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Pensamento da semana

por João Pedro Pimenta, em 27.01.20

Poucos pecados há hoje em dia que sejam tão graves como o do preconceito, pela maneira como esta palavra é arremessada. E no entanto todos temos preconceitos, já que todos alguma vez na vida fazemos julgamentos sobre situações ou factos que desconhecemos ou dos quais pouco sabemos. E o preconceito pode mesmo servir como defesa em circunstâncias menos claras. Por vezes, há quem dê tanta atenção aos preconceitos que acaba por perder os seus próprios conceitos.

 

Este pensamento acompanhará o DELITO durante toda a semana

Ideias para argumentos (muito) contemporâneos

por João Pedro Pimenta, em 18.01.20

Estou indeciso entre a melhor telenovela para ver no fim de semana: se a do PSD, se a do Livre. E com tanta série que há por aí, sobre tudo e sobre nada, sempre podia haver argumentos baseados nestas duas. Já viram, o líder partidário íntegro e sério que vem "lavar" o partido, ameaçado por malvados conspiradores de "Lesboa" com as garras da maçonaria e peões disfarçados, contra o adversário "anti-oportunistas" que promete pôr a agremiação nos eixos? Ou a estudante e "activista" negra e gaga que chega ao topo, conseguindo entrar no parlamento, e enfrenta a inveja e hostilidade do próprio partido, contando apenas com a ajuda do seu assessor que volta e meia usa saias para provocar o "establishment"? E para a semana temos outra, mais familiar, digna de Enid Blyton: os cinco no congresso para unir democratas-cristãos, conservadores e liberais. Quais Netflix e HBOs, quais quê.

O blogue da semana

por João Pedro Pimenta, em 12.01.20

Já cá constou nesta mesma coluna, e volta aqui por mérito próprio. Sustentado por António Araújo, surpreende a quantidade e qualidade dos textos, para mais longos, por norma, coisa rara nestes tempos em que as leituras demoradas e atentas são preteridas às superficiais e rápidas e a blogoesfera às redes sociais. Vale a pena ler as actualidades, se é que ligam a isso, e explorar os arquivos.

O Malomil é o blogue da semana.

Um mentor de génios

por João Pedro Pimenta, em 03.01.20

A Foz velha, em tempos separada do Porto, de tal forma que ainda há lá quem diga "vou ao Porto" quando pretende ir ao centro da cidade, é em boa parte atravessada por uma rua estreita, empedrada e de traçado ligeiramente curvado, que liga a ainda mais estreita Rua da Cerca e a Esplanada do Castelo (de S. João Baptista da Foz) até à mais movimentada Diogo Botelho, continuando ainda do outro lado. Nela se podem ver mercearias tradicionais, restaurantes premiados mas de fachada discreta, uma via sacra, a antiga casa da câmara, dos tempos em que S. João da Foz era município, e a velha discoteca Dona Urraca/Pop, que recebeu gerações seguidas de movida. Essa velha artéria, em tempos chamada de Rua Central da Foz, é hoje a Rua do Padre Luís Cabral.

O padre Luis Gonzaga Cabral, nascido na Foz em 1866 e ordenado padre da Companhia de Jesus em 1897, depois de ter estudado filosofia em Espanha e teologia em França, tornar-se-ia professor no Colégio de Campolide (então dos jesuítas - hoje Campus da Universidade Nova de Lisboa) e seu reitor em 1903, numa altura em que a ordem fundada por Santo Inácio de Loyola era um dos alvos preferidos dos republicanos e da Carbonária. Exerceu essas funções precisamente quando um jovem aluno e o seu irmão mais novo, órfãos de mãe e deixados até então pelo pai em casa de tios de Lisboa depois da sua vinda de S. Tomé, ingressaram no colégio e lá permaneceram. O mais novo chamava-se António. O mais velho, que tomava conta do irmão, tinha como nome José Sobral de Almada Negreiros.

Como é sabido, Almada seria talvez o artista português mais genial e prolífico dos cem anos seguintes. E essa genialidade deu-se a descobrir em Campolide. Dotado para a escrita e para o desenho (mas também para o desporto, o que provavelmente lhe seria precioso para os anos vindouros de bailarino, e para a mecânica), com uma imaginação fértil e um espírito endiabrado, teve a felicidade de se encontrar numa instituição conhecida por apostar no talento dos seus instruendos. Reparando naquele imenso talento em bruto, os jesuítas e o seu director arranjaram-lhe um quarto/atelier para que pudesse desenvolver as suas pinturas e desenhos, permitindo-lhe aceder amiúde à biblioteca do colégio, chegando mesmo a dispensá-lo de aulas e de um conjunto de outras obrigações. A genialidade do jovem Almada Negreiros justificava-o. Certo dia, o director, presumivelmente Luís Cabral, apanhou-o em veloz corrida entre as salas do colégio e atirou-lhe a frase que se colaria a Almada a partir daí: "tenho 360 alunos e todos têm olhos na cara, porque é que só tu tens a cara nos olhos"? Resta saber se teria dito isto pelo talento impressionante do aluno ou pelos seus enormes olhos, a que era impossível ficar indiferente e que seriam sempre a sua imagem de marca, a par da sua assinatura.

Em 1910, com a implantação da república, os jesuítas seriam expulsos do país, não sem alguma dose de violência, e as suas instituições encerradas. Luís Cabral, que era então já Provincial da Companhia, teve de fugir apressadamente para Espanha, disfarçado de vendedor de máquinas de escrever. Ao contrário de outros não se instalou em La Guardia, mesmo em frente a Caminha, onde surgiria novo colégio dos jesuítas portugueses, mas seguiria para a Bélgica, onde continuou a dedicar-se ao ensino, até à Grande Guerra o expulsar de novo, desta feita para o Brasil.

Em 1916 começou a leccionar no Colégio António Vieira, em Salvador da Bahia, do qual se tornaria director em 1930. Em solo baiano, destacar-se-ia na fundação de várias instituições culturais. Mas teria novo papel decisivo na formação de alguns alunos.

Em Jorge Amado, Uma Biografia, obra escrita pela jornalista baiana Josélia Aguiar sobre a vida do conhecido escritor brasileiro, editada em Portugal há poucos meses, menciona-se logo a influência que "padre Cabral" teve em Amado, que frequentava o colégio. Aos dez anos, «obedecendo a um pedido do padre Cabral, para quem toda a classe devia preparar uma descrição do mar, colocou no papel a memória da praia verde do Pontal, nos arredores de Ilhéus, aquela em que brincava com a filha do canoeiro. Ao trazer os deveres corrigidos, o professor anunciou com ares de solenidade para todos escutarem:´"este vai ser escritor"». Noutro depoimento do próprio Jorge Amado, sobre o mesmo episódio, lemos o seguinte: "minha vocação literária foi despertada pelas aulas desse jesuíta, aplaudido orador sacro, grande estrela do colégio. A sociedade baiana vinha em peso ouvir seu sermão dominical”. Contou que “em determinado dia, em sala de aula, o mestre deu como atividade a escrita de um texto sobre o mar. O menino Jorge, em vez de tratar, como a maior parte dos seus colegas, dos “mares nunca dantes navegados” de Camões, preferiu escrever sobre o mar de Ilhéus, cidade da região cacaueira onde morou e da qual sentia saudades. O Padre Cabral levou os deveres para corrigir em sua cela. Na aula seguinte, entre risonho e solene, anunciou a existência de uma vocação autêntica de escritor naquela salade aula. Pediu que escutassem com atenção o que ia ler. Tinha certeza, afirmou, que o autor daquela página seria no futuro um escritor conhecido. Não regateou elogios".

