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Upskirting

por Cristina Torrão, em 14.11.19

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Imagem daqui

Os telemóveis transformaram o acto de fotografar, outrora reservado para ocasiões especiais, num gesto banalíssimo. E também iniciaram modas, como a das “selfies”, que enervam muita gente. Comparado, porém, com outras práticas fotográficas, a do auto-retrato é inofensiva. Venho hoje falar do upskirting: fotografar por baixo da saia, ou do vestido, de uma mulher, a maior parte das vezes, sem que esta o note. A maioria das vítimas são jovens, algumas ainda menores.

Duas jovens alemãs, vítimas de upskirting (uma delas tinha apenas treze anos, quando assim foi fotografada pela primeira vez), iniciaram, há meses, uma campanha, acompanhada de petição, com o objectivo de criminalizar esta prática. Não sendo o upskirting considerado assédio sexual, já que não há qualquer contacto físico, não é crime e as suas vítimas nem sequer podem apresentar queixa à polícia. É assim visto com condescendência por muita gente, como outras práticas que, alegadamente, apenas servem para que os rapazes se divirtam. Um argumento muito usado pelos defensores do upskirting é: «não queres ser fotografada por baixo da saia? Veste calças!» Machismo? Que ideia! As duas activistas é que são umas feministas radicais, que querem impor mais censuras aos coitados dos homens, que, qualquer dia, nem sequer podem olhar para uma mulher, blá, blá, blá…

Na verdade, além de representar uma violação não consentida da intimidade, o upskirting está longe de ser um mero divertimento. As fotografias são partilhadas em chats e, muitas vezes, comercializadas e/ou publicadas em sites pornográficos. Tudo isto sem o consentimento das visadas que, muitas vezes, ignoram a existência das imagens. Noutros casos, porém, as vítimas são identificáveis, o que em nada diminui a sua gravidade.

As duas jovens activistas estão de parabéns. Ontem, o governo alemão decidiu criminalizar a prática do upskirting (incluindo fotografias tiradas a decotes, sem o consentimento da visada) com penas que vão da multa a dois anos de prisão, à semelhança do que já tinham feito outros países como a Finlândia, a Austrália e a Grã-Bretanha.

Além do upskirting, foi criminalizado, com penas semelhantes, o péssimo hábito de fotografar vítimas, mortais ou não, de acidentes de viação.

«Something is rotten in the state of Denmark»*

por Cristina Torrão, em 10.11.19

Quando se fala na compra da Gronelândia, por parte dos EUA, costumo rir-me, na convicção de que a Dinamarca nunca o irá permitir. Há dias, porém, vi um documentário televisivo num canal alemão que me transformou esse riso num sorriso amarelo.

A Dinamarca, um país que se considera civilizado, tem mais em comum com os EUA de Trump do que o que se poderia pensar. Perante os olhares perplexos dos cidadãos dinamarqueses e alemães, o país escandinavo constrói, desde o Verão, uma cerca de metal ao longo de toda a fronteira que separa os dois países.

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Imagem daqui

A fronteira entre a Alemanha e a Dinamarca tem uma extensão de apenas 70 km, uma estreita faixa de terra entre os Mares do Norte e Báltico. Com o pretexto de se protegerem da peste suína africana, os dinamarqueses procedem à construção de uma cerca de metal com 1,50 m de altura, obra orçada em 10 milhões de euros. Apenas as estradas com postos fronteiriços serão poupadas. O motivo alegado é recearem que os javalis vindos da Alemanha possam levar consigo o vírus da peste suína africana, apesar de a doença não existir no país da Sra. Merkel. Os dinamarqueses, porém, alegam que, no ano passado, a peste suína africana foi detectada na Bélgica, a apenas 60 km da fronteira alemã. E, pelos vistos, acham que mais vale prevenir do que remediar.

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Imagem daqui

A população local, tanto de um lado, como do outro, está perplexa e descontente. Afinal, estamos a falar da fronteira entre dois países da Comunidade Europeia. Além disso, no Norte da Alemanha vivem muitos dinamarqueses, assim como é numerosa a comunidade alemã no Sul da Dinamarca. A cerca está a ser construída em plena natureza, em locais por onde as pessoas passeavam livremente, sem se preocuparem em que país estavam. Principalmente os alemães, que festejam, nesta altura, os trinta anos da queda do muro de Berlim, mostram-se muito desiludidos.

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Imagem daqui

Muita gente duvida da razão apresentada pelos dinamarqueses. Também o Ministro da Agricultura e do Ambiente do Schleswig-Holstein (o Land alemão que faz fronteira com a Dinamarca) põe em causa o sentido e a necessidade da construção da cerca. Afinal, serão as próprias pessoas, não os javalis, quem mais contribui para a disseminação da peste suína africana, nomeadamente, através do transporte de animais e de rações e de excursões de caça, sem se verificarem medidas de higiene e segurança. Por isso, se desconfia que a Dinamarca pretende proteger-se de outros “perigos”. É sabido, por exemplo, que, desde 2015, entraram quase dois milhões de refugiados e migrantes na Alemanha. Ou tratar-se-á de outro motivo, desconhecido de todos (menos do governo dinamarquês, claro)? A falta de transparência é incompreensível e está aberta a especulação.

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Imagem daqui

Os jovens dos dois países têm protestado pacificamente, por exemplo, usando a cerca como rede de voleibol, onde a bola é jogada de um país para o outro, ou enfeitando a cerca com artefactos coloridos. Mas a sua construção continua. E eu começo a acreditar que não será assim tão difícil o governo dinamarquês entrar em acordo com o Trump...

 

*In Hamlet, William Shakespeare

Pensamento da semana

por Cristina Torrão, em 10.11.19

Não aprecio a frase: «a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro». Pressupõe subserviência, implica que a liberdade do outro seja mais importante do que a minha. Ou seja: a liberdade do outro significa o fim da minha liberdade. E a minha não significa o fim da do outro? A liberdade do outro também acaba onde começa a minha? Ficamos num beco sem saída.

Prefiro considerar ser possível duas pessoas serem livres frente a frente, sem que nenhuma baixe a cabeça e sem que nenhuma deixe de ser livre. Prefiro falar de respeito, aceitar o valor do outro, vê-lo ao meu nível (nem acima, nem abaixo). E o respeito tem de ser mútuo. Não fazer, ou não dizer nada que possa ferir a dignidade do outro não é um corte à minha liberdade. A minha liberdade não acaba, apenas respeita. Por isso, prefiro dizer: «a minha liberdade respeita a dignidade do outro».

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

"Barco Negro"

por Cristina Torrão, em 31.10.19

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Depois de ter postado aqui sobre os “Portugal-Krimis”, ou seja, livros policiais situados em território português, mas escritos por alemães, houve um escritor, com pseudónimo Mario Lima, que se manifestou nos comentários. Este autor alemão vive há vários anos no Minho com a mulher e três gatos e dedica-se à produção (em pequena escala) de vinho verde tinto.

Fiquei curiosa quanto aos seus livros, não só por ter trocado impressões com ele, como por ele os situar no Porto, uma cidade que me diz muito. Nasci em Castelo de Paiva, vivi muitos anos em Vila Nova de Gaia e licenciei-me na Universidade do Porto. A personagem principal dos dois livros de Mario Lima é o inspector Fonseca, da PJ do Porto.

Li o primeiro, Barco Negro, inspirado no lindíssimo fado homónimo de Amália Rodrigues (no link indicado, pode ouvir-se a versão original e a cantada por Mariza). Trata-se de um enredo bem construído e uma leitura que entretém, mantendo o leitor em suspense. Não há dúvida de que Mario Lima conhece bem o Porto e Matosinhos e consegue transmitir a atmosfera dessas duas cidades, pelo menos, no Inverno. Este foi um aspecto que apreciei particularmente. Ainda não li mais nenhum destes “Portugal-Krimis”, mas sempre imaginei que os autores falassem muito do sol e das praias.

