobre o que é música de qualidade esclarecerão com exemplos da música que apreciam. Essa é a que tem qualidade – a outra não.

A conversa, havendo gostos diferentes, está portanto minada. E se, num momento de loucura, me passasse pela cabeça afirmar que Julio Iglesias é (ou era, parece que está a cair da tripeça) um cantor xaroposo e peganhento, um fã do charmoso que calhasse de ler (no caso de os fãs saberem ler, uma improbabilidade, e de me lerem a mim, outra maior) ficaria justamente indignado.

Indignação mais do que justa. Porque há gente que se comove, a ouvir o Julio, até às lágrimas. E que a uma pessoa honesta se venha dizer que o que a comove até às lágrimas, ou o que a faz vibrar, ou sonhar, é um produto inferior destinado a impressionar sensibilidades grosseiras, é o mesmo que dizer que a pessoa, ela mesma, é no melhor dos casos ignorante e básica. O que, mesmo que fosse verdade (e pode não ser – no exemplo que escolhi não é impossível que a senhora que delirou com os gorjeios do azeiteiro tenha um excelente tino literário, ou sólida formação científica, ou discernimento em artes plásticas, ou, ou, ou) cairia muito mal, sem nenhum benefício para os destinatários e algum risco para o insolente.

Depois, há a juventude e a idade madura. E aquela música de que se gostou muito na adolescência tende a ficar associada ao maravilhamento da idade, razão pela qual, para o resto da vida, os ídolos musicais daquele tempo dourado ficam embrulhados no véu da saudade.

De resto, se se entendesse elevar o nível do gosto musical, o caminho a seguir seria o de ensinar música na escola, isto é, a lê-la e tocar pelo menos um instrumento com razoável grau de domínio, e não dar aulas de gosto com base nas nossas preferências. Ensino que poderia defender sem ofender ninguém se o achasse – não é o caso – de capital importância.

Portanto eu, de música, nunca disse pevas e fiz muito bem: não aconselho, não sugiro e não preciso de companhia. No YouTube e no Spotify está o que quero, e agradeço que não me recomendem nada, salvo aquela última aplicação, que me aconselha coisas, acertando muitas vezes ꟷ algoritmo reguila.

Hoje porém vou abrir uma excepção para confessar uma particular incredulidade pelo sucesso de Sérgio Godinho, que fez 75 anos e, para comemorar, enche salas e pavilhões com gente que lhe vai ouvir os trinados.

Trinados é como quem diz. Que na realidade o homem até a cantar no quarto de banho só poderia legitimamente agradar a um cão paciente e meio surdo.

O que vai aquela gente lá fazer? Não pode ser para o ver, que é tão atraente como um pau de sabão; nem para o acompanhar nas melodias, que se calhar de ficarem no ouvido são ainda mais incomodativas do que o excesso de cera; nem por causa da poesia, tão inspirada como a bula de um medicamento. E da música tocada é melhor nem falar – aqueles músicos, se andaram no Conservatório, e este esteve à altura da sua missão, devem ter os nós dos dedos encaroçados de tanta reguada.

De modo que, se a lógica não for uma batata, a assistência vai ali como se vai ao cemitério no Dia de Todos os Santos: visitar os falecidos, no caso o PREC.

Respeito os mortos, e gosto de cemitérios. Mas sem barulho. Que agradeço não façam na caixa de comentários porque, prometo, nos próximos dez anos, se ainda por cá andar, direi sobre música o que disse nos dez anteriores.

A Inquisição e os Deuses

por José Meireles Graça, em 26.08.20

A Inquisição Portuguesa foi fundada em 1536 e durou até 1821. O último executado terá sido o jesuíta Malagrida, em 1761, sob pretextos religiosos mas na realidade por ser opositor ao bom do Marquês de Pombal, que tinha uma inclinação muito marcada para fazer equivaler os seus inimigos aos da Coroa, e a todos dispensar castigos espectaculares, que já na altura eram, nos países civilizacionalmente mais adiantados, considerados bárbaros (Voltaire era vivo, e aliás escreveu sobre a execução do padre italiano; e Edward Gibbon iria, pouco depois, publicar o seu Declínio e Queda, uma história magistral onde, lateralmente, a Igreja Católica saía mal ferida).

Portugal não foi pioneiro na criação do hoje execrado organismo, e aliás a sua mão foi de início forçada, à boleia de um contrato de casamento no complicado xadrez político da época; e nem a Inquisição se distinguia, nos seus processos, da barbárie das instituições penais do tempo, nem era compreensível como um poder independente do do Estado, isto é, do Rei, nem a rasoira do pensamento único era um exclusivo dos países católicos.

A tolerância teria de esperar muito tempo até ter um módico de consagração na lei e nos costumes. E convém ter presente que ela não é natural: a reacção instintiva perante a diferença é a hostilidade, porque temos isso nos genes; e a dos poderes, ontem e hoje, é a da conservação do status quo, e portanto a tentativa da eliminação do inconformismo, por ser uma ameaça potencial.

Pergunta-se: quando falamos da Inquisição estamos a falar do passado? Aparentemente, sim: ninguém corre o risco de ser torturado e queimado por causa das suas opiniões, muito menos religiosas. E o pecado de invocar o nome de Deus em vão passou de moda, porque não se invoca em caso algum, salvo como bordão de linguagem.

Mas deuses há muitos, tantos pelo menos como os modernos crimes, e estes são a ofensa à Igualdade (entre os géneros ꟷ em si mesma, a palavra, todo um programa ꟷ ou material, entre os cidadãos), à Identidade de grupo, ao direito à Indignação, o Sexismo e ser professo do Fascismo, seja lá isso o que for, antes de um extenso etc.

O desrespeito por estes deuses pode determinar hoje, nesses faróis de civilização que são os países anglo-saxónicos, a perda do emprego, em particular nos meios onde a liberdade de opinião é mais necessária, isto é, nas universidades. E, sendo as coisas como são, a mancha demoníaca e asquerosa da intolerância e do abuso chegaria cá se ainda aqui não estivesse.

Mas está, e tem nome – é a Autoridade Tributária. Trata-se de uma organização cujos membros são recompensados, como eram os familiares do Santo Ofício, pelas exacções que praticam; que ignora reiteradamente decisões judiciais, insistindo em práticas já censuradas por decisões anteriores; cujas decisões só podem ser contestadas por quem tiver meios para pagar, primeiro, e esperar, depois; e cujo Grande-Inquisidor, invariavelmente um sinistro frade menor que é ou julga não ser um socialista, é apreciado não pelo respeito que impõe que os serviços (isto é, os esbirros) tenham pelos contribuintes, mas pelos volumes de receita que consegue extorquir.

Esta história é exemplar: A Segurança Social cometeu um erro que nada tem de inocente (os erros da Segurança Social consistem invariavelmente em não pagar o que deve, não o fazer tempestivamente, ou ser impermeável a críticas e inacessível a reclamações – características que partilha com boa parte da Administração); o Fisco prejudicou os contribuintes porque considerou, no ano em que foram recebidas, prestações que, por serem devidas em anos anteriores, deveriam ser imputadas aos exercícios a que respeitam; os contribuintes que reclamaram viram as suas pretensões indeferidas sob pretextos capciosos (a não retroactividade das leis existe para defender os cidadãos, não o Estado); e a Assembleia da República interveio desastradamente, obrigando não a SS e a AT a entenderem-se para corrigir o torto, com juros e pedido de desculpas, mas o desgraçado do pensionista a requerer a correcção, coisa que muitos não saberão fazer, quase todos a terem de pedir ajuda, tudo dependente do prazo de 30 dias que foi arbitrariamente fixado, e sem nenhuma garantia de que aos abusos anteriores não se somem outros, incluindo o de não reembolsar.

Por que razão a Segurança Social não pagou a tempo? Quem foi responsável? Quem decidiu? Quem calou? Quem, na AT, achou bem refugiar-se em interpretações legais que ofendem o senso e a justiça?

Dito de outro modo: quem são os patifes? Não sabemos. Nem, aparentemente, os jornalistas querem saber, ou os cidadãos perguntar. Não ignoramos porém que na AT há um responsável político, que me dizem ser pessoa estimável, e na Segurança Social outro, a respeito do qual a ninguém, salvo algum fanático socialista, ocorre dizer semelhante coisa.

Não são, é claro, nada estimáveis, e ambos deveriam ser demitidos, a par de uma severa razia nos serviços.

Não acontecerá porque de um lado estão uns pobres diabos pensionistas; e do outro o Estado socialista, o principal deus moderno que até os mesmos pensionistas devem adorar.

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Declaração de voto II

por José Meireles Graça, em 24.08.20

Em 2016 escrevi, a propósito da eleição de Trump, um texto seminal onde a determinado passo se dizia assim: “Vai ser, então, um bom mandato? Acho que sim”.

Um amigo já morto, detentor com justiça da notoriedade que com a mesma justiça a mim me falta, e que tinha opinião oposta, disse-me: És capaz de ter razão!

Tinha. E passado pouco mais de um ano pude, com assinalável modéstia, lembrar aos incréus o bem fundado do meu palpite.

Em 2018 fiz o ponto: “Talvez fosse tempo de a direita lhe dar o benefício da dúvida”.

Não deu. Tudo o que Trump diz (e, infelizmente, o homem nunca aprendeu a pensar duas vezes antes de falar, em vez de fazer precisamente o oposto) é passado ao pente fino do hipercriticismo, enquanto as suas reais conquistas, no plano interno como no externo, são votadas a um silêncio desdenhoso e revelador. Isto enquanto a guerra suja do Partido Democrata, inconformado com a rejeição de um acquis que julga civilizacional, e é na realidade a versão americana do mesmo socialismo que todos os dias faz a UE um pouco mais irrelevante, vai atingindo píncaros de promiscuidade com o Poder Judicial, e destruindo a credibilidade de uma comunicação social que há muito, lá e cá, deixou de cultivar a independência opinativa e a seriedade noticiosa.

Fora destes textos, raramente abri a matraca, porque Trump não deixa: não se pode razoavelmente defender um tipo que vai todos os dias expectorar tolices para o café reles, manhoso e primário que o Twitter é. E de tanto gritar olhem para o que o homem faz, não para o que diz, corria o risco de ficar rouco.

A guerra verdadeira não é entre as grosserias de Trump e o palavreado delicodoce de Biden, uma versão medíocre do demagogo Obama; é entre uma América grande, que talvez esteja numa decadência que é o destino inelutável de todos os impérios, e que Trump quer retardar, e outra que se condena a suicidar-se na dissolvência do socialismo mole que matará a competitividade, a vitalidade e a superioridade da economia americana.

Biden, praticamente uma não-pessoa, escolheu como colega de ticket uma preta (afro-americana, como dizem lá pela mesma razão que, aqui, os arrumadores de carros passaram a chamar-se técnicos de parqueamento automóvel). E como não ando ao corrente das trincas e mincas da politiquice americana, aguardei que me dissessem quem é a personagem. É isto.

A manobra é transparente e bem vista: trata-se de garantir o voto dos negros e das mulheres. Kamala Harris não é lésbica, que se saiba, nem portadora de uma deficiência qualquer, senão fazia o pleno.

Não faltam vozes a defender o valor simbólico da eleição de uma mulher, por o ser; e preta pela mesma razão.

