Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Blogue da semana

por Diogo Noivo, em 27.10.19

A escolha da semana não é uma novidade no DO, mas merece todo o (repetido) destaque. A agenda política internacional é cada vez mais omnipresente, não obstante o esforço de vários nacionalismos em resumir a existência social e política a fronteiras mais ou menos imaginadas. Aliás, dá-se o aparente paradoxo de muitos desses nacionalismos viveram à boleia de interesses globais de grandes potências. Quem queira perceber isto – e muito mais – pode contar com a voz informada, serena mas empenhada, do José Milhazes. O Da Rússia é, pois, o nosso blogue da semana.

Pensamento da Semana

por Diogo Noivo, em 27.10.19

Inventar um passado etéreo, alertar para um presente de degenerescência nacional (identificando o inimigo responsável pela decadência) e ambicionar com fervor um porvir de regeneração da nação e do seu povo. Esta sequência, que a Ciência Política apelidou de "estrutura triática", está presente em todos os nacionalismos radicais com propósitos de mobilização social. Supreende que em 2019 ainda haja quem seja incapaz de a intuir e alinhe em delírios propagandisticos. 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Criar corvos na Catalunha [pub]

por Diogo Noivo, em 23.10.19

Os apelos ao diálogo entre Madrid e Barcelona são extemporâneos. Há um conflito aceso e duro dentro da própria sociedade catalã, e é por aí que deve começar o diálogo. Na sua essência, é um problema de corvos. Explico porquê aqui, no Observador.

Palavra de ordem: Apertar

por Diogo Noivo, em 16.10.19

efe_20191016_072152249.jpg

 

Há pouco menos de um mês o Centre d'Estudis d'Opinió, um instituto de estudos sociais na dependência da Generalitat (Governo autonómico da Catalunha), inquiriu os catalães sobre sentimentos de pertença nacional. Insuspeita de ser uma maquinação españolista, a sondagem ofereceu resultados claros: 41.2% sentem-se tão catalães como espanhóis e 20.1% apenas catalães – dividindo-se os restantes em ‘apenas espanhol’, ‘maioritariamente espanhol’ ou ‘maioritariamente catalão’.

Entre outros méritos, estes resultados demonstram que a violência urbana em curso na Catalunha é sobretudo o reflexo de um conflito entre catalães. Não é Espanha que se está a romper, mas sim a Catalunha.

 

Os tumultos dos últimos dias têm como causa imediata a sentença do Tribunal Supremo que condenou 12 líderes independentistas a penas de prisão que vão de 13 anos a 1 ano e 8 meses. Sobre esta sentença muito há a dizer, mas são dois os pontos essenciais. Primeiro, as condenações eram inescapáveis. No seu conjunto, estes indivíduos violaram deliberadamente a Constituição, violaram deliberadamente o estatuto de autonomia da Catalunha, ignoraram com dolo sentenças de vários tribunais, e ignoraram advertências dos técnicos do próprio parlamento catalão. Para cometer os crimes recorreram a dinheiro público, o que constitui em si mesmo um crime. Em Espanha, como em qualquer Estado de Direito, as condenações eram uma inevitabilidade.

Segundo, a sentença é leve. As penas definidas pelo Tribunal são consideravelmente inferiores às pedidas pela Fiscalía (Ministério Público) e, mais importante, o crime de Rebelião, o mais gravoso de todos, foi descartado. Além do mais, o Tribunal deixou a porta aberta à aplicação do regime penitenciário de tercer grado, que na prática significa que os condenados apenas terão de pernoitar na prisão de segunda-feira a quinta-feira. A decisão sobre a aplicação deste regime não depende das instituições espanholas, mas sim das instituições catalãs que estão na dependência da Generalitat. Sentença mais leve era impossível.

