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Danos colaterais

por Cristina Torrão, em 02.04.20

Todos sabemos que esta pandemia, como todas as catástrofes, é pródiga em danos colaterais. Não os causa só na economia, como na psique de cada um, separando famílias, proibindo os contactos sociais e constituindo um verdadeiro desafio à paciência dos agregados familiares que se vêem confinados às suas quatro paredes (os efeitos nas crianças e nos jovens podem ser ainda mais marcantes do que nos adultos).

Zangas e discussões estão programadas, mesmo em famílias que se dão bem. Infelizmente, sabemos que a vida familiar está longe de ser agradável para todos, mesmo em tempos de normalidade. Não faltam casos de violência, cuja esmagadora maioria das vítimas são mulheres e crianças. Se a vida destas costuma já ser um inferno, piora, nestes tempos, não só por uma existência mais escondida, como também pela falta de momentos em que podem espairecer: na escola, no trabalho, ou mesmo em casa, enquanto o/a agressor/a está ausente. É difícil de calcular o martírio por que estão a passar muitas destas vítimas, pedofilia incluída (a maior parte dos abusos sexuais a crianças ocorre na família). E não esqueçamos a negligência sofrida por muitas crianças, também uma forma de violência. Quando os pais não encontram paciência para, ou se acham incapazes de, cuidar dos filhos (e não estou a falar apenas de lhes dar atenção, mas de cumprir as regras básicas de higiene, ou de alimentação, por exemplo), a mensagem (implícita) que lhes dão é: “tu não mereces que se trate de ti”, ou “tu não vales o suficiente para que alguém se preocupe contigo”. É isto que a criança interioriza e não é preciso ser psicólogo para se calcular que deixa mazelas para toda a vida.

Como se tudo isto não bastasse, também os serviços sociais se vêem obrigados a cancelar muito dos seus procedimentos, ou seja, a ajuda, quando existe, diminui, ou desaparece mesmo. Foi isso que constatei numa entrevista ao Director da CARITAS no bispado alemão de Hildesheim, o psicólogo John Coughlan, que pode bem servir de referência, já que calculo que a situação seja semelhante em todo o mundo.

De facto, a ajuda e o apoio psicológico, que a CARITAS presta a crianças, jovens e famílias, estão muito limitados. Se há casos em que contactos telefónicos, ou por email, ou por um determinado serviço de Messenger podem remediar, noutros, a situação é mais complicada. Havendo crianças em perigo, por exemplo, seja por violência, seja por negligência, as visitas ao domicílio são essenciais para que os assistentes sociais e psicólogos se inteirem da situação e possam actuar. Também o contacto telefónico pode impedir que a pessoa que pede ajuda se exprima à vontade, seja por medo de ser escutada por alguém que esteja em casa, seja por ter dificuldade em falar dos seus problemas. Num contacto pessoal, os profissionais estão mais em condições de decifrar sentimentos silenciados e de interpretar gestos e expressão corporal que possam revelar algo que a vítima esteja a esconder.

Não só a mortandade causada pelo vírus é assustadora. Todos nós tememos as consequências destes tempos estranhos. A bem da nossa saúde mental, é imprescindível manter a esperança e viver o mais normal possível.

John Coughlan deixa sugestões. O mais importante é criar uma estrutura no dia-a-dia, principalmente, com crianças, pois a disciplina ajuda a dar sentido à vida. Os pais não devem descurar as horas certas de se levantarem ou de irem para a cama. Devem também ser estabelecidas horas, ou alturas do dia, para tarefas como trabalhos escolares. As horas das refeições devem igualmente ser cumpridas e, melhor ainda, introduzir as crianças na sua preparação (sem grande severidade e com paciência para erros e desatenções). Tudo o que se faz em conjunto reforça os laços e ajuda a superar crises. Deve, no entanto, haver igualmente uma altura do dia que possibilite a cada um, se o desejar, recolher-se e ocupar-se unicamente dos seus próprios interesses.

