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Delito de Opinião

A descida de Dante

Maria Dulce Fernandes, 11.09.21

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O terror.

O terror é palpável nas vozes que se apagam.

Não, não é um filme ou uma qualquer obra de ficção.

Se lá voltar, não volto lá.

Nós, os que entrámos, abandonamos toda a esperança de um dia brilhante, após aquela descida aos infernos. O desespero cola-se-nos na pele como um indelével parasita e a leveza do ser torna-se plúmbea e esmaga-se de encontro aquela amálgama de metal retorcido.

Mas são as vozes, as vozes dos que viveram o calvário que, como mãos geladas, nos espremem o alento. Tanto medo, tanto desespero, tanta aflição, tanta angústia. Nós, os conhecedores da peroração, acabamos por sucumbir perante a inevitabilidade que todos eles desconhecem.

E fugimos.

Não queremos ouvir mais, não queremos sentir mais, não queremos sofrer mais aquele sofrimento alheio que se entranha na alma pela osmose do terror.

Se lá voltar, não volto lá.

Sem peso nos ombros

Maria Dulce Fernandes, 11.09.21

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Era um dia frio de Inverno, apesar de o despontar de um sol radiante conferir um pouco de calor ao acontecimento.

Estava prevista a inauguração de um trabalho em azulejo executado pelos estudantes da Casa Pia de Lisboa, Colégio de Pina Manique, na zona do jardim ao lado do McDonald's.

Seria o Presidente Jorge Sampaio a inaugurar a produção, que contaria também com a presença de vários ministros, do presidente da Junta de Freguesia e do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, à data o engenheiro Carmona Rodrigues.

Servir um Porto de Honra aos participantes estava na ordem do dia. Depois de todos os trâmites com a segurança e dos preparativos para a função e após a chegada da cobertura televisiva e de todo o circo mediático que a envolve, começaram a juntar-se os participantes no evento. Como muitos dos demais intervenientes, o nosso Presidente da República chegou simpático e elegante no seu sobretudo azul escuro, distribuíndo cumprimentos na sua simpática e composta maneira de estar. Para mim só tinha um problema, que mexia tremendamente com a minha-espécie-de-POC, trazia imensa caspa nos ombros. Olhei e voltei a olhar e desviei o meu raio de visão, mas raios! foi mais forte do que eu. Avancei sem aviso prévio na direcção de S. Exa. e tratei de lhe começar a sacudir a caspinha dos ombros. Não sei do que é que eu estava à espera, mas a segurança travou-me imediatamente o braço criminoso, malgrado os meus protestos de querer apenas aprimorar a imagem do chefe da nação.

O nosso Pesidente, assim que percebeu a situação, conhecendo-me o suficiente para não me confundir com um Buíça, deixou claro ao zeloso segurança que “esta Senhora tem  autorização para me limpar o casaco sempre que achar necessário." Foi uma risota pegada! Mas a verdade é que o Presidente Jorge Sampaio falou, naquele dia, para a comunicação social sem qualquer peso nos ombros.

Deixou boas recordações como Presidente e como a excelente pessoa que sempre foi.

De todos, e conheci-os a todos, os inquilinos de Belém, este foi e sempre será o meu Presidente favorito.

 

Imagem Visão/Sapo

Blogue da Semana

Maria Dulce Fernandes, 29.08.21

Com o casamento da filha mais nova à porta e um vestido comprado pré-pandemia que no pós-confinamento de 2020 se tornou a piada da família, decidi levar muito a sério a questão do excesso de peso e procurei informar-me como comer com gosto e sem engordar. Encontrei A Dieta Prática, com matéria elucidativa suficiente para adaptações à minha própria filosofia alimentar. Bem ou mal, devagar, devagarinho, perdi seis quilos em pouco mais de dois meses e consegui entrar no malfadado vestido.

Dou lá um saltinho frequentemente, para me inteirar das novidades.

Conversas em família (8)

Maria Dulce Fernandes, 26.07.21

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Entretidas, cada uma a colorir um caderno com desenhos de animaizinhos de companhia riscados a preto e branco, tecíamos considerações sobre os bicos dos lápis de cor e os das canetas com ponta de feltro.  A diferença,  colossal em  textura, tonalidade e translucidez, era patente na diafaneidade que transparecia em cada folha acabada de pintar.

