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Delito de Opinião

Guerra... para que serve?

Maria Dulce Fernandes, 28.02.26

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Naquela noite de Agosto de 1990 cheguei tarde e cansada, mas sem pinga de sono, como já vinha sendo hábito. Preparei um chá, peguei num livro e liguei a TV. Enquanto bebericava e lia, ia deitando uma olhadela à televisão. A situação mundial não estava famosa e a guerra parecia iminente no Médio Oriente. Durante a emissão televisiva houve uma pausa para depois ser divulgada a informação de última hora : O Iraque acabara de invadir o Koweit.

A invasão do Koweit pelo Iraque a 2 de Agosto de 1990 foi motivada pelo desejo do controlo petrolífero do território por Saddam Hussein. Gerou uma crise internacional imediata com condenação da ONU e bloqueio de bens, após a qual se verificou tomada de reféns ocidentais e a anexação do território. No final desse mês de Agosto a ONU impôs sanções e autorizou o uso da força caso o Iraque não saísse até 15 de Janeiro de 1991. As forças militares de Saddam Hussein fizeram reféns ocidentais (4 de Agosto) e o governo iraquiano declarou o Koweit como a 19.ª província do Iraque (8-28 de Agosto).

O mundo ficou em suspenso, pois foi confrontado com uma realidade que a maior parte dos habitantes do Hemisfério Ocidental apenas conhecia do cinema. 

Durante os primeiros meses, bebia-se avidamente toda e qualquer notícia que ia chegando. Havia medo no ar e o futuro era a incerteza. Mas com o passar do tempo e porque era longe e porque o destino dos reféns e as imagens dos reféns e dos poços de petróleo a arder se  tornaram triviais, foi (como ainda agora é e acontece todos os dias) caindo no esquecimento da informação que se quer aparatosa e chocante e que num ápice se torna banal e aborrecida.  Até Janeiro.

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Na noite de 17 de Janeiro de 1991 fomos ao cinema. Fomos ver, se não estou em erro, O Padrinho III. Estava frio e fomos directos para casa. Mais um chá quente, mais um livro, mais uma olhada à televisão. E José Rodrigues dos Santos, durante o programa 24 horas, dá a notícia do bombardeamento de Bagdade, pondo no ar a reportagem da CNN: "O céu de Bagdad iluminou-se." Esta frase pronunciada em directo na CNN pelo jornalista Peter Arnett ficou para a História. Tinha começado a Operação Tempestade do Deserto, que trouxe uma nova visão sobre a guerra: em directo e a cores.

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(© ATTA KENARE/AFP via Getty Images)

Ao dia de hoje, sem livro nem chá quente, vou seguindo mais uma emissão televisiva sobre um recente e mais aceso conflito, e constato que continuamos a ver a guerra em directo e a cores. Um governo totalitário e criminoso pretende derrubar outro governo totalitário e criminoso, para salvar o povo de si próprio e da opressão dos teocratas que governam o país e que vêm infligindo tortura e morte sem qualquer respeito pelo mais básico dos direitos humanos. 

A nós os indecisos decisores passivos, resta-nos cogitar sobre um futuro cada vez mais nublado, mesmo até para quem a esperança de um mundo em paz e harmonia não morre, mas silicia-se seguramente nos devaneios  dos pseudo-Calígulas desta era de loucura.

Sensações

Maria Dulce Fernandes, 19.02.26

- Está quieta com a perna!

- Que perna?

- A tua perna! Estás a abanar o sofá.

- Eu não estou a abanar a perna!

- Está bem. Pronto. Não se fala mais nisso. Tenho o telemóvel a tocar. Estou?

- Hã!?

- Senti o quê? Qual tremor de terra? A sério? Olha, afinal não foi a tua sobrinha!!

- Dois! 

Matéria Escura

Maria Dulce Fernandes, 09.01.26

Em termos civilizacionais, existe o ser humano e o não ser humano.

Nos últimos tempos, o segundo tem-se exibido ao mundo com exponencial frequência.

Parafraseando uma conhecida "celebridade", estar vivo é o contrário de estar morto. Supostamente é assim, mas estou em crer que a diferença se tem vindo a esbater,  desmesuradamente diluída em execráveis sistemas de governação. 