 

Se a sentença é leve, qual a razão da violência nas ruas? São duas. Por um lado, unir uma família desavinda. Desde o alegado referendo de 1 de Outubro de 2017 que os partidos e movimentos independentistas vivem em ambiente de tensão e desconfiança mútuas. Mais grave, perderam influência sobre os seus eleitores, que se sentem manipulados (prometeram-lhes uma independência que, sabemos hoje, os líderes partidários nunca tiveram real capacidade e intenção de cumprir). A sentença do Tribunal Supremo ofereceu aos partidos e movimentos separatistas um expediente ideal para mobilizar e reunir as hostes. Não foi por acaso que Quim Torra, presidente da Generalitat, homem favorável a teses étnicas sobre a nação catalã, disse aos manifestantes que é preciso “apertar”.

Por outro lado, o radicalismo catalão aposta numa repetição do passado. Os dois últimos anos de tensão na Catalunha mostram que o único momento em que o separatismo foi capaz de suscitar simpatias internacionais ocorreu na sequência da intervenção policial destinada a impedir o suposto referendo. A reacção de Espanha pagou dividendos ao nacionalismo radical. Assim, é preciso provocar – e provocar muito – uma nova reacção policial que permita ao nacionalismo catalão remendar os rasgões internos e potenciar a sua causa além-fronteiras. Logo, e mais uma vez, é preciso “apertar”.

Resta saber quem mais sofrerá com tantos apertos.

Nobel da Paz

por Diogo Noivo, em 11.10.19

21579796_PdR4v[1].jpg

 

O prémio Nobel da Paz foi atribuído a Abiy Ahmed Ali, Primeiro-Ministro etíope, um homem que está a tentar abrir a arena política do país que lidera – creio que liderança é, de facto, o termo correcto. Legalizou partidos políticos, libertou jornalistas detidos, deu à Justiça condições para acusar funcionários do Estado envolvidos em práticas de tortura, mitigou as tensões étnicas latentes. Abriu o espaço necessário para que a Etiópia elegesse de forma livre e plural Sahle-Work Zewde, actualmente a única mulher a ocupar uma Chefia de Estado em África. Mais importante, conseguiu um acordo de paz com a Eritreia, algo praticamente impensável até então. 

Está por ver se estas mudanças são estruturais, ou se dependem de Abiy Ahmed Ali. Está também por ver o grau de compromisso do Primeiro-Ministro com as medidas que tem implementado. São, contudo, suficientemente importantes para merecer o reconhecimento dado pelo Nobel. Este ano, o Comité não se deslumbrou com intenções nem com mediatismos. Que para o ano seja igual.

 

ADENDA: Quem tenha interesse em conhecer um pouco da História contemporânea da Etiópia e perceber os problemas que Abiy Ahmed Ali encontrou quando assumiu funções pode encontrar aqui uma espécie de diário de viagem político que fiz há dois anos após percorrer o país.

 

Notas breves sobre a noite eleitoral

por Diogo Noivo, em 07.10.19

1. Ao contrário do que foi dito por António Costa, os portugueses não gostam da geringonça. Os portugueses gostam do PS. Os socialistas reforçaram o seu respaldo eleitoral, mas o Bloco de Esquerda perdeu mais de 57.000 votos e a CDU mais de 115.000 (um desaire colossal). Ver nestes resultados um triunfo da geringonça é um delírio.

Captura de ecrã 2019-10-07, às 10.26.33.png

fonte: SGMAI

 

2. O resultado do PSD é inenarrável. Pior só mesmo o discurso de Rui Rio. O Pedro Correia já aqui disse o essencial sobre o assunto.

 

3. Mais do que um mau resultado, o CDS pode ter iniciado o princípio do fim. A próxima liderança será determinante.

 

4. Dos pequenos partidos que entram o parlamento, o mais votado foi o Chega, ainda que por margem diminuta. É favor abrir os olhos. A culpa não é dos eleitores, frequentemente acusados de incultura quando partidos desta natureza chegam aos parlamentos (aliás, olhando para a votação por grau de escolaridade, o campeão junto daqueles que menos formação têm será o PS). Os eleitores têm sempre razões atendíveis e importa compreendê-las.

