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A montanha mágica

por Maria Dulce Fernandes, em 06.01.20

O peso dos anos e o peso das ancas, quando unidos, conseguem seguramente desmoralizar um monge tibetano. Nada que não pudesse ter sido evitado, portanto, mas tirando um bom livro ou uma viagem sonhada, que outros prazeres mundanos e reconfortantes nos restam?
As festas deixaram de ser as festas como as conhecíamos, à medida que os presentes à mesa se foram fazendo representar por uma ausência doída. É verdade que a alegria das crianças é contagiante e balsâmica, mas também sublima a saudade e agiganta o apartamento.

 

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Encontrar o caminho para o lenitivo espiritual através do estômago é a fórmula milenar mais básica e mais cliché que existe, mas também a mais praticada. E já que a carne é fraca, coma-se em dobro.
Janeiro é o mês da montanha mágica, aquele excesso acumulado na cintura de muitos hidratos de carbono, açúcares, lípidos e imoderações proteicas. O nosso Castorp interior transforma num ápice três semanas em sete anos ou numa eternidade, porque a nossa montanha desafia o tempo e a vontade.
O peso da corpulência está em proporção directa ao peso da consciência e inversamente ao da tendência feita carência, derrotando em toda a linha a paciência.
A solução é simples acrescida de um tremendo grau de dificuldade, e é aí que nos agarramos ao tempo, porque o tempo das pessoas não interessa para nada e é bem quantificado ao mês.
Em assim sendo, respiramos fundo e assentamos todos os meses voltar à montanha mágica no mês seguinte, subindo e descendo as assomadas em frequentes oscilações alimentares.

Ressurgimento

por Maria Dulce Fernandes, em 03.01.20

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Logro, embuse, encenação,  mentira...

Acreditar, aceitar, louvar...

Duvidar, condenar, aniquilar...

Pensar, decidir, agir...

Paz, guerra, extinção...

É um fardo demasiado pesado para a ignorância dos homens poder decidir.

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Com a casa às costas - 1

por Maria Dulce Fernandes, em 28.12.19

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Depois da Grande Viagem, o pai tomou o gosto pelos longos passeios, mas sem ser rico e com um agregado familiar de cinco pessoas, um cão e um cágado, era difícil marcar férias num resort à beira-mar ou num paraíso na montanha.
Tivemos o primeiro contacto com o campismo quando uma amiga da mãe deixou a tenda montada no Parque de Campismo da Foz do Arelho, para que pudéssemos usufruir de uns dias. Completamente ignorantes do conceito (e de tudo o resto), fizemos uma data de asneiras, mas é assim que se aprende. Aprendemos e gostámos tanto que voltámos nos anos seguintes, claro está melhor equipados.
A família em Amstelveen, quando veio a Lisboa de férias, trouxe consigo uns amigos holandeses, que se fizeram acompanhar de uma tenda nova, com três quartos, cozinha e avançado, que seria nossa sem necessidade de desalfandegar. Truques daqueles tempos.
Tínhamos como contrapartida uma tenda de dois quartos e sala preparada no Parque de Campismo da Costa da Caparica a pedido da família, e uma grade de cerveja Sagres para o Johann, que a bebia em todo o lado, fosse a dormir, no banho ou até mesmo às refeições, alternando com bom tinto português.
Eram alegres, musicais e despreocupados, recusando os “luxos" campistas que a mãe tinha instalado na tenda da Costa, pois não pretendiam sequer cozinhar. Este facto de os alemães e holandeses não serem dados a cozinhados, fomos constatando ao longo dos anos, principalmente quando estávamos de visita ao meu irmão em Geilenkirchen e a minha mãe fazia sopa. Sempre nos acharam complicados e trabalhosos com as refeições, mas apareciam sempre na hora de jantar.
Com a tenda que a família do Johann trouxe, passámos a campistas de segunda categoria no Parque de Campismo da Foz do Arelho. Não podíamos, claro, competir com a Lila e com o Rui, família afastada da Bela e do Fernando Pinto (grande virtuoso da guitarra portuguesa), os vizinhos e amigos do primeiro esquerdo da casa de Belém, porque eram veteranos do rio e da terra.
O Rui, filho do dono da Pensão Cristina nas Caldas da Rainha, onde ficámos algumas férias, tinha barcos e sabia tudo sobre o Arelho, sobre passar “a aberta" e navegar no mar. Sabia também como apanhar amêijoa no “lado de lá" . Munidos de um balde, prescutávamos o areal molhado em busca de dois furinhos próximos e aí enterrávamos a pá e com torção de alavanca fazíamos sair amêijoas, lambujinhas ou berbigão que guardávamos no balde, para depois serem despejados no grande alguidar e escolhidos para serem saboreados por todos.
Entre os “todos", estava o Tino. O Tino era um cromo. Entertainer no mundo do espectáculo, bom amigo do Pinto e da Bela e casado com a Nocas, era o cómico de serviço. Não havia ninguém na Foz do Arelho que à sua presença, não esperasse uma tirada tragicómica, como cavalgar uma vassoura pelo pontão de madeira com um balde na cabeça  e um garrafão vazio na mão, recitando Shakespeare em plenos pulmões e mergulhar de seguida no Arelho com grande espalhafato. Sempre pensei ser da sua autoria o bordão da carcaça e do garrafão de vinho.

Quando não apetecia cozinhar,  bastava agarrar um tacho grande e subir a rampa da FNAT. 