Íamos tagarelando disto e daquilo, contando piadas e dizendo disparates uma à outra de modo a arrancar cascatas de riso límpido e borbulhante, daquele bem trinado e de tal modo contagiante que nos deixava esfalfadas,  mas sem vontade de parar. 

Com o ambiente de alegre cumplicidade bem instalado, arrisquei a pergunta de introdução à conversa que pretendia encetar “ - Conta-me lá neta, como te sentes em relação à mudança de escola?” Continuou a pintar, com a cabeça meio de lado, apoiada na mão esquerda , sem levantar os olhos da obra prima"- Se queres saber, avó, estou bastante apreensiva". Rasguei um sorriso daqueles confundidos e fascinados, que apenas a minha neta me consegue desenhar. “ - E então porquê tanta apreensão?” “- Porque, sabes avó, não conheço a escola, nem o recreio, nem os professores, nem os coleguinhas” - E achas que esse desconhecimento é uma coisa má? Já pensaste que pode ser uma aventura fantástica?”- Como assim, avó? “- Ora, vai ser tudo novo para ti, neta, a escola, as pessoas, os novos amigos que irás sem dúvida fazer, o avô poder ir buscar-te todos os dias e irem passear ao parque. Fazeres os trabalhos de casa na mesa da avó, enquanto contas as tuas aventuras diárias. Vai ser fantástico,  vais ver.  Vai ser uma experiência tão gratificante e ilimitada… olha, como diz o Buzz Lightyear – para o infinito e mais além!” Sorriu travessa. “ - É que fico receosa – outro sorriso escancarado - porque sempre conheci apenas a minha escolinha.”- Ah! Mas mudanças são sempre salutares porque se aprende  bastante e têm muitas vantagens" - Por exemplo o quê, avó?” - Por exemplo o regulamento. “-  Hum? O regulamento? “  - Sim! Na tua escola, os meninos têm fardamento obrigatório, certo? Todos vestem de igual a farda da escola. Na escola nova, cada um veste a roupa que quiser.” – A sério? Posso vestir vestidos e saias? “- Claro que sim! “

Encetou um bailado louco, rodopiando e pulando feliz da vida. “ – Eu gosto tanto de poder vestir os meus vestidinhos ! “ – Vês? Vai ser bom!  Vá, vamos lanchar. Queres waffles? “ – Sim! Com gelado! “ – Já somos duas! “ – Avó! E a dieta para caberes no vestido? “ – Fica para amanhã! Sem falta! ‘Bora lá!”

Os animais são uns bichos interessantes

Maria Dulce Fernandes, 10.07.21

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Uma carreira nas forças da ordem, nas forças armadas, como segurança, ter-me-á passado ao lado? 

Para estas profissões com componente física tive sempre mais queda do que jeito, por isso nunca acalentei a ideia de poder aspirar a ser um John MacClane, ou quem sabe um John Matrix ou até mesmo um Larry Daley. 

Por isso, e também porque no meu singelo parecer a máxima de Plautus, apesar de muito acertada, não pode ser dogma, fora do âmbito que a minha profissão e o meu cargo requerem, não é de todo pacífico nem coadunante com a minha maneira de ser e de estar,  exercer funções de  polícia do povo.

É certo que cumprir e fazer cumprir a lei faz parte da ética de todo o indíviduo que se rege pelas regras democráticas de um estado de direito, mas no pó dos dias desta emergência calamitosa poderá mesmo valer tudo?

Arremessados de encontro à mole ululante, munidos de um telemóvel com uma aplicação do governo português,  com um quase inaudível "thou shall not pass", lá vamos nós quase que em slow motion salvar o mundo.

Seria bastante giro até, se não fosse o ridículo disto tudo.

Mais um.

Blogue da semana

Maria Dulce Fernandes, 20.06.21

Com os sucessivos confinamentos e limitações, a liberdade de poder percorrer o país, voar para fora e planear viagens, ficou na prateleira à espera de melhores dias. 

Costumo ler o Viagens à Solta, que traz muitas informações sobre o nosso país continental e insular, sobre muitos outros, claro, e dá boas dicas sobre como preparar uma viagem. A fotografia também é de grande qualidade, o que torna a leitura bem mais agradável e ajuda a colmatar o vazio da aventura adiada.

Mandar vir

Maria Dulce Fernandes, 17.06.21

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Levar a vida a correr ou pertencer ao culto do menor esforço?

