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Teresa, Bermudo e Urraca.JPG

Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos (Arquivo Histórico Nacional, Madrid. Tumbo de Toxosoutos, fol.  6v.)

 

Calcula-se que foi em Julho de 1122 que D. Teresa deu a sua filha mais velha, Urraca Henriques, em casamento a Bermudo Peres de Trava. Este consórcio gerou um verdadeiro vendaval no condado Portucalense.

Nesta altura, D. Teresa já tinha perdido muitos apoios, pois os nobres de Entre-Douro-e-Minho nunca aceitaram a influência da família de Trava. Convém, no entanto, fazer aqui um parênteses para explicar que o condado Portucalense, recebido por D. Teresa à altura do seu casamento com D. Henrique, era a junção de dois antigos condados: o Portucalense propriamente dito, que ia sensivelmente até à região do Douro, e o condado de Coimbra, que englobava o restante território, de fronteira sul indefinida, mas pertencendo-lhe ainda o castelo e a localidade de Soure. As terras de Viseu, Seia e Coimbra mantiveram-se fiéis a D. Teresa, pelo que, nos anos que antecederam São Mamede, poderia ter-se verificado a divisão. Para isso, contribuía igualmente o facto de os senhores do Norte, com mais posses e maior poderio militar, desdenharem dos cavaleiros vilãos de Viseu e de Coimbra, alguns deles estrangeiros, antigos companheiros de armas de D. Henrique.

A relação de D. Teresa com Fernando Peres de Trava terá começado à volta de 1120 e, à altura do casamento de Urraca Henriques, os dois tinham já, ou estavam prestes a ter, uma filha. Orientados pelo arcebispo de Braga, os nobres portucalenses acusaram D. Teresa de incesto, já que dava a mão da sua filha ao irmão do seu amante. Acusavam-na aliás de incesto duplo, pois alegavam a própria D. Teresa haver tido um caso com Bermudo Peres de Trava, casando assim a filha com o antigo amante. É, no entanto, provável que esta relação tenha sido inventada, no intuito de danificar ao máximo a reputação de D. Teresa, a fim de a substituir pelo filho, o mais depressa possível.

A pergunta que se põe é: porque patrocinou D. Teresa este casamento? Não previa ela as terríveis consequências? Uma das razões poderá ser precisamente o facto de ela não ter tido relação íntima com Bermudo Peres de Trava. De resto, há que compreender a estratégia de D. Teresa, que aspirava ao reino da Galiza, a fim de ser coroada rainha, título que já vinha usando, com o beneplácito dos nobres portucalenses, e usado igualmente por um papa, numa bula, como tratamento à filha de Afonso VI. D. Teresa planeva englobar nesse reino o condado que lhe pertencia, não admirando, por isso, que visse vantagens na sua aproximação à mais poderosa família galega.

Há indícios de que ela tenha tentado casar com Fernando Peres, anulando o casamento deste; há mesmo quem considere que eles realmente casaram secretamente, numa cerimónia em que o nobre galego terá repudiado a sua primeira esposa. À luz das leis medievais, tal atitude podia ser motivo suficiente para a Igreja anular o consórcio. Ora, tudo isto, aliado ao matrimónio de Urraca com Bermudo, reforçaria a ligação das duas famílias, dando-lhe legitimidade e aumentando a pressão sobre os barões de Entre-Douro-e-Minho.

Como sabemos, o contrário aconteceu, o que não admira muito, tendo D. Teresa dois arcebispos como contraentes: o de Braga e o de Santiago de Compostela. O braço-de-ferro entre a “rainha” e os nobres portucalenses duraria ainda seis penosos anos, até 1128, quando se deu a Batalha de São Mamede.

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Tesouros escondidos

por Cristina Torrão, em 10.07.19

A época medieval é conhecida como a “idade das trevas”, na qual o mundo esteve supostamente parado durante mil anos, até surgir o Renascimento que, redescobrindo a Cultura Clássica, fez florescer as artes e deu os primeiros passos na Ciência. Numa das minhas publicações aqui no DO, o comentador Luís Lavoura lembrou os maus costumes medievais: um homem que assassina o irmão, encarcera um outro irmão, impõe o casamento de uma filha e, no fim, um enterro três semanas após uma morte, já com o corpo em plena putrefação. Ora, recordemos que lutas fratricidas estão longe de serem um exclusivo medieval, existem desde que o Homem é Homem; e o costume de os pais imporem casamentos às filhas estendeu-se, na nossa civilização ocidental, até, pelo menos, ao século XIX. Quanto ao enterro, poderia igualmente acontecer posteriormente.

Na verdade, a Idade Média esteve longe de ser um mundo de trevas. Esquecemo-nos que foi nesse período que se desenvolveu o estilo gótico, construindo-se esplêndidas catedrais por toda a Europa. Também foi na época medieval que se fundaram as universidades europeias, a primeira, em Bolonha, no já longínquo ano de 1088 (ainda nem existia Portugal). E já que falamos de universidades, recordemos que D. Dinis, além de fundar a universidade portuguesa, instituiu o Português como língua oficial dos documentos da corte, dando um enorme contributo para a uniformização e desenvolvimento da nossa língua. Além disso, deixou-nos lindos poemas e cantigas (sim, ele também compunha). Apesar de ter sido um rei medieval, não me parece que D. Dinis tenha vivido num mundo de trevas.

Também foi na Idade Média que se redescobriu Aristóteles - no livro de Umberto Eco, “O Nome da Rosa”, que deu origem ao famoso filme, tudo gira à volta de uma obra perdida do famoso filósofo grego. E o avô de D. Dinis, D. Afonso X o Sábio, fez de Toledo um centro de cultura, com a sua Escola de Tradutores, onde reuniu estudiosos de várias proveniências (sobretudo árabes) e se traduziram, para latim e castelhano, obras árabes, assim como (ainda com a ajuda dos muçulmanos) tratados gregos de Filosofia, Astronomia, Medicina, Matemática, Geometria e outros. Também lá se traduziram a Bíblia e o Talmude para castelhano. Afonso X fundou igualmente, na mesma cidade, um Observatório Astronómico, consciente da necessidade de estudar os corpos celestes. Como vemos, a redescoberta da Cultura Clássica, assim como os primeiros passos da Ciência, não são um exclusivo do Renascimento.

A ideia que temos das igrejas românicas (mais antigas que as góticas), escuras e sem cor, é falsa. Na verdade, as suas paredes ostentavam frescos coloridos, que se perderam ao longo dos séculos, fosse em obras de remodelação, fosse no desbotar das pinturas que não eram restauradas. A esmagadora maioria desses frescos perdeu-se para todo o sempre. Mas há vestígios em algumas igrejas, que dão uma ideia da sua riqueza.

Recentemente, uma historiadora de arte italiana descobriu um fresco medieval de cores vivas e em excelente estado de conservação, na igreja de Sant'Alessio all'Aventino, nos arredores do Circo Máximo e do Coliseu, em Roma.

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A obra, que ficou escondida atrás de uma parede durante quase 900 anos (o que contribuiu para o seu estado de conservação), retrata Jesus Cristo e Santo Aleixo. Uma parte da pintura continua escondida pela parede, que, por questões de segurança, não pôde ainda ser removida.

As igrejas medievais, afinal, tinham muita cor. E havia excelentes artistas.

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Pensamento da semana

por Cristina Torrão, em 07.07.19

Corajoso não é aquele que ignora as suas fraquezas, escondendo-as sob uma capa de agressividade ou arrogância. Corajoso é aquele que não se envergonha das suas fraquezas e aprende a viver com elas.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante esta semana

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"Portugal-Krimis"

por Cristina Torrão, em 06.07.19

Krimi é a interessante palavra que na Alemanha se usa para livro policial. Portugal-Krimis são policiais portugueses. Estão na moda, aqui no país da Sra. Merkel. Estranho, não é? Não há notícia de livros portugueses com sucesso na Alemanha. Além disso, não se escrevem muitos policiais made in Portugal. Pois é, estes passam-se em Portugal, mas são escritos por… alemães!