 

5. A Tunísia também foi às urnas ontem. Tem cerca de 11 milhões de habitantes e 7 milhões de eleitores. Portugal tem mais ou menos a mesma população e mais de 10 milhões de eleitores. Um destes países tem um Ministério para a modernização administrativa.

Perceber Tancos (II)

por Diogo Noivo, em 03.10.19

21573169_bdfLD[1].jpg

 

A trama não se adensa muito, mas a lista de alucinados que vê no caso de Tancos uma encenação criada para prejudicar a geringonça e o PS não pára de crescer: Vasco Lourenço perpetrou mais um artigo de opinião e Pedro Abrunhosa – isto não se inventa – veio a terreiro afirmar que Tancos apenas serve para salvar a direita.

Naturalmente, sobre os crimes em apreço, sobre as declarações indecorosas de titulares de cargos públicos e sobre o fracasso do aparelho de segurança e defesa do Estado Lourenço e Abrunhosa nada têm a dizer.

 

ADENDA: Porque o absurdo do caso não conhece limites, esta semana soubemos que Azeredo Lopes não fazia ideia do que era um paiol quando assumiu funções de Ministro da Defesa Nacional. Portanto, não será exagerado assumir que, para o ex-Ministro, G3 seria a designação dada a um ponto erógeno.

Perceber Tancos

por Diogo Noivo, em 01.10.19

21570255_V7zPf[1].jpg

 

O caso de Tancos resiste a qualquer esforço taxonómico. Tem um lado ridículo, de ópera bufa, demasiado absurdo para ser verdade. Tem ainda um outro lado, de total ausência de responsabilidade institucional, excessivamente gravoso para que tenha ocorrido num Estado de Direito democrático.

Olhamos para os factos demonstrados e custa a acreditar. Vemos a facilidade com que se entra clandestinamente em instalações militares para roubar armas e explosivos, facto ao qual se junta a pièce de résistance cómica: o material militar foi transportado num carrinho de mão por indivíduos com apodos artísticos como “O Fechaduras”, “O Pisca” e “O Caveirinha”. Nenhuma obra de ficção se atreveria a algo tão patético.

Percebemos também que houve uma operação de encobrimento do crime, o que sugere sofisticação e destreza típicas de um livro de Graham Greene, mas que na verdade foi de um amadorismo confrangedor.

Percebemos ainda que houve um ministro da Defesa mitómano e com sintomas de deslumbramento pelo poder que muito provavelmente deu cobertura activa ao espetáculo de vaudeville.

Percebemos agora que o deputado socialista Tiago Barbosa Ribeiro, um apparatchik que nunca leu Orwell, estava ao corrente da situação. Optou por participar tacitamente no encobrimento, mas não se cobriu de vergonha quando o facto se tornou público: apresenta-se outra vez como candidato à Assembleia da República.

Por fim, estamos à espera de perceber se o Primeiro Ministro foi conivente, ou se simplesmente é possível que um esquema desta dimensão ocorra sem que o chefe do Governo se aperceba. Tanto a hipótese A como a B deveriam ter consequências sérias.

Como se tudo isto não bastasse, há um rol de alucinados, onde pontificam José Sócrates, Vasco Lourenço e uma parte do Partido Socialista, que no meio de tanta falta de decoro – para não falar na montanha de crimes – encontra em Tancos uma urdidura tecida para prejudicar a geringonça e o PS.

Isto não se inventa. 

Atracção pelo abismo [pub]

por Diogo Noivo, em 30.09.19

IMG_20190927_141359.jpg

 

"A tendência europeia tem sido de fragmentação eleitoral. Os partidos tradicionais perdem preponderância, surgem novas forças políticas e os eleitores dispersam-se pela oferta disponível. Espanha não é excepção: Podemos e Ciudadanos irromperam na arena política em 2015 e alteraram profundamente o panorama partidário.