Crise Corona.jpeg

Espero que o Pedro Correia me perdoe por lhe ter "roubado" esta fotografia. É que ainda não vi mais nenhuma que simbolize melhor a esperança num mundo agradável pós-Covid19.

Always handsome

por Cristina Torrão, em 01.04.20

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Jerôme Boateng

 

Foto: Felix Hörhager/dpa

Saudades

por Cristina Torrão, em 26.03.20

Grande parte dos estudantes, na Alemanha, vai para a escola a pé, ou de bicicleta. O ensino privado não está tão disseminado como em Portugal, a esmagadora maioria dos alunos frequenta o ensino público, o que quer dizer que as escolas ficam relativamente perto de casa. Mesmo grande parte dos alunos da 1ª classe vão a pé, normalmente, em grupos, depois de, no início do ano lectivo, terem sido acompanhados, alguns dias, ou algumas semanas, pelos pais, ou adultos da sua confiança. Ao concluírem a primária (que, aqui, ainda se mantém nos quatro anos de escolaridade), começam a ir de bicicleta.

De manhã, quando saem todos de casa praticamente ao mesmo tempo, os passeios e as ciclovias pertencem-lhes. Não é novidade que a infância e a juventude se caracterizam por enormes cargas de energia por gastar, desejo de experimentar e pouca vontade de cumprir regras. Quando eu passeava a minha cadela Lucy, uma Jack Russell Terrier, ou seja, de porte pequeno, via-me aflita para a proteger dos magotes de adolescentes ciclistas em gincana, ou grupos de alunos da primária aos gritos e empurrões uns aos outros. Adorava, assim, as férias escolares. Respirava fundo e gozava o sossego, principalmente, na Primavera, com os arbustos e as árvores em flor e o chilreio dos pássaros. Só tinha de segurar a Lucy se algum esquilo atravessasse o passeio à nossa frente, em busca da próxima árvore.

Sim, o rebuliço irritava-me. Hoje de tarde, senti falta dele. Esteve um dia fantástico, cheio de sol, embora a temperatura não passasse dos doze graus. Para dar passeios, até é melhor assim, não se corre o risco de começar a suar, ao fim dos primeiros vinte minutos de caminhada. Na zona onde vivo, felizmente, ainda se pode sair de casa, caso se respeite a distância de, pelo menos, dois metros das outras pessoas e não se formem grupos maiores de duas, exceptuando agregados familiares, ou pessoas que vivem na mesma casa. No concelho de Stade, a situação mantém-se controlada. Há cerca de 80 infectados, num universo de 200.000 habitantes, e ainda não morreu ninguém. A população, em geral, acata as regras impostas. Ontem, no supermercado, também toda a gente respeitou as distâncias, mesmo na fila da caixa.

Saí sozinha. O meu marido estava ainda no seu teletrabalho e a nossa Lucy morreu, em Outubro passado, a duas semanas de completar o 16º aniversário. Não tive dificuldade em manter a distância de segurança, pois quase não vi ninguém. E atingiu-me uma sensação estranha. Como se sabe, os Invernos são muito rigorosos, por estas paragens. Vindo um dia bonito de Primavera, o normal é os alemães andarem nas ruas, muito satisfeitos, alguns já de t-shirt, como se estivessem, pelo menos, vinte graus, e os parques infantis estarem repletos de crianças nas suas brincadeiras (poucos alunos têm aulas de tarde).

