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 Última edição da revista Beituki, páginas 10 e 11, com conselhos matrimoniais

 

 

Sempre preocupada com o bem-estar do lar, a revista feminina Beituki ("A Tua Casa"), editada pela al-Qaeda, sugere às mulheres 17 maneiras de evitar o divórcio. É díficil escolher dois exemplos no meio de tantas pérolas, mas optei por estes:   

 

- Não invejar as restantes esposas;

- Se não engravidar por culpa do marido, aceite a situação e console-o.

 

Sim, há secção de correio sentimental. E não, não é piada.

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A mochila etíope (IV)

por Diogo Noivo, em 11.09.18


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 Fotografia minha

Pagodes etíopes

 

A estação de autocarros de Bahar Dar, uma pequena cidade localizada no noroeste etíope, é um caso esplendoroso de improviso organizado. Um recinto a céu aberto com piso de terra batida, murado por paredes variadas – secções em tijolo, secções em chapa de zinco, secções em falta. Lá dentro, nada estava sinalizado. Após transpor os desafios impostos pela barreira linguística e pelos fura-vidas que vivem da inexperiência de viajantes incautos, avistei a carrinha com destino a Gondar. São cerca de 170 km em direcção a Norte. A furgoneta tinha capacidade para 20 pessoas, mas naquele dia viajámos 32. Entre o excesso de passageiros e o excesso de bagagem, foram três horas e meia sem espaço para mexer um músculo.

 

Ao meu lado, no último banco, viajava um técnico de saúde etíope com 50 e muitos anos. “Em amárico, o meu nome significa Paciência”. Nome apropriado, pois encarava o espaço exíguo com uma temperança invulgar. Trabalhava como epidemiologista em Bahar Dar numa clínica custeada com fundos internacionais. Combatia doenças como a tuberculose e a SIDA. “Mais do que trabalho médico, é trabalho educativo”. Fora aceite num curso de formação em Israel e andava à procura de um mecenas que o ajudasse com as despesas de deslocação.

 

A conversa começou virada a Oriente. “Tudo aqui é chinês. Das pilhas aos chinelos, até aos novos meios de transporte. Bom, os novos e os velhos. Esta carripana, batida e cansada de velha, veio da China”.  De facto, as advertências de segurança coladas nas janelas estavam escritas em mandarim.

 

As relações económicas entre a República Popular da China e África - investimento, empréstimos, comércio e apoio ao desenvolvimento - aumentaram de forma muito substancial nos últimos 15 anos. E a tendência parece manter-se. No primeiro trimestre de 2017, as relações comerciais sino-africanas cresceram 16,8%, atingindo os 38,8 mil milhões de dólares. O investimento directo aumentou 64%, e a China anunciou o investimento de 60 mil milhões de dólares em projectos de apoio ao desenvolvimento.

 

Este crescimento tem merecido a atenção de analistas de diferentes áreas. Sintetizando bastante, o debate orbita em torno a duas grandes teses. A primeira defende que Pequim disponibiliza capital e meios a troco da exploração dos recursos naturais existentes em África, que usa para o desenvolvimento interno da China. Tratar-se-á, portanto, de uma relação com propósitos essencialmente económicos. A segunda tese vê na aposta chinesa em África uma estratégia política de médio-longo prazo na qual a economia desempenha um papel meramente instrumental. Ao disponibilizar financiamento e ao construir infraestruturas, Pequim pretende criar dependência nos países africanos, em parte através do aumento das dívidas públicas, uma relação que a China explorará politicamente.

 

O caso da Etiópia parece validar esta última tese. É a que mais convence Paciência. “Ao contrário do nosso vizinho Sudão, rico em petróleo, a Etiópia não dispõe de abundantes recursos energéticos. Mas Adis Abeba obteve da China mais do dobro dos empréstimos recebidos por Cartum”. De acordo com o Financial Times, a Etiópia é o sexto país africano que mais investimento directo recebeu de Pequim entre 2003 e 2017, ficando à frente de  países como Angola, o Níger e Marrocos. No que respeita a empréstimos chineses entre 2000 e 2015, a Etiópia ficou no segundo lugar do ranking africano.

 

O que a Etiópia não tem em recursos minerais e em hidrocarbonetos tem em relevância estratégica. É um referencial de estabilidade no Corno de África (mais por demérito dos vizinhos do que por mérito próprio). As Forças Armadas etíopes são essenciais no combate ao radicalismo islamista na região, em particular ao grupo terrorista somali al-Shabab, cuja violência ter-se-á estendido ao Norte de Moçambique, e que tem grande impacto no Golfo de Áden, um ponto nevrálgico para o comércio marítimo internacional. A Etiópia é também indispensável para a estabilização do Sudão, onde têm presença policial e militar tanto no quadro bilateral como no âmbito das Nações Unidas (trata-se, aliás, do país que mais contribui com pessoal para esta missão da ONU).

 

O meu companheiro de viagem salientou outro aspecto, pouco referido nas análises políticas. “80% do caudal no Nilo vem da Etiópia, o que cria relações tão estreitas como tensas com o Egipto.” Recorde-se que o Cairo é uma capital essencial nos arranjos de poder no Médio Oriente.

 

Por tudo isto, a Etiópia é uma peça estratégica do troço africano da Nova Rota da Seda, um projecto anunciado pelo Presidente chinês Xi Jinping em 2013, que unirá a China à Europa por via terrestre e marítima, passando por África, Ásia Central e Médio Oriente. O projecto abrange 68 países, mais de 65% da população mundial e cerca de um terço do PIB do planeta. Portanto, não se estranhe que Pequim tenha construído a título gracioso a nova sede da União Africana, instalada em Adis Abeba – onde, por mero acaso, foram encontradas escutas que, diz-se, pertenceriam aos serviços de informações de Pequim.

 

Em infraestruturas ferroviárias, rodoviárias e hídricas, mas também no número de cidadãos chineses que andam pelas ruas, a presença da China é evidente. Aliás, a presença de trabalhadores chineses é tão significativa que o aeroporto da capital etíope (cuja ampliação está a cargo de uma empresa chinesa) entende justificarem-se ecrãs com informações sobre partidas e chegadas apenas em mandarim.

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 Painel de informação de voos no aeroporto de Adis Abeba - fotografia minha

 

Falávamos da China e Paciência perguntou-me pela Coreia do Norte. Disse-lhe que no pouco acesso que tivera a internet naquele dia vira que o regime norte-coreano lançara um míssil sobre o Japão. Saltou no banco. “Isso não vai acabar bem”. Como o assunto eram desgraças, contei-lhe que naquela manhã houvera uma explosão no metro de Londres. Não tinha sido reivindicada ainda, mas tudo apontava para um atentado terrorista. “As pessoas são tontas. E há muito tonto em África e no Médio Oriente. Não percebem que se a Europa não está bem, África também não estará. Quanto mais vocês, europeus, gastam em segurança menos investem nas nossas economias e no apoio ao nosso desenvolvimento. E mais espaço se abre à China. O terrorismo na Europa também mata em África”. Mas, para Paciência, na Europa também há tontos: “E como se isto não bastasse, vocês ainda inventam problemas como o Brexit. Vamos perder todos”.

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Blogue da semana

por Diogo Noivo, em 08.09.18

Curioso, culto, original, bem escrito. Muitos furos acima da média. Assim é o Malomil, de António Araújo, o nosso blogue da semana.

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A mochila etíope (III)

por Diogo Noivo, em 04.09.18

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Lalibela, norte da Etiópia - fotografia minha  

O orfanato

 

A estrada de acesso ao portão principal é um atoleiro. Os carros e carroças atascados na lama obrigam a gincana apeada, com o lodo a chegar ao meio da canela. É um cenário comum durante a época de chuvas, período que vai de Junho ao final de Setembro. Dentro do recinto funciona uma clínica pediátrica e um orfanato financiados e geridos por uma ONG europeia.

 

As crianças ali acolhidas têm idade estimada – abandonadas na rua, ninguém sabe ao certo quando nasceram. O membro mais recente da família era uma menina que teria entre um e dois meses de idade, recolhida à beira da estrada. Como referido em posts anteriores, a berma da estrada é o centro da vida social e do comércio nas zonas rurais e, por isso, é lá que as crianças são deixadas para que alguém as encontre. Acontece, porém, que é também à beira da estrada que apodrecem os cadáveres dos animais atropelados – cães, burros, hienas, há de tudo – e que a população sem acesso a saneamento básico faz as suas necessidades. Quando a menina foi encontrada tinha o corpo entregue à sarna.

 

“As infecções de pele e as doenças respiratórias são os problemas mais comuns nas crianças desta região. Há casos extremos. Mas são problemas que os hábitos de higiene, o saneamento básico e o acesso a água potável eliminariam quase por completo”, explica N., médico, chefe de serviço na clínica pediátrica. “Gastam-se fortunas em apoio médico, mas 90% das doenças em pediatria resolver-se-iam com coisas simples”.

 

O problema com maior incidência e gravidade é a malnutrição. Os casos mais frequentes são de malnutrição severa, embora os números oficiais do Estado mostrem uma realidade diferente, onde a malnutrição moderada é a regra e a severa quase marginal.

 

“O Governo falseia os dados por duas razões”, explicou-me N. “Primeiro, porque pretende transmitir ao exterior uma imagem positiva do país, essencial para alcançar suas ambições de Estado dominante na região. Segundo, porque precisa de demonstrar aos patronos internacionais, estatais e não estatais, que os milhares de milhões de dólares que anualmente entram no país para combater a malnutrição infantil estão a ser bem utilizados”.

 

Há uma terceira razão. Na última década, entre 40% e 50% do orçamento do Ministério da Saúde proveio de financiamento exterior, tanto de Estados como de organizações internacionais. Só com este apoio a Etiópia consegue ter um serviço nacional de saúde gratuito de âmbito nacional. Mais do que cumprir uma função do Estado, a saúde pública assume um papel político, pois é usada pelo Governo para mostrar que não existe discriminação étnica e, dessa forma, mitigar pulsões nacionalistas. O sistema nacional de saúde é, até certo ponto, um instrumento para dissuadir a contestação: com este Governo há saúde para todos; com outro não se sabe.

 

A luta contra a malnutrição é difícil. Para que não seja inglória, M., 36 anos, coordenadora da ONG no país, conta-me que as crianças com este diagnóstico, mesmo que acompanhadas pelos pais, ficam internadas na clínica. “O tratamento é feito através da administração de um leite em pó, uma fórmula especial. Podíamos entregar este leite aos pais para que o administrassem às crianças em casa. Mas sempre que o fizemos, os pais, ao chegarem às suas aldeias e verem que há mais crianças subnutridas, partilham o leite entre todos. Conclusão: nenhum dos bebés recebe a dose de que necessita. O leite desaparece (e é um bem caro e difícil de obter aqui) e as crianças continuam subnutridas. Agora ficam internadas até que as medições e o peso indiquem que estão bem.”

 

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 Procura de trabalho, Adis Abeba - fotografia minha

 

O serviço nacional de saúde tem cobertura universal, mas está mal equipado, especialmente nas zonas rurais. As ONG prestam uma atenção médica fundamental e, em alguns casos, são mesmo o único apoio às populações, o que coloca uma pressão enorme sobre a gestão de recursos. “Umas noites atrás tivemos cinco casos graves de crianças com problemas respiratórios. Só havia botijas de oxigénio para quatro. E se usássemos o oxigénio com esses quatro casos, não haveria botijas para a manhã seguinte. Tivemos de fazer escolhas difíceis...apoiámos os três casos mais graves, mantivemos os outros em observação, e arrancámos para Adis Abeba para comprar mais botijas”. Num raio de 160 km, esta é a única organização com botijas de oxigénio.

 

Naquele orfanato, as crianças comem três vezes ao dia, têm água potável e hábitos de higiene, têm uma cama, estudam, têm assistência médica permanente, e estão protegidas da violência – em particular de agressões sexuais, crime com alguma incidência no país. São vidas privilégio quando comparadas com o que sucede fora dos muros da instituição, o que é trágico.