São um sucesso editorial e muito recomendados agora para a época de férias. Por acaso, o meu marido já leu um deles: Lost in Fuseta.

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O autor, um alemão com o pseudónimo Gil Ribeiro, brinca com a palavra Lost, pois o seu investigador chama-se Leander Lost, um alemão que, na sequência de um intercâmbio policial (nem sei se isso existe), é colocado na Fuseta. Ou seja, a tradução directa do título não é “Perdido na Fuseta”, embora o Leander Lost se sinta muitas vezes perdido. Este investigador tem o síndrome de Asperger, o que o torna num polícia muito especial: tem uma memória fotográfica (muito útil, na sua profissão), não sabe mentir (o que, por vezes, é desvantajoso) e encara os acontecimentos destituído de emoção (o que lhe permite manter o sangue-frio em certas situações). Lost in Fuseta é a primeira aventura de Leander Lost por terras algarvias, mas a série já vai, entretanto, no terceiro volume.

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Tod in Porto (“Morte no Porto”), é o segundo caso do inspector Fonseca e da sua equipa da Judiciária. O autor é um alemão que vive há vários anos em Portugal e usa o pseudónimo Mario Lima (na Alemanha não se põem acentos).

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Mord auf Portugiesich (“Assassínio em Português”) passa-se numa pequena aldeia no Norte de Portugal (junto à costa) e tem a assinatura da jornalista alemã free-lancer Heidi van Elderen.

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Fado Fatal (dispensa tradução), outro policial situado no Porto, de Hanne Holms. Esta autora já publicou um Krimi passado na Toscana e outro em Maiorca. Agora, pelos vistos, foi a vez de Portugal.

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Letzte Spur Algarve (“Última pista: Algarve”), de Carolina Conrad, conta a aventura de uma jornalista alemã, filha de portugueses, chamada Anabela Silva, que resolveu mudar-se para a aldeia de origem dos seus pais (no interior algarvio). Trata-se de uma jornalista muito curiosa e logo se vê envolvida numa investigação policial comandada pelo comissário João Almeida. Parece que o enredo é apimentado com um caso amoroso entre os dois.

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Portugiesisches Blut (“Sangue Português“ - assinalado como "Lissabon-Krimi), de Luis Sellano, é a quarta aventura de um alemão, Henrik Falkner, que vive em Lisboa. Luis Sellano é (já adivinharam; e sem acento) o pseudónimo do autor alemão.

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Madeirasturm (“Tempestade na Madeira”, ou "Tempestade madeirense") tem autoria de Joyce Summer, o pseudónimo de uma autora de Hamburgo. Criou o comissário madeirense Ávila e este é o seu segundo caso.

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Afonso VI, pai de D. Teresa e avô de D. Afonso Henriques, morreu a 1 de Julho de 1109. Sabemos que se intitulava “imperador” por reger sobre três reinos, apesar de ter utilizado meios mais do que duvidosos para se apoderar das heranças dos irmãos. À morte do pai, D. Afonso VI teve apenas direito ao reino de Leão, pois D. Fernando I o Magno dividiu as suas posses pelos três filhos. Enquanto a rainha-mãe foi viva, os irmãos mantiveram-se sossegados. Mal ela fechou os olhos, porém, entraram em conflito. Sancho, o mais velho, seria assassinado, pensa-se que a mando do irmão Afonso, que assim se apoderou do reino de Castela. E acabaria por encarcerar o mais novo, Garcia, rei da Galiza, na fortaleza de Luna, situada numa região inóspita de fronteira com as Astúrias. Garcia viria a falecer depois de quase vinte anos de cárcere.

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Afonso VI de Leão, Castela e Galiza. Imagem daqui, sem indicação de data e autor.

À altura da sua morte, Afonso VI tinha cerca de 62 anos e, apesar de ter sido um homem poderoso e temido, morreu amargurado, sobretudo, por não deixar herdeiro varão. Como referido num post anterior, o infante Sancho, filho da sua barregã moura e por ele legitimado, pereceu com apenas quinze anos na Batalha de Uclés, um ano antes do pai. O imperador reuniu então cortes em Toledo e declarou a filha Urraca sua herdeira universal, decisão que não pareceu agradar ao genro D. Henrique, pois é na sequência desta reunião que Afonso VI o expulsa da corte, considerando-o traidor. Tudo leva a crer que D. Henrique teria pretensões à coroa do sogro, ou pelo menos, à divisão da herança. Segundo José Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques (2007), o conde portucalense teria, então, encetado uma viagem à sua Borgonha natal, regressando cerca de um ano mais tarde, no Verão de 1109. É curioso notar que esta versão põe em causa a hipótese de o seu filho ter nascido em Viseu, a 9 de Agosto de 1109, pois, à altura em que teria de ser gerado (Novembro ou Dezembro de 1108) o pai, pelos vistos, não se encontrava por terras hispânicas.

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Urraca I de Leão e Castela - Pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada

Estamos a falar de uma época em que mulheres não eram bem vistas à frente de um território e, sendo D. Urraca viúva, os nobres castelhanos exigiram, nas cortes de Toledo, que ela casasse. D. Afonso VI deu-lhes razão e logo os mesmos nobres se apressaram a fazer-lhe a corte. Não é difícil imaginar a grande agitação que se teria gerado à volta da herdeira mais cobiçada da Hispânia. Porém, só cerca de um ano mais tarde, no leito de morte, D. Afonso VI estipulou que sua filha desposasse o rei D. Afonso I de Aragão e Pamplona.

Urraca cumpriu a vontade de seu pai, mas, na verdade, o casamento foi um erro, um verdadeiro desastre, e acabou por ser anulado pela Igreja. Pensa-se inclusive que nunca teria sido consumado, o que leva a especulações sobre as preferências sexuais do rei aragonês, que era aliás um bravo guerreiro e ficou na História com o cognome de Batalhador. Contudo, apesar de ter tido vida longa e um reino para legar, só esteve casado meia dúzia de anos e não se lhe conhecem filhos ilegítimos, como era habitual entre os monarcas medievais.

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe (1822–1856)

Enquanto foi casado com Urraca, Afonso de Aragão chegou a intitular-se “imperador”, à semelhança do sogro, mas a oposição de vários nobres castelhanos mergulhou o coração da Península Ibérica em combates sangrentos. D. Urraca tanto se posicionava do lado do marido, como apoiava os nobres castelhanos. Atitude semelhante tiveram, aliás, D. Henrique e D. Teresa, que oscilavam no seu apoio entre D. Urraca e o monarca aragonês. Trata-se de uma época confusa, sendo, hoje em dia, difícil de explicar o que levava os três a tanta indefinição, num conflito que haveria de provocar a morte de D. Henrique, em Abril de 1112.

Afonso VI morreu em Toledo, mas foi sepultado no mosteiro de Beneditinas de Sahagún, conforme seu desejo. Sendo as duas cidades separadas por cerca de 400 km, podemos imaginar quão penoso terá sido este cortejo fúnebre, naquele tempo, em pleno Verão. O funeral, em Sahagún, só se realizou a 21 de Julho.

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Maldita cocaína

por Cristina Torrão, em 27.06.19

Entretanto, o Brasil ficou mais seguro. A droga passou a ser transportada na comitiva presidencial.

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Os filhos dos outros

por Cristina Torrão, em 26.06.19

Nos últimos dias, as condições catastróficas em que se encontram crianças e jovens migrantes, em centros de migração norte-americanos, muitos separados dos pais, foi mais uma vez notícia na imprensa (pelo menos, internacional), depois de alguns advogados terem visitado esses centros e terem ficado literalmente chocados.

A chaotic scene of sickness and filth is unfolding in an overcrowded border station in Clint, Tex., where hundreds of young people who have recently crossed the border are being held, according to lawyers who visited the facility this week. Some of the children have been there for nearly a month.

Children as young as 7 and 8, many of them wearing clothes caked with snot and tears, are caring for infants they’ve just met, the lawyers said. Toddlers without diapers are relieving themselves in their pants. Teenage mothers are wearing clothes stained with breast milk.

Most of the young detainees have not been able to shower or wash their clothes since they arrived at the facility, those who visited said. They have no access to toothbrushes, toothpaste or soap.