Nomofobia, ma non troppo

Maria Dulce Fernandes, 03.01.26

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Ontem decidimos ir ver as luzes. Com bilhetes no bolso para o Concerto de Ano Novo com a Strauss Festival Orchestra & Ballet no Coliseu de Lisboa, saímos mais cedo para fazermos a pé o percurso desde a Praça do Comércio, até à sala de espectáculos. A chuva não proporcionou um passeio tranquilo e foi necessário estugar o passo para não passarmos de secos a molhados.

Acabámos por chegar ao Coliseu com mais de uma hora de antecedência... deu para matar saudades e relembrar os dias de Circo de Natal, patrocinado pela Guerin, com direito a presente, que era entregue a todas as crianças pelo filho do dono, comer nougat ou amendoins e beber um pirolito com bola, ansiosos e expectantes de todos os deslumbres dos chiffons e lantejoulas, e gargalhadas das tropelias da palhaçada.

Fomos seguramente os primeiros a entrar na sala, que rapidamente encheu e que, apesar de o concerto ser classificado para maiores de três anos, a assistência era na sua grande maioria malta a rondar a minha idade ou mais velhos.

Uns minutos depois da hora marcada, deram inicio ao concerto. Gostámos bastante das músicas (de vários autores) do canto e dos bailados. É sem dúvida para repetir.

Não gostámos dos velhinhos nomofóbicos que passaram as duas horas do espectáculo com o telemóvel ligado. A luz incomodava. O clique clique do teclar também. Das conversas em sotto voce, nem se fala. 

Belo exemplo de cidadania e de lição para a posteridade. 

Feliz Ano Novo

Maria Dulce Fernandes, 28.12.25

O ano de 2025 está a terminar. Este ano começou com a força de um tornado e deixámo-nos rodopiar com ele alegremente, até se transformar num grau cinco, o destruidor.

Como da destruição costuma nascer aquela força anímica que ajuda ao combate e leva à reconstrução, foi um não parar de emoções enoveladas e contraditórias, mas quase sempre animadas e positivas. Foi cansativo, pôs-nos à prova e tivemos de nos superar vezes sem conta.

O nosso país e o mundo não ajudaram muito a levantar a moral, mas é preciso não desistir, estar presente e poder e saber dizer não sempre que se impõe uma decisão importante. Por vezes não é o bastante mas é algo incontornável e, como tudo na vida, desistir não pode ser opção. 

Aqui, no Delito, estivemos todos bem. Sempre irreverentes, sempre contraditórios, sempre positivos e a remar a favor e contra marés e marinheiros que escrevem a sua opinião sem mordaça.

É o meu voto para 2026

Que assim continuemos, juntos nesta família de letras e opiniões, disfuncional mas presente e sempre opinativa. Deixo para todos, sem excepção, os meus votos de

Feliz Ano Novo

Feliz Natal Delito

Maria Dulce Fernandes, 15.12.25

 

Voto de Natal
Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida…
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas mãos nos meus dedos tão frios?
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

 

David Mourão-Ferreira, em ‘Cancioneiro de Natal’

Pensamento da semana

Maria Dulce Fernandes, 14.12.25

Nunca se sabe de onde poderá surgir a opressão. O mundo está de pantanas e entre opressores, tiranos e ditadores, que vá o diabo e escolha. 

A verdade é que todos vivemos debaixo do jugo do maior de todos os ditadores: a saudade. Não passa um dia em que não se manifeste, nos massacre e nos faça sofrer. Como combater um adversário poderoso que não se vê nem se sabe explicar? Contender a saudade é impossível. Acarreta consigo uma tortuosidade tão doída a que nem os poetas conseguem pôr palavras.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

 

Vergonha alheia

Maria Dulce Fernandes, 12.12.25

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(Foto Público.pt)

Durante grande parte da tarde de ontem, enquanto aguardava no hospital, cujos serviços, por muito mínimos que fossem, funcionaram na perfeição, estive entretida a ver as manifestações dos grevistas, os discursos, etc., tudo o que ia passando na TV sobre o que estava a acontecer no país e porquê. 

Já de regresso a casa, continuámos com os canais sintonizados, e entre uma coisa e outra, fui espreitando a televisão. A manifestação na Assembleia da República continuava não só activa, como também acesa. 

