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Mudar de lentes

por Maria Dulce Fernandes, em 25.10.20

Estes últimos tempos não me têm sido propícios. Tudo me cansa, física e psicologicamente falando. Vejo as pessoas adoecer à minha volta e saio de casa todos os dias a pensar se será aquele o último dia em que regressarei livre de viroses. 

No trabalho, são-nos impostas cada vez mais regras, mais ordens, mais directrizes sob pena de pesadas coimas, que a cada dia que passa são mais complicadas de fazer cumprir. 

O egoísmo é a única filiação comum a todas as cores e credos. 

Em casa, vejo os meus netos e desespero.

E depois vejo isto e apetece-me partir tudo.

Quem sabe, sou quem quem vê mal e precisa mudar de lentes.

 

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O silêncio e tanta gente

por Maria Dulce Fernandes, em 21.10.20

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A lotaria genética é algo assombroso que transcende todo e qualquer um de nós. A possibilidade de um gene recessivo de existência recente ou até pré-histórica pode determinar um distúrbio de 25% de probabilidades de se verificar geneticamente adquirido.

E aí, ainda não nascemos e a nossa vida já possui toda uma carga adicional de lutas e desafios a superar, que com o passar do tempo constituirão a normalidade que conhecemos.

A lotaria genética pode proporcionar distúrbios esteticamente agradáveis ou monstruosidades e os outros, os que não se vêem e acarretam deficiências profundas que podem ou não ser contornáveis.

A hipoacusia bilateral profunda é A deficiência auditiva por excelência. É diagnosticada por uma sucessão de exames que se iniciam aos 2 dias de vida e não terminam nunca.

Após uma série de testes audiológicos e ressonâncias magnéticas para diagnóstico definitivo, somos postos perante a perspectiva da cirurgia, o tal ouvido biónico, que nos ajudará a perceber o mundo também pelo som e a podermos ser nós a traduzi-lo pela nossa própria voz, construído em palavras que nunca falámos na impossibilidade de reproduzir algo que desconhecemos.

Quem pensará duas vezes perante a possibilidade de contornar ou até vencer a imparidade?

É aqui que entram em cena os fundamentalistas do silêncio que, sob a capa da protecção à capacidade e direito absoluto de escolha das minorias, insistem em alternativas como a linguagem gestual ou a leitura labial, e a escolha – ouvir ou não ouvir - partirá exclusivamente do indivíduo com deficiência quando alcançar a idade da decisão.

Quero acreditar que estas pessoas têm boa intenção e são apenas imbuídas de sentimentos protectores, porque de outro modo é incompreensível que nos tempos do audiovisual estejam a condenar um indivíduo a um ostracismo de idade das trevas. Aqui, a questão religiosa nem se põe. Se Deus não deu ouvidos, então terá que ser surdo, ter-lhe-á dado cordas vocais para quê senão para poder falar?

A linguagem gestual e a leitura labial nunca devem ser excluídas da aprendizagem de um surdo, porque ser bilingue e estar comunicável é fundamental. Em última instância, a decisão de não querer ouvir, aí sim, dependerá sempre, única e exclusivamente, do indivíduo em questão se assim o seu livre arbítrio permitir fazer acontecer.

A transição nem sempre é confortável. A confusão e o medo podem marcar negativamente as primeiras horas ou os primeiros dias, até chegar o entendimento de que as palavras rupestres que gesticulamos podem ser pronunciadas, reproduzidas num som que pode chegar até nós e tornar-se música para os nossos "ouvidos biónicos".

É um renascimento para um mundo sonoro, é um milagre, é magia... é isso tudo, as possibilidades são imensas e é fantástico poder acontecer.

Oscilações

por Maria Dulce Fernandes, em 11.10.20

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Em Dezembro de 2019 preparei Abril de 2020. Tem sido um destino adiado, principalmente pelas escalas nos voos até ao destino, duas na ida, uma na volta. Tudo com a Lufthansa, quando nós somos TAPpers de primeira água. Enfim, em querendo muito, não se pode ser esquisito e resolvemos agendar Dubrovnik, com duas escapadas, uma a Kravice e Mostar, e outra a Kotor e Budva.

Como é de calcular, não houve qualquer viagem em Abril e foi um filme conseguir remarcar, já que o reembolso nunca se pôs. Remarcámos para Novembro. Afinal fazemos quarenta anos de casados (é obra!) e merecemos oferecer-nos o presente de não ficar a arder com o valor já pago pela viagem. Ora, isto passa tudo até lá e vamos comemorar com a melhor vista para os muros da cidade velha.

Eis-nos então a praticamente um mês do acontecimento e estamos abalados nesta resolução com apenas duas opções: viajamos ou não viajamos.

No pico da primeira vaga retraímo-nos, receámos, acatámos, alterámos. E agora? Já chegou a segunda vaga ou ainda está em pré-campanha? Afinal o bicho é um globetrotter, caramba, atacando em força nos quatro pontos cardeais com todos os colaterais.

Vou contactar a agência para me aconselharem, tendo em consideração que tenho que oferecer algo, propor um qualquer upgrade, porque desta vez não encerrámos fronteiras apesar de os números contrariarem grandemente as previsões.

Não sei se quero arriscar. Mas se vou adiando para o final da segunda vaga, quem garante que fica por aqui? E depois vem-me sempre à ideia, não a tal frase batida, mas  aquela brincadeira com a estátua de Bocage em Setúbal (ainda no mesmo lugar e sem pinturas!), em que se diz que o poeta está com um corte de fazenda ao ombro, a aguardar pela última moda.

