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Delito de Opinião

Como desmascarar um farsante

João Pedro Pimenta, 03.10.22

Não sei se tiveram a oportunidade de ver, mas aquela correia de transmissão das ordens de Moscovo, de seu nome Alexandre Guerreiro, levou uma tareia inacreditável do Francisco Pereira Coutinho em todos os aspectos, num debate na SIC Notícias na sexta-feira. Podem - julgo eu - ver o vídeo na íntegra aqui (não consegui transportá-lo directamente para o post por ser muito grande) e avaliar as prestações. O homem do Kremlin a certa altura parecia completamente perdido, repetia incessantemente "o precedente do Kosovo", cujas diferenças aliás o Francisco explicou devidamente, acabou a justificar a anexação da Crimeia com "sondagens" (como se sabe um elemento essencial no direito internacional) e a dizer que a anexação das quatro regiões ucranianas "era legal mas também podia não ser".

Eis a forma como se neutralizam os farsantes: colocá-los perante alguém que efectivamente conhece o terreno para os desmascarar. Acresce que nas horas que se seguiram ao debate, Guerreiro era alvo de chacota pelos twiters e watsaps fora.

Por Itália

João Pedro Pimenta, 27.09.22
Não sei porquê tanta preocupação com o mais que provável governo de Giorgia Meloni em Itália: é mais que sabido que nenhum executivo italiano chega sequer aos dois anos, a não ser que haja uma improvável "Marcha sobre Roma". Além do mais, o que também não ajuda à estabilidade, a coligação vencedora tem três egos gigantes a comandá-la - Meloni, Salvini e Berlusconi - e o de Meloni nem parecer ser o maior.
 

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Curioso é que os que estavam no governo Draghi e ajudaram a derrubá-lo caíram muito nas votações. Veja-se o Movimento Cinco Estrelas, agora liderado pelo ex-primeiro-ministro Giuseppe Conte, ao passo que o seu antecessor na chefia do partido e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Luigi di Maio, nem conseguiu ser eleito para as câmaras.
 
E é igualmente interessante observar que os apoiantes de Putin caíram nas votações, começando por Salvini, que se fica por metade da votação, ou o próprio Berlusconi, que viram os seus votos rumarem directamente para os Fratelli d´Italia, de Meloni, crítica explícita da invasão da Ucrânia.
 
Tempos houve em que o sistema político italiano era absolutamente previsível: ganhava a Democracia Cristã sem maioria, o Partido Comunista ficava em segundo, e a primeira formava governo com os liberais, republicanos, sociais-democratas, e, a partir de certa altura, também com os socialistas, ao passo que os neofascistas (do qual provém a formação de Meloni), tal como os comunistas e os radicais, ficavam de fora. Mas de há trinta anos para cá o sistema tornou-se imprevisível, a não ser no que respeita à curta duração dos governos, e os partidos ficaram absolutamente voláteis, apostando mais nas personalidades que os lideram do que em ideias ou ideologias.

A importância da homenagem

João Pedro Pimenta, 22.09.22

Tenho visto alguns remoques a tudo o que rodeou as exéquias da Rainha, com o argumento de que o Mundo está a atravessar momentos difíceis, com o pós-pandemia, a guerra na Ucrânia, a ameaça nuclear, a seca, a inflação crescente, as ameaças de recessão, etc, e que era preciso dar mais atenção a tudo isso do que às homenagens a Isabel II.

Eu entendo exactamente o contrário. É precisamente a beleza estética das homenagens, incluindo formalismos que nem imaginávamos, o sentimento de unidade na tristeza, a tradição como ligação entre o passado e o presente e o exemplo de dever, discrição e de supra-politiquice que permitem enfrentar todos esses problemas com esperança e firmeza - e sim, esquecê-los por umas horas. E tratando-se de Isabel II, peguemos em duas imagens, no início e no fim da sua missão: uma em que conduzia ambulâncias durante a II Guerra, e outra, a mensagem no início da pandemia, em que rematava com o "We will meet again". Só esses dois exemplos, nos tempos sombrios que corremos, justificariam toda a homenagem.

Ausência de referências e outras considerações

João Pedro Pimenta, 10.09.22

Às vezes imaginava uma situação caricata, em que uma pessoa morta há umas décadas, aí nos anos 70 ou 80, voltaria à vida e eu teria de lhe explicar tudo o que mudou no mundo desde então, como o fim do confronto Leste-Oeste, por exemplo (se bem que pareça menos longe, hoje em dia), a emergência dos países asiáticos, com a China à cabeça ou o advento da net e das novas formas de comunicação. Para me ajudar, teria de me socorrer de algumas referências ainda existentes. A que me vinha logo à cabeça era a Rainha Isabel II. Diria algo como "tudo mudou menos uma coisa: a Rainha permanece no trono" (ou como o Pedro Correia já aqui afirmou várias vezes, "viu passar todas as modas; só ela nunca passou de moda"). A seguir seria Fidel Castro, que também já lá vai, e outros de quem não me recordo agora.

Agora que a Rainha nos deixou, que referências haveria para uma pessoa de há 40/50 anos? Quem poderia dizer que está no seu lugar? Não me ocorre ninguém. Como se em pouco tempo o Mundo tivesse mudado muito mais depressa do que seria suposto. É mais um dos sinais a indicar-nos que os tempos mudaram mesmo e, sem referências, personalidades ou instituições-âncora, estão mais incertos do que nunca. 

E aproveito para rectificar uma ideia que tenho visto a espalhar-se no último dia. Nos muitos e merecidos encómios a Isabel II, já li por diversas vezes que tinha acabado o reinado mais longo de sempre. Também pensei, aquando do jubileu, que iria bater o recorde. Eram só mais dois anos. Mas não. Isabel II ultrapassou a Rainha Vitória e é a Rainha, no sentido estritamente feminino do termo, com o reinado mais longo de sempre. Mas o monarca que detém o galardão continua a pertencer ao outro lado da mancha e dificilmente será "destronado", perdoem-me o trocadilho fácil. Neste aspecto, o (rei) Sol continuará mesmo a brilhar.