Luís Gonzaga Cabral, o "padre Cabral", ficaria na Bahia o resto da sua vida, embora ainda tenha voltado a Portugal. Esteve sempre ligado ao ensino e à escrita e a tentar encontrar, como bom jesuíta que era, o melhor que os seus alunos tinham e o talento que poderiam desenvolver. É possível que outros se tenham destacado graças ao seu empenho. Do que não há dúvida é que tanto Almada Negreiros como Jorge Amado lhe deveram a descoberta das suas vocações e o empurrão necessário para se tornarem nos artistas que a cultura lusófona reconhece e celebra.

PS: outra coisa em comum nos dois artistas poderá ser a inspiração do alto Minho. Almada, como é sabido, casou com a vianense Sarah Affonso e passou férias e a lua de mel em Moledo, e Amado era visita da célebre pastelaria Manuel Natário, de viana do Castelo.

Arrasar

por João Pedro Pimenta, em 30.12.19

 

Ouvi há pouco que a boys band D´Arrasar vai voltar a actuar numa festa revivalista dos anos noventa. O momento não podia ser mais oportuno. Sempre que abro o computador e me aparecem notícias relevantes - do ponto de vista do emissor - o verbo arrasar sobressai logo, aplicado a várias situações: "A actriz x arrasou na passadeira vermelha; "a estrela y arrasou na festa"; "a namorada de tal arrasou no banquete". Exemplos concretos: "dona Dolores Aveiro arrasa na entrega de prémios…". E assim por diante. Só é estranho que esses locais não fiquem em ruínas, tal é o arraso que estas pessoas provocam. Depois, nas mesmas notícias, os críticos da moda "arrasam" as famosas e famosos, pela roupa, porque determinada cor não combinava com o padrão, por uma atitude ou gesto que passou despercebida ao comum dos mortais, etc. E finalmente vêm os "arrasos" opinativos, aqueles em que "o político fulano arrasou o seu adversário sicrano na assembleia municipal" ou "numa extensa entrevista", ou "o defensor do clube bege arrasa o representante do clube cor de burro quando foge no debate semanal futebolístico". Normalmente, quem o afirma é das cores do arrasador em questão.

Com tão grande míngua de vocabulário e tanto arrasamento, quem fica mesmo arrasada é a qualidade do texto, uma vez que a substância já não era grande coisa. E a paciência do incauto leitor também. Vejam lá se arrasam um pouco menos antes de deixar tudo em ruínas, ainda que não passem de virtuais.

Blogue da Semana

por João Pedro Pimenta, em 04.11.19

Se as nossas cidades nem sempre são bem tratadas, não é por faltar quem por elas se interesse e alerte para os erros, quando não crimes, de que são vítimas. Há quem felizmente seja sensível ao urbanismo, à qualidade de vida, à estética tantas vezes subvalorizada e ao civismo. Desde há muitos anos que a cidadania urbana está activa na blogosfera. Por isso mesmo, hoje trago não um, mas dois blogues da mesma "família". Um de Lisboa, o mais antigo e activo, e outro da minha cidade, que mereceria mais regularidade.

O Cidadania LX e o Cidadania Porto são os blogues da semana.

Pensamento da Semana

por João Pedro Pimenta, em 03.11.19

Ao ouvir gente defender em nome da defesa da Terra e contra as alterações climáticas que se pare a natalidade, mesmo em países que dela carecem, como o nosso, ou até que se executem medidas mais radicais, lembro-me de todas as causas nobres e justas que redundaram em tiranias e massacres. Já se matou em nome de Deus, da Liberdade, da Justiça, da Dignidade e da Igualdade. Atrás dos mais nobres princípios vêm por vezes as práticas mais vis. Esperemos que o mesmo não se passe com a defesa do ambiente, que dispensa bem isso. Do idealismo à distopia os passos são por vezes muito incertos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

A exumação de Franco (e uma sugestão para o substituir)

por João Pedro Pimenta, em 17.10.19

Já é oficial. Depois de anos de contendas, discussões políticas e recursos judiciais vários, os restos mortais do generalíssimo Franco vão mesmo ser exumados. Dentro de dias, proceder-se-á à complicada operação de tirar a pesadíssima laje do altar-mor da basílica do Vale dos Caídos e levar a urna para o jazigo de família, onde repousará ao lado de Carmen Polo, sua mulher de sempre.

A operação, exigida por familiares de vítimas do regime franquista e por grupos de esquerda, além do próprio governo de Pedro Sanchez, em conformidade com uma alteração à controversa Lei da Memória Histórica, esteve sucessivamente adiada. Não é caso para espanto. Uma tal decisão, tomada finalmente pelas instâncias judiciais superiores espanholas, nunca poderia ser levada a cabo de ânimo leve. Porque mesmo que tenha passado sem problemas nas Cortes, sem votos contra, não deixou por isso de atrair a crítica dos partidos de centro e de direita, apesar da sua abstenção, de que era uma operação sem qualquer carácter de urgência e que poderia desenterrar (literalmente) ainda mais velhas feridas de guerra.

É verdade que há boas razões para que o "Caudilho" saia dali. Desde logo a razão jurídica, porque a intenção era a de albergar os restos mortais das vítimas de guerra, dos dois lados, e Franco, ao contrário de José António Primo de Rivera, que jaz ao seu lado, não o era. Depois porque o próprio Franco nunca manifestou vontade de ser levado para ali depois de morto. E sobretudo porque o mentor de uma longa ditadura de décadas, responsável por boa parte das mortes da guerra, incluindo as de alguns ali sepultados, nunca poderia ser considerado um factor de reconciliação. Sejamos justos: o Vale dos Caídos é antes de mais um altar ao triunfo dos nacionalistas, e não, como oficialmente se pretendeu, à reconciliação da Espanha "una, grande y libre".

Também há razões contrárias atendíveis: os espanhóis têm mais com que se preocupar além da exumação, remexer nas feridas da guerra, de que quase não restam sobreviventes, não prima pela sensatez, além do gosto duvidoso e dos custos da operação e da entrada de máquinas num recinto religioso. E é sabido que para alguns grupos, como o Podemos, bom era dinamitar todo o conjunto do Vale dos Caídos, Cruz, basílica, abadia, etc, e exumar antes os milhares de corpos que lá se encontram, como se isso fosse tecnicamente possível. Contrariando a norma de que "a história é feita pelos vencedores", a da Guerra Civil de Espanha é cada vez mais feita pelos vencidos.