O número de migrantes tem aumentado imenso e os centros em questão estão sobrelotados. Por outro lado, pergunto-me como os guardas desses centros aguentam a situação. Não são igualmente pais e mães? Não poderiam, de alguma maneira, minorar o sofrimento dessas crianças, trazendo de casa colchões de campismo, cobertores (parece que algumas crianças dormem no chão de cimento, cobertas apenas com alumínio), roupas, produtos de higiene e (porque não?) alguns brinquedos?

O artigo diz que os guardas, que vigiam crianças, algumas ainda de fraldas, usam os seus full uniforms — including weapons — as well as face masks to protect themselves from the unsanitary conditions. Eu não estive lá, não posso garantir, mas estas palavras, a meu ver, transmitem apenas uma coisa: indiferença!

No tempo da Guerra Fria, Sting cantava:

"Believe me when I say to you
I hope the Russians love their children too"

À altura, pensei que afinal talvez não fosse tão difícil como isso evitar guerras. Bastava que cada um pensasse nos seus filhos, na hipótese de eles poderem morrer num conflito. Hoje sei que pensamentos deste tipo são de uma ingenuidade gritante (assim como, afinal, a canção de Sting). Estávamos em 1985, eu tinha 20 anos. Sting tinha já 34, mas era pai de, pelo menos, um filho pequeno e seria o medo pelo futuro dele que o fez cantar assim.

Hoje sei ser um facto que nem todos os pais (inclui mães) amam os seus filhos. E, muitos dos que amam, estão-se nas tintas para os filhos dos outros. Guerras, maus tratos e indiferença pelo sofrimento continuarão a acompanhar a Humanidade.

 

Nota: depois de quatro dias de polémica, as autoridades norte-americanas decidiram transferir centenas de crianças e jovens para outras instalações. Resta saber se a sua situação realmente melhorou.

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Batalha de São Mamede. Óleo de Acácio Lino, 1922

 

Hoje, dia de São João Baptista, celebra-se o 891º aniversário da Batalha de São Mamede.

Foi na sequência desta refrega, às portas de Guimarães, que D. Afonso Henriques atingiu a liderança sobre o condado Portucalense. O nosso primeiro rei tinha à volta de vinte anos e estava ainda longe de ser o Conquistador que conhecemos da nossa História. Na verdade, não passava de um jovem inexperiente, mas os barões portucalenses, que repudiavam a influência da família galega de Trava, apoiavam-no em peso. As famílias mais poderosas eram as de Ribadouro (à qual pertencia Egas Moniz), da Maia, de Sousa, de Baião e de Bragança (os Braganções medievais nada têm a ver com a dinastia actual de Bragança).

Não há certezas quanto ao número exacto de guerreiros envolvidos, as fontes, como sempre, são contraditórias. Afonso Henriques estaria, porém, em larga vantagem, pensa-se que teria à volta de seiscentos homens, contra cerca de trezentos do lado de sua mãe.

Apesar de muito contestada no Norte do condado, D. Teresa tinha apoios a sul do Douro, principalmente, em Viseu e Coimbra. O Entre Douro e Minho era, porém, muito mais povoado, possuía mais força de armas. D. Teresa juntou os seus vassalos e demais apoiantes, que incluíam os homens de armas galegos afectos a Fernão e Bermudo Peres de Trava e a Gomes Nunes de Barbosa, os cavaleiros vilãos de Viseu, Coimbra e Seia e alguns nobres, como os de Grijó.

Não penso que, à altura da Batalha de São Mamede, D. Afonso Henriques teria já a intenção de fundar o reino português. Ele teria, sim, receio que nascesse ainda um filho da relação de sua mãe com Fernão Peres de Trava, o que poria a sua herança em perigo. D. Teresa tentou aliás transformar o condado em reino (ela apelidava-se de rainha), mas juntando-o ao território galego. Recordemos que a Galiza tinha já estatuto de reino. Podemos mesmo perguntar-nos se Afonso Henriques teria a mesma intenção, pois, nos cinco anos que se seguiram à Batalha de São Mamede, tentou, por todos os meios, conquistar território galego. Só depois de várias derrotas, ele se virou para as conquistas a Sul.

Derrotada em São Mamede, D. Teresa preferiu o exílio. Morreria cerca de dois anos depois, Herculano refere o dia 1 de Novembro de 1130.

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A 20 de Junho de 1120, D. Teresa refugiou-se no castelo de Lanhoso e a meia-irmã D. Urraca montou-lhe cerco.

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Castelo de Lanhoso - esta torre, a sua "imagem de marca" actual, ainda não existia ao tempo de D. Teresa. Foto © Horst Neumann

Trata-se de uma época muito conflituosa, cheia de intrigas e golpes, nos quais estavam envolvidas mais duas importantes personalidades: o conde galego Pedro Froilaz de Trava e o arcebispo de Santiago de Compostela, Diego Gelmírez.

Tal como a meia-irmã, D. Urraca, como mulher, teve muita dificuldade em fazer valer a sua autoridade, apesar de ser a única herdeira legítima de D. Afonso VI. O facto de ter cumprido a última vontade de seu pai, casando com o rei D. Afonso I de Aragão e Navarra, piorou a situação da rainha, pois, no caso de o casal ter filho varão, esse príncipe deveria herdar Leão e Castela e o meio-irmão, Afonso Raimundes, filho do falecido D. Raimundo, herdaria apenas a Galiza. Assim determinara o imperador Afonso VI, logo provocando o protesto do conde galego Pedro Froilaz de Trava, Aio de Afonso Raimundes, que considerava o seu protegido o único herdeiro do avô. Depois da morte do imperador, o conde galego, assim como o bispo Gelmírez, apressaram-se a coroar Afonso, de apenas seis anos, como rei da Galiza, num primeiro sinal da autoridade que assistia ao pequeno.

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe (1822–1856)

Esta coroação complicou a vida de D. Urraca, pois, durante a menoridade do filho, teve de aceitar a regência de Pedro Froilaz de Trava sobre a Galiza. Não teve aliás filhos com Afonso I de Aragão e o casamento chegou mesmo a ser dissolvido pela Igreja. Porém, quando o filho atingiu a maioridade, que, nesta altura, se dava pelos catorze ou quinze anos, o conde galego instou-o a ocupar o trono de Toledo, a fim de tomar o lugar de seu avô, apesar de a mãe ainda ser viva. Não estando disposta a prescindir dos seus direitos, D. Urraca envolveu-se em contendas com Pedro Froilaz de Trava e o arcebispo de Santiago de Compostela.

Os dois galegos eram amigos, unidos na defesa do seu protegido, mas, com o tempo, começaram a desentender-se. D. Urraca aproveitou para aprofundar o fosso entre eles, entrando, em 1120, com um exército na Galiza. Instalou-se em Santiago de Compostela, onde doou um importante feudo à igreja daquela cidade, favorecendo o arcebispo. Esta doação debilitava a família de Trava, o que indignou o conde Pedro Froilaz.

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D. Urraca de Leão e Castela, pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada, na Prefeitura de Leão

Em seguida, aconteceu, porém, algo que hoje não se sabe bem explicar: D. Urraca penetrou no condado Portucalense, arrasando culturas, incendiando e depredando. Terá sido por influência do arcebispo Diego Gelmírez, que pretendia acabar com o estatuto arqui-episcopal de Braga? Nesse caso, será difícil de explicar que D. Urraca tenha feito, a 17 de Junho, uma importante doação à igreja de Braga, na presença do arcebispo D. Paio Mendes.

O certo é que, na sequência da incursão da meia-irmã, D. Teresa teve receio de ser destituída do governo do condado e refugiou-se no castelo de Lanhoso, um dos melhores de Entre Douro e Minho. Situado no cimo de um maciço rochoso com quase trezentos metros de altura, o castelo permitia vigiar as redondezas num raio de dezenas de milhas. Devido ao terreno acidentado, o seu acesso fazia-se apenas por um itinerário e as suas muralhas eram reforçadas por cinco torreões, dois dos quais ladeavam a única porta de entrada, voltada a Sul. Além disso, o seu interior albergava uma estrutura palaciana.

