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Pensamento da Semana

por Isabel Mouzinho, em 21.10.17

Há os que "subscrevem por baixo", os que "encaram de frente" e os que gostam de ler "Elsa"de Queiroz. Há as facas de "dois legumes" e os bodes "respiratórios". Há estas e muitas outras enormidades de uma lista interminável, que vamos ouvindo e lendo todos os dias. 

A língua portuguesa, nem sempre muito bem tratada num país que se envergonha de si e tende a valorizar o que vem de fora - línguas incluídas -, assumiu contornos de total despropósito com a chegada do "Novo Acordo Ortográfico", que veio permitir que hoje valha quase tudo. Como se a correcção linguística não fosse muito relevante. Na verdade, estas ou quaisquer outras incorrecções já não espantam ninguém. Pior: vão-se transformando em "normalidade", perante a indiferença generalizada dos que consideram que dizer "assim" ou "assado" não tem a menor importância, esquecendo, ou ignorando, que o domínio da língua e o uso que se faz dela também diz muito da cultura de um povo.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Blogue da semana

por Isabel Mouzinho, em 22.01.17

Por razões estritamente pessoais que agora não vêm ao caso, tenho andado um pouco afastada dos blogues e, por isso, são muito poucos os que continuo de facto a acompanhar com regularidade.

Assim, deixo como sugestão um blogue que provavelmente já aqui mencionei, o Fio de Prumo e tenho para isso muitas razões: a primeira é que a sua autora, que também faz parte do grupo do DO, é uma pessoas de quem gosto muito, cuja amizade foi um daqueles presentes que a vida nos traz de forma inesperada e com quem, concordando ou discordando, se pode sempre aprender uma maneira de levar a vida com força, com garra e com boa disposição. E depois, gosto do seu modo despretensioso e genuíno de dizer o que muito bem entende, sem preocupações do que "fica bem", ou do que é apropriado, sem nunca ultrapassar os limites da educação e da decência.

Posso até parecer suspeita, eu sei, mas a verdade é que leio sempre HSC com muito prazer. E gosto do seu sentido de humor, tão importante numa altura em que toda a gente parece sempre mais ou menos zangada com a vida.

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Ladaínha dos Póstumos Natais

por Isabel Mouzinho, em 25.12.16

Há-de vir um Natal e será o primeiro 

em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

 

                                                David Mourão-Ferreira

 

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Histórias de Lisboa (V)

por Isabel Mouzinho, em 30.11.16

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 Senhora do Monte

 

Foi, durante muito tempo, o meu lugar de eleição. Lá do alto, com a cidade a meus pés, olhei-a deslumbrada horas a fio e pude assistir muitas vezes ao cair da noite ou ao nascer do dia, vendo Lisboa a clarear ou a escurecer, transformando-se devagar em sons, cor e movimento, ou em repouso e quietude.

Ali, troquei beijos apaixonados, namorei ao luar, chorei a desilusão de amores breves que acreditara serem eternos, ou procurei refúgio para, em silêncio e solidão, de olhos perdidos no horizonte e pensamentos à solta, tomar decisões sérias, pensar na vida, sonhar.

Na verdade, há neste ponto alto do bairro da Graça, talvez até o mais alto da cidade, uma magia qualquer que faz dele um lugar meio feérico, quase irreal, suspenso no tempo e no espaço. 

Consta que foi este o local onde D. Afonso Henriques instalou o seu acampamento para conquistar a cidade. Na ermida de Nossa Senhora do Monte, fundada em 1147, dedicada a São Gens, um bispo mártir, encontra-se a cadeira de pedra que lhe terá pertencido e, segundo a lenda, se uma grávida se sentar nela terá um parto sem complicações. Mas, lendas e tradições à parte, é sobretudo a vista que nos seduz, por mais que a conheçamos. E, para mim, o Miradouro da Senhora do Monte será sempre muito mais que a melhor panorâmica de Lisboa. 

Hoje, quando regresso,  - agora que o visito bem menos amiúde -, não encontro já o sossego e o encanto de quando eu tinha vinte anos, pois tornou-se ponto turístico obrigatório, com alarido e euforia em excesso e selfies garantidas. É quase como se aquele "meu" lugar fosse agora do mundo inteiro. E, no entanto, tem ainda qualquer coisa que me toca, me enternece, me enfeitiça, que me faz espantar de tanta beleza, e gostar muito de ser daqui.

