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Delito de Opinião

Ucrânia

jpt, 27.11.23

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1. Em primeira análise - e talvez a fundamental - esta fotografia nada tem de excêntrico. É normal que os eleitos se congreguem nos momentos de ritualização da república, neste caso as celebrações de 25 de Abril (de 2018?) organizadas pela Câmara Municipal de Loures. E também é normal e até desejável que esses eleitos, para além das diferenças ideológicas e partidárias, às vezes emitidas de formas tonitruantes, tenham entre si relações pessoais curiais, que lhes permitam convívios benfazejos. Num segundo registo analítico, mais centrado na fotografia, também é normal e salutar que eleitos de diferentes forças políticas celebrem a data fundacional do regime democrático nacional. Ou seja, o que a este caracteriza é a admissão das diferentes ideologias no espectro democrático (multipartidário), e que nenhuma delas possa legitimamente reclamar uma primazia patrimonial sobre a "democracia". E assim pode(re)mos criticar a democraticidade dos anseios de alguns mas, a priori, não os deve(re)mos retirar do âmbito democrático: sejam esses eleitos comunistas adeptos do modelo "brejnevista", eleitos "sociais-democratas" que, de facto, se revêm numa direita profunda soberanista. Ou quaisquer outros...

Ainda assim, apesar desses princípios, esta fotografia foi sendo (e vai sendo) gozada, num sarcástico "afinal?!". O que, num terceiro registo de análise, mais "hermenêutico" se se quiser, deixa perceber o quão encenado é o teatro político-partidário português e as retóricas da sua dramaturgia.

Mas há um outro ponto, num substrato mais enterrado. É o de numa mera fotografia se encontrar, com um laivo de sarcasmo intérprete, a demonstração de alguma até então inesperada... similitude, por mais paradoxal que possa parecer.

2. A invasão russa da Ucrânia (Fevereiro de 2022) convocou uma atenção geral e uma comoção muito abrangente. Neste blog também, como o mostram os arquivos dos meses subsequentes, onde está patente uma enxurrada de postais nossos sobre o assunto. Será de recordar que a "operação militar russa" foi pensada como uma blitzkrieg que fosse promotora de uma verdadeira anchluss, esta dita como legítima associação entre unidades histórico-culturais (que no passado eram também ditas raciais) conjuntas. Para tal seriam necessários apenas meia dúzia de dias, para isso contando com a adesão dos "ucranianos" ao movimento russófilo, sublevando-se até contra os seus dirigentes "nazis", "corruptos", também "drogados" e até contando com "judeus", os quais haviam chegado ao poder através de um "golpe de Estado" "antidemocrático". Estes eram os itens predominantes nos discursos explicativos de Vladimir Putin e dos seus  mais próximos - os quais, note-se, não têm sido dissecados pelos críticos da malevolência e obscurantismo da "propaganda" "americana" e/ou "ocidental".

Como é sabido, a afinal denodada resistência ucraniana (desde logo fazendo cair as aspas ao termo) e o forte apoio militar, mas também económico e diplomático, recebido do (sempre pérfido) "ocidente", impediu a rápida rendição do país. Assim se tornou aquela guerra uma desgraçada rotina, E - aqui entre nós - como é normal foi diminuindo a nossa verve (amadora e gratuita), decerto que também a nossa atenção (dispersável, como lhe é natureza). Vem então correndo aquela guerra situada num dos países, portanto fundamentalmente apenas nesse devastadora. E que opõe dois contendores com recursos bastante assimétricos, desde logo os demográficos...

Não sendo eu do ofício militar deixei-me presumir o rumo daquele conflito: "1) rendição imediata, salvaguardando vidas humanas e, secundariamente, bens materiais; 2) uma breve resistência, durante a qual se procura organizar uma hipotética futura guerrilha; 3) resistência extremada, até sacrificial, assente na fanatização nacionalista e na demonização do invasor (...); 4) mobilização geral dos recursos humanos com exaltação do patriotismo, possibilitando uma resistência algo prolongada, solicitando apoios externos, políticos-diplomáticos e mesmo militares. Tudo para procurar uma negociação final em termos o menos assimétricos possíveis, salvaguardando o que for possível para os desígnios nacionais." (7.3.2022).

Ou seja, pode ser que, com o passar do tempo, alguns mais incautos tenham pensado que os efeitos da disparatada retórica propagandística de Moscovo e os da desconchavada "operação militar especial" em curso fizessem ruir aquele poder. Mas era muito pouco provável - decerto que corroeram alguns dos alicerces mas talvez até tenham reforçado outros. E esses efeitos serão decerto notórios daqui a alguns anos, na configuração pós-Putin - ou seja, sobre o vigente poder russo será mais de esperar um "efeito afegão" do que um "terramoto I Guerra Mundial", passe a analogia de bolso.

Mas mais absurdo ainda seria pensar que a Ucrânia viria a "ganhar a guerra", sob o ponto de vista militar - e note-se que o grande apoio militar recebido foi sob condição de que o país se restringisse a uma guerra defensiva, sita apenas no seu território. Sim, terá havido a esperança (e talvez ainda a haja) de que a Ucrânia pudesse (possa) ganhar a guerra, trancando a Rússia numa guerra de trincheiras, que fosse (seja) para Moscovo insuportável de manter sob o ponto de vista político-económico e até moral, conduzindo assim a negociações menos desequilibradas. Mas com toda a certeza que não um "ganhar a guerra" com Zelensky a desfilar na Praça Vermelha encabeçando colunas de tanques Leopard, entre os quais os nossos poucos que funcionam. Mas é evidente que o discurso político e propagandístico, o mobilizador ucraniano e o solidário internacional, e por razões da sua produtividade, não se podia nem pode restringir a isso. Dizer a um povo mártir "aguentai mais uns mesitos", "morrei em barda por mais uns kms para negociarmos um bocadinho melhor"? Enfim, os analistas críticos do "obscurantismo" "ocidental" e da "demagogia" ucraniana neste âmbito surgem verdadeiros toleirões.

3. Entre nós, em Portugal e no tal "ocidente", desde o início da "situação" ucraniana que foram grassando as vozes apoiantes das reclamações russas. Em Portugal com algum sucesso: lembro que a então deputada em part-time Mariana Mortágua defendeu a posição de Putin reclamando a justeza da ideologia nazi, clamando pelo direito ao "espaço vital" da Rússia (1.3.2022). E, apesar da tal subscrição do ethos imperialista sob postura nazi, Mortágua não só não foi afastada da direcção do Bloco de Esquerda mas, pelo contrário, foi eleita sua líder. Dirigentes do Partido Comunista desdobraram-se em ditirambos contra a Ucrânia, tanto institucionalmente como em registo pessoal - no qual pontificou António Filipe, presente na fotografia que encima o postal. Chegando ao ponto de louvar em comunicado oficial a política estalinista relativa às "minorias" nacionais e/ou étnicas (1.3.2022), sem que nenhum dos vozeadores das causas identitaristas que tanto grassam na nossa imprensa e em alguns nichos do parlamento esboçasse a menor crítica. No mesmo eixo ideológico, um conjunto de atrevidas figuras públicas, reclamando-se como "intelectuais" e "artistas", opuseram-se ao apoio à Ucrânia (nisso chorando-se como "perseguidos e criminalizados") enquanto defendiam o primado da "Acta Final da Conferência de Helsínquia" (11.4.2022) - exactamente essa que consagra o direito dos países se associarem em organizações internacionais multilaterais, também de índole militar. Enquanto esses mesmos, e tantos outros do mesmo eixo de entendimento, radicavam a agressão russa na inadmissível ameaça sentida na Rússia pela expansão da NATO ao leste europeu... E nenhum deles foi retoricamente pontapeado por tamanho dislate.

