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Delito de Opinião

Blogue da semana

Cristina Torrão, 25.09.22

Recordando o voto dos emigrantes

Cristina Torrão, 18.09.22

Recordo este assunto, que tão depressa cai no esquecimento (e com certeza provocará nova trapalhada nas próximas eleições), citando palavras de Pedro Rupio, Presidente do Conselho Regional das Comunidades Portuguesas na Europa (CRCPE), a partir de uma entrevista dada ao PT-Post, jornal português na Alemanha, publicada na edição de Agosto (nº 338).

Sobre a questão da representatividade da emigração no Parlamento:

Sentimos que é ainda um assunto que deverá ser amadurecido, porque sentimos que existe ainda muita reticência. Há partidos que estão mais abertos à ideia e outros que consideram por exemplo que será necessário haver um aumento da participação eleitoral para que possamos alcançar esse objectivo.

Mas o CCP (Conselho das Comunidades Portuguesas) fez questão de explicar que com 250 mil votantes, já conseguimos ultrapassar o número de votantes em Leiria, que elege 10 deputados naquele círculo eleitoral, e também que há muitas pessoas que não conseguiram votar, que quiseram votar e não conseguiram, ou porque não receberam o boletim de voto, ou porque não conseguiram recensear-se.

Há pessoas que estão a viver no estrangeiro, mas têm morada portuguesa no cartão de cidadão, há pessoas que no momento de renovar esse documento no consulado (e isto é grave), ficaram riscadas das listas eleitorais. Portanto, é preciso primeiro melhorar estes pontos para se observar uma maior participação eleitoral, sem esquecer que aquele tipo de incidentes que vivemos com a repetição das eleições, não favorece de todo a participação eleitoral das comunidades portuguesas. Está-se a querer responsabilizar as comunidades portuguesas da falta de participação, mas até agora tudo nos indica que quando nos dão condições para votar, nós votamos. Com o recenseamento automático houve um aumento do número de votantes.

Há que corrigir, para já, questões como a actualização das listas eleitorais, que não correspondem à realidade. E repare que para as eleições presidenciais, vai ser impossível sairmos dos 98% de abstenção, se mantivermos o voto presencial como única alternativa.

Sobre o modelo aplicado em França, nas eleições legislativas:

Um modelo com quatro opções de voto: presencial, electrónico descentralizado, via postal e através de procuração (...) e a participação eleitoral aumentou 35% em relação às últimas legislativas, mais uma vez, uma prova de que quando há condições para se votar, as pessoas votam mais.

 

Nota: modifiquei a grafia da entrevista publicada segundo o AO/90.

Lost in Fuseta

Cristina Torrão, 09.09.22

Não é todos os dias que se recebem comentários a um postal publicado há mais de três anos, mas ontem aconteceu-me. E qual não foi a minha surpresa, quando hoje deparo com mais um.

Escrevia eu, a 6 de Julho de 2019, sobre Portugal-Krimis, ou seja, livros policiais alemães, tendo Portugal como cenário.

E falava então no Lost in Fuseta, de Gil Ribeiro:

Lost in Fuseta.jpg

O autor, um alemão com o pseudónimo Gil Ribeiro, brinca com a palavra Lost, pois o seu investigador chama-se Leander Lost, um alemão que, na sequência de um intercâmbio policial (nem sei se isso existe), é colocado na Fuseta. Ou seja, a tradução directa do título não é “Perdido na Fuseta”, embora o Leander Lost se sinta muitas vezes perdido. Este investigador tem o síndrome de Asperger, o que o torna num polícia muito especial: tem uma memória fotográfica (muito útil, na sua profissão), não sabe mentir (o que, por vezes, é desvantajoso) e encara os acontecimentos destituído de emoção (o que lhe permite manter o sangue-frio em certas situações).

Ontem, a comentadora Paula Bonifácio Vilas disse que a televisão alemã ia passar o filme Lost in Fuseta no Sábado. Por acaso, o meu marido, que já leu duas ou três aventuras algarvias do Leander Lost, já me tinha falado nisso. Hoje, o comentador Artur Nunes pedia um link, onde se pudesse assistir ao primeiro episódio.

De facto, trata-se de um série e o ARD (1º canal alemão, ou Das Erste) até vai apresentar amanhã os dois primeiros episódios. A minha revista televisiva apresenta o primeiro com a frase: Jetzt geht's also an die Algarve! - «Agora, vai-se então até ao Algarve!»