 

Foto do Google

O Blog da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 11.10.20

A sétima arte sempre me fascínou. Adoro cinema e filmes e TV e séries e documentários, música também... gosto de ler sobre as novidades, os remakes, os bastidores e principalmente as críticas.  

Costumo fazer uma ronda pelos blogues da especialidade, mas quedo-me mais pelo Split Screen. Nem sempre concordo com as opiniões, mas adoro as informações. 

Conversas em família (6)

por Maria Dulce Fernandes, em 20.09.20

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Uma espreguiçadeira ao sol, calor, água fresquinha, o som das ondas a marulhar uns metros abaixo... O livro aberto em cima da barriga molhada era um excelente indicador de total relaxamento e de preguiça também.

Primeiro ouvi o grito. Depois o choro. Em seguida as vozes dos comentadores da insipiência que se avolumavam. Sentei-me meio arrelampada tentando focar a figura que corria na minha direcção com a criança nos braços, que chorava e gritava copiosa e desalmadamente.

Peixe-aranha, diz ele com a respiração entrecortada. Foi um peixe-aranha. Peguei-a no colo. O André do concessionário já tinha ido pelo nadador-salvador. Posso ver, neta? Não! Não mexas! Dói! Dói muito, conseguia perceber-se balbuciado por entre o pranto incontrolado.

O salva-vidas chegou rapidamente, já equipado com um recipiente com água muito quente. Falou-lhe mansamente e depois de uns goles de água fresca pela garganta e rosto, conseguiu que se acalmasse um pouco e explicou como seguir à risca as instruções de pé in - pé out. Estiveram neste preparo uns bons 20 minutos. Só depois conseguimos ver o arranhão e o inchaço. Parecia ter pegado de raspão!

A neta estava sentada no meu colo, embrulhadinha que nem um rebuçado mole e lambuzado, sequiosa e a recompor-se do SPT  de todas as emoções.

Já não dói tanto, neta? Dói um bocado, mas tenho mais é uma sensação esquisita no pé. É natural, todo aquele calor de escaldão para sair a toxina, deixaram-te o pé, que já estava inchado, um bocadinho dormente.

Sabes avó, não sei como o peixe-aranha me mordeu. Eu estava distraída a brincar com o avô à beira-mar e não o vi chegar, mas não percebo como é que me mordeu sem eu o ver. Por exemplo, se um cão ou um gato me mordessem o pé, eu tenho a certeza que via, a não ser que fossem invisíveis. Bem, o peixe-aranha não é invisível, mas engana a vista. Enterra-se na areia apenas com os olhos de fora… E com a boca também avó, senão como é que pode morder? Pois, a questão é assa mesmo. O peixe-aranha não morde. Olha, avó, a ti não sei, mas a mim mordeu-me bem. Sabes que os peixes têm barbatanas? Sei. A barbatana dorsal é aquela que abre em leque na costas. Esse peixe, que é um patifório da pior espécie e tem uma espécie de veneno chamado toxina na barbatana, enterra-se na areia com a dita cuja aberta de modo a poder ser facilmente pisado por um pezinho incauto que ande a cirandar pela beira-mar. Eu não andava a cirandar, andava a molhar o meu avô e não fiz mal ao peixe-aranha para ele me picar. Pois não, calhou. Estavas a passar pelo sítio em que ele estava escondido e pisaste-o na altura em que ele tinha a barbatana aberta. Então foi mesmo por acaso. Foi, foi mesmo coincidência. Mas sabes, avó, “essa coincidência foi mesmo muito dolorosa e causou uma estranha impressão”.

E eu tenho a impressão que a minha neta nunca irá parar de me surpreender, coincidência ou não.

Amanhã acaba o verão.

Conversas em família (5)

por Maria Dulce Fernandes, em 02.09.20

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Estou, mãe? Diz. A tua neta quer falar contigo. Tem uma aventura para te contar. Ah sim? Deve ser uma grande aventura, pois se saiu daqui faz pouco tempo, mas que venha de lá a aventura. Estou, avó? Então neta, conta lá as tuas façanhas. Não é azenhas, avó, é mesmo uma peripécia. Não consigo deixar de sorrir quando ela joga estes ases vocabulares. Estou à espera, podes começar. Então… conheces aquele parque ao pé da minha casa, aquele que tem muitos espaços com água? Conheço. Então,  hoje fomos até lá para distrair o mano e sentámo-nos na beira da água. A água estava morninha e eu disse à minha mãe que me apetecia mesmo dar um mergulho. Então comecei a borrifar o meu pai e cheguei mais para dentro para alcançar mais água. Silêncio. E então? Então, não sei como, splash! Caí dentro de água! Com a minha roupa e os meus sapatos e tudo. Não acredito! É verdade, avó. Tive que voltar para casa embrulhada naquele cobertor branco com um ursinho que costuma estar por baixo, no carro do mano. Que maluquice, neta! Isso é que foi uma aventura, mas só prova que foste pouco cuidadosa e que tens que ter mais atenção durante as brincadeiras. Estás enganada, avó. Prova é que os nossos desejos se podem realizar!
Pois é… será que ver o copo meio vazio é sinal de maturidade ou apenas pessimismo?