 

As carências alimentares e os demais problemas de saúde pública expõem os limites do milagre económico e suscitam sérias dúvidas sobre a política de desenvolvimento adoptada pelo Governo. Um relatório muito crítico publicado pelo Oakland Institute em 2016 refere que a crise alimentar vivida nesse ano, que deixou 18 milhões de pessoas dependentes de assistência para sobreviver, teve a sua origem, como sempre, em factores ambientais, mas foi potenciada pelo Plano de Desenvolvimento Comunal e pelo Plano Quinquenal de Crescimento e Transformação da Etiópia. Estas estratégias governamentais resultaram no realojamento forçado de 1,5 milhões de pessoas de comunidades pastoris e agro-pastoris, além de dificultarem o acesso das populações a água. As secas são crónicas na Etiópia, mas parte importante dos estudos independentes sugerem que as fomes catastróficas não têm de o ser.

 

O nome dos cooperantes foi omitido a pedido dos próprios. As fotografias que ilustram o texto são, intencionalmente, de regiões distantes da vila onde a ONG está sedeada.

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Indignações

por Diogo Noivo, em 30.08.18

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Rober Bodegas 

 

O humorista galego Rober Bodegas fez uma série de piadas sobre ciganos num programa de televisão e colocou o vídeo no Twitter. A indignação voraz ateou a pira moral. Acusaram-no de discurso de ódio. Foi insultado por todos os “colectivos” possíveis e imaginários. Foi até comparado a Le Pen e a Salvini. Depois vieram as ameaças de morte. Em violenta ebulição nas redes sociais, o caso chegou às primeiras páginas dos jornais. Bodegas pediu desculpa e apagou  o vídeo da rede social. Vozes como a de Dani Acosta, humorista de etnia cigana, que alertavam para o óbvio – uma piada é uma piada –, foram olimpicamente ignoradas.

No El Pais, o escritor Andrés Barba traçou o mapa deste tipo de casos: 1) Comediante faz uma piada sobre um grupo étnico, colectivo, comunidade autónoma ou figura política; 2) Coletivo, grupo étnico ... descontextualiza o comentário e ataca em massa contra o comediante com uma violência que excede em muito a piada que o provocou e que acaba por dar à piada uma difusão que nunca teria tido de outro modo; 3) Um certo grupo de intelectuais argumenta que, embora seja verdade que a piada é de um extraordinário mau gosto, não é menos verdade que a liberdade de expressão é garantia de direitos democráticos e um dos pilares da civilização ocidental; 4) Oprimido por ameaças de morte ou pelas consequências da piada no plano laboral, o comediante dramatiza um pedido de desculpas que não sente, faz um comunicado de imprensa e reza a todos os santos para que o caso caia no esquecimento  o mais rapidamente possível.

O melhor resumo de esta e de outras indignações a propósito de textos de humor surgiu na rede que mais zurziu Bodegas, o Twitter: “não façam piadas, por favor. As piadas ofendem. Uma piada matou o meu cão e toda a minha família. Ainda recordo quando uma piada entrou pela minha janela e os matou a todos. É preciso ter cuidado com as piadas”.

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A mochila etíope (II)

por Diogo Noivo, em 28.08.18

 

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De Adis rumo ao Sul - Fotografia minha

Camiões e violência étnica

 

De Adis Abeba para Sul a viagem inicia-se numa estrada profundamente danificada. Há buracos com o comprimento de autocarros. Literalmente. A isto acresce a inobservância de todas as regras de trânsito: carros, motos, bajaj (tuk-tuk de uso local), pessoas e animais circulam nas mesmas vias, frequentemente em sentidos conflituantes. A sinalização é escassa e decorativa. Uns quilómetros depois surge um troço de autoestrada imaculado, produto da engenharia chinesa.

 

Antes de chegar ao lago Koka e de volta à penosidade de uma estrada secundária, dois camiões jazem incendiados na berma da estrada. Na Etiópia, a vida acontece na berma da estrada: é na berma da estrada que se constroem as casas de barro prensado, é na berma da estrada que se monta um pequeno negócio abrigado por chapa de zinco, é na berma da estrada que se vê a vida passar. Assim, a presença daqueles camiões neste local não era desleixo. Pergunto a Ermiyas, o meu camarada etíope de viagem, a causa. Íamos sozinhos no carro, mas a frase “mau governo” sai entre dentes. Para perceber o porquê da frase e a razão pela qual foi dita em surdina importa entender primeiro a organização político-territorial do país.

 

A Etiópia é um estado federal onde a cada um dos nove estados federados corresponde a uma etnia maioritária - no total, existem no país mais de duas dezenas de grupos étnicos. Oromos e amharas são os mais numerosos, sendo, respectivamente, 34% e 27% da população. A etnia tigrínia, que representa pouco mais de 6%, tem um estado próprio e é a força preponderante na Frente Democrática e Revolucionária do Povo da Etiópia (FDRPE), a coligação que detém o poder político federal. Este arranjo político-institucional é fruto de uma tentativa de domesticar a violência.

 

Em 1974, quando depôs o imperador Haile Selassie, o golpe da junta militar comunista (Derg) pôs fim a um sistema autocrático e feudal e, em simultâneo, destapou um conjunto de tensões políticas e étnicas há muito latentes, às quais respondeu com terrorismo de Estado. Com diferentes velocidades e intensidade, estas tensões transformaram-se em conflitos armados. À luta pela independência da Eritreia, em curso desde a década de 1960, juntaram-se outras protagonizadas por movimentos de base étnica como, por exemplo, a Frente de Libertação Afar, o Partido Revolucionário do Povo Etíope, a Frente Islâmica de Libertação da Oromia, a Frente de Libertação Oromo e a Frente de Libertação Nacional Ogaden.

 

A Etiópia torna-se então o cenário de diferentes guerras civis que com frequência se misturaram e sobrepuseram. Do lado do Estado, as purgas e os assassinatos transformaram o regime militar ditatorial numa tirania de corte personalista liderada pelo infame Major Mengistu Haile Mariam. Neste período de tirania militar, que foi de 1974 a 1991, momentos houve em que a Etiópia foi palco – e vítima – de um estado de guerra total. Os avanços e recuos destes conflitos foram determinados pelas identidades étnicas, pela demografia, pela geografia, mas também pela influência das potências enfrentadas na Guerra Fria.

 

Findo o regime militar em 1991 e obtido o reconhecimento internacional da Eritreia em 1993, o país virou-se para dentro à procura de soluções. Desde o final do reinado de Halie Selassie que a fragmentação da sociedade em diferentes etnias, línguas e culturas estava no centro da contestação social. As tentativas dos diferentes regimes em forjar uma unidade nacional mediante a eliminação da preponderância das identidades étnicas saíram sempre goradas – e o custo dessas tentativas foi medido em cadáveres.

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Vila na periferia de Gondar - Fotografia minha

A solução de um estado federal que conferisse autonomia política e administrativa às principais etnias foi a via encontrada para acomodar as diferentes identidades e evitar maior desagregação territorial, sendo esta a base do actual regime.

 

Da teoria à prática há sempre uma distância considerável e, por isso, os méritos do federalismo são mitigados por quatro problemas de gestão política. Primeiro, a descentralização é débil. O poder político está concentrado no Estado Federal, em particular na FDRPE, no poder desde 1991, controlada pela etnia tigrínia. Segundo, a ausência de liberdades políticas. A imprensa não é livre, o acesso à internet é controlado e a oposição é oprimida, algo que foi bastante visível em 2015, ano em que foram realizadas as últimas eleições legislativas onde a FDRPE ficou com 500 mandatos parlamentares num total de 547 – os 47 de diferença foram conseguidos por partidos leais à coligação no poder. Terceiro, muitos dos representantes locais são encarados pelos seus constituintes como fantoches do poder central, cooptados por via da corrupção. Por último, e embora se tenha encontrado uma forma equilibrada de distribuir os recursos do orçamento de Estado, a maior parte dos fundos e projectos internacionais de apoio ao desenvolvimento bem como a construção de infraestruturas estão localizados na região Tigré ou nas zonas definidas pela etnia que a controla.

 

Às tensões étnicas e nacionalistas do passado acresce então o sentimento de marginalização económica e política. E, devido à natureza autoritária do poder incumbente, não existem no sistema político etíope mecanismos e canais eficazes através dos quais os cidadãos possam exprimir o seu descontentamento e encontrar soluções. Era a tudo isto que Ermiyas se referia quando respondeu “mau governo”.

 

Os dois camiões ardidos eram então uma recordação do sucedido onze meses antes, em Outubro de 2016, mês em que os oromos celebraram o festival anual Irreechaa, evento onde se celebra o fim da época das chuvas e se pedem colheitas prósperas à natureza. Milhões de oromos acorrem à localidade de Bishoftu, relativamente próxima do lago Koka, por onde passava em viagem. Ter-se-ão infiltrado na massa de peregrinos manifestantes anti-governo e a polícia reagiu com brutalidade: os números oficiais referiam cerca de 50 mortos, embora diferentes organizações não governamentais coloquem a cifra na ordem dos 100. O caos e a violência deixaram um rasto de destruição que o passar dos meses foi apagando. Em Setembro sobravam dois camiões ardidos, uma espécie de memento mori que a todos recordava os efeitos da violência étnica (e a brutalidade que o regime usa para a reprimir).

 

O episódio do festival Irreechaa foi antecedido por meses de protestos oromos contra o Executivo. Iniciados em Novembro de 2015, e motivados por causas diversas – desde um plano para expandir a cidade de Adis Abeba que retiraria terrenos de cultivo à região oromo a manifestações contra o permanente clima de intimidação que rege a vida política –, os protestos alastram-se a várias cidades da Oromia. Entretanto, a etnia amhara iniciou os seus próprios protestos contra o Governo e dele obteve a mesma reacção. Em Outubro de 2016 o Governo Federal decretou o Estado de Emergência, findo em Julho de 2017. A Comissão Etíope para os Direitos Humanos, organismo dependente do Governo e por ele criado para refrear as acusações de autoritarismo vindas do estrangeiro, fez o balanço dos protestos ocorridos em 2016 e concluiu que há 600 mortos a lamentar.

 

Semanas depois de ter visto os dois camiões, e já numa região diferente, ouviria a frase “mau governo” outra vez. A 18 de Setembro de 2017, de caminho a Harar, no Este do país, sou aconselhado a não seguir viagem. “Há refugiados em direcção a Harar porque as coisas estão complicadas junto à fronteira com a Somália”, disse-me Agu, diácono numa igreja ortodoxa. De facto, era notória agitação e o nervosismo das pessoas que se iam juntando na rua. Pouco a pouco formou-se uma caravana de gente apeada que transportava como podia o pouco que tivera tempo de arrumar. Perguntei a razão. Foi então que ouvi o fatídico “mau governo”.

 

A causa imediata eram confrontos entre somalis e oromos. Naquele primeiro dia as autoridades federais contabilizaram 18 mortos, um número contestado pelos representantes locais, que registaram mais de 30. O número de refugiados internos andava na ordem das dezenas de milhares. Porém, a violência foi menos intensa do que em Fevereiro e Março daquele ano, quando os confrontos entre oromos e somalis provocaram centenas de mortos – o número exacto nunca foi apurado.

 

Com estradas cortadas, esperámos junto à rádio por novidades. Enquanto houve notícias, Agu traduziu o que ouvia para inglês. Faltava saber o que esteve na génese dos confrontos. Mas disso não falavam na rádio. “Isto é instigado a partir de Adis. Metem-nos uns contra os outros para aparecerem [a FDRPE e os tigrínia] como os únicos capazes de garantir a unidade da Etiópia”. A tese tem alguns argumentos válidos e adeptos nas regiões Oromia e Amhara, mas é impossível de demonstrar. Vale por ilustrar a desconfiança que existe em relação à FDRPE.

