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A esquerda não desapareceu

por Diogo Noivo, em 17.07.19

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Num ensaio muitíssimo recomendável, Félix Ovejero traça a genealogia recente da esquerda espanhola e, por extensão, da europeia. Em síntese, argumenta que as forças políticas progresistas evoluíram do primado da raison iluminista para o menu do “tudo para todos”. Pelo caminho, abraçaram lógicas identitárias, de segregação das sociedades em tribos, incompatíveis com a razão e com a emancipação dos povos. Por outras palavras, a esquerda ilustrada negou-se a si própria. Note-se que esta tese saiu da pena de alguém que se situa convictamente no lado esquerdo do espectro político.

Ovejero e outras personalidades da esquerda espanhola, como o filósofo Fernando Savater, o escritor Fernando Aramburo e o político Teo Uriarte (membro fundador da ETA, que há muito abandonou a organização), firmam hoje uma carta aberta onde revelam que, embora tímida e em extinção, a esquerda democrática e liberal não desapareceu. Lê-se no texto que “os nacionalismos identitários e os populismos promovem políticas de divisão e exclusão que visam perverter os nossos fundamentos democráticos. Os melhores valores cívicos comuns de tolerância, respeito e fraternidade estão, portanto, ameaçados”.

Mais importante, e tendo em mente os acordos que o PSOE poderá celebrar em breve com nacionalistas catalães e bascos, os autores da missiva alertam: “A pretensão de chegar a acordos, por acção ou omissão, com populismos e nacionalismos identitários e separatistas – qualquer que seja a escala, nacional ou de comunidade autónoma, como no caso de Navarra – certamente contribuirá para o enfraquecimento dos nossos valores democráticos consagrados na Constituição de 1978. Não se podem ambicionar tais alianças, que contaminam a própria identidade da esquerda e conduzem inevitavelmente à deterioração da vida pública e trazem mais divisão cidadã”.

Entre outros méritos, esta carta demonstra o quão disparatado é enquadrar o “conflito catalão” na clássica dicotomia esquerda-direita. Portanto, revela o quão primária é a afinidade ideológica de muitos dos que por cá se batem pela independência da Catalunha.

O caso catalão cava uma fronteira, mas não a que separa a esquerda da direita. É a que separa a democracia representativa da democracia plebiscitária, a que distingue o conceito de cidadania das políticas identitárias, a que evita a confusão entre o direito ao voto e o respeito por direitos, liberdades e garantias. Era importante que deste lado da fronteira se percebesse isto. Ou, pelo menos, que se perceba que é um pouco imbecil bater-se pela independência da Catalunha envolto numa bandeira de esquerda.

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A capacidade de adaptação é essencial à sobrevivência. Mais do que um truísmo darwinista, trata-se de um princípio intuitivo para qualquer bípede que tenha de fazer pela vida. Devemos, contudo, ponderar as diferenças entre “adaptação” e “invenção”. A primeira acomoda à realidade aquilo que já existe, a segunda cria algo de novo. E o que é novo, por incipiente e frágil, tem maior probabilidade de não sobreviver. Tudo isto vem a propósito da última polémica em torno do espião mais famoso do mundo.

De acordo com uma fonte alegadamente bem informada, na próxima entrega da saga James Bond o código 007 é passado a uma mulher. A actriz escolhida será Lashana Lynch (na foto). Após 24 filmes – na verdade, contando com os não-oficiais, são 26 – e passados 57 anos da exibição do primeiro título da série, Bond troca a testosterona por estrogénio. O rumor despoletou uma arenga feroz. De um lado, os puristas indignam-se, pois Bond em versão feminina matará a essência e a história do personagem. Do outro lado, os hereges exigem que Bond espelhe as agendas e as causas do momento.

Confesso que a cor da pele da actriz me é absolutamente indiferente. Veria com bons olhos a substituição de Daniel Craig por Idris Elba, um actor, de resto, várias vezes apontado como o próximo a estar ao serviço de Sua Majestade. Não é uma cedência minha ao politicamente correcto nem às causas fracturantes, apenas creio que Elba tem três bons argumentos a seu favor: é um excelente actor; é britânico; e permitiria uma evolução do Bond de Daniel Craig sem uma ruptura abrupta com o passado. Bom, e Elba é homem.

