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Delito de Opinião

Resistência em alemão (16)

Cristina Torrão, 19.02.24

Irmã Maria Imma Mack

Depois de vários meses sem dar seguimento a esta série, venho hoje quebrar o silêncio, para falar de uma mulher, a segunda, depois de Sophie Scholl. Escrevi sobre vários padres católicos que contestaram o regime nazi, contrariando uma certa passividade na posição oficial da sua Igreja. Mas também mulheres pertencentes a esta instituição colaboraram com os opositores de Hitler. A Irmã Maria Imma Mack foi uma delas.

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Imagem encontrada no site da Ordem a que pertenceu

Nascida a 10 de Fevereiro de 1924, na pequena localidade bávara de Möckenlohe, foi baptizada de Josefa Mack. Em 1942, começou a trabalhar num lar de órfãos, em Freising, pertencente ao mosteiro da Kongregation der Armen Schulschwestern von Unserer Lieben Frau. Já nessa altura, Josefa Mack tencionava ingressar nesta Ordem, fundada na Baviera, em 1833. Não sei se tem equivalente em português (se alguém o souber, pode dar a informação nos comentários). Em latim, intitula-se Congregatio Pauperum Sororum Scholasticarum Dominae Nostrae e, em inglês, School Sisters of Notre Dame.

Freising fica a cerca de 30 Km de Dachau, onde existiu um Campo de Concentração, do qual já falei aqui, a propósito do padre Engelmar Unzeitig, prisioneiro do “Bloco dos Padres” (Pfarrerblock). Por lá passaram 2720 sacerdotes, católicos na sua esmagadora maioria e de diversas nacionalidades, levando inclusive um jornalista francês, Guillaume Zeller, a escrever o livro La Barraque des Pretres. Também há um filme alemão, de Volker Schlöndorff, com o título Der neunte Tag.

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Pfarrerblock em Dachau

Em Maio de 1944, Josefa Mack foi, pela primeira vez, incumbida de se deslocar ao horto do Campo de Concentração de Dachau, a fim de comprar flores e plantas. Apercebendo-se das condições miseráveis do campo, convenceu as freiras a pouparem na sua própria alimentação, a fim de ela poder levar comida aos prisioneiros, embora fosse proibido. Assim começou ela a ir lá regularmente, com o pretexto de comprar plantas.

Ferdinand Schönwälder, um padre jovem, trabalhava no posto de venda do horto e, um dia, pediu-lhe que trouxesse também vinho para a eucaristia, hóstias e medicamentos para o tifo. Os padres tinham organizado uma capela e pretendiam celebrar missas clandestinas. Josefa Mack colaborou e, durante cerca de um ano, deslocou-se várias vezes ao Campo de Concentração, fazendo, no Verão, os 30 Km (para cada lado) de bicicleta e, no Inverno, de trenó. As suas missões clandestinas tornaram-se ainda mais perigosas, quando assentiu a mais um pedido de Ferdinand Schönwälder: levar cartas dos prisioneiros para as suas famílias e amigos. Seria o suficiente para condenar Josefa Mack à morte, mas ela chegou a transportar missivas para o o cardinal Michael von Faulhaber, arcebispo de Munique e Freising. E foi ela quem, além das hóstias e do vinho, arranjou velas, santos óleos e paramentos, a fim de que o bispo francês preso em Dachau, Gabriel Piguet, de Clermont-Ferrand, pudesse ordenar padre o diácono Karl Leissner, um outro conhecido opositor do nazismo, beatificado em 1996 por João Paulo II e do qual hei-de igualmente falar aqui. Foi a única ordenação de um padre acontecida num Campo de Concentração nazi.

Depois da guerra, Josefa Mack tornou-se noviça e professou em 1946, adoptando o nome de Maria Imma. Muitos anos mais tarde, em 1989 publicou as suas memórias em livro. O título Warum ich Azaleen liebe (“Porque amo as azáleas”) foi inspirado numas azáleas vermelhas que um prisioneiro de Dachau lhe ofereceu, quando ela lhe prometeu visitar os pais dele. A promessa foi cumprida em Janeiro de 1945.