Entretanto Europa afora vêm-se sedimentando ou reforçando movimentos políticos, ditos de "direita profunda" ou mesmo de "extrema-direita", alguns estabelecidos nos governos nacionais - como foi anunciada, de forma talvez exagerada, a nova governação italiana, se manteve a húngara, se renovou a polaca e agora a holandesa. Para além das crescentes oposições desse teor em alguns países - o anterior e apatetado Brexit, bem como as actuais flutuações partidárias na França e na Alemanha disso são exemplos. Movimentos que surgem assentes em perspectivas soberanistas, avessas ao incremento da interacção europeia, sob a velha retórica da "Europa das Nações". Mas que, talvez surpreendentemente, neste caso surgem avessos à soberania, apenas à ucraniana entenda-se, e veementes defensores do "multiculculturalismo" "federativo" russo. Talvez isto seja parodoxal mas talvez seja apenas uma mal esclarecida nebulosa ideologia. Ou devido a meras razões tácticas. E nem será necessário alongar-me sobre o peculiar espectro do ressurgir de Donald Trump, e da russofilia neo-imperialista do presidente Lula da Silva, como exemplos dessa deriva anti-ucraniana no extremo "ocidente".

Ou seja, se a Ucrânia enfrenta a exaustão após quase dois anos de desigual guerra, nós outros, cá longe, te(re)mos de enfrentar a vil retórica e a festiva felicidade dos seus oponentes "ocidentais". É a perspectiva do loquaz crescimento da coalizão real entre os decadentes movimentos comunistas e os ascendentes movimentos fascistas (no tal termo abrangente do "ur"-fascismo, que Eco celebrizou), neste embate militar buscando adubo para as suas ideologias. São estes aqueles que querem tornar sua justificação histórica a força dos sentimentos nacionais, a estes atribuindo virtude e essencialidade. Ou seja, indiscutibilidade.

Mas desde que, atente-se nisso pois é o fundamental, essa configuração soberanista, "nacionalista", sirva para agredir a democracia liberal, a esta fazer retroceder. Daí o carácter simbólico da fotografia acima, com aquele ramalhete de personagens pitorescas. Tão típicas desses anseios, apesar das suas diferenças.

4. Em 1990, ainda fumegantes os escombros do mundo comunista europeu, Ralf Dahrendorf escreveu - para "um cavalheiro em Varsóvia" - as suas "Reflexões Sobre a Revolução na Europa". Mais ou menos começa assim: "... a casa europeia que o senhor e eu queremos transformar no nosso lar comum termina onde começa a União Soviética, ou o que quer que venha a suceder-lhe. Esta é uma declaração importante, cuja justificação se impõe."

Talvez seja importante regressar ao velho texto de Dahrendorf - e aos avisos que ali deixou sobre a volúpia de se reforçarem "modelos" sociais na Europa. Mas também para com aquele velho e sábio conservador liberal melhor se perceber que este aborto, este ser siamês fascista-comunista - por mais ademanes historiográficos e meneios culturais que patenteie -, apenas quer a destruição da democracia. Europeia. Nisso a redução do seu âmbito. E da sua intensidade. Pois apenas sabe querer isso. E nesse rumo é produtivo, é porreiro, que a Ucrânia se foda. É só isso.

Israel/Palestina? A reler Sacco

jpt, 27.11.23

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Não é postal político, nem quero deixar transparecer qualquer opinião sobre a desgraçada situação em Israel - e já aqui deixei nota sobre o meu estupor diante daquela realidade. Mas a sucessão de notícias levaram-me às estantes, no regresso aos livros do grande Joe Sacco - que também escreveu/desenhou sobre a Bósnia onde trabalhei. Sacco é um autor muito empenhado, defensor da causa palestiniana - o que agradará a uns e desagradará a outros. Pouco (me) importa, os seus livros são preciosos. Sem que com isso me sejam cartilhas.

Comecei pelo "Palestina na Faixa de Gaza" (cá publicado em 2003, com prefácio de Edward Said). Depois passei ao "Palestina, Uma Nação Ocupada" (cá publicado em 2004, com prefácio de Mário Soares). E ainda ando dentro do calhamaço em francês ("Gaza 1956").

E entretanto lembrei-me de incómodo que tenho com o olhar de Joe Sacco. Pois, mesmo muito apreciando-o. Ou melhor, exactamente por muito o apreciar. Pois é esse um dos maiores sinais de apreço, o incómodo recebido na leitura... Há quase uma década deixei um texto, feito numa rápida abordagem, sobre as relações que encontrava entre a obra de Sacco, a recepção (entusiástica) que ele colhe e as práticas actuais da antropologia. Chamei-lhe "Joe Sacco: o engajamento denunciatório". Deixo a ligação para quem tenha paciência...

9 Anos de José Sócrates

jpt, 22.11.23

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Passam hoje exactamente nove anos sobre o dia em que "O Senhor Engenheiro José Sócrates" (Eduardo Lourenço dixit) foi detido, vítima de um ataque "justicialista" do Ministério Público - a crer-se na interpretação do seu correligionário Ferro Rodrigues, ex-presidente da Assembleia de República. Felizmente que a intentona do aparelho judicial não foi bem conseguida, pois todos estes anos decorridos ainda não houve julgamento.

De qualquer forma urge pôr o tal Ministério Público "na ordem", como defende o actual presidente da Assembleia da República, Santos Silva, homónimo do amigo do actual vice-presidente do Parlamento Europeu, um tal de Silva Pereira. O tipo que na lista de candidatos estava atrás (apesar de, pelos vistos, ser deputado mais importante) da mulher do Vital Moreira, esse antigo cabeça-de-lista de Sócrates. Esse que também quer pôr o Ministério Público bem ordenado...

Mas, e repito-me, temos de nos congratular. Pois, pelo menos, o "Senhor Engenheiro José Sócrates" ainda não foi julgado pelos "justicialistas".

A comemoração do 25 de Abril em Novembro e o ideário da "Frente Popular"

jpt, 21.11.23

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(Comício na Fonte Luminosa, Lisboa, Julho de 1975)

Muito acertadamente o presidente da Câmara de Lisboa anunciou a comemoração do 25 de Novembro de 1975, data crucial para a instauração do vigente regime de democracia liberal. Detendo uma presidência minoritária da assembleia municipal, Carlos Moedas viu a sua oposição autárquica votar a condenação dessa iniciativa. Agora, nas vésperas da sua realização, vê a imprensa institucional resumir essa celebração a um acto da "direita" (ver Expresso, em artigo de hoje assinado por João Diogo Correia). 

Esta é uma situação interessante. De facto, é uma caso paradigmático de como a história serve para (re)construir o presente, e a este manuseá-lo, quantas vezes manipulá-lo. Pois para quem tenha um mínimo de noção do que foi o processo subsequente ao 25 de Abril (então dito PREC) será cristalina a memória de que houve dois grandes conflitos, então dirimidos e depois simbolizados por iniciativas militares ocorridas. Cronologicamente primeiro foi o que opôs as forças mais atreitas a uma relativização da democratização institucional e social e à negação de uma urgência da descolonização - ditas de "direita" e algumas das quais mais atreitas à recuperação do "anterior regime" -, a uma amálgama muito abrangente de correntes ideológicas à sua "esquerda", "centro" incluído: algo simbolizável pela evocação do 28 de Setembro de 1974 e 11 de Março de 1975. É evidente que o teor deste conflito, e o conteúdo das oposições eclodidas nessas iniciativas militares, é homólogo ao da revolução de 25 de Abril de 1974 e assim por este simbolizado, neste comemorado.