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Delito à Mesa (5)

por Isabel Mouzinho, em 26.11.16

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Chiringuito 

 

Em espanhol designa um bar de praia, lugar de bebidas frescas e comidas simples e rápidas. Nada a ver, portanto, com este lugar lisboeta que aqui menciono. O que o Chiringuito tem de especial é a conjugação feliz de diversos factores:

O espaço, em primeiro lugar. São duas salas distintas, ambas arranjadas com cuidado e extremo bom gosto, num lugar que  antes funcionara como padaria. A sala que fica junto da rua tem uma decoração ligeiramente  mais informal, enquanto a segunda, mais espaçosa e conhecida como "a fábrica" ainda em alusão ao anterior espaço da padaria, com móveis antigos e louças do tempo das nossas avós, conjuga na perfeição o antigo e o moderno e faz lembrar a sala de jantar de uma família numerosa.

Depois, há a comida propriamente dita, entre o tradicional, alentejano e o espanhol andaluz, que é muito o leitmotiv do conceito subjacente e faz deste restaurante um espaço profundamente ibérico, misto de casa de petiscos e bar de tapas, como de resto é designado.

Das entradas às sobremesas, é tudo de "comer e chorar por mais", numa carta onde se podem encontrar algumas especialidades típicas de ambos os lados da fronteira: há as "puntillitas" e os "tintos de verano", os secretos de porco preto e os peixinhos da horta, as "patatas ali oli" e  as farófias, entre muitas outras delícias, em clara e subtil demonstração de que é muito mais o que nos aproxima do que o que nos distingue.

A acrescentar a tudo isto há ainda os preços muitíssimos acessíveis e a simpatia com que somos recebidos. O Chiringuito é um negócio familiar e isso sente-se no trato e no ambiente que se respira. No fundo, é quase como se jantássemos na sala da casa de uns amigos. Por isso saímos  claramente satisfeitos e com vontade de voltar muitas vezes.

Falta dizer que fica em Campo de Ourique, na rua Correia Teles, e que ao Domingo há  buffet de cozido ao almoço. 

Por fim, tenho que fazer uma confissão: é que posso ser considerada relativamente suspeita, uma vez que tenho pela família que está à frente do Chiringuito grande consideração e um afecto profundo, que é já antigo.

Mas estive em várias ocasiões no restaurante e quem me acompanhava, de todas as vezes, gostou tanto como eu. Este é pois, por agora, um dos meus lugares favoritos de Lisboa para estar à volta de uma mesa, com amigos, em ambiente agradável e descontraído, o que constitui, quanto a mim, um dos maiores prazeres da vida.

Ora vejam as fotografias... E depois passem por lá para comprovar se eu tenho ou não razão...

 

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Histórias de Lisboa (IV)

por Isabel Mouzinho, em 06.11.16

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Rua Passos Manuel

 

Na rua de baixo cabe o mundo inteiro. Há o Jardim Constantino e o restaurante "Vaskus", de portas vermelhas e toalhas de quadrados, que já existe há pelo menos trinta anos. E continua quase igual. Esta é, sem dúvida, uma rua singular, onde encontramos de tudo um pouco: a loja de artigos ortopédicos e a sexshop, a Igreja Evangélica ao lado da Livraria "Assírio e Alvim", a mercearia antiga e o cabeleireiro "Pura Vaidade", o VivaFit mesmo antes  do alfaiate, o "Mundo dos pneus" e a papelaria, o Hotel e o Externato, a Boulangerie Costes em frente do atendimento social da Junta de Freguesia de Arroios, a Farmácia, a venda de velharias e a loja de artigos eléctricos, entre tantos outros pequenos comércios de bairro.

Na rua Passos Manuel misturam-se as línguas, as raças e as nacionalidades numa coexistência pacífica que é o paradigma da nova Lisboa, moderna e antiga, bairrista e cosmopolita, retrógrada e arrojada, caótica e encantadora, cheia de luz, de vozes e de vida. Mas é também esta miscelânea que faz de Lisboa uma das mais fascinantes cidades que conheço, que, apesar do caos actual em que a deixam as obras do Medina, me seduz e apaixona todos os dias.

