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Delito de Opinião

Antigamente...

Cristina Torrão, 06.04.21

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Imagem encontrada na net, sem indicação de autor

De vez em quando, lá oiço alguém afirmar convicto: antigamente, os Portugueses escreviam muito melhor (…) Estou em crer que quem tal afirma revela alguma ingenuidade. No fundo, está a deixar-se levar por uma imagem idealizada do «português de antigamente».

Aplaudo esta crónica do professor e tradutor Marco Neves. Hoje esquecemo-nos de que Portugal, até meados do século XX, era um país de analfabetos. Não só por me interessar por História, como por andar a consultar livros paroquiais antigos, a fim de fazer a crónica da família, estou em constante contacto com o passado. E, quando reflicto sobre questões destas, gosto de ir procurar casos concretos, precisamente, na minha família, uma típica família portuguesa, que, salvo raras excepções, não pertencia à “elite” frequentadora da escola.  

Apesar de ter tido a sorte de nascer num lar de professores primários e começado a juntar as primeiras letras com quatro anos, não preciso de ir muito longe, a fim de confirmar o analfabetismo que grassava no nosso país até meados dos anos 1980. Não tenho pejo em afirmar que, dos meus quatro avós, só o meu avô materno se sentou nos bancos escolares, concluindo o antigo quinto ano do liceu e tornando-se funcionário público.

O meu avô transmontano sabia ler e escrever por ser autodidacta. Começou a aprender durante a tropa e desenvolveu os conhecimentos ao longo da vida, tornando-se numa ajuda preciosa para os habitantes da sua aldeia. As minhas duas avós eram analfabetas, a materna pediu-me muitas vezes para lhe ler alto as legendas dos filmes (normalmente, era o meu avô que lhas lia). A minha avó transmontana nem sequer se habituou à televisão, apesar de os filhos lhe terem oferecido uma, tinha ela já quase setenta anos.

Se recuar ainda mais, até aos meus oito bisavós, penso que também só um deles estudou, era funcionário das Finanças, como o filho viria a ser. Casou com uma jovem de família conceituada da Mealhada, mas sinceramente não sei se essa minha bisavó sabia ler e escrever. Nascer num berço algo privilegiado, não era garante desse tipo de aprendizagem, para uma mulher. Todos os outros seis bisavós eram analfabetos.

Depois da Revolução de 1974, fez-se muito esforço para acabar com o analfabetismo. Sei isso igualmente por experiência pessoal: o meu pai preparou muitos adultos para o exame da 4ª classe.  Por isso, tal como o professor e tradutor Marco Neves, eu pergunto: quando foi essa época em que escrevíamos muito melhor?

No tal antigamente, a maior parte dos portugueses não escrevia. Haverá quem prefira que poucos escrevam — sempre evitam ler textos com erros. Mas até isso é uma ingenuidade: olhamos para o passado e, de todos os textos de quem escrevia (e eram poucos os que sabiam fazê-lo), só vemos os textos que sobreviveram ao turbilhão do tempo, só nos lembramos dos bons textos.

Este é aliás um erro comum, não só no que diz respeito à escrita. Como a memória não é perfeita, lembramo-nos mais facilmente daquilo de que gostámos do passado — e acabamos por idealizá-lo. A memória é uma peneira que, do passado, nos dá apenas os diamantes. A lama, essa, fica escondida na aridez dos números e de alguns livros de História.

Comparar a escrita dos dias de hoje apenas com os bons escritores do passado é um erro muito mais grave que qualquer cedilha fora do lugar.

O meu animal e eu

Cristina Torrão, 03.04.21

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A forsythia, ou forsítia, é um símbolo da Páscoa, na Alemanha. Floresce num amarelo vivo, fazendo lembrar a luz do sol e dando cor a uma época em que a Natureza se encontra ainda em hibernação. É um arbusto abundante, por aqui, pois aguenta frio, neve e gelo, mas também calor e alguma falta de chuva, no Verão.