Como bem escreve o Francisco José Viegas aqui ao lado, Daniel Craig é o melhor de todos os Bond. A sua substituição será difícil e o adiamento é prova disso – o actor expressou em termos contundentes a pouca vontade de protagonizar o filme agora em produção. Craig encarnou um James Bond celibatário e mulherengo, mordaz e inventivo, isto é, igual a todos os outros. Mas, em simultâneo, mostrou um espião que se engana, que tem dilemas, que sofre, inovações que muito se agradecem numa sociedade que parece viver obcecada com o êxito e com a perfeição. Com Craig houve uma solução de compromisso entre passado e presente, uma adaptação bem-sucedida. Transformar James Bond em mulher será uma invenção, um corte absoluto com o legado de mais de vinte filmes. Porventura uma agente secreta feminista e cáustica que use os homens a seu bel-prazer dê um filme interessante – tenho a certeza que me divertiria – e até uma saga com êxito, mas não será um Bond.

No texto já citado, o Francisco recupera declarações Phoebe Waller-Bridge, a guionista do próximo filme, que deviam ser óbvias e que denotam uma mudança importante na forma como a franquia cinematográfica retrata o sexo feminino: "Bond é Bond, mas as mulheres também são (felizmente) novas e diferentes daquilo que aparecia nos ecrãs nos anos 70 ou 80". Waller-Bridge tem fama de feminista desenfreada e será dela a intenção de atribuir o código 007 a uma mulher, um rumor que não bate certo com as declarações anteriores. Esperemos que impere o bom-senso e que se fuja daquilo que o Alexandre Guerra justamente apelidou de idiotice. É James, não Jane.

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Ser saloio

por Diogo Noivo, em 08.07.19

Em miúdo sempre me fez confusão ouvir o meu pai dizer que era saloio. Ainda para mais porque o dizia com algum orgulho. Referia-se, percebi anos mais tarde, ao facto de ser natural de Santa Iria da Azóia. Recordei o significado benigno da palavra a propósito de um texto que Ferreira Fernandes publicou hoje no Diário de Notícias.

Comecemos pelo princípio. A historiadora Maria de Fátima Bonifácio publicou um artigo de opinião com laivos de racismo no jornal Público este fim-de-semana. Igualmente grave, pelo menos na óptica de um espaço de opinião, escreveu um texto cujos argumentos são francamente débeis e desadequados para sustentar uma opinião perfeitamente atendível – a saber, a oposição à criação de quotas para minorias étnicas. Não gostei do texto. Não o subscrevo.

Hoje, no Diário de Notícias, Ferreira Fernandes enfatiza o racismo do texto de Bonifácio. Mais, Ferreira Fernandes recorre ao seu percurso de vida para evidenciar a fragilidade dos argumentos da historiadora. Defende, contudo, o jornal onde a opinião foi publicada, lembrando os leitores que sem o Público seríamos “uns saloios”. Avocando a minha costela saloia, é aqui que a porca torce o rabo.

Não me custa nada admitir que a leitura do Público foi parte importante dos meus anos formativos. Acontece, porém, que o Público dos meus tempos de faculdade desapareceu. A secção de Internacional forte, bem informada e bem escrita mirrou, desinformou-se e é actualmente quase um pro forma nas páginas do jornal. As ‘causas’ e o cosmopolitismo do Público, que sempre apreciei, sustinham-se em argumentos, mas hoje sustêm-se em militância. São opções legítimas, mas é um jornal diferente, mais saloio.