O segundo grande conflito, cuja veemência eclodiu cronologicamente depois, foi o que opôs feixes de correntes políticas que subscreviam a instauração do actual regime de democracia liberal - que abarcavam, grosso modo, da "democracia-cristã" à "social-democracia" dita "socialismo democrático" - a uma miríade de forças políticas de extracção marxista revolucionária, incluindo desde perspectivas então ditas "terceiro-mundistas" (o que hoje se chamaria "alterglobalistas") até à dita "extrema-esquerda", polvilhada de uma pluralidade de versões do ideário comunista. 

Este conflito, que permitiu a instauração do nosso regime actual, teve momentos civis relevantes - como a luta contra a unicidade sindical reclamada pelo PCP, ou o enorme e histórico comício da Fonte Luminosa convocado pelo PS (que invoco na fotografia acima). E, grosso modo, terminou na movimentação militar de 25 de Novembro de 1975, com a derrota das forças militares radicais adeptas do comunismo, então dito de "extrema-esquerda", e com o anúncio do PCP da sua cedência à instauração de uma democracia liberal parlamentar - algo  que poucos meses havia negado. Ou seja, o "25 de Novembro" é um marco fundamental na instauração da nossa democracia mas remete para um conflito que não era presente, e como tal não é hoje simbolizável, no "25 de Abril". Grosso modo, representou a vitória daqueles que reclamavam "A Europa Connosco", como logo depois bem clamou o PS de Mário Soares.

Acontece que a liturgia - oficial e a dos opinadores predominantes no regime - tem escondido estas diferenças. O constante repúdio  pela celebração do "25 de Novembro" quer instaurar, através da manuseamento do ritual da república, uma versão ligeiramente diferente da História nacional. Mas muito  mais do que isso, através dessa ritualização da república, procura manipular o Presente nacional. E vem conseguindo tal feito... Ou seja, quer obliterar o dado crucial da instauração democrática, esse de que oposição fundamental foi a existente entre a esmagadora maioria da população e dos partidos que nas suas diferenças se filia(ra)m na tal "Europa Connosco", e aquelas forças muito  minoritárias que subscreviam os ideários ditatoriais e totalitários do fascismo e/ou do corporativismo e o das plurais formas de comunismo.

Neste âmbito a refutação da relevância simbólica do "25 de Novembro" quer fazer esquecer que a linha de fractura fundamental daquela época, e nos tempos subsequentes, foi a entre forças democráticas (do PS para a sua direita) e o radicalismo ditatorial dos marxismos revolucionários. Querendo instaurar uma mitografia, mais adequada ao mero jogo político parlamentar actual, essa que  propaga a ideia de que a fractura ideológica e social estruturante é a que apartou e aparta o PS e a sua esquerda do PSD e a sua direita. Mitografia reproduzida ritualmente todos os anos na festividade "25 de Abril" que decorre sob o velho ideário "Frente Popular", convocado para o ritual desfile na "Avenida da Liberdade". Congregando os efectivos e militantes adversários da "democracia" com efectivos e militantes adeptos da "democracia". Apenas para, com o sagrado da "festa", assinalar que os "outros" - os quais foram e são, neste continuado processo, os efectivos democratizadores - é que são antidemocratas. 

50 anos depois do 25 de Abril não vem "grande mal ao mundo" (ao  país) com este aldrabismo ritual. Mas serve para as campanhas eleitorais - e para uma ou outra ocasional geringonça, nacional ou autárquica. Mas é evidente que é preciso ser muito atrevido para contestar a relevância democratizadora do "25 de Novembro"... E como tal sempre urge reafirmar 25 de Novembro Sempre!

Há uns meses fui convidado para uma conversa sobre o "25 de Abril". Elaborei um pouco sobre o que aqui afirmo, muito superficialmente, até porque no estava no estrangeiro - diante de gente que conhecerá bem menos do nosso país. E também porque num contexto daqueles - celebração no estrangeiro - não é curial polemizar. Fiz um guião para a minha comunicação, à qual chamei "Portugal e o 25 de Abril: a revolução dos cravos, 49 anos depois". Aqui fica a ligação, para quem tiver curiosidade e paciência.

A queda de Costa no Whatsapp

jpt, 16.11.23

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A inopinada queda de António Costa provocou um burburinho sarcástico via Whatsapp. O humor por vezes é cruel - pelo menos o melhor é-o... Deixo aqui uma pequena série do que recebi, fica para memória, qual arquivo... E sim, censurei algumas piadolas,  aquelas que aludiam a algo inadmissível, o pior de toda esta situação: elementos do sistema judicial português entraram em casa de um cidadão para efectuar uma busca sobre um assunto para a qual estavam mandatados. E depois vieram para a imprensa comentar um item legal (e que não o fosse...) que haviam encontrado nessa casa, o qual nada tem a ver com o caso que, "alegadamente" (uso o termo da moda de modo propositado) investigam. Prefiro  um chefe de gabinete de primeiro-ministro (aparentemente) pouco probo do que este tipo de agentes da "Justiça". E não dá para "sacralizar", defender esta gente, lá porque os agentes se dizem na senda dos "poderosos" ou dos "socialistas". O que João Galamba fez como governante pode ser criticável ou mesmo criminalizável. O que fez a tralha humana que entrou em casa dele é inadmissível. E aposto que nem um desses (vários) sacripantas será despedido.

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Quanto às restantes "bocas"? É o humor, sempre necessário, cáustico quando é bom, morno quando não é. E cruel, por vezes. Sempre necessário.

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O nosso Presidente Rebelo de Sousa resumido

jpt, 13.11.23

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Luís Menezes Leitão, no "O descrédito das instituições", José Meireles Graça, no "Dissolução", Paulo Sousa, no "O lamaçal" e Sérgio Almeida Correia, no "Em que condições chegaremos a Março", já aqui abordaram a trapalhada constitucional em que assenta a decisão presidencial de suportar este governo demissionário até às calendas gregas. Leigo em questões jurídicas - matéria sobre a qual da minha frequência universitária apenas retive a difusa ideia de que "onde há dois advogados há três opiniões" - apenas faço fé na estupefacção dos co-bloguistas e de outros locutores sobre a matéria. Mas para além disso há o óbvio derrame político, sobre o qual todos opinamos, independentemente dos saberes próprios, lamentava-se um grego antigo. Derrame esse que começou, em público, no sábado com Costa a exceder-se, e em privado, nas manobras subsequentes ao começo da "operação influencer", como já se nota no estado terminal do "governador" do Banco de Portugal.

As opções mostram quem é o Presidente. A sua agenda política, claro. Mas também perfil (contorno) e conteúdo. Rebelo de Sousa tem uma biografia política assente na divulgação da sua extraordinária inteligência e competência - em tempos transcrevi um elogio nesse âmbito que, ainda antes do 25 de Abril, Artur Portela (então Filho) lhe publicou, uma espécie de nascimento do mito. Quando saiu da actividade partidária e foi fazer campanha política para a televisão, como super-comentador, disseminou essa imagem de si mesmo, o do sábio inteligentíssimo e cultíssimo. E fez-se eleger presidente numa candidatura individual ("supra-partidária"), exactamente assente nos seus méritos intelectuais.

