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Jornais, jornalistas e relações fiduciárias

por Diogo Noivo, em 01.04.20

A imprensa e os jornalistas dependem da relação fiduciária que estabelecem com leitores, ouvintes e espectadores. Uma vez quebrado o laço de confiança, não há injecções de capital nem ajudas de Estado que os salvem.

Vem isto a propósito de três episódios ocorridos nas últimas semanas. Primeiro, a SIC emitiu uma peça sobre tumultos em Londres motivados pelo coronavírus. Ora esses motins nunca aconteceram e as imagens que ilustravam a ‘notícia’ eram de um protesto ocorrido em 2011. Depois, vários órgãos de comunicação social publicaram um documento falso que se fazia passar por decreto do governo com as medidas para o estado de emergência. Hoje, parte da imprensa voltou a cair no truque do documento oficial falso, desta feita sobre o alegado cancelamento do projecto do aeroporto no Montijo.

O caso do motim em Londres espelha inépcia grosseira e falta de profissionalismo no seu máximo esplendor. Já a publicação dos documentos falsificados revela pelo menos falta de atenção, uma vez que era fácil suspeitar da sua veracidade – recebi o suposto decreto do estado de emergência através das redes sociais e mal terminei de ler a primeira página já estava a franzir o sobrolho.

Pede-se mais, sobretudo num momento de crise e ansiedade. Todos erramos, evidentemente, mas este tipo de erros não são justificáveis. Convidam-nos a assinar jornais, a ajudar a imprensa, mas não se garante a lisura e o rigor na produção de conteúdos. Suspeito que, a continuar por este caminho, a decadência será inevitável, com elevado prejuízo para a qualidade da democracia e para o direito (e necessidade imperiosa) de estar informado.

Blogue da Semana

por Diogo Noivo, em 29.03.20

Os tempos são de clausura. Sendo certo que as oportunidades impostas nunca são tão prazenteiras como as voluntárias, a reclusão em casa permite meter as leituras em dia. Com isso em mente, o Ministério dos Livros é o nosso blogue da semana. Tem sugestões para todos os gostos, sinopses em barda e alguma análise. Se não sabe a que páginas se dedicar, espreite a nossa escolha da semana e pode ser que encontre companhia para a quarentena.

Ventos pandémicos de Espanha [Pub]

por Diogo Noivo, em 22.03.20

Espanha tem mais de 20 mil contagiados e ultrapassou a barreira dos 1000 mortos. O dobro do previsto pelo governo para esta fase da pandemia. Muitos hospitais acabaram com as especialidades médicas: já não há obstetras nem oncologistas, pois estão todos alocados ao esforço de combate ao Covid-19. Assumiram também ter chegado o momento das decisões horrorosas, uma vez que não há capacidade para tratar todos os pacientes. Estão a decidir quem vive e quem morre.

Porque Portugal não é uma ilha, há três lições a tirar dos ventos que vêm de Espanha. Em primeiro lugar, ser proactivo no combate à pandemia. Não há medidas perfeitas, mas há medidas tardias. Hoje, no Observador

A linha invisível

por Diogo Noivo, em 31.01.20

A 7 de Junho de 1968 a Europa estava com os olhos postos no outro lado do Atlântico. As cerimónias fúnebres de Robert Kennedy, senador norte-americano e irmão do antigo Presidente John Fitzgerald Kennedy, captavam o interesse da generalidade da imprensa mundial. Mas, nesse mesmo dia, do lado de cá do oceano, ocorreu um facto que mudaria para sempre a história do País Basco e de Espanha: a organização nacionalista basca ETA matou pela primeira vez.

