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Um novo erro não apaga um erro anterior

por Rui Rocha, em 02.05.20

Sejamos claros. Mantendo-se as circunstâncias, foi tão vergonhosa a comemoração do 1º de Maio em Estado de Emergência como será uma celebração de 13 de Maio em Fátima em termos semelhantes (autocarros, ajuntamentos, etc.) durante a Calamidade. Permitir a uns o que não se admite a outros está sempre errado. O que a CGTP não provou (e a ICAR também não conseguiria demonstrar para o 13 de Maio do ponto de vista de fé que professa) é que uma celebração dentro do quadro do EE prejudicaria de forma irrecuperável direitos que representa. Sem essa demonstração, o 1 de Maio foi uma excepção injustificável e um exercício arrogante de falta de solidariedade. Um erro grave não se apaga com outro. Neste caso, como (quase) sempre, a lei das compensações só aprofunda a dimensão dos erros, não os repara.

A comunicação social anuncia com grande comoção que o governo patriótico liderado por Costa, o Belo, vai realizar testes "massivos" em lares. Há 10.000 testes para o efeito e far-se-ão 300 (trezentos) por dia. Ou seja, esta grandiosa operação vai demorar 33 (trinta e três) dias. Isto, se este esforço colossal também se realizar aos Sábados, Domingos, Feriados e Dias Santos de Guarda. Caso contrário, será coisa de 40 (quarenta) a 50 (cinquenta) dias. É certo que, decorridos os tais 50 (cinquenta) dias, ainda faltará testar os outros 90.000 velhotes que vivem em lares. Mas, como diria Graça Freitas, nesses casos até pode ser vantajoso porque os negativos dão-nos uma falsa sensação de segurança, né? Isto, tudo somado, não sei se a certa altura não seria melhor que viesse por aí o tal meteorito.

Pensamento da semana

por Rui Rocha, em 29.03.20

O problema está em termos decisores políticos com pensamento linear a gerir um fenómeno com crescimento exponencial.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Como assim?

por Rui Rocha, em 18.03.20

Não percebo a necessidade de o Presidente garantir que ninguém vai mentir a ninguém. Tem acontecido, é?

O pensamento não está limitado

por Rui Rocha, em 15.03.20

Já se ouvem as primeiras tentativas de silenciar vozes críticas devido à situação excepcional que vivemos. Nada mais errado. A liberdade de pensamento e opinião não está limitada. O poder político pode e deve ser avaliado pelas suas decisões A democracia não segue dentro de momentos.

Pela minha parte, identifico os seguintes erros de gestão política até agora:

-desvalorização inicial da ameaça
-maus exemplos de PR e PM
-orientações laxistas, dúbias ou contraditórias sobre procedimentos em situações de regresso de zonas afectadas, quarentenas, etc.
-subdimensionamento da resposta (camas UCI, ventiladores)
-subdimensionamento da Linha S24
-falta de equipamentos de protecção individual para pessoal de saúde
-atraso em decisões corajosas

A epidemia do Coronavírus apanhou a China de surpresa. As medidas foram duras mas puramente reactivas. A Europa dispôs de semanas adicionais para se preparar. Todavia, manteve a abordagem reactiva.
 
Com os dados da evolução do n.º de infectados em diversos países da Europa, é possível concluir que essa abordagem pode não ser eficaz. A situação em Itália é o melhor exemplo. Mas, olhando para as curvas, Espanha, Alemanha e França podem estar no mesmo caminho.
 

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Portugal beneficiou de um atraso de algumas semanas suplementares na aparição dos primeiros casos face a outros países da Europa, mas até ao momento não demonstrou especial proactividade.
 
As razões para atrasar medidas de contenção robustas são económicas. Um excesso de cautela pode levar à paralisação de áreas relevantes. Todavia, o que a experiência italiana confirmou é que a disrupção da actividade económica pode ser ainda mais grave quando a reacção é tardia.
 
No caso português, uma evolução com perfil semelhante à que ocorreu em Itália ou que parece estar a traçar-se para Espanha, França ou Alemanha, terá consequências ainda mais graves do ponto de vista da falência do sistema de saúde.
 
O nº de camas de cuidados intensivos estará agora em 7 a 8 por 100.000 habitantes em Portugal. Todavia, bem abaixo da média europeia e de Itália (12/100.000), França (11/100.000), Espanha (10/100.000) ou Alemanha (29/100.000). Acresce que existe estruturalmente escassa disponibilidade de meios de ventilação assistida e uma parte dos meios estão obsoletos ou não operacionais.
 
Isto é, com uma capacidade de resposta claramente inferior à desses países, num cenário de crise, o sistema estaria colocado mais cedo do que os outros perante decisões tão dramáticas como atribuir as camas e as unidades de ventilação em função da esperança média de vida dos pacientes. Acresce que os equipamentos de ventilação parecem ser escassos e estarem obsoletos em muitos casos.
 
Estamos perante uma doença em que os casos de gravidade média ou alta podem precisar durante 2 a 3 semanas de cuidados intensivos e ventilação até à recuperação. Um pico concentrado no tempo ou, eventualmente, numa zona geográfica, terá consequências muito graves que, enquanto sociedade, não me parece que queiramos incorrer. Acresce que, tal como em Itália, temos uma população envelhecida o que coloca um desafio adicional ao sistema tendo em conta a agressividade da doença para determinados níveis etários.
 
Aproveitando a evidência que chega de outros países, reconhecendo sem enviesamentos ideológicos as limitações dos nossos recursos, é o momento de tomar decisões preventivas.
 