Temos algumas forsítias no nosso jardim. Esta, ainda pequena, tem um significado especial para nós: as cinzas da nossa cadela Lucy foram espalhadas à sua volta, debaixo das pedrinhas. E agora, com a chegada de mais uma Páscoa confinada, ao deparar com a luminosidade das florinhas, lembrei-me de um texto que escrevi em alemão, sobre a Lucy, cerca de dois meses antes da sua morte. Foi escrito com a intenção de participar num passatempo organizado pelo jornal local de Stade, no Verão de 2019, intitulado Mein Tier und ich (“O meu animal e eu”). Consistia num pequeno texto a ser publicado, assim como a imagem do respectivo animal.

Decidi deitar mãos à obra, pois apanhou-me numa altura difícil, em que prescindíamos voluntariamente de coisas que gostaríamos de fazer, mal sabendo que, num futuro próximo, seríamos obrigados a prescindir de muito mais. Infelizmente, acabei por me distrair com o prazo e não cheguei sequer a enviar o texto.

Fui agora procurá-lo, já nem me lembrava bem do que tinha escrito. E resolvi traduzir para português as palavras gravadas a 11 de Agosto de 2019, quando, apesar das restrições que nos impúnhamos, ainda íamos ao restaurante, visitávamos parentes e amigos e actuávamos com o nosso coro. A Lucy morreria cerca de dois meses mais tarde.

«A nossa Lucy tem 15 anos e 9 meses, está surda e quase cega. Mas isto nem é o pior. O coração dela está muito enfraquecido, o que lhe provoca desmaios. Estes podem acontecer a qualquer momento, também a meio da noite e, por vezes, fazem-na ganir alto, acordando-nos em sobressalto.

A Lucy tem, porém, ainda qualidade de vida. Recuperada dos desmaios, readquire a sua alegria habitual. Come muito bem, não prescinde dos seus pequenos passeios e continua interessada em tudo o que se passa dentro de casa.

O Horst eu estamos muito presos, nem sequer podemos sair nas férias. A Lucy já não aguentaria uma viagem e, deixá-la aos cuidados de alguém, está fora de questão. Ela veio para nossa casa com apenas oito semanas de vida, não conheceu outra família. Além disso, a sua situação exige cuidados especiais. Os comprimidos têm de ser dados a horas certas, os seus desmaios não são fáceis de aguentar e, como toma um diurético, a fim de não acumular líquido nos pulmões, a bexiga funciona com frequência. Tem de se conhecer muito bem o ritmo dela e andar muito atento.

Antigamente, a Lucy era uma cadelinha muito activa e acompanhava-nos nas férias. Conhece meia Europa, viajou muitas vezes de carro entre a Alemanha e Portugal. Mas também nos acompanhou noutros passeios: caminhadas no Parque Nacional do Harz, no vale do Rio Mosela, pelos montes luxemburgueses, além de várias vezes ter andado no ferry-boat do Lago Constança entre a Alemanha, a Suíça e a Áustria.

Agora, que nada disto é possível, não a deixamos sozinha e tentamos tornar-lhe tão agradável quanto possível o tempo que lhe resta. Na sua fragilidade, ela confia totalmente em nós. E uma confiança destas não deve ser nunca traída».

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A Páscoa também é confiança. Na vitória da vida sobre a morte.

Boa Páscoa!

A trapalhada das vacinas

Cristina Torrão, 31.03.21

A vacina AstraZeneca (agora parece que se chama Vaxzevria) foi lançada com a recomendação de não ser administrada a pessoas acima dos 65 anos. Desde ontem ao fim da tarde, a Alemanha estabeleceu que a mesma vacina só deve ser ministrada a partir dos 60 anos!

A polémica com a AstraZeneca começou logo no início, ao ser imposta a restrição da idade. Muita gente ficou desconfiada. Passado algum tempo, foi suspensa, por supostamente causar coágulos sanguíneos no cérebro. A Agência Europeia de Medicamentos acabou por lhe dar caminho livre, dias depois, mas, na Dinamarca, por exemplo, a sua ministração ainda não foi retomada.

