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Pensamento da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 03.07.20

Tenho para mim que, se o chamado "novo normal" significa aprender a viver e a conviver com uma praga, então esse tal normal não trouxe nada de novo.

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana

Veritas odium parit

por Maria Dulce Fernandes, em 29.06.20

SILLY GOOSE


There’s a silly goose
with a BIG CABOOSE
who
can’t fit through the door.

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Cada um tem a Regina Duarte que merece.

 

Foto do Google

Férias de Verão

por Maria Dulce Fernandes, em 26.06.20

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A Prima Rosalina era uma doce avozinha de Botero, com os seus olhos azuis e cabelos claros. Vivia em Cascais com o primo Manuel e com a Lena, uma menina ainda mais linda do que os pais. Ir a casa da Prima Rosalina era prenúncio de um bom domingo. A conversa durante a viagem era invariavelmente doce e salgada. Falávamos de mousse, de pudim e arroz doce, mas sobretudo de “batatas de pacote" que a Prima Rosalina fazia como ninguém. Às rodelas fininhas, secas e salgadas, as batatas da nossa prima faziam crescer água na boca de qualquer miúdo guloso. Enquanto os crescidos salivavam perante uma travessa enorme de mão de vaca com grão, os putos enchiam-se de batatas e doces, porque eram assim os domingos em Cascais em casa da Prima Rosalina. O Primo Manuel, com os óculos na ponta do nariz risonho e paciente, ensinou-nos a tocar os primeiros acordes no piano lá de casa e tinha um conhecimento enciclopédico sobre todas as coisas.


A casa de Alfeizerão fazia parte do espólio de magia da Prima Rosalina. Situada nos Casais do Norte, a vivenda Cruz era uma casa térrea com água furtada, quase paredes meias com uma enorme herdade de criação de bois de cobrição. A casa era alegre, com muitos quartos e anexos, decorada eclecticamente, uma cozinha enorme com muita loiça de barro e grandes vasos com tampa e torneira para a agua que provinha de um poço no exterior com uma bomba de alavanca, no melhor estilo Vovó Donalda e que fazia parte do nosso exercício matinal.

Tinha recantos fascinantes e imensos retratos da Amália, que chegou a fazer parte da família durante os anos em que foi casada com o Primo Chico, que sempre tive como uma simpatia de pessoa, mas cuja única nota alta no filme de 2008 foi ter sido interpretado pelo José Fidalgo.


A casa de Alfeizerão tinha a grande vantagem de ficar a 10 minutos de carro de S. Martinho do Porto, freguesia do concelho de Alcobaça que tem apenas a mais linda baía valviforme da Costa de Prata e uma praia fabulosa.


Cedinho, depois de grandes fatias de pão escuro torradas com manteiga caseira das vaquinhas da mãe da Celeste na quinta ao lado, ia-se ao mercado a S. Martinho, que fervilhava de agricultores, fregueses e aromas campestres, e de imediato se caía de chapão nas águas frescas da praia que proporcionava aos nadadores de banheira muitos metros sem perder o pé.


Depois de um peixinho fresco directo do grelhador do quintal com a manteiga, e com limões e salsa acabados de colher, as tardes eram invariavelmente de preguiça. Numa espécie de tabacaria minúscula entre o talho e a padaria, encontrei os primeiros três volumes das Aventuras de Tarzan de Edgar Rice Burroughs, excelente leitura de férias para os meus 14 anos. Nas tardes menos quentes, íamos até à herdade ver os bois, enormes e pesados, que se estivessem em acção não poderiam ser “incomodados" pela presença de crianças, ou, liderados pelo Mano, mobilizávamo-nos pelos campos adentro para a apanha do caracol, que trazíamos em sacos de pano e ficavam no alguidar grande coberto com uma rede fina, para limpar durante uns dias.

Claro está que o Menino divertia-se a tirar a rede e a ver a caracolada “fugir” pela casa fora. Exceptuando uns gatitos, uma data de aranhas e os animais da quinta da mãe da Celeste, o pobre Menino não tinha muito para traquinar.

