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Delito de Opinião

Após a festa

jpt, 12.05.21
Pode ser uma imagem de 1 pessoa, monumento e ao ar livre
 
Ontem fui ao Marquês, logo após o jogo. Quando a mole começou a aumentar eu e o meu comparsa regressámos a casa, Covid oblige. Pois ainda não vacinados mas já velhotes - e vejo uma fotografia minha de ontem no metro e até me assusto com aquele Matusalém que já vou. Hoje leio muita gente incomodada com as multidões que se congregaram junto ao estádio, nas manifestações subsequentes ao jogo, com a violência ocorrida, com a hipotética indução de infecções (e até quem se queixa com os efeitos no turismo veraneante. A esses replico que melhor seria pensar em produzir algo em vez de vender vinho barato, raios de sol, peixe grelhado, sexo cálido e souvenirs reais e intangíveis aos estrangeiros, mas isso é coisa que não entendem os morcões infectados de estupidez que falam de "indústria hoteleira" e "indústria turística". Infecção estupidifadora que mata menos gerontes mas mais lixa o país do que o Covid-19).
 
Mas enfim aos ofendidos com as massas sportinguistas (com as gentes dos futebóis) convém lembrar duas coisas: nada disto foi surpresa, como não o foram as grandes ondas da Nazaré e as corridas de Portimão, quando também o povo se congregou em massa e sem futebóis, diante do estupor das autoridades. O que ontem aconteceu em Lisboa foi um estrondoso e apatetado exemplo de incapacidade, indecisão, incúria das autoridades: do governo de Cabrita, da câmara das ciclovias. E, acima de tudo, da polícia. Da PSP.
 
Os milhares de putos que se acotovelaram no Lumiar e nas avenidas novas, as dezenas de famílias, as centenas de graúdos? Somos aqueles que estamos há 15 meses (desde 2.2020) a levar com o rosário de incompetências, atrapalhações e desvario da "Super-Marta" e seus colegas. Com o Sousa e seus três jantares de Natal... Pois o campeonato acabou, nós saudámos com júbilo os tipos que foram competentes (e não corruptos, como tantos anteriores) nisto tão estrito do jogo da bola. E, também por isso, convençam-se de uma coisa indiscutível: quem esteve mal, e muito, quem foi javardo foi quem ontem andou aos tiros. Estão há 15 meses para se organizar. E ainda que os assalariados do ISCTE-IUL os digam "super" não o são. São tão maus que acabam em Maio de 2021 aos tiros sobre os putos da cidade.
 
Finalmente, aos meus amigos: vim ontem de madrugada do para-além-do-Tejo. À saída o benfiquista que me acolhe saudou-me sorridente num "porta-te bem". Depois, já na capital, o amigo (neutral de clube) ao volante despediu-se como "diverte-te". Logo abanquei em esplanada bairrista diante de meia-dúzia de vizinhos, onde era o único sportinguista. Bebemos vinho do Porto, qual homenagem aos dignos "vices". Almocei em Marvila - e muito bem - com o meu padrinho benfiquista e meu afilhado belenense, que fizeram questão de pagar a refeição "do título". Também por isso não me mandem mais um texto desse Luís Osório, uma merda vácua e apatetada de óbvia a saudar familiares e amigos que são adeptos do Sporting, que corre por aí como se fosse exemplo de algo peculiar - quando é mera condição normal. Lembrem-se mas é que é tipo do "Causa Nossa", anos a ombrear com socratistas, ministros e candidatos, e que agora faz doces e militantes felações a estes ministros. A este estado das coisas. Acabou a festa. Não a conspurquem com estes tipos.

Luís Filipe Vieira na Assembleia da República

jpt, 11.05.21

(Cotrim de Figueiredo na audição de Luís Filipe Vieira na Assembleia da República)

Luís Filipe Vieira foi à AR falar sobre aquilo do BES. Começou por ler um texto, entre a justificação e a lamúria (à filme americano, qual Pacino by Coppola), invocando a sua condição de dirigente desportivo. O primeiro deputado que lhe fez perguntas - não sei quem nem de que partido, apenas retive que era jovem* - logo apartou as águas, explicitando que o Benfica não era para ali chamado. Chapeau!
 
À noite vejo vários "liberais", doutores da economia, da gestão, do direito, muitos com MBAs e até mais, partilharem ufanos esta saída do deputado IL, Figueiredo. Mandando a boca ao empresário sobre os resultados desportivos daquele clube, a piadinha para a câmera, misturando alhos e bugalhos. Avacalhando a coisa. Ainda mais, que isto já vai mal.
 
