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Delito de Opinião

Armas americanas

jpt, 25.05.22

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Cartão de Boas Festas, Natal de 2021, do congressista republicano Thomas Massie (Kentucky).

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Cartão de Boas Festas, Natal de 2021, da congressista republicana Lauren Boebert (Colorado).

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Cartão de Boas Festas, Natal de 2021, do senador republicano  Rick Brattin (Missouri).

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Cartão de Boas Festas, Natal de 2015, da deputada estadual republicana Michele Fiore (Nevada).

A escandalosa violência armada nos Estados Unidos é algo com que convivemos, recebendo-a amansada pela indústria de entretenimento cinematográfico e televisivo. Ainda assim custa a perceber a placidez daquele país com os constantes massacres civis, em particular nas escolas. Agora aconteceu mais um. Tétrico. E mais uma vez as notícias falam da problemática liberalidade na aquisição de armas nos EUA, rigidamente defendida por sectores políticos predominantemente do partido Republicano. Não vou repegar na questão, que é ciclicamente abordada. Apenas frisar o meu espanto face a esta desregulação, lá naquele país, que provoca tamanhas desgraças.

Felizmente estas temáticas são-nos estranhas, pois seguimos país com baixo nível de criminalidade e sendo esta também pouco violenta. Mas há uma ponte para o ambiente daqui. Pois desde a década inicial de XXI, com o advento do bloguismo e depois das redes sociais, que pude constatar o assumir em Portugal da dicotomia "direita"/"esquerda" como mimetizando o embate "republicanos"/"democratas" nos EUA. E nisso havia um frenesim de uma certa direita (e muito de uma "jovem direita", quais jovens turcos) - que então até se apresentava como "liberal" (que eu conheci nos blogs Blasfémias e Portugal Contemporâneo, para falar apenas naqueles que ainda seguem) - em se assumir como "republicana". Isso via-se com a adesão acrítica a Bush filho, à raiva contra Obama (que aparecia como um perigoso esquerdista....). E depois com um progressivo encanto, implícito ou explícito, com a "alt-right" e com o Tea Party. Daí ao apreço ao boçal Trump - cujo mercantilismo era surpreendentemente amado pelos tais "liberais" -, ainda que este tenha um conteúdo político algo diferente, foi um pequeno passo nas teclas.

É certo que isso mostra um enviesar destro na política europeia, a desagregação das "esquerdas" (tantas delas verdadeiramente sinistras) nestas duas últimas décadas. O qual abre espaço para que europeus (e do Sul, ainda para mais) possam pensar como "esquerda" o anafado Partido Democrata norte-americano, e usem o espectro político dos EUA como analogia para debater o processo político nacional (ou europeu). Mas muito mais do que isso permite perceber que estes (portugueses) adeptos "republicanos" não percebem - nem querem perceber - quem apoiam ou, pelo menos, em quem se revêem. Há década e meia poderiam rir-se um pouco dos dislates da candidata Sarah Palin, mas pouco mais criticariam. 

De facto esta "alt-right", boçal, violenta, ignorante, não se reduz a uns "ressentidos" com a "globalização", o velho operariado do "midwest", o sempre referido "lixo branco". Pois é também a expressão política (e cultural, naquele patético "criacionismo", um fundamentalismo cristão que a nossa tradição católica despreza há... séculos) de enormes interesses de elites económicas, amplamente cosmopolitas. Que inclui, mas nele não se esgota, o comércio interno armamentista. E expressa-se através deste tipo de políticos, que se ilustram deste modo. 

Como é que há gente que aqui no rincão sai à rua (às teclas) defendendo este tipo de gente, priorizando-os como aliados, e até condutores, é coisa compreensível. Mas inaceitável.

Liberdade de Imprensa

jpt, 22.05.22

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A organização "Repórteres Sem Fronteiras" organiza um anual Relatório de Liberdade de Imprensa Mundial. Este ano coloca Portugal no 7º lugar em termos de liberdade de imprensa, num universo de 180 países. É muito bom (e sobre isto será de ler um texto de António Barreto, num contentamento sem triunfalismos).
 