Eu gostaria de associar toda esta trapalhada constitucional e os custos políticos que dela emanam - entroncados na decisão presidencial - com algo que escrevi em Março de 2022. Quando após a crise pandémica Portugal viveu meses sob uma governação limitada, devido aos incríveis problemas havidos na contabilização dos votos dos emigrantes:

"(Os futuros historiadores) constatarão que Portugal enfrentou este final da crise pandémica mundial e o ressurgimento da guerra na Europa numa peculiar - e talvez até absurda, dado o contexto - governação. Pois o actual presidente da República decidiu, motu proprio, dissolver um parlamento funcional e promover eleições legislativas. E que estas, apesar de decorrerem após meio século de democracia parlamentar, ocorreram sob uma incúria legislativa e executiva tal que obrigou o Tribunal Constitucional - apesar do próprio Presidente, já em funções há 6 anos, ser um renomado constitucionalista - a prolongar a sua realização. 

Devido a este abstruso processo, Portugal enfrenta o final da crise Covid-19, o impacto do recrudescer do choque energético e a inesperada guerra na Europa, com um governo de gestão em funções durante 5 meses. Ao qual se seguirá, como a imprensa anuncia, um governo com várias alterações no seu organograma, implicando reformulações legislativas e reconfigurações na administração - sempre indutoras de delongas nos serviços. Se tudo isto é insignificante, então algo tem de ser constatado sobre a real importância do exercício governativo. Mas se não é insignificante - como julgo não o ser - então algo terá que constatado, e decerto que o será pelos futuros historiadores, sobre a competência do garante da ordem política, o actual presidente da República. O qual não só promoveu esta situação como permitiu que decorresse desta forma, decerto que por superficial desatenção e deficiente análise. E a futura avaliação deste mandato terá que ser imensamente negativa, até surpreendida num "como foi aquilo possível?". "

Espero que, pelo menos com o somatório destas duas longas situações de governabilidade mitigada causadas por Rebelo de Sousa, no final do seu mandato nos possamos libertar do mito criado da sua "inteligência". E se possa constatar a profunda incompetência deste presidência. Assim dele guardando a memória necessária, a da desadequação deste tipo de indivíduos políticos (perfis e conteúdos) para o exercício de altas funções públicas.

"O modo português de ser socialista"

jpt, 12.11.23

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Nos governos de Sócrates houve uma constante defesa daquele líder, independentemente do que era tão óbvio. Nisso se afadigaram militantes do PS, e basta recordar as maiorias "albanesas" que Sócrates obtinha nos congressos do partido. E também os simpatizantes foram "activistas" produtores da nuvem de fumo que pretendia esconder a malandragem governativa. E não seria necessário recordar esse período não fosse ter vária dessa gente transitado para os governos de Costa, como Fernando Medina ou Augusto Santos Silva - esse que agora vai ao Conselho de Estado afirmar que é necessário "pôr em ordem o Ministério Público", e que foi o único governante socialista que gozou a população por causa do escândalo do socratismo, ao dizer-se "parolo" por não ter percebido o detalhe do seu homónimo e alegado "financiador" do neto do volframista, nisso tanto demonstrando o seu desplante avesso à democratização do país. Ou recompensados com tenças em Estrasburgo/Bruxelas, como o braço-direito Silva Pereira, ou Marques e Leitão Marques. E também muitos desses militantes e ou simpatizantes, então, pois mais jovens, apenas frenéticos publicistas do socratismo, ascenderam ao governo, como o célebre Galamba ou o agora mui mudo Adão e Silva.

Tendo regressado ao poder, após o hiato da gestão da quase catastrófica crise financeira global, o PS de Costa tentou barrar o processo ao socratismo. E o afastamento de Marques Vidal da PGR foi o caso mais sonante, no fundo uma manobra desse desejado "pôr em ordem o Ministério Público", para além de todas as manobras de controlo da comunicação social - e será de lembrar que chegaram ao ponto de nomear como responsável da informação do serviço público uma prima de Costa, que se viu obrigada a demitir-se tais práticas teve nesse posto. Depois, tão insuportável era o conúbio com a imagem de Sócrates que o PS decidiu dele se apartar, deitar borda fora aquele lastro para resistir à tormenta: o ardil foi simples, em dias consecutivos num final de semana, o presidente do partido Carlos  César, a célebre Câncio, renomada publicista socratista, e Galamba, então mero deputado e criatura de Sócrates, vieram demarcar-se publicamente do ex-primeiro-ministro.

Assim enviado o fedorento cadáver político às revoltas águas da Ericeira o PS de Costa seguiu livre no poder. Entre inúmeros - e tantos deles patéticos - "casos e casinhos" a pax costista estabeleceu-se. Primeiro com o apoio dos partidos comunistas, seduzidos por algumas prebendas redistribrutivas para as suas bases e clientelas. E depois sozinhos, por quatro anos, que nos habituássemos nós. Grosso modo, as pessoas eram as mesmas, as práticas são as mesmas, as diferenças virão apenas dos trejeitos individuais.

Na passada semana "o modo português de ser socialista", para glosar Gilberto Freyre, sofreu um KO técnico. Ontem, António Costa reergueu-se e veio ao ringue apresentar a "narrativa" que o PS procurará apresentar aos seus fiéis e restantes adeptos, temerosos do que a malvada "direita" lhes fará. No fundo Costa apresentou-se como epígono de Isaltino de Morais, num trinado um pouco diferente: "temos dinheiro nos gabinetes mas fazemos".

Caberá aos jornalistas, a politólogos ou mesmo a historiadores da contemporaneidade o elencar com detalhe a miríade de "casos e casinhos", e suas articulações, destes oito anos. Para a sua compreensão será muito produtivo associá-los ao acontecido nos governos do anterior primeiro-ministro socialista. E, para uma visão mais "antropológica" - mais estrutural, por assim dizer - julgo que será relevante fazer recuar esta análise ao historial da administração socialista de Macau, molde que foi do modus faciendi das posteriores gerações de políticos daquele  partido. Cujos últimos restantes agora (definitivamente?) colapsam.

Trata-se de um partido de gentes que já há mais de vinte anos estavam incapazes de rebelarem contra os presidentes Soares abraçado ao fugitivo Craxi, ou Sampaio abraçado a Abílio Curto, sempre em nome de uma tal de "amizade". Ou seja, o que hoje se passa não é um momento, é sim fruto de uma mundividência colectiva, predominante naquele partido. Sendo assim, o PS não se regenerará, sofre de necrose política. Estuporado diante da visão de Madrid é incapaz de sopesar, e nisso actuar sobre si mesmo, o que aconteceu aos seus congéneres de França, Grécia, Itália... Pois o problema não é "Costa", é tudo aquilo. E, para mal dos nossos muitos pecados, diante de toda esta decadência temos o pior presidente da República do nosso regime, o mais incompetente pois o mais ininteligente, uma total inadequação sobre a qual me repito desde há muitos anos. É assim necessário sublinhar isto: estamos muito mal entregues. Pois assim o votámos.

Entre a incessante série de comentários recebidos sobre a actual situação escolho divulgar estes três. Porque dizem tudo o que é básico sobre a torpe "narrativa" que António Costa quer legar ao seu partido. 

