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Férias em família

por Maria Dulce Fernandes, em 16.09.19

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Quando o meu neto nasceu, estava eu para sul. Apressado como tudo neste mundo açodado, apresentou-se uma semana mais cedo, embaralhando um bocado os planos a toda a gente.
Este ano, e pela primeira vez, decidimos levar a neta mais velha de férias para aliviar os futuros pais da grande pressão (e peso, e inchaço, e…) das esperanças.
A neta mais velha tem quatro anos, uma personalidade vincadíssima, o discurso de um político, uma imaginação espantosa e uma esperteza impressionante, já para não referir a memória auditiva, que armazena tudo o que capta e reproduz depois, tantas vezes fora de contexto, para nosso grande embaraço. Está decididamente na idade do não. Não vou. Não quero. Não faço. Não como. Difícil.
A ultima vez que fui de férias com uma criança pequena foi seguramente há mais de 20 anos, altura em que a mobilidade psicossomática ainda se encontrava no auge. Confesso que estou totalmente destreinada e que apesar de nunca ter sido grande pedagoga (o meu primeiro casamento, o pacto não de obrigação mas de dever que assinei com o trabalho, deixou-me sempre aquele amargo de boca de ser mãe em part time), tinha a firme convicção de que seria como andar de bicicleta… também nunca fui grande ciclista.
Após acurada pesquisa, decidimo-nos por um “resort" na nossa zona de eleição, conceito tendência, que tende a substituir o all inclusive, que por sua vez substituiu a pensão completa, muito em voga nas zonas balneares nos anos 60 da minha meninice.
Espaço bem aproveitado, com cerca de treze vilas, doze quartos ou suites por vila, restaurantes, restaurantes temáticos, bares, auditório, excelente animação diurna e nocturna a cargo do Chapitô, cinco piscinas e o Kids Club.
O Kids Club é um conceito giro para dar algum descanso aos pais ou avós com crianças. Algum descanso traduz-se, no meu entender, por um par de horas. Uma tarde, pontualmente, vá lá.
Eu que nunca fui uma mãe muito presente nem uma avó disponível, mas que sou galinha o suficiente para ser até considerada um tanto sufocante, não consigo entender o conceito de férias em família de quem deixa os filhos por conta de outrem desde que o espaço abre até que encerra, preocupando-se mais com a carta de bebidas à descrição, em aterrar numa espreguiçadeira, comer, beber e dormir, do que em saber se os filhos estão bem, quem os cuida, se se alimentam… Tal e qual largar um acessório enxovalhado na 5 a Sec e ir recolhê-lo no último minuto do expediente.
É a festa da vida levada ao exagero… que o vinho escorra pelas gargantas e a festa dure até às tantas. E mais duraria se não fosse imposto um contacto telefónico que obrigava os progenitores extremosos a irem levantar os rebentos descartados, bastas vezes horas depois do encerramento do espaço infantil.
Podem achar que são coisas de velha, concepções e juízos retrógrados, mas será que pode haver sossego se há cuidados? Pode, desde que exista uma noção clara dos direitos e dos deveres. Um filho é um bem precioso e não uma obrigação mensal, como a factura da luz. As crianças são cansativas, insanas e exasperantes? Sem dúvida, mas há lá melhor coisa nesta vida?

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Pensamento da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 08.09.19

Se fazemos parte do tal plano cósmico, temos que fazer jus à capacidade organizativa e multitasking do planeador e não nos devemos resignar com qualquer normalidade, porque viver não é apenas estar vivo.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Blogue da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 01.09.19

Viajo sempre que posso. Gosto de planear, conhecer, poder organizar um roteiro fora dos roteiros turísticos tradicionais.
Leio tudo o que posso. Dentre centenas de blogues de viagens, visito amiúde o Alma de Viajante, pela informação, pelo rigor explicativo e porque é sempre gratificante ler em português.

 

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Férias

por Maria Dulce Fernandes, em 31.08.19

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Finalmente leve! Trauteio o "We all Stand Together" baixinho, talvez para mangar com os sapos que regressaram aos pântanos fétidos e me deixaram livre. Livre e leve.
Dou comigo a sorrir pelos cantos e penso "Tola, tola, ris de quê?" , de tudo e de nada... é só um sorriso que se rasga espontâneo só porque sabe que pode sorrir.
Azinha, arrumo o dia de hoje na mala à tiracolo e organizo as vitualhas necessárias à queima de energia.
Apesar dos ouvidos agigantarem as batidas fortes e rápidas do coração, não temo as horas que vêm. Sinto-me em paz. Sinto-me leve.
Até a rochosa musculatura que me sustenta, apesar de farta e pesada, esvoaça pela leveza quimérica das ideias, como uma pena com aparo de chumbo.

