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Manhã submersa

por Maria Dulce Fernandes, em 24.01.21

Desde que na nossa lua de mel perdemos um avião para Amsterdam, que o meu marido se tornou um paranóico da pontualidade. E uma pessoa muito chata também, na pressão que exerce para fazer cumprir essa exigência que se tornou lema de vida: esperar para não perder. Acontece sempre que existe um horário para cumprir. Hoje não foi excepção. Estava assente sairmos às sete e quinze para ir aos votos.

A manhã estava cinzenta e submersa numa névoa fria e translúcida que amarfanhava os humores.
Chegámos à EB1 de Alfragide eram sensivelmente sete e meia e já tinha fila. Cerca de trinta pessoas, contou o meu marido. Eu acenei que sim. Estava aborrecida porque a pressa fez-me esquecer do telemóvel, esse conectado tão essencial ao suporte básico de vida, que nos deixa incompletos e desesperados pela sua falta.
As pessoas na fila, cumprindo as suas distâncias de segurança, mantinham a cabeça baixa e muitos as mãos nos bolsos para não sentir o frio da manhã, numa posição de submissão às intempéries e à firme vontade de cumprir o seu dever.
Não havia cumprimentos, modelitos para brilhar, alegres conversas, crianças a correr, risos, ou alegria, apenas um propósito para realizar.
Chegados às oito horas, a fila desapareceu magicamente salas adentro. Foram cinco minutos. Li o meu nome e o número do Cartão de Cidadão, entrei, olhei, escrevi, saí.
Já não havia fila na rua. Caminhámos vagarosamente pelo empedrado que nos levaria de novo ao confinamento do lar, com a triste perspectiva de mais uma data de horas para passar.

Ao fim e ao cabo, ter tempo é estar vivo e estar vivo é cada vez mais um luxo.

Pensamento da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 10.01.21

Será 2021 o ano em que Portugal coloca ao "leme" uma mulher? Se as candidatas à Presidência da República forem sempre tão consensuais como demonstrou o tom cordial do primeiro debate televisivo, têm uma excelente hipótese de fazer história. 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

 

Clara Gema do Ovo (5) - Regresso às aulas

por Maria Dulce Fernandes, em 09.01.21

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A 7 de Outubro de 1974 voltámos ao liceu. Foram cerca de três meses de férias grandes, as mais alegres e emocionantes até então. Era a liberdade recém-adquirida em todo o seu esplendor a aveludar o calor do verão e a trazer música e cor ao nosso pensamento, ao nosso comportamento e, claro está, às cordas vocais. Não havia local de veraneio sem um pequeno comício, que terminava invariavelmente com música ao vivo e muita alegria.

No liceu, o ano lectivo começou com grandes novidades. O uso de bata era facultativo e tínhamos pela primeira vez professores homens.

O professor Franquelim, que leccionava a nova disciplina de Introdução à Política, era feio. Era barbudo, era cabeludo, mostrava pouca higiene, tinha os dentes estragados, fumava nas aulas e não só permitia que as alunas fumassem, como era ele próprio a fornecer os cigarros, alguns enrolados à mão e de proveniência duvidosa. Tinha a sua própria entourage feminina e achava-se um autêntico D. Juan, defendendo o amor livre, até mesmo entre professores e alunos. Ninguém estranhou, portanto, quando em Maio de 1975 a Margarida apresentou uma proeminente barriguinha e lhe foi permitido continuar os estudos no liceu.

Foi o primeiro e único professor que detestei visceralmente.

A Clara voltou mudada. A mudança saltava à vista desarmada em dois pormenores fundamentais: não trazia o mono do Demis Roussos a tiracolo, mas em contrapartida ostentava uma boina preta com um pin do Che Guevara.

Tendo sido eu própria recrutada pelo tio Marcelino, pelo tio Simões e pelo Dr. Adelino Cabral - tudo gente interessante e íntima do João Lopes Soares que muitas vezes ajudaram a esconder da PIDE na tulha do carvoeiro - para as fileiras do Partido Socialista, fiquei agradavelmente surpreendida, até porque em 1974/75 éramos todos socialistas. Até mesmo o PCP era socialista, já que a URSS se definia como república socialista e a “direita" que havia era social democrata.

