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O blogue da semana

por João Pedro Pimenta, em 28.06.20

É já um velho conhecido do Delito, e não é a primeira vez que aparece nesta coluna. Pudera, é um dos pioneiros da blogosfera portuguesa, e tendo já mudado de "casa" algumas vezes, permanece incansável, com alguns intervalos, como os dos últimos dias, ou de quando resolveu experimentar o Governo. Dos últimos tempos, aconselho-vos este post de despedida de Luís Sepúlveda.

A Origem das Espécies, de Francisco José Viegas, é o blogue da semana.

S. João eclipsado

por João Pedro Pimenta, em 25.06.20
Este dia, ou antes, esta noite é esperada todo o ano. No Natal pensa-se que "só/ainda faltam seis meses para o S. João" (segundo a Bíblia, João Baptista nasceu seis meses antes de Jesus, daí o dia). Quando chega Junho, o Santo António já é uma antecipação; aos poucos vão-se vendo cartazes a anunciar a data, descobrindo manjericos à venda, instalam-se palcos, carrosséis e carrinhos de choque na Baixa, Boavista, Foz, Fontainhas e por todo o Porto. E chegada a noite, vêem-se fogareiros a assar sardinhas, famílias ou bairros inteiros a instalar mesas compridas nas ruas e largos, ouvem-se os primeiros martelinhos e começa-se a avistar as luzes dos balões no ar. Assim se inicia a noite mais longa do ano, colada ao solstício, com o epicentro perto do rio, com os bailaricos habituais, da Ribeira até à Foz, passando por Miragaia e Massarelos. No fim, a habitual dificuldade de voltar para casa, sem carro, táxi ou Uber; a solução é mesmo uma caminhada já a ver a alvorada.

Era a noite mais esperada do ano. Agora é igual a todas as outras, nesta época miserável de gente desfigurada nas ruas. Pela primeira vez desde que há registos (e os primeiros vêm de Fernão Lopes, no séc. XIV), não houve festas de S. João no Porto ou em parte alguma. Vi um entristecido Germano Silva a referir que nem o Cerco do Porto, nem as revoltas ou as outras epidemias todas pararam o S. João. O Covid conseguiu-o. Não sei o que se passa de diferente, mas isto impressiona pela sua dimensão. Pensar que pela primeira vez em séculos não haverá S. João (ou outras festas populares) perturba e entristece. Era daquelas coisas que nos fazia viver. E agora nem sabemos quando voltará, neste mundo em que um surto de 40 contagiados na China é imediatamente notícia. Estamos no meio de uma desgraça inédita ou ficamos mais paranóicos?


DGS divulgou hoje as medidas para os festejos de São João. Porto e ...

PS: soube entretanto que o S. João já tinha tido outras paragens, por razões similares, como a peste bubónica de 1899 (não creio muito, porque só a detectaram em Julho) e outras maleitas.

PS2: alguém devia coordenar um pouco melhor os atrasos nos conselhos da DGS; caso contrário arriscavam-se a que as pessoas festejassem o santo porque as "rigorosas recomendações" chegaram depois do tempo.

Pensamento da semana

por João Pedro Pimenta, em 07.06.20

Por mais que nos digam que o medo é pior que a própria doença, não há possibilidade de o ultrapassar quando pelas ruas circula uma sociedade mascarada e desfigurada. A imagem sugere-nos logo a ideia de pestilência, como que relembrando os trajes dos médicos da peste. E para se vencer o medo, são precisos pontos de apoio e de confiança. Enquanto uma certa imagem de peste perambular, não é possível, salvo por inconsciência, vencê-lo de todo.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

José Cutileiro - In Memoriam

por João Pedro Pimenta, em 18.05.20
Entre outras qualidades havia duas que apreciava particularmente em José Cutileiro: tinha, tal como eu tenho, um tipo de escrita com frases longas e adjectivadas (embora lamentasse não usar muitas vezes o artigo definido) e escrevia os magníficos obituários do Expresso, o espaço In Memoriam, amiúde de figuras excêntricas de que nunca antes tinha ouvido falar, ou de que não saberia à altura que tinham morrido se não os tivesse lido. O último saiu precisamente ontem, com destaque para Iris Love e Little Richard, o criador da célebre Tutti Frutti.

