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Delito de Opinião

Emoções  #3

Maria Dulce Fernandes, 10.04.21

Vencer

Vivemos uma época de incertezas. Tudo o que temos como certo agora, pode ser dúbio, impreciso ou indeterminado nos minutos seguintes.

E de um momento para o outro, aquela fortaleza de determinação e firmeza que se construiu a vida inteira é abalroada pela confusão obscura da ambivalência dos dias em que tudo o que é deixa de ser e tende a oscilar no desconsolo da negatividade que continuamente nos assalta e nos arroga.

É imperativo usar todas as armas disponíveis para combater o mal dos dias, os temores, as noites insones, a ansiedade.

É sempre uma emoção ouvir  “ Nessum dorma" pela voz do Luciano Pavarotti .

Remete-me para outros tempos, tempos de paz, em que a música era união, era ternura. Era emoção.

É o desfibrilador preciso e necessário à regulação dos batimentos cardíacos e à recuperação da tranquilidade.

Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o, principessa,
Nella tua fredda stanza,
Guardi le stelle
Che tremano d'amore
E di speranza.

Ma il mio mistero e chiuso in me,
Il nome mio nessun saprá!
No, no, sulla tua bocca lo diró
Quando la luce splenderá!

Ed il mio bacio sciogliera il silenzio
Che ti fa mia!

(il nome suo nessun saprá!...
E noi dovrem, ahimé, morir!)

Dilegua, o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All'alba vinceró!
Vinceró, vinceró!

 

“ Qual é o fantasma que nasce todas as noites, apenas para morrer quando chega a manhã?”

“O que é vermelho e quente como a chama, mas não é chama?”

"Qual é o gelo que te faz pegar fogo?"

As respostas estão dentro de cada um, porque a esperança não morre, o sangue é vida e o gelo derrete com a emoção da vitória.

Venceremos! Estou certa que sim.

Emoções  #2

Maria Dulce Fernandes, 03.04.21

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Amêndoas confeitadas - Amêndoas Moles

Todos os anos era a mesma dança.

Em começando as férias que antecediam o segundo período, entabulavam-se os preparativos para a Páscoa. Numa vertente mais religiosa, cabia-me a confissão, a missa e a comunhão, por isso lavava e engomava a mantilha branca que a Lena do Vitinha me tinha trazido de Badajoz, polia o terço de prata que estava guardado na caixinha de folha espelhada com a Rainha Santa Isabel em relevo, guardada junto ao pequeno missal e saía para ensaiar para a missa de Domingo e para a procissão que se lhe seguia.

Era por essa altura que, num pequeno intervalo de toda aquela roda viva, me escapulia com o meu irmão até ao Confeiteiro, para comprarmos amêndoas doces.

Ainda sonho com elas.

O meu irmão preferia as torradas e caramelizadas; eu adorava as amêndoas moles, que se desfaziam na boca com uma leve pressão. Ainda agora sonho com elas, mas nada se compara. Quando o Confeiteiro deixou de as fabricar, íamos comprá-las à Baixa, à Pastelaria Suiça. Eram menos boas, mas bastante satisfatórias.

Nunca gostei muito de confeitos de licor, amêndoas em chocolate, amêndoas verdes, ou das tradicionais duras e multicolores. A minha perdição eram as moles, um veneno para os dentes, mas quem se ralava com pormenores na pré-história da existência?

Era um martírio fazê-las render até ao Festival Eurovisão da Canção,  acontecimento socio-familiar, em que se juntava uma data de gente, velhos e novos com snacks no colo à volta de uma TV e se vivia aquela que,  na altura, era uma verdadeira festa da música.

Comer amêndoas moles era uma emoção.

As lembranças são emocionantes, doces e quentes, com aroma a incenso e caramelo e melodiosos e desafinados Lá Lá Lás.

A amêndoas moles também. 

Ainda sonho com elas.

 

Quero desejar a toda a família do Delito uma Santa Páscoa. 

 

 

Foto do Google

 

Emoções #1

Maria Dulce Fernandes, 29.03.21

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Gin tónico

As pequenas transgressões são sempre emocionantes.