Porventura a maior prova dessa diferença é o editorial assinado por Manuel Carvalho. Além de demonstrar arrependimento pela publicação do artigo de Maria de Fátima Bonifácio, Carvalho afirma que “as reacções e episódios associados a esta polémica obrigam-nos a reforçar os critérios de exigência e selectividade”. E aqui reside o verdadeiro problema. Os arrependimentos são legítimos – que atire a primeira pedra quem não os tem –, mas subordinar o rumo do jornal a “reacções” e “episódios” não se coaduna com um periódico que pretende converter saloios em gente informada. É navegação de cabotagem.

Gosto de Manuel Carvalho e ainda mais de Ferreira Fernandes. E de Maria de Fátima Bonifácio também. Leio-os sempre, mesmo quando discordo do que defendem – o que acontece com alguma frequência. Jamais em circunstância alguma, mesmo perante textos escabrosos e tontos, apoiarei qualquer tentativa de censura, sobretudo se fundada em “reacções” e em “episódios”. Penso desta forma por várias razões, entre as quais ter lido o Público nos meus anos de faculdade. Mas esse Público desapareceu e esta polémica com Maria de Fátima Bonifácio é prova disso. O meu pai é saloio, eu tenho uma costela saloia, não nos livramos disso.  O Público é saloio por opção.

 

ADENDA: muito recomendável a leitura do ‘postal’ do José Pimentel Teixeira aqui, no DELITO, sobre o mesmo assunto.

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Escondido à vista

por Diogo Noivo, em 28.06.19

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Arnaldo Otegi é um dos mais conhecidos e importantes dirigentes da esquerda abertzale, sector político nacionalista que apoiou o terrorismo etarra. Participou na fase inicial da última negociação entre o Governo de Espanha e a ETA, facto que usa como pedestal para se erigir como “homem de paz” e, dessa forma, ocultar condenações em tribunal por sequestro, enaltecimento do terrorismo e por tentar reconstruir o partido Batasuna (à época ilegalizado) a mando da cúpula da organização terrorista basca.

A televisão pública espanhola entrevistou-o esta semana, o que gerou a indignação colérica da imensa maioria dos partidos políticos do país. Tratava-se de mais uma operação de branqueamento, arguiam. Ainda que se perceba a fúria dos protestos, a crítica não tem cabimento. Parte da grandeza do Estado de Direito Democrático reside precisamente em garantir liberdades até àqueles que sempre o quiseram destruir. Por outro lado, tendo tempo para falar, Otegi é incapaz de esconder a sua verdadeira natureza e esta entrevista provou-o.

Abundaram os exemplos de mitomania e de apologia da violência, ainda que cínica e cobardemente encapotada, e há uma frase que os resume a todos na perfeição: “Lo siento de corazón si hemos generado más dolor a las víctimas del necesario o del que teníamos derecho a hacer”. Atente-se em mais do que tínhamos direito a fazer. Otegi referia-se a 850 mortos e 2500 feridos, 95% dos quais já em plena vigência do actual regime democrático. Sem nunca condenar a violência ou pedir perdão aos milhares de vítimas, Otegi explicita o princípio sinistro e insano que sempre conduziu a sua vida política: o direito a provocar dor, o direito a matar.

Como alguém escreveu, Otegi não é um homem de paz, mas sim um terrorista no desemprego. Quem conheça o personagem e a história de violência na qual foi protagonista não se espanta. Mas conclui que o fim da ETA não equivale ao óbito de uma cultura política de ódio que vê na violência um instrumento político legítimo, o que é preocupante porque Otegi e os seus correligionários têm hoje lugar em instituições políticas tanto em Espanha como na Europa. A dimensão desse lugar pode ser ampliada uma vez que Pedro Sánchez, Presidente do Governo espanhol, poderá celebrar acordos com as forças políticas abertzales para conseguir governar em minoria. Entre outras coisas, estes factos evidenciam o quão absurdo é atribuir ao VOX o lugar cimeiro na lista de ameaças à democracia em Espanha.

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Descobrir o passado

por Diogo Noivo, em 25.06.19

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Begoña Urroz tinha 22 meses de idade quando morreu queimada na sequência de um atentado bombista. Foi a 27 de Junho de 1960 na estação ferroviária de Amara, em San Sebastian, no País Basco. Durante décadas o atentado foi atribuído à ETA. Begoña seria, aliás, a primeira vítima mortal do terrorismo basco. Em 2010, a data do atentado foi instituída pelo parlamento espanhol como o dia de homenagem às vítimas do terrorismo.