Não quero deixar de referir o quanto esta avaliação sublinha a hipocrisia e a desonestidade intelectual (ou seja, pessoal) da amálgama de intelectuais (académicos, quadros, jornalistas, colunistas) comunistas ("brejnevistas" e "esquerdistas") que vêm reclamando serem "perseguidos" e "criminalizados" devido à sua adesão ao imperialismo russo. Pois, como isto comprova - se tal fosse necessário - publicam as suas "teses" onde e quando querem. E seguem desprovidos de pingo de vergonha que seja...

Blogue da semana

jpt, 21.05.22

Lucy Pepper era uma das afamadas bloguistas naqueles tempos da blogosfera, britânica há décadas residente em Portugal, conjugando imenso talento gráfico com um olhar e uma verve vitriólicos, uma imperdível mescla debruçada sobre o rincão, seus visitantes e até também o alhures. E disso pelo menos um livro brotou, "Como Não Morrer de Fome em Portugal". E mais tarde também veio a botar (em português) no "Observador" (textos de arquivo disponíveis a assinantes). 

Entretanto, e como tantos outros dessa era inicial, desblogueara-se, transitando para as plataformas mais apelativas, ditas "redes sociais". Agora, tendo bem concluído que "Humans haven’t evolved to have arguments in 280 characters. That’s why I’ve come back to my blog",  aí está no seu blog de Lucy Pepper. Ilustrando e escrevendo em inglês também sobre o país - seu turismo, por exemplo, como no texto com a ilustração que encima este postal, ou numa deliciosa colecção de cartoons (a la João Abel Manta) sobre o assunto.

Enfim, fica o aviso sobre o vitriólico regresso da Lucy Pepper ao bloguismo.

A vida

jpt, 21.05.22

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Estou numa esplanada, ao Vale dos Barris, com uma bela imperial mas sem um livro. Por isso corro o FB, a distribuir laiques como se estivesse no metro. Nisso vejo que Byrne fez 70 anos há 6 dias. E lembro-me que há 30 e tal anos, espólio acabado de cumprir, regressei à casa paterna, olhei para o meu quarto desde a meninice e arranquei da parede (guardando-os) os dois últimos resquícios da adolescência: Lou Reed (em "poster" da Música&Som) e a fotocópia da letra desta "Once in a Lifetime". Arranquei-os da parede, e fiz mal, mas não cá de dentro.

Cheap Trick

jpt, 16.05.22

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Cheap Trick - I Want You to Want Me (from Budokan!) [Official Video]

A idade é isto, a tendência para resmungar com o que se passa, na desesperança de "isto ir lá", ainda que não saibamos bem para onde, e nisso a perdermos todo o resto. Dito isto, aporto hoje a meio da tarde na "Miradouro", meu local de refúgio quando a Sul do Tejo. Encosto ao pequeno balcão - belíssima imperial, vera "tulipa", face à capitosa oferta do pires do amendoim agregado ao pires do tremoço, essa mescla "comme il faut", e hoje ainda o cúmulo do pires de caracóis, e estes também marcham "malgré moi-même", que em Roma sê romano, única coisa de antropologia de que ainda me lembro, decerto por a ter aprendido bem antes da universidade, em casa-própria (que chega de galicismos). E estou eu ali a atrapalhar os destroços à que chamo dentadura, essa minha "ucrânia", e no rádio toca esta "I want you to want me". Rio-me alto, "o que foi?" perguntam-me detrás do balcão, onde mora um tipo porreiro, "é esta música" desculpo-me, sem lhe dizer o quão omipresente ela foi num antes longínquo, mesmo que rockezito piroso ou talvez mesmo por causa disso... "É dos tempos!" diz-me o mais novo... E mais me rio, na breve memória das festinhas liceais dos finais de 70s. E concluo, neste agora só para mim, que a vida veio a ter menos "charme" (afinal, mais um galicismo) do que imaginei. Mas não seja por isso, sorvo mais um caracol e beberico a bela imperial. E trauteio, juvenilizado, "i want you etc..."