Txabi Echebarrieta e Iñaki Sarasketa, ambos membros da ETA, viajavam num carro roubado pela estrada Nacional I Madrid-Irún. Tinham como destino Beasáin, em Guipúscoa, localidade onde receberiam um carregamento de explosivos. Por força de obras na via, tomaram um desvio pela estrada local de Aduna, também na província guipuscoana, onde passaram por uma operação de controlo de tráfego da Guardia Civil composta por dois militares em motociclo. Porventura por ter associado o carro a uma informação interna sobre uma viatura roubada, José Antonio Pardines, um dos gendarmes, seguiu-os e deu-lhes ordem para parar. Estacionou a motorizada em frente ao carro e pediu a documentação aos dois ocupantes. Após detectar irregularidades foi alvejado cinco vezes no torso.

O cadáver foi encontrado com o coldre da arma de serviço fechado, o que demonstra que Pardines foi surpreendido - facto, de resto, corroborado por análises forenses e testemunhos. Ao contrário da versão divulgada pela propaganda etarra, o jovem Guardia Civil de 25 anos não morreu numa troca de tiros, mas foi executado a sangue-frio. A 7 de Junho de 1968 a ETA decidiu atravessar a linha que separa aventureirismo e terrorismo para dar início a uma espiral de violência que só terminou em 2018.

A história do primeiro homicídio terrorista da ETA foi agora adaptada à ficção televisiva na série 'La Línea Invisible', a estrear em Abril no serviço de streaming da Movistar. Teve como consultor o historiador Gaizka Fernández Soldevilla, um dos mais prolíficos e rigorosos investigadores da história do terrorismo nacionalista basco, autor de vários artigos e livros, entre os quais a primeira monografia dedicada ao caso de José Antonio Pardines. O trailer é sugestivo e a série um dos acontecimentos televisivos do ano em Espanha. A não perder.

m'espanto às vezes

por Diogo Noivo, em 22.01.20

Há algo que me fascina no caso de Isabel dos Santos: aqueles que a apoiaram, que enalteceram o seu investimento na economia portuguesa, que se desdobraram em vénias, que acusaram de provincianismo quem recomendava prudência (troque “Isabel dos Santos” por “República Popular da China” e verá o futuro, caro leitor), desapareceram. Pura e simplesmente desapareceram. A Helena Matos escreve no Blasfémias que esta gente lhe dá asco. Eu ainda estou na fase da estupefacção.

Ainda é cedo

por Diogo Noivo, em 08.01.20

George W. Bush foi eleito em 2000 com menos votos populares do que o seu adversário. Cedo surgiram comentários visceralmente indignados. Era anti-democrático, diziam. Recordo ler análises que encontravam a causa do problema na natureza capitalista do sistema, sempre favorável à direita.

A vaga de irritação repetiu-se em 2016, com a chegada de Donald Trump à Casa Branca. Mais uma vez, os Estados Unidos da América entregavam o poder a um candidato que não obtivera a maioria do voto popular. O sistema eleitoral era perverso, pois desequilibrava a competição democrática. Trump era o poster boy de todos os males da democracia representativa, sempre favorável aos interesses instalados e contrária à vontade popular. Por cá, os suspeitos do costume rasgaram as vestes e por pouco não apelaram à revolução.

 

Ontem, Pedro Sánchez foi eleito presidente do governo espanhol no Congresso dos Deputados. Os votos a favor da investidura representam cerca de 10,9 milhões de eleitores e os votos contra cerca de 11,3 milhões. Não ouvi qualquer crítica. Será porque ainda é cedo – e nada terá que ver com a orientação política do partido de governo e das forças políticas que o respaldam. Estou certo que mais dia, menos dia alguém se imolará.

Pensamento da Semana

por Diogo Noivo, em 22.12.19

Os radicalismos dependem de discursos de vitimização. Representam o povo oprimido, sem voz, esquecido pelo poder incumbente. Por isso, mandar calar radicais dá-lhes argumentos. O melhor é deixá-los falar, sinalizando as incongruências e delatando o radicalismo. Acabarão inevitavelmente por cair em disparates grandiloquentes como "temos de perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular".