Pois bem, a acção de Barco Negro decorre de início de Novembro até Janeiro do ano seguinte, ou seja, em plena estação fria e cheia da chuva. A história inicia-se debaixo de uma chuva torrencial, que atrapalha o trabalho dos investigadores da PJ, quando surgem dois cadáveres em Perafita, Matosinhos. Embora haja dias de sol pelo meio, o frio não deixa de nos perseguir durante todo o livro, havendo inclusive uma cena passada perto de uma casa de montanha, na zona de Montalegre, com temperaturas abaixo de zero. Pois, isto também é Portugal! Achei igualmente interessante alguma referência ao tempo da ditadura e à PIDE.

Entre os investigadores da PJ, encontra-se uma jovem estagiária, psicóloga, que, na verdade, chega a roubar protagonismo ao inspector Fonseca, perguntando-se o leitor quem será, afinal, a personagem principal. Enfim, o inspector Fonseca é o único que vem mencionado na capa dos dois livros. Não sei como é no segundo, Tod in Porto (Morte no Porto), mas, na minha opinião, se Mario Lima pretende criar um inspector carismático para a sua série de policiais, vai ter de se dedicar mais ao Fonseca e refrear a sua “paixão” pela bonita e sexy Ana Cristina.

Infelizmente, o livro só existe em língua alemã e eu recomendaria a sua tradução. Se há algo que aprecio em obras destas, é a nossa imagem vista por alguém de fora. Por isso, não resisto a traduzir uma pequena passagem da página 265. O cenário é um hipermercado em vésperas de consoada natalícia:

«Na secção do peixe, encontravam-se quantidades extra de bacalhaus empilhados sobre mesas. Escolher o bacalhau certo para a consoada não era resolução para tomar de ânimo leve. Todos se aglomeravam à volta das mesas, cada qual o melhor especialista na matéria. Um bacalhau assim, salgado e seco, não devia ter uma cor muito esbranquiçada e também a consistência era importante: fosse ele mole demais, não servia. As pessoas pegavam nos bacalhaus e vergavam-nos, de olhar crítico. Era aquele o certo? A maior parte dos peixes acabava por ser novamente atirada para a pilha. Não haveria melhor? Casais mais velhos entreolhavam-se preocupados, abanando a cabeça. “Não valem nada”. Uma velhota baixinha desconfiava que os melhores estavam escondidos bem lá no fundo. Resoluta, arrancava um bacalhau a seguir ao outro do fundo da pilha, atirando-os para cima do monte, examinando cada um deles de testa franzida. Nada, mais uma vez. Venha o próximo!»

Sair da Igreja

por Cristina Torrão, em 24.10.19

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Imagem KirchenZeitung

 

“Sair da Igreja”, ou “deixar a Igreja” (die Kirche verlassen) é uma expressão muito usada, na Alemanha, nos últimos tempos, e significa virar as costas à instituição.

Neste país, os cristãos pagam o “imposto da Igreja” (Kirchensteuer), descontado automaticamente do ordenado, dividindo-se a receita entre a Igreja Católica e a Luterana (conforme a confissão do contribuinte). Embora automático, não é obrigatório, ou seja, pode solicitar-se a sua isenção. E assim se “sai da Igreja”, o que implica, por exemplo, não poder comungar, ser padrinho/madrinha de baptismo, ou exercer funções em instituições da Igreja (incluindo hospitais). O casamento religioso é possível com uma autorização do respectivo bispo e o enterro também, se, antes da morte, a pessoa der sinais de arrependimento da sua “saída” (um preceito que, penso, não é considerado com muita rigidez).

O número de pessoas que sai da Igreja não pára de aumentar, em 2018, foram cerca de 416.000, dos quais 216.000 católicos. Diz-se que os escândalos, como o abuso sexual de menores, são a razão principal, mas, como se vê, os números são semelhantes entre os Luteranos (que também têm problemas desse tipo, mas em menor escala).

Como evitar tal sangria? No Jornal Católico do bispado de Hildesheim, li um artigo interessante, que relacionava o facto de haver cada vez menos pessoas na Igreja, enquanto aumenta o número de peregrinações. O Caminho de Santiago, por exemplo, atrai muitos alemães: no ano 2000, registaram-se 2.500 peregrinos; em 2018, foram mais de 25.000. Os motivos são diversos: fazer uma pausa no ritmo alucinante da vida actual, libertar-se do consumismo e iniciar uma viagem com apenas uma mochila, superar uma crise (seja uma doença, ou a morte de um parente chegado), marcar o início de uma nova fase da vida (no caso dos jovens que terminaram os estudos), ou, pelo contrário, reformados que finalmente arranjam tempo para fazerem a peregrinação com que sempre sonharam.

Mas tudo isto, dizia o artigo, prova que, apesar de as pessoas já não se interessarem pelos ritos e os modos rígidos da Igreja, continuam a sentir necessidade de exprimir a sua espiritualidade, continuam, no fundo, à procura de Deus. Muitos dizem que a Igreja podia aprender com isto, nomeadamente, flexibilizando-se, dando mais iniciativa aos crentes, ouvindo e considerando a sua opinião, e oferecendo os seus serviços sem exigir que, em troca, todos se tornem católicos praticantes. A Igreja talvez precise de aprender que amar nada tem a ver com imposições e começar a reagir de forma descontraída em relação àqueles que a procuram, mas que podem tornar a afastar-se.

Blogue da semana

por Cristina Torrão, em 20.10.19

Xaile de Seda - o nome é programa. Os textos de Olinda Melo são belos, macios e leves, uma leveza que aliás nada tem de superficial. Como a seda, são cheios daquele carisma que nos toca de maneira suave.

O temas dominantes são a literatura (com destaque para a poesia) e a língua portuguesa, mas também há História, assuntos actuais e retratos do quotidiano, normalmente, relacionados com poemas ou canções que encaixam na perfeição.

Vale a pena experimentar (ou apreciar) este Xaile de Seda, o meu blogue da semana.

O voto dos emigrantes (2)

por Cristina Torrão, em 12.10.19

Enquanto não estão apurados os votos dos emigrantes para as legislativas, aqui vão mais algumas curiosidades sobre a forma como decorrem as eleições dos portugueses que vivem no estrangeiro, mais uma vez, baseada em artigos do jornal português na Alemanha PT-POST:

Contrariamente ao que eu disse neste meu postal, há voto por correspondência, embora apenas nas legislativas (nas europeias e nas presidenciais não). Ora, isto pode animar mais cidadãos a votarem, pois, pelo menos, no caso da Alemanha, não se vêem obrigados a andarem até 400 km para exercerem o seu dever cívico. Além disso, com o recenseamento automático (ao tirar, ou renovar, o Cartão do Cidadão) os números dos eleitores estão mais compostos, passaram de 300.000 recenseados para quase um milhão e meio. Até aqui, tudo bem, só boas notícias. E há mais uma: pela primeira vez, nas legislativas, havia a opção de voto presencial nos consulados, o que ajuda a poupar dinheiro e papelada.

Porém, e o nosso país não seria o mesmo sem o reverso da medalha, a opção pelo voto presencial tinha de ser comunicada até sessenta dias antes do acto eleitoral (ou seja, até 6 de Agosto). Por um lado, compreende-se. Preparar o voto por correspondência leva o seu tempo. E não fazia sentido gastar-se tempo e dinheiro com a documentação de um eleitor que deita os papeis fora, ao decidir ir votar no consulado. O problema é que esta opção não foi suficientemente divulgada. Eu, por exemplo, só o soube ao ler o jornal um ou dois dias antes das eleições.

Teria sido a falta de divulgação o motivo para que, na Europa, um universo de 402.527 eleitores, apenas vinte e quatro (24!) tivessem optado por votar nos consulados? Na Alemanha (em toda a Alemanha) foram apenas sete, no Luxemburgo três e no Reino Unido oito. Acaba por ser pior a emenda do que o soneto, pois obriga a mesas abertas nos consulados para recolher o voto de dois ou três eleitores. O caso mais caricato parece que foi o do consulado de Paris, uma situação que até põe em causa o sigilo do voto, pois apenas um eleitor optou pelo voto presencial.