Este ano logrei finalmente ir ao Vale dos Caídos, aproveitando uma ida a Madrid. Para quem vem de longe nem sempre é tarefa fácil, já que fecha relativamente cedo, e desde a entrada do parque há que fazer alguns quilómetros até ao santuário propriamente dito. O conjunto é impressionante, com a colunata, em frente a um amplo terreiro de onde se avista Madrid ao longe, a guardar o enorme pórtico que dá acesso à basílica. Em cima, dominando o conjunto, a emblemática e colossal cruz de granito, que se vê a muitos quilómetros de distância, com 150 metros de altura. No templo propriamente dito, escavado sob a montanha, obra que se diria construída por ciclopes, uma comprida nave conduz ao altar-mor, onde (ainda) se podem ver os túmulos de Franco e de Primo de Rivera. Há inúmeras capelas adjacentes. Numa delas rezava-se missa segundo o "rito antigo", com o padre virado para o altar. É expressamente proibido tirar fotografias lá dentro.

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Tudo isto num estilo totalitário-cristão, que se não fossem os símbolos poderia perfeitamente fazer parte dos planos de Albert Speer ou da Moscovo estalinista. A abadia que se esconde atrás da montanha é mais modesta e harmoniosa, mas ainda assim de grande dimensão. A sensação é de temor, admiração e algum desconforto. Não se vai a um tal monumento de ânimo leve. Até porque afinal de contas se trata de uma necrópole, e sob ela jazem quase trinta e cinco mil vítimas da guerra.

Franco vai sair dali, não restam dúvidas. Mas ainda que sem o "caudilho", o carácter do Vale dos Caídos permanece igual, sem que os ânimos estejam apaziguados. Houve propostas para se mudar também Primo de Rivera, mas é extremamente improvável. Fica portanto um vazio no altar-mor. É certo que já não se enterram pessoas nas igrejas, mas não se poderia pensar em substituir o espaço vazio com um símbolo de verdadeira reconciliação? Para isso, teria de ser alguém do lado dos vencidos. Mas alguém que além de vítima de guerra, fosse digno de estar ali. Seria estranho enterrar num templo católico um anticlerical. Haveria uma escolha perfeita. Digo "haveria" porque também nunca se encontrou o seu corpo.

Falo, evidentemente, de Federico Garcia Lorca, fuzilado por falangistas (que o conseguiram subtrair a outros falangistas, num processo ainda hoje obscuro), enterrado numa vala comum ainda hoje por descobrir. Lorca, o maior poeta do seu tempo, era odiado por Franco e outros do seu "lado", mas recolhia igualmente a admiração de muitos nacionalistas, a começar por Primo de Rivera, com quem se dava e que apreciava imensamente a sua obra. Liberal, homossexual e boémio, Lorca não era evidentemente apoiante do lado nacionalista. Mas também estava longe dos radicalismos republicanos, comunistas ou anarquistas que dominavam o outro lado. Era no entanto, segundo o próprio, "católico, comunista, anarquista, libertário, tradicionalista e monárquico", e "espanhol integral".

Lorca seria a peça ideal em falta para a reconciliação na basílica do Vale dos Caídos. Também ele um "caído" por aquilo em que cria, uma vítima da guerra, um liberal cosmopolita e cristão, os seus restos mortais poderiam repousar ao lado no altar-mor do templo, ao lado de Primo de Rivera, morto pelos mesmos dias pelo bando oposto. Seria o remate perfeito e simbólico do fim da guerra, cuja memória continua a envenenar Espanha. Talvez um dia os seus despojos sejam encontrados e se possa proceder ao enterro digno a que nunca teve direito. Se isso acontecer, quem sabe se as memórias desses anos de chumbo não ficam apaziguada

Leitura sectorial das legislativas

por João Pedro Pimenta, em 11.10.19

Por razões infelizmente mais relevantes não pude dar no momento a atenção que as eleições mereciam. Mas não deixei de olhar bem para os resultados, e logo à partida, antes das previsões da Geringonça, da resistência do PSD, do desastre do CDS e da multiplicação dos PANs, reparei na entrada dos três novos partidos no parlamento, das diferenças entre eles e das semelhanças.


Um é liberal clássico/libertário, outro de direita musculada e populista e outro de esquerda europeísta (e um pouco africanista) e semi-radical. São por isso muito diferentes ideologicamente falando. Mas têm em comum não terem grandes figuras mediáticas, mesmo se o Chega tinha um comentador da bola; e se repararmos bem, o Livre, há quatro anos, tinha carradas de gente conhecida e falhou com estrondo. Desta vez o Aliança, comandado por um dos políticos mais conhecidos deste país (e que ainda há dois anos era o mais desejado pelo PSD para a disputa da câmara de Lisboa), teve um resultado patético para as expectativas a que se propôs.


A outra grande semelhança é que quase não têm sigla nem a palavra "partido" no nome. Nenhum deles. É significativo quanto ao prestígio dos partidos tradicionais e das designações mais simples que os substituem.

O percurso de Freitas

por João Pedro Pimenta, em 04.10.19

O Professor Diogo Freitas do Amaral teve um percurso original nesta 3ª república portuguesa. Colheu ódios ideológicos de várias partes em diferentes períodos e era visto não raras vezes como um incoerente político. Disso e de outras coisas o acusaram nos últimos anos. Mas é preciso ver que nunca teve um caminho fácil nem grande sorte na sua vida política.


Primeiro criou o CDS num período muito turbulento, em que era pouco aconselhável fazê-lo, dado o radicalismo esquerdista em que a sociedade portuguesa estava imersa, e isso viu-se por exemplo no cerco ao primeiro congresso do partido no Palácio de Cristal por forças da extrema-esquerda (os ascendentes do BE e de outros grupúsculos que foram desaparecendo). Anos mais tarde, já no poder, com a AD, a tragédia de Camarate e a morte de Amaro da Costa e de Sá Carneiro, que vitimaram os seus amigos e aliados e o seu governo. Depois, a sua candidatura à presidência, em que teve o triunfo à vista, e que falhou por escassos milhares de votos, e que depois de uma dispendiosa campanha, o PSD de Cavaco abandonou vilmente com imensas dívidas na mão (Marcelo RS vingou-o de certa maneira pregando uma partida aos ministros do PSD. É o que consta da biografia do PR). Deu-se o regresso ao CDS num tempo em que o cavaquismo engolia quase toda a direita e o centro, e a sua saída do partido que fundou, já noutra onda que não a dele, quando não colhia grande simpatia do Independente.