Esse valor simbólico existe, e é por existir que talvez tenha valido a pena a eleição de Obama: ao menos acabou-se com a generalizada convicção de o racismo histórico da América impedir a eleição de um preto. Mas não me parece que existam os mesmos obstáculos a mulheres – basta ver a votação de Hillary, um exemplo acabado do que de pior pode produzir a classe política americana. De modo que as feministas e os feministas (sim, não faltam por aí uns tipos que passam a vida a lisonjear os preconceitos e ambições de parte do mulherio, para o efeito de lhes agradar como se elas não tivessem inclinação para escolher os homens que não lhes convêm) o que têm a fazer é arranjar uma candidata convincente. E há: Nicky Haley, por exemplo, mas não é democrata, que maçada.

Que fique claro, por causa da brigada bem-pensante: se Thomas Sowell fosse novo, e gay, e candidato, e eu fosse americano, teria o meu voto; a tal Nicky Haley também, com a condição de a conhecer um pouco melhor; e ter um genro preto, e netas pretinhas, nem por um segundo me afligiria. De modo que quem quiser interpretar as minhas opiniões à luz do racismo pode bem, com licença, ir para a puta que o pariu.

O que sucede é que, lá como cá, a riqueza não se multiplica pelo efeito de se a dividir, a eficiência não aumenta pelo efeito de se a regulamentar, e um Estado forte não é a mesma coisa que um Estado grande. Escolher um chefe de Estado não é equivalente a escolher um namorado, um sogro, um amigo, um sócio, a pessoa com quem se gostaria de jantar ou aquela com quem se apreciaria discutir a obra de Elena Ferrante.

Se bem que, no caso do jantar, Trump talvez levasse vantagem sobre Marcelo. Ao menos, a ementa não seria vichyssoise e Trump alardearia a sua imensa e genuína ignorância, em vez do vasto manancial de superficialidades de Marcelo. Mas o meu post não é sobre esta importante diferença.

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Férias II

por José Meireles Graça, em 19.08.20

Ao chegar à praia, nem me sento. E, como há muitos anos, digo: vamos, minha senhora, que não estamos aqui para nos divertirmos.

A senhora em questão levanta-se e vamos os dois para a esquerda (salvo seja) até à ria de Alvor ou, para a direita, até à marina de Lagos.

No regresso, marcho directo para o restaurante, e dali para casa, onde há sombra e fresco e areias insidiosas não se enfiam por cavidades reservosas.

Um ponto prévio: tinha na ideia que a frase feita que uso era de um rei francês, talvez Francisco I, que a disse à noiva na noite de núpcias. Mas o Google, que já de tantas coisas que não queria saber me pôs ao corrente, não tem rasto, de modo que fico na dúvida se não terei sido eu próprio, numa outra encarnação, que a usei com uma princesa virgem, aterrorizada com a perspectiva de perder o que lhe ensinaram era um capital precioso.

Outro ponto: de frases feitas gosto muito, incluindo algumas de minha autoria, e tenho um rico catálogo para múltiplas situações. Nem aliás compreendo, e menos aceito, uma ou outra reacção irritada quando, pela milésima vez, emprego uma expressão que puí pelo uso, e consagrei pela minha adesão.

Na praia fica a multidão, e o gosto que faz em lá permanecer é um grande mistério. As crianças gostam do mar, das pocinhas, das construções na areia, dos gelados e das bolas de Berlim; os adolescentes de nadar, mergulhar, jogar a bola – alguns – e espiar as riquezas postas em evidência pela moda com o louvável propósito de assegurar a propagação da espécie. Agora, os adultos esparramados ao sol, ou encolhidos numa cadeira desconfortável a ler uma revista ou livro, estão ali a fazer o quê?

Trabalhar para o bronze é o que muitos dirão. Grande asneira: os dessorados povos do Norte ficam da cor do camarão da Quarteira; e nós outros, os que não sofrem de um lamentável défice de melanina, adquirimos um aspecto falsamente saudável, depois do cuidado prévio de untar dias a fio o corpo com unguentos repugnantes, de gente que trabalha ao ar livre, mas que desaparece um mês volvido. Por que raio gente cujo sonho é sentar-se diante de um computador, se fizer um trabalho braçal, ou num conselho de administração, se julgar que para isso tem conhecimentos (nos vários sentidos da palavra), pretende dar a impressão que anda a acarretar baldes de cimento nas obras, desafia a imaginação. Acresce que os povos que estão habituados a lidar com o sol, como os tuaregues, se embrulham prudentemente da cabeça aos pés, em parte porque não têm um SNS habilitado a lidar com cancros na pele.

Outros declararão que estão a descansar. Como? Descansar? Essa está muito boa: a revista vê-se num instante, e a seguir adormece-se; e o livro, que invariavelmente é um best-seller da moda, dá ao cabo de um capítulo um sono invencível. Dormir é muito bom, acordar com as pernas, ou a cabeça, a escaldar porque o sol já não está onde estava, e o raio do toldo é ainda mais exíguo do que o Orçamento para a cultura, segundo o que dele dizem os avençados do regime, nem por isso.

De resto, tirando as insolações e as esperas anormais em restaurantes, agora consideravelmente reduzidas, os únicos riscos que se correm, estatisticamente menosprezáveis, são ser picado por um peixe-aranha ou topar com o professor Marcelo, isto é, ver dois dias estragados ou uma semana.

Depois há os atletas que vão jogar qualquer coisa para a orla do mar, incomodando quem passeia; as caminhadas longas, chapinando ocasionalmente, não eram piores se as praias não tivessem a desagradável característica, que caminhos honestos não têm, de ser inclinadas; a água é fria no barlavento algarvio, salvo para quem precisar de uma cura de emagrecimento, boa no sotavento, onde não se aguenta o calor, e abominável na costa Oeste, onde não se aguenta nada.

Parte da culpa deste estado de coisas vem do séc. XIX, onde se inventou que os ares do mar e, pior, a própria imersão na água salgada, curavam uma série de maleitas, incluindo nas torturas banhos gelados, com os quais Ramalho Ortigão, por exemplo, massacrou a prole, à boleia das teorias de um médico francês com a cabeça cheia de teorias chanfradas, mas possivelmente não de caspa, cujo nome esqueci. Disso e do acesso das classes laboriosas ao direito às férias, que evidentemente tinham de ser as férias dos ricos, processo ainda em curso que o nosso Governo se tem afadigado a estancar pelo expediente de dar cabo da economia.

Já não verei as praias a ceder o passo a outros destinos para efeito de férias. E não estou certo do regresso das termas e dos seus rituais obsoletos, ainda que não se perceba por que razão a água salgada a entrar pelo nariz haja de ser melhor do que  a água doce, cheia de milagrosas propriedades, a entrar pela boca (ou até igualmente pelo nariz, se alguém ainda quiser ir a curas da rinite para Vizela e outros lugares atraentemente decadentes).

O bom das férias resulta, creio, do efeito conjugado de não trabalhar, mudar de ares e exibir o testemunho, a quem ficou a dar o corpo ao manifesto, de invejáveis experiências. Isso, uns pequenos segredos, consoante os destinos e as inclinações de cada qual, e o imenso suspiro de alívio no fim, como quando se tiram ao fim do dia os sapatos novos que magoavam os pés.

Para o ano cá estarei, provavelmente no mesmo sítio. Com a crise, é pouco provável que o celebrado poder local, que com pertinácia vem destruindo as cidades e aldeias costeiras com o propósito de requalificar, que é o verbo que os arquitectos usam quando querem entupir o horizonte com catedrais de mau gosto, tenha muitas oportunidades de engordar os cofres municipais com receitas oriundas de licenças de construção.

Férias

por José Meireles Graça, em 15.08.20

Já tive férias que começaram com melhores auspícios. Ontem, ao chegar perto da VCI, vindo de Guimarães, via-se a cauda da interminável fila em direcção à ponte do Freixo. Acontece cada vez mais, aquele acesso está à espera de uma obra que corrija o erro do previsível estrangulamento que a obra original provocou. Esperto como sou, resolvi ir pela Arrábida, razão pela qual andei no pára-arranca durante quase duas horas.

Ao chegar à Arrábida, percebi: estavam dois ou três operários a trabalhar na junta de dilatação da ponte, devidamente enfarpelados em amarelo, e quatro ou cinco fiscais, ou engenheiros, mais o carro da GNR e os respectivos agentes. A proporção usual, portanto nada a dizer.

Sucede que das três faixas estavam interrompidas duas. Aparentemente, não ocorreu nem ao dono da obra, nem ao responsável local, nem aos prestimosos agentes da ordem, que interromper desnecessariamente (porquê duas em três e não uma em três; porquê de dia e não de noite), em horas de grande circulação, um eixo viário daqueles, justificaria que, sem danos físicos permanentes (sou um defensor estrénuo da moderação  em matéria penal) o dono da obra, o responsável, os agentes da GNR – se não denunciaram o caso superiormente – fossem objecto de um mínimo de dez chibatadas.

Antes de chegar à VCI, na A3, há daqueles pórticos luminosos em que se prodigalizam conselhos inanes das autoridades sobre incêndios, a Covid, a velocidade e mais um par de botas, igualmente cambadas pelo uso e pela justificada indiferença das pessoas.

O que não havia era informação sobre um facto simples: a ponte da Arrábida estava em obras; pelo lado do Freixo havia um considerável atraso; há um percurso alternativo, para quem queira ir para Sul, que nasce da portagem da Maia e passa o Douro em Crestuma. Se os senhores condutores se quisessem poupar aumentos da tensão arterial, e reforço da sua justificada aversão aos poderes públicos, não tinham mais do que ir por aí.

Razões pelas quais, depois de madura consideração, e passado mais de um dia para efeito de arrefecimento de uma exaltada indignação, me vejo na contingência de alargar a penalidade sugerida de dez para quinze chibatadas, incluindo na justa sanção o treteiro que faz a gestão dos pórticos informativos e, já agora, o presidente da Câmara do Porto, como responsável máximo local, pelo menos naquela embrulhada indigna da VCI que fica pertíssimo do seu tão estimado Dragão.

O Airbus A380

por José Meireles Graça, em 12.08.20

Quando o poeta Costa Silva fez o seu inspirado Plano sobre a forma como o país deveria torrar 45 mil milhões em fantasias tentei, e desisti, ler a coisa até ao fim. Comentei a parte que li, e presumi que o resto era igualmente disparate.

Desde então, diversas sumidades se têm pronunciado sobre o ponderoso estudo, com o louvável propósito de o demolir. Mas, ó desgraça, sucedeu o que tinha antecipado: “Por outro lado, no catálogo de intenções e medidas o principal vício não é serem umas e não outras – para esse peditório não faltam iluminados com visões, que decerto aparecerão quando estas ingentes matérias aparecerem sob a forma de iniciativas legislativas e decisões políticas, sobre as quais se vai debruçar o olho opinativo dos reformadores nacionais, que são legião”.

Ainda o arame cá não chegou e já gente de representação tem planos alternativos, isto é, não rejeita nem os apoios públicos selectivos de agentes económicos, nem a ideia de financiar investimentos privados com dinheiro dado, nem a previsão de evoluções e circunstâncias – apenas acha que espatifar incontáveis milhões no cenário a) é uma grande burrice, que todavia se transmuta em brilhante clarividência no cenário b).

A generalidade dos comentadores pega em dois ou três pontos, não no Plano completo, visto que este diz respeito a tudo e o seu contrário (com excepção de assuntos relativos a sexo, que estão dolorosamente omissos). Esta prudência justifica-se: fazer um Plano alternativo obrigaria a uma sólida formação em economia vudu e enciclopedismo.

Este André Vilares Morgado, engenheiro do progresso, “convoca”, dos dez eixos estratégicos apresentados no documento, “o quinto, em que o seu autor advoga que a reindustrialização do país deve assentar em empresas digitalmente integradas, isto é, ‘que casam o mundo físico e digital”. (A frase é de belo efeito e deve por certo querer dizer qualquer coisa).