Outro tema é o número fixo de deputados, não sujeito a correcções dependentes da evolução da população eleitora. Mesmo considerando o facto de que, ao contrário dos residentes em território nacional, não participamos directamente na vida política, além de que trabalhamos e pagamos os nossos impostos noutro país, penso que todos concordarão em que quatro deputados para milhão e meio de eleitores recenseados (cinco milhões de residentes) é muito pouco.

Outros problemas que se verificaram, segundo esta notícia: emigrantes que não chegaram a receber os boletins de voto, por envio do envelope para moradas erradas; atrasos nos correios que deverão inviabilizar a chegada no prazo estabelecido; erros no recenseamento; e má interpretação do porte pago pelos serviços postais de alguns países - como na Alemanha, onde eleitores portugueses receberam o envelope de volta, com o pretexto de faltar o selo! Pelos vistos, há funcionários dos correios que não sabem o significado de port payé. Mas quem é que aprende francês, hoje em dia?

Há quem assinale a data de 5 de Outubro de 1143 como a da independência de Portugal. É um facto que, em Zamora, Afonso VII, o imperador da Hispânia, reconheceu o título de rei a seu primo e Portugal como reino. Contudo, não prescindiu da vassalagem de Afonso Henriques.

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Zamora, na nargem direita do rio Douro (Duero)

 

Atentemos ao que diz José Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques (2007; extractos das páginas 207 a 214):

No Verão de 1143, chegou ao reino de Leão o cardeal legado da Sé Apostólica Guido de Vico (…) Guido parece ter-se dirigido primeiro a Portugal. Há informações acerca da sua estadia no Porto e em Coimbra.

(…)

De Coimbra, o legado dirigiu-se a Valhadolid, onde, em 19 e 20 de Setembro, celebrou um concílio.

(…)

Depois de ter encerrado o concílio, o legado papal dirigiu-se a Zamora, onde estava a 4 e 5 de Outubro, e onde se reuniu com os reis de Portugal e de Leão. A este encontro chamam os historiadores modernos a «conferência de Zamora». Tem sido considerada como a reunião que selou o acordo entre Afonso Henriques e Afonso VII, que marcou o reconhecimento pelo segundo da dignidade régia do primeiro, e que permitiu a celebração de um tratado, que talvez incluísse uma repartição dos direitos de conquista sobre territórios muçulmanos, mas do qual, infelizmente, não existe nenhum texto.

(…)

A 13 de Dezembro de 1143, Afonso Henriques dirigiu uma carta ao papa declarando que tinha feito homenagem à Sé Apostólica, nas mãos do cardeal Guido, como cavaleiro de São Pedro (…) Também se torna quase certo que esta decisão obtivera o acordo do cardeal, uma vez que a carta declara que o rei tinha prestado homenagem nas suas mãos. (…) Estes factos significam, por sua vez, a realização de conversações anteriores, talvez por ocasião da passagem de Guido por Coimbra [ou seja, antes da conferência de Zamora].

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Assinatura do Tratado de Zamora. Painel de azulejos do início do século XX, em Portimão - Foto de Aires de Almeida no Flickr

 

Consideremos este ponto importantíssimo: antes de se dirigir a Zamora, Afonso Henriques prestou homenagem ao cardeal Guido de Vico. Porquê? Só podia ser por saber que o primo não prescindiria da sua condição de vassalo! Como imperador, Afonso VII podia ter reis (e tinha) como vassalos, por isso, o reconhecimento do título real a Afonso Henriques e de reino a Portugal não significa uma aceitação da independência por parte dele.

Neste sentido escreve igualmente o Prof. Miguel Gomes Martins em 1147 - A Conquista de Lisboa (2017):

[Na conferência de Zamora deve ter sido também debatido] o compromisso por parte de Afonso Henriques de não voltar a intervir militarmente na Galiza (…) Este ponto pode mesmo ter sido decisivo para o que se passou de seguida, ou seja, para que Afonso VII, em retribuição e talvez por pressão do legado [papal], reconhecesse o título de rei a Afonso Henriques, algo a que o imperador não deve ter colocado grandes entraves, já que em nada beliscava a sua supremacia face ao primo, que continuaria (…) na sua dependência vassálica. Pelo menos, assim o pensava, pois desconhecia o que secretamente tinha sido negociado em Coimbra, semanas antes, entre Afonso Henriques e Guido de Vico, ou seja, a preparação da vassalagem do monarca português à Santa Sé, acto que necessitava ainda de ser formalizado pelo rei, mas acima de tudo, pelo papado (p. 98).

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Temos aqui uma situação muito curiosa e que costuma ser ignorada: o cardeal Guido de Vico aceitou a homenagem de Afonso Henriques, prometendo libertá-lo do jugo de Afonso VII e, passadas semanas, serviu de mediador num encontro em que o rei português não contestou a sua condição de vassalo do imperador hispânico! Como se explica que um legado papal tivesse tal atitude?

A explicação estará em negociações secretas levadas a cabo entre D. João Peculiar, arcebispo de Braga, e o cardeal Guido de Vico, que terão incluído o casamento de D. Afonso e D. Mafalda de Sabóia. José Mattoso (2007) considera o arcebispo de Braga uma figura chave em todo este processo. Chega a afirmar que D. João Peculiar terá contribuído tanto como o próprio Afonso Henriques para a independência de Portugal.

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Estátua do arcebispo D. João Peculiar, em Braga.

A 13 de Dezembro de 1143, cerca de dois meses depois do encontro de Zamora, Afonso Henriques encontrou-se em Braga com o arcebispo D. João Peculiar e com os bispos do Porto e de Coimbra, a fim de se escrever a missiva (Claves regni celorum) a enviar ao papa, conforme combinara com o cardeal, solicitando vassalagem à Santa Sé. Ora, se o primo já tivesse reconhecido a independência de Portugal, tal passo seria desnecessário.

Este pedido de vassalagem chegou, porém, a Roma numa altura conturbada, em que se realizaram dois conclaves no espaço de seis meses. Inocêncio II, o papa que enviara Guido de Vico à Hispânia, morreu antes do regresso do cardeal. O seu sucessor, Celestino II, faleceu, antes de responder ao rei português e foi finalmente Lúcio II quem enviou a bula Devotionem tuam, datada de 1 de Maio de 1144. Quando finalmente o nosso primeiro rei a segurou nas mãos, porém, deve ter ficado desiludido.

Em primeiro lugar, o papa não o intitulava rei, mas sim «dux portugallensis». E não dizia claramente que Afonso Henriques estaria livre da suserania do primo, optando por uma linguagem difusa: promete-lhe, tanto a ele, como aos seus sucessores, a protecção de São Pedro para as suas almas e para os seus corpos.

Afonso Henriques viu-se, assim, numa situação bastante ambígua: Roma aceitava-o vassalo (e o censo em ouro), ao garantir-lhe a protecção de São Pedro. Mas intitulava-o apenas de «duque»!

O nosso primeiro rei teria de esperar ainda mais de trinta anos para ver reconhecido o seu título real, por parte da Santa Sé. Tinha já cerca de setenta anos, quando recebeu a Bula Manifestis Probatum de Alexandre III.

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Bula Manifestis Probatum, de 23 de Maio de 1179

Em Setembro ou Outubro de 1127, D. Afonso VII entrou com um exército no norte do condado Portucalense. D. Afonso VII, ou Afonso Raimundes, o primo de D. Afonso Henriques, era rei de Leão, Castela e Galiza havia cerca de ano e meio. Depois da morte de sua mãe, D. Urraca, em Março de 1126, os reinos hispânicos entraram em convulsão e o jovem rei viu-se obrigado a impor a sua autoridade, a fim de suceder a seu avô como imperador. Organizou campanhas contra Aragão e, tendo subjugado o rei aragonês, entrou pelo Minho à frente de um exército.

