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Delito de Opinião

Carlos

José Meireles Graça, 16.01.22

Não vivíamos na mesma cidade há muitos anos e nunca fomos muito chegados, nem sequer quando éramos novos, ele quatro anos mais, o que na adolescência é muito. Gostava de motas e carros, e eu também, mas isso quase todos.

O que não éramos muitos era a apreciar uma boa desconversa. O Carlos sim.

Da última vez que o vi ficamos na mesma mesa, por acaso, um ao lado do outro. Era a apresentação de qualquer coisa de um banco que haveria de ter um destino funesto e estavam os ricos da cidade – os que o eram, os que fingiam e os que julgavam ser. Eu era convidado de um convidado que me apreciava a companhia.

Os presentes distribuíam-se por mesas redondas, muitas, e em cada uma havia um prócer qualquer das finanças, da Academia, da economia ou notabilidades doutras áreas, todos ligados ao banco.

Sucederam-se os discursos, cada um mais chato do que o outro, pintando um Portugal de problemas mas também oportunidades. E a certo ponto levantou-se o Presidente, bateu com o talher no copo, suavemente, fez-se silêncio e começou a falar, calmo e untuoso.

Falou muito de macroeconomia; e citou estatísticas atrás de estatísticas. Tantas que murmurei para o lado se aquelas estatites de que ele estava a falar não seriam umas coisas que havia dependuradas do tecto das cavernas.

O amigo olhou para mim e gotas de suor começaram a aparecer-lhe na careca enquanto uns espasmos contidos o sacudiam. E, desesperado, cobriu os beiços com o guardanapo felizmente generoso, sufocando incontroláveis gargalhadas, vermelho e com lágrimas a correr-lhe pela cara abaixo, enquanto o resto da mesa o contemplava a ele, e a mim a quem o ataque se comunicou, com olhares de gélida censura.

Teve um enfarte, aos 66 anos, e finou-se no hospital. Deixa dois filhos, a quem a mãe já havia morrido num acidente faz cinco anos.

Se no Além calharmos no mesmo sítio, ainda nos havemos de rir. Que santos de pau carunchoso há muitos, e é possível que façam discursos empolgados a gabar as excelências do céu. E, para a troca, ele é menino para ter na aljava uma daquelas piadas foleiras que ambos apreciamos.

A Campanha

José Meireles Graça, 09.01.22

Decorre quase exclusivamente na televisão, e não está mal assim: na rua faz frio, chove, ninguém converte senão convertidos, e os partidos com mais dinheiro brilham enquanto torram recursos com brindes e inutilidades, das quais uma parte vai acrescer ao trabalho dos varredores municipais no dia seguinte ao das arruadas ou comícios. De resto, os candidatos vão para essas horríveis maçadas não para “contactar os eleitores”, segundo a fórmula consagrada, mas para saírem nas notícias; e os jornalistas estão ali a ver se pescam o popular pitoresco, o incidente surpreendente ou desagradável e o deslize do putativo pai da pátria, e mesmo isto só nos casos em que não estão a fazer o frete.

Toda a gente se queixa, porém, dos 25 minutos dos debates na tv, que contrastam com o tempo alocado aos comentadores. Não dá para discutir seriamente coisa alguma e o formato favorece os repentistas, os ditos que ficam, as acusações sem substância, os raciocínios esquemáticos, o lixo argumentativo que se guarda para os últimos minutos, se o sorteio disser que se é o último a falar, o que tudo se espera fique no ouvido do eleitor arredio.

A conclusão das pessoas que se aliviam das suas opiniões publicamente, mormente se detiverem uma magistratura de influência, real ou imaginária, é que faria sentido aumentar ao tempo dos debates, se necessário cortando no paleio dos comentadores, que de todo o modo são uma legião de chatos.

Isto dizem elas. Já eu entendo que aumentando ao tempo dos debates se diminui a quantidade de espectadores porque a discussão racional é menos o que procuram, e mais a luta de galos. Se não fosse assim, aliás, o canal ARTV teria a audiência que nunca teve. Que no meio dessa luta num terreiro rasca passem algumas ideias já não é nada pouco.

Por mim, simpatizo com uns e antipatizo com outros, como toda a gente, mas acho improvável que das próximas eleições saia algo que preste: ou Rio ganha e jamais conseguirá apoio para fazer qualquer reforma válida (admitindo que no seu toutiço determinado morem ideias realmente disruptivas e úteis, do que duvido); ou ganha o PS e, com Costa, continuaremos a costizar, ou, com o famoso Pedro Nuno Santos, aprofundaremos a bloquização do país. A resposta, no futuro próximo, virá mais da evolução dos juros da dívida e das posições da UE, e menos do resultado das eleições. Portugal é hoje menos independente, provavelmente, do que no tempo dos Filipes, e não apenas porque os Orçamentos, antes de aprovados pela AR, precisam do accessit dos burocratas de Bruxelas para garantir as esmolas sem as quais não há investimento, seja ele o elefante branco do dinamismo empresarial do Estado seja o magérrimo privado.

Portanto, foquemo-nos nas pequenas histórias: o comentariado político sofre exactamente dos mesmos enviesamentos que o futebolístico, um grau abaixo porém na sinceridade: o comentador desportivo não se apresenta como politólogo (politotólogo na realidade) isento, e mesmo o espectador desinteressado topa em que clube joga o doutor da bola (que se distingue do básico que bolça uns morra! clubistas por os embrulhar num palavreado hermético). Mas mesmo assim a gente minimamente atenta (que, concedo, não é a maioria) sabe que a comentadora xis é do PS; o y do PSD; o z do Bloco; e o resto parente pobre.

Este tradicional viés de esquerda explica que Ventura perca invariavelmente todos os debates na opinião publicada enquanto quem quer que tenha visto o com Costa sabe, se não for um fanático geringôncico, que este levou uma grande coça.

(E antes que me venham por aí tachar de chegano esclareço que acho Ventura um demagogo – algumas das suas propostas, em particular no domínio penal, representam um retrocesso civilizacional, além de serem antiportuguesas porque a nossa tradição não é de violências americanas. E não me parece que a hierarquia das suas preocupações e bandeiras, casando embora com algumas indignações de gente sumária, tenha potencial para resolver os nossos principais problemas.)

Pois bem: esta desonestidade intelectual (ou talvez sinceridade, o que seria pior) na apreciação do desempenho de André Ventura atingiu o seu paroxismo no debate com Rui Tavares, uma nulidade política que goza dos favores da corte opinativa. Não vou explicar porquê, refugiando-me na economia de argumentos a que recorro quando não estou com excessiva paciência: quem precisar de que isto se lhe explique não está em condições de entender a explicação. Razão pela qual, a seguir ao debate, escrevi no Facebook o seguinte:

Este é genuinamente o meu país, até estou enternecido. Um país de velhos porque os novos emigram sem que nasçam outros; com a maior dívida em tempo de paz da sua história; a deslizar com segurança para os últimos lugares do desenvolvimento, num continente que não cessa de perder importância no mundo; obcecado com os ricos, que praticamente já não há, e insistindo na redistribuição até à venezuelização; com um SNS que toda a gente traz na lapela como um triunfo mas ninguém quer suspeitar que é insustentável; e com uma população feita de reformados, pensionistas e funcionários públicos, todos a caminho da cubanização, mas com frio e eleições democráticas. Este desastre tem um selo, o da esquerda. E Ventura, que defende tolices demagógicas na área social, mas não subscreve disparates na área económica, oferece a esta nuvem a possibilidade de se apresentar como depositária da superioridade que não tem, da lucidez que lhe falta, da responsabilidade que não assume e do cripto-comunismo que lhe vai na alma, mesmo que não o entenda e julgue não defender. Rui é um Polpotezinho das ideias, versão sala dos professores de universidades caducas.

Cobiça*

José Meireles Graça, 31.12.21

Quem desconfiar dessa treta de que a direita e a esquerda estão ultrapassadas, por isso ser uma querela do passado, tese recorrente de intelectuais profundos, pode fazer pior do que ler um livrinho de Jaime Nogueira Pinto, A Direita e as Direitas.

Da obra disse VPV: “… o problema de responder à pergunta ‘O que é a Direita?’ está na impossibilidade de atribuir às direitas características comuns e absolutamente distintas das esquerdas (…) fora da história. Felizmente, o livro dele não se propõe cortar esses ‘nós’. Pretende, com mais modéstia, fazer pensar. E faz.”

Disse bem, claro: Vasco Pulido Valente não sabia dizer, nem pensar, mal.

Jaime Nogueira Pinto é um ensaísta respeitável que só não é credor de mais estima pública por ser notoriamente de direita, portanto suspeito, e VPV foi um historiador pioneiro, além do comentador cáustico e diabolicamente certeiro da nossa contemporaneidade que duas gerações tomaram para objecto da sua adoração ou do seu ódio.

Isto são eles. Já eu sou um básico. E gente como eu precisa de uma maneira prática de arrumar pessoas e doutrinas que andam aí no ar da opinião num lado ou noutro. Tenho um expediente, e esse é o de avaliar a importância que o camarada, ou o escrito, atribuem à igualdade económica: quanto mais relevante mais à esquerda. Bem sei que o critério é sumário, e não funciona para certas franjas da extrema-direita, ou algumas capelas liberais, mas no geral serve muito bem.

Susana Peralta tem vindo a ganhar audiência por estar albardada de prestigiadas credenciais académicas, escrever com simplicidade sobre assuntos complexos, alicerçar os raciocínios em abundância de estudos e números (uma pecha da tribo a que pertence, que Nosso Senhor assim os conserve) e lisonjear o sentir das massas – há pobres porque há ricos, e em tirando a estes ficam todos remediados.

O artigo de há dias no Público ilustra isto. Que diz então a preclara? Começa por se basear num estudo do World Inequality Lab, uma organização ominosa subsidiada por um misterioso European Research Council, que a financia em quase um terço, uma nebulosa de universidades, fundos públicos e umas quantas fundações privadas. Emprega um painel de investigadores, entre os quais – estava-se a ver – o bom do neo-marxista Thomas Piketty. Tem por objecto o estudo da desigualdade em todo o mundo. É, em suma, uma organização multinacional destinada a projectar académicos de esquerda (que, suponho, se fazem pagar pelas suas ruminações), a alimentar a fogueira do internacionalismo e da generalização das boas práticas fiscais, entendidas como o aprofundamento da pilhagem estatista, além do combate ao monstro da desigualdade.

E afirma: Os 10% mais ricos do mundo ficam com 52% do rendimento mundial antes de impostos; e a metade mais pobre tem apenas 8,5%. De modo que traduzindo esta triste realidade em bananas, diz Susana, uns se entopem até aos gorgomilos e outros nem para a cova de um dente; ou seja, uns sofrem de indigestão e outros de sérias avitaminoses A e C, digo eu.

Isto no mundo. Que no nosso continente as 50 pessoas mais pobres comem quase 20 bananas e as 10 mais ricas 35 (são 9 vezes mais bananas para cada um dos 10 mais ricos, umas contas que, perdido no bananal, não percebi muito bem, mas devem estar certas).

E continua: Os 50% mais pobres do mundo têm apenas 2% da riqueza; os 10% mais ricos têm 76% da riqueza, o que tudo provoca uma chocante assimetria bananética, a tal ponto que com uns a fruta apodrece (isto Susana não diz, sou eu que imagino) e outros consomem até mesmo o bocadinho de casca que lhes tocou.

Entramos a seguir numa informação que deveria fazer soar campainhas: Entre 2019 e 2021, a riqueza dos 0,0021% mais ricos do mundo aumentou 14% para um crescimento global que foi de apenas 1%.

A escolha desta percentagem leva água no bico (porquê 0,0021% e não 1%?) e essa é a de produzir um resultado chocante. E chocante é porque o significado, qualquer que seja a percentagem, é que as medidas governamentais para lidar com a pandemia penalizaram mais os pobres, o que se deve acrescentar aos custos ocultos e indirectos dessas medidas que os poderes deveriam ter ponderado, um aspecto ausente das notícias. Das notícias e do artigo porque o que retira Susana daqui? Que se deve perguntar se pessoas assim tão ricas pagam a sua justa parte de impostos. É mais uma declinação da velha máxima “os ricos que paguem a crise”, agora sob a veste “os ricos que paguem a histeria pandémica”.

Uma outra organização internacional (não, não vou respigar quem são, adivinho que é a mesma mistura suspeita de gente que se dedica a ilustrar preconceitos ideológicos esquerdosos com números que lhes dão um verniz científico) lembrou-se de uma boa:  ir pescar nos números da OCDE as diferenças de impostos sobre lucros que pagam as multinacionais em cada país (por privilegiarem os de fiscalidades mais amigas) e deduzir daí o que os Estados perdem. Isto é extraordinário, porque todo o raciocínio assenta no pressuposto de que há Estados que, por terem fiscalidades competitivas, não sabem o que andam a fazer ou prejudicam a humanidade que, já se vê, deve ser governada sem competições espúrias que as Susanas não sufragam.

Com estas artistices e outras, que incluem o recurso a offshores por parte não apenas das multinacionais mas também de indivíduos que, por serem absurdamente ricos, têm um inadmissível receio de que os pilhem, estima-se que, só no último ano, se perderam 312 mil milhões de dólares, a que se somam 171 mil milhões de “riqueza financeira” escondida. E a maior parte do bolo – ó escândalo – não vai sequer para ilhas paradisíacas: fica, em 80%, nos países da OCDE. Eu não sou de ditos mas desconfio que alguns destes evasores ajudam a financiar estes think tanks justiceiros: sempre foi judicioso atirar um osso aos inimigos.

E chegamos a Portugal, onde também há problemas no bananal: as 10 pessoas mais ricas comem quase 40 bananas e são proprietárias de 60 bananeiras. Na EU, apenas a Estónia tem maior desigualdade de rendimento (medido antes de impostos, um abuso metodológico que fica por explicar) e a desigualdade da riqueza só é superior à nossa em 6 países. Os ricos locais, por umas contas sábias, põem-se ao fresco com nada menos que 470 milhões e as multinacionais 420. O que com esse dinheiro o Estado não faria, credo. Susana não dá exemplos para o mundo, em relação aos 483 mil milhões, mas para Portugal dá – a coisa dava para mais do que duplicar o abono de família. Um exemplo que, fosse eu uma pessoa saudavelmente de esquerda, e com o coração generoso sangrando de amor pelas crianças e seus pobres pais, me traria lágrimas aos olhos que tenho azulados metaforicamente pelo brilho cruel do egoísmo.

