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Delito de Opinião

Emoções #8

A emoção da fé

Maria Dulce Fernandes, 14.06.21

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O ye, of little faith

É a fé que nos salva, diziam na catequese.

Pode ser verdade. Não sou crente, mas acredito. Tenho fé. Sim, tenho a minha fé.

Nos chamados lugares sagrados, sempre me senti consciente da minha pequenez. Falta-me sempre o peito para tanto coração e caio amiúde num pranto que não sei explicar, apenas sei sentir.

É assim em Fátima, no Bom Jesus, em Lamego. Foi assim em Santiago de Compostela, em Lourdes ou em Roma.

Sempre defendi que somos o fruto das nossas escolhas e não acredito em  predestinação,  mas vezes há em que tudo se conjuga para que o acaso se transmute num acontecimento único.

Aconteceu tantas vezes.

Em Roma, por exemplo.

Fomos cedo para a Praça de S. Pedro. Nove da manhã ou talvez nem tanto, para evitar o mundo que se adivinhava. Trinta ou quarenta minutos depois, entrámos na basílica. Estranhámos pedirem-nos para revistar as mochilas à entrada. Já tínhamos passado por todo esse processo à chegada à praça, entre as colunas. Muita Guarda Suíça e provavelmente muitos mais à paisana. Um deles disse-nos que podíamos ficar ou sair, mas não poderíamos voltar a entrar. Decidimos ficar. Era o dia do aniversário do meu marido e tínhamos um almoço especial nos planos, mas ficámos. Simpático, deu-nos um livrinho com o programa e os cânticos. 

A missa de ordenação de novos padres começou e o Papa Francisco entrou com todo o séquito papal. Estava ali, mesmo ali, quase à distância de um braço. Chegados ao altar-mor, começaram a celebração que durou quase três horas.

Chorei grande parte do tempo. No restante, cantei os cânticos com toda a emoção que uma estranha sensação de felicidade redescoberta me permitiu.

Quando terminou e deixaram entrar a mole humana que aguardava, sentimo-nos sozinhos e sentámo-nos cá fora a chorar.

A emoção da fé envolveu-nos e embalou-nos naqueles momentos de puro fascínio.

E a praça cá fora transbordava de gente unida pela mesma fé.

Foi uma emoção extraordinária.

Emoções #7

A lua

Maria Dulce Fernandes, 26.05.21

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Oh lua, oh luar

Aqui tens o meu menino

Ajuda-me a criar

Tu que és mãe

Eu que sou ama

Tu que o crias

Eu que lhe dou mama

Repetia a Avó Júlia, com o meu irmão no colo, janela aberta para o Tejo, numa noite fria de Novembro, um céu estrelado e uma lua farta, imensa, que jorrava uma luz gateada de um veludo empalidecido. Era um momento solene aquele em que, seguindo ritos pagãos milenares, se oferecia em segredo o bebé à lua, deusa e mãe fonte de vida,  para que pudesse medrar sob a sua protecção.

Lembro-me de querer entrar e a Avó Adelaide me dizer que não, que só podemos ver, longe e em silêncio. Porquê? Perguntei eu. Porque é magia, disse a minha avó, e o homem que lá está com um molho de silvas às costas a olhar para nós, pode ficar zangado.

Durante muitos anos fiz sempre adeus à lua, para que o homem das silvas me visse e não se zangasse comigo.

Observar a lua é uma emoção.

Fotografar a lua é emocionante.

Tenho centos de fotos de todas as fases em diferentes horas do dia e dos contrastes de luz em que se apresenta.

Eu nasci na mudança da lua. Os meus irmãos,  as minhas filhas e os meus netos também. Estar com a lua ou andar aluada são estados normais.

Pode parecer cliché, mas é emocionante, empolgante e emotivo poder sentar-me numa praia escura e ver a lua, altiva no seu perigeu espelhar-se no mar e espraiar gotas de luz na crista de cada onda.

Hoje vou fazer serão.

Emoções  #6

Maria Dulce Fernandes, 13.05.21

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Todo o Desporto, principalmente o Futebol, é uma emoção. 

Nascida no bairro ao lado e criada em Belém, uma das minhas mais antigas e mais nítidas memórias é estar vestida com umas jardineiras azuis com enormes botões azuis claros de madeira e sentada na cadeira giratória da barbearia do Felgueiras, em frente ao Chafariz da Memória, com o meu avô Américo a apressar o exímio assassino de fartas melenas, até chegar ao pretendido look à Joãozinho. Vamos lá, Felgueiras, que o jogo daqui a pouco começa, dizia o meu avô com o relógio fora do bolso do colete, já a perder a paciência com os retoques finais. O produto daquele devaneio capilar havia de dar grandes dores de cabeça ao meu avô durante muito tempo, sendo que “cortar o cabelo à Joãozinho" se tornaria anedota familiar, qualquer coisa na linha “quem não tem cão, caça com gato".