Medidas como o encerramento dos estabelecimentos de ensino até às férias da Páscoa, proibição de eventos desportivos, culturais e religiosos com concentração de público e gestão pelo exemplo de responsáveis políticos e instituições são medidas que deveríamos estar a ponderar seriamente.

Respirar em águas revoltas

por Rui Rocha, em 22.01.20

Os comportamentos individuais devem naturalmente ser correctos e tratados de forma proporcional quando não são. Mas preocupa-me mais como cidadão uma polícia que não respeita garantias constitucionais e como liberal um Estado que exerce violência gratuita contra os indivíduos.

É para um amigo

por Rui Rocha, em 18.12.19

Se consideram que subir os impostos sobre a tourada é uma forma de acabar com ela a prazo, o que é que acham que subidas sucessivas da carga fiscal vão fazer à Economia?

A demissão de Maria Flor Pedroso

por Rui Rocha, em 16.12.19

Os motivos invocados por Mª Flor Pedroso para demitir-se (danos causados à imagem da RTP por calúnias e mentiras), se fossem verdadeiros, seriam precisamente os que deviam levá-la a continuar. O problema é que pelo menos uma parte das tais mentiras e calúnias correspondem a factos confessados pela própria MFP em acta.

Ausências

por Rui Rocha, em 29.08.19

Ontem, quando confrontado por cidadãos com temas concretos, Costa patinou. Na parte conduzida por jornalistas mais interessados na intrigazinha política, passou entre os pingos da chuva. Falta realidade e assertividade na interpelação do poder. A culpa não é só da oposição.

O PAN que o Diabo amassou

por Rui Rocha, em 01.07.19

Era uma vez uma menina que vivia numa casinha em Pandora, a capital do país. Dois anos antes, em 2034, o governo de coligação entre o PAN, de André Silva, e o PS, de Paula César, tinha requisitado as mulheres com idade entre 30 e 35 anos para participarem na Grande Panificação, uma campanha destinada a erradicar a utilização de linguagem anti-animal por crianças e jovens. Expressões como “fazer figura de urso” tinham sido proibidas já em 2024, ainda durante o 2.º mandato do governo de Costa, o Magnífico, mas o partido Agro-Beto (antigo CDS) na clandestinidade tinha apelado à desobediência e, em zonas remotas do país, a sua utilização continuava. Agora, com a Grande Panificação, esperava-se resolver o problema de vez. A mãe da menina, chamada a participar nessa grandiosa tarefa, só ia a casa ao fim-de semana. Durante um tempo, o avô panterno da menina tinha vivido com eles, mas um vizinho com quem tinha criado certa animosidade acabara por denunciá-lo por blasfémia contra o Panteísmo, a religião oficial da República Pantuguesa. Julgado em processo sumário pelo Supremo Sacerdote Ivo Rosa, e apesar de negar ter proferido quaisquer ofensas contra o Deus Pug, o avô não tinha conseguido eliminar a presunção de culpabilidade e fora declarado Panasco (literalmente, aquele que mete asco ao PAN). Condenado, encontrava-se a cumprir pena de 3 anos no Panóptico, um estabelecimento de alta segurança situado em Panços de Ferreira. A condenação tinha sido publicada no Panfleto, o jornal digital oficial da República, e o respectivo texto afixado na porta da casa da menina, para vexame dos que ali moravam e de cada um que ali passasse, incluído o vizinho denunciante que, em todo o caso, acabara por ingressar também ele no Panóptico, na sequência de uma denúncia de um colega de trabalho. O pai da menina, por seu lado, saía de madrugada e nunca chegava antes das 10 da noite. Trabalhava no turno da manhã na apanha manual da azeitona (a colheita mecânica fora proibida em 2022) e, no turno da tarde, no Pombal Contraceptivo da Câmara Municipal de Pandora (antiga Lisboa). O dia da menina começava sempre cedo. Logo pelas sete soavam as sirenes que marcavam o início da jornada. Como todas as crianças, durante meia-hora, em jejum, entoava o Panegírico, uma ode à liderança de André Silva e às façanhas dos Deuses Pug, Pinscher e Poodle e um esconjuro contra as tentações do Pandemónio. Depois, era a hora de tomar a Panaceia (o comprimido homeopático para prevenir calos, joanetes, afrontamentos e bicos de papagaio) e a bebida de beterraba, hortelã e sementes de linhaça. Às 8 ligava a televisão para assistir na Pantalha (o canal único de televisão) às sessões formativas que tinham substituído a frequência da escola. A aquisição de conhecimentos era avaliada pelos Espantalhos, os funcionários que tinham sucedido aos professores, através de uma prova online com periodicidade mensal. Apesar de não se dar mal na disciplina de Biodança, a menina tinha apetência especial para a matéria de Tosas e Tosquias. Normalmente, concluídos os estudos, e depois de almoçar o prato diário de tofu, a menina teria passado a tarde a assistir à Pantomina, o programa de entretenimento conduzido pelas Irmãs Mortágua e Rita Ferro Rodrigues. Mas a avó materna da menina estava doente e era preciso levar-lhe o almoço. A menina, a quem chamavam Capuchinho Vermelho, pegou na sua capinha e chamou a cadela Beagle para a acompanhar uma vez que os humanos estavam proibidos de sair de casa sem a companhia de um animal não humano senciente. Desceram a rua, passaram pelo Panteão, última morada de heróis como Camilo Mortágua e Boaventura Sousa Santos, e dirigiram-se à floresta. No caminho, encontraram um lobo que perguntou onde iam. A menina explicou-lhe e o lobo correu para a casa da avó, chegou primeiro, comeu a avó, pôs a touquinha e enfiou-se na cama. Quando a menina chegou, apercebeu-se que a avó tinha umas mãos, uns olhos e uma boca muito grandes. Fez-lhe aquelas perguntas todas e, quando chegou à da boca, o lobo respondeu “é para te comer”, saltou da cama, comeu a menina e adormeceu. Um soldado da GNR que passava por ali, entrou, viu o lobo a dormir e lembrou-se que este podia ter comido a avó. Preparava-se para cortar a barriga do lobo quando apareceram 3 utilizadores do Facebook que o impediram: que não, que era preciso perceber se o lobo não teria justificação para proceder daquela maneira. Exigiram a elaboração de um relatório de integração social, um levantamento de condições económicas e oportunidades de vida, uma análise exaustiva da infância do lobo e diversas outras perícias. Fizeram uma petição que exigia a punição do soldado da GNR pelo crime de maus tratos na forma tentada. Graças à intervenção dos três utilizadores do Facebook, o lobo passou a viver na casa da avozinha, tendo direito a quatro refeições quentes diárias, visita semanal do veterinário e corte periódico de unhas. O soldado da GNR foi julgado e, com a excelente defesa de um advogado que uns anos antes ficara célebre durante a audição para lamentar de Joe Berado, foi condenado apenas a 20 anos de exílio numa reserva de ursos do Quebeque. A cadela Beagle, essa viveu feliz para sempre.