O condado estava já muito dividido, porquanto o Norte, mais poderoso, apoiava Afonso Henriques. Por isso, ele se aquartelou em Guimarães, enquanto D. Teresa e Fernando Peres de Trava se quedavam por Coimbra ou Viseu. Afonso VII soube aproveitar este conflito. Foi na sequência desta sua invasão que se deu o cerco a Guimarães, originando uma das lendas mais conhecidas da nossa História: a lenda de Egas Moniz de Ribadouro, que terá ido, com a família, de corda à garganta, pedir perdão ao rei leonês, ao ver-se impossibilitado de manter a sua palavra, em como Afonso Henriques prestaria vassalagem ao primo.

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Egas Moniz em Leão (Roque Gameiro, Quadros da História de Portugal, 1917

 

Na verdade, e segundo José Mattoso (2007), esta lenda terá sido obra de um trovador da corte de D. Afonso III, pai de D. Dinis, chamado João Soares Coelho. Na segunda metade do século XIII, a família de Ribadouro estava extinta, mas João Soares Coelho era seu descendente por linha bastarda. A fim de honrar o seu antepassado, criou um cantar épico, a Gesta de Egas Moniz, onde se contava o episódio. Este entranhou-se no imaginário colectivo e foi incluído nas crónicas medievais, como se de um facto se tratasse.

Como todas as lendas, é baseada em acontecimentos verídicos (invasão de Afonso VII e o cerco a Guimarães), mas fica por dizer que, nessa altura, era D. Teresa quem regia sobre o Condado Portucalense, pois ainda não se tinha dado a batalha de São Mamede. Além disso, Afonso Henriques, com cerca de dezoito anos, era um jovem infante (por sua mãe se intitular rainha), que tinha sido investido cavaleiro há apenas um ou dois anos (conforme as versões) e que não tinha ainda travado nenhuma batalha, nem feito uma conquista que fosse.

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Castelo de Guimarães, Foto © Horst Neumann 2009

Nota: Só na segunda metade do século XIII, com as reformas góticas, o castelo de Guimarães adquiriu as características que se lhe conhecem, hoje em dia, incluindo os oito torreões de planta quadrangular, os merlões pontiagudos e a torre de menagem de planta quadrada.

 

Ao saberem Guimarães em perigo, alguns barões do Norte foram acudir ao infante, entre eles, Soeiro Mendes o Grosso, tenente da terra de Sousa. Parece ter sido ele quem coordenou a defesa da vila e do castelo. As fontes não permitem perceber com rigor a cronologia, a duração, ou mesmo a forma como decorreu o cerco, mas o seu desfecho parece ter sido favorável ao rei de Leão. A vila de Guimarães, nesse tempo, e ao contrário do castelo, não tinha ainda defesas eficazes, não estando sequer amuralhada em todo o seu perímetro. Por isso, e contrariando a lenda, Afonso Henriques acabou por se render e por aceitar as exigências do primo, prometendo-lhe vassalagem, mas… em nome da mãe, D. Teresa!

Neste caso, o filho rebelde, pelos vistos, não teve problemas em reconhecer sua mãe como soberana do condado. E conseguiu, assim, uma situação dúbia, pois prometeu vassalagem sem a prestar, uma situação que, como sabemos, virá a explorar ao sabor dos seus interesses, no futuro. A prova da rendição de Afonso Henriques está no facto de ter confirmado, com a sua assinatura, três importantes diplomas de D. Afonso VII, lavrados a 13 de Novembro de 1127 (pouco depois do cerco), em Santiago de Compostela. Ou seja, depois de se render e prometer vassalagem em nome de sua mãe, Afonso Henriques acompanhou o primo à capital da Galiza.

 

Fontes:

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No Verão de 1108, o imperador D. Afonso VI reuniu cortes em Toledo, que acabaram por marcar o fim da sua relação com o genro D. Henrique. Pensa-se que estas cortes terão sido reunidas em Setembro, presume-se que depois do dia 4, já que D. Henrique, nesta data, confirmou um documento particular do mosteiro de Sahagún, o que provavelmente não teria feito, se já estivesse de relações cortadas com o sogro.

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Afonso VI de Galiza, Leão e Castela, imagem daqui.

Depois da morte do infante D. Sancho, em Maio desse mesmo ano, e estando D. Afonso VI em precário estado de saúde (morreria menos de um ano depois), urgia resolver o seu problema de sucessão. O imperador anunciou então a filha D. Urraca sua sucessora, o que não terá agradado a D. Henrique. Não se sabe bem o que se passou, mas é legítimo pensar que o conde portucalense possuiria grandes ambições, depois das mortes do cunhado D. Raimundo e do infante D. Sancho. Afonso VI tinha ainda outro genro: Raimundo IV, conde de Tolosa (ou Toulouse), casado com D. Elvira, irmã de D. Teresa. Raimundo IV, no entanto, sempre se manteve afastado da política da Península, não só por os seus domínios não pertencerem ao território, como também pelo facto de ter passado grandes temporadas na Terra Santa.

O conde D. Henrique era, assim, o único genro de Afonso VI envolvido nas grandes questões hispânicas. E talvez pensasse que deveria ser ele a tomar conta dos reinos do sogro, já que as mulheres eram preteridas em questões de poder. D. Urraca era sua prima direita, pois a mãe da infanta, a falecida rainha Constança, era tia materna de Henrique. Costuma dizer-se que Henrique e Raimundo eram primos, quando, na verdade, eram parentes muito afastados; por outro lado, não se costuma considerar, na nossa historiografia, esta tão próxima relação familiar entre Henrique e Urraca (que não se estende a D. Teresa, filha do mesmo pai, mas de mãe diferente). Será que o conde D. Henrique propôs ao sogro tornar-se no protector da prima, a fim de se elevar a regente dos três reinos (Leão, Castela e Galiza)? A prima era viúva, o filho dela tinha apenas três anos… E teria D. Henrique já o seu sucessor? Já teria nascido D. Afonso Henriques, nesta altura?

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Urraca I de Leão e Castela - Pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada na Prefeitura de Leão.

O certo é que sogro e genro cortaram relações. Henrique foi inclusive expulso da corte e denominado traidor por Afonso VI. Algo de muito grave se passou. E isso só pode ter tido a ver com o facto de o conde portucalense não aceitar a decisão de a prima Urraca se tornar na herdeira universal do pai. Nesta sua decisão, Afonso VI teve aliás o apoio dos nobres castelhanos que, no entanto, exigiram que Urraca voltasse a casar. A sua intenção era óbvia: muitos veriam aí a sua chance de se tornarem no próximo esposo da infanta; outros, de ganharem a confiança do felizardo que desposasse a herdeira mais cobiçada da Hispânia.

Henrique não foi, porém, o único a contestar a decisão do imperador. A facção galega, liderada pelo conde Pedro Froilaz de Trava (pai de Bermudo e Fernando) e pelo bispo Gelmírez, não alinhou com os nobres castelhanos. As suas razões eram também óbvias: o conde de Trava tornou-se no Aio do pequeno Afonso Raimundes, filho de Urraca. E o nobre galego era adverso a um novo casamento da infanta, pois considerava que o seu protegido, como neto mais velho de Afonso VI, era o seu herdeiro incontestado. Um outro filho que D. Urraca viesse a ter, de um poderoso nobre castelhano, poderia pôr em causa o futuro do pequeno Afonso Raimundes.

Como se vê, a situação era complicada. E ficá-lo-ia ainda mais, com o casamento entre D. Urraca e o rei D. Afonso I de Aragão, exigido por D. Afonso VI, à altura da morte.

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Quanto a D. Henrique, «banido da corte e considerado como traidor, viu-se afastado do poder. Deve ter sido nessa ocasião que se ausentou da Península para fazer uma viagem ao seu país natal (…) talvez para consultar o seu protector, o abade Hugo de Cluny [seu tio-avô]» (Mattoso 2007).