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Pormenor do recinto actual do castelo de Póvoa de Lanhoso. Foto © Horst Neumann

A partir daqui, não há certezas sobre o que aconteceu. A versão mais conhecida é que as irmãs se reconciliaram, nas chamadas «pazes de Lanhoso», jurando-se amizade e tendo D. Teresa prestado vassalagem à irmã, que instituiu, a seu favor, «os senhorios de Zamora, Orense, Salamanca, Toro e Ávila» (Mateus, 2005). Certo é que o cerco foi de pouca dura. E, regressada a Compostela, D. Urraca mandou prender o arcebispo Gelmírez e confiscou-lhe todos os castelos! O que terá gerado este volte-face?

Na opinião de Mateus (2005), terá havido intriga de Fernão Peres de Trava, o filho mais novo do conde Pedro Froilaz. Este é um interessante e fulcral episódio, pois talvez marque o início da relação entre Fernão Peres e D. Teresa. Mas como entraram os dois em contacto? Terá Fernão Peres procurado D. Teresa em Lanhoso? Teriam os dois, nessa altura, combinado apoderarem-se da Galiza (que D. Teresa considerava fazer parte da sua herança) e urdido uma intriga, a fim de pôr D. Urraca novamente contra o arcebispo Gelmírez? Neste caso, é possível que nem tenham existido as «pazes de Lanhoso», rejeitando a hipótese de D. Teresa ter prestado vassalagem a D. Urraca.

O mais certo é nunca virmos a saber o que realmente aconteceu. No entanto, o episódio de Lanhoso teve importância fulcral no futuro de D. Teresa, já que a sua ligação a Fernão Peres de Trava, permitindo a ingerência deste no governo do condado Portucalense, afastou de si os barões que veriam no filho, Afonso Henriques, o melhor meio de afastar a influência galega.

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A 18 de Junho de 1116, o papa Pascoal II emitiu a bula Fratrum Nostrum, em resposta a queixas do bispo de Coimbra, ordenando que fosse restituído à igreja de Coimbra tudo o que lhe tinha sido tirado, inclusive a igreja de Lamego que fora concedida à igreja do Porto. Esta bula foi enviada aos arcebispos de Toledo e de Braga, aos bispos de Tui e de Salamanca e à «rainha D. Teresa».

06 - Bula Fratrum Nostrum emitida pelo papa Pascoa

Bula Fratrum Nostrum emitida pelo papa Pascoal II em 18 de Junho de 1116

Foi este um reconhecimento oficial do título real de D. Teresa, ou apenas um tratamento especial dado à filha do «imperador Afonso» (Adefonsi imperatoris)? Tudo indica que este fosse um tratamento habitual entre os portucalenses. A nossa historiografia realça os últimos três a quatro anos da regência de D. Teresa, ou seja, a partir do momento em que os barões portucalenses entraram em conflito aberto com ela e, nos últimos dois, o próprio filho. No entanto, D. Teresa regeu cerca de dezasseis anos sobre o Condado Portucalense, a maioria dos quais em perfeita sintonia com os seus barões. Estes reconheciam-lhe a competência, a «rainha» exercia um controlo total sobre o território, mediando conflitos, dando opinião, ouvindo, fazendo alianças, retribuindo lealdades, castigando quem a infligisse e afirmando-se com grande autoridade.

Além disso, os barões terão admirado o comportamento de D. Teresa à altura do ataque a Coimbra, a 7 de Julho desse mesmo ano de 1116. Na sequência de uma investida almorávida, caíram os castelos de Santa Eulália (concelho de Montemor-o-Velho) e de Miranda do Corvo, enquanto o de Soure foi abandonado e incendiado pelos próprios habitantes, que se refugiaram em Coimbra. Os sarracenos fizeram então grande mortandade ao redor das muralhas desta cidade e D. Teresa terá mostrado coragem, aguentando o ataque, sem fugir, embora estivesse acompanhada dos filhos (D. Afonso Henriques, o mais novo, tinha à volta de oito anos).

Em vários documentos régios e particulares, num período compreendido entre 1105 e 1126, com destaques para as cartas de doação ou de escambo, D. Teresa surge com o título de rainha: «Tarasia regina». Alguns destes documentos exibem mesmo o selo real de D. Teresa em redor da cruz de Cristo.

02 - Carta de doação da igreja de Soure a D. Gon

Carta de doação da igreja de Soure a D. Gonçalo Pais bispo de Coimbra (1109-1127) datada de 10 de Outubro de 1111. Pode ler-se numa passagem assinalada no centro, em baixo: "Ego Tarasia Regina".

10 - Carta de doação de Souto Seco e Pombeiro, d

Carta de doação de Souto Seco e Pombeiro datada de Janeiro de 1126. 
No fim do documento, observa-se o selo real com os dizeres "Tarasia Regina" (Teresa Rainha). 
Fonte: Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Gavetas.
 

11 - Pormenor do selo real de D. Teresa no final d

Pormenor do selo real de D. Teresa no final da carta de doação de Souto Seco e Pombeiro, Janeiro de 1126.

12 - Carta de confirmação dos foros concedidos

Carta de confirmação dos foros concedidos à Sé de Viseu, datada de Maio de 1123. Também aqui se encontra assinalada a passagem: "Ego Tarasia Regina".

13 - Carta de doação do castelo de Soure à orde

Carta de doação do castelo de Soure à ordem dos Templários, 29 Março 1128. Mais uma vez, o selo real de D. Teresa.

Relembremos que D. Afonso Henriques agiu exactamente da mesma maneira. À semelhança de sua mãe, começou a usar o título de «rei», antes de este ser oficializado por seu primo D. Afonso VII e pela Santa Sé. Além disso, ainda antes de assumir o governo do Condado Portucalense, D. Afonso Henriques era tratado por (e assinava como) «infante», título dado a filho de rei (o que continuou a fazer, depois da Batalha de São Mamede, em 1128, até à Batalha de Ourique, em 1139). Ora, sabemos que seu pai, D. Henrique, permaneceu conde até à sua morte. O título só se justificava por sua mãe ser rainha.

A página do Facebook Lisbon’s Heritage (de onde copiei os documentos) chegou a colocar a questão: Terá Sido Portugal Fundado Por Uma Mulher?

Talvez seja ir longe demais. Afinal, apesar do título de «rainha», D. Teresa regeu sobre um condado. Por outro lado, ela marcou indubitavelmente a independência em relação a sua meia-irmã D. Urraca, a única herdeira do imperador D. Afonso VI. Recusou-se terminantemente a prestar-lhe vassalagem, assim como ao sobrinho (depois da morte de D. Urraca, em 1126). Mesmo não aceitando D. Teresa como a fundadora de Portugal, temos de admitir que, muito mais do que o conde D. Henrique, ela foi a preparadora do caminho que seu filho haveria de percorrer.

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Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos.

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Faz hoje 872 anos que chegou à cidade do Porto a armada de Cruzados que haveria de ajudar D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa.

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Foto © Horst Neumann

Esta minha paixão pela História Medieval leva-me, muitas vezes, a desejar viajar no tempo. E, tendo eu vivido quase duas décadas muito importantes da minha vida (dos 10 aos 27 anos) em Vila Nova de Gaia, perto da Igreja da Serra do Pilar, de onde se tem uma vista extraordinária sobre o rio Douro e a cidade velha do Porto (e de onde foi tirada a fotografia acima), o dia 16 de Junho de 1147 seria um dos meus momentos de eleição. Mas, mesmo sem viajar, não será difícil imaginar a sensação que terá sido a chegada à Ribeira do Porto das 150 a 200 embarcações que constituíam a frota dos Cruzados.

Calcula-se que o contingente contasse cerca de 10.000 homens, distribuídos por várias nacionalidades, não havendo, assim, um líder único. Germânicos e Flamengos rondariam os 5.500 efectivos, capitaneados, respectivamente, pelo conde Arnoldo de Aerschot, um lotaríngio, sobrinho de Godofredo de Bulhão (que fundara o reino de Jerusalém na sequência da Primeira Cruzada) e por Cristiano, senhor de Gistelles, habitualmente apontado como um vassalo do conde Thierry da Flandres. Incluído neste grupo, estariam os contingentes do condado de Boulonge, igualmente vassalo do conde da Flandres.