A verdade é que ele sempre se disse um democrata-cristão centrista e nunca se afastou muito disso; a sociedade e os partidos é que mudaram. Terá havido oportunismo e jogo de cintura - apostou sempre nos candidatos que viriam a ser primeiros-ministros, pelo que esse seu dom profético fará falta. Mas ainda assim, órfão politicamente e sem aliados, manteve-se activo, ainda que com equívocos, como a ida para o governo de Sócrates, que a seu tempo corrigiu. É bom pensar que desde os anos 90 presidiu à Assembleia-Geral da ONU, envolveu-se contra a invasão do Iraque, fundou a faculdade de Direito da Nova de Lisboa, que tanto contribuiu para novas formas do ensino jurídico em Portugal, escreveu peças de teatro, ensaios, livros de história, e as suas memórias, de que o terceiro e último tomo saiu há poucos meses, quase que profeticamente. Uma vida plena e marcante, portanto. Pela minha parte, que só o conheci de cumprimentar de passagem e de breves palavras, devo-lhe, ainda que indirectamente, a minha ida para Lisboa, que muito me ajudou. Que, como cristão convicto que era, tenha descoberto a paz que lhe faltou durante tantos anos.

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PS: vi-o numa foto de há quinze dias, já muito caído, no enterro de André Gonçalves Pereira. Curiosamente, este tinha sido o seu sucessor nos Negócios Estrangeiros. E assim, em duas semanas, desaparecem duas antigas figuras de primeiro relevo da AD.

PS2: quando Assunção Cristas proferiu as primeiras palavras acerca do fundador do partido via-se Telmo Correia atrás. Não pude deixar de recordar o hilariante despique político no Parlamento, quando Correia acusou o na altura MNE de "vergonha de viver em democracia" por causa da questão das caricaturas de Maomé num jornal dinamarquês (Freitas dissera que era necessário distinguir "liberdade de licenciosidade"), ao que este respondeu: "ainda o senhor não era nascido ou andava de cueiros e já eu lutava pela liberdade em Portugal. É preciso topete!"

O consumo e a leitura de jornais tem caído imenso, como o Pedro Correia tem referido amiúde neste espaço, e não é só o modelo em papel. As redes sociais ocuparam grande parte do seu lugar e ameaçam a imprensa tradicional. É algo preocupante, porque a informação torna-se selectiva, superficial, quando não falsa, reduzindo-se a títulos ou a agit-prop, e mesmo que a imprensa não seja isenta, ao menos sabemos quem escreveu os artigos e quem responsabilizar. O problema é que os jornais também não fazem grande esforço para a sua credibilização e continuam a cavar a sua própria cova.

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Miguel Sousa Tavares escrevia há dias no Expresso, com mira afinada e não pela primeira vez, que o Público se tem tornado numa tribuna por excelência do politicamente correcto. E não é preciso procurar muito para provar até que ponto isso é verdade. O diário fundado por Vicente Jorge Silva, que tão bons trabalhos já proporcionou aos seus leitores, estafa-se em colocar artigos parciais sobre as novas questões fracturantes. O suplemento semanal Y e demais páginas culturais passam o tempo a apresentar os novos valores feministas, trans, negros, etc, vindos em grande parte do Brasil, e "que estão a mudar a face da música", mas quando se quer ver a crítica a um filme acabado de chegar, ou, como procurei em vão, a um festival pop-rock como o de Vilar de Mouros, é o vazio total.

Nos últimos tempos é a defesa da "diversidade de género" que o jornal da SONAE tem empreendido, qual Duarte de Almeida a defender o pendão real em Toro. No dito Y, no dia 30 de Agosto, logo na segunda página, vemos um dos guardiões mais encarniçados destas questões, António Guerreiro, a falar da ideologia "atávica e obscurantista" que condena a ideologia de género (que curiosamente não considera uma ideologia, colocando-a entre aspas). De resto, os inúmeros artigos publicados no jornal sobre o assunto falam sempre dos seus opositores com um tom de mal disfarçado desprezo e dão apenas a palavra à parte contrária, normalmente os prestimosos especialistas em diversidade de género, uma disciplina que parece que tem boas saídas de emprego, além de artigos de opinião semanais de representantes do Observatório de Justiça, do professor Boaventura Sousa Santos, como uma investigadora de seu nome Ana Cristina Santos, que neste exemplo cabal acusa Ricardo Araújo Pereira de "ridicularizar a inclusão social na linguagem", de "defender o pendor autoritário do senso comum", porque "se há pessoas que se sentem excluídas pelo uso do universal masculino... considerandos estéticos deixam de ter cabimento". Ou como alguém, se se sentir incomodada com a língua, esse mero "considerando estético", pode exigir a sua mudança. A autora até ajuda e dá como exemplo o "tod@s" ou "tdxs" como linguagem inclusiva. Ou seja, a "inclusão" não é mais que um uma novilíngua infantil que desvirtua algo que devia ser superiormente protegido, mas que para alguns não passa de "considerandos estéticos". Já se sabe, nada de ideologia.

Nas últimas semanas tem sido um sem fim de artigos que referi em cima. Podia ser uma discussão proveitosa se se colocassem dois pensamentos e dois grupos de argumentos e confronto, mas não. Neste outro artigo lá vem a costumeira reportagem com "os jovens do futuro", em que avulta um rapazinho que critica os professores «que partem do princípio que os alunos são todos homens "cis"», e que "as associações de estudantes deviam representar as lutas sociais dos estudantes negros, comunidade LGBT ou questões feministas... sem qualquer tipo de preconceito ou conservadorismo". O jovem é identificado como militante do Bloco, coisa bastante crível dado o tipo de linguagem e de causas. Mas é pena que o jornal, uma vez que lhe dá voz, não lhe pergunte se as associações não deviam defender todos os estudantes, e não apenas as minorias que o BE estabelece (que podem nem existir em tantas escolas), ou se não percebe a contradição de, achando que não deve haver "conservadorismo", como se não pudesse haver estudantes conservadores, isso ser um preconceito da sua parte.

Por fim, mais uma peça apresentada quase como um estudo, mas mais uma vez apenas com uma parte, sobre a questão "há ou não ideologia de género", a que o jornal generosamente responde que não, recorrendo de novo a uma parte da barricada, que acusa todos os que acham que se trata realmente de uma ideologia de serem "uma sombra... que ameaça direitos das pessoas LGBTI, saúde sexual e reprodutiva das mulheres e estudos de género". Nada de novo, excepto talvez uma maior radicalização da linguagem. Mas aqui expõe-se tremendamente. É que o artigo online é só para assinantes, mas na versão em papel pode-se ler, mesmo no fim, que "as despesas da viagem foram pagas pela ILGA-Europa. 

Sim, isto é um problema. Ao aceitar ser custeado por uma organização que tem todo o interesse que o jornal escreva aquilo só com a "sua" versão, o Público prostitui-se declaradamente. Não está a apresentar um artigo de discussão, ainda que pendendo mais para um lado, mas a sua verdade com a patrocínio de uma entidade externa longe de ser neutra.