Lost in Fuseta 1 a.png

Este episódio vai ser apresentado às 20h15m, o segundo às 21h45m (hora alemã).

Lost in Fuseta 2.png

Ambos podem ser já vistos online, na Mediathek do ARD. Já deixei os links ao comentador Artur Nunes, mas aqui vão, mais uma vez, caso haja mais alguém interessado. Para quem não percebe alemão, servem para ir dar uma olhada.

Primeiro episódio:

https://www.ardmediathek.de/video/krimis-im-ersten/lost-in-fuseta-1-ein-krimi-aus-portugal/das-erste/Y3JpZDovL2Rhc2Vyc3RlLmRlL2tyaW1pcy1pbS1lcnN0ZW4vYTJjM2Y1NWMtOGQ5Yy00ZTc1LTljNDAtMTNmNTNjOWZiMWJi

Segundo episódio:

https://www.ardmediathek.de/video/krimis-im-ersten/lost-in-fuseta-2-ein-krimi-aus-portugal/das-erste/Y3JpZDovL2Rhc2Vyc3RlLmRlL2tyaW1pcy1pbS1lcnN0ZW4vMDg3MjI3OWUtMjJiNy00MWNjLWFhOTUtOWI3NzgwZDU3NjRj

 

Impressões alemãs (40)

Cristina Torrão, 31.08.22

O Norte é símbolo de frio e desconforto, o Sul significa calor e vida despreocupada. Os clichés parecem seguros a pedra e cal, até ao momento em que começamos a interrogá-los. E podemos perguntar-nos, por exemplo, se, tendo o Norte mais poder de compra e uma vida mais organizada, esta não será, de facto, mais descontraída.

Enfim, isto dava pano para mangas, mas, mesmo tendo em conta apenas o clima, observemos os extremos: Inverno constante nos pólos, Verão constante na linha do Equador. Será esta última hipótese realmente a chave para uma vida paradisíaca? Na verdade, só quem tem meios para passar lá férias pensa assim. Viver constantemente num meio quente, sem estações do ano, nem variações de duração entre o dia e a noite, torna-se monótono (afectando a psique) e convida ao letargismo (afectando a condição física).

O ritmo sazonal das regiões temperadas equilibra a nossa vida. Quanto está frio e as noites são longas, ansiamos pelo Verão, regozijando-nos quando ele finalmente chega. Mas o contrário também se verifica, principalmente, em Verões quentes e secos, como o deste ano. Quem não anseia por um tempo mais fresquinho, sem a praga dos incêndios e a possibilidade de não suarmos constantemente, por mais duches que tomemos?

Do ponto de vista global, a Alemanha ainda se considera zona temperada, mas, ficando mais a Norte do que Portugal, o contraste entre as estações do ano é mais acentuado. E aqui ficam as variações sazonais em Stade.

PRIMAVERA

Stade Primavera 2.JPG

Stade Primavera 3.JPG

VERÃO

Stade Verão 2015-07-17 Schwedenspeicher Museum 15

(Centro histórico de Stade com o porto medieval, num braço do rio Schwinge, afluente do Elba. Stade pertencia à Liga Hanseática)

Stade Verão 2013.JPG

(Alfazemas no nosso jardim)

 

OUTONO

Stade Outono 2011-11-06 Spaziergang 11.JPG

Stade Outono 2011-11-06 Spaziergang 39.JPG

INVERNO

Stade Inverno 2010-12-18 Stade 08.JPG

Stade Inverno 2010-12-18 Stade 03.JPG

E com este postal dou por finda esta minha série. Na verdade, falta-me material, ou seja, fotografias, pelo menos, em formato digital. Talvez retome a série com outras mais antigas, se me apetecer digitalizá-las. Ou talvez inicie outra série, dedicada a Portugal.

Impressões alemãs (39)

Cristina Torrão, 24.08.22

2022-08-02 Elbtunnel.JPG

Imagem Wikipedia

Num país como a Alemanha, não se espera que a travessia rodoviária de um rio represente um problema. Na verdade, a travessia do Elba, em direcção ao Norte (incluindo o acesso à Escandinávia), é um quebra-cabeças há várias décadas. Há apenas uma possibilidade: um túnel, em Hamburgo (o chamado Elbtunnel), por baixo da zona portuária, com cerca de 3 km de comprimento, no curso da A7, que vai até à fronteira com a Dinamarca. Ora, todo o trânsito vindo da, ou em direcção à, Escandinávia, tem de passar por este túnel. Junto com o trânsito habitual de uma cidade de dois milhões de habitantes (e apesar de, na verdade, se tratar de quatro túneis, com um total de oito faixas de rodagem), os engarrafamentos, com vários quilómetros de comprimento, são constantes. Desde que aqui cheguei, em 1992, ouço falar de uma alternativa ao Elbtunnel, projecto eternamente por cumprir (parece o aeroporto de Lisboa), pois não há entendimento quanto ao local e ao impacto ecológico da obra, assim como à melhor forma de concretizar a ideia: túnel, ou ponte?