 

* publicado na edição de Junho do jornal Dia 15.

1.º A LIGAÇÃO AO PS DE SÓCRATES: Pedro Marques foi Secretário de Estado da Segurança Social dos governos de Sócrates. Como António Costa e outros que este recuperou para o executivo actual, Marques não viu nem indícios de conduta criminosa, nem sinais de que o caminho trilhado levaria à bancarrota. Num país decente, nenhum partido ousaria propor uma solução governativa com a galeria de caras velhas e comprometidas com o passado de que Pedro Marques faz parte. Da mesma forma, nenhum partido decente proporia para cabeça de lista um candidato com tal passado. É ocioso referir a conclusão que se tiraria sobre a natureza do PS se partíssemos desta premissa para construir um silogismo elementar.

2.º PEDRO SILVA PEREIRA: valem aqui todas as considerações do ponto anterior, sublinhadas por ainda mais veemente indignação. Não é por acaso que todos os candidatos da lista do PS em lugares elegíveis estiveram já em acções de campanha. Todavia, não há registo de um momento de participação de Pedro Silva Pereira numa arruada, numa reunião, num almoço. Nada. Compreende-se. Tal como o PS, eu próprio teria vergonha de pedir a alguém para votar numa lista em que Pedro Silva Pereira aparecesse em 3º lugar. Ao contrário do PS, eu teria igualmente vergonha de o incluir numa lista.

3.º A MANIPULAÇÃO DA INFORMAÇÃO COMO FORMA CORRENTE DE FAZER POLÍTICA: enquanto Marques foi Ministro do Planeamento e Infraestruturas, o Ministério utilizou uma forma de comunicação absolutamente desvinculada da realidade. Ficaram célebres as inaugurações não de obras, mas de concursos de lançamento de obras. Sistematicamente, o Ministério de Marques levantou poeira não para assentar fundações, mas para intrujar a opinião pública. Marques foi recentemente acusado de algum grau de cumplicidade com as operações de intoxicação protagonizadas, a soldo de Sócrates, pelo blogue Câmara Corporativa. Coincidência ou não, os métodos utilizados pelo Ministério de Marques foram os mesmos.

4.º AS CATIVAÇÕES E O INVESTIMENTO PÚBLICO: como nenhum outro, e contando com a permissividade dos parceiros da Geringonça, o governo de António Costa desrespeitou o Parlamento e as regras da democracia ao fazer do Orçamento de Estado um documento vazio e sem qualquer valor político, completamente subalternizado às cativações decididas pelo Ministro das Finanças. Pedro Marques, enquanto Ministro das Infraestruturas, foi o ponta de lança complacente desta abordagem, sendo o principal responsável pelos níveis absolutamente ridículos de investimento público registados desde que o governo entrou em funções.

5.º A DEGRADAÇÃO DOS SERVIÇOS ESSENCIAIS: como consequência directa da situação descrita no ponto anterior, serviços fundamentais como o transporte ficaram absolutamente condicionados com a conivência de Pedro Marques. Os utentes da CP, apenas para falar dos mais sacrificados, foram brindados nos últimos anos com um calvário de atrasos, maus serviços e supressões. Não é por acaso que Pedro Marques realizou acções de campanha em composições da Fertagus, mas nunca pôs os pés num comboio da CP.

6.º O DESPREZO PELO PRINCÍPIO DA RESPONSABILIDADE POLÍTICA: a tragédia dos incêndios, Tancos ou Borba como expoentes de uma visão em que o poder político desaparece de cena deixando os cidadãos entregues à sua própria sorte. No caso de Borba, Pedro Marques chegou a declarar que existia uma estrada alternativa. Não era de esperar outra coisa. Se virmos bem, a responsabilidade foi dos que morreram que podiam ter escolhido outra via e insistiram em utilizar a que ruiu.

7.º O NEPOTISMO: a lista de candidatos às Europeias, apesar da tentativa de passar entre os pingos da chuva nesta matéria, não foge à regra da endogamia que tem sido amplamente documentada no PS. Maria Manuel Leitão Marques, a nº 2 da lista, é casada com Vital Moreira. Margarida Marques, a nº 4, é casada com Porfírio Silva, uma das eminências pardacentas do partido. Não se trata de questionar individualmente nenhuma destas pessoas. Trata-se de constatar que também aqui há casos de família que se somam às dezenas de outros que vão desde os gabinetes do governo até à Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa.