Estranhei a mudança na Clara, da personificação da alegria à muda introspecção. Deixou de ser expansiva e nas poucas palavras com que nos presenteava denotava-se alguma tristeza, que associei a problemas familiares, pois tinha a noção de que o dono da casa era altamente conservador.

Sendo uma aluna de quadro de honra, a Clara não deixou que a sua actividade político-partidária interferisse com os estudos e continuou a dar cartas, caindo nas boas graças do corpo docente pela forma eficiente como se dedicava a todas actividades lectivas, lúdicas e políticas no liceu, numa brilhante forma de multitasking. Ao princípio, participei nessa azáfama, mas calhando em conversa numa reunião do núcleo do PS de Belém no pátio da Junta, foi-me energicamente dado a entender que me devia demarcar das actividades políticas da UEC. Foi a minha primeira farpada do Partido Socialista.

 

Foto retirada do Google

The Black Night

por Maria Dulce Fernandes, em 07.01.21

 

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow —
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.
 
I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand —
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep — while I weep!
O God! Can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?
 

Blogue da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 02.01.21

A gula é o meu pecado capital de eleição. Adoro cozinhar, experimentar novas receitas e sabores e depois deliciar-me com os preparados. Procuro muitas vezes no Casal Mistério inspiração para continuar a pecar sem crescer para os lados, para além de muitas outras rubricas interessantes. Casal Mistério é a minha escolha como blogue da semana, a inaugurar 2021.

Pequenos fogos por todo o lado

por Maria Dulce Fernandes, em 01.01.21

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2021 entrou com pompa e circunstância. Entrou com estrondo, com cor e aplausos.

Por todo o lado, pequenos foguetes, luz e cor espelharam a esperança e a resiliência herdada de um ano que saiu de mansinho, envergonhado e triste por ter sido o ano de todos os tormentos, de todos os medos, de todas as angústias e contradições.

A humanidade depositou a sua fé no porvir e recebeu ruidosa o novo ano desanuviando os céus e espanando a alma com estrépito para afastar o mal, os maus espíritos encarnados num morbo vil.

Dos telhados do seu isolamento lançaram o seu clamor muitas luzes ao céu e de tal modo que, durante largos minutos, a noite virou um arrebol de claridade por toda a parte, com uma toada alegre e barulhosa.

Esta noite todos os que olharam os céus iluminados, crentes e ateus, olharam com um sorriso no peito.

Com um misto de saudade, confiança, coragem, esperança e triunfo recebemos 2021.

 

Bom Ano Novo

Feliz Natal

por Maria Dulce Fernandes, em 23.12.20

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Desejar "Feliz Natal" pode parecer paradoxal neste ano estranho e pouco feliz, mas é importante realçar que a família  nunca significou tanto, para todo o mundo, como nestes tempos  de incerteza.

Desejo o melhor Natal possível para toda a grande família que é o Delito de Opinião. Que haja paz e saúde, e que se possa retirar da tristeza alguma alegria.

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Clara Gema do Ovo (4) - A Normalidade

