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Matar o Homem Branco

por jpt, em 23.11.20

"Temos de matar o homem branco, assassino, colonial e racista" — Mamadou Ba (SOS Racismo)

Simpatizo com o dr. Ba. Na sua linha de acção política não gosto da demagoga e egocêntrica deputada Moreira e ainda menos dos "white (old) boys" histriónico-demagogos que folclorizam (e racializam) tudo isto, em particular os de coração socratista (delenda est carthago, nunca esquecer isso), obviamente com olhos sôfregos nos desejados subsídios para os "desfavorecidos" que eles partilharão, na condição de "compagnons de route", aka "intelectuais orgânicos". Mas simpatizo com o dr. Ba. Chamai-lhe "macholice" minha mas aprecio um tipo que vem de fora, negro ainda para mais, e assume posições públicas difíceis. Dele discordo, imenso - o que o homem acaba de dizer do Mithá Ribeiro é uma verdadeira vergonha -, mas tiro-lhe o chapéu ao vê-lo sozinho a andar na rua, sem tergiversar, ainda que rodeado de alguns holigões fascistóides aos gritos provocatórios. Entenda-se bem, esses gajos costumam ser perigosos ... 

Dito isto, vejo partilhada na imprensa e nas redes sociais (e também aqui), em regime de invectivas, esta sessão académica do dr. Ba, um convívio via zoom. Na qual ele repega Fanon e considera que "é preciso matar o homem branco". Erguem-se as vozes contra este "evidente" discurso de ódio. Acontece que o homem não está a apelar à constituição de milícias "negras" dedicadas a matar-me, ou a outros tipos com a minha indigna cor de pele. Está a citar, glosar, está a aludir à sua vontade de destruir um narrativa histórica. Eu discordo dele, mesmo, e até sorrio diante do monumento ao anacronismo. Mas este homem não me quer dar um tiro, quer sim devastar a minha compreensão do mundo, e minar-me(nos) o proselitismo. O que é uma coisa completamente diferente.

Mas o problema fundamental é encontrar alguém que o conheça e que ele ouça, acate. E que lhe explique que, com zoom ou sem zoom, ele não está num campus pois optou pela praça pública. E qu'isto não é uma faculdade (por mais que os burguesotes "radicais de campus" comunitaristas o sonhem). Ou seja, que ele pode usar o Fanon, ou outros quaisquer, pode citá-lo(s), pode glosá-lo(s). Mas depois tem que explicar tintin por tintin o que quer dizer - ele fá-lo um pouco mas não o suficiente. Para aqueles que não estão no campus ...

Porque assim, com esta candura, isto ainda descamba. A não ser que seja esse o objectivo, uma martirofilia. Mas não creio, é mesmo só ...

Um documentário sobre o Gulag

por jpt, em 20.11.20

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(Fotografia de Marc Garanger)

A RTP está a transmitir a série documental "Gulag, uma história soviética", em três episódios, um documentário francês realizado por Patrick Rotman, Nicolas Werth e François Aymé (uma entrevista de Rotman aqui). 

Julgo saber que se trata de uma (interessante) iniciativa da nova directora do Museu do Aljube, a qual organizou (e patrocinou) a transmissão deste excelente documentário histórico no canal público de televisão. Bem haja, Rita Rato. 

Nota: Para prévios elogios a Rita Rato ler  Alexandre PomarJoão Pedro George, Pedro Correia.

Adenda: Quem tiver pressa poderá ver os três episódios aqui.

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A monumental cacetada televisiva que Sérgio Sousa Pinto decidiu dar em Rui Tavares, antigo deputado do Bloco de Esquerda e agora líder do "Livre" - aquele partido que o advogado Sá Fernandes, ex-candidato do MDP/CDE, reclamou como o primeiro partido de esquerda que "não vem do marxismo" (qu'isto não há limites ...) - tem dado para rir, em particular pela sonsice patenteada por Tavares (ver o curto filme abaixo). Sobre isso do agora Livre, do BE e do PCP terem sido dirigidos no Parlamento Europeu por um consabido antigo informador da STASI, a temível polícia política da RDA, bem esmiuça Rui Rocha.

Mas ainda que a tal sonsice tavaresca tão mostrada possa irritar convém não esquecer uma outra coisa. É que a candidata presidencial Matias também faz parte deste pacote. Pois também ela se perfilou num grupo parlamentar capitaneado por um consabido esbirro. É, decerto, um excelente cartão de visita eleitoral.

Enfim, sobre as sempre reclamadas superioridades morais está tudo dito ...

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O eurodeputado Paulo Rangel publicou anteontem no jornal "Público" o artigo "Cabo Delgado, Moçambique  - black lives matter!" julgo que já é de acesso livre (eu estou a consegui-lo). Não concordo com todo o seu teor mas o meu desconforto é por assuntos secundários: 1) não gosto do título pois funciona, de facto, como um remoque aos apoiantes do movimento nele aludido. E não é o momento de provocar "ruídos" entre quem se possa congregar nesta verdadeira causa, em torno do Cabo Delgado; 2) deixa entender que o conflito é entre muçulmanos e cristãos, o que é um reducionismo, tanto daquele universo social como das dinâmicas do conflito.
 