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Editora eos

Encontrei uma tradução em espanhol, à venda em segunda mão na net:

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A 19 de Dezembro de 2004, a Irmã Imma Mack foi condecorada femme chevalier da Légion d’honneur, por ter auxiliado os padres franceses de Dachau. E, em 2005, o Presidente da República Federal da Alemanha Horst Köhler condecorou-a com a Bundesverdienstkreuz I. Klasse.

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Imagem do site do Liceu, na Baviera, que passou a ostentar o seu nome

A Irmã Imma Mack faleceu a 21 de Junho de 2006. O seu nome foi dado a um liceu do concelho de Freising, assim como a algumas ruas (uma delas em Munique) e a uma praça, em localidades dessa região.

Em alemão

Cristina Torrão, 06.02.24

Publiquei o meu primeiro livro em alemão.

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O texto já tem aliás uns bons anitos. Foi com esta história que me iniciei na blogosfera, em 2010. Não passou despercebida, foi referida pelo falecido jornalista Pedro Rolo Duarte, num programa radiofónico, incluindo leitura de um excerto.

Tive, no entanto, de mexer muito no texto. O formato em que foi publicado tem regras muito definidas, nomeadamente, no que diz respeito ao número máximo de caracteres. Não foi fácil, cheguei a pensar não o conseguir. Mas desistir nunca foi meu apanágio.

Decidi apresentar-me como Cristina Santos, por duas razões. Ninguém consegue pronunciar o nome Torrão, por aqui. E, se alguém se lembra de recomendar o livro, não lhe quero dificultar a vida. O segundo motivo é a dificuldade que tenho sentido, em Portugal, em vender os meus livros. Perguntei-me então se o apelido Santos me daria mais sorte. Nem chega a ser um pseudónimo, pois faz parte do meu nome. Foi-me transmitido por um bisavô materno, que nunca conheci, mas cuja história de vida me emociona. Foi um exposto da Santa Casa de Lisboa, com apenas duas semanas de vida. Baptizaram-no Carlos da Graça e Santos. Sinto-me feliz ao honrá-lo desta maneira.

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Gostaria ainda de referir que este projecto não seria possível sem a preciosa ajuda do meu marido Horst Neumann. Apesar de possuir o meu “canudo de Germânicas” e viver neste país há trinta e um anos, ainda tenho problemas em certos pormenores gramaticais. E não seria capaz de dar um livro à estampa, sentindo dúvidas desse tipo.

O livro está à venda numa plataforma online, surgida recentemente no mercado alemão, a StoryOne, com sede em Viena. Este ano, a StoryOne tornou-se mais atractiva ao estabelecer uma parceria com uma das maiores redes livreiras alemãs, a Thalia. Um júri irá apreciar as publicações submetidas até 10 de Março e escolherá cerca de cem, que serão postas à venda, em papel, nas cinco principais filiais da Thalia: Hamburgo, Berlim, Colónia, Düsseldof e Viena.

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Estou tão entusiasmada com este tipo de projecto, que o segundo livro já está em preparação (cada pessoa é autorizada a participar com o máximo de três obras). No cinquentenário da nossa revolução, escolhi um conto baseado em certos aspectos do 25 de Abril, que tenho na gaveta há cerca de três anos. Além da tradução, não precisei de mexer muito no texto, pois não excedia o número de caracteres exigido. Falarei em breve desse projecto também.

Desejem-me sorte!

O plural neutro

Cristina Torrão, 04.02.24

Venho fazer uma sondagem entre os nossos leitores/comentadores (este plural não é neutro, é só mesmo para leitores no masculino).

Imagine o leitor que está incluído num grupo de dez pessoas, por acaso, nove homens e uma mulher. E imagine que ninguém é casado. Eu estou perante o grupo e convido-vos para uma festa. Depois de aceitarem o convite, eu pergunto: «os vossos namorados também vêm?»

Gostaria agora que os leitores declarassem se se sentem confortáveis com a minha pergunta, ou preferiam que eu referisse igualmente as namoradas.