 

Sem prejuízo do progresso alcançado desde 1991, a Etiópia está no 134º lugar do Global Peace Index 2017, uma lista que avalia o nível de segurança em 164 países. Nos diferentes parâmetros, analisados numa escala de 1 (muito baixo) a 5 (muito elevado), a Etiópia é especialmente mal classificada em Conflitos Internos Combatidos (4.3), Acesso a Armamento (4.0), Intensidade de Conflito Interno (4.0) e Protestos Violentos (3.5). Em relação a 2016, a Etiópia caiu 16 lugares e piorou na generalidade dos indicadores. Foi, de resto, o país que mais pontuação perdeu.

 

Invertida a marcha em segurança graças à amabilidade daquele diácono que me cuidou como se fossemos família, segui viagem em direcção ao orfanato onde passaria os próximos dias.

 

Estes factos e dados reportam a 2017. Eleições recentes alteraram o status quo - sem prejuízo dos sinais positivos que resultaram das eleições, o real significado da alteração ainda está por ver.

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Porco machista

por Diogo Noivo, em 24.08.18

O João Pedro George é uma das minhas leituras semanais imprescindíveis. No mês passado escreveu um texto intitulado “Mulheres”, culto, irónico e pouco consentâneo com o pensamento único, embora nele nada houvesse de insultuoso ou chocante. Versava sobre a importância das mulheres na vida de alguns escritores portugueses, autores de outras épocas e, por conseguinte, de sociedades diferentes daquela onde vivemos. Como se diz em Espanha, lo han puesto a parir. Entre os vários mimos repartidos por leitores indignados surgiu o proverbial “porco machista”, epíteto usado como título da crónica onde João Pedro George responde às críticas. Dessa resposta, retenho este parágrafo:

 

As pessoas são completamente livres para lerem estas crónicas como quiserem, porém, e usando da mesma liberdade, deixem-me que vo-lo diga que algumas lêem apenas para não pensar. Todas saberão ler palavras soltas, mas nem todas as entenderão combinadas, sobretudo quando assentam em técnicas de discurso e em procedimentos retóricos como a ironia, as antífrases, os subentendidos, a sátira, em suma, quando exigem mais do que um nível de leitura ou de interpretação (além de um certo esforço de atenção). Por certo, é a capacidade ou incapacidade de identificar esses e outros efeitos textuais que distingue aqueles que sabem ler um texto e aqueles que, ignorantes das infinitas possibilidades da escrita, não conseguem ir além dos estreitos sentidos literais e das análises superficiais. Será verdade, como oiço tantas vezes dizer, que os tempos não vão para leituras atentas e meditadas, e que há cada vez mais pessoas que precisam de tudo minuciosamente explicado e óbvio, sem ironias, nem entrelinhas, nem associações ou cruzamentos entre planos da realidade

 

De facto, quem não entende isto, azeite. Resta saber se há lagares em quantidade suficiente. 

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A mochila etíope (I)

por Diogo Noivo, em 21.08.18

Entre o milagre económico e o abismo político

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centro de Adis Abeba - fotografia minha 

À noite, vista do ar, Adis Abeba nada deve a Nova Iorque ou a Xangai. A capital etíope apresenta-se como uma metrópole colossal, vibrante, repleta de pontos de luz e de cor. Aterrando, o cenário muda e sobressaem as contradições de uma cidade indecisa entre o progresso e os abismos do passado.

 

Os edifícios modernos compartem espaço com formas de miséria indisfarçável. As avenidas movimentadas onde desponta dinheiro novo são entrecortadas por vielas enlameadas e sem iluminação, controladas por matilhas de cães vadios. O novo betão tem ao lado casas de chapa de zinco. As estradas, irregulares e acidentadas, conhecem poucas regras de trânsito e são apenas para quem as domina. Num táxi, o destino é dito com base em referências – um hotel, uma escola, uma embaixada – porque as ruas não têm nome. O novo metro de superfície, uma infraestrutura construída e financiada pela República Popular da China, coloca no século XXI uma população que vive com cortes diários e prolongados de água e de eletricidade.

 

Ainda que pareça um contrassenso, tudo isto são sinais de um notável progresso económico. Após décadas de guerras civis e depois das fomes dramáticas da década de 1980, a economia etíope não tem rival na região e poucas são as economias no mundo com um crescimento comparável. De acordo com o Banco Mundial, entre 2003 e 2015 a economia etíope cresceu a uma média anual de 10,8%, o que compara com um crescimento médio regional de 5,4%. O crescimento do PIB em 2016 situou-se nos 7,6%.

 

Este sucesso, apelidado por alguns analistas de milagre económico, levou a um decréscimo acentuado da pobreza. Ainda de acordo com o Banco Mundial, no ano 2000 55,3% dos etíopes viviam em pobreza extrema – menos de 1,90 dólares por dia –, uma percentagem que desceu para os 33,5% em 2011. A esta década de êxito económico juntam-se duas décadas de avanços sociais: aumentou o número de crianças a frequentar o ensino primário, a mortalidade infantil reduziu para metade e o número de cidadãos com acesso a água potável duplicou.

 

No entanto, é um êxito com limitações severas. As que são visíveis na capital e nas demais cidades acentuam-se bastante quando nos aventuramos em zonas rurais. Percebemos que o milagre económico é um fenómeno essencialmente urbano e que no espaço rural, a maior parte do território, onde reside mais de 80% dos 102 milhões de habitantes, a pobreza e as condições de vida insalubres são a regra.

 

As carências internas não mitigam a relevância estratégica da Etiópia no mundo. É essencial aos projectos comerciais e políticos da China e assume-se como primeira linha de combate ao terrorismo islamista na África Oriental, o que em grande medida justificou a visita oficial do então Presidente Barack Obama em 2015, o primeiro Chefe de Estado norte-americano a visitar o país. Ladeada por focos de instabilidade no Sudão do Sul e na Somália, virada para o Golfo de Áden, e vizinha do Djibuti – país com a maior base militar permanente dos Estados Unidos da América em África e com a única base militar chinesa fora da Ásia –, a Etiópia é uma peça indispensável para a estabilidade de um ponto sensível para o comércio e segurança internacionais.

 

Este post, em jeito de introdução, é o primeiro de vários que relatam um mês de mochila às costas pela Etiópia em Setembro do ano passado. Os factos, dados e estatísticas referidos nestes textos foram obtidos nessa altura.

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O corpo de bailarinos de Madonna (II)

por Diogo Noivo, em 01.08.18

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Parte da intelectualidade nacional defende que uma publicação de Madonna no Instagram faz mais por Lisboa do que mil estrangeiros anónimos que venham para cá viver. Tanto assim é que a mais recente entrevista à cantora, publicada na Vogue italiana, valerá bem os lugares de estacionamento que lhe foram atribuídos pelo município da capital. Pois bem, nessa entrevista Madonna diz que Lisboa se assemelha a Cuba e que Portugal “é governado por três 'Fs': Fado, Futebol e Fátima”. De facto, publicidade desta não tem preço. E a culpa não é de Madonna.

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Pensamento da Semana

por Diogo Noivo, em 29.07.18

"Há pessoas, dentro e fora da academia, que são impenetráveis a um conhecimento actualizado sobre história da escravatura porque usam uma couraça chamada ideologia. Ideologicamente falando, e no que se reporta especificamente a esta área da História, essas pessoas habitam um edifício rígido, estanque, feito de dogmas e de certezas absolutas. Se se lhes mostra, com conhecimento apoiado num conjunto ponderado de documentos e numa bibliografia extensa, que estão enganadas e que o seu rei vai nu, o edifício pura e simplesmente desmorona-se."

João Pedro Marques, "Não, Portugal não foi a maior potência esclavagista", Diário de Notícias, 21.6.18

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Amor e Vistos Gold

por Diogo Noivo, em 26.07.18

Instalou-se a ideia de que Lisboa cria condições de excepção para estrangeiros europeus ou endinheirados que desejem residir na capital. Comprovei ontem que a percepção é completamente falsa. Embora, lamentavelmente, nada possa dizer sobre os endinheirados, vi que o calvário ao qual os cidadãos europeus são submetidos pela Câmara Municipal de Lisboa é pior do que aquele sofrido pelos portugueses residentes.

Apesar de qualquer cidadão europeu ter um Cartão do Cidadão ou um passaporte que atestam a sua condição europeia, Portugal exige-lhes um certificado de cidadania europeia, emitido pelo município competente. Reitero, para que não sobrem dúvidas: não se trata de um certificado de residência, mas sim de certificar que alguém com documentos oficiais emitidos por um Estado-Membro da União Europeia é, de facto, europeu. A tautologia custa 15€ por cabeça. Fui informado que “é assim em todo o lado”, embora não me recorde de ter sido obrigado a uma certificação semelhante quando residi noutros países do espaço comunitário. Adiante.

Chegados ao serviço de atendimento do município de Lisboa por volta das 10 da manhã, o número da senha, o 003, augurava um tempo de espera curto. Apenas duas pessoas à nossa frente, e uma já estava a ser atendida. Mas às 13h20 continuávamos à espera. Enquanto as senhas para tratar de outros assuntos – EMEL, execuções fiscais, urbanismo – se sucediam a uma média de onze por hora (havia tempo livre e tinha de me entreter), para tratar do certificado europeu a média era inferior a um. As pessoas entravam e saíam, enquanto nós e um simpático casal alemão olhávamos para o monitor, ansiosos pela nossa vez.

Às 14h15, quando finalmente fomos atendidos, a funcionária informou-nos que Lisboa não é o município competente (aliás, a falta de competência era evidente há mais de duas horas), mas sim um outro. Portanto, de nada serviu ter ligado na véspera para aquele mesmo serviço, ter facultado toda a informação, e me ter sido confirmado que sim, que era ali que me deveria dirigir para tratar do malfadado certificado. Valeu-nos a simpatia da pacata funcionária – que contrastava com a hiperactividade de um negreiro que por lá andava disfarçado de polícia municipal.

Moral da história: os estrangeiros só se mudam para Lisboa com Vistos Gold ou por amor à cidade – e porventura a um lisboeta. Pela competência dos serviços não é certamente.

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The Tancos Show

por Diogo Noivo, em 18.07.18

No Público, Vasco Lourenço defende que o assalto a Tancos foi um embuste, uma “encenação político-criminal”, uma urdidura destinada a “acentuar e dramatizar ainda mais os ataques ao Governo, devido aos trágicos incêndios do Verão passado”. Tratou-se de um “cozinhado”, de um “logro”, de uma “FARSA” (assim, em maiúsculas). Sem meias-palavras, afirma que se tratou de um ataque à “Geringonça”.

Acrescenta Vasco Lourenço que “Naturalmente, não tenho como provar a minha teoria (...) mas, enquanto não me demonstrarem o contrário, o que ainda ninguém conseguiu fazer, é minha forte convicção que tudo não passou de uma farsa (...)”.

Substitua-se “a minha teoria” por “que D. Sebastião ficou em Marrocos a fumar shisha”, “que a padeira de Aljubarrota era um transformista do Conde Redondo chamado Arnaldo”, ou por qualquer outra coisa que vos venha à mente.

Como escrevi ontem, o caso de Tancos parece um sketch humorístico. Está visto que Vasco Lourenço considera que ainda há umas gargalhadas por dar.

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Sim. Não. Talvez. O melhor é parar.

por Diogo Noivo, em 17.07.18

Houve roubo. Se calhar não houve roubo. Houve roubo, mas o armamento está obsoleto. Pensando melhor, só parte do armamento está obsoleto. Entretanto, o armamento foi recuperado. Está tudo bem. Aliás, recuperou-se mais do que tinha sido roubado. Até ficámos a ganhar. Tudo graças a uma chamada anónima. O mérito foi desta chamada, mas o Secretário Geral da NATO felicitou o Ministro da Defesa Nacional Azeredo Lopes pela recuperação do material roubado – pelo menos foi isso o que o referido Ministro disse à imprensa, sem o menor sinal de assombro nem qualquer sinal do Secretário Geral da NATO. Antes, em entrevista à SIC, também sem qualquer demonstração de pudor, Azeredo Lopes disse “para não pensarmos que somos anormais no contexto europeu e mundial, basta procurar 'roubo de armamento militar' no Google e vamos chegar a conclusões interessantes”, sendo que a única conclusão é a de que nunca tinham sido roubadas tantas armas antitanque num país da Aliança Atlântica. Pelo meio houve um relatório fabricado. Mas não há problema porque o material foi todo recuperado. Bom, afinal não, ainda há explosivos à solta.