Ainda assim é um texto relevante naquilo que é o mais relevante, a convocatória da atenção activa sobre tudo o que se passa no Cabo Delgado. Até porque, como muito bem diz Rangel, neste momento "A actuação do governo português é tíbia e decepcionante. Limita-se a declarações, quase extorquidas a ferros, do ministro dos Negócios Estrangeiros. Fala no papel da CPLP, mas ninguém ouve falar dela. Em Bruxelas, é tal a timidez dos esforços de Portugal, que ninguém diria que está em jogo a vida de centenas de milhares de cidadãos de um país irmão." E mais: "Nem só o nosso Governo decepciona; também a esfera pública e a sociedade civil desiludem. Diante de crimes tão ominosos, como é explicável este silêncio brando, esta letargia conformada e conformista?"

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Nunca tinha ouvido - com ouvidos de ouvir - o que diz André Ventura. Por isso tive curiosidade suficiente para acompanhar a entrevista de ontem que o (já) decano Miguel Sousa Tavares lhe fez na televisão. É consabido que trinta e tal anos de poda jornalística não trouxeram particular sageza a MST, mas muito mais um arrogante e opinativo blaseísmo. Digamos que ele se tornou no inverso do MEC, outro dos "Miguéis" da geração que se celebrizaram, até como focos identitários, desde os 80s.

Ontem isso foi gritante. O professor Ventura, sem particular carisma ou dons oratórios, propaga o vácuo - aquela da redução abissal dos impostos em troca da diminuição dos ordenados dos deputados e do corte nas fundações estatais e algumas outras (inditas) "gorduras do Estado", como se dizia há anos, é mesmo para "patego ver".

Mas Sousa Tavares ultrapassa-o nessa vacuidade, a qual lhe é decerto catapultada pela sobranceria, viçosa na sua estufa de total inexistência de autocrítica. Para além de erros factuais e de descuido no centramento da entrevista (estava diante de um candidato à presidência, coisa que tarde e más horas recordou ... e para logo esquecer), o jornalista lá veio com o que lhe é tópico constante, o desprezo pelas gentes das "redes sociais" - nós, o público. Pois, claro, além de para aqui andarmos ao engate, como já referiu do seu pedestal moralista, somos ignorantes e pasto de populismo. E depois, o veterano jornalista, escritor de renome, descendente de ínclita geração, confortável no seu bom berço acima desta gentinha dos tuiteres facebuques, pergunta ao candidato "gostava que a sua filha casasse com um cigano?" e "tem algum amigo preto?". Credo!, que ininteligência, que básico. Mais popularucho, mais "redessocial" não haveria ... 

Finda a entrevista fiquei angustiado. Não por crer que o professor Ventura ali tinha ganho simpatias e, porventura, eleitores, agradados com aquela "genuinidade", qu'ele há gente para tudo, até para acompanharem os programas de Sousa Tavares, quanto mais para aquilo. Mas fiquei angustiado pois ocorreu-me a hipótese de a minha princesa, a minha amada filha, me aparecer um dia com um namorado jornalista. Sim, eu tenho amigos jornalistas. Mas mesmo assim que horror! Gente a la Sousa Tavares nos jantares de Natal, quando eles voltarem a acontecer? Ateu que sou, invoco o nome de Deus, que me salve de tal praga ...

 

Vai para a tua terra!

por jpt, em 16.11.20

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo, "Ljubomir Stanisic", manifestação na Baixa de Lisboa, 14.11.2020)

O meu amigo Miguel Valle de Figueiredo continua, paulatinamente, a fotografar esta época do Covidoceno lisboeta - e lembro que já publicou o livro "Cidade Suspensa: Lisboa em Estado de Emergência". Anteontem foi à Baixa fotografar a manifestação de trabalhadores do sector da restauração que ali decorreu. Não conheço o pormenor das reclamações apresentadas nem sei quais os "orgânicos" organizadores. Enviaram-me um filme telefónico com um discurso, algo tétrico, um orador numa torrente de imprecações e insultos a tudo e todos. Boçal. Mas uma boçalidade tão desesperada que pungente, até cativando piedade - talvez o menos solidário dos sentimentos ...

Uma das imagens que o mvf trouxe foi esta, um (ao que me dizem) conhecido cozinheiro e dono de restaurante, Ljubomir Stanisic, que é figura relevante deste movimento profissional, e que tem tido discursos críticos ao poder político - nunca o ouvi, dizem-me que assim é. Trata-se de um cidadão português, antigo imigrante proveniente da Bósnia-Herzegovina.

Entretanto o que leio nas redes sociais?, para o que me chamam a atenção? Um deputado socialista alude ao financiamento bancário que o homem tem, como se isso possa minorar os seus direitos de cidadania - numa óbvia, ainda que subjacente, ameaçadora alusão ao seu estatuto de ex-imigrante, qual cidadão deficitário [e não substituirão o deputado, ainda por cima conhecido por se furtar a uma pena devido a condução inebriada, através de influências políticas, algo vergonhoso ... Pois pecar todos pecamos mas se assim é penar também é para todos]. E leio inúmeras pessoas invectivando que o homem volte para a terra dele. Assim mesmo, sem mais. Que isto de um "estrangeiro" criticar o governo é inaceitável. Esteja ou não naturalizado, pouco importa ... Esta mole humana socialista pensa - e alguns deles falam e escrevem - exactamente como a rapaziada do Chega. Já se vira aquando da eleição do Bolsonaro, quando no Expresso, no DN, na junta de Arroios e por tantas socialistas casas e teclados, se escreveu (e "laicou") que fossem os imigrantes brasileiros expulsos pois maioritariamente eleitores do novo presidente (esse uma peça irrecomendável, mas isso é assunto deles).