A idade trouxe-me alguma sabedoria, mais calma, ponderação e a capacidade de apreciar a beleza das pequenas coisas e de me emocionar com elas. Trouxe-me também uma alergia às bebidas com gás e – oh suplício – às bebidas com álcool.

Não sendo a anafilaxia algo que dê gozo repetir, quedo-me pela abstinência, o que faz com que transgredir as normas seja sempre uma emoção.

Depois de vencer de sortes o que o bom senso e a precaução me vêm continuamente a recordar num importuno matraquear, entrego-me indulgentemente ao prazer de saborear a minha bebida favorita, fazendo ouvidos moucos à vozinha aborrecida que massacra “não bebas, olha a alergia".

E se sabe bem.

Nada daquelas modernices com ervas, bagas ou  frutas. Simples, com gin, água tónica, gelo e limão, ao fim do dia, à falta de melhor sentada à janela a perscrutar a linha do horizonte.

É uma emoção.

 

 

Imagem do Google

Na Sopa (6) - Júlia & Juliana

Maria Dulce Fernandes, 14.03.21

 

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A facilidade que as crianças têm em fazer associações de ideias remete-me sempre para a Sopa Juliana. O eu da minha infância nunca teve a mínima dúvida de que o nome de Sopa Juliana se devia ao facto de a mesma ser confeccionada pela Avó (bisavó)Júlia.  Lá vinha ela às 2as feiras, nos tempos em que a “praça" apenas encerrava ao Domingo, com a alcofa de palha cheia de embrulhos de papel de jornal em forma de cartucho de tremoços, com meio quilo dos mesmos e uma quarta de pevides para os meninos, couve e cenoura picadinhas naquela maquineta redonda de dar à manivela que a tia Adelaide tinha na banca da praça, uma quarta de feijão encarnado e batatas, cebolas, cenouras e abóbora a granel lá mais no fundo da alcofa.

Tirava o xaile castanho, guardava ciosamente a caixinha do rapé, arregaçava as mangas, botava  um avental cinzento com frente e verso sobre a saia comprida, atava o lenço preto na nuca e começava a preparar a base da sopa, com batata, cebola, cenoura, abóbora e alho e cozia  à parte o feijão encarnado previamente demolhado.

A Avó Júlia, a única verdadeira cozinheira da família, trabalhara na cozinha do Palácio das Necessidades antes da República e sabia cozinhar como ninguém,  apesar de os seus conhecimentos gastronómicos não poderem ser aplicados em casa com frequência,  porque o custo de vida e a família numerosa não lhe permitiam preparar na modesta cozinha com fogão a lenha, os acepipes que cozinhava para a realeza. Contava ela  com aquele meio sorriso de pessoa sofrida, que também tinham que ser inventivas e algo malabaristas com o orçamento na cozinha do palácio,  porque a Rainha D. Amélia era muito rígida com as contas,  bastante forreta e muito exigente.

“ D. Amélia de Orleães,  que em Portugal foi Rainha, tinha coração de fera e julgava ser santinha", cantarolava a Avó Júlia, a título de pregão explicativo das coisas que tinham sido.

Sopa havia sempre e em boa quantidade, por isso a “entrada" era invariavelmente sopa , que tinha que ser consumida a todas as refeições e até acabar o panelão.

Por estranho que possa parecer, a criançada comia o que comiam os adultos e se a sopa tinha couves e feijões,  pois que era o que havia para comer e com fita ou sem fita a sopa era uma instituição.

 Eu não gostava de sopas com “couves”. Qualquer legume que obrigasse a um processo de mastigação mais demorado, era um tormento. De todas as sopas de“ couves", o meu ódio de eleição recaía na sopa de feijão verde. Ainda agora a minha relação com as judias verdes é bastante tensa. Já a couve branca curiosamente comia bem, enrolada tipo esparguete e feijãozinho, sempre.

Depois de cozinhados os legumes eram passados pelo enorme passe-vite de folha, acrescentados de água, azeite , sal e da Juliana de couve e cenoura e por último do feijão encarnado já cozido.

