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Delito de Opinião

Notas antigas reactualizadas à situação vigente

João Pedro Pimenta, 03.11.21

Há uma série de anos, no saudoso ano de 2007, teci em sede própria umas breves considerações sobre a natureza do PSD e a confusão ideológica que sempre demonstrou, dando a ideia de que o melhor seria dividir-se, indo a parte (mesmo) social-democrata para o PS, a liberal formaria um novo partido e a mais conservadora ou democrata-cristã fundir-se-ia com o CDS, criando um partido de direita mais sólido semelhante ao PP espanhol, com as devidas adaptações.

Passados estes anos, não vejo grandes saídas para o PS, tirando talvez alguns autarcas, mas mudanças destas há sempre. A constituição de um partido liberal verificou-se, mesmo sem grandes nomes do PSD, ao contrário do que aconteceu com uma nova formação da direita radical, liderado por um ex-militante laranja. Já quanto à parte da fusão com o CDS, inverto o conselho, ou antes, dirijo-o agora ao CDS: se é para a minimização e a depuração das facções que não interessam à liderança de ocasião, mais vale que se separem e que se juntem a outras formações. Sempre ajudaria a clarificar o panorama partidário português, mesmo que à custa de um histórico da democracia portuguesa. Que pode sempre continuar a existir com a dimensão de outro histórico, o MRPP. Quem sabe se um dia não viria a reganhar a relevância que já teve.

Os painéis entre os seus

João Pedro Pimenta, 22.10.21

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A obsessão da vida de Almada Negreiros realizada: a obra maior da pintura portuguesa na  obra maior da arquitectura nacional, no seu espaço mais nobre.

 
Em 1918, de visita ao Museu de Arte Antiga, Almada, Santa Rita-Pintor e Amadeo Souza Cardoso fizeram um pacto (que implicou rapar o cabelo e as sobrancelhas, como disciplina e provocação digna do Orpheu) de que estudariam os painéis conhecidos como de S. Vicente até descobrirem todos os seus segredos. Santa-Rita e Amadeo morreriam no espaço de um ano e Almada ficou sozinho com uma missão perpétua. Tinha ficado fascinado pelos painéis e por um Ecce Homo exposto ao seu lado. Sendo um artista de vanguarda, afirmava que "a arte moderna sabe que o novo está perpetuamente no antigo".
 
Os painéis, atribuidos a Nuno Gonçalves (tal como o Ecce Homo, erradamente, como se comprovou mais tarde) como representando S. Vicente, padroeiro de Lisboa, já tinham dado origem a discussões e teses várias, que duram até hoje, e a dada altura tornaram-se motivo de discussão artística, histórica e até política e ideológica. Havia quem defendesse que quem estava representado era o Infante Santo, D. Fernando, levando a polémica tão ao extremo que provocou o suicídio a um investigador que tinha sido enganado, Henrique Loureiro, e a uma cena de pancadaria no Chiado entre Almada e José de Bragança pela autoria da descoberta do "mistério", e que era do próprio Almada. Tempos em que polémicas estéticas levavam a vias de facto.
 
Descobrindo um pormenor nos ladrilhos do quadro e partindo de raciocínios puramente geométricos, Almada considerou que os painéis fariam parte de um conjunto maior, de 15 peças, projectadas para figurar na parede Norte da Capela do Fundador, no Mosteiro da Batalha, ao lado dos túmulos de D. João I, Dona Filipa de Lencastre, D. Afonso V, D. João II e do Infante D. Henrique, entre outros, sendo que alguns estão representados na obra. A tese tinha lógica, mas também os seus "buracos": há poucos anos determinou-se que o Ecce Homo, figura central do conjunto, era do séc. XVI, e por isso nunca poderia ser concebido antes para figurar ali. Ainda assim, há outros elementos que dão razão a Almada, mesmo que ele duvidasse que seja S. Vicente a figura central dos painéis. As discussões e as interrogações sobre essa pintura fascinante hão de continuar sempre. Se há dúvidas sobre a verdade, escolha-se a lenda.
 
O que é certo é que a obsessão de uma vida de Almada Negreiros está agora exposta na Capela do Fundador, na Batalha, até ao fim do ano, a quem a quiser ver.
 

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Outras consequências da conquista de Lisboa

João Pedro Pimenta, 01.10.21

Ainda sobre as autárquicas, a conquista de Lisboa pela coligação liderada pelo PSD pode ter outras consequências a médio prazo. Dizia-se, aquando da apresentação de Carlos Moedas como candidato, que uma eventual vitória poderia ser um trunfo para Rui Rio mas também uma ameaça, já que o ex-comissário europeu seria então uma forte hipótese para a liderança do partido.

Julgo que esse cenário é improvável. Recém chegado à câmara, e com muito trabalho pela frente, Moedas não deve estar certamentea pensar em liderar o partido. É verdade que a presidência da CML é tida como um trampolim para voos maiores, com propriedade, tendo em conta os casos de Sampaio, Santana e Costa. Mas será ainda muito cedo para pensar em algo mais, até porque não faltam outros candidatos à liderança laranja. De resto, Rio marcou pontos com as suas escolhas certeiras, como Coimbra e Funchal, e, evidentemente, a capital.