Entretanto, na Alemanha, já se contam mais de trinta casos de trombose cerebral relacionados com a toma da AstraZeneca. Nove dessas pessoas morreram. A maior parte dos casos deram-se com mulheres abaixo dos 55 anos, daí a resolução, ontem, de só ministrar a vacina a partir dos 60 anos. Porém, pessoas com mais de 70 também não a deverão tomar! Todos estes percalços põem as pessoas ainda mais inseguras, principalmente, professoras e enfermeiras que já tomaram a primeira dose desta vacina.

Em 2020, a Alemanha geriu bem a pandemia, mas, este ano, quando se pensava que tudo entraria nos eixos, veio o caos. Procedeu-se a um “lockdown light”, logo no início de Novembro (só fecharam cafés e restaurantes), mas, como os casos continuaram a aumentar até meados de Dezembro, decidiu-se o lockdown total, com fecho de cabeleireiros e todos os estabelecimentos não imprescindíveis. Dizia-se que assim o ano de 2021 começaria bem, até porque já se contava com as vacinas.

A gestão das ditas, porém, tem sido uma catástrofe. Organizaram-se grandes centros de vacinação, que acabaram por ficar às moscas, ao não haver vacinas suficientes, e alguns já começaram a ser desmantelados (a ministração das vacinas passará a ser feita pelo médico de família, depois da Páscoa). Tudo isto causou mal-estar na população. Junte-se a polémica da AstraZeneca e o facto de o número de casos ter vindo novamente a aumentar, de há três semanas para cá, apesar de todos os sacrifícios e restrições (cafés e restaurantes estão fechados desde o início de Novembro).

Na manhã de 23 de Março, os alemães não acreditavam nas notícias: o governo federal tinha resolvido decretar uma Páscoa em recolhimento total, que se deveria iniciar logo na Quinta-feira Santa, considerada feriado. Era certo e seguro o fecho dos supermercados. Mas… e o resto? Era feriado para todos? Os funcionários públicos deveriam trabalhar? E quem tinha consulta marcada no médico, ou hora no cabeleireiro? Foi tal o caos, que, ainda nesse mesmo dia, a chanceler Merkel veio pedir desculpa pela resolução, cancelando-a, assumindo toda a culpa e reconhecendo que tinha sido tomada muito em cima da hora.

Com tudo isto, o partido da chanceler, CDU, vem caindo a pique nas sondagens. A escolha do novo líder, no início do ano, não tem ajudado (Merkel há muito anunciara que não se recandidataria nas eleições deste ano). Armin Laschet, Ministro-presidente do estado da Renânia do Norte-Vestfália e considerado uma pessoa ponderada, tem falhado em posicionar-se como novo candidato a chanceler, com tendência para o dislate, pondo as pessoas embasbacadas, assim ao estilo do nosso Rui Rio. Pelos vistos, não conhece o modelo Costa, que faz muitos disparates, mas tem jeito para falar ao povo, bonacheirão e consensual.

Por acaso, calha-me bem que o governo federal tenha decretado a AstraZeneca para pessoas dos 60 aos 69 anos. Sou cismática e já tinha resolvido recusá-la, quando chegasse a minha vez, arriscando ir para o fim da fila. Com 55 anos, e apesar de já ser velhota para o Sr. Carlos Moedas, vejo-me, de repente, inserida no grupo das “mulheres mais jovens”. Isto, claro, se não se cumprir a profecia do meu marido: pelo andar da carruagem, quando eu for chamada, já devo ter atingido os tais sessenta...

HILFE!!!

Diz que é a mais antiga do mundo…

Cristina Torrão, 13.03.21

… mas é a prostituição uma profissão? É o serviço sexual comparável a outro tipo de serviço? O princípio que justifica a existência do negócio do sexo é medieval: a aceitação de um mal necessário. De um lado, as mulheres “puras”, com a função de serem esposas e mães; do outro lado, as meretrizes, que se usam para não se “fazer mal” às primeiras. Sinceramente, como pode uma sociedade que apregoa a igualdade conviver pacificamente com tal discriminação?