por Maria Dulce Fernandes, em 22.12.20

Ficar em casa doente, numa caminha quente e paparicada, sabia pela vida. Ficar em casa fechada quando lá fora se cantava na rua, havia lágrimas, sorrisos , música, alegria e abraços, era pura tortura, mas rapidamente tudo foi regressando à normalidade.
Normalidade é uma palavra com uma espécie de aura positiva, mas as normalidades têm tantas vezes tão pouco do dito “normal". Foi o que aconteceu no dia em que regressámos ao liceu. As alunas não traziam as batas vestidas, nem as mochilas com livros, nem os cabelos presos, nem os sorrisos forçados… muitas trouxeram instrumentos musicais e por todo o lado se entoava a Grândola Vila Morena. A Clara estava como eu, sentada nos degraus que levavam ao pavilhão de ginástica e com a bata atada à cintura. Falávamos do que se sabia pelas notícias e das novidades do Liceu. Queriam sanear a professora de história e a de Inglês. Sanear. Palavra que na altura ligava de imediato a esgoto e que passou a fazer parte do léxico liceal no pós Revolução. Tocou para a entrada. Levantámo-nos para ir para a sala , mas fomos das poucas a fazê-lo. As contínuas vieram ao pátio e instigaram ao cumprimento, mas estava calor, não apetecia nada e a beira Tejo era já ali em baixo. Aquele dia passou-se no limbo da revolta pela inacção. Os que se seguiram foram mais do mesmo, até que tudo aqueceu. Até o tempo.
Um grupo de alunas dirigiu-se à esquadra do Calvário e pediu um megafone emprestado. Então, debaixo de um sol escaldante e envolvidas no ambiente e no som das palavras de ordem, votámos greve geral de alunos e fomos todas para a “praia”. Era ver meninas bem educadas de calças arregaçadas, ou sem calças ou até em cuecas e soutien , naquela estreita língua de areia ao lado da Torre de Belém, a então chamada “Praia da Torre do Pé Descalço", numa espécie de alienação colectiva, como se fora a primeira vez que viam mar. Nem sei se os nossos pais alguma vez souberam desta maluquice.

20201222_104158.jpgO ritmo manteve-se frenético até às férias grandes, com as notas a descambar miseravelmente, mas no fim, com a nova média de 9,5 valores para transitar de ano e candidatar-se à faculdade, foi o autêntico paradigma da festa da vida.
Nesse ano os meus pais cumpriram uma promessa: deixaram-me ir a Londres. Na companhia do Vitinha, da Lena e da Guida, aquela família que nós escolhemos e que foi sempre a nossa, num belo dia de Agosto saí no “Eagle" do Cais da Rocha do Conde de Óbidos até Southampton. A viagem demorou três dias. Vomitei-os todos. Fiz os dezasseis anos a bordo com festejos por parte dos amigos e da tripulação, mas estava mais interessada na localização do WC mais próximo.
Londres era diferente apesar da chuva em pleno agosto e da monocromia pintada pelo nevoeiro, mas era Londres e só podia ser fantástico, . Foram duas semanas de uma viagem inolvidável, saindo depois para Paris e Madrid.
De todas as paragens, escrevi postais à Clara, para que podesse viver comigo parte desta deslumbrante aventura.
O regresso encontrou tudo no alvoroço da normalidade de 1974.

 

Permuta de Natal

por Maria Dulce Fernandes, em 17.12.20

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Troco conduta de lixo limpa e desinfectada por espaço de quintal em bom estado, de preferência de uns, mas sem problema se for de outros, durante a semana do Natal.

Tenho também compota de tomate para trocar por doce de ginja ou de amêndoa amarga.

Pede-se a todos os interessados que enviem mensagem pessoal.

Boas Festas

 

