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Delito de Opinião

Triunfo onde já se dominou

João Pedro Pimenta, 27.05.22

A Roma, clube mais popular da Cidade Eterna, ganhou o seu primeiro título em muitos anos e o primeiro troféu da Conference League, essa nova competição do futebol europeu. E também a primeira final internacional em Tirana, capital da Albânia.

Não deixa de ser uma extraordinária coincidência: é que o estádio, um imóvel vanguardista recente com uma torre lateral que à primeira vista, de fora, nem se percebe ser um recinto desportivo, fica situado numa zona urbana construída por italianos e que alberga grande parte dos edifícios públicos e administrativos da capital. Todas aquelas construções datam do tempo da anexação da Albânia pela Itália, nos anos trinta, e são de típica arquitectura fascista, racionalista e monumental. O exemplo perfeito é o edifício da universidade de Tirana, ao fundo de uma larga avenida, tendo o estádio do seu lado esquerdo, para quem está de costas para a fachada, e as construções das imediações e da dita avenida obedecem ao mesmo plano. Nem o singular regime marxista/maoísta que se lhe seguiu mudou a sua configuração. E a praça de entrada para o estádio chama-se mesmo Praça da Itália.

É muito natural que com tanta construção dos seus patrícios, e parecida com outras que há em Roma, os romanistas nem se tenham sentido no estrangeiro. Até porque na Albânia muita gente fala italiano e não faltam gelatarias.
 
Ah, e Mourinho voltou a ganhar um troféu, continuando 100% vitorioso em finais internacionais. Isso também é familiar.
 
 
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O regresso de uma Frente Popular?

João Pedro Pimenta, 19.05.22

Vindo de uns dias em Paris, primeira viagem a sério pós-pandemia, não pude deixar de reparar, pelas notícias e pelos cartazes que ainda se colam nas paredes, no clima político vigente, e não eram só os preparativos para a (re)tomada de posse no Eliseu e do Dia da Europa.

Depois das eleições presidenciais francesas, afinal menos renhidas do que se pensava e que representaram novo desvio das sondagens (que eram mais favoráveis a Marine Le Pen), dando um novo mandato a Emmanuel Macron, constituindo, como escreveu o Pedro Correia, uma importante derrota política e estratégica para Vladimir Putin, seguem-se as legislativas. 

A divisão em três blocos políticos, verificada nas presidenciais, tende a repetir-se. A Republique en Marche, de Macron, de ideologia "liberal-social" e basicamente centrista, que arrasou as faixas moderadas dos outrora dominantes Partido Socialista e partido gaullista (que mudou de denominação várias vezes, sendo a última Les Républicains), assim como as últimas legislativas, quando só tinha um mês, deve voltar a ganhar, embora com menos lugares que em 2017. As legislativas na V República, a seguir às presidenciais, tendem a confirmar o voto destas, dando uma maioria na câmara como respaldo do sistema semi-presidencialista, havendo poucos casos de coabitação. O mesmo deve suceder agora, mas com uma maior divisão.

Marine Le Pen, em crescendo, quererá sem dúvida alargar o seu grupo parlamentar, pouco numeroso, já que o sistema uninominal e maioritário francês, baseado em duas voltas (em que por vezes há três partidos na segunda), tem pouca correspondência com o número de votos. Com menos "barreiras sanitárias" poderá aproveitar em muitas segundas voltas os votos do movimento de Erich Zemmour, que não se revelou o concorrente perigoso que prometia ser e que até favoreceu Le Pen, com um efeito de contraste como candidato ainda mais radical. Para além da sua RN (ex-FN), contará com estes votos e de habituais aliados, como Dupont-Aignan. O surgimento meteórico de Macron, ao esvaziar os Republicains,  permitiu que alas mais direitistas e soberanistas deste partido se transferissem aos poucos para o de Le Pen, dando-lhe o suporte eleitoral de que goza hoje. A teoria das "três direitas francesas", de Réné Rémond, assinala existir uma direita legitimista (e mais tarde fascista), pré-revolucionária baseada em figuras como Charles Murras e Pétain, por exemplo; uma liberal e "orleanista", de que uma das figuras de proa mais recentes seria Giscard d´Estaing; e uma direita bonapartista/gaullista, mais centralizada e estatizante, centrada num líder carismático, como Napoleão e principalmente De Gaulle. É esta última a dominante em França, mas Le Pen, que partiu com o seu pai da corrente legitimista, de resto em declínio, acolhe muito do gaullismo mais à direita. E há ainda uma corrente sempre presente que parece ser uma inspiração directa: o poujadismo, em parte sinónimo de populismo, que nos anos cinquenta, sob a liderança de Pierre Poujade, reuniu um bloco de pequena classe média composto de comerciantes, agricultores, artesãos e pequenos industriais, sobretudo da "province", e alguns críticos da descolonização, que protestavam contra o poder de Paris. Não por acaso Jean Marie Le Pen começou a sua carreira como deputado por este movimento.

Mas o assunto que actualmente domina a política francesa é a união das esquerdas. Com o cúmulo de votos, que por pouco não o levou à segunda volta das presidenciais, Jean-Luc Mélenchon guindou-se como a mais proeminente e notória figura da esquerda em França. Não só levou a sua France Insoumisse a crescer, ombreando com a RN, como viu a concorrência a mingar: os ecologistas ficaram aquém do que se esperava, os comunistas há largos anos que foram suplantados, e sobretudo os socialistas, que estiveram na presidência até 2017, tiveram o pior resultado de que há memória, com os minúsculos 1,74 conseguidos por Anne Hidalgo, "maire" de Paris. Conseguiram até, suprema vergonha, ficar atrás dos comunistas, numa inversão pobrezinha do que aconteceu nos anos oitenta, quando o PSF de Mitterrand dominou e diminuiu o PCF de Georges Marchais depois de o levar para o governo. 

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A célebre sede do PCF, da autoria do "camarada" Óscar Niemeyer

Curiosamente, nas últimas eleições municipais, os socialistas e ecologistas tinham conseguido grandes triunfos, nalguns casos em conjunto, ao conquistar as principais cidades do país, assim como os Republicanos, deixando as formações de Macron e Le Pen com pífios ganhos, demonstrando uma relação local inversamente proporcional à nacional. 

Os planos de Mélenchon têm como objectivo uma força de esquerda constituída pelo seu movimento, pelos ecologistas, pelo PCF, pelos socialistas e até pelos trotsquistas do Nouveau Parti Anticapitaliste, que aqui correspondem à esquerda do Bloco, provavelmente o MAS. Estes últimos recusaram, por considerarem a frente "demasiado social-democrata", mas os socialistas acabaram por aderir oficialmente. Não sem grande contestação interna: face às tendências eurocépticas de Mélenchon, o partido que teve como figuras de proa François Mitterrand, Michel Rocard e Jacques Delors (e recorde-se, na mesma linha partidária, Guy Mollet, Christian Pineau e Maurice Faure, fundadores da CEE), além de outros mais recentes como Laurent Fabius, François Hollande ou Lionel Jospin, dividiu-se claramente, tendo estes dois últimos sido vozes audíveis contra esta verdadeira dissolução de um partido histórico e fulcral na política francesa numa coligação tão longe dos seus valores. É aliás tristemente irónico, uma vez que nos anos noventa Rocard, considerando o PSF já algo ultrapassado, lançara a ideia do "big-bang" político juntando sociais democratas, ecologistas, centristas e até comunistas renovadores. A ideia recebeu muitos aplausos mas nunca germinou, e agora o que se verifica é não um big-bang mas uma implosão para que dos destroços saia algo mais velho.