2013-08-28 Glückstadt 008.JPG

Na verdade, há uma outra forma de atravessar o rio, mas não é alternativa válida para viagens de longo curso. Cerca de 15 km a jusante de Stade, há um ferry-boat que faz a ligação entre as duas pequenas cidades de Wischhafen e Glückstadt. A capacidade dos ferries é, porém, muito limitada. Mesmo só usado a nível regional, formam-se longas filas, em tempos de férias, e a espera para um lugar pode demorar duas a três horas.

2013-08-28 Glückstadt 011.JPG

No dia em que fizemos a travessia, não tivemos de esperar muito, pois deixámos o carro no parque de estacionamento e embarcámos a pé. A pequena viagem não é tão simples quanto isso, o capitão do ferry tem de ter em atenção os navios que se dirigem ao porto de Hamburgo e, ainda, as várias embarcações de recreio que cruzam o rio Elba em todas as direcções.

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As margens do rio Elba contêm importantes ecossistemas, por isso, é tão difícil tomar uma resolução, quanto à construção de um novo túnel ou ponte.

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Em Glückstadt, deparámos com esta interessante pintura em azulejo, aliás, algo que se considera tipicamente português. A imagem representa uma cena marítima aqui do Mar do Norte e resta saber onde foi o artista buscar a sua inspiração.

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Impressões alemãs (38)

Cristina Torrão, 17.08.22

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aqui falei do rio Elba, que desagua em Cuxhaven, no Mar do Norte. Stade, a cidade onde vivo, a meio caminho entre Hamburgo e Cuxhaven, fica a poucos quilómetros da sua margem sul. Na imagem em cima (uma captação de ecrã do Google Maps), pode ver-se a sua localização, apesar de o nome estar tapado pelo balão vermelho. Prolonguei a imagem para Norte, a fim de mostrar que esta zona não fica longe da fronteira entre a Alemanha e a Dinamarca (linha verde, ao pé de Flensburg, a última cidade alemã). E lá perto, do lado esquerdo, pode ver-se a ilha Föhr, da qual falei na semana passada.

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Há algumas praias fluviais, perto de Stade, onde os banhos são permitidos. Apesar de ficarem no trajecto cumprido por todos os navios a caminho do porto de Hamburgo (40 milhas marítimas), a qualidade da água é controlada. O Elba tem, nesta zona, 3 km de largura, há inclusive uma ilha, no meio do rio, e as grandes oscilações da maré, no Mar do Norte, permitem a constante renovação das águas. Mesmo assim, há quem opte por não lá entrar. Outros tomam banho junto com a matilha, nos locais onde os cães são permitidos.

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Nos vários braços do Elba, há quem aproveite para pescar, ou fazer piqueniques. Quando o tempo o permite, são locais muito agradáveis.

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Impressões alemãs (37)

Cristina Torrão, 10.08.22

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O nosso Réveillon 2014 foi passado em Föhr, uma ilha no Mar do Norte, perto da fronteira entre a Alemanha e a Dinamarca. O motivo principal foi a Lucy, que tinha pânico do fogo de artifício e como, na altura, já tinha dez anos, resolvemos experimentar uma das ilhas, onde se dizia não haver as habituais orgias de foguetes e petardos. Na noite de Ano Novo, o alemão mais pacato transforma-se num verdadeiro piromaníaco. O material pirotécnico compra-se em qualquer supermercado e, em 2013/2014, os cidadãos deste país gastaram cerca de 150 milhões de euros em foguetes, rojões e quejandos! A quantia aumenta todos os anos, embora tenha havido uma quebra, com a pandemia, mas, penso eu, será recuperada. Os foguetes começam a ser experimentados a partir do momento em que estão à venda (dois ou três dias antes da passagem de ano) e, na noite em questão, o seu lançamento estende-se por várias horas.

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Na verdade, as ilhas não são completamente livres desse hábito, mas bastante mais sossegadas. Valeu a visita, apesar dos dias curtos e de um vento fortíssimo e gélido, que meteria qualquer nortada portuguesa num bolso.