Teu irmão, teu rival

Cristina Torrão, 28.01.24

Outro dia, li uma publicação no Facebook sobre um tema que me é caro: a rivalidade entre irmãos. O foco eram os irmãos alemães Rudolf Dassler (1896 – 1974) e Adolf Dassler (1900 – 1978), fundadores da Adidas e da Puma (Adidas vem do nome pelo qual o irmão mais novo era conhecido na família: “Adi”, de Adolf, a que se juntaram as três primeiras letras do apelido: “das” de Dassler). Apesar de não ter havido nenhum crime, eles foram comparados a Caim e Abel, por causa da rivalidade que marcou a sua relação. Começaram aliás por fundar a Adidas juntos, mas haveriam de se separar, completamente incompatíveis (daí a fundação da Puma, por Rudolf Dassler).

Nessa menção a Caim e Abel, Paulo Marques, o autor do postal, dizia: “trágica e tristemente, foi entre dois irmãos que se deu o primeiro homicídio da história da humanidade”. Na minha opinião, porém, e num contexto criminal, o acontecimento não é, nem especialmente trágico, nem especialmente triste. Vejo-o como um símbolo muito forte, como o são praticamente todos os acontecimentos relatados na Bíblia. Sejamos crentes, ou não, a sua leitura despoleta (ou “espoleta”, para os mais puristas) reflexões sem fim. A Bíblia é a história da condição humana: conflitos, lutas, ciúmes, traições, tristezas, alegrias, desesperos, obediência cega, heroicidades e, last but not least, a nossa impotência perante as forças da Natureza, venham elas em forma de dilúvio, secas, pragas ou outras, independentemente de acreditarmos, ou não, serem baseadas em castigos divinos.

O crime de Caim sobre Abel é, por isso, um símbolo fortíssimo, ao lado de tantos outros. Irmãos eram, são e serão sempre rivais. Mesmo que se dêem bem, há sempre algo por resolver, algo de inquieto, desconfortável, na base do seu "amor". E os pais são os principais responsáveis por essa instabilidade latente. As comparações, as preferências, a vontade de irritar um deles e elogiar o outro (sempre os mesmos, nisso, os pais não alternam), tudo isso, levado ao extremo, pode desembocar numa grande tragédia. Tudo depende da intensidade que os pais põem nessas suas, digamos, inconstâncias. O carácter inato dos irmãos representa um papel bem mais pequeno, pois é, acima de tudo, manipulado pelos pais (mesmo que inconscientemente).

Acham que estou a exagerar? Vamos então à Bíblia! O que gerou tão grande ódio em Caim? A diferença com que Deus o tratou, em relação ao irmão. Sem ser explicada a razão, Deus preferiu as oferendas de Abel, desprezando as de Caim, apesar de este tentar, por todos os meios, agradar-Lhe. Sim, os pais biológicos eram Adão e Eva, mas, na Bíblia, Deus é definido, inclusive por Jesus Cristo, como o Pai por excelência, o Pai da Humanidade.

No seu romance Caim, Saramago mostra compaixão pelo assassino, levado a exercer um crime por Aquele que devia ser o símbolo máximo da Justiça. Porém, na Bíblia, assim como na vida real, ninguém quer saber das razões que levam um irmão a odiar outro. O insatisfeito, aquele que reclama, é sempre apelidado de ciumento, invejoso, violento e sabe-se mais lá o quê. Parece ser-nos mais confortável enchê-lo de epítetos negativos, vê-lo como uma figura fraca, reles, desprezível. Sim, é muito confortável. Dá-nos a ilusão de sermos superiores, justos, cândidos.

Podemos perguntarmo-nos qual a razão de Deus ser tão injusto, neste episódio. Como já o disse acima, temos motivos de sobra para reflectir. Mas é pena que, na maior parte das reflexões, a atitude de Deus não seja identificada com a de muitos pais. Podiam evitar-se infelicidades e até crimes. Seria para isso que o autor nos tentava chamar a atenção?

 

Nota: o título deste postal foi inspirado no título de um capítulo do meu romance Dom Dinis, a quem chamaram o Lavrador. Sim, também o nosso rei-poeta, um rei caracterizado como justo e culto, nunca conseguiu estabilizar a sua relação com o irmão mais novo. Chegaram mesmo a guerrear-se.