Senti uma saudade imensa do rebuliço e das tangentes que os adolescentes me faziam com as suas bicicletas, a grande velocidade. E senti falta da Lucy, que adorava dias destes. Roçava as costas na relva e deixava-se afagar pelas crianças que se encantavam com a sua presença. A Lucy era uma doçura, gostava mais de humanos do que de outros cães. Nunca me lembro de ela ter ladrado a alguém (já nem falo em morder), adorava toda a gente. Uma vez, um miúdo até me perguntou se eu lha vendia…

Não foi fácil lidar com a tristeza, estava mesmo a ver que desatava a chorar. Mas depois lembrei-me de como somos ainda uns privilegiados, enquanto nos mantivermos saudáveis, bem alimentados e possuirmos uma casa confortável. O vírus deixou-nos sem tempo para pensar nos refugiados, nas guerras, nas crianças que morrem de fome...

Nunca venceremos a doença, nem as catástrofes naturais. Mas não poderíamos vencer os ódios, as injustiças, o abuso de poder, as desigualdades sociais? Não estaríamos assim mais fortes para lidarmos com situações destas? Sim, eu sei, é utópico. Não há um Planeta B e ninguém parece importar-se com isso.

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Always handsome

por Cristina Torrão, em 25.03.20

Rui Patrício (2).jpg

Rui Patrício

 

Foto daqui

Quanto vale o Cristiano Ronaldo?

por Cristina Torrão, em 18.03.20

Para um jovem alemão de vinte e poucos anos, estudante de Jornalismo, ele valeu 64.000 euros!

Foi na versão alemã do concurso "Quem Quer Ser Milionário" (Wer Wird Millionär), transmitido pela RTL. O rapaz começou cambaleante. Porém, à medida que as perguntas aumentavam de valor, ele ia ficando cada vez mais seguro e atingiu o patamar dos 64.000 euros. Aliás, sem jokers. A pergunta era:

"Qual foi a primeira pessoa, no fim de Janeiro, a quebrar a barreira dos 200 milhões de seguidores no Instagram?"

Hipóteses de resposta:

A - Cristiano Ronaldo

B - Kim Kardashian

C - Papa Francisco

D - Ed Sheeran

Como referi, o jovem já não tinha jokers. Se optasse por não responder, levava para casa 32.000 euros. Respondendo errado, caía para os 500 euros. E ele arriscou a resposta, escolhendo Cristiano Ronaldo.

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Claro que o apresentador fez suspense, depois de a resposta estar bloqueada. Começou com o que tinha menos seguidores: o Papa Francisco. A seguir, Ed Sheeran. E depois: Kim Kardashian ou Cristiano Ronaldo? A resposta certa é...................... CRISTIANO RONALDO!

O nome luso assim gritado, o público a aplaudir entusiasticamente... e uma portuguesa, do outro lado do ecrã, a sentir-se muito orgulhosa.

Pequenas alegrias, em tempos difíceis.

 

Nota: o programa foi apresentado ontem, mas a gravação tinha já vários dias, do tempo em que ainda não se tinham decretado medidas drásticas por causa do Covid-19. Desde o fim-de-semana que não há programas televisivos alemães com público no estúdio.

Imagem: captação de ecrã do vídeo do programa, aqui disponível.

Always handsome

por Cristina Torrão, em 18.03.20

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Joaquin Phoenix

 

Foto FayesVision/WENN.com

Blogue da semana

por Cristina Torrão, em 15.03.20

Sendo eu uma apaixonada por História, já era tempo de recomendar um blogue que trate do assunto, além do nos dar a conhecer o rico património que possuímos. Por isso, o meu blogue desta semana é A Porta Nobre, de Nuno Cruz. O subtítulo reza "Contributos para a História do Porto". E está tudo dito.

Quarentena na Quaresma

por Cristina Torrão, em 14.03.20

Muitas pessoas aproveitam a época da Quaresma para reflectir sobre a vida, ou fazer algum tipo de jejum, seja em relação ao álcool, a doces, a carne, ou até a andar de carro (pelo menos, na Alemanha). E eu acho curioso que tanta gente tenha de fazer quarentena, ou de prescindir de tanta coisa, precisamente durante a Quaresma.