Parece um sketch dos Gato Fedorento, mas não é. O caso de Tancos, cujo resumo consta no parágrafo anterior, jorra incúria, inépcia e descaramento q.b. Note-se que estamos a falar de uma área de soberania. Note-se também que cargas explosivas não são caixas de aspirinas subtraídas a um qualquer hospital público. Independentemente do apuramento dos detalhes e da identificação dos autores morais e materiais do crime, num Estado de Direito com um módico de escrutínio sobre a actividade dos poderes públicos já haveria gente destituída das funções que manifestamente não consegue cumprir.

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Mnemosyne

por Diogo Noivo, em 10.07.18

Na semana passada assinalou-se o terceiro aniversário do referendo onde uma parte importante do eleitorado grego deu um cartão vermelho à austeridade e recusou a “escravatura” da dívida. Tendo esta efeméride como pano de fundo, Zoe Konstantopoulou, ex-Presidente do Parlamento grego e antiga militante do Syriza, publicou um artigo de opinião no jornal britânico The Guardian onde faz a revisão da matéria dada. Eis as passagens dignas de antologia:

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“Pense como o povo britânico olharia para um primeiro-ministro eleito com o intuito de acabar com as privatizações e que, em vez disso, privatizou quase todos os bens públicos; que foi eleito para servir a paz e que, em vez disso, facilitou a acção militar contra alvos na Síria e concordou com a venda de armas a países acusados de crimes internacionais; que foi eleito para proteger as casas das pessoas, e que ficou parado enquanto os bancos se apoderavam delas, deixando as pessoas sem abrigo; que foi eleito para servir a democracia e a independência do seu país e que, em vez disso, o entregou à UE, ao FMI e ao BCE. Isto foi o que Tsipras fez ao povo grego.”

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“A vida tornou-se insuportável. O desemprego dos jovens é a norma e estima-se que 8% da população abandonou o país em busca de trabalho. O salário mínimo não paga as contas e centenas de milhares de famílias ficaram sem eletricidade”.

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“Tsipras prometeu destruir os oligarcas da comunicação social. Hoje, os velhos oligarcas ainda controlam a imprensa grega, enquanto uma nova geração, os “oligarcas da era Tsipras”, se estabeleceram”.

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“Em outubro do ano passado, representando um estado falido, ele [Tsipras] gastou 2,4 mil milhões de dólares na compra de caças F-16 aos EUA. Elogiou Donald Trump por continuar a “tradição de democracia e liberdade” que nasceu na Grécia.”

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O corpo de bailarinos de Madonna

por Diogo Noivo, em 05.07.18

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Fernando Medina esteve bem ao facilitar estacionamento para a frota automóvel de Madonna porque, segundo se lê nas redes sociais de alguns comentadores, uma publicação da artista no Instagram faz mais pela cidade em receitas e em reputação do que mil estrangeiros anónimos que venham para cá viver. Descontando o deslumbramento patego subjacente à ideia, que institui como desejável a criação de gente de primeira e de segunda perante o Estado (o Poder Local também é Estado), o curioso é que o essencial do assunto permanece ausente do debate.

Graças ao INE, soubemos esta semana que quem anda de transportes públicos demora o dobro do tempo do que quem vai de carro ou mota. Se a isto juntarmos os atrasos constantes nos transportes públicos, o aumento do preço dos títulos de transporte, a sobrelotação, a supressão de comboios, a degradação do equipamento circulante, e os tempos de espera absurdos no Metro não surpreende que o automóvel seja o principal meio de transporte dos residentes nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. É a prova da absoluta ineficiência, se não mesmo da inutilidade, dos transportes públicos, cuja missão é também a de reduzir a entrada de veículos particulares nas cidades.

Em Lisboa, a situação deverá piorar. Uma vez que o preço dos imóveis torna proibitivo residir na cidade, mais gente morará nas periferias e, consequentemente, maior pressão sobre os transportes públicos e mais viaturas particulares a entrar e sair do centro urbano diariamente. Com este cenário, nem com um silo de estacionamento por bairro teremos lugares suficientes. 

No entanto, calva de ideias e grávida de certezas, parte da intelectualidade pública que se desdobra em intervenções nos jornais, nas rádios e nas televisões prefere abordar o assunto dançando à volta de Madonna, dando colo ao autarca de Lisboa, defendendo o indefensável, e perdendo-se em argumentos que ignoram olimpicamente o cidadão comum. A culpa não é de Madonna.

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“Não é só por via da violência que o terrorismo condiciona a sociedade. É também através da cultura. O terrorismo, em particular o de cariz nacionalista, actua em nome de uma comunidade alegadamente forjada por laços históricos, por vezes até genéticos, uma coletividade feita de valores e de traços culturais tidos como singulares. Por isso, a literatura especializada em violência política, apesar dos inúmeros debates que alimenta, é consensual sobre a necessidade que as organizações terroristas têm de apoio popular, pelo menos de um sector da sociedade que dizem representar. Esta adesão social não tem de se materializar em participação activa em acções violentas; basta que se resuma à aceitação do quadro de valores e ideias que a organização defende. Se assim não for, todo o ideário do terror é insustentável e, consequentemente, a vida da organização curta. Logo, parte importante da estratégia de um grupo terrorista – e de estruturas associativas que porventura tenha como satélites – é dedicada à criação e difusão de símbolos maniqueístas de vitimização, de memórias históricas e de preceitos culturais com o objectivo de tornar a sua identidade mais saliente e distinta. (...)

Por tudo isto, combater as subculturas do terrorismo, as que o fomentam e as que dele resultam, é tão importante para a reposição da liberdade e para a recuperação da convivência em sociedade como o combate à violência nos planos jurídico e policial. Esta conclusão levou o escritor Fernando Aramburo, em entrevista ao El País em Setembro de 2016, a alertar para o facto de que a derrota literária da ETA continua pendente. A entrevista teve como mote a publicação de Patria, o seu mais recente romance, o terceiro livro que o autor dedica aos efeitos da violência etarra no País Basco. (...)

Sem relativizar ou equiparar atitudes que exigem apreciações morais e políticas diferenciadas, Fernando Aramburo reúne as duas faces da sociedade para demonstrar como o terrorismo e o ideário que o sustenta a dilaceraram.”

 

Excertos do ensaio que escrevi sobre o papel da cultura no combate ao terrorismo, tendo como base a ETA e o romance "Pátria", de Fernando Aramburu. Na revista LER, edição Primavera 2018.

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Blogue da semana

por Diogo Noivo, em 01.07.18

Já foi nosso convidado, é nosso vizinho há anos e, muito recentemente, passou a ser nosso amável prefaciador. Partilhamos leituras e interesses – nos últimos tempos partilhamos também a exasperação com a TAP e com o aeroporto de Lisboa (a meu ver, pior a companhia do que o aeroporto). A discordância, que por vezes existe, é serena e própria de quem tem a coragem de expressar opiniões em público. Pela opinião, pelo conhecimento, pela memória, pelo savoir-vivre, o Duas ou Três Coisas, de Francisco Seixas da Costa, é o nosso blogue da semana.

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Notas (mais ou menos) soltas sobre a Turquia

por Diogo Noivo, em 26.06.18

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I. Tal como um pêndulo, o modo como a Turquia encara a Europa oscila entre dois extremos. De um lado, a Europa ameaçadora e cínica, pejada de preconceitos contra o povo turco, apostada em explorar as debilidades e as crises do país. Do outro lado, a Europa enquanto vocação, enquanto modelo político, económico e cultural admirável e que é imperativo adoptar. Tem sido assim pelo menos desde o início do século XX. Porque a política tem leis próprias, que não se submetem às da física, em diversos momentos da história contemporânea o pêndulo esteve nos dois extremos em simultâneo.

De facto, e apesar de ser um lugar-comum descrever a Turquia como um Estado entre dois mundos, Ocidental e Oriental, democrático e autoritário, laico e religioso, a verdade é que a vida política do país é feita de contradições e paradoxos, fruto de um percurso político e social invulgarmente rico e dinâmico, onde as sucessivas rupturas – muitas vezes sob a forma de golpes de Estado – disfarçam linhas de continuidade imperturbáveis.

 

II. A muito criticada deriva autoritária de Erdoğan não é inovadora. Assenta em procedimentos e medidas de um reportório que governa o país de forma intermitente desde a década de 1950, alternando momentos de liberalização política e económica com fases de estatismo, de corporativismo e de repressão de liberdades individuais. Porém, no passado, as detenções arbitrárias e multitudinárias, as alterações constitucionais, o ataque à liberdade de imprensa e às universidades, além de outras medidas de corte autoritário, foram impostas pelo “Estado paralelo” – termo usado para designar uma aliança informal entre forças armadas, poder judicial e burocracia pública, que se arroga a missão de defender os princípios fundadores da República da Turquia, interferindo com frequência na arena política sempre que entende que esta se afasta do perímetro do “republicanismo” criado por Mustafa Kemal Atatürk. Por outras palavras, um “Estado paralelo” jacobino que desfez resultados eleitorais (democráticos), impôs estados de emergência e limitou direitos fundamentais.

 

III. Por razões várias, Erdoğan começou a desmantelar o "Estado paralelo". No entanto, em vez de o substituir por instituições sólidas e independentes, optou por concentrar poder e entregar-se a ajustes de contas, empurrando a Turquia para um abismo autoritário inegável. 

 

IV. A aparente predominância do Islão na arena política também não é da lavra do AKP de Erdoğan, mas sim a consequência de uma política de islamização do kemalismo levada a cabo pelo “Estado paralelo” após o golpe militar de 1980 – uma forma de Islão político designada como “síntese turco-islâmica”, baseada numa mistura por vezes incongruente de nacionalismo étnico, revivalismo otomano, Islão sancionado pelo Estado, e o republicanismo laico de Atatürk. A islamização do país às mãos de Erdoğan é um mito. O Presidente turco limita-se a dar continuidade a uma tendência que o precede, intensificando e afrouxando o pendor “islâmico” de acordo com as circunstâncias. 

 

V. O AKP é o partido com mais tempo de permanência no poder desde que se celebram eleições livres na Turquia. Erdoğan, líder cuja imagem se confunde com a do próprio partido, superou Atatürk em longevidade no exercício de funções políticas, o que é sintomático do seu poder e relevância públicas.

No passado domingo, Recep Tayyip Erdoğan foi reeleito presidente à primeira volta e o AKP, que liderava uma coligação partidária às legislativas, obteve a maioria no Parlamento. Esta vitória faz com que entrem em vigor as alterações constitucionais aprovadas em 2017, das quais decorre um reforço dos poderes presidenciais à custa do parlamento. Conhecidos os resultados, Erdoğan descreveu-os como a consolidação de uma “transição” –  o Presidente parece querer emular Atatürk na fundação (no caso, refundação) do país. Hoje tem poder para tal. Más notícias. 

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Olhar o céu

por Diogo Noivo, em 12.06.18

Exausto com a penosa novela Sporting, pensei vir aqui explicar porque não gosto de futebol. Ia falar da violência endémica, consentida por uma parte importante da sociedade portuguesa – e, em particular, pela malta que vai “à bola”. Pensava escrever sobre os privilégios fiscais concedidos aos grandes clubes, um estatuto que contrasta com o do normal contribuinte, vítima de acosso do Estado – algo igualmente tolerado pela “malta da bola”. Pretendia explicar como o caso do Sporting espelha o quão miserável é este mundo: de um lado, Bruno de Carvalho; do outro, Marta Soares e Álvaro Sobrinho. Ia fazer tudo isto até que li o artigo do Miguel Araújo, na Visão, e o artigo do Carlos Rodrigues Lima, na Sábado. É só ler e perceber.