É no outro partido do poder que este resultado pode ser mais determinante. Perdida de forma inesperada a governação Lisboa, o seu grande trunfo, Fernando Medina viu certamente esfumar-se qualquer veleidade a chefiar o PS no pós-António Costa. Isso abre ainda mais o caminho a Pedro Nuno Santos, que com a sua combatividade e o conhecimento (e controlo) do aparelho socialista, vê crescer amplamente as suas ambições a liderar o partido no futuro. 

Sucede que, a ser este o cenário, aliás provável. Pedro Nuno herdará um PS desgastado pelo poder e pelos inúmeros problemas com que se deparou, alguns por culpa própria. Além disso, representa uma ala mais esquerdista do partido. O sempre decisivo eleitorado de centro, talvez agora menos numeroso, não deixará de olhar para o PSD como alternativa óbvia. Rio ou qualquer outro líder do partido terá então uma boa oportunidade para ganhar o poder, ou pelo menos de ficar em primeiro, a reboque e por via indirecta da conquista de Lisboa.

 

Uma questão maior

João Pedro Pimenta, 01.10.21

Já houve vários resumos às autárquicas, partidárias e locais, já se falou na vitória amarga do PS, na derrota doce do PSD, no esvaziamento da CDU, no CDS que se equilibra em arames, no Bloco que continua sem peso autárquico, nos razoáveis mas demasiado histéricos ganhos do Chega, no voto urbano da IL, no peso dos independentes, mas não vi nenhuma análise profunda aos nomes dos candidatos do Alentejo.

Permitam-me então felicitar, no Alandroal, Aranha Grilo (será entomólogo?), que bateu Saruga Matuto; Pena Sádio, de Estremoz; em Mora, 45 anos de presidência de PCP acabaram com o triunfo de Calado Chuço sobre Fortio Calhau; no Redondo, Fialho Galego soube fazer frente a Palma Grave e Rega Recto; em Vendas Novas, Hortelão Aldeias não logrou a reconquista; já na ducal Vila Viçosa, Ludovico Esperança ganhou a autarquia calipolense fazendo jus ao nome, para desconsolo de Canhoto Consolado e do desventurado Ventura Mila.

Mais para baixo, Mestre Bota mantém Almodôvar e Penedo Efigénio roubou Alvito a Feio Valério; Cuba é bem nacional quando Casaca Português não dá veleidades a Burrica Caniço; o histórico Pita Ameixa permanece em Ferreira do Alentejo e em Moura, apesar dos esforços de Ventura, Floreano Figueira não conseguiu destronar Pato Azedo e igual sorte tiveram André Linhas Rôxas e Fialho Acabado. Ao lado, em Serpa, Véstia Moisão, Efigénio Palma e Torrão Félix tiveram de se conformar com a vitória de Tomé Panazeite.
 
Mais a Norte, em Arronches, Ventura Crespo não deu hipóteses a Moacho Feiteira, Vicente Batuca e Amiguinho Cordeiro. Parabéns a Gonçalo Amanso Pataca Lagem, em Monforte, e lamente-se a derrota de Rosmaninho Bichardo em Nisa.
 
Mesmo não tendo o seu partido ganho a câmara, assistimos ao regresso autárquico do grande poeta elvense Chocolate Contradanças (que será feito de Borrega Burrica, de Campo Maior?). Lamentável a todos os títulos é o triste exemplo de Évora, que voltou a dar o triunfo, embora curto, a Carlos Pinto de Sá, em detrimento de Henrique Eva Sim-Sim e sobretudo de Raul Arromba da Silva Rasga.
 
Um abraço para o Alentejo, com desejos de felicidades aos novos (e velhos) autarcas.

Pensamento da semana

João Pedro Pimenta, 26.09.21

Para supostamente defender as melhores causas já se cometeram as piores atrocidades. Em nome de Deus, da Justiça, da Igualdade, da Fraternidade e do Paraíso Terrestre muitas vidas humanas foram sacrificadas. Também a Liberdade já implicou muitas vítimas, recordando aquela frase, ao que parece datada dos tempos da 1ª República: quando ouço gritar "viva a liberdade" vou logo ver quem está a ser preso. A última boa causa é a não descriminação em função da raça, género, sexo, credo, etc. Para já não tem implicado muitas vidas humanas, mas já levou à queima de livros, que, como o passado indica, leva muitas vezes a que as fogueiras sejam destinadas a pessoas. Esperemos que se fiquem por aqui e que não contribuam para a pesada história dos crimes em defesa das boas causa e da sua pureza.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Ainda Sampaio