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Embarcação do tipo coga, característica do Norte da Europa

Os ingleses totalizavam perto de 4.500 homens, divididos em quatro grandes grupos, cada um deles sob o comando de um «condestável». Hervey de Glanville (que teria algum ascendente sobre os outros comandantes) liderava as forças do condado de Norfolk, Simão de Dover liderava os combatentes do Suffolk, André de Londres estava à frente das forças da capital do reino e Saher de Archell liderava um grupo de escoceses e franceses.

A armada transportava ainda vários clérigos, sendo os mais conhecidos Gilberto de Hastings (o inglês que viria a ser escolhido por D. Afonso Henriques para primeiro bispo de Lisboa), o presbítero Raul e os germânicos Winando, Arnulfo e Duodequino de Lahnstein. Os relatos e as cartas destes últimos quatro clérigos constituem as fontes mais importantes sobre o decorrer do cerco de Lisboa.

Não é igualmente de excluir a presença de mulheres, fossem esposas ou companheiras de alguns dos homens, fossem prostitutas, como era habitual nos exércitos medievais.

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Imagem que em tempos usei no meu blogue, sem indicação de origem, mas, como está assinada, resolvi usá-la novamente.

Os representantes dos Cruzados foram recebidos pelo bispo do Porto, D. Pedro de Pitões, que, no dia seguinte, 17 de Junho, fez a sua pregação no terreiro junto à Sé, a fim de os convencer a ajudarem D. Afonso Henriques no seu empreendimento. Nada ficou decidido, mas os estrangeiros anuíram em viajar até Lisboa, a fim de ouvirem o que o rei português tinha para lhes dizer.

A frota partiria a 27 de Junho em direção a Lisboa, ou Lušbuna, mas os Cruzados não foram os únicos a viajar. Na verdade, deve ter-se verificado um verdadeiro êxodo, a partir do Norte do reino. O exército de D. Afonso Henriques contava cerca de 3.000 efectivos, o que, juntando aos 10.000 Cruzados, perfaz 13.000 combatentes. Já vimos, porém, que a frota transportava mais gente. Além disso, calcula-se que, no cerco a Lisboa, se encontravam cerca de 30.000 pessoas, do lado cristão, indiciando que muito povo decidiu rumar a Sul, considerando-se peregrinos em missão de fé. Na verdade, muita gente iria na esperança de uma vida melhor, confiando nas riquezas arrebanhadas aos pagãos e nas terras que D. Afonso Henriques haveria de distribuir, a fim de segurar a conquista.

Penso que este é um momento crucial para a coesão do reino acabado de formar. Estamos efectivamente a falar dos primeiros portugueses da História. D. Afonso Henriques conseguiu mobilizar todo o povo no mesmo objectivo, gente vinda desde a margem esquerda do rio Minho e da região transmontana, passando pelo Porto e pela região duriense até às terras à volta do rio Mondego. Portugal deixava de ser apenas Braga, Guimarães, Porto, Lamego, Viseu e Coimbra, para passar também a ser Leiria, Santarém, Lisboa e Sintra (havia cerca de dez anos que D. Afonso Henriques mandara construir o castelo de Leiria, mas, até 1147, situava-se em pleno território de fronteira indefinida).

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Nota: quem se interessar por este tema, não encontra melhor leitura do que este livro de autoria do Professor Miguel Gomes Martins, do qual tirei muitas das informações publicadas neste texto. 1147 A Conquista de Lisboa - Na Rota da Segunda Cruzada contém tudo o que, até ao momento, é conhecido sobre o Cerco e a Conquista de Lisboa, dando ainda um retrato da situação europeia da época e o papel das conquistas portuguesas nesse contexto.

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Memórias de Dona Teresa

por Cristina Torrão, em 10.06.19

Estamos em tempo de Feira do Livro de Lisboa. Poucos momentos haverá, em Portugal, em que se vendam tantos livros (talvez este seja mesmo único). Aproveito, assim, para fazer um pouco de publicidade ao meu romance histórico sobre Dona Teresa, já que muito poucos sabem da sua existência.

Os leitores deste blogue que ficaram curiosos podem perguntar pelas "Memórias de Dona Teresa" nos Pavilhões onde se encontra representada a distribuidora Companhia das Artes (Pavilhões A45-A47). E não se deixem desencorajar, se quem lá estiver a servir o público diga que não conhece o livro. Insistam para que o procurem!

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«Fernando [Peres de Trava] possuía o condão de me fazer acreditar que podíamos desafiar as leis mais sagradas, como se possuíssemos feitiço que nos permitia inverter o mundo e nos fosse possível caminhar sobre o tecto, enquanto todos os outros continuavam agarrados ao chão, o que nos dava a embriagante sensação de sermos os únicos sábios num mundo de ignorantes.»

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Ajudar quem quer desistir

por Cristina Torrão, em 03.06.19

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Foto © Horst Neumann

 

O jornal católico que assino (na Alemanha), dedicou, há algumas semanas, uma edição ao suicídio (nº 18, 15-05-2019). Achei interessantíssimo, acima de tudo, porque informava como devemos reagir, caso desconfiemos que alguém que nos está próximo, ou que conhecemos, corre o risco de se suicidar. É um tema muito difícil de ser abordado e muitos de nós não o fazem pela simples razão de não saber como. Também há quem pense que o melhor é ignorar, pois receia que, ao referir o assunto, encoraje ainda mais a pessoa a levar a cabo as suas intenções.

No entanto, o contrário é válido: os psicólogos consultados foram unânimes a afirmar que ninguém deve ter medo de provocar o suicídio, pelo facto de o referir. É muito mais eficaz abordar a pessoa directamente. Por exemplo: «Sentes-te tão desesperado, que achas que deves desistir? Encaras a possibilidade de pôr um fim a tudo? Como te posso ajudar?»

Quem pensa em suicidar-se, costuma enviar sinais. Anda angustiado, sem esperança, desesperado; deixa de cultivar as suas amizades, ou de exercer os seus hobbies; queixa-se de ser um fardo para os outros; ou diz mesmo que pretende acabar com a vida. Quem assim age, precisa de quem o ouça, de quem o leve a sério e lhe providencie ajuda profissional. Ignorar, na esperança de que passe, é o maior erro.

Outro grande erro é tentar menorizar os problemas de quem sofre: “isso não é nada”; “há quem esteja bem pior”; “isso passa”; “tens de te animar”; “pensas que a minha vida também é fácil?”. Atitudes destas são de evitar ao máximo, pois a pessoa sente que não é levada a sério, o que a deixa ainda mais amargurada, mais fechada.

A parte mais interessante no tratamento deste tema, foi, para mim, uma entrevista a uma senhora que faz trabalho voluntário numa linha do tipo “SOS Voz Amiga”, da qual traduzo algumas passagens:

 

Imagine que está de serviço na linha e alguém telefona a dizer: “estou desesperado, vou matar-me”. O que faz?

 Em primeiro lugar, tento estabelecer um contacto, alcançar a pessoa em todos os sentidos.

 E como o faz?

 Pergunto: “Quer contar-me o que o deixa assim tão desesperado? O que está por trás disso?”. Depois, conforme o que me contam, valorizo a luta dessa pessoa, valorizo o seu sofrimento, a sua dor. Digo, por exemplo: “eu sei o que tem de aguentar; sei como é difícil levantar-se todos os dias e tentar viver normalmente, ignorando o sofrimento da depressão”. Com expressões deste género, consigo o contacto. O meu interlocutor ganha confiança em mim e solta-se. No decorrer da conversa, digo: “diz-me que não quer continuar a viver e eu consigo compreender. Mas o que seria necessário para que dissesse que tornaria a tentar? Pode sempre suicidar-se, no fim, terá sempre essa opção. Mas vamos primeiro ver: o que é ainda possível? Tem talvez um sonho na sua vida, alguma coisa que gostaria de fazer? Repare: luta todos os dias contra a sua depressão, sem avançar. Não concebe empregar essa energia para atingir algo com que sempre sonhou?”. Tento não dar conselhos, mas sim avaliar quais as possibilidades que a pessoa ainda tem, ir ao encontro dos seus desejos, dos motivos que a podem levar a mudar de ideias.