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A temperatura manteve-se positiva, entre os 5ºC e os 8ºC, o que, no Inverno alemão, é considerado ameno. Mas, e apesar de os cavalos da imagem não parecerem ter dificuldades, o vento era mesmo difícil de suportar, pelo que será de aconselhar o Verão para uma visita. O passeio de Ano Novo, à beira-mar, só era possível com bons agasalhos.

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A maior parte das casas tem os típicos telhados de cana seca. Trata-se de um tipo de cana especial, designada como sapê, ou sapé, no Brasil (designação dada a algumas plantas gramíneas do Brasil, cujos caules secos são usados como cobertura de casas). Em alemão é "Reet" e eu não encontrei melhor tradução. Se alguém a conhecer, agradecia a informação. Este tipo de telhado obedece a uma técnica especial, que hoje poucos dominam, e é muito eficiente, tanto no Inverno, como no Verão.

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Numa rua de Wyk, a maior localidade de Föhr, encontrámos a representação do marinheiro típico destas paragens.

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Uma igreja com o seu cemitério:

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Em Wyk, deparámos igulamente com este estabelecimento curioso, mas estava fechado e não cheguei a perceber se pertencia a gente portuguesa, ou a algum "fã de Portugal". Digo isto, porque conheci um destes "fãs", em Hamburgo, um cabeleireiro alemão, que denominou o seu estabelecimento com a palavra portuguesa. Quando lhe perguntei porque o fez, disse-me que, se muita gente denominava o seu salão de "friseur" ou "hairdresser", porque não podia ele denominá-lo de "cabeleireiro"? Tinha a sua razão de ser. Mas, na verdade, o homem tinha algumas dificuldades. Ninguém conseguia ler a palavra. E toda a gente que lá entrava lhe perguntava que raio de nome ele tinha dado ao salão!

2013-12-29  Wyk 09.JPG

Passar-se-ia o mesmo com esta sapataria, em lugar tão distante e inóspito?

Impressões alemãs (36)

Cristina Torrão, 03.08.22

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Wismar, na costa do Mar Báltico, foi fortemente bombardeada na 2ª Guerra Mundial. Muitos edifícios históricos ficaram seriamente danificados, como as igrejas góticas de Santa Maria e de São Jorge. Da primeira, só mesmo a torre ficou de pé e, em 1960, o governo da RDA resolveu rebentar com as ruínas da nave. Não posso ajuizar desta decisão, pois não faço ideia qual era o nível de destruição dessas ruínas. Quanto à igreja de São Jorge (fotografia acima), o governo comunista também pouco fez. A seguir, uma fotografia de um painel que mostrava o estado do edifício em 1990, altura da reunificação alemã (à direita) e em 2005, já depois de várias obras.

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Quando lá estivemos, em 2012, apesar de a parte exterior já ter sido reparada, lá dentro, o cenário era ainda desolador. Nunca tinha estado numa igreja tão vazia. Melhor dizendo, tão nua.

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O facto de se tratar de uma imponente construção gótica ampliava a desolação.

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Em baixo, algumas pinturas por restaurar.

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Esperemos que, passados dez anos, a igreja tenha recuperado mais da sua grandeza de outros tempos.

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Impressões alemãs (35)

Cristina Torrão, 27.07.22

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Wismar é uma cidade na costa do Mar Báltico, no extremo sul da baía com o seu nome, onde se encontra também a ilha Poel. Tem cerca de 42.000 habitantes. Pertencia à Liga Hanseática, pelo que atingiu grande importância, na baixa Idade Média.

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Hoje em dia, é uma cidade turística, também devido ao seu centro histórico. Foi muito danificada, durante a 2ª Guerra Mundial, e só depois da reunificação alemã se procedeu a uma verdadeira requalificação dos edifícios (na imagem acima, a Câmara Municipal).

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Na altura em que lá estivemos, encontrava-se, no porto antigo, uma embarcação do tempo da Liga Hanseática, a denominada Kogge (ao fundo), usada nos circuitos comerciais da época.

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Fomos vê-la de perto.

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Os tempos áureos do comércio há muito passaram. Mas, além do turismo, Wismar vive igualmente da pesca. Neste porto antigo, encontram-se à venda muitos peixes fumados pelos próprios pescadores (enguia, cavala, arenque, truta, salmão, etc.).