E votei eu nestes tipos! Imbecil jpt.
 
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O estrume

jpt, 10.05.21

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Em tempos João Soares, então ministro da Cultura, bujardou que daria umas bofetadas em Augusto M. Seabra e Pulido Valente, devido a coisas que estes haviam botado na imprensa. A "boca" nem era grave, pirraça dedicada a homens da mesma geração que não tinha sentido efectivo e assim por todos foi entendida. Mas, e apesar de ser um político com passado - não foi mau presidente de Lisboa -, teve de se demitir. Pois há coisas incompatíveis com a gravitas do poder.
 
Agora João Galamba, secretário de Estado de minas e outros negócios, chama "estrume" (aliás, merda) e "asquerosa" a uma rubrica na imprensa, ditos evidentemente dirigidos à senhora que a protagoniza. E nada acontece. O passado político deste Galamba é mais ténue: apenas o socratismo visceral exercido no blog Jugular. Onde, com gente como Palmira Silva, Vale de Almeida e Câncio, entre outros, se defendeu o ex-PM até à última e se promoveu e defendeu com alacridade o ainda artesanal "fake news" avant la lettre de então.
 
Deve ser isto a "compaixão" para com Sócrates e seus esbirros a que a jornalista Maria Antónia Palla apelou há dias no - sempre ele - "Público". Pois Soares, com seus defeitos e qualidades, não foi um socratista. E esta gente, estes Galambas e afins, estes estrumes e asquerosos, foram-no. E assim continuam, neste aggiornamento em formato costista. E por isso realmente convêm a este poder. A este modo de política. Omnívoro.

O fim do estado de emergência

jpt, 02.05.21

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(Postal de 1 de Maio, aqui:)

Acaba o estado de emergência, a "II vaga" passou... O país segue vitorioso, a "Super-Marta" - como a proclama a comunicação do ISCTE-IUL - foi magistral e o governo excelente. A TV mostra o drama na Índia: 140 vezes a nossa população, 10 vezes o nosso maior número de mortos diários. "Pobres indianos"... comovemo-nos.

Vou à chinchada. O sumo de limão acompanha bem isto, se misturado. Parece-me que o povo o injecta. Eu bebo-o.

(Adenda de 2 de Maio:)

Leio que o dr. Paulo Portas acaba de definir a situação indiana como uma "catástrofe planetária". À mesma hora o dr. Marques Mendes dizia a Clara de Sousa (que nariz!!!) que o "governo tem estado muito bem". Insisto no meu diagnóstico, há demasiado comércio de "panfletos".

Rui Moreira

jpt, 28.04.21

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(Postal para o És a Nossa Fé)

São 40 anos disto. O historial das influências manipuladoras dos resultados desportivos nunca será completado, muitas esquecidas na voragem dos tempos, outras silenciadas, por falta de provas e de coragens. Modo de estar amparado por acólitos que tendiam a sovar jornalistas - ainda me recordo da impunidade com que, no Aveiro de 1988, foi agredido o grande jornalista Carlos Pinhão, aos seus 64 anos. E modo de estar catapultado pela inércia judicial e pela cumplicidade política, em particular autárquica - poucos ainda se lembrarão quando o presidente da câmara Fernando Gomes, encavalitado no clube, desceu a Lisboa arvorado em ministro e com sonhos de conquistar não o Jamor mas sim São Bento. Foi-lhe breve o enleio, logo tendo regressado, capachinho entre as pernas, para a administração do F.C. Porto entre outras sinecuras. 

Neste longo consulado de "Jorge Nuno", como o saúdam os apaniguados, o hábito de atiçar jagunços para espancar jornalistas seguiu algo viçoso nas suas duas primeiras décadas. Depois feneceu, pois a sucessão de triunfos internos desestruturou clubes rivais, amainou a competição. Nesse rumo mais favorável impôs-se a procura de respeitabilidade pública. E nisso o culto da "mística" do clube foi apelando cada vez mais a uma qualquer "alma" feita de arreganho desportivo, depurando-se da imagem de corsários em abordagem: a fleuma de Robson e a sua versão lusa, por isso algo mais arisca, em Santos, Jesualdo Ferreira, e mesmo no júnior Villas-Boas, foi-se sedimentando, apesar da alguma irascibilidade bem-sucedida de Pereira ou Mourinho.