A imprensa portuguesa referiu-se a uma "geringonça" francesa. Na realidade, nem precisava de ir por aí, porque em França isso já teve um nome: Frente Popular. E para além da de 1936, numa época particularmente sombria, houve a já referida experiência de Mitterrand em 1981, que se revelaria uma armadilha para o PCF, que a partir daí declinou como nunca antes, sobretudo a partir do momento em que o governo socialista a que estava ligado virou o rumo das políticas. 

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Propaganda de esquerda, nas imediações do Tolbiac 

Tanto o governo da Frente Popular como o dos anos oitenta deixaram algumas medida que ficariam para a posteridade, como as férias pagas e a abolição da pena de morte. As ideias de Mélenchon, porém, parecem ser tributárias de um passado pouco atento à realidade: aumento pronunciado do salário mínimo, recuo da idade da reforma para os 60 anos (a França é dos países da UE com idade de reforma mais baixa, coisa que Macron pretende contrariar subindo-a) ou nacionalizações, principalmente na área dos transportes. E sobretudo, desobediência e incumprimento dos tratados europeus quando considerarem que tal se justifique. Se são bem vindas à democracia novas ideias e novas forças, o que apresenta Mélenchon não parece ser um caminho muito aconselhável num país com um estado social tão vasto e uma burocracia tão pronunciada, e que apesar de alguns problemas sociais que merecem atenção e têm levado a certa contestação, apresenta um crescimento económico e uma taxa de emprego invejáveis.

O novel movimento já tem sigla e nome: NUPES (Nouvelle Union Populaire Écologique et Sociale). Dificilmente constituirá governo, mas será uma pedra no sapato de Macron e um impulsionador de movimentos de rua, mais influente do que o de Le Pen, porque promete eleger muitos mais deputados. Se terá sucesso duradouro ou não, até porque Mélenchon já tem setenta anos, dependerá igualmente de como Macron conseguir governar a França. Se este não conseguir, adivinham-se retrocessos.

O Kosovo da Rússia

João Pedro Pimenta, 12.04.22

Notícias dos últimos dias dão-nos conta de que a Ossétia do Sul vai “iniciar o processo legal para se tornar parte da Rússia” através “de uma consulta popular”. Não é propriamente uma surpresa. Este é um procedimento que já vamos conhecendo: uma dada população está a ser atacada pelas forças governamentais, as tropas russas intervêm para a auxiliar, ocupam a região “em missão de paz”, organiza-se um “referendo” em poucos dias, e a população vota pela separação e, eventualmente, para se tornar parte da Rússia. Aconteceu antes e volta a acontecer.

Um dos argumentos utilizados é o precedente do Kosovo, saído da esfera da Sérvia, país próximo da Rússia. A região era habitada por uma maioria albanesa que sofreu uma tentativa de limpeza étnica por parte de Slobodan Milosevic e dos seus apaniguados, com currículo na matéria na Bósnia, como tristemente se sabe. A intervenção da NATO impediu-o, expulsando os sérvios e colocando o Kosovo sob protecção da ONU, até que em 2008 os kosovares proclamaram a independência, prontamente reconhecida pelos Estados Unidos e por mais uns quantos estados (Portugal incluído, meses depois, mas não Espanha, por razões óbvias). Criava-se assim, pelo menos de facto, um novo estado, como que uma segunda Albânia, de duvidosas capacidades para se manter e directamente arrancado à Sérvia, que nunca o aceitou (interpondo uma ação perante o Tribunal Internacional de Justiça, que não lhe deu razão). Nem a Rússia, que daí em diante aproveitaria o “precedente do Kosovo” nos casos da Crimeia, Donbass, e, logo em 2008, nos da dita Ossétia do Sul e da Abecásia. Mas estes últimos casos já vinham de longe.

No início dos anos noventa, o desmoronamento da URSS conduziu à independência das suas 15 repúblicas federativas. Algumas já se tinham entretanto separado, o que apressou o fim daquela federação. Era o caso da Geórgia, outrora um reino independente que vinha de tempos imemoriais, e que declarou independência em meados de 1991, depois de um referendo. Mas ao mesmo tempo, aproveitando o caos reinante e fazendo ressurgir velhas questões, outras subdivisões aproveitavam para reivindicar a sua autonomia. Aconteceu isso mesmo na Ossétia do Sul, um exíguo território a norte, separado do resto do resto do Cáucaso por enormes montanhas, e da Abecásia, uma faixa de território do noroeste da Geórgia, ao longo do Mar Negro, parte da “Riviera Soviética” e que se reclamava herdeira da mítica Cólquida, que se separou do território georgiano.

As duas aproveitaram para declarar a independência, o que originou uma reação dos georgianos. Estes, por sua vez, já andavam divididos numa guerra civil desde o derrube do presidente Zviad Gamsakhurdia, primeiro chefe de estado da Geórgia independente, e as suas forças não primavam pela capacidade bélica ou tecnológica. Para mais, as repúblicas rebeldes tiveram apoios externos. A Ossétia conseguiu a sua autonomia depois de meses de dura luta. Com a Abecásia seria mais demorado.

Aquela pequena república declarou a independência no verão de 1992, liderada por Vladislav Ardzinba, um académico especializado em civilizações da antiga Mesopotâmia, e que tentava o reconhecimento por todos os meios, tendo mesmo apoiado o golpe contra Gorbachov em Agosto de 1991. Os georgianos intervieram, sob pretexto de incidentes provocados por independentistas, e controlaram a maior parte do território, remetendo o governo da Abecásia para um pequeno espaço a Norte, perto o suficiente para conseguir receber reforços. Não o fizeram sem que as suas tropas, em parte eram regimentos semi-amadores, cometessem diversos crimes, entre os quais a destruição de preciosos arquivos, como aqui nos relata Thomas de Wall, então jovem jornalista lá estacionado para fazer uma reportagem sobre os gregos do Ponto (que foram  em boa parte resgatados por uma operação naval da Marinha Grega a que sintomaticamente chamaram Operação Velo de Ouro).

Os rebeldes abecásios receberam o apoio activo de uma miríade de guerrilheiros de várias partes do Cáucaso, chamada sintomaticamente Confederação dos Povos de Montanha do Cáucaso, que se deslocou para o território qual guerra santa. A maior parte eram islamitas, e entre os seus comandantes contava-se Shamir Basayev, que começaria aqui a sua carreira de atrocidades antes de se tornar mais conhecido pelos pelo seu papel nas guerras da Tchétchénia e pelos atentados contra a Rússia nos anos 2000, sendo o mais conhecido o massacre da escola de Beslan, vitimando inúmeras crianças, e o atentado ao teatro moscovita Dubrovka. A estes juntaram-se voluntários arménios locais, que se diziam descriminados pelos georgianos, ossetas, cossacos e militares voluntários russos. Entre combates, avanços e recuos e algumas atrocidades de parte a parte, obteve-se um frágil cessar-fogo, mediado pela Rússia, que tinha um papel dúbio desde o início. Os georgianos baixaram então a guarda, apenas para serem surpreendidos por uma investida dos abecásios e seus aliados, que em poucos dias tomaram a capital, Sukhumi, com apoio indirecto russo, que lhes forneceram boa parte do armamento. Shevardnaze, que tinha ido pessoalmente à capital da Abecásia para dar moral à população, teve de fugir apressadamente de avião, o último a sair em segurança, já que os voos que se lhe seguiram, transportando civis em fuga ou soldados, foram abatidos pelos rebeldes sobre o Mar Negro. Seguiu-se a mortandade da população georgiana, incluindo o assassínio todas as autoridades da cidade, e a fuga de dezenas de milhares de pessoas para a Geórgia (ocasionalmente foram navios russos que levaram alguns civis para Sochi). A limpeza étnica tirou metade da população à Abecásia e a maior parte da população a Sukhumi.  