Não sei a partir de que horas começou tudo a descambar, mas as razões que originaram o protesto acabaram diluídas na vergonha do final. Porque foi vergonhoso. E degradante. E triste.

A memória dos portugueses é estranha, e não será de admirar que o que advenha deste protesto no futuro seja a vergonha alheia que se sentiu com a transmissão em directo das últimas horas da manifestação em frente à Assembleia da República. 

Espíritos de outros Dezembros

Maria Dulce Fernandes, 02.12.25

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O pensamento é inevitável.  Mesmo quem pensa mal, pensa sempre. É o que define a nossa existência como seres pensantes e, dizem, o que nos separa dos outros animais.

“Não quero pensar nisso", dizemos, como se não pensar fosse uma decisão que se toma e pronto. Não é fácil, não pensar. Requer uma série de mecanismos, de artimanhas de resultado duvidoso, que levem a mente a divagar por becos e ruelas longe da praça principal. Nem sempre funciona, mas enquanto se tenta, estamos embrenhados na intenção.

Este ano entrou louco, correu assustador e chegou à recta final com aquela calma de quem venceu uma guerra com as mãos vazias. Mas somos gratos por cada dia em que cada pequeno passo contribuiu para esta primeira grande vitória.

Dezembro entrou e já começa a parecer-se bastante com o Natal. Há muitos anos que as cadeiras se vêm tirando de volta da mesa nas comemorações familiares, para não marcarem os lugares vazios onde ninguém se quer sentar. Já fomos muitos.

É inevitável construir uma linha temporal que nos remete à infância, ao primeiro Natal, ao bulício atarefado da cozinha, aos sorrisos dos convivas, ao calor da ternura. Ao amor. Tanta gente, tanta alegria.

A alegria continua nos sorrisos das nossas crianças, o calor, a ternura, o amor não se perderam nem se diluíram no passar dos anos. Apenas no nosso coração, por mais transbordante que esteja, dói a falta de todos aqueles lugares por preencher. Embora o seu espírito viva luzente nas nossas memórias, a saudade é sempre pungente e cresce doida a cada ano que passa.

O sangue oculto

Maria Dulce Fernandes, 25.11.25

Diz-se que o sangue fala mais alto.

O meu nunca falou realmente comigo, limitou-se sempre a circular e a exsudar quando o cérebro e as hormonas a isso o obrigavam.
Diz-se que tudo é uma questão de sangue.
O meu é um banalíssimo ORh+, nem sequer o  factor Rhesus faz dele uma estrela, nunca será elevado à categoria de raridade nem condecorado por salvar vidas.
Diz-se que o sangue lava a honra.
Uma honra suja será sempre uma desonra aos olhos dos homens, por mais que se tente limpar e as nódoas de sangue não iriam branquear em nada qualquer imagem de honra perdida...
Diz-se que sonhar com sangue é desgosto.
Nunca sonhei com sangue em quantidade para o poder culpar das lágrimas que já chorei.
Diz-se "Sangue do meu sangue".
Ninguém tem o meu sangue! O meu sangue é só meu, vem fechado numa embalagem própria, inócua e inviolável, corre-me nas veias, alimenta o meu corpo, dá-lhe a cor da vida.
 
É silencioso, para um imparável e arquejante corredor de fundo, sensaborão, para quem dá sabor à vida, inodoro, para quem o odor enlouquece os homens e invisível, para quem cria lagos imensos de morte.

Vezes há que gela, outras que ferve, outras ainda em que exulta, faz-me vibrar e corre que nem doido, no dédalo da imaginação que irriga constantemente, incansável e diligente.
 
Há quem tenha sangue azul; o meu pai dizia-nos que sim, que nascemos com sangue azul e o Tejo aos pés, já ali em baixo.
Deve ser por isso que quando quis dar sangue, participar e integrar-me como boa pessoa e cidadã que sou, me informaram que não, que não o podia fazer.  
Não faz mal, fica meu e só meu e de vez em quando mimo-o com chocolates e outras coisas boas, porque afinal padecemos os dois do mesmo sofrimento: estamos ambos encerrados nesta velha carcaça, sem poder sair.
 
(Republicação)

Contando o tempo - Memórias

Maria Dulce Fernandes, 23.11.25

Atravessar a adolescência na década de 70 foi uma corrida, um susto, um espanto, um pavor e uma das mais belas e loucas recordações da minha vida.