Foto do Google

Clara Gema do Ovo (3) - A Transição

por Maria Dulce Fernandes, em 15.12.20

O Demis-Live-Puppet foi um sucesso. A Clara trazia-o com ela para o liceu tantas vezes quantas as colegas que deixava entrar no seu inner circle e cujo ritual de passagem era ver e saber guardar o segredo debaixo da túnica. Não eram assim tantas como isso, mas a presença do mono era sempre um acontecimento e um divertimento do qual até as próprias professoras, cientes dos arrebatamentos musicais e amorosos da Clara, participavam animadas mas sem consciência “do que estava por baixo", o que era emocionante e divertido para a população estudantil  daquela turma.
Tínhamos quinze anos e era Primavera. Trazíamos os livros, as alegrias, as tristezas e muitas paixões na mochila. Éramos alegres e despreocupadas. Era Primavera e o nosso espírito vicejante bulia por debaixo da bata azul que nos uniformizava.
Aquele dia amanheceu nublado e rotineiro como de costume. A primeira aula era Inglês, às 8:30h, com a Dra. Rosário Ferro que não admitia atrasos. Muitas de nós chegaram ao liceu às 8:00h. Duas contínuas à porta faziam-nos entrar rapidamente e orientavam-nos para as salas de aulas, onde deveríamos permanecer sentadas até que alguém viesse falar connosco. Na sala com duas filas de carteiras duplas já havia uma meia dúzia de alunas sentadas, mas nem sombra da Rosarinho. Entretanto entra a Francisca que diz que alguém fala nas notícias que houve um golpe de estado. O que é isso? Sei lá. É coisa de terroristas. É da tropa!
Estávamos para ali fechadas e apavoradas e não havia uma alminha que fosse, capaz de nos sossegar. De vez em quando uma contínua assomava à porta da sala, chamava uma aluna pelo nome e levava-a sem dizer mais nada. Olhávamos umas para as outras em silêncio e só podíamos conjecturar coisas más.
Quando chamaram o meu nome, não soube se era para rir ou para chorar, porque não tinha como saber ao que ia. Olhei para as colegas, para a Clara, acenei com a mão e acompanhei a contínua até à grande porta da entrada. Estava lá o guitarrista Fernando Pinto, o vizinho do primeiro andar. Anda Dulcinha, anda, vamos para casa que a tua mãe está doente de aflição.

original.jpeg.jpgNo caminho de casa vimos passar os Chaimites de Cavalaria 7. Falava-se em revolução e o medo pairava no ar. Todas as revoluções que conhecíamos, algumas das notícias mas a maior parte da história e dos livros, acabavam com mortos, feridos e sangue a rodos. O amanhã afigurava-se mesmo nada tranquilizador.
A minha mãe estava na varanda a ouvir a telefonia. Pairámos lá por casa sem qualquer informação que não o que ia passando na rádio em nome do Movimento das Forças Armadas e que exortava as pessoas a permanecer tranquilas em suas casas. O meu pai só chegou pelas 18 horas e pouco mais tarde o Fernando Balsinha e o Fialho Gouveia apresentavam uma edição especial do Telejornal sobre o golpe de estado levado a cabo pelo MFA, cuja reportagem de rua com imagens, em particular as dos momentos cruciais e de grande tensão no Largo do Carmo naquele final de tarde primaveril que aqueceu ao rubro as emoções, misturada com a ideia carmesim dos cravos cinzentos no ecrã, projectados dos canos das armas mudas, fez transbordar o tumulto do peito, soltou o nó da garganta e as lágrimas correram como rios turbulentos.
Até à data, só tinha visto o meu pai chorar quando nasceram os filhos.

Clara Gema do Ovo (2) - A Relíquia

por Maria Dulce Fernandes, em 08.12.20

Dizer que o fruto proibido é o mais apetecido é um eufemismo.
Sexo era tabu. Falar de sexo estava fora de questão e tanto em casa como no liceu, o corpo humano era resguardado em conversas casuais e até as anedotas “picantes” eram astuciosamente subentendidas e buriladas de modo a que as crianças não lhes apanhassem qualquer significado.
Um dia, tinha eu acabado de completar dez anos, a minha madrinha sentou-se comigo na imensa varanda virada para o Tejo e conversou-me acanhadamente sobre transformações que o meu corpo iria sofrer, que não deveria ficar assustada, que era um processo normal pelo qual passam as meninas quando começam a ser mulheres. É claro que quando sensivelmente um ano depois se deu o episódio da transformação, fiquei extremamente desiludida porque esperava transformar-me assim, da noite para o dia, na Fallen Madonna with the Big Boobies.20201208_110354.jpg