 Não relativiza.

 Nunca. A pessoa iria imediatamente sentir que não é levada a sério. Mantenho-me compreensiva e expresso as minhas emoções com sinceridade, por mais abalada que fique. Lembro-me de um caso de um homem que me disse que era o bastardo da família, que sempre fizeram questão de lho dizer, pois ele era o resultado de uma relação extra-conjugal de sua mãe. O seu pai [marido da mãe] arrancava-o da cama três vezes por semana, começou a fazê-lo quando ele tinha três ou quatro anos, metia-o no carro, levava-o para um sítio ermo e dizia-lhe que lhe dava um tiro e que depois se suicidava da mesma maneira. Nunca o fez, mas o homem revivia o cenário constantemente.

 Isso é horrível. Como reage?

 Com sinceridade. Digo: “Isso que me está a contar abala-me imenso; até me pergunto como tem conseguido sobreviver”.

 Nunca relativizar ou desvalorizar.

 Exactamente. E tento então ver onde estão as possibilidades. Pergunto: “como tem aguentado esse fardo? O que lhe deu força? A sua fé? A sua avó? Um amigo? Tem de haver alguma coisa.” Faço perguntas. E não dou conselhos, apenas sugestões, em função do que me dizem.

 E como é consigo? Como supera a desilusão, quando alguém desliga, a meio da conversa, deixando-a com a sensação de que não evitará o suicídio?

 Aceito, simplesmente. E procuro distanciar-me, digo-me: a decisão de desligar foi do outro. Tentei dar o meu melhor, fazer o que estava dentro das minhas possibilidades. Se não chegou, não há nada que eu possa fazer para alterar esse estado de coisas.

 

Acrescento que esta senhora teve uma formação de dois anos, antes de começar a atender pessoas em desespero.

 

Nota: a tradução é minha, do alemão; o publicado é um resumo da entrevista que li.

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Faz hoje 911 anos que morreu um infante hispânico com apenas quinze anos de idade, de seu nome Sancho. E que importância pode ter um acontecimento destes para Portugal, ocorrido numa altura em que o nosso país ainda nem existia (talvez D. Afonso Henriques ainda nem fosse nascido)?

Na verdade, esta morte modificou o curso da História hispânica de forma radical. Caso o jovem Sancho tivesse sucedido a seu pai, seria até provável que o reino de Portugal nunca se tivesse formado. Estamos a falar do único filho varão do imperador D. Afonso VI, pai de D. Teresa e avô de D. Afonso Henriques.

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Afonso VI de Galiza, Leão e Castela, imagem daqui, sem indicação de data e autor

Num certo aspecto, a história de vida de D. Afonso VI, rei de Leão Castela e Galiza, o que lhe valeu o título de imperador, assemelha-se à de Henrique VIII de Inglaterra, que haveria de nascer quase quatro séculos depois da sua morte: esperou, durante toda a sua vida, por um herdeiro varão. Apesar de ter casado cinco vezes, nasceu-lhe apenas uma criança legítima: a infanta D. Urraca, a conhecida meia-irmã de D. Teresa.

À medida que envelhecia, D. Afonso VI via-se incapaz de se conformar com este destino e, no início do século XII, terá casado com Zaida, a sua barregã moura, legitimando assim o filho de ambos. Zaida ter-se-ia convertido ao Cristianismo, sendo baptizada com o nome de Isabel, tendo o seu filho adquirido o nome de Sancho (não sabemos como anteriormente se chamaria). Este casamento do imperador não é consensual, entre os historiadores, pois não há forma de o provar. A ter sido celebrado, foi-o de forma muito discreta. No entanto, encontram-se referências a uma “rainha Isabel”, em alguns documentos coevos, e o Professor Abel Estefânio, da Universidade do Porto, refere, num seu artigo na revista Medievalista online, que “é pela autoridade do bispo Paio de Oviedo que somos informados de Zaida que «babtizata Helisabeth fuit vocitata»”.

Do que não há qualquer dúvida é que D. Afonso VI, nos primeiros anos do século XII, decidiu apontar esse seu filho, nascido em 1093, como seu sucessor legítimo, apelidando-o de «infante Sancho». O jovem passou a confirmar os documentos oficiais da corte, em conjunto com sua mãe, a tal «rainha Isabel».

Podemos imaginar o impacto que esta medida causou na corte, nomeadamente em sua filha legítima Urraca e seu genro Raimundo, mas também no casal Henrique-Teresa. Esse impacto foi de tal ordem, que levou os dois genros a esquecerem as suas rivalidades, a fim de firmarem, às escondidas do sogro, um Pacto Sucessório, acontecimento praticamente desconhecido da nossa historiografia, mas onde os dois decidiam como seria dividida a herança do imperador, passando por cima do infante Sancho.

O vendaval durou, porém, apenas meia dúzia de anos. O conde D. Raimundo faleceu, de repente, ainda antes do sogro. E o jovem Sancho, nomeado, com apenas quinze anos, responsável pela defesa de Toledo, acabou por perecer na Batalha de Uclés, a 29 de Maio de 1108, na sequência de um ataque sarraceno.

D. Afonso VI, velho, doente e minado pelo desgosto, morreria apenas cerca de um ano mais tarde. Antes disso, porém, reuniu Cortes em Toledo e anunciou a filha Urraca sua sucessora, ao que aliás se opôs o genro Henrique. Este acontecimento originou o rompimento do conde portucalense com o sogro, que o baniu da corte, considerando-o traidor.

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Urraca I de Leão e Castela - Pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada na Prefeitura de Leão, Wikipedia

Como sabemos, também D. Henrique acabou por morrer prematuramente, tornando-se as meias-irmãs Urraca e Teresa as principais protagonistas da História Ibérica durante mais de uma década. Ora, se o infante Sancho tivesse, de facto, sucedido a seu pai, não se teriam verificado as lutas pelo poder entre as duas irmãs, rivalidades que foram fundamentais para a formação do reino português.

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Ecologia evita triunfo da extrema-direita

por Cristina Torrão, em 27.05.19

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A ecologia vai passar a marcar a agenda política alemã, algo já anunciado pelo "Bloco Central" CDU/CSU e SPD (que aliás governa este país). Os Democratas-Cristãos perderam votos, os Socialistas ainda mais, não chegaram aos 16% (a falta que faz um Costa...). Os grandes vencedores são os Verdes, que quase duplicaram a votação (em relação às Europeias anteriores), atingindo 20,5%.

Os partidos do governo não vêem outra hipótese que não seja dedicarem-se ao tema que actualmente mobiliza os jovens alemães. Tudo por causa da Greta Thunberg, claro. Desculpem insistir, mas esta é uma realidade. E fico muito feliz, pois previa-se um triunfo da extrema-direita AfD, temia-se que se tornasse no segundo partido mais votado. Apesar de ter subido ligeiramente, atingindo os 11%, ficou muito longe da meta desejada.

Não tenho agora dados respeitantes à abstenção, mas sei que ficou aquém dos 40%. Os alemães, sobretudo os jovens, estão de parabéns!

Acresce dizer que os Verdes alemães em nada se assemelham aos inúteis Verdes portugueses, afectos aos comunistas.  Usando as palavras da jornalista Helena Ferro de Gouveia: soma às preocupações ambientais (que vão para além do clima), preocupações sociais (respeito pelas minorias, defesa dos migrantes e refugiados), uma política económica (quase) liberal e não hostil às empresas (o velho modelo alemão da economia social de mercado), profundo europeísmo e a igualdade de género praticada, não apregoada.

Queria aproveitar para dar os parabéns ao PAN. Um partido tão pequeno e menosprezado, mas que incomoda tanta gente, é mesmo para ser levado a sério. Estou convencida de que Portugal precisa do PAN e espero que se mantenha fiel a si mesmo.