Não havia monotonia. Os domingos eram os dias mais aborrecidos devido à invasão de “leopoldos" com farnéis e rádios de pilha para ouvir o relato do futebol. Eram dias tristes também, porque invariavelmente o Arelho reclamava uma vida, aquela do incauto que, contra todos os avisos, se aventurava mais fundo no leito lodoso e não conseguia sair. Com os mirones a emparedar a desgraça, os bombeiros acabavam por retirar a vítima de afogamento, mas quase sempre demasiado tarde.
Foram anos bons. De longas férias, nas quais o tempo era pachorrento e dava tempo para toda a indolência do mundo. Ler, dormir, amalucar, viver sem medos.
Sempre que faz trovoada, recordo com ternura a imprudência e despreocupação da juventude que continuava a saltar daquele pontão de madeira num espalhafato de espuma e de água, entre gritos e trovões.

Em viagem - Parte 4

por Maria Dulce Fernandes, em 22.12.19

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Depois do rio de lágrimas que é tão típico das despedidas, num dia tão nublado como o nosso estado de espírito, voltámos à Variant para começar mais uma etapa da grande aventura dos cinco, que na realidade éramos seis.

Desta vez, “quitado" com alguns gadgets avant garde que adquirimos na Alemanha e na Holanda, tais como uma capa impermeável adaptável, própria para porta-malas de tejadilho, o trisavô do funcional porta-sogras que substituiu a lona, e uns ganchos “aranha” que se prendiam aos ferros e seguravam malas e outras tralhas no lugar, e que substituíram as cordas tornando o manuseamento da bagagem mais funcional e elegante; já parecíamos então turistas a sério!

Claro que o problema das fraldas do menino foi imperativo durante a viagem de ida, com muitas bandeiras da paz a despontar da janela do pendura durante toda a vigem. Muito mais avançadas, as crianças alemãs, holandesas e francesas já utilizavam fraldas descartáveis, as célebres couches, produto de luxo para nós, mas eficaz  e acessível, e que nos proporcionou uma volta muito mais tranquila e turística.

Então, através das maravilhosas autoestradas, partimos de Solingen rumo a Paris, onde chegámos já de noite.

Uns colegas do pai tinham-lhe indicado um “hotelzinho simpático" na Rue de la Paix. Tanta menina bonita e colorida, tanta beijoca e tanta festinha ao bebé. O pai sempre com um caloroso sorriso afivelado. A mãe abanava a cabeça, conformada, mas a tia Eugénia estava possessa. Que raio de hotel foi o pai arranjar? E com crianças na cáfila, caramba. O pai recomendava calma, que o hotel era limpo e que era apenas uma noite. De resto, a arraia-miúda não estava nem aí para tanto sururu, apesar de convir que os múltiplos sons de gritos, risos e  constantes águas  correntes que atravessavam velozes as paredes acromáticas, eram no mínimo bizarros.

Saímos para comprar mantimentos e voltámos com as compras do rol que a mãe e a tia Eugénia tinham preparado e que, como não podia deixar de ser, continha pão. Comprámos uns curiosos, finos  e muito aprumados pães compridos chamados baguettes, que os locais transportavam alegremente debaixo do braço sem qualquer protecção. Talvez o avô do pão com sabores? Nunca o saberei

O pai ficou febril. Como era o único que conduzia, resolveu na manhã seguinte percorrer o máximo de estrada possível antes que alguma gripe que estivesse à espreita o atacasse em força. Saímos bem cedo e, parando sempre que necessário naqueles lugares maravilhosos chamados áreas de serviço, chegámos a Bordeaux à hora de almoço. Nem mesmo os meus dotes linguísticos em francês ajudaram a decifrar o menu do restaurante. Sopa e pezinhos de coentrada. Toca a comer e a tentar gostar, porque depois só pararíamos para jantar, com sorte, em San Sebastián. Então foi um toca a encher, fazer papo e preparar para arrancar. Foi então que serviram os frangos! Dois. E grandes. Mas… mas… mas… estávamos cheios de sopa, porco, batatas e pão! Ninguém conseguiria comer frango, caramba! A tia Eugénia, no seu proverbial pragmatismo, sentenciou logo que as aves ali não ficavam. Então toca de sacar de um saco da sua enorme saca de senhora, ensacou os fragos e zumba, saca com eles sob o olhar reprovador do pai, a quem aquele tipo de situações  deixavam grandemente embaraçado.
A verdade é que piquenicámos um supimpa jantar de frango num quartinho arejado e com uma soberba vista para o mar do Golfo da Biscaia, já em San Sebastián, depois de uma breve paragem num Biarritz de brilho embaçado pelas muitas nuvens que corolavam um céu cor de chumbo.
Na manhã seguinte, e com o pai a não apresentar grandes melhoras, a trupe fandanga, já um tanto saturada, assumiu os seus lugar na Variant para regressar à pátria-mãe.
Chegámos a Ciudad Rodrigo pela tarde e preparámo-nos para pernoitar. Dia de “tarde livre" para a tradicional aquisição de caramelos, torrão, chocolates, leques, mantilhas e outras coisas desnecessárias com que nuestros hermanos tanto nos fascinavam. Aprendemos também ali que sopa de judias é apenas feijão verde cozido e que as cañas em nada contribuem para tratar constipações.

No outro dia, de manhãzinha bem cedo, partimos non stop até Lisboa. Como em todas as etapas dos percurso de ida e do percurso de volta, rimos e cantámos de tudo um pouco, mas principalmente as canções da vida do meu pai, constantes no seu LP favorito da Música no Coração.
Chegámos a casa ao final do dia. Cansados mas satisfeitos, com a bagageira cheia de novidades estrangeiras e experiências fabulosas, que contávamos a cinco vozes em todas as reuniões sociais e familiares e que ainda hoje dois de nós recordamos, quase sempre com um olhar demasiado brilhante.