Antigamente… bem, sejamos realistas, antigamente era um massacre!

Alvorada às cinco e meia, prepararmo-nos, preparar as crianças, preparar papas, engolir um café, mala à tiracolo, saco ao ombro, marsúpio ao peito.

Apresentar… filhos!!! E toca a correr avenida abaixo para o comboio, ansiando pelas folgas semanais. Ansiando? Porquê? Ou eram compras no super, ou cozinhados, ou manobrando aquele instrumento de tortura, criado para escravizar o belo sexo, chamado ferro de engomar.

Um massacre diário. Uma tortura semanal.

Chegadas em casa, pelas oito da noite, cozinhar era a última vontade, aquela que passamos em testamento para quem vier depois. Ah pois! Depois, não vem seja quem for, por isso se queres comer, olha… cozinha!

Está claro que todas estas arestas se vão limando com o tempo e passa muito por cultivar no cara-metade o gosto pelo malabarismo dos tachos e panelas, mesmo sabendo que não sabe fritar, ou cozer, ou mexer um simples ovo.

Mandar vir significava chegar a casa e ter tudo por fazer porque, por exemplo, estava a dar o Sporting na TV, e não conseguir ficar calada sentida que era a injustiça.

Mandar vir tem  presentemente todo um novo significado.

O que é o jantar? Não sei! O que te apetece? Olha… Mandamos vir!!

A oferta e a procura são muito equiparadas e há preços que compensam o tempo e o trabalho.

Se a qualidade e a quantidade não são importantes  porque não mandar vir?

É comida? É sim. É variada? É sim. É boa? Meh… no máximo escapatória.

E cozinhar? A arte da culinária, a 12.ª arte?

Muito provavelmente entrará em desuso, sendo apenas praticada na clandestinidade por um punhado de resistentes que se recusam a mandar vir.

Emoções #8

A emoção da fé

Maria Dulce Fernandes, 14.06.21

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O ye, of little faith

É a fé que nos salva, diziam na catequese.

Pode ser verdade. Não sou crente, mas acredito. Tenho fé. Sim, tenho a minha fé.

Nos chamados lugares sagrados, sempre me senti consciente da minha pequenez. Falta-me sempre o peito para tanto coração e caio amiúde num pranto que não sei explicar, apenas sei sentir.

É assim em Fátima, no Bom Jesus, em Lamego. Foi assim em Santiago de Compostela, em Lourdes ou em Roma.

Sempre defendi que somos o fruto das nossas escolhas e não acredito em  predestinação,  mas vezes há em que tudo se conjuga para que o acaso se transmute num acontecimento único.

Aconteceu tantas vezes.

Em Roma, por exemplo.

Fomos cedo para a Praça de S. Pedro. Nove da manhã ou talvez nem tanto, para evitar o mundo que se adivinhava. Trinta ou quarenta minutos depois, entrámos na basílica. Estranhámos pedirem-nos para revistar as mochilas à entrada. Já tínhamos passado por todo esse processo à chegada à praça, entre as colunas. Muita Guarda Suíça e provavelmente muitos mais à paisana. Um deles disse-nos que podíamos ficar ou sair, mas não poderíamos voltar a entrar. Decidimos ficar. Era o dia do aniversário do meu marido e tínhamos um almoço especial nos planos, mas ficámos. Simpático, deu-nos um livrinho com o programa e os cânticos. 

A missa de ordenação de novos padres começou e o Papa Francisco entrou com todo o séquito papal. Estava ali, mesmo ali, quase à distância de um braço. Chegados ao altar-mor, começaram a celebração que durou quase três horas.

Chorei grande parte do tempo. No restante, cantei os cânticos com toda a emoção que uma estranha sensação de felicidade redescoberta me permitiu.

Quando terminou e deixaram entrar a mole humana que aguardava, sentimo-nos sozinhos e sentámo-nos cá fora a chorar.

A emoção da fé envolveu-nos e embalou-nos naqueles momentos de puro fascínio.

E a praça cá fora transbordava de gente unida pela mesma fé.

Foi uma emoção extraordinária.