De há uns anos para cá, tenho formado uma opinião sobre este assunto, que se confirmou, depois de ter visto um documentário transmitido pelo 3sat, um canal público alemão ligado ao ZDF, dedicado à cultura, ao documentário e ao debate de temas sociais (excluindo os fait-divers políticos e desportivos). Nesse documentário, comparava-se o sistema alemão, que legalizou a prostituição em 2002, com o sueco, que proibiu, em 1999, a compra de serviço sexual. Dizem os suecos que a prática da prostituição não é compatível com a dignidade humana.

Prostitutas inscritas na Segurança Social, com direito a serviço médico, subsídio de desemprego e reforma - que maravilha! A sociedade fica descansada, considera resolvido um problema tão incómodo. A realidade, porém, é muito diferente. A Alemanha tornou-se num verdadeiro centro de tráfico humano, as mulheres circulam por toda a Europa, tornaram-se num produto de compra e venda entre os donos dos bordeis.

Das cerca de 400.000 pessoas que se prostituem (um número que se calcula e cuja esmagadora maioria são mulheres), apenas 40.400 estão legalizadas. Passados quase vinte anos sobre a aprovação da lei, 90% das prostitutas na Alemanha continuam desprovidas de Segurança Social e de qualquer tipo de direitos e apoios. Não exercem a actividade por escolha própria e são mantidas à custa de muita violência, qualquer tentativa de desistência é resolvida com espancamentos e/ou chantagens. Muitas dessas mulheres nem sequer sabem falar alemão, vêm do Leste europeu pela mão de traficantes, não conhecem os seus direitos, os bordeis onde trabalham não estão legalizados, são exploradas e violentadas. Vêem-se num beco sem saída, não sabem a quem pedir ajuda e acabam por quebrar ao ponto de nada lhes interessar, de nem sequer saberem se querem desistir ou continuar. Sentem-se lixo.

As prostitutas que escolhem a sua profissão e a exercem, muitas vezes, por conta própria, é uma minoria irrisória. As assistentes sociais que lidam com o problema resumem a questão da seguinte maneira: 50% das prostitutas são viciadas em droga e sujeitam-se para pagarem o vício; a outra metade são raparigas e mulheres com um historial de abusos desde a infância, vidas cheias de violência e/ou de pobreza extrema. Jovens nesta situação são muito fáceis de manipular e acreditam nos traficantes, que lhes garantem uma mudança de vida num país rico.

Os clientes, por seu lado, não estão interessados em saber se a prostituta o faz obrigada ou por vontade própria. Eles não fazem ideia do que as mulheres sofrem, nem da complexidade das suas vidas. Pagam por um serviço e sentem-se no direito de o exigir.

Os suecos apostam numa mudança de mentalidades. Na verdade, eles não criminalizaram a prostituição, mas sim a compra do serviço sexual e os donos dos bordeis. Ou seja: a prostituição não é ilegal, mas pagar para ter sexo já o é. Não é a prostituta que comete a ilegalidade, mas sim o cliente, é sobre ele que a lei actua.

Sob o pressuposto de que a prostituição não combina com a dignidade humana, a Suécia aposta numa educação social que considera errado comprar serviço de sexo. Ao mesmo tempo, financiam-se programas que permitem às mulheres mudarem de vida. Nos últimos vinte anos, a prostituição de rua reduziu para metade  e muitos traficantes passaram a evitar este país. Além disso, as assistentes sociais e outras pessoas que apoiam prostitutas e que difundem este novo tipo de educação social (também homens, claro) sentem a mudança das mentalidades e estão convencidas de que a situação continuará a evoluir nesse sentido.