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Entretanto recordei-me da colaboração que dei à revista Negócios Estrangeiros nos cinquenta anos da primeira visita de Isabel II a Portugal. Ali para a página 197 está o artigo da visita, para o qual colaborei com inúmeras notas sobre o itinerário realizado. Tem o seu interesse. E mais se discorre sobre o significado político da visita, em plena era de descolonizações e Guerra Fria. Sim, Isabel II subiu ao trono numa época igualmente atribulada para o Reino Unido, só que tinha um Winston Churchill para a ajudar. De certa maneira, tenho pena de Liz Truss, pelo tremendo início de mandato. Começar com a morte do monarca é pesado, mas com uma monarca tão marcante é mastodôntico.

O blogue da semana

João Pedro Pimenta, 07.08.22

Hesitei em escolhê-lo. Afinal de contas o autor estava numa situação complicada. Esta semana o Pedro Correia tinha falado dele e revelado que ele estava hospitalizado, segundo o próprio o revela. Mas entretanto já voltou às lides, o que é bom sinal. Ainda por cima numa altura em que eu estava a rever um dos seus romances de autobiografia romanceada (ou ficção real, como preferirem), La Coca, entre contrabandistas do Minho, narcotraficantes galegos (quem viu a série Fariña reconhecerá muitos nomes e terá algumas surpresas), solares na ribeira Lima e encontros inesperados com foragidos nazis. Há anos, apenas interrompendo entre 2017 e 2019, com uma constância incrível, José Rentes de Carvalho tem sido o "patrão da barca" que manobra, entre Amsterdão e Estevais, com opiniões, memórias, "bilhetes" e demais considerações, num universo riquíssimo, mas sobretudo com nacos de bom português, de que ele é tão cioso.

 

Assim, talvez não pela primeira vez, mas oportunamente, o Tempo Contado é o blogue da semana.

Ceder energia, arder por indiferença

João Pedro Pimenta, 22.07.22
Felizmente já estão em fase de resolução (espero, porque em dois casos voltaram), mas os grandes incêndios da última semana, tirando o da Guarda e o do Fundão, foram todos em Trás os Montes. E à parte de um perto de Bragança, todos no distrito de Vila Real - Chaves, Vila Pouca, Murça, até o de Baião invadiu o Marão. Entre aldeias habitadas por idosos, que por isso mesmo têm mais dificuldade em limpar as suas propriedades, fragas difíceis de alcançar e pinhais dispersos, arderam milhares de hectares, inúmeras árvores que eram o sustento das populações, algumas casas e morreram inúmeros animais e três pessoas (apesar de tudo muito menos do que em 2017).
 
Tudo isso poderia levar-nos para a discussão do abandono, desertificação e envelhecimento do interior, mas houve um pormenor em que poucos notaram: a não muitos quilómetros dos incêndios, em Ribeira de Pena, António Costa inaugurava esta semana a nova central hidroeléctrica do Tâmega, três albufeiras que se destinam à produção de electricidade. Ou seja, um empreendimento que sacrificando parte das terras em redor, por norma do interior, pretende fornecer energia a parte do país, mas aparentemente sem grandes contrapartidas às populações da região. Vimos o mesmo com as barragens no Planalto Mirandês, vendidas sem que os municípios recebessem o que quer que fosse. Ou com as enormes albufeiras no Barroso, que poucos benefícios palpáveis vieram trazer à região. Os tais "empregos" e "oportunidades" não passaram de ilusões e a população decresceu a olhos vistos.
 
Este é o drama permanente do interior, particularmente de Trás os Montes: continuamente desbastado para fornecer energia ao resto do país, mas esquecido em tudo o resto e notícia apenas quando há tragédias como os fogos, consequência do abandono e do desinteresse por parte de sucessivas administrações que sempre olharam para a região apenas como reserva de energia. E vamos lá a ver se não abrem umas crateras para explorar lítio a mando do secretário de estado Galamba, o perfeito exemplo do governante que se está nas tintas para o território desde que tire de lá benefícios (nem contrapartidas se lhes pode chamar). Suprema e cruel ironia, a da zona que usa a água para o fornecimento de energia necessitar tanto dela para salvar o seu território.
 
Fogo em Murça possui uma frente ativa e lavra em zona sem acessos

O S. João voltou

João Pedro Pimenta, 28.06.22

Houve muitas ausências que se lamentaram durante a pandemia. Aqui em Portugal destacaram-se os santos populares, essas festas colectivas tão queridas e democráticas, que anunciam sempre um novo Verão. Em 2021 houve uns ameaços, mas ainda não seria desta. Em 2022 regressaram, sem impedimentos. O tão desoladoramente falado "novo normal" afinal revelou-se muito parecido com o "velho normal".

O S. João, festa pagã de solstício de Verão adaptada para comemorar o profeta Baptista, que segundo os Evangelhos teria nascido seis meses antes do seu primo Jesus de Nazaré, também regressou, em especial ao Porto, onde, segundo Fernão Lopes, no século XIV já era festejado. Sabia-se que tinha havido um ou outro ano em que por causas bélicas ou de epidemias não tinha havido S. João, mas nunca dois anos seguidos. De tal forma que até a DGS, em 2020, emitiu um patético comunicado no dia 24 a pedir às pessoas que evitassem os festejos. O regresso urgia, por isso.

E regressou. Assim como os manjericos, as sardinhas, o fogo de artifício, as "cascatas", os martelinhos e a animação de rua. O tempo chuvoso da manhã ameaçava ser literalmente um balde de água fria, mas acabou por poupar os festejos. As pessoas voltaram a encher os principais espaços, sobretudo os que se encaminham para o rio. Quem andasse pelo centro da cidade podia ver os concertos "oficiais", mas eram sobretudo os bailaricos típicos que, de Nevogilde às Fontainhas, passando pelo Passeio Alegre, Massarelos e Miragaia, atraíam mais gente, tal como antigamente, com os martelos a fervilhar. Até Marcelo Rebelo de Sousa andou pela cidade, quase de uma ponta à outra. É de questionar como é que ele se terá locomovido da Sé a Nevogilde. Acima de tudo e todos, os balões a polvilhar o céu de luzes. E a noite acaba perto do rio, já com a alvorada. Para alguns puristas resistentes será mesmo na praia.

Não sei se era a noite de S. João esperada por toda a gente durante os dois últimos anos de má memória, mas o essencial estava lá. O S. João voltou com a "velha normalidade" e isso era tudo o que importava. 

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Ah, e também há o dia de S. João, com a regata dos barcos rabelos, ainda que o vento possa não ajudar.