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O Síndrome do Robocop

por Maria Dulce Fernandes, em 29.08.19

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O plástico é uma praga.
A máxima de Lavoisier está incompleta. Nem tudo se transforma. Depois de convertida em plástico, a natureza perde a degradabilidade e consequentemente a capacidade de criar vida a partir do pó em tempo útil. Nenhum de nós tem o poder de viver mais de 500 anos para ver extinto todo e qualquer vestígio de pegada ecológica deixada pela poluição devastadora provocada pelo descarte de artefactos de plástico e derivados.
No nosso afã para mantermos a durabilidade das coisas pela arte da plastificação, deixamos de parte a única variável fundamental a qualquer equação em que a incógnita seja a introdução no corpo humano de matéria orgânica polmérica sintética, ou qualquer outra preparação criada in vitro que permita obter uma melhoria no desempenho e na longevidade do corpo.
Qualquer tentativa de plastificar a vida tem apenas resultado na sua anulação.
Qualquer “arte" plástica a que se submeta o corpo tem somente o sucesso efémero que a gravidade lhe permite. É tão normal a nova e renovada forma ficar disforme em curto tempo.
É por isso que, numa época em que toda a informação está disponível em tempo real para quase toda a gente, como se explica o uso e abuso de substâncias “plastificadoras" que incrementam a fisicultura, ao ponto de se morrer por ela?

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Say "Cheese"

por Maria Dulce Fernandes, em 27.08.19

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Tenho os meus petiscos de eleição. Gosto de doces bem confeccionados, mas perco-me por queijo. Qualquer queijo. Todo o queijo. 

O meu pai era de Castelo Branco. Lá em casa havia sempre queijo. Queijo tipo rabaçal de boca cheia, queijo picante (o famigerado queijo chulé), queijo conservado em azeite aveludado e suave, queijo tipo Nisa, mais seco e fantástico, e queijo tipo Serra para comer à colherada, simplesmente fabuloso . 

Para mim, desde que haja queijo, está-se bem.

Ou pelo menos estava-se 

Não me lembro de não ter queijo para comer sempre que me apetecesse. 

E apetecer, apetece sempre, mas diz que não. 

Com o avançar da idade tornamo-nos mais serenos, mais calmos, mais ricos em saber e em saber que ganhámos candura, temperança,  conhecimento e peso. 

O peso não é apenas o dos anos, é mais o do que o esqueleto suporta e comporta e toda uma série de óbices que traz por acréscimo. 

HDL, LDL, VLDL, TOTAL... totalmente   dessincronizados... 

Drogas, chás e dietas... eu... a... fazer... dieta !!!! 

Tudo light e com moderação... pois sim. 

Alguém já provou queijo Limiano light? Daquele que não se sabe bem se estamos a comer o queijo ou a embalagem de plástico? Não? Então provem e digam de sua justiça. 

Alguém já provou qualquer queijo digno do nome em versão light que não soubesse a PVC fatiado? 

E leite magro? Parece a aguada de cal com que a minha avó caiava a chaminé. Não tem sabor nem odor... é tudo menos leite. 

A Grande Mudança chegou no ano passado. Deixei de ser uma cinquentona enxuta e passei humildemente à condição de sexagenária. 

Estranhamente, a Grande Mudança deu-se sem qualquer alteração, fosse pela efeméride, tampouco pelas gordurices.  

Não vou comer coisas light nem PVCs ou esferovites. 

 

Para tudo é preciso moderação e eu, que sempre soube quando parar, vou deixar as alfaces para os grilos e as sementes para os passarinhos: tenho um queijo de Azeitão à minha espera que é um mimo. 

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O Demónio e Mr. Prim

por Maria Dulce Fernandes, em 22.08.19

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Quase todos os meses de Abril, de há alguns anos a esta parte, saímos para recarregar baterias, coisa que toda a gente que trabalha muito, tem gatos, filhos e netos, deveria fazer para manter a sanidade mental. Desligar... não totalmente... só um bocadinho, mas desligar sim, e recuperar a vida a dois, nem que seja por apenas três ou quatro dias.