Foi como atravessar um deserto de intolerância, repressão e medo, e desembocar num oásis luxuriante pleno de cor, ritmo, palavras soltas e êxtase desmedido. 

Abraçar a liberdade sem limites nem imposições, embebedar-se nela, mergulhar de cabeça até perder o pé... foi a época de todas as loucuras, de todos os excessos e de todos os desencantos.

 

Gratas são as recordações de ver pela primeira vez um concerto ao vivo: Os Genesis, no Dramático de Cascais, a arte cénica do Peter Gabriel, os back vocals do Phil Collins, tão colocados, colados, indistintos, mágicos, como todos aqueles minutos que terminaram cedo demais, no meio de uma multidão ululante que não conhecia bem "The Lamb Lies Down on Broadway", mas a quem a música falava mundos de entusiasmo e vocalizava em unissonãncia tudo que fazia sentido na vida de quem era jovem.

Gratas são as minhas recordações politico-partidárias, que depois dos percalços do PREC abracei com ímpeto voraz, como se não houvesse amanhã. Como naquele sonho juvenil em que somos sempre o herói no seu alazão de pau, eu fiel às minhas convicções, quando as palavras se envolviam, revolviam e por fim pisavam e feriam, não desejava nada mais do que abarcar uma boa escaramuça, dar o corpo ao manifesto, arranhar, morder, rasgar um par de camisas, pôr gelo num olho azul... valia tudo para fazer valer um credo, um valor, um dogma, uma religião.

A memória mais acalentada, a de encontrar a alma gémea, experimentar pecados loucos, sentir os sentidos a revolver as entranhas enquanto o coração martelava nos ouvidos e saía pela boca em suspiros de perdição. A pele em pelo ansiava pela frescura da lama onde deslizava como veio ao mundo, aquela felicidade que brotava no cabelo em flor daquele Woodstock passado, que só então pudemos visionar.

Depois retornaram os que viviam além-mar. Trouxeram outra alegria, outros ritmos, despiram convenções, ofereceram ilusões em forma de verde, que rapidamente inundaram as ideias e os ideais. Depois foi o princípio do fim do conto dos heróis e ninguém viveu feliz para sempre.

 
Mas foi bom enquanto durou.
 
Às portas de um novo ano que se prevê radical em  promessas de vida, registo esta confissão de lembranças felizes, para que o meu futuro possa um dia saber sobre o meu passado e sorria com a lembrança de que os velhinhos já foram, numa época distante, aquele pequeno ser desarticulado que cabe na cova de um braço e que revela em nós a maior emoção que algum dia poderemos sentir.
 
(Republicação)

Dormir... talvez sonhar

Maria Dulce Fernandes, 16.11.25

O sono, esse tratante descontrolado que controla o bem estar psíquico de todos nós, ultimamente não quer nada comigo. O Morfeu pisca-me o olho, mas rapidamente bate em retirada e passadas duas ou três horas, acabou a dormida.

Não é nada que não fizesse parte das minhas rotinas laborais, dormir quatro ou cinco horas de quando em vez, mas agora tornou-se numa contumaz e pérfida insónia, que invade o meu descanso, me assalta e rouba todo o sono que traga comigo.

Ir ao médico… uma urgência está fora de questão, porque não tenho queixas de insónia no processo, não me conhecem, não medicam a longo prazo. A médica de família (um luxo relativamente recente) assiste-nos bianualmente, e como tal, nunca me queixei desta insónia, que eu atribuo talvez a uma fase de TEPT mais pertinaz. De qualquer modo, a privação do sono afecta muito mais do que poderia imaginar e, depois de familiares e amigos azucrinarem a pouca sanidade que ainda me resta, marquei uma Consulta do Sono.

Experimentar não custa e para alguma coisa serve o seguro de saúde, grande rombo no orçamento mensal que, não fora o rápido e desenfreado avançar da idade, já estaria há muito na reciclagem dos produtos tóxicos.

Recebi a resposta que aqui publico, de um conhecido centro hospitalar privado.