Outras vezes passeava-se pela costa ou dava-se um pulinho a Alcobaça, que tinha mais comércio. Quantas vezes não esperei com os meus livros na frescura do mosteiro...

O ponto alto das noites eram os pirilampos e as estrelas no céu. Num qualquer recanto campestre mais escuro, garanto que era difícil perceber onde terminavam uns e começavam as outras. Só agora consigo entender bem o significado daqueles suspiros profundos de satisfação que aqueciam e reconfortavam o coração.


Tempos de férias fabulosos, estes, antes do pai se apaixonar por Lagos e Pedras d'El Rei. Só voltei a Alfeizerão e S. Martinho há pouco tempo. Creio que existem os Casais do Norte, a casa, não garanto. Um prédio por outro aviva a memória mas nada, nada mesmo, faz lembrar sequer a casa do Pão de Ló que comíamos à boca cheia.

De volta à estrada

por Maria Dulce Fernandes, em 21.06.20

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Dulce, a pasta com os mapas está onde? Vi-a em cima da credência, pai. Se lá a viste, lá ficou. Vai buscá-la e deixa a porta bem trancada. Anda lá que está toda a gente à espera. Corri lance após lance, degraus dois a dois (sim, é verdade, acreditem!) até ao terceiro andar, peguei a pasta e voei escada abaixo. Os amigos já nos aguardavam, aqueles que não sendo da família em que nascemos, são a família que escolhemos e éramos inseparáveis. Os Afonso eram três, um casal com uma filha, a Tita, e os Silveira eram quatro, o casal, a Mica e o Gil, que o mano rabiava e apelidava de Gileia, por ser para o anafado.

Íamos todos partir de viagem e sempre que saíamos com o carocha atravancado com a proverbial data de tralha e equipamento essencial ao campista moderno, toda a vizinhança vinha dizer adeus à janela e desejar boa viagem. Adeus D. Sofia! Adeus D. Jo! Adeus!! Boa viagem! Adeus!

O destino era Andorra-la-Vieja, capital e principal cidade do pequeno principado de Andorra encalhado nos Pirenéus, verdinha e fresca no Verão e branca e fria no Inverno, apelativa para caminhadas e prática de desportos na neve, vivia e ainda vive do comércio e do turismo. Como as marcas consagradas mundialmente não pagam impostos nos seus representantes em Andorra, os preços são convidativos, num permanente ambiente de Outlet, que era exactamente o que os amigos Afonso procuravam: a André Jamet e uma tenda com duas assoalhadas e cozinha.

 

Metemo-nos à estrada, cada família no seu carro, e entre cantorias e despiques chegámos a Talavera de la Reina onde passámos a primeira noite. Dali seguimos para Toledo. Adorei Toledo: a sua catedral, o seu ar medieval com espadas e armaduras em todos os pontos de comércio, a glória de Espanha, nas palavras do da triste figura.

Seguiu-se um detour para visitar a imponência do Valle de los Caídos, que é exactamente isso, imponente. Continuámos viagem e pernoitámos em Fraga, estreando um pequeno hostal recém construído, Las Brujas. Foi uma noite memorável.

 

A seguir ao jantar um céu de breu trouxe raios, trovões e um dilúvio. Acomodados nuns quartos catitas a cheirar a novo, ouvíamos os estrondos lá ao longe, encantados pelo aconchego dos lençóis.

De repente, boom! E tudo ficou escuro. Um apagão! A luz que entrava nos quartos era a que vinha da janela e apenas quando havia relâmpagos. Subitamente  o som de alguém a regurgitar, passos apressados e corpos a cair fez-nos sentar na cama meio desnorteados e completamente assustados, até outro som, o de incontroláveis gargalhadas chegar até nós, cada vez mais forte.

Qual enredo de tragicomédia, o Gil foi deitar-se indisposto e apavorado com a “noite nas Brujas”, extravasou a indisposição pelo chão, incapaz de, no escuro, localizar a porta da casa de banho. A sua mãe foi em seu auxílio e pumba, escorregou e caiu. O pai foi em auxílio da mãe, mas não teve melhor sorte e pimba, no chão. Os amigos nas outras suites vieram em socorro com fósforos acesos, acabando por se perder nos corredores… enfim. Ninguém dormiu muito, mas rimos que nem doidos.