Sucede que na hierarquia das nações, medida pelo produto por cabeça, há umas que trepam e outras que decaem relativa ou absolutamente. Uma grande multiplicidade de factores explica a evolução e para encontrar os comuns às histórias de sucesso, ou às de insucesso, têm-se escrito bibliotecas. Se o problema fosse estritamente de índole económica a respectiva “ciência” já teria, talvez, coalescido numa receita. Mas, infelizmente, factores geoestratégicos, históricos, culturais e muitos outros fazem parte do problema; e mesmo no que toca aos que a pobre Academia económica relativamente conhece não há entendimento: há economistas comunistas, que Nosso Senhor lhes perdoe, e de todas as outras doutrinas, com graus diferentes de valoração da liberdade económica, propriedade privada, e funções e dimensão do Estado.

Há países relativamente igualitaristas com bom desempenho, mas também desigualistas (aos comentadores: sei que a palavra não existe); há países com grandes punções fiscais que não têm mau desempenho, mas outros contidos que fazem ainda melhor; e com excepção dos países comunistas, que produzem invariavelmente sociedades pobretas e opressivas, encontram-se exemplos, com ou sem democracia, com mais ou menos liberdade económica, com  fiscalidades altas ou nem por isso, para ilustrar todas as teses e o seu contrário.

Por mim, os casos relevantes de estudo, e que nos deveriam interessar, não são os daqueles países que estão mais adiantados (e que têm com frequência crescimentos anémicos), são os dos que, agora ou no passado, subiram aceleradamente a ladeira do desenvolvimento, e os daqueles que, pelo contrário, escorregaram pela encosta abaixo.

Dito de outro modo: não é a Alemanha que nos deve inspirar, é a Estónia e a Venezuela. E se quisermos imitar os míticos países nórdicos (coisa que acho impossível porque o fundo cultural, a ética do trabalho, a tradição do serviço público não são os mesmos), o momento actual interessa pouco, o que releva é o conjunto de acções que arrancaram in illo tempore aqueles países ao subdesenvolvimento.

Hoje por hoje, do que precisamos não é de impostos altos nem de obsessões com a igualdade, cujo mérito, aliás, os seus cultores acham dispensável explicar, como se estivessem a enunciar uma verdade axiomática. E pelo contrário os impostos devem baixar, o Estado encolher e a liberdade crescer.

Porque eu quero que o país cresça como os antigos países europeus da cortina. A Susana Peralta também, mas norteada pelos princípios económicos da escola  Nicolás Maduro porque acredita, como ele, que a melhor maneira de a riqueza crescer é começar por a dividir. A própria achará decerto que exagero, e tem razão. É o papel da retórica: exagerar os contornos de uma verdade para que o seu núcleo ressalte.

* Publicado no Observador

Pilhagem

José Meireles Graça, 28.12.21

Há um ror de anos que me entretenho a, à medida que vou vendo as notícias do dia, comentar no Facebook para ilustração da minha bolha. Há gente que com despudor discorda sistematicamente de mim e outra, asizada, que pelo contrário nos textinhos quase sempre reconhece a razão que os permeia.

O algoritmo que a escumalha infecta que governa aquela rede desenhou tende a não ir na minha bola. Tanto que há uns meses o meu “mural” e o acervo de fotografias e palavreado de mais de seis anos sumiu e fui obrigado a criar um “perfil” novo. Os americanos e as suas invencionices são como as mulheres: não se pode passar sem elas mas, às vezes, fica difícil aturá-las.

O estúpido deve julgar que sou trumpista, negacionista e fascista, coisas que, se fosse, assumiria desassombradamente; e guarda a sua benevolência para bidénicos, covidiotas, progressistas (a maneira edulcorada de dizer comunas) e, sobretudo, marias-vão-com-as-outras. O método para evitar chocar com ele é, tal como se fazia com os coronéis da censura da Velha Senhora, dizer as coisas com circunlóquios que eles não percebiam. Mas às vezes esqueço-me. E hoje, a falar de um texto (Estado social (10)) de um professor doutor de Coimbra meu Deus, que sigo há anos para o efeito de lhe cascar no asneirol, a benemérita rede classificou o meu post, singelo e curto como se quer, de “conteúdos sensíveis”. Conteúdo sensível, é? Então não se pode perder. E antes que o apaguem fica aqui:

O esquerdismo é uma praga que corrói os fundamentos de uma sociedade sã, e pior se se apresentar embrulhado em argumentos de aparente bom senso. O imposto sobre as sucessões (que este empáfio diz que foi extinto mas não foi) consiste nisto: a riqueza que sobra depois de pagos todos os impostos no percurso que a ela levou não pode ser deixada aos herdeiros sem que a comunidade, qual abutre, vá lá comer a sua parte, cuja quantidade é arbitrária. Este gatuno (EH um gatuno, roubar para dar aos outros não é menos roubo por isso) chega a achar natural que, para pagar o imposto, se tenha de vender uma parte do herdado. A mais deletéria praga económica dos nossos dias é o marxismo reciclado em fiscalidade predatória e igualitarista.

Contos de Natal

José Meireles Graça, 19.12.21

É o tempo dos bons sentimentos, que dispenso se tiverem época, das histórias inspiracionais, que aborreço, dos filmes puxa-saco mil vezes passados, que enjoo. Natal, em suma, do qual gosto tanto como das outras festas, isto é, pouco. A não ser pelas crianças, porque é a festa delas. Se soubesse, escrevia um conto para elas. Como não sei, escrevo dois para os pais. Pouco natalícios, os 

CONTOS DE NATAL

A porta abriu-se com estrondo e entrou Miguel, que a empurrara com o pé, derreado, carregando com dificuldade uma enorme caixa.

O jogo, brevemente interrompido, recomeçou. E nem três minutos depois a cena repetiu-se – nova caixa, igualmente pesada, aparentemente.

(Irra, que já não lembro quantas saíram de copas. Acho que falta o ás e uma dama, pelo menos).

Pás, lá vem o Miguel e nova caixa, igual.

ꟷ Porra, Miguel, de que são essas caixas?

ꟷ São de cartão, sr. Fulano.

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Tendo visto entrar o cliente antigo, de rotinas enraizadas e hábitos de consumo abundosos, Carlos apressou-se a explicar à nova empregada que, àquela hora, se tratava de preparar um gin da garrafa especial que estava em tal sítio, com a casca de limão e o sumo assim e assado, a rodela sem pevides. Percebes? Percebo, claro, sr. Carlos.

Sr. Fulano, esta é Carla, a nova empregada. Carla, o sr. Fulano é um cliente especial. Baixei a música porque ele não gosta da música alta. OK? OK, sr. Carlos, percebido.

Carla, muito nova, tinha o cabelo apanhado, a fazer um rabo de cavalo, que emoldurava um rosto bonito, olhos levemente orientais. Estatura meã, uns jeans justíssimos e uma blusa aos quadrados que vestiam uma obra bem acabada da mãe Natureza.

ꟷ Então o senhor não gosta da música alta?

ꟷ Na verdade não gosto de música, nem alta nem baixa, Carla. Sabes porquê? Antes que to diga, não levas a mal que te trate por tu?

ꟷ Claro que não me importo. E então?

ꟷ Então há certa música de que gosto, mas não é do tipo que se pode pôr num sítio destes. Tenho manias, sabes? Olha, uma delas é tratar as pessoas, se simpatizar com elas, por diminutivos. Por exemplo, levas a mal se te tratar por Cacá?

ꟷ Cacá? Sim senhor, mas também posso tratá-lo por um diminutivo?

ꟷ Sem dúvida. Para mim é uma novidade, mas nada a opor.

ꟷ Estava a pensar em senhor Gagá.

A lista dos patifes

José Meireles Graça, 08.12.21

Enunciar o óbvio (também tenho direito a começar uma frase pelo infinitivo, e hoje foi o dia): As crianças não correm qualquer risco credível de morrerem da doença, a vacina nem sequer garante que deixem de poder contaminar e as pessoas que poderiam ser contaminadas e correr riscos já têm a protecção possível, dada a sua quase totalidade estar vacinada. Na parte em que ainda não estejam, em particular porque as vacinas, coitadinhas, enfraqueceram, e porque já se percebeu que a imunidade de grupo é inatingível por o vírus sofrer mutações para viver tranquilamente entre nós, o que os poderes públicos têm a fazer é disponibilizar, para quem queira, versões mais recentes que as farmacêuticas, a quem saiu a sorte grande, vão disponibilizando.

Portanto, do que se trata aqui é de uma experimentação social para a escumalha infecta que pastoreia a grei impingir a ideia de que merece ser conservada nos seus poleiros, por estar a fazer tudo o que é possível. A multidão crédula vai provavelmente levar os seus rebentos à pica, na dúvida, porque mal não fará. E a DGS fica confirmada como um organismo essencial nas nossas vidas – mais do que a AT, a ASAE e as outras autoridades que se asseguram de que andamos na linha, sendo esta o que elas decidem para nosso bem.

A classe médica está nas suas sete quintas: Isto significa que o vírus, que nunca provocou baixas sérias, lhe deu o inimaginável poder de transformar opiniões e conselhos em normas de vida imperativas. Com dois preços: aqueles médicos que se afastem do consenso (isto é, da opinião médica maioritária) devem ser silenciados até onde for possível porque, se do que se trata é de levar as pessoas a adoptar comportamentos, a dúvida estraga o suave arranjo; e o reforço da importância implica um acordo com o poder político porque este não pode dispensar a cobertura da ciência, a qual, na sua declinação de organismos oficiais, não pode dispensar o poder político porque, sem ele, se condena a uma relativa irrelevância e não à gostosa visibilidade que o pânico lhe conferiu.

Os matemáticos estão nas suas sete quintas: Alguém alguma vez soube ou quis saber o que são modelos epidemiológicos, o R(t), as curvas que era preciso achatar? Pois bem, Buescu, Antunes e outros foram subitamente catapultados para o estrelato, e é provável que lá fiquem ainda mais tempo do que o José Maria da Casa dos Segredos.

Os jornalistas estão nas suas sete quintas: Não precisam de investigar, nem de ouvir versões contraditórias, nem de acolher dúvidas. São o quarto poder, não são? E haverá actividade mais nobre do que utilizá-lo para difundir o Bem, a Lucidez, a Saúde e a Ciência, tudo maçarocando notícias das agências ou doutros órgãos, num abençoado copiar/colar, ao mesmo tempo que se esfregam com pessoas de representação que os encaram com os olhos ternurentos da cumplicidade?

O Governo está nas suas sete quintas: O SNS está em ruínas porque assenta no pressuposto constitucional, arnautiano, socialista e demencial de que a saúde pode ser universalmente gratuita, ainda por cima com a maior parte dela assentando em estabelecimentos de propriedade e gestão públicas, sem que um dia esbarre na parede das boas contas. A abençoada Covid esconde o desastre: morre muita gente, é? Pois, maldita Covid, o que nos havia de suceder.

O pequeno ditador que a maior parte de nós traz dentro de si está nas suas sete quintas: Há por aí uns cidadãos meio dementes que fazem gala do seu desrespeito pelos outros passeando-se sem máscara, ou fugindo da prisão domiciliária, ou que duvidam dos senhores padres e da Santa Madre Igreja (perdão: dos cientistas Antunes e D. Graça e da DGS)? São inimigos da comunidade dos fiéis, fogueira (credo, que exagero, uma multa basta) com eles.

Ora, que discurso descabelado: é só uma recomendação. Não, não é. Porque já com as vacinas para adultos e os certificados que se descarregam da Internet estávamos a falar de recomendações, não de obrigatoriedades. Mas como para viajar, ou ir a um restaurante (já não sei se em todos os dias se apenas naqueles em que o vírus ataca com mais ferocidade, por não serem úteis), e para numerosas outras situações comezinhas, era necessária mostrar, como dizem os franceses, patte blanche (a pata aqui compreende-se, e branca também), na prática a vacina era, e é, obrigatória, e agora até com o requinte de um palito gigante esburacando as narinas frementes de ansiedade para saber se se pode ir à discoteca. Com as crianças também será: são perfeitamente livres (não elas, exactamente, mas quem tem a responsabilidade delas para o efeito de as sustentar, que para o mais o Estado reconhece perfeitamente os direitos dos pais desde que os esvazie) de não se vacinarem – desde que não ponham os pés na escola.

E é aqui que aparece outra categoria de pessoas que também está nas sete quintas: Os hipócritas. Porque há duas razões pelas quais a vacina não é obrigatória: uma é que não é uma vacina – se fosse impedia a contracção da doença, ao menos durante um certo tempo, e portanto a sua difusão; e a outra é que, em todo o nebuloso processo, entre nós e entre os outros (ainda que com graus diferentes de insânia, cada país tem o seu conjunto próprio de medidas) convém associar os cidadãos às decisões para que a responsabilidade fique diluída. Já hoje se ouve à boca pequena que a razão porque se tomam tantas medidas irracionais e contraditórias (para além da natural inépcia de alguns funcionários superiores, como a Dra. Graça e a nuvem de apparatchiks que enxundia os serviços de saúde) é a necessidade de sossegar as pessoas fazendo coisas, seja o que for. O que quer dizer que o salvo-conduto futuro para o ajuste de contas retrospectivo com os responsáveis por males muito maiores dos que a própria doença já está feito: foi assim porque as pessoas o exigiam.

Um anúncio no âmbito da prevenção rodoviária dizia há anos, para evitar que as crianças fossem transportadas nos bancos da frente dos automóveis: Comigo a criança vai sempre atrás!