É certo que a vigência de uma placidez - democrática - nunca foi absoluta, e que a vertigem provocatória e agressiva nunca desapareceu, com a própria conivência da imprensa. Lembro-me que há alguns anos um conhecido comentador televisivo atreito ao SLB foi "abanado" num restaurante portuense por um famigerado líder de claque portista. Como tantos deixei eco disso no meu mural de FB, lamentando o facto. De imediato recebi um bem-disposto comentário desvalorizando o abanão no sexagenário mediático, algo tipo "foi coisa pouca". Respondi-lhe, indignado, "como é possível que sendo V. o nº 1 da Lusa desvalorize uma situação destas em nome do seu clubismo?". Logo o arauto me insultou e cortou a ligação-FB. Lembro este "fait divers" para sublinhar isso da vontade agressora não residir apenas nos aprendizes de proxeneta medrados na Invicta, pois sempre seguiu robusta naquele mundo de "senhores doutores".

As décadas passaram. O natural ocaso do octogenário "Jorge Nuno" é este, o que agora acontece. O controlo do jogo algo se reduziu, devido à dança de poderes nos meandros nacionais mas também à introdução de tecnologias electrónicas na arbitragem. E nisso, no envelhecimento do prócere e no crescimento do imprevisto futebolístico, voltou-se ao culto do "pancadarismo". O rufia treinador, desde [ante]ontem cognominado "Sérgio Confusão", cujo histrionismo passa incólume, afirma-se como "imagem de marca" do clube ressuscitando a velha ideia da tal "mística" corsária. O que inclui, claro, o espancamento avulso de jornalistas - agora já não por obscuros seguranças de bordéis portuenses mas por "empresários" montados em carros de estatuto, uma óbvia gentrificação da escroqueria portista.

No meio de tudo isto, antigo exaltado porta-voz televisivo das manobras clubísticas e agora eleito figura-maior dos órgãos do clube - apesar da propalada actual renitência do poder político em associar-se aos mariolas do futebol -, qual putativo Delfim, flana Rui Moreira, o presidente da Câmara do Porto. De (quase) tudo soube, de tudo sabe, a tudo anui. E assim ... a tudo conspurca.

Censos 2021

jpt, 26.04.21

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Acabo de responder ao censo 2021. Ainda telefonei para os serviços a resmungar e fui informado que as coimas para quem não responda oscilam entre 250 e 25000 euros e rendi-me. A muitos o motivo da minha repulsa poderá parecer uma minudência. Mas não é. Há um conjunto de perguntas cuja resposta é facultativa. E outras que são de resposta obrigatória, entre as quais várias são de índole administrativa mas outras são já intrusivas - por exemplo, porque sou eu obrigado a dizer quantas divisões tem a minha casa? 

Mas o pior, a inaceitável intrusão, é a utilização dos censos para se fazerem questões de índole pessoal: pois para aqueles que residiram no estrangeiro e regressaram ao país desde 2010 há uma pergunta de resposta obrigatória. Somos questionados sobre o motivo do regresso. Ou seja, a República Portuguesa obriga os cidadãos a apresentar o motivo que os faz regressar ao seu país! E se entender que isso é inaceitável, uma inadmissível intromissão dos meus direitos, terei que pagar no mínimo 250 euros. Isto é mesmo sintomático de uma mundividência estatizante, altaneira, sobranceira.

(E não se propagandeie uma putativa importância dos dados. Se são relevantes então façam-se inquéritos sobre a matéria. Ou, vá lá - e mesmo assim... -, inclua-se uma pergunta de resposta facultativa no Censo.)

O discurso do PR no 25 de Abril

jpt, 25.04.21

(Discurso do Presidente da República na Sessão Solene Comemorativa do 47.º aniversário do 25 de Abril na Assembleia da República)

Os meus amigos sabem quanto resmungo contra o Presidente Sousa. Da sua presidência retiro dois grandes momentos: o excepcional discurso de 11 de Junho de 2019, em Cabo Verde, proferido por João Miguel Tavares devido a convite do PR - discurso então muito atacado e, acima de tudo, esquecido pela pobre "esquerda" inintelectual vigente.

E este magnífico discurso de hoje do próprio Presidente da República. A dizer, e bem, o que é preciso. Tardou, muito. Mas está dito! E permite esperar que a partir de agora tenhamos Presidente. Com a densidade e a "compostura" que tão necessárias são.

São 20 minutos. E muito se justifica ouvi-los.