 

Nunca soube bem se acredito em Deus. Mas, à medida que os anos passam, sinto cada vez mais necessidade de acreditar em alguma coisa que nos transcenda. E, em vez de ir procurar algo longe, porque não acreditar no Deus da minha tradição cristã? Porque uma coisa é certa: exista Deus, ou não, possuo uma admiração sem limites por Jesus Cristo, que acreditou poder-se melhorar a sociedade amando e praticando o bem. Pode ser utópico, mas eu, tal como Ele, gosto de acreditar que sim, que é possível.

Por isso, me pergunto se, com esta coisa do COVID-19 e das quarentenas em tempo de Quaresma, Deus nos quer mostrar alguma coisa. Por exemplo: como é difícil ter de prescindir da nossa vida quotidiana. Como é difícil prescindir dos nossos habituais contactos sociais, dos nossos encontros de família, das nossas idas ao restaurante, ou à discoteca, ou ao ginásio, ou a eventos, sejam musicais, sejam jogos de futebol; e, sim, até nos custa prescindir das nossas idas ao trabalho, que tantas vezes amaldiçoamos.

 

Muitas vezes nos perguntamos o que é a felicidade, o que significa ser feliz. Talvez procuremos e exijamos demais; talvez ser feliz signifique apenas ter saúde suficiente para podermos fazer a nossa vida normal.

 

Quando o meu avô materno morreu, a minha avó sentiu-se perdida, sem motivação para continuar a viver. Algo passageiro, pensámos nós. Mas uma doença de Parkinson acelerou a degradação psicológica e física. A minha avó nunca mais foi feliz, até à sua morte, quatro anos mais tarde.

É bem possível que, nos seus últimos dias, ela tenha pensado em tudo aquilo que lhe fugira e não mais voltaria a ter: recordações com o marido, os filhos, os netos… O certo é que, precisamente nessa altura, estando a minha mãe com ela, a minha avó se virou para a filha e expressou as seguintes palavras: «eu era tão feliz… e não sabia». A minha avó era analfabeta (aprendeu a ler e a escrever alguma coisa com o meu avô), mas disse uma das frases mais bonitas e profundas que jamais ouvi.

 

Talvez Deus nos queira pôr um travão, nesta nossa vida consumista e desenfreada, em que não pensamos no que fazemos a nós próprios, nem aos outros seres vivos, nem a este planeta que Ele nos deu de presente e que não hesitamos em maltratar. Talvez Deus nos queira pôr a reflectir, nos queira fazer ver que deixamos fugir a felicidade que possuímos como areia por entre os dedos. Talvez Ele nos queira mostrar que não há dinheiro que pague o contacto humano e a empatia. Talvez nos queira mostrar que somos mais felizes, quando damos um passeio a pé, sem pressas, observando o que existe à nossa volta, seja na natureza, seja na cidade, do que metermo-nos no carro a acelerar e a amaldiçoar tudo aquilo e todos aqueles que se nos metem à frente, mantendo a tensão arterial em valores perigosos. Talvez nos queira mostrar que, para comer uma simples bifana, ou uma salsicha, animais tiveram de morrer, depois de uma vida em sofrimento, e que devemos dar mais valor àquilo que temos no prato, não deitando nada para o lixo de ânimo leve.

 

Podem perguntar-me se, para nos pôr a reflectir sobre tudo isso, é necessário que morra gente infectada com o COVID-19. Não vos sei responder. Só me ocorre desejar que Deus vos mantenha saudáveis.

