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Instantes em sépia com capa de muitas cores (25)

por Maria Dulce Fernandes, em 17.07.19
Sangue oculto
 

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Diz-se que o sangue fala mais alto.
O meu nunca falou realmente comigo, limitou-se sempre a circular e a exsudar quando o cérebro e as hormonas a isso o obrigavam.
Diz-se que tudo é uma questão de sangue.
O meu é um banalíssimo ORh+, nem sequer o factor Rhesus faz dele uma estrela, nunca será elevado à categoria de raridade nem condecorado por salvar vidas.
Diz-se que o sangue lava a honra.
Uma honra suja será sempre uma desonra aos olhos dos homens, por mais que se tente limpar e as nódoas de sangue não iriam branquear em nada qualquer imagem de honra perdida... E afinal o que é a honra? Não pode ser uma fénix, porque se esfumou e não renasceu das cinzas.
Diz-se que sonhar com sangue é desgosto
Nunca sonhei com sangue em quantidade para o poder culpar das lágrimas que já chorei.
Diz-se "Sangue do meu sangue"
Ninguém tem o meu sangue! O meu sangue é só meu, vem fechado numa embalagem própria, inócua e inviolável, corre-me nas veias, alimenta o meu corpo, dá-lhe a cor da vida.
 
É silencioso, para um imparável e arquejante corredor de fundo, sensaborão, para quem dá sabor à vida, inodoro, para quem o odor enlouquece os homens e invisível, para quem cria lagos imensos de morte. 

Vezes há que gela, outras que ferve, outras ainda em que  exulta, faz-me vibrar e corre que nem doido, no dédalo da  imaginação que  irriga constantemente, incansável e diligente.
 
Há quem tenha sangue azul; o Pai dizia-nos que sim, que nascemos com sangue azul e o Tejo aos pés, já ali em baixo.
Deve ser por isso que quando quis dar sangue, participar e integrar-me como boa pessoa e cidadã que sou, me informaram que não, que não o podia fazer.  
Não faz mal, fica meu e só meu e mimo-o com chocolates e outras coisas boas, porque afinal padecemos os dois do mesmo sofrimento: estamos ambos encerrados neste corpo sem poder sair

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (24)

por Maria Dulce Fernandes, em 15.07.19

A Luada

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Sou de luas. Desde tenra idade que o Homem na Lua me mirava com olhar reprovador sempre que fazia alguma traquinice, dizia a minha avó. De dia não havia lua, por isso podia fazer todas as maldades que ninguém via, mas a avó dizia que sim, que havia lua, que ela estava lá sempre, só que se escondia para me testar.
 
Sou de luas. Sempre me guiou no escuro da noite, quando os candeeiros eram esparsos e os néons só nos filmes.

Sou de luas. Quando a luz reflectida no mar guiava os barquinhos até à praia onde se puxava a rede e o peixe cintilava sob o luar como irrequietos pedaços de prata.
 
Sou de luas. Certinhas, contadas ao dia, acompanharam cada nascimento, cada brotar de vida que dei de mim.
 
Sou de luas. Como me instruiu a Bisavó Júlia, que aprendera com a sua bisavó, o que a ela lhe ensinaram os que foram, ofereci os meus rebentos à bênção da lua entoando os dizeres pagãos cuja origem se perdeu na noite dos tempos:


 

  "Oh Lua, oh luar,
Aqui tens a minha menina,
Ajuda-me a criar.
Eu sou a mãe, tu és a ama,
Dá-lhe tu o colo,
Que eu lhe dou a mama."
 
 
 
Sou de luas. Sei que me agita, que me altera, que me alvoroça. Comparsa de perenes noites insones, é a ela que conto os meus segredos, aqueles que nem eu própria conheço, que são reclusos da minha aresta lunar, aquela que nunca limei, a mais selvagem, mais agreste, mais bravia.

Sou de luas. Tenho por ela o mesmo fascínio que encantou escritores e poetas, embalou doces paixões, belas e horrendas metamorfoses, e viu o homem crescer do nada e tornar-se humano à luz da Lua.

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Pensamento da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 14.07.19

Depois de perder a minha mãe e verificar que já estou na linha da frente, não há dia sem que as mais estranhas ideias de quando e como me revirem o juízo. Pudesse eu escolher, comprar um bilhete e partir? Não me parece que a teoria tão em voga de poder sair de acordo com as condições de cada um prevalecesse no final.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Linhas tortas

por Maria Dulce Fernandes, em 13.07.19

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Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta sim o que poderás fazer pelo teu país e obterás resposta igual para ambas as perguntas: nada.
Não esperes nada do teu País pois ele já nada tem para te dar.
Deu-te um berço, uma língua, uma identidade, a noção de pertença a algo grandioso que transcende éticas individuais. Deu-te a vã glória de integrares a história e as histórias daqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando. Deu-te liberdade e democracia. Deu-te valor.
 
E tu retribuíste, com o teu percurso de inclusão social, com a tua aprendizagem, com o teu estudo, a tua qualificação, o teu trabalho, com o teu suor, até com as tuas lágrimas. É chavão, é cliché, é legítimo.
 
Poderia dizer-se que se igualaram no dar e no receber, não fora a oligarquia que se impôs para te guiar e formular as leis que regem cada minuto do teu dia, ditar cada vez mais e o ditado ser cada vez mais draconiano e os mandos dos ditantes cada vez mais retorcidos de favores aos favorecidos.
 
Olhas em volta e, num hemiciclo de eleitos, não encontras um rosto que exprima rectidão, experiência, solução... tampouco honestidade cívica. Cada palavra é subliminar, repleta de sinónimos que são  hiperónimos, hipónimos que são parónimos, antónimos que são homónimos. Cada frase é uma charada conotada com as máscaras da tragédia, onde com um sorriso te apetece chorar.
 
E tu olhas mas não vês, escutas mas não ouves, tocas mas não agarras, falas e nada dizes, porque te perdeste dos sentidos e já não consegues sentir mais nada. Até o desespero ou a raiva já se conformaram e segues com o rebanho, sem pastor nem pastagem, sem bússola nem compasso, indiferente aos pontos cardeais, porque afinal o que és tu senão mais um ponto colateral perdido nestas linhas tortas que ninguém sabe endireitar?