25 de Abril

jpt, 25.04.21

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Viva o 25 de Abril! Viva o povo de Lisboa! E o português! Viva a democracia!
  1. Nota de rodapé dedicada a mais novos: a imagem é de arruada lisboeta bem anterior a 25 de Novembro de 1975. Avessa a grappistas, brigadistas, grupelhos maoístas e enverhoxistas, utópicos boumedianos, barbudos guevaristas, ciosos brejnevistas, intelectuais titistas, ignaros polpotistas. Havia sido convocada pelo então PS.

 

O "Babygro" político: Marcelo Rebelo de Sousa

jpt, 17.04.21

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(Postal também colocado aqui)

Artur Portela (durante décadas conhecido como Portela Filho) morreu há pouco. Das minhas estantes paternas recuperei-lhe alguns livros, em particular estas colectâneas "A Funda", belo mostruário da década de 1970. Deste quarto volume (Editora Arcádia, 1974) retiro este texto, de Janeiro de 1974, um elogio a Marcelo Rebelo de Sousa. Será interessante 47 anos depois não só ler a memória daquele final do Estado Novo, mas também observar o actual presidente a partir deste texto:

O "babygro" político

Era o filho pródigo do Regime. / Fizera, no Direito, a ideologia, a família moral, o destino histórico. / Estava talhado, calibrado, destinado. / Não era um acidente - era uma raça. / Tinha, sobre a cabeça, a estrela. Na fronte, o halo. No olhar, a certeza. No sorriso, a sorte.

E quando passava, nos corredores pombalinos do poder, soltando a sua risada aguda, o seu gesto largo, todos os barões, acercando, cochichadamente, as cabeças, o seguiam com um olhar terno. / Era Marcello. / Era Rebello. / Era De Souza. / E, excessivamente, Nuno.

Foi o escândalo. / Foi o escândalo quando ele, recusando sob Martinez, a reprise, rechaçando, sob Dias Rosas, a tarimba, apareceu por sobre o ombro Pestana & Brito de Francismo Balsemão, a espreitar. / Era a fronda do Expresso. / Não quiseram crer. 

E, no entanto, era bem ele, a vivacidade Tim-Tim, a barba Trotsky, o olhar Harold Loyd. / E o riso fácil, a voz estaladamente metálica, a inteligência extravasante, o brilho incontrolado. / O próprio excesso. / O Regime empalideceu. / A Esquerda riu. E a 3ª Força, ela mesmo, sentiu, naquele Gotha revoltado, naquela lei de  Mendel às avessas, naquela Divisão Azul, um compromisso, uma má consciência, um lastro, uma trela. / Um chumaço. / Uma bala de madeira. / Uma injustiça.

Esperava-se uma imoderação. / Foi uma táctica. / O Regime habituou-se àquela perda. A Esquerda, um momento desperta, mergulhou na sonolência da sua dor. / E os próprios Liberais, por instantes irritados com o metal daquela voz, com a velocidade daquela análise, com a fome daquela super-alimentação política, soltaram, de alívio, um suspiro quando ele se sentou, Z. Zagallo, atrás de Francisco Balsemão.

De resto, que podia Marcello Nuno perante as figuras colossais dos campeões liberais? / Do Norte, chegava, moralmente gigantesco, Sá Carneiro. Do Sul, assomava, consciência viva da Universidade, Miller Guerra. João Salgueiro lançava, para a mesa, na sua luva, o peso inteiro da Sedes, Magalhães Motta movia todo um Congresso. Xavier Pintado desembaciava, do bafo do poder, as suas lentes poderosas. E Francisco Balsemão, de uma rotativa renitentemente Lopes do Souto, arrancava esse "tour de force" que eram 70 000 cópias do "Expresso".

E quando, de trás, da sombra, Marcello Nuno, lápis trémulo, soerguia uma qualquer sugestão, corria, em redor da mesa, um sorriso paternal. / Parecia ser o fim das mais belas esperanças. / O Regime enxugou, por ele, a sua última lágrima. / Fora o príncipe - era o pobre.

Como foi que aconteceu - sabem-no poucos. / Os Liberais, por instantes sob o fogo dos projectores, apagam-se. Um a um. Como lâmpadas de uma peça proibida. / Sá Carneiro é já um bronze a si próprio. A Sedes converte-se num Rotary de quadros. Magalhães Motta está pulindo, inutilmente, a tabuleta de advogado. Xavier Pintado perde o fôlego. E Francisco Balsemão faz Porsche.