Agora vai à frente connosco, ainda que com isso não corra riscos acrescidos, mas porque convém associá-la ao nosso estampanço. E quem isto decidiu pertence a uma lista pouco edificante, mas infelizmente numerosa: a dos patifes.

Declaração de interesses: Estou vacinado por escolha própria, baseado no cálculo de que é provável que isso diminua potencialmente a gravidade da doença, se e quando a contrair; cumpro algumas regras a que resolvi aderir e nada tenho a dizer sobre as que os outros devem seguir.

Souza Felgueiras

José Meireles Graça, 03.12.21

O menino da casa trouxe um amigo para almoçar.

Ficou em frente à menina, e esta confidenciou muitos anos volvidos que ficara espantada com o paleio torrencial – nada que perturbasse o pater famílias que presidia à mesa e que deu corda ao palavreado do atrevido.

Achou a amesendação fora do mundo, comeu com apetite e reteve com espanto o formato dos pratos – eram todos quadrados.

O formato dos pratos, que aliás sumiram há décadas, era o menos, que com o tempo foi aprendendo que aquilo era uma casa de artistas com uma hierarquia de prioridades muito particular: não havia cortinados porque não eram precisos mas havia móveis ou peças de arte preciosas adquiridas em leilões ou antiquários; não havia televisão (veio a haver muitos anos mais tarde) porque isso não dá nada de interesse mas a aparelhagem sonora era caríssima.

De música, ouvia-se jazz, e dentro deste clássicos da especialidade e não experimentalistas ocos. A menina e os meninos gostavam mesmo era das musiquetas anglo-saxónicas e francesas da época – anos 60 – pelas quais o dono da casa nutria uma intensa aversão. Às vezes cedia e punha, do mundo da música boa, uma Aretha Franklin ou um Ray Charles, mais próximos do nosso gosto pop.

Uma vez vi uma história de bolso do jazz, que comprei e li rapidamente. E logo que calhou estar a passar na aparelhagem (um amplificador Revox que aquecia prodigiosamente, um gira-discos Thorens) um pianista qualquer declarei meditativamente que me parecia reconhecer ali traços de um Jelly Rol Morton, senão mesmo de um Art Tatum. O (para mim) velho espantou-se: como raio é que você os conhece? Ora, declarei com falsa modéstia, não havia de conhecer? – são clássicos.

O mundo que fui espreitando, porque jamais deixei de ser visita assídua ainda antes de ser familiar, era o de uma rotina em torno das aulas na Escola de Belas Artes do Porto e de pintura num atelier então fora daquela primeira casa. E com conversas e discussões de visitas fui lentamente absorvendo o interesse (no meu caso distante, como ainda hoje) por aqueles assuntos: a minha praia eram leituras, e ali o deus era Camilo, não o Eça que lia (e, dada a idade, mais seguramente treslia) compulsivamente.

O centro dos meus interesses não era o Mestre (assim naquela época, e não sei se agora, muitos alunos tratavam os professores) mas, sem querer, acabei por ser influenciado reflexamente pelo seu natural papel de figura tutelar da vida daqueles dois irmãos (a filha viria a concluir o curso de Pintura, o amigo o de Arquitectura).

A peça era, a seu modo, fascinante: tinha um conhecimento enciclopédico sobre História de Arte, com opiniões definitivas sobre importância relativa, mérito e demérito de artistas, tanto clássicos como contemporâneos, um reconhecimento instantâneo de quaisquer trabalhos, incluindo o local ou museu em que se encontravam, e uma detecção infalível de quem influenciou quem e quem inovou o quê; conhecia razoavelmente a história da música mas ouvia sobretudo jazz; era versado em literatura, sobretudo portuguesa do séc. XIX; de História, sem ser especialista, dominava a portuguesa; um bricoleur impenitente; e de sistemas políticos, economia, ciências exactas, sabia o suficiente para ter detestado o salazarismo sem todavia ter absorvido a moeda corrente no meio em que se movia, e que eram declinações várias de doutrinas comunistas, que abominava, além de guardar, para certos projectos ou realizações arquitectónicas desastradas, a condenação definitiva: são coisas de engenheiros.

Ideias claras sobre pintura e escultura incluíam a consideração de que os três verdadeiramente grandes pintores portugueses foram Nuno Gonçalves, Domingos Sequeira e Henrique Pousão; que, dos contemporâneos, talvez os maiores fossem Júlio Pomar, de Lisboa, Tito Roboredo, Júlio Resende e Eduardo Luís, do Porto, ou ainda Dórdio Gomes, de quem foi aluno dilecto; que a fama de estrelas como Vieira da Silva era uma coisa nascida em Paris, por razões de promoção interesseira, e ecoada em Portugal, sem verdadeira dimensão para extravasar desses limites, assim como a de Paula Rego derivava da excessiva  filiação em Lucian Freud, nos dois casos sem a marca do génio que fica; e que na escultura portuguesa Soares dos Reis podia ombrear com os melhores seus contemporâneos estrangeiros, sendo Salvador Barata Feyo, nos nossos dias, um gigante insuficientemente conhecido.

Dizia isto e muito mais, na serenidade algo ingénua de quem não pretendia chocar, por ser completamente desprendido. Por um lado sabia com que fios se cosiam as reputações no mundo da Arte, e por outro espantava-se com a debilidade de conhecimentos técnicos e históricos em que se fundavam boa parte dos chamados críticos de Arte. Numa entrevista gravada (e com a qual me fartei de rir por adivinhar o espanto do entrevistador) lhe ouvi, sobre José-Augusto França, que respeitava: Sabe, o Professor Augusto-França de pintores do Porto não sabe nada!

Além do bricolage, teve interesses esporádicos, que duravam anos antes de se finarem, por outras coisas: fotografia e corridas de minimodelos, nas quais participava com entusiasmo, ou comboios eléctricos para os quais construiu uma minuciosa paisagem do velho Oeste, por onde eles serpenteavam, e que enchia uma sala, por exemplo. E contagiou-me no amor duradouro da banda-desenhada franco-belga, cujas principais revistas, o Spirou e o Tintin, assinou até que acabaram.

Foi feliz, enquanto professor, até ao 25 de Abril, após o qual acabou por odiar a guerra pelo poder que se instalou na Escola, o abandalhamento da exigência, a hiperpolitização dos procedimentos, as assembleias gerais intermináveis, os saneamentos, as facadas nas costas, a promoção de medíocres e a geral decadência que, ainda que abrandando com o tempo, se estendeu até que se aposentou, por limite de idade, em 2000.

Descia facilmente a assuntos que a nós, adolescentes, interessavam. Derrotava-nos, por exemplo, sobre automóveis: o melhor que há é o Rolls-Royce, em carros correntes o Renault (sempre teve Renaults); Mercedes são carros de praça e os Volkswagens são muito resistentes mas as oficinas estão cheias deles.

No meio artístico particularmente endogâmico (a galeria financia a exposição, incluindo no estrangeiro, mediante comissão, o crítico é amigo do dono da galeria, que é amigo do pintor, e todos ganham a vida como professores da Escola do Elogio Mútuo, ao serviço do cliente metido a amador de Arte que espera valorização com os panegíricos) foi sempre um outsider, porque isso lhe quadrava com o feitio e com a independência económica. Independência que não o poupou a algumas picardias carreirísticas de colegas ambiciosos – o meio universitário é sacana – mas sem males maiores: só queria dar as suas aulas e pintar em paz, não fazer sombra a colegas. Para a pequena história, quando calhava virem a propósito galões professorais, sempre se omitia cuidadosamente que Souza Felgueiras havia sido, em 1958, classificado com 20 valores na sua tese de formatura, o que já não sucedia desde 1930 (com Dominguez Alvarez).

Deixa obra em edifícios públicos, por exemplo no Tribunal de Castro Daire com um fresco, no Palácio de Justiça do Porto com uma tapeçaria ou óleos nas Pousadas de Bragança e Miranda do Douro ou no Museu Soares dos Reis, e em numerosas colecções particulares.

Sobre ela tenho uma opinião, mas não a vou consignar aqui. Não por causa da falta de autoridade (que, se achasse útil, supriria com franqueza e suficiência – uma das razões porque tanto trafulha faz passar como Arte a sua genuína inépcia artística é que o cidadão comum espera, para formar a sua, pela opinião do entendido) mas por não duvidar de que o único grande crítico é o tempo.

Tempo é o que não falta agora à memória de Souza Felgueiras, que morreu ontem. Por mim, foi um imerecido privilégio da minha vida não apenas ter com ele privado, mas ter sempre podido contar com a sua inabalável tolerância.

Dia de não-feriado

José Meireles Graça, 26.11.21

Ontem foi dia de não-feriado. Compreende-se: os feriados cívicos celebram datas marcantes e comemorar duas datas de dois anos seguidos, 1974 e 1975, seria demasia: naquela madrugada inteira e limpa, no dizer inspirado da poetisa Sophia, grande para os que assim a acham, ou estava uma grande e pouco épica nevoeirada ou brilhou o sol do unanimismo.

Brilhou o sol do unanimismo: cada um viu no 25 de Abril o fim de um regime que não deixava ninguém manifestar as profundidades de que era depositário, e acreditou que no seu lugar ficaria a liberdade, o leite, o mel, o regresso dos soldados, a Europa rica, a democracia, o socialismo, a saúde, a explosão da criatividade artística reprimida e o consumo de coca-cola.

Como não podiam ficar essas coisas todas em simultâneo, o unanimismo desfez-se: uns queriam o modelo do Peru, de Cuba, de Moscovo ou de Pequim, e outros o da Suécia, ou da Dinamarca, ou de Bona ou do ami Mitterrand. Ou seja, o 25 de Abril celebra a unidade poética e ilusória, assente em equívocos, dos quais o primeiro era a negação do motivo verdadeiro do golpe, a recusa da guerra colonial; e o 25 de Novembro o senso e a poupança ao inferno cheio de boas intenções.

Doutro modo: uma data refere-se à unidade; e a outra à divisão.

Divisão entre vencedores, que foi a gente imperfeita e confusa da barafunda democrática, e vencidos, que foram comunistas e primos de vária pinta – a malta cujos descendentes ideológicos, quando não são os próprios cheios de colesterol, se alojam hoje no PCP e no Bloco.

A ter que celebrar alguma (e eu não celebraria nenhuma, por razões que abaixo explico), o 25 do quatro é que é.

O quê, associamo-nos então à comunistada e à bloqueirice, no primeiro caso correndo o risco de contrair dementarite totalitária e no segundo acne mental?

Sim. Quem não tem muita confiança no seu sistema imunitário é que tem receio de contágios. E depois:

Aqui há uns anos o meu amigo Hélder Ferreira envolveu-se numa discussão em torno do interessante problema de saber se se pode ser amigo de comunistas. Ele (e eu também, embora não tivesse molhado a sopa) achava que sim, uma turba de outros reaccionários que não. Porque aquela gente, se pudesse, roubava a muitos de nós – os que não fossem trabalhadores por conta de outrem – o modo de vida, e porque em nome da nossa liberdade fazia o que podia para a substituir pela deles, na qual não cabem vozes dissonantes, e portanto não caberíamos nós. Donde, como se pode ser amigo de quem defende um estado de coisas que nos anula, e a muitos meteria na cadeia? Não são adversários, são inimigos.

Raio de problema. Que encontra solução na contradição inerente ao respeito pelas liberdades, das quais o melhor exemplo é o da de opinião: ou abrange quem diz coisas completamente opostas às nossas convicções ou não é liberdade. E também no facto de um amigo comunista o poder ser (amigo) por acreditar sinceramente que nós não correríamos qualquer risco sério no caso de vingar a sua deles distopia – já que juram por fantasias irrealizáveis não há razão para duvidar da boa-fé em acrescentar essa ao lote.

Celebramos então aquele momento em que julgávamos que não havia desfiladeiros, crateras e vulcões entre nós, e esquecemos o outro em que nos livramos do perigo de o 25 de Abril de 1974 desembocar, afinal, num 1917 moscovita?

Não é preciso esquecer nenhuma das datas. Mas como, dos três dês que não sei quem inventou retroactivamente para o 25 de Abril – democratizar, descolonizar e desenvolver – o primeiro foi conseguido apenas pelo 25 de Novembro, o segundo abriu feridas com as quais a História ainda não acertou contas e o terceiro empalidece em comparação com o Estado Novo (mesmo que a maioria das pessoas, por ignorância condicionada, assim não o entenda), talvez fosse um óptimo terreno de entendimento acabar com um feriado, e não o substituir pelo outro.

Precisamos de datas pela mesma razão que todos os países que não estão cansados de o ser as têm? Precisamos sim. Mas como estamos afogados em dívida e a trabalhar menos é que, certamente, não a vamos pagar, podíamos acabar com o feriado do 25 de Abril sem o substituir pelo 25 de Novembro.

E então, de feriados cívicos, nicles? Estamos servidos: ele há o 1º de Maio, que os comunistas julgam que é um dia deles mas se tornou um feriado mundial que celebra o trabalho, e o 10 de Junho, dedicado a Portugal por razões oscilantes. E há o 5 de Outubro, que comemora um regime celerado fundado no assassinato de um homem bom, mas está ungido pela tradição. A qual santifica as coisas, se durar tempo suficiente, mas bem poderia neste caso ser corrigida nos discursos.

Não para celebrar o regime republicano, que nunca o mereceu, mas o Tratado de Zamora, que teve lugar no mesmo dia, e tem a vantagem de ser uma data plausível para o nascimento do nosso a tantos títulos detestável país, mas que é o único em que todos – comunistas, bloquistas, pessoas normais – não somos  estrangeiros.

Já basta o que basta*

José Meireles Graça, 21.11.21

A tolerância não é natural, a intolerância sim. Nos 200 ou 300 mil anos que levamos a calcorrear a Terra, mais vezes sim do que não, o diferente foi uma ameaça.

O crescimento económico, pilotado pelo progresso da ciência e da tecnologia, foi sobretudo uma invenção do séc. XVIII, antes disso tendo-se arrastado penosamente durante milénios. Daí que sempre a maneira de resolver problemas de subsistência, ou de excessos populacionais, ou de simplesmente viver melhor, tenha sido ir por aí fora a dar pranchadas no semelhante, à boleia de uma qualquer superioridade no armamento, ou na organização, ou no meio de transporte, ou na quantidade e experiência dos guerreiros, e noutros ous.