Ucrânia vence o festival da Eurovisão

jpt, 15.05.22

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(Postal para o meu mural de Facebook)
 
Por aqui, uns vasculhando outros mais à superfície, partilham os operáticos, por hoje lamentando a morte "da" (comme il faut) Berganza, os etno-ouvintes, agora mais dados à kora do que à cítara e quase nada à flamencada, os nacionaleiros, "que não há como o fado/a marrabenta/...", a malta do jazz - mas não muito "free" -, dos standards ou das lendas - ainda que Dexter siga esquecido -, e menos do actual, aqueles do canto de intervenção, Fausto ou Violeta Parra, muito mais Karajan do que James Last, os memorialistas, - esses do slow "com que roçaguei a Maria(na)/o Manel" -, os do rock, progressivo, indie, southern, n'roll, até heavy, and &, e os da "chanson", française, ou da sempre MPB, mas sem o grande Roberto Carlos noto, um ou outro escasso do blues, e nem discuto se R&B, e, claro, os dos crooners, alguns do Patxi Andión e vizinhos andaluzes, e há até quem se lembre de Savall, e ainda restarão uns já anciãos, balbuciando "inesquecíveis" pérolas do festival de San Remo.
 
Dito todo este quotidiano não deixo de sorrir ao vê-los, empertigados em pantomina, discutindo o Festival da "Canção" na Eurovisão de ontem. Os "faxos" e os "comunas" irritados, os "intelectuais", ditos melómanos, lamentando da justeza dos resultados, dos "interesses" envolvidos, das qualidades dos intervenientes, da subalternização da "música" à "política" e isso. 
 
Enfim, não vejo um festival desses desde o "sobe, sobe, balão sobe" ou das rutilantes "Doce". Mas se os devastados ucranianos vibraram com a sua vitória, um décimo que seja do que os tontos lusos há anos com aquela tralha do rapaz que dá traques em palco... então ainda bem.
 

O Pacto 2022

jpt, 15.05.22

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Nos últimos anos, nesta era de redes digitais quase-rizomáticas (sê-lo-ão menos do que parecem mas também não há uma "Manápula Invisível" a controlar tudo isto), uma das vias discursivas mais histriónicas foi a de uma amálgama, a "direita profunda" europeia - alguma dela "extrema", no sentido fascizante, outra mesmo "profunda", no sentido hiper-conservador. À (minha) vista desarmada não se lhe consegue fazer um enquadramento sistémico, talvez só possível para quem lhe estude os discursos, práticas e organizações. Assim leigo e míope apenas os digo "antidemocráticos", mas também - o que não é equivalente - "anti-europeístas" radicais, "soberanistas" furibundos, mesmo que muitos com roupagens de liberalismo económico. E em tantos deles um exultante anti-intelectualismo (por exemplo as aspas nas "ciências sociais" é-lhes um penduricalho típico, de que não conseguem abdicar, um verdadeiro dildo moral).
 
Enfim, a gente viu-os frenéticos trumpianos - crentes até no esquerdismo do já velho Tea Party -, fervorosos brexiteers - ululando com as vagas imigrantes (de Leste, de Leste...) que devastam a nada pérfida Albion -, atentos à maldade universal dos islâmicos - excepto, lá mais pelas franças, à dos palestinianos que combatem os execráveis judeus -, bolsonarizados - apesar das nenhumas expectativas quanto àquele país pardo -, firmes contra a ditadura do Eixo Bruxelas-Estrasburgo, essa inumana elite burocrática. Activos nas trincheiras contra essa invenção do "marxismo cultural", as fake "alterações climáticas". E, mais recentemente, combatendo essa tão lucrativa falácia dos capitalistas (judeus?) farmacêuticos, as nazis vacinas contra o Covid-19.
 
E outras causas terão defendido nas quais - por indolência - não terei atentado. Sempre com frenesim (até robótico) discursivo. E sempre com fundamentos de cariz científico (hélas!) ou empírico, um "saber de experiência feito" inacessível a todos-nós, os outros. Pois seguimos alienados por uma imprensa ao serviço desses interesses plutocratas, contra os quais corajosa e loquazmente combatem.
 