Mal acabou de pagar, o meu avô pôs-me literalmente debaixo do braço e ala que se faz tarde, desatou a correr pelas terras, passou o Salão Portugal, atravessou a Calçada da Ajuda, a  antiga Rua Coronel Pereira da Silva e desceu uns barrancos e mais umas terras até chegar às Salésias.

Sentada no chão à beira da relva a lambuzar-me com um chupa de groselha, via uma data de pernas a correr atrás de uma bola, num qualquer jogo de treino do Belenenses,  em que o meu avô, torneiro mecânico de profissão e árbitro de coração, vibrava sempre como se fosse uma grande final. Foi o maior Belenense que conheci. Aprendi com ele que não há nada mais belo do que a Cruz de Cristo ao peito, bem em cima do coração. Aprendi que a vista do Restelo para o mar inspira grandiosidade. Aprendi a vibrar com as vitórias e a aceitar as derrotas com a dignidade de um verdadeiro adepto de sangue azul. Fiquei rouca e doida em 28 de Maio de 1989. Belém viveu um tsunami azul e eu fico feliz em ter feito parte dele.

Foi uma emoção indescritível.  Belenenses para sempre. Com a certeza de vencer!

Com o casamento, recebi o nome do marido como era da lei e a loucura verde. Identifiquei-me prontamente com a dignidade da resignação e da tolerância do meu sportinguista, tão diferente da arrogância clubística que diariamente provocava grande parte da poluição sonora no meu local de trabalho.

Só tivemos divergências futebolísticas quando os nossos clubes se enfrentavam e mesmo assim quem ria por último respeitava o meio sorriso do outro. Foi sempre assim. Vibrei com ele em 1982, em 2000, em 2002 e este ano a 11 de Maio, numa noite memorável em que, sentados com a neta a ver um espectáculo e com o telemóvel quase sem luz de ecrã, estávamos sempre atentos ao desenrolar do jogo, a neta a perguntar constantemente “então, então?” ou não fosse ela uma digna descendente de almas leoninas. Pulámos os três no Largo do Carmo em frente ao quiosque como se tivéssemos molas nos pés. Rapaziada, oiçam bem o que vos digo e gritem todos comigo!

Foi uma emoção tremenda .

Emociono-me a cada vitória, clubística ou nacional.

Correm-me abundantes lágrimas à lembrança daquele Verão de 1984 em Albufeira, com a transmissão em directo da prova de Maratona dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em pé junto ao balcão de um cafezinho apinhado de gente, em frente a um pequeno aparelho de TV. Ver o Carlos Lopes chegar à meta em primeiro, vê-lo subir ao podium, ver a nossa bandeira no mastro mais alto e ouvir o nosso hino tocar foi de uma emoção avassaladora, daquelas que criam sentimentos de pertença tão profundos como uma marca a ferro e fogo.

Amigos improváveis - o Gorby

Maria Dulce Fernandes, 03.05.21

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O meu pai morreu novo. O passamento foi rápido e fulminante como uma vela que se apaga sem a chama tremeluzir. Para o meu pai acabou o mundo e para nós,  os que ficámos por cá sem saber como reagir aquele vazio que de repente se instalou, começou uma dura caminhada de revolta, conformação e aceitação que dura até hoje, como um livro no qual não conseguimos escrever o capítulo final.

Meses depois da tristeza se instalar, decidiu a minha mãe arranjar um bichinho de estimação que nos distraísse e nos animasse. Depois de estudar e aprofundar várias hipóteses, decidiu-se, com o beneplácito do meu irmão mais novo, por um husky de olhos azuis, estouvado e brincalhão, que fez as delícias de miúdos e graúdos.

Veio para a nossa família com três ou quatro meses, um traquinas com pedigree e um nome todo pomposo e impronunciável na caderneta do Clube de Canicultura, mas como tinha uma mancha na fronte, passou a ser o Gorby, sem títulos nem berço.  Era o nosso cão.

A casa dos meus pais em Belém num espaçoso terceiro andar, tinha a vista para o Tejo mais bonita das redondezas. Tinha também a escada mais íngreme e desgastante de subir de que tenho memória num prédio de três andares. Isto aliado ao gosto eclético da minha mãe por peças de decoração e mobiliário que atafulhavam profusamente  toda a área, tornou a vivência do Gorby lá em casa algo limitada. Ao princípio, enquanto cachorrinho, esgueirava-se facilmente por entre os exíguos espaços vazios. Depois cresceu. Cresceu muito. A mesa da sala debaixo da qual gostava de se refugiar, perdeu em tamanho e tornou-se numa armadilha com a pesada pedra de mármore a cair com estrondo sempre que o Gorby se levantava e a carregava nas costas.