Um ginecologista que colabora com uma instituição de apoio a prostitutas, na cidade alemã de Mannheim, confirmou que as mulheres estão sujeitas a muita violência, a vários tipos de doenças e obrigadas a práticas inaceitáveis. Um ex-inspector da Polícia Judiciária Alemã (Kriminalpolizei), que tinha a seu cargo a investigação do tráfico humano, declarou que é impossível separar este da prostituição e frisou que as mulheres não são vistas como seres humanos, mas como mercadorias oferecidas ao cliente, conforme os gostos deste, além de compradas, vendidas e trocadas entre os donos dos bordeis.

Na Alemanha, há quem lute para que o país adopte o modelo sueco, pois considera que o Estado, ao legalizar a prostituição, está a dizer ao homem que ele tem direito a comprar serviço sexual. A prostituta é estigmatizada, o cliente não (é este pressuposto que os suecos pretendem inverter). A prostituição é extremamente desgastante do ponto de vista físico e psicológico. Ex-prostitutas mostram sintomas semelhantes aos traumatizados de guerra: tendem a depressões, pesadelos, e são praticamente incapazes de fazer uma vida normal.

O documentário encerra com a declaração da deputada do SPD Leny Breymeier: por mais que falemos de igualdade, de participação e capacitação das mulheres em todos os sectores sociais, a nossa sociedade nunca será igualitária, enquanto os homens se sentirem no direito de comprar uma mulher.

 

Nota: o documentário foi rodado em tempo de pandemia, mas os dados reportam-se à era pré-Covid. Apesar do confinamento, continua naturalmente a existir prostituição, mas, sendo ainda mais clandestina, torna-se mais difícil de controlar pelas autoridades e pensa-se que a situação das mulheres piorou.

No caso de passar por aqui alguém que saiba alemão e estiver interessado no tema, pode ver o documentário no seguinte link:

https://www.3sat.de/wissen/wissenschaftsdoku/210304-prostitution-wido-104.html

Pensamento da semana

Cristina Torrão, 07.03.21

O líder do partido Chega incluiu a expressão “gente de bem” no seu discurso político, passando aquela a ser sobejamente apreciada pelos seus apoiantes. Na noite eleitoral, depois de estar garantido não haver segunda volta, André Ventura especificou ainda mais e desejou ao Presidente reeleito um “segundo mandato, com dignidade, respeito por Portugal e pelos portugueses de bem”. Ou seja, um candidato à Presidência da República não teve pejo em dividir o povo que se propunha representar entre os mais e os menos merecedores, apelando à discriminação de certos portugueses, que, pelos vistos, não acha dignos do respeito da maior instância da nação. Só faltava dizer que, como Presidente, criaria dois tipos de Cartão de Cidadão, a fim de melhor distinguir quem pertence ao exclusivo “clube bem”.

Mas afinal, o que é “gente de bem”? O que são “portugueses de bem”?

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda esta semana

Blogue da semana

Cristina Torrão, 21.02.21

Admiro a jornalista Helena Ferro de Gouveia, é frontal, sincera e assertiva. Além disso, escreve muitas vezes aquilo que eu gostaria de ter escrito, mas para o qual não encontrei o tom certo.

Embora ande mais activa no Facebook (talvez também noutras redes sociais, mas só frequento essa), tem um blogue, Domadora de Camaleões, aliás mencionado na barra lateral aqui do Delito. Mesmo assim, resolvi dar-lhe este destaque.

Domadora de Camaleões é, por isso, a minha escolha para blogue da semana.

Rapariga, mulher, outra

Cristina Torrão, 16.02.21

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Há pessoas brancas e pessoas negras, certo? Sim, mas… onde se ordenam os outros matizes? Mesmo sem falar daqueles que apelidamos de peles-vermelhas ou amarelos, sem falar de ciganos ou indianos, há toda uma paleta de cores entre o branco e o negro. Há os mestiços de todas as etnias e feitios, há os mulatos e as mulatas e, entre estes, há mulatos escuros, mulatas claras, mulatos e mulatas propriamente ditos (assim cor de café com leite). Há mulatos quase brancos, há mesmo mulatos que não se distinguem dos brancos. E há brancos morenos, bem mais escuros do que os mulatos, incluindo senhoras brancas da socialite que investem muito num bom bronzeado, durante a época balnear. Andam muitas pessoas pela Europa convencidas de que são brancas e têm antecedentes negros, porque houve famílias negras que, com a miscigenação, se tornaram cada vez mais brancas. Até há louras e louros descendentes de negros sem o saberem.

