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Delito de Opinião

Portugueses em Cuxhaven

Cristina Torrão, 26.05.22

Por vezes, há coincidências interessantes. Tinha eu acabado de publicar (aqui e aqui) fotografias de Cuxhaven, quando o Jornal Católico da Diocese de Hildesheim (do qual sou assinante) publicou uma reportagem sobre os portugueses daquela cidade costeira, na sua edição nº 19, do passado dia 15 de Maio.

Portugueses em Cuxhaven - nº 19 15-05-2022 (1).jp

Em Cuxhaven, vivem cidadãos de 112 nações diferentes e a comunidade mais numerosa é, precisamente, a portuguesa, com cerca de 1300 pessoas. Estamos no Norte da Alemanha, de maioria Protestante, de maneira que os portugueses representam uma parte importante da paróquia católica de Santa Maria.

Portugueses em Cuxhaven - nº 19 15-05-2022 (2).jp

Duas portuguesas mereceram destaque, nesta reportagem. Maria Santos é, há vários anos, a coordenadora da comunidade portuguesa da paróquia. No dia da visita do jornal, Maria Santos não tinha mãos a medir, pois as crianças da primeira comunhão treinavam para o grande dia e, a 14 de Maio, como todos os anos, far-se-ia a procissão de Nossa Senhora de Fátima.

Portugueses em Cuxhaven - nº 19 15-05-2022 (3).jp

A outra senhora destacada é Áuria da Cunha, em Cuxhaven desde 1969. Tinha 22 anos, quando lá chegou, a fim de trabalhar na indústria pesqueira, como muitas outros portugueses e portuguesas. A missa na língua de Camões realiza-se todos os sábados, às 16h 15m. Áuria da Cunha chega sempre à igreja meia hora mais cedo, a fim de ter tempo de rezar primeiro o terço, na companhia de algumas outras pessoas.

Na verdade, trata-se de uma missa só em parte portuguesa, já que, à falta de um padre da nossa terra, é rezada em alemão, enquanto a comunidade responde em português. Dois padres alternam-se na celebração: um alemão e um polaco. Este último, de nome Dabrowski, começou a aprender português há cerca de dois anos e reza já parte da cerimónia na nossa língua. «Vejo grande alegria e agradecimento nos olhos da comunidade, quando o faço», assegura o clérigo polaco.

As Associações portuguesas, que nasceram como cogumelos neste país nos anos 1960 e 70, há muito que agonizam, por falta de interesse das novas gerações. Já as paróquias católicas continuam a ser um grande amparo para os portugueses emigrados. Porque, como diz Maria Santos, «sem Igreja, nada funciona» (ohne Kirche geht es nicht).

Impressões alemãs (27)

Cristina Torrão, 25.05.22

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Goslar, com cerca de 50.000 habitantes, e sendo o seu centro histórico Património Mundial da UNESCO, é uma cidade muito agradável de visitar, principalmente, num dia de sol, como o que felizmente tivemos.

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Com edifícios antigos e bem conservados, a praça principal, felizmente interdita a veículos motorizados e cheia de restaurantes e esplanadas, é um local mesmo muito simpático.

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Sucedem-se os  motivos fotográficos, para deleite dos turistas e não só.

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Há mesmo fotógrafos que acabam por ser fotografados ;-)

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E até a Lucy encontrou motivos de interesse.

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Impressões alemãs (26)

Cristina Torrão, 18.05.22

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Palácio Imperial de Goslar

Goslar era uma importante cidade medieval. O Palácio Imperial (Kaiserpfalz), assim como o centro histórico da cidade, são Património Mundial da UNESCO desde 1992.

Sendo a actual Alemanha (incluindo partes de países vizinhos) uma amálgama de condados e ducados, na época medieval, sob o poder do imperador germânico, não havia uma "cidade-capital", onde estivesse instalada a corte. Os imperadores tinham necessidade de percorrer os seus domínios regularmente, assegurando o seu poder, e mandaram construir residências (Pfalz) em vários pontos do império. A Kaiserpfalz de Goslar começou a ser construída por volta de 1005, pelo imperador Heinrich II (Henrique II), embora se pense que começasse por ser residência de uma reserva de caça. O certo é que o neto, Heinrich III, a mandou ampliar, por volta de 1040.

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Ao longo do tempo, o edifício sofreu várias alterações e ampliações. O que vemos hoje pouco tem a ver com a construção medieval. Principalmente a grande reformulação de 1868/79, num tempo em que a Alemanha, depois de séculos de decadência, de novo alimentava grandes sonhos imperiais, descaracterizou bastante o edifício.

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Modelo do Palácio Imperial, antes das profundas remodelações de 1868/79 (fonte: Meerkarhu - Eigenes Werk, CC BY-SA 4.0)

Esta descaracterização é naturalmente objecto de polémica. Estando, no entanto, fora de questão a destruição do edifício, já o desmantelamento das estátuas, erigidas também no século XIX, reune vários apoiantes.