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Neve

Cristina Torrão, 10.01.24

Apesar de ser no Norte do país, a zona onde vivo não é a mais fria da Alemanha, pois beneficia da influência do Mar do Norte. Já se sabe que as chamadas zonas continentais são mais de extremos. É raro, por aqui, haver as grandes camadas de neve que se conhecem dos Alpes, ou de outras zonas montanhosas da Europa Central, por ironia, bastante a sul de Hamburgo. Vivo numa região plana, semelhante aos Países Baixos. Também no Norte da Alemanha se têm de construir diques, mas mais por causa do rio Elba. Sendo já muito largo, a partir de Hamburgo, ele estender-se-ia sem controlo pelas planuras do seu caminho até à foz, a cerca de 90 km desta cidade portuária.

Isto não quer dizer, claro, que não seja frio. As temperaturas negativas são normais, nesta altura do ano, mas raramente descem abaixo dos -5ºC, ao contrário do que acontece nas montanhas a sul. Costuma, porém, haver pouca neve. Muitas vezes, estamos abaixo de zero, sem neve, nem geada, uma situação interessante, em que o solo congela. Quem tem jardim, pode verificar isso perfeitamente.

Por acaso, neste Outono/Inverno, tem havido bastante neve. Sei que também está frio em Portugal, mas, como na maioria do nosso país não há neve, nem congelam os lagos dos parques, resolvi partilhar algumas imagens que tenho captado, em Stade, nos últimos tempos, e que reuni neste vídeo. Viel Spaß!

Blogue da semana

Cristina Torrão, 07.01.24

Já foi a minha escolha há cerca de quatro anos, mas torno a relembrar na bicicleta. Penso ser importante insistir em que há outros meios de locomoção, além do vulgar automóvel. Por um lado, as estradas estão cada vez mais cheias, por vezes, insuportáveis. Por outro, não esqueçamos a poluição. E a nossa saúde. Nós fomos criados para nos movermos. A imobilidade é que é contra-natura, não a actividade física.

Há quem negue a crise climática. E há quem exagere nos seus efeitos. A verdade estará no meio. Nós somos parte da Natureza e, não, da tecnologia. Os fantásticos progressos científicos são invenção nossa. A Natureza já existia muito antes de nós e continuará a existir, depois de desaparecermos. Mesmo que dêmos cabo dela, ela regenerar-se-á, depois da nossa auto-destruição. Se algo está em perigo, não é o planeta, somos nós. O planeta não precisa de nós para nada. Já o contrário não se verifica.

Devemos andar todos de bicicleta? Claro que não. Mas o mesmo se aplica ao automóvel. Não nego a sua necessidade, mas repudio o seu uso exagerado. Não precisamos de carro para ir tomar café à esquina, pelo menos, quando somos saudáveis.

Nem todos podem andar de bicicleta. Mas muitos podem! No nosso país, as condições até são mais favoráveis do que em países-exemplo, como a Dinamarca ou os Países Baixos. E, mesmo quando o tempo nos seja adverso, há quem não baixe os braços:

Chova ou faça sol, as pedaladas casa-trabalho vs. trabalho-casa diárias, o “#commutescount”, são para cumprir. São Pedro tem sempre uma palavra importante a dizer e eu sabia à partida que teria de lidar com o senhor Inverno. Se não é frio é chuva, se não é o vento é tudo misturado.

O começo de um novo ano é sempre uma boa ocasião para questionarmos a nossa vida, para tentarmos evitar aquilo que sabemos ser supérfluo, ou que nos faz mal. Precisamos apenas de coragem. Por isso, o meu blogue da semana é um blogue corajoso: na bicicleta.

Livros que mudam as nossas vidas

Cristina Torrão, 23.12.23

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Entre a primeira publicação deste romance histórico e a sua tradução em português contam-se vinte e nove anos. O da esquerda foi por mim comprado em Londres, em 1996. A edição portuguesa é recente, de Outubro passado.