Por isso, é curioso que estas duas forças políticas pareçam interessadas num regresso ao bipartidarismo dominado pelo Partido Popular (PP) e pelo Partido Socialista Obreiro Espanhol (PSOE), que governaram em alternância o país praticamente desde a transição para a democracia.

A aritmética saída das mais recentes eleições legislativas, realizadas a 28 de Abril deste ano, sugeria duas soluções de Governo possíveis. O PSOE de Pedro Sánchez, com mais votos e mandatos, podia aliar-se à esquerda, com o Podemos, ou ao centro-direita, com o Ciudadanos. Mas nestes cinco meses os novos partidos renunciaram, na prática, à hipótese de se tornarem decisivos na formação de um Executivo.

De um lado, sem perceber a correlação de forças, o líder do Podemos, Pablo Iglesias, exigiu do PSOE pastas e influência muito superiores ao seu peso eleitoral. Chegou até a reclamar a vice-presidência do Governo e cinco ministérios, isto após ter reivindicado o controlo dos serviços de informações no período que antecedeu as eleições de Abril. As sondagens mostravam um PSOE sólido e um Podemos em queda, o que levou Iglesias a suavizar as exigências, mas foi tarde. O líder do Podemos apercebeu-se do erro, o que se tornou evidente quando solicitou a intervenção do rei Filipe VI. Suprema ironia: o Iglesias republicano, que em 2015 considerava a monarquia tão ilegítima quanto anacrónica, acabou a requerer do monarca um exercício de funções que não está respaldado pela Constituição de 1978.

Do outro lado, o Ciudadanos foi vítima de si próprio. Radicalizou a campanha para as eleições de Abril pedindo aos eleitores um veto ao PSOE. Para Albert Rivera, presidente do Ciudadanos, a contemporização socialista com o separatismo catalão era imperdoável não só no plano político, mas também no plano ético. Mais do que um adversário, Sánchez era o anti-Cristo. Conhecidos os resultados, que possibilitavam uma maioria absoluta entre PSOE e Ciudadanos, Rivera ficou com pouca margem de recuo. Havia uma saída estreita, a de inverter o discurso argumentando ser menos mau um PSOE apoiado pelo Ciudadanos do que entregar os socialistas nos braços radicais do Podemos e de pequenos partidos nacionalistas catalães e bascos. Porém, Rivera manteve-se firme na intransigência. Quando tomou consciência da impopularidade da sua conduta, ensaiou uma solução de recurso, igualmente tardia.

Em consequência, as lideranças de Podemos e Ciudadanos estão cada vez mais isoladas. Perderam popularidade junto das bases e afastaram-se de muitas personalidades que contribuíram para a fundação de ambos partidos, dando-lhes consistência política e intelectual. Sem surpresa, as sondagens mostram que estão em queda, enquanto PSOE e PP recuperam parte do espaço perdido nos últimos anos. Em suma, os partidos que nasceram para mudar o cenário político acabaram por revelar alguns dos vícios e das insuficiências que se propuseram combater.”

 

Excerto de artigo de opinião publicado na passada sexta-feira no Jornal Económico (texto completo apenas para assinantes).

Inquietações

por Diogo Noivo, em 25.09.19

No Jornal da Noite de ontem, a SIC apresentou a cabeça de lista do Livre em Lisboa como “mulher, afrodescendente e gaga”. São três características inócuas, absolutamente irrelevantes para aferir a experiência e a competência da pessoa para o exercício de funções públicas. Mas este é o novo normal. A política nacional – e não só – parece içar os seus candidatos com base em atributos e especificidades de uma irrelevância olímpica.

Ao reduzirem os candidatos a caricaturas, partidos e comunicação social contribuem para os males da democracia. E, claro, depois andam às aranhas para perscrutar as causas da abstenção e do crescimento eleitoral de retóricas simplistas.