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O revolucionário burguês

Cristina Torrão, 25.07.22

2021-09-09 Otelo Sábado nº 906 01.jpg

Otelo Saraiva de Carvalho era uma figura cheia de contradições e, por isso mesmo, polarizava, como se viu por ocasião da sua morte. Passado um ano, venho relembrar uma reportagem publicada na revista Sábado, a 9 de Setembro de 2021.

Otelo casou com Maria Dina Afonso Alambre a 5 de Novembro de 1960. Tiveram duas filhas e um filho. Quando Otelo confessou à mulher que, apesar de ainda a amar, amava igualmente outra, o casamento manteve-se. Maria Filomena Outeiro, divorciada, funcionária administrativa na cadeia de Caxias, conheceu Otelo quando ele aí esteve preso, na segunda metade da década de 1980. Otelo e Dina estiveram perto do divórcio, mas, segundo a reportagem da Sábado, «algo estranho se foi instalando com o tempo» e «Otelo assumiu publicamente as suas duas mulheres».

Quando esta reportagem foi publicada, segui uma pequena discussão, no Facebook, entre quem condenava a situação, por significar a subjugação de duas mulheres por parte de um homem, e quem dizia não ver ali nada disso. Afinal, a esposa tinha conhecimento, as duas mulheres conviviam pacificamente com o triângulo amoroso, eram três adultos que tinham tomado uma opção de vida. Elogiava-se, acima de tudo, a rejeição das normas burguesas, tradicionais.

No próprio texto da reportagem, se lia este ser «um a(c)to de enorme generosidade e de amor», por parte de Dina, «por muito que cause secreta repulsa na moralidade vigente, fértil território da religião, por incompreensível que possa parecer ainda hoje».

No entanto, atendendo a outros pormenores do artigo, vemos que não foi assim tão pacífico. Na página 33, na legenda de uma fotografia de Sérgio, o filho de Otelo Saraiva de Carvalho, diz-se que ele «teve grandes dificuldades em conviver com a vida dupla do pai. Após a morte da mãe, os problemas continuaram, quando Otelo se mudou em definitivo para a casa de Mena». Mais à frente, lê-se que «por causa desta mudança, Otelo terá perdido o contacto pessoal com os filhos, que nunca encararam bem esta vida dupla do pai». Fala-se igualmente de «ressentimentos que ficaram (…) O apartamento de Carnaxide era uma barreira intransponível para eles, que nunca tiveram relação com a outra família».

A alusão a «ressentimentos» e ao desconforto sentido pela filha e pelo filho de Otelo em relação à vida dupla do pai (uma das filhas morreu ainda criança) denota que a mãe deles, apesar de se ter acomodado, estava longe de viver pacificamente com a relação a três. E transmitiu essa revolta aos filhos (mesmo que involuntariamente). Caso houvesse uma aceitação sem reservas, o assunto não seria tabu, as duas famílias talvez tivessem até contacto, pelo menos, os filhos, que não sentiriam tanta repulsa.

Rejeição da «moralidade vigente, fértil território da religião»? Parece-me precisamente o contrário. No Portugal salazarista (e não só), sempre houve casos de homens com vida dupla, com conhecimento, ou não, das esposas. Caso estas soubessem, aceitavam, na maioria dos casos, engolindo a revolta. Afinal, raramente um homem era condenado pela sociedade por tal motivo.

Ou seja: o obreiro do 25 de Abril era um verdadeiro embaixador da estrutura patriarcal, dono de uma mentalidade bem tradicional e burguesa.

Impressões alemãs (34)

Cristina Torrão, 20.07.22

2012-08-28  Poeler Forellenhof 23.JPG

A ilha Poel, no Mar Báltico, está situada na baía de Wismar, ou seja, era território da antiga RDA. Tem uma superfície de 34,3 km² e, devido à sua proximidade da costa (cerca de 2 km) está ligada a esta por um dique, sobre o qual se construiu uma estrada.

Trata-se de uma ilha muito pacata, apesar de turística. A maior parte dos turistas concentra-se junto à Timmendorf Strand, a maior praia, mesmo que o clima nem sempre seja o mais favorável. Na verdade, é na costa do Mar Báltico que se contam mais horas de sol anuais, em território alemão, mas, quando lá estivemos, no final de Agosto, havia bastante vento.