João Pedro Pimenta, 17.09.21

Ainda sobre Jorge Sampaio, já quase tudo se disse, de bom, sobretudo, e de mau, bem menos, e merecido. Mas gostaria de acrescentar um ponto sobre o político que pela postura carreira e até a cor do cabelo poderia perfeitamente ser um parlamentar trabalhista britânico. Acerca do momento mais polémico da sua presidência, a nomeação de Santana Lopes e a dissolução do Parlamento seis meses depois, convocando as eleições que depois dariam o poder a Sócrates, relembro que apesar das críticas que a direita lhe teceu então, ficaram ainda assim aquém das que a esquerda lhe disparou ao decidir convidar Santana a formar governo. Provavelmente a maioria acha hoje que ele faria melhor em convocar logo eleições (e o PSD em escolher a então segunda figura do governo, Manuela Ferreira Leite, para o liderar, quatro anos do que sucedeu mais tarde). Mas decidiu não o fazer e com isso atraiu a fúria da esquerda. Ferro Rodrigues demitiu-se da liderança do PS nesse mesmo dia, indignado com a decisão presidencial. Saramago disse que "a democracia acabara em Portugal". Francisco Louçã retorquiu que era "o princípio do fim do 25 de Abril". Na festa do Avante desse ano usaram-se t-shirts anti-Sampaio. E como na noite seguinte, precisamente, morreu de súbito Maria de Lurdes Pintassilgo, não faltou quem dissesse explicitamente que tal se deveria ao desgosto da decisão de Sampaio. Em suma, provavelmente nunca nenhuma figura da esquerda (nem da direita) portuguesa atraiu tanto os ódios do seu espectro político como Jorge Sampaio. Curiosamente, muitos destes correligionários aplaudiram dez anos depois a constituição da "geringonça", que, tal como no governo Santana, se baseava numa maioria parlamentar.

Que o "cenoura", como carinhosamente lhe chamavam, descanse em paz.

As bolhas geracionais

João Pedro Pimenta, 11.08.21

Na época de confrontos e polarizações a que temos vindo a assistir, só nos faltava o confronto geracional. Mas é o que está a acontecer. Além dos problemas directos, a pandemia parece estar a criar um crescente azedume entre as gerações mais velhas e as mais novas.

Não que seja apenas do último ano. É possível que com diferentes educações e uma comunicação demasiado virtual as fracturas já durassem há mais tempo. Vimo-lo com as referências, aqui há uns anos, da "peste grisalha". E vimos também a insuportável e birrenta frase de uma Greta Thunberg transfigurada pela raiva, o inesquecível How dare you, ao acusar os políticos de lhe terem "roubado a infância".

Há pouco tempo, por ocasião do dia dos avós, vi uma data de desabafos na net, incluindo uma daquelas coisas que algumas pessoas passam numa cadeia de mensagens, em que o neto perguntava ao avô como tinham vivido sem internet, telemóvel, etc, ao que o avô respondia que em compensação antigamente viviam com "dignidade, compaixão, bondade, humildade", etc, dando a ideia de que a geração do neto não tem quaisquer qualidades (reparo que ao afirmar que a sua geração tem todas as qualidades não é bem um sinal de humildade). Ao mesmo tempo, vêem-se nas redes sociais imensas recriminações às gerações mais novas por, em tempo de covid, juntarem-se, encontrarem-se, beberem em conjunto e outas malfeitorias. Alguns chegam a dizer que deviam era estar trancados em casa ou ajudar às tarefas da mesma, embora ignore se quem escreve tais coisas tenha algum estudo aprofundado sobre os trabalhos domésticas dos mais novos.

Todas estas recriminações geracionais, dos que desprezam os mais velhos e os tratam como trapos por aparentemente não terem "utilidade" aos que se estão nas tintas para os mais novos e acham que eles têm as mesmíssimas necessidades dos mais idosos podiam provocar mero desprezo ou até algum sarcasmo, mas causam-me apenas tristeza. Parece que são exactamente os extremos geracionais que são mais postos de lado pelos que estão a meio, que também terão as suas queixas (Sérgio Sousa Pinto falava há pouco com imensa graça da nossa geração dos anos noventa como estando entre "gerontes donos disto tudo e unicórnios imberbes"). Os velhos porque não são úteis, numa classificação utilitarista e hiper-materialista, e porque "ficam com as reformas todas", e os mais novos porque são "irresponsáveis" e "florzinhas de estufa". 

Contra mim falo, porque também isso já me passou pela cabeça em momentos egoístas e menos felizes. Mas a verdade é que esta incompreensão mútua, a existir, e se não for uma miragem do que se vê na net, é tóxica e não ajuda nem a uns nem a outros. Quando se começa a falar dos mais novos como "gente irresponsável", amiúde acompanhada dos auxiliares "no meu tempo" e "esta juventude de hoje", é sinal claro de envelhecimento, numa clara imprepração para o futuro. E quando vemos as acusações às gerações anteriores de terem deixado "uma herança pesada" às que se seguem, como a menina Thunberg, à qual, entre outras coisas, deixaram um sistema escolar que ao que parece ela não quis aproveitar, ignoramos tudo o que de bom deixaram, quando tantas vezes mesmo as má herança tiveram origem em intenções nobres. 

Sim, os mais velhos não pensaram só neles. E sim, os mais novos têm percepções diferentes, como em todas as gerações, e não são piores por isso. Os velho têm direito ao conforto, à compreensão e ao respeito. Os jovens a igual compreensão e a fazerem disparates e "irresponsabilidades" próprias do crescimento e da formação de carácter. Não compreendê-las é ficar-se na sua própria bolha geracional, sem perceber o passado de uns nem relembrar o seu próprio. Não é preciso que se compreenda e aceite tudo. Mas ao menos não julguemos que a nossa geração é que é bestial.