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Todos sabemos que a saúde está pela hora da morte, que as listas de espera são infinitas para os utentes da saúde pública e que no privado não é melhor, porque há também listas de espera, algumas com mais de seis meses, para exames como cintigrafias ou ressonâncias magnéticas  por exemplo. É quase como fazer compras nos supermercados: sentamo-nos com paciência com quatro ou cinco sites abertos, e vai-se acrescentando ao carrinho os artigos de que necessitamos, conforme estiverem em promoção. No caso dos hospitais privados, vamos marcando por datas e proximidade, activando  a mais próxima e cancelando as demais.

Este email é triste e anedótico. Mas é assim, é a saúde que temos.

Deixar arrastar a situação é abrir a porta a alguma depressão insidiosa que por aqui ande à espreita. Vou tentando tudo o que tenha consulta do sono e que não seja no Porto ou em Viseu… e daí não sei. Pode ser que uma mudança de ares me fizesse bem.

História

Maria Dulce Fernandes, 14.11.25

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Todos crescemos com histórias de deuses, demónios e anjos, de terras de oiro, fontes de juventude, animais monstruosos e homens capazes de feitos de tão grande heroísmo que os elevaram muito acima do comum dos mortais.

Quem não se lembra do panteão de deuses imortais e semideuses valorosos que decoram as raízes étnicas de todos os credos e culturas?

Quem nunca ouviu falar no heroísmo e tenacidade da padeira de Aljubarrota, de Rómulo e Remo, de Robin Hood, Wilhelm Tell, Paul Bunyan ou  Hans Brinker?

São lendas e mitos que fazem parte da história, porque afinal a história trata de compilar, avaliar e verificar todo o tipo de informação transcorrida desde que o conhecimento existe. Existe história em tudo, e tudo e todos fazemos parte da história com maior ou menor grau de relevância.

Há a história que nos contam os antigos, que a ouviram de outros que a sabiam porque alguém mais velho lhes contou; é a tradição oral de quem conta um conto, tão enraizada no folclore dos homens desde que existem em grupos nómadas ou sedentários.

Todas as histórias juntas perfazem a história que estudamos nos livros das escolas, colégios e universidades. A história de alguns, de muitos, de todos e a sua influência no Mundo para ter chegado ao dia de hoje nos moldes em que o conhecemos.

Por fim, há a história viva. São aqueles factos ou pessoas que não passaram à história, só porque fizeram parte dela. Não há muita gente que tenha sobrevivido à sua história. Pessoas maiores são diferentes e normalmente as diferenças assustam e o resultado é eliminá-las  antes que  aniquilem a nossa forma de vida. Aconteceu há mais de 2000 anos na Galileia.

O tempo é implacável e o mundo vai perdendo todos os dias pedaços vivos da sua história, da  história dos homens, aqueles que viveram e fizeram História.

Pena que muitas pessoas que deixaram marca no tempo, enquanto são vivas, caiam no esquecimento com tanta facilidade e só se volte a falar nelas quando morrem. Como só a morte lhes pudesse dar a devida grandeza.

Ego-Sumo

Maria Dulce Fernandes, 08.11.25

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Não sou old fashioned no sentido literal da expressão, muito pelo contrário. Se a dissecarmos em "old" e "fashioned", obteremos algo ou alguém que não é novo, mas está adaptado à moda ou aos modernismos.

É normalíssimo seguir as tendências. Será muito mais fácil viver em sociedade se seguirmos os padrões pelos quais a mesma sociedade se rege em todos os aspectos do quotidiano. Sempre ebulindo em transformações e renovando-se a cada milésimo de segundo, vai inventando, reinventando e muitas vezes subvertendo as regras. Pois é verdade, sim, mas muita dessa facilidade não tem substrato e não requer grandes contemplações.
Há mais de uma década, a palavra do ano foi "selfie"...  selfie é um auto-retrato digital que se pretende  imaginativo, já que a sua publicação no éter das tendências busca  reconhecimento a nível planetário. 
Se o grémio dos humanos já pecava pelo egocentrismo, basta atentar quantas vezes cada um de nós pronuncia diariamente o pronome EU, agora para além do eu dialogado, majoramo-nos com o eu gráfico, alcançando o eu ao quadrado, um perfeito estado de graça para quem nunca se cansa de si próprio e se adora acima de todas as coisas. Mais importante do que ser, é aparecer. 
Eu canso-me tantas vezes de ser eu... Engraçado, até um lamento, um simples desabafo, tem uma carga de ego tão grande. Terá a maioria dos cultivadores de egos a noção de que os ditos são como como a fruta: lindos, coloridos e apetecíveis, mas que depois de espremidos nem pinga de sumo têm? 
 