Emoções #7

A lua

Maria Dulce Fernandes, 26.05.21

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Oh lua, oh luar

Aqui tens o meu menino

Ajuda-me a criar

Tu que és mãe

Eu que sou ama

Tu que o crias

Eu que lhe dou mama

Repetia a Avó Júlia, com o meu irmão no colo, janela aberta para o Tejo, numa noite fria de Novembro, um céu estrelado e uma lua farta, imensa, que jorrava uma luz gateada de um veludo empalidecido. Era um momento solene aquele em que, seguindo ritos pagãos milenares, se oferecia em segredo o bebé à lua, deusa e mãe fonte de vida,  para que pudesse medrar sob a sua protecção.

Lembro-me de querer entrar e a Avó Adelaide me dizer que não, que só podemos ver, longe e em silêncio. Porquê? Perguntei eu. Porque é magia, disse a minha avó, e o homem que lá está com um molho de silvas às costas a olhar para nós, pode ficar zangado.

Durante muitos anos fiz sempre adeus à lua, para que o homem das silvas me visse e não se zangasse comigo.

Observar a lua é uma emoção.

Fotografar a lua é emocionante.

Tenho centos de fotos de todas as fases em diferentes horas do dia e dos contrastes de luz em que se apresenta.

Eu nasci na mudança da lua. Os meus irmãos,  as minhas filhas e os meus netos também. Estar com a lua ou andar aluada são estados normais.

Pode parecer cliché, mas é emocionante, empolgante e emotivo poder sentar-me numa praia escura e ver a lua, altiva no seu perigeu espelhar-se no mar e espraiar gotas de luz na crista de cada onda.

Hoje vou fazer serão.

Emoções  #6

Maria Dulce Fernandes, 13.05.21

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Todo o Desporto, principalmente o Futebol, é uma emoção. 

Nascida no bairro ao lado e criada em Belém, uma das minhas mais antigas e mais nítidas memórias é estar vestida com umas jardineiras azuis com enormes botões azuis claros de madeira e sentada na cadeira giratória da barbearia do Felgueiras, em frente ao Chafariz da Memória, com o meu avô Américo a apressar o exímio assassino de fartas melenas, até chegar ao pretendido look à Joãozinho. Vamos lá, Felgueiras, que o jogo daqui a pouco começa, dizia o meu avô com o relógio fora do bolso do colete, já a perder a paciência com os retoques finais. O produto daquele devaneio capilar havia de dar grandes dores de cabeça ao meu avô durante muito tempo, sendo que “cortar o cabelo à Joãozinho" se tornaria anedota familiar, qualquer coisa na linha “quem não tem cão, caça com gato".

Mal acabou de pagar, o meu avô pôs-me literalmente debaixo do braço e ala que se faz tarde, desatou a correr pelas terras, passou o Salão Portugal, atravessou a Calçada da Ajuda, a  antiga Rua Coronel Pereira da Silva e desceu uns barrancos e mais umas terras até chegar às Salésias.

Sentada no chão à beira da relva a lambuzar-me com um chupa de groselha, via uma data de pernas a correr atrás de uma bola, num qualquer jogo de treino do Belenenses,  em que o meu avô, torneiro mecânico de profissão e árbitro de coração, vibrava sempre como se fosse uma grande final. Foi o maior Belenense que conheci. Aprendi com ele que não há nada mais belo do que a Cruz de Cristo ao peito, bem em cima do coração. Aprendi que a vista do Restelo para o mar inspira grandiosidade. Aprendi a vibrar com as vitórias e a aceitar as derrotas com a dignidade de um verdadeiro adepto de sangue azul. Fiquei rouca e doida em 28 de Maio de 1989. Belém viveu um tsunami azul e eu fico feliz em ter feito parte dele.

Foi uma emoção indescritível.  Belenenses para sempre. Com a certeza de vencer!

Com o casamento, recebi o nome do marido como era da lei e a loucura verde. Identifiquei-me prontamente com a dignidade da resignação e da tolerância do meu sportinguista, tão diferente da arrogância clubística que diariamente provocava grande parte da poluição sonora no meu local de trabalho.

Só tivemos divergências futebolísticas quando os nossos clubes se enfrentavam e mesmo assim quem ria por último respeitava o meio sorriso do outro. Foi sempre assim. Vibrei com ele em 1982, em 2000, em 2002 e este ano a 11 de Maio, numa noite memorável em que, sentados com a neta a ver um espectáculo e com o telemóvel quase sem luz de ecrã, estávamos sempre atentos ao desenrolar do jogo, a neta a perguntar constantemente “então, então?” ou não fosse ela uma digna descendente de almas leoninas. Pulámos os três no Largo do Carmo em frente ao quiosque como se tivéssemos molas nos pés. Rapaziada, oiçam bem o que vos digo e gritem todos comigo!