8.º A CALÚNIA COMO INSTRUMENTO DE CAMPANHA: num tweet publicado há umas semanas, Marques acusou Paulo Rangel, em quem não votarei, de “não fazer o trabalho no Parlamento Europeu”. Concretamente, afirmava que o que se “conhece do seu trabalho é um relatório legislativo e um relatório não legislativo” e que Paulo Rangel estaria “num brilhante lugar 597 entre os mais de 760 (sic) deputados”. Existe realmente um ranking que avalia os Eurodeputados pela sua actividade no PE. O score global é calculado a partir de um algoritmo que tem em conta diversos itens (questões escritas, moções, relatórios, etc.). Ora, Rangel está, de facto, na posição 597 no item “relatórios”. Todavia, o score global de Rangel, que engloba toda a actividade relevante desenvolvida, coloca-o na posição 150. Rangel fica assim bem à frente, por exemplo, de Pedro Silva Pereira que não foi além do lugar 298. Mais, se consideramos o score global da totalidade dos Eurodeputados portugueses, Rangel está em 6º, à frente do melhor socialista (Maria João Rodrigues) que ocupa o 8º lugar. Marques sabia perfeitamente que tudo isto é assim, mas não se coibiu quer de publicar a informação de forma enviesada, quer de repeti-la posteriormente.

9.º A CHANTAGEM DE COSTA: independentemente da maior ou menor hipocrisia das posições de PSD e CDS a propósito da contagem do tempo de serviço dos professores, o certo é que António Costa quis promover uma crise artificial, baseada numa vitimização despropositada, visando condicionar a opinião pública e tendo também como objectivo as eleições Europeias. Votar em Pedro Marques é validar uma visão em que a golpada e a chico-espertice são um modo de relação admissível com os eleitores.

10.º OS OUTROS CANDIDATOS: nestas eleições não faltam alternativas políticas e, em geral, os candidatos apresentados pelos outros partidos são, ao contrário do que aconteceu com o PS, merecedores de crédito junto do respectivo eleitorado natural. João Ferreira, Marisa Matias, Paulo Rangel, Ricardo Arroja, Rui Tavares ou Paulo Sande constituem escolhas consistentes e viáveis. O próprio Nuno Melo, passando pouco tempo em trabalho parlamentar, tem a vantagem de não estragar muito. Neste contexto, o eleitor, colocado perante a possibilidade de votar na lista do PS, deve perguntar a si mesmo se merece o enxovalho de contribuir para eleger Pedro Marques e Pedro Silva Pereira.

 

* publicado na edição de Maio do Dia 15.

O Homem Invisível

por Rui Rocha, em 22.05.19

A propósito da aparição de Passos Coelho em campanha, registe-se que o embaraço do PS não é só o de Sócrates ser um ex-líder inapresentável em público. Na própria lista de Pedro Marques há um homem invisível. Os outros candidatos socialistas aparecem em arruadas, em encontros, falam, existem. Já o nº 3 nunca se vê, tamanha é a vergonha.

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O PS e as Fake News

por Rui Rocha, em 01.04.19

A Amazon praticamente não tem lojas físicas. A Alibaba não tem stock. A Uber não tem viaturas, o Instagram não gera conteúdos e a Airbnb não tem propriedades. É um admirável mundo novo. No caso das Fake News é esse admirável novo mundo outra vez. As mentiras podem ser produzidas por plataformas sem necessidade de intermediação (ou controlo) de partidos ou meios de comunicação e agenciamento tradicionais. Não admira que políticos e jornalistas olhem para essas plataformas como um taxista olha para um motorista da Uber: uma ameça poderosa de concorrência num espaço que acreditavam ser só seu. E é natural que, de entre os partidos, seja o PS o que aparece como o mais preocupado com as Fake News. Tão preocupado que lançou por estes dias um pungente apelo ao governo e aos outros partidos com o objectivo de lhes dar um combate sem tréguas. É normal. Um latifundiário das Fake News não pode ver com bons olhos a chegada de pequenos proprietários que vão lançando as suas próprias inverdades que, o Diabo seja cego e surdo, poderão não estar sequer alinhadas com as faltas à verdade que são do interesse do PS. Na verdade, o PS é a Antral das Fake News. A melhoria do serviço, a qualidade da frota, a transparência da transacção comercial, a satisfação do cliente, tudo isso é o que menos importa. O que é fundamental é tentar impedir a entrada de concorrência. O táxi do PS é o país. O Serviço Nacional de saúde são os pneus carecas. O estado da Justiça é a direcção desalinhada, as cativações são as mudanças do óleo e as revisões adiadas, a Protecção Civil em ruínas são os estofos cheios de buracos. E Costa é o taxista das Fake News. Fala um português sofrível, não usa desodorizante e apoia o Benfica. Quando inicia uma corrida, Costa promete sempre aos passageiros que há outro caminho. Então para onde é que o shôr quer ir? Quero ir ali para a zona do saneamento das finanças públicas. E o shôr quer ir por onde? Não sei, se calhar atalhávamos ali pela austeridade? O shôr não pense nisso, há outro caminho. Ó senhor motorista, como é que se chama este caminho? Carga fiscal, shôr passageiro, embora também lhe chamem Esbulho. Com Costa a conduzir o país, há sempre outro caminho, mas o preço é invariavelmente omitido no princípio da viagem. E o PS, latifundiário das Fake News, quer continuar a passar de mansinho que esse caminho não tem custos, que não levou o país à bancarrota em 2011, que este PS não é o velho PS de Sócrates, que os acólitos de Sócrates que são os do PS de agora nem sequer sonharam, muito menos viram o que se passava, que as 35 horas dos funcionários públicos não tinham custos, que a tragédia dos incêndios se deveu exclusivamente a condições atmosféricas desfavoráveis, que as relações familiares dentro do governo e na esfera do poder são normalíssimas, que a geringonça não é uma manobra táctica que branqueia a natureza anti-democrática do PCP ou que as Instituições e as funções públicas mais relevantes não estão em estado de profunda erosão quando não de implosão. O PS quer controlar as Fake News porque não interessam ao PS mentiras novas. As ilusões e embustes que o PS produz são-lhe mais do que suficientes. Ao PS não interessam mentiras novas, mas não interessam sobretudo novas verdades. Como poderia interessar ao PS, paladino do combate às Fake News, cavaleiro imaculado de espada em riste pela transparência, que viesse por aí alguém sugerir que Pedro Marques, o cabeça de lista pelo PS às eleições europeias, fosse ele próprio um dos elementos que alimentava o blogue Câmara Corporativa, uma máquina de contra-informação ao serviço de Sócrates. Ou que alguém se lembrasse de sublinhar que o número 3 dessa mesma lista é Pedro Silva Pereira, o lugar-tenente de Sócrates que o PS oportun(ístic)amente renegou? São de facto tempos gloriosos estes em que ouvimos, na mesma semana, o PS defender medidas contra as Fake News em nome da cidadania e Ricardo Salgado afirmar que todos os dias se lembra dos lesados do BES. Por este caminho, ainda vamos ver Carlos César preocupado com o nepotismo e o Juiz Neto de Moura a doar as suas posses à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.