The Great Stink

por Cristina Torrão, em 13.03.20

Muitos de nós pensavam (e falo por mim) que pandemias deste tipo como a que estamos a viver já não seriam possíveis. Mas, em pleno século XXI, e apesar de tantos avanços na Medicina, cá estamos nós a tremer perante um ser microscópico. Li, algures, que, ao contrário do que pensamos, o planeta Terra não pertence ao ser humano, mas, sim, a esses seres minúsculos que apelidamos de vírus e bactérias. Dá que pensar…

Enfim, para desviarmos um pouco o pensamento da situação actual, mas aproveitando o tema, resolvi falar-vos hoje sobre um documentário que vi há dias e que foi igualmente elucidativo sobre a maneira de pensar e agir dos políticos. O programa, no canal ZDFinfo, mostrava as entranhas de Londres, nomeadamente, a rede metropolitana mais antiga do mundo e o sistema de canalização. É sobre este último que vou falar.

Em meados do século XIX, Londres era a cidade mais populosa do mundo. Mas era também a mais mal-cheirosa. Na sequência da Revolução Industrial, cresceu sem as infra-estruturas adequadas (como tantas vezes acontece) e sucediam-se as epidemias de cólera. Não havia sistema de escoamento de águas inquinadas e, além da porcaria que se amontoava pelas ruas, o rio Tamisa era uma fossa a céu aberto. Tudo o fosse dejectos lá ia parar, não havia peixe que resistisse.

A situação tornava-se insustentável e o engenheiro Joseph Bazalgette desenvolveu um projecto de uma rede de 135 km de túneis, com uma inclinação especial, que permitia controlar as águas inquinadas, guiando-as igualmente para o Tamisa, mas para fora da cidade, perto da foz. Quando o apresentou ao Parlamento, porém, os políticos mostraram-se chocados com a obra gigantesca, que custaria rios de dinheiro. E, de repente, já não tinham pressa nenhuma em resolver o assunto. Afinal, quem morria às resmas era o povoléu, amontoado nos seus bairros insalubres.

A pretexto de modificações nos planos, iam adiando a questão sine die, Joseph Bazalgette chegou a apresentar cinco versões do seu projecto. Até que chegou o Verão de 1858, conhecido na História como The Great Stink. Verificaram-se calores inabituais na capital britânica e o Tamisa exalava mais fedor do que nunca. Ora, acontece que o Parlamento inglês se encontra precisamente nas margens do rio, chegando o cheirete às narinas sensíveis dos políticos numa intensidade nunca experimentada. Foi remédio santo: finalmente se aprovou o projecto, orçamentado em três milhões de libras.

A obra demorou cerca de quinze anos a ser concluída, mas a rede de túneis de Joseph Bazalgette é, ainda hoje, a base do sistema de canalização londrino.

Always handsome

por Cristina Torrão, em 11.03.20

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Hinnerk Schönemann

 

Foto © Marius Engels

8 de Março (4)

por Cristina Torrão, em 08.03.20

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8 de Março (3)

por Cristina Torrão, em 08.03.20

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8 de Março (2)

por Cristina Torrão, em 08.03.20

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Urraca I de Leão e Castela - Pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada na Prefeitura de Leão

 

A 8 de Março de 1126, morreu D. Urraca, rainha de Leão e Castela, com apenas quarenta e seis anos. Sobre as causas da morte, nada se sabe, mas não constitui novidade que, naquele tempo, se morria de doenças hoje curáveis e/ou evitáveis. Como já aqui escrevi em vários “postais”, nomeadamente neste e neste, as rivalidades entre D. Urraca e a sua meia-irmã D. Teresa foram fundamentais para a formação do reino de Portugal.

Urraca foi a única descendente legítima do imperador hispânico Afonso VI. A sua mãe era a rainha Constança, filha do duque Roberto da Borgonha, bisneta do rei francês Hugo Capeto e sobrinha do abade Hugo de Cluny. Segundo Marsilio Cassotti (2008), D. Urraca era prima em primeiro grau do conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques. A tradição diz-nos que Henrique e Raimundo, o marido de Urraca, eram primos, mas, segundo esta versão, eram-no apenas por afinidade.