Um estudo publicado hoje pelos investigadores Gaizka Fernández Soldevilla e Manuel Aguilar Gutiérrez desmente essa tese, provando que a acção foi da responsabilidade do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL), um grupo armado luso-espanhol composto por militantes anti-salazaristas e anti-franquistas. Na sua ala portuguesa, o DRIL contou, entre outros, com Humberto Delgado, Henrique Galvão, Camilo Mortágua e Victor Cunha Rego.

 

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Muerte em Amara: La violencia del DRIL a la luz de Begoña Urroz”, uma edição do Centro Memorial de las Víctimas del Terrorismo, resgata um pedaço de História contemporânea do canto obscuro onde esteve esquecido. O estudo é fruto de um trabalho de investigação notável assente em muita documentação inédita. E permite vislumbrar o que foi a participação portuguesa em actos de violência política além fronteiras. Só por isso merece atenção por cá. Os interessados podem descarregar a versão em pdf de forma gratuita aqui.

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Bravatas inconsequentes que fazem ricochete

por Diogo Noivo, em 19.06.19

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No longo e divertidíssimo anedotário de Juan Carlos de Borbón figura um episódio protagonizado pela então deputada republicana e catalanista Pilar Rahola. Com especial propensão para bravatas, provocações e disparates, Rahola foi buscar lã e saiu tosquiada. Contei essa história aqui.

Anos passados, a história repetiu-se, desta feita com o actual monarca e com uma sucedânea de Rahola. Laura Borrás, deputada da força política catalanista Junts per Cat, apresentou-se na audiência com Felipe VI envergando uma borboleta amarela na lapela, uma alusão clara aos laços da mesma cor que simbolizam o apoio à independência da Catalunha. Acto contínuo, Borrás deu ao monarca um recado de Carles Puigdemont, conhecido fugitivo e o mais temeroso dos independentistas. “O senhor Puigdemont informa que o aprecia mais como Príncipe de Girona do que como Rei de Espanha”. Ainda que sem o registo castiço do seu pai, mas igualmente certeiro nos tempos e no conteúdo, Felipe VI respondeu “pois eu apreciava-o mais como presidente da câmara de Girona do que como President”. Como se diz na esgrima: ataque, parada e resposta. Touché.

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Outros tempos

por Diogo Noivo, em 17.06.19

Após dias que mais pareceram meses, Álvaro Amaro anuncia que prescindirá da imunidade conferida pelo cargo de eurodeputado. Menos mal.

Já Rui Rio arremessou o banho de ética para parte incerta, pois mandou dizer à imprensa que não pensa pronunciar-se sobre o assunto. Afinal, trata-se tão somente de um coordenador do partido, recém-eleito deputado ao Parlamento Europeu, que é constituído arguido no âmbito de um processo que visa crimes de fraude, corrupção, tráfico de influências e prevaricação.

Há não muito tempo, sem esperar por acusações formais ou pela constituição de arguidos, um ministro do PSD demitia-se para preservar a autoridade das instituições. E preservou-a (a das instituições e a sua). Outros tempos.

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Pensamento da Semana

por Diogo Noivo, em 02.06.19

“Os alimentos que se recomendam actualmente são tão apetecíveis como uma dieta constante de papel secante. (...) Ontem à noite ingeri o típico jantar livre de colesterol: abóbora fervida, leite desnatado e gelatina. Tenho a certeza que isto não me fará viver mais tempo, mas creio que a existência me parecerá mais longa.”