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Injustiças

por Diogo Noivo, em 27.11.19

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Apresentou-se aos eleitores como “mulher, afrodescendente e gaga”. O partido pelo qual se candidatou confirmou que, de facto, era “mulher, afrodescendente e gaga”. E, para dissipar qualquer dúvida que pudesse existir, a comunicação social atestou repetidamente que a candidata era “mulher, afrodescendente e gaga”. Estas três características foram o alfa e o ómega do projecto político em apreço, com todos – candidata, partido, e órgãos de comunicação social – a resumir a mensagem ao sexo, à melanina e às dificuldades de fala.

Por isso, as críticas lançadas a Joacine Katar Moreira e ao partido LIVRE são manifestamente injustas. Eleita, a deputada é escrupulosa no cumprimento do seu programa eleitoral: é mulher, afrodescendente e gaga. Nunca um/uma candidat@ foi tão rigoros@ no cumprimento do que afirmou em campanha – julgo que esta é a forma correcta de escrever a frase na novilíngua vigente.

Ninguém quis falar de política, de ideias, de convicções. A definição de interesse público e a forma de o defender estiveram em parte incerta durante toda a contenda eleitoral. A comunicação política foi propositadamente centrada em aspectos inócuos, já que a síntese “mulher, afrodescendente e gaga” nada nos diz sobre a experiência, a competência e o discernimento da pessoa para o exercício de funções públicas. Por isso, exigir à deputada e ao partido coisa diferente é injusto.

A manifestação das Forças de Segurança

por Diogo Noivo, em 21.11.19

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Por dever de um ofício passado, dialoguei e negociei diariamente com os sindicatos da PSP e com as associações profissionais da GNR ao longo de quase três anos. Terminadas essas funções, o respeito que tinha pelas Forças de Segurança transformou-se em profunda admiração.

Sei que muitas das reivindicações que estão na base da manifestação de hoje são inteiramente justificadas. Falta de material e de equipamento, postos e esquadras em condições deploráveis, e insuficiência de efectivo em algumas zonas do país são queixas com basto fundamento. Sei também que nenhum governo português terá capacidade financeira para colmatar os problemas existentes, uma dificuldade muito agravada pela calamitosa gestão do actual Executivo na área da Administração Interna.

Dito isto, há quatro aspectos que têm sido convenientemente esquecidos pelas estruturas sindicais e que, salvo raríssimas excepções, a comunicação social não percebe (honra seja feita ao Diário de Notícias, que por sistema aborda os temas relacionados com as Forças de Segurança com a atenção e profundidade devidas).

 

1. Carreiras e remunerações. Ao longo de décadas, os sucessivos governos – de esquerda e de direita – foram incapazes de aumentar os salários na PSP e na GNR de forma estruturada porque isso implicaria redesenhar por completo a organização de carreiras e de categorias profissionais, uma caixa de pandora que ninguém quer abrir. Em compensação, criaram-se subsídios e foi-se aumentando o seu valor – subsídio de patrulha, subsídio de operações especiais, subsídio de binómio cinotécnico, subsídio de fardamento, etc. Em resultado, entre 20% e 50% da remuneração mensal de um elemento das Forças de Segurança depende de subsídios, que são variáveis, o que faz com que uma parte importante dos polícias e dos militares da GNR não saibam ao certo quanto ganham por mês. Em síntese, em vez se de pensar as remunerações de maneira racional e sustentável, optou-se por ir colocando remendos. A alteração deste estado de coisas é onerosa, mexe com interesses corporativos e, por isso, conta com a firme oposição de sindicatos e associações profissionais. Porém, se nenhum governo tiver a coragem de mexer neste aspecto, o problema continuará a agravar-se.

 

2. O valor político dos subsídios. Na época em que trabalhei no MAI, e apesar do programa de assistência financeira ao qual Portugal se encontrava sujeito, foi possível aumentar o subsídio de fardamento em 100%, passando de 25€ mensais para 50€. Este complemento salarial tem duas particularidades: está isento de tributação fiscal; e, não obstante se designar “de fardamento”, pode ser usado para qualquer fim, sendo por isso parte do salário. Na altura, foi proposto aos representantes sindicais a alternativa de ser o Estado a fornecer o fardamento, o que naturalmente implicaria o fim do dito subsídio. Sem surpresa, os sindicatos não aceitaram a proposta, entre outras razões porque a manutenção de subsídios lhes permite afirmar que o salário de muitos polícias ronda os 700€ (esquecendo-se de referir que este valor é o salário base) e, dessa forma, conseguir a simpatia da opinião pública para mais reivindicações.