Amigo cruel chama-me a atenção para que um deputado (e plumitivo) socratista aproveita a onda e alude pejorativamente à "macholice" deste homem. Uns gritam a este português que vá para a terra dele porque criticou este governo (e mesmo que fosse imigrante isso seria curial, mas a tanto já não se pode imaginar que esta gente chegue ...). E este socratista chama-lhe "machola", como se diminuindo-o.

Fosse este homem oriundo de outro qualquer recanto onde tivesse havido guerra fraticida, tivesse este homem outra cor de pele, e estes pantomineiros gritariam pelo seu direito à livre expressão - para dizer as patacoadas que entender, o que muito provavelmente é o caso. E se fosse um invertido histriónico, uma "bicha louca", também o defenderiam com dentadas e unhadas, ao seu direito para que se exprimisse em liberdade consoante a sua "natureza". Mas não neste caso. Pois, pior do que tudo, crítico do PS. Por isso estrangeiro, devedor, atrevido, até ingrato. "Machola".

Esta gente - locutora, laicadora, e os tantos habituais das "boas causas" agora tão inertes nos clics (des)laicadores e nos irados "indignismos" - é o "Chega". 

Sobre o professor Ventura

por jpt, em 15.11.20

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo; cerca dos Restauradores, Lisboa, manifestação da "restauração" contra políticas governamentais de combate ao Covid-19, 14.11.2020)

Neste fim-de-semana surgem três interessantes textos sobre o professor Ventura, deputado e candidato presidencial.

Em "Basta de Chega" António Barreto insurge-se contra a excessiva atenção, e concomitante eco propagandístico, que imprensa e opinião pública têm dado à, afinal, unideputação do partido Chega. Como muito bem diz "nada justifica tanto barulho. Nada, a não ser os defeitos dos democratas registados e dos políticos consagrados." E, se bem o entendo, deixa entender que esta abrasiva visibilidade do último deputado eleito para a legislatura vigente se deve a uma incompetência geral. Mas à sempre avisada opinião de Barreto falta-lhe - se é que me é permitido adendar algo a um intelectual deste gabarito - um factor decisivo para tamanha visibilidade. É que desde a hora exacta da sua eleição in extremis o professor Ventura foi utilizado pelo(s) movimento(s) comunitarista(s), tanto pelo também neófito (ex-)Livre como pelo já veterano BE, como factor auto-justificativo, mesmo legitimador. Pois desde as 20 e picos do dia das últimas eleições que a, inopinada para o vulgar cidadão, "luta contra o fascismo" surgiu na boca de eleitos e seus correligionários, no anunciado frenesim da luta contra aqueles 60 000 votos no comentador benfiquista, hasteada como estandarte. Depois foi só a imprensa do regime geringôncico e seus colunistas académicos sublinharem o assunto ... Na crença que "é barato e dá milhões"! Ora, e para mal dos ideológicos pecados dessa mole, por um lado (Livre) a peculiar - para não dizer mais .. - personalidade da unideputada comunitarista desbaratou os efeitos, os tais "milhões" da simpatia geringôncica; e por outro lado (BE) a crise covidocena desbaratou esses almejados "milhões", dados os custos tidos com o conúbio com o cada vez mais trôpego governo.

Em "Injectar líxiva na política", José Pacheco Pereira não deixa de ter razão. De facto, para se justificar a inclusão do nada patusco Chega no acordo parlamentar multipartidário no arquipélago adjacente, muitos propalam os imaginários ideológicos hiper-ditatoriais dos partidos comunistas portugueses, por ora conjugados com António Costa. Jpp tem razão quando diz que PCP e BE têm agora "programas activos" bem longínquos dos anseios comunistas do século passado e dos concomitantes rumos genocidas. O PCP tem uma retórica e uma alma colectiva brejnevista mas tornou-se (Lenine que lhe perdoe) um partido sindicalista, algemado aos bens distribuídos pelo capital internacional através da UE e seus agentes em São Bento. Recusando-os, aos itens do bodo, ao "modelo social europeu", veria as diluídas (e idosas, e idosas ...) "massas" fugirem para outro coito. E não podemos continuar a chamar "esquerda caviar" ao BE - eu entendo-o muito mais como "esquerda Tartex", muito mais adequado ao património sociocultural daqueles militantes - e depois considerarmos que o guevarismo retórico indicia qualquer objectivo polpotista ou enverhoxista da rapaziada. Ou seja, nenhum académico ou quadro médio-baixo militante comunitário anseia por sair do tal "modelo social europeu", quer apenas um quinhão mais para o seu sector. Ou para a sua "minoria". Sim, o conselheiro de Estado Louçã pode vir chamar "salteadora" a Merkel e afirmar que a Alemanha gosta desta pandemia pelos ganhos que perspectiva com esta desgraça toda, para minar o "espírito europeu" dos "camaradas". Mas isso será recebido pelas suas hostes tal e qual a atoarda do já moribundo Aboim Inglez a chamar "teocrata reaccionário" ao "sr. Kenzin Gyatso", quando o parlamento português se encolheu na recepção ao líder anti-colonialista Dalai Lama. Pois esses resmungos são-lhes já um folclore, uma pirraça, e vistos como tal, balbuceios de tios gerontes nos almoços de Natal antes do Covid ... Enfim, estou certo de que se deixarmos uma vara na mão comunista conheceremos o vilão. Mas de facto vão eles, comunistas mais-ou-menos comunitaristas, exasperantes que sejam, mui mansos. Coisas do euro ...  E diz bem jpp, apartando-os deste Chega. Pois o grunhismo ideológico destes agora ainda recém-chegados aos "passos perdidos" e ao quotidiano da imprensa diária é muito mais abrasivo. E terá muito mais efeitos junto da gente desaustinada. Companhias de mau porte, por assim dizer.