2012-08-30  Timmendorf Strand 09.JPG

Poel tem, no entanto, outros encantos. É um local sossegado, com muita agricultura, grandes propriedades e espaço para os seus animais. Ficámos hospedados numa dessas quintas, assim uma espécie de Turismo Rural. Os donos, já de certa idade, explicaram-nos que, à semelhança de outros habitantes da ilha, tiveram dificuldades em readquirir as propriedades que haviam pertencido às suas famílias, expropriadas a seguir à 2ª Guerra Mundial, pelo regime comunista. Viram-se obrigados a comprar aquilo que deveriam ter herdado. E, quando o conseguiram, deram com tudo num estado lastimoso, tendo ainda de investir muito dinheiro na sua recuperação.

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Em Poel, os símbolos marítimos estão em todo lado, incluindo igrejas e restaurantes. Dei comigo a pensar que é raro ver casos destes em Portugal (eu, pelo menos, não conheço muitos), apesar de nos apelidarmos de "povo marítimo".

2012-08-30  Timmendorf Strand 41.JPG

Sendo uma ilha pequena, e, apesar de ser alcançável de carro, as estradas são bastantes estreitas. Como as distâncias são curtas e o terreno é plano, o melhor, pensam muitos, é explorá-la de bicicleta.

2012-08-31  Oertzenhof - Café Frieda 3.JPG

Também assim fizemos e tratámos de arranjar uma solução para a nossa fiel companheira: um pequeno atrelado, já que a Lucy, apesar de o tamanho o permitir, não queria saber de ser transportada num cesto acoplado ao guiador da bicicleta.

2012-08-28  Poeler Forellenhof 47.JPG

Comprámos este atrelado, mas a Lucy também detestou. Mal a bicicleta se punha em movimento, começava a ganir, aumentando o volume em proporção à distância percorrida. Pensámos que ela se habituasse, mas tal não aconteceu. O melhor mesmo teria sido habituá-la desde pequena a esta modalidade de transporte.

2012-08-28  Poeler Forellenhof 37.JPG

Enfim, ela lá teve de aguentar a angústia que a atacava (não fazemos ideia qual e porquê) e nós o ganir incomodativo. Mas mantivemo-la connosco, o que, pensamos, é sempre o melhor a fazer com um animal de estimação. Quanto ao lindo atrelado... foi desmantelado, no fim das férias, e colocado no sótão, onde se encontra há dez anos.

Impressões alemãs (33)

Cristina Torrão, 13.07.22

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Com a chamada "Cidadela Verde de Magdeburgo" (Die grüne Zitadelle von Magdeburg), termino a trilogia sobre esta cidade da antiga RDA. A "Cidadela Verde" é uma obra do arquitecto austríaco Friedensreich Hundertwasser (1928-2000), que, nas suas palavras, gostava de construir "oásis para os humanos e a natureza, no meio do mar das casas racionais".

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Hundertwasser era um arquitecto inconvencional. Há quem adore e há quem deteste. Começou por ser pintor, mas, ao longo da sua vida, dedicou-se cada vez mais à arquitectura. Dono de uma filosofia muito própria, considerava ser a arquitectura a terceira pele das pessoas, susceptível de ser escolhida e/ou adornada de acordo com o gosto pessoal, como o fazemos com a nossa primeira pele (a natural) e a segunda (o vestuário).

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Hundertwasser dizia haver uma forte ligação entre a arquitectura de uma casa e o bem-estar das pessoas que lá vivem. Disso, parece não haver dúvida. Mas será que a "Cidadela Verde de Magdeburgo" é mais ecológica e proporciona mais bem-estar a quem lá mora, ou fica hospedado no hotel que alberga?

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Enfim, gostos não se discutem. Há quem encha a sua "primeira pele" de tatuagens e há quem se sinta bem com uma "segunda pele" espampanante. Outros fazem tudo por serem discretos. Hundertwasser defendia que cada um devia ter uma casa à sua medida, mesmo que isso significasse um caos de cores, formas e feitios.

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Uma coisa, porém, é certa: goste-se, ou não, da "Cidadela Verde de Magdeburgo", ela quebra a monotonia, exercendo forte atracção em quem lá passa e sendo um apreciado motivo fotográfico.

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Impressões alemãs (32)

Cristina Torrão, 06.07.22

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A imponente catedral de Magdeburgo sobreviveu à 2ª Guerra Mundial, mas o desleixo a que foi votada, durante mais de quarenta anos de regime comunista, exigiu trabalhos de renovação, depois da queda do muro de Berlim.

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Esses trabalhos eram ainda notórios, quando estivemos em Magdeburgo, em 2011, tanto no interior, como no exterior do edifício.