 

* artigo publicado na edição de Março do Dia 15.

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Se olharmos para trás, o país evoluiu muito em termos de igualdade de género. Mas, se quisermos ser sérios, há ainda muito a fazer, nomeadamente em contexto profissional. Quer dizer que não há mulheres competentes a chegar a posições de destaque nas mais variadas áreas das empresas, do Estado e da vida pública? Há, seguramente. Todavia, a igualdade não passa apenas, nem passa principalmente, por mulheres capazes terem direito ao espaço que lhes cabe em função dessa capacidade. Era só o que faltava que não tivessem. A igualdade passa por mulheres incapazes tomarem espaços para os quais não são capazes. Porque o país está cheio de homens incapazes que ocupam esses espaços apesar da sua incapacidade. Igualdade tem de ser, portanto, o empoderamento (lá está...) de mulheres incapazes para as colocar em circunstâncias semelhantes às dos homens incapazes que têm sido promovidos às mais altas responsabilidades apesar da sua profunda incompetência. O governo de António Costa, é justo reconhecer, tem liderado pelo exemplo nesta matéria. A ministra Graça Fonseca (a da cultura ou lá como se chama aquela pasta que distribui dinheiro dos contribuintes por “agentes” que se dedicam a “performances” variadas que os contribuintes nunca pagariam para ver, ouvir ou comprar) parece até mais incompetente do que o ministro homem (não me recordo agora do nome, mas é aquele que é poeta e tinha cara assim de patarata) que a precedeu. E a ministra Marta Temido, da Saúde, honra lhe seja feita, também tem mostrado potencial para ser tão ou mais incompetente que o ministro Adalberto, sendo que, com este, a fasquia já estava situada a um nível de incompetência bastante exigente. Mas se no que diz respeito ao elenco governativo estão a ser dados passos seguros no sentido de dar palco a mulheres com níveis de incompetência apreciáveis (veremos em todo o caso se será possível encontrar um dia uma líder do executivo tão incompetente como o próprio António Costa), este não é um movimento que esteja a acontecer com a mesma velocidade noutras áreas. Veja-se o sector vital da Malandragem no qual se atingiu, em Portugal, um nível de proficiência que nos coloca entre os trinta melhores do mundo nos indicadores globais de corrupção e que é responsável pela criação de emprego e de assinalável acumulação de riqueza. Quem tivemos no país que se tenha destacado no sector da Malandragem? Um Alves dos Reis, no passado? Era, tanto quanto se sabe, gajo. Normal, numa sociedade que era profundamente heteropatriarcal. Mas as coisas mudaram entretanto? Muito pouco. Quem tivemos então com acusações de trafulhice em julgado ou na praça pública nos últimos anos? Um Sócrates? Ao que se sabe, apesar da voz esganiçada, é gajo. Ricardo Salgado? Gajo, ao que tudo indica. Bava, Dias Loureiro, Vara, Carlos Santos Silva, José Paulo Pinto de Sousa, Isaltino, Valentim Loureiro, Granadeiro, os do futebol? Tudo gajos, até prova em contrário. A sub-representação feminina em todos estes casos é deprimente. Repare-se que estes expoentes do sector da Malandragem são todos eles razoavelmente incompetentes uma vez que acabaram por ser apanhados (condenados é outra coisa) com a boca na botija. Pois nem assim há uma mulher que se destaque em algum dos grandes casos de corrupção que abanaram o país. Fernanda Câncio, por exemplo, intrépida lutadora da igualdade de género, apesar da sua intimidade com Sócrates, nem sequer conseguiu ser arguida no Processo Marquês. Bárbara Vara, de vistas curtas, contentou-se com um empréstimo mixuruca de duzentos mil euros da Caixa Geral de Depósitos de Vinhais (naquelas condições não era logo de pedir cinco ou seis milhões?) e nunca suspeitou (muito menos participou, claro) das trampolinices do patriarca Vara. A mulher de Ricardo Salgado? Uma senhora, hã!!! Uma senhora! Incapaz de partir uma unha no intervalo das missas, quanto mais de colocar o pé em ramo verde. Do ponto de vista do empoderamento feminino no sector da Malandragem é tudo uma miséria, convenhamos. Tão mais grave quanto é certo que a economia paralela e subterrânea representa para aí 25% da riqueza do país. Se as mulheres competentes, mas sobretudo as incompetentes, forem sistematicamente afastadas de posições de liderança no sector da Malandragem isso significa que estão desde logo privadas de aceder a uma parte muito relevante do PIB. A verdade é que para encontrarmos uma mulher com algum destaque na gatunice temos de recuar a D. Branca na década de 80 do século passado (um esquema de Ponzi razoavelmente bem esgalhado mas ainda assim longe da performance de João Rendeiro uns anos depois) ou a Fátima Felgueiras (um desempenho promissor que incluiu fuga rocambolesca, fixação de residência em país sem acordo de extradição e remodelação estética, mas que acabou numa aparente cedência ao sector formal da economia e ao recato da vida autárquica numa parvónia do norte-interior). Há mais? Quem? A da Raríssimas? O Bataglia dos submarinos e do Monte Branco riu-se. Note-se que até no caso da troca de lâmpadas e casquilhos na Câmara de Loures é o genro do Jerónimo, não a filha, que leva a massa para casa. A verdade é esta: em Portugal, em pleno século XXI, ao lado de um grande homem envolvido em trambiqueirice há, na melhor das hipóteses, uma grande mulher que não viu nada. É muito pouco e é óbvio que temos de dar a volta a isto.