 

Foto de Paulo Oliveira retirada do Google

Conversas em família (4)

por Maria Dulce Fernandes, em 22.08.20

 

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Altura estava excelente. A praia, o sol, o bulício qb de veraneantes, os restaurantes a meia haste pela falta da clientela que não pode ou não quer arriscar as ameaças da pandemia…
Foram duas semanas de grande diversão, mas o regresso era inevitável e na viagem de volta a casa, as saudades em suspenso ressurgiram e juntamente com elas a perspectiva da diversão continuada dos últimos dias.
Estávamos todos ansiosos e sequiosos dos abraços e dos carinhos que não têm virus que os refreie.
E lá foram eles atrás dos gatos esquivos e medrosos, mais dados a mariquices de velhos do que a afagos de crianças. A Sally, talvez para mostrar o novo look pós tosquia de Verão, foi-se chegando e dignou-se ronronar e permitir umas festinhas, o que deixou a neta feliz e encorajada para a brincadeira. Foi uma tarde divertida aquela.
Avó, achas que posse levar a Sally emprestada, só por uns dias, comigo para a minha casa? Não acho boa ideia, neta, os gatos são muito territoriais e estes não estão habituados a outras casas. Não  iriam sentir-se felizes na tua casa. Iriam sentir a falta dos seus espaços, percebes? Não. Lá na minha casa também tem espaços. É verdade que tem, mas o Dean e a Sally, como muitos outros gatos, cresceram num espaço específico, que é esta casa e que eles consideram ser o seu território, ou seja o seu lugar pessoal. Sabes o que é o olfacto? É o cheiro? Isso. Os animais reconhecem-se pelo cheiro. É por isso que eles andam sempre a cheirar os rabos, avó? ( sorriso maroto) É sim. E também reconhecem pelo cheiro os seus lugares favoritos, camas, casa de banho, bebedouro, comedouro… As cadeiras, as costas dos sofá, as pernas do avô ( sorriso rasgado). Isso mesmo. Ora tu não tens nada disto lá em casa, por isso eles iriam sentir-se meio perdidos, tristes e com medo, percebes? Como tu, nos primeiros dias de férias quando à noite as sombras, diferentes das do teu quarto, te pareciam vampiros atrás da porta. Ah, mas isso foi no ano passado quando eu era pequenina. Pois sim (sorri) mas sabes que podes vir para cá sempre que quiseres e a gataria estará por aí para ires brincando com eles, não sabes? Sei. Sabes avó, acho que eu também sou capaz de conhecer o teu cheiro! Isso é porque tu és uma gatinha tola.

 

Conversas em família (3)

por Maria Dulce Fernandes, em 13.08.20

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Agosto de 2019, Lourinhã, Dino Parque.


Avó, sei que hoje é o teu aniversário, mas será que posso ter também um presente? E que presente seria esse? Um "Pequenodaclet" em esqueleto dentro de um tijolo. Queres dizer um Pterodáctilo não é? Não. Esse não conheço. Queria mesmo um Pequenodaclet. Acho que é mais pequeno e engraçado. Deve ser bem fofinho não achas avó? Então não acho !

Conversas em família (2)

por Maria Dulce Fernandes, em 05.08.20

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Depois de alguma leitura e muitas séries de TV, o sentimento de inutilidade instalou-se-me pesadamente no espírito e no corpo . Quanto menos fazia, menos me apetecia fazer. Comer , surfar o sofá e ver a família no tablet… farniente começava a não fazer qualquer sentido.

A casa de brincar da neta deu o mote e a partir daí demos largas à imaginação; fizemos 50 postais, uns a raiar o kitsh, outros mais compostos, qualquer coisa de BD, caricatura Burtoniana, loucura canastrona, sei lá , quase um por dia, exceptuando aos fins de semana.

Foi muito engraçado. Muita gente riu e chorou a rir. Amigos, amigos de amigos, conhecidos e estranhos enviavam mensagens com sugestões no género de “ discos pedidos", muitos quadros eram exequíveis e realizados, outros nem por isso, mas a sua louca idealização foi motivo de muitas gargalhadas.

Eis-nos então chegados ao vigésimo sexto dia do mês de Maio de 2020, 71° dia de confinamento. Pela primeira vez desde que foi declarado o estado de calamidade iríamos ter a neta , a fã número um das nossas produções, a passar o fim de semana connosco e a ter uma participação especial- a actriz convidada - nos projectos.

Chegou. Estava excitadíssima e apesar de confidenciar que gostava mais de papeis femininos, acedeu a representar o meu guerreiro gaulês favorito.
Sabes avó, tenho receio de não fazer bem esse personagem. Eu nem sei quem é o Asterix! Anda lá então aprender um bocadinho, que um bom actor tem que conhecer bem quem vai representar.

Sentámo-nos com o último livro no colo. Então… o Asterix é um valente guerreiro de uma aldeia situada numa terra chamada Gália ( que agora se chama França, já ouviste falar de França. Já!). Ele e os outros habitantes protegem a aldeia e não deixam que os palermas malvados dos romanos os conquistem. O Asterix é um homem pequenino… Um homem pequenino? Sim, mais pequeno do que a maioria dos homens. Assim como o Mateus? Maior do que Mateus. O teu colega Mateus é um menino. Percebi-lhe alguma confusão. Por muito pequeno que um homem possa ser, é sempre enorme na perspetiva de uma criança de cinco anos. Então… o Asterix é um baixinho muito valente e forte e tem um grande amigo , que é o Obelix, o gordo comilão . Como o mano? Mais ou menos, ele é comilão, mas este é grande , forte e barrigudo. Consegue comer um javali inteiro com duas dentadas. Riu com gosto enquanto folheava o livro e fazia perguntas sobre os personagens conforme iam aparecendo. E depois há o Panoramix, o druida, que é uma espécie de mágico e que faz caldeirões com poção mágica para dar força aos aldeões e os tornar invencíveis. Quando souberes ler, havemos de ler todas as aventuras de Asterix, queres? Está bem! Resumindo , o Asterix é o gaulês mais importante de todos e és tu quem vai representá-lo. Achas que consegues? Acho! Então vamos lá.