A região da Borgonha estava dividida entre um ducado e um condado. Henrique descendia da Casa Ducal, o que, na verdade, o punha numa condição superior à de Raimundo, que descendia da Casa Condal. D. Henrique era o irmão mais novo do duque Eudes I Borrell, o que fazia do conde portucalense sobrinho da rainha Constança, primo de Urraca e sobrinho-neto do abade Hugo de Cluny.

Com a morte da rainha D. Urraca, o seu filho Afonso Raimundes, que já era rei da Galiza desde os cinco anos de idade (coroado a 17 de setembro de 1111), sobe ao trono de Leão e Castela como Afonso VII, tornando-se no legal soberano do condado Portucalense. O primo Afonso Henriques adoptou em relação a ele um comportamento idêntico ao de sua mãe em relação à meia-irmã Urraca: nunca lhe prestou formalmente vassalagem, mantendo-se ambígua a relação de poder entre eles, até que Roma aceitou a vassalagem do rei português, tornando-o independente do poder central hispânico.

8 de Março (1)

por Cristina Torrão, em 08.03.20

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"Os Crimes de Hamburgo"

por Cristina Torrão, em 29.02.20

Os Crimes de Hamburgo.jpg

posts que trazem consequências e contactos inesperados. Primeiro, falei nos “Portugal-Krimis”, ou seja, policiais escritos por alemães, mas situados em Portugal. Depois, fui contactada por um dos autores, o que me despertou a curiosidade. Acabei por ler um livro dele, do qual falei aqui. Mas a história continuou: fui, por sua vez, contactada por um jovem autor português que escreveu um policial passado na Alemanha. Os Crimes de Hamburgo é o primeiro romance de Francisco Carvalho, editado em Outubro passado pela Coolbooks, inspirado nos dois anos que o autor viveu na cidade alemã.

É um policial muito bem engendrado, cheio de personagens interessantes, com suspense e bem resolvido. Tem outra mais-valia: o tema é actual. Em Hamburgo, começam a ser assassinados refugiados oriundos de países muçulmanos. Francisco Carvalho revela sensibilidade no tratamento do assunto. Dá-nos a conhecer os centros onde os refugiados são aquartelados, enquanto esperam que a sua situação se regularize, e as dificuldades com que são confrontados. De assinalar também a maneira como consegue transmitir a atmosfera da cidade do Norte da Alemanha, já com ares de Escandinávia.

Trata-se de um bom primeiro romance. E, como Francisco Carvalho, segundo nos informa a editora, «tem mais histórias para contar», penso que compensará ficarmos atentos a este nome.

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Os criadores da mulata

por Cristina Torrão, em 02.02.20

Costuma dizer-se que o dinheiro, ou o poder, estragam o carácter. Na verdade, acontece o contrário: o dinheiro, ou o poder, mostram o verdadeiro carácter, aquele que foi recalcado. O adquirir de poder, ou de riqueza, abre novas possibilidades, surge a oportunidade de dar livre curso a desejos e práticas que muitos mantinham secretos.

Penso que se passa algo parecido com a libertação da xenofobia que alguns portugueses têm manifestado. Durante muito tempo, houve a convicção de que não existia racismo em Portugal. E a prova era que, em muitos países europeus, havia partidos de extrema-direita, notoriamente xenófobos, com bons resultados eleitorais, enquanto que, em Portugal, tudo continuava pacato. Confirmava-se: o nosso jardinzinho à beira-mar era um oásis.

O surgimento do partido Chega parece ter soltado a rolha que se mantinha sob pressão. Agora, sim, muitos mostram, sem pruridos, aquilo que lhes ia no interior. A melhor prova de que há racismo é o facto de este novo partido ter passado de 1,29%, nas últimas eleições, para 6,2%, nas últimas sondagens, muito à custa de uma simples frase do seu líder: mandou uma deputada negra regressar à "sua" terra. Ah, mas o homem foi provocado, coitado, a dita senhora deu-lhe cabo da paciência, precisava de uma lição. Enfim, um homem não é de ferro… (Isto faz-me lembrar outras coisas que não digo, para não me desviar do tema).