Vai-se a ver - e quem está? / Está - quem o diria? - Marcello Nuno. / Só ele se move. Só ele existe. Só ele manobra. / Ele é, nas eleições, a única carta nova dos liberais. O seu único talento. A sua única voz forte e original. A sua única manobra. 

A 2ª página do "Expresso" é ele. A 3ª página do "Expresso" é ele. É ele que flirta com  a Oposição. É ele que desmantela aquele barão A. N. P. / Os títulos são ele. / Os itálicos são ele. / A manobra é ele. / Sá Carneiro faz grandeza. Miller Guerra faz pitoresco. Francisco Balsemão faz charme. / Marcello Nuno faz política.

Há, em tudo isto, a inteligência descompassad da imaturidade? / Há. / Há, em tudo isto, o intelectualismo, a abstracção, o jogo, o luxo, o revanchismo, o edipismo? / Há. / Há, em tudo isto, Freud e Júlio Verne, Luís XIV quando jovem e Douglas Fairbanks Júnior, José António Primo de Rivera e Mickey Rooney? / Há. 

Mas como é possível que a 3ª Força não tenha envergadura para absorver esta descarga eléctrica, para sublimar este escândalo de qualidade, para disciplinar este brilhantismo avulso e lúdico? / Não tem ela a sua disciplina ideológica, a sua hierarquia moral, a sua separação de poderes, o seu ministério sombra, a sua escrita em dia, a sua poeira assente, o seu espírito de seriedade, a sua mochila, o seu colete, o seu polimento? / O seu primeiro jovem turco vai logo a Ataturk? / Que é isto - uma força ou um terreno vago?

Os Liberais acabaram? / Não necessariamente. Mas já fizeram a sua adolescência histórica. / E ainda não sairam dela. / Isto que prova? / Prova que a 3ª Força é a impaciência da 1ª Força. / Prova que a política não é apenas uma generosidade mas também uma hereditariedade. / Prova que a vida política portuguesa se conta pelos dedos - e que a 3ª Força tem o seu Pulgarzinho. / Acontece com Marcello Nuno esta coisa cara aos monárquicos - a vocação política como bem moral de raiz. 

O pai Miller Guerra ofereceu ao filho Miller Guerra, talvez, um estetoscópio de brinquedo. / O pai Sá Carneiro ofereceu ao filho Sá Carneiro, talvez, uma toga de ganga. / O tio Balsemão ofereceu ao sobrinho Balsemão, talvez, uma rotativa de latão. / A Marcello Nuno deram, talvez, 99 000 quilómetros quadrados de esperança e dez milhões de bonecos de pasta. / É o que se chama - um "Babygro" político. 

Tem ainda outra vantagem. / Decisiva, essa. / O ser meu amigo. / E, claro, meu adversário.

Nota: Troquei os parágrafos utilizados pelo autor pela barra ("/") apenas para tornar o texto menos longo no suporte de blog.

 

A Presidente da Junta

jpt, 14.04.21

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Este é o último jornal "Olivais", publicado pela Junta de Freguesia, do qual a directora é a presidente dessa Junta, Rute Lima. Não nos prendamos nesta primeira página coberta com uma fotografia - retocada sob notória estética norte-coreana - da presidente/directora/(também colunista do jornal "Público").

Pois o relevante é mesmo isto: o jornal tem 20 páginas. 18 dessas são dedicadas a uma entrevista dessa mesma presidente/directora, em registo notoriamente auto-elogioso, propagandístico se se quiser. As outras duas páginas são de anúncios a actividades da ... Junta.

É esta gente, praticante deste caciquismo abjecto, propagandeado sem pudor através de publicações pagas pelo dinheiro público, que em 2021 o PS tem para propor para encabeçar uma freguesia da capital, com mais de 30 mil eleitores. E , já agora, que o jornal "Público" convida para colunista.