E ir á rua? Só o meu marido e os meus irmãos tinham arcaboiço para a proeza, pelo que se iam revezando todos os dias.

Passados cerca de dois anos, sempre dócil e brincalhão jogava qualquer de nós de cangalhas em brincadeiras, tal não era a sua força. Com a patas dianteiras nos meus ombros, quase ficávamos equiparados em altura. Todos os dia tinha ralhete por destruir qualquer coisa lá por casa.

Um fim de semana, o padrinho do meu irmão mais novo foi de visita à minha mãe e encantou-se com o Gorby. Morava numa casa com jardim ali para os lados da Fonte da Telha e ofereceu-se para levar o Gorby por uma semana para a minha mãe descansar. Tinha crianças pequenas e foi uma alegria. O Gorby esteve dois dias tristonho, com saudades, mas depressa se habituou aquela casa e aquela gente que tão bem o tratava e lhe dava espaço para correr e o levava em longos passeios na praia todos os dias ao entardecer.

Depressa entendemos que aquela semana de férias duraria uma eternidade e que o “lado de lá" se tornaria em peregrinação obrigatória de muitos fins de semana.

Falar no Gorby trouxe lágrimas por muito tempo, mas também exultação com os vários prémios que ganhou em concursos nacionais e estrangeiros e muitas gargalhadas com as histórias das suas tropelias.

Nunca se esqueceu de nós nem da nossa casa. Quando chegava nas imediações começava a ficar inquieto e a ladrar de satisfação. Cada visita era um acontecimento de afagos e lambidelas.

Viveu uns felizes 15 anos.

Nunca mais quis ter um cão.

Feliz dia para todas as mães

Maria Dulce Fernandes, 02.05.21

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Mãezinha

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
43 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai desde o berço até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (Oh nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que meu pai percorria,
tranquilamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.

Dessas 9 excelentes raparigas
Uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.

A que sobeja
Chamava-se Rosinha.
Foi essa a que meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.
 
António Gedeão
 
PS. Apesar de , para mim, no primeiro domingo de Maio não se comemorar o Dia da Mãe, nunca será demais celebrar a Mãe, ventre da vida. Bom domingo.

Emoções #5

Banda desenhada

Maria Dulce Fernandes, 01.05.21

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Tex Willer e o Signo da Serpente

Por volta dos meus quinze ou dezasseis anos, todas as sextas-feiras depois da escola eu ou o meu irmão íamos à CaJor e trazíamos emprestadas as novidades aos quadradinhos da semana.

Desde os fascículos do Tintin, com publicações como o Blueberry, o Michel Vaillant, o Olivier Rameau, o Cubitus,  Blake & Mortimer, etc, passando pelos Almanaques Disney, o Falcão com o Major Alvega e o Ene 3 e, naquela altura particular, os livros do Tex Willer.

Estranhamente, nunca fui fã de cowboiadas e dispensava westerns, porque partia do pressuposto errado de que quem viu um, viu todos, mas a história da Serpente Emplumada, passada na Mesoamérica com muito sobrenatural e o culto Quetzalcoatl à mistura, era por demais emocionante para pôr de parte por um capricho de julgamento.

Era uma festa à sexta-feira à tarde poder sentar-me nas almofadas encostada à cama, com um enorme prato de torradas com manteiga e geleia de marmelo caseira, garrafa do leite à mão e uns poucos de livrinhos para também devorar e actualizar a narrativa gráfica, que me iria deixar numa emocionante expectativa durante mais sete dias.

Ler sempre foi uma emoção. 

Ler BD ainda é uma emoção redobrada.

Acabámos por coleccionar todos os livros com as aventuras do Tex Willer, que muito mais tarde foram oferecidos a uma instituição quando a minha mãe mudou de casa. De algum modo, aprendi com a sua leitura a ver westerns sem ter em conta apenas o preconceito do enjoativo índio-bandido/cowboy-herói, mas sobretudo a arte da sua concepção.

Há pouco tempo um amigo emprestou-me o Signo da Serpente.

Eu ainda sei toda a história de trás para a frente, mas, como tantas outras histórias em tantos outros livros lidos e relidos, foi uma indescritível emoção voltar a ler.

Emoções  #4

Maria Dulce Fernandes, 21.04.21

Piadas com piada

Amanhã vou a Évora.

E como tantas vezes, em tantas circunstâncias idênticas ou díspares, a frase “mas a minha mãe foi a Évora" pinta-me um sorriso rasgado. Não só por me recordar de momentos familiares divertidos, de rever ou reouvir “A história da minha vida", mas também por me relembrar tempos mais negros, quando a necessidade aguçava o engenho, a piada não era apenas um triste e fácil palavrão, tinha conotações sociopolíticas e nos obrigava a pensar.

O meu pai adorava o teatro de revista. Compravam-se bilhetes de frisa  para o Maria Vitória e de vez em quando eu era contemplada com uma ida à revista.