Há três anos, calhou escolhermos a República Checa. Calhou também decidirmos fazer uma caminhada de cerca de 30 km pelo Bohemian Saxon Switzerland National Park.

Partimos de Lisboa com tudo organizado ao pormenor e fomos informados na véspera do passeio que Mr. Prim, o melhor guia para aquele tour em particular, nos iria buscar ao hotel às 8:00h.
Fantástico! Estávamos realmente expectantes.
Aconteceu como previsto. Durante a viagem de automóvel demo-nos a conhecer e ficámos a conhecer Mr. Prim na medida do possível.

Escusado será dizer que a meio do caminho para Pravčická Brána tive que fazer uma pausa para me reunir com as minhas pernas, que tinham entretanto resolvido entrar em greve devido a exigências não regulamentadas na ACT.
Após as promessas da praxe, chegámos a acordo, para o que muito contribuiu a chegada ao Falcons Nest, com descanso e um bom almoço a acompanhar.

Como não podia deixar de ser, convidámos Mr. Prim para nos fazer companhia.
A meio da refeição, dei a volta à conversa e em vez de fazer as habituais perguntas sobre a República Checa, resolvi perguntar o que sabia Mr. Prim sobre Portugal.

Mr. Prim, que já tinha estado em Lisboa há cerca de cinco anos, não gostou. A cidade era feia, suja e sentia sinceramente pelos portugueses, porque viviam em condições de extrema pobreza…
É certo que as notícias sobre o País não têm sido fabulosas, mas seguramente Portugal tem uma qualidade de vida superior à da República Checa, retorqui. Sorriu condescendente e respondeu que lá (na Rep. Checa) não viviam em casas de madeira sem saneamento básico (!!).

Não pude deixar de rir, mas rir mesmo. Onde, pelo amor da santa, terá o Mr. Prim ficado hospedado e por que caminhos terá andado para se deparar com aquela dantesca realidade?
Não consegui saber muitos pormenores. Acredito que a visita de Mr. Prim fosse coisa tipo relâmpago, pois pouco ou nada sabia de Lisboa, para além da anunciada pobreza e más condições sanitárias. Que o hotel não ficava longe do rio e passava pelas tais "barracas" para chegar à margem.

Quem me conhece minimamente sabe que quando acredito que tenho razão não me calo, e o pobre Mr. Prim passou mais de 10km, até às Edmund Gorges, a ouvir sobre a minha terra e a história das pseudo-casas de madeira.
Castigou-me com a descida mais íngreme e escorregadia da minha vida, mas apesar de ter uma preparação física a anos-luz da nossa, garanto que acabou mais cansado, tal não foi a injecção sobre Lisboa que lhe ministrei.

Mas por muito que tentasse, foi impossível contornar aquela impressão negativa de uma cidade salobra e escura que Mr. Prim tinha gravada nos recônditos do seu disco rígido.

O meu passeio ao Parque foi estupendo. Aconselho vivamente.

Lamento apenas que o nosso País, tão bonito, tão brilhante, N vezes ao quadrado mais simpático do que a República Checa, seja tão erroneamente interpretado.
Estes turistas que nos chegam, em Fam Trips, vêm tantas vezes "comprar" o destino para o poder incluir nos seus pacotes de tours.

Chegados cá, a que demónio será entregue a organização da sua estadia? Não acredito que o Turismo de Lisboa, que normalmente dá a conhecer a nossa capital com tanta clareza e desvelo, tenha transformado mais uma oportunidade de "vender" Lisboa num passeio à timberland...

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Deus ex Google

por Maria Dulce Fernandes, em 21.08.19

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As pessoas são chatas e convencidas. Nasceram assim ou fizeram-se deste modo, nesta sociedade do audiovisual e das redes sociais?
Em mais uma das minhas fases anuais de morcego, descobri um novo tipo de animal humano, que prima pela omnisciência que adquire tipo mousse Alsa: basta juntar água.

Refiro-me ao Homogooglens, o tudólogo do Google.

O nível de conhecimento que o Google confere a estas pessoas, que proliferam como mosquitos ao redor da luz que emana da partícula de Deus que carregam permanentemente consigo como se do fogo primordial se tratasse, é excepcional, elevadíssimo e sempre correcto.

Como pode um comum mortal de provecta idade competir com um homogooglens de brilhante telefone na mão, a debitar impropérios acerca da incompetência das pessoas que não cumprem o que está escarrapachado no Google com todas as letras, mapas e imagens?