Assumir posições políticas inequívocas é não só aceitável como desejável. Os leitores sabem ao que vão. Em Portugal, como é sabido, a maioria dos jornais não assume qualquer posição política, à excepção dos jornais partidários, como o Avante!, ou de uma ou outra publicação, como o extinto Independente. Mesmo o Observador, claramente à direita, é muito ambíguo no seu estatuto editorial. O Público sempre pendeu para uma esquerda moderada. Porque estará tão freneticamente empenhado agora em questões tão ostensivamente fracturantes? Vontade de agradar a um certo público? Seja o que for, só contribui para que se diga que tem uma agenda política mal disfarçada, porque aparentemente tem mesmo - e como é sabido, o termo "agenda" hoje em dia é entendido de forma pejorativa, como uma conspiração maléfica.

Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Os jornais ou se assumem ou então que deixem de ser tão explicitamente implícitos, sobretudo em questões que não são pacíficas. E é por coisas como estas, como diria Manuel Alegre, que aparecem os Bolsonaros. Prontos a apoucar a imprensa e a espalhar sem filtro tudo o que lhes sirva nas redes (as)sociais fora.

A traição institucional

por João Pedro Pimenta, em 05.09.19

Há quem ache muito bem que os 21 deputados tories que se opuseram a Boris Johnson (que ganhou a fama em boa parte pela sua rebeldia) sejam expulsos, porque "traíram" o governo e a vontade democrática exposta no referendo de há 3 anos. Convém lembrar que foram eleitos em eleições gerais DEPOIS do referendo, e por isso a decisão é absolutamente democrática, e que a base da soberania do Reino Unido reside na democracia indirecta representada pelo Parlamento (e noutra dimensão pela Coroa) e não na democracia directa. Além disso, os deputados não reverteram a decisão do referendo, limitaram-se a prolongar o tempo do "divórcio" para permitir nova solução que impeça o caos  - ou no mínimo a indefinição - de uma saída sem acordo. Ou seja, respeitaram a vontade dos 51% que votaram na saída, sem fazer tábua rasa dos outros 48%, impedindo males maiores para o país. No cumprimento da vontade popular e da instituição parlamentar. É a isto que chamam traição? Todas as traições fossem essas...

O blogue da semana

por João Pedro Pimenta, em 11.08.19

Conservar e reavivar memórias, felizmente, é coisa que está na ordem do dia. Também na blogosfera há quem nos traga imagens e pequenos tesouros que desconhecíamos ou julgávamos perdidos. E há quem o faça continuamente, como é o caso do blogue que vos trago hoje. Memórias de uma Lisboa desaparecida, mas não só, estendendo-se ao resto do país, num conjunto de preciosos registos fotográficos, linguísticos e audiovisuais, com pouca paciência para o politicamente correcto. E já são 14 anos a trazer-nos tal acervo, com um visual a condizer, a lembrar os primórdios gloriosos dos blogues.

O Bic Laranja é o blogue da semana.

Pensamento da Semana

por João Pedro Pimenta, em 04.08.19

Vejo frequentemente pessoas a queixar-se veementemente da globalização e do globalismo. Curiosamente fazem-no através da internet, mais precisamente no Facebook, noutras redes sociais ou em blogues, os maiores produtos da globalização a par dos telemóveis. Deviam antes deixar todas essas redes, desligar o computador e ir invectivar a globalização de forma consequente com o que apregoam, ou seja, na rua, nos cafés ou nas caves conspirativas.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Um ano quente na Albânia

por João Pedro Pimenta, em 31.07.19

Ultimamente os Balcãs não têm sido notícia na comunicação social portuguesa, e a Albânia menos ainda. O pequeno país encravado pela Grécia, pelo que restou da ex-Jugoslávia (incluindo um prolongamento étnico chamado Kosovo) e pelo Adriático raramente é referido em Portugal. Era-o quando os partidos maoístas o viam como "farol do socialismo", quando houve a rebelião de 1997, a guerra no Kosovo ou quando a sua selecção de futebol venceu Portugal em Aveiro, em 2014, no arranque da qualificação para o Europeu de França, causando ondas de choque que levaram à demissão de Paulo Bento e à contratação de Fernando Santos (e consequentemente, à vitória no Euro, por isso, um agradecimento especial à equipa albanesa).

Apesar de continuar a ser um pouco obscuro, tem uma localização geográfica de relevo (nos vários sentidos da palavra, já que grande parte do território é montanhoso), nos Balcãs ocidentais, e a uns cem quilómetros, do outro lado do Adriático, fica a Itália. Aquele território, à primeira visto discreto, dividido anteriormente entre o Epiro e as tribos Ilírias, tornou-se uma peça importante do Império Romano, do ocidente como do oriente, antes de se dividir entre vários pequenos potentados, ocasionalmente unidos. Seguiu-se a invasão turca, apesar da furiosa oposição de Skandeberg, rivalizando com Veneza no litoral. Durante séculos, os albaneses ocuparam importantes cargos administrativos no Império Otomano, chegando a vice-reis e depois a reis do Egipto, só sendo destronados por Nasser. Até 1912 foram possessão dos turcos, ano em que alcançaram a independência, na Guerra dos Balcãs, com a hostilidade dos vizinhos sérvios, montenegrinos e gregos, já que eram o único país de maioria muçulmana. Seguiram-se a Primeira e Segunda Guerra Mundiais, muita instabilidade, república seguida de monarquia, a invasão italiana e o auxílio alemão e a expulsão de ambos pelos partisans comunistas, que tomaram o poder. O novo regime, liderado por Enver Hoxha, embora não dependesse da URSS, exaltava Estaline, e aquando da desestalinização de Krushov rompeu com os soviéticos, virando-se para a China, a qual também abandonou depois desta estabelecer ligações com os EUA. Era absolutamente dependente da liderança dogmática de Hoxha e tornou-se um estado isolado e empobrecido, quase sem relacções diplomáticas, repressivo e nacionalista ao máximo, mantido pela paranóia da hipotética invasão jugoslava ou grega, o que levou à construção de milhares de mini-bunkers por todo o país. Tornou-se também num estado oficialmente ateu, em que qualquer demonstração religiosa era severamente punida.

Hoxha morreu em 1985, e o regime começou a amolecer, mas só depois das grandes manifestações de 1991 é que caiu definitivamente, tornando-se numa democracia parlamentar. Mas sofreu inúmeros sobressaltos, com a complicada passagem de um sistema comunista maoísta rural para uma economia de mercado, o colapso da economia em 1997, que levou a dois meses de guerra civil e ao domínio de vastas partes do território por gangues e milícias várias, e a guerra do Kosovo, com milhares de kosovares albaneses a fugir para lá e o receio de uma invasão sérvia. A partir do ano 2000, a situação política e social melhorou consideravelmente.