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A guerra da Abecásia não teve grande repercussão no ocidente, já que na altura os acontecimentos eram dominados pela guerra na ex-Jugoslávia e a crise institucional na própria Rússia, que acabaria com o bombardeamento do parlamento, onde estavam barricados inúmeros opositores nacionalistas, estalinistas e o próprio vice-presidente rebelde Rutskoy, pelas forças de Yeltsin, a que se seguiriam eleições atribuladas que dariam a vitória ao ultra-radical Zhirinovsky, morto esta semana. Passou por isso relativamente despercebido o papel dos russos nesta guerra, já que embora só tivessem contribuído com soldados voluntários do lado dos abecásios, deram aos rebeldes não só armamento como todas as condições para progredirem, nunca tendo intervindo, antes pelo contrário, para fazer respeitar o cessar-fogo. Menos evidente são as razões porque o fizeram: se ainda por vingança pela separação da Geórgia, se porque a sua própria situação interna, minada por nostálgicos da URSS, não permitia grandes desvios. A verdade é que permitiu não só a secessão daquelas regiões e a limpeza étnica dos georgianos, de forma trágica, como deu força a que os rebeldes do Norte do Cáucaso iniciassem pouco depois uma guerra sangrenta pela independência da Tchétchénia e inúmeros grupos radicais islâmicos que deixariam um rasto de atentados violentos na Rússia.

Uma dos poucos chamadas de atenção para esta guerra é o filme Tangerinas, nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2013, passado com a guerra da Abecásia em fundo e a comunidade local de letões, e que esteve nos cinemas em Portugal e que já passou na RTP2.

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A Geórgia terminaria a sua própria guerra civil no fim de 1993, com a morte, oficialmente por suicídio, do sitiado Gamsakhurdia. Em Agosto de 2008, aproveitando a distração com os Jogos Olímpicos de Pequim, a Geórgia pós-Shevardnaze, liderada por Saakashvili, tentou reaver aqueles territórios, mas os planos foram gorados pelas forças armadas russas, que, agora directa e ostensivamente, rechaçaram os ataques e ainda entraram em território georgiano, num episódio relembrado actualmente com a invasão da Ucrânia. Logo a seguir, invocando o precedente do Kosovo desse mesmo ano, a Rússia agora de Putin reconheceu a independência da Abecásia e da Ossétia do Sul. Mais tarde, e para justificar a actual guerra movida contra a Ucrânia, reconheceu a independência das “repúblicas” de Donetsk e Luhansk, que previsivelmente copiarão a “vontade” da Ossétia em se juntar aos russos, tal como aconteceu em 2014 com a Crimeia. Não se sabe se o mesmo poderá acontecer à Transnístria, ocupada por uma guarnição russa, mas é possível. Não deixa de ser curioso como a Rússia se queixa constantemente do “cerco” da NATO ao mesmo tempo que durante anos cercou a Ucrânia na maior parte do seu território – a leste e a Norte, assim como a Bielorrússia, a sul, com a base de Sebastopol, cedida aos russos para sediar a base da frota do Mar Negro, a leste, com a dita Transnístria, e até a Noroeste, se considerarmos o enclave armado de Kaliningrado/Konigsberg.

Quanto à Abecásia, tem uma posição diferente: embora agradecida à Rússia, não se pretende juntar a ela. No entanto, está absolutamente dependente do gigantesco vizinho, que tem lá forças estacionadas. A economia depende da produção de tangerinas e do turismo balnear russo, sendo um destino mais barato que a vizinha Sochi. A população ficou reduzida a metade, após a limpeza étnica dos georgianos (e a fuga de outras etnias, como os gregos e os letões). A região está parada no tempo, quase sem infraestruturas, ao contrário do resto da Geórgia, que progrediu consideravelmente. O próprio parlamento permanece devoluto, mais de 25 anos depois de sofrer estragos de guerra, como uma ferida aberta no centro de Sukumi, uma ilustração do estado daquela terra. A secessão serviu para retalhar a Geórgia, sem dar um futuro melhor à Abecásia, e para que os radicais islâmicos se espalhassem com os resultados consequentes.

Sim, a Rússia teve os seus Kosovos e os seus Bin Ladens. A Rússia de Yeltsin permitiu-o. A de Putin, hostil com os vizinhos que querem sair da sua órbita, reafirmou-o, diminuindo a riqueza étnica e cultural da região e condenando os respectivos povos a uma inimizade permanente.

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O blogue da semana

João Pedro Pimenta, 10.04.22

Para quem não conhece Trás os Montes ou gostaria de saber mais sobre a região menos noticiada de Portugal encontra aqui uma boa oportunidade de o contrariar. Notícias da região, opiniões, imagens, números, artigos vários sobre a cultura transmontana (vejam-se os dedicados aos cristãos-novos e marranos do Nordeste transmontano), e, claro, memórias e histórias, suportadas há mais de uma década por Henrique Martins e um punhado de colaboradores.

O Memórias...e outras coisas... é o blogue da semana.

Odessa

João Pedro Pimenta, 11.03.22
Por que Odessa, na Ucrânia, tem valor especial para Putin? - BBC News Brasil
 
"A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel".
 
No mini-clássico A Ideia da Europa, de George Steiner, fica-nos desde logo este trecho. Odessa, a maior cidade e maior porto do Mar Negro ("a Paris do Mar Negro"), não só cenário dos contos de Babel mas também famosa por ser o cenário de O Couraçado Potemkin, esse clássico do cinema mudo de Einsenstein , está à espera da força bruta que se prepara a atacar do mar, sabe-se lá com que armas. Há umas décadas foram as SS alemãs, Agora são os russos.
 
Há uns anos, vislumbrando uma oportunidade de ir finalmente a Istambul, não me quis ficar pela metrópole do Bósforo e desenhei um percurso que me levaria de barco, ferry ou cargueiro, se fosse possível, até Odessa, através do oeste do Mar Negro, que em parte já conhecia. Iria à "Paris do Mar Negro", daria um pulo a Tiraspol, capital dessa estranha micro-URSS chamada Transnístria, agora mais conhecida pelo clube Sheriff que o Braga eliminou, e daí iria conhecer Kiev, antes de voltar para Portugal.
 
Hoje esse percurso tornou-se absolutamente inviável e só existe em sonhos, como outros em que aliás já tinha pensado. Traçar planos para viagens mais extensas é quase impossível nos dias que correm. Espero que Odessa e outras cidades da região permaneçam intactas, sobretudo as suas populações e o seu espírito.

Um traidor

João Pedro Pimenta, 10.03.22

Se alguma vez quiserem saber como é a cara de um traidor, recordem bem esta: Viktor Yanukovytch, ex-presidente da Ucrânia, o homem que depois de ser deposto (por votação no parlamento ucraniano, recorde-se, e de quem até o seu próprio partido se afastou) fugiu para a Rússia - e lá se tem conservado - que apoiou sempre, deixando um rasto de uma fortuna colossal ilegitimamente adquirida e que agora quer que a Ucrânia se renda.