 

* publicado na edição de Fevereiro do Dia 15.

Previsões para 2019

por Rui Rocha, em 04.02.19

Marcelo Rebelo de Sousa – Em 2018 visitou o interior do país durante o Verão, ficando célebres os mergulhos em praias fluviais e as trocas de calções subsequentes, num esforço para não deixar cair no esquecimento as áreas mais afectadas pelos incêndios e pelo abandono. Em 2019, passará Julho e Agosto em estações e apeadeiros da CP, confortando os passageiros vítimas de atrasos, supressões e greves. Passará o Natal numa automotora na Linha do Oeste e, na véspera de Ano Novo, deslocar-se-á ao Barreiro num barco da Transtejo para beber a já tradicional ginginha. Durante a Volta a Portugal em Bicicleta conduzirá o carro-vassoura. Será chamado a lançar a primeira pedra da futura Ala Geriátrica do S. João (antiga Ala Pediátrica).

Ferro Rodrigues – Liderará os trabalhos da Assembleia da República com isenção e equidistância e demonstrará sentido de Estado em todos os assuntos e processos em que estiver envolvido, constituindo-se como referencial e exemplo democrático, garante do respeito pelas instituições, reserva moral da Nação e farol dos direitos, liberdades e garantias. Ahahahah! Não vai fazer nada disto. Eu é que estava a mangar.

António Costa - O ano começará com conflitualidade social provocando algum desgaste à medida que se aproximarem as eleições. Contará, todavia, com a preciosa ajuda de Maria Begonha que, em poucos meses, tirará a licenciatura em enfermagem, a especialidade de anestesista e concluirá o estágio de maquinista da CP. Graças ao contributo da jovem socialista, as greves no sector da saúde e dos comboios terão menos impacto do que o previsto, ajudando a um resultado eleitoral positivo. Maria Begonha assegurará ainda o acompanhamento dos partos na Maternidade Alfredo da Costa durante o período de Natal e Ano Novo. No Verão, Costa ordenará a evacuação de todos os portugueses residentes em Portugal continental para os Açores, não vá haver azar com a coisa dos incêndios.

Rui Rio – Lutando contra todas as dificuldades, será finalmente capaz de derrotar a oposição interna e de mobilizar os condóminos do prédio em que habita para adoptarem um novo processo de gestão do economato e uma frequência pré-definida de substituição das lâmpadas das caixas de escadas. Sob a sua liderança inspiradora a gestão das redes sociais do PSD entrará definitivamente no século XIX. Num golpe de asa inesperado, negociará impiedosamente com António Costa as condições para um acordo de regime que traçará como linhas vermelhas a tão aguardada revisão do POC e a previsão na Constituição da obrigatoriedade de os portugueses e portuguesas maiores de 18 anos estarem inscritos da Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas. Depois do êxito alcançado com a linha de produtos para banhos de ética, lançará um champô contra a seborreia e um elixir para combater o mau hálito. Na frente eleitoral, nada a registar.

Catarina Martins – Num ano de intensa actividade política, dividir-se-á entre a luta contra a discriminação, a desigualdade, a linguagem não inclusiva, a xenofobia, as alterações climáticas, a gentrificação e a viabilização do 1º orçamento de António Costa na nova legislatura. Encontrará ainda tempo para regressar ao teatro contracenando como actriz pincipal na revista “Olívia Senhoria, Olívia Inquilina”, uma divertida comédia em que, de forma descontraída, são exploradas questões intemporais como o sentido da vida e as contradições mais profundas da natureza humana, tudo isto tendo como pano de fundo uma sociedade lisboeta fustigada por um movimento agressivo de especulação imobiliária.

Assunção Cristas – Em 2019 conseguirá descolar definitivamente o CDS da imagem de partido do táxi, celebrando um contrato exclusivo com a Uber para transportar a totalidade do grupo parlamentar em três viaturas. Conseguirá combater, com esforço e sucesso, todas as tentativas de Adolfo Mesquita Nunes para dotar o CDS de um pensamento político, ideológico e económico estruturado. Aumentará a variedade e profundidade do guarda-roupa o que lhe permitirá apresentar-se bem quer nas visitas a bairros sociais, quer em jornadas de discussão e almoçaradas promovidas por agro-betos em plena lezíria.