Criar memórias

por Diogo Noivo, em 26.08.19

21539717_1hz45[1].jpg

 

Meia hora de voo num teco-teco e outros 20 minutos em barca de pescador. Uma vez instalado na aldeia, percebo que a electricidade é episódica. O aldeão que me acolheu na sua casa sugere-me que não adoeça: não só é desagradável, como o hospital mais próximo está a quase duas horas de distância. Pela mesma razão, avisa que o melhor é não entrar no mar nem no rio: os tubarões-touro gostarão da companhia, mas o sentimento não será mútuo. Banho só no chuveiro. Pede desculpa por iniciar a conversa com avisos, mas esta parte da América Central é pouco meiga com europeus de cidade - não me quis chamar flor de estufa, foi amável.
Neste pedaço de natureza bruta ninguém quer saber de Trump, de Boris, da Comissão Europeia ou de bichos semelhantes. A única geringonça de interesse é a que permite sacar água doce do poço. O ritmo do dia e os afazeres são ditados pela altura do sol e pelas marés. Tudo o resto são realidades longínquas - ou até completamente ignoradas.
Estive caído do planeta e acho que nunca fui tão feliz.

21539723_inapP[1].jpg

Tags:

Pensamento da Semana

por Diogo Noivo, em 18.08.19

Definição de sindicato inorgânico: sindicato que se encontra fora do perímetro da CGTP e da UGT; a defesa de interesses laborais é o único objectivo, não se submetendo, portanto, a racionais partidários.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

A fonte

por Diogo Noivo, em 09.08.19

É quase enternecedor ver dirigentes do Bloco a zurzir no discurso de ódio e a criticar a violência. Encheria o coração de esperança, não fosse a hipocrisia galopante d@s camarad@s. Sem recuar a passados longínquos, recorde-se que vários dirigentes do partido prestaram vassalagem ideológica a organizações terroristas (como a ETA) e, mais recentemente, olharam com matizes oportunistas para a escalada de violência na Venezuela, país onde um regime de ódio submete a sevícias públicas a própria população. Adoraria conhecer a fonte de descaramento onde esta gente mata a sede.

A via portuguesa [pub]

por Diogo Noivo, em 08.08.19

Captura de ecrã 2019-08-08, às 10.34.40.png

 

Portugal faz as primeiras páginas em Espanha. A “vía portuguesa” – vulgo “geringonça” – é apontada por muitos como a solução ideal para resolver o impasse governativo no país vizinho. No jornal digital The Objective, um periódico espanhol feito por gente notável e desempoeirada que lê muito e bem (e escreve melhor ainda), assino um artigo de opinião onde analiso os limites da via portuguesa como salva-vidas político. O texto pode ser lido aqui.  

Blogue da Semana

por Diogo Noivo, em 04.08.19

O Verão anda tímido, o que impele a tardes no sofá. Há boas sugestões de leitura aqui no DELITO, mas quem queira encontrar séries merecedoras de uma tarde de ócio visite o blogue Quinta Temporada, do El País. Estreias, críticas, notícias, está lá tudo. 

'Postal' Zandinga

por Diogo Noivo, em 25.07.19

21518489_HBr4P.jpeg

 

"Face ao desaire [nas eleições legislativas de 28 de Abril], o Podemos depende do PSOE para ser relevante. Iglesias, que recusou apoiar um governo de Sánchez em 2016 e que sempre viu no PSOE um dos pilares da “casta”, encontra agora nos socialistas a chave para um Executivo “progressista” e de “esquerda”. A anunciada intenção do PSOE em governar sozinho, recorrendo a apoios parlamentares pontuais, não agrada a Iglesias, que tudo fará para entrar no governo – inclusive bloquear soluções."

A Espanha desavinda, Jornal Económico, 3 de Maio de 2019

Retratos de falência

por Diogo Noivo, em 24.07.19

tejo.jpg

 

Longe dos corredores do poder, de algumas tribunas periodísticas, e do 'circuito da mão-fria' – os simpáticos e elegantes eventos onde um copo on the rocks arrefece a mão de quem o segura –, há um país que se move como pode.