Começa por concordar com a ideia da reindustrialização, esquissando as razões pelas quais a desindustrialização teve lugar, sem gastar sequer um parágrafo a explicar convincentemente por que razão esta última, continuando presentes as suas causas, verá o seu processo revertido por um conjunto de decisões administrativas. Devemos acreditar que o conjunto destas é necessário e suficiente. Mas não é, nem uma coisa nem outra, como se verá.

Que decisões administrativas portentosas são essas? São: i) A criação do Banco de Fomento; ii) A formação de empresários e dirigentes; iii) A criação de mecanismos que contribuam para contrariarem a tendência para a recusa da “partilha de ideias e na inovação”. “Em Portugal temos dificuldade em trabalhar uns com os outros, associarmo-nos, juntar forças e criar sinergias. Preferimos competir do que cooperar”, diz o preclaro e eu confirmo pela minha experiência, é tudo uma cambada de egoístas; iv) A criação de valor. Os empresários produzem sucata com pouco valor acrescentado, e isso não pode ser. Do que eles precisam é “de produtos que integrem mais complexidade e sofisticação… devendo, para esse efeito, apostar no design e recorrer a novos materiais e tecnologia”. Precisam disto mas sem esquecer que “não vão poder deixar de olhar para outras tecnologias que hoje ainda são vistas como emergentes — como, por exemplo, a nanotecnologia, realidade aumentada, machine learning e blockchain —, mas que, em breve, terão uma palavra a dizer sobre o desenho dos processos produtivos e a geração de novos modelos de negócio”. (O autor não informa, neste ponto, se os empresários não necessitarão igualmente de um aumento do consumo de benzodiazepinas, por causa da ansiedade, e de fósforo, para reforço da elasticidade das meninges); v) A captura de valor. Digamo-lo rudemente: os empresários são uns totós. Mas, felizmente, para combater essa alegada totozice basta a “implementação de processos de marketing robustos”.

Toma, Costa Silva, que já almoçaste, pelo menos num eixo. E os outros nove vão igualmente levar grandes sovas, que do que não há falta é de académicos que sabem perfeitamente como se torram dezenas de milhares de milhões de euros para fazer o país novo que os seus colegas anteriormente estuporaram, quando se dê o caso de, por serem novinhos, não terem sido eles mesmos a colaborar em tão patriótica tarefa.

Sucede que, por partes:

Já existe um banco público que financia investimentos, a Caixa Geral de Depósitos, e convinha portanto explicar em que é que um novo será diferente da Caixa, salvo pelo facto de ter uma outra administração, outros funcionários e outras instalações. A Caixa tem um passado de fomento de investimentos e de calotes, mas nada, absolutamente nada, na sua administração actual, apresenta contra-indicações específicas para um respeitável esbanjamento de fundos públicos. Nem a Caixa nem, já agora, os bancos privados, com excepção talvez do Novo Banco, a respeito do qual ainda ninguém percebeu se faz negócios ruinosos para engordar plutocratas e vigaristas ou se os negócios são normais, os valores do balanço original é que não. Donde, a criação de um banco de Fomento só parece uma boa ideia para quem dele directa ou indirectamente espere beneficiar.

Todos os anos, e de há muito, as faculdades de Economia e Gestão despejam no mercado de trabalho dezenas de economistas e gestores qualificadíssimos que se veem aflitos para encontrar emprego na função pública, em bancos, seguradoras e grandes empresas. Nas pequenas e médias nem por isso porque, lá está, os empresários que há, uma classe notavelmente vesga, não os querem por aí além. De modo que a alegada necessidade de formação dos empresários é uma resposta estúpida a uma pergunta errada. A pergunta certa é por que razão são tão poucas as pessoas com boa formação que fazem empresas. Dito de outro modo, pretende-se que quem não consegue criar emprego para si mesmo vá dar aulas a quem não quer empregar os que lhe querem dar aulas. Isto em doutorais cabeças faz todo o sentido. Na minha nem por isso. Talvez não fosse má ideia perguntar a uns quantos milhares de licenciados que já trabalhem há alguns anos: Tentou fazer uma empresa? Se não, porquê? Se sim, porque não conseguiu? Não é impossível que com as respostas, em particular à segunda pergunta, se aprendesse alguma coisa.

A “partilha de ideias e inovação”, e a preferência pela competição em vez da cooperação, que outros têm e nós não, é uma ideia comovente. Um espírito cínico como o meu, porém, atreve-se a duvidar de que seja realmente assim e presume prospectivamente que as pessoas cooperam se houver vantagens recíprocas evidentes, aqui e em toda a parte. E como essas vantagens têm provavelmente componentes fiscais que não estão presentes, e obstáculos que estão, a resposta deve encontrar-se não numa diferença cultural (que aliás, se existisse, não seria ultrapassável por diktats de gurus) mas em circunstâncias objectivas – que o autor não identifica.

O design, a tecnologia, a complexidade, a sofisticação e mais um par de botas surgem numa economia vibrante onde o capital exista em abundância, a respectiva remuneração também (em vez de um Fisco inimputável, predatório e sôfrego), o capital de risco idem para projectos avançados, o Estado e a sua miríade de agências funcione, incluindo os tribunais, haja abundância de empreendedores ambiciosos, de falhados que voltam a tentar, de sonhadores, de trabalhadores qualificados disponíveis, e um longo etc. Em suma, onde a economia cresça com naturalidade porque há condições para crescer, não porque uma mão-cheia de políticos, funcionários e académicos iluminados sem skin in the game decide quem investe o quê, quando e aonde.

Melhor fora que estas boas cabeças estudassem que condições objectivas criar para ajudar as empresas a nascer e crescer sem decisões casuísticas de poderes públicos; para que o Estado, em vez de estar por trás, saia da frente; como reformá-lo para o tornar mais leve, em todos os sentidos, não porque seja demasiado pesado em comparação com muitas economias mais avançadas mas porque essas economias não são avançadas por terem Estados pesados, mas sim porque podem – corpos musculados aguentam sem esforço mochilas mais pesadas. E, finalmente, explicassem porque se acredita que, suportando o mesmo peso, mas com corpos mais débeis e estradas piores, vamos correr mais do que os outros.

Enfim, mais uns retoques no Plano Costa Silva. Outros virão, com outras visões, outros sectores que é preciso promover, outras medidas que é indispensável tomar, outros aspectos que é preciso ter em conta, cada um segundo as suas crenças e as suas manias. De liberdade económica nicles, de reforma do Estado e fiscal zero, de liberdade de contratar e despedir nem mo-lo digas, nem, nem, nem.

Chamei ao post anterior sobre este assunto O Aero-Plano. Nome infeliz, creio bem que com todas as versões de planeamento vamos precisar de um Airbus A380. Senão de um paquete.

Vilar Joli

por José Meireles Graça, em 05.08.20

Estamos na estação tola, mas não se nota muito porque a comunicação social tem vindo a ficar tola todo o ano, de modo que as diferenças são cada vez menos evidentes.

As notícias consistem na evolução da Covid, que nunca é positiva, nos desmandos de Trump, que num dia são ridículos e noutro perigosos, na última grosseria de Bolsonaro, em mais um caso de violência doméstica, e nuns quantos detidos porque beberam ou desobedeceram. Isto e pouco mais, salvo, a benefício das férias, alguns artigos enlatados, de refugo, sobre cuidados a ter com o sol, a alimentação, as viagens e os melhores remédios caseiros para fungos nos pés.

Onde foram, e o que fazer, os membros da Situação que felizmente nos rege, isso é que nunca se pode perder, férias ou não. E ficamos assim a saber que Costa está no Algarve, onde foi fotografado a comer uma bola de Berlim, presume-se que no intervalo de brincar nas pocinhas; e Marcelo foi para uma das praias da linha, onde um instantâneo o capturou num momento raro em que estava calado. Não ponho aqui as imagens daqueles passos íntimos para não dar má nota ao blogue.

Mas ficaram as segundas figuras, das quais há dúzias. E destas três exemplares foram a Vilar Formoso (o querido Vilar Joli dos emigrantes) prodigalizar conselhos aos nossos compatriotas que vêm de férias.

Isto é fantástico.

Todos os dias o mais alto magistrado da Nação se alivia de  opiniões, invariavelmente optimistas se o assunto for o futuro, de fingida severidade  se se tratar de pedir responsabilidades a alguma autoridade por alguma coisa, hiperbólicas se estiver a honrar um falecido, e irremediavelmente vulgares sempre porque aquele bestunto nunca albergou um pensamento original que não fosse uma rodilhice, uma ideia sobre política internacional que não fosse uma banalidade, e um raciocínio sobre soluções para os nossos problemas que não fosse tributário do mais consensual e chão que se pode encontrar na nossa opinião, quase sempre social-democrata ou socialista por tradição e interesse, ignorante por falta de leituras, e estúpida por fatalidade.

Todos os dias responsáveis da Saúde atordoam quem ainda os consegue ver com a desnorteada histeria covidiana. E a legislação sobre o que se pode e não pode fazer, mais as instruções avulsas de autoridades públicas menores, incluindo a abominável figura dos autarcas, que os próprios e os munícipes ingénuos imaginam depositários das maiores virtudes na gestão da coisa pública, ocupa já mais espaço que as Ordenações Filipinas. No processo vários direitos e liberdades constitucionais foram já pontapeados, as polícias dão aqui e ali sinais de abusos sortidos, e de modo geral o cidadão é incentivado a usar a sua liberdade para pensar e fazer a mesma coisa que o vizinho, que pensa e faz o que as autoridades estimam indispensável para continuarem a sentar o rabo à mesa do Orçamento, que é no que consiste o progresso da grei tal como o entendem.

Já hoje é tido como normal que entidades como a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil enviem mensagens para o telemóvel de cidadãos indefesos com conselhos inanes sobre o risco de incêndios, embrulhados em ameaças sobre o último diktat administrativo; e sei por experiência que, exigindo a supressão do número, vêm com a cantilena de ele não figurar em nenhuma base de dados, respeitando portanto a legislação. E todos os dias, a pretexto dos incêndios, ou da chuva, ou do vento, ou do frio, ou do calor, têm a sua cor de alerta, por distritos, e a sua lista de recomendações, que um esquadrão anónimo de burocratas diligentemente nos enfia pelos olhos, ou os ouvidos, para justificar os lugares miseráveis que a sua inutilidade ocupa.

Pois bem: os emigrantes fugiram deste local infecto para irem para mais verdes pastagens. E regressam nas férias aos lúgubres lugares de onde partiram, para tomarem um banho do passado em que eram mais novos, e se certificarem do muito que progrediram, por vezes esfregando ruidosamente esse progresso na focinheira invejosa de familiares, amigos e desconhecidos.

São uma chatice dos meses de Verão, fazendo subir os preços, entupindo supermercados e romarias, e pontilhando as estradas com os seus automóveis recentes, que por vezes conduzem de forma amadorística. Ou pelo menos era assim. Que agora emigra cada vez mais caco e menos músculo, e está longe de certo que a ambição dos novos emigrantes seja regressar, sobretudo quando do país só ouvem dizer que não cresce, não há empregos, e os que há são mal pagos.

Chatice é como quem diz. Que na realidade toda a gente sabe que trazem dinheiro e, melhor ainda, mandam-no. Pessoalmente, tenho por eles uma estima toda abstracta, porque em concreto quero distância, mas tenho a desculpa de também a querer da generalidade das pessoas. Quem lhes rói na pele é que não tem desculpa nenhuma porque o país precisa deles, mas eles não precisam de Portugal, como demonstram onze meses por ano.