Na noite dos tempos vagas sucessivas de invasores se instalaram no meio de populações que dominaram, quando o espaço não estava deserto, e com elas se misturaram até que novas vagas vieram escaqueirar as sociedades entretanto formadas, fornecendo novas elites.

Com a agricultura e a sedentarização veio a escrita e a civilização (em sentido estrito; não estou agora para entrar em muitos considerandos), e quando civilizações floresceram que puderam construir impérios os benefícios foram derramados pelos conquistados sobreviventes, mesmo que às vezes por métodos um tanto, hum, expeditos (v.g. o exemplo de Júlio César, que mandou cortar as mãos a gauleses derrotados para inculcar convincentemente a ideia de que toda a resistência era impossível).

Gostamos de pensar que, como nas nossas sociedades do Ocidente há um conjunto de liberdades que foram consagradas na lei para todos, e que aliás nem saíram de graça nem existem, ainda, na maior parte do mundo, carregamos o farol da civilização. E é sem dúvida assim, ainda que o país líder desta maneira  de estar no mundo tenha recorrido ocasionalmente à noção, nem sempre bem-sucedida, de converter países à democracia pelo expediente de lhes despejar bombas em cima.

O passado projecta sombras compridas, porém; e a crença de que estamos de tal modo polidos, tolerantes e civilizados que somos capazes de avaliar as ameaças que as outras pessoas representam, pela sua plausibilidade, é um delírio de autocongratulação – não somos. O nazismo e a ameaça judaica foi anteontem; e qualquer guerra moderna, incluindo as civis, mostra, para quem precise de que se lhe mostre, que selvagens continuamos a ser.

O quê, guerras, nazismo, intolerância, não sei quê… isso vem a propósito de quê, é aquela coisa dos atentados de crentes da religião da paz, que gente com inclinação para a piada foleira, assim como eu, acha que é mais a religião da pás-catrapás enquanto o clero não for obrigado a recolher às mesquitas, coisa que não está perto de acontecer? Não, é coisa menos séria.

Menos séria mas mais incomodativa, por mais próxima. Temos agora um inimigo público declarado, a Covid. Espreita-nos no restaurante, não nas mesas porque em comendo o bicho que o não é fica desactivado, mas sempre que alguém se ponha de pé; no transporte público, salvo se toda a gente estiver açaimada ou se for um avião; no estabelecimento comercial, excepto se tiver menos de xis metros quadrados; e nas escolas, na rua, até mesmo dentro dos automóveis, e em todos os lugares ou situações em que as autoridades suspeitem que o Demo pode passar dos possessos para os crentes. Alguns objectos, indispensáveis embora, são particularmente ominosos, de que são exemplo as maçanetas das portas; e além do açaimo, a retirar unicamente para comer e lavar os dentes (neste último caso apenas para quem tiver esse hábito salutar), é de rigueur passar as mãos por líquidos de composição suspeita várias vezes ao dia, ainda que com riscos não menosprezáveis para a epiderme.

Que este inimigo internacional é uma ameaça não oferece dúvidas, e que tem causado grandes estragos também: por todo o lado os governos têm tomado medidas, com graus diferentes de intensidade, imaginação e empenho, o que prova o perigo; mas com o ponto em comum de terem dado cabo das economias, o que ilustra o estrago. E o inimigo é como as bruxas na Idade Média: sabe-se lá o que teria sucedido se não as tivessem queimado, a Fé hoje com certeza não seria tão sólida.

Pois bem: sucessivas vagas deste sopro dos infernos da imaginação têm varrido o mundo, deixando na esteira um número ridículo de mortos (por comparação com outras patologias, cujo tratamento entrou em descaso pela mobilização obsessiva com esta); encontram-se exemplos, de relativo sucesso e de relativo insucesso, para ilustrar todas as teses do bem-fundado das medidas, e o seu contrário; e de líquido sabe-se apenas que achatamos a curva, primeiro, depois vacinamos toda a gente, mesmo a que não pertencia a nenhum grupo de risco, para descobrir que a vacina não protege da doença, senão talvez na sua gravidade, nem impede a propagação (ou seja, não é uma vacina), que há aí uns medicamentos que talvez resolvam o problema ou talvez não, mas que o vírus é benigno, salvo em certas idades e, sobretudo, com comorbilidades, e mesmo assim nem para os velhos é uma sentença de morte.

Isto sabe-se, e deveria ser suficiente para os poderes públicos terem a lucidez de não continuarem a fazer asneiras e a praticar abusos para apagar o medo da populaça da qual se imaginam líderes, cujas brasas de cagaço a comunicação social assopra. Mas não: Marcelo, o timoneiro sem carta de marear, já veio confessar os seus medos infantis e doentios. E o régulo da Madeira, digno herdeiro do soba que por lá pontificou durante mais de três décadas, ambos, juntamente com a maior parte dos autarcas que enxundiam o país, claríssimos exemplos de que de descentralização é que não precisamos, veio pôr-se em bicos de pés e informar que vai pontapear a Constituição, as leis e o senso porque ele é el Cid das doenças infectocontagiosas.

O homem legisla, promulga e manda aplicar uma série de diktats que incluem vacinação obrigatória (passa a sê-lo na prática porque sem ela o cidadão é considerado pestífero, tendo toda a liberdade de não ir a lado nenhum), testes semanais obrigatórios mesmo para quem está vacinado, uso da máscara em quase todas as situações (incluindo, embora a “legislação” não esclareça especificamente esse ponto, enlaces íntimos com pessoas com as quais não se coabite) e uma série impressionante de minúcias. Tudo isto, supõe-se, com uma guarda pretoriana para aplicar as leis albuquérquicas e a certeza de que, se houver um maduro que recorra aos tribunais, terá a satisfação, como outros já tiveram noutras ilhas, de lhe ser dada razão sem que os autores dos abusos oficiais sejam minimamente beliscados.

Suponho que a maioria dos madeirenses, que não são nem mais nem menos portugueses que os do contenente, aplaudirá este homem de aço. Mas os direitos do cidadão nunca são mais assegurados do que quando a menor das minorias, que é o indivíduo, desafia o Estado abusador, prepotente e, no caso (mas isso é o menos), ridículo. E é por isso que o que recomendo, com a autoridade que não tenho, é a desobediência civil. Já basta o que basta.

*Publicado no Observador

Pensamento da semana

José Meireles Graça, 21.11.21

Dia 30 de Janeiro há eleições e lá estarei. O meu voto nunca contou para nada e este também não contará. Muita gente que acha, como eu, que cada voto não conta para nada ficará em casa. A democracia, porém, que é uma planta frágil, só funciona com humildade: se cada molécula de água reivindicar o direito de ser importante e não se incomodar a planta morre.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Sócrates revisitado

José Meireles Graça, 14.11.21

O almoço era à 1H, perto de Chaves, com gente de sólidas credenciais reaccionárias, a do costume, para um cozido à portuguesa de antemão apalavrado.

Gosto de chegar a horas, o que faz com que não poucas vezes chegue adiantado, mesmo sabendo que aquela tropa é portuguesa, o que quer dizer que em geral espero.

Vi no GoogleMaps que eram à volta de 90 km, passando por Fafe, Arco de Baúlhe e Ribeira de Pena, e saí por volta das 11H30. Parei na bomba de gasolina perto de casa para o primeiro café, que o dono generosamente ofereceu, e no Alvão para o segundo. Solidarizei-me com a moça, que estava a passar o chão a pano, dizendo: ui que chatice!, ao que ela retorquiu que era vida de pobre. Ponderei filosoficamente que pobres hoje éramos quase todos e a rapariga, de aspecto atraente, observou que sim senhor, sobretudo de espírito, mas que ela, graças a Deus, estava quanto a isso bem servida. Concordei, claro, que não sou desses que andam por aí a discutir nas bombas de gasolina com empregadas bem-apessoadas.

Esperei um quarto de hora e foram chegando – fomos para dentro já eram quase 1H30, o que até calhou bem porque essa é a minha hora de almoçar, informação que não escondo por ser de grande relevo.

As entradas eram poucas mas excelentes e o cozido brilhou a grande altura. O tinto rompia meias solas com dignidade e o branco não bebi. Incluía fígado de porco, que não estou habituado a ver e que provei a medo, tendo ficado – pelo menos daquele – entusiasta.

E então é só isto, a história não tem moralidade? Tem: antes do sr. Eng.º Sócrates era pouco provável que nos lembrássemos de ir almoçar a Chaves (um dos convivas vinha de Madrid, com a mulher espanhola e os quatro filhos, os outros do Porto, e apenas eu do altar da Pátria) e, se semelhante ideia nos passasse pela cabeça, as horas de saída teriam de ser outras e quem não fosse ao volante chegaria provavelmente enjoado.

Era assim. E agora que aquela personagem sumiu quase completamente das notícias, quem o levou num andor querendo fazer esquecer que ganhou eleições limpamente, quem nele votou pretendendo que foi enganado, e quem o gabou na comunicação social tendo agora novos iluminados para incensar, venho eu que sou eu dizer que deixou em herança uma rede de autoestradas que foi um grande benefício.

Esta reflexão profunda comuniquei a pessoa de discernimento, que me disse: pois sim, empenhámo-nos até aos cabelos e se calhar o que deveríamos ter promovido era o transporte por caminho de ferro, que isso dos automóveis, dos combustíveis fósseis e não sei quê não está com nada.

Não achava na altura, e não acho agora, que o investimento em autoestradas tivesse sido mau, que o saudoso Medina Carreira (que faz muita falta, não deixou herdeiros) tivesse razão neste ponto, e que tenha sido por causa das autoestradas que o país não se desenvolveu. Infelizmente, a “aposta” num só factor, sejam as autoestradas seja a educação, não gera desenvolvimento por si: é preciso um conjunto deles, o maior sendo a liberdade económica.

De resto, o negregado Sócrates deixou as autoestradas. E o seu dilecto seguidor e antigo braço direito, que está aí impante e que talvez ganhe as eleições, vai deixar o quê, além da dívida que fez crescer?

A TAP. I rest my case.

Comentariado anestesiador

José Meireles Graça, 10.11.21

Ultimamente tem calhado ouvir José Miguel Júdice. Durante muito tempo não foi pessoa cujas congeminações me despertassem grande atenção. Em tempos escreveu um texto sobre empreendedorismo (a palavra, detestável, nem sequer era corrente) que guardei algures porque era excelente, mas geralmente daquela lura saíam as mesmas banalidades que podia ejacular este ou aquele prócere do PSD, com mais ou menos cavaquismo embutido. Que o homem, indiscutivelmente brilhante, acertasse com frequência no cravo, não excluía que, basicamente, o seu discurso fosse o de um social-democrata europeísta, portador portanto de uma doutrina inconveniente para Portugal num caso e de uma abominação no outro, nos dois por razões que não vou agora discutir.

Sucede que aquando da maluqueira covidesca o homem fez aquilo de que quase toda a gente abdicou, cá e em quase toda a parte, que era exercitar um cepticismo militante em relação às medidas irracionais, contraditórias e contraproducentes com que os poderes públicos, aterrados por uma opinião pública atacada de pânico colectivo, e uma comunicação social acéfala, preguiçosa e seguidista, lidaram com o problema.

Passei, volta e meia, a ouvi-lo, e ontem calhou. O tema eram as eleições legislativas e os possíveis resultados e mudanças político-partidárias, e boa quantidade de latim foi despendida sobre a recente entrevista de Costa.

Não a vi (o palavreado costiano, na parte em que substantivamente diz alguma coisa sobre desenvolvimento, é um conjunto de crenças nos poderes demiúrgicos do Estado e de tolices cansadas, e na parte em que vende a banha da cobra da sua táctica política é um exercício de habilidade cínica – não vale a pena e ademais corre-se o risco de desaprender português) e Júdice explicou convincentemente as trapalhadas dos joguinhos de poder do PS, dos do PSD, dos da esquerda demente (que ele jamais qualificaria assim, mas eu não tenho uma educação esmerada), e dos de Marcelo. E ficamos a saber que há fortes probabilidades de o país vir a ser governado por uma coligação e que o mais provável é essa coligação ser a do PS/PSD, cavalo em que o Presidente rodilhão, ao que parece, aposta, sendo que o dito gosta mais de Rangel mas o que lhe convém é Rio porque o primeiro já queimou os barcos.

Tiro-lhe o meu chapéu: a análise é hábil, a explicação sobre motivações e intenções percuciente, e as conclusões convincentes. Não é absolutamente claro sobre o que vai suceder porque, experiente, sabe que todos os cálculos podem sair furados.

Isto diz. E também prevê uma reconfiguração tanto da esquerda como da direita, a primeira com o nascimento de um partido genuinamente verde e a segunda com uma época de transferências de personalidades que estão em alas dos partidos para outros mais homogéneos, o que tudo facilitará coligações – é mais fácil dialogar com líderes de outros partidos do que com chefes de facção ou inimigos dentro do próprio partido.

Ao Centrão o senador Barreto, pessoa de grande prestígio porque é um homem de esquerda a quem acontece dizer coisas sensatas que a direita com frequência aprecia, já havia dado a sua bênção em texto no Público de 30 de Outubro, transcrito no Sorumbático.

Peço porém desculpa para achar que todas, mas absolutamente todas, as masturbações mentais sobre o jogo político no momento presente (e disso vamos ter abundância, logo ao mudar de canal apareceu Marina Costa Lobo, conhecida politotóloga – não me enganei na grafia – que ainda ouvi declarar não ter partido, e que me fez fugir precipitadamente) que incluam, sem acompanhamento de trombetas do apocalipse, previsões sobre a probabilidade de um Centrão ou, pior, uma frente de esquerda, são antipedagógicas.

São antipedagógicas porque fazem passar a ideia de que política como de costume é o que nos convém e que, para lidar com os problemas que aí vêm, uma coligação entre gente que, como Rio, quer reformas de faz-de-conta-que-sei-o-que-estou-a-fazer, e outra que nem essas quer, ou um governo cambojano sob a égide do ferrabrás Pedro Nunes Santos, são caminhos que possamos encarar com tranquilidade.