A primeira vez que “vi" um homem nu, foi numa revista que a Mila, filha de um diplomata português na Cidade do Cabo, passou clandestinamente para dentro do liceu,  dobrada em dois, dentro do livro de desenho. Foi um segredo de Polichinelo e acabou sendo a revista confiscada e a Mila admoestada, mas apenas e só.
Com o explícito das fotos em mente, encetei a árdua tarefa de confeccionar um Demis Roussos em tecido de chita beije, de 70cm por 50cm , com o tal “colosso" o mais reduzido possível, mas passível de levar enchimento em sumaúma como o resto do corpo. Um pedacinho de carpélio negro surripiado do tapete do cãozinho-da-cabeça-a-dar-a-dar do carro do Vitinha e tingido com tinta da china, deu o toque final.
Sendo a minha mãe uma costureira de truz e eu ter aprendido parte do mister desde pequena, a confecção do boneco não apresentava outra dificuldade que não a do secretismo. Miúdas de 13 anos não costuravam “bonecos de encher" com particularidades anatómicas bem definidas ! Se fosse apanhada, era castigo na certa e dos grandes. Contei à minha mãe do boneco como um presente de aniversário para a Clara, deixando de fora a Parte do “colosso" , à qual me ia dedicando sempre que pensava não estar a ser observada e guardava-o, qual Relíquia, embrulhado num lencinho de assoar no fundo da mala da escola.
Depois de terminar o mono, com o cabelo desgrenhado em lã preta e barba e bigode surripiados à estola de vison dos casamentos e de o ter vestido com os trapinhos e galões mais brilhantes e berrantes do espólio da minha mãe, com a desculpa de estudar para um ponto na hora da tv, fui costurar o “colosso" ao boneco e embrulhar o produto final num papel de fantasia comprado para o efeito.
Bem mais tarde na noite já deitada a ler a Flecha Negra da Colecção Histórias , oiço os meus pais a conversar e um restolhar de papel. Gelei. Saí do quarto pé ante pé e vislumbrei pela fresta da porta a minha mãe com o mono na mão a mostrar ao meu pai o que se encontrava por debaixo da túnica. Morri. Corri para a cama, apaguei a luz e esperei , com o coração a galopar sem freio, mas ninguém veio. Devo ter acabado por adormecer.
Na manhã seguinte, preparei-me para ir para o liceu completamente em pânico. O boneco estava embrulhado praticamente como eu o deixara na véspera. Tremia eu, como varas verdes perante a iminência da bronca. Tomámos o pequeno almoço, o pai saiu para o trabalho. Um bocado temerosa e desconfiada , peguei no embrulho e saí também. Curiosamente, nesse dia ninguém tocou no assunto. Nem nessa semana. Nem nesse mês. Nem durante uma data de anos, até uma ceia de Natal, já eu casada e com filhos.

 

Foto retirada do Google

Clara Gema do Ovo (1) - A Clara

por Maria Dulce Fernandes, em 07.12.20

Tenho saudades da Clara.

Fomos boas amigas, colegas, companheiras de carteira e até cúmplices durante o liceu.

O meu pai chamava-a de Clara Gema do Ovo e sabia que era a melhor influência que naquela altura poderia desejar para mim.

A Clara era o que agora se chamaria uma “croma". Mediana de altura, cheiinha e com uns óculos redondos e grandes, tinha sorriso fácil, uma mente brilhante e uma acuidade artística fora de série. Qualquer tarefa para a qual a Clara se propusesse tinha a garantia da excelência da execução e do primor da conclusão.

As miúdas populares ressentiam-se com a atenção que os professores dispensavam à Clara pelo seu admirável desempenho a todas as disciplinas, com notas a alternar entre os 16 e os 20 valores. Eu não era uma miúda popular. Também não era uma croma. Balançava agilmente entre umas e outras; nunca tomei posição, mas sentia-me bem mais confortável com os cromos do que com a superficialidade que a popularidade confere.

 

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Como todas as adolescentes, a Clara amou com ardor. Desenvolveu uma paixão platónica pelo grego Demis Roussos, exacerbada por uma possível falta de afecto paternal, de tal modo que lhe escrevia intermináveis cartas em tom de diário, contando cada segundo da sua vivência e do seu pensamento que não o abandonava nunca. Escrevia sempre que podia, em cadernos do liceu numerados que a acompanhavam para onde quer que fosse, aos quais acabei por perder a conta.