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Uma das estátuas representa Frederico I Barbarossa (século XII), que se tornou num imperador mítico, dos tempos áureos medievais, em que o império incluía grande parte da Itália (daí o seu cognome). Mas a estátua de Wilhelm I (Guilherme I) é ainda mais polémica. Regente no tempo em que se fez a remodelação, está representado como sendo Wilhelm der Große (Guilherme o Grande), cognome sem qualquer fundamento histórico.

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Os dois leões (ver também primeira fotografia) foram igualmente erigidos na sequência destas pretensões imperiais do século XIX, pois o leão era o símbolo de um igualmente mítico duque medieval, Henrique o Leão (Heinrich der Löwe).

De qualquer maneira, tanto o Palácio Imperial, como a cidade de Goslar, representam uma importante receita turística (o centro histórico vem na próxima semana).

Impressões alemãs (25)

Cristina Torrão, 11.05.22

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Praia de Cuxhaven, na maré baixa

Na costa alemã, o Mar do Norte recua vários quilómetros, na maré baixa. Ou seja: desaparece de vista, permitindo a Wattwanderung. Esta palavra é de difícil tradução. A segunda parte da palavra, Wanderung, significa caminhada. E a primeira parte, só por si, não existe, é necessário recorrer à palavra Wattenmeer, que indica um mar em maré baixa, ou, mais propriamente, o solo arenoso e, muitas vezes, pantanoso, que ele deixa, ao desaparecer. Na altura da maré baixa, a praia de Cuxhaven modifica-se completamente, pois permite passeios "mar adentro". No entanto, é preciso cuidado, pois, quando o mar regressa, tudo acontece de forma bastante rápida. É imprescindível consultar o horário das marés.

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A maré baixa permite ir até à ilha Neuwerk, ao largo de Cuxhaven, a cerca de 11 km da praia. Para passeios longos como estes, porém, convém não ir sozinho. Ainda melhor, é tomar parte em excursões organizadas, com guia, pois há locais com areias movediças que se podem tornar perigosos. Além disso, é necessário calcular bem o tempo, a fim de regressar à praia, antes da maré cheia. A pé, fica muito apertado e uma outra opção é utilizar estas carroças castiças, puxadas por cavalos.

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Nas praias alemãs do Mar do Norte, em vez de barracas, há estes bancos protegidos por uma espécie de concha, pois o vento pode ser muito desagradável. Chamam-se Strandkorb ("cesto" de praia).

Vem de longe...

Cristina Torrão, 08.05.22

Eça Agora - Os Novos Mais Vol 6 - 1.jpg

Citação:

- Dez milhões de pessoas nos gulag na altura da morte de Estaline. Estaline morreu em março de 1953.

- Estaline afirmava que o povo ucraniano tinha escapado porque «era muito numeroso e ele não sabia para onde o deportar».

 

Gonçalo M. Tavares in "Eça Agora - Os Novos Maias" - Volume 6, Julho de 2013 (p. 18)

Impressões alemãs (24)

Cristina Torrão, 04.05.22

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Com cerca de 50.000 habitantes, Cuxhaven, a 70 km de Hamburgo, não é das mais conhecidas cidades alemãs, no estrangeiro. Internamente, é famosa pela sua praia e por ser lá que o rio Elba desagua no Mar do Norte. Isto dá-lhe ainda outra importância: todos os navios que procuram o famoso porto de Hamburgo, têm de passar por lá. E só 40 milhas marítimas mais tarde, alcançam o almejado porto. Isto leva a que, de vez em quando, sejam feitas drenagens de areia, a fim de que o rio Elba tenha profundidade suficiente. Com custos para o ambiente, claro está. Mas esse assunto ficará para uma outra ocasião.

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Este é um restaurante típico de Cuxhaven, especializado em peixe. Escusado será dizer que a pesca tem aqui muita tradição, uma das fontes de receita desta cidade, além do turismo. Este é, na sua maioria, composto por alemães, pois praticamente nenhum estrangeiro à procura de praias vem aqui parar.

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Pormenor da zona pedonal de Cuxhaven

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Praia de Cuxhaven. E, no próximo postal, explico como foi possível tirar esta fotografia do meio da água.

Always handsome (off the record)

Cristina Torrão, 01.05.22

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Ayrton Senna da Silva

Foto Por Instituto Ayrton Senna - Ayrton Senna 8.jpgFlickr, CC BY 2.0

Abro uma excepção nos "handsome vivos", porque faz hoje 28 anos sobre a morte trágica de Ayrton Senna. E porque vi recentemente, e pela primeira vez, o filme-documentário de Asif Kapadia sobre a carreira daquele por muitos apontado como o melhor condutor de Fórmula 1 de todos os tempos.