Groucho Marx, Memoirs of a Mangy Lover, Da Capo Press, 1997

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Impressões eleitorais

por Diogo Noivo, em 27.05.19

António Costa ‘nacionalizou’ as eleições europeias, transformando-as num plebiscito à sua governação. E apesar de Pedro Marques, de Pedro Silva Pereira e da época de banditismo e prepotência que representa, do CV da Maria Begonha, de Carlos César e da sua grande família, das nomeações descaradas de amigos e familiares, da maior carga fiscal dos últimos 22 anos, de Tancos, do caos no Serviço Nacional de Saúde, e do número inaudito de mortos em incêndios florestais onde o Estado falhou por incúria, o Partido Socialista venceu as eleições de forma claríssima. É obra. A força e a legitimidade de António Costa saem reforçadas – embora os 70% de abstenção não permitam embandeirar em arco.

Os resultados porventura digam algo sobre aquilo que somos enquanto eleitores. Mas dizem certamente muito da oposição que temos, pois raras foram as vezes em que o partido incumbente venceu as europeias. O PSD, que é hoje um simulacro do partido que foi em tempos, não parece ter percebido a dimensão da coisa. Não lhe auguro nada de bom.

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Rebeldes, separatistas e equívocos [pub]

por Diogo Noivo, em 22.05.19

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Em vésperas de eleições europeias impera a preocupação com nacionalismos e com extremismos. Mas há um nacionalismo que escapa à preocupação apesar de ser responsável por mais de 800 homicídios e de defender esse legado de violência a partir de instituições democráticas.

Até para precaver reincidências, importa chamar as coisas pelos nomes. No referente à ETA, as palavras “rebeldes” e “separatistas” são equívocos que devem ser evitados, pois foi uma organização terrorista. Defendo este argumento hoje, no Observador.

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Blogue da Semana

por Diogo Noivo, em 19.05.19

Nunca a política foi tão imprevisível, alarmante e interessante. Esta é a premissa do podcast – que, para efeitos desta rúbrica, é uma espécie de blogue em formato áudio – Talking Politics, gravado semanalmente em Oxford, no gabinete de David Runciman, ao qual se unem algumas das melhores cabeças da historiografia e ciência política contemporâneas: Helen Thompson, Christopher Brooke, Chris Bickerton e Aaron Rapport.

Além do ensaio “Política”, sobre o qual o Pedro Correia escreveu aqui, Runciman é autor de outros cinco livros, entre os quais “The Confidence Trap” e “Political Hypocrasy”, duas maravilhas literárias que aliam erudição e domínio teórico numa prosa escorreita e acessível a qualquer leitor.

Talking Politics evita a espuma dos dias. Disseca temas como o futuro do mercado laboral, a maleabilidade e resiliência das democracias, a política na literatura, o Brexit (aqui peca por excesso de atenção), o passado e presente das lideranças políticas no mundo ocidental, sempre com a presença de convidados relevantes, de antigos chefes do gabinete dos principais lideres mundiais a académicos e escritores. Quem gosta de política – aquela a sério – encontra em Talking Politics bom entretenimento para longas horas.

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A. Pérez Rubalcaba (1951-2019)

por Diogo Noivo, em 10.05.19

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Despediu-se da política levado em ombros. Os elogios vinham de todo o lado, até de detractores. Com humor sereno e certeiro, respondia “nós, os espanhóis, somos muito bons em enterros”.

Alfredo Pérez Rubalcaba (Cantábria, 1951) entrou na política em 1982 pela mão de Felipe González, de quem foi ministro. Voltou às pastas governamentais com José Luis Rodríguez Zapatero, que quem foi ministro, vice-presidente e seguro de vida política.

Nesta última encarnação governativa, Rubalcaba geriu a terceira e derradeira negociação entre um Executivo de Espanha e a organização terrorista ETA. O processo fracassou, tal como os anteriores, ficando marcado por momentos gravosos. Ainda assim, foi o suficiente para aumentar as brechas existentes no meio etarra e, dessa forma, precipitar a derrota operacional da organização. Este vislumbre de êxito no meio de um tremendo fracasso deve-se a pequeníssimo grupo de pessoas, entre as quais Rubalcaba. A 20 de Outubro do ano passado, data do sétimo aniversário da declaração de fim da violência da ETA, escreveu nas redes sociais: “Acossado policialmente e isolado social e politicamente, o grupo terrorista teve de que admitir a sua derrota, sem alcançar nenhum dos seus objectivos.” E, para desespero dos revisionistas históricos que ainda existem no País Basco, clarificou: "A verdade esta: a democracia ganhou e a ETA foi derrotada."