A Clara trazia consigo recortes de notícias, posters, tudo o que a imprensa nacional e estrangeira pré-revolução era autorizada a disponibilizar ao público jovem em Portugal. O meu primo Dietmar trabalhava na altura na editora da Revista Bravo e arranjava-nos muitas revistas com vários pósteres estupendos (cheguei a forrar a parede do meu quarto com pósteres, alguns de tamanho natural, como foi o caso do Alice Cooper e também do Mark Spitz, com as suas sete medalhas de ouro), muitos deles do Demis Roussos. Pelo liceu era normal ouvir o trautear de “We Shall Dance". Aos poucos conseguiu coleccionar-lhe toda a discografia. E assim a Clara era feliz.

Um belo dia em que levei para o liceu os meus fantoches feitos com colheres de pau, lã e restos de tecidos das costuras da minha mãe, nem sei bem a que propósito, prometi que lhe faria um Demis Roussous em pano, costurando o Titã lírico em escala reduzida, com um “colosso" bem microscópico. Foi uma risota pegada, mas nunca imaginou a Clara que eu cumprisse o prometido.

 

Foto do Google

Lugares vazios (2)

por Maria Dulce Fernandes, em 21.11.20

A única cor vem do céu e do mar. O colorido continua triste e esbatido. Cor é movimento. Cor é som. Cor é o calor humano de que se despiram todos os lugares vazios.
Poucos turistas pontuam pelas ruas, salpicos escuros no tecido em tons embaciados dos recortes vibrantes da cidade na linha do horizonte.
Só o barulho das máquinas e dos motores desperta os transeuntes, os caminheiros de ocasião que debaixo de um sufocante sol de Inverno, se passeiam pela cidade despida e atravessam em passo arrastado todos aqueles lugares vazios.

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Lugares vazios

por Maria Dulce Fernandes, em 18.11.20

Vazio. Não é uma sensação agradável nem um pensamento feliz. Eu que me sinto sempre farta de pessoas, que me cansa a gente, que me zurze o ruido, senti- me esmagada pelo peso do vazio. Vazio e silêncio, sem emoções, sem calor nem risos.
É como se tudo o que respira ficasse sem ar e se solvesse no mormaço daquela tarde de inverno, referta de sol brilhante e céu azul, mas tão vazia de almas.

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Tudo está no seu lugar. Todo o lugar está vazio.

Leveza de ser

por Maria Dulce Fernandes, em 13.11.20

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No próximo Domingo 15 de Novembro, eu e o meu marido comemoramos o que se convencionou chamar “Bodas de Esmeralda": quarenta anos de um casamento feliz, estável, com os altos e baixos normais num relacionamento normal, com o exercício de paciência diário (eu sou signo Leão, ele é Sportinguista ferrenho, eu sou apartidária, ele é PS desde “pequenino”) tão necessário a uma boa e duradoura convivência.
Para trás ficaram as atribulações dos vinte anos, da vida a correr, dos sacrifícios, das crianças para cuidar em horários desencontrados, sufocantes e difíceis. Éramos dois putos com responsabilidades acrescidas, que as levaram sempre muito a sério e as puseram acima de tudo. Qualquer semelhança com os dias de hoje é pura ficção, dado que presentemente a noção de responsabilidade é esbatida e irreal, como se tem vindo a verificar de dia para dia.
Com a utopia dos planos a longo prazo presente, a comemoração pretendida foi sendo consecutivamente adiada, renovada, remodelada, enfim, destroçada, e ficou resumida a um passeio a dois de um só dia, no dia seguinte à efeméride, porque o Domingo é mais uma vez para confinar.
Fizemos um plano que tem Fátima como um dos locais de paragem. Porquê, perguntam-me, tu nem és lá muito católica! Porque sim. Porque me faz sentir bem. Porque me transmite serenidade . Porque sempre me fez chorar sem saber bem a razão. Porque faz bem chorar. Porque para chorar, não é necessário haver uma razão. Não precisamos de molhadas, podemos apenas pensar em paz e sentirmo-nos gratos pela quietude e levidade espiritual.