Relembro com agrado os momentos deliciosos, plenos de hilariantes diálogos carregados de inteligentes subentendidos que satirizavam a sociedade portuguesa e o que se passava fora de portas, e principalmente a classe política. Em tempos de censura a criatividade era absolutamente fabulosa.

Do alto dos meus 14 anos, na primeira vez que fui à revista, não alcancei o motivo de tantas gargalhadas até às lágrimas, mas aprendi com o tempo.

É sempre uma emoção recordar a emoção que era repetir, sabendo que se estava a transgredir.

É sempre uma emoção rir do riso inteligente e franco que nos proporcionavam.

Nomes como os de Henrique Santana, Eugénio Salvador, Raul Solnado, Ivone Silva, Óscar Acúrcio, Vítor Mendes e tantos outros fazem parte do meu imaginário de adolescente no regime, em transição para a liberdade.

É verdade que rir é o melhor remédio mas há rir e rir. Piadas muito giras, cheias de vulgaridades obscenas, funcionam por meia dúzia de vezes. Depois é mais do mesmo e deixa de ter, ou ser, piada. Outras piadas há que pelo seu burilado se tornaram intemporais e essas é sempre emocionante recordar.

Entender a brejeirice dos diálogos, dos monólogos, das letras das músicas era uma emoção que me emociona até hoje.

Emoções  #3

Maria Dulce Fernandes, 10.04.21

Vencer

Vivemos uma época de incertezas. Tudo o que temos como certo agora, pode ser dúbio, impreciso ou indeterminado nos minutos seguintes.

E de um momento para o outro, aquela fortaleza de determinação e firmeza que se construiu a vida inteira é abalroada pela confusão obscura da ambivalência dos dias em que tudo o que é deixa de ser e tende a oscilar no desconsolo da negatividade que continuamente nos assalta e nos arroga.

É imperativo usar todas as armas disponíveis para combater o mal dos dias, os temores, as noites insones, a ansiedade.

É sempre uma emoção ouvir  “ Nessum dorma" pela voz do Luciano Pavarotti .

Remete-me para outros tempos, tempos de paz, em que a música era união, era ternura. Era emoção.

É o desfibrilador preciso e necessário à regulação dos batimentos cardíacos e à recuperação da tranquilidade.

Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o, principessa,
Nella tua fredda stanza,
Guardi le stelle
Che tremano d'amore
E di speranza.

Ma il mio mistero e chiuso in me,
Il nome mio nessun saprá!
No, no, sulla tua bocca lo diró
Quando la luce splenderá!

Ed il mio bacio sciogliera il silenzio
Che ti fa mia!

(il nome suo nessun saprá!...
E noi dovrem, ahimé, morir!)

Dilegua, o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All'alba vinceró!
Vinceró, vinceró!

 

“ Qual é o fantasma que nasce todas as noites, apenas para morrer quando chega a manhã?”

“O que é vermelho e quente como a chama, mas não é chama?”

"Qual é o gelo que te faz pegar fogo?"

As respostas estão dentro de cada um, porque a esperança não morre, o sangue é vida e o gelo derrete com a emoção da vitória.

Venceremos! Estou certa que sim.

Emoções  #2

Maria Dulce Fernandes, 03.04.21

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Amêndoas confeitadas - Amêndoas Moles

Todos os anos era a mesma dança.

Em começando as férias que antecediam o segundo período, entabulavam-se os preparativos para a Páscoa. Numa vertente mais religiosa, cabia-me a confissão, a missa e a comunhão, por isso lavava e engomava a mantilha branca que a Lena do Vitinha me tinha trazido de Badajoz, polia o terço de prata que estava guardado na caixinha de folha espelhada com a Rainha Santa Isabel em relevo, guardada junto ao pequeno missal e saía para ensaiar para a missa de Domingo e para a procissão que se lhe seguia.

Era por essa altura que, num pequeno intervalo de toda aquela roda viva, me escapulia com o meu irmão até ao Confeiteiro, para comprarmos amêndoas doces.

Ainda sonho com elas.

O meu irmão preferia as torradas e caramelizadas; eu adorava as amêndoas moles, que se desfaziam na boca com uma leve pressão. Ainda agora sonho com elas, mas nada se compara. Quando o Confeiteiro deixou de as fabricar, íamos comprá-las à Baixa, à Pastelaria Suiça. Eram menos boas, mas bastante satisfatórias.

Nunca gostei muito de confeitos de licor, amêndoas em chocolate, amêndoas verdes, ou das tradicionais duras e multicolores. A minha perdição eram as moles, um veneno para os dentes, mas quem se ralava com pormenores na pré-história da existência?