Em Viagem - Parte 3

por Maria Dulce Fernandes, em 20.12.19

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Com o quartel-general estabelecido em Soligen, iniciámos um périplo pela Renânia do Norte: Wuppertal, Düsseldorf, Colónia...  

A catedral de Colónia era imponente, maravilhosamente talhada na margem do Reno, com pores-do-sol do mais espectacular a que já assisti. Voltei lá em 1993; grande desapontamento o meu. É certo que quando somos mais pequenos as proporções mudam e tudo parece diferente aos nossos olhos, mas a catedral dos meus encantos não me pareceu grande de todo, apenas algo mais escura e mais alta, que se destacava no aglomerado de betão da paisagem urbana da cidade de Colónia. 

Uma manhã, o pai madrugou com uma ideia brilhante:  Então e que tal irmos almoçar a Amsterdam? Foi um toca-a-correr e a cáfila embarcou na Variant com a tralha às costas em direcção  ao norte, rumo a Amstelveen, onde outros familiares nos aguardavam ansiosos. 

Deslizando pelas fantásticas auto-estradas alemãs, a viagem de pouco mais de duas horas fez-se em três horas e tal, atendendo à quantidade de tralha e à população da Variant plus one. 

Como todas  viagens de automóvel, foi estopante... mas se valeu a pena? Claro que sim!! Elevada à enésima potência! A Holanda é um país bucólico, lindo, verde, florido, os moinhos são idílicos. E tem queijos fantásticos. O Gouda continua a ser um dos meus preferidos. 

A sério que nunca tínhamos visto tanta bicicleta junta. Muitas até cestinho para cão tinham, caramba! Caminhar pela beira dos canais sim, mas com muita atenção para não ocuparmos a ciclovia, porque os holandeses são rápidos e furiosos.

E no final apoteótico dum dia em grande, a população da Variant bem equipada para as agruras do  inverno no Mar do Norte, numa tarde soalheira dos idos de Setembro de 1970, com as calças arregaçadas até ao joelho, chapinhava nas águas geladas de Zandvoort, a comer arenque cru (que os indígenas ingeriam deitando a cabeça para trás e deixando deslizar inteiro para dentro da boca!), mexilhões, batatas fritas e maionese, com palitos de forquilha encimados por bandeirinhas holandesas a esvoaçar ao vento do Ártico, e gelado de mirtilo em pequenos copos de papel, deitados na areia ou sentados nuns cestinhos de verga com banquinhos dentro. 

Tendo  o frio como desculpa, os mais velhos perderam-se pelas noites do Dam, enquanto a população miúda se resignou a ficar em casa a assistir a desenhos animados non-stop do Tom & Jerry , dobrados em flamengo e a preto e branco, mas caramba! nós por cá tinhamos o Popeye, o Manda-Chuva, os Filintstones, o Zé Colmeia e pouco mais, e só ao domingo.

Foi a noite da luz vermelha, ideia que nos remetia de imediato para o sarampo, mas que foi deixada no limbo das coisas que eram tabu para as criaças de antes da revolução dos cravos. Foi seguramente um conceito de que só entendemos o significado mais de dez anos depois, mas naquela noite éramos apenas uns Hans Brinker, desolados e sós, com o dedo no botão da tv num bairro de funcionários da KLM junto ao Rio Amstel à espera que algum adulto viesse em nosso auxílio e nos desse permissão para crescer.

Em Viagem - Parte 2

por Maria Dulce Fernandes, em 17.12.19

 

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Solingen, perto de Colónia, na Alemanha, era em 1970 uma pequena cidade conhecida como a “Cidade das Lâminas”, fama que granjeou pelos artefactos em aço que produzia, com um sem número de  aplicações várias. Übenstrasse era o Restelo lá do sítio: casinhas graciosas, com jardinzinhos mimosos e floridos, baloiços, gnomos e casas para pássaros. A Line , formada em Germânicas, trabalhava no seu mestrado e também como au pair. Por essa altura, a Frau Engelhardt  estava num cruzeiro  e assim, com seu consentimento, ocupámos as premissas. 

Sempre dados a ambientalismos, os alemães faziam limpezas periódicas à canalização urbana, alturas essas  em que o depósito de água constante em cada casa e sempre higienizado, era cheio por camiões-cisterna para se poder proceder às desinfecções das condutas sem afectar a população que era avisada atempadamente e  também relembrada telefonicamente pelos respectivos serviços  no próprio dia, cedo pela manhã. 

Pois que nós fluentes poliglotas, que de alemão só sabíamos dizer ja e aufwiedersehen, depois de não conseguirmos decifrar o teor do primeiro telefonema, resolvemos algumas ligações depois e por unanimidade,  deixar o telefone fora do descanso. Só quando a mãe reparou que a água estava  apenas a gotejar na torneira é que começámos a associar as ideias, mas já era muito tarde. 

Eu, o pai,  o mano  e a tia propusemo-nos ir ao supermercado e trazer garrafões de água, enquanto a mãe ficava a tratar do menino.  Lá partimos com uma lista de produtos encabeçada pela desejada água, rumo ao supermercado. Claro está que  cirandando por ruas quase iguais, perdemo-nos em todas as esquinas. Chegados junto a uma escola, era ver a Tia Eugénia com o dicionário na mão a chamar os meninos, ao mesmo tempo que apontava “Kartoffel” no dicionário e vocalizava “Hum? Hum?” O meu pai sorria, divertido. O meu irmão ria também. Eu fazia de conta que não era dali... 