Este filme foi, para mim, uma verdadeira viagem no tempo. Um tempo, em que eu não perdia uma transmissão televisiva de um Grande Prémio, mesmo que isso significasse fazer uma directa (vários Campeonatos do Mundo foram decididos no Japão, começando as corridas pelas 4 horas da madrugada). Um tempo, em que quase esquecemos a existência do futebol, com discussões acaloradas entre os fãs de Senna e de Prost, pondo mesmo em causa certas amizades. Um tempo, em que eu passava parte do ano a poupar dinheiro (vivia em Vila nova de Gaia), a fim de poder assistir ao vivo às corridas no autódromo do Estoril.

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A partir de 1 de Maio de 1994, a Fórmula 1 deixou de existir para mim. Enterrei tudo, com o funeral de Senna. A visualização deste filme arrancou em mim recordações e emoções com uma intensidade inesperada. As imagens dos bastidores, que não conhecia, além de elucidativas, fascinaram-me, como se tivesse regressado aos vinte e poucos anos, quando tantas vezes desejava saber o que se passava por trás das corridas.

O filme mostra-nos um Senna forte e frágil, ao mesmo tempo, obcecado com as vitórias, porque ciente do seu talento. E assim sentimos a sua amargura ao ser injustiçado, em certas ocasiões, devido à amizade entre Alain Prost e Jean-Marie Balestre, presidente da FIA até 1991. As emoções, em Senna, transbordavam para além dele e infectavam-nos, o segredo da fascinação que ele provocava em nós, os seus fãs.

Handsome forever!

Impressões alemãs (23)

Cristina Torrão, 27.04.22

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A simbologia da Floresta de Teutoburgo não está limitada à Batalha de Varus e à estátua de Hermann/Arminius. Também lá encontramos uma curiosa formação rochosa apelidada de Externsteine (Pedras Extern). O nome não tem a ver com "externo", mas deriva de alguma antiga palavra germânica, para a qual aliás não se encontra consenso.

As Externsteine exercem fascinação em muitos alemães, mas, na verdade, nada se sabe sobre elas. Existem apenas mitos e lendas. Em 1564, o historiador e teólogo luterano Hermann Hamelmann indicou-as como um antigo santuário germânico (pagão), destruído por Carlos Magno (teoria muito aproveitada pelos nazis). Mas também se diz ter sido um observatório de astronomia, antes da era de Cristo, uma espécie de Stonehenge, se bem que não construído por mão humana. Noutras lendas, as rochas são as guardiãs do Santo Graal, ou mesmo os dentes de um gigante.

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Há, porém, escassez de dados científicos. Nas suas imediações, já se fizeram achados arqueológicos pré-históricos, os mais antigos, datados de 10.000 AC. Tais achados, porém, apenas testemunham presença humana na zona, sem nos darem qualquer pista sobre razões ou motivos especiais que tenham levado esses nossos antepassados a frequentar o local.

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Hoje em dia, as Externsteine são, sobretudo, uma atracção turística, havendo igualmente grupos de esotéricos que vêem no local uma fonte de energia com qualidades espirituais.

Impressões alemãs (22)

Cristina Torrão, 20.04.22

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Floresta de Teutoburgo

Na semana passada, aludi à Batalha da Floresta de Teutoburgo, ocorrida no ano 9 DC. Na verdade, não se sabe o local exacto desta batalha, nem se realmente se pode falar numa batalha. Têm sido achados vestígios arqueológicos numa vasta área desta floresta, apontando para combates em vários locais.

O certo é que inúmeras tribos germânicas se uniram sob o comando de um chefe da tribo dos queruscos, que os alemães apelidam de Hermann, mas, para os romanos, era Arminius. Na verdade, ele tinha sido um valoroso oficial do exército romano, mas acabou por decidir impedir o seu avanço. Muitos germânicos alistaram-se nas legiões romanas. E, o que parecia ser vantajoso, acabou por ser fatal, no caso de Arminius/Hermann. Ele conhecia o exército romano como ninguém e sabia que a cerrada e enorme Floresta de Teutoburgo seria o local ideal para o enfrentar. De facto, as legiões romanas XVII, XVIII e XIX não encontraram espaço para pôr em prática as suas temidas formações, vendo-se à mercê das emboscadas do inimigo.

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As legiões romanas eram comandadas por Publius Quinctilius Varus (Públio Quintílio Varo, em português), por isso, este prélio é também conhecido, na Alemanha, como a Batalha de Varus (Varusschlacht). Ela foi decisiva. Os romanos não mais se aventuraram a leste do rio Reno.

Hermann, ou Arminius, acabou por ser homenageado pelos alemães, numa estátua gigantesca, construída entre 1838 e 1875 (ainda no rescaldo das invasões napoleónicas). Com uma altura total de cerca de 53,50m (a figura em si mede 26,50m) foi a maior estátua da civilização ocidental moderna, até à construção da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque (1886).