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (23)

por Maria Dulce Fernandes, em 11.07.19
Sossego
 

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Irrompem com a fúria da madrugada que se torna manhã, vêm às catervas, aos bandos, dezenas, centenas, milhares, turbas alacres numa arrazoada constante, numa babel de sons e tons, dialectos, cores e formas.
São a música de fundo da minha vida, a trilha sonora do filme no qual sou a actriz principal e eles, os actores secundários que todos os dias me invadem o olhar e o ouvir, são como anti-corpos batalhadores, travando constante e feroz combate contra o antígeno da calmaria, até o conseguirem erradicar por completo.
É neste mar revolto em ondas de caos organizado que passo os meus dias, é aqui que o tal tempo que me acompanha tem lugar cativo e sorri para mim, desdenhoso da minha azáfama, do meu cansaço, da minha confusão.
Despida a couraça que me cinge e avara de paz, busco o meu soldo para correr à locanda mais próxima e me embriagar com solidão. Tomo-a avidamente, encharco-me nela, em goles fartos, sequiosa, apressada, temerosa que não me chegue... quero mais e mais, até deixar de sentir, até me invadir aquela dormência sonolenta da inconsciência que chega. As pessoas são vultos borrados e escuros, as luzes, pequenos pontos que se desvanecem e o som, lento e desfasado,  enrola-se  na ressonância do silêncio e desliza num mutismo de acordes surdos até calar por completo a voz.
É no entorpecimento que me encontro; oiço a minha voz e abraço-a com força, com aquela saudade de quem se sente distante e só no meio de um dilúvio de indivíduos ecléticos e cacofónicos, todos os minutos de um tempo que ainda é seu.
Como um náufrago à deriva, agarro a tábua que flutua e deixo-me levar com a maré, ansiando a hora em que a letargia chegue, me embale e me traga consigo para me poder reencontrar na minha solidão.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (22)

por Maria Dulce Fernandes, em 07.07.19
O Inverno e o descontentamento
 

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Mais um dia que amanhece chuvoso e triste. Este Inverno tem chorado todas as mágoas da sua vida e da vida de outros invernos que antes dele se limitaram a ser cortantemente frios e ventosos.
 
Pela janela embaciada, aceno à minha mulherzinha que caminha debaixo de chuva apertando o passo, como se fosse possível com a sua aceleração escapar ao aguaceiro. Obrigações de estudante que toma sempre muito a sério. Este será o último ano, queira Deus e estude ela.
Lembro-me dos meus tempos de lente aplicada. Nunca fui uma estudante portentosa como o Mano, que era raro estudar muito, aprendia por osmose, ria eu. Bons resultados comigo era diferente, obrigava a muitas horas de estudo, muitos apontamentos, muitos livros. Só os estrangeirismos me pareciam  naturalmente fáceis, sendo  óbvia  a escolha de área.
 
Confesso que fiquei desapontada quando vi a professora de Inglês. Baixa, magra e esquálida, com uma cabeça levemente desproporcionada onde pontuavam uns enormes e atentos olhos escuros, a Professora Rosário não correspondia minimamente à minha ideia duma professora de línguas. Pior foi ouvir-lhe o tom tão pouco britânico com que fazia questão de se pronunciar, sempre em inglês. Detestei-a no momento em que nos "anglofonou" os nomes própriops e nos chamava aquelas coisas sem sentido algum.
Detestei a sua maneira de ensinar, os testes que deu, as dezenas de livros que nos obrigou a ler na língua materna do autor, a sua rigidez e intransigência, os poemas que tínhamos que decorar diariamente... francamente acho que detestei aqueles cinco anos de Inglês que tive com ela, tediosos, sufocantes, cargosos, exigentes.
 
Passadas décadas desde a minha última aula com a Professora Rosário, olhando em retrospectiva tudo o que contrariada com ela aprendi, recordo a sua imagem com um sorriso e a imensa gratidão de alguém que ainda sabe de cor a Nurse's Song de William Blake e tantos outros poemas e citações de tantas dezenas de autores,  à força de os recitar vezes sem conta (algumas a título de reprimenda por alguma impertinência - como conversar na durante a aula ).
 
Agradeço-lhe tudo o que me ensinou sem eu ter consciência de que queria aprender, porque, diferentemente de outras matérias, de outras aulas, de outros mestres, esta foi luz que nunca se apagou do meu conhecimento.

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À noite

por Maria Dulce Fernandes, em 07.07.19

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Gosto da noite.

O silêncio que traz consigo é um bálsamo para ouvidos transbordantes de barulhos, de vozes, de gritos.
Gosto da noite.
A noite faz-me leve e dissimulada, quase ubíqua, materializando-me aqui e ali como uma assombração por entre perplexas exclamações de susto.
Gosto da noite.
No xadrez da minha guerra, num tabuleiro sem Rei nem Rainha, à noite, eu sou o Bispo, sou o Cavalo, sou a Torre, sou também peão, porque afinal quem não é o peão do destino que traça, escravo do seu livre arbítrio, servo das suas vontades?
Gosto da noite.
Os rumores de arrulho dos pássaros nocturnos, os suaves bater de asas, os sussurros das folhas nos ramos das árvores, brandos, murmurantes, arrepiantes.
Gosto da noite
As cores que a cor da noite confere ao colorido, tão incolor, tão monocromático, tão cheio de promessas de descobertas, de dramas, de paixões.
Gosto da noite
A noite deixa-me ser eu, despida de regras e de juízos, em paz com a eterna luta que travo com o meu intimo na qual nenhum dos contendores sairá vitorioso.
Gosto da noite.
O negrume liberta o meu lado mais escuro e deixa a besta sair, sentir o cheiro do breu, sentir a frescura do chão e realizar que afinal é uma quimera urbana, dócil e gasta pelo tempo que passou.

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Muros

por Maria Dulce Fernandes, em 05.07.19

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Muros são sempre limitações, seja quais forem os objectivos a que se propôs o seu construtor. Muros servem para delimitar, para fechar, para prender.