Mas as suas particulares circunstâncias têm agitado a política local. Dois partidos dividem a chefia de governo: o Partido Democrático, de centro-direita, europeísta, que surgiu como alternativa quando o regime comunista ruiu, mais popular no Norte, e o Partido Socialista, de centro-esquerda, herdeiro directo do antigo partido único convertendo-se à pressa á social democracia, com mais apoio no Sul. É este que se encontra actualmente no poder, desde 2013, com Edi Rama como primeiro-ministro. Rama teve um percurso pouco usual para um político de carreira: formou-se em belas-artes, viveu como pintor e escultor em Paris, expondo algumas vezes as suas obras, e jogou basket (mede perto de dois metros). Entrou depois para a política, e como presidente da câmara de Tirana mudou a cidade, com novos planos urbanísticos e ordenando que se pintassem os deprimentes prédios dos tempos comunistas com cores garridas. Acabou por perder a capital para Lulzim Basha, mas, como líder do Partido Socialista, ganhou as legislativas seguintes, tornando-se primeiro-ministro, e voltou a ganhá-las há dois anos. Quanto a Basha, tornou-se por sua vez líder do Partido Democrático e da oposição.

Foram precisamente as eleições de 2017 que ajudaram a despoletar as manifestações que desde o início do ano se organizam contra o governo. Acusam Rama de estar mancomunado com o tráfico de cannabis (cujas plantações abundam no país) e de ter falsificado boa parte dos votos que lhe deram a vitória, em conluio com os grupos de traficantes. Mas acusam-no igualmente de estar a recuar naquilo que fora uma das suas promessas mais veementes: o cumprimento de metas para a adesão futura à União Europeia, por pressões de Vladimir Putin.

Um dos grandes objectivos de Putin é o de impedir novas adesões à UE, se não puder enfraquecê-la e desagregá-la, como com o Brexit. Assim, tem feito pressão ou usado subterfúgios para adiar ou impedir novas entradas. Tendo em conta que os estados que pediram a adesão se encontram nos Balcãs, incluindo a sua tradicional aliada Sérvia (que alguns temem que possa ser um cavalo de Tróia da Rússia), Putin tudo fará para não perder a sua influência naquela zona, sobretudo nos países ortodoxos, com os quais tem uma estreita ligação cultural.

Por isso mesmo, a oposição tem-se manifestado não somente com as bandeiras da Albânia mas também com as da UE, Estados Unidos e Alemanha, para realçar o seu sentimento pró-ocidente. As eleições municipais de fins de Junho foram boicotadas e só o Partido Socialista é que participou. As manifestações na rua, muito concorridas, sobretudo em Tirana, tanto têm sido pacíficas como têm alguns picos de violência, como aconteceu em Maio. Além das bandeiras, exibem-se cartazes apelando à demissão do governo, com imagens comparando Rama a Enver Hoxha ou colocando-o entre os líderes comunistas clássicos. Basha, o líder da oposição, costuma liderar estes movimentos e discursar aos manifestantes. Têm como grito de guerra "Rama Ik (fora, ou sai)", clamado até à exaustão exigindo a demissão do governo, que acusam de ser ilegítimo, e a convocação de novas eleições. Mas Rama não cede, acusa a oposição de conspirar e de produzir calúnias contra ele, e usa as suas armas, como a de que em alguns relatórios da UE consideraram o sistema judicial albanês, com inúmeros juízes colocados pelo Partido Democrático, altamente corrupto e viciado.

Se é certo que a prática da corrupção e do banditismo são correntes no país, já é mais difícil saber se o actual governo tem sabotado os seus próprios esforços para a aproximação à UE. Rama viveu em França e um dos objectivos que tomou a cargo é o de uma futura adesão, apoiando também a entrada na NATO, entretanto já concretizada (quem diria há uns anos, a Albânia na NATO...). À partida, todos deveriam querer esse rumo. Mas as jogadas e chantagens dos russos são infindas, como já se viu, e embora a Albânia não seja o parceiro privilegiado nos Balcãs (até porque há o Kosovo, na prática uma criação americana), não é de excluir que tenham sido utilizados métodos menos claros. Pelo menos são essas as acusações da oposição, que disso se aproveita para vincar os seus galões pró-ocidentais. Em todo o caso, o clima político no país está bastante tenso, quase de insurreição. Os próximos meses poderão revelar se as coisas acalmam ou se se complicam ainda mais, mas até ver, só prejudicam o cumprimentos dos critérios de adesão à UE.

 

(Em cima, uma amostra das manifestações correntes em Tirana, onde são visíveis bandeiras da UE, dos EUA e da Alemanha, além das da própria Albânia e do Partido Democrático, cujo líder discursa num palanque).

Mad Boris is going to Downing Street

por João Pedro Pimenta, em 25.07.19

Da primeira vez que ouvi falar em Boris Johnson ele estava a caminho de ser Mayor de Londres, derrotando o velho "Red" Ken Livingstone e dando pela primeira vez a metrópole aos tories. Na altura li declarações dele, como "votar conservador aumentará os seios das vossas mulheres e as vossas oportunidades de terem um BMW". Um tipo assim não se leva a sério, mas diverte (excepto para as inquisidoras do "heteropatriarcado branco", ao qual Boris comprovadamente pertence, e eu também, já agora). Depois seguiu o seu rumo, sempre com confusões à mistura, como quando venceu um concurso para o poema mais ofensivo a Erdogan, presidente turco (que entretanto já o felicitou no seu novo cargo, que remédio), onde tem também raízes, além da Rússia. Tornou-se depois no rosto do apoio ao Brexit, ganhando imenso capital político nessa barricada, que caiu por terra com a traição de Michael Gove, impossibilitando a sua ascensão à liderança dosconservadores e do governo britânico, deixando o caminho aberto a Theresa May. Até aí, eu julgava que ele seria inexoravelmente primeiro-ministro; depois fiquei convencido do contrário, mesmo quando o nomearam para os Negócios Estrangeiros. Afinal chegou mesmo lá.


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Boris Jonhson é uma personagem interessante e rica, digno de um biopic, muito diferente do vendedor de carros de beira da estrada que preside aos EUA, apesar do cabelo. Mas sinceramente preferia que não tivesse alcançado o posto que tanto ambicionou, para mais no delicadíssimo momento que o Reino Unido atravessa.

Um pormenor interessante, relembrado por Frederico Lourenço nas redes sociais: Boris é talvez o único, ou dos raríssimos, chefes de governo actuais com formação em Estudos Clássicos - grego e latim - pelo Balliol College da universidade de Oxford, o que pode ser uma boa notícia para todos os que lamentam o declínio do ensino das humanidades. Seja como for, é sempre bom um estadista de primeira linha que tenha aprendido grego clássico - e até que tenha aprendido com uma grega clássica.