Pensamento da semana

João Pedro Pimenta, 05.06.22

O desejo de pureza será sempre um dos males maiores da humanidade. Uma sociedade politica, étnica, religiosa ou linguisticamente pura, entre outras, será sempre o caminho para a tragédia porque implica sempre a eliminação das "impurezas", isto é, dos "impuros" aos olhos de quem a quer "purificar". A humanidade, sendo imperfeita e caótica, nunca poderá aspirar à pureza. Essa fica reservada ao transcendente e ao divino.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Triunfo onde já se dominou

João Pedro Pimenta, 27.05.22

A Roma, clube mais popular da Cidade Eterna, ganhou o seu primeiro título em muitos anos e o primeiro troféu da Conference League, essa nova competição do futebol europeu. E também a primeira final internacional em Tirana, capital da Albânia.

Não deixa de ser uma extraordinária coincidência: é que o estádio, um imóvel vanguardista recente com uma torre lateral que à primeira vista, de fora, nem se percebe ser um recinto desportivo, fica situado numa zona urbana construída por italianos e que alberga grande parte dos edifícios públicos e administrativos da capital. Todas aquelas construções datam do tempo da anexação da Albânia pela Itália, nos anos trinta, e são de típica arquitectura fascista, racionalista e monumental. O exemplo perfeito é o edifício da universidade de Tirana, ao fundo de uma larga avenida, tendo o estádio do seu lado esquerdo, para quem está de costas para a fachada, e as construções das imediações e da dita avenida obedecem ao mesmo plano. Nem o singular regime marxista/maoísta que se lhe seguiu mudou a sua configuração. E a praça de entrada para o estádio chama-se mesmo Praça da Itália.

É muito natural que com tanta construção dos seus patrícios, e parecida com outras que há em Roma, os romanistas nem se tenham sentido no estrangeiro. Até porque na Albânia muita gente fala italiano e não faltam gelatarias.
 
Ah, e Mourinho voltou a ganhar um troféu, continuando 100% vitorioso em finais internacionais. Isso também é familiar.
 
 
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Pode ser uma imagem de 5 pessoas, monumento e ao ar livre

O regresso de uma Frente Popular?

João Pedro Pimenta, 19.05.22

Vindo de uns dias em Paris, primeira viagem a sério pós-pandemia, não pude deixar de reparar, pelas notícias e pelos cartazes que ainda se colam nas paredes, no clima político vigente, e não eram só os preparativos para a (re)tomada de posse no Eliseu e do Dia da Europa.

Depois das eleições presidenciais francesas, afinal menos renhidas do que se pensava e que representaram novo desvio das sondagens (que eram mais favoráveis a Marine Le Pen), dando um novo mandato a Emmanuel Macron, constituindo, como escreveu o Pedro Correia, uma importante derrota política e estratégica para Vladimir Putin, seguem-se as legislativas. 

A divisão em três blocos políticos, verificada nas presidenciais, tende a repetir-se. A Republique en Marche, de Macron, de ideologia "liberal-social" e basicamente centrista, que arrasou as faixas moderadas dos outrora dominantes Partido Socialista e partido gaullista (que mudou de denominação várias vezes, sendo a última Les Républicains), assim como as últimas legislativas, quando só tinha um mês, deve voltar a ganhar, embora com menos lugares que em 2017. As legislativas na V República, a seguir às presidenciais, tendem a confirmar o voto destas, dando uma maioria na câmara como respaldo do sistema semi-presidencialista, havendo poucos casos de coabitação. O mesmo deve suceder agora, mas com uma maior divisão.

Marine Le Pen, em crescendo, quererá sem dúvida alargar o seu grupo parlamentar, pouco numeroso, já que o sistema uninominal e maioritário francês, baseado em duas voltas (em que por vezes há três partidos na segunda), tem pouca correspondência com o número de votos. Com menos "barreiras sanitárias" poderá aproveitar em muitas segundas voltas os votos do movimento de Erich Zemmour, que não se revelou o concorrente perigoso que prometia ser e que até favoreceu Le Pen, com um efeito de contraste como candidato ainda mais radical. Para além da sua RN (ex-FN), contará com estes votos e de habituais aliados, como Dupont-Aignan. O surgimento meteórico de Macron, ao esvaziar os Republicains,  permitiu que alas mais direitistas e soberanistas deste partido se transferissem aos poucos para o de Le Pen, dando-lhe o suporte eleitoral de que goza hoje. A teoria das "três direitas francesas", de Réné Rémond, assinala existir uma direita legitimista (e mais tarde fascista), pré-revolucionária baseada em figuras como Charles Murras e Pétain, por exemplo; uma liberal e "orleanista", de que uma das figuras de proa mais recentes seria Giscard d´Estaing; e uma direita bonapartista/gaullista, mais centralizada e estatizante, centrada num líder carismático, como Napoleão e principalmente De Gaulle. É esta última a dominante em França, mas Le Pen, que partiu com o seu pai da corrente legitimista, de resto em declínio, acolhe muito do gaullismo mais à direita. E há ainda uma corrente sempre presente que parece ser uma inspiração directa: o poujadismo, em parte sinónimo de populismo, que nos anos cinquenta, sob a liderança de Pierre Poujade, reuniu um bloco de pequena classe média composto de comerciantes, agricultores, artesãos e pequenos industriais, sobretudo da "province", e alguns críticos da descolonização, que protestavam contra o poder de Paris. Não por acaso Jean Marie Le Pen começou a sua carreira como deputado por este movimento.

Mas o assunto que actualmente domina a política francesa é a união das esquerdas. Com o cúmulo de votos, que por pouco não o levou à segunda volta das presidenciais, Jean-Luc Mélenchon guindou-se como a mais proeminente e notória figura da esquerda em França. Não só levou a sua France Insoumisse a crescer, ombreando com a RN, como viu a concorrência a mingar: os ecologistas ficaram aquém do que se esperava, os comunistas há largos anos que foram suplantados, e sobretudo os socialistas, que estiveram na presidência até 2017, tiveram o pior resultado de que há memória, com os minúsculos 1,74 conseguidos por Anne Hidalgo, "maire" de Paris. Conseguiram até, suprema vergonha, ficar atrás dos comunistas, numa inversão pobrezinha do que aconteceu nos anos oitenta, quando o PSF de Mitterrand dominou e diminuiu o PCF de Georges Marchais depois de o levar para o governo. 