Se era boa a sopa, nem vale a pena perguntar. Por muito que  tente reproduzir os sabores de antigamente, nunca consegui alcançar o sabor que emanava da paixão pela cozinha e pela família que a Avó Júlia acrescentava aos condimentos de  todas  as suas sopas e de  todos os seus cozinhados.

Blogue da semana

Maria Dulce Fernandes, 14.03.21

Viagens à  solta, o nome já diz muito. 

Nestes tempos de reclusão, a falta que faz viajar lá por fora, cá por dentro,  pela imaginação,  num sonho, sei lá, arejar os  horizontes tão amarfanhados pelo receio e pelas proibições.

Pelos passeios,  pelas sugestões,  pelas fotografias e pela lufada de ar fresco, escolho como blogue da semana Viagens à Solta.

Na Sopa da Paz(5) - Contos do feijão

Maria Dulce Fernandes, 05.03.21

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A Cila era castiça. Boa pessoa, simples, trabalhadora,  alegre e divertida, cantarolava de espanador na mão e tinha sempre adágios na ponta da língua fosse qual fosse a circunstância,  alguns deles adaptados por si às ocasiões, como aquele com que nos presenteou numa tarde de descasca, com toda a família sentada à volta da grande alcofa de palha cheia de vagens riscadas de feijão :“Feijãozinho de bagar! De bagar se vai ao longe!!" E nós riamos divertidos e a Cila continuava a falar, a falar, enquanto as suas mãos dobravam e rasgavam as vagens com a rapidez e eficiência que muitos anos de labuta lhe conferiam. Era uma força da natureza e talvez por isso praticasse religiosamente aquela máxima de Lavoisier em que nada se cria , nada se perde e tudo se transforma. Castanhas ressequidas? Põem-se de molho e faz-se puré! De um resto de sopa fez arroz de feijão, porque , dizia, para o sabor basta o cheiro. Era o génio das sobras, muito antes da prática se tornar moda, com algumas transformações no mínimo rocambolescas, tal a sua genialidade.

As nossas sopas de feijão catarino, segundo receita da minha bisavó Júlia , levavam feijão, tomate, cebola, alho, uma folha de louro, sal e azeite. Em dia de sopa era toda a gente lá em casa a ajudar a encher a grande panela. Depois de ter os legumes bem cozinhados, eram passados por um enorme  passe-vite de folha herdado da bisavó Júlia - o carrossel -  que esteve em serviço até se partir, tendo sido substituído por um outro em inox que não se comparava ao original, quer em tamanho, quer em eficiência.  Depois com o advento da varinha mágica, o passe-vite passou a funcionar apenas como crivo. 

Pessoalmente, não ponho tanto feijão.  Substituo metade (0,250kg) por meia curgete , cem gramas de abóbora e uma cenoura pequena. Não fica tão forte, mas também não fica tão boa.

A Cila adorava aquela sopa e por isso havia sempre uma panelinha guardada para ela. Tanto quanto sabemos aquela sopa, escura e cremosa, comia-a a Cila de mil maneiras, até como molho de bife.

Não há colher de sopa de feijão catarino que possa saborear sem que as lembranças me tragam a voz tagarela, o sorriso e a alegria que sempre nos transmitiu.

Dizer que a Cila era um ponto é a mais pura verdade, mas é um dos grandes pontos que, ponto a ponto, compõem o traçado da linha da minha vida.

 

 

 

Na Sopa 4 - Verde que te quero verde

Maria Dulce Fernandes, 01.03.21

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Inverno sem frio é lá Inverno!

O fogo crepitava no lar de pedra quadrada e negra de fuligem. Ficávamos sempre defumados na procura do calor, mas sabia tão bem. “Onde vais?”, pergunto à Lúcia vendo-a vestir o casacão. “Vou buscar couves para uma sopa.” Sorrio para a minha filha. "Como na história dos sete cabritinhos, vês? Vou contigo!" “Faz frio…” Embrulhei-me no grande xaile de lã, pus o gorro e lá fomos às couves. "Mais aquela", disse a Lúcia já com uma braçada de uns cinco pés. Pelo caminho colheu umas ervas nuns arbustos. “Mato para dar sabor", explicou.