Isto merece uma crítica negativa no Facebook, no Instagram ou no Twitter.

Tal inépcia mimoseia-nos com entrada directa para a candidatura a desqualificado de primeiro grau, pela incapacidade de ler e fazer cumprir o que diz o Google ali, logo na primeira página, após uma pesquisa que devolve mais de cinco mil entradas.

Tentar explicar ao homogooglens que em Montain View os Senhores não gerem as páginas particulares de cada um, limitam-se a ser um motor de busca no geral, por sinal bastante competente, mas cujas actualizações deixam bastante a desejar, não é tarefa fácil, é tarefa impossível. É que está ali, ALI, na sua mão, vê? Vejo, mas está errado. Provecta, estúpida e iletrada, que nem ler sabe...

Imprimo um printscreen da página oficial e mostro-o ao homogooglens... papel e tinta para deitar para o lixo, claro... isso é de onde? Não está no Google! Está, se procurar e não se ficar pela fachada...

Já experimentou googlar o seu nome? Então faça-o e veja quantos são e qual deles é o Senhor.


Deixo-os no vício, entretidos a descobrir-se na internet e ao êxtase que lhes proporciona o imenso saber que lhes oferece.
Está quase na hora de sair para o escuro e tentar encontrar no silêncio da noite a absolvição para os meus pecados, que devem ser muitos e copiosos, porque ninguém merece tão insensata expiação.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (30)

por Maria Dulce Fernandes, em 11.08.19

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Sei lá eu

 
Quem somos, donde viemos, para onde vamos...
 
As célebres dúvidas existenciais para as quais ninguém tem resposta certa.
 
Ninguém? Ninguém não! Eu pelo menos durante dois meses por ano sei EXACTAMENTE de onde vim e para onde vou. Dois meses inteirinhos.
 
Vim do trabalho e vou para casa. Vim da casa e vou para o trabalho.
 
Pode parecer monocórdico, monótono, enfadonho até, mas desengane-se quem pensa que algo tão simples não possa promover fúrias, complicações, desatinos, peripécias mil e até gargalhadas sem fim.
 
E é aqui que chegamos à parte do quem somos.
Pois na realidade dias há que não sei, ou  só sei que nada sei, ou sei muito mais do que julgo e muito menos do que imagino, ou só sei o que já não me surpreende, ou sei o que sou e ignoro em que posso tornar-me, ou se não sei aprendo e se já sei ensino, ou como nada sei, não duvido de nada, ou lanço o saber e não terei tristeza, ou sei coisas inúteis que é muito melhor do que não saber nada, ou sei o que todos sabem, que é o mesmo que nada saber, ou muito sei porque bem conheço a minha ignorância, ou sou sábia porque sei que ignoro tudo (o que por vezes dá um jeitaço...), mas no fundo reconheço que a condição humana do saber é o silêncio...


Sei lá eu...
 
De uma coisa não sei, mas tenho a  certeza, é que todos os dias, durante estes dois meses, me sinto dentro de uma fita de pelicula gasta e sem cor definida, em que os mocinhos e os bandidos trocam constantemente entre si de personagem e de falas, mas o filme é mudo e eu felizmente não os oiço, talvez porque já não os posso ouvir e preze o silencio como se fosse volfrâmio. Não sou a garota histérica amarrada aos carris do comboio, sou o comboio que percorre todas as estações, espera não atropelar ninguém e no final da corrida, a soprar negro de fumo, anseia por caras alegres e sorrisos cansados mas genuínos, e o bálsamo do som sem ruído que consegui deixar fechado lá atrás, para além do portão azul.
 
Estão 30 graus  lá fora, a dona sol ofusca a primeira estrela e o chá fervente anima e reconforta. O ronronar também. Até o ressonar me arranca um sorriso de reconhecimento e paz. É tão bom não ter nada para dizer.


É apenas para viver.