 

3. A falta de efectivos. Há zonas do país onde faltam profissionais. Por outro lado, os poucos que estão ao serviço têm mais de 45 anos de idade. É a mais absoluta das verdades. Contudo, esquecem-se habilmente os sindicatos e as associações profissionais que parte do problema se deve à alocação de recursos humanos, em particular aos milhares de elementos da PSP e militares da GNR que se encontram em funções de apoio operacional (vulgo ‘funções administrativas’ ou 'de secretaria'). São funções cobiçadas, desde logo porque, em regra, decorrem em horário de expediente, não implicando por isso a realização de turnos penosos. Os representantes sindicais não o referem porque têm associados a desempenhar funções de apoio operacional, que obviamente desejam manter. Uma melhor alocação de recursos não resolverá a falta de pessoal – até porque há funções administrativas que só podem ser realizadas por gente da PSP e da GNR –, mas ajudaria bastante a mitigar o problema.

 

4. O aparecimento Movimento Zero. Criado há não muito tempo por profissionais da PSP e da GNR, não tem liderança nem porta-vozes. É aquilo a que agora se chama ‘movimento inorgânico’. Teme-se que nas suas fileiras haja gente de extrema-direita e indivíduos apostados em desestabilizar as Forças de Segurança.

Em Julho deste ano, membros do Movimento Zero viraram as costas ao Ministro da Administração Interna e, mais grave, ao Director Nacional da PSP numa cerimónia pública. Julgo que foi a primeira vez que tal aconteceu. Dada a natureza hierárquica das Forças de Segurança e o espírito de corpo que as caracteriza, foi um gesto muito sério. A classe política – governo e partidos da oposição – foi incapaz de perceber a seriedade do acontecimento. Salvo honrosas excepções, a comunicação social noticiou o sucedido com a mesma atenção com que informa sobre a ocorrência de um acidente rodoviário.

Não sei o que é o Movimento Zero nem quem o conduz. É o resultado da profunda insatisfação que existe nas Forças de Segurança, agravada pelo alheamento do actual governo. Mas, não menos importante, é fruto da ineficácia dos sindicatos e das associações profissionais: até há bem pouco tempo, a PSP tinha 12 sindicatos e a GNR pelo menos cinco, mas juntos não representavam metade do efectivo. Não me surpreende que tenham sido ultrapassados por um grupo sem rosto que ninguém controla. O inenarrável André Ventura e o PNR tentam apanhar boleia do Movimento, no qual suspeito que têm apoiantes. Mas aposto que o Movimento Zero não se deixará capturar por interesses partidários, com tudo de bom e de mau que daí resulta.

 

São muitos os problemas em causa, alguns complexos e antigos. Por incapacidade dos vários governos e por resistência dos sindicatos e associações profissionais, o que eram pequenas dificuldades transformou-se em desafios graves e prementes. Porque não vejo quem seja capaz de inverter a marcha, creio que a manifestação de hoje é apenas o início de algo que veio para ficar.

Blogue da semana

por Diogo Noivo, em 27.10.19

A escolha da semana não é uma novidade no DO, mas merece todo o (repetido) destaque. A agenda política internacional é cada vez mais omnipresente, não obstante o esforço de vários nacionalismos em resumir a existência social e política a fronteiras mais ou menos imaginadas. Aliás, dá-se o aparente paradoxo de muitos desses nacionalismos viveram à boleia de interesses globais de grandes potências. Quem queira perceber isto – e muito mais – pode contar com a voz informada, serena mas empenhada, do José Milhazes. O Da Rússia é, pois, o nosso blogue da semana.