Daí que os representantes do Poder que os expulsou (que ao fim de quase 50 anos do regime uma parte da juventude tenha de emigrar é a prova, se fosse precisa, de que o país é mal governado) devessem ter a delicadeza, e a vergonha elementar, de não aparecer na fronteira para lhes dar conselhos “sobre cuidados a ter para evitar incêndios, acidentes rodoviários e contágio por covid-19”.

Não consta que nos países de onde vêm haja mais acidentes rodoviários, generalizada ignorância sobre a Covid, e gestão desastrada das florestas. E é até provável que os pobres diabos que abriram as janelas dos automóveis para “dialogar” com um dos governantes tenham ficado lisonjeados.

O que compõe um quadro doloroso: a Patrícia, a Berta e o João, os três ajudantes de ministro que foram à fronteira desempenhar este papel grotesco, bem poderiam, se tivessem a mais remota consciência da sua verdadeira importância e da responsabilidade do aparelho a que pertencem, fechar a matraca e apenas segurar um cartaz onde estivesse escrito: Perdoem-nos.

Retrato

por José Meireles Graça, em 27.07.20

Ando a coligir elementos para pintar um retrato do português médio. Exclui comunistas porque não quero uma coisa demasiado soturna; e bloquistas típicos porque não pretendo perder tempo com jovens parvalhões, mesmo que sejam velhos.

Das pesquisas que tenho feito já conclui que o tal português acha que: Marcelo leu livros em barda, é muito inteligente, muito dado com a gente do povo, pessoa muito simples e grande amigo de banhos de mar, tanto que até muda de calções, por causa das assaduras, sem se esconder, o que irrita muito os fachos; Costa é muito bem disposto, governa com grande habilidade e nunca se esquece dos pobres; Rio é menos hábil do que Costa, mas muito sério, embora dos pobres se lembre raramente; os outros andam lá e está muito bem porque Portugal é uma democracia. Mas não precisavam de ser pr’aí trezentos, 20 ou 30 chegavam perfeitamente, se a Europa achasse bem; nesses outros há um tal André que lhes diz as verdades nas ventas, mas é do Benfica; os portugueses são muito bons, basta ver o que fez Amália cá dentro, e Mourinho e Jesus lá fora, os patrões é que não prestam; Cristina Ferreira, se fosse americana, metia aquela preta Oprah ou lá o que é num chinelo.

Com este material e dadas as minhas qualidades, que peço licença para referir, de analista social, já estava habilitado para fazer um post jeitoso, logo que aprofundasse um ou outro ponto junto de dois filósofos populares que conheço, de Freamunde.

Porém, hoje, de regresso do Porto, dei-me conta de que há cada vez mais carros de todas as idades, incluindo chaços com mais de uma dúzia de anos, com as novas matrículas.

Sucede que entre cada letra ou número deve haver um espaço de um centímetro, mas entre cada grupo de duas letras ou números a distância deve ser de dois centímetros. Ora, com as pressas de fingir que tem um carro recente, muita gente colocou matrículas que não respeitam estas regras, e os centros de inspecção periódica obrigatória, e a GNR, estão atentos e vão ser implacáveis.

A diferença para as matrículas anteriores é que desapareceu a data do registo do carro, que figurava do lado direito, com fundo amarelo porque o burocrata que a pariu gostava de cores berrantes, e desapareceram os pontos que separavam os grupos de duas letras ou números. Mantém-se a bandeira de uma potência estrangeira, com a indicação da região onde o automóvel foi registado.

Isto a mim parece-me um fenómeno prenhe de implicações sobre a prepotência das autoridades, a ingenuidade dos eleitores, perdão, dos condutores, o desamor ao que serve em benefício do que é moderno, a vaidade azeiteira do cidadão motorizado, e a triste sociedade em que as pessoas não são o que são, mas o que parecem ter.

Coisas de grande profundidade, que carecem de reflexão. De modo que o retrato fica para outra maré.

Pensamento da semana

por José Meireles Graça, em 26.07.20

O país não aguenta um novo período de confinamento por causa da Covid-19, disse Costa num discurso no Pavilhão do Conhecimento, e disse bem. Mas o país, aguenta um novo período de Costa?

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

O Aero-Plano

por José Meireles Graça, em 23.07.20

Tinha decidido que iria ler pacientemente o Plano Costa Silva e comentá-lo, atento às necessidades de incontáveis milhares de cidadãos ansiosos que precisam conhecer a minha opinião para formar a deles. Porém, comecei e desisti a meio, aterrado: é um documento inacreditavelmente extenso, indigesto, repleto de certezas sobre geopolítica e economia contemporâneas que relevam ou de ignorância ou inconsciência, a par de uma impressionante falta de humildade, e prenhe de raciocínios voluntaristas repassados de uma grande dose de fé, que é apresentada quase como ciência. Comentar capítulo a capítulo daria um intragável post, mesmo que descartasse a palha, que é muita, e deixasse de lado aspectos menores. Poderia omitir também observações quando, no desparrame de investimentos públicos, concordasse, como é por exemplo o caso da ligação ao resto da Europa por caminho de ferro, para transporte de mercadorias. Mas mesmo assim: não poderia despachar loucuras como os investimentos faraónicos no hidrogénio ou no novo aeroporto de Lisboa. Em suma, Costa Silva é um chato topa-a-tudo, nem sequer merece que se cansem excessivamente as meninges a demolir o seu pedante exercício.

Por outro lado, no catálogo de intenções e medidas o principal vício não é serem umas e não outras – para esse peditório não faltam iluminados com visões, que decerto aparecerão quando estas ingentes matérias aparecerem sob a forma de iniciativas legislativas e decisões políticas, sobre as quais se vai debruçar o olho opinativo dos reformadores nacionais, que são legião.

O que segue é portanto uma apreciação genérica.

Maria de Lurdes Pintasilgo, justamente esquecida, foi primeira-ministra durante seis meses, em 1979, a convite de Ramalho Eanes, impressionado com a sua competência técnica (era engenheira química, como frau Merkel), a sua carreira profissional no sector privado (trabalhou na CUF), o seu percurso público (procuradora à Câmara Corporativa, secretária de Estado, ocupou vários cargos nacionais e internacionais em organizações do catolicismo militante, hoje decadente, e da promoção do mulherio, hoje florescente) e o seu palavreado: falava diluvianamente sobre o país, ao qual sabia perfeitamente o que convinha, e a palavra-chave do seu discurso era invariavelmente o plano. Para tudo faltavam planos, para tudo era necessário fazer planos, e não havia problema que um plano bem feito não resolvesse. Paz à sua alma, morreu em 2004.

O futuro viria a confirmar a sua visão: desde a adesão à CEE em 1985 planos é o que não tem faltado, e distinguem-se uns dos outros porque os mais recentes destinam-se a corrigir os vícios e os efeitos perversos dos anteriores, além da actualização do pensamento económico em obediência às últimas modas e aos mais recentes falhanços, tendo em comum o destinarem-se a distribuir o bodo europeu e a aproximarem Portugal dos países mais desenvolvidos da UE.

Os planos sempre andaram de par com os estudos e os relatórios. E destes o mais famoso foi o de Porter (encomendado a peso de ouro pelo ministro da Indústria de Cavaco, Mira Amaral), hoje esquecido porque se veio a concluir que o guru era na realidade um treteiro albardado de prestigiados diplomas. Nada que tivesse impedido uma geração de economistas, gestores e marqueteiros de serem obrigados a empinar-lhe as teorias.

Bem bem, Portugal tem a maior dívida pública da sua história, e a privada está igualmente na tropopausa; não tem praticamente bancos privados, que são quase todos estrangeiros, nem grandes empresas, salvo no sector da distribuição de secos e molhados e alguns serviços; não tem capitalistas e os ricos são aqueles que tenham um rendimento bruto mensal acima de seis mil e tal euros, a partir do que o Estado pressurosamente pilha quase 50%, só a título de IRS; não cresce nada que se veja há 20 anos e o seu rendimento por cabeça desliza para o último lugar da tabela, numa União que não cessa de perder importância no mundo; não fosse a ligação permanente à máquina do BCE e os juros da dívida monstruosa sufocariam o país; e a Autoridade Tributária tornou-se na Santa Inquisição, completa com inversões do ónus da prova, acusações ininteligíveis e familiares inimputáveis, depositários da sagrada missão de perseguir os evasores.

De modo que podemos achar que sem planos ainda era pior, que com os planos temos sido vítimas de um grande azar, ou que os 130.000 milhões que a CEE e a UE já para cá expediram, a fundo perdido, foram uma gota de água: não temos um SNS público exemplar, inveja de nações pouco esclarecidas? E não fornecemos dentistas e enfermeiros ao Reino Unido, e arquitectos ao Dubai, fruto da aposta na educação? Pois então a Europa da solidariedade, em vez de revoltantes contas de merceeiro, deveria era alargar os cordões à bolsa para sustentar este aluno dilecto.

Vem agora aí uma abada de milhões, uma parte a fundo perdido, e outra a título de empréstimos, à boleia da crise que a Covid provocou (na realidade não foi a Covid mas a forma como os Estados danificaram as economias para lidar com ela, mas não vamos estar com peguilhices). Soube-se disto um dia antes de Costa Silva, o miraculado escolhido pelo PM para o ajudar a fazer sombra a D. João II, apresentar o Plano, e paira no país uma onda de optimismo e satisfação, que pudicamente a comunicação social não tem querido estragar com a informação de que os 750 mil milhões (para nós 45, se faz favor) serão a prazo cobertos com novos impostos.

Pois bem. Na altura em que parei de ler porque ninguém me paga nem tenho pecados sérios a expiar, estava impressionado com

O Paleio

Costa Silva não sabe bem se há de escrever em economês ou em engenheirês, dois dialectos destinados a obscurecer o que é simples e a levar as pessoas a pensar que os autores são depositários de competências profundas. “Este Plano parte de dois quadros conceptuais que se interligam, e da sua análise estratégica resultam os pilares estruturantes do programa de recuperação”, diz logo na Introdução, e o leitor intrépido que se aventure no resto do texto para tentar perceber o que raio quer isto dizer vai tropeçar em visões, pilares, paradigmas, clusters, apostas, dinâmicas e

Vagueza de conceitos

A primeira vez que ouvi falar em economia circular julguei que se estavam a referir a carrosséis, mas desconfiei. Com razão: parece que por economia circular se entende o que Salazar condensou no bordão “guarda o que não te faz falta, encontrarás o que te é preciso”, o povo no provérbio “no poupar é que está o ganho”, e a ciência na proposição, adaptada, nada se perde, tudo se cria, tudo se transforma. Na prática, é uma cedência à histeria ambientalista das Gretas deste mundo, e mesmo que haja futuro, como há, na satisfação da procura de tretas verdes, é esse um filão a explorar por genuínos empreendedores, que o mercado recompensará ou não. O Estado metido no processo garante corrupção e torra de recursos em projectos inviáveis. Costa não sabe isto? Não, não sabe, e por via das dúvidas fala de economia circular mas não a define, como aliás não define quase nada: estas coisas são para cognoscenti, tanto pior se quem paga no final, que é o contribuinte, entender tanto deste plano como entendeu dos anteriores. A economia digital, outro conceito, releva da mesma abordagem ingénua: partindo da constatação de que as ciências de computação têm cada vez mais importância – e têm – há que aprofundar a tendência e ajudar quem esteja ou queira estar no ramo, e financiar todo o cão e gato que conte um filme empreendedorístico que se abrigue sob a epígrafe “digital”, sem curar de saber se o tal futuro incógnito vai recompensar a aposta. Se vai, os fundos de pouco serviram; se não, foram espatifados; e se sim ou não o especialista, que é Nosso Senhor, não é consultor do engenheiro Silva, a menos que este, à condição de ingénuo, acrescente a de chanfrado. Quer dizer que, entre outras coisas, a este Plano falta

Realismo

Querer prever o futuro é um velho sonho da humanidade, e actual dos profissionais do progresso programado, que vicejam nas faculdades de Economia por definição, nas de outros departamentos porque é o que está a dar, e nas redacções porque adivinhar o futuro, e mais ainda moldá-lo, vende. E quanto mais surpreendente e agradável ou ameaçador ele seja apresentado, e mais prestigiada a universidade, e mais convincente o raciocínio, melhor. Pessoas ingénuas julgam que a profissão de arúspice se extinguiu. Que nada, mudou foi de nome e de métodos: enquanto dantes se examinavam as entranhas de animais imolados, ou o voo de aves, agora pintam-se cenários e apresentam-se gráficos que, com o rigor da matemática e a flexibilidade do Excel, dissipam todas as dúvidas.