Portugal às Avessas

jpt, 13.04.21

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(Fotografia de Pedro Sá da Bandeira)

Muito concordo com o que Zélia Parreira, na sua sofrida sageza de bibliotecária, disse, alertando-nos para o infindável rol de monos impublicáveis que vão sendo ... publicados, e nisso provocando trabalheira insana e inútil. Eu blogo desde 2003 e dessa verdadeira mania de perorar resultou uma enorme quantidade de textos, e a alguns desses ainda lhes encontro sentido. Mas, e até para não incrementar a ira dos nossos bibliotecários, em vez de fazer caros monos de papel sossego-me produzindo gratuitos (no duplo sentido do termo) monos pdfs. Antes fiz 5 colectâneas de postais, as quais coloquei na minha conta da rede Academia.edu

Agora acabei outra, esta "Portugal às Avessas". São 42 postais no blog ma-schamba, escritos entre 2004 e 2014, quando vivia em Moçambique. Neles fui deixando o meu crescente desconforto diante do que desde lá longe ia assistindo em Portugal. Pois emigrado num país com tantas dificuldades e no qual o debate desenvolvimentista me era constante – pessoal e profissionalmente -, o que reforçava o meu espanto, que se foi fazendo ira até à desesperança, face ao desvario do rumo português e ao paupérrimo debate nacional durante o pérfido período socratista e a crise financeira subsequente. Julguei apropriado concluir este apanhado, neste momento em que o engenheiro Sócrates quase resssuscita e os seus apaniguados aplaudem e as apaniguadas gargalham. A fotografia da capa é do meu amigo Pedro Sá da Bandeira. Um belo momento diante de um edifício que ficou icónico do desperdiçar português deste início de XXI.

Quem tiver interesse e paciência só precisa de "clicar" neste Portugal às Avessas. e gravar. Se encontrar interesse em algum texto isso ser-me-á recompensador. 

Videirinhos & Rousseff, Lda.

jpt, 12.04.21

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Na passada sexta-feira não ouvi o juiz Rosa. Li breve sinopse do que ele proferiu. Peço que me corrijam se o incompreendi: Rosa constatou que o antigo PM e ex-secretário-geral do PS é culpado de crimes de corrupção já prescritos e enviou-o para tribunal como réu devido a crimes económicos cometidos enquanto Primeiro-Ministro. Isto é uma verdadeira bomba, um escândalo!

Os agentes do socratismo, os videirinhos a la blog Jugular, atrevem-se agora a gargalhar na internet e a clamar que se desmontou uma incompetente cabala. E até as raríssimas vozes socialistas então menos atreitas a Sócrates limitam-se a criticar a Justiça. Elidem, totalmente, este escândalo. E a cumplicidade do seu partido, de militantes e dirigentes, e dos inúmeros opinadores públicos (académicos e jornalistas em especial) com aquele miserável período. Pois em termos estruturais o pior nem foi a corrupção instalada no poder - algo recorrente em qualquer regime. Mas sim a penosa corrupção do espaço público, feita de cumplicidade e de conivência. Instalada, repito, na Academia e na Imprensa. E estas sonsas reacções mostram como isso não mudou, como essa gente, moles de dependentes, está "pronta para outra"...

Tudo isto é doloroso. Mas temos que sofrer estes nossos compatriotas. Têm o direito de assim serem, por miseráveis que sejam. Mas já diferente é aceitar que uma estadista estrangeira, ex-presidente de um país aliado, se venha intrometer na nossa vida nacional apoiando um réu de tamanho calibre. Que escumalha esta Rousseff.

O sexo e a EMEL

jpt, 09.04.21

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Descubro este "Inquérito aos Hábitos de Mobilidade em Lisboa". Presumo que tenha algo a ver com isto das bicicletas, e é feito pela EMEL, aquela empresa predatória dos rendimentos dos cidadãos. Leio esta pergunta sobre se "o sexo [dos hipotéticos ciclistas lisboetas] atribuído à nascença coincide ou não com a identidade de género" e, para além de outras questões menores, surge-me uma memória recente.
 
Na quinta onde estava, há algumas semanas acolhi uma jovem gatinha, algo desamparada, miando naqueles hectares pejados de simpáticos mastins. Acolhi-a, resguardei-a. E dada a sua atitude lânguida e mimosa, nomeei-a - inscrevendo-a sob os meus ancestrais - com a graça de Flávia. No que foi um evidente reflexo de "machismo estrutural", como fui recentemente denunciado por uma bloguista sportinguista. E logo a anunciei aos vizinhos - e, depois, nas "redes sociais", o que foi modo de lhe arranjar lar apropriado (aqui narrei o caso). Lá na quinta a primeira pergunta que os vizinhos me fizeram foi "é gato ou gata?". Ao que eu respondi "sei lá!". Então o dono da quinta, meu amigo, que é professor (e nisso excelente) foi até ela, pegou-lhe, virou-a e disse "é gata". E explicou-me que há diferenças entre gatos e gatas, e quais são elas e como se detectam. E eu aprendi. As tais diferenças de sexo.
 