Os transportes públicos são, a um só tempo, um espaço de desespero e de privilégio. De desespero para quem os usa, porque os atrasos, as supressões e a degradação do chamado “material circulante” pintam uma paisagem magrebina. Em bem mais de uma década como passageiro da CP nunca assisti a um estado tão calamitoso de serviço prestado. Contudo, e apesar do quadro de miséria, ser passageiro é também um privilégio, uma vez que as redes de transportes públicos são um exclusivo de três ou quatro centros urbanos.

Perante a ineficiência do serviço prestado, os passageiros que dispõem de rendimentos para ter carro próprio têm alternativa. Os restantes submetem-se ao não-há-nada-a-fazer, chegando tarde ao seu local de trabalho, perdendo consultas e vagas para exames médicos, problemas resumidos num longo e penoso etcétera. Os serviços públicos deveriam mitigar as desigualdades, mas, no caso em apreço, servem para as agravar.

Um texto publicado hoje no Observador revela um lado mais dramático do caos instalado: pessoas que perdem o emprego e que são preteridas em entrevistas de trabalho por residirem na margem sul do Tejo. A explicação não reside em preconceito, mas sim no temor dos empregadores a contratar alguém que depende dos barcos da Soflusa para cruzar o rio. A posição dos empregadores é compreensível, mas a penalização sobre os residentes na margem sul tem tanto de inaceitável como de terceiro-mundista.

Os preços do imobiliário na capital empurraram famílias para a periferia, o que tem um custo horário nos movimentos pendulares quotidianos entre casa e local de trabalho. A esse custo acresce agora uma penalização laboral, única e exclusivamente por ineficiência dos serviços de transporte.

Este quadro inenarrável de penalização de quem menos tem, que agrava de sobremaneira a desigualdade social, suscita várias dúvidas. Por exemplo, saber o paradeiro daqueles que no passado recente se especializaram em ‘grandoladas’. Ou perceber o que aconteceu aos arautos do ‘povo’ e dos mais pobres. Ou, ainda, perguntar à oposição – assumindo que existe – o que tem a dizer sobre o assunto. Suspeito que são perguntas sem resposta.

O discurso do 'nós vs. eles', do 'povo vs. elites', é perigoso e inútil. A melhor forma de o combater é garantir que não tem adesão à realidade diária de quem vota.

A esquerda não desapareceu

por Diogo Noivo, em 17.07.19

Captura de ecrã 2019-07-17, às 13.09.56.png

 

Num ensaio muitíssimo recomendável, Félix Ovejero traça a genealogia recente da esquerda espanhola e, por extensão, da europeia. Em síntese, argumenta que as forças políticas progresistas evoluíram do primado da raison iluminista para o menu do “tudo para todos”. Pelo caminho, abraçaram lógicas identitárias, de segregação das sociedades em tribos, incompatíveis com a razão e com a emancipação dos povos. Por outras palavras, a esquerda ilustrada negou-se a si própria. Note-se que esta tese saiu da pena de alguém que se situa convictamente no lado esquerdo do espectro político.

Ovejero e outras personalidades da esquerda espanhola, como o filósofo Fernando Savater, o escritor Fernando Aramburo e o político Teo Uriarte (membro fundador da ETA, que há muito abandonou a organização), firmam hoje uma carta aberta onde revelam que, embora tímida e em extinção, a esquerda democrática e liberal não desapareceu. Lê-se no texto que “os nacionalismos identitários e os populismos promovem políticas de divisão e exclusão que visam perverter os nossos fundamentos democráticos. Os melhores valores cívicos comuns de tolerância, respeito e fraternidade estão, portanto, ameaçados”.