Mas não é só a cor da pele a tornar difícil ordenar as pessoas. Também o sexo. Há mulheres e homens, certo? Sim, mas… há pessoas que não se sentem nem um nem outro. Há mulheres bissexuais e outras que se sentem atraídas apenas por mulheres. Entre estas, há as que não têm dúvida de que são mulheres, mas outras que se sentem homens e gostariam de mudar de sexo. Mas também há as que gostam de se vestir “à homem”, que adoptam atitudes masculinas, mas que se sentem bem sem mudar de sexo. E nem todas as mulheres que gostam de se vestir “à homem” e adoptar atitudes masculinas são lésbicas. Também há quem não se consiga decidir. Com os homens é igual.

É justo sermos ordenados e julgados pela nossa cor de pele, ou pelas nossas preferências sexuais, que nem nós sabemos explicar, apenas sabemos que nascemos assim? Este livro de Bernardine Evaristo, vencedor do Man Booker Prize 2019, é, desde já, um dos livros da minha vida (por isso, falo dele aqui). Porque nos torna mais humanos e nos ajuda a compreender muitos fenómenos. É impressionante a maneira como Bernardine Evaristo faz desfilar toda uma série de personagens, com as mais diversas formas de vida, sem julgar, nem ser tendenciosa.

O livro centra-se mais na mulher negra, a última da hierarquia social, aquela que só vem depois de todos os homens e todas as outras mulheres. Mas não pensemos que a autora faz o seu elogio,  apresentando estas mulheres como se não tivessem mácula, ou fossem apenas vítimas da sociedade branca e machista. Bernardine Evaristo mostra-nos igualmente como uma lésbica narcisista pode manipular e subjugar a sua companheira ao melhor estilo machista (independentemente da sua cor). E também nos mostra como os negros podem ser racistas. Não se trata igualmente de um livro de ódio aos homens, mostra-nos inclusive como um homem pode ser a salvação na vida de uma mulher, como lhe pode dar autoestima e proporcionar-lhe uma vida decente, de forma desinteressada e incondicional, depois de essa mulher ter sido discriminada e humilhada no seio da própria família.

Retratos de mulheres fortes e fracas, de lésbicas, bissexuais, transexuais, heterossexuais e outras que tais, de mulheres negras e brancas, mulatas, mestiças, de brancas, uma delas loura e racista, que não fazem ideia do sangue negro que lhes corre nas veias.

Este livro é um tesouro. É assim que o vejo. Naturalmente, recomendo-o. Abram as vossas mentes! A vida é colorida, não a preto e branco. Somos todas e todos humanos.

 

Nota: são livres de expor as vossas ideias, mas qualquer comentário que, mesmo contendo opiniões válidas, eu considere degradante em relação a certas pessoas, ou me ataque pessoalmente (tentando explicar a minha psique, me acuse de ódio, ignorância, ou tente desvalorizar* o meu modo de pensar), será apagado.

 

* digo "desvalorizar", não "discordar"

Neve na minha rua

Cristina Torrão, 09.02.21

Na Alemanha, estamos atolados em neve. Estava a nevar quando me levantei, às sete da manhã, e ainda não parou.

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É frio, mas só cá fora. Resolve-se com agasalhos.

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Em ruas pequenas como a nossa, não há limpa-neves.

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Tem de se andar devagar. Mas não só quando há neve. Moramos numa “rua de brincar” (Spielstraße), as crianças (e os adultos, se quiserem) podem e devem brincar na rua. Têm absoluta prioridade, os carros andam a passo, ou seja, não mais do que 10 km/h, esteja o tempo que estiver.

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Atenção à placa!