PS: a minha geração "rasca" não é definitivamente melhor, mas olhem que os tais anos noventa em que crescemos deixam saudades. Porque havia esperança e optimismo para todas as gerações. 

A redenção pela bola

João Pedro Pimenta, 17.07.21

Se as história de superação são apelativas, mais ainda se tornam se lhes forem acrescentadas certas concidências e acasos. O Euro 2020 que acabou há dias é disso exemplo.

Julgava que a superação seria a de um homem, Gareth Southgate, o actual treinador de selecção inglesa. Até agora, em Europeus, a Inglaterra normalmente ficava-se pelo primeiro jogo a eliminar (o guarda-redes Ricardo que o diga), tirando em 1996, quando a competição teve lugar precisamente em solo inglês. Só que nas meias finais jogaram contra a velha rival Alemanha, em Wembley, empataram a um golo e nas grandes penalidades um jogador inglês falhou, impedindo a sua seleção de chegar à final perante o seu público. O seu nome? Gareth Southgate.

Um quarto de século depois, Southgate levou a seleção inglesa pela primeira vez à final de um Europeu, tendo deixado pelo caminho a Alemanha, com um emotivo 2-0. Passadas as meias, de forma algo duvidosa contra uma aguerrida Dianamarca, a Inglaterra lá chegou a uma final, ainda por cima (e como quase todos os jogos que disputou) em Wembley, quase como em 1996 - quase porque se demoliu e reconstruiu o mítico estádio. E o povo enchia o estádio, ignorava os casos crescentes de covid e cantava, em fervilhante entusiasmo, It´s Coming Home, do célebre hino dos Ligthing Seeds Three Lions (A partir dos vinte segundos do video abaixo vê-se Southgate a falhar o penalty; noutra versão, a original, de 1996, aos 30 segundos a seleção inglesa marca um golo à portuguesa, defendida pelo malogrado Neno).

 

Não estava propriamente a apoiar os Three Lions, mas confesso que me interessava a ideia da redenção de um homem, que, 25 anos depois, naquele mesmo espaço, poderia conduzir a sua seleção à vitória na competição como treinador, depois de o impedir como jogador. Mas como sabemos, a história não acabou assim, e mesmo tendo chegado à final, a Inglaterra perdeu em Wembley com a Itália, de novo nos penaltys - e aqui sim, Southgate falhou pela escolha dos marcadores.
 

Mas se não houve redenção por um lado, ela veio de outro. A equipa técnica da Itália é constituída quase em exclusivo por velhas glórias da Sampdória de Génova, como Roberto Mancini, Gianluca Vialli, Lombardo ou Evani. E precisamente em Wembley, em 1992, na final da Taça dos Campeões perdida para o Barcelona de Cruyff, Mancini e Vialli, a dupla de ataque, os "gemelli del gol", jogaram juntos uma última partida. Vialli prossseguiu uma carreira  de sucesso na Juventus, Mancini na Lazio e ambos foram mais tarde técnicos de sucesso em Inglaterra. Até se reencontrarem na equipa técnica da selecção, um pedido expresso de Mancini, e que como se viu no Domingo, até pelo ambiente da equipa, voltou a dar resultado. 29 anos depois de perderem o título europeu de clubes em Wembley, ganharam o de selecções. É só isto, a redenção? Apenas o pretexto. Porque Vialli, já com funções na Azzurrasofreu um canco no pâncreas, um dos mais difíceis de debelar, recuperou, teve uma recaída, e finalmente venceu-o completamente, sem mais vestígios. Chegou a dizer numa entrevista que "tinha vergonha de estar tão feliz", quando Itália sofria a primeira e mortífera vaga da pandemia. Um ano depois da sua recuperação, GianlucaVialli, que protagonizou uma destas superstições em que o futebol é fértil, no mesmo lugar onde não tinha sido feliz anos antes, voltou a festejar, em lágrimas, com todas as razões do mundo para o fazer, ou no mínimo com muito mais razões do que apenas um penalty falhado.

 

Pensamento da semana

João Pedro Pimenta, 27.06.21

Já ouvi um ou outro comentário, e também nas caixas do Delito, a dizer que mesmo depois da pandemia se deviam usar máscaras no Inverno para impedir constipações. Se puder optar, venham todas as constipações. Pretender continuar com mascaras pós-pandemia equivale a alguém estar preso, receber a ordem de soltura e preferir ficar na prisão porque lá fora há muitos drogados.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Tarzan como comentador

João Pedro Pimenta, 11.06.21

Há uma epidemia nacional há muito espalhada e que contamina sobretudo comentadores de tv e treinadores de futebol. Não vejo medidas profilácticas, alertas para o contágio, barreiras para impedir a progressão e muito menos curas. O Dez de Junho também devia servir para se falar deste flagelo.

 
Refiro-me obviamente à mania de começar as frases no infinitivo. Todos os dedos de todas as mãos do país seriam poucos para contar a quantidade de vezes que ouvimos frases começadas por "dizer que...", "afirmar que...", "realçar que...", "assinalar que...", "lembrar que..." e tantos outros verbos no infinitivo seguidos de "que" (se se lembrarem de mais avisem, que alguns fazem um resultado engraçado).
 