Cutileiro era formado em antropologia e destacou-se como diplomata (sem ser de carreira), exercendo cargos de relevo na Comissão de Paz para a Jugoslávia, uma missão quase impossível, onde nfelizmente as suas ideias para a Bósnia não vingaram, e como secretário-geral da UEO. Para além dos cargos oficias, mantinha colunas nos jornais e na rádio, como a supracitada ou o Visão Global, da Antena 1, e claro, as da personagem A.B. Kotter (que influenciaria outros cronistas-fantasma no futuro, alguns ainda em actividade), recolhidas na colectânea Bilhetes de Colares.

É muito estranho pensar que nos deixou o autor dessa necrologia de elite, embora já me tivesse ocorrido quem os faria quando ele por sua vez partisse. Esperemos que o espaço não fique em branco para além da próxima semana. E também quem fará o epitáfio jornalístico do próprio Cutileiro. Seja quem for, não será a mesma coisa.

Expresso | José Cutileiro, o embaixador que testemunhou a mudança ...

Os modelos "lá de fora"

por João Pedro Pimenta, em 15.05.20
 

Muito se tem discutido o "modelo sueco" de relaxamento face à pandemia, para mais depressa adquirir imunidade de grupo e manter parte da economia a funcionar. Não pondo em causa a legitimidade das autoridades científicas e políticas locais, tenho sérias dúvidas quanto a esse modelo, não só por sabermos pouco ainda sobre a imunidade a um vírus novo e porque as economias nunca têm grandes resultados se o resto do mundo está a meio gás, mas sobretudo porque até agora os números da letalidade têm sido pouco encorajadores. Com mais ou menos o mesmo número de contagiados oficiais que Portugal, a Suécia tem três vezes mais óbitos. Até agora, a experiência não parece ser de grande sucesso.

É verdade que os próprios admitem alguns erros. Mas mesmo que o modelo fosse usado noutros países (o que os seus vizinho nórdicos se recusam a fazer), é preciso tomar em devida conta as diferenças culturais nas diferentes sociedades, coisa que parece esquecida em prol da "economia", globalização, etc. E isso não significa necessariamente maior civismo ou "adiantamento" da parte dos suecos. Como as relações familiares e sociais, por exemplo.

Sei do episódio por conversas de família, embora já fosse nascido. Resumidamente, numa altura perto do Natal, uma parente da nossa saudosa prima Eivor (a prima sueca, de geração mais velha) veio a Portugal e ficou maravilhada com as reuniões familiares, os encontros, a preparação para a consoada, etc. Na Suécia, dizia, nada daquilo tinha lugar. Os laços familiares eram completamente diferentes e muito mais distantes. Claro que o Natal existe na Suécia, como em boa parte do Mundo, mas de uma forma mais distante, sem que a grande maioria tenha festas de família, num país já de si frio, o que pode justificar o elevado número de suicídios.

É por isso que importar um determinado modelo, já de si discutível no país de origem, pode não fazer qualquer sentido e trazer males maiores. A natureza humana pouco muda, o Mundo é global, a Europa é unida, mas as diferenças culturais, ainda que esbatidas, permanecem e acabam sempre por vir à superfície. É bom que quando olhamos para o que vem "lá de fora" não pensemos que é tudo melhor e que os nossos hábitos são necessariamente "incivilizados". Para isso já basta essa velha e perniciosa mania dos portugueses de dizerem constantemente mal do próprio país.


A imagem pode conter: 2 pessoas, ar livre

O Irão e a Áustrália ficam no mesmo hemisfério

por João Pedro Pimenta, em 24.04.20

A propósito da questão da sazonalidade do covid, estava ontem a ver um artigo de um "jornal de referência" que duvidava da mesma porque o vírus tinha atingido em força a Austrália e o Irão, porque são "terras quentes".


Ora bem: a Austrália realmente recebeu o vírus no Verão, embora até nem tenha sido assim tão atingida (tendo começado bem antes, tem números claramente melhores que os nossos, tanto em contaminados como em mortes, e a maioria já recuperou). Mas o Irão estaria assim tão "quente"? A antiga Pérsia apanhou com isto em força em Fevereiro, sobretudo na região mais a Norte, onde fica Teerão e a cidade santa de Qom, principal foco da coisa. Não é preciso ir muito longe para se concluir que a neve nas montanhas da região, ali para o Elburz, não é propriamente artificial, e verificar que a temperatura média por ali entre Fevereiro e Março vai de 0 a 15 graus, com um clima frio e seco, o mais apropriado para este vírus. Quentíssimo, como se vê.