De volta à cozinha, a água já fervia nas grandes panelas de ferro com os três pés bem assentes na brasa. Descascámos batatas, picámos cebolas e alhos e juntámos tudo à água fervente. Depois de lavarmos bem as folhas mais tenras, enrolámos as couves num charuto e cortámo-las fininhas. Um mimo de couves aquelas do sopé do Gerês. A Lúcia pegou nos ramos de mato, atou-os firmemente com uma guita e panela com eles.

Depois de todos os ingredientes cozidos com umas pedrinhas de sal e azeite até estarem bem desfeitos,  retirou-se o mato e acrescentou-se mais água  a ferver e as couves. O aroma era divinal. Cheirava a agasalho e a conforto. E o sabor? Com duas generosas rodelas de chouriço, aquele sabor único, agridoce e aconchegante nunca o consegui reproduzir. As hortaliças, a água, as panelas, o fogo, o molhinho de mato, aquelas coisas simples do dia a dia da Lúcia, guardam até hoje o mistério do melhor caldo verde do mundo.

Talvez seja como diz o outro, o bom sai bem. Mas no que me diz respeito o bom é apenas em Vila Verde.

Na Sopa - 3 Todos à fava

Maria Dulce Fernandes, 25.02.21

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Durante muitos anos, associei as favas à ‘Ti Frágil, vizinha dos meus avós em Belém, mais conhecida no bairro como a mulher da fava-rica. Não fazia jus ao nome, a ‘Ti Frágil, bastava olhar para a enorme panela cheia de fava-rica que punha à cabeça sobre a rodilha e, perfeitamente equilibrada, seguia com ela por aí fora com o seu pregão, antes do sol nascer, até se lhe acabar o preparado.

A fava-rica que a minha mãe fazia, segundo a receita da ‘Ti Frágil, era confeccionada com fava seca que se punha de molho em água abundante durante mais de 24 horas. Era seguidamente limpa dos olhos e carneiros quase sempre presentes na fava seca, e levada a cozer em água e sal até começar a criar um caldo com as favas meio desfeitas. À parte, coze-se alho picado em azeite, sem deixar queimar. Junta-se depois ao caldo de favas e deixa-se refogar. Junta-se uma colher de sopa de vinagre e serve-se bem quente, de preferência com pão rijo. A minha mãe nunca se conformou com a sua fava-rica. Dizia que ficava a milhas da da ‘Ti Frágil, mas eu gostava bastante; foi única que provei.

Nem sempre fui apreciadora de favas. Aliás, durante toda a minha juventude devo ter sido a maior odiadora de favas da família. Qualquer receita de favas bem podia aguardar até vir a mulher da fava-rica, no que me dizia respeito, mas foi um gosto que fui adquirindo com o tempo e não troco umas belas favas guisadas (com coentros, entrecosto, toucinho e enchidos), ou salteadas como acompanhamento ou o sublime puré de favas, por um almoço de sushi, por exemplo (bom, a verdade é que não troco seja o que for por um almoço de sushi).

A primeira vez que fui à fava, foi na quinta da Barra Cheia. Devia ser Maio e eu devia ter onze ou doze anos. Apanhámos umas poucas de sacas de serapilheira cheiinhas de vagens de fava, que dividimos pelo consumo imediato, pelo congelador e pela secagem. A minha mãe gostava das favas grandes e rijas para puré. Tirava-lhes a casca, os olhos e a pele e cozia-as com duas cebolas, cinco dentes de alho, um raminho de coentros, sal e azeite. Servia-as com pedaços de pão torrado, os antepassados dos croutons. Não mudei muito a receita; acrescento uma cenoura, um alho francês e uma curgete apenas quando as favas são tenras para puré e passo todo o puré triturado pelo crivo para limpar as peles que depois de moídas se tornam muito desagradáveis.