Depois de um almoço ligeiro, começamos a preparar o set e a caracterização, alinhavou-se o guião, Acção! Depois fomos editar a foto com a bonecada que se impunha, enquanto a curiosidade esvoaçava à solta como um pé de vento doido e as perguntas choviam loucas como um aguaceiro tropical. Avó, fico tão estranha com o bigode e a peruca!
Olhava sorridente para a foto. Se calhar devia ter tomada poção mágica , avó. Estás óptima, neta! Olha, ajuda o avô a tirar a barba! Avô, quase que pareces o Pai Natal, mas sem presentes! Gostaste, neta? Gostei! Mas, sabes, avó, estou aqui a pensar que era muito engraçado fazermos o Per Pan e eu ser a Sininho. Também acho ; fazemos da próxima vez, está bem? A próxima vez pode ser amanhã? Amanhã? Mas a avó não preparou esse filme neta, nem sei se temos adereços. Vá lá, eu ajudo, vai ser tão divertido!
Como dizer que não?

 

Conversas em família (1)

por Maria Dulce Fernandes, em 01.08.20

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Primeiro veio a desilusão. A ideia acalentada da piscina na cozinha não era de todo exequível e fora substituída por dois borrifadores meios de água. Acatou e adaptou-se, com aquele dom tão cândido que os pequenos possuem, para lidar com as questões existenciais. Borrifo, portanto existo, é quase tão bom como chapinho, portanto existo, e ainda posso dar uma abada na avó.


E foi assim que começaram as hostilidades ao som do jingle do Intermarché. Entre risos, borrifos e escorregadelas passámos vinte minutos deliciosos e acabámos que nem uns pintos, cansadas mas satisfeitas. Roupa enxuta, waffles com agave e uma caneca de leite, bem enroscada e com um sorriso de orelha a orelha, pediu-me para ir buscar a lata velha e lhe contar as histórias dos retratos, principalmente aqueles em que eu estou em bebé ou criança novinha. Calculo-lhe o espanto e a confusão e sorrio, tentando explicar cada foto o mais descomplicado possível, de modo que lhe seja possível entender a evolução que resultou na pessoa  que ela conhece desde sempre, mas não se produziu do éter na forma em que hoje se apresenta. A avó, como todas as pessoas que conheces, já foi bebé. Mais pequenas do que o mano? Muitas delas sim! Ri-se divertida à ideia de eu, o avô, a mãe e o pai termos usado fraldas. Antigamente eram de pano. De pano!? Sim, fechavam-se à altura da barriga com alfinetes de ama e usavam-se com uma cuequinha de plástico por cima para conter os molhados. E depois, jogavam-se fora, os panos? Não! Sabes o que quer dizer descartável? É que se pode deitar fora? É isso mesmo. Mas antigamente não havia descartáveis. As garrafas devolviam-se, as latas lavavam-se e davam-se ao funileiro. Não havia sacos de plástico, por exemplo, a avó velhinha ia às compras com uma alcofa. De bebé? Não neta, de palha. Era a alcofa de ir à praça.


Tínhamos frigorífico, fogão, esquentador, televisão, telefone e aquecedores a gás. E mais nada.
Nada de máquinas de lavar, secar, microondas, computadores, tablets, telefones… sei lá.


Olha as fraldas, por exemplo, eram lavadas num tanque com sabão azul e branco ou sabão Clarim, que é meio amarelado. O que é um tanque? É para peixes? Também há tanques para peixes, mas estes eram tanques da roupa. Todas as casas tinham um tanque de cimento para lavar à mão, isto muito antes das máquinas de lavar. Enchia-se com água, punha-se lá a roupa, ensaboava-se e esfregava-se na “tábua" que neste caso era de pedra. E porque é que nas casas já não há tanques? Porque deixaram de ser funcionais e eram muito grandes e pesados.


Sabes, avó, tenho pena que já não tenhas um tanque em casa. Punha-se na cozinha, enchia-se com água e fazíamos uma mini-piscina. Havia de ser muito giro, havia.

 

Imagem do Google

And now for something completely different

por Maria Dulce Fernandes, em 18.07.20

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Ahhh!! Que saudades do pernil de porco estaladiço servido em cama de sauerkraut e batata assada, com que te lambuzaste até mais não, acompanhado de colossais litradas de cerveja, trazida para as grandes mesas corridas em potentes púcaras de vidro grosso com uma pega de lado, pesadas,luzidias, douradas, prontas a serem erguidas sem esforço qual martelo do Deus do trovão, e dentro da tua boca, deixar escorrer suavemente para a garganta saboreando, contemplando mil prazeres...

Ahhh! Que saudades das intermináveis filas paras os WCs (a cerva assim o impunha) onde muita piquena e tanto homem de barba grossa não conseguiam aguentar a espera, e poças amarelas salpicavam o chão do recinto aqui e ali, secando ao ar frio e saturado de lúpulo, um odor que misturado ao das Bratwurst e da couve azeda era acre, enjoativo, fedorento.

Ahhh!!! Que saudades de sentires o vomitado do vizinho de trás, quente, nojento, repugnante, atingir-te como um jacto de visco fétido no teu cabelo, no teu pescoço, dentro da tua roupa, a escorrer pelas tuas costas.

Ahh!! Que saudades de teres finalmente uma sanita só para ti e olhares para ela e teres vontade de fugir a sete pés e de ir mi… urinar atrás duma tenda qualquer.