Tal como a escrita rápida de sms, o acordo ortográfico e a linguagem neutra para "não ofender", esta forma de falar é mais uma causa de empobrecimento da língua. Há imensas maneiras de se aplicar um verbo no início de uma frase, mas usar o infinitivo é preguiçoso, além de errado, e é mais digno da fala do Tarzan. Ninguém se admire se lá chegarmos

Festivais, polémicas e coincidências transmontanas

João Pedro Pimenta, 02.06.21

Regressou na semana passada o Eurofestival da Canção. Pela primeira vez, julgo eu, Portugal apresentou-se com uma canção em inglês. Não percebo porque é que numa prova musicial em que se colocam a julgamento representantes de países não se exige que cantem nos idiomas respectivos, ou se houver mais do que um, nalgum deles. A verdade é que os suecos Abba já ganharam por cantar em inglês, e depois de ter visto alguns concorrentes, os representantes portugueses deste ano, comandados por um senhor com pinta e nome artístico de índio norte-americano, estavam longe de envergonhar. 

O que me pergunto é se em tempos de políticas identitárias, culturas de cancelamento e revisões da História, os representante portugueses poderiam ser os Da Vinci, que há cerca de 30 anos, e com assinalável notoriedade, puseram um país a cantar "já fui ao Brasil, Praia e Bissau..." no tema "Conquistador", em cujo videoclip surgiam em destaque o Padrão dos Descobrimentos, o navio Sagres, a Cruz de Cristo e outros elementos capazes de espalhar o horror na convenção do Bloco de Esquerda e em boa parte do festival (não digo todo porque as diferentes sensibilidades surpreendem-nos). Tenho sérias dúvidas que começasse por passar no crivo do festival nacional, antes de ir ao internacional. A verdade é que os Da Vinci, que até aí eram um grupo pop-electrónico-futurista, seguiam o caminho traçado pelos Heróis do Mar, e tal como a banda de Pedro Ayres de Magalhães e Pregal da Cunha, tiveram amplo sucesso, embora mais efémero.

 

 

A música e respectivo video recordaram-me a polémica de há poucos meses, lançada por Ascenso Simões e as suas diatribes violentas sobre o Padrão dos Descobrimentos e outros monumentos com o cunho do Estado Novo (numa, particularmente infeliz e que ele se apressou a corrigir, dizia que no 25 de Abril "devia ter havido mortos"). 

E recordaram-me outra coisa, não sei se por coincidência ou não: os primeiros padrões, possivelmente os mais conhecidos, foram erguidos por ordem de Diogo Cão, na exploração à foz do Zaire e à costa do que é actualmente Angola. O próprio Diogo Cão (e um padrão) estão entre as personagens do Padrão dos Descobrimentos. E de onde é que Diogo Cão era originário? De Vila Real, onde tem justamente uma estátua erguida em pleno Estado Novo, com estética própria da época. Mais abaixo, na principal praça da cidade, fica a casa onde se supõe que terá nascido o navegador, mesmo ao lado da câmara municipal. Câmara essa que foi nos anos noventa disputada duas vezes por...Ascenso Simões, ele mesmo, no arranque da sua carreira política. Diga-se que as duas tentativas, aliás contra o mesmo candidato vencedor do PSD, redundaram em insucesso, se bem que da primeira tivesse ficado perto, fruto da troca de autarcas, mas só vinte anos depois é que o PS conseguiria finalmente ganhar na capital transmontana. 

 

 

 
 
Mas fica-se a pensar se estas ideias recentes de Ascenso terão sido uma forma de chamar protagonismo - não seria a primeira ocasião - ou se já as teria antes. Podemos então imaginar que, caso tivesse chegado à presidência da câmara, teria tentado derrubar a estátua de Diogo Cão, legado do Estado Novo que era, e  no mínimo disfarçado a casal natal do explorador. E por arrasto, imbuído de ideias revolucionárias radicais, podia-lhe ter dado para mandar abaixo a casa vizinha: é que mesmo ao lado do imponente difício onde nasceu o navegador, uma placa, numa habitação bastante mais modesta, avisa-nos que ali nasceu o capitão de Abril e chefe operacional do 25 de Novembro Jaime Neves, embora a sua família vivesse numa aldeia a uns quilómetros, Anta (vizinha da mais "urbana"S. Martinho de Anta, de Torga). Sabe-se lá se Ascenso Simões, para quem o 25 de Abril pecou por defeito e por excessiva complacência, ao qual o 25 de Novembro não teria trazido nada de bom, não se lembraria de arrasar também esta. Mas a democracia (municipal) não o permitiu. Lá está, a democracia, outra consequência funesta dessa revolução tão festivazinha sem sangue nem justiça popular.
 