Pensamento da Semana

por Diogo Noivo, em 27.10.19

Inventar um passado etéreo, alertar para um presente de degenerescência nacional (identificando o inimigo responsável pela decadência) e ambicionar com fervor um porvir de regeneração da nação e do seu povo. Esta sequência, que a Ciência Política apelidou de "estrutura triática", está presente em todos os nacionalismos radicais com propósitos de mobilização social. Supreende que em 2019 ainda haja quem seja incapaz de a intuir e alinhe em delírios propagandisticos. 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Criar corvos na Catalunha [pub]

por Diogo Noivo, em 23.10.19

Os apelos ao diálogo entre Madrid e Barcelona são extemporâneos. Há um conflito aceso e duro dentro da própria sociedade catalã, e é por aí que deve começar o diálogo. Na sua essência, é um problema de corvos. Explico porquê aqui, no Observador.

Palavra de ordem: Apertar

por Diogo Noivo, em 16.10.19

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Há pouco menos de um mês o Centre d'Estudis d'Opinió, um instituto de estudos sociais na dependência da Generalitat (Governo autonómico da Catalunha), inquiriu os catalães sobre sentimentos de pertença nacional. Insuspeita de ser uma maquinação españolista, a sondagem ofereceu resultados claros: 41.2% sentem-se tão catalães como espanhóis e 20.1% apenas catalães – dividindo-se os restantes em ‘apenas espanhol’, ‘maioritariamente espanhol’ ou ‘maioritariamente catalão’.

Entre outros méritos, estes resultados demonstram que a violência urbana em curso na Catalunha é sobretudo o reflexo de um conflito entre catalães. Não é Espanha que se está a romper, mas sim a Catalunha.

 

Os tumultos dos últimos dias têm como causa imediata a sentença do Tribunal Supremo que condenou 12 líderes independentistas a penas de prisão que vão de 13 anos a 1 ano e 8 meses. Sobre esta sentença muito há a dizer, mas são dois os pontos essenciais. Primeiro, as condenações eram inescapáveis. No seu conjunto, estes indivíduos violaram deliberadamente a Constituição, violaram deliberadamente o estatuto de autonomia da Catalunha, ignoraram com dolo sentenças de vários tribunais, e ignoraram advertências dos técnicos do próprio parlamento catalão. Para cometer os crimes recorreram a dinheiro público, o que constitui em si mesmo um crime. Em Espanha, como em qualquer Estado de Direito, as condenações eram uma inevitabilidade.

Segundo, a sentença é leve. As penas definidas pelo Tribunal são consideravelmente inferiores às pedidas pela Fiscalía (Ministério Público) e, mais importante, o crime de Rebelião, o mais gravoso de todos, foi descartado. Além do mais, o Tribunal deixou a porta aberta à aplicação do regime penitenciário de tercer grado, que na prática significa que os condenados apenas terão de pernoitar na prisão de segunda-feira a quinta-feira. A decisão sobre a aplicação deste regime não depende das instituições espanholas, mas sim das instituições catalãs que estão na dependência da Generalitat. Sentença mais leve era impossível.

 

Se a sentença é leve, qual a razão da violência nas ruas? São duas. Por um lado, unir uma família desavinda. Desde o alegado referendo de 1 de Outubro de 2017 que os partidos e movimentos independentistas vivem em ambiente de tensão e desconfiança mútuas. Mais grave, perderam influência sobre os seus eleitores, que se sentem manipulados (prometeram-lhes uma independência que, sabemos hoje, os líderes partidários nunca tiveram real capacidade e intenção de cumprir). A sentença do Tribunal Supremo ofereceu aos partidos e movimentos separatistas um expediente ideal para mobilizar e reunir as hostes. Não foi por acaso que Quim Torra, presidente da Generalitat, homem favorável a teses étnicas sobre a nação catalã, disse aos manifestantes que é preciso “apertar”.