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Sirvo-me de uma fotografia da Wikipedia, porque as nossas, tiradas em 2001, ainda sem máquina digital, não têm a qualidade desejada. Voltámos à floresta, em 2010, mas não tornámos a ir à estátua.

A estátua acabou por sobreviver incólume à 2ª Guerra Mundial (talvez por se encontrar em plena floresta). Depois deste conflito, a sua permanência foi alvo de polémica. Aliás, continua a ser. Mas ela lá está, contribuindo para boas receitas turísticas. E é ainda a maior estátua da Alemanha.

D. Leonor de Portugal, Rainha da Dinamarca

Cristina Torrão, 19.04.22

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À semelhança de sua tia D. Berengária, a infanta D. Leonor de Portugal foi igualmente rainha da Dinamarca, embora o marido nunca tenha reinado por conta própria. Valdemar the Young foi uma espécie de “rei júnior”, ao lado do pai. Era o filho mais velho, fruto do primeiro casamento de Valdemar II com Dagmar da Boémia. Dois anos depois de enviuvar, Valdemar II casou com D. Berengária de Portugal e teve mais três filhos e uma filha.

Em 1215, Valdemar II reuniu-se com os seus magnatas, que juraram fidelidade ao seu filho homónimo e, passado pouco tempo, o jovem Valdemar foi eleito rei, ao lado de seu pai, um estatuto estranho, mas que parece ter sido usado noutras monarquias europeias. Seria a fim de assegurar o seu futuro como rei da Dinamarca, já que o pai casara pela segunda vez? O certo é que, três anos mais tarde (já tinha nascido, pelo menos, um dos seus meios-irmãos), em nova cerimónia, que reuniu quinze bispos e três duques, o jovem Valdemar foi untado com os santos óleos e coroado “co-rei”.

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D. Leonor de Portugal, rainha da Dinamarca

António de Holanda, Public domain, via Wikimedia Commons

Interessante é verificar que Valdemar II escolheu, para sua nora, uma sobrinha da sua segunda esposa: a infanta D. Leonor, única filha de D. Afonso II. É possível que o consórcio tenha sido negociado em Paris. A infanta D. Leonor talvez tenha ido com o irmão D. Afonso para a corte francesa, onde este se faria conde de Bolonha, graças à tia materna Branca, rainha de França. D. Afonso acabaria por se tornar rei de Portugal, como Afonso III, por suposta incapacidade do irmão Sancho II, ficando conhecido por o Bolonhês.

D. Leonor casou com Valdemar the Young no dia de São João Baptista de 1229. No entanto, o matrimónio pareceu amaldiçoado quase desde o seu início: no ano seguinte, houve um eclipse solar, logo seguido de uma epidemia pestilenta, o que causou grande impacto numa sociedade supersticiosa, como o era a da época medieval. E, passado mais um ano, a maldição parecia confirmar-se: D. Leonor morreu de parto, em Maio de 1231, e o bebé também não sobreviveu. Como se tudo isto não bastasse, o jovem Valdemar foi ferido por uma flecha, numa caçada, acabando por sucumbir ao ferimento, com apenas vinte e dois anos, escassos seis meses depois da morte da esposa. Na historiografia, ele é, por vezes, referido como Valdemar III (assim está escrito no seu epitáfio, em latim), mas nunca chegou a reinar sozinho, pois morreu antes do pai. E a designação Valdemar III é também usada para designar um outro rei que viveu no século XIV (1314–1364).

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Igreja de São Bento, Ringsted, Dinamarca By Mariusz Paździora - Own work, CC BY-SA 3.0

Assim como a tia Berengária, D. Leonor de Portugal ficou sepultada como rainha da Dinamarca, na Sankt Bendts Kirke (Igreja de São Bento), em Ringsted, perto de Copenhaga. Porém, segundo Anabela Natário, ela está identificada como tendo sido «filha do rei de Espanha» (p. 204)! Devia o governo português solicitar a correcção deste epitáfio? Ou será por estar escrito em latim, referindo Hispânia, em vez de Espanha? Há uma grande diferença entre os dois termos, mas não me parece que os dinamarqueses a conheçam.

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Placa com a lista de reis e rainhas sepultados na Igreja de São Bento, em Ringsted, Dinamarca. Berengária surge como Beengjerd, falecida 1220; Leonor surge como Eleonora, falecida 1231.

Imagem CC BY-SA 3.0

Impressões alemãs (21)

Cristina Torrão, 13.04.22

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Castelo-Palácio Residencial, em Detmold (Fürstliche Residenzschloss - Princely Residence Castle)

Apesar de ser propriedade privada, o Castelo-Palácio Residencial de Detmold está aberto ao público e vale uma visita. Assim como o centro pedonal da cidade.