(Republicação adaptada)

Já estava Escrito

Maria Dulce Fernandes, 07.11.25

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Quando eu era nova, sempre que havia uma casa para alugar ou prestes a ficar vazia (sim, que essa moda de casa própria é coisa relativamente recente, aí para quase 50 anos, vá) o senhorio ou dono do imóvel como preferirem, punha escritos nas janelas. Os ditos escritos eram somente quadradinhos de papel branco colados nos vidros que, contrastantes e chamativos, indicavam a vacância do local. 

Era um método simples e eficaz que publicitava por assim dizer, a iminente disponibilidade de um espaço, sem anúncios no jornal, mediadoras imobiliárias, Internet, redes sociais ou apps. E a mensagem chegava sempre direitinha aos curiosos e aos interessados.
Estranhamente, na era de todas as tecnologias, os escritos voltaram a estar na moda. Tenho-os visto por aí, embora não garanta que a mensagem seja idêntica.
Como há que reanimar e revitalizar o arrendamento urbano, os quadradinhos de papel branco são uma maneira simpática de o conseguir. Como método de informação visual e empírico que revive sem exclusões boas tradições centenárias, não poderia estar mais trendy nos dias de hoje.
 
 
Mas dá que pensar...
A facilidade com que percebemos a ideia de espaço vazio pelo relance en passant de um quadrado de papel branco exposto em lugar visível, poderá remeter-nos para a possibilidade de não estar muito longe o dia em que nos cruzaremos nas ruas das nossas aldeias, vilas e cidades com indivíduos ostententando post-its brancos colados na testa. Muitos já os usam, mas ainda não se aperceberam do facto.
 
Resta a esperança que possa haver ainda maneira de revitalizar esse espaço devoluto.
 
(Republicação actualizada) 

Venturoso

Maria Dulce Fernandes, 06.11.25

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Estando eu absorta na visualização da “entrevista” do chegano na CNN, não estava a prestar minimamente atenção às palavras da minha neta, que tanto quanto vim depois a constatar, entabulara conversação havia algum tempo e, em não obtendo qualquer resposta, ipirangueou alto e bom som: "Mas estás a ouvir ou não, avó?” O quê? Disseste o quê? ”Fartei-me de falar várias coisas e tu nem ouviste.” És capaz de ter razão. Diz lá então… “Estava eu a dizer que não percebo a tua azia com Ventura, porque ventura é uma coisa boa, até tivemos um rei que foi chamado Venturoso, por ter alcançado grandes feitos."

É uma espertalhona, a minha neta, mas tem ainda muito caminho para andar para bater em trocadilhos uma “trocadilheira” diplomada. “É verdade que ventura é uma palavra positiva e de bons augúrios, mas neste caso particular em que Ventura é apelido, não se deve aplicar, por falta de fundamento verídico, porque tanto quanto sei, não se refere a uma pessoa venturosa. É uma espécie de paradoxo. Sabes o que é paradoxo?" ”Não, acho que não…" “É uma afirmação que significa algo e também o seu contrário.” Como assim? “Por exemplo dizer que uma piada é séria, é um paradoxo… deu para perceber?” "Como quando dizes que menos é mais?" "Exactamente!”

“Este Ventura, de ventura só tem apelido, neta. Não vale o sal que come. É dono de uma política desventurada, de um discurso viciado e de uma visão obtusa. Não é flor que se cheire. Não tem mesmo nada de D. Manuel I, certo?" "Não sei. Tenho de me informar melhor, mas és capaz de ter razão”.

"Faz isso. Democracia é isso mesmo, cada um deve ser livre de pensar pela sua própria cabeça, opinar e até mesmo  contrariar as mais sensatas ideias avoengas." ”Podes explicar-me o que é democracia…" Posso tentar, mas hoje não. Palpita-me que tenho de me preparar bem melhor.