Agora o meu problema é ideológico. Pois há uma empresa municipal (o Estado) que nos pergunta "se o sexo que foi atribuído à nascença corresponde...". Ora, que pergunta é esta? O sexo foi "atribuído" por quem? Que entidade atribui sexo? Entenda-se bem, Portugal é um Estado laico. Não é um Estado secular, nem confessional, é laico. E como tal não é legítimo que uma empresa pública (sob Medina ou qualquer outro) ande, de modo vicioso, a aludir a entidades metafísicas. A liberdade de culto é um bem fundamental, um direito inalienável. Mas o proselitismo metafísico, uni ou multilateral, está vedado aos órgãos estatais.
 
Ou seja, isto tem que ser já retirado. E algum responsável, seja lá de que género for, tem que ser demitido.

A esplanada

jpt, 06.04.21

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(Postal de ontem, aqui)
 
Ainda que algo decadente, devido a recente mudança de proprietários e também dado o acentuado envelhecimento da clientela, esta é a "minha" esplanada lisboeta. Tem uma boa "imperial". E um bom ambiente: gente educada e gentil no serviço (uma tradição de décadas que une as quatro gerências que lhe conheci). E onde encontro amigos e (ex-)vizinhos que vêm da primária, do liceu, da adolescência. E também da juventude adulta. E até, imagine-se, feitos nesta era cinquentenária. Ali se fala de tudo: de trabalho, do ânimo - nosso e dos outros-, de política, de futebol, da saúde própria e alheia, do rame-rame, dos nossos queridos, de gastronomia e culinária, de livros, das memórias e até ainda dos anseios, e (hélas, já não) de mulheres. E durante tudo isso bebe-se...
 
Porque hoje reabriram as esplanadas li neste rossio facebook vários desvalorizando o nosso afã convivencial. Aos que aqui assim noto sei-os afectos a esse constante cerzir da pobre manta de retalhos que associa "direita" a "enfado" com o povoléu, o eunuco blaseísmo "lisboeta". Lembro então que George Steiner, que não era "marxista cultural", definiu a "Europa" como um espaço onde há ... cafés.
 
Por isso, porque sou europeu - e, matizadamente, europeísta - hoje ao fim da tarde, cruzado o Tejo irei até ao "Arcadas". Para uma ou outra imperial. E, talvez, uma abaladiça em formato uísque. Espero que estejas lá.

Fim da vaga

jpt, 05.04.21

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Finda a quarentena filial e a clausura concelhia deixaremos hoje esta enseada atlântica, norteando-nos rumo às cercanias das águas do Trancão...
 
Desde os tempos universitários que aqui não pernoitava. Velho vou mas então a vilória já não era este pitoresco feito da miséria da faina a remos e da "natureza" amanhada a enxada. Noto agora que se veio a tornar viçoso bairro social, de kebabarias e pizarias, alumínios e marquises. Antes assim!, direi realista. Porquê assim?, respondo crente, neste meu diálogo de hoje, vendo chegar a neblina matinal, enregelando a até entusiástica reabertura da esplanada fronteira ao mar, nisto da bica ainda obtida ao postigo mais o jornal "Record" para me legitimar o assento.
 
Agora? Camioneta rumo à urbe. Pois nova era, fim de vaga. E cinquentão decidido a recomeçar vida, que mo permita o Covid! Que nos permita o Covid!

Terrorismo em África e no Cabo Delgado

jpt, 31.03.21

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De Palma, capital do distrito a nordeste do Cabo Delgado, sede das grandes unidades de exploração de recursos combustíveis, chegam imagens do rescaldo em curso após o violento ataque da passada semana, já reclamado pelo "Estado Islâmico" da África Central. Evito mostrar as mais duras. Fica esta, como ilustração do que vem acontecendo.

No sábado passado participei num debate sobre a expansão do terrorismo em África, com particular enfoque na situação moçambicana - algo ainda mais sublinhado pelo ataque a Palma. Foi uma conversa entre Cátia Moreira de Carvalho, Paulo Baptista Ramos, eu jpt, Luís Bernardino e moderada por Miguel Ferreira da Silva, numa organização da Africa Sessions. Aqui deixo a gravação da sessão, para quem tiver alguma curiosidade sobre o fenómeno no continente e, em especial, em Moçambique.