Jerónimo de Sousa – Lançará com êxito uma colectânea de ditados, dichotes e frases populares usados nos seus discursos. Enfrentará, todavia, uma grave crise na frente sindical no 2º trimestre de 2019 quando Mário Nogueira assinar um mau acordo para os professores por se enganar a contar o tempo de serviço pelos dedos. Num esforço por demonstrar algum arejamento, admitirá que foram cometidos dois ou três erros na informação de cadastro do registo predial da antiga União Soviética.

André Silva (o do PAN) – Enfrentará uma grave crise interna com a criação de uma célula radical de defesa de plantas e legumes cujo objectivo será semear o pânico. Em termos eleitorais, o apoio obtido nas redes sociais não corresponderá aos resultados obtidos nas urnas, pelo que se prevê que possa dar com os burrinhos na água.

Cidadãos em geral – Serão chamados a assumir maior protagonismo no pagamento de impostos e a fazer escolhas eleitorais de grande responsabilidade. Em todos os momentos serão capazes de afirmar o seu sentido patriótico com civismo e elevação, respondendo à pergunta essencial sobre o futuro colectivo: qual o país que pretendem deixar aos sobrinhos-netos do Carlos César?

 

* originalmente publicado na edição de Janeiro do Dia 15.

Não vão acreditar nesta

por Rui Rocha, em 14.01.19

Estive a ver a assinatura do Jerónimo de Sousa que subscreveu esta carta de apoio ao ditador venezuelano e é igualzinha à do Jerónimo de Sousa que assinou com o Costa o acordo que viabilizou a geringonça. Que surpresa, não?

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O Hemiciclo Preparatório

por Rui Rocha, em 07.01.19

Certo. Devemos aos gregos a semente da democracia e às democracias liberais a ideia de que a uma pessoa corresponde um voto. Mas foi preciso chegarmos à segunda década do século XXI depois de Cristo para encontrarmos um verdadeiro salto em frente na prática da democracia representativa. E desta vez não é à Grécia ou às Ilhas Britânicas que ficamos a dever este feito extraordinário. É verdade. Foi mesmo aqui em Portugal que um grupo de valorosos parlamentares trouxe a um mundo embasbacado o princípio “um deputado, várias passwords, diversos votos”. É claro que, como sempre acontece, estas ideias revolucionárias enfrentam enorme resistência. E mais uma vez aí os temos, os do costume, a pôr em causa a bondade deste avanço civilizacional. Se virmos bem, são os mesmos que se insurgem contra a falsificação de assinaturas ou a venda da Torre de Belém a incautos, os que põem em causa os benefícios das pulseiras do equilíbrio e do Cogumelo do Tempo, os que gozam com a homeopatia, os que duvidam dos mails do Príncipe da Nigéria, os que esboçam um trejeito de desdém quando vem à baila o último acto altruísta do José Paulo Pinto de Sousa a favor do seu primo Zé Sócrates, os que fazem galhofa sempre que se refere a Ericeira, os que não resistem a um trocadilho estafado sempre que se fala em robalos. É sempre assim. Por incrível que pareça, ainda há por aí gentinha que não acha piada a vigarices. Mais. É bem provável que estes acabem por triunfar, que a tacanhez prevaleça. Vamos lá ver. O que é normal é uma pessoa esquecer-se da sua própria password. Vais ao Multibanco e tungas. De um momento para outro, aquele código que sabias de cor há mais de 20 anos varreu-se. Ou tentas aceder ao gmail e tufa. Será que a tua password era abcdefgh ou era isto em maiúsculas? Ou seria 123456789? De um momento para o outro, não sabes. Esforças-te, puxas pela cabeça, ficas com suores frios, mas nada, népias, nickles. E da outra vez foi a tentar fazer login no Facebook, não foi? Pois foi. Isto é mesmo assim. O ser humano está “programado” para, mais tarde ou mais cedo, em geral mais cedo do que tarde, esquecer-se da sua própria password. Mas há deputados, verdadeiramente sobredotados, passe o pleonasmo, que não só sabem o seu código de login como ainda se lembram do de vários colegas do Parlamento. É verdadeiramente assombroso. Tão assombroso que o mais certo é mesmo, como dizíamos, que a inveja venha a prevalecer, impedindo a Humanidade de chegar mais cedo ao futuro, derrotando esses portentos capazes de votar uns pelos outros. Agora, se tiver de ser assim, e por certo será, se o imobilismo tiver de prevalecer, e por certo terá, que tudo isto se faça ao menos de forma adequada. Há quem tente paralisar a façanha preconizando um sistema de reconhecimento da íris? Há. Mas, a íris é a parte mais visível (e colorida) do olho dos vertebrados, sendo esta uma condição que a maior parte dos deputados já perdeu há muito tempo, pelo que o método é, a bem dizer, inviável. A verdade é que se o que se pretende, vá lá saber-se porquê, é garantir que os nossos eleitos estão mesmo presentes, o melhor mesmo é o Dr. Ferro fazer a chamada. Deputado Carlos César? O deputado Carlos César pediu para informar que foi aos CTT levantar a duplicação do subsídio de viagens aos Açores e que vai chegar um bocadinho mais tarde, Senhor Presidente. Deputada Fertuzinhos? A deputada Fertuzinhos pediu para avisar que apanhou trânsito à saída da sua residência em Guimarães e que vai chegar um bocadinho mais tarde, Senhor Presidente. Deputada Isabel Moreira? Deputada Isabel Moreira? Deputada Isabel Moreira, eu estou a vê-la aí a pintar as unhas, importa-se de responder à chamada? Presente, Senhor Presidente. Ai, senhora deputada, senhora deputada, se continuar assim desatenta vou ter de chamar cá o seu paizinho outra vez. Deputado Duarte Marques? Presente vírgula Senhor vírgula Presidente. Deputado Silvano? Presente, Senhor Presidente. Deputada Cerqueira, escusa de fazer voz grossa para fazer-se passar pelo deputado Silvano que eu vejo-a bem daqui. Peço desculpa, Senhor Presidente. O deputado Silvano está ou não, deputada Cerqueira? O deputado Silvano está neste momento a tomar um banho de ética, Senhor Presidente. Demora muito? Demorará, Senhor Presidente, uma vez que a sujidade estava muito entranhada. Hmmm. Deputado Feliciano? Presente, Senhor Presidente. Deputada Maria das Mercês, escusa de fazer voz grossa para fazer-se passar pelo deputado Feliciano que eu vejo-a bem daqui. Peço desculpa, Senhor Presidente. O deputado Feliciano está ou não, deputada Maria das Mercês? O deputado Feliciano está neste momento a tomar banho com o deputado Silvano, Senhor Presidente. O ponto é este: a introdução do método de chamada, ademais de garantir a presença dos deputados, já que assim tem de ser, tomará tanto tempo que os impedirá de legislar, circunstância que só poderá reverter a benefício da Nação. Para além disso, é completamente adequado ao estádio médio de desenvolvimento de boa parte dos eleitos parlamentares que estará em linha com o da garotada que frequenta a escola primária ou, nos casos mais favoráveis, o ciclo. Nada melhor, portanto, que transformar a Assembleia da República numa espécie de hemiciclo preparatório com chamadas, faltas de material e recados nas cadernetas dirigidos aos encarregados de educação.