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Detmold fica a sudoeste de Hannover, perto da Floresta de Teutoburgo. Pensa-se que foi nesta floresta que se deu uma batalha decisiva entre uma aliança de vários povos germânicos e os romanos, no ano 9 DC. As tribos germânicas, chefiadas por Armínio (ou Arminius; Hermann em alemão), emboscaram e dizimaram três legiões romanas. Tornarei a falar do assunto num outro postal. Hoje, deixo mais algumas fotografias de Detmold.

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Os centros pedonais são fantásticos para passear, apreciar edifícios e frequentar lojas, com calma e sem barulho de motores.

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Inscrição em cima: "construído em 1674; renovado em 1981". A inscrição de baixo inclui as palavras: "Tenho o Senhor sempre diante dos olhos (...) A bênção do Senhor protege-me de inquietações".

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Torre de igreja, em Detmold

D. Berengária de Portugal, Rainha da Dinamarca

Cristina Torrão, 11.04.22

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Na época medieval, houve uma infanta portuguesa que se tornou rainha da Dinamarca, estando sepultada junto de outros reis e rainhas medievais, na Sankt Bendts Kirke (Igreja de São Bento), em Ringsted, perto de Copenhaga. Porém, segundo Anabela Natário, autora do livro representado na imagem, o seu epitáfio identifica-a apenas como irmã do conde da Flandres.

Esta identificação, apesar de incompleta, não é falsa. Tudo começou com o avô desta infanta portuguesa, D. Afonso Henriques, ao casar a sua filha Teresa com Filipe da Alsácia, conde da Flandres. O consórcio durou apenas seis anos e o casal não teve filhos (do primeiro casamento de Filipe com Elisabeth de Vermandois também não houve descendência). O conde da Flandres embarcou em várias cruzadas e acabou por sucumbir, em Setembro de 1190, a uma epidemia, durante o cerco a Akkon.

A infanta D. Teresa, ou Matilde, como ficou conhecida por aquelas paragens, por identificação com sua mãe (Mafalda, ou Matilde de Saboia), viu-se assim confrontada com a falta de sucessão e socorreu-se da numerosa prole de seu irmão, D. Sancho I. Nomeou o sobrinho, infante D. Fernando de Portugal, seu sucessor e negociou o casamento dele com Joana de Hainaut. O casal teve, porém, apenas uma filha, que morreu jovem. E, sendo a História da Europa Central intrincada e o condado da Flandres muito disputado, o filho de D. Sancho I viu-se envolvido em várias lutas, acabando prisioneiro do rei de França por cerca de doze anos e perdendo o seu valioso condado.

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Fernando de Portugal, conde da Flandres, prisioneiro de Filipe Augusto, rei de França

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Bem, tudo isto para dizer que, ao viajar para a Flandres, ao encontro da sua noiva, o infante D. Fernando levou consigo a irmã D. Berengária. E Valdemar II da Dinamarca, ao enviuvar, escolheu esta infanta portuguesa para um segundo consórcio, união igualmente negociada pela tia Teresa. A condessa regente da Flandres pretenderia um aliado contra o rei de França, que exigia a devolução de territórios flamengos conquistados outrora. Há algo, porém, a acrescentar: Valdemar II teria tido, ainda como príncipe herdeiro, contacto com a família real portuguesa. Segundo Anabela Natário, «muitos autores escreveram que D. Sancho I e Valdemar se teriam conhecido em 1189 e lutado lado a lado, ainda Berengária não era nascida. [Valdemar] teria entrado no rio Tejo, à frente de uma armada de cruzados cristãos vinda da Dinamarca e da Frísia (…), que antes de rumar à Terra Santa, ajudaria o rei português a conquistar o Algarve aos muçulmanos» (p.169).

Valdemar II e D. Berengária casaram em Maio de 1214, na semana de Pentecostes. Mas a infanta portuguesa, feita rainha da Dinamarca, morreria em 1221, com pouco mais de vinte anos, depois de já ter dado quatro filhos à luz. Não se sabe as razões da sua morte, mas poderia ter sido de parto, como tantas vezes acontecia.

Berengária era realmente irmã do conde da Flandres. Porém, se é esta a única informação que consta do seu epitáfio, o povo dinamarquês, em geral, não conhece a verdadeira origem desta sua rainha.

Existe, no entanto, outro caso de uma infanta portuguesa assinalada, ainda segundo Anabela Natário, como «filha do rei de Espanha», no seu epitáfio dinamarquês! Mas disso falarei noutra ocasião.

 

Nota de rodapé: a infanta D. Teresa, filha de D. Afonso Henriques, é-nos apresentada, neste livro de Anabela Natário, como Teresa Henriques (pp.84 e seguintes), designação com a qual não posso concordar. Filhos e filhas adquiriam o apelido do pai, a partir do nome próprio deste, com uma terminação derivada do genitivo latino (por isso, Henriques filho de Henrique; Sanches filha de Sancho; Gonçalves filho de Gonçalo, etc.). Este apelido não transitava para netos e netas. Sendo Teresa filha de Afonso (e não obedecendo o nome de Afonso à regra do genitivo latino), a designação correcta para esta infanta portuguesa seria Teresa Afonso.