Podem falar de infantilização, mas talvez seja mesmo disso que precisamos: descer do nosso pedestal de adultos muito cientes da sua sabedoria, a fim de ouvir os mais novos. Só assim os cativaremos e motivaremos. E tenho a certeza de que eles têm muito para nos dizer.

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Greta Thunberg na Assembleia da República

por Cristina Torrão, em 25.05.19

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Imagem daqui

 

Depois de o meu colega de blogue jpt ter publicado este excelente texto sobre Greta Thunberg, hesitei em publicar o meu. Mas já o tinha alinhavado, desde que a decisão de convidar a activista sueca a discursar na Assembleia da República causou reacções indignadas nas redes sociais, e resolvi avançar.

Sabemos que a maior parte das crianças crescem super-protegidas e super-vigiadas, até se criou a expressão “pais-helicópteros” para designar os progenitores que constantemente “voam” à volta dos seus rebentos, não lhes permitindo um momento livre e/ou sem ser planeado. Há uma preocupação constante de afastar as crianças de tudo o que seja problema, polémica, ou má notícia. Não são introduzidas nas tarefas domésticas, tudo lhes cai sobre a mesa, como por milagre, as roupas aparecem lavadas nos armários, como por mão de fada invisível. São postas em colégios privados, para e de onde são transportadas de carro, e, chegadas a casa, aterram no sofá, onde se ocupam com os seus telemóveis ou a televisão. Passeios de fim-de-semana? Só se for no Centro Comercial. Quantas crianças tiveram já oportunidade de criarem os seus próprios passatempos, brincadeiras e brinquedos? Quantos adolescentes já deram passeios de quilómetros pela Natureza? Quantos foram sensibilizados para os problemas da pobreza, da discriminação e da solidão? Pais e sociedade queixam-se de que os jovens são preguiçosos, sem interesse por nada, nem sequer empatia pelo sofrimento alheio. Porque será?

Perante este cenário, como não admirar uma activista como Greta Thunberg? Eu admiro, acima de tudo, a sua coragem. Quantas miúdas de quinze anos se atreveriam a faltar às aulas para se plantarem em frente do Parlamento, com cartazes a exigir uma melhor política ambiental? Foi assim que ela começou.

Podem dizer-me que a maior parte dos que participam nas suas manifestações o fazem apenas para faltar à escola. Também me podem dizer que gritam pelo ambiente e contra as alterações climáticas, fazendo, eles próprios, uma vida consumista e sem abdicar dos seus confortos. Ora, este movimento é precisamente a melhor oportunidade para eles tomarem consciência do que se passa e mostrarem aos pais que a vida de todos tem de mudar. É uma boa oportunidade de mostrarem que, por mais boas intenções que os pais tivessem, ao poupá-los ao lado menos bom da vida, cometeram um erro. É nosso dever ouvir a sua voz e reflectir sobre o que os preocupa.

Há uns anos, a activista paquistanesa Malala Yousafzai ganhou a admiração e o respeito da civilização ocidental. Tinha quinze anos, quando sofreu o atentado, dezasseis (a idade de Greta Thunberg), quando discursou na Assembleia da ONU, dezassete, quando foi agraciada com o Nobel da Paz (como co-premiada). Porque se fala agora de infantilização do mundo, em relação à jovem sueca? Por ela dizer o que vai mal na nossa civilização, enquanto Malala Yousafzai atacava os “trogloditas muçulmanos”? É sempre mais fácil arranjar culpados exteriores a nós.

Considero a acção da jovem sueca tão importante como a da paquistanesa. «A nossa casa está a arder», disse Greta Thunberg, na reunião anual do Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça. Chernobyl e Fukushima mostraram-nos que andamos realmente a brincar com o fogo. O trânsito insuportável nas grandes cidades e nas auto-estradas europeias mostram-nos que estamos a ir na direcção errada (todos os dias há engarrafamentos de dezenas, ou mesmo centenas, de quilómetros nas auto-estradas alemãs). Os voos baratos empestam o céu, assim como os cruzeiros empestam os mares e o ar que respiramos (nas suas deslocações europeias, Greta Thunberg viaja sempre de comboio, por ser um meio de transporte muito menos poluente que o avião). A nossa avidez por carne cada vez mais barata criou uma indústria desumana, em que pessoas trabalham em condições esclavagistas e em que animais deixaram de ser seres vivos para serem objectos que se podem manipular a nosso bel-prazer e em que a Natureza é destruída, a fim de produzir soja para os alimentar (cerca de 79% da soja no mundo é esmagada para fazer ração animal; é, por isso, desonesto dizer que são os vegetarianos/vegan os responsáveis pela destruição da floresta sul-americana, mesmo que todos eles consumissem soja, o que não acontece).

É uma ilusão acreditarmos que podemos dominar a Natureza, ou utilizá-la a nosso bel-prazer. A única hipótese que temos é de cooperar com ela. Na minha opinião, Greta Thunberg merece ser ouvida na Assembleia da República, quanto mais não seja, para que sirva de exemplo aos nossos preguiçosos e mimados jovens. Ela mostra-lhes que há problemas graves no mundo e que urge levantarem-se do sofá, adquirirem personalidade e tomarem posição. Ela mostra-lhes que é o futuro dos filhos e dos netos deles que está em causa. Ela mostra-lhes que a vida deles não consiste apenas na satisfação dos seus desejos, com fadas que tratam de tudo o que implique trabalho.

Ela mostra-lhes que vale a pena ter ideais.

“Não acredites em quem te diga que não podes mudar nada / Eles têm apenas medo da mudança.

A culpa não é tua de o mundo ser como é / Só seria tua culpa se ele assim ficasse”.

(excerto da letra de uma canção dos Die Ärzte, banda alemã; tradução minha, original em baixo):

 

Glaub keinem, der Dir sagt, dass Du nichts verändern kannst

Die, die das behaupten, haben nur vor der Veränderung Angst.

Es ist nicht Deine Schuld, dass die Welt ist, wie sie ist

Es wär nur Deine Schuld, wenn sie so bleibt.

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Bula Manifestis probatum. Imagem Wikipedia

 

Completam-se hoje 840 anos sobre a emissão da bula Manifestis probatum, pelo papa Alexandre III, reconhecendo oficialmente a independência de Portugal. Muitas vezes se assinala o dia 5 de Outubro de 1143 como sendo o da criação de um reino independente, mas o assunto não é pacífico. Na sua biografia de D. Afonso Henriques (Temas e Debates 2007), um livro de mais de 400 páginas, o Professor Mattoso reserva apenas um pequeno parágrafo à conferência de Zamora, aqui transcrito na sua totalidade:

“Depois de ter encerrado o concílio, o legado papal [Guido de Vico] dirigiu-se a Zamora, onde estava a 4 e 5 de Outubro, e onde se reuniu com os reis de Portugal e de Leão. A este encontro chamam os historiadores modernos a «conferência de Zamora». Tem sido considerada como a reunião que selou o acordo entre Afonso Henriques e Afonso VII, que marcou o reconhecimento pelo segundo da dignidade régia do primeiro, e que permitiu a celebração de um tratado, que talvez incluísse uma repartição dos direitos de conquista sobre territórios muçulmanos, mas do qual, infelizmente, não existe nenhum texto (p. 212)”.

D. Afonso VII reconheceu, em Zamora, a dignidade régia de D. Afonso Henriques (que utilizava o título de «rei» desde 1139), mas não há provas de que tenha prescindido da condição de vassalo do primo, já que se intitulava «imperador de toda a Hispânia», o que lhe dava o direito de ter reis como vassalos - algo que, muitas vezes, é esquecido, ou ignorado, na nossa historiografia. O certo é que D. Afonso Henriques teve necessidade de enviar, a 13 de Dezembro de 1143 (apenas dois meses depois de Zamora) a carta Claves regni ao papa, declarando que tinha feito homenagem à Sé Apostólica, nas mãos do cardeal Guido de Vico, como cavaleiro de São Pedro, solicitando, assim, a sua libertação do poder central hispânico.