 

 

PS: a reboque de Vila Real e dos acontecimentos em Ceuta, ia dizer que aquele território precisava era que voltassem os Menezes, condes e depois marqueses de Vila Real e governadores daquela praça no Norte de África. Diz a lenda que D. Pedro de Menezes estava a jogar um jogo de bola com um taco chamado aleu, quando o Rei lhe perguntou se defenderia Ceuta, ao que o Menezes respondeu que com aquele aleu defenderia a cidade. Hoje o aleu figura no brasão de Vila Real. Mas dizem-me que o Embaixador Seixas da Costa já se lembrou disto há dias, nas redes sociais, e de qualquer maneira, a (antiga) Casa dos Marqueses de Vila Real já se extinguiu há muito, a mando da Casa de Bragança quando ascendeu ao trono.

O blogue da semana

João Pedro Pimenta, 30.05.21

Há uns quinze anos que João Lopes e Nuno Galopim nos dão as suas opiniões, críticas, sugestões e claro, imagens e sons de cinema e de música (a que se podem acrescentar outras artes, como a literatura, a arquitectura e a BD), numa lida imparável e incansável onde é difícil fazer a triagem e as escolhas. Mais do que um blogue, é um universo blogoesférico.

O Sound + Vision é o blogue da semana.

Para uma final britânica perfeita

João Pedro Pimenta, 29.05.21

Uma pena que estejamos na situação em que estamos, com o distanciamento, as máscaras e etc, senão, como aperitivo para final da Liga dos Campeões, podíamos ter uns cantares ao desafio entre Mr. Damon Albarn, dos Blur e do Chelsea, e Mr. Noel Gallagher, ex metade dos Oasis e do Manchester City. Não sendo possível, go citizens.

 

 

(Isto é mesmo ficção, porque se não fosse a pandemia a final seria em Istambul).

Gente sem condições

João Pedro Pimenta, 19.05.21

Hoje, depois de se saber que Rui Moreira ia a julgamento por causa do caso Selminho (oportuníssimo ser a cinco meses das eleições, mas adiante), dizia que não faltariam os oportunistas a tentar tirar proveito da situação.

Eles aí estão: Catarina Martins veio logo afirmar que "Rui Moreira não tem condições para continuar na câmara". Isto dito pela líder (ou "coordenadora") de uma formação que em cinco eleições possíveis NUNCA conseguiu elegeu um único vereador para a CM do Porto - talvez pelo Bloco portuense ser exclusivamente composto por sociólogos ou actores, como a própria Catarina - e que noutras autárquicas já apresentou candidatos que estiveram nas FP-25. Um deles apareceu mesmo no outro dia a escrever (entre outros textos com imensos erros) que não se arrependia de nada e que os assassínios cometidos "tinham mesmo de ser", antes de apagar a mensagem

Quem é que não tem condições mesmo?

Pensamento da semana

João Pedro Pimenta, 21.03.21

Na suposta "era da informação" incrementada pela net assiste-se a uma enormíssima desinformação opinativa. Não há melhor forma de sabermos que estamos perante um ignorante assumido e arrogante do que as palavras "vi no Youtube", "normalmente informo-me nas redes sociais" ou "sei porque li num site (mesmo que não venha a identidade de quem escreveu".

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

A costela portuguesa dos Daft Punk

João Pedro Pimenta, 11.03.21

Os Daft Punk, talvez o grupo (ou duo) de música electrónica mais famoso do globo, resolveu encerrar actividades, anuncionado-o numa mensagem lacónica a fazer justiça à imagem silenciosa dos seus elementos. Além de silencisos, eram discretos, tanto que nem mostravam os seus verdadeiros rostos em público, coisa que nos tempos actuais até parece visionária. No entanto, têm algumas curiosidades, com a origem de um dos elementos do dueto, que recordo aqui na adaptação de um post já com uns anos (podem vê-lo aqui, se quiserem).

Nas cerimónias de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Sochi, destacou-se o conhecidíssimo Coro do Exército Vermelho, a cantar uma divertida versão de Get Lucky, dos Daft Punk, uma das músicas mais tocadas dos últimos anos nas pistas de dança de todo o Mundo. Um espectáculo com piada, e que é um hino à globalização: um grupo de rapazes russos a cantar, numa cerimónia internacional no litoral do Cáucaso, uma música em inglês da autoria de um duo francês, um dos quais com apelido português.

Ora o elemento de origem lusitana é Guy-Manuel de Homem-Christo, francês de terceiro geração, trineto do jornalista e polemista republicano Homem-Cristo (pai), reconhecido na toponímia aveirense, e bisneto de Francisco Homem Cristo (filho), que se destacou por ter sido o primeiro grande intelectual e propagandista do fascismo em Portugal, e cuja biografia política, Do Anarquismo ao Fascismo, é da autoria de Miguel Castelo Branco. De tal maneira ganhou a confiança de Mussolini que se tornou logo um dos principais "embaixadores" do Duce para espalhar a nova doutrina pela Europa e até mesmo para organizar um congresso do fascismo em Itália. Morreu em 1928, em Roma, num desastre de automóvel, no decurso dessas actividades políticas, quando já vivia e tinha família em França. O início da carreira dos Daft Punk, e em certa medida o seu progresso, pode ser visto no filme Eden, de Mia Hansen-Løve, baseado na percurso do seu irmão na música electrónica, onde conviveu de perto com os Daft Punk, sem nunca alcançar o enorme sucesso destes.