Nos meus primeiros anos na Alemanha, a fim de continuar a praticar o inglês, o meu marido costumava oferecer-me livros neste idioma. Um dia, chegou a casa com o romance histórico The Reckoning. Eu nunca tinha ouvido falar da autora. E, depois deste livro, decidi ler tudo quanto ela tivesse escrito.

No dito ano de 1996, aproveitei uma breve estadia em Londres para entrar numa enorme livraria e comprar todos os seis romances (em edições de bolso da Penguin) de Sharon Kay Penman que lá encontrei (na altura, a autora publicava como Sharon Penman). Escolhi uma grande filial de uma conhecida rede inglesa de livrarias para precisamente aumentar a possibilidade de encontrar diferentes livros da autora.

Os romances de Sharon Kay Penman influenciaram grandemente a minha vida. Em primeiro lugar, convenci o meu marido a passar uma semana de férias no País de Gales, depois de ler a sua trilogia sobre os últimos tempos dessa nação como Principado independente e a sua conquista pelo rei inglês (séculos XIII, XIV). A autora escreve de maneira tão fascinante sobre todo o processo, que me pôs com uma vontade irresistível de ir conhecer essas paragens.

A maior influência exercida por Sharon Kay Penman em mim foi, porém, a minha resolução em escrever romances históricos. Ela provocou uma verdadeira odisseia na minha vida, na procura pormenorizada de factos históricos, durante anos e sem grandes meios, a fim de escrever romances sobre os dois mais importantes reis da nossa época medieval: D. Afonso Henriques e D. Dinis. E acabei igualmente por escrever, já em 2018, sobre D. Teresa.

Sharon Kay Penman, falecida em 2021, não estava ao nível de um Nobel, mas possuía grande sensibilidade, levando-nos a apaixonar-nos pelas suas personagens, fazendo das suas lutas as nossas lutas, alegrando-nos, sofrendo e mesmo chorando junto com elas. Pouco mais se pode exigir de uma escritora, ou escritor.

Sempre me entristeceu o facto de os seus livros não estarem traduzidos em português. Foi, por isso, uma agradável surpresa tomar conhecimento deste. O título Quando Cristo e os seus Santos Adormeceram é uma frase tirada de uma crónica medieval, sobre o período em questão: Never before had there been greater wretchedness in the country…And they said openly that Christ and His saints slept (The Peterborough Chronicle).

Os acontecimentos relatados nestas mais de 700 páginas são contemporâneos do nosso Afonso Henriques. No século XII, a Inglaterra foi devastada por uma guerra civil durante dezanove anos. O único filho varão de Henrique I morreu jovem, ao afundar-se a sua embarcação na travessia do Canal da Mancha. Henrique I nomeou sucessora a filha Matilda, conhecida como imperatriz Maude por ter sido casada com o imperador germânico Henrique V. Matilda enviuvou muito cedo e regressou a Inglaterra. Mas, por ser mulher, foi o seu primo Stephen quem acabou por ser coroado, depois do falecimento do rei.

A imperatriz Maude nunca se conformou. Ela e o rei Stephen digladiaram-se numa sangrenta e longa guerra civil (que decorria ainda por alturas da Conquista de Lisboa, a razão por não terem saído de Inglaterra tantos cruzados como seria de esperar). Matilda nunca conseguiu alcançar o trono, mas foi o filho do seu segundo casamento quem o herdou, dando início a uma das mais conhecidas dinastias da História. Henrique II, marido de Leonor da Aquitânia e pai dos famosos Ricardo Coração de Leão e João Sem-Terra, foi o primeiro rei Plantageneta. O seu pai francês era conhecido por esse título, aliás, uma alcunha, pois, verdadeiramente, ele era conde de Anjou.

A edição portuguesa foi traduzida por Elsa T. S. Vieira e publicada pela Kathartika.

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Feliz Natal

Uma questão de saúde

Cristina Torrão, 09.12.23

A partir de um link da página SAPO, fui direccionada para um artigo de opinião de Carla Baltazar.  É apresentada como "gestora e mentora" e eu nunca tinha ouvido falar dela. Achei, porém, o artigo interessante, até porque vinha de encontro a algo que o meu marido ouviu num documentário televisivo.