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As contas e os contos

por Diogo Noivo, em 06.06.18

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O ano passado, numa das minhas incursões à livraria do bairro onde vivia, comprei três livros que andava a namorar há tempo, mas que esta ou aquela razão adiaram a leitura. Las Cuentas y los Cuentos de la Independencia, de Josep Borrell e Joan Llorach, foi o primeiro a ser devorado. Eram três as razões do meu interesse. Primeiro, o facto de ser um exame frio e objectivo, muito assente em dados quantitativos e em análise comparada, aos argumentos do independentismo catalão. Segundo, ser da autoria de dois catalães catalanistas. Por fim, o nome Josep Borrell, histórico socialista, antigo ministro das Obras Públicas no Governo de González, ex-presidente do Parlamento Europeu e uma das personalidades políticas de Espanha com maior prestígio fora de portas.

Os argumentos apresentados por Llorach e Borrell são demolidores para o independentismo, não por causa de artifícios retóricos ou de talento literário, mas sim por número a número, percentagem a percentagem, artigo a artigo desmontarem com rigor cirúrgico os argumentos de quem exige uma Catalunha soberana. Borrell submeteu o resultado a escrutínio público, em língua catalã e com contraditório, num frente-a-frente com Oriol Junqueras, líder do partido independentista Esquerra Republicana de Catalunya. O resumo deste debate televisivo é imperdível (legendas em castelhano).

Josep Borrell regressa agora ao Governo de Espanha pela mão de Pedro Sánchez para ocupar a pasta dos Negócios Estrangeiros. Esta nomeação garante a respeitabilidade do novo Executivo no plano internacional, mostra que o Governo cumprirá os compromissos assumidos pelo país em Bruxelas e que se empenhará no projecto Europeu (o Podemos que se desiluda se espera grandes inversões nesta matéria), e é também um sinal claro ao independentismo radical que se instalou na Catalunha. Tudo isto é mais relevante porque o actual Executivo será sempre uma solução a prazo. Sanchéz, que estava politicamente morto em Novembro de 2016, dá uma prova de vida apreciável com esta nomeação. Esperemos pelas cenas dos próximos capítulos.

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Consequências da época estival

por Diogo Noivo, em 25.05.18

Forças israelitas mataram cerca de 60 palestinianos alegadamente desarmados e o tonitruante coro de protestos não se fez esperar. Nem a representante de Israel na Eurovisão escapou à ira, tendo sido alvo de um boicote tão patético como ineficaz. Ontem, ficou demonstrado que a Rússia abateu um voo comercial malásio matando 298 passageiros - gente, de facto, desarmada. Ninguém saiu à rua. As redes sociais estão serenas e não há pedidos de boicote. Martins, Mortáguas e afins devem, certamente e apesar da chuva, ter entrado em fase estival.

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Bernard Lewis (1916-2018)

por Diogo Noivo, em 23.05.18

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Bernard Lewis é um nome maior da historiografia sobre o Médio Oriente e o Islão. Cunhou o termo “choque de civilizações”, depois popularizado por Samuel P. Huntington. Contudo, ao contrário deste, Lewis não identificou no povo árabe, ou na comunidade muçulmana, qualquer atavismo que inviabilize a edificação de democracias no Norte de África e no Grande Médio Oriente. Em cerca de 30 livros e mais de uma centena de artigos e ensaios, Lewis argumentou que as aflições políticas dos países árabes e do Islão se devem a problemas eminentemente políticos.

No célebre The Crisis of Islam, elencou e dissecou os desafios (e os abismos) que assolam as terras do Islão - pobreza, desigualdade económica, autoritarismo -, explicando que a sua resolução é matéria de escolha, pois não há na religião nada de endémico que impeça a alteração do status quo. Foi também nestas páginas que afirmou não existir qualquer fundamento doutrinário ou legal no Islão para validar os autores morais e materiais dos atentados de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos da América. Demonstrou que, de acordo com os cânones da fé islâmica, a violência contra mulheres e crianças é expressamente proibida e, por outro lado, que o suicídio é um pecado punido com a condenação eterna do pecador à repetição incessante do seu acto. Tido como “falcão” - foi conselheiro da Administração de George W. Bush e defendeu mão pesada no Médio Oriente - e como “orientalista” - Edward Said disse de Lewis o que Maomé não disse do toucinho -, o historiador nunca permitiu que as suas convicções políticas deturpassem os factos e a análise.

As memórias de Bernard Lewis, publicadas em 2012 sob o título Notes on a Century: Reflexions of a Middle East Historian, tecidas com humor britânico e erudição despretensiosa, oferecem uma viagem única por uma vida ímpar, deixando entrever uma visão pouco optimista sobre o Médio Oriente e principalmente sobre a capacidade do Ocidente em lidar com aquela região. Li-as na altura e hoje voltarei a elas. Bernard Lewis morreu no passado dia 19 aos 101 anos de idade.

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Confuso?

por Diogo Noivo, em 22.05.18

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A Guardia Civil, a força policial vista como braço armado do Governo de Rajoy na Catalunha, pelo menos segundo os catalanistas portugueses, deteve hoje Eduardo Zaplana por suspeitas de branqueamento de capitais. Zaplana foi ministro no Executivo liderado por Aznar e é um dos barões do Partido Popular. Assim, e aceitando a premissa dos pró-independentistas, a polícia quase-política do Governo de Rajoy acabou de deter uma das figuras mais importantes do partido de Rajoy - de resto, um partido constituído arguido pela Justiça espanhola que, também de acordo com os catalalistas de cá, está ao serviço do Governo “centralista” sedeado em Madrid. Conclusão: nunca permitir que os detalhes estraguem uma boa história.

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Livros e blogues

por Diogo Noivo, em 10.05.18

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Hoje é dia de apresentação do livro deste nosso, e vosso, DELITO DE OPINIÃO. São todos bem-vindos na livraria Almedina, no Atrium Saldanha (Lisboa), às 18h30. Tal como o Pedro Correia, conto estar meia hora mais cedo, no átrio central do edifício (junto ao piano), para conhecer e trocar ideias com todos os leitores que ali possam comparecer.

 

Porém, julgo que é de aproveitar este dia para falar num outro livro, de um blogger nosso vizinho: “Não Respire”, de Pedro Rolo Duarte. Este livro de memórias, que começou a ser escrito quando o autor descobriu que estava doente, discorre sobre 53 anos de vida e mais de 30 de jornalismo. O Pedro – só estive com ele duas vezes, mas fez sempre questão que o tratasse por tu – trabalhou o texto até Novembro de 2017, momento em que o sacana do cancro o levou. Segundo António Rolo Duarte, filho do Pedro e também nosso vizinho no Dorminhoco, o livro “fala muito sobre os amigos, a sua importância e o que eles trazem para a vida que mais nada traz. É livro muito positivo”. Positiva foi, aliás, a maneira como o Pedro recebeu este nosso DELITO em 2009, palavras simpáticas que constam na contracapa da antologia que hoje apresentamos no Atrium Saldanha. Como bem nota o nosso “timoneiro” Pedro Correia na introdução à antologia do DELITO, aqui fizemos sempre questão de citar os outros. Esta prática e atitude fazem parte do espírito da casa. Por isso, no dia em que lançamos o nosso livro, julgo fazer todo o sentido referir o livro de um vizinho estimado ao qual voltaremos sempre.

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Fin

por Diogo Noivo, em 03.05.18

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Seria “algures no Verão de 2018”. Passou depois para a “primeira quinzena de Junho”. Semanas mais tarde, seria “entre o final de Maio e o princípio de Junho”. Mais recentemente, foi dito que o dia 6 de Maio seria o definitivo. Dias depois, afinal era a 5. No entanto, o anúncio oficial de dissolução da ETA chegou hoje, dia 3 de Maio de 2018.

A sucessiva antecipação de datas é reveladora da inexistência de entraves por parte da militância etarra à dissolução da organização, o que significa que ninguém encontrou uma forma de perpetuar o lastro de violência. A ETA capitulou. Chega ao fim sem conseguir a independência do País Basco, sem edificar a “sociedade socialista” e sem terminar com a dispersão de presos. Acaba sem ser capaz de disfarçar a sua debilidade, antecipando a data de dissolução como quem pretende terminar com uma agonia insuportável.

São mais de 40 anos de violência e de acosso que formalmente terminam. O dia é histórico. Há agora condições para estreitar os abismos sociais e políticos criados pelo terrorismo, o que só acontecerá respeitando as vítimas, cumprindo a lei e zelando pela memória colectiva. Por cá, deste lado da fronteira, talvez tenha chegado o momento de desfazer equívocos. Por exemplo, de deixar claro que a imensa maioria dos homicídios cometidos pela ETA tiveram lugar após o ocaso do Franquismo. Ou, por dar outro exemplo, de reconhecer que a maioria das vítimas mortais foram civis, e não militares ou polícias. Talvez o fim da violência sirva para que, a um só tempo, e finalmente, alguns reexaminem a sua conivência e outros criem um futuro livre de ódio.

 

Adenda: passado e futuro resumidos em 1700 caracteres na forma de artigo de opinião publicado no Diário de Notícias (21.4.18).

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O fim da ETA

por Diogo Noivo, em 20.04.18

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Parte da longevidade da organização terrorista ETA deve-se ao êxito de uma estratégia tripartida que Gaizka Fernández Soldevilla e Raúl López Romo sintetizaram de forma certeira na frase “sangre, votos, manifestaciones”. À estrutura terrorista a ETA juntou uma constelação de partidos, organizações e associações que, entre outros objectivos, tinham como missão a ocupação efectiva do espaço público basco. A viabilidade da “causa nacionalista” e da organização que dizia protegê-la dependiam da disseminação do ideário radical que, por sua vez, exigia acosso sobre quem pensava de forma diferente. Com manifestações de rua e grafitis, com propaganda partidária, e com atentados e assassinatos selectivos, o cerco a quem não subscrevia o radicalismo basco era total. Nem as campas das vítimas se livraram de vandalismo.

Mesmo após o anúncio do cese definitivo por parte da ETA em 2011, a cultura sectária perdurou, sendo visível em casos como o da agressão a dois militares da Guardia Civil em 2016. A namorada de um destes militares, também agredida, descreveu o clima de opressão que ainda paira no País Basco ao relatar o isolamento a que foi votada e as represálias que sofreu pelo simples facto de ter uma relação pessoal com um membro da Guardia Civil. Não foi, evidentemente, um atentado terrorista, mas sim a continuação de uma prática de acosso com décadas de existência e com origem no aparelho político da ETA. Ser polícia no País Basco ainda é um crime. Não ser basco em terras da Euskal Herria é estar a mais. Ser basco e não perfilhar as teses radicais é traição.

O anúncio da dissolução da organização terrorista basca, previsto para o primeiro fim-de-semana de Maio, é a etapa que falta para finalmente se decretar o óbito da ETA. Porém, nem todos na esquerda abertzale estão convencidos dos méritos do fim da violência. Mais grave, muitos querem aproveitar os anseios de paz para, a um só tempo, indultar o passado e legitimar os argumentos que sustentaram o terror. A decadência da ETA iniciou a luta pela memória, pelo relato de um passado dolente, uma batalha travada com brilhantismo por Fernando Aramburo em Patria. A batalha pelo passado é porventura a chave da pacificação do País Basco. Por isso, a declaração de hoje, onde a ETA pede “perdão pelo dano causado”, pelo “sofrimento desmedido” no qual tem “responsabilidade directa”, é tão ou mais importante do que o anúncio de dissolução para iniciar a recuperação da convivência social e a normalização política da Euskal Herria.

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O gozo de criar problemas (II)

por Diogo Noivo, em 11.04.18

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Foto Jordi Avellà/El Mundo 

Depois dos profissionais de saúde, chega agora a vez dos artistas. O Governo das Baleares exige aos músicos da orquestra daquela comunidade autónoma que cumpram as exigências de expressão oral e escrita previstas no nível B2 de catalão. Quem não o fizer pode arrumar as malas. Novamente, a competência e currículo dos profissionais são subordinados aos seus conhecimentos linguísticos.