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Do princípio ao fim (22)

por Isabel Mouzinho, em 14.10.16

Eu devia ter  mais ou menos dezassete anos e já não sei como aconteceu, nessa altura, ler l' Étranger pela primeira vez. Fi-lo sem saber bem que era Albert Camus, movida apenas pelo fascínio que a doce musicalidade da língua francesa exercia em mim  e, talvez, também, pela vontade de ler um livro de "gente crescida" nessa língua de que tanto gostava.

E o primeiro contacto com a obra, a estranheza que aquela leitura me causou, que era ao mesmo tempo incómodo e apego, foi para mim de uma importância determinante. Por isso nunca mais pude esquecer o seu início, tão forte quanto perturbador: Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas.  Nem Meursault,  taciturno e enigmático, "estrangeiro" face ao mundo e a si mesmo, absolutamente bizarro na sua aparente indiferença.

Depois, quis conhecer outros livros e outros autores, escolhi estudar Literatura, e só meia dúzia de anos mais tarde percebi a importância de Camus e como esta era uma das obras fundamentais do século XX, de cujo incipit me voltei a lembrar muitas vezes, nas mais diversas circunstâncias.

Hoje, muitos anos depois, acho que não exagero ao considerar que esta leitura contribuiu também para aprofundar a paixão das palavras, que trago comigo desde sempre. E para perceber como elas são indispensáveis e essenciais à nossa existência, na sua relação com o silêncio, na distância que as separa do que dizem e também em tudo o que não conseguem dizer. E descobrir, ainda melhor, como  a leitura e a escrita podem ser um inefável e imenso prazer, como nos fazem descer ao mais fundo de nós e nos proporcionam o alargamento de olhares sobre o mundo, em muitas visões que se cruzam, se entrelaçam, se confundem e coexistem. 

Para além deste, muitos outros começos me marcaram; e tive ainda, além disso, a sorte  - que foi também privilégio - de ter a melhor de todas as professoras - Maria Alzira Seixo -  com quem aprendi que "a literatura não resgata o mundo, mas ajuda a compreendê-lo e a suportá-lo" e pode ser determinante na forma como lemos, como escrevemos, como pensamos e como vivemos.

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Histórias de Lisboa (3)

por Isabel Mouzinho, em 07.09.16

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Avenidas Novas

 

O bairro onde vivi os primeiros vinte anos da minha vida é, inexplicavelmente, um lugar por onde nunca passo sem ter a sensação de estar "em casa", mesmo quando na minha cabeça ecoam, às vezes, velhas canções: ( quand au hasard des jours/ je m'en vais faire un tour/ à mon ancienne adresse/ je ne reconnais plus/ ni les murs, ni les rues/ qui ont vu ma jeunesse). 

É verdade que o bairro é hoje muito diferente do que era naquele tempo, mais incaracterístico, talvez, muitos serviços e um pouco menos de alma. O nosso prédio, de azulejos verdes e brancos, foi substituído por um moderno edifício de vidro e ferro e a muitos outros, quase todos, aconteceram coisas semelhantes. Os cafés e as lojas já não são os mesmos, o padeiro e o leiteiro já não vêm de porta em porta, nem há eléctricos a passar dia e noite; já não há o Val do Rio, nem a drogaria, nem a sapataria na esquina, ou o Alberto confecções.

Hoje, a loja das tintas, na esquina com a Duque d'Ávila, é a Livraria Pó dos Livros e a pastelaria Colombo, na Avenida da República, transformou-se em Mcdonald's.

E, no entanto, apesar de toda estas mudanças que são um natural sinal dos tempos, há no meu antigo bairro pequenos detalhes que parecem tê-lo mantido de certo modo imune à passagem do tempo. Lá continua sempre igual a Versailles, até há pouco lugar obrigatório dos lanches de Domingo com a minha mãe, apesar de nem eu nem ela vivermos na zona, como se mantém igual o Colégio Académico (a "escola dos alunos burros", dizia-se na época), ou a Charcutaria Dava, mesmo ao lado da Pérola do Chaimite, com aquele magnífico cheiro a café, que são agora as únicas reminiscências de um tempo que  não volta.