As favas, compro-as na vagem. Nem sempre as descasco de imediato. Espero a companhia da minha filha, que tem saudades de se sentar com a avó a descascar favas e a ver televisão. A minha neta junta-se a nós e o meu neto ajuda a desestabilizar tudo, com riso qb à mistura.

 Há tradições que são para manter.

Na sopa 2- A fingir

Maria Dulce Fernandes, 20.02.21

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Os americanos têm uma expressão engraçada – empty nesters - para definir aqueles casais que dão por si sozinhos entre as quatro paredes do lar, após  os filhos terem deixado a casa da família para começarem uma “nova vida".  Cá por casa a realidade é a essa mesmo.  Uma vez por semana ( antes da pandemia) temo-los de visita, temos os netos de vez em quando, mas não é a mesma coisa e reflete-se sobretudo nas refeições.  Cozinhar para dois não é a mesma coisa do que cozinhar para quatro.

Aquelas comidas tão boas e tão nossas, fartas e variadas, vão ficando para uma almoçarada sem data prevista e dão lugar a pratos igualmente bons, mas menos variados e de confecção mais rápida. É o caso do cozido à portuguesa, que depende de dois ou três   factores fundamentais para se fazer em casa : conseguir as carnes que se pretende e os enchidos também,  principalmente o chouriço de sangue que tem que se encomendar com antecedência, arranjar couves tenras e conseguir juntar oito ou dez pessoas num almoço ao fim de semana, sem recolher obrigatório às 13 horas. Escusado será dizer que não faço um cozido a sério há mais de um ano.

O meu pai era doido por cozido à portuguesa. Sempre que vínhamos do Algarve, Canal Caveira era paragem obrigatória.  O cozido de lá era muito bom e muito bem confeccionado. Do cozido que fazíamos em casa sobrava sempre  imenso, que aproveitávamos para fazer sopa, croquetes de carne e roupa velha, salteando em azeite, alho e temperando a seguir com vinagre o excedente das couves e dos legumes. Mas cozinhar um bom cozido para dois acaba sempre por ser um estrago, numa altura em que poupar está na ordem do dia.

Para matar saudades do sabor a cozido e da sopa das sobras, cozo uma bela peça de chambão em água abundante e sal a gosto. Talvez durante duas horas até a carne começar a desfiar. Tem que se rectificar a água uma ou duas vezes . A parte mais trabalhosa é cortar duas batatas médias, uma cenoura grande, cerca de 150 gramas de  abóbora, duas cebolas médias e meia curgete grande aos quadradinhos, e um quarto de couve branca e meio alho francês grande em juliana.  Depois é desfiar a carne cozida e acrescentar água à água da cozedura que tem seguramente gordura suficiente e não necessita de azeite. Começar por juntar ervilhas (ou feijão manteiga) e as cenouras, depois todos os outros legumes deixando os quadradinhos de batata e curgete pada o fim. Depois de tudo cozido junta-se carne desfiada ( não uso toda) , uma mancheia de cotovelinhos e por fim, muita hortelã. Umas rodelinhas de chouriço de carne cozido à parte, rematam o prato para quem apreciar. É tão bom de comer e é por si só quase uma refeição.

Depois de pronta, cheira à cozinha da minha avó, onde nos juntávamos doze na grande mesa com as travessas de carnes, enchidos e legumes fumegantes. E sabe tão bem!

 

Na sopa

Maria Dulce Fernandes, 18.02.21

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Há uns anos, fartei-me de sopas de legumes verdes. Sopas verdes fazem bem a tudo, fortificam o sistema imunitário e facilitam em todos os trânsitos do organismo, mas sabem invariavelmente ao mesmo e para mim isso do verde apenas adquiri pela osmose do casamento.

Uma sopinha sabe sempre pela vida, principalmente no Inverno, depois de um dia cansativo e gelado.

Andei uns tempos a ruminar a ideia e resolvi recrear as sopinhas da minha avó tal como a minha mãe aprendeu e me ensinou.

Parece coisa simples, mas, como todos os projectos em que me empenho, ou faço com rigor ou não faço de todo.