Foi uma emoção tremenda .

Emociono-me a cada vitória, clubística ou nacional.

Correm-me abundantes lágrimas à lembrança daquele Verão de 1984 em Albufeira, com a transmissão em directo da prova de Maratona dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em pé junto ao balcão de um cafezinho apinhado de gente, em frente a um pequeno aparelho de TV. Ver o Carlos Lopes chegar à meta em primeiro, vê-lo subir ao podium, ver a nossa bandeira no mastro mais alto e ouvir o nosso hino tocar foi de uma emoção avassaladora, daquelas que criam sentimentos de pertença tão profundos como uma marca a ferro e fogo.

Amigos improváveis - o Gorby

Maria Dulce Fernandes, 03.05.21

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O meu pai morreu novo. O passamento foi rápido e fulminante como uma vela que se apaga sem a chama tremeluzir. Para o meu pai acabou o mundo e para nós,  os que ficámos por cá sem saber como reagir aquele vazio que de repente se instalou, começou uma dura caminhada de revolta, conformação e aceitação que dura até hoje, como um livro no qual não conseguimos escrever o capítulo final.

Meses depois da tristeza se instalar, decidiu a minha mãe arranjar um bichinho de estimação que nos distraísse e nos animasse. Depois de estudar e aprofundar várias hipóteses, decidiu-se, com o beneplácito do meu irmão mais novo, por um husky de olhos azuis, estouvado e brincalhão, que fez as delícias de miúdos e graúdos.

Veio para a nossa família com três ou quatro meses, um traquinas com pedigree e um nome todo pomposo e impronunciável na caderneta do Clube de Canicultura, mas como tinha uma mancha na fronte, passou a ser o Gorby, sem títulos nem berço.  Era o nosso cão.

A casa dos meus pais em Belém num espaçoso terceiro andar, tinha a vista para o Tejo mais bonita das redondezas. Tinha também a escada mais íngreme e desgastante de subir de que tenho memória num prédio de três andares. Isto aliado ao gosto eclético da minha mãe por peças de decoração e mobiliário que atafulhavam profusamente  toda a área, tornou a vivência do Gorby lá em casa algo limitada. Ao princípio, enquanto cachorrinho, esgueirava-se facilmente por entre os exíguos espaços vazios. Depois cresceu. Cresceu muito. A mesa da sala debaixo da qual gostava de se refugiar, perdeu em tamanho e tornou-se numa armadilha com a pesada pedra de mármore a cair com estrondo sempre que o Gorby se levantava e a carregava nas costas.

E ir á rua? Só o meu marido e os meus irmãos tinham arcaboiço para a proeza, pelo que se iam revezando todos os dias.

Passados cerca de dois anos, sempre dócil e brincalhão jogava qualquer de nós de cangalhas em brincadeiras, tal não era a sua força. Com a patas dianteiras nos meus ombros, quase ficávamos equiparados em altura. Todos os dia tinha ralhete por destruir qualquer coisa lá por casa.

Um fim de semana, o padrinho do meu irmão mais novo foi de visita à minha mãe e encantou-se com o Gorby. Morava numa casa com jardim ali para os lados da Fonte da Telha e ofereceu-se para levar o Gorby por uma semana para a minha mãe descansar. Tinha crianças pequenas e foi uma alegria. O Gorby esteve dois dias tristonho, com saudades, mas depressa se habituou aquela casa e aquela gente que tão bem o tratava e lhe dava espaço para correr e o levava em longos passeios na praia todos os dias ao entardecer.

Depressa entendemos que aquela semana de férias duraria uma eternidade e que o “lado de lá" se tornaria em peregrinação obrigatória de muitos fins de semana.

Falar no Gorby trouxe lágrimas por muito tempo, mas também exultação com os vários prémios que ganhou em concursos nacionais e estrangeiros e muitas gargalhadas com as histórias das suas tropelias.

Nunca se esqueceu de nós nem da nossa casa. Quando chegava nas imediações começava a ficar inquieto e a ladrar de satisfação. Cada visita era um acontecimento de afagos e lambidelas.