A verdade é que a Tia se fez entender muito bem e que nos levaram a um mercadinho no meio de gargalhadas e cantorias.  Aquela rapaziada... foi um fartote de risota. 

Cada um com um saco de papel e um garrafão na mão ao melhor estilo português, regressámos a casa, voltámos perder-nos uma e outra vez, mas não nos passou pela cabeça o quadro que encontrámos à chegada. 

A grande questão é que, como em tudo na vida, só sentimos realmente a falta de algo simples e que consideramos básico no nosso dia a dia quando esse algo de repente nos falta: a mãe estava morta de sede e não havia gota de água em casa. O pai antes de sairmos, propôs que tomasse dois golos  de cerveja. Assim fez. 

A imagem ficou gravada a fogo na nossa memória colectiva: o bebé chorava a plenos pulmões e a mãe também, meio sentada meia de gatas, no fundo da escadaria, sem conseguir encontrar maneira nem força para a subir… O susto foi grande até termos identificado o culpado, uma garrafa vazia de Beck's  junto aos lava-loiças, da qual, segundo a mãe, tomou dois ou três golos apenas, tendo  a restante birra sido "entornada" pelo Satchmo, o Cocker Spaniel negro da Frau Engelhardt.

No fim do dia, já recomposta do susto, a mãe foi presenteada por todos com o seu próprio garrafão de cinco litros de água e... seis garrafas de cerveja. A relação da mãe com a cerveja nunca mais foi pacífica, mas honestamente, o Satchmo era mesmo bom de birra.

Pensamento da Semana

por Maria Dulce Fernandes, em 15.12.19

Comer doze passas, brindar com vinho, iluminar os céus com fogo, bater com tachos, subir para uma cadeira e saltar com o pé direito, vestir cuecas azuis, ter dinheiro na mão e agitar acima da cabeça, deitar fora o que não presta, mergulhar no mar…
Estas são algumas das mais comuns tradições cumpridas na passagem para o Ano Novo.
É inegável que a última seja a mais seguida, pois mesmo quem não liga a estas coisas, acaba por ir na onda.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Em viagem - Parte 1

por Maria Dulce Fernandes, em 14.12.19

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O pai já não está connosco há 25 anos. Partiu novo, deixando um vazio imenso que coisa alguma conseguiu preencher. Aventureiro carismático e muito castiço, era um gastrónomo de primeira água e apreciava um bom vinho. Adorava música, bons filmes, bons livros, praia, mulheres bonitas, a esposa, os filhos e as netas.

Vivi com ele a primeira grande aventura da minha vida num maravilhoso Setembro de 1970: um Volkswagen Variant com porta-bagagens em cima, uma tia sexagenária, uma miúda de 12 anos, um garoto de 8, a mãe, o bebé com 4 meses e o pai ao volante. As roupas e necessaires iam em cima, em grandes malas e o espaço traseiro do carro tinha sido transformado numa espécie de nurserie do menino: tinha caixas forradas a azul e etiquetadas com as roupas de bebé, as fraldas, os biberons, as papas, um fogão Campingaz e alguns apetrechos de cozinha, e uma alcofa, que porta-bebés ainda era praticamente um produto de ficção científica.

E então fomos estrada fora, depois duma preparação concisa através de mapas e trajectórias alternativas fornecidas pelos experts do ACP, rumo a Solingen, perto de Colónia, na Alemanha, onde morava a Line, a filha mais nova da tia Eugénia.

A primeira paragem foi em Talavera de la Reina, onde pernoitámos num simpático Hostal, gerido por um casal com uma caterva de filhos, todos alegres e salerosos, e onde o meu pai abriu a primeira garrafa da colheita especial ”para levar para a Alemanha”, que guardava zelosamente. Os hospedeiros eram de uma simpatia e amabilidade contagiantes, pondo de imediato ao dispor das senhoras a cozinha e outras facilidades necessárias para tratar das crianças. A ideia que me ficou dos espanhóis é a de pessoas afáveis, alegres e fantásticas, o que me leva a crer que a geração pós-franquista degenerou significativamente.

De Talavera de la Reina partimos para mais uma tirada até Zaragoza e depois até à Costa Brava, com paragem obrigatória em Barcelona - a Costa Brava é linda, grandiosa, magnífica - e atravessámos outra fronteira já na subida para os Pirenéus, para pernoitar em Perpignan, noutra pousada gerida por outro casal espectacular, onde pus pela primeira vez à prova os dotes linguísticos que adquiri num único ano de francês. A verdade é que me safei muito bem e a partir daí tomei-lhe o gosto.

Saídos de Perpignan, seguimos por uma via a que chamavam autoestrada – Uau !!! – e almoçámos num sítio totalmente práfrentex, chamado área de serviço. A caminho de Dijon, onde pernoitámos, pela primeira vez num hotel de luxo, atravessámos a pior tempestade eléctrica que vi na minha vida que culminou com uma chuva torrencial de proporções bíblicas. Foi uma noite aterradora e praticamente insone; nos breves minutos que conciliávamos o sono éramos despertados abruptamente por hordas de hunos gritantes, que nos bombardeavam sem cessar. Em concílio familiar ficou decidido que no dia seguinte era uma directa até Colónia e pronto, mas não sem antes passar no Luxemburgo para deixar uma encomenda que um amigo por lá emigrante nos tinha pedido para levar.