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A célebre sede do PCF, da autoria do "camarada" Óscar Niemeyer

Curiosamente, nas últimas eleições municipais, os socialistas e ecologistas tinham conseguido grandes triunfos, nalguns casos em conjunto, ao conquistar as principais cidades do país, assim como os Republicanos, deixando as formações de Macron e Le Pen com pífios ganhos, demonstrando uma relação local inversamente proporcional à nacional. 

Os planos de Mélenchon têm como objectivo uma força de esquerda constituída pelo seu movimento, pelos ecologistas, pelo PCF, pelos socialistas e até pelos trotsquistas do Nouveau Parti Anticapitaliste, que aqui correspondem à esquerda do Bloco, provavelmente o MAS. Estes últimos recusaram, por considerarem a frente "demasiado social-democrata", mas os socialistas acabaram por aderir oficialmente. Não sem grande contestação interna: face às tendências eurocépticas de Mélenchon, o partido que teve como figuras de proa François Mitterrand, Michel Rocard e Jacques Delors (e recorde-se, na mesma linha partidária, Guy Mollet, Christian Pineau e Maurice Faure, fundadores da CEE), além de outros mais recentes como Laurent Fabius, François Hollande ou Lionel Jospin, dividiu-se claramente, tendo estes dois últimos sido vozes audíveis contra esta verdadeira dissolução de um partido histórico e fulcral na política francesa numa coligação tão longe dos seus valores. É aliás tristemente irónico, uma vez que nos anos noventa Rocard, considerando o PSF já algo ultrapassado, lançara a ideia do "big-bang" político juntando sociais democratas, ecologistas, centristas e até comunistas renovadores. A ideia recebeu muitos aplausos mas nunca germinou, e agora o que se verifica é não um big-bang mas uma implosão para que dos destroços saia algo mais velho.

A imprensa portuguesa referiu-se a uma "geringonça" francesa. Na realidade, nem precisava de ir por aí, porque em França isso já teve um nome: Frente Popular. E para além da de 1936, numa época particularmente sombria, houve a já referida experiência de Mitterrand em 1981, que se revelaria uma armadilha para o PCF, que a partir daí declinou como nunca antes, sobretudo a partir do momento em que o governo socialista a que estava ligado virou o rumo das políticas. 

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Propaganda de esquerda, nas imediações do Tolbiac 

Tanto o governo da Frente Popular como o dos anos oitenta deixaram algumas medida que ficariam para a posteridade, como as férias pagas e a abolição da pena de morte. As ideias de Mélenchon, porém, parecem ser tributárias de um passado pouco atento à realidade: aumento pronunciado do salário mínimo, recuo da idade da reforma para os 60 anos (a França é dos países da UE com idade de reforma mais baixa, coisa que Macron pretende contrariar subindo-a) ou nacionalizações, principalmente na área dos transportes. E sobretudo, desobediência e incumprimento dos tratados europeus quando considerarem que tal se justifique. Se são bem vindas à democracia novas ideias e novas forças, o que apresenta Mélenchon não parece ser um caminho muito aconselhável num país com um estado social tão vasto e uma burocracia tão pronunciada, e que apesar de alguns problemas sociais que merecem atenção e têm levado a certa contestação, apresenta um crescimento económico e uma taxa de emprego invejáveis.

O novel movimento já tem sigla e nome: NUPES (Nouvelle Union Populaire Écologique et Sociale). Dificilmente constituirá governo, mas será uma pedra no sapato de Macron e um impulsionador de movimentos de rua, mais influente do que o de Le Pen, porque promete eleger muitos mais deputados. Se terá sucesso duradouro ou não, até porque Mélenchon já tem setenta anos, dependerá igualmente de como Macron conseguir governar a França. Se este não conseguir, adivinham-se retrocessos.

O Kosovo da Rússia

João Pedro Pimenta, 12.04.22

Notícias dos últimos dias dão-nos conta de que a Ossétia do Sul vai “iniciar o processo legal para se tornar parte da Rússia” através “de uma consulta popular”. Não é propriamente uma surpresa. Este é um procedimento que já vamos conhecendo: uma dada população está a ser atacada pelas forças governamentais, as tropas russas intervêm para a auxiliar, ocupam a região “em missão de paz”, organiza-se um “referendo” em poucos dias, e a população vota pela separação e, eventualmente, para se tornar parte da Rússia. Aconteceu antes e volta a acontecer.

Um dos argumentos utilizados é o precedente do Kosovo, saído da esfera da Sérvia, país próximo da Rússia. A região era habitada por uma maioria albanesa que sofreu uma tentativa de limpeza étnica por parte de Slobodan Milosevic e dos seus apaniguados, com currículo na matéria na Bósnia, como tristemente se sabe. A intervenção da NATO impediu-o, expulsando os sérvios e colocando o Kosovo sob protecção da ONU, até que em 2008 os kosovares proclamaram a independência, prontamente reconhecida pelos Estados Unidos e por mais uns quantos estados (Portugal incluído, meses depois, mas não Espanha, por razões óbvias). Criava-se assim, pelo menos de facto, um novo estado, como que uma segunda Albânia, de duvidosas capacidades para se manter e directamente arrancado à Sérvia, que nunca o aceitou (interpondo uma ação perante o Tribunal Internacional de Justiça, que não lhe deu razão). Nem a Rússia, que daí em diante aproveitaria o “precedente do Kosovo” nos casos da Crimeia, Donbass, e, logo em 2008, nos da dita Ossétia do Sul e da Abecásia. Mas estes últimos casos já vinham de longe.

No início dos anos noventa, o desmoronamento da URSS conduziu à independência das suas 15 repúblicas federativas. Algumas já se tinham entretanto separado, o que apressou o fim daquela federação. Era o caso da Geórgia, outrora um reino independente que vinha de tempos imemoriais, e que declarou independência em meados de 1991, depois de um referendo. Mas ao mesmo tempo, aproveitando o caos reinante e fazendo ressurgir velhas questões, outras subdivisões aproveitavam para reivindicar a sua autonomia. Aconteceu isso mesmo na Ossétia do Sul, um exíguo território a norte, separado do resto do resto do Cáucaso por enormes montanhas, e da Abecásia, uma faixa de território do noroeste da Geórgia, ao longo do Mar Negro, parte da “Riviera Soviética” e que se reclamava herdeira da mítica Cólquida, que se separou do território georgiano.