Viveu uns felizes 15 anos.

Nunca mais quis ter um cão.

Feliz dia para todas as mães

Maria Dulce Fernandes, 02.05.21

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Mãezinha

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
43 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai desde o berço até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (Oh nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que meu pai percorria,
tranquilamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.

Dessas 9 excelentes raparigas
Uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.

A que sobeja
Chamava-se Rosinha.
Foi essa a que meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.
 
António Gedeão
 
PS. Apesar de , para mim, no primeiro domingo de Maio não se comemorar o Dia da Mãe, nunca será demais celebrar a Mãe, ventre da vida. Bom domingo.

Emoções #5

Banda desenhada

Maria Dulce Fernandes, 01.05.21

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Tex Willer e o Signo da Serpente

Por volta dos meus quinze ou dezasseis anos, todas as sextas-feiras depois da escola eu ou o meu irmão íamos à CaJor e trazíamos emprestadas as novidades aos quadradinhos da semana.

Desde os fascículos do Tintin, com publicações como o Blueberry, o Michel Vaillant, o Olivier Rameau, o Cubitus,  Blake & Mortimer, etc, passando pelos Almanaques Disney, o Falcão com o Major Alvega e o Ene 3 e, naquela altura particular, os livros do Tex Willer.

Estranhamente, nunca fui fã de cowboiadas e dispensava westerns, porque partia do pressuposto errado de que quem viu um, viu todos, mas a história da Serpente Emplumada, passada na Mesoamérica com muito sobrenatural e o culto Quetzalcoatl à mistura, era por demais emocionante para pôr de parte por um capricho de julgamento.

Era uma festa à sexta-feira à tarde poder sentar-me nas almofadas encostada à cama, com um enorme prato de torradas com manteiga e geleia de marmelo caseira, garrafa do leite à mão e uns poucos de livrinhos para também devorar e actualizar a narrativa gráfica, que me iria deixar numa emocionante expectativa durante mais sete dias.

Ler sempre foi uma emoção. 

Ler BD ainda é uma emoção redobrada.

Acabámos por coleccionar todos os livros com as aventuras do Tex Willer, que muito mais tarde foram oferecidos a uma instituição quando a minha mãe mudou de casa. De algum modo, aprendi com a sua leitura a ver westerns sem ter em conta apenas o preconceito do enjoativo índio-bandido/cowboy-herói, mas sobretudo a arte da sua concepção.

Há pouco tempo um amigo emprestou-me o Signo da Serpente.

Eu ainda sei toda a história de trás para a frente, mas, como tantas outras histórias em tantos outros livros lidos e relidos, foi uma indescritível emoção voltar a ler.

Emoções  #4

Maria Dulce Fernandes, 21.04.21

Piadas com piada

Amanhã vou a Évora.

E como tantas vezes, em tantas circunstâncias idênticas ou díspares, a frase “mas a minha mãe foi a Évora" pinta-me um sorriso rasgado. Não só por me recordar de momentos familiares divertidos, de rever ou reouvir “A história da minha vida", mas também por me relembrar tempos mais negros, quando a necessidade aguçava o engenho, a piada não era apenas um triste e fácil palavrão, tinha conotações sociopolíticas e nos obrigava a pensar.

O meu pai adorava o teatro de revista. Compravam-se bilhetes de frisa  para o Maria Vitória e de vez em quando eu era contemplada com uma ida à revista.

Relembro com agrado os momentos deliciosos, plenos de hilariantes diálogos carregados de inteligentes subentendidos que satirizavam a sociedade portuguesa e o que se passava fora de portas, e principalmente a classe política. Em tempos de censura a criatividade era absolutamente fabulosa.

Do alto dos meus 14 anos, na primeira vez que fui à revista, não alcancei o motivo de tantas gargalhadas até às lágrimas, mas aprendi com o tempo.

É sempre uma emoção recordar a emoção que era repetir, sabendo que se estava a transgredir.

É sempre uma emoção rir do riso inteligente e franco que nos proporcionavam.

Nomes como os de Henrique Santana, Eugénio Salvador, Raul Solnado, Ivone Silva, Óscar Acúrcio, Vítor Mendes e tantos outros fazem parte do meu imaginário de adolescente no regime, em transição para a liberdade.