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Magdeburgo foi um grande centro da Reforma Luterana. A cidade foi aliás palco de lutas ferozes, durante a Guerra dos Trinta Anos. É, ainda hoje, marcadamente Protestante e, em 2011, a fim de atrair, tanto os habitantes da sua cidade, como os turistas, à catedral, havia uma exposição (muito concorrida, diga-se de passagem) sobre a Bíblia e as suas variadas traduções.

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Tendo a tradução da Bíblia por Lutero beneficiado, para a sua divulgação, da invenção da imprensa por Gutenberg, ocorrida na mesma altura (os dois acontecimentos são quase sempre evocados em conjunto, na Alemanha), também lá estavam uns estudantes a demonstrar como se imprimiam livros no século XVI.

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O preconceito dos traumas

Cristina Torrão, 01.07.22

Visão Biografia Eça de Queirós.jpg

A vida de qualquer um de nós daria um romance, bastava saber escrevê-lo. O grande escritor Eça de Queirós não representa uma excepção, a sua vida é tão interessante como muitos dos enredos por ele criados. O texto que registou a sua entrada neste mundo não podia ser mais absurdo: filho de "mãe incógnita". Lendo eu, na publicação acima representada, que ele foi baptizado na igreja matriz de Vila do Conde a 1 de Dezembro de 1845 e estando habituada a fazer pesquisas familiares online, pus mãos à obra. E, em menos de cinco minutos, encontrei o registo de baptismo de José Maria, com a carta que seu pai fez questão de acrescentar ao livro paroquial:

Eça de Queirós PT-ADPRT-PRQ-PVCD28-001-0018_m006

Eça de Queirós PT-ADPRT-PRQ-PVCD28-001-0018_m006

À altura do seu nascimento, os pais, Carolina Augusta Pereira d'Eça e o Dr. José Maria Teixeira de Queirós, não eram casados, só dariam o nó quatro anos mais tarde. A condição de mãe solteira parece ter sido vergonhosa demais para a jovem de boas famílias. Mal nasceu, o pequeno José Maria ficou aos cuidados de uma ama. O registo de batizado reza: ".. filho natural de José Maria d'Almeida de Teixeira de Queiroz e mãe incógnita". O pai fez questão de acrescentar ao documento a cópia de uma carta que enviara dias antes a Carolina Augusta, dizendo ter recebido instruções do seu próprio progenitor para fornecer apelido burocrático ao pequeno. E justificava: "Isto é essencial para o destino futuro do meu filho, e para que, no caso de se verificar o meu casamento consigo (...) não seja preciso em tempo algum justificação de filiação".

Seria lógico que, ao verificar-se o casamento, em 1849, a jovem família enfim se reunisse. Mas tal não aconteceu. Depois da morte da ama, o pequeno, de cinco anos, foi enviado para Verdemilho, propriedade dos avós paternos. Tendo falecido a avó, foi despachado, aos onze anos, para casa de uns tios, no Porto, e passou a frequentar o Colégio da Lapa, pois os pais «repetiam a estranha rejeição de o manter fora do seu convívio - e do dos irmãos entretanto nascidos» (Visão - Biografia, p. 24). Só depois de ter concluído a Licenciatura, em Coimbra, José Maria Eça de Queirós foi autorizado a viver com a família, entretanto mudada para Lisboa.

É impossível circunstâncias destas não marcarem, de alguma maneira, a vida de uma pessoa. O mais curioso é não saberem lidar bem com o assunto aqueles que se ocupam, ou ocuparam, da vida e da obra deste escritor. Oscilam entre o exagero de um trauma profundo, como João Gaspar Simões, no seu tomo biográfico dedicado a Eça de Queirós, e o ignorar de qualquer marca, como Maria Filomena Mónica, que, na entrevista dada à Visão - Biografia afirma ser «altíssima (...) a percentagem de filhos ilegítimos em Portugal na altura em que Eça nasceu». Como se o facto de o caso não ser único  invalidasse o impacto na pessoa em questão. O termo "altíssima" é muito relativo, pois a grande maioria dos recém-nascidos, no século XIX, eram legítimos. A ilegitimidade era sempre um estigma.

Bem, é verdade que Eça de Queirós acabou por ser perfilhado. Mas Maria Filomena Mónica acrescenta: «Depois de ter acabado o curso em Coimbra, passou até a viver em casa dos pais que, entretanto, se tinham casado». Esta frase é de uma frieza incrível. A investigadora apaga a infância e a juventude do escritor, mais de vinte anos rejeitado pela casa paterna, impedido de convivência íntima com os pais e os irmãos, apesar de legalizada a situação. Pergunto-me mesmo que tipo de contacto ele tinha com os pais, nomeadamente com a mãe. Se é que tinha algum.