 

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Assim não.

jpt, 09.11.23

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1. Sabem os meus amigos e conhecidos que detesto este PS socratista, que emparedou o desenvolvimento da "Pátria Amada" - como bem aqui sumarizou o José Meireles Graça -, enredado numa teia eunuca de interesses particulares, que é bem mais pérfida do que pode parecer aos incautos. E, secundariamente, que verto fel a rodos diante dessa tropa de galambas que fizeram e fazem a opinião de tantos, a troco de algo, material ou afectivo pouco importa.
 
2. Ouvi ontem, por alto, das razões da queda do nosso (por mim) desamado governo. E sobre o qual nada custa muito desconfiar das suas más práticas - como bem notou o João  Sousa ao recordar o diagnóstico sobre esta elite socialista exarado pelo ... anterior secretário-geral daquele partido. Consta que há investimentos de milhares de milhões de euros - desde há muito sob suspeita, como bem aqui ecoou o Paulo Sousa. E nesse âmbito consta que uma das empresas contratou um tipo para fazer lóbi, consta que algumas empresas pagaram uns almoços e jantares a um ministro (enfim, diga-se o que se disser, Galamba é ministro). E que alguém terá dito que o primeiro-ministro os ajudaria - já agora, cândido será pensar que em Portugal possa haver investimentos de milhares de milhões de euros sem apoios no governo...
 
Ou seja, cai um governo por acção da Justiça e o que esta informa aos estuporados cidadãos é mera lana caprina. E por mais que eu me desespere com o poder PS, mais a tralha adjacente dos seus apoiantes, os tais galambas, morgados fernandes (o da "Super-Marta"), vales de almeida, câncios e quejandos, por mais que tudo isso... só me resta mesmo um palavrão peludo (que me é vetado pela família). Pois assim não. "Pagaram uns jantares ao galamba"?, disseram que "o primeiro-ministro ajudará"?
 
Não, assim não. Ou a Justiça nada dizia, e deixava os cidadãos na expectativa angustiada mas cumprindo um hermetismo judicial considerado necessário. Ou então se dá um vislumbre do que persegue não pode ser isto, este nada. Pois se assim, se é esta tralhazita, antes o Costa. O Azeredo Soares, pobre homem. O Santos Silva, o Augusto mas também o amigo. A Câncio, no fundo. A tropa toda. Uma eleita, outra avençada, outra funcionária. Mas, apesar de tudo, legítima.

Delítio de Opinião

jpt, 07.11.23

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(Foto de José Sena Goulão, Lusa)

Está tudo estupefacto pelo terramoto acontecido. Ainda a quente permito-me este "delítio de opinião"* diante da derrocada destes oito anos de Costa, e isto em pleno seu crescendo da arrogância "maioritária" - tão demonstrada há dias no Parlamento, naquela patuscada de Costa ao atirar Galamba para o fecho da discussão do Orçamento, óbvia afronta ao Presidente mas também a todos o que tanto criticaram não só a ascensão do publicista do socratismo como a sua manutenção e recente promoção.

Esbardalha-se Costa agora devido à teia tentacular (passe o absurdo zoomórfico) de interesses de um partido que governou o país durante 22 dos últimos 28 anos, deixando para outros - a tenebrosa "direita", dizem-nos - a gestão das monumentais crises.

Costa, talentoso, apareceu hoje a demitir-se em pose de Estado, competente. Até à "direita" lhe gabam a "dignidade política e pessoal". Assumiu que sai ciente de nada se arrepender e de nada ter incumprido, de "cabeça erguida" - e "mãos limpas" depreendeu. Apenas porque não pode haver suspeitas de comportamentos criminalizáveis de um primeiro-ministro. E nem se vitimizou, apenas se disponibilizou à "Justiça" e às "instituições democráticas".

Melíflua "dignidade". Pois nem uma palavra para o realmente relevante: teve um chefe de gabinete, e manteve-o até ao limite do possível, acusado de umas trapaças autárquicas. Substitui-o por um outro, homem de estrita confiança, agora detido. O seu grande amigo, instrumento para as negociações oficiosas, está detido. Isto é o seu pessoal mais próximo. Tem ministros arguidos - entre os quais o famigerado Galamba, alguém por quem Costa tanto finca-pé tem feito. Isto para além das inúmeras trapalhadas que se têm seguido nos seus governos, algumas das quais o pudor me impede de aludir neste momento de queda desta gente. 

Ou seja, a questão não é se Costa tem comportamentos criminosos, à imagem de um seu antecessor correligionário - e acredito que não os tenha.  O problema é estritamente político. Por um lado é individual, residindo nos critérios que este primeiro-ministro tem para escolher as suas pessoas de confiança na condução do país - que são, vê-se, paupérrimos. Tornando-o um incompetente. E, note-se, nisso indigno, pois irresponsável. Por um outro lado é colectivo - e por isso muito mais importante -, e radica no estado desde há muito degenerado do Partido Socialista, cujas elites são useiras e vezeiras em malfeitorias patrimonialistas, minando o desenvolvimento do país. E por isso durante os anos destes três últimos governos tudo fizeram para parecer que "o socratismo nunca existiu". Mas não só existiu como lhes é o âmago.

Mas após a alegria da queda deste governo, e - sonho - desta malfadada geração "socialista", logo se levanta a angustiada questão. Quem para lhes suceder? Pois urge mudar, desenvolver o país. E é óbvio que para isso nos partidos democráticos se impõem "chicotadas psicológicas", passe o futebolês. E novos modelos tácticos. Que venham, e já. Sem atentar nos pesares de algumas vaidades e anseios pessoais.

* Agradeço a CFN, veterana leitora deste blog, que logo me enviou a sua exigência de que escrevesse eu ainda hoje um "delítio de opinião"...., assim tornando irresistível o apelo.

O apoio homossexual à Palestina

jpt, 04.11.23

 
 
Via Whatsapp um amigo envia-me este curto filme, que decerto por aí anda rodopiando. Não percebo o conteúdo, que sinto grotesco, e pergunto-lhe "O que é isto, pá?!". Diz-me "é uma coisa chamada Fado Bicha a apoiar a Palestina!". E vem implícito o remoque, que também está generalizado, aos homossexuais que se afadigam em declarações públicas deste teor - sabendo-se bem que face ao mundo islâmico, ainda que esse bastante diverso, a liberalidade legislativa e de costumes israelita é um oásis para as sexualidades, hetero e homo (e as outras que agora andam a ser indexadas com afã).
 
Sorrio. Já o disse, aos ademanes em palco sinto-os como grotescos. Sinto-os ainda mais assim - que quereis?, sou um homem nascido nos anos 1960s, justifico-me, glosando o abissal sábio de Coimbra -, do que quando diante daquelas dançarinas dos play-back pimbas nos programas televisivos da tarde, elas bojudas "como deve ser", pulando e gingando, seus refegos, lascas de celulite e proto-varizes ressaltando sob as minissaias. E destes Fado Bicha apenas tomara conhecimento ao sabê-los apoiantes - ou mesmo inspiradores - daquele prostituto brasileiro que invadiu um teatro municipal lisboeta. Apresentando-se apenas em cuecas e com os implantes mamários desnudados, algo que considerava suficiente para ali exigir um emprego - para desvelo de alguma "comunidade artística" -, ainda que, como se soube depois, considere o teatro uma chatice e prefira ir ao futebol com o namorado.
 