É verdade que rir é o melhor remédio mas há rir e rir. Piadas muito giras, cheias de vulgaridades obscenas, funcionam por meia dúzia de vezes. Depois é mais do mesmo e deixa de ter, ou ser, piada. Outras piadas há que pelo seu burilado se tornaram intemporais e essas é sempre emocionante recordar.

Entender a brejeirice dos diálogos, dos monólogos, das letras das músicas era uma emoção que me emociona até hoje.

Emoções  #3

Maria Dulce Fernandes, 10.04.21

Vencer

Vivemos uma época de incertezas. Tudo o que temos como certo agora, pode ser dúbio, impreciso ou indeterminado nos minutos seguintes.

E de um momento para o outro, aquela fortaleza de determinação e firmeza que se construiu a vida inteira é abalroada pela confusão obscura da ambivalência dos dias em que tudo o que é deixa de ser e tende a oscilar no desconsolo da negatividade que continuamente nos assalta e nos arroga.

É imperativo usar todas as armas disponíveis para combater o mal dos dias, os temores, as noites insones, a ansiedade.

É sempre uma emoção ouvir  “ Nessum dorma" pela voz do Luciano Pavarotti .

Remete-me para outros tempos, tempos de paz, em que a música era união, era ternura. Era emoção.

É o desfibrilador preciso e necessário à regulação dos batimentos cardíacos e à recuperação da tranquilidade.

Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o, principessa,
Nella tua fredda stanza,
Guardi le stelle
Che tremano d'amore
E di speranza.

Ma il mio mistero e chiuso in me,
Il nome mio nessun saprá!
No, no, sulla tua bocca lo diró
Quando la luce splenderá!

Ed il mio bacio sciogliera il silenzio
Che ti fa mia!

(il nome suo nessun saprá!...
E noi dovrem, ahimé, morir!)

Dilegua, o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All'alba vinceró!
Vinceró, vinceró!

 

“ Qual é o fantasma que nasce todas as noites, apenas para morrer quando chega a manhã?”

“O que é vermelho e quente como a chama, mas não é chama?”

"Qual é o gelo que te faz pegar fogo?"

As respostas estão dentro de cada um, porque a esperança não morre, o sangue é vida e o gelo derrete com a emoção da vitória.

Venceremos! Estou certa que sim.

Emoções  #2

Maria Dulce Fernandes, 03.04.21

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Amêndoas confeitadas - Amêndoas Moles

Todos os anos era a mesma dança.

Em começando as férias que antecediam o segundo período, entabulavam-se os preparativos para a Páscoa. Numa vertente mais religiosa, cabia-me a confissão, a missa e a comunhão, por isso lavava e engomava a mantilha branca que a Lena do Vitinha me tinha trazido de Badajoz, polia o terço de prata que estava guardado na caixinha de folha espelhada com a Rainha Santa Isabel em relevo, guardada junto ao pequeno missal e saía para ensaiar para a missa de Domingo e para a procissão que se lhe seguia.

Era por essa altura que, num pequeno intervalo de toda aquela roda viva, me escapulia com o meu irmão até ao Confeiteiro, para comprarmos amêndoas doces.

Ainda sonho com elas.

O meu irmão preferia as torradas e caramelizadas; eu adorava as amêndoas moles, que se desfaziam na boca com uma leve pressão. Ainda agora sonho com elas, mas nada se compara. Quando o Confeiteiro deixou de as fabricar, íamos comprá-las à Baixa, à Pastelaria Suiça. Eram menos boas, mas bastante satisfatórias.

Nunca gostei muito de confeitos de licor, amêndoas em chocolate, amêndoas verdes, ou das tradicionais duras e multicolores. A minha perdição eram as moles, um veneno para os dentes, mas quem se ralava com pormenores na pré-história da existência?

Era um martírio fazê-las render até ao Festival Eurovisão da Canção,  acontecimento socio-familiar, em que se juntava uma data de gente, velhos e novos com snacks no colo à volta de uma TV e se vivia aquela que,  na altura, era uma verdadeira festa da música.

Comer amêndoas moles era uma emoção.

As lembranças são emocionantes, doces e quentes, com aroma a incenso e caramelo e melodiosos e desafinados Lá Lá Lás.

A amêndoas moles também. 

Ainda sonho com elas.

 

Quero desejar a toda a família do Delito uma Santa Páscoa. 

 

 

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