Uma sopa de galinha com ovo, por exemplo, tem que ter galinha-galinha.

Junto à Igreja da Memória, havia uma mercearia de géneros e vinhos, o “Torrado", que tinha uma quinta urbana nas traseiras onde os proprietários tinham uma criação de animais de capoeira que vendiam para consumo particular, juntamente com ovos, couves tenrinhas para caldo verde, favas na vagem e feijão de descascar. Completamente ilícito? Pois claro que sim, mas a cabidela com aquelas galinhas era uma tentação daquelas que nos impelem a quebrar todas as leis.

Com o crescimento em massa das minilojas de hipermercado de bairro, o pequeno comércio tem cada vez mais tendência a desaparecer. Creio que o Torrado ainda existe, talvez como ponto de referência no bairro e lugar de recreação e encontro dos moradores mais velhos da Memória; não tem qualquer poder competitivo, rodeado por todos os lados de médias superfícies das grandes marcas do comércio a retalho.

Só podemos contar com os grandes mercados nem sempre acessíveis ou com a oferta online, que curiosamente se tem revelado bastante variada e de boa qualidade. Nem sempre se acerta à primeira, mas em encontrando é para manter.

É nesta procura da qualidade no sabor que dou por mim a ver os noticiários com uma tigela grande no colo e um saco grande de feijão com casca, favas na vagem ou ervilhas, que vou descascando com maior ou menor velocidade ou agressividade, consoante se vão desenrolando as informações noticiadas na televisão.

O resultado tem sido sempre fantástico, quer no puré de feijão com cenoura e couve, na sopa de galinha com ovo, no puré de favas com coentros, na sopa de cozido com chambão, no caldo verde com "tora" e em muitas outras, conforme me vêm chegando as ideias e as saudades dos sabores de outrora.

Ínclita Geração

Maria Dulce Fernandes, 16.02.21

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Carmen Dolores 1924-2021

 

Tive o prazer de conhecer Carmen Dolores no início dos anos oitenta. Fazia parte de um grupo de seis pessoas, entre as quais o António Vilar.

Foi um Amor de Perdição!

A Senhora das Brancas Mãos e o nosso Camões. Não é todos os dias que se priva com realeza. Realeza sem coroa? Sim, Realeza pura. Fazem parte da ínclita geração do nosso cinema, do nosso teatro, da nossa cultura, da lingua lusa.

Carmen Dolores deixou-nos hoje.

O meu aplauso e um bem haja, minha Senhora. Muito obrigada.

 

Imagem do Google

Eppure si muore

Maria Dulce Fernandes, 13.02.21

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Vendo em retrospectiva, a vinda de Jesus Cristo, o heliocentrismo, o paradigma da terra esférica, a evolução, o holocausto, o homem andar na lua, o aquecimento global, etc., de entre muitos outros factos provados e comprovados, até chegarmos à presente pandemia, ao seu tempo foram todos postos em causa.

Não é pertinente descartar o negacionismo quando conhecimentos centenários, milenares até, são postos em causa ou a inquietação e a ansiedade perante o desconhecido nos tornam irracionais. Não é pertinente descartar a transvaloração do conhecimento, por o mesmo não ser imutável, muito pelo contrário: é critico e criativo e sempre em evolução.

Não é pertinente descartar as escolhas de cada um. É apenas pertinente descartar a falta de bom senso e a teimosia quando estas têm uma agenda. E quando essa agenda toma proporções que demonstram um total desrespeito pela vida humana e advogam práticas criminosas (cri·mi·no·so.  adjectivo relativo a crime, contrário às leis morais ou sociais), não pode nem deve haver contemplações ou juízos de valor.

Se apelar ao sentimento e ao civismo não é o bastante, não funciona e se torna no problema que obstrói a solução, erradique-se de vez. Penalize-se. Penalize-se pesadamente e onde dói mais: na vileza das moedas com que causam tanta dor, tanto desespero e tanta tristeza a tanta gente.  