 

A Ucrânia e as diferenças com o "whataboutismo"

João Pedro Pimenta, 02.03.22

Perguntava-me há dias se a situação na Ucrânia provocaria tanta comoção como quando houve a questão do Iraque. Nessa altura, houve uma jornada mundial de manifestações (talvez dos primeiros grandes efeitos da Internet), a 15 de Fevereiro de 2003, de protesto contra a iminente invasão do Iraque, com manifestações por toda a parte (se me perguntarem, sim, eu estive numa nessa data, no Porto, e no dia em que começou a guerra estive ao lado do iraquianos em Atenas).

Neste momento, felizmente, começa a haver um grande movimento contra esta invasão e a favor da Ucrânia. A diferença, pelo que me pareceu, é que é sobretudo no mundo ocidental, com o resto um pouco mais indiferente, mas espero estar enganado.

 

A propósito do Iraque, tenho visto as estafadas perguntas "então e o Afeganistão, o Iraque, a ex-Jugoslávia"...normalmente é um estratagema de whataboutismo para se poupar a Rússia por birra com o ocidente (a que pertencemos), porque uns não implicam outros. E quem as faz assobia para o ar perante a flagrante violação do direito internacional, que antes tanto dizia defender. Mas há apesar de tudo, diferenças, pelo menos nestes três.

 

O Afeganistão invadiu-se porque albergava uma colónia de terroristas que tinha provocado o 11 de Setembro. Os Estados Unidos sofreram um ataque armado e pelo Direito internacional tinham todo o direito de se defender, como a ONU concordou. Outra questão será saber se administraram bem a situação após a fase militar.

 

Na ex-Jugoslávia, ou antes no Kosovo, estava a haver uma limpeza étnica das populações albanesas locais, de tal forma que tanques sérvios chegaram a atravessar a fronteira com a Albânia atrás de kosovares. Deu-se então uma intervenção da NATO, bombardeando não só forças militares mas também pontos estratégicos em Belgrado, o que levou à morte de alguns civis (e até ao bombardeamento por engano da embaixada chinesa). Sendo certo que uma intervenção para evitar situações como a que tinham ocorrido na Bósnia anos antes era mais que aconselhável, a verdade é que a NATO não tinha mandato da ONU e levou a acção longe demais para além dos objectivos.

 

O Iraque é o que se sabe. Os EUA e alguns aliados, como a campanha contra o "Axis of Evil" dos neoconservadores, conseguiram implicar Saddam Hussein com a Al-Qaeda, com a qual não tinha rigorosamente nada a ver, e inventar umas fantasiosas armas de destruição maciça, que Colin Powell "revelou" numa sessão das Nações Unidas em que o seu prestígio de décadas se estampou. O resto é história.

 

Qual é então, a grande diferença para os casos do Kosovo e do Iraque? É que no primeiro, apesar de ser ilegal, a intervenção conseguiu parar uma limpeza étnica que estava a ser comandada por um tirano, Slobodan Milosevic, de tal forma que no ano seguinte os sérvios não hesitaram em derrubá-lo.

No segundo, apesar de ser um desastre baseado numa mentira, a verdade é que o regime de Saddam era um dos piores facínoras da época e crimes contra a humanidade não faltavam.

E similar ao caso da ex-Jugoslávia poderíamos ir ao caso da Líbia, regida por um assassino que ia desencadear uma repressão violenta contra o seu povo.

 

No caso da Ucrânia, não só se trata de uma violação flagrante do direito internacional com base em mentiras descaradas (a suposta adesão do país à NATO) como atenta contra um presidente livremente eleito (venceu até o seu antecessor, que estava no cargo), e não um "neonazi", ao contrário do que se passa na Rússia. Ou seja, pelos argumentos da Rússia, a Ucrânia tinha todas as razões para a invadir, já que o regime de Putin ameaça a sua soberania, comete crimes contra o seu povo e só se "elege" prendendo e abatendo adversários.

 

Em suma: se havia razões para contestar a guerra do Iraque, mais razões ainda há para protestar contra a agressão à Ucrânia.

 
 

Lições da História, verdadeiras ou enviesadas

João Pedro Pimenta, 24.02.22

Churchill é citado e invocado por tudo e por nada. No momento actual, tanto pode ser usado pelos que recordam que a humilhação da Alemanha levou mais tarde ao seu rearmamento como pelos que lembram que se opôs tenazmente ao apaziguamento a Hitler que originou o Anschluss, a entrada na Checoslováquia e por fim a invasão da Polónia.

A situação actual, infelizmente, presta-se a essas lições da História. Não é preciso aplaudir-se a grave crise por que os russos passaram nos anos noventa, após o fim da URSS, ou concordar com a secundarização do maior país do mundo para se aprovar as acções de Vladimir Putin. É verdade que a Rússia devia ter sido mais apoiada nos tempos da Ieltsin, que a tentativa de cercá-la de países da NATO se mostrou precipitada e que acossar um "urso" ferido revelou-se um grave erro. A isso também se podia acrescentar o reconhecimento do Kosovo como país independente, retirando-o à Sérvia na totalidade gerando uma "Grande Albânia" (até nos ministérios de Pristina se vêem bandeiras albanesas) e criando um estado falhado no coração dos Balcãs.

Nada disso impede que o que se está agora a assistir seja a recriação da teoria do Espaço Vital pela Rússia. Ficou claríssimo quando Putin negou o próprio direito à Ucrânia de ser independente, mas já vinha sendo demonstrado com as tomadas de território ucraniano de 2014 e da Geórgia de 2008 (e até antes, com as guerras no Cáucaso em meados dos anos noventa), além da vassalagem crescente de Lukashenko da Bielorrússia. Sim, talvez Putin não ameace o mundo todo, mas a comparação com a Alemanha de finais dos anos 30 é inevitável, e poderíamos acrescentar outros elementos, como a propaganda desenfreada, não já tanto pela rádio mas por inúmeros canais da net. Acresce que os ataques informáticos, em boa parte vindos da Rússia, estão a tornar-se crescentes em número e perigosidade.

E tal como então não faltam "quintas colunas" no Ocidente a favor de Putin. Em Portugal não serão assim tantas, mas temos à cabeça o inevitável PCP, sempre ao lado dos russos (ou melhor dizendo, contra o Ocidente), para quem a culpa é... da Ucrânia. Certamente pensaram o mesmo da Polónia na invasão alemã de 1939, de tal forma que a URSS entrou pelo outro lado. Mas mesmo fora do PCP encontramos outros idiotas úteis - não por acaso uma expressão atribuída a Lenine e usada para gente que passava a mão no pêlo a regimes destes - que desdenham das democracias liberais, preferindo a alternativa "iliberal", olham para Putin como exemplo de estadista e de "macheza" e não se coíbem de inventar razões para as atitudes do regime russo, mesmo que extremamente enviesadas e amputadas. São os que recordam que a NATO expandiu-se para leste mas esquecem a promessa russa de respeitar a integralidade das fronteiras ucranianas em troca do desarmamento nuclear. Ou que juram a pés juntos que houve um referendo na Crimeia, omitindo que tal "consulta" não obedeceu às regras mínimas (nem observadores teve) ou nem sequer recordando que os chechenos não tiveram essa oportunidade. Ou que a Ucrânia é regida por uma "junta fascista", quando depois da dita junta já houve dois presidentes eleitos. Em Portugal esta gente andará mais dissimulada, mas noutros países da Europa são mais detectáveis, como a srª LePen, que recebeu um generoso empréstimo a fundo perdido de Putin, e outros comparsas. 