As duas aproveitaram para declarar a independência, o que originou uma reação dos georgianos. Estes, por sua vez, já andavam divididos numa guerra civil desde o derrube do presidente Zviad Gamsakhurdia, primeiro chefe de estado da Geórgia independente, e as suas forças não primavam pela capacidade bélica ou tecnológica. Para mais, as repúblicas rebeldes tiveram apoios externos. A Ossétia conseguiu a sua autonomia depois de meses de dura luta. Com a Abecásia seria mais demorado.

Aquela pequena república declarou a independência no verão de 1992, liderada por Vladislav Ardzinba, um académico especializado em civilizações da antiga Mesopotâmia, e que tentava o reconhecimento por todos os meios, tendo mesmo apoiado o golpe contra Gorbachov em Agosto de 1991. Os georgianos intervieram, sob pretexto de incidentes provocados por independentistas, e controlaram a maior parte do território, remetendo o governo da Abecásia para um pequeno espaço a Norte, perto o suficiente para conseguir receber reforços. Não o fizeram sem que as suas tropas, em parte eram regimentos semi-amadores, cometessem diversos crimes, entre os quais a destruição de preciosos arquivos, como aqui nos relata Thomas de Wall, então jovem jornalista lá estacionado para fazer uma reportagem sobre os gregos do Ponto (que foram  em boa parte resgatados por uma operação naval da Marinha Grega a que sintomaticamente chamaram Operação Velo de Ouro).

Os rebeldes abecásios receberam o apoio activo de uma miríade de guerrilheiros de várias partes do Cáucaso, chamada sintomaticamente Confederação dos Povos de Montanha do Cáucaso, que se deslocou para o território qual guerra santa. A maior parte eram islamitas, e entre os seus comandantes contava-se Shamir Basayev, que começaria aqui a sua carreira de atrocidades antes de se tornar mais conhecido pelos pelo seu papel nas guerras da Tchétchénia e pelos atentados contra a Rússia nos anos 2000, sendo o mais conhecido o massacre da escola de Beslan, vitimando inúmeras crianças, e o atentado ao teatro moscovita Dubrovka. A estes juntaram-se voluntários arménios locais, que se diziam descriminados pelos georgianos, ossetas, cossacos e militares voluntários russos. Entre combates, avanços e recuos e algumas atrocidades de parte a parte, obteve-se um frágil cessar-fogo, mediado pela Rússia, que tinha um papel dúbio desde o início. Os georgianos baixaram então a guarda, apenas para serem surpreendidos por uma investida dos abecásios e seus aliados, que em poucos dias tomaram a capital, Sukhumi, com apoio indirecto russo, que lhes forneceram boa parte do armamento. Shevardnaze, que tinha ido pessoalmente à capital da Abecásia para dar moral à população, teve de fugir apressadamente de avião, o último a sair em segurança, já que os voos que se lhe seguiram, transportando civis em fuga ou soldados, foram abatidos pelos rebeldes sobre o Mar Negro. Seguiu-se a mortandade da população georgiana, incluindo o assassínio todas as autoridades da cidade, e a fuga de dezenas de milhares de pessoas para a Geórgia (ocasionalmente foram navios russos que levaram alguns civis para Sochi). A limpeza étnica tirou metade da população à Abecásia e a maior parte da população a Sukhumi.  

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A guerra da Abecásia não teve grande repercussão no ocidente, já que na altura os acontecimentos eram dominados pela guerra na ex-Jugoslávia e a crise institucional na própria Rússia, que acabaria com o bombardeamento do parlamento, onde estavam barricados inúmeros opositores nacionalistas, estalinistas e o próprio vice-presidente rebelde Rutskoy, pelas forças de Yeltsin, a que se seguiriam eleições atribuladas que dariam a vitória ao ultra-radical Zhirinovsky, morto esta semana. Passou por isso relativamente despercebido o papel dos russos nesta guerra, já que embora só tivessem contribuído com soldados voluntários do lado dos abecásios, deram aos rebeldes não só armamento como todas as condições para progredirem, nunca tendo intervindo, antes pelo contrário, para fazer respeitar o cessar-fogo. Menos evidente são as razões porque o fizeram: se ainda por vingança pela separação da Geórgia, se porque a sua própria situação interna, minada por nostálgicos da URSS, não permitia grandes desvios. A verdade é que permitiu não só a secessão daquelas regiões e a limpeza étnica dos georgianos, de forma trágica, como deu força a que os rebeldes do Norte do Cáucaso iniciassem pouco depois uma guerra sangrenta pela independência da Tchétchénia e inúmeros grupos radicais islâmicos que deixariam um rasto de atentados violentos na Rússia.

Uma dos poucos chamadas de atenção para esta guerra é o filme Tangerinas, nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2013, passado com a guerra da Abecásia em fundo e a comunidade local de letões, e que esteve nos cinemas em Portugal e que já passou na RTP2.

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A Geórgia terminaria a sua própria guerra civil no fim de 1993, com a morte, oficialmente por suicídio, do sitiado Gamsakhurdia. Em Agosto de 2008, aproveitando a distração com os Jogos Olímpicos de Pequim, a Geórgia pós-Shevardnaze, liderada por Saakashvili, tentou reaver aqueles territórios, mas os planos foram gorados pelas forças armadas russas, que, agora directa e ostensivamente, rechaçaram os ataques e ainda entraram em território georgiano, num episódio relembrado actualmente com a invasão da Ucrânia. Logo a seguir, invocando o precedente do Kosovo desse mesmo ano, a Rússia agora de Putin reconheceu a independência da Abecásia e da Ossétia do Sul. Mais tarde, e para justificar a actual guerra movida contra a Ucrânia, reconheceu a independência das “repúblicas” de Donetsk e Luhansk, que previsivelmente copiarão a “vontade” da Ossétia em se juntar aos russos, tal como aconteceu em 2014 com a Crimeia. Não se sabe se o mesmo poderá acontecer à Transnístria, ocupada por uma guarnição russa, mas é possível. Não deixa de ser curioso como a Rússia se queixa constantemente do “cerco” da NATO ao mesmo tempo que durante anos cercou a Ucrânia na maior parte do seu território – a leste e a Norte, assim como a Bielorrússia, a sul, com a base de Sebastopol, cedida aos russos para sediar a base da frota do Mar Negro, a leste, com a dita Transnístria, e até a Noroeste, se considerarmos o enclave armado de Kaliningrado/Konigsberg.