Sete meses a Balões

Maria Dulce Fernandes, 28.10.25

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Este Verão, foi o Verão do nosso descontentamento. Difícil, dorido, aflitivo, mas energizado na medida do possível, tentando que a diversidade escondesse a adversidade, porque cair ou deixar cair nunca foi opção.

A partir do final de Julho, a rotina criada em Maio teve de ser repensada e recriada para suprir a falta das actividades das escolas e centros de ATL.

As crianças estavam de férias!

Com tanto o que fazer, foi imperativo fazer tempo para eles.

Pedir o passe da Carris Metropolitana para os miúdos foi uma ideia de truz. Os meus netos, à semelhança de milhares de outras crianças, nunca tinham viajado nos transportes públicos! Coordenando horários com os dias programados no calendário dos pais, começámos por andar de autocarro, seguiu-se o metropolitano, o eléctrico, o comboio e o barco. E repetimos linhas diferentes em dias diferentes. Caminhámos por grande parte de Lisboa. Visitámos o Quake, a exposição de Lego na Cordoaria Nacional, a exposição 3D, o Planetário, o Museu de Marinha, o Pavilhão do Conhecimento onde a exposição da Pixar sobre técnicas de animação fez as delícias da minha neta, fomos a Algés ao Aquário Vasco da Gama e, entre outras passeatas, descemos o Parque Eduardo VII até ao Marquês de Pombal, o que deixou o meu neto Superleão tão feliz, que nem tenho palavras; veio aquele petiz de seis anos, durante todo o caminho de regresso, a cantar que o seu amor é verde e branco…

Como estou um tanto dada a títulos, pensei muitas vezes que seria fabuloso adormecer, e acordar quando Setembro chegasse ao fim. Setembro foi também complicado, sem dias nem horas certas e também sem quaisquer certezas.

Finalmente entrou Outubro e trouxe consigo alguma normalidade. As escolas estavam a funcionar com professores e também greves à vista, a actividade hídrica sénior recomeçou a operar nas piscinas do costume e as respostas vieram finalmente, e eram boas as respostas. Eram muito boas. Podíamos todos finalmente respirar fundo. Podíamos encetar com confiança a nova normalidade que, sendo diferente, trataríamos de a tornar mas o mais igual possível.

Aprendi muito, nestes sete meses. Fiz muita pesquisa, muitos cozinhados com produtos essenciais à imunologia, usei tudo o que tinha vitaminas, proteínas e calorias qb, deixei de lado o açúcar branco refinado, usei e abusei das especiarias que reforçam o sistema imunitário…

Iscas à portuguesa às quintas-feiras… nem me incomodou se não gostavam, passaram a gostar…

O meu marido e eu fomos avós, pais, enfermeiros, cozinheiros, cuidadores, pau para toda a obra… pela parte que me toca, fui principalmente palhaço, agarrando com unhas e dentes essa arte tão nobre que faz arrancar risos e sorrisos quando por dentro a tristeza ameaça inundar os olhos a qualquer momento.

Sinto-me bastante gasta mas muito grata, e ainda há muita estrada para andar. Como tal, já fizemos alguns planos para um divertido jantar de Halloween e uns outros para muitas mais viagens em transportes públicos nas férias do Natal, que estão quase aí à porta, neste ano da nossa Fórmula1, em que era prioridade atravessar a meta com boa classificação e manter sempre a pole position.

Ver a saúde de regresso e a trazer com ela cor e força e contemplar as crianças felizes e interessadas é seguramente a minha poção mágica. 

Assim possa ser.

Felizmente o céu está no mesmo sítio

Maria Dulce Fernandes, 26.10.25

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Finalmente recebemos a visita dos irreverentes invencíveis mais famosos do mundo, por Toutatis!

Como não gostar? 

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Está muito bem conseguido, embora acredite que se perdeu bastante na tradução. 

Mas nada tão terrível que faça com que o céu nos caia na cabeça. 

Adorei sobretudo o preciosismo nos "actores" secundários, que são do melhor que Portugal tem. 😉

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Com a omnipresente Calçada Portuguesa, os Pastéis de Nata e o Vinho do Porto compõe-se o ramalhete do que de melhor representa Portugal no mundo. Também tem intriga política e falsidade, mas é tão normal que se tornou um não-assunto no mundo inteiro.

Boa, leve e alegre leitura, mesmo para quem não é amante de BD.