Às vezes o jornalismo de rigor devia preocupar-se em ser realmente rigoroso e não só a apregoá-lo.

O blogue da semana

por João Pedro Pimenta, em 19.04.20

Agora apenas com Vital Moreira, depois de ter sido um blogue colectivo, e mesmo que em muitos aspectos se discorde do que lá se diz, tem normalmente matérias de reflexão e pertinência que justificam a leitura.

O Causa Nossa é o blogue da semana

Pragmatismo político em tempo de crise

por João Pedro Pimenta, em 17.04.20
A prova de que as ideologias não morreram é que as encontramos em todas as discussões da actualidade, e a pandemia que atravessamos não é de modo algum excepção. Com menor ou maior discrição, erguem-se vozes a vituperar o neoliberalismo e o seu abandono dos cidadãos e das funções essenciais do estado, a começar pela saúde, ou o socialismo, responsável pela crise, pelo seu encobrimento e pelas suas respostas ineficazes. Isto a juntar às inevitáveis teorias da conspiração, em que se vê de tudo. Já encontrei dedos apontados aos chineses, aos americanos, a Bill Gates, à maçonaria, ao globalismo e não há de faltar muito para que se incluam George Soros, os judeus (com a sub-secção dos Rotschild), os extreterrestres e os Iluminatti.
 
Mas o que interessa aqui é mesmo a ideologia. É sabido que em graves crises a tendência é para unir esforços e dar-se importância ao pragmatismo. Veja-se o governo nacional no Reino Unido, durante a II Guerra, em que Churchill formou um Gabinete de Crise e um governo de unidade nacional chamando Clement Attlee para número dois, além de outros membros dos partidos Trabalhista e Liberal. Em tempos da maior ameaça, com as ilhas britânicas como único baluarte europeu contra a agressão nazi, houve necessidade de reunir forças na luta contra a ameaça à pátria e a civilização.

Lembrei-me disso depois do discurso de Páscoa de Boris Johnson, quando saiu do hospital. Para além dos elogios pessoais aos enfermeiros Luís "near Porto" e à neozelandeza Jenny, que tanto ecoaram nos respectivos países, o primeiro-ministro não se cansou de exaltar e elogiar o afamado Serviço Nacional de Saúde britânico. Tem a sua graça ver estes elogios da parte de um líder conservador. O National Healthcare Service é, não nos esqueçamos, uma criação do governo trabalhista pós-guerra de Attlee, que sucedeu a Churchill (que voltaria a tomar o lugar do trabalhista depois). Na altura, muitos acusaram a "deriva socialista" da medida, mas o certo é que mais nenhum governo, nem o de Thatcher, que apostava na diminuição do peso do estado, se atreveu a acabar com ela, ainda que tivesse havido cortes, emagrecimentos e concorrentes. O serviço nacional de saúde tornou-se ele próprio num instituição britânica, que como se sabe, são coisas particularmente defendidas naquele país. Como dizia alguém recentemente, o National Healthcare Service é "the closest thing the english people have to a national religion", não esquecendo a igreja anglicana.

Tem o seu significado ver essa criação trabalhista de Attlee ser tão elogiada por um primeiro-ministro conservador, logo Boris que tantas vezes evoca Churchill, sobre quem até escreveu livros. A sua experiência recente no hospital ajudou, claro. Mas em tempos de crise, repito, opta-se pelo pragmatismo em lugar das trincheiras ideológicas. As ideias e a política não desapareceram, mas pode-se extrair o que de melhor há nelas - neste caso, um serviço nacional de saúde forte e preparado e a contribuição generosa da sociedade e dos particulares. Ambos são necessários e preciosos. Não para se curvar perante unanimismos mas para unir esforços no sentido de defender a nação, os cidadãos e o bem comum.
 
Churchill and socialist Attlee putting country before party is ...

Da glória à tragédia no espaço de dias

por João Pedro Pimenta, em 10.04.20

 

Decididamente há tristes ironias. Aquilo que se passou num curto espaço em Bérgamo é uma delas.