Foi muito (mas não só) a propósito desta imensa tralha, sucessivas patacoadas, entre inventonas, trocas de nuvens por Junos, atrapalhados paleios com embrulhos em "cientifiquês", tudo em refogados anunciando adstringentes conspirações contra os "bons povos", que se veio falando das célebres "fake news". Ou seja, de um aldrabismo constante - já não a ultrapassada propaganda falsária manufacturada pelo pobre bloguista socratista ou pelo Palma Cavalão das actuais televisões, mas esta vertiginosa capacidade de em ápices perorar insanidades automatizadas, logo absorvidas por moles ávidas de iluminação.
 
Ora o que é mesmo "engraçado" é ver, quase todos os dias, como neste 2022 os velhos comunistas brejnevistas e os novos comunistas (aka, "alterglobalistas" de ascendência enverhoxista/trotskista ou coisa que o valha, mesclada com o legalize it e os 30 kms à hora), andam a partilhar por estas redes sociais estas tralhas todas, agora dedicadas àquilo da Rússia na Ucrânia. Usam exactamente as mesmas fontes, seguem os mesmos argumentos, vivem a mesma sanha contra a mesma "Manápula Invisível". Agora já não falam de "Fake News". Mas sim de "Fontes Alternativas" ou, mais profundo, "Pensamento Diferente". É uma verdadeira revolução coperniciana, promovida pela Rússia do sábio Putin...
 
Este vazio intelectual esquerdista não me surpreende. Mas o prazer com que o afixam? Isso já espanta. Enfim, para não me dizerem anti-russo, vou apanhar Sol e reler o "Pnin".

Prisões

jpt, 13.05.22

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Leio no Facebook várias pessoas - e até "doutores", "altos quadros" como se dizia - lamentando o destino de Rendeiro mas alinhavando que o homem pagou assim os seus crimes. Que gente hedionda, uns com Cristo na boca e nas teclas, outros sem o tal Cristo. Mas todos demoníacos. Pois Rendeiro terá sido trapaceiro, fraudulento. E decerto que arrogante e descuidado - ao sabê-lo preso em Durban logo me perguntei, sem saber dos trâmites que se seguiriam, e até julgando que seriam rápidos, "o que é que passou na cabeça ao mariola para se arriscar a ser prisioneiro na África do Sul?". Enfim, um criminoso antipático, sem sequer pitada de romantização possível, daquela com que tantos outros são aspergidos. Agora considerar que é expiação um velho enforcar-se - porventura porque "não aguento mais!" ou, e espero bem que assim fosse, um apenas "que se foda!" - depois de seis meses de inferno concentracionário?
 
Entretanto e porque já me cheira ao choradinho de que lá nas Áfricas as prisões são horríveis - e, grosso modo, são-no - quais as "selvas" dos "selvagens" que antes se diziam, recordo os dados a estes deslizes da ignorância o que se passa na pérfida Albion: o (meu) grande Boris Becker, ídolo da juventude, está preso por uma falência fraudulenta, mais um desportista campeão arruinado. Encarcerado numa prisão de Londres, onde penou Oscar Wilde, e que segue em regime qual romance de Dickens.
 
Os prisioneiros são todos iguais: nenhum deles expia crimes suicidando-se. E nenhum deles merece prisões execráveis. Das quais os "doutores" (de Cristo ou sem Cristo) só se lembram quando há um preso "notável".

2 centímetros de futebol

jpt, 08.05.22

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Ontem, no decisivo Benfica-Porto, foi anulado um golo por fora-de-jogo de... 2 centímetros. Resmungam os benfiquistas, lamentam-se os sportinguistas - nós, os do "leão", ainda que estivessemos já algo desesperançados, maldizemos a regra em uso. Mas, justiça seja feita, se o bambúrrio nos tivesse bafejado, e o clube tivesse acabado campeão tal teria acontecido através de uma regra anacrónica e injusta (desempate por golos "fora" nos 2 confrontos directos com o competidor imediato [Porto], numa competição de 34 jogos).