O terceiro texto sobre o Chega é verdadeiramente fundamental. Trata-se desta fotografia do meu querido amigo Miguel Valle de Figueiredo (ex-bloguista, primeiro no O Restaurador Olex e depois também comigo no velho ma-schamba, homem insuspeito de abismos esquerdistas ou derivas centristas). Tudo o que haverá para dizer sobre o professor Ventura e o movimento político que capitaneia está concentrado nesta imagem. Que tem tudo, mesmo tudo, para se tornar icónica.

Mercantilismo ou Livre-Câmbio?

por jpt, em 15.11.20

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Desloquei-me de casa própria, regressando a Nenhures. Apesar do bucólico aconchegante em que aqui sempre mergulho, tanto que permite imaginar-me um qual Daudet no seu imaginário moinho, senti a falta de alguns confortos aos quais me fui habituando nas últimas destas minhas já quase seis décadas, esses que por ora tomaram o nome de gájetes. Por isso deles me fui abastecer ao armazém oriental da vila próxima, consabidos os aprazíveis preços ali praticados, pois no poupar é que está o ganho ...  

Ontem decidi estreá-los. E ao enfrentar uma cenoura maturada alcei do virginal descascador, encontrando-o inábil para o desiderato. Troquei de raiz, optando por uma mais viçosa, para findar com a mesma desilusão. Cuidadosamente coloquei o objecto proveniente da Celeste República Popular no saco do lixo adequado, fiel à responsabilidade ecológica, enquanto tartamudeei - na liberdade da solidão inescrutável - elogios ao vigor sempre demonstrado pelo em breve ex-presidente gringo, Donald Trump.

Por aqui tantas e tão frondosas são as nogueiras que até por elas se nomeiam os lugarejos. E assim sigo rodeado de cabazes de nozes. Hoje, domingo, acoplei-as ao matabicho - como antes se chamava ao branche - acompanhando um suculento naco de marmelada avoenga. Até temeroso trouxe à mesa o novo quebra-nozes, ainda intacto de mácula. Mas sosseguei, pois estreei-o com sucesso. À primeira noz comi-a com volúpia. E logo passei à segunda. Diante da qual logo se partiu uma haste do artefacto ... Não me preocupei, confesso que até já esperava, por temido, o acontecido. Busquei o martelo e fui abrindo nozes, acompanhando as marteladas com loas à pertinência do professor Ventura, naquilo do Portugal para os portugueses, contra esses mariolas estrangeiros que para cá vêm viver e vender rebotalho. 

 

Pensamento da Semana

por jpt, em 15.11.20

(Trump) Foi eleito pelo Whatsapp, governou pelo Twitter, perdeu pelo Correio! Moral? Não se metam com a velha guarda ...

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

A ler sobre Moçambique

por jpt, em 12.11.20

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Carta de Amor a Moçambique. Um belo, sentido e acertado texto de Paulo Sande sobre a guerra no Cabo Delgado. É bom que alguém com visibilidade pública assim se exprima pois são ainda escassos os pronunciamentos em Portugal sobre algo já tão longo - as agressões armadas decorrem há já três anos! Urge o apoio.

(Fossem as agressões, mesmo que bem menos gravosas, sobre uma qualquer "minoria" consignada como minoria e decerto que a indignação e o falatório luso seriam imensos.)

Adendas: Provável apoio iraniano à guerrilha islamita; dezenas de aldeões decapitados nos últimos dias.

Acerca da dita "primeira-dama"

por jpt, em 07.11.20

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Abaixo botei um postal sobre Melania Trump, e provocou algum acinte nos comentários. Regresso ao tema: nada me move contra a senhora, que é, para meu gosto, muito bem apessoada, razão mais do que suficiente para o meu apreço. Apenas usei o assunto para sarcasmo. Pois muito me irrita isto das pessoas se verem como muito progressistas, atentas às boas causas - à antigamente dita "condição feminina", termo entretanto substituído por "género" , em particular - e que assaltam (ou louvam) a personalidade das esposas dos políticos de que gostam ou que repudiam. E, pior ainda, andam por aí - e quantos e quantas dizendo-se "feministas" - avaliando o desempenho das "primeiras-damas" (mulheres de presidentes da república e mesmo de presidentes de tantas outras coisas ...)

Enfim, a este propósito, e porque é fim-de-semana, aqui coloco um velho postal meu, de 13 de Abril de 2004. É sobre esse tipo de "progressistas", que seguem ufanos - tantos deles agorta muito críticos da mulher de Trump.

Cônjuges presidenciais

Quero chamar a atenção para um aspecto anti-democrático no exercício do sistema político (...)  que trai a República, provável que inconstitucional, decerto que imoral: a existência de uma chamada "primeira-dama", com direito a gabinete e a colaboradores, e de quem se espera e aceita uma actividade pública enquanto tal. Deslize monárquico, mas não sobrevivência - gostaria de ver alguém conhecedor escrever sobre as "primeiras-damas" da I República para poder sedimentar esta ideia de uma posterior, e muito contemporânea, reconstrução subreptícia de um ideal de "família presidencial". Ou seja, não se trata de uma mera continuidade da imagem do casal real, é um recurso "monarquizante" devido, muito provavelmente, às pressões do marketing político e a influências externas (First Lady americana como paradigma?).