A data de regresso do conde portucalense à Península levanta vários problemas. Antes, ou depois da morte do sogro, falecido a 1 de Julho de 1109? Tendo-se incompatibilizado com ele, não me parece plausível que viesse assisti-lo na morte. Por outro lado, o abade Hugo de Cluny, que já passara os oitenta, faleceu a 28 de Abril desse ano, deixando D. Henrique, que esperava apoio dele para a sua causa, desolado. Terá regressado logo a seguir à morte do tio-avô? Enfim, é certo que D. Henrique estava na Península durante o Verão desse ano. Teria vindo a tempo de assistir ao nascimento do filho, em Agosto de 1109, em Viseu, como muitos consideram? Mas como poderia ter nascido D. Afonso Henriques nessa data, se é provável que seu pai estivesse ausente da Península, no Outono de 1108, altura em que o filho deveria ter sido gerado?

Como se vê, uma série de perguntas sem resposta. O problema continua por resolver.

No Verão de 1184, D. Afonso Henriques deu a mão da filha, a infanta D. Teresa, a Filipe da Alsácia, conde da Flandres.

A história à volta desta filha de D. Afonso Henriques e do conde da Flandres é deveras curiosa. Por vezes, penso que, não se tivesse ela passado em Portugal, mas, por exemplo, na Inglaterra, o romance já teria sido transformado em filme, ou em série, ou nas duas coisas, tornando-se a infanta D. Teresa de Portugal e o conde Filipe da Flandres num dos mais famosos pares amorosos da época medieval.

Afonso Henriques parece ter tido uma relação muito especial com esta filha, que ostentava o nome da avó. Ela permaneceu ao lado do pai até aos trinta e três anos, incomum numa época em que as princesas costumavam casar muito cedo, algumas, ainda crianças. Sobre as razões, nada se pode dizer.

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Afonso I - Óleo de Carlos Alberto Santos

Corria o ano de 1177, quando uma frota de cruzados flamengos, a caminho da Terra Santa e comandada pelo próprio conde Filipe da Flandres, ancorou na cidade do Porto. Afonso Henriques conhecera o pai de Filipe, Teodorico da Alsácia, que, vinte anos antes, passara, pelas mesmas razões, pela costa portuguesa e participara num ataque a Alcácer do Sal. Em 1177, o nosso primeiro rei, com cerca de setenta anos, estava bastante debilitado, devido ao desastre de Badajoz, em que teria ficado gravemente ferido. Já quase não saía de Coimbra, era o seu filho, o futuro D. Sancho I, que se deslocava pelo reino em seu nome. Mesmo assim, decidiu viajar ao Porto, a fim de se encontrar com o conde da Flandres. Afonso Henriques ficara eternamente grato pela ajuda dos cruzados na Conquista de Lisboa. A rota marítima, que passava pela costa portuguesa, continuou a ser muito frequentada e o nosso primeiro rei não perdia uma oportunidade de contactar com os cruzados que fizessem escala num dos portos portugueses.

A infanta D. Teresa, com cerca de vinte e seis anos, acompanhou o pai ao Porto (presume-se que praticamente não saísse do seu lado). E, estando o pai debilitado, foi ela que fez de cicerone a Filipe da Alsácia, mostrando-lhe a cidade e a região. Parece certo que, durante uma semana, a infanta portuguesa e o conde da Flandres conviveram muito. Ter-se-á estabelecido simpatia entre eles? Ou algo mais? Enfim, Filipe da Alsácia era casado. E, passada essa semana, despediu-se da infanta e de seu pai e seguiu viagem.

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Jovem medieval copiada de um anúncio numa revista medieval alemã, há vários anos (o vestuário não é muito compatível com o do século XII, mas serve hoje para representar a infanta D. Teresa, da qual não encontrei imagens)

Cerca de seis anos mais tarde, o conde da Flandres enviuvou. E, sete anos depois da sua passagem pelo Porto, sem nunca mais ter visto Teresa, enviou uma frota a Portugal, pedindo a infanta em casamento e, caso o pai o aceitasse, solicitando que ela viajasse para a Flandres nessa mesma frota.

Historicamente, não existem fontes que expliquem as razões que levaram a este casamento e alguns historiadores admitem que o conde da Flandres tenha ficado bem impressionado com a figura e o porte da infanta. O próprio Afonso Henriques a chegou a apontar como sua sucessora, caso o infante D. Sancho falecesse sem filhos. Em 1172, ao doar o castelo de Monsanto à recém-criada Ordem de Santiago da Espada, Afonso Henriques declarou que os Mestres da Ordem deveriam aceitar nesse castelo a soberania de seu filho Sancho e de sua filha Teresa, si regnum meum tenuerit («se vier a ter o meu reino»). Era a prova de que considerava a infanta, e mais ninguém, como a sucessão alternativa ao filho Sancho.

A infanta D. Teresa partiu para a Flandres nesse ano de 1184 e o rei seu pai morreria no ano seguinte. Já se previa que o seu fim estava próximo. Aquela filha, de trinta e três anos, que nunca se havia separado dele, não o confortou, nos seus últimos momentos, nem assistiu à sua morte. A separação deve ter sido muito difícil para os dois.

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Filipe da Alsácia, Conde da Flandres - estátua na Basílica do Sangue Sagrado, em Bruges. Filipe da Alsácia, que fez várias viagens à Terra Santa, foi um dos cruzados mais famosos do século XII.

Teresa e Filipe não tiveram filhos. E a união acabou por durar apenas seis anos. Filipe embarcou numa nova cruzada, em Setembro de 1190, e morreu, sem ter regressado ao lar, de uma epidemia que atingiu os cruzados durante o cerco a Akkon. Teresa, ou Matilde, como ficou conhecida por aquelas paragens, por identificação com sua mãe, governou a Flandres sozinha durante mais de vinte anos (uma verdadeira representante da avó, de quem herdou o nome). Morreu em 1216, sem filhos, e eu acho uma pena que os governantes da Flandres, a partir do século XIII, não tivessem sido descendentes de D. Teresa e de D. Afonso Henriques. A sorte acabou por calhar a Balduíno V de Hennegau, um parente do falecido Filipe.

Desafio "Museu Salazar"

por Cristina Torrão, em 25.08.19

Vivendo no estrangeiro, estou um pouco de fora do teor desta polémica, embora já tenha lido algumas alusões pela net. Como sou uma apaixonada pela História (porque acho que só nos conhecemos, se conhecermos a nossa História) e como Salazar e o Estado Novo fazem parte da História de Portugal, decidi dar a minha opinião, principalmente, depois de ler o Editorial do “Público”, por Manuel Carvalho.

Tal como Manuel Carvalho, acho que um "Museu Salazar" não pode ser nunca uma homenagem branqueadora e normalizadora do ditador. Por outro lado, nas democracias não pode haver temas tabus, personagens apagados das fotografias ou lugares de esquecimento, porque isto também serve para branquear a História, apagando, ou fazendo por esquecer, aquilo que nos incomoda. Aliás, Portugal tem muita necessidade de trabalhar certos momentos da sua História de forma rigorosa e o mais objectiva possível.

Um "Museu Salazar" nunca deve ter como propósito homenagear um “grande homem” (como parece afirmar o autarca socialista de Santa Comba Dão), mas deve possuir o objectivo de educar e informar. Isso, sim, seria um centro interpretativo do Estado Novo. Aliás, o nome da instituição devia ser este, por exemplo, ou Museu do Estado Novo, em vez de "Museu Salazar".

Um museu, ou centro, deste tipo, além de fazer um retrato da vida de Salazar, devia, obrigatoriamente, incluir:

- Uma secção sobre a Censura à Imprensa, praticada durante todo o Estado Novo, com imagens de notícias censuradas e informações sobre que tipo de artigos o eram (porque não eram apenas os políticos, também se censuravam notícias de suicídios, por exemplo, ou de crimes familiares).

- Uma secção dedicada ao Tarrafal (com imagens e artigos, talvez vídeos, se os houver) e à perseguição dos comunistas e sindicalistas.

- Uma secção dedicada à PIDE e às prisões de Caxias e Peniche, também com imagens, documentos, descrição das torturas, testemunhos, etc.

- Uma secção dedicada ao assassinato de Humberto Delgado (e a outros crimes que se tenham cometido em relação a opositores do regime).