O maestro é japonês e mais de metade dos músicos são estrangeiros. Como sucede em tantas outras orquestras europeias, o inglês é a língua de trabalho e a música uma linguagem universal. Mas o sectarismo nacionalista imposto pelas elites e a partir das instituições vai fazendo o seu caminho de construção de uma sociedade idealizada, excluindo pouco a pouco o ‘Outro’. A título de curiosidade, note-se que esta medida destinada à orquestra das Baleares foi antecedida pela desistência do Governo de Espanha em garantir a educação plurilingue na Catalunha. Perante tudo isto, ainda há quem fale em opressão vinda de Madrid.

 

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Nações emocionais

por Diogo Noivo, em 09.04.18

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Não há nacionalismo que vingue sem a vinculação emocional do povo sobre o qual incide. Não surpreende, portanto, que todos os debates sobre nacionalismos revelem uma forte carga emotiva, sendo por vezes condicionados por ela. Acontece que a emoção é má conselheira em temas políticos, pois leva a teses indefensáveis e, consequentemente, a becos sem saída. E leva também a precipitações. O Luís Menezes Leitão recebeu em ombros as alegadas declarações da Ministra da Justiça alemã, Katarina Barley, que teria afirmado que se o Supremo Tribunal espanhol não demonstrasse que Carles Puidgemont cometeu outros delitos além do de rebelião, este passaria a ser “um homem livre num país livre, quer dizer, na Alemanha".

Acontece, porém, que a ministra em causa já falou com o seu homólogo espanhol para esclarecer o “mal-entendido”. Por sua vez, o porta-voz do Ministério da Justiça alemão, Piotr Malachowski, disse hoje em conferência de imprensa que Barley "não tomou ou vai tomar uma posição" sobre um processo judicial em curso, acrescentando que "não houve declarações autorizadas" da ministra. Acto contínuo, caso ainda houvesse dúvidas, Steffen Seibert, porta-voz do Governo de Berlim, afirmou ser convicção do Executivo que “o conflito catalão pode e deve ser resolvido dentro da estrutura da Constituição e da ordem legal espanhola". Por outras palavras, o que estava embrulhado desembrulhou-se. O que sim continua embrulhado é contexto político catalão, que não se resolverá com seminários incendiários de barricada nem com espírito de claque. Porventura adoptar a estratégia usada por Espanha na década de 1970 para fazer uma transição “de la ley a la ley”, célebre frase de Torcuato Fernández-Miranda, não seja uma má ideia.

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O Mecanismo

por Diogo Noivo, em 06.04.18

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"Na vida real, no Brasil como em Portugal, não faltam Garcês de Brito. Há sempre alguém disposto a justificar a corrupção, o tráfico de influências e a distorção do mercado por cartéis e grupos ligados à política.

Invariavelmente, um alegado bem maior é invocado como justificação para que o cidadão comum e o sistema de Justiça fechem os olhos à podridão. Esse bem maior pode ser  o alegado interesse nacional, a clubite partidária (que cega até gente inteligente e honesta, com o argumento de que os “outros” são igualmente corruptos), ou, simplesmente, o elevado custo económico de parar a música e acabar com as aldrabices."

 

Filipe Alves, no Jornal Económico.

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“Realejo de disparates”

por Diogo Noivo, em 02.04.18

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A existência de presos políticos pressupõe a inexistência de separação de poderes. Dito de outra forma, e concretizando, para haver presos políticos significa que o poder judicial é instrumentalizado (to say the least) pelo poder político. Assim, quando PCP, Bloco de Esquerda e alguns deputados socialistas quiseram aprovar no Parlamento um voto de condenação à existência de presos políticos em Espanha – referiam-se, evidentemente, aos políticos independentistas detidos após a tentativa de secessão unilateral e inconstitucional da Catalunha – estavam a afirmar que os Tribunais espanhóis estão ao serviço do Governo do Partido Popular (PP).

 

Tal pressuposto enferma de dois males. O primeiro consiste num entendimento deficiente do Estado de Direito e da centralidade de uma Constituição democrática para a defesa de direitos, liberdades e garantias. Olhando para o tipo de regimes com os quais comunistas e bloquistas simpatizam, aprofundar este argumento é tempo perdido. O segundo mal passa por ignorar a actuação dos Tribunais espanhóis nos últimos anos, sobretudo no que respeita à relação com o poder incumbente. Neste aspecto, puramente empírico, talvez valha a pena insistir. Em 2016, a Justiça espanhola constituiu o PP arguido (imputado) por um alegado acto de destruição de provas num caso de corrupção e de branqueamento. Foi a primeira vez – e, até ver, a única – que um partido político foi submetido a este estatuto na Espanha pós-1978. Antes, já os tribunais espanhóis tinham acusado e condenado vários políticos do PP em processos por corrupção, apropriação indevida e branqueamento. Em Maio de 2016 eram mais de 800 os militantes populares na lista de investigados – uma lista que continua a aumentar. Nomes como Rita Barberá, Rodrigo Rato, Ángel Acebes, Francisco Granados, Francisco Camps, Jaume Matas, Álvaro Lapuerta e Luis Bárcenas demonstram que a Justiça não se ficou por peixe-miúdo e foi atrás de gente com elevado perfil público e grande influência política. Isto chega para perceber o quão desonesta, porque completamente distanciada da realidade, é a crença de que os Tribunais estão ao serviço do Executivo presidido por Mariano Rajoy. É também ignorante porque opta por não ouvir o que dizem aqueles que, de facto, foram presos políticos em Espanha. Actualmente, o drama de Espanha é a falta de política, não o excesso.

 

O exercício tentado na Assembleia da República tem subjacente uma profunda desonestidade intelectual. Razão tem Sérgio Sousa Pinto, deputado do PS e presidente da Comissão Parlamentar de Negócios Estrangeiros, quando diz que em matéria de política externa a Assembleia da República é cada vez mais um “realejo de disparates”. O problema, creio, é que não são apenas disparates. Tendo em conta as loas a regimes despóticos onde há efectiva opressão da oposição, ou pelo menos os esforços titânicos para não os condenar (vide Venezuela e Rússia), parece emergir no Parlamento português uma mundivisão cegamente leal àqueles com quem tem afinidades ideológicas e persecutória em relação a todos os outros. Em boa verdade, esta forma de ver a política não é nova, mas a sua promoção por parte de partidos próximos do poder é inaudita. Estamos, em suma, a assistir ao esboroar do cordão de decência criado por Mário Soares para garantir que a arena política portuguesa era composta por democratas: de esquerda e de direita, liberais e conservadores, nacionalistas e estrangeirados, mas todos democratas. No curto prazo será de borla, mas a longo prazo o preço deste “realejo de disparates” será elevado – o custo do Novo Banco serão trocos para café e tabaco quando comparados com isto.

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Negócios Estrangeiros

por Diogo Noivo, em 28.03.18

Moscovo está apostada na desestabilização política da Europa. Interferiu no referendo que culminou com o Brexit, como interferiu também no supuesto referendo de 1 de Outubro na Catalunha (de acordo com a organização Securing Democracy, os perfis russos no Twitter aumentaram em 2000% a sua actividade a favor da independência catalã na véspera da alegada consulta popular). Nas presidenciais francesas os sinais de interferência foram menores, mas o flirt com a Frente Nacional de Marine Le Pen foi claro. Embora as consequências destas intromissões sejam difíceis de aferir, o propósito de criar brechas no espaço europeu é inegável.

São, contudo, factos com contornos difusos quando comparados com o sucedido na Crimeia, com a constante violação do espaço aéreo de países do Norte e Leste da Europa, com os ataques cibernéticos a países europeus, ou com a exploração de antagonismos políticos existentes no seio de países como a Áustria, o Chipre, a República Checa ou a Eslováquia. O envenenamento de Sergei Skripal, antigo espião russo a residir no Reino Unido, é apenas o último de uma longa e penosa lista de episódios condenáveis.

Perante a sucessão de casos, 23 países ocidentais decidiram levar a cabo a maior expulsão de diplomatas russos na História contemporânea. Após anos de interferência e de pressão, há uma frente democrática que se opõe ao acosso vindo da Federação Russa. Portugal pôs-se de fora. Informa o Palácio das Necessidades que prefere a “concertação” no quadro da União Europeia para “responder à gravidade da situação presente” – nesta matéria, parece que a concertação não é uma “feira de gado”.

A prudência é sempre boa conselheira. No entanto, importa ter presente três aspectos. Primeiro, o silêncio da Europa não deu bons resultados – as intromissões russas tornaram-se cada vez mais agressivas e danosas para a salubridade democrática na Europa. Segundo, Portugal deve estar atento porque, depois de ter sido um dos últimos países a aderir à Cooperação Estruturada de Defesa, convém que não existam dúvidas sobre o nosso compromisso com a estabilidade e a segurança europeias. Terceiro e muito importante, o Governo não deve confundir os interesses nacionais, que no plano externo assentam em grande medida na União Europeia e na Aliança Atlântica, com os interesses paroquianos que estão na base da solução política que sustenta o Executivo de António Costa.

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Candidata a frase do ano

por Diogo Noivo, em 27.03.18

 

"Claro que Marques Lopes não sabe distinguir uma notícia de uma locomotiva a vapor." - Ana Sá Lopes, no i.

 

E, já agora, à volta da frase há um artigo de opinião que merece leitura.

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O Bairro

por Diogo Noivo, em 26.03.18

Não conheço o António Rolo Duarte. O blogue dele só conheci hoje. Tem três entradas despretensiosas, bem escritas e bem pensadas. Na mais recente, a propósito da morte de Manuel Reis, há uma frase que me ficou a ressoar no crânio: “Não é difícil ser saudosista em relação a esse Bairro Alto que nunca foi meu”. O meu Bairro, que existiu entre o ocaso dos 90 e os primeiros anos deste jovem século, era um zoo. Góticos, skinaria, betos do sapato de vela, aspirantes a artistas plásticos, gente que tinha lido umas coisas e outros que nem pelos folhetos de supermercado passavam os olhos. Todos diferentes, todos despreocupados – tontos, confiávamos na mobilidade social pátria, convencidos que viveríamos melhor do que a geração dos nossos pais. Esse era o ambiente do meu Bairro: confiança e inconsequência de quem olhava para o futuro como uma recta ascendente de progressão linear. Ao contrário da geração anterior, a minha não sentia a necessidade de ser cosmopolita porque o país já era europeu e cada vez mais desempoeirado. O tempo, esse desgraçado, encarregou-se de nos mostrar o quão errados estávamos sobre a progressão linear e sobre a limpeza da poeira. Aquele Bairro vivia dos restos da geração fundada pelo Manuel Reis. Era uma época de transição. A avaliar pelo que é o Bairro Alto de hoje, não acrescentámos nada. Como escreve o António Rolo Duarte, “o Bairro Alto há muito que perdeu o charme e o único sítio que poderia realmente ser nosso, o novo Cais do Sodré, foi tomado por uma mistura de turistas, hipsters que têm “uns projectos” e CEO’s de start-ups com muito start e pouco up”. Tem razão quando refere que “nós, os jovens de hoje, não temos um Frágil. Não há um Targus onde possamos encontrar a versão jovem do meu pai e dos amigos dele”. É isso mesmo, António. Com tudo o que daí resulta. E tudo isto para dizer que passarei a seguir o Dorminhoco com assiduidade. Venham de lá mais textos nessa “página aborrecedora”.

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Pensamento da semana

por Diogo Noivo, em 25.03.18

Tinha estatuto. Cultivava-o diariamente com altivez e soberba. Sem qualquer esforço para disfarçar a pedantice, disse-me em tempos que não confiava em homens que andassem com os sapatos por engraxar, mesmo que fossem pobres coitados sem outros para calçar. Um dia, a vida na sua impiedosa sabedoria tirou-lhe o estatuto de supetão e no meio da rua. Sobraram-lhe apenas uns sapatos mal-amanhados e baços.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Delírio de Opinião

por Diogo Noivo, em 22.03.18

Na sua intervenção na Universidade de Coimbra, José Sócrates brindou o auditório com alguns comentários que são puro delírio. Ir a todos, ponto por ponto, daria origem a uma série de posts interminável. Porque a vida não me dá o tempo necessário para fazê-lo e porque a atenção a dispensar a José Sócrates deve ser moderada (sob pena de deixar mazelas psiquiátricas), deixo aqui apenas um singelo gráfico sobre a evolução do desemprego em Portugal – cortesia da página de facebook de Fernando Alexandre.