Nunca nada me moveu contra as Senhoras cônjuges dos Presidentes da República. Mas não lhes posso aceitar nenhum papel público enquanto tal. Como cidadãs sim. Mas nunca como mulheres de (Senhoras de ...). 

Dir-se-á que têm obrigações de representação. Não é nada de natural, é uma opção política. Mas até a aceito. E também que se gaste muito e bom dinheiro com a sua representação.* Mas nada mais. Nenhum outro papel se lhes poderá aceitar. Na República vota-se num cidadão para exercer funções. Apenas isso - e é um enorme, respeitadissimo e, lembre-se em alturas de efemérides políticas, conquistado "Apenas"! Tudo o resto são desvios, graves, à lógica, à moral, à ideologia republicana.

Ainda mais me espanta a cega aceitação de que as Senhoras cônjuges dos Presidentes tenham particular atenção e acção pública em áreas determinadas: a saúde materno-infantil, os desvalidos, a segurança social, o apoio aos idosos, as catástrofes, a educação básica e, aggiornamento óbvio, as minorias étnicas. E, claro, as modas e bordados, perdão, a moda. Mas na sua (ilegítima, repito) acção nunca surgem elas ligadas à investigação científica, aos mineiros, à questão das pescas, ao desporto de alta competição, à indústria, à reforma da administração pública e eníssimos etcs.

Ou seja, no seu (ilegítimo, birrepito) papel as Senhoras cônjuges dos Presidentes nada mais fazem do que repetir a velha divisão sexual de trabalho, as dicotomias de género da família burguesa de XIX-XX: o doméstico, a socialização das crianças, os desvalidos, os doentes e idosos.

Esta é já uma dimensão sobrevivência que uma sociedade em franca transformação das relações de género assiste complacente. E nenhum(a) paladina dos fervores feministas surge reclamando contra este vero folclore. O que me não me espanta. Mas diverte, pois atento ao folclorismo maximalista dessa mole tonitruante.

Para os trinta anos de exercício democrático da República bem que se poderia romper com este atavismo de género. Mas mais do que tudo romper com esta traição ao ideal republicano.

* Li algures que é costume os costureiros portugueses emprestarem vestidos às cônjuges dos presidentes (ou pelo menos deste último: o qual muito prezo, e de quem sou eleitor, para que não se pense que há aqui qualquer ataque pessoal). Que tal acontece principalmente aquando de visitas ao estrangeiro, para divulgação da moda portuguesa. Não sei se isto é verdade. Li e espero que não seja. Porque seria semelhante ao Presidente andar a pedir roupa emprestada nos alfaiates. Ou usar t-shirts da Sumol ou Super-Bock para defesa da indústria portuguesa.

Portanto decido-me, dogmático. O que li é mentira! Se não for, pague-se, pague-se o que for preciso para que a representação do casal presidencial seja o melhor possível. Mas não os usem, nunca, para publicidade empresarial. Qualquer que seja ela.

A primeira-dama

por jpt, em 06.11.20

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Cada vez mais parece possível que o actual presidente americano perca estas eleições. Deixo aqui o meu elogio à Senhora de Donald Trump, actual Primeira Dama: pela sua beleza e impecável elegância. E porque sempre incansável no zelo pelos desvalidos - doentes, empobrecidos -, pelos idosos, pelas crianças, no âmbito da nobre missão que lhe coube abraçar. Foi, é, e decerto continuará a ser um símbolo da feminilidade. Uma verdadeira "european queen". Fará falta!

Da candidata Gomes

por jpt, em 30.10.20

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Morreu Sindika Dokolo, genro de Zedu, marido de Isabel dos Santos, ao que foi noticiado devido a um acidente de mergulho. Goste-se ou não da elite angolana esta reacção da candidata Gomes é vergonhosa. Pois de imediato alude a teorias conspiratórias, típicas não dos informados analíticos mas dos desinformadores e dos ignorantes. Mas muito pior é esta reprodução de uma mísera "boca", a de que o sinistrado "morreu offshore".

Breve momento a mostrar o carácter e a mundivisão desta candidata Gomes. 

(Mensagem do prior de S. Nicolau, 25.10.2020)

Sou ateu. Não anticlerical - um antropólogo anticlerical seria uma espécie de oxímoro carnal. Mas se há algo em que sou fundamentalista é na defesa do ilimitado direito à blasfémia. Porque é a questão fundamental da liberdade intelectual, fruto de imensas guerras. E é aquele traço ao qual os imigrantes têm que se assimilar e no qual os naturais têm de ser socializados. Ou seja, na nossa (pérfida, dizem os dos ademanes) sociedade ninguém tem o direito de não ser ofendido. E quanto mais idolátricos são os crentes maior a necessidade e legitimidade da iconoclastia, mesmo que eles sejam "minorias" muito pobrezinhas e discriminadozinhas, coitadinhas ... Avanço isto, incompreensível para gentes como Ana Gomes e seus apoiantes, mais a ganga de comunitaristas espontâneos que para aqui andam tão ciosos deles mesmos e das suas militâncias, e que não percebem o que é a laicidade do Estado e da sociedade, para lembrar que tudo isto é siamês de outro princípio fundamental desta nossa laicidade conquistada: a liberdade de culto.