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                     Boris Johnson ouvindo Melina Mercouri nos anos oitenta, quando ainda usava pente.

A cultura entre dois homens de espectro oposto

por João Pedro Pimenta, em 13.06.19

 

Ruben de Carvalho, que morreu há dois dias, era das personalidades mais interessantes cá da terra. Um comunista convicto e fiel ao partido (que exerceu funções de vereador em Setúbal e Lisboa, a cuja câmara concorreu, e de deputado), que esteve preso no tempo do Estado Novo, e um divulgador cultural muito influenciado pela cultura americana, em especial o jazz (tinha uma colecção gigantesca de discos), mas também pelo fado e pela música popular, e que há muitos anos era o responsável cultural da festa do Avante. A ele se deve, soube-o agora, a primeira actuação de Chico Buarque em Portugal. Tinha semanalmente um programa de debate na Antena 1, o Radicais Livres, com Jaime Nogueira Pinto - politicamente nos antípodas - que de vez em quando ouvia e que me divertia com as exclamações e dissertações daqueles dois homens que discorriam sobre tudo.

Curiosamente, no dia da sua morte, a RTP-2 exibiu um documentário sobre um dos políticos mais independentes e importantes dos últimos quarenta anos: Francisco Lucas Pires. Do nacionalismo revolucionário da Cidadela, ainda em Coimbra, ao europeísmo liberal, foi o primeiro a tentar trazer ideias liberais em voga nos anos oitenta a um país ainda fresco da revolução e do PREC, por via da liderança do CDS (que depois trocaria pelo PSD) e pelo seu grupo de Ofir. No governo da AD teve também a pasta da cultura, da qual, ao contrário de muitos que se proclamam "liberais", nunca desdenhou. É graças a ele que Serralves passou para as mãos do estado antes de se tornar na instituição que hoje é (embora Santana Lopes a tenha querido vender a Valentim Loureiro, coisa que felizmente não levou a cabo).


Ou seja, no mesmo dia exaltaram-se as virtudes de dois homens, um de esquerda comunista, outro de direita liberal, mas que muito fizeram pela cultura e que mereceram o respeito da comunidade. Um podia ter ficado mais uns anos, e o outro decididamente deixou-nos muito cedo.

Deixo à laia de homenagem dois vídeos em baixo: um é do tal documentário completo sobre Lucas Pires. Noutro apenas toca a Carvalhesa, aquela música originária dos planaltos transmontanos de Tuizelo, em Vinhais, recolhida por Giacometti, que Ruben de Carvalho adaptaria a banda sonora da festa do Avante e que se tornaria até hoje numa das mais felizes (e alegres) músicas políticas portuguesas, e cuja melodia saltitante deambula por aí em tempos de campanha eleitoral dos "camaradas" de Ruben.

 

Blogue da Semana

por João Pedro Pimenta, em 26.05.19

É uma das vozes que há mais tempo nos conta o que se passa no interior da Rússia e países limítrofes, que conhece há quarenta anos e cujas mudanças radicais acompanhou. A política interna e externa dos herdeiros da União Soviética, as suas relações com Portugal e alguns aspectos picarescos contadas de perto. Também já nos deu a honra de escrever para o Delito. O Da Rússia, de José Milhazes, é o blogue da semana.

O que me ficou da campanha para as europeias

por João Pedro Pimenta, em 24.05.19

 

O Pedro Correia já revelou algumas das principais propostas dos partidos concorrentes, mas não resisto a um pequeno apanhado do que me ficou desta pobre campanha eleitoral

A campanha dos "grandes"


As melhores campanhas foram feitas por partidos em que não tenciono votar (e quase do espectro oposto um do outro). Dos grandes, achei que a da CDU cumpriu bem os seus propósitos com o seu eleitorado, sem grandes ataques pessoais e falando realmente de questões europeias.   João Ferreira tem uma imagem ambivalente do trintão a entrar no bar da moda conservando uma linguagem ortodoxa, mas é impossível negar-lhes competência e sobriedade. Desfia a cassete, mas fá-lo bem.

No Bloco, Marisa manteve-se genuína e muito activa, monopolizando toda a campanha do seu movimento, e bem: quando o resto do Bloco se lhe juntava, estragava tudo.

Nuno Melo passou o tempo a falar de Sócrates e muito pouco de Europa (gostava de saber o que ainda pensa do caso da Hungria, por exemplo), com uma postura de forcado que não deixou espaço a outros nomes da lista. Só Cristas falou ao lado dele, fora umas palavrinhas de Mota Soares.

Paulo Rangel conteve-se mais do que o costume, embora falando também demasiado do PS. Ainda assim, uma campanha menos feroz do que há cinco anos, mas menos substantiva do que há dez, quando então ainda era um pouco novidade para o grande público, como quando presidiu à primeira blogotúlia de que tenho memória (mas quem teve aulas com ele sabe como tem o dom da palavra).

Por fim, Pedro Marques. Como praticamente toda a gente reconheceu, revelou-se um candidato desastroso, quase escondido por António Costa, que ainda teve o desplante de atacar a entrada em campanha de Passos Coelho enquanto Pedro Silva Pereira, a sombra de José Sócrates e terceiro candidato da lista do PS, era estrategicamente escondido atrás da cortina. A propósito. alguém ouviu mais algum candidato da lista? A também ex-Ministra Leitão Marques, Zorrinho, ou qualquer outro que teria sido um melhor cabeça de lista?

A campanha dos "pequenos"

O seu liberalismo puro não é propriamente o meu campo, pelo que não terão o meu voto, mas preencheu um espaço vazia na partidocracia portuguesa. A Iniciativa Liberal teve de longe a campanha mais imaginativa e inteligente, sem nunca descer o nível.

Paulo Morais, pelo Nós, Cidadãos, teve menos impacto do que merecia. O discurso da corrupção é importante, mas gostava de ter ouvido melhor o que ele disse sobre questões ambientais (tendo em conta que o seu nº 2 é José Inácio Faria, eurodeputado do MPT).

Paulo Almeida Sande, do Aliança, uma boa surpresa, achei-o convincente e preparado, e não faria má figura no PE. O mesmo se diga de Rui Tavares, do Livre, já com experiência em Bruxelas, assim como Marinho e Pinto, mas este espero bem que fique de fora e que aquela coisa chamada PDR desapareça quanto antes; partidos unipessoais e demagógicos, não, por favor.

O Basta revelou-se a fraude que se supunha, quando André Ventura trocou um debate na RTP por conversas de bola na CMTV. Esta coligação de um cocktail de direitas parece quase uma resposta áqueloutro cocktail de esquerdas das legislativas de 2015, o Agir, com Joana Amaral Dias (a surgir despida e grávida na capa da revista Cristina), o Mas e o PTP. Aqui tínhamos o nóvel Chega, de Ventura, o histórico PPM, ainda que dividido (sim, há lá militantes suficientes para criar divisões, tal como no MPT, aliás, que à mercê disso nem se apresentou nesta eleição depois de há cinco anos ter eleito dois eurodeputados; Gonçalo Ribeiro Telles não teria certamente isto em mente quando os fundou), o Portugal pró Vida e o Democracia 21, que julgo não ser sequer um partido.