Mais importante, e tendo em mente os acordos que o PSOE poderá celebrar em breve com nacionalistas catalães e bascos, os autores da missiva alertam: “A pretensão de chegar a acordos, por acção ou omissão, com populismos e nacionalismos identitários e separatistas – qualquer que seja a escala, nacional ou de comunidade autónoma, como no caso de Navarra – certamente contribuirá para o enfraquecimento dos nossos valores democráticos consagrados na Constituição de 1978. Não se podem ambicionar tais alianças, que contaminam a própria identidade da esquerda e conduzem inevitavelmente à deterioração da vida pública e trazem mais divisão cidadã”.

Entre outros méritos, esta carta demonstra o quão disparatado é enquadrar o “conflito catalão” na clássica dicotomia esquerda-direita. Portanto, revela o quão primária é a afinidade ideológica de muitos dos que por cá se batem pela independência da Catalunha.

O caso catalão cava uma fronteira, mas não a que separa a esquerda da direita. É a que separa a democracia representativa da democracia plebiscitária, a que distingue o conceito de cidadania das políticas identitárias, a que evita a confusão entre o direito ao voto e o respeito por direitos, liberdades e garantias. Era importante que deste lado da fronteira se percebesse isto. Ou, pelo menos, que se perceba que é um pouco imbecil bater-se pela independência da Catalunha envolto numa bandeira de esquerda.

bond-25-lashana-lynch.jpg

 

A capacidade de adaptação é essencial à sobrevivência. Mais do que um truísmo darwinista, trata-se de um princípio intuitivo para qualquer bípede que tenha de fazer pela vida. Devemos, contudo, ponderar as diferenças entre “adaptação” e “invenção”. A primeira acomoda à realidade aquilo que já existe, a segunda cria algo de novo. E o que é novo, por incipiente e frágil, tem maior probabilidade de não sobreviver. Tudo isto vem a propósito da última polémica em torno do espião mais famoso do mundo.

De acordo com uma fonte alegadamente bem informada, na próxima entrega da saga James Bond o código 007 é passado a uma mulher. A actriz escolhida será Lashana Lynch (na foto). Após 24 filmes – na verdade, contando com os não-oficiais, são 26 – e passados 57 anos da exibição do primeiro título da série, Bond troca a testosterona por estrogénio. O rumor despoletou uma arenga feroz. De um lado, os puristas indignam-se, pois Bond em versão feminina matará a essência e a história do personagem. Do outro lado, os hereges exigem que Bond espelhe as agendas e as causas do momento.

Confesso que a cor da pele da actriz me é absolutamente indiferente. Veria com bons olhos a substituição de Daniel Craig por Idris Elba, um actor, de resto, várias vezes apontado como o próximo a estar ao serviço de Sua Majestade. Não é uma cedência minha ao politicamente correcto nem às causas fracturantes, apenas creio que Elba tem três bons argumentos a seu favor: é um excelente actor; é britânico; e permitiria uma evolução do Bond de Daniel Craig sem uma ruptura abrupta com o passado. Bom, e Elba é homem.

Como bem escreve o Francisco José Viegas aqui ao lado, Daniel Craig é o melhor de todos os Bond. A sua substituição será difícil e o adiamento é prova disso – o actor expressou em termos contundentes a pouca vontade de protagonizar o filme agora em produção. Craig encarnou um James Bond celibatário e mulherengo, mordaz e inventivo, isto é, igual a todos os outros. Mas, em simultâneo, mostrou um espião que se engana, que tem dilemas, que sofre, inovações que muito se agradecem numa sociedade que parece viver obcecada com o êxito e com a perfeição. Com Craig houve uma solução de compromisso entre passado e presente, uma adaptação bem-sucedida. Transformar James Bond em mulher será uma invenção, um corte absoluto com o legado de mais de vinte filmes. Porventura uma agente secreta feminista e cáustica que use os homens a seu bel-prazer dê um filme interessante – tenho a certeza que me divertiria – e até uma saga com êxito, mas não será um Bond.