Era um martírio fazê-las render até ao Festival Eurovisão da Canção,  acontecimento socio-familiar, em que se juntava uma data de gente, velhos e novos com snacks no colo à volta de uma TV e se vivia aquela que,  na altura, era uma verdadeira festa da música.

Comer amêndoas moles era uma emoção.

As lembranças são emocionantes, doces e quentes, com aroma a incenso e caramelo e melodiosos e desafinados Lá Lá Lás.

A amêndoas moles também. 

Ainda sonho com elas.

 

Quero desejar a toda a família do Delito uma Santa Páscoa. 

 

 

Foto do Google

 

Emoções #1

Maria Dulce Fernandes, 29.03.21

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Gin tónico

As pequenas transgressões são sempre emocionantes.

A idade trouxe-me alguma sabedoria, mais calma, ponderação e a capacidade de apreciar a beleza das pequenas coisas e de me emocionar com elas. Trouxe-me também uma alergia às bebidas com gás e – oh suplício – às bebidas com álcool.

Não sendo a anafilaxia algo que dê gozo repetir, quedo-me pela abstinência, o que faz com que transgredir as normas seja sempre uma emoção.

Depois de vencer de sortes o que o bom senso e a precaução me vêm continuamente a recordar num importuno matraquear, entrego-me indulgentemente ao prazer de saborear a minha bebida favorita, fazendo ouvidos moucos à vozinha aborrecida que massacra “não bebas, olha a alergia".

E se sabe bem.

Nada daquelas modernices com ervas, bagas ou  frutas. Simples, com gin, água tónica, gelo e limão, ao fim do dia, à falta de melhor sentada à janela a perscrutar a linha do horizonte.

É uma emoção.

 

 

Imagem do Google

Na Sopa (6) - Júlia & Juliana

Maria Dulce Fernandes, 14.03.21

 

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A facilidade que as crianças têm em fazer associações de ideias remete-me sempre para a Sopa Juliana. O eu da minha infância nunca teve a mínima dúvida de que o nome de Sopa Juliana se devia ao facto de a mesma ser confeccionada pela Avó (bisavó)Júlia.  Lá vinha ela às 2as feiras, nos tempos em que a “praça" apenas encerrava ao Domingo, com a alcofa de palha cheia de embrulhos de papel de jornal em forma de cartucho de tremoços, com meio quilo dos mesmos e uma quarta de pevides para os meninos, couve e cenoura picadinhas naquela maquineta redonda de dar à manivela que a tia Adelaide tinha na banca da praça, uma quarta de feijão encarnado e batatas, cebolas, cenouras e abóbora a granel lá mais no fundo da alcofa.

Tirava o xaile castanho, guardava ciosamente a caixinha do rapé, arregaçava as mangas, botava  um avental cinzento com frente e verso sobre a saia comprida, atava o lenço preto na nuca e começava a preparar a base da sopa, com batata, cebola, cenoura, abóbora e alho e cozia  à parte o feijão encarnado previamente demolhado.

A Avó Júlia, a única verdadeira cozinheira da família, trabalhara na cozinha do Palácio das Necessidades antes da República e sabia cozinhar como ninguém,  apesar de os seus conhecimentos gastronómicos não poderem ser aplicados em casa com frequência,  porque o custo de vida e a família numerosa não lhe permitiam preparar na modesta cozinha com fogão a lenha, os acepipes que cozinhava para a realeza. Contava ela  com aquele meio sorriso de pessoa sofrida, que também tinham que ser inventivas e algo malabaristas com o orçamento na cozinha do palácio,  porque a Rainha D. Amélia era muito rígida com as contas,  bastante forreta e muito exigente.

“ D. Amélia de Orleães,  que em Portugal foi Rainha, tinha coração de fera e julgava ser santinha", cantarolava a Avó Júlia, a título de pregão explicativo das coisas que tinham sido.

Sopa havia sempre e em boa quantidade, por isso a “entrada" era invariavelmente sopa , que tinha que ser consumida a todas as refeições e até acabar o panelão.

Por estranho que possa parecer, a criançada comia o que comiam os adultos e se a sopa tinha couves e feijões,  pois que era o que havia para comer e com fita ou sem fita a sopa era uma instituição.

 Eu não gostava de sopas com “couves”. Qualquer legume que obrigasse a um processo de mastigação mais demorado, era um tormento. De todas as sopas de“ couves", o meu ódio de eleição recaía na sopa de feijão verde. Ainda agora a minha relação com as judias verdes é bastante tensa. Já a couve branca curiosamente comia bem, enrolada tipo esparguete e feijãozinho, sempre.

Depois de cozinhados os legumes eram passados pelo enorme passe-vite de folha, acrescentados de água, azeite , sal e da Juliana de couve e cenoura e por último do feijão encarnado já cozido.