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Sotaques

por Maria Dulce Fernandes, em 07.08.19

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Não sou fã de abrir links, principalmente se desconheço a sua proveniência. Podem ter sido enviados por um amigo confiável e bem intencionado e mesmo assim estarem carregados de bicho, que a curto ou longo prazo seguramente me irão dar água pela barba, ou pelo buço, mais apropriado no meu caso específico.
Ontem recebi um link do Vortexmag e abri. Gosto de ler curiosidades e achei esta publicação bastante interessante, do meu ponto de vista alfacinha: trata do sotaque lisboeta.
Não pude deixar de sorrir e constatar a veracidade do texto. Não sei se lhe chamaria sotaque, se evolução da língua, consequência da lei do menor esforço, se calão, mas na verdade temos esta tendência de criar sonoridades homófonas que de algum modo nos facilitam a comunicação .
Fica o link e a pergunta: teremos nós, os alfacinhas ditadores de tendências, um sotaque lisboeta?

Sotaque

Imagem Vortexmag

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (29)

por Maria Dulce Fernandes, em 04.08.19

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Upa, lá!
 
"- Vá, agora seguras assim e enrolas com linha à volta", dizia a minha Madrinha, sentada comigo no pial de pedra da entrada, ambas entretidas a dispor em arranjos coloridos, espécies enviesadas de flores de papel que enfeitavam arcos de arames ferrugentos forrados a corda de amarrar serapilheiras e papel de seda. Eu queria era brincar com os "harmónios" que a Madrinha chamava balões não sei porquê, pois até tinham lá dentro uma cruzeta de madeira com um prego, onde espetavam uma vela, mas não podia ser, porque não chegavam para pendurar nos arcos todos.
A ti' Antónia da Fava Rica andava com a Almerinda aos gavetos na quinta depois de saltado o muro, para os amontoarem bem no meio do Largo do Carvoeiro, onde mais tarde se acenderia a fogueira.
 
A fogueira.
 
O fogo  tem o fascínio do ouro e a beleza de uma besta indomável e irrequieta que brilha no escuro com fulgências e tonalidades mais rebuscadas do que a mais louca das fantasias.
Era absolutamente fantástico ficar virada para o muro da quinta, de costas para a fogueira. As sombras agigantavam-se e moviam-se loucas e sinuosas, eminências pardas de um reino negro e luzente que crescia e se agitava a cada crepitar da acha, criando miragens de fumo e calor ondulante que cheirava a resina e a verão.
 
O avô chegava-me à beira do fogaréu e upa! Já está! E eu ria feliz e corada, seguindo com o olhar as faúlhas que se libertavam e que eu acreditava seguirem directamente para o céu, para se juntarem aos outros pontinhos brilhantes.
 
Havia concertina e guitarra e vinho. Havia cantigas. Havia a marcha de braço dado, toques de pele e trocas de olhares. Havia pão e bolos e limonada... e pirolitos com bola!
 
Sardinhas, só mais tarde.
 
Havia amizade e bailarico até os pés não poderem mais sustentar tanta folia.
 
O Carvoeiro é agora uma oficina fechada. No largo, os moradores só se conhecem do bom dia, boa tarde.
Será que sabem o que é um trono de Santo António?
E uma fogueira comunitária?
 
Passei lá o mês passado. Ainda ecoavam os risos daquela noite em que a Vizinha Custódia calculou mal o salto e o fogo, matreiro que só ele, ferrou-se-lhe à combinação de renda estreada para a ocasião, e lambiscou-lhe metade, sem que ela desse por isso.

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Pensamento da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 02.08.19

Se fazemos parte do tal plano cósmico, temos que fazer jus à capacidade organizativa e multitasking do planeador e não nos devemos resignar com qualquer normalidade, porque viver não é apenas estar vivo.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (28)

por Maria Dulce Fernandes, em 28.07.19
 
Encerrar, terminar sessão, reiniciar
 

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Quem sabe, um sofá ou uma cadeira de recosto, ironiza cheio de razão.
Um duche, uma muda de roupa, uma chávena de chá. 
 
Mal cheguei e faltam menos de duas horas para me preparar para voltar. Recosto-me, para dar descanso às pernas enquanto observo o chá fumegante condensar-se em cornucópias vaporosas que se desvanecem entrelaçadas no escuro. Olho o quarto minguante recortado em amarelo vivo no fundo escuro sobre as sombras rendilhadas das copas de Monsanto. Fecho os olhos e inspiro profundamente o sublime aroma do silêncio. É quanto basta. Alguns minutos de oblívio, no torpor breve de um sono que não chegou a acontecer completamente. Trinta e dois minutos. Volto a pestanejar, mas é escusado. Mataram a Cotovia provoca-me. Porque não? Revisitar Scout, Jem, Dill... Submerjo parcos minutos em Maycomb. Cabeceio. As palavras enrolam as letras que se me agigantam olhos dentro e emerjo atarantada.
 