No texto já citado, o Francisco recupera declarações Phoebe Waller-Bridge, a guionista do próximo filme, que deviam ser óbvias e que denotam uma mudança importante na forma como a franquia cinematográfica retrata o sexo feminino: "Bond é Bond, mas as mulheres também são (felizmente) novas e diferentes daquilo que aparecia nos ecrãs nos anos 70 ou 80". Waller-Bridge tem fama de feminista desenfreada e será dela a intenção de atribuir o código 007 a uma mulher, um rumor que não bate certo com as declarações anteriores. Esperemos que impere o bom-senso e que se fuja daquilo que o Alexandre Guerra justamente apelidou de idiotice. É James, não Jane.

Ser saloio

por Diogo Noivo, em 08.07.19

Em miúdo sempre me fez confusão ouvir o meu pai dizer que era saloio. Ainda para mais porque o dizia com algum orgulho. Referia-se, percebi anos mais tarde, ao facto de ser natural de Santa Iria da Azóia. Recordei o significado benigno da palavra a propósito de um texto que Ferreira Fernandes publicou hoje no Diário de Notícias.

Comecemos pelo princípio. A historiadora Maria de Fátima Bonifácio publicou um artigo de opinião com laivos de racismo no jornal Público este fim-de-semana. Igualmente grave, pelo menos na óptica de um espaço de opinião, escreveu um texto cujos argumentos são francamente débeis e desadequados para sustentar uma opinião perfeitamente atendível – a saber, a oposição à criação de quotas para minorias étnicas. Não gostei do texto. Não o subscrevo.

Hoje, no Diário de Notícias, Ferreira Fernandes enfatiza o racismo do texto de Bonifácio. Mais, Ferreira Fernandes recorre ao seu percurso de vida para evidenciar a fragilidade dos argumentos da historiadora. Defende, contudo, o jornal onde a opinião foi publicada, lembrando os leitores que sem o Público seríamos “uns saloios”. Avocando a minha costela saloia, é aqui que a porca torce o rabo.

Não me custa nada admitir que a leitura do Público foi parte importante dos meus anos formativos. Acontece, porém, que o Público dos meus tempos de faculdade desapareceu. A secção de Internacional forte, bem informada e bem escrita mirrou, desinformou-se e é actualmente quase um pro forma nas páginas do jornal. As ‘causas’ e o cosmopolitismo do Público, que sempre apreciei, sustinham-se em argumentos, mas hoje sustêm-se em militância. São opções legítimas, mas é um jornal diferente, mais saloio.

Porventura a maior prova dessa diferença é o editorial assinado por Manuel Carvalho. Além de demonstrar arrependimento pela publicação do artigo de Maria de Fátima Bonifácio, Carvalho afirma que “as reacções e episódios associados a esta polémica obrigam-nos a reforçar os critérios de exigência e selectividade”. E aqui reside o verdadeiro problema. Os arrependimentos são legítimos – que atire a primeira pedra quem não os tem –, mas subordinar o rumo do jornal a “reacções” e “episódios” não se coaduna com um periódico que pretende converter saloios em gente informada. É navegação de cabotagem.

Gosto de Manuel Carvalho e ainda mais de Ferreira Fernandes. E de Maria de Fátima Bonifácio também. Leio-os sempre, mesmo quando discordo do que defendem – o que acontece com alguma frequência. Jamais em circunstância alguma, mesmo perante textos escabrosos e tontos, apoiarei qualquer tentativa de censura, sobretudo se fundada em “reacções” e em “episódios”. Penso desta forma por várias razões, entre as quais ter lido o Público nos meus anos de faculdade. Mas esse Público desapareceu e esta polémica com Maria de Fátima Bonifácio é prova disso. O meu pai é saloio, eu tenho uma costela saloia, não nos livramos disso.  O Público é saloio por opção.

 

ADENDA: muito recomendável a leitura do ‘postal’ do José Pimentel Teixeira aqui, no DELITO, sobre o mesmo assunto.


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D