Ora o que este governo tem andado a fazer, no seu ziguezaguear covídico, é, de facto, uma refracção preguiçosa do anticlericalismo republicano. Serôdio, inútil. É um quadro mental patético, porventura até vivido de modo inconsciente. E sinaliza o disparatado em que decorre a administração da saúde, como o resmungam os profissionais.

A excelente prédica deste padre, insurgindo-se contra a proibição do culto aos antepassados, diz tudo o que é preciso ouvir. Que o Deus dele o tenha na sua santa guarda.

 
 

Mascarados na rua

por jpt, em 26.10.20

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"Diz que" teremos de andar mascarados na rua. Se a defesa contra a pandemia a isso apela não serei eu a opor-me. E nem sequer me questiono como é que este tipo não tem a dignidade de se demitir, por "razões pessoais" ou "reforma", seria pedir-lhe demasiado face ao que é. O que me surpreende é que nenhum dos dele lhe diga para ir saindo. Septuagenário vácuo, apagável. Nulo.

Um abraço

por jpt, em 25.10.20

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Hoje, manhã de domingo, bebo um café, dois mesmo, com amiga que há muito, demasiado, não via, pois ela emigrada. Ainda tão bela, entusiasmante, até balsâmica, como o era aquando nós no liceu e no sempre depois, porventura mesmo mais se me deixar acreditar neste sentir já trôpego. Conversa larga, rápida mas larga. E diz-me que se testou com a competência necessária. E depois foi a casa da mãe, agora octogenária, já viúva: "Mãe, há quanto tempo é que ninguém a abraça?". "Há mais de seis meses, filha". E abraçaram-se, como é óbvio que deve ser.

O estado da arte

por jpt, em 25.10.20

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Raramente leio o "Expresso". E nunca leio Clara Ferreira Alves. Ontem uma amiga convocou-me: "Lê a crónica da CFA". Li. E recomendo-a, pois é uma boa descrição do actual "estado da arte" português. Trata-se de "O Torso Dispensável".

(Como o texto tem acesso reservado a assinantes poder-se-á ler uma transcrição parcial, mas quase completa, aqui.)

As eleições americanas

por jpt, em 24.10.20

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Ralf Dahrendorf, François Furet, Bronislaw Geremek conversaram sobre o futuro da Europa após a queda do comunismo, durante o Inverno de 1991/1992, com a moderação de Lucio Caracciolo. Trinta anos passados é interessantíssimo (re)ler este "A Democracia na Europa" (Presença, 1993), recordar as perspectivas sobre o remoldar da União Europeia e da Europa, sobre o papel dos intelectuais, da cultura na construção e manutenção da democracia, etc. É notável a clarividência e a densidade destes três enormes intelectuais liberais (aqui, aos seus  nomes juntei ligações para artigos elucidativos sobre a dimensão de cada um deles). E será também importante recordá-los para comparar com os dislates constantes que se vêm lendo nos últimos largos anos, largados por "liberais" lusos, meros idólatras do mercado e de um profundo autoritarismo (reaccionarismo, dizia-se), que não passa de afascistada aversão à democracia. E, sempre, à cultura e aos intelectuais. Quem leu blogs ditos "liberais" saberá do que aqui falo, desse boçalismo inculto.

Mas o que trouxe este livro ao blog foi estar a folheá-lo no dia do último debate das campanha eleitoral americana, que encheu as estações televisivas nacionais e internacionais. Pois atentei neste meu velho sublinhado.  O qual, mutatis mutandis, muito descreve o que se passa naquele país. 

Abordando a queda do comunismo soviético e europeu disse Geremek (pp. 47-48): 

"Gorbachev é um dos factores decisivos para se compreender a implosão do império soviético. Um dia, estava eu a falar com Jakovlev, conselheiro e amigo de Gorbachev e considerado o pai espiritual da perestroika. Perguntei-lhe: "Como é possível que, a um dado momento, você e Gorbachev tenham decidido empenhar-se numa empresa tão perigosa?" "Trata-se de um facto biográfico", respondeu-me, "eu tinha dito certas coisas que não agradavam aos meus camaradas, que me mandaram para o exílio no Canadá, como embaixador. Um dia, Gorbachev foi visitar o Canadá. Fomos passear para o campo para podermos falar livremente, sem sermos controlados pelos microfones da KGB. E vimos que estávamos de acordo. A crise do nosso país era muito grave, e o contacto com a realidade do Ocidente, com as suas proezas económicas, tinha-nos convencido de que era necessário reformar profundamente o nosso sistema."

"No entanto, depois disso, houve sobretudo um facto que nos fez compreender a necessidade da perestroika. No Comité Central do PC havia um dirigente particularmente imbecil, que não sabia nada de nada, e que era utilizado quando não havia nada de importante a fazer. Chamava-se Chernenko. Ora, depois da morte de Andropov, é ele, Chernenko, que é eleito para secretário-geral do partido. Um homem como Chernenko à cabeça de uma das duas superpotências do mundo! Era intolerável! Se um sistema coloca um homem como Chernenko no seu topo, isso significa que esse sistema está muito doente. E foi por isso que nós, Gorbachev, eu e alguns outros, decidimos que chegara a altura de reagir."