A propósito do COP28, Carla Baltazar pergunta-se: podemos pensar na saúde do planeta como pensamos na nossa? O facto é que, se o fizermos, entendemos melhor porque nos custa tanto adoptar certas medidas e comportamentos, tendo em vista a preservação da Natureza.

Quando estamos doentes, ou a dar cabo do nosso organismo com maus hábitos, temos de prescindir de certos comportamentos, ou confortos, por vezes, temos mesmo de nos sujeitar a tratamentos dolorosos. Claro, trata-se sempre de uma opção pessoal. A maior parte de nós sujeita-se ao que os médicos prescrevem, ou aconselham. Para os que não o fazem, as consequências podem ser catastróficas. E há quem só se deixe tratar, quando é tarde demais.

Sei que é difícil para muitas pessoas resistir aos prazeres do dia a dia porque é difícil imaginar o que será esse futuro distante. E é isto que vem de encontro ao que o meu marido me contou. O tal documentário ocupava-se da pergunta: porque é tão difícil a muitas pessoas adoptarem comportamentos benéficos para o planeta? Resposta: porque os resultados não são imediatos.

Assim como não adianta dizer a certos jovens que olhem pela sua saúde, caso contrário, sentirão as consequências, quando forem mais velhos, também muitas pessoas não vêem razão para mudar certos hábitos, tendo, como meta, benefícios a longo prazo.

Um dia será tarde demais. Nessa altura, porém, já não somos nós a sofrer. Apenas os nossos filhos, netos e bisnetos. Há quem se preocupe com isso. E há quem encolha os ombros e diga: "que se aviem!"

O valor dos livros

Cristina Torrão, 04.12.23

Existem maneiras diferentes de avaliar livros. Algumas pessoas apreciam sobretudo o valor do objecto (capa dura, papel de qualidade, tipo de letra, ilustrações, etc.), outras interessam-se apenas pelo texto. Há edições especiais que são autênticas obras de arte, mas, a mim, bastam-me as palavras. Um livro de Eça de Queirós, Jane Austen ou Thomas Mann será sempre uma obra de arte, mesmo tratando-se de uma edição barata, impressa em papel pardo. Claro que aprecio edições especiais, principalmente, tratando-se de colectâneas fotográficas, ou fac-similes de códices medievais. Mas raramente gasto dinheiro num livro desses, costumo apreciá-los em exposições ou bibliotecas.

Os livros podem tornar-se, aliás, peças de colecção, à semelhança de selos e moedas, atingindo valores astronómicos, em caso de edições raras, independentemente da qualidade da sua edição. Um livro antigo e publicado sem grandes cuidados pode possuir um valor incalculável. Por exemplo? O primeiro livro de Franz Kafka, de 1912, com o título Betrachtung (desconheço a tradução portuguesa). A tiragem ficou-se pelos trezentos exemplares.

Dessa primeira edição, apenas se sabe da existência do exemplar guardado na sua editora, a Rowohlt, uma das mais conhecidas na Alemanha. Na altura, a Rowohlt não fazia ainda ideia que aquele jovem e desconhecido autor se tornaria num ícone da literatura mundial. Porque guardou então um exemplar do livro? Porque o fazia com todos os livros por si publicados. E chego assim ao verdadeiro tema deste meu postal: 35.000 exemplares, tudo primeiras edições, guardados nos arquivos da Rowohlt, desde o seu início, em 1908, incluindo nomes como Jean-Paul Sartre, Max Frisch e Jonathan Franzen. Um verdadeiro tesouro.

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Biberhaus, Hamburgo

Este tesouro vai passar agora para a Biblioteca Municipal/Universitária de Hamburgo. A Rowohlt mudou-se para a Biberhaus, perto da estação principal, e verificou-se que o edifício, apesar de enorme, não suportaria o peso de todos os livros constantes do seu arquivo. A editora propôs, então, à Biblioteca de Hamburgo, a transferência dessas 35.000 primeiras edições para um seu armazém muito especial. Trata-se de uma antiga e enorme garagem subterrânea, mantida a uma temperatura de 18ºC e 50% de humidade.

