Guerra... para que serve?

Naquela noite de Agosto de 1990 cheguei tarde e cansada, mas sem pinga de sono, como já vinha sendo hábito. Preparei um chá, peguei num livro e liguei a TV. Enquanto bebericava e lia, ia deitando uma olhadela à televisão. A situação mundial não estava famosa e a guerra parecia iminente no Médio Oriente. Durante a emissão televisiva houve uma pausa para depois ser divulgada a informação de última hora : O Iraque acabara de invadir o Koweit.
A invasão do Koweit pelo Iraque a 2 de Agosto de 1990 foi motivada pelo desejo do controlo petrolífero do território por Saddam Hussein. Gerou uma crise internacional imediata com condenação da ONU e bloqueio de bens, após a qual se verificou tomada de reféns ocidentais e a anexação do território. No final desse mês de Agosto a ONU impôs sanções e autorizou o uso da força caso o Iraque não saísse até 15 de Janeiro de 1991. As forças militares de Saddam Hussein fizeram reféns ocidentais (4 de Agosto) e o governo iraquiano declarou o Koweit como a 19.ª província do Iraque (8-28 de Agosto).
O mundo ficou em suspenso, pois foi confrontado com uma realidade que a maior parte dos habitantes do Hemisfério Ocidental apenas conhecia do cinema.
Durante os primeiros meses, bebia-se avidamente toda e qualquer notícia que ia chegando. Havia medo no ar e o futuro era a incerteza. Mas com o passar do tempo e porque era longe e porque o destino dos reféns e as imagens dos reféns e dos poços de petróleo a arder se tornaram triviais, foi (como ainda agora é e acontece todos os dias) caindo no esquecimento da informação que se quer aparatosa e chocante e que num ápice se torna banal e aborrecida. Até Janeiro.

Na noite de 17 de Janeiro de 1991 fomos ao cinema. Fomos ver, se não estou em erro, O Padrinho III. Estava frio e fomos directos para casa. Mais um chá quente, mais um livro, mais uma olhada à televisão. E José Rodrigues dos Santos, durante o programa 24 horas, dá a notícia do bombardeamento de Bagdade, pondo no ar a reportagem da CNN: "O céu de Bagdad iluminou-se." Esta frase pronunciada em directo na CNN pelo jornalista Peter Arnett ficou para a História. Tinha começado a Operação Tempestade do Deserto, que trouxe uma nova visão sobre a guerra: em directo e a cores.

(© ATTA KENARE/AFP via Getty Images)
Ao dia de hoje, sem livro nem chá quente, vou seguindo mais uma emissão televisiva sobre um recente e mais aceso conflito, e constato que continuamos a ver a guerra em directo e a cores. Um governo totalitário e criminoso pretende derrubar outro governo totalitário e criminoso, para salvar o povo de si próprio e da opressão dos teocratas que governam o país e que vêm infligindo tortura e morte sem qualquer respeito pelo mais básico dos direitos humanos.
A nós os indecisos decisores passivos, resta-nos cogitar sobre um futuro cada vez mais nublado, mesmo até para quem a esperança de um mundo em paz e harmonia não morre, mas silicia-se seguramente nos devaneios dos pseudo-Calígulas desta era de loucura.