Quero, no entanto, fazer um parênteses para declarar que não estou a apoiar a proposta de Joacine Katar Moreira de devolver a África peças de arte que se encontram nos museus portugueses. Na verdade, não tenho competência para deliberar sobre esse assunto. Não sou, porém, contra a discussão de tal proposta, escutando vários pontos de vista, pois é algo que ocupa igualmente os governos de outros países europeus. O que eu veementemente condeno é a atitude do líder do partido Chega. Nada, no meu entender, a justifica. Mas o que mais me choca não é o comportamento condenável de um político (infelizmente, não é raro, entre políticos). O que mais me choca é a tal atitude ter ajudado a disparar as intenções de voto no seu partido.

Diz-se que os portugueses criaram a mulata, já em criança ouvia. E já nesse tempo, eu achava que havia algo de muito errado, nessa frase. Como Deus criou o homem (como sabem, o masculino serve para os dois géneros), o português criou a mulata - interessante, aqui, usa-se a forma feminina, embora seja inevitável que o garanhão luso tenha igualmente criado o mulato em proporções idênticas. Não estava mais de acordo com o funcionamento da nossa língua dizer que o português criou o mulato?

Mas ninguém fala no mulato, só na mulata. Porquê? Ora, porque a mulata é uma mulher lindíssima, sensual, que faz ferver o sangue dos homens. Quantos sonhos as mulatas já alimentaram, quantos poemas e canções já lhe foram dedicados… E quantos desses portugueses casaram com as mulatas que idolatravam? Bem, convenhamos que essa perfeição feminina transporta em si os genes negros… Por isso, não misturemos as coisas! A mulata serve para a diversão; casar é com a branca! Embora possa ser uma branca moreninha, assim com um tom de pele próximo do da mulata…

“Os portugueses criaram a mulata” - esta frase, que se diz com orgulho (não fôssemos nós um país de poetas) encerra, em si, um verdadeiro tratado sobre racismo e machismo. Hoje, fico-me pelo racismo, esse, que André Ventura ajudou a libertar. Acho que até lhe devíamos agradecer por, finalmente, nos mostrar a verdade. Espero que contribua para que deixemos de mentir a nós próprios.

Lisboa e Porto

por Cristina Torrão, em 26.01.20

2020-01-25 Portugal TV Today.jpg

Imagem TV Today 18 a 31-01-2020

Ontem, um canal regional alemão, pertencente ao 1.º canal público ARD, mostrou um pequeno programa sobre duas cidades portuguesas. A revista televisiva que costumo comprar, porém, fez uma imensa confusão entre as duas. Traduzindo o texto acima: «Lisboa conta-se entre as "boomtowns" turísticas na Europa. Mais de seis milhões de visitantes anuais - para apenas 500.000 habitantes. A reportagem guia-nos às grandes Praças do Rossio e do Comércio, ao lindíssimo bairro de Alfama e ao Mercado da Ribeira. Depois, segue para o Porto, na margem do Douro».

Presumo que os «500.000 habitantes» deviam pertencer ao Porto. E a legenda da imagem vai ainda mais longe: «Arquitectura imponente: a ponte Dom Luís I em Lisboa»!

Um texto destes é capaz de pôr os cabelos em pé de qualquer português. Para os mais radicais, aqueles que levam a um nível muito pessoal a rivalidade (que se quer saudável) entre as duas maiores cidades do nosso país, um texto destes pode ser mesmo caso para insultos aos responsáveis da revista.

Apesar de também criticar a falta de cuidado com que este pequeno texto foi escrito, aconselho um respirar fundo aos mais indignados. Afinal, se uma revista televisiva portuguesa fizesse uma confusão destas entre Berlim e Hamburgo, não nos merecia mais do que um encolher de ombros (quando muito... e só para quem estivesse em condições de detectar os erros). E eu, que vi o programa, garanto que não se misturaram as duas cidades. Foi uma pequena reportagem interessante, que é bem capaz de atrair ainda mais turistas ao nosso país. Se isso é bom, ou mau, fica ao critério de cada um.