A verdadeira razão pela qual estes pensadores se aventuram por estas adivinhações é que estes arranjos partidários e estes costumes são o ordinário em certa Europa de hoje, nomeadamente na Alemanha. E como tudo chega às nossas praias esta tendência também chegará.

Sucede que a Alemanha não tem a nossa dívida, e mesmo que partilhe connosco uma gestão socialista do país (refere-se pouco que, tal como nós, tem tido um crescimento débil numa União que não cessa de perder importância no mundo), tem contas públicas sãs, fruto do horror histórico à inflação, e uma excelente base industrial. Sobretudo, não tem, como nós, nenhum atraso atávico para recuperar. Também não consta que a Alemanha (ou a Itália ou a França, já agora) se tenham dado ao trabalho de promover a geração mais bem formada de sempre para o efeito de, via exportação dos mais jovens e ambiciosos, fortalecer outras economias, ou que tenham liquidado a sua grande indústria, ou cujas punções fiscais não deixem nada no bolso da classe média, ou mais meia-dúzia de ous.

Podemos andar a brincar à democracia fingindo que a geringonça que temos tido seria possível sem o chapéu acomodatício do BCE, que nos vem poupando à falência, e os milhões que a EU todos os anos despeja para o Estado investir um mínimo, porque o grosso é gasto a sustentar dependentes, enquanto o sector privado nem sonha em investir um cêntimo, que aliás não tem, sem apoio dos fundos?

Podemos – temos podido. Mas quem julga que as nuvens negras que há muito estão no horizonte nunca descarregarão um temporal, e por isso acha que podemos jogar à sueca ao relento, de jogadas marcelísticas entende, como o celebrado estadista, muito. Agora, de prudência, que evita os acidentes, é que nem por isso.

Em 1973 havia muita jogada de luta política (a de bastidores, que é a possível em ditadura), e logo também previsões e cenários. O que não houve, salvo por alguns maduros, foi a antecipação de que o teatro podia desabar porque havia um problema para resolver, que era a guerra colonial.

Temos agora um outro problema para resolver, que é o que fazer a um Estado que não podemos pagar porque o país não cresce, e que não cresce porque o Estado não o deixa crescer. O comentariado acha que esse problema se resolve com uma coligação Rio/Costa, ou Rangel/Costa ou Costa/Tininha/Jerónimo. Já eu entendo que, a não podermos ter um governo de regeneração, sempre será melhor que Costa, ou o azougado Pedro Nuno, deem com os burros na água sozinhos.

Cecília

José Meireles Graça, 06.11.21

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Veio direita a mim, num passo decidido, e disse, o indicador professoral espetado no ar: Ó senhor dono papá, já lhe disseram que é um fogueirinhas? Após o que girou nos calcanhares, retirando-se com dignidade.

Na tarde ensolarada, junto ao tanque, ardiam detritos que carreara para o sítio onde, então como agora, quase quarenta anos mais tarde, os queimava. E fiquei meditabundo: tenho uma filha com quatro anos que me dá aulas? E dono o que é? – ah, já sei, é o masculino de dona.

Papá, como era no tempo da Revolução? A mamã diz que tiveste uns problemas. Mas estavas no PS, não estavas? Conta.

Contei, não sem inquirir de onde vinha o súbito interesse. Andava a ler umas coisas, disse, e pasmei: com treze anos a miúda lia muito e à bicicleta encostada ligava pouco, mas ler jornais que despertavam a curiosidade de ir escabichar o passado era, para mim, motivo de alguma perplexidade. O meu pai, morto então já há trinta anos, tinha o hábito, quando se zangava, de fazer algumas referências pouco lisonjeiras à minha costela de leitor ávido (o qual para os afazeres domésticos contribuía com zero), mas estava-me a começar a parecer que os genes, na transferência de mim para ela, tinham levado um polimento.

Aos 17: A tua filha gostava de ir assistir a uma conferência em Lisboa, na segunda-feira. Parece que é com Paulo Portas. O quê, a Lisboa, Paulo Portas? Diz-lhe que a levo.

(Esta agora, aqui vou eu em direcção a um Forum Picoas que não sei onde fica, assistir a uma conferência. O homem tem interesse, mas francamente.)

Foi sempre a melhor aluna até à Faculdade mas uma vez, zás, aconteceu uma desgraça: tirou uma nota menos boa e o desgosto envolto em lágrimas afligiu sobremaneira Aníbal, o cão familiar, que a cobriu de lambidelas. Inteirado do sucesso, devo ter dito qualquer coisa pouco simpática: aluno medíocre, adepto de atitudes estóicas, sobranceiro em relação a professores metidos a besta (e até aos outros) e com tolerância a sensibilidades femininas em quantidade diminuta, o episódio pareceu-me anómalo.

Na Universidade, em Coimbra, fui sabendo que se enfarinhara no CDS e que, por ocasião de frequências e exames, ficava em estado de ansiedade, invariavelmente injustificada porque nunca chumbou. Sempre ministrei conselhos inabituais, que incluíam a recomendação de frequentar discotecas, ligar menos importância a classificações, eventualmente admitir um chumbo como forma de consolidar conhecimentos, e outros em matéria de comportamento adequado para uma jovem, que não vou explicar. Acho que as amigas de alguma coisa estariam ao corrente, porque pelo menos uma confessou que eu era o pai que lhe conviria, mas pode ser que esteja enganado. De toda a maneira, já então sabia de ciência certa que os únicos conselhos que aceitaria, de mim ou qualquer outra pessoa, seria os que passassem o crivo do seu próprio critério. De modo que era mais pai e filha a falarem.

Acabado o curso, o estágio e o exame da Ordem, sugeri em determinada altura que fizesse um MBA. Fez, provavelmente porque já tinha essa intenção, e gostou – de gestão, de contabilidade, de finanças, porque a parte do cérebro alocada às humanidades e à juridicidade não inibia a intuição para a matemática e a economia.

O mais foi a carreira em lugares políticos, uma vocação, um vício e uma obsessão. E fui progressivamente pasmando: de cultivo interesseiro de relações com jornalistas e angústias com a imagem nada, de estudo, preparação e discrição muito; de calculismos apenas os legítimos, e temperados com fidelidades e amizades sólidas; escolha de políticas fundada em reflexão e conhecimento; discurso sereno, sem ademanes histriónicos mas com oratória inspirada nas ocasiões em que isso se requer; e brilho discreto sempre, o natural de quem nasceu sobredotado.

Abandonou ontem a carreira, acossada por gente que lhe deveria segurar o andor. E eu abandono a discrição que sempre me impus, a benefício dela por não lhe acrescentar nada o saber-se ser filha de quem é, para fazer votos, como cidadão, de que possa regressar quando os miasmas, que empestam o ar, se dissiparem.

Como pai, é claro que, na política ou fora dela, o que desejo é que reencontre a serenidade que merece.

Cidadania da boa

José Meireles Graça, 06.11.21

Henrique Pereira dos Santos, aqui, e Luís Aguiar-Conraria no Facebook, pronunciaram-se sobre o caso do pai de Famalicão cujos filhos foram chumbados por faltas à disciplina de Cidadania. Diz o segundo:

"É extraordinária a incapacidade de tanta gente de separar dois assuntos. Uma coisa é a sua opinião sobre se uma disciplina na escola deve ser obrigatória ou não, outra é a autonomia que um pai deve ter para impedir que uma criança não frequente uma disciplina obrigatória. Vá, esforcem-se, são dois assuntos diferentes. É possível ser contra que uma dada disciplina (História ou Cidadania, por exemplo) seja obrigatória e mesmo assim considerar inaceitável que um pai impeça os filhos de a frequentar". 

Nunca ouvi falar de ninguém que se opusesse ao ensino de História. É claro que um historiador marxista acentua no processo histórico aspectos diferentes, e deduz causalidades diferentes, do que aquele que o interpreta sem a obsessão da luta de classes, do  materialismo dialéctico e dos outros versículos da bíblia marxista; que um clássico se baseia mais nas acções de personagens ilustres e um moderno em factores geo-estratégicos ou climáticos ou de evolução tecnológica, ou, ou, ou – as combinações são infinitas; que constantemente aparecem novos dados, documentos e contributos de ciências ancilares, que originam novas interpretações; e que o esforço de interpretação nunca está inteiramente esgotado, desde logo porque é um exercício quase inacessível despir a pele das nossas convicções, interesses e conhecimentos ex post facto para vestir a dos contemporâneos e imaginar-lhes as motivações e intenções, para não dizer que boa parte dos historiadores usa a História para ilustrar os seus preconceitos, e actualmente, com frequência, para ajustar contas com ela, corrigindo reais ou imaginários tortos do passado.

Estas e outras dificuldades fazem com que a História de Portugal e a Universal que se ensinam hoje não sejam a mesma coisa que se ensinava há 40 anos, nem a que se ensinará daqui a 20.

O que tudo junto, porém, não obsta a que o ensino da História seja uma necessidade pacífica, já porque só podemos entender o que somos e o que os outros são se conhecermos o que fomos e foram eles, já porque quem não conhece os erros do passado se condena a repeti-los, e um imenso etc. – a justificação vem às vezes no princípio dos manuais de História e quase toda a gente aceita o seu estudo e ensino como fazendo parte do acervo mínimo dos conhecimentos do cidadão alfabetizado.

Daí que a comparação seja infeliz: a História, as línguas, a Geografia ou as Ciências da Natureza, a Matemática ou o Desenho, enfim, o conjunto das disciplinas que compõem o ensino básico e secundário, não comporta a conflitualidade política que a disciplina de Cidadania inclui necessariamente nem abre descaradamente a porta à formatação das cabeças dos meninos em mundividências que, no caso, calha serem com frequência de esquerda.

O próprio Aguiar-Conraria diz algures que não vê a necessidade da disciplina, e por isso sistematicamente, na esgrima verbal em que se deleita por vezes nas redes (como eu) cascou a este propósito em quem quis ver nas palavras dele a defesa dela, e não a das crianças que resultaram prejudicadas. Um bom argumento, que contestei num comentário que fiz no mural onde estava uma grande balbúrdia comentarial, e que transcrevo a final.

Já Henrique Pereira dos Santos defende o pai com excelentes argumentos, como é costume dele, no texto lincado acima, mas diz a certo passo que

“O relevante aqui é que a limitação do direito à asneira dos pais deveria, em primeiro lugar, ser decidida por escolas que deveriam ter autonomia para aplicar modelos educativos que, respeitando um conteúdo escolar mínimo que se entende que é o que respeita o direito à educação das crianças, poderiam ter uma grande diversidade.

Ora neste caso o conflito é entre uns pais que têm a coragem de afirmar os seus valores, tendo contra si todo o Estado, incluindo o seu sistema escolar, podendo estar a fazer uma enorme asneira (é um direito que lhes assiste) e um Estado cobarde que tem medo de lhes retirar a tutela dos filhos por entender que estão a prejudicar irremediavelmente o direito à educação dos filhos”.

Em parte, não o acompanho. Para mim, o sistema de ensino deve fornecer um selo de garantia de um certo conjunto de conhecimentos, o que implica programas e exames iguais em sucessivos graus, com classificações e correcções atribuídas e feitas por professores diferentes dos dos próprios alunos, ainda que os estabelecimentos devam ter a liberdade de adoptar os métodos pedagógicos que entendam, em escolas que deveriam estar, mas não estão, em concorrência por “clientes”, isto é, alunos. O que quer dizer liberdade na escolha do estabelecimento e, provavelmente, vantagem para os alunos oriundos de famílias com meios, pelo que fórmulas de intervencionismo correctivo seriam necessárias.

Mas isto não é a mesma coisa que defender a liberdade das escolas na aceitação ou rejeição de miúdos provenientes de famílias com idiossincrasias familiares de índole religiosa, política ou outra: tal escola é só para miúdos católicos, ou judeus, ou muçulmanos, ou comunistas, ou anti-touradas, ou pró-toiro, ou fanáticos da igualdade de género (come on, a propósito: o género é homo sapiens, o masculino e o feminino são sexos. Logo, a igualdade de géneros não existe senão por construção demencial de engenheiros sociais) ou das alterações climáticas? Então ꟷ não. Numa escola católica ou de outra denominação cristã, a existirem, o ensino religioso pode ser ministrado, desde que não seja obrigatório e desde que isso não implique a exclusão, se baseada em razões religiosas, de alunos. Porque, se não se entender assim, não se perceberá a que título é que amanhã não poderemos ter madrassas a formar terroristas e cidadãos inassimiláveis. E que se dane o multiculturalismo suicidário.

Não sei portanto qual a extensão da autonomia das escolas que HPS defende, mas parece ser bem maior do que a minha. De resto, nisto como em outras coisas, não sou adepto de localismos nem regionalismos: o meu Estado é pequeno mas forte, não local porque se o for não pode ser pequeno. Nem a liberdade se acrescenta pelo efeito de o Estado vir para mais perto.

No mais, sobre o caso de Famalicão, até podia demitir-me de acrescentar o que fosse. Mas como abundei em considerações no café do Facebook abaixo  transcrevo uma delas porque quem teve a paciência de ler até aqui pode bem sofrer o resto:

O motivo por que há tanta gente (da variedade que pensa; a maioria aceita qualquer coisa desde que corresponda a uma opinião maioritária e esteja vertida no DR) que entende que a disciplina nem sequer devia existir (e gente que não é suspeita de acolher opiniões delirantes ou crenças esotéricas) é que reconhece que a disciplina tem, e não pode deixar de ter, um conteúdo programático que implica fatalmente escolhas em matéria de ordenação social. Essas escolhas têm um conteúdo ligado aos fundamentos civilizacionais da nossa sociedade e do lugar em que estamos no mundo, e não precisam de ser ensinadas nas escolas sob a forma de moralidade oficial; ou reportam a matérias objecto de controvérsia e lutas políticas e são portanto uma escolha partidária em que os militantes de determinadas correntes, no caso maioritárias, reivindicam o direito de formatar os filhos dos outros. Separar as duas questões, isto é, achar que a existência da disciplina é uma coisa diferente da sua obrigatoriedade, é o mesmo que dizer que a leis iníquas é devida obediência. Mas não, a leis iníquas não é devida obediência. E este pai, ao dar esse exemplo aos seus filhos, está-lhes a ensinar cidadania. Da boa.