Ainda hoje a história da noite nas Brujas nos leva às lágrimas.

 

A manhã seguinte cheirava a chuva e a verde e, depois de mais uma barrigada de riso, voltámos à estrada e chegámos finalmente a Andorra, quedando-nos por Encamp, Camping Meritxell, um paraíso para o campista habituado ao pó: era frondoso, arrelvado e com um ribeiro límpido e borbulhante.

Cada um foi à sua faina de estacas e cordas e ficámos prontos num par de horas para a primeira noite nos Pirenéus.

De manhã, enquanto os adultos foram ao minimercado eu, o mano, o menino, a Tita, a Mica e o Gil, fizemos o reconhecimento do camping e sentámo-nos a ler tranquilamente, todos com o recado de que não se podia deixar o menino sem vigilância, nem por um segundo que fosse. A verdade é que um segundo é seguramente uma infinidade de tempo…

Com os adultos de regresso ao Camping, almoçámos e preparámo-nos para ir às compras, quando demos pela falta dos chinelos. Ninguém tinha trazido os chinelos? Eu guardei os meus! E eu! Eu também!… Como que movidos por um magnete olhamos todos para o menino que sorria, safado e feliz… tiraste os chinelos? Para quê? Fiz corridas de barcos no ribeiro, retorquiu o pequeno patife com aquele olhar de céu travesso… bem que os procurámos, mas o mais certo seria terem já desaguado no Mediterrâneo... o que vale é que em Andorra o comércio é rei e tinham chinelos de todas as cores e feitios.

 

De Encamp sai o teleférico que sobe até ao pico Els Cortals. Fomos todos. Em 1976, as cabines eram pequenas. Não mais do que três pessoas por cabine. Depois de instalados, eu e o mano resolvemos asnear, nem sei porquê, mas chegou-nos a brilhante ideia de abanar a cabine na horizontal armados em thrill seekers, dare devils ou simplesmente palermas. Felizmente não teve desfecho trágico, mas valeu-nos sobejos ralhetes e descomposturas descomunais.

Lá em cima era lindo e valeu por tudo: a vista, o lago azul que espelhava o céu.

Os visitantes, homens principalmente, provavam a sua virilidade, ou fibra, vá, segurando com uma só mão um porrón, jarro de vidro de boca estreita e bico comprido cheio de vinho tinto. Com uma mão atrás das costas, tinham que beber sem tocar com a boca no bico do jarro nem sujar a roupa com vinho. Escusado será dizer que muito poucos desceram a Encamp com as camisas limpas.

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Depois de os Afonso se decidirem por uma tenda azul e branca e pelos apetrechos necessários à arte de bem acampar, deixámos Encamp, Andorra e os Pirenéus rumo a Barcelona. Já em Andorra os Silveira tiveram notícias menos boas de Oeiras. Barcelona foi de fugida, Valência também e regressámos a Lisboa muito mais cedo do que o previsto e ainda a tempo de passar as duas últimas semanas em Albufeira, mas desta feita com a tenda em casa.

Nada

por Maria Dulce Fernandes, em 12.06.20

Quando tudo vale tudo e tudo vale nada.

Boa sexta-feira. 

 

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Cartoon obtido na internet

On the road again

por Maria Dulce Fernandes, em 10.06.20

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Depois da Grande Aventura Europeia, o meu pai começou a enfastiar de conduzir. Trocou a Variant por um Carocha cor de areia e sedentarizou os nossos dias de férias, que é como quem diz, passámos a acampar “cá dentro”, mais especificamente em Lagos, no Parque de Turismo, com tenda montada de Março a Setembro, não sem antes termos vivido duas aventuras meio loucas, uma em Andorra e a outra em Algeciras e Marrocos. É destas que falarei primeiro, começando de sul para norte.