 

* publicado na edição de Dezembro do Dia 15.

De luz e de sombra

por Rui Rocha, em 19.11.18

Vamos lá ver. Sempre gostei de touradas. Gostei da 1ª vez que vi ao vivo, com 5 anos, até porque a minha mãe me garantia que aquilo que saía do touro quando lhe espetavam as bandarilhas era vinho tinto. E, nesse dia, quem lhas espetava era o Chibanga. Gostava de ver touradas na televisão, com a minha avó, num tempo em que na televisão não se passava nada, ou o que se passava eram o TV Rural, o Tom e o Jerry, os desenhos animados desencantados na Checoslováquia pelo Vasco Granja e os Jogos Sem Fronteiras. E gostava de ver ainda que, até certa altura, a minha mãe tivesse de me tapar os olhos para não ver as pegas porque nas pegas eu tinha um bocadinho de medo. Depois, já em Braga, onde víamos mais a televisão espanhola do que a portuguesa (eu já conhecia o Piranha e o Chanquete uns bons anos antes de a RTP os trazer para Portugal), descobri a tourada à espanhola. Com os Miuras e os Victorinos. Com picadores, morte do touro na arena e, nos dias perfeitos, corte de rabo e orelhas. E sim, a tourada portuguesa perdeu um bocadinho de interesse, com excepção da parte dos forcados. E sim, houve tardes em que corri para casa para ver as transmissões da TVE da Feria de Las Ventas, ou da Maestranza de Sevilla ou de Ronda. Sim, vi o Antoñete, o Ruiz Miguel, o Espartaco, o Paco Ojeda, o El Niño de la Capea, o José Luis Manzanares e o El Yiyo e o Curro Romero. Adorava aquilo, cheguei a perceber um bocadinho daquilo. Do "temple", dos "espacios", das "querencias", das "tablas". Por isso, não me venham falar das touradas do ponto de vista de gostar. Gostava de touradas e acho, para ser sincero, que ainda gosto. Do frisson, da valentia, do perigo, da violência, eu sei lá. Não me interpretem mal, mas gostava das touradas como gostava dos filmes de cowboys em que os índios eram sempre os maus e perdiam sempre. Morriam como tordos à pistola do John Wayne e dos tipos do Bonanza e nós ficávamos contentes. Ou não ficávamos? Ou como gostava do wrestling até perceber que aquilo não era pancada a sério, que estava tudo feito. Da mesma maneira, imagino, que alguns gostam de ver quando há acidentes. Ou que outros gostam de insultar árbitros todos os fins-de-semana. Somos herança genética e somos cultura e uma e outra influenciam-se. Nesse gostar de tourada, de filmes de cowboys, havia uma questão de empatia direccionada que resolvia o problema. Os índios eram todos maus, não eram? E os touros, na verdade, eram praticamente um objecto. E se estavam lá, era porque queriam. Essa é a história perfeita da tourada. O touro está lá porque é da sua natureza ser bravo, investir, ser toureado. Se não for toureado, extingue-se e, como todas as espécies, o touro orienta-se para a sua sobrevivência. E o toureiro está lá, com todos os que estão, porque essa a é a sua cultura, a sua tradição. Está tudo bem, então. Somos genética, química e cultura e a violência está presente no resultado. Está tudo bem, não está? Do ponto de vista dos instintos básicos, está, Desse traço fundamental da humanidade está, claro. Mas e depois? Não há na tourada uma violência gratuita que merece reflexão para lá disso? Pergunto porque continuo a gostar de tourada e, ao mesmo tempo, sinto que as touradas já não são deste tempo, que chegou a hora de pensarmos nisso.

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Uma oportunidade para a inovação

por Rui Rocha, em 13.10.18

A passagem do furacão Leslie é uma oportunidade para a Protecção Civil desencadear acções inovadoras. Com tanto vento, podia mandar um sms com o contacto da Carglass ou assim.


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