Depois das peripécias do costume, qual bando de ciganos chegámos à grandiosidade do Luxemburgo, que se atravessava nuns meros 20, 30 minutos. O pai estacionou numa bomba de gasolina, para atestar e pedir direcções. O funcionário que o atendeu ere jugoslavo e falava apenas  a sua língua e um mau italiano; tanto quanto o pai entendeu, tínhamos de atravessar duas pontes e virar na via sinistra. Transmitidas as indicações ipsis verbis, as palavras caíram que nem raios na população da Variant, que depois de uma noite terrífica, queria tudo, menos ir para a via sinistra. Novo concílio: não se entregava qualquer encomenda e era o toca a sair de imediato daquele funesto país.

E foi assim que, depois de passarmos duas pontes e virarmos à esquerda, nos encontrámos de novo no caminho para Solingen, onde chegámos bem tarde nessa mesma noite, ajudados por um simpático casal de alemães acabadinho de sair dum pub, que teve a enorme  pachorra de nos levar a Übenstrasse 14, que não ficava nem mais nem menos senão no ponto oposto daquele da nossa entrada na cidade. É que perdemos quase todas as saídas de autoestrada menos aquela, porque sempre que o navegador - a mãe - dizia que saíamos a seguir, surgia a indicação "Ausfahrt"... e como ninguém queria ir para a Áustria, íamos continuando em frente...

 

(Post inspirado nos últimos posts de viagens publicados)

29

por Maria Dulce Fernandes, em 08.12.19

Quando a minha tia Luzia, a irmã do meio da minha mãe, casou com um aprendiz de alfaiate “vindo das berças" e que jogava à bola, toda a família esperava um rapagão alto e espadaúdo.
O Tio António era um alegre barrigudo, roliço e de estatura mediana, que adorava beber, comer, cantar e jogar à bola.
Fazia as delícias dos miúdos nas porradarias do Sócio Gravócio, nome inventado e imagem de marca daqueles jogos greco-romanos, em que valia tudo para o mandar ao tapete.
“Viva Eu”, do Nilton César, era o seu hino, que normalmente trauteava enquanto trabalhava, e cantava em plenos pulmões após uma refeição bem regada.
Era tão bom alfaiate como futebolista.
Poderia estar a ironizar, mas o facto é que era um excelente praticante da modalidade. No SC Nandufe era muito considerado e a sua camisola número 29 determinou a alcunha que perdurou enquanto viveu: o 29.
No rés do chão do prédio onde morava em Lisboa à sombra do Galo da Ajuda, funcionava uma mercearia explorada pelo Sr. Manuel e pela D. Lurdes, eles próprios brigantinos expatriados, em busca de vida melhor. O Sr. Manuel, homem alto e seco de carnes, troçava amiúde do nosso 29, desacreditando-o como o desportista que era devido à sua figura redonda e bonacheirona, desafiando-o constantemente para isto e para aquilo, principalmente para uma corrida desde o Armadorense, clube recreativo do bairro, até ao cemitério da Ajuda.
O Tio António ia protelando o evento, até um dia em que a contundência do Sr. Manuel o levou a aceitar a aposta.
Com cerca de duas vintenas de pessoas a assistir, partiram os corredores com o Sr. Manuel garboso e veloz a liderar a corrida. Correu-lhe bem, até meio da subida. Depois o 29 passou por ele calmamente, foi até ao cemitério, voltou para baixo e acabaram os últimos metros com o 29 perdido de riso a ajudar o Sr. Manuel a terminar.
Este feito ficou para a história do bairro, e “não és nenhum 29” ainda se ouve aos antigos ajudenses. Outros dizem que ainda lhes parece ouvir o trautear de "Viva Eu" ao virar da esquina.

Blog da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 01.12.19

Sorrir, rir, gargalhar é balsâmico, é catártico, ajuda a dissipar a névoa e a ver claridade sob um prisma menos amargo.

Também porque a ironia é fundamental, escolho como Blog da Semana Por Falar Noutra Coisa.

Pinhas e pinhões

por Maria Dulce Fernandes, em 01.12.19

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“Olha a pinha!”, gritava ele com o proverbial duplo sentido antes do bombardeamento.  

Eu nem olhava, apenas me encolhia e procurava refúgio fora do raio de acção, enquanto ele lançava lá do alto da copa verdejante uma pinha atrás da outra, que caiam pesadamente na terra molhada. Era necessária toda a atenção, porque a seguir às pinhas saiam disparadas as laranjas podres que recolhera na estrumeira antes da subida. Não doíam tanto, mas sujavam o triplo e cheiravam ainda mais, por isso convinha não facilitar. Ele era assim. Porque era rapaz. E os rapazes podiam fazer todos os disparates exactamente porque sim. Havia sempre aquele sorriso condescendente que acompanhava a “valente rabecada”, que bem vistas as coisas era apenas para inglês ver ou ouvir. 

A verdade é que havia pinhas suficientes para lhes catar o fruto. Braseiro com elas uns minutos, duas pedras e aquele som leve, como que de casca de noz a quebrar por entre dedos pétreos. Depois era passar agulha e linha e fazer nascer colares de pérolas oblongas de requintado e doce sabor a seiva. 

Em bolos, saladas, molhos e doces, não havia para mim – e ainda não há - nada que se comparasse ao ouro branco. “O melhor do Mundo”, dizia o meu pai com toda a justiça. Apenas com o conhecimento relativamente recente do pinhão chinês e do pinhão paquistanês, entendo sem sombra de dúvida a dimensão  e a excelência da qualidade nacional. 

Possuo um quilo inteirinho! Não sei se me trará reconhecimento nas redes, mas acredito ser um excelente indicador de estatuto social. 