Com o Carocha escachado sob o peso da tenda e apetrechos indispensáveis a qualquer bom campista que se preze, mas com a panache tão típica do meu pai, deixámos Lisboa rumo a Algeciras num Agosto magnífico de 1977. Desta feita íamos apenas os cinco, o pai, a mãe, eu, o mano e o menino já com sete anos, um pirralho levado da breca.

Primeira paragem em Sevilla, descarregar o carro, jantar e dormir, que viagens longas de automóvel sem ser por autoestrada são uma estafa. No dia seguinte o pai e a mãe tiraram a manhã para ir às compras com o menino e eu e o mano fomos almoçar fora. Os dois. Sozinhos! Coisa insólita e meio atrapalhada, mas tirámos o melhor partido que pudemos.

E lá seguimos para Algeciras onde chegámos a meio da tarde. Camping Costasol. Cheio, quase indisponível, barulhento e bastante poeirento, mas era o que havia.

Montar a tenda, encher colchões, arrumar a data de tralha, não perder o menino de vista… tudo tarefas hercúleas, principalmente a última, que garantidamente o semideus riscou dos seus 13 trabalhos.

O jantar e a noite passaram-se em sobressalto com o barulho dos camiões a acelerarem ali do outro lado da sebe, mas rapidamente chegou a alvorada e o dia amanheceu lindo. Partimos rumo à cidade prontíssimos para embarcar no ferry para Ceuta, para o primeiro de quatro dias em Marrocos: Ceuta, Tetouan, Chouen e Tanger.

A minha primeira impressão de Marrocos foi o cheiro. Era uma mescla de pó com suor, especiarias, curtumes e sebo. Ceuta - muita gente, muita confusão. Como em tudo o que é excursão organizada, tínhamos à nossa espera um guia e um autocarro. Tour pelos pontos turísticos mais importantes, as muralhas da cidade velha, casa dos dragões, Plaza de los Reyes, o tradicional souk, os camelos e as cobras para a fotografia, tudo isto sempre com um olho no camelo e o outro no menino.

Almoço e partida para Tétouan, a Joia do Rif. Ampla, bonita, moscada e de labiríntica medina, Tétouan traz-me as primeiras agradáveis recordações de uma civilização diferente e afável do nosso primeiro contacto com a África setentrional. O hotel era simpático, apesar de as camas terem ar de dormidas, mas parece que há 40 e tal anos as infraestruturas para desenvolvimento das povoações interiores e do turismo ainda deixavam e deixariam muito a desejar.

No dia seguinte o azul e branco de Chouen, entalado entre montanhas do Rif, com vistas estupendas, em que o nevoeiro brincava às primeiras horas de luz por entre cristas e picos até se diluir no azul do céu. O bairro Andalui, a medina, um souk com moscas a mais e contínua abordagem para oferta de substâncias ilícitas, gente risonha. Muita carne caprina às refeições e felizmente muita e variada fruta. Compras, eram um desnorte. Mostrar interesse, por mínimo que fosse, em qualquer artigo produzia uma marcação cerrada e feroz e uma perseguição contínua por parte dos vendedores até à capitulação total.

Mais uma alvorada e nova partida, desta feita para Tanger. Passeio e almoço em restaurante típico com muita música, dança do ventre e o melhor chá de hortelã que já bebi.

Regressámos a Algeciras e ao camping e nos dias seguintes deambulámos por Marbella, Fuengirola, Torremolinos… as praias mais in do sul de Espanha, com águas cálidas e a areia escura. Meu belo Algarve de praias douradas…

Foi então que a minha mãe teve a feliz ideia de voltar a Ceuta para umas comprinhas que não teria podido fazer, porque o menino era ocupação e preocupação para todos os minutos de todos os dias passados pelas terras de Alah.

Combinou-se que ficaríamos os três filhos confinados ao Camping, prometidos e comprometidos a vigiar o menino com olhos de águia. Assim foi. Tudo para a piscina! Confinada a um espaço só com um acesso, bastante grande e com água corrente contínua que jorrava da boca de um leão colocado a um dos topos, espreguiçadeiras e sol, convidava ao lazer e à preguiça.