Ou seja, não venho resmungar com este golo anulado (e se o quisesse fazer não o faria no Delito de Opinião, pouco dado a futebolices). Mas há mais de três anos que resmungo com este modo de aplicação videográfica (VAR) no fora-de-jogo, que prejudica a indústria de entretenimento futebolístico. E aqui opinei (e no És a Nossa Fé!) sobre o assunto. Repito o que então escrevi, minha forma de assumir a candidura a influencer no International Board:

"O VAR é fundamental, é óbvio que reduz os erros dos árbitros e que é um grande instrumento contra a protecção aos grandes clubes e contra a corrupção - promovida pelos clubes e por essa relativa novidade das apostas desportivas privadas e avulsas. Mas ao quebrar o predomínio da paixão e da festa arrisca a tornar o jogo mais cinzento e, nisso, a ilegitimar-se. Assim as suas imensas capacidades tecnológicas de observação desumanizam o jogo. Ontem foi exemplo disso. Para que o VAR seja protegido dever-se-á pensar a aplicação das regras, refrear a tendência legalista que ele trouxe, uma verdadeira ditadura milimétrica promovida pela tecnologia. Urge regressar, e reforçar, [a] tradições na jurisprudência futebolística, pois humanizadoras, cuja relevância ontem foi demonstrada:

- (...) Há que recuperar o ideal da protecção do avançado em caso de dúvida na aplicação desta lei, de uma (muito) relativa indeterminação. Anda tudo a aplicar ilegalidades ínfimas, se o calcanhar de um está adiante ou não, se o nariz do avançado pencudo está à frente das narinas achatadas do defesa. (...) Que interessa isso para o fluir do jogo? Urge recuperar essa ideia do "em linha", e permitir que o avançado esteja "ligeirissimamente" à frente do defesa: se confluem, relativamente, numa linha horizontal ... siga o jogo. Claro que depois se discutirá se o calcanhar dele estava ou não em linha com a biqueira do defesa. Mas serão muito menos as discussões. E haverá mais golos. E, acima de tudo, menos anulações diferidas. Donde haverá mais festa, mais alegria exultante. É esse o caminho para a defesa da tecnologia. E da paixão. Julgo eu, doutoral aqui no meu sofá."

Há vida para além do défice

jpt, 07.05.22

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Volta e meia surgem relatórios, estatísticas, ensaios sobre as "práticas culturais" dos portugueses - nesta era em que a "Educação para Cidadania" liceal impinge aos petizes o mito do "empreendedorismo" passou-se a chamar-lhes "consumo cultural". Nos cabeçalhos e nos rescaldos dessas apresentações surgem sempre quase escatológicos bramidos sobre a escassa leitura que os compatriotas praticam, que seguimos alheios aos livros. Logo vários apontam uma causa fundamental para tal "défice", o elevado preço dos livros... Pois julgo que "há vida para além do défice".
 
A semana passada fui até à capital e cruzei uma "Feira da Bagageira", realizada lá na minha freguesia. Há quem nelas queira recordar aquilo da velha Feira da Ladra, na qual vendi penduricalhos em 1980-1. Mas estas são cinzentas sequelas, sem o fervilhar até boémio e com pitadas de marginalidade daqueles tempos da Feira, na algazarra de amontoados de quase-tudo à disposição dos porta-moedas de aficionados, amadores, antiquários ou meros passeantes.
 
O que agora vi foram monótonos mostruários de um fim de era: vendedores modorrentos, encanecidos quase todos, e de ares entristecidos mostrando uns cabides de trapos de contrafacção, alguns fingindo-se "vintage" por usados que já surgem; várias resmas de LP's, esses que todos outrora acumularam e que julgam serem agora apetecíveis a uma (já extinta) febre "retro" de vinil; vasilhame variado e demais adjacentes, loiças que de típico só lhes sobra o piroso; alguns metais incógnitos - na excepção de um idoso que ainda apresentava uma fileira de velhas moedas (prenúncio de que um dia se venderão velhos cartões "multibanco" nestas feiras?). As bancas mais animadas, e nisso decerto que lucrativas, eram as dos eternos "comes e bebes", a bifana, a febra, presumo que o coirato, que esses não passam de moda, e felizmente, mais as sacrossantas "minis".
 