- Uma secção dedicada à guerra colonial, com fotografias (que não faltam) e, proponho também, vídeos que mostrem, por exemplo, os embarques das tropas, ou as mensagens de Natal que os combatentes enviavam, todos os anos, pela televisão.

Estas são as minhas sugestões. Os historiadores especialistas desta época teriam mais e deviam ser contactados. Para que se fizesse, em Santa Comba Dão, um verdadeiro Museu ou Centro Interpretativo do Estado Novo, que nos oferecesse uma visão aberta da História. De visita obrigatória para estudantes!

Será que o autarca socialista de Santa Comba Dão tem arcaboiço para tal?

Paio Mendes da Maia - Galeria dos arcebispos de Br

Representação de D. Paio Mendes da Maia na Galeria dos arcebispos de Braga

No Verão de 1122 (mais uma vez, não se sabe a data, mas Agosto é um bom símbolo para esta estação do ano), D. Teresa mandou prender o arcebispo de Braga, D. Paio Mendes da Maia. No ano anterior, o clérigo não regressara a Braga, depois de participar no Concílio de Sahagún, optando por se refugiar em Zamora. É de presumir que, já nessa altura, D. Teresa ameaçara mandar prendê-lo, o que denuncia conflitos graves entre os dois.

Paio Mendes, tutor de Afonso Henriques e a quem haveria de ficar sempre muito ligado, era um grande opositor à relação de D. Teresa com Fernando Peres de Trava. O arcebispo de Braga fez acusações muito graves à “rainha”: adultério e incesto duplo, dando assim legitimação religiosa à oposição dos barões portucalenses em relação ao conde galego.

A revolta de D. Teresa é bem notória ao dar a ordem para prender o arcebispo, assim que ele pusesse os pés em Braga, o que aconteceu, no Verão de 1122. Nada se sabe sobre as condições da prisão, mas suponho que não seria um calabouço. Talvez D. Paio Mendes tenha ficado confinado ao seu paço, numa espécie de prisão domiciliária.

Como “rainha”, D. Teresa pretendia dar um sinal da sua autoridade, mas recebeu uma bula do papa Calisto II, ordenando a libertação do arcebispo, sob pena de excomunhão contra si e os seus cúmplices. A seguir, dá-se uma série de acontecimentos, sobre cuja explicação só podemos conjecturar.

A 3 de Novembro desse ano, D. Paio Mendes, já liberto, confirmou a doação do castelo de Soure a Fernando Peres de Trava, pelos bons serviços que a rainha recebera dele, cedendo-lhe ainda o castelo de Santa Eulália e a Villa de Quiaios, em troca do castelo de Gogia (c. Arganil), que, por sua vez, era doado à Sé de Coimbra. Fernando Peres de Trava deixou depois de aparecer nos documentos oficiais da corte portucalense, só voltando a surgir cerca de dois anos mais tarde, em Março de 1125, no foral de Ponte de Lima. Durante este interregno, o infante Afonso e o arcebispo D. Paio Mendes assinaram todos os documentos de D. Teresa (doações, forais, etc.). Os nobres portucalenses, porém, mantiveram-se afastados. Tentemos analisar a situação, escolhendo três pontos essenciais:

Primeiro ponto: D. Teresa liberta D. Paio Mendes. Não lhe restava outra hipótese. Nesta libertação, porém, está implícito o começo de uma amizade, ou, pelo menos, de uma colaboração, pois o arcebispo passa a assinar os documentos oficiais. Terá D. Teresa, na altura da libertação, pedido o perdão do arcebispo, prometendo modificar a sua vida, em troca do apoio do clérigo? E teria o arcebispo imposto, como condição, a sua separação do amante galego?

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Segundo ponto: o afastamento de Fernando Peres de Trava. Segundo Marsilio Cassotti (2008) Fernando e Bermudo Peres de Trava teriam ido em peregrinação à Terra Santa, a fim de mostrar o arrependimento por grandes pecados cometidos. Isto justificaria realmente uma ausência de cerca de dois anos. E como explicar as doações que se fizeram ao conde galego, antes da sua partida, com o beneplácito do arcebispo? Na verdade, estas doações soam a liquidação de serviços prestados a D. Teresa, no fim de uma colaboração à frente dos destinos do condado Portucalense. E consideremos que o castelo de Soure, que lhe era doado, estaria muito devastado, em sequência de ataques almorávidas alguns anos antes, e necessitaria de alguém que o recuperasse. Além disso, reparemos que o castelo de Gogia, até aí, na posse do conde galego, era doado à Sé de Coimbra. Resta saber se esta separação foi exigência do arcebispo, ou se já teria sido combinada entre D. Teresa e D. Fernando Peres. O facto de ele regressar à corte do condado parece indiciar esta última hipótese, ou seja, uma separação temporária, para que a rainha pudesse, entretanto, recuperar aliados.

Terceiro ponto: o regresso de Fernando Peres de Trava. Como foi referido, ele confirmou, em Março de 1125, o foral de Ponte de Lima, assinado igualmente pelo infante Afonso e pelo arcebispo de Braga. Porém, e apesar de se tratar de documento muito importante (a criação de uma vila no coração do Entre-Douro-e-Minho), os maiores magnates do condado mantiveram-se afastados da cerimónia. Aliás, eles mantiveram-se igualmente afastados durante a ausência do conde galego. Se D. Teresa esperava recuperá-los, enviando D. Fernando em peregrinação, enganou-se. Os barões que a tinham abandonado não mudaram de ideias. E, depois do regresso de Fernando Peres, muito menos. A Batalha de São Mamede dar-se-ia três anos mais tarde.

Sem receio da mudança

por Cristina Torrão, em 22.08.19

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Imagem Wochenblatt

Estou muito orgulhosa do "meu" Horst. Atreveu-se a mudar de emprego aos 56 anos e até teve direito a reportagem no jornal diário local. Trabalha, desde 1 de Agosto, na Câmara de Stade, a sua cidade-natal e onde vivemos há 20 anos, como planeador de tráfego, fazendo parte de uma equipa que pretende criar um novo conceito para a cidade, dando mais espaço aos peões e aos ciclistas (não, a Greta Thunberg não vai resolver os problemas ambientais do planeta, mas o movimento por ela iniciado está a ter reflexos e é isso que importa; quem, de nós, conseguiria tal proeza?).

Esta decisão do Horst exigiu coragem, pois, apesar de continuar funcionário público, está à experiência por seis meses. Se algo correr mal, pode ser despedido ao fim desse tempo. Para isso, rescindiu um contrato de trabalho vitalício, que tinha com a Câmara de Hamburgo, onde trabalhava há 26 anos. Como sabem, a Alemanha é uma federação de estados. Hamburgo é uma cidade-estado; Stade, apesar de estar a apenas 50 km, pertence ao estado da Baixa Saxónia. Um funcionário público não pode mudar de estado, mantendo o mesmo contrato, pois a entidade empregadora é diferente. Mas há-de tudo correr bem, estamos confiantes.

O emprego em Stade, além de lhe proporcionar fazer um trabalho para o qual está muito motivado, fica pertinho de casa. É só agarrar na bicicleta e, em dez minutos, chega ao emprego. Um verdadeiro sonho para quem, durante 20 anos, viajou de comboio todos os dias para Hamburgo, uma hora para cada lado.

O Horst merece.

Obs: a bicicleta dele não é eléctrica.

A Saga da Gronelândia (reescrita)

por Cristina Torrão, em 21.08.19

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Pintura de Carl Rasmussen

Apesar de ter governo próprio, a Gronelândia pertence à coroa dinamarquesa. A Dinamarca é um país pequeno, mas dos mais ricos do mundo, com uma qualidade de vida de causar inveja. A rainha da Dinamarca, pessoa civilizada e simpática, convidou o Presidente Trump para uma visita oficial ao seu reino. O convite foi aceite. Porém, pouco tempo antes de se iniciar a visita, agendada para o início de Setembro, Trump não resistiu a dar um ar da sua graça e, como não quer a coisa, postou, no Twitter, que gostaria de comprar a Gronelândia, um ponto estratégico que daria muito jeito aos Estados Unidos.