Por outro lado, o radicalismo catalão aposta numa repetição do passado. Os dois últimos anos de tensão na Catalunha mostram que o único momento em que o separatismo foi capaz de suscitar simpatias internacionais ocorreu na sequência da intervenção policial destinada a impedir o suposto referendo. A reacção de Espanha pagou dividendos ao nacionalismo radical. Assim, é preciso provocar – e provocar muito – uma nova reacção policial que permita ao nacionalismo catalão remendar os rasgões internos e potenciar a sua causa além-fronteiras. Logo, e mais uma vez, é preciso “apertar”.

Resta saber quem mais sofrerá com tantos apertos.

Nobel da Paz

por Diogo Noivo, em 11.10.19

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O prémio Nobel da Paz foi atribuído a Abiy Ahmed Ali, Primeiro-Ministro etíope, um homem que está a tentar abrir a arena política do país que lidera – creio que liderança é, de facto, o termo correcto. Legalizou partidos políticos, libertou jornalistas detidos, deu à Justiça condições para acusar funcionários do Estado envolvidos em práticas de tortura, mitigou as tensões étnicas latentes. Abriu o espaço necessário para que a Etiópia elegesse de forma livre e plural Sahle-Work Zewde, actualmente a única mulher a ocupar uma Chefia de Estado em África. Mais importante, conseguiu um acordo de paz com a Eritreia, algo praticamente impensável até então. 

Está por ver se estas mudanças são estruturais, ou se dependem de Abiy Ahmed Ali. Está também por ver o grau de compromisso do Primeiro-Ministro com as medidas que tem implementado. São, contudo, suficientemente importantes para merecer o reconhecimento dado pelo Nobel. Este ano, o Comité não se deslumbrou com intenções nem com mediatismos. Que para o ano seja igual.

 

ADENDA: Quem tenha interesse em conhecer um pouco da História contemporânea da Etiópia e perceber os problemas que Abiy Ahmed Ali encontrou quando assumiu funções pode encontrar aqui uma espécie de diário de viagem político que fiz há dois anos após percorrer o país.

 

Notas breves sobre a noite eleitoral

por Diogo Noivo, em 07.10.19

1. Ao contrário do que foi dito por António Costa, os portugueses não gostam da geringonça. Os portugueses gostam do PS. Os socialistas reforçaram o seu respaldo eleitoral, mas o Bloco de Esquerda perdeu mais de 57.000 votos e a CDU mais de 115.000 (um desaire colossal). Ver nestes resultados um triunfo da geringonça é um delírio.

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fonte: SGMAI

 

2. O resultado do PSD é inenarrável. Pior só mesmo o discurso de Rui Rio. O Pedro Correia já aqui disse o essencial sobre o assunto.

 

3. Mais do que um mau resultado, o CDS pode ter iniciado o princípio do fim. A próxima liderança será determinante.

 

4. Dos pequenos partidos que entram o parlamento, o mais votado foi o Chega, ainda que por margem diminuta. É favor abrir os olhos. A culpa não é dos eleitores, frequentemente acusados de incultura quando partidos desta natureza chegam aos parlamentos (aliás, olhando para a votação por grau de escolaridade, o campeão junto daqueles que menos formação têm será o PS). Os eleitores têm sempre razões atendíveis e importa compreendê-las.

 

5. A Tunísia também foi às urnas ontem. Tem cerca de 11 milhões de habitantes e 7 milhões de eleitores. Portugal tem mais ou menos a mesma população e mais de 10 milhões de eleitores. Um destes países tem um Ministério para a modernização administrativa.

Perceber Tancos (II)

por Diogo Noivo, em 03.10.19

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A trama não se adensa muito, mas a lista de alucinados que vê no caso de Tancos uma encenação criada para prejudicar a geringonça e o PS não pára de crescer: Vasco Lourenço perpetrou mais um artigo de opinião e Pedro Abrunhosa – isto não se inventa – veio a terreiro afirmar que Tancos apenas serve para salvar a direita.