Desses 35.000 volumes, as joias da coroa são a primeira edição de Kafka e outra de Hans Fallada, intitulada Kleiner Mann, was nun?, em português, E Agora, Zé Ninguém? (Dom Quixote 2011). Na Alemanha, há vários filmes baseados nos romances de Hans Fallada. A nível internacional, verifica-se um redescobrir deste autor, falecido em 1947, principalmente, no mercado anglo-americano, onde se têm vendido centenas de milhar de exemplares do seu livro Jeder stirbt für sich allein (em português, Morrer Sozinho em Berlim, Relógio d’Água 2016).

Apesar do entusiasmo que reina na Biblioteca de Hamburgo, vai ser demorada a inventariação dos 35.000 livros. Só depois eles ficarão disponíveis. E talvez só para estudantes, mas ainda não há certezas. Um outro projecto plausível será a de uma exposição a efectuar, pelo menos, com os exemplares mais valiosos. A concretizar-se, não a perderei.

 

Nota: baseado num artigo online da NDR/Kultur (NDR é a delegação do Norte da ARD).

Blogue da semana

Cristina Torrão, 15.10.23

À medida que envelhecemos, modificam-se os nossos interesses, as nossas preferências, as nossas conversas, etc. Não é novidade para ninguém. E o mundo dos jovens torna-se-nos cada vez mais estranho. Também não é novidade. Mas incomoda-me.

Não digo que temos de ser todos "velhos e velhas gaiteiros". Por outro lado, aflige-me um pouco a perda do contacto com o mundo actual (do momento) e o começar a viver numa bolha, mergulhada na mentalidade do "meu tempo", na música, nos filmes, nas opiniões, etc. Por isso, e apesar de muita coisa me causar uma certa aflição, faço algum esforço para me manter a par. Saiba-se lá porquê, não quero cair naquele modo, já verificado em muitas pessoas da minha idade, de, por exemplo, só ouvir música dos anos 80, ou criticar tudo, mas mesmo tudo, o que observam nos jovens, como já a minha avó fazia.

Há coisa de uma semana, tropecei num blogue incluído nos destaques do SAPO. Cliquei e estive quase para desistir às primeiras linhas de um postal que falava em Tinder e numa maneira diferente de namorar. Porém, algo na escrita da autora me prendeu. E acabei por gostar. Sim, causa-me alguma estranheza. Por outro lado, leituras destas abrem-nos a mente, esticam-nos o cérebro, tornam-nos mais permeáveis à novidade. Gosto dessa sensação: de me deixar embrenhar numa nova mentalidade, que me evidencia o facto de ser natural o choque das gerações, não significando (porque nunca significou) o fim do mundo, preconizado pelos mais velhos.

A autora é a Ana Catarina Correia, o blogue intitula-se Sou Aurora e é o meu blogue da semana.

 

P.S. Sou Aurora representa a perspectiva feminina. Vou procurar um que me dê a perspectiva masculina para a próxima escolha.

O país dos mamarrachos

Cristina Torrão, 06.10.23

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Imagem: Nelson Garrido

 

A polémica, felizmente, não durou muito. O povo decidiu, os ânimos serenaram. E ainda bem. Salvo raras excepções (como quando glorificam ditadores) as estátuas não devem ser removidas de ânimo leve.

Dito isto, e porque tenho uma ligação afectiva com a cidade do Porto, a minha opinião sobre o objecto da discórdia é: feia! Mas não é por causa do nu, ou de incitar ao assédio (não adianta vir com esses argumentos nos comentários). É simplesmente grosseira. O Camilo está péssimo, destituído de dignidade. Parece um avozinho caquético, deslumbrado por uma menina nua, aproximando-se dela, com o pretexto de a proteger do frio. É isso que me vem à cabeça, quando olho para a estátua.

Além disso, não tem nada a ver, mesmo nada, com o romance Amor de Perdição. Nem sequer com o conjunto da obra de Camilo, ou com a sua vida. Camilo não era nenhum D. Juan, ou Casanova. A sua relação com Ana Plácido causou polémica por se tratar de adultério e os dois terem ido parar ao calabouço. Superado esse período negro, porém, eles levaram uma vida normalíssima.