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Em Março de 2017 o professor Jaime Nogueira Pinto, homem consabidamente de direita, viu cancelada uma conferência para qual havia sido convidado, a realizar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. O motivo foi a ameaça de acção violenta feita pela Associação de Estudantes, disse-se que ligada ao BE, auto-legitimada pela ideologia do orador. A direcção da faculdade atemorizou-se e cedeu. Os organizadores propuseram pagar a protecção policial. A direcção negou-se a fazer entrar a polícia no espaço universitário, uma já saudável tradição académica, mesmo que para defender o fundamental direito de liberdade de expressão. E de associação. Então a organização propôs arranjar segurança privada. A direcção recusou, e cancelou definitivamente a acção. Seguiu-se polémica. Vários professores, dali e de outras instituições, vieram a público mentir - quem acredita que há um qualquer "Juramento de Hipócrates" vinculando os académicos à demanda da(s) verdade(s) está redondamente enganado - clamando que o objectivo da organização era convocar os holigões neo-nazis para a universidade. Em privado alguns académicos - daquele vácuo eixo MES/BE - foram-me dizendo, com desplante sorridente, "ah, também o Nogueira Pinto é muito reaccionário ...". Sê-lo-á, porventura. E depois, que interessa isso?, calei eu, já então enojado com o ambiente geringoncico desta pequena lisboa, do campo grande à avenida de berna, "do choupal até à lapa" ... Mas do episódio retive três dimensões: o aldrabismo de tantos intelectuais; a cobardia académica; que só em situações extremas é que a polícia entra nos campi, nem mesmo para defender direitos fundamentais.
 
Leio agora, através do texto do Pedro Correia, que a PSP foi chamada, por denúncia anónima, e acorreu à Faculdade de Arquitectura, com desconhecimento da Direcção académica. Que deteve e multou um professor à porta da sala de aula. Devido a ter este retirado a máscara durante um período da sua prelecção. Passaram alguns dias. Googlo e não encontro quaisquer reacções, daquela faculdade, do seu corpo docente, ou no restante mundo académico, individual ou organizacional.
 
Para além do choque com esta mentalidade delatora e com este excesso de zelo, inculto e ilegal, de uns quaisquer polícias, o que se pode retirar? Que para o mundo universitário português é normal, e até requerido, evitar a acção policial para defender as liberdades de expressão e de associação. Mas que é mais do que aceitável, até requerida, a sua acção para obrigar a usar máscaras em espaço académico. Mesmo sem permissão ou solicitação das autoridades universitárias.
 
Não haja dúvida de que se vive uma histeria sanitária, promotora de mentalidades antidemocráticas. Mas o silêncio corporativo também nos mostra outra coisa. Que naquele meio existem, como se diz na tropa, "filhos de muitas mães". E isto até para mau entendedor chega ...
 
(A latere: ao colocar este texto no blog pesquisei o logotipo da Faculdade de Arquitectura para o ilustrar. Para me deparar com uma figuração completamente .... maçónica! Como é isto possível, estes termos para a representação de uma instituição pública numa república laica? Como não se exige a depuração deste simbolismo?)

O Sequestro da Minha Mãe

por jpt, em 21.10.20

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(A Mãe de Franz Marc, 1902)

A minha mãe Marília tem 94 anos. Há pouco mais de uma década que vive numa "residência". Foi ela e o meu pai António que nos anunciaram a sua opção de assim continuarem, suprema forma de consciência e, mais do que tudo, coragem. Alguns anos depois o meu pai morreu. Ela seguiu, continua. Cada vez mais só, desaparecida a sua geração, familiares, amigos, colegas, até alunas. Valem-lhe os bons cuidados "residenciais". E a estremosa filha, genro e noras. E tanto também o meu mano-velho, que o Atlântico apenas fisicamente aparta. Não tanto o meu angustiado descuido. E alguns lampejos de netos e bisnetos, em família carregada de emigrantes.

Desde Março que dela nos apartámos, em precauções até anteriores às normas estatais. Pois família informada e racional, e também de médicos, de gente nada negacionista dos cuidados face à gravidade disto que passamos. Depois, meses passados, já na alvorada do Verão, passámos a ter direito a visitá-la. Um visitante por semana, meia hora apenas, no exterior das instalações, no aprazível jardim. E em grupos íamos vê-la, alguns apenas à "paliçada" do jardim, saudávamos, a mostrarmo-nos, e falávamos breves minutos. Depois um de nós entrava para o breve período, conversando sob as árvores e junto ao lago onde tartarugas fazem as vezes da fauna bravia.

Há mais de dois meses surgiu um surto de Covid-19 na residência. Infecções em vários funcionários e em metade dos residentes, estes octogenários e nonagenários. Mas não na minha mãe. As visitas foram canceladas, mesmo aos residentes que não haviam sido infectados. Como é óbvio sem qualquer razão sanitária para a estes se lhes vedar as visitas, nos moldes sanitários vigentes. Mas compreendemos a angústia da instituição e a escassez de recursos humanos que adveio - e mesmo sabendo nós, até profissionalmente, que este isolamento nos idosos acelera, e muito, os síndromes demenciais.