O irónico disto tudo é que provavelmente o Coro do Exército Vermelho, surgido, como o próprio nome indica, no tempo da União Soviética, não imaginaria sem dúvida estar a cantar uma música da autoria do bisneto de um notório propagandista do fascismo, inimigo mortal (ou outra cara da moeda?) da URSS. E com toda a certeza Homem Cristo Filho, admirador e defensor do fascismo italiano, jamais pensou que um seu descendente directo comporia músicas em inglês que seriam cantadas pelo coro do Exército Vermelho. Não seria essa, com certeza, a divulgação que pretenderia, mas o certo é que um seu descendente com o seu nome acabou por se tornar mundialmente conhecido pela sua música, e não certamente pela sua ideologia política (nem pela sua cara, já que o duo há anos que só aparece em público mascarado).
 

Relembre-se ainda que tanto o Homem Christo pai como o filho são referidos no Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, de uma forma pouco elogiosa, como não podia deixar de ser naquele texto verrinoso onde ninguém escapa.

O Papa no Iraque

João Pedro Pimenta, 10.03.21

Chegou ao fim uma das mais delicadas e perigosas, mas também uma das mais significativas, viagens pastorais do Papa. Entre a pandemia e as bombas que o infeliz país tem sofrido há vários anos, a viagem ao Iraque parece ter corrido muito bem e permitiu cumprir vários objectivos, como o encontro com o Ayatollah Sistani, a grande autoridade xiita do Iraque, as vítimas do Daesh e as celebrações com as tão massacradas (e antiquíssimas) igrejas da Mesopotâmia, e são tantas, apesar dos fiéis mingarem por causa das perseguições e da violência.

 
O Papa conseguiu ainda ir a Mosul, a vizinha da antiga Nínive, no coração da Mesopotâmia, a cidade ocupada e devastada pelo Daesh, há poucos anos. Tinha sido precisamente na principal mesquita de Mosul que o "emir" al Baghadi proclamara o Estado Islâmico, em 2014, e anunciou que conquistaria Roma. Aconteceu precisamente o contrário: o Bispo de Roma é que entrou em Mosul, mas sem armas. Lembra um pouco a pergunta de Estaline, entre risos: "quantas divisões armadas tem o Vaticano?". A verdade é que o regime de Estaline já não existe, mas o Papa continua a saudar as multidões na Praça de S. Pedro ou em qualquer outro local. Até no Iraque, em 2021.
 
 

O blogue da semana

João Pedro Pimenta, 28.02.21

Tiago Cavaco pertence à blogoesfera lusa desde os seus primóridios. Um histórico, portanto, e diz logo ao que vem: Religião e Panque-Roque. Uma combinação entre riffs estridentes de guitarras e pregações bíblicas que à partida poderia não ser muito familiar aos leigos mas que aos poucos acaba por fazer sentido. Há muitos anos que o seu autor, com extensa carreira no rock, uma data de discos editados na sua editora Flor Caveira e que aos Domingos assume as suas funções de pastor protestante entoando salmos e pregando sermões aos fiéis, nos dedica esta dualidade de missões. 

O Voz do Deserto é por isso o blogue da semana

O caminho incerto das ideologias (à boleia com os das direitas portuguesas)

João Pedro Pimenta, 11.02.21

Com as presidenciais lá veio a eterna discussão da "reconfiguração da direita", esse assunto cornucópia da política portuguesa. Primeiro com os resultados de André Ventura (e do Tiago Mayan) nas presidenciais. Depois, quando o nosso Adolfo Mesquita Nunes (quando é que ele volta à escrita aqui no Delito?) desafiou Francisco Rodrigues dos Santos para um congresso, vendo o CDS mirrar e perder peso. Uns levantaram-se em seu apoio, a começar pelo grupo parlamentar, outros cerraram fileiras em volta de "Chicão", invocando uma "tentativa de golpe" e outros deixaram os órgãos partidários aos quais pertenciam sem contudo se juntar às hostes rebeldes. O presidente da formação manteve-se, embora enfraquecido. Não é propriamente um facto inédito: se há partido português com historial de lutas fratricidas é exactamente o CDS. Freitas sempre teve de enfrentar dissensões e afastou-se com a ascensão de Monteiro, que protagonizou mais tarde uma luta feroz com o seu antigo amigo Paulo Portas. Os apoiantes deste nunca se conformaram com a chefia de Ribeiro e Castro e não descansaram enquanto não repuseram na liderança o seu inspirador. Cristas teve de enfrentar críticas duríssimas e agora Rodrigues dos Santos sofreu um levantamento de rancho. Aquele partido leva as lutas tão a sério que até já teve estalo a valer nos seus congressos - pelo menos num Avelino Ferreira Torres andou à pancada com outro confrade. E neste caso não seria mal maior se não tivesse a Iniciativa Liberal e o Chega a limitar-lhe o espaço, problema que antes não havia.

A ajudar  à dita "reconfiguração" Pedro Santana Lopes saiu do seu Aliança, que tinha criado há pouco mais de dois anos, e anda por aí à procura uma câmara municipal disponível que lhe sirva de poiso.