Ahh!! Que saudades de gastares dois pacotes de lenços de papel, não deixares nem unzinho para o fim e teres ficado naquele momento em que puxaste a cuequinha para cima com a clara ideia do que é ser-se incontinente.

Ahhh!! Que saudades, as de te sentires um odre de cerveja a rebentar pelas costuras e decidires ver a cidade bem do alto da grande roda! Qualquer perito forense teria um field day a colher infindas amostras de ADN de múltiplos dadores, anónimos, mas com a característica comum de estarem todos a cair de bêbados e bem acima do limite de álcool permitido por qualquer lei.

Ahhh!! Que saudades, as de contribuíres para a fluidez do chão da cabine que subia subia e rolava rolava, e de não teres qualquer tipo de lembrança da magnífica vista panorâmica sobre a cidade e o recinto da feira da festa.

Ahhh!! Que saudades de decidires "yodelar" como uma maluca "Ho-la-la-ee-ay-Ho-la-la-ee-ay", dares saltinhos ridículos e palmadas nas pernas, vá lá saber-se porquê...

Ahhh!! Que saudades de desatares aos gritos feito uma histérica quando dois teutões, pesados e cabeçudos, decidiram iniciar uma peleja com canecas de cerveja vazias.

Ahhh!! Que saudades de, bem tarde na noite, saíres do recinto e descobrires que te tinham rebocado o carro...

Ahhh!! Que saudades dos Polizei que te obrigaram a ficar na esquadra enquanto os teus familiares foram levantar o carro ao parque dos rebocados ...

Ahhh!! Que saudades de os teres mandado para todos os lados que te lembraste com a certeza cobarde de que te não entendiam...

Ahhh!! Que saudades de poderes fazer todas estas m%rdas sem caíres para o lado logo a seguir....

Ahhh!! Que saudades da autenticidade, ainda que afogada em birra da boa.


Foi num distante Setembro, numa Festa de Outubro... Ahhh!! Que saudades… !!

Blogue da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 12.07.20

Escolhi para Blog da Semana A Mãe Imperfeita. À primeira vista pode parecer um tanto frívolo, mas, para além de contar sobre a maternidade em geral, relata o dia a dia de uma família que, como tantas outras, aprendeu a lidar maravilhosamente com a hipoacusia profunda, algo que me interessa particularmente. Com alguma ironia e muito humor à mistura, “porque a maternidade é difícil e as mães precisam de rir"… e as avós também.

Pensamento da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 05.07.20

Tenho para mim que, se o chamado "novo normal" significa aprender a viver e a conviver com uma praga, então esse tal normal não trouxe nada de novo.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Veritas odium parit

por Maria Dulce Fernandes, em 29.06.20

SILLY GOOSE


There’s a silly goose
with a BIG CABOOSE
who
can’t fit through the door.

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Cada um tem a Regina Duarte que merece.

 

Foto do Google

Férias de Verão

por Maria Dulce Fernandes, em 26.06.20

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A Prima Rosalina era uma doce avozinha de Botero, com os seus olhos azuis e cabelos claros. Vivia em Cascais com o primo Manuel e com a Lena, uma menina ainda mais linda do que os pais. Ir a casa da Prima Rosalina era prenúncio de um bom domingo. A conversa durante a viagem era invariavelmente doce e salgada. Falávamos de mousse, de pudim e arroz doce, mas sobretudo de “batatas de pacote" que a Prima Rosalina fazia como ninguém. Às rodelas fininhas, secas e salgadas, as batatas da nossa prima faziam crescer água na boca de qualquer miúdo guloso. Enquanto os crescidos salivavam perante uma travessa enorme de mão de vaca com grão, os putos enchiam-se de batatas e doces, porque eram assim os domingos em Cascais em casa da Prima Rosalina. O Primo Manuel, com os óculos na ponta do nariz risonho e paciente, ensinou-nos a tocar os primeiros acordes no piano lá de casa e tinha um conhecimento enciclopédico sobre todas as coisas.


A casa de Alfeizerão fazia parte do espólio de magia da Prima Rosalina. Situada nos Casais do Norte, a vivenda Cruz era uma casa térrea com água furtada, quase paredes meias com uma enorme herdade de criação de bois de cobrição. A casa era alegre, com muitos quartos e anexos, decorada eclecticamente, uma cozinha enorme com muita loiça de barro e grandes vasos com tampa e torneira para a agua que provinha de um poço no exterior com uma bomba de alavanca, no melhor estilo Vovó Donalda e que fazia parte do nosso exercício matinal.

Tinha recantos fascinantes e imensos retratos da Amália, que chegou a fazer parte da família durante os anos em que foi casada com o Primo Chico, que sempre tive como uma simpatia de pessoa, mas cuja única nota alta no filme de 2008 foi ter sido interpretado pelo José Fidalgo.


A casa de Alfeizerão tinha a grande vantagem de ficar a 10 minutos de carro de S. Martinho do Porto, freguesia do concelho de Alcobaça que tem apenas a mais linda baía valviforme da Costa de Prata e uma praia fabulosa.


Cedinho, depois de grandes fatias de pão escuro torradas com manteiga caseira das vaquinhas da mãe da Celeste na quinta ao lado, ia-se ao mercado a S. Martinho, que fervilhava de agricultores, fregueses e aromas campestres, e de imediato se caía de chapão nas águas frescas da praia que proporcionava aos nadadores de banheira muitos metros sem perder o pé.