Tão bom a sonolência, tão calmo tão… sísmico? Tudo a correr e a fugir e a barafustar, sentei-me na cadeira com o coração aos pulos, “Niño Loco, niño loco" mas o quê? Quem? Eis senão quando consigo entender a causa de tanta confusão: o niño loco não era outro senão o menino que, qual enguia, se esgueirara de mansinho, escalando a cabeça golfante do leão que alimentava a piscina e travava risonho e feliz a saída da água com ambas as mãos e braços, de tal modo que encharcava violenta e caudalosamente tudo e todos em seu redor. O problema foi conseguir tirá-lo de lá. Ninguém saiu ileso, ou enxuto, vá lá.

Um buraco! O meu reino por um buraco! Eram descomposturas em catadupa nos mais variados dialectos. Eram pedidos de desculpa mal amanhados e envergonhados enquanto se lutava com braço do malandrim, que insistia em voltar à acção.

A partir desse dia, assim que o niño loco entrava na piscina, todos os utentes iam mudando a espreguiçadeira de lugar, porque bastava um segundo a olhar noutra direcção para o patife voltar à carga.

No fim olhava para as caras zangadas com aqueles olhos brilhantes cor de água emoldurados pelas melenas douradas e desarmava tudo e todos, que ainda acabavam por lhe comprar gelados. Que safado.

O niño loco voltou para casa em Lisboa, mas passados dois anos uns amigos que acamparam no Camping Costasol calhou mencionarem o niño loco. Não havia funcionário que se não lembrasse. E tiveram direito a um gelado cada, como mandava a tradição.

Bom Dia de Portugal para todos.

Violência

por Maria Dulce Fernandes, em 08.06.20

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É imperativo combater a violência. 

É necessário combater todo o tipo de violência, porque há violências bem mais violentas do que a violência física,  passe o pleonasmo. 

É importante a manifestação e o protesto. Mas também é importante não desrespeitar as fracas leis com que a sociedade dos homens se cose.

Incentivar à violência redunda neste tipo de aberrações. As intenções podem ser boas, as mensagens também, mas os receptores seguramente não são.

Porque há quem não entenda e exacerbe a violência ao estado de triste vergonha.

Terrorismo

por Maria Dulce Fernandes, em 02.06.20

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Li hoje na imprensa internacional disponibilizada online que as pessoas aproveitam qualquer pretexto para se amotinar, saquear e pilhar, normalmente em nome da igualdade e da justiça.

A morte de um ser humano às mãos de um seu semelhante nunca é um “qualquer pretexto". É um acto de extrema barbárie, independentemente do contexto. Não tem desculpa nem justificação. É algo deontologicamente desprezível e totalmente inaceitável na cultura ocidental.

Dito isto, pergunto-me se amotinar-se, saquear e pilhar se justificam pelo sentimento de revolta, genuíno e esmagador, em crescendo contínuo na sequência da morte violenta e sem sentido de mais um ser humano às mãos de quem o devia ajudar e proteger. Mortes, violência sem justificação nem sentido acontecem infelizmente todos os dias e a todas as horas, por esse mundo fora, e a grande maioria nunca chega ao nosso conhecimento.

O que é que esta morte por brutalidade policial tem de diferente de todas as outras? Nada. Não tem nada de diferente. É mais um crime contra a humanidade, como tantos milhares de outros crimes. Apenas o mediatismo é extrapolado: apela à revolta, à instabilidade e ao terrorismo. Apela ao medo e à justiça sumária. Apela à selvajaria. Apela ao crime.

Não é possível apagar um crime hediondo praticando milhares de outros que tais, igualmente injustificáveis e desprezíveis.

Se moralmente poderão estes levantamentos populares na sua essência,  serem considerados actos de terrorismo? Podem, sim. Este "fim" não justifica os meios. De modo nenhum.

Opiniões

por Maria Dulce Fernandes, em 31.05.20

Opiniões são como se sabe e cada um tem a sua.

Nem sempre concordo na totalidade com o que MST escreve.