Depois de um momento de perplexidade, o governo dinamarquês considerou tratar-se de uma brincadeira. Nessa atmosfera jocosa, o Presidente Trump, novamente via Twitter, anunciou que prometia não construir uma Trump Tower na Gronelândia, quando a ilha lhe pertencesse. A Primeira-Ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, resolveu então comunicar que a venda da Gronelândia estava fora de questão e que não valia a pena sequer discutir o assunto, durante a visita. Trump agradeceu a resposta directa, dizendo que a chefe do governo dinamarquês tinha poupado trabalho a todos. Poucas horas mais tarde, um porta-voz da Casa Branca comunicou ao governo da Dinamarca que a visita fora cancelada.

A porta-voz da Casa Real foi discreta, disse que era uma grande surpresa, mas que mais nada tinha a dizer. Já os chefes dos partidos da oposição manifestaram o seu desagrado e a sua indignação. Morten Ostergaard, do Partido Social Liberal, disse mesmo: «a realidade supera a ficção - este homem é imprevisível», outros consideraram uma grande ofensa em relação ao povo dinamarquês e da Gronelândia o cancelamento de uma visita oficial, quase em cima da hora. Mesmo o chefe do Partido Populista de Direita, que se diria ser mais chegado a Trump, usou a palavra “farsa”, para classificar todo este absurdo.*

O executivo dinamarquês anunciou uma tomada de posição ainda para esta tarde, mas, até ao momento, não me é conhecida, pelo que se adivinha um segundo volume desta saga.

 

* O link é em alemão, pois foi lá que reuni estas informações. Para quem queira ler mais sobre o assunto, é só ir ao Google, que encontra muitos artigos escritos em português.

O incontornável Eça

por Cristina Torrão, em 20.08.19

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Imagem RTP

Andamos a seguir, com muito interesse, aqui na Alemanha, a série O Nosso Cônsul em Havana, que a RTP Internacional começou a transmitir no passado dia 10, ao ritmo de dois episódios por semana, aos Sábados à noite. Apesar de as séries portuguesas não terem a qualidade de outras, vindas do estrangeiro, o meu marido Horst costuma interessar-se muito. O ano passado, estando de férias em Portugal, adorou a série baseada n’ O Mandarim, transmitida pela RTP Memória (e que eu também não conhecia).

Há qualquer coisa no estilo destas séries portuguesas que fascina o Horst. Será o charme da realização lusa, cativante na sua simplicidade? Ou será por causa do Eça, de quem ele já leu a tradução alemã de Os Maias, O Crime do Padre Amaro, A Relíquia e A Ilustre Casa de Ramires?

Viva o Eça!

Cobardia

por Cristina Torrão, em 18.08.19

Uma média de 22 crianças e jovens por mês foram vítimas de violência sexual, durante os últimos três anos.

80% das vítimas de violência sexual são meninas.

Mais de metade destes crimes aconteceu no seio da própria família.

Mãe ou pai (19,8%), padrasto ou madrasta (11,7%), avós (5,8%), tios (5,2%), irmãos (2,3%) ou ainda outros familiares (9,3%).

Quando deixaremos de fechar os olhos a estes números assustadores?

Quando serão feitas campanhas de sensibilização e de competência para lidar com a situação, junto de professores, treinadores desportivos, ou outras pessoas que lidam com crianças, incluindo médicos? Porque é esse o grande problema: o fechar os olhos, o ignorar, o não se querer meter em chatices. Na verdade, os adultos que se apercebem ou desconfiam, sentem-se incapazes de lidar com a situação e deixam a criança sem ajuda. Isto é igualmente válido para pediatras! São necessárias campanhas que ensinem a reconhecer os sinais, a saber como agir e a quem se dirigir.

Agredir os mais fracos, ou abusar deles, seja de que maneira for, tem um nome: cobardia.

 

Nota: O artigo citado refere que os casos dispararam nos últimos três anos - pode ter a ver com o facto de que, hoje em dia, se denuncia mais facilmente (digo eu).

Fiel a si própria

por Cristina Torrão, em 15.08.19

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Fonte: Stina Stjernkvist/imago images

 

Com esta greve dos motoristas de matérias perigosas, os portugueses acabaram por descurar algo que, não fosse a dita greve, provocaria discussões acaloradas nas redes sociais: Greta Thunberg iniciou ontem a sua viagem a Nova Iorque, a fim de participar numa cimeira das Nações Unidas.

Afinal a mocinha sempre vai poluir os céus. Que alívio, pensarão os críticos, podemos atacá-la como a qualquer outro ambientalista de pacotilha.

Não, não podem! Greta não vai de avião. Esteve meses à procura de uma alternativa e a escolha acabou por cair na embarcação Malizia II, equipada com painéis solares e turbinas submersas que geram electricidade sem emitir dióxido de carbono. A viagem durará cerca de duas semanas. O barco é dirigido por um velejador alemão.

Greta Thunberg continua fiel a si própria. E, não obstante todos os seus admiradores e apoiantes, há muita gente a odiá-la. Gente que critica os tais “ambientalistas” que passam a vida a cruzar os céus, de cimeira em cimeira. Em relação a Greta, a crítica não chega, passa-se ao ódio. Apenas por ela se manter fiel às suas convicções. É perverso, mas é a realidade.

Ulrich Wagner, psicólogo social e Professor de psicologia na Universidade de Marburg, dá a sua explicação para este tipo de comportamento:

Muitos consideram que o aquecimento global não é um problema. Outros consideram que é, mas que não podemos fazer nada contra ele, ou seja, mudar o nosso estilo de vida não faz sentido. Por isso, não aguentamos bem que haja alguém que ponha os nossos comportamentos básicos em questão.

A intervenção de Greta Thunberg, a sua postura, obriga as pessoas a pensarem em si próprias, a fazer uma análise crítica de si. Gera-se um conflito interior, coisa que não apreciamos.

Quando nos vemos em conflito com o mundo, tendemos a procurar explicações simples para isso. Pomos então a responsabilidade em pessoas concretas. Rejeitar pessoas é sempre muito fácil. É o que se chama “piscologiar”: os que destoam e assumem posições polémicas são apelidados, em casos extremos, de doentes mentais.

Outra técnica é a desacreditação: tenta-se desacreditar Greta Thunberg, acusando-a, por exemplo, de servir de propaganda a terceiros, em vez de defender convicções próprias. É um comportamento habitual. Pessoas que trazem inovações não são apreciadas.

Pois é, gostamos mais de fracos, de vira-casacas, de hipócritas. Esses, sim, mostram-nos que afinal ainda há quem possamos censurar, quem nos eleve a modelos de virtudes.

 

Nota: o segundo link é alemão; a tradução é livre, de minha autoria.

 

P.S. O pai da Greta acompanha-a. Grande Pai!

Venho hoje falar de um documento um pouco polémico, pois paira sobre ele o espectro da falsificação, embora actualmente se considere poder ser verdadeiro. De qualquer maneira, trata-se de um assunto em aberto e que, na minha opinião, tem a sua relevância. Estou a falar de um Pacto Sucessório secreto, que terá sido firmado entre os condes D. Raimundo e D. Henrique, à revelia do sogro Afonso VI, decidindo como dividiriam a herança depois da morte deste e por mim já aqui referido. Não se sabe a data exacta em que terá sido firmado, o historiador Charles Bishko situa-o entre 14 de Maio e 22 de Setembro de 1105, ou seja, durante o Verão. Nada melhor do que o mês de Agosto para o relembrar.

Nos arquivos portugueses, não existe cópia do documento, mas a versão que terá sido enviada ao abade de Cluny encontra-se na Bibliothèque Nationale de France. O Professor Abel Estefânio, da Universidade do Porto, publicou dois estudos sobre o assunto, na Medievalista online. No primeiro, O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, em 2011, duvida da sua autenticidade. Porém, no segundo, Proposta de aclaração do “pacto sucessório” à luz de novos dados, três anos depois, admite que possa ser verdadeiro.