Não seja por isso. Esta rapaziada (ou raparigada, como preferirem, que não quero parecer preconceituoso) não inova grande coisa. De facto, sabendo-o ou não, seguem o Papa Foucault, esse "grande educador da classe genderária", o que se desunhou em apoios e viagens solidárias para com o fascismo teocrático de Teerão enquanto gozava a liberdade existencial americana. "They love Teheran but they fuck in Frisco", resumi eu em postal de blog, aludindo literalmente à foucauldiana deriva.
 
Mas o que se pode criticar a esta malta histriónica do "género" (ou lá o que é) é o facto de sempre se calarem com as maldades (e que maldades) "alheias" enquanto sempre anunciam hiperbólicos horrores nas sociedades "ocidentais". "Nós" demónios, os "outros" húmus multiculturais, por assim dizer. É uma pantomina, travestida de pensamento, e por vezes - como neste caso - mesmo por trajes. Um patético "anti-capitalismo", de facto nada mais do que um esparvoado "anti-americanismo". Dará prestígio, entre a "comunidade" que lhes é "público" e entre "instituições" e "câmaras" que contratam e financiam. É uma incongruência, de hipocrisias e dislates feita.
 
Mas tudo isso não impede uma outra faceta. É perfeitamente legítimo - até honroso - que alguém defenda outrem que dele não gosta ou até persegue. Se se reconhece a esse outrem pertinência nas reclamações como evitar expressar solidariedade? Especialmente em momentos dramaticos? "Faz o bem sem olhar a quem"... está escrito num qualquer texto judaico, julgo. Ou seja, é errado criticar os homossexuais por defenderem causas ou posições oriundas de países islâmicos. Pode-se discordar. Mas é perfeitamente legítimo - insisto, até honroso. Mas o que é inadmissível é que tantos desses movimentos, e seus locutores, demonizem as sociedades liberais. Porque essa atitude, verdadeira contradição - que é tão generalizada, tão constante -, não passa de um pobre e ordinário travesti de cidadania.
 
Quanto a estes Fado Bicha que me atiraram ao telefone só tenho uma coisa a dizer, pois sou muito reaccionário. Há algo fundamental, nisso obrigatório, quando se ergue a bandeira de alguém, em especial se a nacional, para se lhe demonstrar apoio. Não se arrasta essa bandeira pelo chão.
 
(Um pequeno detalhe, alguns dirão. Sim, é um pequeno detalhe. Mas bem demonstra a abjecta pantomina que é tanto "disto", quase tudo disto "genderístico".)

Israel e Gaza: Are you out of your fucking mind?

jpt, 04.11.23

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Resha'im Arurim (Maldita gente má) - é uma imprecação celebrizada do folhetim televisivo Shtisel

Não sou muito versado em línguas bárbaras, imunes ou demasiado afastadas do latim - ainda que por vezes com este algo mescladas. E detesto a mania dos estrangeirismos - os anglicismos de agora, os galicismos de antanho -, que sendo uma arrivista estratégia pessoal de "distinção" é também, o que é muito  pior, uma estratégia empresarial de obscurecimento de realidades lesivas dos incautos monoglotas - e que melhor exemplo actual desse aldrabismo do que o uso  bancário do termo "spread"?

Mas ainda assim há momentos em que termos ou expressões idiomáticas se impõem, pelo seu conteúdo ou ênfase tornando-se inultrapassáveis para descreverem alguma realidade insuficientemente descrita pela nossa língua. Por exemplo, alguém poderá compreender a política do primeiro quartel do XXI português sem utilizar o galicismo - de origem norte-americana, ao que consta - "bobo" (bourgeois-bohème)?

Vem-me isto a propósito da situação em Gaza. Não tenho grande apreço pelas teorias conspiratórias - e contra elas sempre me procuro disciplinar. Seja como for, a verdade é que naquele Israel, um nicho com um quarto do tamanho do "pequeno" Portugal, se congregam as atenções de imensa Resha'im Arurim, essa maldita gente má. Residentes, vizinhos. E poderosos "influencers", mais um anglicismo aproveitável. Pois não recuso a hipótese de que o inopinado ataque aos israelitas não teve como única causa o exaspero da teodiceia fascista do Hamas. Deixo aos especialistas - que são muitos - levantar as hipóteses da influência no acontecido daquele mudo conflito (extra-futebolístico) entre Catar e Arábia Saudita. E da coalizão multicultural entre Teerão e as estepes siberianas, estas envoltas num longínquo e atabalhoado guerrear. 

Mas para além de tudo isso - ou melhor dizendo, também por causa de tudo isso -, ao assistir-se a esta "operação militar especial" de Israel na Faixa de Gaza um tipo  só pode perguntar, invectivar, às gentes israelitas "Are you out of your fucking mind?" - pois não há em português expressão com celsitude e ênfase comparáveis.

Israel e Palestina, as causas de um conflito

jpt, 02.11.23

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Já aqui deixei nota que - com a minha vetusta idade, a qual me permite lembrar de Moshe Dayan, Golda Meir e Yasser Arafat -, não tenho qualquer disponibilidade para escutar/ler os doutos que  na imprensa se afadigam a explicar o que se passa lá no longínquo Mediterrâneo.
 
Mas tenho solidariedade e piedade. Solidariedade com as vítimas dos estrategas do fascismo palestino. E, concomitantemente (que bela articulação retórica me sai aqui), com as dos "falcões" israelitas - esses que desta não se safarão durante as próximas décadas. E julgo que após ter exarado esta profunda opinião, arguto diagnóstico da situação, o mundo melhorará.
 
E tenho piedade - cristã, a do cristianismo ateu - por tantos dos meus compatriotas (ou de países aliados) que têm enchido o meu Facebook com as suas aceradas opiniões, quase sempre comprovadas com indiscutíveis fontes bibliográficas ou filmográficas.
 
Entre estes há os mais arqueológicos, que se desdobram na partilha de "mapas étnicos" dos tempos bíblicos - comprovando que os "judeus" já então eram os "donos da terra", assim julgando resolver as coisas de hoje. E há os mais sociológicos, incansáveis na proclamação da justeza das reclamações históricas da também imorredoira "nação palestiniana". Gentes futebolistas, estas minhas ligações-FB, sempre adeptos fervorosos sobre tudo o que mexa, seja qual for o campeonato em causa, fiéis ao mandamento do grande holigão René Descartes, fundador da claque do Paris-St. Germain, e autor do lendário lema "Torço, logo existo!".
 
Entretanto, sobre o continuado confronto entre israelitas e palestinianos, no canal Sic Notícias, no programa Toda a Verdade, está a ser transmitido este esplêndido documento "A Origem de um Conflito". Tem três episódios, são transmitidos a cada domingo (dá para recuar e ir ver). Já passou o segundo. É muito recomendável.
 
Mas será, também, um desperdício de tempo para judeófilos e para palestinianófilos. Para esses recomendo o canal Onze - que está porreiro. Em especial o aprazível programa "Sagrado Balneário", charlas sobre velhas histórias dos jogadores e treinadores de futebol,

Os silêncios sobre as eleições confiscadas em Moçambique

jpt, 30.10.23

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(Votação nas eleições municipais, Montepuez, 2003)


Já em postal anterior referi o que vem acontecendo em Moçambique desde as recentes eleições municipais de 11 de Outubro. E voltei ao tema lamentando o silêncio do governo português. Mas regresso ao tema: sumarizo a situação - nisso repetindo alguma informação - e aduzo mais razões para lamentar a posição do nosso poder político.