Pensamento da semana

por Cristina Torrão, em 19.01.20

 

«Porque tendemos a acreditar que a nossa felicidade e a solução dos nossos problemas dependem unicamente de factores exteriores a nós?»

In "Tu És A Única Pessoa", Cristina Torrão (Oxalá Editora 2016)

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

 

Como sabemos, e principalmente até ao século XIII, altura em que a escrita começou a ter um papel de maior relevo, muitos acontecimentos medievais ficaram mal documentados. Não se sabe, por isso, a data de casamento de D. Teresa de Leão com D. Henrique de Borgonha, uma união que alterou o curso da História Hispânica. Parece, no entanto, certo que este casamento se realizou na sequência da perda de Lisboa.

Afonso VI de Galiza, Leão e Castela Catedral Sant

Representação de D. Afonso VI na Catedral de Santiago de Compostela

Em 1093, D. Afonso VI, o pai de D. Teresa, recebeu, do rei mouro de Badajoz, as cidades de Lisboa e de Santarém e o castelo de Sintra. Em troca, o rei mouro contava com a protecção do imperador hispânico contra os almorávidas, uma casta berbere que tentava alcançar o poder na Península. Este tipo de alianças com os muçulmanos não era novidade para D. Afonso VI, a Reconquista foi um processo mais complicado do que, à primeira vista, se possa pensar.

D. Afonso VI colocou o território à guarda de seu genro, D. Raimundo, feito conde da Galiza, por casamento com D. Urraca, em 1091. D. Raimundo viu-se, assim, senhor de vastas posses, que incluíam a Galiza e Portucale, descendo até ao Tejo. Em fins de 1094, porém, Lisboa e Sintra foram perdidas para os almorávidas e o imperador, desiludido com o genro, separou o condado Portucalense da Galiza, entregando o primeiro ao novo genro, D. Henrique, originário da Casa Ducal de Borgonha. Sendo o mais novo de seis irmãos, D. Henrique não tinha direito a herança e procurou a sua fortuna na Hispânia, já que a rainha D. Constança, esposa do imperador, era sua tia. Assim se viu o jovem cavaleiro dono de um vasto território, maior ainda do que o do marido da filha legítima, circunstância só explicável pela grande desilusão que D. Raimundo terá causado ao sogro.

D. Henrique e D. Teresa terão, por isso, casado pouco depois da perda de Lisboa. O historiador Rui de Azevedo serviu-se de um diploma de Afonso VI para o mosteiro de S. Servando, datado de 13 de Fevereiro de 1095, para situar o casamento em Janeiro desse ano. Nesse diploma, os condes portucalenses surgem casados e a perda de Lisboa deu-se no Outono de 1094. Porém, segundo o Prof. Abel Estefânio (nota 10) esse documento «encontra-se actualmente redatado criticamente de 1098 ou 1099». Enfim, não havendo outras referências, achei que o mês de Janeiro seria uma boa altura para assinalar este matrimónio e as circunstâncias em que ocorreu.

Teresa de Leão em miniatura medieval de manuscrit

Miniatura medieval (pormenor) representando D. Teresa. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos

(Arquivo Histórico Nacional, Madrid. Tumbo de Toxosoutos, fol.  6v.)

Santarém haveria de pertencer a D. Henrique até Maio de 1111, altura em que foi conquistada pelos almorávidas, fazendo recuar novamente a fronteira do condado Portucalense até quase ao Mondego, já que, entre Santarém e Soure, se estendia uma vasta terra de ninguém. Santarém, Lisboa e Sintra só seriam reconquistadas trinta e seis anos mais tarde, por D. Afonso Henriques.


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