Para todos os que negam e para todos os que aceitam a realidade, a verdade é apenas esta, como diria, quem sabe, Galileu se andasse por estas bandas nestes dias de incertezas e temores: Eppure si muore.

 

Cartoon retirado do Google

Tristes Olhos Castanhos

Maria Dulce Fernandes, 07.02.21

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Foi há cerca de 56 anos que o cantor romântico dos "Olhos Castanhos" , numa actuação em directo no programa TV Clube, resolve  "informar" o país da absurda discriminação e grande disparidade de cachets perpetrada pela RTP, entre artistas nacionais e estrangeiros. Tão abrupta e surpreendente foi a intervenção, que ninguém sabia o que fazer e a emissão continuou no ar durante algum tempo.

Claro está que o ano era 1964 e a censura, apanhada de surpresa nada pôde fazer senão mandar parar a emissão em directo, mas nessa altura o "mal" já estava feito.

O caso "Chico Zé" teve  repercussões populares à boca pequena a nível nacional e, como seria de esperar, a sua carreira em Portugal acabou ali.

Teve um revivalismo anos mais tarde após a Revolução de Abril, mas nunca voltou a atingir a popularidade de que gozava antes de 1964.

Para ler

https://expresso.pt/cultura/2021-02-06-O-dia-em-que-o-cantor-Francisco-Jose-desafiou-a-RTP-em-direto

https://museu.rtp.pt/livro/50Anos/Livro/DecadaDe60/RTPAos10Anos/Pag30/default.htm

 

Foto Google/Expresso

Bye Bye, Claxon

Maria Dulce Fernandes, 31.01.21

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Sábado à noite, era noite de Claxon.

Crime, mistério, sexo, muita acção, violência e um sem-número de alusões à nona arte da nossa juventude, esta fantástica série foi gravada em 35mm com pós-produção cinematográfica, provavelmente a pensar no grande ecrã, quando se ficou por 13 fantásticos episódios televisionados.

O país em 1991 ainda não estava preparado para este tipo de seriado dito de antologia.

António Cordeiro protagonizou o anti-herói Claxon, um detective desorganizado que se movimentava nas sombras da noite e nos meandros do submundo do crime na cidade corrupta. Nas suas quase sempre emocionais investigações, contava com a ajuda inestimável da sua secretária Ruby Tuesday (Margarida Reis) e do enciclopédico repórter Rick Planeta (Ricardo Carriço) que o traziam informado e focado nas averiguações.

Com dezenas de participações especiais, Claxon foi uma série fora de série e considerada uma das melhores ficções nacionais de todos os tempos.

António Cordeiro deixou-nos ontem, vítima de doença prolongada.

Até sempre, Claxon

 

Foto retirada do Google

Manhã submersa

Maria Dulce Fernandes, 24.01.21

Desde que na nossa lua de mel perdemos um avião para Amsterdam, que o meu marido se tornou um paranóico da pontualidade. E uma pessoa muito chata também, na pressão que exerce para fazer cumprir essa exigência que se tornou lema de vida: esperar para não perder. Acontece sempre que existe um horário para cumprir. Hoje não foi excepção. Estava assente sairmos às sete e quinze para ir aos votos.

A manhã estava cinzenta e submersa numa névoa fria e translúcida que amarfanhava os humores.
Chegámos à EB1 de Alfragide eram sensivelmente sete e meia e já tinha fila. Cerca de trinta pessoas, contou o meu marido. Eu acenei que sim. Estava aborrecida porque a pressa fez-me esquecer do telemóvel, esse conectado tão essencial ao suporte básico de vida, que nos deixa incompletos e desesperados pela sua falta.
As pessoas na fila, cumprindo as suas distâncias de segurança, mantinham a cabeça baixa e muitos as mãos nos bolsos para não sentir o frio da manhã, numa posição de submissão às intempéries e à firme vontade de cumprir o seu dever.
Não havia cumprimentos, modelitos para brilhar, alegres conversas, crianças a correr, risos, ou alegria, apenas um propósito para realizar.
Chegados às oito horas, a fila desapareceu magicamente salas adentro. Foram cinco minutos. Li o meu nome e o número do Cartão de Cidadão, entrei, olhei, escrevi, saí.
Já não havia fila na rua. Caminhámos vagarosamente pelo empedrado que nos levaria de novo ao confinamento do lar, com a triste perspectiva de mais uma data de horas para passar.