Impressões alemãs (20)

Cristina Torrão, 06.04.22

O Parque Condal de Bad Driburg

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"Bad" significa "banho", em alemão. A preceder o nome de uma localidade, tem o significado de "termas". Em Bad Driburg, encontra-se um lindíssimo Parque Condal, pertencente aos condes de Oeynhausen-Sierstorpff.

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Neste parque, situa-se um Hotel Spa, mas não estivemos lá hospedados e nem sequer o fotografámos. As paisagens são muito mais bonitas. E o passeio foi maravilhoso.

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Mas este parque tem outra maravilha: homenageia uma história de amor, com o Hölderlin-Hain - "o cantinho (de bosque) de Hölderlin".

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Friedrich Hölderlin (1770 – 1843) foi um poeta alemão do Romantismo. No Verão de 1796, ele passou, em Bad Driburg, as semanas mais felizes da sua vida (nas suas próprias palavras). Nessa altura, era professor particular dos filhos de Jakob Gontard, um banqueiro de Frankfurt. Hölderlin e Susette, a esposa do banqueiro, apaixonaram-se. E, quando Susette foi com os filhos para Bad Driburg e Hölderlin os acompanhou, os dois consumaram a sua paixão e deleitaram-se com os momentos passados em liberdade, neste Parque Condal.

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Este caminho conduz à pedra de homenagem a Friedrich Hölderlin, com o seu nome e, em números romanos, 1796, o ano em que ele viveu os momentos de felicidade com Susette Gontard.

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Escusado será dizer que a história acabou mal. Dois anos mais tarde, descoberta a traição, o banqueiro expulsou o poeta de sua casa. E Susette morreria em 1802, com apenas 33 anos. Como não podia deixar de ser, também ela foi homenageada no Parque Condal de Bad Driburg, com um busto, no meio de um pequeno lago. A sua face está virada para o Hölderlin-Hain.

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Sugestões televisivas

Cristina Torrão, 05.04.22

O canal franco-alemão ARTE vai apresentar, hoje, dois documentários sobre temas actuais e polémicos, que não posso deixar de sugerir a quem tenha conhecimentos de francês.

O primeiro, com o título Sauvages, au coeur des zoos humains, vai para o ar às 20:15 horas (19:15, em Portugal) e fala-nos como crianças, mulheres e homens de terras longínquas eram exibidos na Europa, entre 1810 e 1940, ao estilo de zoos humanos, a fim de justificarem a colonização. Esta prática tornou o racismo quotidiano.

O segundo intitula-se Restituer? L’Afrique en quête de ses chefs-d’oeuvre, será exibido às 21:50 horas (20:50, em Portugal) e debruça-se sobre as obras de arte que a Europa, durante mais de um século, roubou às colónias.

Todos e todas nós temos opiniões mais ou menos formadas sobre os temas tratados. Mas é sempre aconselhável alargarmos os nossos horizontes. E, quanto mais polémico for o assunto, mais se aconselha. A modificação da opinião, ou não, é naturalmente decisão de cada pessoa.

Nota: os documentários já estão disponíveis para visualização nos links indicados.

Impressões alemãs (19)

Cristina Torrão, 30.03.22

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Rua de Paderborn, com a torre da catedral em fundo

Apesar de não pertencer às maiores cidades alemãs (cerca de 150.000 habitantes), Paderborn é sede diocesana desde o século IX e possui uma imponente catedral gótica.

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Paderborn é igualmente cidade universitária desde 1614, sendo particularmente conhecida, durante vários séculos, pela sua Faculdade de Teologia.

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Elevada a arquidiocese em 1930, Paderborn tornou-se um dos maiores centros católicos alemães, também por lá ter sido criada a Universidade Católica, em 1971.

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Não sendo das mais conhecidas a nível europeu, a catedral de Paderborn vale bem uma visita.

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Um último apontamento sobre os votos dos emigrantes

Cristina Torrão, 29.03.22

Apesar de o processo estar (para já) concluído e o novo governo prestes a tomar posse, resolvi deixar aqui excertos de um artigo de opinião assinado por Gonçalo Galvão Gomes, intitulado "A confiança perdida", no PT-Post nº 332 (jornal português na Alemanha), depois de ser conhecida a resolução do Tribunal Constitucional de repetir as eleições:

Em 2015, durante a contagem dos votos da emigração, recebo uma mensagem da pessoa que nomeei como responsável de uma das mesas de contagem. - Há envelopes a chegar sem cartão de identificação, achas que os devíamos anular?