Centro Do Sumiço

José Meireles Graça, 01.11.21

Ao meu amigo João Távora parece não aborrecer excessivamente que tanta gente esteja a dar à sola do CDS. “O anúncio da morte do CDS foi um manifesto exagero, daqueles que receiam uma direita civilizada e afirmativa na corrida ao poder. Prefeririam sempre concorrer com palhaços inconsequentes. Será que chegou a nossa vez?”, diz ele.

Aparentemente, estes palhaços inconsequentes foram boa parte dos eleitos pelo CDS, e entre eles Portas, o Némesis da  corrente do CDS que João Távora integra.

Diz isto e já tinha explicado: “A propósito do mau perder de Adolfo Mesquita Nunes e de outros reputados militantes que agora fogem como ratos: ando há 14 anos minoritário no CDS onde fui obrigado a engolir os mais vis insultos e truques regimentais da malta do Portas para me calar. Nunca desisti de lutar”.

Já eu do CDS fui um militante distante até ao dia em que o partido apoiou Marcelo, passo que achei justificava passar-me ao fresco. As minhas razões expliquei-as publicamente e com elas, que me apercebesse, ninguém se afligiu, como aliás esperava: à vida interna do partido nunca liguei pevas e das raras vezes em que assisti a reuniões partidárias que não fossem no âmbito de comícios ou jantares fiquei pasmado com o nível, por demais pomposo e fastidioso, das intervenções. É assim em todos os partidos, ao que sei: a carne para canhão do activismo precisa volta e meia de orar, faz parte. Mesmo assim, nas últimas eleições fiz, como costumo fazer a benefício da minha empregada doméstica, que carece de conhecer a minha opinião para formar a dela, e da minha dúzia de seguidores, a recomendação habitual – votar CDS.

No CDS não se estava mal: a corrente democrata-cristã, designação elevada para social-democratas que vão à missa e supõem que nas encíclicas papais se encontram preciosos ensinamentos de governança; a corrente conservadora, isto é, thatcherista ou gaullista, bastante eurocéptica a um tempo e posteriormente euro-resignada; a corrente liberal, em geral composta de gente cujos modelos de raciocínio não deixam espaço para preocupações geo-estratégicas ou nacionalistas – tudo compunha um quadro de tolerância necessária, cujo cimento era a sobrevivência do partido e o contributo, ainda que ancilar, para soluções de governo que revertessem o estatismo sufocante que é uma das marcas de água do abrilismo.

Fora dos partidos, há a posição niilista dos que, por não encontrarem em lado nenhum a tradução partidária exacta do quadro de opiniões preciosas que lhes ornam as mentes esclarecidas, se abstêm; há a posição superior daquelas pessoas que, constatando que os partidos são máquinas de conquista e manutenção de poder cujos processos desprezam, se mantêm longe; e há os que, constatando que a acção individual de militantes anónimos pouca ou nenhuma importância tem no curso das coisas, dão o seu contributo unicamente na mesa do café, ou nas redes, onde peroram desconsoladamente sobre as insuficiências da democracia.

Mas, felizmente, havia militantes partidários, no CDS como nos outros partidos. E como, pela natureza das coisas, estes pertenciam a todas as direitas, visto que os restantes partidos eram de esquerda (o PSD, pelas razões que adiantei num dos textos lincados acima, só aparece reactivamente como de direita num país onde, por razões históricas, o espectro partidário está deslocado para a esquerda) a tolerância era necessária por razões de massa crítica.

Esta tolerância interna fraquejou sempre que a liderança foi de forma excessivamente incisiva marcada por uma das correntes. O negregado Portas sempre teve internamente inimigos, mas sempre teve o cuidado de permitir a ascensão a deputados, podendo impedi-lo, a corifeus das correntes internas depositárias, na opinião delas, do segredo do verdadeiro CDS, incluindo nesta tolerância José Ribeiro e Castro, que inapelavelmente derrotou.

O mesmo Ribeiro e Castro não se cansa de explicar (embora não seja fácil apurar, nos seus textos convolutos, o que realmente está a dizer) que o CDS do futuro é papista, ainda que no nevoeiro argumentativo fique por perceber se estamos a falar de S. João Paulo II ou do papa Francisco. E o que isto na prática significa é que os liberais fazem bem em ir lá para a capelinha deles e, presume-se, os indignados e raivosos sortidos para o Chega!. Assim depurado, e forte da sua reganhada consistência, o eleitorado, a prazo, fluirá.

Este CDS que nasceu no último Congresso, na ressaca do descalabro eleitoral de Assunção Cristas, quer curar as feridas do desastre, para o que entende que doses cavalares de intransigência (para dentro; para fora alojar-se numa barriga de aluguer não causa engulhos) são a cura indicada, visto que a derrota é atribuída aos ziguezagues doutrinários e tácticos da líder que se demitiu. A mesma que em fins de 2017 tivera em Lisboa, para a edilidade local, um resultado notável. Bem sei que são lisboetas, coitados, mas quand même: que se terá passado para uma tão grande queda de popularidade?

O que se passou foi a envolvência: havia mais palhaços na cidade, e eram eles a IL, o Chega! e o aparente sucesso da fórmula geringôncica – a mesma que agora se finou.

O que tudo deveria recomendar prudência: os vencedores de hoje são os derrotados de amanhã, a IL merece crescer mas nunca explicou como vai cortar na despesa pública, e o Chega! parece-se excessivamente com um furúnculo que, como é sabido, incha, desincha e passa. De modo que, travessia do deserto por travessia do deserto, não conviria abater cavalos, nem deitar fora os cantis da água que não seja puríssima.

Lobo Xavier, um senador que apoiou a eleição de Francisco Rodriguesdos Santos, tem muitas qualidades e muitos defeitos e eu, fiel às minhas pechas, nunca falei dele senão para o crucificar. Mas de falta de lucidez sobre ganhos e perdas é que não sofre. Pois diz: "Saem os melhores e ficam alguns dos piores", do que conclui: “Não tenho nenhuma vontade de aconselhar voto no CDS”.

Se eu fosse amigo das pessoas da Direcção do CDS como sou do João, dir-lhes-ia o que lhe digo a ele: De que te serve ser maioritário numa casa em ruínas?

E, é claro, a menos que um raio caia no Caldas e ilumine aquelas cabeças que se tomam por brilhantes e as leve a encontrarem uma solução para a sangria, com o meu voto, o da minha empregada e o dos meus doze leitores fiéis é que não contam.

Câmara Corporativa

José Meireles Graça, 30.10.21

Acabo de ver Isabel Camarinha a aliviar-se de declarações à saída de uma audiência no Palácio de Belém, cujo locatário também recebeu as confederações patronais, em nome das quais prestou declarações um tal Calheiros. Isabel foi significar ao Presidente as profundidades do seu pensamento sobre o chumbo do Orçamento, os salários, as greves e outros assuntos do seu breviário, e as confederações foram explicar por que razão abandonaram a Concertação Social, aproveitando, parece, para dizer não sei quê sobre o salário mínimo.

Convém dizer que Marcelo, se não partilhasse com a generalidade da opinião pública (que por sua vez é mais vezes sim do que não um reflexo da opinião publicada), convicções obnóxias sobre o que é o interesse público não recebia, nesta altura, esta tropa fandanga. O assunto neste passo são eleições, possível interferência do Governo no processo eleitoral em que é parte, prazos, situação dos partidos, etc., e nem os sindicatos nem as associações patronais têm seja o que for a ver com os mecanismos pelos quais o problema criado pela não aprovação do Orçamento se resolve.

No mínimo, esta gente foi lá fazer perder tempo, mesmo que este Presidente o malbarate habitualmente em vacuidades. E alimentar um equívoco corporativo, que consiste em supor que há um processo democrático paralelo em que corpos sociais têm interesses unívocos, esses interesses são encarnados por aquelas pessoas cuja representatividade é, para dizer o mínimo, obscura, e as opiniões veiculadas têm peso institucional relevante é, neste caso como noutros, uma desvalorização da democracia e da Assembleia da República.

Que os patrões se organizem em grupos de pressão, nada a opor, mesmo que esses grupos não abranjam patrões comuns, isto é, os que não dispõem de tempo para dedicar ao tráfico de influências e ao jogo de poder que a conquista de lugares de influência implica; e que trabalhadores se filiem ou vagamente apoiem sindicatos, mesmo sabendo que estes são frequentemente coios de comunistas e radicais, idem.

Não é porém sadio que a comunicação social descreva uma enguia irresoluta como António Saraiva como “patrão dos patrões”. Os patrões não têm patrão, isso os distingue, e a sua condição é o triunfo do individualismo, que só pode ser adequadamente representado por quem o defenda ferozmente – não é o caso de Saraiva, e duvido que de algum dos outros. E sendo natural que os trabalhadores comuns, cuja maioria não navega nas águas do esquerdismo assanhado, confiem mesmo assim em sindicalistas porque a militância fanática daqueles lhes pode dar jeito em situações de conflito com os patrões, já não o é que depois se venha oficialmente a receber a CGTP como se representasse os trabalhadores. Não representa: a CGTP é, e sempre foi, o braço do PCP para o mundo do trabalho (para usar o jargão deles), e quem tem competência para legislar sobre as relações de trabalho, mesmo que o faça desastradamente, é o Parlamento, onde estão representadas todas as correntes de opinião política relevante, e o Governo, que tende (o actual seguramente) a representar as convicções asnáticas dominantes.

O coroar deste teatro de sombras é o Conselho Permanente de Concertação Social, que já em Junho de 2014, quando os inúteis que o povoavam eram outros, caracterizava assim. Foi este Conselho que foi “desautorizado” há dias quando o Governo, pressionado, deixou de fingir que respeita aquela joça, um crime de lesa-convenções: ali gente que finge que representa classes profissionais finge que negoceia entre si e depois com quem finge que os respeita. A comunicação social e quem a consome, provavelmente, não finge: acredita que tudo isto é para levar a sério.

As despesas envolvidas com esta maquinaria têm expressão muito relevante? Se a Constituição fosse expurgada do seu art.º 92º, que consagra a Câmara Corporativa com outro nome, haveria um grande benefício? E o assunto interessa muito?

Não, não e não. Mas migalhas são pão. E depois, para Pessoa, a metafísica era  uma consequência de estar mal disposto; a mim, o estar mal disposto não me dá para nada, mas o espectáculo destas personagens que desempenham o seu lamentável papel agrava-me a má disposição.

Lá caiu

José Meireles Graça, 28.10.21

Lá caiu. Marcelo fez trinta por uma linha mas não adiantou: ao PCP e ao Bloco não poderia haver cedências que os contentassem porque nem elas eram credíveis (pelo contrário, os dois acham que vem aí uma crise e nesta o Governo e o PS fariam o que a Europa mandasse) nem resolveriam a alhada em que aquelas duas agremiações se meteram. É que, não obstante os numerosos exemplos históricos em que se poderiam ter inspirado, ambas estavam a ser sufocadas eleitoralmente pelo abraço socialista, pelo que corrigiram o tiro: na rua é que está bem quem é depositário de mensagens redentoras; e, de gabinetes, os dos sindicatos para uns e os das universidades e redacções das televisões para outros servem bem, à falta de melhor.  

Diz-se que o PCP não é europeísta (e não é porque a Europa é capitalista e não deixará de ser), mas o Bloco sim. Na prática, não há diferenças: a Europa que convém ao Bloco é uma em que o capitalismo seja aperfeiçoado de tal forma que deixe de o ser.

Portanto, venham de lá as greves e as manifestações, que o Carnaval é daqui a dias.

De Costa ninguém sabe se fez cedências aberrantes porque, sendo como é uma pessoa genuinamente lunática nas ideias que julga redentoras para a economia do país, acreditava nelas, ou porque já contava que a comunistada não lhe comprasse a barganha e por isso quis amassar um capital de choraminguice para a campanha eleitoral, que na realidade desejava agora e não no fim normal da legislatura.

Vou mais pela segunda hipótese, sendo o homem, como é, um mestre da duplicidade e da falta de escrúpulos: já deixou o caminho juncado de cadáveres de camaradas e amigos, o que não é nada, e começou a sua encarnação como primeiro-ministro com o golpe de asa de se aliar a pestíferos, o que é muito.

A malta da estabilidade, um valor que, talvez como herança inconsciente do salazarismo, e rejeição consciente das três primeiras décadas do século passado, é tido em alta conta, geme. Sem razão: porque a estabilidade ao serviço de políticas de desastre apenas o aprofunda e, no caso, o Orçamento em duodécimos seria bem melhor que o asneirol aprofundado do que chumbou. É verdade que, agora que vamos ter um governo de gestão (deixo de lado a questão de saber se, não se tendo Costa demitido, os seus poderes são plenos e abrangem a mais que provável tentativa de usar o aparelho de Estado para efeitos eleitorais), à pilhagem no aparelho de Estado é provável que o PS junte mais uns quantos milhares de boys sôfregos de última hora, que será caro despedir. Mas isso pouco vale face, por exemplo, à revisão que já se alinhavava das leis do trabalho e à loucura da facilitação do acesso à reforma. Na realidade, todas as reversões feitas à legislação troiquiana, que foi em si mesma modestíssima no seu escopo reformista, foram um retrocesso que se vem vindo a pagar em crescimento débil e em comprometimento do futuro; a ideia de que o empreendedorismo precisa de estabilidade só é verdadeira se esta não consistir na continuação da demolição da liberdade económica e no aumento permanente da punção fiscal; e estabilidade tivemos muita nos últimos seis anos, mas acabamos relativamente mais pobres.