Sucede que as economias foram e ainda estão, em parte, paralisadas pelos Estados e o medo dos cidadãos. Isto criou quebras e danos, enfraqueceu os mais fortes, matou alguns dos mais fracos, e pode ainda liquidar muitos mais, pelo que se gerou um consenso: é preciso ajudar com moratórias quem possa ser ajudado, suspender obrigações que não é possível cumprir, e amparar o sistema financeiro, que irriga os outros. Isto foi feito de forma canhestra e com grande diferença entre a realidade e a imagem que dela dá a comunicação social enfeudada ao socialismo doméstico, que é quase toda; mas foi feito. Infelizmente, como a UE viu aqui (mal, disso não curo agora) uma oportunidade para se afirmar, adoptou um Plano Marshall, não tanto para restaurar a destruição física que quase não houve mas para reorientar a economia para o regresso a um crescimento sustentado, com respeito pelo ambiente, a igualdade, as tecnologias do futuro e mais um par de botas. Ou seja, em vez de cada Estado se ir endividar ao mercado para fazer o que melhor entendesse, foi a UE, com implicações para a fiscalidade futura, reforço dos poderes das burocracias, acentuação do dirigismo estatal bruxelense  e do directório informal dos grandes países, que os pequenos frugais, quer-se acreditar, vão engolir indefinidamente. Os europeístas, que são quase todos os portugueses, rejubilam: vamos ter a fiscalidade da Estónia, a eficiência alemã, a criatividade italiana e o rendimento dos luxemburgueses, enquanto todos estes infelizes europeus vão finalmente adoptar a culinária portuguesa. Sim, e eu vou para novo, e não rejeito a probabilidade de vir a ter uma amante finlandesa – loura, escultural, de olhos azuis, poliglota, CEO de uma multinacional e com uma incontrolável paixão pelo je.

O futuro não pode ser previsto, e o facto de haver sempre quem, nisto ou naquilo, o adivinhe, não invalida a afirmação: há tanto palpite diferente sobre o como vai ser que alguém acerta; mas isto não faz com que a construção de cenários onde se projectam as tendências do presente seja o pano de fundo adequado para enterrar milhões, muito menos quando são decisores públicos que fazem as escolhas, seleccionando os vencedores antecipados, decidindo o que tem e o que não tem pernas para andar, substituindo-se ao mercado e a milhões de decisões e iniciativas individuais, e fazendo tábua rasa da nossa tradição de corrupção, tráfico de influências, prodigiosa estupidez e ineficácia de agências governamentais, ausência calamitosa de liberalismo económico na Academia, e portanto na magistratura de opinião económica, o que tudo compõe um quadro que recomendaria prudência – precisamente o oposto do que Silva propugna, que é o aventureirismo.

De modo que a petulância que estas extraordinárias personagens exibem, ao entender que eles vão acertar onde todos os seus antecessores falharam, releva desde logo de um soberano desprezo pela experiência: acaso todos os políticos, todos os teóricos e práticos da gestão pública, todos os economistas que já elaboraram planos e os aplicaram, eram uma récua de imbecis, ignorantes ou desonestos? Porque lá falhar, falharam: nenhum plano foi jamais avaliado pelo confronto entre os seus resultados e os seus propósitos, nenhuma decisão verdadeiramente escrutinada, e nenhuma mea-culpa assumida. E todavia o país faliu três vezes em quarenta anos, precisa do apoio relutante dos frugais para mais esta crise, e acredita, como já acreditou doutras, que desta é que vai ser. Não, não há falta, ao contrário do que se acredita nas redes sociais, de gente séria e com sérias credenciais académicas. E, tirando da equação o fenómeno da corrupção, que não tem as costas tão largas que nelas se possa dependurar toda a explicação dos falhanços, alguma coisa em comum tem todo este intervencionismo estatal que teimosamente produz mediocridade.

A meu ver – mas eu não sou obrigado a ver nada porque não sou autor de plano nenhum – do que precisamos não é que o Estado faça o país que Estado nenhum jamais fez modernamente em sítio algum. Porque quem faz não é o Estado, ele apenas cria condições para que se possa fazer. E essas condições implicam liberdade económica, fiscalidade comedida, desamor à igualdade material entre os cidadãos (não há corrente eléctrica sem voltagem, isto é, diferença de tensão, e do mesmo modo não há crescimento significativo sem lisonjear e gratificar a ambição e a vaidade de quem quer arriscar), e limitação de despesas públicas, isto é, eliminação de serviços redundantes, análise permanente de custo/benefício dos necessários, abandono da confusão entre prestação de cuidados públicos, de saúde ou educação por exemplo, e propriedade pública. Tudo isto e um longo etc., que não precisa de conter nenhuma novidade.

Dito de outro modo: do que precisamos, e não temos, é de quem saiba interpretar correctamente o passado, não de quem julgue que sabe ler o futuro; não de quem queira mostrar o caminho, mas sair da frente; e não de quem queira copiar os estados sociais, e as soluções, de quem vive melhor do que nós mas há muito  deixou de crescer percentualmente muito mais, indo buscar inspiração, e aprendendo, com aqueles países que já foram relativamente atrasados e no passado e no presente ganharam lugares na ladeira do desenvolvimento.

Um dia na piscina

por José Meireles Graça, em 17.07.20

Na selecta piscina pública junto ao mar, chegara a hora do almoço e a família Alves, que viera no Fiat 1100 familiar, e nós no autocarro de dois andares, escolheu um canto no areal estreito, à sombra do balneário, para almoçar.

Surdiram lancheiras e sacos de plástico. O meu, modesto, tinha duas sandes de mortadela e uma garrafa de água. Mas antecipava com gosto a abundância de bolinhos de bacalhau, rissóis, carnes sortidas, sumóis, frutas – a mãe Celeste, planturosamente fornida de carnes e de seio farto, tinha justa fama de ser uma cozinheira de mão cheia e, tirando o meu amigo Carlos, o filho mais velho, em que se notava uma magreza toda intelectual, os irmãos exibiam na redondez das formas a abundância do passadio na casa familiar, à Constituição.

Nós, os amigos, sentámo-nos em volta, o mais próximo possível da Clara, amiga da filha mais velha e vamp do grupo – loura, seios ainda incompletos,  prometendo com negaças e joguinhos álacres de sedução o que ainda, que se soubesse, não dera a ninguém; e a Filipa, sempre alegre, já mulher nas formas e amiga de todos no seu desprendimento amável, circulava por ali, adjuvante da mãe na condução dos trabalhos de mastigação.

Íamos ali passar dias com frequência, mas os pais só ao fim de semana; e o engenheiro Alves, que trabalhava num banco, não era pessoa de frescuras, de modo que o ambiente era bem mais composto do que o habitual.

Jesualdo era a mais recente aquisição, e tão chato que lhe chamávamos o “Cola” – impossível não estragar namoros desajeitados, ou brincadeiras pouco inocentes, o Cola não despegava e fazia de um tudo para agradar.

ꟷ Ó senhor engenheiro, esta sandes de carne está uma delícia.

ꟷ Come, rapaz, que te saiba bem.

ꟷ A seguir, senhor engenheiro, vou provar os rissóis. Parece que os rissóis da D. Celeste são de se lhe tirar o chapéu. O senhor engenheiro prefere os de carne ou de camarão?

ꟷ São ambos bons, rapaz, prova os dois.

ꟷ Ó senhor engenheiro, eu agora bebia uma aguazinha, mas uma cerveja também não ia mal. Mas se calhar não é o melhor, por causa do banho. Acho que vou ficar pela água.

ꟷ Ó rapaz, come e bebe o que te apeteça e puta que te pariu.

Não compreendem

por José Meireles Graça, em 15.07.20

A Câmara Municipal de Lisboa é um lugar mágico: Foi ali que, numa manhã gloriosa de Outubro de 1910, José Relvas proclamou a República a meia dúzia de basbaques, feliz iniciativa que o telégrafo se encarregou de comunicar ao resto do país.

O novo regime veio garantir que o Poder Moderador não mais seria exercido por quem derivasse a sua legitimidade de ser filho de seus pais, mas antes por uma litania de filhos da mãe, e que a bandeira do país “modesta e grave, como convém a quem viu tanto perigo e tanto mar”, seria substituída por uma pletora de símbolos e cores inspiradas nas bandeiras de países africanos ainda por nascer.

O lugar de presidente da Câmara do, na opinião dos locais, concelho mais importante do país, viria a ser do maior relevo. E, em nossas vidas, vimos dali sair para a presidência da República vultos como Sampaio, autor dos mais entediantes e esquecíveis discursos que a banalidade militante já produziu, ou para a presidência do Conselho de Ministros Santana Lopes, um conhecido apreciador de peças musicais que nem os respectivos autores reconheceriam, e António Costa, uma desgraça palavrosa e vácua que detém a suprema habilidade de convencer os magistrados da opinião de que nutre para o país outra ideia que não seja a sobrevivência do vasto exército de clientes que sentou à mesa do Orçamento.

Pois bem: quem hoje ostenta o colar de mayor é um tal Medina, que se distinguiu por beijar o chão que o seu antecessor pisava com as nédias patas e que, de um início tímido feito de discursatas de circunstância, desabrochou num atrevido político de mão cheia ao qual se augura um risonho futuro, na hipótese de no país haver condições para continuar a progredir o retrocesso.

Pois este portento teve a ideia (não me foi possível até ao momento apurar se original ou copiada de outras paragens progressistas) de pintar de cores garridas o piso de certas ruas lisboetas. Entrevistados pelas televisões, os locais dizem coisas, como é costume os locais dizerem, um achando que o azul era adequado à próxima vitória do FCP e outro que discordava daquele tom de verde; e nas redes sociais instalou-se a polémica. Há quem lembre que aquelas tintas vão poluir (com o atrito do trânsito a pintura vai à vida e as partículas alojam-se algures, esperando-se todavia que não nos pulmões dos senhores edis), que a manutenção vai custar uma pipa de nota, que isto beneficia o comércio ou que pelo contrário o prejudica, que a ideia é muito bonita ou horrível.

Neste artigo explica-se vagamente o que vai na cabeça destas luminárias municipais e percebe-se que as horrendas pinturezas fazem parte de um quadro mental que inclui ciclovias, proibições de trânsito automóvel, diminuição de lugares de estacionamento, promoção de uma vida saudável e “mudanças de comportamento a longo prazo”.

“A ideia da cor é só para delimitar o espaço, marcá-lo para que as pessoas saibam que, agora, podem andar no meio da rua. Sem constrangimentos. O alcatrão não proporciona essa segurança. Além disso, a tinta é autonivelante, o que facilita a estadia em esplanadas’, explica o gabinete do vereador Miguel Gaspar”.