Como se sabe, a província de Bérgamo e a cidade que lhe dá o nome estiveram no epicentro da pandemia do Covid-19 na Lombardia, que por sua vez era a região com mais casos e mortes de Itália, que era o país mais atingido da Europa, que substituiu a Ásia como epicentro da pandemia no Mundo. Ou seja, a província de Bérgamo durante algumas semanas foi o coração da epidemia que corre o globo, a zona onde os doentes não paravam de chegar aos hospitais, já de si em ruptura, o local para onde todos olhavam com temor e espanto. Causaram especial comoção as imagens de camiões militares a transportar caixões, a meio da noite, quando as morgues estavam já ocupadas. A situação dramática de Bérgamo e da Lombardia está a aliviar aos poucos, embora longe de estar controlada. Mas os difíceis dias de Março vão deixar marcas na cidade e na região, uma das mais ricas de Itália e da Europa.

E no entanto, nas semanas anteriores à chegada da doença à Europa, Bérgamo era notícia por razões bem mais felizes. O clube de futebol da cidade, a Atalanta Bergamasca Calcio, já tinha tido uma prestação soberba na época passada, de tal forma que se classificou para a Liga dos Campeões em terceiro lugar no campeonato, à frente do mais poderoso vizinho Inter de Milão, e teve o melhor ataque da prova. Este ano ainda assombrava mais o Calcio e a Europa, proporcionando um futebol de ataque como raramente se vê no tão defensivo campeonato italiano, obrigando os seus adeptos a levantar-se vezes sem conta, tantos eram os golos marcados. Na série A esmagava - e não apenas vencia - boa parte dos seus adversários. Vejam-se estes números: 7-1 à Udinese, 7-2 ao Lecce (fora), sete a zero ao histórico Torino, em pleno Comunale de Turim, e cinco humilhantes secos ao muito mais prestigiado vizinho, o outrora poderosíssimo A.C. Milan. Para além disso, estava a fazer boa figura na Liga dos Campeões. Depois de um arranque em falso, em que perdeu os três primeiros jogos por números esclarecedores, virou completamente e conseguiu, por uma nesga, classificar-se para os oitavos de final da Liga dos Campeões, atrás do Manchester City. Nunca nenhum clube o conseguira perdendo os três primeiros jogos do grupo. E já nos desafios a eliminar, os de Bérgamo deram 4-1 ao Valência no S. Siro, casa emprestada pela exiguidade do seu estádio, e 4-3 na segunda mão, na cidade espanhola, em jogo à porta fechada, já com o Covid a fazer estragos. Festejou-se entusiasticamente o resultado da primeira mão, com milhares de adeptos a vitoriar a equipa, e os jogadores também comemoraram a passagem aos quartos de final. Que por causa disso poderão nem vir a acontecer.

Atalanta, boom di abbonamenti Oltre 5mila in soli tre giorni in ...

 

É que esse momento mágico da Atalanta estará directamente ligado às semanas de chumbo que se abateram sobre a Lombardia. O vírus já tinha entrado dissimuladamente no Norte de Itália, e o jogo em que a Atalanta recebeu o Valência, com mais de quarenta mil adeptos no S. Siro, a festejar ruidosamente cá fora depois, muito contribuiu para a sua disseminação - se é que não terá sido o detonador e causa principal do que se seguiu. Tanto que dias depois vários jogadores do Valência ficariam contaminados no jogo à porta fechada, embora curiosamente só um dos da Atalanta tenha sido atingido.

Assim, um feito que trouxe a pequena cidade lombarda para as bocas do mundo pelas melhores razões acabou por ser completamente ultrapassado por uma situação dramática no espaço de dias, situação para a qual concorreu. Do céu ao inferno num curtíssimo espaço de tempo. Uma queda imprevisível mas especialmente amarga. Precisamente por isso, e adivinhando a dificuldade de se concluírem os campeonatos interrompidos, já há petições em Itália para que a Atalanta seja declarada campeã da série A, mesmo que não estivesse em primeiro no campeonato (mas tinha o melhor ataque, com setenta golos marcados), e até há quem se lembrasse de lhe dar o troféu mais desejado, a Liga dos Campeões. Se dar o título de campeão europeu parece exagerado e até de gosto duvidoso, a atribuição do campeonato italiano à equipa que mais espectáculo deu parece justíssima, à imagem do que aconteceu ao malogrado Gran Torino em 1949, cujo futuro radioso acabou entre destroços na colina da Superga. Seria um magro consolo para tudo o que Bérgamo sofreu, mas para além de compensação, seria um reconhecimento justo aos que respeitaram o público não se rendendo ao futebol cínico e resultadista e um pequeno incentivo, ainda que amargo, para o futuro.

 

Atalanta: 6 Players You Should Know After Their Historic Champions ...