“112, qual é a sua emergência?” Bom dia! Preciso de uma escolta para movimentar um quilo de pinhões.” “PSP ou forças especiais?” "Os GOE estão disponíveis? Óptimo! Obrigada.” 

Distópico? Talvez, mas de exagerado tem muito pouco. 

Limões

por Maria Dulce Fernandes, em 27.11.19

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Tenho esta cabeça há uma data de tempo e tem-me servido bem.

Fora da garantia e à beira de passar do prazo, tem-me mantido tranquila e ponderada quanto baste para percorrer paulatinamente esta estrada cinzenta de adobos que me levará à terra mágica de Oz(io), onde os passadiços são amenos e cativantes, convidando ao passo leve e fresco como se a infância nos sorrisse em cada raio de sol.
E é isto que está formatado neste disco rígido que me inicia diariamente desde que nasci. É por isso que se impõe sair asinha desta cabeça atrofiada por ideias projectadas em pensamentos socioculturais adquiridos por osmose e empiricamente apenas porque sim.
Se a vida em determinado momento me der limões em vez de prados verdejantes prenhes de leite e mel, faço o quê? Resumo-me ao desespero que esta distopia criou e enterro a cabeça no chão, debulhada em lágrimas de tristeza e em fervorosas preces de esperança, ansiando que cada dia seja o dia, desligada de toda e qualquer realidade e imbuída de um burlesco sofrimento por antecipação.
E que tal aceitar os limões e dizer para comigo “olha, limões!”? Até são bons, têm vitamina C, ajudam a digestão, melhoram o humor e reduzem a ansiedade, ajudam a manter o peso (hum...), fortalecem o sistema imunológico, sei lá, um sem-número de benefícios que provam que o limão está subvalorizado e tem muitos prós naquele báratro de contras que nos cega à primeira impressão.
Transformar fel em ambrósia é possível. Sair da cabeça para ir pensar lá fora e voltar  mais arejado, é meio caminho andado. Pode demorar o seu tempo. Algum. Muito. Mas fazer parte dos Desditosos Anónimos ou dos Profissionais da Queixa só pode ser opção quando o fundo carece verdadeiramente de profundidade.

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Férias em família

por Maria Dulce Fernandes, em 16.09.19

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Quando o meu neto nasceu, estava eu para sul. Apressado como tudo neste mundo açodado, apresentou-se uma semana mais cedo, embaralhando um bocado os planos a toda a gente.
Este ano, e pela primeira vez, decidimos levar a neta mais velha de férias para aliviar os futuros pais da grande pressão (e peso, e inchaço, e…) das esperanças.
A neta mais velha tem quatro anos, uma personalidade vincadíssima, o discurso de um político, uma imaginação espantosa e uma esperteza impressionante, já para não referir a memória auditiva, que armazena tudo o que capta e reproduz depois, tantas vezes fora de contexto, para nosso grande embaraço. Está decididamente na idade do não. Não vou. Não quero. Não faço. Não como. Difícil.
A ultima vez que fui de férias com uma criança pequena foi seguramente há mais de 20 anos, altura em que a mobilidade psicossomática ainda se encontrava no auge. Confesso que estou totalmente destreinada e que apesar de nunca ter sido grande pedagoga (o meu primeiro casamento, o pacto não de obrigação mas de dever que assinei com o trabalho, deixou-me sempre aquele amargo de boca de ser mãe em part time), tinha a firme convicção de que seria como andar de bicicleta… também nunca fui grande ciclista.
Após acurada pesquisa, decidimo-nos por um “resort" na nossa zona de eleição, conceito tendência, que tende a substituir o all inclusive, que por sua vez substituiu a pensão completa, muito em voga nas zonas balneares nos anos 60 da minha meninice.
Espaço bem aproveitado, com cerca de treze vilas, doze quartos ou suites por vila, restaurantes, restaurantes temáticos, bares, auditório, excelente animação diurna e nocturna a cargo do Chapitô, cinco piscinas e o Kids Club.
O Kids Club é um conceito giro para dar algum descanso aos pais ou avós com crianças. Algum descanso traduz-se, no meu entender, por um par de horas. Uma tarde, pontualmente, vá lá.
Eu que nunca fui uma mãe muito presente nem uma avó disponível, mas que sou galinha o suficiente para ser até considerada um tanto sufocante, não consigo entender o conceito de férias em família de quem deixa os filhos por conta de outrem desde que o espaço abre até que encerra, preocupando-se mais com a carta de bebidas à descrição, em aterrar numa espreguiçadeira, comer, beber e dormir, do que em saber se os filhos estão bem, quem os cuida, se se alimentam… Tal e qual largar um acessório enxovalhado na 5 a Sec e ir recolhê-lo no último minuto do expediente.
É a festa da vida levada ao exagero… que o vinho escorra pelas gargantas e a festa dure até às tantas. E mais duraria se não fosse imposto um contacto telefónico que obrigava os progenitores extremosos a irem levantar os rebentos descartados, bastas vezes horas depois do encerramento do espaço infantil.
Podem achar que são coisas de velha, concepções e juízos retrógrados, mas será que pode haver sossego se há cuidados? Pode, desde que exista uma noção clara dos direitos e dos deveres. Um filho é um bem precioso e não uma obrigação mensal, como a factura da luz. As crianças são cansativas, insanas e exasperantes? Sem dúvida, mas há lá melhor coisa nesta vida?