Naturalmente, sobre os crimes em apreço, sobre as declarações indecorosas de titulares de cargos públicos e sobre o fracasso do aparelho de segurança e defesa do Estado Lourenço e Abrunhosa nada têm a dizer.

 

ADENDA: Porque o absurdo do caso não conhece limites, esta semana soubemos que Azeredo Lopes não fazia ideia do que era um paiol quando assumiu funções de Ministro da Defesa Nacional. Portanto, não será exagerado assumir que, para o ex-Ministro, G3 seria a designação dada a um ponto erógeno.

Perceber Tancos

por Diogo Noivo, em 01.10.19

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O caso de Tancos resiste a qualquer esforço taxonómico. Tem um lado ridículo, de ópera bufa, demasiado absurdo para ser verdade. Tem ainda um outro lado, de total ausência de responsabilidade institucional, excessivamente gravoso para que tenha ocorrido num Estado de Direito democrático.

Olhamos para os factos demonstrados e custa a acreditar. Vemos a facilidade com que se entra clandestinamente em instalações militares para roubar armas e explosivos, facto ao qual se junta a pièce de résistance cómica: o material militar foi transportado num carrinho de mão por indivíduos com apodos artísticos como “O Fechaduras”, “O Pisca” e “O Caveirinha”. Nenhuma obra de ficção se atreveria a algo tão patético.

Percebemos também que houve uma operação de encobrimento do crime, o que sugere sofisticação e destreza típicas de um livro de Graham Greene, mas que na verdade foi de um amadorismo confrangedor.

Percebemos ainda que houve um ministro da Defesa mitómano e com sintomas de deslumbramento pelo poder que muito provavelmente deu cobertura activa ao espetáculo de vaudeville.

Percebemos agora que o deputado socialista Tiago Barbosa Ribeiro, um apparatchik que nunca leu Orwell, estava ao corrente da situação. Optou por participar tacitamente no encobrimento, mas não se cobriu de vergonha quando o facto se tornou público: apresenta-se outra vez como candidato à Assembleia da República.

Por fim, estamos à espera de perceber se o Primeiro Ministro foi conivente, ou se simplesmente é possível que um esquema desta dimensão ocorra sem que o chefe do Governo se aperceba. Tanto a hipótese A como a B deveriam ter consequências sérias.

Como se tudo isto não bastasse, há um rol de alucinados, onde pontificam José Sócrates, Vasco Lourenço e uma parte do Partido Socialista, que no meio de tanta falta de decoro – para não falar na montanha de crimes – encontra em Tancos uma urdidura tecida para prejudicar a geringonça e o PS.

Isto não se inventa. 

Atracção pelo abismo [pub]

por Diogo Noivo, em 30.09.19

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"A tendência europeia tem sido de fragmentação eleitoral. Os partidos tradicionais perdem preponderância, surgem novas forças políticas e os eleitores dispersam-se pela oferta disponível. Espanha não é excepção: Podemos e Ciudadanos irromperam na arena política em 2015 e alteraram profundamente o panorama partidário.

Por isso, é curioso que estas duas forças políticas pareçam interessadas num regresso ao bipartidarismo dominado pelo Partido Popular (PP) e pelo Partido Socialista Obreiro Espanhol (PSOE), que governaram em alternância o país praticamente desde a transição para a democracia.

A aritmética saída das mais recentes eleições legislativas, realizadas a 28 de Abril deste ano, sugeria duas soluções de Governo possíveis. O PSOE de Pedro Sánchez, com mais votos e mandatos, podia aliar-se à esquerda, com o Podemos, ou ao centro-direita, com o Ciudadanos. Mas nestes cinco meses os novos partidos renunciaram, na prática, à hipótese de se tornarem decisivos na formação de um Executivo.