É certo que vai por aí muita propaganda a respeito dos pós que teremos crescido em relação à média comunitária, selecionando cuidadosamente um período curto onde isso se tenha verificado e contando com a floresta de dados para defender tudo e, se necessário, o seu contrário. Mas o ponto a reter é que as médias incluem países que, por razões várias, também têm crescido pouco, como a Alemanha, a França e a Itália.

Nenhum destes países, porém, tem o nosso problema atávico de atraso relativo e nenhum é um reservatório de mão-de-obra para a emigração qualificada e de empregados de mesa para servirem, obsequiosamente, a indústria do turismo dos loiros ricos que vêm ver as maravilhas ignotas dos cafres da Europa. Aqueles países que precisavam de esquecer o pesado manto do atraso soviético passaram ou estão a passar por nós; e para quem sempre defendeu que era, e é, o catolicismo pesado dos nossos avós que entravava o progresso, está aí a Irlanda, o mais claro caso de sucesso e aquele que seria mais prenhe de ensinamentos se a cáfila esquerdista que nos desgoverna pudesse aprender.

Vamos a eleições, então. Todas as pessoas que, como eu, evitam ver e ouvir a galeria de ineptos, treteiros e pataratas sortidos que nos pastoreiam e as televisões diligentemente nos enfiam todos os dias pela sala-de-estar, sorriram com alívio: o quê, não veremos mais Cabrita e a sua litania de escândalos e percalços, nem o tipo da Defesa e a sua linguagem inclusiva para militares moderninhos, nem o empregado de Nogueira que polui a Educação, nem Costa e a sua Conxituição, nem a mãezinha da Covid, nem aqueloutra empregada doméstica que superintende não sei em que pasta, nem aquelas caras e aquele paleio cansado da banha de cobra do progresso socialista a golpes de esmolas europeias e dívida que não cessa de crescer?

Infelizmente, a Direita não está na melhor forma, tem feridas que ainda não sararam (ou melhor, dúvidas sobre quais os enfermeiros adequados para delas se ocuparem), e as nuvens negras que já estão no horizonte o eleitorado, que é curto de vistas, ainda não as topa.

De modo que pode acontecer que lá para Fevereiro ou Março descubramos que ainda não foi desta que ficaram reunidas as condições para o volte-face. E, pior, não é impossível que em nome da salvação nacional se venham a criar as condições para um bloco central governar no meio do diabo que entretanto chegou, com o seu cortejo de diabinhos – inflação, agências de notação que afinal descobrem que não estamos no melhor dos mundos, BCE que se lembra de que a estabilidade dos preços é que é o seu mandato, frugais que engrossam a voz, e um longo etc.

Se for assim (e o bom que têm as previsões é que quase sempre a realidade as infirma), então a queda do Governo não terá valido a pena porque falência por falência é conveniente que o seu responsável fique perfeitamente identificado. Senão, ainda continuaremos a ouvir, como ouvi a um deputado aguadeiro do PS, e tenho ouvido a muitos outros, que aquela associação de malfeitores não foi a responsável pela elaboração do programa da troica.

De modo que ó cabeça, não penses, goza o momento: Cabrita vai-se embora.

Previsões meteorológicas

José Meireles Graça, 24.10.21

Se eu fosse, mas não sou, prudente, não diria nada sobre as negociações em torno do Orçamento porque como está com mais uns retoques pode ser aprovado, mas também pode ser reprovado, ninguém sabe que Orçamento será executado em caso de aprovação, a peça de teatro que se desenvolve no Parlamento é apenas uma parte do processo de aprovação ou reprovação e, verdadeiramente, o calculismo costiano e o do PCP e do PS é que são as pedras de toque do desenlace, não o Orçamento em si.

Este é mais uma centenice, ou marcelice se se quiser (a da evolução na continuidade que o padrinho cunhou, não dos balbuciares atarantados do afilhado), com um aluno, Leão, que apreendeu os truques e alçapões do mestre, Centeno, mas sem lhe herdar a, já de si não muito abundante, habilidade retórica. Quase ninguém tem muitas dúvidas de que o deslizar para os últimos lugares do desenvolvimento na Europa (que ela própria não cessa de perder lugares no mundo, uma decadência que é a consequência necessária do seu inverno demográfico associado à gestão socialista da UE), o avolumar da dívida cujo serviço explodirá no dia em que o BCE não puder mais sustentar os países do calote potencial, a exportação de trabalhadores adequadamente formados para enriquecer outras economias, a obesidade do Estado, que surge como regulador em todas as esquinas da vida, a fiscalidade demencial, o crescimento exangue e um longo e ominoso etc. – serão as heranças que deixará a bonomia de Costa e o seu cansado mantra das apostas na educação, na formação, na descarbonização, na economia circular, na promoção disto e daquilo, nas contas sãs (que interpreta como um equilíbrio falsificado para Comissão Europeia ver, enquanto vai deixando em ruínas o Estado Social e o SNS com o qual comprou, a crédito, votos), e no lero-lero de quanta tolice anda no ar da moda da gestão socialista.

Paulo Portas, que não consta tenha um par de asas nas costas, aventava que talvez o rotundo estadista tenha na ideia ir para eleições para não ter de as disputar noutra maré menos favorável, isto numa altura (Domingo passado) em que todo o analista garantia que o Orçamento passava.

Entretanto, o preço do combustível disparou e o eleitor mexe-se, incomodado. Há em Portugal bem mais de 5 milhões de automóveis ligeiros e por isso a retórica dos ricos que paguem a crise, desta vez, não cola, porque não há 5 milhões de ricos. Depois, começa a instalar-se a suspeita de que o optimismo militante de Marcelo, que toda a gente leva à conta de feitio, talvez seja defeito; e que a Oposição dita de direita, num ponto e noutro, terá alguma razão. Os preços nas praças e no supermercado estão-se a começar a mexer, e a paciência para a sofreguidão da famiglia socialista, sentada como em casa própria à mesa do Orçamento, está a erodir-se.

Daí que no Domingo passado tendesse a concordar com Portas, mas a novela grotesca em torno do preço do gasóleo (uau, o trabalhador vai receber, depois de um calvário burocrático, um reembolso de 5 Euros por mês, e a isto o jornalismo chama, sem se rir, uma medida) e a cabeça perdida de Costa, que passou a semana a espadeirar com uma lista repugnante de cedências a Catarina e ao bom do Jerónimo, convenceram-me do contrário: o homem não quer ir embora, porque não tem para onde ir, não quer eleições porque acha que não se consegue livrar da necessidade daquelas luminárias ancilares ainda mais esquerdosas do que ele, e não encara entendimentos com o PSD porque deixou passar essa oportunidade (talvez Rio seja o dirigente mais parecido com um socialista médio que o PSD alguma vez teve) e, de todo o modo, António Costa sempre foi um táctico brilhante mas tem um nucleozinho de convicções duras, e não particularmente lúcidas nem inteligentes, que consistem nisto: a esquerda é o que convém ao país, o PS o que convém à  esquerda, e a direita tolera-se em nome da democracia, que com ela, porém, fica em estado de intolerável imperfeição. O pobre homem reza a estas coisas.

Hoje, normalmente, o assunto já deveria estar encerrado. Não está porque comunistas lúcidos (são lúcidos no mesmo sentido em que há psicopatas com discursos coerentes) acham que* o negócio da troca do apoio por cedências no aparelho de Estado e na armadura legislativa está esgotado e teve um preço eleitoral demasiado alto. O muito que Costa já cedeu tem como limite as baias da tolerância europeia (o Orçamento deve dar a impressão de que a dívida se vai reduzir por via do crescimento) e a sua intuição de que uma capitulação total se voltaria contra ele. Como com menos consistência e mais lirismo o clube de frei Anacleto Louçã não navega em águas muito diferentes temos que o Orçamento não vai, provavelmente, passar.

Se não passar, aos actores políticos incharão as cordoveias do pescoço, de tanto gritarem, a classe jornalística esfarrapar-se-á em cenários e prognósticos e a opinião pública, pávida, será induzida a pensar que a inflação que regressa, o conflito social que se vai acentuar e o berreiro dos comunistas sem e dos com acne são consequência da instabilidade política, uma tese que o próprio Marcelo, com a sua característica curteza de vistas, decerto subscreverá.

Mas não são. Os governos pós-troica ocuparam-se a reverter o módico de reformas daquela época e a instalar um modelo de desenvolvimento (peço desculpa pela expressão) tributário do longo catálogo de patetices intervencionistas que os socialistas de todos os bordos subscrevem, no caso agravadas pelo contributo das excrescências venezuelanas do PCP e do Bloco. E não fora a UE e sobretudo O BCE o diabo, que tanta gente disse que ia chegar (e eu entre os mais) já cá estaria.

Já cá está, parece-me, mas ainda não se vê bem a sua cabeçorra hedionda. Se estiver enganado, porém, o futuro próximo também não será exaltante: é o progresso do retrocesso.

Razões pelas quais se o Orçamento passa ou não passa interessa pouco, excepto pelo facto de, se não passar, a gente se entreter com os paroxismos da luta política.

 

*Um amigo dilecto disponibilizou-me o artigo acima referido de Pedro Tadeu, porque da primeira vez que o vi tive acesso mas quando lá quis regressar o Diário de Notícias queria que me inscrevesse num tal de Nónio, decerto para me pôr a pagar – um escândalo. Quando mo enviou, escreveu: “O apoio parlamentar, neste caso ao orçamento, valeria a pena se o PC conseguisse convencer o seu eleitorado potencial de que conseguiu vitórias muito concretas ao impor ao PS as medidas x e y.  O problema é que essas vitórias são pífias, são mal comunicadas e ficam esquecidas dois dias depois, no turbilhão noticioso. Em última análise estão a apoiar o PS sem grandes ganhos. Mais valia ao PC, penso eu, tornar pública uma lista de exigências que vão ao encontro do seu eleitorado e estar pronto a votar contra se estas não forem aceites".

Tem razão. E só ponho aqui estas considerações porque ninguém do PCP decerto me lê, sendo como sou, tal como este amigo, um fascista do piorio.

Engana-me que eu gosto*

José Meireles Graça, 15.10.21

Assentemos em alguns pontos: o eleitor é distraído, a democracia equívoca, a economia contraintuitiva, os ricos sanguessugas e parasitas e as burocracias do Poder opacas.

Distraído porque a política interessa a poucos. As bolhas das redes sociais, os campus das universidades, e as redacções dos jornais e televisões, estão cheias de gente que julga que não é assim, mas é. A notícia do político que beneficiou abusivamente uns camaradas, do outro que deu uma golpada, ou daqueloutro que empregou a família, não comove ninguém, senão para confirmar o cidadão cínico, que se imagina sábio, na ideia de que eles estão lá para se encherem e que, no fundo, são todos uma cambada de ladrões. E a indignação fica guardada para o que se deixa apanhar na malha da Justiça. Ai dele, que além de vigarista era burro, deviam era fechá-lo numa masmorra qualquer, e atirar fora a chave.

A democracia como a entendem os meus concidadãos não aguenta explicações muito sofisticadas, que contemplem direitos do indivíduo que a maioria não tenha o direito de ofender. Pelo contrário: a ideia de que uns caramelos defendam coisas diferentes das que a maioria esmagadora subscreve só é aceite se os caramelos em questão pertencerem a uma tribo reconhecida e aceite pela comunidade, em nome do convívio das tribos. E as minorias gozam de tantas mais defesas – ia a dizer privilégios – quanto mais aguerridas e quanto mais subscrevam o progressismo, entendido como o aumento dos direitos materiais, como se os que beneficiam uns não implicassem quase sempre obrigações para outros. A menor minoria de todas, que é a pessoa, é o parente pobre desta engrenagem – ai dela se não pertence a nada, nem ao povo trabalhador, nem ao lobby gay, nem ao sindicato, nem ao clube, nem à associação patronal, nem ao partido, nem é cigano ou preto, nem, nem.

Os ricos começam por ser suspeitos porque, como é geralmente sabido, para o serem ou herdaram ou aldrabaram. Ora, em herdar não há mérito; e em vigarizar também não, muito ao contrário, como se prova pelo facto de a maioria das pessoas que não são ricas ser perfeitamente capaz, se o fosse, não apenas de dar provas de grande generosidade, mas também de evidenciar um gosto no consumo, uma discrição no comportamento e um discernimento na hora de investir muito superiores.

Aliás, a necessidade de ricos é um lero-lero. É mais ou menos consensual que a gestão privada não é superior à pública: não vão todos os dias à falência empresas privadas, lesando o Fisco, os fornecedores e os próprios trabalhadores? E não tem o capitalismo crises cíclicas, implicando sempre destruição de valor? Se a justificação para a existência de ricos for o investimento, então não se percebe por que razão não fica este limitado à esfera pública, onde semelhantes males sempre se podem evitar.

É certo que em todos os pontos em que esta experiência foi (e continua a ser, naqueles de onde só não foge quem não pode ou está no poder) ensaiada o resultado foi escassez e travagem do progresso. E esta infeliz constatação  levou a que lúcidas pessoas de esquerda (isto é, as que entendem que na igualdade está a felicidade) tenham congeminado o melhor de dois mundos: para investir criam-se empresas, que têm personalidade jurídica diferente da dos seus proprietários; estas personalidades colectivas não comem, não bebem, não têm amantes, mas taxam-se como se fossem pessoas, o que permite engordar o que as pessoas reais pagam mas sem que se apercebam – a empresa, se puder, vende mais caro porque existe para distribuir lucros ou dividendos e investir, não para pagar impostos, os clientes pagam, e no que pagam está ínsito outro imposto, esse visível, que é o IVA (além de outros impostos indirectos e alcavalas sortidas, dependendo do bem ou serviço). No que os proprietários recebem há um imposto à parte – entre nós, até ver, 28%.

A ideia de taxar a empresa assenta no pressuposto de que a punção sai dos bolsos dos proprietários, e seria portanto uma falsificação da taxa que realmente incide sobre os rendimentos daqueles. E em alguma medida isto poderá suceder, mas, sendo a natureza humana o que é, é mais provável que quem resulta ofendido seja o cliente, que paga mais, o trabalhador, que recebe menos, e a capacidade de investimento com recursos próprios, que fica diminuída.