Pensamento da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 08.09.19

Se fazemos parte do tal plano cósmico, temos que fazer jus à capacidade organizativa e multitasking do planeador e não nos devemos resignar com qualquer normalidade, porque viver não é apenas estar vivo.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Blogue da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 01.09.19

Viajo sempre que posso. Gosto de planear, conhecer, poder organizar um roteiro fora dos roteiros turísticos tradicionais.
Leio tudo o que posso. Dentre centenas de blogues de viagens, visito amiúde o Alma de Viajante, pela informação, pelo rigor explicativo e porque é sempre gratificante ler em português.

 

Férias

por Maria Dulce Fernandes, em 31.08.19

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Finalmente leve! Trauteio o "We all Stand Together" baixinho, talvez para mangar com os sapos que regressaram aos pântanos fétidos e me deixaram livre. Livre e leve.
Dou comigo a sorrir pelos cantos e penso "Tola, tola, ris de quê?" , de tudo e de nada... é só um sorriso que se rasga espontâneo só porque sabe que pode sorrir.
Azinha, arrumo o dia de hoje na mala à tiracolo e organizo as vitualhas necessárias à queima de energia.
Apesar dos ouvidos agigantarem as batidas fortes e rápidas do coração, não temo as horas que vêm. Sinto-me em paz. Sinto-me leve.
Até a rochosa musculatura que me sustenta, apesar de farta e pesada, esvoaça pela leveza quimérica das ideias, como uma pena com aparo de chumbo.

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O Síndrome do Robocop

por Maria Dulce Fernandes, em 29.08.19

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O plástico é uma praga.
A máxima de Lavoisier está incompleta. Nem tudo se transforma. Depois de convertida em plástico, a natureza perde a degradabilidade e consequentemente a capacidade de criar vida a partir do pó em tempo útil. Nenhum de nós tem o poder de viver mais de 500 anos para ver extinto todo e qualquer vestígio de pegada ecológica deixada pela poluição devastadora provocada pelo descarte de artefactos de plástico e derivados.
No nosso afã para mantermos a durabilidade das coisas pela arte da plastificação, deixamos de parte a única variável fundamental a qualquer equação em que a incógnita seja a introdução no corpo humano de matéria orgânica polmérica sintética, ou qualquer outra preparação criada in vitro que permita obter uma melhoria no desempenho e na longevidade do corpo.
Qualquer tentativa de plastificar a vida tem apenas resultado na sua anulação.
Qualquer “arte" plástica a que se submeta o corpo tem somente o sucesso efémero que a gravidade lhe permite. É tão normal a nova e renovada forma ficar disforme em curto tempo.
É por isso que, numa época em que toda a informação está disponível em tempo real para quase toda a gente, como se explica o uso e abuso de substâncias “plastificadoras" que incrementam a fisicultura, ao ponto de se morrer por ela?

Say "Cheese"

por Maria Dulce Fernandes, em 27.08.19

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Tenho os meus petiscos de eleição. Gosto de doces bem confeccionados, mas perco-me por queijo. Qualquer queijo. Todo o queijo. 

O meu pai era de Castelo Branco. Lá em casa havia sempre queijo. Queijo tipo rabaçal de boca cheia, queijo picante (o famigerado queijo chulé), queijo conservado em azeite aveludado e suave, queijo tipo Nisa, mais seco e fantástico, e queijo tipo Serra para comer à colherada, simplesmente fabuloso . 

Para mim, desde que haja queijo, está-se bem.

Ou pelo menos estava-se 

Não me lembro de não ter queijo para comer sempre que me apetecesse. 

E apetecer, apetece sempre, mas diz que não. 

Com o avançar da idade tornamo-nos mais serenos, mais calmos, mais ricos em saber e em saber que ganhámos candura, temperança,  conhecimento e peso. 

O peso não é apenas o dos anos, é mais o do que o esqueleto suporta e comporta e toda uma série de óbices que traz por acréscimo. 

HDL, LDL, VLDL, TOTAL... totalmente   dessincronizados... 

Drogas, chás e dietas... eu... a... fazer... dieta !!!! 

Tudo light e com moderação... pois sim. 

Alguém já provou queijo Limiano light? Daquele que não se sabe bem se estamos a comer o queijo ou a embalagem de plástico? Não? Então provem e digam de sua justiça. 

Alguém já provou qualquer queijo digno do nome em versão light que não soubesse a PVC fatiado? 

E leite magro? Parece a aguada de cal com que a minha avó caiava a chaminé. Não tem sabor nem odor... é tudo menos leite. 

A Grande Mudança chegou no ano passado. Deixei de ser uma cinquentona enxuta e passei humildemente à condição de sexagenária. 

Estranhamente, a Grande Mudança deu-se sem qualquer alteração, fosse pela efeméride, tampouco pelas gordurices.  

Não vou comer coisas light nem PVCs ou esferovites. 

 

Para tudo é preciso moderação e eu, que sempre soube quando parar, vou deixar as alfaces para os grilos e as sementes para os passarinhos: tenho um queijo de Azeitão à minha espera que é um mimo. 

O Demónio e Mr. Prim

por Maria Dulce Fernandes, em 22.08.19

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Quase todos os meses de Abril, de há alguns anos a esta parte, saímos para recarregar baterias, coisa que toda a gente que trabalha muito, tem gatos, filhos e netos, deveria fazer para manter a sanidade mental. Desligar... não totalmente... só um bocadinho, mas desligar sim, e recuperar a vida a dois, nem que seja por apenas três ou quatro dias.

Há três anos, calhou escolhermos a República Checa. Calhou também decidirmos fazer uma caminhada de cerca de 30 km pelo Bohemian Saxon Switzerland National Park.