Depois de um peixinho fresco directo do grelhador do quintal com a manteiga, e com limões e salsa acabados de colher, as tardes eram invariavelmente de preguiça. Numa espécie de tabacaria minúscula entre o talho e a padaria, encontrei os primeiros três volumes das Aventuras de Tarzan de Edgar Rice Burroughs, excelente leitura de férias para os meus 14 anos. Nas tardes menos quentes, íamos até à herdade ver os bois, enormes e pesados, que se estivessem em acção não poderiam ser “incomodados" pela presença de crianças, ou, liderados pelo Mano, mobilizávamo-nos pelos campos adentro para a apanha do caracol, que trazíamos em sacos de pano e ficavam no alguidar grande coberto com uma rede fina, para limpar durante uns dias.

Claro está que o Menino divertia-se a tirar a rede e a ver a caracolada “fugir” pela casa fora. Exceptuando uns gatitos, uma data de aranhas e os animais da quinta da mãe da Celeste, o pobre Menino não tinha muito para traquinar.

Outras vezes passeava-se pela costa ou dava-se um pulinho a Alcobaça, que tinha mais comércio. Quantas vezes não esperei com os meus livros na frescura do mosteiro...

O ponto alto das noites eram os pirilampos e as estrelas no céu. Num qualquer recanto campestre mais escuro, garanto que era difícil perceber onde terminavam uns e começavam as outras. Só agora consigo entender bem o significado daqueles suspiros profundos de satisfação que aqueciam e reconfortavam o coração.


Tempos de férias fabulosos, estes, antes do pai se apaixonar por Lagos e Pedras d'El Rei. Só voltei a Alfeizerão e S. Martinho há pouco tempo. Creio que existem os Casais do Norte, a casa, não garanto. Um prédio por outro aviva a memória mas nada, nada mesmo, faz lembrar sequer a casa do Pão de Ló que comíamos à boca cheia.

De volta à estrada

por Maria Dulce Fernandes, em 21.06.20

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Dulce, a pasta com os mapas está onde? Vi-a em cima da credência, pai. Se lá a viste, lá ficou. Vai buscá-la e deixa a porta bem trancada. Anda lá que está toda a gente à espera. Corri lance após lance, degraus dois a dois (sim, é verdade, acreditem!) até ao terceiro andar, peguei a pasta e voei escada abaixo. Os amigos já nos aguardavam, aqueles que não sendo da família em que nascemos, são a família que escolhemos e éramos inseparáveis. Os Afonso eram três, um casal com uma filha, a Tita, e os Silveira eram quatro, o casal, a Mica e o Gil, que o mano rabiava e apelidava de Gileia, por ser para o anafado.

Íamos todos partir de viagem e sempre que saíamos com o carocha atravancado com a proverbial data de tralha e equipamento essencial ao campista moderno, toda a vizinhança vinha dizer adeus à janela e desejar boa viagem. Adeus D. Sofia! Adeus D. Jo! Adeus!! Boa viagem! Adeus!

O destino era Andorra-la-Vieja, capital e principal cidade do pequeno principado de Andorra encalhado nos Pirenéus, verdinha e fresca no Verão e branca e fria no Inverno, apelativa para caminhadas e prática de desportos na neve, vivia e ainda vive do comércio e do turismo. Como as marcas consagradas mundialmente não pagam impostos nos seus representantes em Andorra, os preços são convidativos, num permanente ambiente de Outlet, que era exactamente o que os amigos Afonso procuravam: a André Jamet e uma tenda com duas assoalhadas e cozinha.

 

Metemo-nos à estrada, cada família no seu carro, e entre cantorias e despiques chegámos a Talavera de la Reina onde passámos a primeira noite. Dali seguimos para Toledo. Adorei Toledo: a sua catedral, o seu ar medieval com espadas e armaduras em todos os pontos de comércio, a glória de Espanha, nas palavras do da triste figura.

Seguiu-se um detour para visitar a imponência do Valle de los Caídos, que é exactamente isso, imponente. Continuámos viagem e pernoitámos em Fraga, estreando um pequeno hostal recém construído, Las Brujas. Foi uma noite memorável.

 

A seguir ao jantar um céu de breu trouxe raios, trovões e um dilúvio. Acomodados nuns quartos catitas a cheirar a novo, ouvíamos os estrondos lá ao longe, encantados pelo aconchego dos lençóis.

De repente, boom! E tudo ficou escuro. Um apagão! A luz que entrava nos quartos era a que vinha da janela e apenas quando havia relâmpagos. Subitamente  o som de alguém a regurgitar, passos apressados e corpos a cair fez-nos sentar na cama meio desnorteados e completamente assustados, até outro som, o de incontroláveis gargalhadas chegar até nós, cada vez mais forte.

Qual enredo de tragicomédia, o Gil foi deitar-se indisposto e apavorado com a “noite nas Brujas”, extravasou a indisposição pelo chão, incapaz de, no escuro, localizar a porta da casa de banho. A sua mãe foi em seu auxílio e pumba, escorregou e caiu. O pai foi em auxílio da mãe, mas não teve melhor sorte e pimba, no chão. Os amigos nas outras suites vieram em socorro com fósforos acesos, acabando por se perder nos corredores… enfim. Ninguém dormiu muito, mas rimos que nem doidos.

Ainda hoje a história da noite nas Brujas nos leva às lágrimas.

 

A manhã seguinte cheirava a chuva e a verde e, depois de mais uma barrigada de riso, voltámos à estrada e chegámos finalmente a Andorra, quedando-nos por Encamp, Camping Meritxell, um paraíso para o campista habituado ao pó: era frondoso, arrelvado e com um ribeiro límpido e borbulhante.

Cada um foi à sua faina de estacas e cordas e ficámos prontos num par de horas para a primeira noite nos Pirenéus.