Seja de fora para dentro, como a Grande Muralha da China, a Muralha de Adriano ou a delimitação fronteiriça EUA-México, cujo propósito foi (e ainda é ) manter os invasores e ilegais afastados, ou de dentro para fora, como o Muro de Berlin ou a Safety Wall (irónico o nome...) na Cisjordânia, fortificações que isolam países inteiros e que circunscrevem o espaço e a vida das pessoas que neles habitam.

Depois há os muros das prisões, tantos e tão longos, que postos em linha dariam a volta ao globo terrestre.
O ser humano é o único animal que encarcera outros animais de diferentes espécies; encarcera também o seu semelhante, o bípede homo sapiens. A questão deontológica da aplicação da justiça dos homens nunca há-de ser pacífica nem conforme em igualdade, o que não significa que seja errada.

Deixei para o fim os outros muros, aqueles mais altos, mais fortes,  horrendos e intransponíveis, que são os muros psicológicos da intolerância.

Em pleno século XXI, igualdade de  cor, credo, raça e género continuam sem o reconhecimento que tanto criacionistas como evolucionistas lhes conferiram.

São séculos de segregacionismo, preconceito de género, xenofobia, homofobia, intolerância religiosa, em suma e numa só palavra ignorância, obscena e simples.

A história dos homens tem milhões de páginas que descrevem os horrores, a indignidade,  as atrocidades a que os seres humanos sujeitaram os seus iguais, em nome da pureza da raça, da verdadeira profissão de fé, da ginecofobia machista ou simplesmente da diferença.

A palavra Tolerância: Tolerância para mim é um exercício constante, para que eu possa ser uma pessoa melhor no trato com o meu semelhante,  todos os homens e mulheres de espírito aberto e vontade férrea. Se cada um de nós é um grão de areia no espaço infinito do universo, muitos grão de areia poderão formar o areal por onde poderemos correr em liberdade impolutos de corpo e espírito aos olhos de um  mundo que se quer renovar.

Somos  prisioneiros do preconceito que se manifesta diariamente em tantos aspectos das vidas de todos nós e, mesmo sem nos apercebermos, procuramos incessantemente abrir a gaiola e sair em liberdade, porque a felicidade de todos é a soma da felicidade de cada um.

 

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Mas as crianças, Senhor

por Maria Dulce Fernandes, em 04.07.19
Pelo estudo fundamentado dos valores morais que conduzem o comportamento humano em sociedade, diz-nos a ética que a liberdade, igualdade e fraternidade são extrínsecas a todos os homens independentemente da cor, raça ou credo. Já a moral, mais orientada na vertente do cumprimento de regras, tabus e convenções , direcciona a conduta dos indivíduos , determinando no fundo o seu comportamento em sociedade.

 
Se é aceite que todos os homens nascem iguais aos olhos de Deus, não quer por vezes a fortuna que alguns nasçam iguais aos olhos dos homens. Em alguns recém nascidos o reconhecimento das deficiências é imediato, noutros casos as imperfeições ou insuficiências só se revelam com o passar dos anos. O avanço da medicina muito tem contribuído para  a aceitação e integração na sociedade das pessoas que se encontram em desvantagem ; têm novos tratamentos, mais apoios, aprendem ofícios, arranjam empregos , tornam-se parte integrante do meio social.
 
Este intróito serve para contar a história do Gonçalo.
À primeira vista o Gonçalo é um homem catita, nos seus vinte e poucos anos, de altura acima da média, olhos de água,  bem constituído e desembaraçado. A ilusão acaba quando abre a boca escurecida do negro-de-fumo,  e escancara aquele sorriso  cândido  que lhe ficou da Terra do Nunca.

 

O Gonçalo é um menino no corpo de um homem feito e como todos os seres humanos, o Gonçalo tem necessidades, impulsos que não consegue reprimir, dos quais já resultaram duas crianças, cada de sua mãe, e  uma terceira a caminho.
 
Passa a vida em bolandas com processos no Tribunal de Família e Menores pelas exigências contínuas das progenitoras quanto aos montantes das pensões de alimentos,  e sonha um dia o ganhar o poder paternal.
 
Qual é a justiça, para as crianças, fruto deste tipo de relações ? Nada sabem do Génesis nem da multiplicação, não pediram para nascer ! Vão sofrer misérias sem um lar, sem uma família, sem qualquer normalidade na vida.
Para já, são três, mas pelo visto, o número tende aumentar exponencialmente.
 
Não precisa o Gonçalo de mais explicações sobre os métodos de prevenção da natalidade, porque é coisa que ouve todos os dias. Diz-se-lhe, ralha-se ... Ouve, baixa os olhos e sorri travesso e brincalhão como se fosse um catraio apanhado a fazer uma grande tropelia....

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (21)

por Maria Dulce Fernandes, em 03.07.19

Maluquices

 

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Todos temos a nossa dose de loucura, com a qual passamos a vida toda a tentar rastrear, conhecer, manobrar, enfim encontrar habilidosamente o melhor modo de com ela conviver.
O que é que nos faz diferentes e ao mesmo tempo tão iguais não é o conhecimento, nem a aptidão, nem a agilidade, mas sim a capacidade de controlar o animal que somos, de domesticar a selvajaria que nos assola, de reprimir a raiva que nos sufoca. O ténue verniz da civilização que nos reveste estala ao mais pequeno toque e a bestialidade que vive sob o polimento solta-se e vocifera e mata e esfola e grita e espuma e arranha…

É a loucura total.

O que é que nos faz rir incontrolavelmente de coisa nenhuma, o que é que nos faz chorar convulsivamente por rigorosamente nada, o que é que nos faz gritar desvarios a plenos pulmões sem qualquer razão?
Na era da tecnologia, onde tudo está ao alcance dum clique, ainda não há como medir a loucura e o clique é por vezes o bastante para virar tudo de pernas para o ar.

Se eu hoje aventar uma opinião considerada polémica, sou rotulada de louca. Amanhã, noutra latitude, a mesma opinião, com toda a controvérsia inerente, pode ser considerada uma tirada genial.