Entretanto passei por outros lugares, gostei de uns mais do que de outros e, aos poucos, começo a afeiçoar-me também ao meu novo bairro, que não fica muito longe. Mas este será sempre um lugar que sinto como meu, que me pertence, a que pertenço.

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Histórias de Lisboa (2)

por Isabel Mouzinho, em 25.08.16

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 Baixa-Chiado

 

É o coração de Lisboa e por isso fervilha de gente e de vida, ainda mais agora, que a cidade está na moda e para os turistas é ponto de passagem obrigatório.

A mim, a Baixa traz-me sempre de algum modo a infância de volta. Não passo por lá nunca sem evocar o tempo em que ir à Baixa significava visita à casa dos avós, ou a excitação das compras,  que incluía uma voltinha obrigatória nas escadas rolantes do Grandella, -  o cheiro peculiar das lojas de tecidos, o sabor inigualável dos batidos de morango da Ferrari.

Houve depois, nos anos 80, aquele terrível Agosto em que acordámos em sobressalto com o barulho das sirenes dos bombeiros e a notícia do Chiado em chamas. Nessa manhã, fui até ao Miradouro da Senhora do Monte e, mesmo só ao longe, ao vê-lo assim, a ser destruído por aquele fogo que parecia imparável, até chorei. Parecia que uma parte da história da nossa vida se apagava também no incêndio. E, de facto, durante anos, o Chiado manteve-se lúgubre, triste e quase morto, mas renasceu das cinzas e readquiriu uma nova pujança. 

A Baixa-Chiado é agora uma outra Lisboa, mais moderna e cosmopolita, mas não menos encantadora. Continuam a seduzir-me as ruas estreitas, o Tejo a espreitar em cada volta de esquina, a boémia e a tradição, como se em cada recanto houvesse ainda ecos dos pregões das varinas e a todo o momento pudesse começar a ouvir-se um fado à desgarrada.

Hoje, há o Santini e a Vida Portuguesa, as esplanadas e os terraços, um certo ar de férias. Hoje, por motivos diferentes, ou talvez não - no fundo são quase os mesmos - continuo a gostar de ir passear à Baixa, de caminhar sem destino na preguiça e na alegria de quem descobre a cidade como se a visse pela primeira vez.

E em Agosto, apesar dos turistas, ela parece um pouco mais lenta do que no resto do ano, espreguiçando-se languidamente no calor das tardes, embalada ao de leve na brisa do fim do dia, entre gaivotas e maresia, sob o olhar plácido e enamorado do rio, com quem vive de mão dada.

 

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Blogue da semana

por Isabel Mouzinho, em 14.08.16

Por falta de tempo, e várias outras razões, são muito poucos os blogues que sigo com regularidade e atenção. Por isso, nunca me é muito fácil escolher um para recomendar. Mas, desta vez, não pensei muito: a minha escolha vai para  pinta-amores, pela sua espontaneidade e despretensão, duas qualidades que muito aprecio.

Trata-se um blogue que quase não tem texto e apenas recolhe inscrições emocionais anunciadas ao mundo, em muros, em estradas e caminhos, em sinais de trânsito, em postes e outras inimagináveis superfícies. São confissões, desabafos, pedidos, declarações, explosões de afecto, que estão por toda a parte, para toda a gente ver, como uma espécie de grito. Sempre a propósito do amor. E não é o que há de maior e melhor na vida?

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Histórias de Lisboa

por Isabel Mouzinho, em 05.08.16

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 Avenida Guerra Junqueiro

 

Houve um tempo em que a Avenida de Roma e circundantes, ou os Bairros de Areeiro e Alvalade eram uma zona nobre da cidade, onde se destacava a Avenida Guerra Junqueiro como um lugar chic de compras, com as lojas e os cafés a transbordar, sempre cheia de movimento e de vida.