Ao fim e ao cabo, ter tempo é estar vivo e estar vivo é cada vez mais um luxo.

Clara Gema do Ovo (5) - Regresso às aulas

Maria Dulce Fernandes, 09.01.21

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A 7 de Outubro de 1974 voltámos ao liceu. Foram cerca de três meses de férias grandes, as mais alegres e emocionantes até então. Era a liberdade recém-adquirida em todo o seu esplendor a aveludar o calor do verão e a trazer música e cor ao nosso pensamento, ao nosso comportamento e, claro está, às cordas vocais. Não havia local de veraneio sem um pequeno comício, que terminava invariavelmente com música ao vivo e muita alegria.

No liceu, o ano lectivo começou com grandes novidades. O uso de bata era facultativo e tínhamos pela primeira vez professores homens.

O professor Franquelim, que leccionava a nova disciplina de Introdução à Política, era feio. Era barbudo, era cabeludo, mostrava pouca higiene, tinha os dentes estragados, fumava nas aulas e não só permitia que as alunas fumassem, como era ele próprio a fornecer os cigarros, alguns enrolados à mão e de proveniência duvidosa. Tinha a sua própria entourage feminina e achava-se um autêntico D. Juan, defendendo o amor livre, até mesmo entre professores e alunos. Ninguém estranhou, portanto, quando em Maio de 1975 a Margarida apresentou uma proeminente barriguinha e lhe foi permitido continuar os estudos no liceu.

Foi o primeiro e único professor que detestei visceralmente.

A Clara voltou mudada. A mudança saltava à vista desarmada em dois pormenores fundamentais: não trazia o mono do Demis Roussos a tiracolo, mas em contrapartida ostentava uma boina preta com um pin do Che Guevara.

Tendo sido eu própria recrutada pelo tio Marcelino, pelo tio Simões e pelo Dr. Adelino Cabral - tudo gente interessante e íntima do João Lopes Soares que muitas vezes ajudaram a esconder da PIDE na tulha do carvoeiro - para as fileiras do Partido Socialista, fiquei agradavelmente surpreendida, até porque em 1974/75 éramos todos socialistas. Até mesmo o PCP era socialista, já que a URSS se definia como república socialista e a “direita" que havia era social democrata.

Estranhei a mudança na Clara, da personificação da alegria à muda introspecção. Deixou de ser expansiva e nas poucas palavras com que nos presenteava denotava-se alguma tristeza, que associei a problemas familiares, pois tinha a noção de que o dono da casa era altamente conservador.

Sendo uma aluna de quadro de honra, a Clara não deixou que a sua actividade político-partidária interferisse com os estudos e continuou a dar cartas, caindo nas boas graças do corpo docente pela forma eficiente como se dedicava a todas actividades lectivas, lúdicas e políticas no liceu, numa brilhante forma de multitasking. Ao princípio, participei nessa azáfama, mas calhando em conversa numa reunião do núcleo do PS de Belém no pátio da Junta, foi-me energicamente dado a entender que me devia demarcar das actividades políticas da UEC. Foi a minha primeira farpada do Partido Socialista.

 

Foto retirada do Google

The Black Night

Maria Dulce Fernandes, 07.01.21

 

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow —
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.
 
I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand —
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep — while I weep!
O God! Can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?
 

Blogue da semana

Maria Dulce Fernandes, 02.01.21

A gula é o meu pecado capital de eleição. Adoro cozinhar, experimentar novas receitas e sabores e depois deliciar-me com os preparados. Procuro muitas vezes no Casal Mistério inspiração para continuar a pecar sem crescer para os lados, para além de muitas outras rubricas interessantes. Casal Mistério é a minha escolha como blogue da semana, a inaugurar 2021.