Faits divers à parte, e deixando um pouco de lado a interminável discussão da direita portuguesa (à qual vou voltar em breve), a situação do CDS não deixa de ser intrigante. O partido sempre se gabou de ter três componentes: a democrata-cristã, a liberal e a conservadora. A liberal pode estar a mudar-se para a mais enérgica e definida IL; a conservadora dará a sua preferência ao Chega, muito embora este seja um emaranhado de coisas que pouco tem a ver com o conservadorismo clássico, o que daria razão aos que desconfiavam que o CDS albergava alguns reaccionários sem outro pouso e que muito do seu eleitorado estava à direita dos dirigentes. Mas e o democrata-cristão? Aquele que não se revê na face libertária da IL nem nos vitupérios de Ventura ou aproximações a LePen? A julgar pelas sondagens é minoritário, embora até conheça vários que estariam numa situação de orfandade caso o partido desaparecesse. O assunto é também objecto de análise de um artigo recente de André Lamas Leite

 

Não é para menos: a democracia-cristã, cujo berço será a Itália nos inícios do séc. XX e o Partido Popular de Sturzo e De Gasperi (é em sua homenagem que o PPE e restantes partidos populares se chamam assim), está em acelerado declínio, mesmo que parcial e nominalmente ainda pareça dominar em alguns países, como a Alemanha e a Áustria. Mas definitivamente parece estar longe da força e da influência de outros tempos, talvez por vivermos em sociedades que se têm vindo a tornar mais seculares, e o CDS é a prova nacional disso. 

Mas não é caso único. O comunismo, que, para voltar a um exemplo anterior, durante décadas dividiu eleições em Itália com a mesma democracia-cristã, teve uma queda abrupta desde os anos oitenta e ninguém minimamente lúcido aposta nos amanhãs que cantam como força dominante. Mesmo nos países de regime comunista, como a China e o Vietname, já é algo bem diferente do maoísmo original (muito embora permaneça o controlo ditatorial da sociedade), e Cuba é de uma decadência inimitável. Da social-democracia também há anos que se ouve falar do seu esmorecimento, e tirando alguns países onde o poder a mantém, como Espanha e Portugal, tem caído a olhos vistos, como em França, Grécia e Alemanha. O conservadorismo encontra-se numa cruzamento de dúvidas, entre versões descafeinadas e apelos reaccionários. O liberalismo, embora tenha alguns seguidores entusiastas, não parece ser capaz de formar governos, talvez vítima do seu próprio sucesso, já que as suas principais premissas foram cumpridas na maior parte dos regimes democráticos. A extrema-direita teve de abandonar, ao menos à superfície, quaisquer inspirações fascistas, sob pena de ficar absolutamente marginalizada. E as querelas entre monárquicos e republicanos não têm nem um naco da relevância de outrora.

Parece que as ideologias que nos habituámos a seguir no séc. XX já viram dias mais pujantes. Os partidos portugueses também as seguem, e por ora ainda resistem, embora se vejam sinais de erosão no CDS, como se disse, e no PCP. Dir-se-ia que o que realmente está em ascensão são os partidos ecologistas e "verdes" (e mais modestamente os animalistas), o nacional-populismo, ou seja, direitas radicais ou extremas convertidas à democracia (outra influência italiana?) e em certa medida o liberalismo. Serão estas as futuras ideologias predominantes? Veremos confrontos entre estes blocos políticos, reduzindo os restantes -ismos a discussões bizantinas ou a memórias históricas? Terão a companhia de novos movimentos - os federalistas, por exemplo? Ou juntar-se-ão a outras atrás descritas que irão novamente reerguer-se e ocupar o seu velho papel de hegemonia?

 

As ajudas mútuas entre Portugal e a Áustria

João Pedro Pimenta, 08.02.21

A Áutria vai receber doentes portugueses com covid em cuidados intensivos. Confirma-se É uma ajuda preciosa e um bom exemplo de como pode funcionar a cooperação europeia. Até porque não é a primeira vez nesta crise pandémica que doentes de um país são acolhidos noutro.

Não só não é inédito entre os dois países como até teve exemplos pré-UE. Deve haver quem se lembre de ouvir os pais ou os avós falar de crianças austríacas que vieram para Portugal no fim da II Guerra, para serem acolhidas por famílias quando o seu país estava num estado lastimável, e precisava de ser reconstruído. Houve-as em toda a parte, num trabalho organizado pela Cáritas portuguesa, e dinamizado por uma princesa do Liechtenstein. Conheço vários exemplos de acolhimento dos meus familiares de Vila Real. Alguns mantiveram contacto, outros não ou perderam-no - é o caso da menina que ficou em casa dos meus avós - e outros reapareceram ao fim de décadas, visitando inclusivamente as antigas famílias de acolhimento (em alguns casos nas mesmas casas). Muitas destas crianças vinham ainda com traumas, como o de fugir quando ouviam um simples foguete, pensando que era um bombardeamento, ou olhar pasmadas para as cascas de batatas a ser deitadas fora, como se servissem de alimento. Certamente que deveram muito do seu crescimento ao facto de terem vindo para cá nesse período de reconstrução da Áustria - e de outros, porque ao que me dizem também as houve de França e da Finlândia. Esperemos agora que bem menos portugueses tenham de ser acolhidos pelo chanceler Kurz.