E no meio de tudo isto, bem visíveis pois quase banca sim, banca sim, lá estavam os caixotes de livros usados à venda. Pilhas e pilhas. Das edições populares desde os 1960s até agora mesmo. De usados mastigados até usados virginais, manuais decrépitos, banda desenhada popular, dicionários e enciclopédias agora inúteis, livros de bolso da Verbo, da RTP, do Público e tantos outros, ainda um ou outro sobrevivente do PREC - do Engels a Franco Nogueira -, cosmética e "cosmologia", tratados "ajuda-te a ti mesmo" e os de "auto-ajuda" mais recente, talvez mesmo o Dale Carnegie mas este não afianço, as "obras completas" de Júlio Dinis, Eça de Queirós, e as "incompletas" de Victor Hugo em especiosas edições de capa dura, cores berrantes e debruadas a doirado, que tão bem fica(va)m nas estantes quando estas ainda existiam, Hupert Reeves e Carl Sagan, histórias universais e locais. E continue quem quiser a dar exemplos que de tudo se poderá encontrar...
 
Tudo isto a 33 ou 50 cêntimos o livro. Alguns, repito, algo escafiados. Outros intocados, após décadas de distraídas prateleiras. Enfim, a gente não lê porque não nos apetece. E não nos chateiem por causa disso.

Mário de Carvalho e o PCP

jpt, 06.05.22

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O reconhecido escritor Mário de Carvalho acaba de publicar um texto denunciando que "não é de tolerar a sórdida campanha mercenária que se tem ultimamente - a soldo - levantado nas redes sociais contra o PCP."^, decerto aludindo ao que se tem publicado relativamente às posições que aquele partido vem tendo sobre a guerra na Ucrânia, e às declarações de seus dirigentes, militantes e simpatizantes que as acompanham.
 
Eu não tenho particular visibilidade, não sou figura pública. Mas vou escrevendo nas "redes sociais" - nas quais incluo isto do bloguismo. E por cá tenho botado alguns textos procurando zurzir essas reacções dos comunistas (12, 34,  56789, e 10). Julgo ter assim - nem que seja por critérios quantitativos - justificado a integração nessa brigada activista.
 
Agora, e face ao que expõe o ilustre Mário de Carvalho - cujo estatuto decerto lhe impede de escrever opiniões desprovidas de veracidade -, venho aqui perguntar se alguém sabe para onde ou para quem deverei enviar a conta, pois ainda não fui pago pelos tais textos. Muito agradecerei qualquer informação que me providenciarem (preferencialmente por mensagem privada).

O Eurocentrismo

jpt, 04.05.22

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(Postal para o Nenhures)
 
Já 70 dias de guerra na Ucrânia. Logo de início germinou um amplo perorar de gente mais ou menos simpática à causa russa de combater um poder de "nazis e drogados" - argumento que foi algo depurado, pois a "droga" foi algo esquecida. Mas o "nazismo" ucraniano vem continuando a ser agitado, e também o seu judaísmo (argumento nada contraditório pois ao que diz o Ministro dos Negócios Estrangeiros da segunda potência nuclear do mundo o próprio Hitler era judeu).
 
Muitos desses russófilos eram (e são) austrais. Entre eles logo brotou a crítica ao "eurocentrismo" dos que se preocupavam com esta guerra. Tal como os pachecos pereiras portugueses, apuparam os europeus por preferirem os "louros e de olhos azuis" sem atentarem nos conflitos em outras paragens. Que nos tivéssemos sobressaltado com o ressurgir da prática de conflito entre grandes blocos, o regresso da guerra internacional na Europa em larga escala, com o ressuscitar do pesadelo da guerra atómica? Mero eurocentrismo, típico dos verdadeiros racistas insensíveis a outros sofrimentos - todos eles, diga-se, causados por nós brancos ocidentais, que ocupamos agora nos discursos legitimadores austrais o papel de alteridade satânica que outros, em particular os judeus, foram ocupando ao longo da história, e até recente... Sobre essa retórica invectiva ao "eurocentrismo" dos intelectuais de um certo "Sul" bem instalado botei então um postal, "Do barómetro moral do Sul"
 
 
 

Têm os anónimos mães?

jpt, 02.05.22

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Por motivos comensais tornei a cruzar o rio, assomando à capital. Encetei o roteiro num jantar de "até já", congregado ali um grupo de amizades feitas em Maputo pois o casal anfitrião, meus compadres direi, que assim nos viemos a fazer, e também uma bela e muito querida amiga estão mais uma vez de partida, para longas missões em diferentes continentes, rumo que lhes é vida. O que deixa este vizinho um pouco mais sozinho do que aquilo de que vou fazendo alarde, e tartamudeando promessas que nunca cumprirei de futuras visitas a essas paragens americanas e africanas. Enfim, sufragados foram os nossos votos de felicidades e sucessos para os que agora partem. E afiançadas as juras de que aqui estaremos nos seus regressos, acolhendo-os como se nunca se tivessem ausentado, naquilo do que é a amizade, o recomeçar a conversa como se a tivessemos interrompido na véspera.