Revejo a minha opnião nesta publicação do Expresso, que leio cá em casa em suporte de papel, e que encontrei online na íntegra.

Bom domingo.

https://estatuadesal.com/2020/05/30/ricos-pobres-e-mal-agradecidos/

Genial

por Maria Dulce Fernandes, em 25.05.20

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My Brilliant Friend, HBO, primeira temporada, baseada na Série Napolitana da Elena Ferrante. Tem um cheirinho a Aniki Bóbó. 😊

Não conhecia a série. Gostei bastante.

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O único ponto de vista

por Maria Dulce Fernandes, em 22.05.20

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Por volta dos meus 35 anos, tinha o cabelo mais branco do que a minha mãe e era senhora para “uns quarenta e tal", de acordo com a opinião geral das pessoas que comigo privavam, mesmo que fosse por alguns minutos. Tenho ideia de uma reportagem da BBC que produziu os respectivos agradecimentos, e em que elogiavam a Dulce como “a smashing old girl". Tinha 40 anos. Nesse mesmo ano, a minha filha entrou para a Faculdade de Letras e pediu-me um presente para comemorar o acontecimento. Pediu-me que pintasse o cabelo. Gostei de pintar com madeixas. Ficou bem. Deixou-me mais leve, talvez com menos 5 anos em cada perna, mas também apreensiva por ter sido influenciada por opiniões alheias, porque nunca fez muito o meu género. De um momento passei de parecer dez anos mais velha a parecer 10 anos mais nova. Isto requeria muita atenção, não me fosse tornar na segunda D. Maria Alpalhão, que parou nos 50 anos, de tal modo que o próprio filho chegou ao ponto de lhe ganhar por quase seis anos em idade.
Durante 16 anos fui escrava da tinta. É que não tinha volta a dar à maldita raiz! Ou pintava, ou ficava com uma bandolete branca que ao longe dava a ideia de uma cabeça partida e enfaixada. Era feio, dava a ideia de desmazelo, de relaxo, de enxovalho. Um dia o cabeleireiro ia tendo um chilique quando lhe disse que cortasse até a tinta sair toda. Tinha três dedos de cabelo branco. Esteve meia hora a convencer-me que para ficar com corte ficava à pente 4, o que seguramente iria odiar depois. Talvez tivesse razão, mas ficou a promessa de que o faria quando nascesse a minha neta. Foi doloroso de ver, mas pronto. Acabou-se a tinta. Cabelo curto, bob, sei lá, mas sem outra cor que não a própria.
Sempre fui uma pessoa aberta a ideias, ideais, opiniões, debato mas aceito os pontos de vista dos outros, porque Deus nos livre da mentalidade de carneirada. Mas no que toca a colorações capilares, era finca-pé aquela conversa troca-tintas e manter o único ponto de vista válido, assertivo e exacto, o meu.
Ao fim ao cabo, com tinta ou sem tinta, a idade acaba sempre por nos apanhar.

Relatório minoritário

por Maria Dulce Fernandes, em 02.05.20

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Quando surgiram as primeiras notícias do vírus que acossava a China, ninguém ficou muito preocupado do lado de “cá". Eram coisas de “lá”, chinesices obscenas de uma cultura macabramente omnívora e incompreensível para os ocidentais luminares, amantes de uma bela caracolada, reclinados à sombra fresca de uma esplanada à beira mar no calmo lusco-fusco de uma vagarosa tarde estival. Que não haja qualquer dúvida quanto à caracolada, pois que neste momento não sei se não daria um bracinho – pode ser o esquerdo, que sou destra e a esquerda nunca me fez grande falta – para emular o que anteriormente descrevi.
E a vida continuou igual. Veio o Natal com tudo a que tem direito em luz e cor, toda a preparação, toda a azáfama, toda a gula, todo o peso a mais, que se prolongou até ao Ano Novo e para lá dos Reis, altura em que as notícias do vírus chinês já começavam a ganhar maior projecção mediática, por surgir ventilado à laia de boato, que já havia mortes, mas mesmo assim, muito longe de “cá".
Completamente tranquilizada pela alta autoridade para estes assuntos de que “não há grande probabilidade de um vírus destes chegar a Portugal" e apesar de haver já vítimas do vírus, mortes verificadas em território chinês, três dias antes da constatação dos primeiros dois casos da epidemia em França, confirmei as minhas férias de Abril… um destino que adiara sobejamente e que foi ponto assente para 2020, Croácia, Montenegro e Bósnia-Herzgovina.