Abandonou a política em 2014 para regressar à sua profissão de origem, a de professor de química orgânica na Universidade Complutense. O “maquiavel de Madrid” deixou a política para voltar ao ponto de partida.

Na última contenda pela liderança do PSOE apoiou Susana Díaz contra Pedro Sánchez. Apesar disso, Sánchez ofereceu-lhe o lugar de candidato socialista à câmara municipal de Madrid, oferta que Rubalcaba recusou, embora reiterasse a sua lealdade ao partido e ao seu secretário-geral.

Alfredo Pérez Rubalcaba dizia que depois da política começava a vida. Foi curta. Morreu hoje, em Madrid, vítima de acidente vascular cerebral. O PSOE perde um dos políticos mais inteligentes e sagazes dos últimos 30 anos e Espanha perde uma figura central do seu processo de consolidação e desenvolvimento democrático.

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Dor, saudade e raiva

por Diogo Noivo, em 01.05.19

Perdi uma amiga que tinha um coração doce e um sorriso glorioso. Corrijo, não a perdi. Foi-me roubada de maneira vil, insidiosa e cobarde. Lamentavelmente, não sou o principal lesado. Antes fosse. Há dois petizes que ficaram sem mãe e um querido amigo que ficou sem o amor da sua vida. Há uma mãe viúva à qual foi arrancada a sua única filha. Há ainda um grupo de amigos de longa data que ficou amputado.

As razões do cretino responsável por tamanha desgraça são para mim imperscrutáveis. Na verdade, as razões pouco importam. A nuvem de angústia e dor lancinante que deixou a pairar sobre várias cabeças é demasiado grande e opressiva para ser explicada. Só percebemos a enormidade da coisa quando nos toca na pele.

Resta-me agarrar a saudade, as muitas memórias de amizade e carinho. E recriminar-me por não ter estado mais presente. Porque não tenho qualquer ambição de chegar ao céu, que sempre me pareceu um sítio aborrecidíssimo, espero que a ira do destino se abata com um fulgor brutal e impiedoso sobre o filho da puta que nos roubou.

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Retrato de sobrevivência

por Diogo Noivo, em 23.04.19

Pedro Braz Teixeira publica hoje um importante artigo no ECO onde pede maior clareza e detalhe ao INE na informação sobre distribuição de salários e rendimentos.

Sem prejuízo da importância do tema, o que mais impressiona - e indigna – no texto é o quadro que segmenta o vencimento líquido de trabalhadores por conta de outrem.

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Mesmo tendo em conta possíveis insuficiências nos dados, é perturbante constatar que quase 65% da população portuguesa aufere menos de 900€ mensais. E que praticamente 80% recebe mensalmente um valor inferior a 1.200€.

Considerando os custos com habitação nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto (onde reside boa parte da população), o preço da energia (combustíveis e eletricidade à cabeça) e as debilidades dos serviços públicos (da saúde à segurança de pessoas e bens), o quadro retrata um povo que sobrevive. O tão apregoado fim da austeridade não passa de uma enorme fraude.

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Espanha fratricida

por Diogo Noivo, em 17.04.19

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Defendi aqui e aqui que as legislativas de 28 de Abril são o regresso das duas Espanhas, do antagonismo fratricida que rompeu o país a meio e que tanta dor causou no passado. Desde então, e certamente por auto-sugestão, reparo que muitos dos artigos e entrevistas na imprensa espanhola sobre o acto eleitoral orbitam esta ideia.