O louco mais louco, debaixo da sua capa de sanidade, é provavelmente menos suspeito de ser louco do que os reconhecidamente loucos, que não tentam sequer esconder a sua loucura .

Costuma dizer-se que a genialidade e a loucura andam de mão dadas, numa roda talmente acelerada em que o olho incauto não capta a noção de quem é quem ou o quê.

O EAN/UPC de um cérebro em série ainda não traz um dígito de verificação funcional.

Pessoas há para quem escrever é catártico e um modo de expurgarem os delírios e se resolverem em paz com a  própria loucura.

 

"A ciência não averiguou ainda se a loucura é ou não a mais sublime das inteligências." – Edgar Allan Poe

 

(Imagem retirada da internet)

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Chip Chip

por Maria Dulce Fernandes, em 01.07.19

 

Chipar ou não, eis a questão

 

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Este ano, vou de férias levando pela primeira vez a minha neta comigo.

Dizer que vou com o credo na boca e já estou a sofrer por antecipação é pouco.

O meu marido, com todo o pragmatismo que sempre lhe assistiu, retorquiu meio ironicamente que poderia chipar a criança, à semelhança do que brevemente terei que fazer aos gatos, que sempre estiveram em casa e que servirá para rigorosamente nada, mas que parece que vai ser legislado em conformidade.

Esta situação traz-me à ideia uma outra, há muito, bem, há algum tempo atrás, tanto quanto cerca de 33 anos, não numa galáxia muito distante, mas já ali ao lado na Rua Duarte Pacheco Pereira, quando me escondi  por detrás de umas árvores a aguardar a partida da carrinha com destino à praia de Sto. Amaro de Oeiras no âmbito da acção escolar Praia e Campo, partindo seguidamente numa corrida desenfreada para a estação da CP de Algés, onde apanhei o comboio para a mesma localidade, apenas com o intuito de espiar.

Espiar, por Deus! Eu a espiar se a minha filha estava bem! Perguntam-me, e bem, se eu não tinha confiança nas educadoras, porque é que a deixei ir?

Porque iam todos. A garota ficaria destroçada se lhe negasse a Praia e Campo! E claro que tinha plena confiança nas educadoras, mas eram apenas três e uma auxiliar para 27 crianças!

Será isto o chamado instinto de maternidade levado ao exagero, ou apenas práticas controladoras de uma mente doentia?

É claro que a auxiliar deu comigo por detrás da banca que vendia panamás e fiquei de cara no chão. Tenho a vaga ideia de me ter furtado em ir ao colégio até ao fim das actividades lúdicas ou seja, até ao final do ano lectivo, não que isso esponjasse o sentimento de vergonha que me assolou.

Não tendo a minha neta idade para telemóveis e não é animalzinho de companhia para o dito chip, tem seguramente idade para uma pulseira GPS infantil.

Por outro lado, mesmo sendo o livre arbítrio coisa que não a assiste com esta idade, mesmo sendo muito opinativa e mais teimosa do que eu, não deixo de pensar que lhe estou a aplicar uma medida de coacção apenas porque quero estar mais sossegada e poder ter tempo de férias para mim também.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (20)

por Maria Dulce Fernandes, em 30.06.19
 
Dreamcatcher
 

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Descer o Aconcágua  não é para meninos. Um desafio para onde se vai derrotado à partida, não é um desafio, é um suicídio de carácter, um apelo à depressão, o reconhecimento duma incapacidade de que se desconhece a deficiência. Partir com baixas expectativas e atingir o objectivo é superar-se, é deixar o ego elevar-se até ao cume, lá onde a altitude te prega partidas e te leva a sobrevoar Titicaca no dorso da Grande a Serpente Emplumada até Chichén Itzá aparecer imponente recortada  no  dourado e laranja do pôr do sol.
 
Três dias depois da ressaca da hipobaropatia, o gelo da Terra do Fogo quebrava-se sob os meus pés molhados e inchados, como cascas de amendoim numa tasca rançosa na Route 66, onde depois de duas cervejas e um shot de tequilla o norte e o sul rodopiam agulhas sem magnetismo, dentro daquela bússola tresloucada a que chamamos cérebro e que norteia os nossos passos, quantas e quantas vezes rumo ao meridião.
 
Encontro-me amorfa e mole a seguir um tipo com uma lanterna, embrulhado numa manta escura com a aura delimitada pelo vapor do próprio bafo na noite gelada. 
Deixou o sendeiro à entrada da casa baixa de pedra e lama de adobe, como o teria feito Paul Revere enquanto 39 homens, à luz de muitas velas acesas pela discussão, signavam a mudança num papel fibroso. 
Lá dentro o ar era quente e pesado, saturado de pisco e guano, mas o ceviche do grande peixe de Santiago que comi, sentada no chão junto ao lume crepitante enquanto Manolín contava histórias do mar, soube- me pela vida.
 
Cá fora os diamantes do cruzeiro do sul brilhavam contra o veludo azul de um céu de paraíso, onde uma lua redonda como um imenso queijo disparava raios de luz em todas as direcções, conferindo aos gelos glaciares uma cor opalina e um brilho irreal. Lembrou-me Opar, onde as mulheres são belas e os homens simiescos e alguns elos inferiores, onde o mistério espreita em cada pedra e em cada folha e a água do Nilo cai azul em terra de homens sem lei nem alma. Lembro-me do bar que o Dr. Livingstone tinha na margem do Lago Vitória onde serviam os melhores gins tónicos do mundo, perfumados com as neves do Kilimanjaro, que me deixavam de quatro na manhã da minha vida, como rezava o enigma. Mais um sonho que se tornou insolvente e faliu de tristeza e incompreensão.
 
Fui dormir, ou pelo menos tentei fechar os olhos, mas a ideia de Cibola bailava como um cisne de ouro não me dando paz. Estava tão perto ou longe demais, não fazia ideia. 
Sabia que o dourado sol nascente traria Esteban e o grande condor, e aí a aventura recomeçaria, exactamente no ponto onde a imaginação vibrante de alvoroço a tinha deixado.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (19)

por Maria Dulce Fernandes, em 28.06.19
Memória

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"Óscar, ó Óscar", gritava a ti' Elsa da sua casinha térrea, mesmo em frente ao Chafariz da Memória. "Ó Óscar!! É preciso dar de comer á criação, homem de Deus!"
 