No torvelinho de notícias que ora se complementavam, ora se contradiziam, a rotina do trabalho em pouco se alterou, falava-se muito de tudo e concretamente de nada, a OMS considerou chamar à nova infecção Covid-19. Foram registadas mortes pelo novo vírus fora da China. Foram registadas as primeiras mortes na Europa. Em Itália a progressão do contágio começa agigantar-se. E é entretanto chegado o Carnaval, com a habitual e ruidosa invasão espanhola. Sem medos, portanto.
Algures no tempo a partir desta data, as situações sucederam-se em catadupa. A apreensão deu lugar às piadas virais. Ninguém se sentia seguro. Nem com luvas, ou máscaras, ou rios de desinfectantes espalhados por cada ombreira, cada recanto. Todos têm família. Todos têm medo.
Reduz-se a capacidade produtiva, criam-se barreiras físicas com distâncias de segurança controladas - que ninguém quer cumprir, mas enfim - reduz-se o horário de funcionamento, cria-se espaço de isolamento que preenche os requisitos do Plano de Contingência Nacional.
Em menos de um mês estávamos em casa, a cumprir quarentena. Duzentas pessoas. Em quarenta e três anos de trabalho, foi a primeira vez que a porta fechou. Não quero nem consigo imaginar o silêncio total, o tom pardacento e espectral do vazio. Não volto enquanto não for para voltar.
A empresa assumiu o primeiro mês. Depois veio o lay-off.
Estou há 46 dias em casa. Saí uma vez por semana. Pertencemos aos famigerados grupos de risco, devido a condições preexistentes.
A família chegada, filhas e netos, está a cumprir o seu dever cívico, longe de nós, para nossa protecção. Não lhes toco há 50 dias. Sinto a falta do carinho, do toque e do cheiro que não se aplaca com telefonemas ou videochamadas.
Durante a primeira semana, li. Cozinhei. Vi séries de TV. Devorei todos os noticiários. Fartei-me.
A neta tinha saudades. Começámos a “fazer filmes”. Eles riem, nós rimos, todos se divertem e muitos gostam. O tempo passa sem ser a encher chouriços… um projecto por dia. Uma bufonaria salutar, para passar o tempo que se enfada e nos amofina.
Penso muito na minha mãe e no medo que ela ia sentir de ter que viver em confinamento. Um dos poucos dias que não saiu, foi no dia em que se finou, sozinha, sentada a descansar. Fez dois anos. Deus foi bom.
Mais duas semanas e chega o “regresso à normalidade". Qual normalidade? A do medo? Teremos deixado de ser grupo de risco assim de repente? Nós, os que cumprimos religiosamente o isolamento, não estaremos tão condenados como os que andaram por aí a cirandar? Da irresponsabilidade, gastaria mares de palavras.
Se quero sair? Quero. Muito. Se tenho medo de morrer? Tenho. Ninguém está preparado. Digam lá o que disserem.
Como dos fracos não reza a história e o país precisa de motor de arranque, vamos lá, de volta para o desaconchego que é o nosso dever.
Penso muito nas dezenas e dezenas de milhares de pessoas que foram para o hospital, testaram positivo e ficaram internadas, elas mais o medo que seguramente não as abandonou por um segundo que fosse.

D.N.R.

por Maria Dulce Fernandes, em 13.04.20

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https://youtu.be/P3SPkq3hw-c

Depois do adeus

por Maria Dulce Fernandes, em 05.04.20

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Yuval Noah Harari: the world after coronavirus

Histórias da Quarentena

por Maria Dulce Fernandes, em 19.03.20

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Diálogos proficientes. 

Muito agradável poder conversar com quem nos entende e nunca nos contradiz.