Manuscrito do “pacto sucessório”, Recueil de

Manuscrito do “pacto sucessório”, Recueil de Chartes de CLUNY, Bibliothèque Nationale de France, Département des manuscrits, Colecção Baluze nº 86, f. 470.

Atentemos às palavras com que o Professor Abel Estefânio abre o segundo estudo:

«Quando o estudei pela primeira vez, pareceu-me que se tratava de um falso histórico e apresentei essa hipótese num artigo publicado em 2011 na revista Medievalista (…) Todavia, como não o pude afirmar categoricamente, não dei o assunto por encerrado. Havia, desde logo, que considerar a nota que o Professor José Mattoso elaborou sobre o meu estudo, com o contributo do Professor Arnaldo do Espírito Santo relativamente ao argumento linguístico. Perante a ausência de sinais evidentes do uso de um latim clássico que denuncie um falsário da época moderna, o Dire(c)tor da Medievalista considerou que se impunha um exame mais aprofundado».

Na minha opinião, é verosímil que os condes D. Raimundo e D. Henrique tenham firmado este pacto. Recordemos a situação! D. Afonso VI, sentindo a morte a aproximar-se e angustiado por não ter herdeiro varão, nomeia seu sucessor o filho que teve da moura Zaida, baptizando-o de infante Sancho. Podemos imaginar a revolta que sentiu a sua única filha legítima, D. Urraca, e também o genro D. Raimundo, sobretudo por, neste mesmo ano de 1105, a 1 de Março, ter nascido o filho do casal.

Raimundo terá recorrido ao abade Hugo de Cluny. A fim de conseguir guerreiros para a Reconquista, Afonso VI seguira, durante anos, uma política pró-francesa, ligada à Ordem Cluniacense, nomeando muitos prelados estrangeiros para as dioceses hispânicas, fazendo-lhes riquíssimas doações e dotando-os de privilégios, assim como aos nobres que os acompanhavam. Foi neste contexto que surgiram Raimundo e Henrique na Hispânia. O conde portucalense era inclusive sobrinho-neto do abade Hugo. Os cluniacenses introduziram, na Península, o culto romano, ditado pela reforma gregoriana, em detrimento do velho rito hispânico, ou moçárabe.

Afonso VI de Galiza, Leão e Castela Catedral Sant

Miniatura representando Afonso VI, rei de Leão, Castela e Galiza (1047-1109). Tumbo A da catedral de Santiago de Compostela.

A fim de poder nomear Sancho seu sucessor, porém, o imperador Afonso VI executou um verdadeiro volte-face, pois o velho clero hispânico prontificou-se a baptizar a moura Zaida e a legitimar o filho desta. Alarmado por Raimundo, o abade Hugo de Cluny enviou à Hispânia um seu representante, Dalmácio Geret, na presença do qual Raimundo e Henrique terão firmado o pacto sucessório.

O documento não costuma ser mencionado na nossa historiografia. A hipótese de falsificação não é o único motivo, já que, mesmo sendo verdadeiro, há quem o considere irrelevante. Tanto Raimundo, como o infante Sancho, viriam a falecer antes de Afonso VI, o primeiro dois anos depois de ter assinado o pacto e o segundo no ano seguinte, em 1108, na batalha de Uclés.

Na minha opinião, porém, que vejo boas razões para que seja autêntico, ele foi fundamental na política tão criticada de D. Teresa. Mas comecemos pelo princípio!

Ao casar com D. Urraca, D. Raimundo tornou-se conde da Galiza e, nas suas posses, incluía-se o condado Portucalense que, nessa altura, ia até ao Tejo, pois Afonso VI tinha recebido Santarém e Lisboa do rei mouro de Badajoz, que se pôs sob a protecção do imperador. Raimundo, porém, não conseguiu segurar Lisboa, provocando a ira do sogro. Ao casar a filha Teresa com Henrique, Afonso VI pôs nas mãos deste o condado Portucalense, confinando Raimundo à Galiza. Henrique, porém, permaneceu vassalo do cunhado, situação que o pacto confirma. A carta endereçada ao abade de Cluny começa assim:

Ao senhor e reverendíssimo abade de Cluny, Hugo, e a toda a congregação de S. Pedro, o conde Raimundo, o seu filho e o conde Henrique, seu vassalo, desejam saúde e amor em Cristo (O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, p. 13).

A nossa historiografia tende a divulgar a versão de que o interesse de D. Teresa pela Galiza se deveu ao seu envolvimento com a família de Trava. Ora, este pacto secreto, assinado pelo marido, sete anos antes de morrer, mostra que a Galiza fazia parte das ambições do conde portucalense. D. Teresa deu-lhe seguimento. Nas suas lutas com a irmã Urraca, ela reclamou sempre a Galiza para si. E o próprio Afonso Henriques passou os cinco anos a seguir à Batalha de São Mamede a tentar conquistar território galego. Foi essa a sua primeira medida, depois de se tornar no líder incontestado do condado Portucalense. Só depois de sucessivas derrotas, perdendo os territórios galegos conquistados, ele se virou para o Sul.

Se eu, conde Raimundo, não puder dar Toledo a ti, conde Henrique, tal como prometi, dar-te-ei a Galiza com a condição de que tu me ajudes a conquistar toda a terra de Leão e de Castela (O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, p.22).

Esta passagem, do texto do pacto, é um pouco enigmática, pois dá a ideia de que D. Henrique teria aspirações ao senhorio de Toledo e que o cunhado não estava disposto a concedê-lo, substituindo-o pela Galiza. Ou seria o contrário? Inclino-me para a segunda hipótese. Não vejo que interesse D. Henrique pudesse ter por Toledo, tão longe das suas posses, apesar de se tratar de uma cidade de grande prestígio, antiga capital do reino visigótico. Contudo, depois da morte do imperador, Toledo nunca foi motivo de conflito com a rainha D. Urraca. Já a Galiza sim! Além disso, à data do pacto, D. Raimundo era conde da Galiza há cerca de quinze anos, não penso que facilmente abrisse mão desse território. E relembremos ainda que, dar, a um vassalo, o senhorio de uma cidade situada nas terras do suserano, era prática habitual na Idade Média. Podemos, por isso, admitir que a ideia de Toledo terá sido de Raimundo, como recompensa pela ajuda do cunhado. Henrique, porém, estaria mais interessado no reino da Galiza, criando um impasse. Com a moderação de Dalmácio Geret, ter-se-á tentado uma solução provisória, do estilo: «Toledo ou a Galiza».

Defendo, portanto, a importância do pacto, ao mostrar que a luta pela Galiza não se baseou num capricho de D. Teresa, por ter um amante galego. Fazia parte de uma estratégia política iniciada pelo conde D. Henrique, seguida pela sua viúva e também pelo filho de ambos, num primeiro momento: formar um reino na faixa oeste da Península, que iria desde a costa norte galega até onde as conquistas a Sul o permitissem.

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Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos (Arquivo Histórico Nacional, Madrid. Tumbo de Toxosoutos, fol.  6v.)

Muito bem, Alemanha!

por Cristina Torrão, em 01.08.19

A Alemanha recusou tomar parte na “Operation Sentinel” de Trump, no Estreito de Ormuz. Um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão declarou estar fora de questão seguir a estratégia de confrontação dos EUA, que pode levar a uma escalação perigosa do conflito (link em alemão). O governo alemão continua a considerar a via diplomática como a melhor forma de lidar com o problema.

Apoio a posição da Alemanha que visa, acima de tudo, preservar a união europeia e distanciar-se da linha conflituosa de Trump. Com Boris Johnson, a Grã-Bretanha mudou de estratégia, deixando de apelar a uma acção conjunta europeia, para se pôr sob a protecção dos EUA. Este país, no entanto, solicitou a colaboração alemã, numa óbvia tentativa de forçar a Europa a dançar sob a sua batuta (e a dividi-la). Esteve bem o governo alemão, ao declarar que, não chegando a diplomacia, a Alemanha só admitirá o envio de forças militares para o Estreito de Ormuz numa acção conjunta europeia, dispensando o comando norte-americano.


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