Ontem, Jorge Bustos, director da secção de opinião do El Mundo, escreveu que “tão antiga e profunda é a paixão de Espanha pela Guerra Civil que conseguiu reduzir a uma luta entre dois bandos uma eleição à qual concorrem cinco partidos nacionais”. A segunda parte do argumento é a que inspira maior temor: “o 28-A foi gizado como um revivalismo pós-moderno e mais triste das duas Espanhas, onde os netos dos vencedores se cansaram de esperar pelas credenciais democráticas estendidas durante décadas em regime de monopólio pelos netos dos vencidos”.

A normalização da dicotomia ‘vencedores vs. vencidos’ no debate pré-eleitoral é o sintoma mais inquietante da maleita que assola o país vizinho. Foi nessa separação que assentou o edifício franquista, na garantia de que o Estado pertencia aos vencedores da Guerra Civil. Por via do ostracismo ou da repressão brutal e petulante, os vencidos deveriam manter-se sob controlo férreo e subjugados ao poder.

Parte do sucesso da transição democrática espanhola deveu-se à capacidade de conjugar e reunir três Espanhas: a ala progressista do franquismo, consciente da insustentabilidade do regime; as vítimas do franquismo, que de forma corajosa abdicaram de revanches; e uma imensa Espanha, de todas as tendências e convicções, que sonhava com a normalização democrática do país no seio da Europa. Numa frase, a transição enterrou a lógica de barricada que opunha vencedores a vencidos.

Por razões várias, nomeadamente porque parte da esquerda espanhola abandonou a ideia de República Ilustrada e porque as palavras ‘fascismo’ e ‘franquismo’ foram banalizadas ao ponto de perderem o conteúdo que deveriam ter, a ideia de ‘vencedores vs. vencidos’ ressurgiu. Mais do que resultados eleitorais ou arranjos governativos, é isto que deve ser acompanhado com atenção.

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Rafael Sánchez Ferlosio (1927-2019)

por Diogo Noivo, em 02.04.19

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Morreu ontem Rafael Sánchez Ferlosio, um dos maiores intelectuais da Espanha actual. Autor de El Jarama, de Industrias y andanzas de Alfanhuí e de uma vasta obra ensaística de primeira água, os obituários descrevem-no como mestre singular das letras espanholas, como plumífero, isto é, alguém cuja existência não se compreende sem o valor da escrita.

Vencedor do Prémio Cervantes em 2004, cunhou a bem-humorada – e tristemente necessária – “moral do peido”: quando o assunto são nacionalismos, só incomoda o cheiro proveniente de terceiros, nunca o próprio. A Espanha que lhe presta homenagem dá hoje votos ao Podemos, ao Vox e a nacionalismos periféricos que precisam de dividir para existir. Quem conheça a obra de Sánchez Ferlosio e tenha lido as suas entrevistas sabe que os mandaria a todos de volta para o buraco infecto de onde saíram.

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O país novo

por Diogo Noivo, em 19.03.19

No Público, Bárbara Reis alerta para a banalização da greve de fome. Recorda Marion Wallace Dunlop, Ghandi, Fariñas e outros para arguir que este método de pressão política serve para reivindicar “direitos básicos quando não há diálogo nem esperança”. Um olhar atento sobre a História contemporânea inviabiliza a conclusão da jornalista, mas esse não é o ponto.

 

Bárbara Reis considera abusiva a greve de fome de Peixoto Rodrigues, dirigente sindical da PSP, porque no nosso país existem 17 sindicatos de polícia e, embora insuficientes, porque essa Força de Segurança mereceu do actual governo progressões na carreira e aumentos salariais.

 

Correctíssimo. Mas não há aqui nada de novo ou de extraordinário. A proliferação de estruturais sindicais na PSP já se verificava no tempo do anterior governo, um Executivo que também aprovou promoções e aumentos salariais. Por exemplo, e apesar de se viver à época um período de duras restrições financeiras, o subsídio mensal de fardamento teve um aumento de 100%, passando de 25€ para 50€ (apesar da designação, os elementos policiais dispõem dessa verba como bem entenderem, podendo usar o dinheiro para outros fins que não a aquisição de fardamento, o que faz dele um complemento salarial normal).