Foi a primeira vez que tive contacto com a realidade da contagem dos votos e lembro-me que fiquei abismado com a ideia de que cabia ao responsável da mesa decidir se um voto devia ou não contar, quando claramente não cumpria os regulamentos para ser considerado válido. - Cumpre o que está na lei eleitoral e anula tudo o que estiver inválido - foi a minha resposta.

A minha mesa anulou centenas de votos naquela noite, muitas não o fizeram e outros milhares de votos foram contados de forma irregular.

(...)

Nesse ano, no meu primeiro como emigrante, e na minha primeira vez enquanto candidato pelo círculo Europa, embora estivesse graduado em saber como as instituições portuguesas funcionam, nunca pensei que numa eleição legislativa, num a(c)to daquela natureza, existisse tamanha arbitrariedade na avaliação dos votos.

Desde aí nada mudou e a eleição de 2019 teve o mesmo desfecho com votos a serem contados (ou não), conforme o apetite do responsável da mesa.

Em relação aos deputados eleitos pela emigração:

Estes podem, devem e até já deviam ter pedido uma mudança nos regulamentos. Não o fizeram, não quiseram saber e têm corrompido os a(c)tos eleitorais com arranjinhos de bastidores. É absolutamente vergonhoso ver pessoas como o senhor deputado Paulo Pisco do Partido Socialista, que já o é há duas décadas, aparecer agora no papel de vítima, como se não tivesse responsabilidade no acontecimento. Pior do que não assumir a sua responsabilidade, é culpar os outros e escrever artigos como o que escreveu no Público, a responsabilizar o PSD pela anulação da votação.

Na verdade, o deputado Paulo Pisco torna à carga nesta mesma edição do PT-Post, num artigo intitulado "Recuperar a confiança das comunidades e votar":

Por que razão o PSD se comprometeu e depois rompeu o entendimento entre todos os partidos para aceitar como válidos os votos sem o cartão do cidadão, numa reunião que foi realizada ao abrigo da lei no dia 18 de Janeiro? [Isto foi escrito depois de o Tribunal Constitucional declarar ilegais reuniões e acordos desse tipo].

E por que recusa o PSD pedir desculpa aos eleitores que agora terão de voltar a pronunciar-se, tal como, humildemente, fez o líder do PS e Primeiro-Ministro António Costa?

(...)

Nada do que aconteceu deveria ter acontecido. Essa é a verdade. Esta é uma crise completamente gratuita, que poderia muito bem ter sido evitada, não fosse o PSD ter medo do voto das comunidades e soubesse respeitar a vontade livre de participação dos eleitores e o seu direito de voto.

Logo no parágrafo seguinte, Paulo Pisco dá, sem o menor pudor, o dito por não dito, ao admitir que o problema está na legislação:

A lei terá de sofrer as necessárias alterações e para tal será necessário um consenso alargado na Assembleia da República, de forma a facilitar o direito de voto dos nossos compatriotas.

(...)

É esse agora o nosso compromisso, de dar prioridade à alteração da lei eleitoral da Assembleia da República, para que uma situação como a que ocorreu nunca mais volte a acontecer.

Pelos vistos, este tipo de discurso manhoso dá os seus frutos. O PS acabou por ser favorecido nesta repetição.

Curiosidade: Neste artigo, Paulo Pisco refere uma guerra às portas da Europa, na Ucrânia. E eu a pensar que a Ucrânia e parte da Rússia eram solo europeu!

Blogue da semana

Cristina Torrão, 27.03.22

Sendo eu interessada em História, escolhi, desta vez, O Sal da História, um blogue que só descobri recentemente e que muito me agradou. Fala-nos de pessoas e factos que normalmente não vêm narrados nos livros, mas são igualmente importantes para aprendermos com (e entendermos) o nosso passado.

A autora, Cristiana Vargas, é jornalista de formação e trabalha no Arquivo Histórico de Alcácer do Sal. Nas suas próprias palavras, encontrou, na criação deste blogue, a solução para aliar o meu ímpeto para a escrita, a minha paixão pela história e a enorme curiosidade de jornalista. Diz-nos ainda que a realidade é, genericamente, o melhor enredo que se pode escrever e que, por vezes, é tão extraordinária que mais parece ficção. Não podia estar mais de acordo.

Aprendamos, então, com O Sal da História!

Pensamento da semana

Cristina Torrão, 27.03.22

Confesso que continuo a não perceber quais as verdadeiras intenções de Putin. Espera ele realmente anexar a Ucrânia? Mas a que preço (para ele próprio e o seu país)? A sua demência impedi-lo-á de perceber que uma guerra mundial destruiria a Rússia e que ele próprio dificilmente sobreviveria? Ou pretende suicidar-se, mandando o planeta pelos ares?