Hoje, é apenas uma sombra do que foi, um lugar deserto onde parece não se passar quase nada, e a agitação de outrora partiu definitivamente para outras paragens. Muitos cafés fecharam ou transformaram-se em bancos, e até a Mexicana, com a remodelação, perdeu o prestígio e a popularidade de épocas passadas. A maior parte das lojas de roupa deu lugar a lojas de decoração onde não entra ninguém e o silêncio em que mergulha agora a avenida pesa e incomoda. Só os edifícios mantêm a imponência de antes, mas é poucochinho em relação ao que já foi.

No fundo, tudo isto deverá fazer parte da dinâmica da cidade em permanente mutação: há zonas que envelhecem e quase morrem, enquanto outras renascem e crescem.

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"Está vento, assim custa..."

por Isabel Mouzinho, em 26.05.16

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Todas as raparigas da minha geração têm a Anita como uma referência da sua infância. Pelo "Observador", soube que estes livros, que tanto contribuíram para desenvolver o nosso gosto pela leitura, comemoraram há dois dias 50 anos de publicação em Portugal.

Em minha casa não chegámos a ter a colecção inteira, mas havia aqueles que não podiam faltar: A "Anita dona de casa", desde logo, que era o primeiro volume, mas também a "Anita Mamã", a "Anita no ballet" ou a "Anita vai às compras".

Lembro-me de ir à Feira do Livro todos os anos, quando ela era ainda na Avenida da Liberdade, e de me deter longamente em bicos de pés junto da barraca amarela da Verbo Editora, a escolher, com critério e minúcia, um novo título (só podíamos comprar um). Lembro-me, também, de frases inteiras de alguns livros, que repetia com a minha irmã nas mais diversas circunstâncias, e que ainda hoje são uma espécie de "private joke" entre nós.

Muitos vieram depois considerar que o conteúdo destas histórias era demasiado conservador e veiculava uma visão da vida um pouco machista, o que na verdade me parece um exagero. Para nós, as histórias da Anita eram a mistura perfeita de ilusão e realidade quotidiana. Isso explica, talvez, o seu sucesso, que se prolongou por várias décadas. Estes são os primeiros livros que me lembro de ter lido. E relido muitas vezes, durante anos, até quase os saber de cor. 

Só quando já depois dos vinte anos deixámos a grande casa familiar da Conde Valbom é que eles desapareceram fisicamente da(s) nossa(s) casa(s). Acho que não guardei nenhum, a não ser na memória, onde ainda se conservam todos, intactos na sua pureza e simplicidade pueril, de onde às vezes regressam por uma palavra, uma frase, um desenho, e de onde espero que não desapareçam nunca por uma daquelas fatalidades que atiram tudo o que vivemos para o vazio do esquecimento.

Recentemente mudaram-lhe o nome e, sob nova editora, rebaptizaram-na, chamando-lhe Martine para a aproximar do original belga.

Mas para mim e para todas as que, como eu, cresceram com ela, será sempre a Anita, companheira de brincadeiras, descobertas, aventuras.

E hoje, que (re)começa a Feira  - agora no Parque Eduardo VII, onde ficará cerca de duas semanas -, lá voltarei uma vez mais, já não à procura de mais um livro da Anita, mas de outras leituras que, espero, me farão,  de igual modo, um pouco mais feliz. 

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Fora de Série (8)

por Isabel Mouzinho, em 22.05.16

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Quando eu era pequena não tinha autorização para passar muito tempo em frente da televisão. Talvez por isso, tudo o que via exercia sobre mim um especial fascínio. Foi assim que, durante muito tempo, me diverti com as peripécias de Samatha, a "feiticeira" e com os seus trejeitos de nariz que serviam para arrumar a casa ou resolver as mais insólitas situações, diante da perplexidade de um marido desajeitado, que fingia não entender os seus poderes especiais.

Mais tarde, ainda antes de me perder de amores pelos olhos verdes do Jean-Loup, de "Os Pequenos Vagabundos", a série de culto que na época fazia suspirar todas as meninas acabadinhas de entrar na adolescência, eu quis ser como a Pipi das Meias Altas, aquela miúda ruiva, sardenta, de tranças muito espetadas, que vivia sozinha com um cavalo e um macaco, que se pendurava nas árvores e fazia mil diabruras, numa irreverência que parecia não ter limites, permitindo-se quebrar todas as regras, e sair-se sempre bem.