Cercos do Porto, uma tradição

por João Pedro Pimenta, em 31.03.20

Batalha da Serra do Pilar durante o cerco do Porto (1832) | Porto ...

Quando se sabe hoje que afinal o Porto tem metade dos contaminados que nos atribuíam ontem, a ideia peregrina de fazer um "cerco sanitário" raia ainda mais o absurdo. Ainda por cima na cidade que mais depressa tomou medidas preventivas, como o fecho da maior parte dos serviços, ainda antes da pandemia ser declarada. Devem pensar que é algum tipo de tradição. Já estamos habituados ao método. De século a século, o Porto apanha sempre com um cerco (os dois últimos foram o célebre Cerco em 1833, na guerra civil entre liberais e absolutistas - e à falta de um Fernão Lopes tivemos Garrett e Herculano a testemunhá-lo - e o também cordão sanitário à peste bubónica em 1899). Mas lá porque já temos experiência não quer dizer que tenhamos de levar mais vezes com esta brincadeira, senhora DGS.

O ar que respiramos

por João Pedro Pimenta, em 22.03.20

Eis uma explicação racional para a quantidade de mortes em Hubei, Norte de Itália e Norte do Irão. Tudo zonas que pela sua densidade populacional, geografia (zonas planas rodeadas de cordilheiras, que limitam a circulação do ar) e sobretudo indústria pesada e, no caso de Itália, posse de automóveis per capita, das maiores do mundo (e todos sabemos como os italianos apreciam carros), levam a que haja muito pior qualidade do ar, doenças respiratórias e a situação tão complicada que temos vindo a assistir nessas regiões.

Mais uma razão para pensarmos que há questões prementes a ser resolvidas, e que o ar que respiramos é sem dúvida uma delas. Até lá, resta-nos aprender com as lições, por duras que sejam. A economia tem de reerguer-se e o ar ficará novamente mais poluído, mas convinha voltar a este assunto, que aliás esteve no ordem do dia no último ano logo que possível. Talvez muito do cenário terrível que temos vindo a assistir fosse mais ténue.  Que este ar mais limpo que respiramos agora nos ajude a perceber isso, e a curto prazo nos ajude. 

Já acabaram com as teorias estapafúrdias?

por João Pedro Pimenta, em 12.03.20

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Já que anda tudo a lançar a sua opinião sobre o coronavírus nas redes sociais (uns, inconscientes ou engraçadinhos, como se isto se tratasse com bagaço, outros quase apocalípticos, a dizer que "há 15 dias que devia estar tudo fechado", ou seja, quando não havia casos em Portugal) e a divulgar as últimas informações que ouviram, podíamos começar a mudar alguns hábitos, e não falo só de higiene (mas também: a quantidade de pessoas que não lava as mãos quando deve é atroz). As teorias da conspiração, por exemplo.

Espero que aquelas pessoas que andaram com aquela conversa de que "isto é um plano da China para diminuir população" (travar a economia para morrerem escassos milhares de pessoas? Será isso, o brilhante plano?) ou então que "isto é um vírus inventado nos laboratórios para as famacêuticas ganharem milhões com a vacina" (então porque é que ainda não a começaram a vender num mercado como o chinês, quando os números decrescem a olhos vistos e o pânico se instala no Ocidente?) tenham um pouco mais de juízo quando começam com os seus "cá para mim". Isso aplica-se também a "comunicadores", como aquela célebre apresentadora que afirmava há poucas semanas que o vírus só infectava os chineses. E mais ainda a chefes de estado de países de grande população, com o incumbente de Vera Cruz, que acha que o coronavírus é fantasia propagada pela "mídia".

Infelizmente as teorias e os boatos existem desde que o mundo é mundo. Mas como agora as redes sociais as divulgam muito mais facilmente, pedia-se um bocadinho de contenção, e se possível, de juizinho, que bem vai ser preciso.

 

Já me tinha saltado à vista em 2018, por ocasião da mesma discussão, e na altura fiquei calado. Mas voltei a reparar agora. Parece que há muita irritação da parte de alguns defensores da despenalização da eutanásia por haver pessoas que são contra por razões religiosas. Vai daí, lançam-se numa diatribe a favor da "laicidade do estado" (os mais suaves) ou contra "a intromissão das religiões", "os ratos de sacristia" ou a "igreja do cardeal Cerejeira" que "parece querer voltar aos tempos da Inquisição".