 

Le Pen e Putin em Moscovo: "Não queremos de forma alguma influenciar os  acontecimentos" | Euronews

 

É esse o desafio que o ocidente tem pela frente: como travar o passo às ambições expansionistas de Putin, agora totalmente escancaradas, num tempo em que há ONU mas há também armas nucleares? Como obrigá-lo a cumprir a legalidade e a não ameaçar vizinhos? Como demonstrar que a Rússia não pode fazer o que quiser sem consequências e sem que isso leve a uma escalada imprevisível, num Mundo que se habituou a guerras por procuração e por interpostos aliados? Não tenhamos dúvida: é um desafio mais perigoso e exigente do que o dos mísseis de Cuba e dos instalados na RDA nos anos oitenta. E mais uma prova de que este século XXI, depois do optimismo que se viveu nos finais do anterior, está a ser uma desgraça. Começou com um atentado apocalíptico, prosseguiu com a maior crise financeira das últimas décadas, tivemos uma pandemia há dois anos que ainda não acabou e agora esta séria ameaça de guerra. Um primor de século.

 

PS: já viram a coincidência? Da anterior ocasião em que a China tinha celebrado uns Jogos Olímpicos, a Rússia invadiu a Geórgia. Agora os chineses voltaram a organizar umas olimpíadas, mas de Inverno, e estamos nisto.

PS: enquanto escrevia isto a Rússia invadiu a Ucrânia. Ainda assim, o texto não perde a sua actualidade, antes fica confirmado.

Santos do dia

João Pedro Pimenta, 15.02.22

Ó vós que celebrasteis o dia de S. Valentim com florzinhas, versos lamechas e "escapadelas românticas", lembrai-vos que ontem, 14, era igualmente dia de S. Cirilo e S. Metódio, que sendo ortodoxos e tendo criado o alfabeto cirílico, são também santos para a Igreja Católica e co-padroeiros da Europa. E em dias como estes, em que há sérias tensões, fendas e tambores de guerra na Europa, particularmente na ortodoxa, mais necessário se torna invocá-los.

 

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Duas conclusões (e uma sub-conclusão) pós eleitorais

João Pedro Pimenta, 02.02.22

Não vale a pena vir para aqui fazer as análises das eleições porque podem encontrá-las para todos os gostos nos jornais, na TV, no Facebook, nas rádios e podcasts, nos twitters desta vida, etc. Seria uma perda de tempo. Mas deixo aqui duas conclusões que me ficaram destas eleições, e às quais cheguei  enquanto vagueava pela zona onde mora uma das grandes figuras da campanha, Zé Albino de seu nome.

Entre os que não tinham representação parlamentar, todos tiveram resultados paupérrimos. Como curiosidade, lembram-se do Aliança? Aquele partido que há pouco mais de dois anos seria o futuro do centro direita e até tinha um senado? Pois ficou em último (o PPM só concorreu nas regiões autónomas) com menos de dois mil votos - conferir aqui. Não admira: o seu mentor, Santana Lopes, única razão para a sua existência, veio declarar apoio a Rio e parte dos candidatos das suas listas apelaram afincadamente ao voto no CDS. Que há três anos, com Cristas, iria crescer como nunca e ultrapassar o PSD, segundo juravam alguns militantes. E o PAN era o futuro.

O cenário político está cada vez mais curto e imprevisível, pelo que mais vale não tentar adivinhar o futuro e quais serão as next big things partidárias. Essa é uma das conclusões que tiro, embora isso já me ocorresse há uns tempos.

A outra é que mesmo uma boa campanha eleitoral pode não decidir nada. O PSD mostrou uma capacidade de mobilização e um entusiasmo que há muito não se viam, ao passo que o PS, tirando umas arruadas no fim, parecia titubeante, com Costa a usar uma táctica numa semana e outra completamente diferente na seguinte.
 
E dentro desta, uma sub-conclusão: pelo menos nesta eleição, os grandes generais, os ex-líderes partidários, não serviram de muito. Rio teve a seu lado Manuela Ferreira Leite, Menezes e um inesperado Santana, como vimos, desprovido de qualquer pudor. Louçã apareceu a discursar num comício do Bloco. Ribeiro e Castro e Manuel Monteiro apareceram em acções de campanha, principalmente na arruada final, ao lado de Chicão. No PS, que me lembre, só episodicamente Ferro Rodrigues e umas bocas de Sócrates que apenas repele votos. Nenhum dele acrescentou grande coisa, a avaliar pelos resultados finais.

 

Pensamento da semana

João Pedro Pimenta, 30.01.22

O tribunal absolveu Rui Moreira de todas acusações no caso Selminho, depois de o Ministério Público ter pedido pena de prisão suspensa e a perda do mandato. É um peso que sai de cima do Presidente da câmara municipal do Porto, mas que não deixa de recordar (como Moreira evidenciou) o claro aproveitamento político que houve da situação, nomeadamente do PSD, na figura do próprio líder, do PCP e em parte do BE. Também houve pressões, nomeadamente na imprensa, para que não se candidatasse.

 

Fica-se a pensar o que teria sucedido se Moreira tivesse desistido da sua candidatura. Provavelmente a sua lista independente, fortemente ancorada na figura do seu mentor, não teria aguentado a maioria, mesmo relativa, e outra formação, ou melhor dizendo, um partido, estaria agora à frente da edilidade. Moreira teria sempre recuperado a sua credibilidade, mas o mal estaria feito e este processo teria beneficiado outros. E em climas de suspeição e de revolta, muitas vezes genuína, que o cidadão comum nutre por todos os que quebram as regras sem pagar por isso, dá para reflectir como é que certos casos, por vezes no afã que alguns órgãos da justiça têm em mostrar trabalho, podem influenciar a política e sobretudo como é que alguns políticos podem beneficiar de alguma precipitação para colher frutos indevidos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

António Costa não é nenhum indiano

João Pedro Pimenta, 28.01.22

Para além de todas as críticas a António Costa (merecidas, em grande parte), há uma coisa que francamente não suporto: é quando lhe chamam "monhé", "chamuças", "indiano" ou até "preto". Além de serem "argumentos" de tasco e declaradamente racistas - aqui não há qualquer dúvida - são próprios de gente que ou nunca saiu da terrinha ou não conhece o seu país e a cultura que deu ao Mundo.

António Costa não é indiano. É português, filho de um goês, tal como outros membros do seu governo, de governos anteriores, de outros partidos, como o Prof. Narana Coissoró, e de tantas outras áreas da sociedade. Só por aí se pode ver a importância de Goa e dos goeses nas elites portuguesas. Não é à toa que se fica mais de quatrocentos anos num território. Goa representa o que de melhor a presença portuguesa deixou no mundo: uma mistura de cultura lusa e indiana, traços sólidos de civilização e uma população preparada, instruída e trabalhadora. É o melhor exemplo do que a lusofilia e a portugalidade podem apresentar. E se poucos que lá moram falam a língua portuguesa, os nomes de família conservaram-se orgulhosamente.

Não tenho propriamente um grande fascínio pela Índia, mas gostava de conhecer Goa. Lá não existe a pobreza confrangedora que se avista noutras partes do subcontinente. Um dia perguntei a uma rapariga indiana, que me disse ser da costa oeste do país, se era goesa. Ela respondeu, com ar resignado, que não, mas que viver em Goa seria um sonho, tanto para ela como para qualquer indiano.

Os limites da graxa

João Pedro Pimenta, 28.01.22

Muitos ficaram eriçados com a expressão que Rosa Mota usou em relação a Rui Rio, chamando-lhe "nazizinho (e isto para não usar uma "palavra feia", que nem quero imaginar qual seria), num encontro de António Costa com "figuras da cultura e do desporto". Não é para menos, porque é um exemplo  cabal do reductio ad hitlerum que coloca sempre a discussão no fundo do poço. Mas o que me chamou a atenção, entre outros elogios e genuflexões a Costa, foram as palavras de Válter Hugo Mãe. Repare-se no tom entre o delicodoce e o piroso: Rui Rio representa o "inverno cultural" e o "sorriso sereno mas seguro" de António Costa "mudou radicalmente o clima em Portugal", trazendo "a Primavera".