Eleições autárquicas em Lisboa

jpt, 29.03.21

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Está ao rubro a corrida para o município de Lisboa: o futuro PM Medina recandidatar-se-á, PSD/CDS reuniram-se em torno do antigo Comissário Europeu Moedas, o Chega já se chegou à frente com um coriáceo que quer matar quase tudo e quase todos, a IL na pressa até se enganou no candidato e depois lá arranjou outro, o BE  seguiu o parecer de Fernando Rosas, sempre crente nas "nossas meninas", e aproveitou para se vingar do atarantado Rui Tavares jogando, fulminante, a "carta étnica" (como agora está na moda dizer). E, finalmente, o PCP apresenta como candidato o príncipe Charles, o qual continua bem apessoado. 

Vai ser interessante.

 

Malvada história de maldita gente

jpt, 14.03.21

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Amiga envia-me ligação para programa radiofónico: o vice-presidente da Associação de Professores de Português e um antigo secretário de Estado da Cultura, antigo director de jornal e reconhecido romancista dialogam sobre o "racismo no "Os Maias" de Eça de Queirós", contestando as recentes acusações de uma doutoranda estrangeira pertencente à universidade norte-americana classificada em 217º lugar no rol universitário daquele país. Esta gente tem a cabeça onde? 

Amigo-FB envia-me ligação para um artigo de investigadora anglo-portuguesa, denunciando o silêncio português sobre a história nacional e a manutenção daquilo que considera ser a visão imperialista emanada do fascismo - implicitando a inexistência de historiografia posterior e da sua difusão pública e pedagógica durante os últimos 30-40 anos, e denunciando mesmo que há um centro comercial "Vasco da Gama" - e clamando sobre a necessidade de dar visibilidade ao comércio de escravos. O texto é publicado num canal público do Catar. Esta gente não tem pingo de vergonha. 

(Em cima, retrato de D. Afonso Henriques - figura a ser "desconstruída" e "intervencionada" - em quadro de Eduardo Malta - pintor a ser vituperado -, feito para a Exposição de 1940 - acontecimento a ser denunciado)

A culpa é de Passos Coelho

jpt, 12.03.21

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Estes são dados do Observatório da Emigração. Aproveito para recordar um postal - "O Milagre das Rosas" - de 2010, no qual ecoei um artigo do Libération (o qual deixou de estar disponível). Portugal fora na década então finda o 3º país mundial com menor crescimento económico e tinha 350 mil emigrantes naquele quinquénio. E para não deixar resumir isto da estrutural emigração portuguesa a dichotes advindos das querelas partidárias, recomendo este artigo de 2019, "Portuguese emigration today", do sociólogo Rui Pena Pires. O qual será insuspeito de simpatias pela "direita".

Há muito a reflectir e mais ainda a fazer para obstar a este constante (e histórico) drenar. Mas há algo mais imediato que poderia ser feito, para melhorar essa necessária actuação. Há um mês aqui deixei nota sobre a execrável afirmação televisiva de Ana Drago, no afã de salvaguardar o actual governo: a disseminação do Covid-19 após o Natal deveu-se às visitas dos emigrantes em Inglaterra, fluxo acontecido durante o governo de Passos Coelho. Os números, consabidos, mostram bem a indecência da formulação. Drago nem sequer é (por enquanto) militante do PS, a vil patacoada não foi uma fidelidade conjugal mas apenas um episódio de prostituição política. 

A questão é a da expressão pública televisiva e sua influência. Já nem falo desta pantomina de haver políticos no activo a fazerem de comentadores, em contextos que lhes encenam poses algo "neutrais", como se autónomos dos seus partidos - o caso mais risível é o da secretária-geral adjunta Mendes, ali ombreando com os aparentes "senadores flanantes" Pacheco Pereira e Lobo Xavier. Ou este Medina, que nos cabe como presidente de Lisboa, também "comentador" a tempo parcial, como se não estivesse a "full-time" em campanha. Mas a questão é para além disso, que pelo menos esses os espectadores reconhecem de imediato como "a voz do partido". A questão é a da pertinência das televisões se encherem destes Drago, simulando "olhares distanciados", analíticos e mesmo críticos. E que nada mais são do que "vozes de dono", cartilheiros.

E este caso, constante, da utilização da emigração portuguesa como invectiva a um governo - que geriu, mal ou bem, uma situação herdada - é um exemplo típico do aldrabismo de gente que é paga para nos "fazer a cabeça". Para baixar a emigração será melhor começar por melhorar a locução. Expugar-nos de cartilheiros, venham de onde vierem. E depois fazer o resto...