Convém relembrar o óbvio: a laicidade do estado significa a separação entre este e as instituições religiosas, não a supressão destas ou a sua hostilização por parte dos poderes públicos. Quanto à inquisição contemporânea e outros delírios, que eu saiba numa sociedade pluralista as religiões têm o seu lugar e as pessoas podem perfeitamente defender os seus princípios baseados na sua fé, políticos incluídos. Por isso sim, há pessoas contra por razões religiosas e isso é perfeitamente legítimo. Assim como a maioria é influenciada por razões políticas ou de outra ordem, e têm igual legitimidade. Aliás é curioso verificar como por vezes a defesa da "liberdade religiosa" para alguns parece ser ou a defesa de apenas determinados cultos ou uma atitude de "sim, tenham lá a fé que quiserem mas exprimi-la em público ou expressar ideias baseadas nela é que não pode ser". Sobretudo numa altura em que tantas opiniões são exprimidas com base em variados conceitos novos e não poucas vezes intrigantes quanto ao contexto - no outro dia lia algo sobre "uma abordagem ao colonialismo do ponto de vista LGBT(?)". Por isso, protestar contra a influência da religião no pensamento dos seus seguidores não é laicidade nenhuma, é apenas desagrado com algo que o emissor não aprecia, mas que numa sociedade aberta (ou diversa, como se diz agora), terá de aceitar, assim como as confissões tiveram de aceitar a legalidade da blasfémia. Caso contrário, não contem comigo para regressar às políticas da 1ª República de má memória.

J´Accuse, ou a memória do caso Dreyfus

por João Pedro Pimenta, em 17.02.20

Completamente ignorado pelos Óscares e pela maior parte dos prémios do cinema, por causa do neopuritanismo americano e dos exageros politicamente correctos contra Roman Polanski (que curiosamente até aparecia representado na última fita de Tarantino, essa sim, candidata aos Óscares), J´Accuse - cujo título remete para a célebre carta de Émile Zola no jornal L´Aurore, dirigido à altura por Clemenceu, e que é um dos momentos grandes do filme - é uma obra fiel aos factos da época e recorda um acontecimento infame em França, que já previa tempos negros de anti semitismo. Com um Jean Dujardin, que normalmente aparece em comédias (ganhou um Óscar de melhor actor aqui há uns anos num papel de cinema mudo, lembram-se?), com uma interpretação de grande sobriedade, de acordo com a personagem. Totalmente aconselhável.

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Pensamento da semana

por João Pedro Pimenta, em 02.02.20

Poucos pecados há hoje em dia que sejam tão graves como o do preconceito, pela maneira como esta palavra é arremessada. E no entanto todos temos preconceitos, já que todos alguma vez na vida fazemos julgamentos sobre situações ou factos que desconhecemos ou dos quais pouco sabemos. E o preconceito pode mesmo servir como defesa em circunstâncias menos claras. Por vezes, há quem dê tanta atenção aos preconceitos que acaba por perder os seus próprios conceitos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Ideias para argumentos (muito) contemporâneos

por João Pedro Pimenta, em 18.01.20

Estou indeciso entre a melhor telenovela para ver no fim de semana: se a do PSD, se a do Livre. E com tanta série que há por aí, sobre tudo e sobre nada, sempre podia haver argumentos baseados nestas duas. Já viram, o líder partidário íntegro e sério que vem "lavar" o partido, ameaçado por malvados conspiradores de "Lesboa" com as garras da maçonaria e peões disfarçados, contra o adversário "anti-oportunistas" que promete pôr a agremiação nos eixos? Ou a estudante e "activista" negra e gaga que chega ao topo, conseguindo entrar no parlamento, e enfrenta a inveja e hostilidade do próprio partido, contando apenas com a ajuda do seu assessor que volta e meia usa saias para provocar o "establishment"? E para a semana temos outra, mais familiar, digna de Enid Blyton: os cinco no congresso para unir democratas-cristãos, conservadores e liberais. Quais Netflix e HBOs, quais quê.

O blogue da semana

por João Pedro Pimenta, em 12.01.20

Já cá constou nesta mesma coluna, e volta aqui por mérito próprio. Sustentado por António Araújo, surpreende a quantidade e qualidade dos textos, para mais longos, por norma, coisa rara nestes tempos em que as leituras demoradas e atentas são preteridas às superficiais e rápidas e a blogoesfera às redes sociais. Vale a pena ler as actualidades, se é que ligam a isso, e explorar os arquivos.