Quanto à Abecásia, tem uma posição diferente: embora agradecida à Rússia, não se pretende juntar a ela. No entanto, está absolutamente dependente do gigantesco vizinho, que tem lá forças estacionadas. A economia depende da produção de tangerinas e do turismo balnear russo, sendo um destino mais barato que a vizinha Sochi. A população ficou reduzida a metade, após a limpeza étnica dos georgianos (e a fuga de outras etnias, como os gregos e os letões). A região está parada no tempo, quase sem infraestruturas, ao contrário do resto da Geórgia, que progrediu consideravelmente. O próprio parlamento permanece devoluto, mais de 25 anos depois de sofrer estragos de guerra, como uma ferida aberta no centro de Sukumi, uma ilustração do estado daquela terra. A secessão serviu para retalhar a Geórgia, sem dar um futuro melhor à Abecásia, e para que os radicais islâmicos se espalhassem com os resultados consequentes.

Sim, a Rússia teve os seus Kosovos e os seus Bin Ladens. A Rússia de Yeltsin permitiu-o. A de Putin, hostil com os vizinhos que querem sair da sua órbita, reafirmou-o, diminuindo a riqueza étnica e cultural da região e condenando os respectivos povos a uma inimizade permanente.

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O blogue da semana

João Pedro Pimenta, 10.04.22

Para quem não conhece Trás os Montes ou gostaria de saber mais sobre a região menos noticiada de Portugal encontra aqui uma boa oportunidade de o contrariar. Notícias da região, opiniões, imagens, números, artigos vários sobre a cultura transmontana (vejam-se os dedicados aos cristãos-novos e marranos do Nordeste transmontano), e, claro, memórias e histórias, suportadas há mais de uma década por Henrique Martins e um punhado de colaboradores.

O Memórias...e outras coisas... é o blogue da semana.

Odessa

João Pedro Pimenta, 11.03.22
Por que Odessa, na Ucrânia, tem valor especial para Putin? - BBC News Brasil
 
"A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel".
 
No mini-clássico A Ideia da Europa, de George Steiner, fica-nos desde logo este trecho. Odessa, a maior cidade e maior porto do Mar Negro ("a Paris do Mar Negro"), não só cenário dos contos de Babel mas também famosa por ser o cenário de O Couraçado Potemkin, esse clássico do cinema mudo de Einsenstein , está à espera da força bruta que se prepara a atacar do mar, sabe-se lá com que armas. Há umas décadas foram as SS alemãs, Agora são os russos.
 
Há uns anos, vislumbrando uma oportunidade de ir finalmente a Istambul, não me quis ficar pela metrópole do Bósforo e desenhei um percurso que me levaria de barco, ferry ou cargueiro, se fosse possível, até Odessa, através do oeste do Mar Negro, que em parte já conhecia. Iria à "Paris do Mar Negro", daria um pulo a Tiraspol, capital dessa estranha micro-URSS chamada Transnístria, agora mais conhecida pelo clube Sheriff que o Braga eliminou, e daí iria conhecer Kiev, antes de voltar para Portugal.
 
Hoje esse percurso tornou-se absolutamente inviável e só existe em sonhos, como outros em que aliás já tinha pensado. Traçar planos para viagens mais extensas é quase impossível nos dias que correm. Espero que Odessa e outras cidades da região permaneçam intactas, sobretudo as suas populações e o seu espírito.

Um traidor

João Pedro Pimenta, 10.03.22

Se alguma vez quiserem saber como é a cara de um traidor, recordem bem esta: Viktor Yanukovytch, ex-presidente da Ucrânia, o homem que depois de ser deposto (por votação no parlamento ucraniano, recorde-se, e de quem até o seu próprio partido se afastou) fugiu para a Rússia - e lá se tem conservado - que apoiou sempre, deixando um rasto de uma fortuna colossal ilegitimamente adquirida e que agora quer que a Ucrânia se renda.

 

A Ucrânia e as diferenças com o "whataboutismo"

João Pedro Pimenta, 02.03.22

Perguntava-me há dias se a situação na Ucrânia provocaria tanta comoção como quando houve a questão do Iraque. Nessa altura, houve uma jornada mundial de manifestações (talvez dos primeiros grandes efeitos da Internet), a 15 de Fevereiro de 2003, de protesto contra a iminente invasão do Iraque, com manifestações por toda a parte (se me perguntarem, sim, eu estive numa nessa data, no Porto, e no dia em que começou a guerra estive ao lado do iraquianos em Atenas).

Neste momento, felizmente, começa a haver um grande movimento contra esta invasão e a favor da Ucrânia. A diferença, pelo que me pareceu, é que é sobretudo no mundo ocidental, com o resto um pouco mais indiferente, mas espero estar enganado.

 

A propósito do Iraque, tenho visto as estafadas perguntas "então e o Afeganistão, o Iraque, a ex-Jugoslávia"...normalmente é um estratagema de whataboutismo para se poupar a Rússia por birra com o ocidente (a que pertencemos), porque uns não implicam outros. E quem as faz assobia para o ar perante a flagrante violação do direito internacional, que antes tanto dizia defender. Mas há apesar de tudo, diferenças, pelo menos nestes três.

 

O Afeganistão invadiu-se porque albergava uma colónia de terroristas que tinha provocado o 11 de Setembro. Os Estados Unidos sofreram um ataque armado e pelo Direito internacional tinham todo o direito de se defender, como a ONU concordou. Outra questão será saber se administraram bem a situação após a fase militar.

 

Na ex-Jugoslávia, ou antes no Kosovo, estava a haver uma limpeza étnica das populações albanesas locais, de tal forma que tanques sérvios chegaram a atravessar a fronteira com a Albânia atrás de kosovares. Deu-se então uma intervenção da NATO, bombardeando não só forças militares mas também pontos estratégicos em Belgrado, o que levou à morte de alguns civis (e até ao bombardeamento por engano da embaixada chinesa). Sendo certo que uma intervenção para evitar situações como a que tinham ocorrido na Bósnia anos antes era mais que aconselhável, a verdade é que a NATO não tinha mandato da ONU e levou a acção longe demais para além dos objectivos.