De manhã, enquanto os adultos foram ao minimercado eu, o mano, o menino, a Tita, a Mica e o Gil, fizemos o reconhecimento do camping e sentámo-nos a ler tranquilamente, todos com o recado de que não se podia deixar o menino sem vigilância, nem por um segundo que fosse. A verdade é que um segundo é seguramente uma infinidade de tempo…

Com os adultos de regresso ao Camping, almoçámos e preparámo-nos para ir às compras, quando demos pela falta dos chinelos. Ninguém tinha trazido os chinelos? Eu guardei os meus! E eu! Eu também!… Como que movidos por um magnete olhamos todos para o menino que sorria, safado e feliz… tiraste os chinelos? Para quê? Fiz corridas de barcos no ribeiro, retorquiu o pequeno patife com aquele olhar de céu travesso… bem que os procurámos, mas o mais certo seria terem já desaguado no Mediterrâneo... o que vale é que em Andorra o comércio é rei e tinham chinelos de todas as cores e feitios.

 

De Encamp sai o teleférico que sobe até ao pico Els Cortals. Fomos todos. Em 1976, as cabines eram pequenas. Não mais do que três pessoas por cabine. Depois de instalados, eu e o mano resolvemos asnear, nem sei porquê, mas chegou-nos a brilhante ideia de abanar a cabine na horizontal armados em thrill seekers, dare devils ou simplesmente palermas. Felizmente não teve desfecho trágico, mas valeu-nos sobejos ralhetes e descomposturas descomunais.

Lá em cima era lindo e valeu por tudo: a vista, o lago azul que espelhava o céu.

Os visitantes, homens principalmente, provavam a sua virilidade, ou fibra, vá, segurando com uma só mão um porrón, jarro de vidro de boca estreita e bico comprido cheio de vinho tinto. Com uma mão atrás das costas, tinham que beber sem tocar com a boca no bico do jarro nem sujar a roupa com vinho. Escusado será dizer que muito poucos desceram a Encamp com as camisas limpas.

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Depois de os Afonso se decidirem por uma tenda azul e branca e pelos apetrechos necessários à arte de bem acampar, deixámos Encamp, Andorra e os Pirenéus rumo a Barcelona. Já em Andorra os Silveira tiveram notícias menos boas de Oeiras. Barcelona foi de fugida, Valência também e regressámos a Lisboa muito mais cedo do que o previsto e ainda a tempo de passar as duas últimas semanas em Albufeira, mas desta feita com a tenda em casa.

Nada

por Maria Dulce Fernandes, em 12.06.20

Quando tudo vale tudo e tudo vale nada.

Boa sexta-feira. 

 

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Cartoon obtido na internet

On the road again

por Maria Dulce Fernandes, em 10.06.20

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Depois da Grande Aventura Europeia, o meu pai começou a enfastiar de conduzir. Trocou a Variant por um Carocha cor de areia e sedentarizou os nossos dias de férias, que é como quem diz, passámos a acampar “cá dentro”, mais especificamente em Lagos, no Parque de Turismo, com tenda montada de Março a Setembro, não sem antes termos vivido duas aventuras meio loucas, uma em Andorra e a outra em Algeciras e Marrocos. É destas que falarei primeiro, começando de sul para norte.

Com o Carocha escachado sob o peso da tenda e apetrechos indispensáveis a qualquer bom campista que se preze, mas com a panache tão típica do meu pai, deixámos Lisboa rumo a Algeciras num Agosto magnífico de 1977. Desta feita íamos apenas os cinco, o pai, a mãe, eu, o mano e o menino já com sete anos, um pirralho levado da breca.

Primeira paragem em Sevilla, descarregar o carro, jantar e dormir, que viagens longas de automóvel sem ser por autoestrada são uma estafa. No dia seguinte o pai e a mãe tiraram a manhã para ir às compras com o menino e eu e o mano fomos almoçar fora. Os dois. Sozinhos! Coisa insólita e meio atrapalhada, mas tirámos o melhor partido que pudemos.

E lá seguimos para Algeciras onde chegámos a meio da tarde. Camping Costasol. Cheio, quase indisponível, barulhento e bastante poeirento, mas era o que havia.

Montar a tenda, encher colchões, arrumar a data de tralha, não perder o menino de vista… tudo tarefas hercúleas, principalmente a última, que garantidamente o semideus riscou dos seus 13 trabalhos.

O jantar e a noite passaram-se em sobressalto com o barulho dos camiões a acelerarem ali do outro lado da sebe, mas rapidamente chegou a alvorada e o dia amanheceu lindo. Partimos rumo à cidade prontíssimos para embarcar no ferry para Ceuta, para o primeiro de quatro dias em Marrocos: Ceuta, Tetouan, Chouen e Tanger.

A minha primeira impressão de Marrocos foi o cheiro. Era uma mescla de pó com suor, especiarias, curtumes e sebo. Ceuta - muita gente, muita confusão. Como em tudo o que é excursão organizada, tínhamos à nossa espera um guia e um autocarro. Tour pelos pontos turísticos mais importantes, as muralhas da cidade velha, casa dos dragões, Plaza de los Reyes, o tradicional souk, os camelos e as cobras para a fotografia, tudo isto sempre com um olho no camelo e o outro no menino.

Almoço e partida para Tétouan, a Joia do Rif. Ampla, bonita, moscada e de labiríntica medina, Tétouan traz-me as primeiras agradáveis recordações de uma civilização diferente e afável do nosso primeiro contacto com a África setentrional. O hotel era simpático, apesar de as camas terem ar de dormidas, mas parece que há 40 e tal anos as infraestruturas para desenvolvimento das povoações interiores e do turismo ainda deixavam e deixariam muito a desejar.