É, por isso, difícil de atribuir uma data para a independência de Portugal, mas acrescente-se que uma situação dessas não é anormal, tendo em conta que estamos a lidar com a Idade Média, uma época em que ainda não se entendiam as nacionalidades como hoje em dia. Não existiam fronteiras definidas e o poder estava na mão de potentados regionais, que, em determinadas circunstâncias, conseguiam alargá-lo, ousando ignorar a autoridade de reis e imperadores. Afonso Henriques não foi caso único na Europa, ou na Cristandade, como se dizia. A haver uma entidade superior, seria a Santa Sé, mas mesmo esta se revelou dúbia, durante décadas, quanto ao caso português (desenvolverei este assunto num próximo post).

D. Afonso Henriques estava, em 1179, velho e debilitado. Tinha cerca de setenta anos e já há dez que se encontrava incapacitado, na sequência do desastre de Badajoz. Parece certo que não se conseguia mover pelos próprios meios, o que lhe deixaria os músculos fracos. Ainda assim, só morreria a 6 de Dezembro de 1185, constituindo, na época, um caso raro de longevidade, sobretudo, considerando as circunstâncias em que viveu os seus últimos quinze anos.

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Afonso Henriques, escultura em bronze (pormenor); Ourique, 1979

 

Tendo em conta as viagens morosas daquela época, a chegada da bula Manifestis Probatum à corte portuguesa só se terá dado na segunda quinzena de Julho. Segurar nas próprias mãos este importante documento deve ter sido um momento muito emocionante para o velho monarca, que aspirava à independência do seu reino havia quase cinquenta anos.

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Cidade de Zamora, nas margens do rio Douro/Duero. Imagem Sapo Viagens

 

Embora se conheça o local, não se conhece bem a data em que D. Afonso Henriques foi armado cavaleiro. Há consenso, por parte dos historiadores, que tenha sido num Dia de Pentecostes, uma data muito usada para este efeito, na época medieval, e o Professor Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques (Temas e Debates 2007) situa a cerimónia nos anos 1125 ou 1126, preferindo, no entanto, a primeira hipótese.

O Pentecostes, no ano de 1125, foi no dia 17 de Maio. Penso, por isso, que podemos assinalar hoje o 894º aniversário da investidura de D. Afonso Henriques.

A História teve, no passado, a tendência para afirmar que este teria sido um acto de rebeldia do jovem infante em relação a sua mãe, por D. Teresa estar ligada ao conde galego Fernão Peres de Trava. Porém, o Professor Mattoso dá-nos uma versão diferente. Em primeiro lugar, diz-nos, na referida biografia, que, a partir de 1120, D. Afonso Henriques

“passou a viver na corte, e a ocupar nela uma posição de destaque, pois algumas vezes é mencionado como outorgante de documentos juntamente com sua mãe ou confirma-os em posição superior à do conde Fernão Peres. Até 1127, não se pode apontar nenhum indício seguro de qualquer conflito entre ele e a «rainha» [D. Teresa] (p. 54)”.

O professor Mattoso reforça esta sua tese com o local escolhido: Zamora.

“Se alguma investidura houve, porque não se escolheu Braga, Guimarães, o Porto, Coimbra ou Viseu? (…) Não se esqueça que Zamora pertencia ao senhorio de D. Teresa desde que lhe fora concedida por D. Urraca durante o cerco de Peñafiel em 1111. Se aceitarmos a veracidade da referência ao lugar, teremos, logicamente, de admitir que a cerimónia se teria realizado com o acordo de D. Teresa e, dadas as suas relações com Fernão Peres, também com o seu consentimento (p. 56)”.

Tudo isto nos dá outra visão dos acontecimentos: em vez de um acto de rebeldia do jovem infante, por instigação dos barões portucalenses revoltados, teria sido antes uma tentativa de D. Teresa de apaziguar esses mesmos barões, apresentando-se ao lado do filho.

A cerimónia terá decorrido na basílica de São Salvador de Zamora, pois não existia ainda a catedral. Os Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses (redigidos à volta de 1185), dizem-nos o seguinte:

“O ínclito infante D. Afonso, filho do conde Henrique e da rainha D. Teresa, neto de D. Afonso (…) tomou de cima do altar as armas militares e vestiu-se e cingiu-se a si próprio diante do altar como é costume fazerem os reis”.

A ser verdadeiro, este relato reforça a tese de que D. Teresa promoveu a investidura do filho, pois intitulava-se «rainha», por isso, o seu filho era um infante tal como o primo. D. Teresa pretendia mostrar à meia-irmã D. Urraca e ao sobrinho D. Afonso Raimundes que continuava a reclamar para si uma parte da herança de seu pai, ou seja, o governo independente do reino da Galiza, no qual era apoiada pelos Trava.

 

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As bombas por explodir

por Cristina Torrão, em 16.05.19

Bomba Heimfeld Hamburg.jpg

Imagem daqui

 

Aconteceu mais uma vez (acontece regularmente na Alemanha), ontem à tarde. Na sequência de obras, em Hamburgo, foi encontrada uma bomba americana de 500 kg da 2ª Guerra Mundial que não explodiu. Muitas bombas que foram lançadas dos aviões não explodiram e ficaram "adormecidas", debaixo da terra. Isto não quer dizer que não sejam perigosas, podem rebentar se houver um contacto de qualquer tipo, como neste caso, em que uma retroescavadora a pôs à vista.

Quando é encontrada uma bomba destas, a cidade paralisa. Neste caso, a zona de evacuamento compreendeu um raio de 500 metros, sendo que, até um raio de 1000 metros, houve uma zona de prevenção, em que as pessoas foram aconselhadas a permanecerem em suas casas, de portas e janelas fechadas. Foram evacuadas 7.000 pessoas, abrigos tiveram de ser improvisados em tempo recorde, normalmente, em ginásios de escolas. As ruas foram cortadas, os transportes públicos (incluindo metro) paralisaram. Pode-se imaginar o transtorno que isto causa numa cidade de milhões, em cima da hora de ponta.

Neste caso, a evacuação foi demorada, pois a zona incluía dois lares de idosos, com muitos acamados, ou em cadeiras de rodas. Havia também um hospital, mas fora do raio de 500 metros, pelo que não teve de ser evacuado, "apenas" o serviço das Urgências foi desactivado. A operação iniciou-se pelas 16h15m, a desactivação da bomba estava planeada para as 19h00m, foi adiada para as 22h30m, mas passava já da meia-noite, quando os bombeiros deram a operação por terminada.

Para a desactivação destas bombas, há, claro, especialistas. Os trabalhos costumam decorrer sem percalços, mas não deixa de ser uma intervenção perigosa. Entre bombeiros, polícia, médicos, socorristas e outros ajudantes, estiveram envolvidas cerca de 400 pessoas na operação.

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Blogue da semana

por Cristina Torrão, em 12.05.19

Vivemos tempos não favoráveis a funcionários públicos, em geral, e a enfermeiros e professores, em particular. Posso compreender que o governo tenha de ser regrado com as suas finanças e se veja impedido de atender a todas as reivindicações. Mas não posso compreender que um primeiro-ministro hostilize certas profissões, levando à radicalização de opiniões entre o próprio povo que governa, apenas para se promover a si próprio (longe vão os tempos da "paixão" pela educação do Guterres...).

Há cerca de cinco anos, a minha mãe teve cancro. Estava ela no IPO a ser preparada para iniciar a quimioterapia e gostou tanto do médico que tratava dela, que lhe disse admirar a sua profissão, de inteira dedicação aos outros, constantemente em contacto com o lado menos bom da vida. E também lhe disse que admirava a maneira como ele a exercia. O médico perguntou-lhe então: "E a senhora, que profissão tinha?" "Eu? Era professora primária." "Pois olhe, se não tivesse sido a minha professora primária, eu não poderia estar aqui, a tratar de quem precisa."

É disto que precisamos, do reconhecimento da importância de todas as profissões. E como os professores estão, hoje em dia, entre os "mal vistos", elejo, para blogue da semana, o IP,  que nos dá uma visão do que é ser professor/a, pela mão de Beatriz J, sempre lúcida, sincera e assertiva, qualidades cada vez mais raras.

 

P. S. A quem interessar: a minha mãe superou a doença.

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