 

 

Chamuças nos Olivais

jpt, 01.05.22

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Há anos que o bom do José Paulo Pinto Lobo faz o favor de ir lendo o que boto em blogs. Por isso sabe bem da minha única adesão ideológica: o chamucismo. Já explicitei a minha crença de que o motor da História é a demanda de chamuças, a Utopia pregnante é perfeição da Chamuça, e que a Estética se funde na Ética no propósito da correcta condimentação sob o crocante da massa.

Disso conhecedor o Pinto Lobo logo me avisou que na festa popular na Encarnação (Olivais) - a decorrer até ao próximo fim-de-semana - ali estaria um templo da Chamuça. Logo acorri e pude comprovar da verdadeira, e inolvidável, excelência das chamuças que o simpaticíssimo Edgar Bragança ali está a distribuir, iluminando mentes e palatos.

Comi várias, falámos um pouco da "Pérola do Índico" - de onde ele é oriundo - e de alguns amigos comuns, mas pouco pois ele não tinha mãos a medir, face aos gulosos clientes que se enfileiravam ali defronte. Para culminar abarquei uma fatia de bebinca que estava, pura e simplesmente, e para não exagerar, soberba.

Parti, com a alma sossegada, pois dotado do folheto do World Masala - Comida com (C)Alma, assim com possibilidades de encomendar a decerto que magnífica "comida ao domicílio" que a equipa do Edgar Bragança providencia.

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Quando é para resmungar um tipo deve fazê-lo. Mas para isso também deve louvar quando é para louvar. E nisso há que frisar que está muito bem a Festa que a Junta de Freguesia dos Olivais está a organizar durante estes quinze dias. Ide lá, mesmo que fregueses de outras paragens. E, insisto, visitai o sítio das chamuças

Medina Amigo, Setúbal Está Contigo!!!

jpt, 29.04.22

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Em princípio isto de colocar indivíduos (luso?-)russos a trabalhar na recepção dos refugiados ucranianos não será inadmissível, até por vantagens de proximidade linguística. Mas, claro, terá a ver com o perfil e com as práticas dos contratados. Para além da óbvia insensibilidade institucional - receber refugiadas (e seus dependentes) através de caras e vozes russas será sempre chocante, excepto se houver uma vontade empática por parte dos receptores. Mas seja pela descrição das personalidades políticas dos intervenientes seja pela narrativa das acções tidas face às refugiadas - e é óbvio que estas fragilizadas recé-chegadas não começarão a sua estada em Portugal com "inventonas" - a Câmara de Setúbal decidiu exactamente o contrário. Refractando nesta aleivosia a posição "simpática" - ou, pelo menos, "insensibilizada" - para com a invasão russa que o seu partido tem.

Para que não haja rodeios: há nove dias que o PSD local questionou esta inadmissível situação. Mas só hoje, depois do ribombar da imprensa nacional, é que o presidente da câmara setubalense recua e afasta os nacionalistas russos da função de acolhimento (e, pelos vistos, "recenseamento") dos refugiados ucranianos.

Os vizinhos setubalenses poderão reclamar junto da câmara. E até junto dos seus deputados - será de lembrar que elegeram dois prestigiados políticos pelo seu círculo, na lista do PS. A actual ministra adjunta dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes. E o actual  ministro .... dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho. Poderá ser que, ainda que mergulhados nos seus inúmeros afazeres ministeriais, estes possam ter disponibilidade para exercerem algum influência na verdadeira resolução de tamanho dislate na sede do distrito que os elegeu.

Ou então todos clamarão "Medina Amigo, Setúbal Está Contigo!". E juntos seguirão, cravo na lapela, ombreando com o camarada Jerónimo.