No dia seguinte o azul e branco de Chouen, entalado entre montanhas do Rif, com vistas estupendas, em que o nevoeiro brincava às primeiras horas de luz por entre cristas e picos até se diluir no azul do céu. O bairro Andalui, a medina, um souk com moscas a mais e contínua abordagem para oferta de substâncias ilícitas, gente risonha. Muita carne caprina às refeições e felizmente muita e variada fruta. Compras, eram um desnorte. Mostrar interesse, por mínimo que fosse, em qualquer artigo produzia uma marcação cerrada e feroz e uma perseguição contínua por parte dos vendedores até à capitulação total.

Mais uma alvorada e nova partida, desta feita para Tanger. Passeio e almoço em restaurante típico com muita música, dança do ventre e o melhor chá de hortelã que já bebi.

Regressámos a Algeciras e ao camping e nos dias seguintes deambulámos por Marbella, Fuengirola, Torremolinos… as praias mais in do sul de Espanha, com águas cálidas e a areia escura. Meu belo Algarve de praias douradas…

Foi então que a minha mãe teve a feliz ideia de voltar a Ceuta para umas comprinhas que não teria podido fazer, porque o menino era ocupação e preocupação para todos os minutos de todos os dias passados pelas terras de Alah.

Combinou-se que ficaríamos os três filhos confinados ao Camping, prometidos e comprometidos a vigiar o menino com olhos de águia. Assim foi. Tudo para a piscina! Confinada a um espaço só com um acesso, bastante grande e com água corrente contínua que jorrava da boca de um leão colocado a um dos topos, espreguiçadeiras e sol, convidava ao lazer e à preguiça.

Tão bom a sonolência, tão calmo tão… sísmico? Tudo a correr e a fugir e a barafustar, sentei-me na cadeira com o coração aos pulos, “Niño Loco, niño loco" mas o quê? Quem? Eis senão quando consigo entender a causa de tanta confusão: o niño loco não era outro senão o menino que, qual enguia, se esgueirara de mansinho, escalando a cabeça golfante do leão que alimentava a piscina e travava risonho e feliz a saída da água com ambas as mãos e braços, de tal modo que encharcava violenta e caudalosamente tudo e todos em seu redor. O problema foi conseguir tirá-lo de lá. Ninguém saiu ileso, ou enxuto, vá lá.

Um buraco! O meu reino por um buraco! Eram descomposturas em catadupa nos mais variados dialectos. Eram pedidos de desculpa mal amanhados e envergonhados enquanto se lutava com braço do malandrim, que insistia em voltar à acção.

A partir desse dia, assim que o niño loco entrava na piscina, todos os utentes iam mudando a espreguiçadeira de lugar, porque bastava um segundo a olhar noutra direcção para o patife voltar à carga.

No fim olhava para as caras zangadas com aqueles olhos brilhantes cor de água emoldurados pelas melenas douradas e desarmava tudo e todos, que ainda acabavam por lhe comprar gelados. Que safado.

O niño loco voltou para casa em Lisboa, mas passados dois anos uns amigos que acamparam no Camping Costasol calhou mencionarem o niño loco. Não havia funcionário que se não lembrasse. E tiveram direito a um gelado cada, como mandava a tradição.

Bom Dia de Portugal para todos.

Violência

por Maria Dulce Fernandes, em 08.06.20

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É imperativo combater a violência. 

É necessário combater todo o tipo de violência, porque há violências bem mais violentas do que a violência física,  passe o pleonasmo. 

É importante a manifestação e o protesto. Mas também é importante não desrespeitar as fracas leis com que a sociedade dos homens se cose.

Incentivar à violência redunda neste tipo de aberrações. As intenções podem ser boas, as mensagens também, mas os receptores seguramente não são.

Porque há quem não entenda e exacerbe a violência ao estado de triste vergonha.

Terrorismo

por Maria Dulce Fernandes, em 02.06.20

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Li hoje na imprensa internacional disponibilizada online que as pessoas aproveitam qualquer pretexto para se amotinar, saquear e pilhar, normalmente em nome da igualdade e da justiça.

A morte de um ser humano às mãos de um seu semelhante nunca é um “qualquer pretexto". É um acto de extrema barbárie, independentemente do contexto. Não tem desculpa nem justificação. É algo deontologicamente desprezível e totalmente inaceitável na cultura ocidental.

Dito isto, pergunto-me se amotinar-se, saquear e pilhar se justificam pelo sentimento de revolta, genuíno e esmagador, em crescendo contínuo na sequência da morte violenta e sem sentido de mais um ser humano às mãos de quem o devia ajudar e proteger. Mortes, violência sem justificação nem sentido acontecem infelizmente todos os dias e a todas as horas, por esse mundo fora, e a grande maioria nunca chega ao nosso conhecimento.

O que é que esta morte por brutalidade policial tem de diferente de todas as outras? Nada. Não tem nada de diferente. É mais um crime contra a humanidade, como tantos milhares de outros crimes. Apenas o mediatismo é extrapolado: apela à revolta, à instabilidade e ao terrorismo. Apela ao medo e à justiça sumária. Apela à selvajaria. Apela ao crime.

Não é possível apagar um crime hediondo praticando milhares de outros que tais, igualmente injustificáveis e desprezíveis.

Se moralmente poderão estes levantamentos populares na sua essência,  serem considerados actos de terrorismo? Podem, sim. Este "fim" não justifica os meios. De modo nenhum.


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