Esta opacidade, tão espessa que o comum dos mortais acha que são as empresas, e não os seus clientes (ou os trabalhadores, que poderiam ser mais bem remunerados), que pagam o IRC, como se entende? A explicação é simples: nem sequer o IVA, cuja taxa figura nas facturas, desperta atenção. A margem do fornecedor, que é sempre, por comparação, ridícula, é que suscita comoções, como se viu por estes dias com o preço dos combustíveis. Isso e a sua real ou putativa riqueza que, se for visível, logo é objecto de cobiça: então esses patifes do Pingo Doce têm milhões, é? Ora, deviam fazer como os do Continente, que também têm mas ao menos sustentam um jornal progressista (e aliás a esses dois grupos Nosso Senhor ainda os vai castigar, que com Lidls, Intermarchés, Mercadonas e o mais que se verá, um destes dias, se não se põem a pau, alguns deles ainda vão mazé para aquela coisa dos PERs, ou lá o que é).

Temos portanto que na fiscalidade o que parece não é. E na economia também: se eu, no caso de ter acne e o mais remoto respeito por comunistas e frei Anacleto Louçã, acreditasse que no dia em que toda a riqueza fosse igualmente distribuída acabava a pobreza, não andaria longe do que, à escala nacional, acredita a maior parte do eleitorado. O que ajuda a explicar (isso e não a suposta incapacidade das elites, mesmo que exista) o atraso relativo do nosso país.

Pois bem: muitas multinacionais, com trocas e baldrocas (o que, na gíria, se chama engenharia financeira), baldam-se aos impostos. E alguns países, e não apenas aqueles onde se localizam offshores, ajudam-nas nesse meritório esforço. Ora isto não pode ser. E não pode por causa da concorrência desleal: Dos países, que atraem empresas, ou melhor, sedes de empresas, só para estas aproveitarem taxas baixas de imposto, mas sem benefícios reais para as populações locais (dizem economistas de nomeada, uma variedade de pessoas que tem excessiva inclinação para expectorar quantidades prodigiosas de asneiras); e das próprias empresas, a quem sobram os meios que faltam às menos engenhosas na trapaça legal, ou simplesmente mais pequenas.

Daí que haja uma universal satisfação com uma taxa mínima de 15% de IRC para empresas multinacionais com a qual esta tia apparatchik rejubila, falando em “momento histórico” e numa "questão básica de justiça”.

Nem o momento, nem a taxa, nem ela, são históricos, sequer de rodapé, e a justiça pouco tem a ver com isto. Mesmo que outros burocratas supranacionais, como este Mathias Cormann, também embandeirem em arco, e dificilmente apareça algum prócere que não se junte ao coro. E estou certo que Marcelo, se ainda o não fez, haverá de saudar este grande passo, para o qual deve ter contribuído pelo menos um português (há sempre pelo menos um, nem que seja a servir cafés), assim como Guterres (ainda que neste caso não se esteja bem a ver qual será o efeito positivo que a medida tenha no aquecimento global, que não o deixa dormir) ou Costa, este porque a União, em que ele tem, segundo a comunicação social portuguesa, uma voz preponderante, deu um precioso contributo para este feliz desenlace.

Sucede que combater a concorrência desleal é meritório. Mas se o objectivo fosse apenas esse (e admitindo, o que apenas concedo para efeito do que digo a seguir, que a competição fiscal entre países não é uma boa defesa dos contribuintes, e que esta história da eliminação das vantagens relativas de uns países sobre outros não é uma porta que se abre para todo o tipo de efeitos perversos) então o aumento de receitas previsto iria permitir o correspondente alívio de outros impostos. A boa da Ursula, ou o belga-australiano com mau aspecto que preside à OCDE, ou a turba dos dirigentes que já se pronunciaram ou virão a pronunciar-se, porém, disso não falarão.

Com boas razões. Um economista de quem sou amigo disse-me há tempos: Epá, as pessoas em todo o lado pedem mais e mais coisas ao Estado e o dinheiro de algum lado tem de vir.

A mim parece que o dinheiro que vier das multinacionais, se esta loucura mansa for avante, aquelas cobrarão, de uma forma ou de outra, aos seus clientes. E já me estou a ver a pagar muito mais pelo programa de tratamento de texto que estou neste momento a usar e por mais um sem-número de coisas que agora não descortino.

Aqueles, e são a maioria, que não pagam IRS, ficarão contentes. Isto de impostos sobre os ricos é mais do que justo. Aplaudirão portanto nas redes sociais, pertencentes a multinacionais, às quais acedem em telemóveis produzidos por outras multinacionais. Elas é que vão encostar a barriga ao balcão – elas, não eles, acham.

 

* Publicado no Observador

Lisboa a jogging

José Meireles Graça, 29.09.21

As pessoas vivem cada vez mais em cidades e há cada vez mais pessoas com automóveis, donde há cada vez mais dificuldades em circular e em estacionar. É assim em toda a parte e mesmo as cidades que perdem habitantes não os perdem para o campo, mas para outras cidades – aquelas onde há empregos.

Tudo boas notícias, em que pese aos trombeteiros de desgraças. Porque a vida no campo pode ser encantadora nos livros esquecidos de Trindade Coelho, em alguns lembrados de Júlio Dinis ou até n’A Cidade e as Serras, mas foi uma vida de miséria, doença, ignorância, morte prematura e brutalidade. Os aldeões começaram a dar à sola logo que puderam – para o Brasil, Lisboa, Porto, outras cidades e, aí pelos anos 50 e crescentemente, França, Alemanha e outros países do boom do pós-guerra.

Hoje, já quase não é a gente do campo que emigra porque o campo se mecanizou, e logo não tem gente; nem o manancial de braços para emigração é o mesmo porque as mulheres, desde a invenção da pílula nos anos 60, e a sua participação no mercado de trabalho, deram em não abraçar carreiras de produtoras de surtos populacionais.

O automóvel começou por ser um luxo acessível a uma insignificante minoria mas cedo apareceram industriais a oferecê-lo ao povo trabalhador pelo expediente da produção em massa, da qual o pioneiro foi o revolucionário Ford. Na Europa do pós-guerra o Carocha, o Joaninha, o 2 CV, o Fiat 600 chegaram à classe média num tempo de crescimento económico acelerado e dinamismo. E embora os automóveis pequenos e baratos tivessem como propósito motorizar a maior quantidade possível de pessoas no menor espaço de tempo, cedo se desenhou um padrão ainda hoje em vigor: soluções e luxos dos modelos mais caros iam com o tempo “descendo” na hierarquia dos modelos (uma boa lembrança, talvez, para os indignados hoje com o que há quem pague por certos automóveis: sosseguem que o que invejam há-de chegar ao vosso charêlo).

Automóvel próprio e capitalismo deram-se bem. E não é de estranhar que, desde sempre, a esquerda tivesse torcido o nariz ao transporte individual. A de hoje, depois da falência do comunismo, já não diz aquelas coisas redondas e confortáveis das certezas marxistas: propriedade colectiva dos meios de produção, distribuição equitativa dos bens materiais, economia planificada e a outra meia-dúzia de pérépépés.

Mas continua a comprar toda a sorte de engenharias sociais nas quais o colectivo aparece à frente do individual. E que melhor lugar do que as cidades, onde os automóveis criam problemas difíceis de resolver, para, em nome de coisas preocupantes como a poluição, a sustentabilidade (que ninguém sabe bem o que é, mas tanto melhor), os cheiros, a saúde e ainda um par de botas, para combater esse símbolo da liberdade individual, do sucesso material, e da diferença entre as pessoas, que é o maldito veículo?

A propósito da recente eleição de Moedas o assunto veio à baila. Parece que o novo presidente não é adepto de ciclovias, pelo menos algumas, e deseja promover a construção de parques de estacionamento, ó que loucura.

Diz Fernanda Câncio, com argúcia: “É que tal medida não se limita a tornar mais atrativo o uso de carro; faz mais penoso o dos transportes públicos de superfície - a Carris - pois quanto mais carros houver a circular menos os transportes públicos são eficazes”.

Não se pode negar que se houver mais carros a circular etc. Porém, se admitirmos que a construção de parques retira carros do estacionamento na via pública, detalhe que a Fernanda escapou, não é um salto ilógico pensar que pode compensar na fluidez da circulação, assim como passagens desniveladas também contribuem para esse resultado… ou não? E a preclara que me desculpe mas, já que fala em transportes de superfície, poderia porventura encarar a hipótese da sombra de uma suspeita de que talvez fosse avisado falar de transportes debaixo do chão, isto é, do metro. E isto porque o metro pode concorrer com vantagem com o transporte de superfície, visto que, ao contrário do que julgam as Fernandas deste mundo, o cidadão, se tiver uma boa alternativa ao automóvel, usa-a. Não talvez o cidadão que tenha muitos recursos, mas sem dúvida a maioria. Ora, o metro é tipicamente investimento público (poderia não ser, mas isso são outros quinhentos), de modo que é ouro sobre azul: colectivo, investimento, grande infraestrutura que os sindicatos podem paralisar, alavancando portanto a influência social do povo trabalhador, boas credenciais ecológicas e assim… que tal? Até se podem pintar as carruagens de um vermelho inspirador, no intervalo de uns moços com acne as picharem com grafiti intensamente artísticos, comunicando ao burguês ensimesmado as mundividências da juventude revoltada.

Parece que Moedas defende que “os 20 primeiros minutos de estacionamento sejam gratuitos em toda a cidade e paguem menos [os residentes] 50% em todos os parquímetros”. Como o espaço público é escasso, e só por o ser é que se justifica que a sua ocupação com automóveis seja paga; e como a medida é discriminatória em relação a quem, provavelmente por não ter escolha, vive longe: sinto-me tentado a concordar com Fernanda (o que teria ainda a vantagem suplementar de lhe ser agradável, dado que, sem a conhecer pessoalmente, simpatizo com ela). Sucede porém que mesmo aqui talvez a ideia de Moedas seja somente a de ajudar a facilitar a fixação de residentes, um objectivo meritório. Não sei, não conheço verdadeiramente Lisboa nem os seus problemas, e ainda menos tenho dados que fundamentem ou contrariem uma opção deste tipo.

“… não há ‘cidade sustentável’ ou sequer mundo sustentável assim, e sabemo-lo há décadas. Só falta usar esse saber para salvar o que é possível - coisa que andamos coletivamente, cidade, país e mundo, a adiar ad aeternum.”

Ahem, eu conto mais décadas de vida do que a autora e não sei nada disso. E ficaria muito surpreendido se cidades muito grandes, médias ou pequenas, planas ou às subidas e descidas, com ou sem zonas de expansão fácil, novas em países novos, de traça medieval ou dos séculos XVIII ou XIX, cidades que crescem e cidades que estagnam, em que as políticas habitacionais e urbanísticas foram numas assim e noutras assado, devessem todas ter as mesmas soluções para os mesmos problemas. E, por singular coincidência, em todas a solução fosse a proibição, a bicicleta, os Medinas, a trotinete e a Carris.

A verdade é que, a acreditar nisto (e é legítimo duvidar porque a afirmação provém de quem tem interesse em engordar os números para fundamentar políticas anti automóvel), entram em Lisboa todos os dias 400.000 carros, que se somam aos 200.000 dos residentes.

O número é impressionante (mais automóveis do que habitantes!), mas conviria saber quanto tempo, em média, ficam dentro da cidade, e onde, para saber que espaço é realmente necessário. A área de Lisboa é ligeiramente maior do que 100 quilómetros quadrados, e destes também não sei quantos são de arruamentos e praças, mas convém ter noção das proporções: A 10 metros quadrados por cada automóvel o espaço ocupado seria de 6% do total se todos os automóveis estivessem ao mesmo tempo dentro de portas e se não se pudessem empilhar. Um trabalho paciente deveria poder habilitar a chegar a conclusões, incluindo a de apurar o que, ao certo, vai tanta gente fazer à cidade, e o que se poderia fazer para diminuir esse fluxo sem tocar na liberdade das pessoas.

Depois, conviria fomentar a construção de silos nos pontos de maior pressão, ou nas cercanias (respeitando minimamente a envolvência, não se trata de silos como se fosse em Nairobi, que nem toda a Lisboa é a calçada de Carriche). Fomentar quer dizer, por exemplo, isentar de taxas de licenciamento de obra e acelerar o respectivo processo. Naqueles locais ou zonas onde a circulação seja particularmente difícil, o parqueamento, DEPOIS de disponibilizado em garagens, deve ser simplesmente proibido na via pública, ao menos nas horas úteis. E poder-se-ia inclusive, para contentar estatistas e em homenagem à maioria de esquerda que existe em Lisboa, mesmo fora dos jornais e televisões, negociar o preço do estacionamento nos parques privados, em troca da isenção do custo do licenciamento e da proibição do estacionamento. Salazar controlava o preço do pão e não consta que as padarias fossem à falência.

“… agora que vamos finalmente poder andar na rua sem as máscaras pandémicas teremos de trocá-las pelas antipoluição. Novos tão velhos tempos”.

Estou muito feliz neste passo por poder sossegar Fernanda, dado provavelmente estar mais ao corrente da evolução do automóvel, pretérita e prevista, do que ela: os motores actuais são muito menos poluentes do que no passado (gasolina sem chumbo, escapes catalíticos, gestão da combustão computadorizada, etc.); e a tendência crescente do uso de automóveis eléctricos, cuja poluição fica a montante, nas minas e centrais de produção de energia, e a jusante, nos resíduos, portanto não em Lisboa, graças a Deus, poupa a cidade. Donde a máscara (que já no caso da Covid era de duvidosa utilidade) pode definitivamente regressar unicamente aos dias do Carnaval propriamente dito.

Em suma: Tenho a solução? Desconfio: problemas difíceis não se costumam resolver com soluções fáceis, e nesta equação faltam muitos factores.

Mas também quem parte de princípios errados não pode chegar a conclusões certas: Cercear uma verdadeira conquista dos trabalhadores em nome do colectivo e das ideias da moda de esquerda, a mim, parece-me uma coisa dos velhos tempos.