Contágio

por Maria Dulce Fernandes, em 17.03.20

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Ontem a minha guerra antecipou-se ao estado de sítio e fechou.
Decretou recolher obrigatório, informou e encerrou. A consciência social, a responsabilidade de quase 200 almas é grande demais para se resumir a cifras. Felizmente para os funcionários, a gerência nunca considerou as suas pessoas apenas números.


É esmagadora a sensação de fechar as portas sem previsão de regresso.
Todos sabemos da necessidade de medidas extremas como esta, por todos e para todos, mas em 43 anos no mesmo posto de trabalho, não tenho memória de semelhante ocorrência e a consciência da insignificância humana perante o gigante nanoscópico que nos assalta e destrói é assaz doída e triste.


Fechei. Saí. A noite estava fria e a rua deserta. O motorista TVDE era conversador e eu sem grande paciência para lhe dar troco. Ia intercalando ideias enoveladas com secos monossílabos, sem dar muita atenção à conversa, até me chegar a palavra “exagero". Ali estava eu com alguém que, como tantos outros milhões, não entende a magnitude da destruição que este ignoto homicida pode causar à vida, à sociedade, ao mundo. Nada! Não é nada. Apenas mais uma fabricação do capitalismo norte-americano para destruir psicologicamente as pessoas e afundar a China e a Europa.


Dez minutos, longos e penosos. Respiro devagar. Afundo o nariz e a boca na echarpe. Sinto-lhe o hálito a tabaco ressequido e álcool cozinhado. Pode ser que o tenha desinfectado…


Todos vendidos ao “Grande Capital", é o que é. O que querem é fazer implodir os países e as economias com uma pretensa epidemia. Estão feitos uns com os outros, é o que é. Anda tudo ao mesmo, é o que é. Mas ele não, que sabe bem o que é ser-se explorado física e psicologicamente. Fechar tudo! Onde é que já se viu? Quando reabrirem, já é tarde! Não há nada. O país colapsou. A ele é que não o enganam com falsas epidemias.


Finalmente cheguei, desejei-lhe boa sorte e ideias desanuviadas para quando for a doer. Porque agora já não é “se", é mesmo “quando". Fugi, corri dali para fora e respirei fundo, tentando exalar o contágio sufocante, mais infeccioso do que o vírus traiçoeiro.


Entrei em casa e refugiei-me na casa de banho. Nem boa noite. Água quente, uma escova de cerdas rijas e dettol a rodos, a auspiciarem um triste início de quarentena obrigatória.

 

Apontamentos de imbecilidade (2)

por Maria Dulce Fernandes, em 14.03.20

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"- Chame-me o responsável!"

"- Viva, muito boa tarde, como está? Sou o chefe de serviço, em que posso ajudá-lo? "

"- Onde são as áreas reservadas?"

"- Não temos áreas reservadas."

"- Como não tem áreas reservadas? Como se propõe a Senhora garantir a minha segurança e a da minha família? É capaz de me dizer?"

Apontamentos de imbecilidade (1)

por Maria Dulce Fernandes, em 14.03.20

"- Bom dia, como está? Posso pedir-lhe o favor de manter uma distância mínima que seja, de segurança ?

- Porquê? Eu não estou doente!!"

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Palavras para quê?

por Maria Dulce Fernandes, em 11.03.20

Praia de carcavalos, 17:15h, após a OMS ter declarado estado de pandemia.

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O contágio. O massacre mediático. A irresponsabilidade.

Pensamento da Semana

por Maria Dulce Fernandes, em 23.02.20

"Eu lembro-me da primeira vez que tive sexo - guardei o recibo." 

Groucho Marx

 

Eu também me lembro e muito bem. Curiosamente essa lembrança remete-me para o sushi; toda a gente deslumbrada de prazer e eu que não lhe acho graça nenhuma.

 

PS. Sendo esta  tradução mais apurada ( agradeço o apontamento! :) também mais maliciosa e esclarecedora, retrata de igual modo uma "primeira vez", possivelmente mais condimentda na receita.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.


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