De um lado, sem perceber a correlação de forças, o líder do Podemos, Pablo Iglesias, exigiu do PSOE pastas e influência muito superiores ao seu peso eleitoral. Chegou até a reclamar a vice-presidência do Governo e cinco ministérios, isto após ter reivindicado o controlo dos serviços de informações no período que antecedeu as eleições de Abril. As sondagens mostravam um PSOE sólido e um Podemos em queda, o que levou Iglesias a suavizar as exigências, mas foi tarde. O líder do Podemos apercebeu-se do erro, o que se tornou evidente quando solicitou a intervenção do rei Filipe VI. Suprema ironia: o Iglesias republicano, que em 2015 considerava a monarquia tão ilegítima quanto anacrónica, acabou a requerer do monarca um exercício de funções que não está respaldado pela Constituição de 1978.

Do outro lado, o Ciudadanos foi vítima de si próprio. Radicalizou a campanha para as eleições de Abril pedindo aos eleitores um veto ao PSOE. Para Albert Rivera, presidente do Ciudadanos, a contemporização socialista com o separatismo catalão era imperdoável não só no plano político, mas também no plano ético. Mais do que um adversário, Sánchez era o anti-Cristo. Conhecidos os resultados, que possibilitavam uma maioria absoluta entre PSOE e Ciudadanos, Rivera ficou com pouca margem de recuo. Havia uma saída estreita, a de inverter o discurso argumentando ser menos mau um PSOE apoiado pelo Ciudadanos do que entregar os socialistas nos braços radicais do Podemos e de pequenos partidos nacionalistas catalães e bascos. Porém, Rivera manteve-se firme na intransigência. Quando tomou consciência da impopularidade da sua conduta, ensaiou uma solução de recurso, igualmente tardia.

Em consequência, as lideranças de Podemos e Ciudadanos estão cada vez mais isoladas. Perderam popularidade junto das bases e afastaram-se de muitas personalidades que contribuíram para a fundação de ambos partidos, dando-lhes consistência política e intelectual. Sem surpresa, as sondagens mostram que estão em queda, enquanto PSOE e PP recuperam parte do espaço perdido nos últimos anos. Em suma, os partidos que nasceram para mudar o cenário político acabaram por revelar alguns dos vícios e das insuficiências que se propuseram combater.”

 

Excerto de artigo de opinião publicado na passada sexta-feira no Jornal Económico (texto completo apenas para assinantes).

Inquietações

por Diogo Noivo, em 25.09.19

No Jornal da Noite de ontem, a SIC apresentou a cabeça de lista do Livre em Lisboa como “mulher, afrodescendente e gaga”. São três características inócuas, absolutamente irrelevantes para aferir a experiência e a competência da pessoa para o exercício de funções públicas. Mas este é o novo normal. A política nacional – e não só – parece içar os seus candidatos com base em atributos e especificidades de uma irrelevância olímpica.

Ao reduzirem os candidatos a caricaturas, partidos e comunicação social contribuem para os males da democracia. E, claro, depois andam às aranhas para perscrutar as causas da abstenção e do crescimento eleitoral de retóricas simplistas.

Criar memórias

por Diogo Noivo, em 26.08.19

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Meia hora de voo num teco-teco e outros 20 minutos em barca de pescador. Uma vez instalado na aldeia, percebo que a electricidade é episódica. O aldeão que me acolheu na sua casa sugere-me que não adoeça: não só é desagradável, como o hospital mais próximo está a quase duas horas de distância. Pela mesma razão, avisa que o melhor é não entrar no mar nem no rio: os tubarões-touro gostarão da companhia, mas o sentimento não será mútuo. Banho só no chuveiro. Pede desculpa por iniciar a conversa com avisos, mas esta parte da América Central é pouco meiga com europeus de cidade - não me quis chamar flor de estufa, foi amável.
Neste pedaço de natureza bruta ninguém quer saber de Trump, de Boris, da Comissão Europeia ou de bichos semelhantes. A única geringonça de interesse é a que permite sacar água doce do poço. O ritmo do dia e os afazeres são ditados pela altura do sol e pelas marés. Tudo o resto são realidades longínquas - ou até completamente ignoradas.
Estive caído do planeta e acho que nunca fui tão feliz.

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