Se era boa a sopa, nem vale a pena perguntar. Por muito que  tente reproduzir os sabores de antigamente, nunca consegui alcançar o sabor que emanava da paixão pela cozinha e pela família que a Avó Júlia acrescentava aos condimentos de  todas  as suas sopas e de  todos os seus cozinhados.

Blogue da semana

Maria Dulce Fernandes, 14.03.21

Viagens à  solta, o nome já diz muito. 

Nestes tempos de reclusão, a falta que faz viajar lá por fora, cá por dentro,  pela imaginação,  num sonho, sei lá, arejar os  horizontes tão amarfanhados pelo receio e pelas proibições.

Pelos passeios,  pelas sugestões,  pelas fotografias e pela lufada de ar fresco, escolho como blogue da semana Viagens à Solta.

Na Sopa da Paz(5) - Contos do feijão

Maria Dulce Fernandes, 05.03.21

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A Cila era castiça. Boa pessoa, simples, trabalhadora,  alegre e divertida, cantarolava de espanador na mão e tinha sempre adágios na ponta da língua fosse qual fosse a circunstância,  alguns deles adaptados por si às ocasiões, como aquele com que nos presenteou numa tarde de descasca, com toda a família sentada à volta da grande alcofa de palha cheia de vagens riscadas de feijão :“Feijãozinho de bagar! De bagar se vai ao longe!!" E nós riamos divertidos e a Cila continuava a falar, a falar, enquanto as suas mãos dobravam e rasgavam as vagens com a rapidez e eficiência que muitos anos de labuta lhe conferiam. Era uma força da natureza e talvez por isso praticasse religiosamente aquela máxima de Lavoisier em que nada se cria , nada se perde e tudo se transforma. Castanhas ressequidas? Põem-se de molho e faz-se puré! De um resto de sopa fez arroz de feijão, porque , dizia, para o sabor basta o cheiro. Era o génio das sobras, muito antes da prática se tornar moda, com algumas transformações no mínimo rocambolescas, tal a sua genialidade.

As nossas sopas de feijão catarino, segundo receita da minha bisavó Júlia , levavam feijão, tomate, cebola, alho, uma folha de louro, sal e azeite. Em dia de sopa era toda a gente lá em casa a ajudar a encher a grande panela. Depois de ter os legumes bem cozinhados, eram passados por um enorme  passe-vite de folha herdado da bisavó Júlia - o carrossel -  que esteve em serviço até se partir, tendo sido substituído por um outro em inox que não se comparava ao original, quer em tamanho, quer em eficiência.  Depois com o advento da varinha mágica, o passe-vite passou a funcionar apenas como crivo. 

Pessoalmente, não ponho tanto feijão.  Substituo metade (0,250kg) por meia curgete , cem gramas de abóbora e uma cenoura pequena. Não fica tão forte, mas também não fica tão boa.

A Cila adorava aquela sopa e por isso havia sempre uma panelinha guardada para ela. Tanto quanto sabemos aquela sopa, escura e cremosa, comia-a a Cila de mil maneiras, até como molho de bife.

Não há colher de sopa de feijão catarino que possa saborear sem que as lembranças me tragam a voz tagarela, o sorriso e a alegria que sempre nos transmitiu.

Dizer que a Cila era um ponto é a mais pura verdade, mas é um dos grandes pontos que, ponto a ponto, compõem o traçado da linha da minha vida.

 

 

 

Na Sopa 4 - Verde que te quero verde

Maria Dulce Fernandes, 01.03.21

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Inverno sem frio é lá Inverno!

O fogo crepitava no lar de pedra quadrada e negra de fuligem. Ficávamos sempre defumados na procura do calor, mas sabia tão bem. “Onde vais?”, pergunto à Lúcia vendo-a vestir o casacão. “Vou buscar couves para uma sopa.” Sorrio para a minha filha. "Como na história dos sete cabritinhos, vês? Vou contigo!" “Faz frio…” Embrulhei-me no grande xaile de lã, pus o gorro e lá fomos às couves. "Mais aquela", disse a Lúcia já com uma braçada de uns cinco pés. Pelo caminho colheu umas ervas nuns arbustos. “Mato para dar sabor", explicou.

De volta à cozinha, a água já fervia nas grandes panelas de ferro com os três pés bem assentes na brasa. Descascámos batatas, picámos cebolas e alhos e juntámos tudo à água fervente. Depois de lavarmos bem as folhas mais tenras, enrolámos as couves num charuto e cortámo-las fininhas. Um mimo de couves aquelas do sopé do Gerês. A Lúcia pegou nos ramos de mato, atou-os firmemente com uma guita e panela com eles.