Imensas críticas justas poderão ser feitas a Rio pela presidência no Porto, principalmente na política cultural ou na sua ausência. Já se sabe que em campanha eleitoral os "agentes culturais" adoram fazer-se notar junto dos candidatos, quase sempre à esquerda e particularmente com o PS. Influências que vêm de França desde os tempos de Mitterrand e de Lang, e mínguas da cultura, efectivamente. E também é consabido que Válter Hugo (não era com minúsculas que ele assinava?) gosta imenso de se promover e é o autor mais auto-comercial do meio, sem prejuízo do seu talento e da sua escrita. Mas a manteiguice e o graxismo da cultura à política têm limites. Frases como aquela são dignas dos noticiários norte coreanos dedicados ao Supremo Líder, ou lá como lhe chamam. Não sei se Hugo Mãe está assim com tanta dificuldade em vender os seus livros, mas escusava de se rebaixar a este ponto de submissão. É patético, penoso e provoca vergonha alheia, até porque a cultura, com a actual incumbente do ministério, nem se tem portado muito bem e a migalha do orçamento que lhe é dedicada está muitíssimo longe da quimera dos 1%. Mais uma razão para se manter alguma noção do ridículo. Com a agravante de que para um escritor, o estilo não é digno nem para contos de revistas do coração.

Os psicopatas americanos no Congresso

João Pedro Pimenta, 09.01.22

American Psycho, ou Psicopata Americano, é um romance, chamemos-lhe assim, escrito no início dos anos noventa por Bret Easton Ellis que retrata de forma crua, amoralmente ostensiva e exaustivamente descritiva a idade de ouro dos yuppies na segunda metade dos anos oitenta, no pré-crash de 1987. A narrativa centra-se no modo de vida de Patrick Bateman, um financeiro de Wall Street com menos de trinta anos, de início mais nas suas obsessões materiais - a casa, a decoração, os aparelhos de alta fidelidade, os produtos de beleza e de higiene, o culto do corpo, os fatos, as gravatas, os restaurantes de luxo, as drogas, as amantes e as prostitutas - e mais à frente na sua faceta (ainda) mais negra que justifica o título da obra, tudo entrecortado pelas detalhadas críticas musicais dos músicos favoritos da personagem, que surgem como curiosa Hybris normalmente em situações inesperadas.  

O livro, já de si um sucesso comercial e de crítica, foi adaptado ao grande ecrã em 2000, com Christian Bale a compor um impressivo Bateman num desempenho que projectou a sua carreira. Como já se percebeu, o protagonista espelha uma ganância e uma obsessão materialista tais (de que é exemplo o seu acesso de fúria só porque os correligionários têm cartões de apresentação mais caros e polidos que os dele, o que terá consequências funestas) que é capaz de transformar Gordon Gekko, outra personagem fictícia deste peculiar mundo dos yuppies, num voluntário caridoso. É claro que nem todas as partes das descrições torrenciais de Ellis puderam ser transpostas para o filme, mas o essencial manteve-se.

Uma das alusões na obra a figuras reais, mais presente no livro que na película, é o culto do peculiar universo que rodeia Bateman pelos bilionários ostensivos, em geral, mas com uma especial admiração: Donald Trump. Sim, Trump e as festas que ele dá, os locais que frequenta e os seus carros. Trump é o modelo, a bússola e farol, aquilo que esta mole de gente endinheirada, entediada e amoral pretende ser.

Recordei-me de novo do livro/filme e das suas alusões a propósito do primeiro aniversário da invasão do Capitólio por aquela horda estranhíssima e alucinada, que deixou como resultado cinco mortos e uma imagem de ultraje e vergonha à democracia americana, mais própria de um país do interior de África. Tinham vindo de vários pontos dos Estados Unidos, numa das alturas mais gélidas do ano, para ouvir o discurso de Trump em frente ao congresso. Um discurso aliás de acusação e de incitamento directo contra a câmara legislativa, na senda da não aceitação do resultado das eleições de dois meses antes e das alusões a supostas fraudes. As palavras eram demasiado explícitas para que não se possa ligá-las ao que sucedeu a seguir. Aliás, até parecia que alguns adoradores trumpistas, mesmo deste lado do Atlântico, já o estavam a pressentir, referindo-se a "demonstrações do triunfo do "America First" que iriam surgir em Washington. Até tinham razão, como se viu.

Trump flutua entre um instinto político eficaz e uma mitomania que se torna pública muitas vezes. Era sem dúvida este último sentimento que o dominava naquele dia. Provavelmente, no embalo daquele discurso a meio caminho entre um ditador sul-americano e o general Custer lançando ordens contra os índios, não previu que as consequências pudessem ser tão funestas. Mas foram (por pouco não o foram para o próprio Mike Pence) e são indissociáveis do seu discurso de raiva que levou aquela mole desvairada habituada a "informar-se" no Qanon a cometer um acto tão grotesco.


O contraste entre esta gente e a retratada em American Psycho é gritante, a começar pela forma de trajar e a acabar na capacidade económica. As respectivas mundividências também são abissalmente diferentes. O que as une é a admiração e a confiança quase ilimitada em Trump, embora por razões diversas. Mas é bem mais compreensível vinda dos segundos, já que Trump é ele próprio um símbolo do materialismo (e de muito exibicionismo, como se observa na sua Trump Tower e no seu avião, por exemplo) e da ganância de um lado mais perverso do "sonho americano", além de ser nova-iorquino e de ter vivido quase sempre na Big Apple. Já da parte dos invasores do Capitólio é bem menos lógico, pois falamos de gente mais proveniente do Midwest e do Deep South, menos cosmopolita e mais susceptível a propaganda e com muito menos poder económico. Trump e a fauna de Wall Street estão a anos-luz desta massa de proletários sem rumo, em muitos casos desprezando-os até, e são o oposto aos princípio cristãos (com uma interpretação muito própria do cristianismo, é certo, muito WASP) e aos modelos de família por eles defendidos.

Em suma, Patrick Bateman admira Trump não só pelas suas posses mas sobretudo por não olhar a meios para atingir os seus fins e por possuir um ego do tamanho do mundo - pela fortuna, antes de mais, e depois pelo poder político - o que o faz sentir-se quase uma divindade omnipotente perante os outros seres que o rodeiam. Combina o dinheiro, o poder e o sexo, a avaliar pelas suas bravatas. Aquela frase de que "podia dar um tiro a alguém na Quinta Avenida que não perdia um voto" seria certamente do agrado de Bateman e poderia perfeitamente ser dita por ele. Ao criar a personagem, Ellis pôs muito de Trump nela, embora não pudesse prever que uma tal levaria à invasão do Capitólio. Com a diferença de que Patrick sabe certamente muito mais de música popular contemporânea do que Donald.