(Fui ver, por curiosidade, quem era este Gaspar, confiante em que se tratava de um dos dementes do Bloco. Não, é oriundo das mesmas coudelarias do Presidente).

Que pensar?

A discussão é surpreendentemente mansa. Quarenta anos de socialismos sortidos tiveram este resultado: É possível uma manifestação para “lutar” pelos direitos da comunidade LBGT (o “T” é de turbo, salvo erro), ou dos pretos, ou dos palestinos, ou dos imigrantes, ou dos cães e gatos abandonados, ou dos brasileiros que Bolsonaro oprime, ou dos brancos que oprime Trump. E, não há muito tempo, dos reformados, dos desempregados, dos empregados explorados, das vítimas da austeridade e de todo o cidadão que odiasse Passos. Manifestações de ofendidos pela prepotência das mudanças e em nome dos legítimos interesses prejudicados, isso não. A Câmara é de esquerda, é do povo, e o povo não se manifesta contra si mesmo, não é verdade?

Números: Os números estão ausentes, seja quanto custam estas frescuras, seja a quem foram adjudicados os trabalhos, por quanto e de que forma, quanto tempo se aguentam as obras sem necessidade de renovação, e quanto custará o reforço do policiamento (se a Câmara pinta para se publicitar, os artistas de rua também quererão enriquecê-las pelo efeito de lhes imprimir, pintando, as suas mensagens para o mundo cruel e injusto).

Trânsito: A ideia de que, numa cidade como Lisboa,  onde se está sempre a subir ou a descer, salvo para quem se deslocar ao longo da frente ribeirinha e de mar, e onde há muito mais velhos do que jovens, se pode significativamente substituir o transporte automóvel por bicicletas, releva de delírio. E como, para o automóvel que vai sendo perseguido e acantonado, não se criam alternativas de transporte colectivo (nem se criarão: borrar umas ruas e expectorar uns discursos e palpites não tem o mesmo grau de dificuldade que criar uma rede de transportes eficiente) do que estamos a falar é de um crime de moda de pensamento moderninho.

Prognóstico: Os munícipes, de Lisboa e dos outros concelhos, não costumam fazer a ligação entre o custo de obras e o que lhes sai do bolso. Isto decorre da opacidade do sistema fiscal e das contas dos municípios, das transferências de subsídios da UE (com frequência disponíveis apenas para fantasias), da falta de rigor da gestão financeira (ainda que empalideça em confronto com o regabofe do poder central), e da isenção de IRS para mais de metade dos contribuintes. Se o munícipe acha que são os outros que pagam, haveria de preocupar-se com o custo porquê? Não preocupa. E assim Medina, e os outros medinas todos que enxundiam o país como uma praga de gafanhotos, têm de fazer. Fazer o quê? Qualquer merda, desde que pareça progresso. A comunicação social, um vasto depósito de patetas de cujas cabeças está ausente qualquer ideia séria e comedida de respeito pela coisa pública, que foi substituído por concertos, trincas e mincas da política caseira, ideias gerais sobre tudo, e sobretudo erróneas, além de piolhos e lêndeas, faz o resto. De modo que as ruas pintadas vieram para ficar, até serem substituídas por outro disparate.

Estética: O alcatrão é preto, o granito cinzento. Alterar a cor tradicional é uma ideia anti conservadora porque o conservador acha que a tradição não tem de ter imutabilidade, mas a sua alteração deve ser justificada com as vantagens, sob pena de gratuitidade. O espalhafato, o berrante ó-pra-mim, o mudamos porque sim, são pirosos. E a quem assim não entenda a demonstração não pode ser feita porque não a compreenderia. Medina e os outros, claro, são desses – não compreendem.

Esplanadas

por José Meireles Graça, em 10.07.20

De regresso de uma curta ausência, voltei à minha pista pedestre/ciclística, para o habitual passeio de pouco mais de 6 km, ao fim da tarde. Há a meio uma zona de descanso, com um bebedouro e bancos. Nestes nunca me sentei porque são bancos com design, isto é, de betão e desprezando a função, o que faz com que, como estão à torreira do sol, devam estar a escaldar, e como são mal desenhados devam ser desconfortáveis.

O conjunto, projectado decerto por um desses arquitectos contemporâneos cujo sonho é reinventar a roda, estava há muito rodeado de fitas e grades por causa do extremoso cuidado da edilidade com a Covid, que hoje já estavam removidas. Compreende-se: um dos frequentadores podia surpreender uma das frequentadoras descansando de suas corridas e, enternecido pelo aspecto afogueado da jovem, e pelos seus shorts e top reveladores, entabular amigáveis conversações que, não sendo seguro que desembocassem na produção de um novel munícipe, e portanto potencial contribuinte, poderiam ainda assim espoletar um novo surto de infecção.

Não que interessasse muito: a própria pista esteve encerrada enquanto durou o confinamento, com a adequada vigilância da Polícia Municipal, não fosse algum munícipe, dos poucos que por lá andam, lembrar-se de ir fazer exercício e, pior, pôr em causa o claríssimo abuso de autoridade dos senhores edis. Que evidentemente não têm competência para impedir a circulação por causa de manias da vereação e terrores de uma população atordoada pelo massacre obsessivo da comunicação social, que reclama proibições, multas, interditos e toda a sorte de abusos – porque a causa parece justa, o medo é muito, e a ignorância ainda mais.

Quando se fizer a história que vale a pena, isto é, não a da Covid, mas a da vasta reacção de pânico injustificado que tomou conta do mundo, haverá lugar para pôr em contexto o poderoso impulso que a doença deu a toda a casta de estatismos, toda a sorte de intervenções e estupidezes das grandes e pequenas autoridades, todo o reforço injustificado de poderes das polícias, todo o desnecessário dano para a economia, e toda a dificuldade para fazer regressar esses monstros para dentro das respectivas caixas.

Entretanto, e para a pequena história, houve inesperados benefícios. Na minha cidade, havia falta de esplanadas: a Câmara local sempre teve uma palavra a dizer, porque o espaço é público, e essa costumava ser não.

Não porque o poder se mostra em todo o seu esplendor quando rejeita a pretensão do requerente; não porque os engenheirozinhos, os arquitectozinhos, os vereadorzinhos têm a sua tradição, e essa não é a de facilitar, anuir, concordar, mas a de colocar obstáculos que lhes justificam a importância.

Sucede que as regras de afastamento que ditaram a redução do número de lugares nos restaurantes levaram a que quem pudesse tivesse pedido para fazer uma esplanada, e quem a tinha para a aumentar. E foi permitido.

No centro da cidade (o novo, essencialmente do séc. XIX) a praça é periodicamente sujeita ao capricho e à moda, ou à ideia que dela fazem os parolos locais: Já teve jardim e coreto, o jardim já teve uma cerca e portões, já teve uma estátua, a fonte que lá está substituiu outra (embora não exactamente no mesmo local) que foi exilada, e em 2011 houve uma requalificação, que consistiu em tornar o espaço insusceptível de ser um lugar de convívio: quase não há sombra, o piso empedrado (desenhando uma planta do centro da cidade, utilíssima para quem vier de helicóptero) reverbera o calor, e de um dos lados colocaram um extenso e dispendioso gradeamento dourado separando o nada de coisa nenhuma, uma obra de arte de uma tal Ana Jotta que em devido tempo irá para a sucata (a obra, não a artista, que felizmente não conheço), seu destino natural.

Nos passeios alargados, onde aliás circula menos gente do que em tempos pretéritos porque a cidade cresceu, tem outros polos e outros hábitos, cabem à vontade esplanadas. E começam-se a ver, não por causa do senso, que não costuma ser atributo inerente à condição de autarca, mas da Covid.

Donde, concluo filosoficamente que Deus, às vezes, escreve direito por linhas tortas, e a Covid também.

O campeão da manha

por José Meireles Graça, em 01.07.20

Ultimamente tenho dado comigo a simpatizar com o nosso PM.

Calma, não mudei de opinião: o homem tem sobre o país, a economia e o mundo meia dúzia de ideias (e mais não seria preciso, se elas fossem boas), todas erradas, e isso no seu lado substantivo. No adjectivo, isto é, no feitio, no carácter, na cultura, nos modos, até mesmo na toilette, também não melhorou nadinha.

Por partes: Na luminosa cabecinha dos dirigentes do PS o país nasceu em 1974, titubeou à procura de amparo até 1986, sentou-se à mesa dos ricos em 1992, numa festa por multas para a qual contribuiu com boa disposição e anedotas, e é ocioso pensar nele fora do “quadro” da UE, da qual vem a chuva e o bom tempo. E continuará a vir até, quando chegarmos ao eldorado de uma federação, ficarmos com o mesmo estatuto que o Arkansas nos EUA, mas com óptimas praias que aquele infeliz Estado não tem, como dolorosamente lhe falta também o galo de Barcelos, os pastelinhos de Belém e uma quantidade adequada de dentistas e empregados de mesa.

O Arkansas já forneceu um Presidente e é justamente famoso pelas suas melancias. A comparação deixa a desejar pelo lado das cucurbitáceas mas resulta vantajosa no confronto entre Durão Barroso e Clinton – o primeiro nunca foi embaraçado, que se saiba, com histórias picantes em torno de charutos apagados. É porém um dos Estados mais pobres da União, e nada indica que venha a deixar de o ser. Esse destino ser-nos-á poupado, acreditam à volta de 90% dos 14 milhões de portugueses vivos, entre residentes e expatriados, pelo efeito do princípio dos vasos comunicantes aplicado à riqueza, que não se verifica em lado nenhum mas os europeístas, e Costa com eles, dizem que terá miraculosamente lugar aqui na Ibéria.

Quanto à economia, acha que a tal riqueza cresce pelo efeito de se a dividir por um número crescente de dependentes do Estado, desde que este se encarregue, baseando-se nas opiniões dos ungidos por diplomas das madraças de economia socialista, de fazer aqueles investimentos de grande rasgo e lucidez que um destes séculos porão o país a liderar o mundo nisto e naquilo, nos intervalos de falências periódicas.

O mundo de Costa é o da UE e logo a seguir o da ONU, onde o mestre de cerimónias é o seu colega e luzido estadista Guterres. Portugal está sempre do lado dos bons, isto é, aqueles sempre prontos a tomar medidas para combater as alterações climáticas, a desigualdade entre os antigos sexos, hoje géneros, e entre ricos e pobres e o Norte e o Sul, o imperialismo israelita, a América de Trump e o Brasil de Bolsonaro, a injustiça numa palavra.  Desde que tal combate se faça unicamente nas sociedades onde se pode fazer, isto é, no Ocidente; nas outras não, que deixaria evidente a horrível ideia de as civilizações não serem todas equivalentes.

Para quem ache que o que se deve procurar num político é o mesmo que se deseja para a namorada, o sogro, a nora, o amigo ou o sócio, isto é, para quem determine o seu voto não por ideias mas pelos sinais exteriores do feitio, Costa não serviria se o eleitor se incomodasse com a naturalidade e frequência com que mente, o português sumário em que se exprime, e até mesmo as farpelas com que se atavia quando decide ser natural. Mas não incomoda e, de toda a evidência, a sua popularidade deve muito ao andor em que a comunicação social beata e comprada o carrega e, sobretudo, aos bodos judiciosos que distribuiu pelo maior número possível de dependentes. Nada que não possa ser revertido – o seu antigo patrão Sócrates também foi um menino de ouro até dar com os clássicos burros na água.