Os residentes foram recolocados, apartando os infectados dos outros. E confinados aos aposentos. A minha mãe - pela primeira vez desde os seus tempos de estudante - passou a partilhar um quarto com uma "vizinha". Lamentou-se-me um pouco, dessa partilha de espaço e de ao quarto estar confinada. Bisneta de militar, neta e sobrinha-neta de militares, filha e sobrinha de militares - de oficiais da Flandres a cadetes do 28 de Maio, tantos depois coronéis que in illo tempore o meu pai, algo civilista, dizia que aqueles almoços de família lhe faziam pensar que estava na Grécia -, irmã de militar, mãe de militar, mãe, sogra, tia de vários mobilizados para as "guerras d'África", diante desse seu lamento, eu, o benjamim estapafúrdio apesar de já neste estado, mobilizei-a para a guerra: "Mãe, a senhora ao seu lado não é sua colega ou vizinha, é uma camarada, isso não é um quarto é uma camarata! Esta é a sua campanha, a guerra contra os Covid-19!". Numa réstia de força riu-se, de lá, num "é isso, filho, esta é a minha guerra!". Mas à minha irmã confessou-lhe, em visceral ironia, "aqui fechada no quarto estou a cumprir uma pena?".

Entretanto passaram meses, nenhum dos residentes infectados adoeceu. E cumpridas foram as sucessivas rondas de testes requeridas. E há já três semanas que não há qualquer razão para que se impeçam as visitas. A não ser as delongas burocráticas - dizem-me que as autorizações da Administração da Saúde, uma qualquer absurda "desinfecção do edifício", sei lá o que mais.  Entenda-se bem, a única razão para que não possamos visitar a minha mãe é o pânico institucional, a histeria. E a modorra burocrática. Uma mescla que é apenas crueldade. Inconsciente crueldade. E assim está a minha mãe sequestrada! Apenas isso, tudo isso. E, tão audivelmente, a definhar. Tão dolorosamente a definhar.

"Escreve", dizem-me, autorizam-me ... "escreves sobre tudo, escreve sobre isto", sobre o sequestro da minha mãe. E, decerto, o das mães e pais de tantos outros. Há semanas que o ensaio. Mas que dizer?, pois quando o começo só ouço Brel, o Brel do meu pai que me faz falta, o Brel do meu pai com a minha mãe. Porque ele cantou tudo isto, nisso dizendo o que era necessário. E cantou que fossemos homens. Sede-o, sejamo-lo. Conscientes mas sem esta absurda, disparatada, crueldade.


(Les Deux Fauteuils, original de 1953)

J'ai retrouvé deux fauteuils verts / Dans mon grenier tout dégoûtant / C'est le fauteuil de mon grand-père / Et le fauteuil de grand-maman // L'un est usé jusqu'à la corde / Souvent l'on dormit dans ses bras / Il est lourd de la sueur qu'il porte / C'est le fauteuil de grand-papa // L'autre presque neuf n'a de-ci de-là / Que quelques tache d'argent / Sur le dossier et sur les bras / Grand-mère y a pleuré dedans // Tout petit home de grande joie / Vous les connûtes encore amants / Se tenant tendrement les doigts / Disant les mots qu'on aime tant // J'ai retrouvé deux fauteuils verts /Dans mon grenier tout dégoûtant / C'est le fauteuil de mon grand-père /Et le fauteuil de grand-maman
 
 
E por isso prossigo: 
 
 
(Les Vieux, original de 1963)
 
Les vieux ne parlent plus ou alors seulement parfois du bout des yeux / Même riches ils sont pauvres, ils n'ont plus d'illusions et n'ont qu'un cœur pour deux / Chez eux, ça sent le thym, le propre, la lavande et le verbe d'antan / Que l'on vive à Paris, on vit tous en province quand on vit trop longtemps / Est-ce d'avoir trop ri, que leur voix se lézarde quand ils parlent d'hier? / Et d'avoir trop pleuré, que des larmes encore leur perlent aux paupières? / Et s'ils tremblent un peu, est-ce de voir vieillir la pendule d'argent / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non", qui dit: "Je vous attends"?
 
Les vieux ne rêvent plus, leurs livres s'ensommeillent, leurs pianos sont fermés / Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter / Les vieux ne bougent plus, leurs gestes ont trop de rides, leur monde est trop petit / Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil et puis du lit au lit / Et s'ils sortent encore, bras dessus, bras dessous, tout habillés de raide / C'est pour suivre au soleil l'enterrement d'un plus vieux, l'enterrement d'une plus laide / Et le temps d'un sanglot, oublier toute une heure la pendule d'argent / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non", et puis qui les attend
 
Les vieux ne meurent pas, ils s'endorment un jour et dorment trop longtemps / Ils se tiennent la main, ils ont peur de se perdre et se perdent pourtant / Et l'autre reste là, le meilleur ou le pire, le doux ou le sévère / Cela n'importe pas, celui des deux qui reste se retrouve en enfer / Vous le verrez peut-être, vous la verrez parfois en pluie et en chagrin / Traverser le présent en s'excusant déjà de n'être pas plus loin / Et fuir devant vous une dernière fois la pendule d'argent / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non", qui leur dit: "Je t'attends" / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non" et puis qui nous attend
 
E termino com o que é necessário:
 
 
 
(Le Bon Dieu, original de 1977)
 
Toi / Toi, si t'étais l'bon Dieu / Tu f'rais valser les vieux / Aux étoiles / Toi, si t'étais l'bon Dieu / Tu allumerais des bals / Pour les gueux // Toi / Toi, si t'étais l'Bon Dieu / Tu n's'rais pas économe / De ciel bleu / Mais / Tu n'es pas le Bon Dieu / Toi, tu es beaucoup mieux / Tu es un homme // Tu es un homme / Tu es un homme


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