Maus costumes

Cristina Torrão, 31.01.21

Apesar de Portugal pertencer ao triste grupo dos cinco países mais afectados pela pandemia, o Ministro dos Negócios Estrangeiros apressou-se a criticar a decisão do governo alemão de interditar a entrada de cidadãos portugueses naquele país, mesmo sabendo que, nesta proibição, não estão incluídos os portugueses residentes na Alemanha, nem está em causa a circulação de mercadorias.

Um dia mais tarde (hoje), foi anunciado que a Alemanha vai enviar profissionais de saúde e equipamento médico para Portugal.

Os portugueses costumam ser muito lestos a criticar os outros. Será para esconderem melhor os seus defeitos?

Portugal não é um país de brandos costumes. É um país de maus costumes.

 

Nota: sei que é duro uma crítica deste género, em momento catastrófico. Mas seria bom que Portugal olhasse mais para dentro de si, uma capacidade que certamente teria ajudado a evitar chegar ao estado a que chegou.

 

Adenda: Sim, é verdade o que esta infecciologista diz. Na Alemanha, por exemplo, a variante inglesa entrou antes do Natal.

Fita portuguesa em destaque

Cristina Torrão, 20.01.21

O cinema português está novamente de parabéns. O filme “Desventuras em Bragança”, o drama de uma tia e seu sobrinho ciganos, foi galardoado com o prémio Bolsonaro, na categoria de melhor argumento original. É sabido que este prémio não é apreciado pelos vultos da cultura, mas não deixa de ter impacto internacional. Aqui um resumo da fita:

A tia e o sobrinho têm um breve momento de fama, num evento organizado por um político compincha e generoso, muito amigo dos pobres e com coragem suficiente para organizar um jantar com 170 pessoas, em plena crise pandémica, com ambulâncias a formarem filas às portas dos hospitais.

Nesse evento, a tia declara: “Não sigo os ideais da etnia, eu sou completamente diferente. Embora seja da etnia, não me revejo nalgumas coisas da cultura e da vida deles”, por exemplo, “não trabalhar, a falta de higiene, viver em barracas”. A seu lado, o sobrinho concorda ser preciso “todos trabalharem para o País andar para a frente”.

O arrependimento dos dois constitui a primeira surpresa nesta intricada trama. A tia publica nas redes sociais um pedido de desculpas pelas ofensas involuntárias, considerando ter existido “um mal-entendido”, pois o que ela queria dizer era “que todos deveríamos trabalhar e contribuir com os impostos para o bem de todos, quer fosse de etnia cigana ou não”.

A segunda reviravolta nos acontecimentos é ainda mais dramática. Num vídeo pessoal gravado horas depois do sucedido, o sobrinho confessa não ser cigano e garante ter sido convidado a aparecer na sede quando “já estava na cama”. E relata: “O segurança do senhor Ventura agarrou-me pelo braço e meteu-me lá dentro (…) Entrei porque me agarraram”. Pede desculpa aos ciganos por toda a polémica criada e confessa ter muitos amigos daquela etnia, alguns dos quais, admite, até já estiveram com ele na cadeia. “O que gosto é de fumar um porro [charro] de erva e estar com os amigos tranquilamente” (...) “Oxalá me tivessem pagado. Se soubesse antes que ia ter mil pessoas a ameaçarem-me no Facebook, teria pedido cinco mil euros…”.

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A animar o enredo, surge ainda um empresário, piloto nas horas vagas, o verdadeiro galã da fita, simpatizante do tal político e garantindo que votaria nele, se pudesse. Não lhe será, contudo, possível, por a sua residência fiscal ser em Marrocos, onde tem uma empresa de relvas desportivas.

Assim que seja possível estrear a fita, quem arranjar entrada para o empolgante evento, fica automaticamente inscrito no sorteio de um batom preto. Entretanto, pode aceder-se a mais pormenores desta história mirabolante, incluindo o vídeo pessoal do sobrinho, clicando no link dado. Vai ver que não se arrepende!