O Felgueiras, hábil barbeiro, perito em carecadas e cortes à tigela que se tinha estabelecido em Belém há muitos anos, sorria encostado ao batente da barbearia vazia, enquanto soprava languidamente novelos de um fumo esbranquiçado, que se soltavam da beata gasta do cigarro que enrolara minutos antes. Era isto todos os dias. O Óscar desaparecia e a mulher dele gritava que lhe acudisse mais à criação.
 
Era um casal castiço. O ti' Óscar, careca, bonacheirão mas seco de carnes, e a ti' Elsa, uma negra roliça e de peito farto que o obrigava a andar a nove com os muitos afazeres quotidianos da sua vida de reformados.
 
A minha tia Adelaide parava sempre junto à janela aberta para dois dedos de conversa e eu aproveitava para ir molhar o bico na bica do chafariz.
 
A casa do ti' Óscar e da ti' Elsa ficava encravada entre a porta da D. Maria Alpalhão, a senhoria,  senhora baixinha e sem idade aparente durante mais de 30 anos, dona da maior parte das casinhas da Memória, a janela da D. Alda, esposa do Sr. Severo e mãe da Miss Belém da época, e o Torrado, mercearias finas e taberna, ponto de encontro de fim de tarde de quase todos os homens das redondezas para o seu copito de três ou para a proverbial suecada.
Todos os sábados de manhã, munida com um pequeno frasco e cinco tostões, ia eu até ao Torrado comprar brilhantina para o meu pai e trazia o troco em pevides.
 
Naturalmente que o ti' Óscar se perdia mais pelo Torrado do que em tricas com o mulherio, por isso não era de todo difícil de encontrar. Quem o queria ver bem, era ouvir-lhe as várias anedotas de um repertório que metia num chinelo muito humorista de standup. Era uma barrigada de riso - e eu ria, por contágio claro, porque com sete anos pouco ou nada entendia do conteúdo.
 
A ti' Elsa era a beijadora oficial de todos os bebés nascidos ali... para dar sorte, dizia ela sempre a sorrir, com uns pequenos óculos encarrapitados no nariz. Tinha sempre um afago e um rebuçado para mim.
 
Quase em frente ao Óscar da ti' Elsa, ficava a porta tripla do "pitrolino", de quem nunca soube o nome... "Sr. Pitrolino, a minha mãe quer um litro de lixívia" - dizia eu de braço esticado, a segurar uma garrafa vazia de Camilo Alves com uma cápsula de plástico...
 
Logo ao lado, ficavam as escadas de pedra da Vizinha Custódia, onde eu, a Susana, a Bandeira e a Luisinha da Menina Joaquina, brincávamos às casinhas e às escolas, com papéis, carretos de madeira de carros de linhas vazios, trapinhos dos restos da costura, latas velhas, paus e pedrinhas. Tantas vezes já o sol se recolhera e nós lá, felizes e despreocupadas, porque a maldade ainda não se tinha tornado mesmo má, mesmo apesar de eu ser, como dizia o ti' Óscar, a "Filha do Veneno"... a Mãe, como já anteriormente referi, foi e sempre será nos anais da Memória a miúda mais endiabrada que se conheceu, o terror de toda a rapaziada...  enfim, um "autêntico veneno"..

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (18)

por Maria Dulce Fernandes, em 27.06.19
Pingos de memória
 

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As gotas de água caiam esparsas mas pesadas, ploc ploc, no nariz, na cabeça, na boca aberta, escancarada num meio sorriso que me rejuvenesce meio século.

 

Algures nas entranhas da mala que me oscila no ombro, aquele alforge de bufarinheiro que me é tão característico, conservo trezentos e sessenta e cinco dias por ano,  um projecto de guarda-chuva, encolhido e amarfanhado. "Nunca se sabe", digo, quando me criticam ... é bem verdade que a mala pesa arrobas e que eu não sei precisar com exactidão o que por lá vai...

 

Penso um nanososegundo e continuo à chuva.  - A senhora quer "boleia" no meu chapéu? - Não, pequeno, obrigada, estou bem assim, faz-me remoçar. Ele riu... remoçar, pois sim.

 

Preguiça ou vontade de me molhar? Nem eu sei ao certo, mas que sabe bem... uma poça à frente, pulo? Ora, se já estou molhada, porque não ? Fico encharcada até aos joelhos. O rapaz olha para mim atónito ... nunca, mas nunca... que coisa esta !? - Quer esperar aqui enquanto vou buscar o carro ? Ficou lá em cima no largo. - Não, vou contigo, não quero ficar aqui sozinha à chuva a esta hora da noite. - Mas é sempre a subir.  - Não faz mal, a caminhada faz-me bem.

 

Respirei fundo e arrepiei caminho, calçada a cima. Tentei acompanhar a passada. O rapaz é maratonista e eu apenas anafada... controlar a respiração... não sou atleta, cruzes... Inspira pelo nariz... expira pela boca... raio, será que o maldito carro ainda está longe ? Isto de não dar parte de fraca é complicado.

 

Trauteei mentalmente o " Joana come a Papa", provavelmente por ser um, dois três, uma colher de cada vez... Finalmente ! Deslizei o mais levemente que consegui para o banco. A música metálica jorrava rádio afora e os decibéis  disfarçaram o abalo de Richter provocado pelos meus batimentos cardíacos. 

 

O carro cheirava a novo e eu a saltar pocinhas... não admira que o rapaz olhasse de lado aquela mostra de infantilidades nimbosas.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (17 )

por Maria Dulce Fernandes, em 25.06.19

Anatomia de Gray

 

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Depois de mais uma noite com o jetlag resultante da falta de repouso a reaparecer assim do nada, como um post-it do subconsciente a relembrar que as intermitências do descanso e do cansaço andam de mãos dadas e são inseparáveis univitelinas, saltei do calor que já sentia quente demais para a amenidade do tapete afegão, provavelmente contrafeito em Taiwan e vendido aos incautos com um preço promocional fantástico, um autêntico negócio da China, como acreditei na altura.