Parece que há uma certa vergonha em aceitar que um génio da literatura possa ser afectado por circunstâncias constragedoras na sua formação. Como se não se tratasse de um ser humano! E esquecendo que a escrita de Eça, simbolizada na sua obra-prima, se centra numa situação de incesto entre dois irmãos que não se conheciam. Não esqueçamos igualmente que a ideia para Os Maias amadureceu a partir de uma outra situação, ainda mais difícil de engolir: a relação incestuosa entre uma mãe e um filho.

A Tragédia da Rua das Flores permaneceu mais de cem anos entre os manuscritos inéditos do autor, só foi publicada em 1980, altura em que deixou de estar na posse dos herdeiros e passou a pertencer ao domínio público. Ou seja, os descendentes próximos de Eça pareciam não se sentir confortáveis com o enredo. E deixemo-nos de pruridos: o escritor denota uma certa obsessão pelo tema, essa possibilidade de duas pessoas de parentesco muito próximo, mas que não se conhecem, se apaixonarem. Foi algo que obviamente lhe ocupou grande parte da vida (caso contrário, não conseguiria escrever sobre isso) e o motivo poderia muito bem ter sido o impedimento de privar com a própria mãe e os irmãos, num altura fulcral da sua formação. Além disso, muitas das suas personagens, mesmo algumas secundárias, são criadas por avós ou tios.

Isto diminui, de alguma maneira, a grandeza de Eça? Pelo contrário! Denota coragem, capacidade de lidar com os seus fantasmas, analisá-los, inventar um enredo nisso baseado e passá-lo para o papel. É aliás isso que define um grande escritor ou escritora: a capacidade de se servir das próprias vivências, de as enfrentar, de as arrancar do seu interior para as observar e analisar perante si. Onde vai um artista buscar as ideias, o material a ser moldado, a fim de criar a obra de arte, senão à sua própria vida?

Impressões alemãs (31)

Cristina Torrão, 29.06.22

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Há coisas interessantes. Sei, por exemplo, que ouvi falar, pela primeira vez, na cidade alemã de Magdeburgo, a 24 de Abril de 1974. Além de ter sido a véspera da Revolução, foi o dia em que o Sporting perdeu, por um triz, a meia-final da Taça das Taças, na antiga RDA, causando grande consternação em minha casa. O jogo foi precisamente contra o Magdeburg FC, clube que desapareceu da alta competição futebolística, jogando actualmente na 3ª divisão alemã. Aliás, todos os clubes da RDA desapareceram da 1ª Bundesliga. O RB Leipzig está lá, mas foi refundado em 2009 pela Red Bull.

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Em 1974, eu tinha quase nove anos, vivia em Vila Nova de Gaia e nem me passava pela cabeça que viesse a residir na Alemanha. E, quase quarenta anos depois dessa noite fatídica, estava de visita à já ocidentalizada Magdeburgo, nas margens do rio Elba, o mesmo rio que passa por Hamburgo e vai desaguar em Cuxhaven, no Mar do Norte.

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A cidade foi completamente destruída na 2.ª Guerra Mundial. Durante os tempos da RDA, a sua reconstrução baseou-se na arquitectura estalinista. Depois da reunificação, alguns desses prédios foram substituídos, outros foram renovados e ainda outros tornaram-se eles próprios objectos de interesse histórico.

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Como muitas cidades do Leste da Alemanha, Magdeburgo sofre de desertificação, apesar dos esforços da autarquia em atrair gente, nomeadamente, jovens, com a sua Universidade Técnica. Para demonstrar a baixa densidade populacional, vou compará-la com o Porto, pois ambas têm sensivelmente o mesmo número de habitantes: 236.000 para a cidade alemã, 232.000 para a portuguesa. Acontece que Magdeburgo possui uma área de 201 km2, cerca de cinco vezes maior que a do Porto, com os seus 41,42 km2.

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Esta abundância de espaço tem as suas vantagens, pois encontramos passeios largos, excelentes ciclovias e o metro de superfície muito bem integrado na paisagem, além de uma ponte sobre o Elba exclusivamente para ciclistas e peões.

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É uma pena que o Leste não consiga segurar gente, pois Magdeburgo é uma cidade muito agradável: verde, limpa e bem planeada.