1. O estabelecimento de conselhos municipais tem sido gradual, acompanhando o acréscimo da população urbanizada – a qual em 2019 era já 34% do total –, pois os distritos rurais têm outro enquadramento administrativo. Em 1998, aquando das primeiras eleições locais, estipularam-se 33 municípios, em 2008 o seu número subiu para 43, e desde 2013 passaram a ser 53. Nas últimas autárquicas, em 2018, o partido RENAMO conquistou 8 - entre os quais as relevantes capitais provinciais Nampula e Quelimane -, o MDM susteve o seu bastião Beira, tendo os restantes 44 sido ganhos pelo partido FRELIMO. E para 2023 o reordenamento administrativo implicou o aumento para 65 municípios.

 

 

O hífen na RTP-África

jpt, 28.10.23

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Enfim, sou um chato, cada vez mais um velho chato... Ontem liguei a RTP-África (um canal do serviço público, para quem se possa ter distraído). Procurava notícias sobre a situação em Moçambique - inexistiam, tal como inexistem nos outros canais da RTP. Paciência, a gente sabe da modorra e desinteresse do funcionalismo público instalado naquela empresa. 

Mas não é isso que me traz aqui. Pois andava eu vasculhando para trás e para a frente na transmissão,  à cata de algo que tivesse chegado do (efervescente) Maputo, quando me deparei com este programa, que será de variedades e tem aspecto de ser simpático. Mas acontece uma coisa: a RTP é estatal, cumpre (algo esbatidas) funções do tal "serviço público". Para que ela funcione nesse enquadramento os portugueses pagam impostos. E concordam também que concorra com outras empresas televisivas no mercado da publicidade, contribuindo para o estado depauperado em que essas vão subsistindo. Tudo isso porque se acorda que o papel da RTP é fundamental.

Sendo assim conviria informar os serviços de produção que "Bem Vindos", o nome inscrito nos cenários deste programa, é um erro. Não é um acto criativo, não é  uma "liberdade literária". É pura e simplesmente um erro, falta-lhe um hífen. Que haja erros nas legendas ou nos rodapés (que agora os incultos incautos chamam "oráculos") é criticável mas é normal, humano, falhas avulsas e individuais sob a pressão da inscrição célere. Agora um erro perene num cenário, não (r)emendado, assim reproduzindo-se entre espectadores? Para preguiça empresarial não haverá melhor exemplo.

Será que alguém pode ir ali a Chelas, à porta da RTP, informar o recepcionista "falta-vos um hífen na RTP-África"? Faltarão mais coisas. Mas pelo menos este hífen eles deverão conseguir arranjar.

Moçambique na nossa Assembleia da República

jpt, 25.10.23

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A boa política externa não se faz de modo tonitruante. E a boa diplomacia, dela instrumento, faz-se em surdina. Isto é axiomático. Em especial nas interacções entre países com relações históricas complexas, as quais podem potenciar interpretações ambivalentes dos discursos e acções das contrapartes. E mais ainda na interlocução entre antigos colonizadores e suas ex-colónias - com a escassa excepção dos três gigantes económicos americanos.

Por um lado, porque, respectivamente, numas dessas sociedades subsistem algumas tendências (até inconscientes, pois frutos de mundividências herdadas) "tutelares", e em outras vigoram tendências "reactivas", postulando ingerências ou mesmo ainda "colonialismo" em factos ou posições curiais, mesmo normais.

Mas, por outro lado, subsistem nos Estados ex-colonizadores concepções e dinâmicas emanadas do velho imperialismo, na demanda da preservação de "áreas de influência" geoestratégica e privilégio económico, sob evidente formato "neocolonial" - ainda que este não se restrinja a estas articulações.

Neste âmbito tem de se realçar que na sociedade portuguesa inexistem efectivas dinâmicas neocoloniais. Há alguma retórica política - em particular a do inepto mote "lusofonia" -, há tiques comportamentais, recorrentes em funcionários estatais de médio porte e agentes empresariais emanados do "tecido das PMEs" - evidentes frutos da fraca formação escolares desses núcleos profissionais. 

Mas tanto a CPLP - por mais que tenha sido idealizada como dínamo da relevância portuguesa -, como as nossas relações bilaterais com as ex-colónias, não têm sido vividas como instrumentos de ingerência e de imposição de privilégios. Esta inexistência não é apenas fruto de incapacidade económica, mas sim efeito de um percurso de recentramento pátrio numa Europa desenvolvimentista, e nisso reconfigurando a própria "identidade nacional". Assim esta inexistência neocolonial não é um defeito, é uma qualidade, não é uma fragilidade, é força. 

Isto é algo que pode ser intuído face á relevância de Portugal nas instâncias internacionais. Se éramos pais pária em 1974, rapidamente Portugal se tornou importante agente nas multilaterais, muito extravasando a nossa dimensão económica e geográfica. A reboque de algumas personalidades (Soares, principalmente), e assente na real e continuada excelência da nossa corporação diplomática - vítima de estereótipos negativos mas, de facto, núcleo peculiar da nosso funcionalismo. Mas, acima de tudo, pelo generalizado reconhecimento da platitude da política internacional da nossa democracia, nisso avessa ao tal imperialismo serôdio.

Preâmbulo longo para reflectir sobre uma votação ontem acontecida na Assembleia da República sobre Moçambique. Julgo necessário lembrar que Portugal e Moçambique não são "países irmãos" - como repete a incompetente retórica vigente. São "países aliados", algo formalizado na pertença desde o início na CPLP,  que em ambos coexiste com outras pertenças, e vivido através de vários vectores de robustas interacções. Ou seja, não nos une qualquer metafórica "consanguinidade"  de teor moral, mas sim uma "aliança", baseada em interesses estratégicos parcialmente confluentes. E parte fundamental dessa aliança presente é a comum adesão ao modelo democrático desenvolvimentista, vivido segundo as idiossincrasias de cada Estado soberano. 

Vive agora Moçambique uma crise política devida a um estrondoso derrame eleitoral. Na nossa AR a Iniciativa Liberal requereu ao governo um esclarecimento das suas considerações sobre esta matéria - a decorrer na devida e diplomática "porta fechada". É evidente o teor da proposta, uma forma moderada e assisada do nosso parlamento sinalizar à sociedade moçambicana, e ao seu Estado, a preocupação pela deriva naquele país. E de também de a fazer ecoar entre os congéneres, capitalizando o estatuto internacional a que acima aludi. Enquanto convoca o próprio governo a actuar, no devido tom recatado adequado à política externa.

Mas o requerimento foi liminarmente recusado pelos dois partidos de poder. O PSD considerou não ser curial que a AR se pronuncie sobre processos eleitorais alhures. Julgo que a incoerência em política é muitas vezes necessária e até sábia. Mas tem limites - recordo que o PSD, decerto que entre outras ocasiões, propôs há poucos anos um voto parlamentar sobre repressão policial e eleições na Venezuela. Friso, não comparo os dois países, noto a incompetente incoerência do PSD. E o PS refutou o pedido argumentando estar o caso eleitoral moçambicano entregue aos tribunais nacionais, elidindo a questão política que aquele país enfrenta.