O resumo da blogosfera lusa

João Pedro Pimenta, 31.12.21

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Nos últimos dias do ano entretive-me com este pequeno livro, da colecção Francisco Manuel dos Santos, que resume a história da blogosfera portuguesa. Trouxe-me à memória anos (sobretudo entre 2003 e 2011) de posts, leituras, discussões e personagens até então desconhecidas, muitas das quais chegaram a postos de grande visibilidade, seja nos jornais, na TV ou até no governo, como Ricardo Araújo Pereira, Pedro Mexia, Rui Tavares, João Galamba, Daniel Oliveira, Luís Aguiar Conraria, além dos já consagrados Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente, entre outros que se dignaram a blogar. Os blogues serviram para que quem tivesse alguém coisa a dizer, nem que fosse pela arte de bem escrever e não tinha acesso aos meios tradicionais, o pudesse fazer, com grande ganho de causa. Não vou agora enumerar nem "linkar" exemplos da blogosfera, que de resto o livro cumpre, mas para quem está dentro do meio é uma visita gratificante e um pouco nostálgica, além da escrita bem humorada do autor nos permitir alguns sorrisos e mesmo algumas gargalhadas.

Infelizmente as redes sociais tiraram muita da riqueza discursiva e um certo jargãoque existia na "comunidade blogosférica".Em todo o caso, recordei pessoas e discussões que há muito não me vinha à memória. O livro não é exaustivo mas é completo. O meu nome não consta da extensa lista de bloguistas enumerados, nem a minha vetusta A Ágora, quase a chegar à maioridade, mas o Delito de Opinião sim, na pág. 85, sendo classificado como "um excelente blogue colectivo (ou hipercolectivo)", com referência à "dedicação" do Pedro Correia e ao "sentido de humor" de Rui Rocha (que anda algo desaparecido, infelizmente para o Delito). Posso dizer que é um livro que gostaria de ter escrito, mas que o autor, Sérgio Barreto Costa, cumpre muito bem.

Posto etas memórias blogosféricas, um 2022 melhor que 2021 (e 2020) e que os blogues, mesmo que com menor importância que outrora, continuem a dar-nos textos de interesse.

 

PS: só depois é que vi esta recensão do JPT sobre o dito livro, logo que ele saiu, que vos aconselho até por ser bem mais completa do que este post.

Colectividades de bairro numa cidade transmontana

João Pedro Pimenta, 29.12.21

As pequenas colectividades contam muitas vezes a história dos locais que representam. Como a do Bairro Latino, clube desportivo do bairro dos Ferreiros, que desce abruptamente desde a imponente ponte metálica até à velha ponte de Santa Margarida, de pedra, ambas sobre o Corgo. Diz-se que um conjunto de estudantes de liceu locais encontrou algumas semelhanças entre o Quartier Latin de Paris e o seu bairro dos Ferreiros, zona de artesãos e, dizia-se, de casas de má fama, e impulsionados pelo Dr. Otílio de Figueiredo, Pai do Professor Eurico de Figueiredo (sim, o líder mais radical da greve estudantil de 1962 e mais tarde deputado do PS antes de passar a outros partidos, como o PDR e o MPT), resolveu criar um clube com o nome de Bairro Latino, dando conta que a rua principal e as ruelas que a ladeavam eram tantas como as línguas latinas. Apesar de muito eclético e de ter várias modalidades de salão e exteriores nunca teve um campo de jogos próprio nem nunca conseguiu ombrear com o vizinho maior, o SC Vila Real, que não lhe permitia jogar no mítico campo do Calvário. O Bairro Latino quase desapareceu, mas voltou a conseguir sede própria, próxima da antiga (onde ao que parece as francesinhas estavam ao nível das do Cardoso, lá em cima na "bila"), onde hoje funciona a Agência de Ecologia Urbana, mesmo à entrada da velha ponte sobre o Corgo (e por baixo da metálica), símbolo maior do velho bairro que representa.

O SC Vila Real, pelo contrário, além de campo próprio (agora até tem dois, ambos com nomes curiosos, Calvário e Monte da Forca), possui o seu próprio bar/loja no espaço nobre do centro da cidade (última foto) e continua a ser a principal agremiação desportiva da cidade.

Seja em aldeias, lugares, vilas ou bairros de cidades, as pequenas colectividades, constituídas em associações, grupos, agremiações e uniões acrescentados dos inevitáveis "desportiva", "recreativo", cultural", etc, constituem um elo de ligação das comunidades, uma oportunidade para a prática desportiva, para difusão cultural ou de informação ou o simples convívio, que no fundo é o que mais importa. São absolutamente essenciais em qualquer sociedade e para todas as idades. Quando desaparecem, extinguem-se também com elas ligações, amizades, práticas rotineiras, exemplos de vida e sobretudo muitas histórias. Quando isso acontece, é a antevisão do declínio das sociedades locais que representam, a não ser quando outras as substituam com sucesso.

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 As duas pontes: a de Santa Margarida e, lá em cima, a ponte metálica

 
A sede do Bairro Latino, entre duas pontes

Vista do bairro, do rio  e da velha ponte desde a ponte metálica

O bar/loja do SC Vila Real
 
O mítico campo do Calvário, há meia dúzia de anos, depois de ser relvado

Frederico e o legado que Hitler destruiu

João Pedro Pimenta, 14.12.21

Bem sei que neste blogue os posts sobre a Alemanha são mais credíveis e competentes se feitos pela Cristina Torrão, mais habilitada ara o efeito, mas não resisto à ocasião. Agora que há um novo chanceler na Alemanha e que Angela Merkel deixa o cargo que tanto tempo ocupou, é uma boa ocasião para falar de leituras recentes. Li há pouco tempo a biografia de Frederico II, o Grande, por Nancy Mitford. Aconselho vivamente, embora seja uma edição complicada de encontrar em português, dado que era dos Livros Cotovia, editora desaparecida há pouco tempo. A autora, ela própria proveniente de um conjunto muito biografável de irmãs, acedeu aos então pouco acessíveis arquivos das antigas RDA e Checoslováquia, obtendo um conjunto de documentos notável para a construção da vida do homem que reinou sobre o Brandeburgo-Prússia durante quase meio século.

 


Sempre achei que Frederico fosse a personalidade mais interessante do século XVIII. Conhecia, entre outras coisas, a sua enorme capacidade na guerra, a sua habilidade política, os seus interesses e contribuições para a filosofia e para a música, os anos que Voltaire passou na corte prussiana, a terrível relação com o seu pai, a sua sexualidade ambígua e o seu tão personalizado lar de Sans-Souci, que visitei há já muitos anos. Mas desconhecia outros elementos do seu pensamento e da sua política que não são aqueles que normalmente se atribuem à Prússia.

 

Era o modelo de Déspota Iluminado, é certo. Ainda assim, poucos estadistas da sua época se atreveriam a dizer que "sendo o soberano faço o que me apetece, e o povo diz e reza a quem lhe apetece". Assim, todos os livros eram livremente vendidos na Prússia, quaisquer que fossem as suas ideias. As discussões eram livres e a liberdade de culto também. Sendo um dos líderes mais importantes do protestantismo, embora pouco religioso - na realidade, mais deísta que religioso - Frederico não via com bons olhos o catolicismo, mas para mostrar a sua tolerância e acolher migrantes católicos, mandou construir uma enorme igreja católica no centro de Berlim, que ainda hoje lá está. Uma das políticas era precisamente a de acolher gente de fora para povoar os territórios pouco povoados da Prússia Oriental, ou de novos territórios adquiridos. Desta forma, e seguindo uma política iniciada pelo seu pai, Frederico Guilherme I, acolheu protestantes fugidos do Sacro Império, sobretudo de Salzburgo, mas também católicos, judeus, diversas seitas cristãs, e a todos deixou construir os seus templos. Chegou a afirmar que se fosse preciso, permitiria migrantes muçulmanos vindos da Turquia e construir-lhes-ia uma mesquita (uma ideia que antecedeu em duzentos anos a imigração turca para a Alemanha).