Já vais? Não respondo. Ainda é cedo, mas já fui. Bem vistas as coisas, creio que, pelo menos em consciência, nem cheguei a regressar, deixei-me ficar por lá.
 
Os grão de café gemem com um perfume guloso e não me faço esperar. Sabe a manhãs sem luz. Sabe a ânimo. Sabe bem.
Oiço a juventude animada sob a luz dos faróis, sem frio, sem sono, riem na noite que se faz manhã. A estrela da manhã brilha intensamente. É um avião, diz. Pois é, que tolice. Afloro-lhe a testa com um sussurro. Até logo.
 
O táxi desliza pela humidade do asfalto. Rádio Amália. Os acordes do Barco Negro, a voz, a imagem de David Mourão-Ferreira intercalada nas luzes fugidias da rua.
 
Expiro profundamente. Reinicio-me. Ligo todos os sentidos.
Chegou ao seu destino, diz o som mecânico.
É muito provavelmente a mais pura das verdades.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (27)

por Maria Dulce Fernandes, em 21.07.19
As Palavras
 

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Queria poder ensinar as palavras que aprendi.
Queria saber explicar a doçura das palavras, a sua música, a sua luz, a sua força.
Não encontro palavras que contem a história das minhas palavras de menina.
 
As letras estão lá, alinhadas em conjuntos que formam frases, mas as frases não têm delicadeza, nem carinho, nem alegria. São fracas e sem sentido, pintadas com sucessivas camadas de uma força fraca como um verniz que lasca e se desprende e parte em mil pedaços.
 
É o que faz insuflar palavras com raiva. Troam e retumbam, mas são feias, ocas e vazias. Não dizem nada, não ensinam nada, não têm amor.
Não há poesia sem amor, nem homens sem poesia. O mundo será um deserto de gente afásica porque não tem palavras para amar.
E lá longe, no horizonte indefinido das palavras justas, talvez um dia as letras formem a palavra luz.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (26)

por Maria Dulce Fernandes, em 19.07.19
O Borrão
 

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Divago no vácuo do olhar que preguiça, volto a olhar e não me chegam os detalhes, não os sinto, não me falam. Baixo a mão desanimada que segura o pincel e reparo que os braços disformes que marcam o tempo indicam que já passou muito.
 
Que perda de tempo estar a olhar tanto tempo para o vazio, para aquela terra de ninguém, onde nem as ideias se esboçam arquitectadas em pensamentos ou fantasias.
 
Também quem me manda aceitar pintar ideias dentro de um prazo?
 
Eu que nem sei a forma que um prazo tem e agora há prazos para tudo. Como garantir que não pintarei qualquer ideia já fora de prazo dentro do prazo que me deram?
 
Comecei bem, cheia de ideias. Chegavam-me aos molhos, em  catadupas, ouvia-as fervilhar-me ao ouvido, bem dentro do pensamento. Depois foi-se instalando a inevitável inquisição sobre a qualidade, a prioridade, a assertividade, a originalidade,  a validade... sobre toda e qualquer idade em que se cria e desenvolve uma ideia...
 
Pincelada aqui, dripping ali, frottage acolá, a ideia foi ganhando cor e dimensão. Durante breves momentos,  cheguei a senti-la corpórea e poderosa.
 
Deve ter sido uma noite desesperada aquela em que não consegui segurar a ideia e ela desapareceu.
 
Agora para aqui estou, a olhar o infinito na parede crua meia dúzia de palmos à minha frente, presa a um pincel de tinta escura,  a criar profundidades tristes como abismos vagos de ideias.
 
Ping!
 
Então? Então? 
 
Ainda entorpecida pela inacção, noto que um pingo negro se desprende displicente mas veloz do pincel que equilibro relaxadamente nos dedos.
 
Olho, procuro, vasculho... nada!
 
Atento na coluna da direita do blog, onde estão os versados nas letras e noto uma ténue sombra. Pode ser apenas ideia minha, mas o marafado do pingo fugiu por um link. Esperto que só ele, pensou que poderia esconder-se naquela floresta densa e colorida de ideias, ideais e opiniões, megalómano como ele só, cogitou no seu íntimo que uma mancha poderia ascender aos píncaros da cultura em toda a sua magnitude. Que mesquinhez querer elevar um borrão ao estrelato!
 