Está tudo na minha cabeça? É provável, mas também é um excelente indicativo de que a minha cabeça pode não funcionar assim tão mal.

Pátria

por Maria Dulce Fernandes, em 09.11.20

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Baseada num livro de Fernando Aramburu (cuja leitura é fundamental antes de ver a série) a acção de Pátria inicia-se nos anos setenta e conta a história de duas famílias bascas e da sua relação com a ETA e com o conflito armado, da sua amizade, dos seus amores, ódios viscerais e hipocrisias, e termina em 2011 com a proclamação do cessamento da luta armada pela organização separatista basca. O autor explicou que só adquirindo o distanciamento necessário em tempo e espaço pôde ganhar o olhar isento necessário para escrever sobre as passagens ficcionadas da sua juventude em San Sebastián e isso é visível em toda a obra.

Há memórias que retemos mesmo involuntariamente. Uma que me chegou nítida, ao começar a ler Pátria, foi a de um cartoon de 1975 que fez capa num jornal dos vários que o meu pai comprava e que retratava um general Franco decrépito numa cadeira de rodas, a girar o garrote ao qual Espanha condenou à morte Garmendia e Otaeguy, dois membros do braço armado da ETA. Apesar de em Espanha, em Portugal e em muitos outros países se manifestarem em favor da comutação da pena de morte, um dos etarras, Otaeguy, foi executado pelo regime.

O livro é bom e a série recomendo vivamente.

Conversas em família (7)

por Maria Dulce Fernandes, em 05.11.20

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Avó, vamos brincar? Avó?! Presente! Estava a ver as notícias. Notícias de quê? Das eleições nos Estado Unidos. O que é eleições? E agora como é que se descalça esta bota? Chama-se eleição quando, neste caso por exemplo, as pessoas escolhem um chefe para mandar no país. Tu foste com os teus pais votar nas eleições do Presidente da República, lembras-te? Acho que não, Avó. Mas sabes quem é o Presidente da República? Sei. É um homem que tira selfies. Também, mas é assim a modos que quem manda no País. E tu estás a ver se um homem que tira selfies ganha nos Estados Unidos? O de lá não tira selfies, manda Tweets. E isso é o quê? Pois… olha, é uma maneira de se estar entretido com o telemóvel. Assim como os jogos ? Mais ou menos. É outro tipo de jogos, que nem por isso são importantes ou até interessantes. Jogos lúdicos, Avó? Eh lá, sorri, para ela, seguramente para ele são, neta. Avó, tu és quase presidenta! Estás sempre a tirar retratos e distraída a escrever no telefone e no tablet!

Brave

por Maria Dulce Fernandes, em 03.11.20

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Será a nossa índole lusitana que nos torna brandos, serenos, ou até mesmo frouxos?

Somos contestatários por natureza, mas o nosso espírito combativo foi-se dissipando suavemente através de décadas de vida tranquila e anafada e temperatura amena.

Pode efectivamente a pena ser mais poderosa do que a espada, mas os cartazes e palavras de ordem da nossa discórdia, projectados nas muitas manifestações ruidosas e infrutíferas, foram apenas fogo de vista, dejectados e votados ao esquecimento em poucos dias, por mais acesa que tenha sido a controvérsia gerada.

Um José Júlio da Costa, hoje em dia, limitar-se-ia a sair para a rua sem máscara. Perdeu-se aquele fogo que consome as entranhas, a raiva que arma o braço, a fúria que prime o gatilho. Perdeu-se bem. Dirigimos os sons e as fúrias noutros sentidos, mais ineficazes mas muitíssimo mais ruidosos. Somos pacíficos. Demais, talvez.

Com uma eleição presidencial quase à porta, debruçamo-nos sobre o assunto com o característico encolher de ombros de quem acha que já sabe o resultado e se está nas tintas para ele. Vamos, como temos ido, ao sabor da maré. Reclamações virão posteriormente. E muitas. Nisso somos excelentes, somos mestres.