Frederico defendia também a mistura de raças. Achava que era fundamento de civilização e que produzia pessoas inteligentes. É certo que a necessidade é que originou tanta imigração, já que perto de um décimo da população do reino tinha perecido com a terrível guerra dos Sete Anos. No fim do seu reinado, um sexto dos súbditos nascera no estrangeiro.

Também promoveu sérias reformas em termos de direitos e de sanções penais. Era ele que ratificava as penas de morte, que nunca eram numerosas, e nunca condenou mulheres. Aliás perdoou a um criado que tentou envenenar a sua bebida, e castigou-o enviando para o exército. Numa ocasião, passando nas ruas de Berlim, reparou numa caricatura sua no alto de m poste. À sua chegada, os transeuntes pararam logo de rir, atemorizados, ao que frederico disse para colocarem o boneco mais abaixo pois assim poderiam vê-lo melhor. Logo no início do reinado aboliu as torturas civis, que considerava cruéis e inúteis. A excepção era o exército, onde havia castigos severos, como chicotadas.

O mais espantoso disto é que tendo sido Frederico a tornar a Prússia numa potência europeia e a lançar as sementes do nacionalismo alemão, que fariam cem anos mais tarde os estados alemães juntar-se ao reino dos Hohenzollern, formando o Reich, aquela tenha ficado com uma tal fama militarista e bárbara que tenha mesmo acabado por ser extinta após a II Guerra. Para mais, é frequentemente ligada a Hitler, tal como o espírito alemão. O mentor do nazismo comparou-se nas campanhas que o levaram a chanceler, a Bismarck e a Frederico II. 

 


E no entanto, como se verificou, era precisamente o oposto do monarca prussiano. Frederico recebia gente de toda a Europa e defendia a mistura de raças. Hitler defendia a superioridade racial alemã e usou a solução final contra judeus e outros povos (o prussiano não morria de amores pelos judeus, mas nunca os perseguiu). Frederico autorizava todos os livros e toda a circulação de ideias, recebia os maiores pensadores da época e a sua corte de Potsdam era famosa como centro de discussão filosófica e de apoio às artes e letras, em especial a música (o próprio Frederico era exímio como flautista e escreveu obras valiosas, como O Anti-Maquiavel e a Histoire de la Guerre des Sept Ans, nunca editada mas considerada um dos melhores testemunhos narrativos daquela guerra). Hitler afastou ou obrigou à fuga de milhares de artistas, pensadores e intelectuais, organizou sessões de autos-de-fé de livros e reprimiu a chamada "arte degenerada" (e a liberdade de expressão nem se fala). Por fim, quando Frederico morreu, depois de 46 anos de reinado, a Prússia passara de uma reino bem administrado mas vassalo e subserviente a uma potência militar continental temida e duplicara território e população. Quando Hitler desapareceu ao fim de 12 anos, a Alemanha estava em ruínas, perdera milhões de habitantes, entre mortos, exilados e prisioneiros, tornara-se pasto dos seus inimigos, o seu nome estava manchado pela infâmia e ficara sem os seus territórios mais a leste (incluindo a Prússia originária e a capital, Konigsberg), territórios esses que, curiosamente e na sua maioria, fora Frederico a adquirir.

As únicas semelhanças serão talvez algum ímpeto guerreiro e de conquista, que levaram o rei da Prússia a vitórias brilhantes mas a algumas duras derrotas, como quando russos e austríacos ocuparam Berlim, duzentos anos anos anos de os primeiros o voltarem a fazer, com mais êxito. Também Dresden sofreu um primeiro bombardeamento arrasador, mas aí efectuado pelos próprios prussianos. De resto, Frederico contou muitas mais vitórias que derrotas e revelou-se um hábil diplomata quando teve de o demonstrar, reconciliando-se com os seus inimigos nos últimos anos, em especial a sua grande adversária Maria Teresa de Áustria.

É incrível como é que a Alemanha se viu enredada naquele pesadelo totalitário e apocalíptico quando um dos seus grandes obreiros tinha ideias absolutamente opostas. Como se o século XX tivesse regredido para níveis que no século XVIII achariam intoleráveis. O que mostra que o carácter e a cultura dos povos não é sempre igual nem se pauta sempre na mesma direcção. Há heranças que se quebram e que se esquecem. Há rumos que degeneram povos. Que o povo alemão tenha tido um Frederico e mais tarde um Hitler, que destruiu o legado do primeiro e que era em tudo o contrário (embora felizmente os chanceleres do pós-guerra também fossem completamente diferentes), aí está para o provar e para afirmar que certos ferretes que se colam estão longe de ser justos.

O blogue da semana

João Pedro Pimenta, 12.12.21

Para lá dos noventa anos e com numerosa obra publicada em Portugal, a maior parte na última década, José Rentes de Carvalho continua a ser o "patrão da barca" que entre Amsterdão e Mogadouro lá vai deixando os seus desabafos, opiniões e pequenos contos, fruto da sua imaginação, ou em boa parte, o próprio lá saberá, retirados de situações reais. Há mais de dez anos, encerrando-o a certa altura e fazendo-o reviver quando lhe deu para isso.

Tempo Contado é o blogue da semana.

Florença e Gondomar

João Pedro Pimenta, 03.12.21

"Florença ao domingo é como Gondomar sem estátuas."

Ouvido hoje, por ocasião de uma proveitosa conferência no Museu Nacional Soares dos Reis para recordar os 120 (e um) anos do nascimento de Ruben A., que escreveu tal coisa num dia em que estava aborrecido com o período do Renascimento e com a confusão na Piazza della Signoria.Pouquíssimos, se é que algum, se atreveriam a escrever tais coisas naqueles inícios dos anos 50.
 
Tanto pode servir de dissuasor para ir a Florença como de cartaz turístico para Gondomar. Se construirem mais umas estátuas ainda melhor. Comecem já a pensar nos moldes de Valentim Loureiro, Júlio Resende (o pintor, não o músico), Pedro Barbosa e Fernando Rocha.
 
(Já agora, se quiserem conhecer o opus magnun de Ruben A., pseudónimo literário de Rúben Andresen Leitão, têm aqui esta recensão escrita há tempos pelo Pedro Correia).

Notas antigas reactualizadas à situação vigente

João Pedro Pimenta, 03.11.21

Há uma série de anos, no saudoso ano de 2007, teci em sede própria umas breves considerações sobre a natureza do PSD e a confusão ideológica que sempre demonstrou, dando a ideia de que o melhor seria dividir-se, indo a parte (mesmo) social-democrata para o PS, a liberal formaria um novo partido e a mais conservadora ou democrata-cristã fundir-se-ia com o CDS, criando um partido de direita mais sólido semelhante ao PP espanhol, com as devidas adaptações.

Passados estes anos, não vejo grandes saídas para o PS, tirando talvez alguns autarcas, mas mudanças destas há sempre. A constituição de um partido liberal verificou-se, mesmo sem grandes nomes do PSD, ao contrário do que aconteceu com uma nova formação da direita radical, liderado por um ex-militante laranja. Já quanto à parte da fusão com o CDS, inverto o conselho, ou antes, dirijo-o agora ao CDS: se é para a minimização e a depuração das facções que não interessam à liderança de ocasião, mais vale que se separem e que se juntem a outras formações. Sempre ajudaria a clarificar o panorama partidário português, mesmo que à custa de um histórico da democracia portuguesa. Que pode sempre continuar a existir com a dimensão de outro histórico, o MRPP. Quem sabe se um dia não viria a reganhar a relevância que já teve.