Encontrei-o anichado entre os autores, a tentar acinzentar-lhes a prosa, não fosse para tal necessário muito mais do que uma simples nódoa. Esmaguei-lhe a intenção com a manga da camisa. Não causara dano.
 
Foi então que a ideia entrou de rompante, como aquele pé de vento naquele domingo à tarde que virou tudo de pantanas e ninguém deu por ele:
Vou pintar esta ideia sobre a ascensão e queda de um borrão egocêntrico, insolente, prepotente e atrevido, sobre uma nódoa de alma de sombra negra em todas as suas nuances e tonalidades.
 
Grande ideia esta!
Até já lhe sinto as cores! 
Aposto que nunca na história da humanidade surgiu ideia mais original!

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (25)

por Maria Dulce Fernandes, em 17.07.19
Sangue oculto
 

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Diz-se que o sangue fala mais alto.
O meu nunca falou realmente comigo, limitou-se sempre a circular e a exsudar quando o cérebro e as hormonas a isso o obrigavam.
Diz-se que tudo é uma questão de sangue.
O meu é um banalíssimo ORh+, nem sequer o factor Rhesus faz dele uma estrela, nunca será elevado à categoria de raridade nem condecorado por salvar vidas.
Diz-se que o sangue lava a honra.
Uma honra suja será sempre uma desonra aos olhos dos homens, por mais que se tente limpar e as nódoas de sangue não iriam branquear em nada qualquer imagem de honra perdida... E afinal o que é a honra? Não pode ser uma fénix, porque se esfumou e não renasceu das cinzas.
Diz-se que sonhar com sangue é desgosto
Nunca sonhei com sangue em quantidade para o poder culpar das lágrimas que já chorei.
Diz-se "Sangue do meu sangue"
Ninguém tem o meu sangue! O meu sangue é só meu, vem fechado numa embalagem própria, inócua e inviolável, corre-me nas veias, alimenta o meu corpo, dá-lhe a cor da vida.
 
É silencioso, para um imparável e arquejante corredor de fundo, sensaborão, para quem dá sabor à vida, inodoro, para quem o odor enlouquece os homens e invisível, para quem cria lagos imensos de morte. 

Vezes há que gela, outras que ferve, outras ainda em que  exulta, faz-me vibrar e corre que nem doido, no dédalo da  imaginação que  irriga constantemente, incansável e diligente.
 
Há quem tenha sangue azul; o Pai dizia-nos que sim, que nascemos com sangue azul e o Tejo aos pés, já ali em baixo.
Deve ser por isso que quando quis dar sangue, participar e integrar-me como boa pessoa e cidadã que sou, me informaram que não, que não o podia fazer.  
Não faz mal, fica meu e só meu e mimo-o com chocolates e outras coisas boas, porque afinal padecemos os dois do mesmo sofrimento: estamos ambos encerrados neste corpo sem poder sair

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (24)

por Maria Dulce Fernandes, em 15.07.19

A Luada

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Sou de luas. Desde tenra idade que o Homem na Lua me mirava com olhar reprovador sempre que fazia alguma traquinice, dizia a minha avó. De dia não havia lua, por isso podia fazer todas as maldades que ninguém via, mas a avó dizia que sim, que havia lua, que ela estava lá sempre, só que se escondia para me testar.
 
Sou de luas. Sempre me guiou no escuro da noite, quando os candeeiros eram esparsos e os néons só nos filmes.

Sou de luas. Quando a luz reflectida no mar guiava os barquinhos até à praia onde se puxava a rede e o peixe cintilava sob o luar como irrequietos pedaços de prata.
 
Sou de luas. Certinhas, contadas ao dia, acompanharam cada nascimento, cada brotar de vida que dei de mim.
 
Sou de luas. Como me instruiu a Bisavó Júlia, que aprendera com a sua bisavó, o que a ela lhe ensinaram os que foram, ofereci os meus rebentos à bênção da lua entoando os dizeres pagãos cuja origem se perdeu na noite dos tempos:


 

  "Oh Lua, oh luar,
Aqui tens a minha menina,
Ajuda-me a criar.
Eu sou a mãe, tu és a ama,
Dá-lhe tu o colo,
Que eu lhe dou a mama."
 
 
 
Sou de luas. Sei que me agita, que me altera, que me alvoroça. Comparsa de perenes noites insones, é a ela que conto os meus segredos, aqueles que nem eu própria conheço, que são reclusos da minha aresta lunar, aquela que nunca limei, a mais selvagem, mais agreste, mais bravia.