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Da observação do gráfico, e tendo presente que o Governo de Pedro Passos Coelho tomou posse em Junho de 2011, há dois argumentos de Sócrates que são rapidamente desmentidos: (i) a culpa da crise é da austeridade de Passos Coelho – aliás, bastava olhar para o calendário e perceber que foi José Sócrates, e não Passos Coelho, a chamar a Troika e o correspondente Programa de Assistência Económica e Financeira, mas adiante; (ii) o desemprego foi um problema do governo de Passos Coelho - como é fácil de ver, a taxa de desemprego começa a sua clara trajectória ascendente com José Sócrates e é durante o governo liderado por Passos Coelho que o número de desempregados começa a baixar.

Outros gráficos, como o da evolução do défice, poderiam ser apresentados e as conclusões seriam as mesmas. Mas, por um lado, a atenção dispensada a Sócrates tem de ser comedida e, por outro lado, o delírio de opinião é impermeável a factos.

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Apontamentos sobre um mundo paralelo

por Diogo Noivo, em 21.03.18

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Retirado do Facebook

Embora não seja especialista no mercado imobiliário, creio que o preço do metro quadrado em Lisboa é formado pela conjugação de dois factores: (i) o normal funcionamento da lei da oferta e da procura; (ii) a sofreguidão do Zé Tuga que, sem a mais pequena noção do país onde vive, e vendo o mercado do imobiliário em alta, decidiu que ficará rico do dia para a noite, custe o que custar. Caso não concorde com este ponto (ii), caro leitor, atente no anúncio que ilustra este post: o arrendamento de uma maravilhosa cave com 25m2 está ao seu alcance pelo módico valor de 800€ por mês. Top!

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Blogue da semana

por Diogo Noivo, em 18.03.18

Livros, livrarias, literatura, escrita, edição e reflexões oportunas num registo pessoal límpido. Quem gosta disto faça o favor de visitar o Horas Extraordinárias, o interessante e agradabilíssimo blogue de Maria do Rosário Pedreira.

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O absurdo no trato (II)

por Diogo Noivo, em 09.03.18

Uma amiga espanhola está de momento a fazer várias entrevistas de trabalho em Portugal. Desenvolve soluções digitais de gestão para grandes empresas. Embora já tenha trabalhado no nosso país, fê-lo sempre pontualmente, através de empresas sedeadas em Espanha, e para empresas portuguesas na dependência de empresas espanholas. Assim, apesar de Portugal não lhe ser estranho, é a primeira vez que se lança no mercado laboral local. Perguntei-lhe quem a vai entrevistar hoje – director de recursos humanos, responsável pela área de gestão à qual se candidata, ou se outra pessoa. Responde-me, a rir, “vou ser entrevistada por um doutor”. Já aqui escrevi sobre a parolice esclerosada da pátria com os títulos académicos, que se torna ainda mais imbecil quando vista de fora. O grave é que, além de provinciana, no sentido maligno do termo, a mania é fonte de sectarismo.

Isto vem a propósito da reacção negativa de académicos e, mais recentemente, de alunos à ida de Pedro Passos Coelho para o ISCSP na qualidade de professor. Como bem escreve João Gomes de Almeida no i “o argumento de que Passos Coelho é apenas licenciado não só é parolo, como é revelador do estado empoeirado, bafiento e de irrelevância social que abunda na esmagadora maioria das instituições de ensino superior portuguesas”. Detalha, com razoabilidade, que “achar que alguém deve ser professor por ter um Doutoramento e não pelo seu percurso e conquistas profissionais, apenas contribui para termos universidades cada vez mais desatualizadas, teóricas, desligadas do mercado trabalho e que só existem para alimentar uma clientela de professores de carreira”.

Não abdicava da minha formação académica, que me é essencial tanto no plano profissional como no pessoal. Devo-lhe muito. E ainda não lhe pus um ponto final. Mas o seu valor seria limitado se não a tivesse submetido a escrutínio fora dos meandros universitários. Dito de outra forma, a ciência política e os estudos de segurança e defesa não teriam para mim o valor que têm se não os tivesse levado para sítios como o Norte de África, a Turquia, a Etiópia, ou a Tanzânia. Não é preciso ir para tão longe, é certo. Mas é preciso experiência. Devo muito aos livros e aos anfiteatros, que continuo a frequentar com gosto e empenho, mas sem o terreno não teria aprendido convenientemente aquilo que estudei.

A experiência que advém da chefia de um Executivo é única e rara, sobretudo quando exercida no contexto de uma grave crise. Considerar que alguém com este conhecimento e tarimba não tem nada para ensinar a alunos de ciências sociais é fruto de sectarismo, de ignorância e de soberba.

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A Forma da Água

por Diogo Noivo, em 05.03.18

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Se o Fabuloso Destino de Amélie e O Labirinto de Fauno procriassem o resultado seria A Forma da Água. A estética do filme é lindíssima e inolvidável. A história é solvente e os personagens também. E é fiel à ideia subjacente a toda (ou quase toda) a filmografia de Guillermo del Toro: a fantasia não é escapismo, mas sim uma forma de confrontar os horrores do mundo.

Apontam-lhe descuidos e incongruências – dizem, por exemplo, que é pouco plausível que uma simples funcionária de limpeza tenha acesso a um laboratório secreto. Importa recordar que A Forma da Água gira em torno a um monstro anfíbio com poderes curativos. Portanto, e ao contrário de The Post, esta longa-metragem não está obrigada a uma adesão rigorosa à realidade. Pela parte que me toca, o Óscar de Melhor Filme e o de Melhor Realizador estão bem entregues.

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PCP sensacional

por Diogo Noivo, em 02.03.18

Roubando, com a merecida vénia, o título de uma maravilhosa série de posts no Malomil, Portugal é sensacional. Não são as praias, nem a gastronomia, nem o clima, nem a História, nem a bola. São as pérolas. Olhando com atenção descobrem-se pérolas raras, preciosidades que, não sendo endémicas, têm no nosso país um brilho especial. Hoje, a concha é o Diário de Notícias e a pérola um artigo de Jorge Cordeiro, distinto militante do PCP.

Logo à cabeça do texto, Jorge Cordeiro diz ao que vem: “A vertigem de elogios, dignos de evocações póstumas, sobre o legado governativo de Passos Coelho deixa antever o pior.” Numa palavra, medo. Para Cordeiro, algo de nefasto se avizinha. Mas medo de quê? De que exista no sistema político nacional um partido que, por razões ideológicas, se recuse a condenar os brutais ataques com armas químicas na Síria? De que exista em Portugal uma força política cuja adesão aos valores e aos princípios de um Estado de Direito Democrático é de tal forma débil que se recusa a censurar as atrocidades cometidas pelo totalitarismo vigente na Coreia do Norte? De que na Assembleia da República tenha assento uma bancada de tal forma dominada pela cegueira ideológica que é incapaz de aprovar um voto de pesar – note-se bem, de pesar – por um dos mais importantes empresários portugueses? De que, perante a calamidade humanitária e o autoritarismo do regime venezuelano, haja em Portugal quem alinhe com Nicolás Maduro? Não. Nada disto. Para Jorge Cordeiro, o problema está num eventual regresso ao “arco da governação” e na manutenção dos “dogmas neoliberais” – críticas a dogmas vindas do PCP é como ter Bruno de Carvalho a queixar-se dos excessos de linguagem no futebol português. Mais preciosa (e rara) que esta pérola só mesmo a normalidade com que, ano após ano, convivemos com este radicalismo.

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Um pedido

por Diogo Noivo, em 23.02.18

Parece que no período em que foi bastonária Elina Fraga montou uns cambalachos na Ordem dos Advogados, práticas que, entre outras coisas, sugerem nepotismo e gestão ‘criativa’. Isabel Meireles, nomeada por Rui Rio para a Comissão Política Nacional do PSD e, portanto, colega de Elina Fraga, esteve na reunião da Ordem que votou por unanimidade uma auditoria ao consulado da anterior bastonária, um levantamento que destapou as tais práticas pouco edificantes de gestão. Entretanto, Rui Rio marca uma reunião da Comissão Política Nacional e não convoca o líder da bancada em funções que, meio atontado, toma conhecimento da reunião pela imprensa. E por falar em líder da bancada, Fernando Negrão candidatou-se à liderança dos parlamentares do PSD e obteve o pior resultado de sempre em eleições do género, havendo até deputados que estavam na lista dele (pelo menos dois) que decidiram não apoiar o candidato no boletim de voto. Abertas as urnas saiu de lá o faroeste: acusações de falta de legitimidade, insultos, birras, arengas e um rol de enfados épicos. Antes de tudo isto acontecer, o lugar-tenente de Rui Rio, Salvador Malheiro, terá andado a transportar militantes em carrinhas, pastoreando-os até ao momento em que votavam em Rio – militantes que, certamente para combater o frio, vivem aos 17 na mesma casa.

Não faço a mais pequena ideia do que se passa no PSD. Não sou nem nunca fui militante e, por isso, não conheço os meandros do partido. Mas gostava de perceber o que está em curso. Assim, solicito humildemente aos profissionais do comentário que andaram meses a fio a dizer que Pedro Passos Coelho era a raiz de todos os males do partido e que, consequentemente, a sua saída resolveria todos os problemas, que venham por favor a terreiro – sem rir – explicar o que está a acontecer. Grato pela atenção.

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O gozo de criar problemas

por Diogo Noivo, em 20.02.18

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O Governo das Baleares apresentou um projecto de decreto que exige o conhecimento da língua catalã aos profissionais de saúde daquela comunidade autónoma. Dito de outra forma, para exercer a profissão de enfermeiro ou de médico nas Baleares passará a ser obrigatório o domínio do catalão. Daqui resulta que a competência e currículo dos profissionais de saúde se subordinará aos seus conhecimentos linguísticos – o melhor cardiologista do mundo não terá lugar nas Baleares caso não fale catalão. A ideia não é inovadora, pois nos sistemas de ensino catalão e basco sucede algo em tudo semelhante.

Úrsula Mascaró, empresária e conhecida desenhadora de sapatos, criou um movimento contra o decreto do Govern Balear sob o mote “Os idiomas não salvam vidas”. Isto é, limita-se a dizer o óbvio: o rei vai nu. Se no espaço europeu nos esforçámos por conseguir a livre circulação de pessoas e bens, no âmbito intra-estatal os diferentes nacionalismos estão apostados em políticas culturais que vão em sentido contrário e que prejudicam os cidadãos - em nome dos quais os nacionalismos dizem actuar. O surpreendente é que há quem defenda isto.

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Estava na cara

por Diogo Noivo, em 14.02.18

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De Amorim

 

No dia seguinte às eleições catalãs, atirei-me para fora de pé ao antever problemas no entorno independentista. Enquanto bloco partidário no parlamento, o independentismo ia sofrer um duro golpe – além do desferido pelos eleitores nas urnas. Não havia certezas, mas os resultados sugeriam uma colisão a breve trecho entre a ERC e o Junts per Cat. A análise foi vista como facciosa por alguns amigos e conhecidos favoráveis à causa independentista.  

No entanto, as coisas são como são. Desde o dia das eleições os sinais de ruptura sucedem-se. Puigdemont reconheceu que “esto se ha acabado”, acrescentando “los nuestros nos han sacrificado”. Hoje o El Mundo noticia o fim aparente do compromisso entre as duas forças independentistas, com o Junts per Cat a virar as costas a uma ERC que recusou a alteração legislativa que permitiria a investidura de Puigdemont à distância. Os partidários do unilateralismo e do ataque à Constituição estão a ser vítimas da estratégia que implementaram. Pelo contrário, aqueles que entendem que a identidade nacional catalã é compatível com a espanhola vêem reforçado o seu voto no Ciudadanos. O PP, partido ao qual foi infligida uma pesada derrota nas eleições catalãs, volta a ter espaço para respirar – um obséquio de Puigdemont y sus muchachos que, como quem os apoia, ainda não perceberam o que se está a passar.