A série, - um original sueco, feita a partir de três livros de literatura infanto-juvenil de Astrid Lindgren,- que acompanhei com paixão, misturava liberdade, aventura e brincadeira, num mundo onde tudo parecia permitido. A Pipi era uma personagem a meio caminho entre a realidade e a ficção, uma rapariga como nós e ao mesmo tempo muito diferente, que alimentava o nosso imaginário infantil num tempo em que a televisão ainda era só a preto e branco.

E lembro-me, vagamente, da desilusão que senti quando a actriz que fazia de Pipi na série passou por Lisboa e, vista assim, sem tranças e sem a habitual caracterização, me pareceu afinal uma rapariga como as outras.

Há pouco tempo voltei a ver uma fotografia de Inger Nilsson, que tem agora 56 anos. Nem parecia a mesma. A verdade é que já passaram alguns anos e o tempo deixa marcas em todos nós. Mas, ainda que os tempos sejam outros e muita coisa seja diferente, há determinadas vivências, típicas da adolescência, que não mudam nunca; e há séries que nos marcam para sempre.

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Dois anos sem o Vasco

por Isabel Mouzinho, em 27.04.16

O Acordo é uma barbaridade, feita inconsiderada e precipitadamente, mantida por obstinação e teimosia, e conducente a um resultado exactamente oposto ao pretendido.

 

(Entrevista ao Expresso. 26.05.2012)

 

Foi neste dia, há dois anos, que o "Príncipe das Letras", como tão justamente lhe chamaram, nos deixou. É sempre cedo demais para ver partir aqueles de quem gostamos, porque mesmo que nos fiquem as palavras e as lembranças, sobra a saudade e um grande buraco vazio que não pode preencher-se.

Hoje, fará muita falta à sua família e amigos mais chegados, naturalmente, mas também ao país e ao mundo; e, acima de tudo, faz falta à língua portuguesa, que tanto e tão bem defendeu, e cuja luta é agora quase só ausência e esquecimento, encolher de ombros, deixar andar.

Ah, a falta que o Vasco (nos) faz...

 

O suporte da música pode ser  a relação

entre um homem e uma mulher, a pauta

dos seus gestos tocando-se, ou dos seus

olhares encontrando-se, ou das suas


vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,

ou dos seus obscuros sinais de entendimento,

crescendo como trepadeiras entre eles.

O suporte da música pode ser uma apetência


dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se

ramifica entre os timbres, os perfumes,

mas é também um ritmo interior, uma parcela

do cosmos, e eles sabem-no, perpassando


por uns frágeis momentos, concentrando

num ponto minúsculo, intensamente luminoso,

que a música, desvendando-se, desdobra,

entre conhecimento e cúmplice harmonia.

 

                                                                 (Vasco Graça Moura)

 

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Um Ministro Poeta

por Isabel Mouzinho, em 12.04.16

Sou tudo menos socialista, já se sabe. Mas ter um poeta como Ministro da Cultura, parece-me bem, confesso. Porque terá, pelo menos, um peculiar entendimento das coisas, uma sensibilidade maior. E isso é muito importante.

De Luís Filipe Castro Mendes conheço pouco. Mas à esquerda e à direita todos lhe tecem os maiores louvores. Segundo a minha amiga Helena, que o conhece bem, (...) iremos ter como Ministro da Cultura um homem muito inteligente, muito culto, e cuja profissão de origem, a diplomacia, lhe permitiu correr mundo e contactar com culturas muito diversas.

Humanamente é um homem caloroso, cujo olhar sereno mas directo só pode tranquilizar aqueles que, na área que vai conduzir, ponham parte do destino profissional nas suas mãos.

A Helena tem certamente razão. Há uns três anos estive no lançamento de um livro do futuro Ministro e gostei muito. Pude testemunhar a serenidade calorosa de que fala a Helena e tocou-me sobretudo a simplicidade com que pegou no seu livro e leu alguns poemas, que é no fundo a melhor maneira de os apresentar.

Vamos ver como se sai na política, mas lá que promete, disso não restam dúvidas...