 

O Iraque é o que se sabe. Os EUA e alguns aliados, como a campanha contra o "Axis of Evil" dos neoconservadores, conseguiram implicar Saddam Hussein com a Al-Qaeda, com a qual não tinha rigorosamente nada a ver, e inventar umas fantasiosas armas de destruição maciça, que Colin Powell "revelou" numa sessão das Nações Unidas em que o seu prestígio de décadas se estampou. O resto é história.

 

Qual é então, a grande diferença para os casos do Kosovo e do Iraque? É que no primeiro, apesar de ser ilegal, a intervenção conseguiu parar uma limpeza étnica que estava a ser comandada por um tirano, Slobodan Milosevic, de tal forma que no ano seguinte os sérvios não hesitaram em derrubá-lo.

No segundo, apesar de ser um desastre baseado numa mentira, a verdade é que o regime de Saddam era um dos piores facínoras da época e crimes contra a humanidade não faltavam.

E similar ao caso da ex-Jugoslávia poderíamos ir ao caso da Líbia, regida por um assassino que ia desencadear uma repressão violenta contra o seu povo.

 

No caso da Ucrânia, não só se trata de uma violação flagrante do direito internacional com base em mentiras descaradas (a suposta adesão do país à NATO) como atenta contra um presidente livremente eleito (venceu até o seu antecessor, que estava no cargo), e não um "neonazi", ao contrário do que se passa na Rússia. Ou seja, pelos argumentos da Rússia, a Ucrânia tinha todas as razões para a invadir, já que o regime de Putin ameaça a sua soberania, comete crimes contra o seu povo e só se "elege" prendendo e abatendo adversários.

 

Em suma: se havia razões para contestar a guerra do Iraque, mais razões ainda há para protestar contra a agressão à Ucrânia.

 
 

Lições da História, verdadeiras ou enviesadas

João Pedro Pimenta, 24.02.22

Churchill é citado e invocado por tudo e por nada. No momento actual, tanto pode ser usado pelos que recordam que a humilhação da Alemanha levou mais tarde ao seu rearmamento como pelos que lembram que se opôs tenazmente ao apaziguamento a Hitler que originou o Anschluss, a entrada na Checoslováquia e por fim a invasão da Polónia.

A situação actual, infelizmente, presta-se a essas lições da História. Não é preciso aplaudir-se a grave crise por que os russos passaram nos anos noventa, após o fim da URSS, ou concordar com a secundarização do maior país do mundo para se aprovar as acções de Vladimir Putin. É verdade que a Rússia devia ter sido mais apoiada nos tempos da Ieltsin, que a tentativa de cercá-la de países da NATO se mostrou precipitada e que acossar um "urso" ferido revelou-se um grave erro. A isso também se podia acrescentar o reconhecimento do Kosovo como país independente, retirando-o à Sérvia na totalidade gerando uma "Grande Albânia" (até nos ministérios de Pristina se vêem bandeiras albanesas) e criando um estado falhado no coração dos Balcãs.

Nada disso impede que o que se está agora a assistir seja a recriação da teoria do Espaço Vital pela Rússia. Ficou claríssimo quando Putin negou o próprio direito à Ucrânia de ser independente, mas já vinha sendo demonstrado com as tomadas de território ucraniano de 2014 e da Geórgia de 2008 (e até antes, com as guerras no Cáucaso em meados dos anos noventa), além da vassalagem crescente de Lukashenko da Bielorrússia. Sim, talvez Putin não ameace o mundo todo, mas a comparação com a Alemanha de finais dos anos 30 é inevitável, e poderíamos acrescentar outros elementos, como a propaganda desenfreada, não já tanto pela rádio mas por inúmeros canais da net. Acresce que os ataques informáticos, em boa parte vindos da Rússia, estão a tornar-se crescentes em número e perigosidade.

E tal como então não faltam "quintas colunas" no Ocidente a favor de Putin. Em Portugal não serão assim tantas, mas temos à cabeça o inevitável PCP, sempre ao lado dos russos (ou melhor dizendo, contra o Ocidente), para quem a culpa é... da Ucrânia. Certamente pensaram o mesmo da Polónia na invasão alemã de 1939, de tal forma que a URSS entrou pelo outro lado. Mas mesmo fora do PCP encontramos outros idiotas úteis - não por acaso uma expressão atribuída a Lenine e usada para gente que passava a mão no pêlo a regimes destes - que desdenham das democracias liberais, preferindo a alternativa "iliberal", olham para Putin como exemplo de estadista e de "macheza" e não se coíbem de inventar razões para as atitudes do regime russo, mesmo que extremamente enviesadas e amputadas. São os que recordam que a NATO expandiu-se para leste mas esquecem a promessa russa de respeitar a integralidade das fronteiras ucranianas em troca do desarmamento nuclear. Ou que juram a pés juntos que houve um referendo na Crimeia, omitindo que tal "consulta" não obedeceu às regras mínimas (nem observadores teve) ou nem sequer recordando que os chechenos não tiveram essa oportunidade. Ou que a Ucrânia é regida por uma "junta fascista", quando depois da dita junta já houve dois presidentes eleitos. Em Portugal esta gente andará mais dissimulada, mas noutros países da Europa são mais detectáveis, como a srª LePen, que recebeu um generoso empréstimo a fundo perdido de Putin, e outros comparsas. 

 

Le Pen e Putin em Moscovo: "Não queremos de forma alguma influenciar os  acontecimentos" | Euronews

 

É esse o desafio que o ocidente tem pela frente: como travar o passo às ambições expansionistas de Putin, agora totalmente escancaradas, num tempo em que há ONU mas há também armas nucleares? Como obrigá-lo a cumprir a legalidade e a não ameaçar vizinhos? Como demonstrar que a Rússia não pode fazer o que quiser sem consequências e sem que isso leve a uma escalada imprevisível, num Mundo que se habituou a guerras por procuração e por interpostos aliados? Não tenhamos dúvida: é um desafio mais perigoso e exigente do que o dos mísseis de Cuba e dos instalados na RDA nos anos oitenta. E mais uma prova de que este século XXI, depois do optimismo que se viveu nos finais do anterior, está a ser uma desgraça. Começou com um atentado apocalíptico, prosseguiu com a maior crise financeira das últimas décadas, tivemos uma pandemia há dois anos que ainda não acabou e agora esta séria ameaça de guerra. Um primor de século.