 

Portanto, a diferença não está no contexto, mas sim na forma como ele é interpretado. Se durante a vigência do governo liderado por Passos Coelho as reivindicações e as formas de luta – inclusive as “invasões de escadarias” – eram tidas como legítimas e necessárias, agora são vistas como excessivas e extemporâneas. Adjectivação à parte, aqui reside o grande mérito da chamada geringonça: gente que oscilava entre o alheamento e o maniqueísmo passou a sopesar as subtilezas do contexto. Nem é tudo mau.

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Blogue da semana

por Diogo Noivo, em 17.03.19

Quem ignora a História está condenado a ser surpreendido. Quando o passado não existe, todos os fenómenos sociais e políticos do presente são inovadores. Mais grave, quando se ignora a História o risco de reincidir no erro aumenta exponencialmente. Por tudo isto, e a par da sua importância académica, os estudos históricos desempenham um papel relevantíssimo para a condução da coisa pública e para a vida em sociedade.

Não me refiro, obviamente, ao uso propagandístico da História. Falo sim do interesse genuíno em conhecer o passado, em compreender os ângulos escuros, até tediosos, e não apenas o relato épico de grandes feitos, quase sempre mitificados.

Em Espanha, este esforço de rigor e escrutínio é imprescindível para a recuperação das condições de convivência no País Basco, uma região profundamente marcada por mais de quatro décadas de terrorismo. Entre os que se dedicam a esse labor está Gaizka Fernández Soldevilla, um dos rostos da nova geração de historiadores espanhóis. Obras como Sangre, votos, manifestaciones (da qual já falei aqui), Héroes, heterodoxos y traidores, La voluntad del gudari e o recém-publicado Pardines: Cuando ETA empezó a matar são referências bibliográficas inescapáveis que o colocam por mérito próprio na pequena lista dos mais conceituados e prolíficos estudiosos do País Basco contemporâneo.

Além da escrita académica, o Gaizka mantém um blogue onde divulga conferências, exposições, artigos e livros sobre as diferentes facetas do terrorismo etarra e do seu impacto junto das vítimas. Pelo meio encontramos verdadeiras pérolas, postais como este onde se recorda a quixotesca tomada de Garay pelos cabras.

Há mais ou menos 7 meses iniciei um projecto de investigação sobre a ETA e tomei a liberdade de o contactar. Desde então tem sido de uma generosidade – e até amizade – ímpar. A dívida de gratidão que tenho é enorme. Espero que o manuscrito que entregarei no final do ano honre a atenção e apoio que tenho recebido.

Pela qualidade do autor, pela pertinência do tema e pela forma esmerada como os assuntos são tratados, o blogue do Gaizka Fernández Soldevilla é a minha escolha para blogue da semana.

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Pensamento da semana

por Diogo Noivo, em 17.03.19

Cívicos ou étnico-culturais, os nacionalismos têm o mérito de reforçar os laços de solidariedade e de lealdade entre os membros da nação. O problema é que esse reforço só é possível mediante a exclusão (mais ou menos declarada) do Outro.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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As duas Espanhas vão a eleições [Pub]

por Diogo Noivo, em 12.03.19

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"A crise catalã não pode ser interpretada nos termos da dicotomia esquerda-direita, nem tão pouco resumida a um antagonismo entre os catalães e o resto de Espanha. A linha de fractura está na forma como cidadãos e partidos se posicionam em relação ao movimento independentista catalão, o que faz dele um tema central no espaço público. O resultado é a polarização geral da vida política. Por outras palavras, e paradoxalmente, para travar os ímpetos rupturistas Espanha colocou-os no centro da vida política e abraçou a cultura de sectarismo que emergiu nas fileiras do separatismo catalão. O país vizinho parece ter regressado à lógica frentista, de dois blocos opostos, com as vozes mais responsáveis a alertarem para o despertar das duas Espanhas imortalizadas no célebre poema de António Machado: “Españolito que vienes / al mundo te guarde Dios. / Una de las dos Españas / ha de helarte el corazón”."

Hoje, no Observador.

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