Sucede que este homem tem a fina inteligência dos sobreviventes, que é mais adequadamente descrita como esperteza (transformou uma derrota numa vitória, comprou com mestria apoios inesperados, quebrou tradições da sua igreja partidária dando a impressão de fidelidade aos santinhos da congregação, apoiou-se nos serviços de um hábil vigarista que já despediu e recompensou, dominou competentemente uma comunicação social que conseguiu se demitisse completamente das suas funções) e foi até agora bafejado pela sorte, que porém acabou com a chegada da maldita Covide.

O país fez, para lidar com o problema, o que faz sempre – copiou. E como por toda a parte (salvo na Suécia e pouco mais) a receita consistiu primeiro em conseguir que as unidades de cuidados intensivos não fossem inundadas de casos que lhes ultrapassassem as capacidades (o achatar da curva) mas rapidamente evoluiu para a esperança louca de estrangular a pandemia com o prolongamento e endurecimento de medidas de isolamento, Costa foi obrigado (acredito que a contragosto – é o meu palpite) a acompanhar. Portugal não é hoje, e de há muito, um país independente, nem dispõe de qualquer autonomia face ao que decidem os directórios europeus, mas cabe notar que de qualquer modo a economia levaria sempre um grande tombo, qualquer que fosse o mix de políticas adoptadas, por causa da quebra do turismo e da exportação.

De modo que o pobre Costa deve ter visto há muito (antes da camarilha acéfala de que se rodeou, que anda aliás a dormir) o terreno a fugir-lhe debaixo dos pés e apostou as fichas no maná europeu (que vai espatifar, a esperteza não chega para ter um ataque de clarividência em economia, nem ele pode vir dos gurus da especialidade), no desconfinamento e na propaganda.

Daí o ataque de fúria na famosa reunião no Infarmed. A ministra Temido julga que a alhada em que estamos metidos é a da Covide, que das galinhas sem cabeça que pontificam na matéria, isto é, médicos de especialidades várias, virá alguma solução que preste, e que a máquina da Saúde pública, as polícias, a patética DGS, o stop-and-go de medidas em que com habilidade se transfere a responsabilidade das políticas públicas para os comportamentos individuais, são necessárias e suficientes para estancar o desastre.

Mas não são. O problema, antes de outra coisa qualquer, sempre foi de engenharia (como diz um amigo meu, dono de uma excelente cabeça, ainda que lá não more um jota de ciências sociais, particularmente história, que sobranceiramente despreza), isto é, de meios e organização para lidar com ele. Ora, a administração pública portuguesa nunca se distinguiu pela eficiência; o SNS sobrevive com crónica falta de meios, que foram desviados para comprar votos; a elite política, que é quem decide, calha ser socialista, ou seja, farinha do mesmo saco da massa ignara dos governados; e para limitar os estragos convinha falar cada vez menos da doença e cada vez mais da recuperação, o que é difícil porque o génio histérico que saiu da lâmpada agora não quer lá regressar.

Tudo leva a crer que isto vai acabar mal, e não me refiro à doença, que se vai juntar ao catálogo das outras com as quais um certo número de pessoas de idade se passa todos os anos para o outro lado, mas à economia.

Sócrates lixou-se não por causa das suas roubalheiras, que nunca teriam sido denunciadas se o país não tivesse falido, mas pela vinda da troica. E o mesmo eleitorado, que lhe deu vitórias e agora lhe dá desprezo, está aí pronto para crucificar quem esteja ao leme quando o desemprego subir sem subsídios e quando a austeridade não puder ser mais disfarçada com expedientes.

De modo que o homem, com uma mão de cartas baixas díspares, está a fazer das tripas coração porque vê o monte das fichas a diminuir e pergunta a si mesmo se, com o galo com que está, conseguirá recuperar. E vê uma brutinha como a ministra Marta, que não conhece as regras do jogo e não sabe interpretar os sinais dos outros parceiros de mesa, a insistir em apostas altas sem bluff? É um desespero.

De onde vem então a minha alegada simpatia do primeiro parágrafo, só disto? Não. Deu protagonismo a duas mulheres, cada uma medíocre à sua maneira (no caso da Directora-Geral com laivos de comicidade patética, no da ministra com uma imagem atraente de política queque), e isso sempre me pareceu estranho. Percebi agora, através das declarações de um homem de mão que orna a Câmara de Lisboa com a sua irrelevância, que as duas senhoras são na realidade fusíveis, destinados a queimar na eventualidade de alguma coisa correr demasiado mal, como está a suceder em Lisboa.

Bem visto. E como não peço desculpa a ninguém por ter uma grande admiração por Victor Lustig, tiro com respeito o meu chapéu ao prestidigitador Costa – não me tinha lembrado desta jogada. É verdade que o país não ganha nada com isso, e quase certo que desta vez os truques não vão chegar. Mas que o nosso António, como o descreviam com ternura os dois compères na Quadratura do Círculo, é o campeão da manha, lá isso é.

IPO

por José Meireles Graça, em 24.06.20

Tenho na garagem um charêlo com mais de 20 anos, que não se vende por razões sentimentais das autoridades domésticas e porque, de longe em longe, dá jeito.

Um luxo: levando em conta o custo do seguro, imposto de circulação (na realidade um imposto sobre a propriedade) e inspecção periódica mais valia alugar um carro quando fosse necessário.

Há uns anos o pagamento do IUC passou a fazer-se no aniversário do registo do automóvel, uma habilidosa mudança legislativa dos patifes que enxundiam a AT, contando que muitos condutores se esqueçam - se se esquecem do aniversário das consortes, por que raio haveriam de se lembrar do da porcaria do carro. A GNR, na realidade, para efeitos do trânsito automóvel, uma polícia fiscal, aplica multas terroristas em caso de esquecimento ou falta de dinheiro – este imposto e as multas respectivas castigam muitas vezes não a distracção mas a pobreza.

Multas gravosas são também devidas no caso da falta do abençoado selo da inspecção periódica. E por isso na semana passada levei o coche a um desses centros onde se fingem análises rigorosas e desisti porque havia aí uns 20 carros à frente; e a mesma coisa noutro da cidade que tem a honra de me contar nos seus naturais.

Ontem, porém, foi o dia. Esperei aí apenas umas duas horas debaixo de um sol abrasador e, quando chegou a minha vez, e porque o “perito” era novo, lá veio o diálogo surreal:

Abra o capot, por favor.

Para que efeito?

Preciso de pôr uns cabos no motor.

O motor não é à frente.

Então abra atrás.

Posso abrir (saindo do automóvel porque a tampa da mala só abre com a chave da ignição) mas por lá também não tem acesso ao motor, que é central.

Ah, e como vou fazer para ter acesso ao motor?

Não faço ideia, creio que por baixo, pondo o carro no elevador.

 

O homem resolveu o problema a contento, depois de obrigar a um tempo interminável com o motor às 3.000 RPM e gastando ainda mais com várias jigajogas para testar a suspensão e os travões.

Gosto destas partes gagas. E como não posso, como desejaria, enfiar uma carga de lenha no legislador que pariu estes inferninhos, faço parte daquela minoria de cidadãos impliquentos que têm, por funcionários, um respeito menos do que obsequioso, e pelas autoridades um escasso quanto baste.

Porque, sejamos claros, aqueles condutores que, debaixo de um sol escaldante, aguardam pacientemente que se lhes verifiquem os carros a troco de mais de trinta euros (o valor tem quebrados com cêntimos para dar a impressão que resulta de um qualquer cálculo científico e não de puro arbítrio; e porque a ideia de que um serviço público deve ter em conta a comodidade do público não cabe na cabeça de nenhum funcionário, e menos ainda na de um secretário de Estado qualquer com pressa de ir ao próximo workshop sobre o simplex) acreditam provavelmente que o que estão ali a fazer tem a ver com segurança rodoviária.

Mas não tem. Ninguém tem um carro a cair de podre se o puder ter em bom estado; ninguém circula com um carro com a direcção desalinhada, ou os travões em mau estado, ou os pneus gastos, se tiver meios para o reparar; ninguém, constatando que o veículo gasta anormalmente, deixará de o tentar corrigir; e, sobretudo, não faltam defeitos graves que um veículo pode ter, e que não são detectáveis pelos procedimentos normais de inspecção, como a Deco (uma organização socialista que, para resolver qualquer problema, reclama sempre mais funcionários e legislação) descobriu aqui há uns anos.

Investiram-se milhões para criar estes centros de parlapatice rodoviária; criou-se um corpo nacional de funcionários especializados em não fazer absolutamente nada de útil, enquanto há oficinas que têm dificuldade em recrutar mecânicos; deixou-se nascer um grupo de interesses que, à boleia da segurança rodoviária, torna impossível qualquer reforma que o prejudique; queimam-se milhares de horas de trabalho de pessoas que têm realmente que fazer e estão de guarda aos seus veículos, à espera de vez; e mobilizam-se armadas de burocratas que vão expelindo legislação, desde que em Dezembro de 1999 se transpuseram para o direito interno as elucubrações de uns anónimos do Conselho Europeu ou da Comissão (mais de meia dúzia de decretos-lei, desde então, e um número indeterminado de circulares e instruções de iluminados).

E então, a inspecção não serve mesmo para nada?

Serve:

Para a polícia se dispensar de verificar o estado do piso dos pneus (estes têm, actualmente, uns travessões que indicam o grau de usura), ou qualquer outra coisa, e perderem tempo a ver o bendito selo, no afã de passar a multazinha;

Para detectar desconformidades que nada têm a ver com segurança: há uns anos tive de substituir uma placa de matrícula porque a parte amarela estava desmaiada pelo sol (o mesmo amarelo com o mês e ano de registo que um legislador azeiteiro lisboeta achou que era indispensável figurar e agora um seu colega, com melhor gosto e possivelmente sem interesses em stands de automóveis, acha dispensável no modelo mais recente da mesma placa).

Para justificar multas, defesas, incumprimentos, ocupação dos tribunais com trivialidades, penhoras, e receita fiscal.

E de segurança, nada? Ora bem, o tal charêlo tem, há mais de uma dúzia de anos, o tensor do cinto de segurança do condutor avariado. Isto significa que o cinto não está lá a fazer nada, estando mais lasso do que as contas públicas. A Deco, se consultada, diria decerto que era preciso rever as normas, a ver se se consegue aumentar a lista de procedimentos até se perder não duas horas mas um dia, e pagar não um pouco mais de 30 euros mas meio salário mínimo. Pois bem, o cinto nunca ninguém viu. Ainda bem, desmontar aquela cangalhada seria um grande nó cego – o carro foi concebido por uns ingleses que já faliram, tem partes de ciência oculta.

Nunca ninguém viu que o cinto não funciona e quase ninguém vê os absurdos burocráticos que o moderno estado mete-se-em-tudo põe na vida das pessoas.

O carro, para a idade, não anda mal. E nós poderíamos andar melhor se víssemos os defeitos onde eles estão. Mas é como o cinto, está onde deve estar porque é obrigatório. Se funciona ou não – isso não interessa nada.

Quatro notícias e um funeral

por José Meireles Graça, em 18.06.20

I

A Liga dos Campeões será em Lisboa, anunciou ontem o PM numa sessão solene no Palácio de Belém, estrelada pelo dono do estabelecimento, o presidente da AR e o da Câmara, um Gomes que superintende no futebol e outras altas personalidades.

No brilhante improviso que Costa preparou, abundou na honra que a UEFA concedeu ao nosso país, na confiança demonstrada pela disciplina que o bom povo português evidenciou ao acatar as sábias determinações do governo com o qual a Providência nos abençoou, e no exaltante prémio que semelhante distinção constitui para os profissionais de saúde.