 

Para a solidão nascemos. Outras vozes

nos chamam e invocam, outros corpos

se perfilam radiosos contra a noite.

Nós não somos daqui. Num intervalo

de campanhas esquecidas nos dizemos,

abrindo o coração aos de passagem.

Mas quando a manhã chega nós partimos,

mais livre o coração, longa a viagem.

 

                                                          (Luís Filipe Castro Mendes)

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Boas iniciativas

por Isabel Mouzinho, em 23.03.16

Já foi há dois dias, mas a iniciativa pareceu-me interessante e original. Para comemorar o Dia Mundial da Poesia, alunos da Escola Profissional de Teatro de Cascais prepararam uma surpresa aos passageiros do comboio da linha, percorrendo as carruagens do comboio da manhã, ou permanecendo nas estações, a declamar poemas, a distribuir livros gratuitamente e, acima de tudo, a divulgar a poesia de autores portugueses, tantas vezes tão injustamente esquecida. E chamaram-lhe "O comboio da poesia", que é também um bonito nome.

 

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Março

por Isabel Mouzinho, em 29.02.16

Quando chega Março, tudo muda. Março sabe-me sempre a princípio. Escreve-se com M de Mouzinho e de Mãe. E, também por isso, Março é meu. É o mês que me viu nascer e é o mês da Primavera. É azul, como o céu e o mar. Traz consigo muita luz, cor e festa. E a serenidade da brisa da tarde, na claridade que mansamente se prolonga, que cresce um pouco mais dia após dia, encurtando a noite.

É o esplendor da natureza a renascer em efusiva e contagiante ostentação. São perfumes de flores e cheiros frescos e intensos, sentidos despertos que facilmente se deixam inebriar, pele que se destapa, vontade de passear ao sol.

E é o som do canto dos pássaros, o melro preto de bico muito amarelo que me visita todas as manhãs, e os chilreios na minha varanda ao amanhecer, para anunciar o nascimento de mais um dia.

Março convida ao amor e à ousadia, revitaliza a alma e traz boa disposição em doses reforçadas, a cada novo despertar. Em Março volto sempre a nascer, em alegria, força, energia e vontade. Porque, tal como na canção, é  promessa de vida no meu coração.

 

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Blogue da semana

por Isabel Mouzinho, em 21.02.16

Não é uma sugestão muito original, mas é boa. Já foi, certamente, muito referido por aqui. Mas, ainda assim, o blogue que quero recomendar esta semana é o do Pedro Rolo Duarte. E explico porquê: não conheço o Pedro pessoalmente, apesar de já nos termos cruzado muitas vezes, e de ter até chegado a participar num programa de rádio da sua autoria, nos anos 80, que se chamava "Só com gelo" e de que eu gostava muito. Comecei a lê-lo ainda antes disso, nos tempos do "Sete". Temos amigos em comum, além de vários gostos musicais. E literários, também. No entanto, nem sempre estamos de acordo, o que é natural. Não gosto do "visual" deste blogue; é uma página muito carregada, cheia de publicidade, a lembrar de certo modo um jornal. Mas gosto de o ler. Porque há uma personalidade por trás das palavras. Porque não soa a falso. Porque não é um daqueles blogues bonzinhos, cheios de sensatez e bons sentimentos, que me irritam e enjoam.E, como se tudo isto não bastasse, tem feito ultimamente muitas referências a Vergílio Ferreira, por causa do centenário, claro, e também porque, para ele, tal como para mim, é um dos escritores favoritos.