"O mundo já acabou. Nós é que ainda insistimos"

jpt, 28.04.22

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Hoje uma hora de conversa, via whatsapp video, com um grande, grande, grande amigo de Moçambique - e que saudades daqueles nossos estar-juntos, sempre para mim luminosos. Corremos as nossas vidas, filhas, já netos, envelhecimentos, insucessos, os países de ambos, amigos alguns, até um pouco do mundo, risos trocados de longe na auto-derisão, de alguma desesperança e todo o desencanto feita. De súbito, risonho dorido, conta-me ele o que viu, uma reportagem televisiva em Angola: um mero "fait-divers", a polícia chamada pois um casal fazia sexo em público durante o dia, ali cerca da marginal de Luanda. Acorreu também o tal repórter, o qual se aprestou a entrevistar os circundantes, queixosos uns, mirones outros. Um deles (um "popular", na linguagem da imprensa) ao ser-lhe pedida opinião sobre a ocorrência responde, magnífico: "O mundo já acabou. Nós é que ainda insistimos".

25 de Abril desfilado

jpt, 26.04.22

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Todos os anos a organização das comemorações lisboetas do 25 de Abril tem este conteúdo programático: agitando um património afectivo procura-se correlacionar o conteúdo da "democracia" e da "liberdade" a um peculiar aglomerado político. Esse mesmo que, após ter sido aventado durante décadas, se consagrou nas duas últimas legislativas sob o formato de anacrónica "Frente Popular", dita "geringonça". Nisso se conjugam socialistas pragmáticos, feixes de "idiotas úteis" e as forças políticas antidemocráticas, filiadas ao Terror que assombrou XX. E alguns continuam a crer, decerto que por adesões alquímicas, que desta amálgama ainda advirá um qualquer melhor futuro - como se este possa vir a brotar de perversas ditaduras.

Ontem o meu amigo Miguel Valle de Figueiredo, fotógrafo, acompanhou o desfile da tal "Frente Popular" aprés la lettre. E cedeu-me estas fotografias para colocar aqui. Falam por si, desde a utilização do folclorismo mais patético - sobre a qual nenhuma análise "decolonial" a la jornal "Público" surge - até à candura juvenil, a daqueles que julgam consagrar a "liberdade" quando desfilam junto dos que sempre contra ela luta(ra)m. Miúdos, alguns, que se soubessem o que foi a luta pela "unicidade sindical" e se percebessem o que aquilo era, talvez duvidassem da pertinência de marchar junto de quem tanto a defendeu, por exemplo. Estranhos miúdos, note-se, capazes de desfilarem invocando a liberdade da Ucrânia, com todos os defeitos desta, ao lado dos paladinos - explícitos e implícitos - do imperialismo fascista russo...

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Enfim, para além da algo estafada mas resistente mitografia de "Abril", do sufragar desta deficiente de até esparvoada noção de "liberdade" e da suicidária crença numa "outra democracia", destes desfiles anuais fica apenas isto:

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Há quem goste. Está no seu direito, e é democraticamente respeitável. Combatível mas respeitável. E há os que ombreiam, apenas por incúria festiva - e esses não são tão respeitáveis.

 

 

Os papagaios de Putin (número extra)

jpt, 26.04.22

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A série de postais dedicada aos "papagaios de Putin" (1, 2, 3, 4) é do Pedro Correia. Mas espero que ele não se incomode com esta adenda minha, cujo conteúdo é imensamente denotativo do actual "estado da arte".

Trata-se apenas de ligar para um texto do Herdeiro de Aécio - que é um dos meus blogs preferidos desde há mais de década e meia (o outro é o Antologia do Esquecimento, já agora). Ora agora o seu autor, António Estrela Teixeira, tem a pertinente minúcia de se dedicar às comemorações do 25 de Abril e ao excêntrico estatuto assumido pelo "general Carlos Branco (assinalado na foto) [que] tornou-se mais recentemente conhecido (e contestado) por causa da parcialidade pró-russa dos seus comentários a respeito da invasão da Ucrânia."

O texto dedicado a esse paladino do fascismo russo chama-se "O "Penetra" de Abril". E bem justifica a sua leitura.