Também continuo a não perceber qual o papel da extrema-direita nisto tudo. Leio sobre relações cordiais que o Kremlin tem vindo a estabelecer com a extrema-direita europeia, incluindo apoio financeiro. O certo é que estes partidos, que tudo aproveitam para andar nas parangonas, têm estado estranhamento calados.

 

Este pensamento acompanhou o Delito durante esta semana.

Portugal da Idade Média

Cristina Torrão, 26.03.22

Visão História Portugal na Idade Média.png

«Em Portugal, houve nas últimas décadas uma explosão de investigações que alargou imenso as temáticas (…) Sabemos hoje muito mais sobre o que aconteceu no território que veio a tornar-se Portugal, e sobre o reino português, do que há 25 anos, e de uma forma mais plural» - palavras da historiadora Maria de Lurdes Rosa, na entrevista que serve de introdução a este especial Visão História.

A publicação cumpre aquilo que a historiadora nos promete. Abrange toda a época medieval (do século V ao XV), dando-nos informações sobre aspectos normalmente desprezados pela nossa História, mas essenciais para entendermos a formação de Portugal e as raízes do nosso povo, como a época dos reinos Suevo e Visigodo e a era islâmica, bem mais diversificada do que aquilo que nos fizeram crer, durante séculos. Além disso, apresenta artigos sobre a vida dos camponeses, os mesteres, a organização da sociedade, as finanças, o ensino, a cultura, a literatura, etc. Porque estudar a História não é apenas decorar datas e nomes de reis, batalhas e guerras.

E, no entanto, "não há bela sem senão". O artigo sobre D. Afonso Henriques, cheio de incongruências, não possui o nível qualitativo das outras contribuições. Para começar, o autor, Luís Almeida Martins, diz-nos que o «político e jurista Diogo Freitas do Amaral (…) deu em 2006 à estampa o livro D. Afonso Henriques - Biografia». Na verdade, esse livro é seis anos mais velho, foi publicado, pela primeira vez, no ano 2000, pela Bertrand Editora. Mais à frente, D. Teresa surge como sendo galega, quando não se sabe ao certo onde nasceu, embora se considere ter sido leonesa. Aponta-se o castelo leonês de Ulver, situado nos montes do Bierzo, como local do seu nascimento. Luís Almeida Martins diz-nos ainda haver uma lenda que diz ser D. Afonso Henriques filho de Egas Moniz, ou seja, o nosso primeiro rei teria sido fruto dos amores ilícitos de D. Teresa com o fidalgo de Ribadouro! Ora, a lenda não fala de “amores ilícitos”. O pequeno Afonso teria nascido aleijado das pernas e D. Egas Moniz, encarregado da sua educação, resolveu trocá-lo, ainda bebé, por um filho seu da mesma idade. Neste caso, a mãe nunca poderia ser D. Teresa! E, para dar mais um exemplo da falta de cuidado na escrita deste capítulo, atente-se à seguinte passagem: «já com 60 anos, D. Afonso Henriques (…) tentou apoderar-se de Badajoz. Ali, teve de lutar contra mouros e leoneses, acabando prisioneiro de Afonso VII (…) Acabaria por ser libertado pelo primo em troca de uma faixa de terreno na Galiza». Na verdade, quando o nosso primeiro rei atacou Badajoz, em 1169, o seu primo estava já morto há doze anos! Quem o fez prisioneiro foi Fernando II de Leão, filho do dito Afonso VII. E, diga-se de passagem, genro do próprio Afonso Henriques.

Tenho ainda uma crítica a fazer a este especial Visão História: falta um artigo dedicado a D. Teresa! Ela aparece-nos em vários momentos, incluindo um capítulo intitulado Ser Rainha, no meio de, por exemplo, D. Mafalda de Saboia, D. Isabel ou D. Filipa de Lencastre. D. Teresa não se enquadra, porém, neste contexto. Ela não se limitou a ser esposa de um rei (até porque foi casada com um conde); ela regeu sozinha sobre o condado Portucalense durante dezasseis anos. D. Henrique continua a ter mais destaque do que ela. Mas, como eu já aqui referi no Delito de Opinião, D. Teresa marcou indubitavelmente a independência em relação a sua meia-irmã D. Urraca, a única herdeira do imperador Afonso VI. Recusou-se terminantemente a prestar-lhe vassalagem, assim como ao sobrinho (depois da morte de D. Urraca em 1126). Ou seja:  muito mais do que o conde D. Henrique, ela foi a preparadora do caminho que seu filho haveria de percorrer.

Pelos vistos, e apesar do avanço do estudo histórico, D. Teresa ainda é limitada à adúltera, a quem o filho teve de pôr na ordem. E, não contentes com os irmãos de Trava, ainda lhe querem impingir outro amante, o próprio Egas Moniz! Haja paciência!

2021-09-16 Ponte de Lima mit Manfred + Birgit 156.

Estátua da rainha D. Teresa, em Ponte de Lima