 
Bem empantufada, dou de caras comigo a olhar para mim, com uma expressão de desdém trocista como que a chamar-me a atenção para a minha própria figura de matrona de cabelo grisalho desgrenhado, encafuada num robe polar, por cima de um pijama polar , pálpebras inchadas e boca seca,  numa  ruidosa tentativa de fazer entrar algum ar pelas fossas nasais intumescidas com a proverbial sinusite ... um figuraço.
 
 Confuso, o meu Dorian Gray olha-me do alto, fabuloso nos seus 18 anos de mulher esbelta de grandes olhos castanhos e farta cabeleira escura . Deve sofrer horrores todos os dias, sem conseguir perceber qual o passe de mágica ou o bruxedo que resultou naquela deformidade, sentindo que lhe trocaram as voltas, pois pemanece imutável na memória.
 
Acode-me a lembrança das vaporosas camisas de noite em cetim negro, delgadas como um traço fino num retrato a carvão.
Sorrio para mim, com aquele sorriso conformado de quem sabe que não pode alterar uma escultura que o tempo vem cinzelando devagar. Tentar mudar-lhe a forma, seria descaracterizá-la por completo e não representaria a mim própria nem a ninguém. O escultor de fim de ciclo  tem até o trabalho facilitado na representação do meio-esférico tubérculo que presentemente me retrata.
 
Se eu pudesse escolher ser alguém diferente, tenho a forte convicção que escolheria ser eu própria, com o meu mais de meio século nas ancas, com todas as partidas que a força da gravidade me pregou, com os mesmos olhos castanhos que não perderam o brilho e falam com quem os souber entender e com todo o saber que de tanto não é nada na realidade, mas que me faz sentir feliz de o saber comigo.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (16)

por Maria Dulce Fernandes, em 23.06.19

Fazer nada é a felicidade das crianças e a infelicidade dos velhos.
 
V. Hugo

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Quem nunca deu de caras com o ponto G da ruptura emocional e psicológica, que atire a primeira pedra. 
 
Não me digam que se resolve com uma boa noite de sono. Desconheço o conceito há bastante tempo. Talvez nunca o tenha verdadeiramente conhecido. Muitos são aqueles cujo espírito sossega durante as horas de descanso, mesmo que poucas sejam, vá. 
Eu sou da raça que passa esse mesmo tempo em bolandas e correrias, em diversos e estranhos lugares, sempre com muita gente e em situações bizarras, algumas tão reais que me empurram para um acordar desnatural, extravagante até. Creio que foi sempre assim. 

É claro que é absurdamente fácil alcançar o estado de oblívio total, mas tornamo-nos tantas vezes tão convencidos, desleixados e auto-indulgentes quanto à habituação aos meios que nos conduzem aos fins, que criamos aquele ouroboros de continuidade: não descansamos enquanto não abraçarmos o descanso e nunca alcançaremos o almejado descanso se não pudermos descansar.
 
Não há dia que passe, que num qualquer momento, a uma qualquer hora, um qualquer acontecimento não me leve a vegetar pelo delírio das improbabilidades. Olho para as mãos, conto os dedos pela enésima vez e tento convencer-me que afinal já não falta muito, falta é chegar lá.
 
Uma vez estabelecida a meta, o pódium de toda uma vida de trabalho, o tempo, que sempre correu célere sulcando profundamente o rosto com a marca da sua passagem, esse mesmo, sempre tão apressado em nos carregar a experiência com anos em cima  de anos, dá-se ao desfrute do remanso para nossa exasperação. 
 
Enquanto aguardo remetida à desvantagem e ao desfavor, cogito sobre os prodigiosos anos dourados ainda no reino do porvir, mas que suscitam ânsias e impaciências sem fim. Irei finalmente poder colher os pomos das hispérides plantadas e cuidadas por minhas mãos durante anos de labuta, e cujo néctar me libertará enfim para realizar os prodígios globais que sempre me motivaram a prosseguir com o meu caminho e a carregar a cruz dos meus dias maus.

Atentando bem na realidade,  todos os meus objectivos são simples, por serem fruto de uma mente simples e pragmática. Coisa para três, quatro anos... 
Cuida-me que em tendo realizado os meus propósitos, ainda me ouvirão lamuriar de insatisfação por não saber o que fazer com o tempo que me sobra e que, qual saco sem fundo, nunca consigo preencher a meu contento...

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Até o diabo se ri!

por Maria Dulce Fernandes, em 22.06.19

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Não há ser mais inseguro do que este humano que somos. Os ditos irracionais que vivem condicionados à subsistência diurnal são tantas vezes mais ousados, mais resolutos  e expeditos do que os pensantes.

É certo que se vive num habitat social onde cumprir regras é fundamental para coabitarmos pacificamente, mas existe o livre arbítrio, aquilo que imprime em cada indivíduo a marca da sua personalidade. São as escolhas que fazemos que nos definem como pessoas. Somos nós que transportamos o passado, criamos o presente e lançamos a pedra basilar do nosso futuro .

Não há prescrição para o advir, mas é normalíssimo atribuir-se os agravos da existência a outrem, principalmente aos nossos medos, insatisfações e negatividade a que normalmente chamamos diabo, porque tudo o que corre mal é sem dúvida obra do diabo.

"São coisas do diabo"; "Às vezes, atrás da cruz está o diabo escondido"; "Quem com o diabo se deita, com o diabo amanhece"; "Não vá o diabo tecê-las"; "O diabo a quatro"... O mais característico de todos os dizeres "diabólicos" é sem dúvida "Que venha o diabo e escolha".

Escolheremos nós assumir as nossas escolhas como próprias, e não imputá-las a um qualquer pobre diabo?  

O orgulho é a raiz de todo o mal, e apesar de enraizado e ramificado na consciência dos homens não é robusto nem preciso como um relógio suíço, nem o relojoeiro é o diabo. O detentor da chave que lhe dá corda e alimenta somos todos, é cada um de nós.