Depois de todos os ingredientes cozidos com umas pedrinhas de sal e azeite até estarem bem desfeitos,  retirou-se o mato e acrescentou-se mais água  a ferver e as couves. O aroma era divinal. Cheirava a agasalho e a conforto. E o sabor? Com duas generosas rodelas de chouriço, aquele sabor único, agridoce e aconchegante nunca o consegui reproduzir. As hortaliças, a água, as panelas, o fogo, o molhinho de mato, aquelas coisas simples do dia a dia da Lúcia, guardam até hoje o mistério do melhor caldo verde do mundo.

Talvez seja como diz o outro, o bom sai bem. Mas no que me diz respeito o bom é apenas em Vila Verde.

Na Sopa - 3 Todos à fava

Maria Dulce Fernandes, 25.02.21

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Durante muitos anos, associei as favas à ‘Ti Frágil, vizinha dos meus avós em Belém, mais conhecida no bairro como a mulher da fava-rica. Não fazia jus ao nome, a ‘Ti Frágil, bastava olhar para a enorme panela cheia de fava-rica que punha à cabeça sobre a rodilha e, perfeitamente equilibrada, seguia com ela por aí fora com o seu pregão, antes do sol nascer, até se lhe acabar o preparado.

A fava-rica que a minha mãe fazia, segundo a receita da ‘Ti Frágil, era confeccionada com fava seca que se punha de molho em água abundante durante mais de 24 horas. Era seguidamente limpa dos olhos e carneiros quase sempre presentes na fava seca, e levada a cozer em água e sal até começar a criar um caldo com as favas meio desfeitas. À parte, coze-se alho picado em azeite, sem deixar queimar. Junta-se depois ao caldo de favas e deixa-se refogar. Junta-se uma colher de sopa de vinagre e serve-se bem quente, de preferência com pão rijo. A minha mãe nunca se conformou com a sua fava-rica. Dizia que ficava a milhas da da ‘Ti Frágil, mas eu gostava bastante; foi única que provei.

Nem sempre fui apreciadora de favas. Aliás, durante toda a minha juventude devo ter sido a maior odiadora de favas da família. Qualquer receita de favas bem podia aguardar até vir a mulher da fava-rica, no que me dizia respeito, mas foi um gosto que fui adquirindo com o tempo e não troco umas belas favas guisadas (com coentros, entrecosto, toucinho e enchidos), ou salteadas como acompanhamento ou o sublime puré de favas, por um almoço de sushi, por exemplo (bom, a verdade é que não troco seja o que for por um almoço de sushi).

A primeira vez que fui à fava, foi na quinta da Barra Cheia. Devia ser Maio e eu devia ter onze ou doze anos. Apanhámos umas poucas de sacas de serapilheira cheiinhas de vagens de fava, que dividimos pelo consumo imediato, pelo congelador e pela secagem. A minha mãe gostava das favas grandes e rijas para puré. Tirava-lhes a casca, os olhos e a pele e cozia-as com duas cebolas, cinco dentes de alho, um raminho de coentros, sal e azeite. Servia-as com pedaços de pão torrado, os antepassados dos croutons. Não mudei muito a receita; acrescento uma cenoura, um alho francês e uma curgete apenas quando as favas são tenras para puré e passo todo o puré triturado pelo crivo para limpar as peles que depois de moídas se tornam muito desagradáveis.

As favas, compro-as na vagem. Nem sempre as descasco de imediato. Espero a companhia da minha filha, que tem saudades de se sentar com a avó a descascar favas e a ver televisão. A minha neta junta-se a nós e o meu neto ajuda a desestabilizar tudo, com riso qb à mistura.

 Há tradições que são para manter.

Na sopa 2- A fingir

Maria Dulce Fernandes, 20.02.21

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Os americanos têm uma expressão engraçada – empty nesters - para definir aqueles casais que dão por si sozinhos entre as quatro paredes do lar, após  os filhos terem deixado a casa da família para começarem uma “nova vida".  Cá por casa a realidade é a essa mesmo.  Uma vez por semana ( antes da pandemia) temo-los de visita, temos os netos de vez em quando, mas não é a mesma coisa e reflete-se sobretudo nas refeições.  Cozinhar para dois não é a mesma coisa do que cozinhar para quatro.

Aquelas comidas tão boas e tão nossas, fartas e variadas, vão ficando para uma almoçarada sem data prevista e dão lugar a pratos igualmente bons, mas menos variados e de confecção mais rápida. É o caso do cozido à portuguesa, que depende de dois ou três   factores fundamentais para se fazer em casa : conseguir as carnes que se pretende e os enchidos também,  principalmente o chouriço de sangue que tem que se encomendar com antecedência, arranjar couves tenras e conseguir juntar oito ou dez pessoas num almoço ao fim de semana, sem recolher obrigatório às 13 horas. Escusado será dizer que não faço um cozido a sério há mais de um ano.