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Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, com um dos filhos – Imagem Rádio Portuense

 

E, se Camilo não era nenhum Casanova, Ana Plácido estava longe de ser uma Vénus. A que se acrescenta o facto de não ter sido muito mais nova do que ele, como sugere a estátua (para quem a identifica com a figura feminina). Cerca de seis anos separavam os seus nascimentos. E envelheceram juntos, como a maior parte dos casais.

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Camilo e Ana Plácido já "entradotes" – Imagem Museu Virtual do Tribunal da Relação do Porto

 

Diz o autor da estátua que a menina representa as musas de Camilo. Todos os artistas têm as suas inspirações. Mas o nosso escritor das musas é o Luís Vaz (e fico-me por aqui, para não rimar), que, tendo vivido numa época mais recuada, sobre a qual as informações são escassas, convida mais à criação de lendas e mitos.

No fundo, esta estátua não passa de um mamarracho. O povo decidiu bem? Decidiu. Há tantos mamarrachos espalhados pelo nosso país, que não se justifica o trabalho de remoção de um deles.

Camilo merecia melhor? Oh sim, merecia! Mas já Cristo nos disse: «Um profeta é respeitado em qualquer lugar, menos na sua terra, entre os seus parentes e pela sua própria família» (Marcos 6:4).

"Foi com ela que tudo começou"

Cristina Torrão, 22.09.23

Permitam-me a divulgação:

Em Setembro e Outubro, há ciclos de Conferências e Conversas para celebrar os 900 anos da Carta de Foral de Viseu.

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No ano em que Viseu assinala os 900 anos da outorga da sua Carta de Foral, por Dona Teresa, o Município de Viseu promove o Ciclo de Conferências "V900” e o Ciclo de Conversas "Foi com ela que tudo começou”, ao longo dos meses de Setembro e Outubro. Os encontros são de entrada gratuita, tendo como palco principal a Casa do Miradouro/Polo Arqueológico de Viseu António Almeida Henriques, em pleno Centro Histórico, estando a participação sujeita a reserva prévia para o email cultura@cmviseu.pt.

Sempre ao final da tarde, com início pelas 16 horas, as conferências e conversas contam com personalidades das mais diversas áreas, unidas pela escrita e investigação sobre "Teresa de Leão”, o seu tempo e o seu contexto político, militar e religioso. Em suma, sobre Regina Tarasia, o rosto de uma governação de indiscutível importância para a independência e soberania do Condado Portucalense.

O Ciclo de Conversas "Foi com ela que tudo começou”, convida o público a conhecer Dona Teresa através da literatura, apresentando quatro importantes personalidades e as suas obras em torno da Condessa-Rainha.

A 23 de Setembro, Cristina Torrão apresentará "Memórias de Dona Teresa”, editado em 2018. Um romance que procura analisar a questão "Terá sido Portugal fundado por uma Mulher?” e no qual Dona Teresa "moribunda agonizante, recorda toda a sua vida, na urgência e na clareza de quem nada tem a perder”.

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Os meus agradecimentos e parabéns à Câmara Municipal de Viseu.

A gota de água

Cristina Torrão, 15.09.23

Algo está podre. Desta vez, não no reino da Dinamarca.

As futebolistas espanholas campeãs do mundo e outras jogadoras decidiram não responder à próxima convocatória da selecção, considerando insuficientes as mudanças na Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) após o designado "caso Rubiales".

Logo nos dias posteriores à final do mundial, mais de 80 futebolistas espanholas divulgaram um comunicado de solidariedade com Jenni Hermoso e anunciaram que recusavam jogar na selecção nacional de Espanha se não houvesse mudanças na federação.

Mais deste assunto?

A procissão parece ir apenas no adro. O episódio do beijo mais não foi do que a gota de água.

E não subestimemos a "nossa" Mariana Cabral.

O futebol foi exclusivamente masculino durante quase um século. É natural que, atingindo o futebol feminino grande notoriedade, as estruturas entrem em convulsão. Natural e necessário.

Espero que as jogadoras espanholas sirvam de exemplo nos quatro cantos do mundo.