O Malomil é o blogue da semana.

Um mentor de génios

por João Pedro Pimenta, em 03.01.20

A Foz velha, em tempos separada do Porto, de tal forma que ainda há lá quem diga "vou ao Porto" quando pretende ir ao centro da cidade, é em boa parte atravessada por uma rua estreita, empedrada e de traçado ligeiramente curvado, que liga a ainda mais estreita Rua da Cerca e a Esplanada do Castelo (de S. João Baptista da Foz) até à mais movimentada Diogo Botelho, continuando ainda do outro lado. Nela se podem ver mercearias tradicionais, restaurantes premiados mas de fachada discreta, uma via sacra, a antiga casa da câmara, dos tempos em que S. João da Foz era município, e a velha discoteca Dona Urraca/Pop, que recebeu gerações seguidas de movida. Essa velha artéria, em tempos chamada de Rua Central da Foz, é hoje a Rua do Padre Luís Cabral.

O padre Luis Gonzaga Cabral, nascido na Foz em 1866 e ordenado padre da Companhia de Jesus em 1897, depois de ter estudado filosofia em Espanha e teologia em França, tornar-se-ia professor no Colégio de Campolide (então dos jesuítas - hoje Campus da Universidade Nova de Lisboa) e seu reitor em 1903, numa altura em que a ordem fundada por Santo Inácio de Loyola era um dos alvos preferidos dos republicanos e da Carbonária. Exerceu essas funções precisamente quando um jovem aluno e o seu irmão mais novo, órfãos de mãe e deixados até então pelo pai em casa de tios de Lisboa depois da sua vinda de S. Tomé, ingressaram no colégio e lá permaneceram. O mais novo chamava-se António. O mais velho, que tomava conta do irmão, tinha como nome José Sobral de Almada Negreiros.

Como é sabido, Almada seria talvez o artista português mais genial e prolífico dos cem anos seguintes. E essa genialidade deu-se a descobrir em Campolide. Dotado para a escrita e para o desenho (mas também para o desporto, o que provavelmente lhe seria precioso para os anos vindouros de bailarino, e para a mecânica), com uma imaginação fértil e um espírito endiabrado, teve a felicidade de se encontrar numa instituição conhecida por apostar no talento dos seus instruendos. Reparando naquele imenso talento em bruto, os jesuítas e o seu director arranjaram-lhe um quarto/atelier para que pudesse desenvolver as suas pinturas e desenhos, permitindo-lhe aceder amiúde à biblioteca do colégio, chegando mesmo a dispensá-lo de aulas e de um conjunto de outras obrigações. A genialidade do jovem Almada Negreiros justificava-o. Certo dia, o director, presumivelmente Luís Cabral, apanhou-o em veloz corrida entre as salas do colégio e atirou-lhe a frase que se colaria a Almada a partir daí: "tenho 360 alunos e todos têm olhos na cara, porque é que só tu tens a cara nos olhos"? Resta saber se teria dito isto pelo talento impressionante do aluno ou pelos seus enormes olhos, a que era impossível ficar indiferente e que seriam sempre a sua imagem de marca, a par da sua assinatura.

Em 1910, com a implantação da república, os jesuítas seriam expulsos do país, não sem alguma dose de violência, e as suas instituições encerradas. Luís Cabral, que era então já Provincial da Companhia, teve de fugir apressadamente para Espanha, disfarçado de vendedor de máquinas de escrever. Ao contrário de outros não se instalou em La Guardia, mesmo em frente a Caminha, onde surgiria novo colégio dos jesuítas portugueses, mas seguiria para a Bélgica, onde continuou a dedicar-se ao ensino, até à Grande Guerra o expulsar de novo, desta feita para o Brasil.

Em 1916 começou a leccionar no Colégio António Vieira, em Salvador da Bahia, do qual se tornaria director em 1930. Em solo baiano, destacar-se-ia na fundação de várias instituições culturais. Mas teria novo papel decisivo na formação de alguns alunos.