O meu pai era doido por cozido à portuguesa. Sempre que vínhamos do Algarve, Canal Caveira era paragem obrigatória.  O cozido de lá era muito bom e muito bem confeccionado. Do cozido que fazíamos em casa sobrava sempre  imenso, que aproveitávamos para fazer sopa, croquetes de carne e roupa velha, salteando em azeite, alho e temperando a seguir com vinagre o excedente das couves e dos legumes. Mas cozinhar um bom cozido para dois acaba sempre por ser um estrago, numa altura em que poupar está na ordem do dia.

Para matar saudades do sabor a cozido e da sopa das sobras, cozo uma bela peça de chambão em água abundante e sal a gosto. Talvez durante duas horas até a carne começar a desfiar. Tem que se rectificar a água uma ou duas vezes . A parte mais trabalhosa é cortar duas batatas médias, uma cenoura grande, cerca de 150 gramas de  abóbora, duas cebolas médias e meia curgete grande aos quadradinhos, e um quarto de couve branca e meio alho francês grande em juliana.  Depois é desfiar a carne cozida e acrescentar água à água da cozedura que tem seguramente gordura suficiente e não necessita de azeite. Começar por juntar ervilhas (ou feijão manteiga) e as cenouras, depois todos os outros legumes deixando os quadradinhos de batata e curgete pada o fim. Depois de tudo cozido junta-se carne desfiada ( não uso toda) , uma mancheia de cotovelinhos e por fim, muita hortelã. Umas rodelinhas de chouriço de carne cozido à parte, rematam o prato para quem apreciar. É tão bom de comer e é por si só quase uma refeição.

Depois de pronta, cheira à cozinha da minha avó, onde nos juntávamos doze na grande mesa com as travessas de carnes, enchidos e legumes fumegantes. E sabe tão bem!

 

Na sopa

Maria Dulce Fernandes, 18.02.21

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Há uns anos, fartei-me de sopas de legumes verdes. Sopas verdes fazem bem a tudo, fortificam o sistema imunitário e facilitam em todos os trânsitos do organismo, mas sabem invariavelmente ao mesmo e para mim isso do verde apenas adquiri pela osmose do casamento.

Uma sopinha sabe sempre pela vida, principalmente no Inverno, depois de um dia cansativo e gelado.

Andei uns tempos a ruminar a ideia e resolvi recrear as sopinhas da minha avó tal como a minha mãe aprendeu e me ensinou.

Parece coisa simples, mas, como todos os projectos em que me empenho, ou faço com rigor ou não faço de todo.

Uma sopa de galinha com ovo, por exemplo, tem que ter galinha-galinha.

Junto à Igreja da Memória, havia uma mercearia de géneros e vinhos, o “Torrado", que tinha uma quinta urbana nas traseiras onde os proprietários tinham uma criação de animais de capoeira que vendiam para consumo particular, juntamente com ovos, couves tenrinhas para caldo verde, favas na vagem e feijão de descascar. Completamente ilícito? Pois claro que sim, mas a cabidela com aquelas galinhas era uma tentação daquelas que nos impelem a quebrar todas as leis.

Com o crescimento em massa das minilojas de hipermercado de bairro, o pequeno comércio tem cada vez mais tendência a desaparecer. Creio que o Torrado ainda existe, talvez como ponto de referência no bairro e lugar de recreação e encontro dos moradores mais velhos da Memória; não tem qualquer poder competitivo, rodeado por todos os lados de médias superfícies das grandes marcas do comércio a retalho.

Só podemos contar com os grandes mercados nem sempre acessíveis ou com a oferta online, que curiosamente se tem revelado bastante variada e de boa qualidade. Nem sempre se acerta à primeira, mas em encontrando é para manter.

É nesta procura da qualidade no sabor que dou por mim a ver os noticiários com uma tigela grande no colo e um saco grande de feijão com casca, favas na vagem ou ervilhas, que vou descascando com maior ou menor velocidade ou agressividade, consoante se vão desenrolando as informações noticiadas na televisão.

O resultado tem sido sempre fantástico, quer no puré de feijão com cenoura e couve, na sopa de galinha com ovo, no puré de favas com coentros, na sopa de cozido com chambão, no caldo verde com "tora" e em muitas outras, conforme me vêm chegando as ideias e as saudades dos sabores de outrora.

Ínclita Geração

Maria Dulce Fernandes, 16.02.21

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Carmen Dolores 1924-2021

 

Tive o prazer de conhecer Carmen Dolores no início dos anos oitenta. Fazia parte de um grupo de seis pessoas, entre as quais o António Vilar.

Foi um Amor de Perdição!

A Senhora das Brancas Mãos e o nosso Camões. Não é todos os dias que se priva com realeza. Realeza sem coroa? Sim, Realeza pura. Fazem parte da ínclita geração do nosso cinema, do nosso teatro, da nossa cultura, da lingua lusa.

Carmen Dolores deixou-nos hoje.

O meu aplauso e um bem haja, minha Senhora. Muito obrigada.

 

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