Mas claro, somos portugueses, simpáticos e afáveis.

Portugal não é the land of the free and the home of the brave, paraíso das amplas liberdades daqueles que nada temem.

 

Imagens retiradas do Google 

Mudar de lentes

por Maria Dulce Fernandes, em 25.10.20

Estes últimos tempos não me têm sido propícios. Tudo me cansa, física e psicologicamente falando. Vejo as pessoas adoecer à minha volta e saio de casa todos os dias a pensar se será aquele o último dia em que regressarei livre de viroses. 

No trabalho, são-nos impostas cada vez mais regras, mais ordens, mais directrizes sob pena de pesadas coimas, que a cada dia que passa são mais complicadas de fazer cumprir. 

O egoísmo é a única filiação comum a todas as cores e credos. 

Em casa, vejo os meus netos e desespero.

E depois vejo isto e apetece-me partir tudo.

Quem sabe, sou quem quem vê mal e precisa mudar de lentes.

 

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O silêncio e tanta gente

por Maria Dulce Fernandes, em 21.10.20

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A lotaria genética é algo assombroso que transcende todo e qualquer um de nós. A possibilidade de um gene recessivo de existência recente ou até pré-histórica pode determinar um distúrbio de 25% de probabilidades de se verificar geneticamente adquirido.

E aí, ainda não nascemos e a nossa vida já possui toda uma carga adicional de lutas e desafios a superar, que com o passar do tempo constituirão a normalidade que conhecemos.

A lotaria genética pode proporcionar distúrbios esteticamente agradáveis ou monstruosidades e os outros, os que não se vêem e acarretam deficiências profundas que podem ou não ser contornáveis.

A hipoacusia bilateral profunda é A deficiência auditiva por excelência. É diagnosticada por uma sucessão de exames que se iniciam aos 2 dias de vida e não terminam nunca.

Após uma série de testes audiológicos e ressonâncias magnéticas para diagnóstico definitivo, somos postos perante a perspectiva da cirurgia, o tal ouvido biónico, que nos ajudará a perceber o mundo também pelo som e a podermos ser nós a traduzi-lo pela nossa própria voz, construído em palavras que nunca falámos na impossibilidade de reproduzir algo que desconhecemos.

Quem pensará duas vezes perante a possibilidade de contornar ou até vencer a imparidade?

É aqui que entram em cena os fundamentalistas do silêncio que, sob a capa da protecção à capacidade e direito absoluto de escolha das minorias, insistem em alternativas como a linguagem gestual ou a leitura labial, e a escolha – ouvir ou não ouvir - partirá exclusivamente do indivíduo com deficiência quando alcançar a idade da decisão.

Quero acreditar que estas pessoas têm boa intenção e são apenas imbuídas de sentimentos protectores, porque de outro modo é incompreensível que nos tempos do audiovisual estejam a condenar um indivíduo a um ostracismo de idade das trevas. Aqui, a questão religiosa nem se põe. Se Deus não deu ouvidos, então terá que ser surdo, ter-lhe-á dado cordas vocais para quê senão para poder falar?

A linguagem gestual e a leitura labial nunca devem ser excluídas da aprendizagem de um surdo, porque ser bilingue e estar comunicável é fundamental. Em última instância, a decisão de não querer ouvir, aí sim, dependerá sempre, única e exclusivamente, do indivíduo em questão se assim o seu livre arbítrio permitir fazer acontecer.

A transição nem sempre é confortável. A confusão e o medo podem marcar negativamente as primeiras horas ou os primeiros dias, até chegar o entendimento de que as palavras rupestres que gesticulamos podem ser pronunciadas, reproduzidas num som que pode chegar até nós e tornar-se música para os nossos "ouvidos biónicos".

É um renascimento para um mundo sonoro, é um milagre, é magia... é isso tudo, as possibilidades são imensas e é fantástico poder acontecer.


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