PNR, PTP, PAN e PURP poucas surpresas mostraram, para além das suas agendas habituais e de um certo folclore, sobretudo da parte dos reformados e dos trabalhistas (aqui aconselhava a decorarem melhor o teleponto)

Já o MRPP, agora órfão de Arnaldo Matos, nem por isso deixou de ser menos lunático, mas ao menos não escondeu ao que vinha: saída do Euro e mesmo da UE. Para quem há pouco tempo anunciava "Morte aos Traidores" não se podia esperar menos. Quanto ao MAS, na campanha televisiva o cabeça de lista fazia lembrar uma árvore de Natal, tal a profusão de cores, tranças e adereços ideológicos; as propostas eram ligeiramente mais contidas do que as do MRPP - 70% de impostos sobre as grandes fortunas, por exemplo.

Festivais, petições e artistas parvos

por João Pedro Pimenta, em 17.05.19

Ao contrário do que se chegou a vaticinar por algum público prematuramente eufórico e por alguns músicos demasiado convencidos do seu poder intuitivo, Conan Osíris ficou pelo caminho na sua primeira actuação no festival da Eurovisão, em Telavive, e nem à final vai. Não era difícil imaginar que aqueles requebros com uma música que não destoaria dos saudosos Cebola Mol só por delírio poderia ganhar o certame, por muito freak que o espectáculo se tenha tornado (vide a vencedora do ano passado). Além de que os israelitas desconfiam dos egípcios, pelo que um concorrente com o nome "Osíris" não teria muitas facilidades. Mas passado o infortúnio (ou a salvação da honra da pátria, não sei), lembrei-me de um episódio recente que data da escolha do representante português no festival.

 

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Em carta aberta, quarenta "artistas portugueses" pediram a Conan Osíris que não fosse actuar em Israel porque isso seria "ignorar o cerco ilegal que Israel mantém em Gaza". Pelo meio, falavam de como Osiris "conseguiu deslumbrar Portugal com a sua música e honestidade".

Não sei o que é que era mais delirante na carta: se acharem que a música do vencedor do festival da canção "deslumbrou Portugal", se toda a inflamação contra Israel. Entre os subscritores encontrava-se um ou outro nome mais respeitável, como Afonso Cruz ou Pedro Lamares, que dificilmente se percebe o que faziam ali, mas outros, como Alexandra Lucas Coelho, eram tão previsíveis que só de se ler o conteúdo da missiva se imagina que tais pessoas tinham alguma coisa a ver com aquilo.

Não que o estado de Israel não tenha as suas responsabilidades na desgraça que é Gaza. Já não estamos exactamente nos anos cinquenta para referir sempre as ameaças externas ao estado judaico. O Egipto e a Jordânia têm relações diplomáticas com Israel, e a Síria tem bem mais com que se preocupar internamente. A norte, é certo, há sempre as preocupações com o Hezbollah, amparado pelo Irão, e também de Gaza constantemente voam rockets para território israelita. A política de colonatos, que serve sobretudo para atender ao crescente número de ortodoxos, não ajuda a apaziguar a situação. E a forma como muitas vezes os soldados tratam os palestinianos de Gaza, da Cisjordânia, a começar pela circulação entre territórios, não é digna de um país de cultura ocidental. A reeleição do oportunista e revisionista Bibi Netanyahu, que parece ter mais vidas que um Macabeu, entre acusações de corrupção, aliados desavindos e coligações adversárias potencialmente perigosas, agrava ainda mais as coisas.

O problema é que se Israel abusa da sua posição de força, os povos que os rodeiam conseguem fazer pior. Os palestinianos não têm grandes razões para elogiar o Hamas e a Fattah. Justamente há dias voltaram a lançar rockets contra povoações israelitas, provocando vítimas (a que as forças armadas de Israel responderam com ainda mais vítimas). E convém lembrar que entre 1948 e 1967 os judeus foram todos expulsos da Cidade Velha de Jerusalém e não se podiam aproximar sequer do Muro do Templo, o seu lugar mais sagrado. Os muçulmanos continuam a poder circular por toda a parte e não consta que a Cúpula do Rochedo e a Mesquita Al Aqsa lhes tenham sido vedadas.

Por isso, toda essa verborreia contra o festival em Israel não passou de um aproveitamento político mal disfarçado. Aliás, já antes um conjunto de associações tinha feito igual pedido, e entre elas figurava o patusco colectivo Panteras Rosa, um grupo que combate a "LesBigay transfobia", e que provavelmente ignora que Israel é o único país da zona que respeita os direitos LGBT (sim, há mesmo uma parada gay anual em Jerusalém). Mas tendo em conta que o porta-voz desse grupo é um dos 25 que abandonou recentemente o Bloco de Esquerda por considerá-lo "pouco radical", percebe-se um pouco melhor esta aparente esquizofrenia.

Pelo meio, uma voz um pouco mais conhecida e com uma velha e conhecida obsessão por Israel tinha entrado em cena: a de Roger Waters. O antigo Pink Floyd e autor de The Wall enviou uma carta ao "jovem e talentoso cantor português", cuja canção traduziu e achou "bastante profunda", pedindo-lhe para ser "o finalista que seria lembrado por se ter colocado do lado certo da história", o do "amor, paz verdadeira e justiça". Como se sabe, Osíris nem sequer chegou à final, pondo em causa a carreira de áugure de Waters, mas também lhe deu uma resposta evasiva, depois de dias sem lhe responder.

A verdade é que as escolhas políticas de Roger Waters são muito duvidosas. Por essa altura, reafirmou o seu entusiástico apoio ao regime da Venezuela, acusando a oposição de fazer parte da "agressão norte-americana, e surgiu num vídeo, elogiando "a experiência socialista bolivariana", com umas palavrinhas em espanhol, decerto para melhor demonstrar a sua fraternidade com Maduro, e uma guitarrada medíocre, terminando com um "viva la revolucion". E de onde falou, o intrépido artista? Da Suíça, esse farol de rebeldes e de defensores dos desvalidos. Apoiar o bolivarianismo sim, mas só nos intervalos dos desportos de Inverno, entre idas ao banco para inspeccionar as contas que aumentaram com a venda de dezenas de milhões de discos e digressões ciclópicas.

Lembrei-me que aqui há uns anos estive tentado a ir ver o concerto The Wall Live ao pavilhão Atlântico. Mas depois achei que o custo não valia o esforço e que aquilo era demasiado maçador. Depois de ouvir as opiniões políticas de Waters, e mesmo fazendo a destrinça entre o artista e a sua obra, concluo que foram os trinta euros (só do concerto) mais bem poupados da minha vida.


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