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Indignações

por Diogo Noivo, em 12.02.18

Lavra um ódio incendiário no twitter em Espanha. O combustível é um artigo de Javier Marías intitulado Ojo con la barra libre (atenção ao bar aberto). O tema, claro, é a fonte de todas as indignações do momento: o #MeToo.

Deixando claro que a rebelião contra o abuso sexual só pode ser algo positivo, Marías lembra que o uso do sexo como moeda de troca nos meandros do cinema é tudo menos uma novidade – o termo couch casting datará pelo menos de 1910 –, uma prática que contou com a anuência descomplexada de muitas aspirantes a actriz. Mais importante, Marías nota que “dar crédito às vítimas pelo simples facto de se apresentarem como tal é abrir a porta a vinganças, a represálias, a calúnias, a difamações e a ajustes de contas”. É uma opinião.

No entanto, ateou-se a pira moral e atirou-se o homem lá para dentro. Pelo caminho, e porque as labaredas são de monta, atirou-se também o jornal El País, onde Javier Marías publicou o texto em apreço. Pedem-se demissões – e até castrações. Põe-se em causa a obra literária do autor e questiona-se a utilidade do jornal. Usam-se hashtags como StopPatriarcado e expressões como bílis cerebral. Alega-se que Marías defende o direito de pernada e, sem surpresa, recorre-se a palavras como misógino, machista, repugnante, casposo, idiota e a tantas outras que o pudor me impede de reproduzir.

Opiniões e #MeToo à parte, razão tem Juan Cruz quando defende que impera a gritaria e o lugar-comum à custa da liberdade de expressão. Embrutecemos.

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The Post

por Diogo Noivo, em 05.02.18

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The Post é uma boa história. E uma boa ideia. É por isso uma pena a hagiografia e o tom propagandístico – o próprio Spielberg reconheceu que o filme contém um conjunto de mensagens endereçadas ao Presidente Trump. Sei que destoo de boa parte dos meus colegas de DO, mas um filme que pretende retratar um caso verídico e com relevância histórica não pode abdicar da plausibilidade. Os personagens de The Post não têm arestas nem profundidade. Vivem num mundo de certo e errado onde a ambiguidade é tão-somente uma miragem, e são donos de uma bússola moral irrepreensível. Pura ficção, portanto. Creio que tudo isto impede The Post de entrar na galeria dos grandes filmes sobre jornalismo onde figuram All The President’s Men ou, mais recentemente, Spotlight. Até a esgrima bem cadenciada de Frost/Nixon o supera. São inegáveis as virtudes de Meryl Streep, embora, pensando nos Óscares, me pareça que Frances McDormand está mais próxima do galardão com o seu desempenho em Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. Em resumo, uma boa história que se perde em recados e endeusamentos.

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Metallica tocam "a minha casinha" dos Xutos em Lisboa.

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Watu Wote

por Diogo Noivo, em 01.02.18

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A furgoneta viajava de Nairobi para Mandera, uma cidade queniana junto à fronteira com a Somália. Já próxima do destino, é atacada por um pequeno grupo da organização terrorista al-Shabab. Se dúvidas houvesse, a abordagem inicial dos jihadistas clarificou o propósito da ofensiva: após metralharem a furgoneta, entraram no veículo e exigiram aos passageiros muçulmanos que sinalizassem os cristãos a bordo. Foi em Dezembro de 2015. No ano anterior, em Novembro, a organização terrorista perpetrara um atentado em tudo semelhante na mesma região e no qual foram executados 28 não-muçulmanos.

Contudo, desta feita o desfecho foi menos trágico. Ainda antes dos jihadistas entrarem a bordo, os muçulmanos ofereceram vestes islâmicas aos cristãos e, já perante os terroristas, negaram-se a delatar os seus “irmãos e irmãs”. Temendo a chegada da polícia – estas viagens são normalmente escoltadas pelas forças de segurança locais – e surpreendidos pela resistência dos passageiros, a célula do al-Shabab abandonou o local (não sem antes, lamentavelmente, matar duas pessoas e ferir seis).

A história deste atentado tem agora adaptação cinematográfica com Watu Wote (Todos Nós), uma produção de quenianos e alemães dirigida pela realizadora Katja Benrath, um filme nomeado para Melhor Curta-Metragem na edição dos Óscares deste ano.  Mais do que uma história de solidariedade e bravura, o atentado e o filme que o retrata são um tratado sobre identidade comunitária. Em Identidade e Violência, Amartya Sen defende que a violência política hodierna é sustentada pela ideia de que as pessoas se definem mediante uma identidade única, segregadora e frequentemente beligerante. De acordo com Sen, a arrumação do mundo em civilizações tende a obscurecer a pluralidade de identidades de cada ser humano, subjugando-os a traços singulares, em regra étnicos ou religiosos. Esta é a lógica do jihadismo, que pretende impor uma só forma de Islão, totalitário, incompatível com identidades nacionais, com identidades locais, com lealdades familiares, com preferências culturais. Em tom humorístico, escreve Amartya Sen que a “mesma pessoa pode ser, sem qualquer contradição, um cidadão americano de origem caraibense, com antepassados africanos, um liberal, uma mulher, um vegetariano, um maratonista, um historiador, um professor, um romancista, um feminista, um heterossexual, um defensor dos direitos dos homossexuais, um amante de teatro, um activista ambiental, um entusiasta do ténis, um músico de jazz e alguém profundamente convicto de que existem seres inteligentes no espaço”. Todos temos um conjunto de identidades, que coexistem. Pertencemos simultaneamente a várias comunidades e compete-nos decidir a cada momento qual a mais importante. São muitos os muçulmanos que percebem isto – a maioria, na verdade. Felizmente, alguns viajavam de Nairobi para Mandera em Dezembro de 2015.

 

O trailer pode ser visto aqui.

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Os comboios de Lula

por Diogo Noivo, em 29.01.18

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Quando confrontada com a natureza autoritária do fascismo italiano, ou com o carácter violento de Mussolini, uma parte da intelligentsia europeia a viver em Estados democráticos respondia “pelo menos os comboios andam a horas”. A inexistência de liberdades políticas, os fuzilamentos, o bombardeamento da Abissínia, os abusos e as arbitrariedades eram amnistiados pela eficiência das políticas públicas. Em boa verdade, a eficiência era normalmente o segundo argumento de defesa, sendo que o primeiro passava por evidenciar o amplo apoio popular do qual Il Duce gozava em Itália. Mais do que aplicar o entendimento simplista dos escritos de Maquiavel segundo o qual os fins justificam os meios, estas elites europeias recorriam aos méritos da governação e ao respaldo popular para ilibar Benito Mussolini e o regime por ele instituído.

Salvaguardadas as devidas distâncias, desde logo no que respeita à natureza dos regimes, algo de muito semelhante ocorre actualmente com o caso de Lula da Silva. De acordo com algumas elites europeias, Lula até pode ser corrupto, mas tirou mais de 20 milhões de pessoas da pobreza e lidera nas intenções de voto. Hoje como no passado a eficiência e o apoio popular oferecem um salvo-conduto. E, hoje como no passado, quem o oferece não se encontra sujeito ao sistema que indulta. Os princípios subordinam-se ao utilitarismo míope – louvam Lula por ter retirado 20 milhões da pobreza porque não entendem que a corrupção endémica no Brasil, na qual Lula participou, amarra muitos mais à miséria. Basta que alguém mude a cor do comboio, que lhe acrescente três ou quatro carruagens e que construa estações novas e modernas para que nos esqueçamos daquilo que importa: se o que é essencial é condenável, o comboio é irrelevante.

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Não há Direito

por Diogo Noivo, em 25.01.18

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Na base da condenação de Lula da Silva está um apartamento em São Paulo, um triplex em Guarujá. De acordo com a Justiça brasileira, o apartamento é de Lula, pois será um presente da construtora OAS destinado a compensar os bons ofícios do antigo Presidente. De acordo com Lula, o apartamento não é seu. De acordo com Lula e de acordo com Daniel Oliveira, que hoje, no Expresso, escreve “[t]udo se resume, no fim, à visita do casal [Lula e mulher] ao apartamento e a obras que terão sido por eles pedidas”. Tem razão. Pedir que sejam feitas umas obras nada demonstra sobre a propriedade do imóvel. Da mesma forma, o facto de ‘Dona Marisa’, mulher de Lula, ter decorado o apartamento nada nos diz sobre quem faria uso do triplex. Mutatis mutandis, Lula e José Sócrates são potentados do altruísmo. Mostraram zelo e cuidado com imóveis de terceiros e, em vez de agradecimentos e deferências, receberam acusações da Justiça. Não há direito.

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Godot e as listas transnacionais

por Diogo Noivo, em 23.01.18

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O Brexit parece ser o Godot da política europeia, mas ao contrário. Se na peça de Beckett Godot não chega, da União Europeia Godot não sairá. Enquanto o personagem não se decide vamos discutindo como será a Europa sem o Reino Unido. A confirmar-se o Brexit, vagarão 73 lugares no Parlamento Europeu. Há quem pretenda simplesmente eliminá-los. E há quem pretenda transformá-los em cadeiras a ocupar por deputados eleitos através de um círculo eleitoral único, supranacional, destinado a representar a Europa como um todo. As inclinações para um lado e para o outro obedecem em grande medida aos movimentos das placas tectónicas europeias aqui identificadas pelo Luís Naves.

 

Indo ao detalhe, e segundo a proposta em debate, 22 dos 73 lugares serão distribuídos pelos 27 Estados-Membros com o intuito de colmatar deficiências na representação parlamentar, pois os rácios actuais de eleitor por deputado europeu são bastante desequilibrados. A título de exemplo, um parlamentar francês representa 900,833 eleitores, o que compara com 72,401 eleitores por cada deputado de Malta ou com 96,042 por cada deputado do Luxemburgo. A fórmula em vigor beneficia os países mais pequenos em detrimento dos maiores e a redistribuição de 22 lugares permitirá atenuar os desequilíbrios existentes.

 

Os restantes 51 lugares serão então ocupados mediante listas transnacionais, uma ideia com méritos. Em primeiro lugar, introduz no debate público de cada Estado-Membro temas que são do interesse comum e sobre os quais as instituições europeias têm um papel determinante. Em segundo lugar, reforça a identidade europeia junto dos eleitores. Em terceiro lugar, e pelo menos em tese, cria um grupo de deputados livres de interesses paroquiais.

 

Sendo certo que nenhum Estado-Membro perderá deputados – o que está em causa é a distribuição dos lugares britânicos – há, contudo, boas razões para encarar a inovação com receio. Por um lado, é preciso definir como serão elaboradas estas listas, garantindo que não se transformarão num expediente para aumentar a força dos Estados com maior poder. Por outro lado, trata-se de mais um passo na direcção de uma Europa federal, o que é problemático (et pour cause não pode ser feito à revelia dos cidadãos dos vários Estados-Membros). Assim, são legítimas as dúvidas do nosso Adolfo Mesquita Nunes – pelo contrário, já não é legítimo embrulhar o assunto na lógica de trincheira esquerda vs. direita, abordagem seguida por Rui Tavares, que apenas serve para obscurecer o debate.

 

Onde discordo do Adolfo é, creio, na conclusão. Todas as dúvidas e receios podem ser acautelados e, como tal, os méritos da ideia impõem-se. As listas transnacionais não têm de se constituir numa antecâmara do federalismo. Podem, aliás, ser uma maneira eficaz de explicar aos europeus – cidadãos e governos – que a identidade europeia é compaginável com as identidades nacionais, recusando desta forma o jogo de soma zero que os populismos (e os federalismos desenfreados) desejam impor. Numa época em que os radicais nos querem vincular uma a identidade única – ideológica, nacional, religiosa – não é má ideia aproveitar as circunstâncias para demonstrar pluralismo. Se Godot sair a Europa deve transformar o episódio de fraqueza em sinal de força e deixar claro que mais União não corresponde forçosamente a menos Estados.

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