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Para sempre

por Isabel Mouzinho, em 28.01.16

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Hoje fui ver o mar. Na realidade não ia vê-lo mas aproveitei. E à primeira impressão  eu via-o mas não o via, porque via dele apenas a realidade imediata em ondas e espuma. Foi preciso que deixasse vir ao de cima o que oculto se me queria revelar. Abandonei-me a ele e deixei. Mas o que então se me revelou foi uma nebulosa confusa de emoções , memórias, associações indistintas, qualquer coisa que se anuncia como numa casa desabitada. O indizível. O flagrantemente presente e que se não acaba de esclarecer. O estranho que nos perturba e não sabemos de onde vem. A praia estava deserta e o mar convulsionava-se num mundo ainda por nascer (...) Eu podia enumerar todos os elementos do que presenciava, mas havia outra realidade que ficava intacta à minha enumeração. Essa, essa - dizê-la. Não é aí precisamente que começa o "escrever bem"? Por isso a escrita não tem que ver com o real mas com o outro real dela. (...) Há no homem o insondável da sua interrogação. Mas só o artista a conhece e a pode revelar aos outros para ela ser desses outros e a verdade do ser se lhes iluminar. Escrever bem. Ser sensível ao que se quer revelar e ser só a sua revelação. E o mundo existir porque ele o revelou. 

 

(Vergílio Ferreira, Pensar)

 

Tinha dezassete anos quando o li pela primeira vez. Ou, pelo menos, quando se me revelou. E essa leitura marcou-me de uma forma tão profunda, que determinou de certo modo a escolha do caminho, porque me levou a decidir em definitivo que queria estudar literatura.

Escritor, ensaísta, professor, de personalidade forte e humor mordaz, dele se diz que morreu a escrever, aos oitenta anos, e que quis que o seu caixão ficasse virado para a Serra da Estrela, que ele tanto amava. Verdade ou não, o que importa é o que nos fica: uma obra imensa que, goste-se muito ou não se goste nada, ocupa um lugar central na literatura portuguesa do século XX. É, por isso, incompreensível e imperdoável que tenha sido retirado dos programas de Português do Ensino Secundário...

Vergílio Ferreira faria hoje cem anos. Para mim, será sempre um dos melhores.

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110 anos

por Isabel Mouzinho, em 20.01.16

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Inaugurado a 20 de Janeiro de 1906, o Liceu Pedro Nunes, como ainda hoje é conhecido, começou por designar-se "Lyceu Central da 3ª Zona Escolar de Lisboa", funcionando até 17 de Novembro de 1911 no Liceu do Carmo, primeiro, e na Rua do Sacramento à Lapa, depois, até se instalar definitivamente no centro da cidade, na Avenida Pedro Álvares Cabral, junto ao belíssimo Jardim da Estrela, num edifício criado de raiz pelo arquitecto Ventura Terra, modernizado entre 2008 e 2010 no âmbito do programa de intervenção da Parque Escolar, com um projecto da autoria dos arquitectos Pedro Viana Botelho e Maria do Rosário Beija, e classificado desde 2012  como "Monumento de interesse público".

Ao longo da sua história, passaram pelo Liceu Pedro Nunes alunos e professores que são ou foram figuras de relevo na sociedade portuguesa, como Nuno Crato, Marcelo Rebelo de Sousa, Luís Represas, enquanto alunos, ou Rómulo de Carvalho, o Padre Alberto Neto e Delfim Santos, como professores, para referir apenas alguns exemplos.

No velho edifício só me lembro de ter entrado uma vez, há muitos anos, para fazer um exame do "Propedêutico" - também eu fui "cobaia" da mil e umas experiências e reformas do ensino dos anos pós revolução de Abril e que se mantêm actualmente, no mesmo ritmo frenético e insensato, a cada mudança de governo. Guardo  uma memória difusa desse dia longínquo, marcado acima de tudo pelos nervos e a ansiedade de um acontecimento excepcional. Do espaço, só recordo  a enorme escadaria de madeira, que ainda existe, e uma sala de grandes janelas.

Hoje, o Liceu Pedro Nunes - que ainda não conheço bem, mas sinto já um pouco meu - é um espaço imenso, lindo e de bom gosto, onde a tradição e a modernidade se conjugam em harmonia, um lugar com história, onde passo muitas horas dos meus dias, um mundo quase todo novo que descubro devagar, no arrepio da surpresa que é também um desafio que se vai construindo a cada dia, e onde cabem todas as vitórias e derrotas, esperanças e desilusões, expectativas e vontades de que se vai fazendo o quotidiano, como se a vida estivesse sempre a recomeçar.

E, apesar de não haver lugares perfeitos, vivo ainda no estado de encantamento que têm todos os inícios, na satisfação de um sonho realizado, e na alegria de estar num lugar a que gosto muito de pertencer.

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