Sou de luas. Tenho por ela o mesmo fascínio que encantou escritores e poetas, embalou doces paixões, belas e horrendas metamorfoses, e viu o homem crescer do nada e tornar-se humano à luz da Lua.

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Pensamento da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 14.07.19

Depois de perder a minha mãe e verificar que já estou na linha da frente, não há dia sem que as mais estranhas ideias de quando e como me revirem o juízo. Pudesse eu escolher, comprar um bilhete e partir? Não me parece que a teoria tão em voga de poder sair de acordo com as condições de cada um prevalecesse no final.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Linhas tortas

por Maria Dulce Fernandes, em 13.07.19

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Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta sim o que poderás fazer pelo teu país e obterás resposta igual para ambas as perguntas: nada.
Não esperes nada do teu País pois ele já nada tem para te dar.
Deu-te um berço, uma língua, uma identidade, a noção de pertença a algo grandioso que transcende éticas individuais. Deu-te a vã glória de integrares a história e as histórias daqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando. Deu-te liberdade e democracia. Deu-te valor.
 
E tu retribuíste, com o teu percurso de inclusão social, com a tua aprendizagem, com o teu estudo, a tua qualificação, o teu trabalho, com o teu suor, até com as tuas lágrimas. É chavão, é cliché, é legítimo.
 
Poderia dizer-se que se igualaram no dar e no receber, não fora a oligarquia que se impôs para te guiar e formular as leis que regem cada minuto do teu dia, ditar cada vez mais e o ditado ser cada vez mais draconiano e os mandos dos ditantes cada vez mais retorcidos de favores aos favorecidos.
 
Olhas em volta e, num hemiciclo de eleitos, não encontras um rosto que exprima rectidão, experiência, solução... tampouco honestidade cívica. Cada palavra é subliminar, repleta de sinónimos que são  hiperónimos, hipónimos que são parónimos, antónimos que são homónimos. Cada frase é uma charada conotada com as máscaras da tragédia, onde com um sorriso te apetece chorar.
 
E tu olhas mas não vês, escutas mas não ouves, tocas mas não agarras, falas e nada dizes, porque te perdeste dos sentidos e já não consegues sentir mais nada. Até o desespero ou a raiva já se conformaram e segues com o rebanho, sem pastor nem pastagem, sem bússola nem compasso, indiferente aos pontos cardeais, porque afinal o que és tu senão mais um ponto colateral perdido nestas linhas tortas que ninguém sabe endireitar?

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (23)

por Maria Dulce Fernandes, em 11.07.19
Sossego
 

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Irrompem com a fúria da madrugada que se torna manhã, vêm às catervas, aos bandos, dezenas, centenas, milhares, turbas alacres numa arrazoada constante, numa babel de sons e tons, dialectos, cores e formas.
São a música de fundo da minha vida, a trilha sonora do filme no qual sou a actriz principal e eles, os actores secundários que todos os dias me invadem o olhar e o ouvir, são como anti-corpos batalhadores, travando constante e feroz combate contra o antígeno da calmaria, até o conseguirem erradicar por completo.
É neste mar revolto em ondas de caos organizado que passo os meus dias, é aqui que o tal tempo que me acompanha tem lugar cativo e sorri para mim, desdenhoso da minha azáfama, do meu cansaço, da minha confusão.
Despida a couraça que me cinge e avara de paz, busco o meu soldo para correr à locanda mais próxima e me embriagar com solidão. Tomo-a avidamente, encharco-me nela, em goles fartos, sequiosa, apressada, temerosa que não me chegue... quero mais e mais, até deixar de sentir, até me invadir aquela dormência sonolenta da inconsciência que chega. As pessoas são vultos borrados e escuros, as luzes, pequenos pontos que se desvanecem e o som, lento e desfasado,  enrola-se  na ressonância do silêncio e desliza num mutismo de acordes surdos até calar por completo a voz.
É no entorpecimento que me encontro; oiço a minha voz e abraço-a com força, com aquela saudade de quem se sente distante e só no meio de um dilúvio de indivíduos ecléticos e cacofónicos, todos os minutos de um tempo que ainda é seu.
Como um náufrago à deriva, agarro a tábua que flutua e deixo-me levar com a maré, ansiando a hora em que a letargia chegue, me embale e me traga consigo para me poder reencontrar na minha solidão.

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