Partimos de Lisboa com tudo organizado ao pormenor e fomos informados na véspera do passeio que Mr. Prim, o melhor guia para aquele tour em particular, nos iria buscar ao hotel às 8:00h.
Fantástico! Estávamos realmente expectantes.
Aconteceu como previsto. Durante a viagem de automóvel demo-nos a conhecer e ficámos a conhecer Mr. Prim na medida do possível.

Escusado será dizer que a meio do caminho para Pravčická Brána tive que fazer uma pausa para me reunir com as minhas pernas, que tinham entretanto resolvido entrar em greve devido a exigências não regulamentadas na ACT.
Após as promessas da praxe, chegámos a acordo, para o que muito contribuiu a chegada ao Falcons Nest, com descanso e um bom almoço a acompanhar.

Como não podia deixar de ser, convidámos Mr. Prim para nos fazer companhia.
A meio da refeição, dei a volta à conversa e em vez de fazer as habituais perguntas sobre a República Checa, resolvi perguntar o que sabia Mr. Prim sobre Portugal.

Mr. Prim, que já tinha estado em Lisboa há cerca de cinco anos, não gostou. A cidade era feia, suja e sentia sinceramente pelos portugueses, porque viviam em condições de extrema pobreza…
É certo que as notícias sobre o País não têm sido fabulosas, mas seguramente Portugal tem uma qualidade de vida superior à da República Checa, retorqui. Sorriu condescendente e respondeu que lá (na Rep. Checa) não viviam em casas de madeira sem saneamento básico (!!).

Não pude deixar de rir, mas rir mesmo. Onde, pelo amor da santa, terá o Mr. Prim ficado hospedado e por que caminhos terá andado para se deparar com aquela dantesca realidade?
Não consegui saber muitos pormenores. Acredito que a visita de Mr. Prim fosse coisa tipo relâmpago, pois pouco ou nada sabia de Lisboa, para além da anunciada pobreza e más condições sanitárias. Que o hotel não ficava longe do rio e passava pelas tais "barracas" para chegar à margem.

Quem me conhece minimamente sabe que quando acredito que tenho razão não me calo, e o pobre Mr. Prim passou mais de 10km, até às Edmund Gorges, a ouvir sobre a minha terra e a história das pseudo-casas de madeira.
Castigou-me com a descida mais íngreme e escorregadia da minha vida, mas apesar de ter uma preparação física a anos-luz da nossa, garanto que acabou mais cansado, tal não foi a injecção sobre Lisboa que lhe ministrei.

Mas por muito que tentasse, foi impossível contornar aquela impressão negativa de uma cidade salobra e escura que Mr. Prim tinha gravada nos recônditos do seu disco rígido.

O meu passeio ao Parque foi estupendo. Aconselho vivamente.

Lamento apenas que o nosso País, tão bonito, tão brilhante, N vezes ao quadrado mais simpático do que a República Checa, seja tão erroneamente interpretado.
Estes turistas que nos chegam, em Fam Trips, vêm tantas vezes "comprar" o destino para o poder incluir nos seus pacotes de tours.

Chegados cá, a que demónio será entregue a organização da sua estadia? Não acredito que o Turismo de Lisboa, que normalmente dá a conhecer a nossa capital com tanta clareza e desvelo, tenha transformado mais uma oportunidade de "vender" Lisboa num passeio à timberland...

Deus ex Google

por Maria Dulce Fernandes, em 21.08.19

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As pessoas são chatas e convencidas. Nasceram assim ou fizeram-se deste modo, nesta sociedade do audiovisual e das redes sociais?
Em mais uma das minhas fases anuais de morcego, descobri um novo tipo de animal humano, que prima pela omnisciência que adquire tipo mousse Alsa: basta juntar água.

Refiro-me ao Homogooglens, o tudólogo do Google.

O nível de conhecimento que o Google confere a estas pessoas, que proliferam como mosquitos ao redor da luz que emana da partícula de Deus que carregam permanentemente consigo como se do fogo primordial se tratasse, é excepcional, elevadíssimo e sempre correcto.

Como pode um comum mortal de provecta idade competir com um homogooglens de brilhante telefone na mão, a debitar impropérios acerca da incompetência das pessoas que não cumprem o que está escarrapachado no Google com todas as letras, mapas e imagens?

Isto merece uma crítica negativa no Facebook, no Instagram ou no Twitter.

Tal inépcia mimoseia-nos com entrada directa para a candidatura a desqualificado de primeiro grau, pela incapacidade de ler e fazer cumprir o que diz o Google ali, logo na primeira página, após uma pesquisa que devolve mais de cinco mil entradas.

Tentar explicar ao homogooglens que em Montain View os Senhores não gerem as páginas particulares de cada um, limitam-se a ser um motor de busca no geral, por sinal bastante competente, mas cujas actualizações deixam bastante a desejar, não é tarefa fácil, é tarefa impossível. É que está ali, ALI, na sua mão, vê? Vejo, mas está errado. Provecta, estúpida e iletrada, que nem ler sabe...

Imprimo um printscreen da página oficial e mostro-o ao homogooglens... papel e tinta para deitar para o lixo, claro... isso é de onde? Não está no Google! Está, se procurar e não se ficar pela fachada...

Já experimentou googlar o seu nome? Então faça-o e veja quantos são e qual deles é o Senhor.


Deixo-os no vício, entretidos a descobrir-se na internet e ao êxtase que lhes proporciona o imenso saber que lhes oferece.
Está quase na hora de sair para o escuro e tentar encontrar no silêncio da noite a absolvição para os meus pecados, que devem ser muitos e copiosos, porque ninguém merece tão insensata expiação.


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