Em Jorge Amado, Uma Biografia, obra escrita pela jornalista baiana Josélia Aguiar sobre a vida do conhecido escritor brasileiro, editada em Portugal há poucos meses, menciona-se logo a influência que "padre Cabral" teve em Amado, que frequentava o colégio. Aos dez anos, «obedecendo a um pedido do padre Cabral, para quem toda a classe devia preparar uma descrição do mar, colocou no papel a memória da praia verde do Pontal, nos arredores de Ilhéus, aquela em que brincava com a filha do canoeiro. Ao trazer os deveres corrigidos, o professor anunciou com ares de solenidade para todos escutarem:´"este vai ser escritor"». Noutro depoimento do próprio Jorge Amado, sobre o mesmo episódio, lemos o seguinte: "minha vocação literária foi despertada pelas aulas desse jesuíta, aplaudido orador sacro, grande estrela do colégio. A sociedade baiana vinha em peso ouvir seu sermão dominical”. Contou que “em determinado dia, em sala de aula, o mestre deu como atividade a escrita de um texto sobre o mar. O menino Jorge, em vez de tratar, como a maior parte dos seus colegas, dos “mares nunca dantes navegados” de Camões, preferiu escrever sobre o mar de Ilhéus, cidade da região cacaueira onde morou e da qual sentia saudades. O Padre Cabral levou os deveres para corrigir em sua cela. Na aula seguinte, entre risonho e solene, anunciou a existência de uma vocação autêntica de escritor naquela salade aula. Pediu que escutassem com atenção o que ia ler. Tinha certeza, afirmou, que o autor daquela página seria no futuro um escritor conhecido. Não regateou elogios".

Luís Gonzaga Cabral, o "padre Cabral", ficaria na Bahia o resto da sua vida, embora ainda tenha voltado a Portugal. Esteve sempre ligado ao ensino e à escrita e a tentar encontrar, como bom jesuíta que era, o melhor que os seus alunos tinham e o talento que poderiam desenvolver. É possível que outros se tenham destacado graças ao seu empenho. Do que não há dúvida é que tanto Almada Negreiros como Jorge Amado lhe deveram a descoberta das suas vocações e o empurrão necessário para se tornarem nos artistas que a cultura lusófona reconhece e celebra.

PS: outra coisa em comum nos dois artistas poderá ser a inspiração do alto Minho. Almada, como é sabido, casou com a vianense Sarah Affonso e passou férias e a lua de mel em Moledo, e Amado era visita da célebre pastelaria Manuel Natário, de viana do Castelo.

Arrasar

por João Pedro Pimenta, em 30.12.19

 

Ouvi há pouco que a boys band D´Arrasar vai voltar a actuar numa festa revivalista dos anos noventa. O momento não podia ser mais oportuno. Sempre que abro o computador e me aparecem notícias relevantes - do ponto de vista do emissor - o verbo arrasar sobressai logo, aplicado a várias situações: "A actriz x arrasou na passadeira vermelha; "a estrela y arrasou na festa"; "a namorada de tal arrasou no banquete". Exemplos concretos: "dona Dolores Aveiro arrasa na entrega de prémios…". E assim por diante. Só é estranho que esses locais não fiquem em ruínas, tal é o arraso que estas pessoas provocam. Depois, nas mesmas notícias, os críticos da moda "arrasam" as famosas e famosos, pela roupa, porque determinada cor não combinava com o padrão, por uma atitude ou gesto que passou despercebida ao comum dos mortais, etc. E finalmente vêm os "arrasos" opinativos, aqueles em que "o político fulano arrasou o seu adversário sicrano na assembleia municipal" ou "numa extensa entrevista", ou "o defensor do clube bege arrasa o representante do clube cor de burro quando foge no debate semanal futebolístico". Normalmente, quem o afirma é das cores do arrasador em questão.

Com tão grande míngua de vocabulário e tanto arrasamento, quem fica mesmo arrasada é a qualidade do texto, uma vez que a substância já não era grande coisa. E a paciência do incauto leitor também. Vejam lá se arrasam um pouco menos antes de deixar tudo em ruínas, ainda que não passem de virtuais.

Blogue da Semana

por João Pedro Pimenta, em 04.11.19

Se as nossas cidades nem sempre são bem tratadas, não é por faltar quem por elas se interesse e alerte para os erros, quando não crimes, de que são vítimas. Há quem felizmente seja sensível ao urbanismo, à qualidade de vida, à estética tantas vezes subvalorizada e ao civismo. Desde há muitos anos que a cidadania urbana está activa na blogosfera. Por isso mesmo, hoje trago não um, mas dois blogues da mesma "família". Um de Lisboa, o mais antigo e activo, e outro da minha cidade, que mereceria mais regularidade.

O Cidadania LX e o Cidadania Porto são os blogues da semana.


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