 

PS: já viram a coincidência? Da anterior ocasião em que a China tinha celebrado uns Jogos Olímpicos, a Rússia invadiu a Geórgia. Agora os chineses voltaram a organizar umas olimpíadas, mas de Inverno, e estamos nisto.

PS: enquanto escrevia isto a Rússia invadiu a Ucrânia. Ainda assim, o texto não perde a sua actualidade, antes fica confirmado.

Santos do dia

João Pedro Pimenta, 15.02.22

Ó vós que celebrasteis o dia de S. Valentim com florzinhas, versos lamechas e "escapadelas românticas", lembrai-vos que ontem, 14, era igualmente dia de S. Cirilo e S. Metódio, que sendo ortodoxos e tendo criado o alfabeto cirílico, são também santos para a Igreja Católica e co-padroeiros da Europa. E em dias como estes, em que há sérias tensões, fendas e tambores de guerra na Europa, particularmente na ortodoxa, mais necessário se torna invocá-los.

 

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Duas conclusões (e uma sub-conclusão) pós eleitorais

João Pedro Pimenta, 02.02.22

Não vale a pena vir para aqui fazer as análises das eleições porque podem encontrá-las para todos os gostos nos jornais, na TV, no Facebook, nas rádios e podcasts, nos twitters desta vida, etc. Seria uma perda de tempo. Mas deixo aqui duas conclusões que me ficaram destas eleições, e às quais cheguei  enquanto vagueava pela zona onde mora uma das grandes figuras da campanha, Zé Albino de seu nome.

Entre os que não tinham representação parlamentar, todos tiveram resultados paupérrimos. Como curiosidade, lembram-se do Aliança? Aquele partido que há pouco mais de dois anos seria o futuro do centro direita e até tinha um senado? Pois ficou em último (o PPM só concorreu nas regiões autónomas) com menos de dois mil votos - conferir aqui. Não admira: o seu mentor, Santana Lopes, única razão para a sua existência, veio declarar apoio a Rio e parte dos candidatos das suas listas apelaram afincadamente ao voto no CDS. Que há três anos, com Cristas, iria crescer como nunca e ultrapassar o PSD, segundo juravam alguns militantes. E o PAN era o futuro.

O cenário político está cada vez mais curto e imprevisível, pelo que mais vale não tentar adivinhar o futuro e quais serão as next big things partidárias. Essa é uma das conclusões que tiro, embora isso já me ocorresse há uns tempos.

A outra é que mesmo uma boa campanha eleitoral pode não decidir nada. O PSD mostrou uma capacidade de mobilização e um entusiasmo que há muito não se viam, ao passo que o PS, tirando umas arruadas no fim, parecia titubeante, com Costa a usar uma táctica numa semana e outra completamente diferente na seguinte.
 
E dentro desta, uma sub-conclusão: pelo menos nesta eleição, os grandes generais, os ex-líderes partidários, não serviram de muito. Rio teve a seu lado Manuela Ferreira Leite, Menezes e um inesperado Santana, como vimos, desprovido de qualquer pudor. Louçã apareceu a discursar num comício do Bloco. Ribeiro e Castro e Manuel Monteiro apareceram em acções de campanha, principalmente na arruada final, ao lado de Chicão. No PS, que me lembre, só episodicamente Ferro Rodrigues e umas bocas de Sócrates que apenas repele votos. Nenhum dele acrescentou grande coisa, a avaliar pelos resultados finais.

 

Pensamento da semana

João Pedro Pimenta, 30.01.22

O tribunal absolveu Rui Moreira de todas acusações no caso Selminho, depois de o Ministério Público ter pedido pena de prisão suspensa e a perda do mandato. É um peso que sai de cima do Presidente da câmara municipal do Porto, mas que não deixa de recordar (como Moreira evidenciou) o claro aproveitamento político que houve da situação, nomeadamente do PSD, na figura do próprio líder, do PCP e em parte do BE. Também houve pressões, nomeadamente na imprensa, para que não se candidatasse.

 

Fica-se a pensar o que teria sucedido se Moreira tivesse desistido da sua candidatura. Provavelmente a sua lista independente, fortemente ancorada na figura do seu mentor, não teria aguentado a maioria, mesmo relativa, e outra formação, ou melhor dizendo, um partido, estaria agora à frente da edilidade. Moreira teria sempre recuperado a sua credibilidade, mas o mal estaria feito e este processo teria beneficiado outros. E em climas de suspeição e de revolta, muitas vezes genuína, que o cidadão comum nutre por todos os que quebram as regras sem pagar por isso, dá para reflectir como é que certos casos, por vezes no afã que alguns órgãos da justiça têm em mostrar trabalho, podem influenciar a política e sobretudo como é que alguns políticos podem beneficiar de alguma precipitação para colher frutos indevidos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

António Costa não é nenhum indiano

João Pedro Pimenta, 28.01.22

Para além de todas as críticas a António Costa (merecidas, em grande parte), há uma coisa que francamente não suporto: é quando lhe chamam "monhé", "chamuças", "indiano" ou até "preto". Além de serem "argumentos" de tasco e declaradamente racistas - aqui não há qualquer dúvida - são próprios de gente que ou nunca saiu da terrinha ou não conhece o seu país e a cultura que deu ao Mundo.

António Costa não é indiano. É português, filho de um goês, tal como outros membros do seu governo, de governos anteriores, de outros partidos, como o Prof. Narana Coissoró, e de tantas outras áreas da sociedade. Só por aí se pode ver a importância de Goa e dos goeses nas elites portuguesas. Não é à toa que se fica mais de quatrocentos anos num território. Goa representa o que de melhor a presença portuguesa deixou no mundo: uma mistura de cultura lusa e indiana, traços sólidos de civilização e uma população preparada, instruída e trabalhadora. É o melhor exemplo do que a lusofilia e a portugalidade podem apresentar. E se poucos que lá moram falam a língua portuguesa, os nomes de família conservaram-se orgulhosamente.

Não tenho propriamente um grande fascínio pela Índia, mas gostava de conhecer Goa. Lá não existe a pobreza confrangedora que se avista noutras partes do subcontinente. Um dia perguntei a uma rapariga indiana, que me disse ser da costa oeste do país, se era goesa. Ela respondeu, com ar resignado, que não, mas que viver em Goa seria um sonho, tanto para ela como para qualquer indiano.