Marcelo, por sua vez, declarou à RTP3 “ser a marca Portugal aquela que vence e que se vai afirmar”.

II

Mas nem só de alegrias são feitos estes momentos. A Dinamarca, hoje, reabriu as fronteiras mas excluiu Portugal, expressamente, de semelhante benefício, com grave dano para aqueles afortunados turistas portugueses que tivessem a intenção de ir ver, tiritando de frio, a Pequena Sereia, ou pagar por um bilhete de acesso ao Tivoli o preço de um jantar para cidadãos honestos.

III

Há dias, milhões de brasileiros ficaram gelados com a confissão do PM Costa, que admitiu não lhes permitir a vinda a Portugal e aguardam, angustiados, uma decisão definitiva na matéria, não do governo português ou do senhor Presidente, cujos sentimentos de arreigado amor aos nossos irmãos de além-mar não carecem de sublinhado, mas de quem detém poderes de última instância.

IV

Soube-se hoje que está finalmente em gestação o Banco de Fomento, cujo parto apenas aguarda autorização do Banco de Portugal, que depende de Frankfurt, e de Bruxelas, que só depende de quem seja louro. Agregará dois organismos que ninguém sabia que existiam e destina-se a suprir as falhas da Caixa Geral de Depósitos, que é um banco excessivamente igual aos outros. O reforço do capital da CGD não convém porque dá muito nas vistas, e estima-se conveniente diversificar os instrumentos de controle da economia, que dá por vezes ainda sinais de indesejável independência.

Estas as quatro notícias, escolhidas de entre outras que ilustram como vai a nossa alegre casinha. Que diz este residente?

O nosso principal produto de exportação em notoriedade é hoje Ronaldo, como antes foi Eusébio, e o país ganha com isso. Mas produzirmos regularmente génios da bola não é sintoma de nenhuma verdadeira superioridade; o excesso de importância que o que gira à volta do jogo ganhou entre nós, a promiscuidade entre o poder suspeito, e com frequência corrupto, das instâncias futeboleiras e dos poderes públicos, não é sadio; nem, finalmente, a erecção dos triunfos desportivos em desígnio nacional nos engrandece ou resolve qualquer problema. Marcelo acha que sim, da mesma forma que entende que a sua fotografia em todos os lares, por cima de uma corbeille de flores de plástico, traduz outra coisa que não acefalia colectiva. Mas Marcelo é um prestidigitador: toda a gente vê o que lá não está, isto é, lhe imagina poderes que não tem, competência que lhe passou sempre ao largo, e brilhantismo que, se existe, é o das lantejoulas. A sua palavra nunca é a do mais alto magistrado da Nação porque nunca disse nada que tenha um prazo de validade superior a uns dias nem jamais teve nenhuma ideia sobre coisa alguma que não fosse maria-vai-com-as-outras ou, pior, que não seja uma das rodilhices pelas quais o supõem florentino.

Anunciar com solenidade no palácio de Belém uma fase final de futebol só não é motivo para as gargalhadas de escárnio do país porque o país não sabe rir de si mesmo. Uma elite do pensamento e da magistratura de influência poderia fazê-lo – se existisse.

O caso da Dinamarca é menos grave do que parece. A nossa embaixada naquele país viquingue já veio esclarecer que, com uns telefonemas e martelando os números, a coisa se pode compor.

Costa, a sua entourage, o PS, os restantes partidos com excepção dos comunistas e primos, as pessoas que, inclinando as ponderosas cabeças, opinam nos meios de comunicação, são ferozmente europeístas, como o é a maioria da população, que acha que ser colonizado não vai resultar no benefício do colonizador. Daí que se aceite como normal, sem um frémito, sem um coice, que as relações com o Brasil ou outras ex-colónias dependam do que diz ou deixa de dizer Bruxelas. Não há que temer: Logo que Bolsonaro seja substituído retornará o clima que nunca deixou de existir nos discursos, e Marcelo, numa viagem de Estado, encantará os locais com ternurentas selfies, e ensaiará uns passos de samba – ele, para bailarino, tem jeito.

O Banco de Fomento fomentará investimentos tolos, corrupções sortidas, delírios dirigistas e tráfico de influências. Nada que justifique insónias: alguma coisa se há de aproveitar e depois do BES e do Novo Banco, da CGD, do BPN, do Montepio, e j’en passe, o contribuinte desenvolveu anticorpos: isso de bancos a falir ou a precisar de arame é lá coisa de engenharias financeiras dos ricos, o PS defende-nos. E a Caixa está fora disto, que é nossa, razão pela qual lá metemos periodicamente dinheiro.

E o funeral do título? Seria o funeral do país, que não tem moeda, nem bancos privados, nem grandes empresas que não sejam de mercearias, nem Orçamento que não precise de pré-aprovação estrangeira, nem controle de fronteiras, nem eleitores em número suficiente que não dependam do Estado, nem política externa que não seja cortejar os que têm tudo isso; mas tem a maior dívida pública da sua história e um deslizar teimoso para os últimos lugares do desenvolvimento.

Seria, mas não é. A menos que Portugal fosse apenas a mole que aprova este estado de coisas. Mas a geração mais bem formada de sempre terá filhos e netos, e estes não pensarão o que pensavam os pais; a União Europeia ou cai com estrondo, vítima da contradição entre os seus dirigentes e beneficiários apátridas e os nacionalistas que se supõem extintos, ou recua para o mercado único do qual nunca deveria ter saído; e para Portugal, que já cá anda há quase 900 anos, e aguentou 60 de Filipes, mais fomes, pestes e guerras, não haverá de ser nada.

Entretanto, no próximo Sábado começa o Verão. E nada obsta a que, entre 12 e 23 de Agosto, se saia da praia para o café mais próximo, à hora dos jogos. Podia ser pior.

Em Maio pintamos a manta

por José Meireles Graça, em 14.06.20

No mês passado, mal apareceram, comi cerejas. Nunca ao borralho porque nesta altura do ano não acendo a lareira e a tradição já não é o que era, ainda que houvesse vários dias em que o aquecimento global se absteve de mostrar a sua hedionda cabeça, renúncia excessivamente vulgar aqui para os meus lados.

Atochei-me de cerejas, dias a fio, mas dou-me conta de que faltou a ração anual de análises argutas sobre o Maio de 68, substituídas pela pandemia da histeria covidiana.

E foi pena. Que todos os anos redescubro com gosto quão diferente ficou o planeta depois daquele mês prometeico, a deslumbrante personalidade das estrelas que lideraram o movimento, em particular Cohn-Bendit, a aflição de De Gaulle, e a sombra imensa que a França, talvez pela última vez, projectou no mundo à boleia dos interessantes moços universitários que procuravam a praia debaixo dos paralelepípedos que arrancavam para atirar à polícia fascista (coisa que, incidentalmente, me confirmou na ideia de que o alcatrão, apesar de mais benéfico para as suspensões automóveis, tem conotações reaccionárias que têm passado desapercebidas à doutrina).

Isto lembro. Profundidades agudas bem queria recordar, mas são submergidas pelos meus preconceitos de alma simples: aquele rapazio azougado não tinha conhecido a guerra nem privações, os paizinhos que os sustentavam viviam um clima económico de progresso ininterrupto desde o pós-guerra e não viam com bons olhos que se afagasse o lombo dos meninos com vergastadas, e a esquerda em peso pendurou-se no movimento, dando-lhe uma força que não havia nenhum motivo real para ter.

Mas ficou a marca registada do disparate: os jovens, em particular se universitários, são depositários de alguma forma de lucidez que escasseia aos pais, a propriedade e a ordem pública são danos colaterais necessários do direito à manifestação, e a generosidade e a pureza imarcescível das intenções estão sempre do lado dos manifestantes, e o egoísmo, os interesses das classes possidentes e o fascismo do lado das autoridades.

Para complicar as coisas, os jovens na Primavera de Praga, pela mesma altura, e os americanos por causa da guerra do Vietname, antes e depois de 1968, os de Tiananmen onze anos mais tarde e os de Hong-Kong hoje, estiveram (discutivelmente talvez no caso do Vietname, assunto que não vou resolver aqui, por falta de vagar) e estão do lado certo da História.

Isto é uma complicação porque torna impossível, sem qualificações, arrumar a miudagem no caixote da desordem merecedora de repressão. De modo que conviria precisar que todas as manifestações são legítimas em regimes ditatoriais, mesmo que para reivindicar disparates, ou protestar contra fantasmas, mas deixam de o ser, em regimes de democracia representativa com os atributos clássicos, se implicarem a prática de crimes, isto é, a prática de actos que, se levados a cabo por um cidadão isolado, assim seriam considerados pela lei penal.

Deixemos de lado, de momento, a formação das polícias, o controle de manifestações, o casamento entre o direito à manifestação e outros direitos (como o de livre circulação, p. ex.). E olhemos para o caso das maluqueiras das pichagens das estátuas e das reivindicações, que ainda cá não chegaram mas chegarão, de remoção de estátuas de colonialistas, racistas, machistas, esclavagistas e outros istas sortidos.

Aquela canalhada do Maio de 68, de que falava acima, está hoje no poder: a maior parte é socialista ou social-democrata, e guarda dos ardores da juventude a saudosa memória de quando tinham testosterona a mais (eles; a hormona equivalente delas não me lembro de momento qual era) e calculismo a menos; muitos nunca chegaram a interromper a forte corrente de ar que lhes circulava no meio das orelhas e estão hoje, entre nós, no Bloco e no PCP; e todos, ou quase, hesitam na conveniência de cascar em desordeiros, sob pretexto de que têm acne, coitadinhos.

Fazem mal. Porque danificar estátuas, ou outra propriedade, pública ou privada, não é um caso de opinião porque é de polícia. Assim esta investigue, como lhe compete, e os tribunais castiguem, sem atenuantes se forem maiores de idade, sem agravantes mesmo que sejam precisos exemplos.

E quanto à remoção de estátuas, ou pinturas, ou outro testemunho qualquer que ofenda a delicada sensibilidade de ofendidos diversos? Quem, para existir, sinta um irresistível apelo a que se acertem contas com uma História que geralmente conhece mal, e uma incontrolável aversão a mortos cuja biografia é incapaz de interpretar à luz do tempo deles, o que tem a fazer é ou dedicar-se ao estudo ou aderir a um partido político que lhe patrocine os ódios de estimação. No primeiro caso, pode ir estudar para a madraça do professor Boaventura e, no segundo, engrossar as fileiras do Bloco, do Livre ou doutra agremiação destinada a arrebanhar chanfrados. No PCP não me parece, que aquela gente é mais para o derrube do capitalismo, e menos para acolher frescuras.

Ai e tal, diz o Daniel (que quer, o grande magano, ser lido na íntegra e eu bem gostava se estivesse disposto a dar um cêntimo para o Pravda do regime) que “as estátuas não são sagradas, a democracia sim”. Bem visto, Daniel: uma pessoa que ache toda esta querela em torno das estátuas grotesca; e que se recuse a aceitar que a arruaça é uma forma legítima de obrigar à inclusão no debate democrático de questões que praticamente nenhum democrata jamais sentiu necessidade de que lá estivessem – não respeita a democracia, que é “sagrada”.

Ahem, eu do sagrado desconfio, que sou agnóstico; e dá-se o caso de achar que a democracia nos convém a nós, mas não a toda a gente, em toda a parte, em todo o tempo. Mas, com os conhecimentos que tenho dos procedimentos, esclareço: a remoção de estátuas não está na ordem do dia; a repressão a maluqueiras às quais se quer conferir respeitabilidade, sim.


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