 

Bom fim de semana.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (15)

por Maria Dulce Fernandes, em 20.06.19

Bisa

 

Eu sou uma pessoa de sorte, tive quatro mães: a minha Avó Adelaide, a minha Mãe, a minha Madrinha Maria Emília e a minha Bisavó Júlia, qual delas a melhor. Sou um patchwork de todas elas, mas no feitio intempestivo sou igualzinha à (bis)Avó Júlia, um furacão com pelo na venta.


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A minha bisavó era uma força da natureza: de saia comprida, lenço preto e xaile, era o protótipo da matriarca dos primórdios do século 20, que enviuvou cedo e trabalhava de sol a sol para sustentar os três filhos. Era uma cozinheira de mão cheia, e quando jovem e antes da Implantação da República, trabalhou nas cozinhas do palácio nas Necessidades, onde conheceu os soberanos reinantes, o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia.

Como viver em pecado era contra os princípios da Rainha, a minha Bisavó Júlia e o meu Bisavô Alberto, carpinteiro também no Palácio e que nunca cheguei a conhecer, levado muito novo pela Consumpção, foram ”aconselhados” a casar pelo seu capelão, e ofertados pela Rainha depois do enlace, de camas de ferro com florões espectaculares para os rapazes dormirem (pois que já tinham dois filhos), camas essas que perduraram gerações fora, até serem vendidas com o espólio da casa do Fiandal, quando o meu pai faleceu.

Teve três filhos: o Álvaro (o protótipo do dandy, chapéu de lado e suaves maneirismos), o Américo, homem bonito, calmo e um tanto mulherengo, e a Adelaide, o patinho feio, que compensou a falta de beleza física com a muita determinação e perseverança que possuía, e que teve dois maridos e quase um terceiro.

O filho favorito era o filho do meio, o meu Avô Américo, ao qual a Mãe e os meus irmãos foram buscar os olhos azuis. O Avô casou com uma criada de servir de seu nome também Adelaide (a Avó), casamento que não foi do total agrado da Bisavó, o que preconizou uma vida nada fácil para o casal. O Avô, que era serralheiro e arbitro de futebol, era também o menino da mãe, ficando por isso, a morar com ela em Belém. Tiveram três filhas, a Maria Emília (a Madrinha), a Luzia e a Ivone (a Mãe).

A Mãe foi o rapaz que o Avô sempre desejou mas não teve. Era o terror das redondezas, e completamente adorada e apoiada pela Bisavó, impunha a sua vontade e ditava as suas leis com tal vigor que foi cognominada “O Veneno”. Ainda nos dias de hoje, se eu passar pela igreja da Memória, qualquer velhinho que descanse num qualquer banco do jardim me poderá facilmente reconhecer como “a Filha do Veneno” ou à minha filha mais velha como “a Neta do Veneno”.

A Mãe, apesar de maria rapaz e a mais novinha do trio, foi a primeira a casar, e então nasci euzinha, a menina na mão das bruxas, o ai Jesus de todos, mas não era o rapaz que ansiavam. Apesar dum bocado masculinizada pelo Avô no vestir e nos cortes de cabelo (o que tirava a Mãe do sério), foi com o advento do Nascimento do Rapaz que a família rejubilou verdadeiramente. O Avô ficou encantado, o Pai realizado, a Mãe triunfante, a Avó feliz e a Bisavó tão maravilhosamente deslumbrada que tornou o meu irmão o propósito de toda a sua existência. Transferiu toda a ternura que as agruras da vida lhe reprimiram no peito para aquele pequeno ser e amou-o incondicionalmente enquanto viveu.

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Sobreviveu ao Avô, a quem um devastador AVC roubou anos de vida, e ainda embalou o meu irmão mais novo com canções de ninar. Passou os últimos anos numa Casa de Repouso, a que agora chamamos Lar da 3ª idade, donde fugia sempre que podia, para poder estar junto dos seus meninos.
A minha herança genética veio praticamente toda dos albicastrenses do lado da família do Pai.
Penso que o mau feitio e a maneira de encarar a vida herdei inteirinhos da Bisavó Júlia, e estou grata por poder contar com o seu ADN nas horas mais complicadas da minha existência.

 

P.S.: Quem possa pensar que transparece uma ponta de ciúme nestes meus escritos, desengane-se. EU fui a primeira e única Princesa Com Sorte da família

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Castelos no ar

por Maria Dulce Fernandes, em 18.06.19

 As Minhas Casinhas*

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É muito vaga a minha recordação da Casa Onde Nasci, mas tenho a certeza que ali morei durante muitos meses a partir do momento em que respirei pela primeira vez, fora do ventre da minha mãe.  

Sei que era uma casinha alegre e mimosa, um T1, pelos padrões de hoje, género de aconchego onde noivos vão noivar. Tinha flores coloridas nos parapeitos das janelas e muito sol incrustado nos umbrais. 

Não me traz recordações. Lembro- me de ir lá com a minha mãe ver a “Avó Augusta", a senhoria, que me levou a ver onde nasci e, melhor ainda, ofereceu-me um cartuchinho de papel cheio de rebuçados de alteia e mel com o carimbo do confeiteiro. Desses lembro-me bem. 

A Casa da Avó era antiga, de tectos altos e soalho esfregado. Havia o quarto escuro da Avó Júlia onde sobressaíam os verdejantes números e ponteiros de grande despertador com duas campainhasA cozinha era enorme, com imensas talhas de barro que lembravam sarcófagos e uma walk-in chaminé, por onde o Avô Américo fazia subir no Natal, por artes lá muito dele, um boneco que eu acreditei durante muito tempo ser o Menino Jesus. As escadinhas para o sótão, onde o sol brincalhão bailava por entre as telhas, eram um mundo encantado de mistério e um caleidoscópio de cor. Encravada entre a Memória e o Restelo numa zona de quintas, compõe o quadro mais vivo das minhas lembranças.  

Não me recordo de outro local onde, em toda a minha vida, fosse tão amada e tão feliz. 

Já a “Casa Velha" no número 21 da mesma rua onde moravam os meus avós e onde a minha mãe nasceutinha paredes grossas e pouca luz, um denso ninho de pássaros, tal qual o número 5 de Pollock, era como o quadro plena de texturarebuliço e contrastes. 

Foi ali que tive a primeira televisão e o primeiro irmão. Ambas ocasiões marcantes nos meus tenros 4 anos. Apesar de gostar mais da televisão e adorar a mira técnica e o Mascarilha, tenho que admitir que o meu irmão era um bebé encantador. Primeiro da sua espécie numa longa linhagem de fêmeas, fez as delícias da mãe, do pai e do avô, era o ai jesus de todas as anciãs genitoras, mas sem nunca ter chegado a atingir a entronização que me pertencia  

Numa época em que se criava um mundo com paus, pedras, folhas, papéis e terra, o meu irmão descobriu uma pequena fresta entre duas tábuas do soalho e pedia tostões para lá meter à laia de mealheiro. Nunca entendi bem qual a sensação de realização infantil em ver desaparecer dinheiro, tampouco porque é que tanta gente lho dava e achava aquilo o máximo. 

Pelos meus 6 anos mudámos para a “Casa Nova", um terceiro andar acabadinho de estrear no número 37 da mesma rua. Tinha - e tem ainda - uma das mais belas vistas sobre o Tejo, como um fantástico postal, da Ponte à Torre de Belém.  

A minha vista daquela varanda transbordou de confidências de estudante de primeira classe, irmã pela segunda vez, estudante de preparatória, de liceu, de faculdade, criança, menina, namorada, mulher, esposa e mãe. 

Casei cedo. A Casa do Cacém, comprada em 1980, num local com um ribeiro junto ao qual pastavam cabrinhas, tinha arvores frondosas e muito sossego, um verdadeiro cenário idílico para se criar um filho. Os fantásticos primeiros dois anos enovelaram-se num pesadelo de trânsito sufocado num inferno de betão. Foram 19 anos de muita luta. Era a minha casa. Foi lá que criei as filhas. Nunca foi mau, mas não me deixou saudades. Trocar Belém e Tejo por uma selva de pedra, claustrofóbica e poluída foi necessário, mas nunca definitivo. 

A Casa de Alfragide, actualmente, é o meu castelo no ar. Não tem prédios que enclausurem o olhar  que se perde até ao horizonte, no mar. Vê-se céu até fartar e pores do sol de arrepiar. À noite, lua e estrelas acenam para me saudar. Ao longe tem mil luzes a brilhar. Dá-me paz. Deixa-me respirar. 

Casei uma filha, tenho outra quase a casar. Tenho uma neta, e um neto quase a chegar. Dois gatos e salas imensas, prenhes de céu, serra e mar. Se será o meu derradeiro ninho, não sei, mas não anseio mudar. É o aconchego perfeito para poder descansar.  

 

*Repto deixado pelo Pedro Correia para escrevermos sobre as casas da nossa vida

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Instantes em sépia com capa de muitas cores ( 13 )

por Maria Dulce Fernandes, em 17.06.19
O Zezere
 
 

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Quando se tem 6 ou 7 anos, crenças, verdades absolutas e mitos ( que não sejam o Papão ou o Pai Natal) ainda estão longe das nossas questões existenciais mais prementes e queremos pouco saber quem somos , de onde viemos, para onde vamos , se somos uma criação divina ou apenas uma espécie mais evoluída, se a essência precede mesmo a existência... dentre todas questões que nos assolam na idade dos porquês, estas não são seguramente as que martirizam a nossa realidade.

 
Por essa altura da minha vida, ia passar as férias grandes para Nandufe onde uma irmã da mãe, casada com um alfaiate/industrial avícola tinha uma quinta de "produção" de frangos e ovos. A quinta era enorme, linda, cheia de sombras frescas, árvores de frutos e bagas selvagens... Amoras da minha perdição, directamente do produtor para o consumidor, com uma data de arranhões das silvas à mistura. Tinha um tanque que parecia uma piscina onde a Avó lavava a roupa (  o perfume a sabão azul e branco elouqueceria qualquer Jean Baptiste), tinha um rio repleto de bichos alfaiates, cristalino e quente, cheio de pedrinhas roliças no fundo, tinha uma balsa feita de bidons velhos, pneus e madeira  e tinha o Tó.
 
O Tó tinha talvez mais dois ou três anos do que eu e já tinha ido a Viseu, o que era um feito, naquele tempo. Tinha um pião com corda, uns carrinhos de madeira, um arco de pipa e tinha um... Zezere.
 
O Zezere, era um pau com folhas de eucalipto espetadas de modo a que, quando esfregado entre ambas as mãos e mandado ao ar e lhe batesse o vento, rodopiasse num bailado cheio de tours en l'air e pirouettes,  antes de voltar lenta e docilmente à palma da nossa mão. 
 
Ao que parece a arte dos Zezeres tinha o que se lhe dissesse e o Tó combinou um encontro secreto para me ensinar a confecção e as palavras mágicas que permitiam ao Zezere voar naquela magnífica performance.
 
Só que foi adiando, o tempo passou e eu regressei a Lisboa; com 7 anos já teria que me tornar uma lente respeitável. Eu não sabia, mas aquele fora o meu último ano em Nandufe.
 
 
No Verão seguinte, na praia de Carcavelos, avistei um senhor que transportava um Bambu cheio de pauzinhos com algo rodopiante que à primeira vista seriam... Zezeres! Seria mesmo ?
Corri célere e louca de alegria e perguntei ao senhor se sabia fazer Zezeres. O homem olhou para mim a sorrir e disse que não, que aquilo eram só moinhos de papel.
 
 
Escusado será dizer que nunca mais vi o Tó e que sempre que pego numa folha de eucalipto a esfrego nas mãos para lhe sentir o cheiro, aquele perfume único, que, se eu fechar os olhos e estender a mão, garanto que sentirei o Zezere a pousar, calmo e acariciante
 
Acredito que na existência,  na essência da pessoa em que me construí, durante toda a minha jornada de aquisição gradual de conhecimento do ovo até hoje, mas tenho uma séria lacuna a preencher, uma pergunta que poderia ser a resposta a todas as minhas questões existências: Afinal, o que é um Zezere  ?

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