Sem rebuço, a democraticidade moçambicana não é um processo ascendente. Desde há anos que há uma deriva autoritária. Eximo-me a elencar exemplos, que foram sendo noticiados. A democracia, "sempre corrompivel, sempre perfectível", como disse o liberal (de esquerda) Norberto Bobbio ali descamba em deslize acentuado. Não aponto nenhuma "virtude" nos partidos oposicionistas nem qualquer mácula ôntica ao partido do poder. Apenas noto a antecâmara do descalabro - tal como algumas figuras do próprio poder temem.

E nesse âmbito esteve muito bem a jovem IL ao querer sinalizar à sociedade moçambicana, e ao seu Estado, a nossa preocupação com o destino do entre o Maputo ao Rovuma, numa verdadeira afirmação do "estamos juntos". E demonstraram-se exauridos o PS e o PSD, exaustos na sua filiação a uma "real politik"... irrealista, abdicando de um verdadeiro papel de aliado. E, crede, condenando-nos através dessa aparente real politik a uma crescente irrelevância do Zumbo às águas do Índico. 

Os Custos da Idade

jpt, 23.10.23

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Isto de envelhecer traz vários problemas. Um deles - que não é o pior - é o crescendo de impaciência, a total falta de pachorra para as "novidades" e "excitações" que se vão sucedendo, isto porque em tempos recuados já se ouviram tais coisas, e até repetidas vezes, (res)surgindo estas agora apenas como tralha estafada, requentada, verdadeira fancaria.
 
Quero fazer-me entender, a impaciência é uma qualidade, um precioso método analítico. Mas faz correr riscos, pois tem dois corolários que são contraditórios, ainda que muitos não os apreendam como tal. Pois o impaciente tende ao menosprezo - de factos, ideias e pessoas -, o qual é uma virtude extrema. "Virtude" num velho duplo sentido, o de impregnado de bem e o de potencialidade para a acção. Pois é uma peneira, tornada instrumento de optimização da reflexão e acção. Mas o impaciente tende também para o desprezo - de factos, ideias e pessoas -, o qual é um pecado, pois inibe a acção, ao promover a distracção sobre o mal - esse que habita em factos, ideias e pessoas. Pecado esse a evitar, de molde a impedir a tal distracção face aos inimigos, que letal pode ser.
 
Um querido amigo acabou de comprar no OLX (já agora, eu estou a vender livros, lindíssimos e baratos, no OLX e no Facebook e não aparecem compradores, raisparta a vida...) a colecção quase completa da "Gaiola Aberta" e a da "Fala Barato", publicações do grande José Vilhena. Passei hoje um bom bocado da tarde em sua casa a folheá-las, rindo-nos todos à gargalhada, com a coragem, o talento e o desplante de Vilhena. Mas também ufanos do ambiente em que crescemos, em que este registo abrasivo era não só aceite como aclamado.
 
E esta capa serve-me, que nem luva, como exemplo do que quero dizer sobre os efeitos distintos da tal "impaciência". Este ano saíram duas biografias de Pessoa, que foram muito compradas e talvez até lidas, e também tópicos na imprensa e nas redes sociais. Nas quais amiúde se discutiu as respectivas abordagens, ditas relevantes e até inovadoras, à vida sexual do poeta. Um biógrafo afiançou-o homossexual, outro garantiu-o heterossexual. Debateu-se o tamanho do seu membro viril. Resmunguei em monólogo com a conversa de "ir ao cu", se literalmente falando. Menosprezando a tralha, livros (para quê ler uma - grande - biografia de Pessoa?, para quê comprar uma - grande - biografia de Pessoa?) e conversas dedicadas. E lá está, é um menosprezo não agressivo, liberal ("vive e deixa viver" transposto para o "lê e deixa ler"), vindo da tal impaciência do envelhecido, de quem tem estrada atrás. Pois esta capa de Vilhena, que acabo de recordar, é de Julho de 1988 - tinha eu 24 anos! Como é óbvio não posso deixar de menosprezar, mas sem qualquer desprezo, estes taralhoucos de agora.
 
Mas este meu snorkeling em Vilhena recorda-me a necessária distinção, os cuidados a ter com o tão propalado "desprezo", distractivo. Pois ao folhear as revistas é evidente que a liberdade que Vilhena tinha - em texto e em imagem - é passado. Por exemplo, a forma desassombrada como enfrentou uma jovem socialista em ascensão - e 30 e tal anos antes dessa gente roubar vacinas do COVID para dar aos seus familiares - seria hoje perseguida. Apesar do roubo de vacinas... E nós temos tendência para "desprezar" os tais ladrões de vacinas e assim neles desatentamos, esquecemos como mantêm influência determinante.
 
E esquecemos também - muito pelo tal "desprezo" - o persistente esforço dos donos do regime em fazer reduzir a liberdade de expressão, "escatológica" que seja. Compare-se o sarcasmo hiperbólico de Vilhena e veja-se as reacções ao "cartoon" do professor sobre Costa em 2023... Lembro eu aquele que o PS fez quase juiz do Tribunal Constitucional, no Parlamento a considerar que um "terroristas e cartoonistas estão bem um para o outro", ou o "cultural" socialista Oliveira Martins a considerar que há barreiras "de bom gosto" para a liberdade cartoonística (e decerto que para outras). Já para não falar daquele Magalhães, dito "pai da internet portuguesa", a fazer uma lei com potencialidades ("virtudes") censórias, defendida na tv pública por uma mulher que nele se esfregava. Esta gente não é menosprezável. Nem desprezível. Pode ser, e é, repugnante. Mas são inimigos, e há que neles ter atenção. O "apreço" da atenção vigilante.
 
Uma adenda, para melhor fazer entender este peso da velhice impaciente? Perguntam-me o que penso eu daquilo em Israel. Eu lembro-me de estar em casa dos meus avós maternos, ali na Luís Bívar, diante do já extinto Hospital Particular. Ora o meu avô morreu quando eu tinha oito anos. E estávamos ainda todos à mesa, ao jantar, o telejornal a preto-e-branco tinha como introdução um globo terrestre girando. Depois apareceu Moshe Dayan, o ministro israelita com pala no olho, que me cativava por ser "pirata". E também Yasser Arafat. Como é evidente 50 anos depois menosprezo os doutores ("politólogos", alguns dizem-nos, "comentadores", outros grasnam) que me vêm explicar os "direitos históricos" de uns e de outros dos contendores, carregados de prosápias certeiras.
 
Mas não menosprezo, e muito menos desprezo, o político energúmeno que informava a embaixada russa sobre os oponentes ao regime de Moscovo, aqui residentes ou visitantes. E que também informava a embaixada israelita das actividades de palestinianos (e outros) avessos ao regime de Telavive (ou Jerusalem, escolham), aqui residentes ou visitantes. Não o desprezo porque é o inimigo. Será repugnante mas nunca desprezível, pois há que nele atentar. Nele e na infecunda mole dos seus apoiantes - "ai o Medina respondeu muito bem ao ter levado com a tinta verde", ouço e leio os seus sequazes que tanto grassam no meu desgraçado país.

Leituras de Sábado

jpt, 22.10.23

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Depois de uma semana de azáfama e ansiedade, e assim de poucas leituras, acordei hoje ainda de noite. E saudando este até-que-enfim final do longo Verão, deixei-me a ler. Há algum tempo resmungara no FB que não gostara de "Caim" de Saramago, e atiraram-me pedras arrancadas ao Carmo e à Trindade, junto a gritos de "beato" e "reaccionário"... Sorrira, num "ele há cada um!", e sacara do "A Viagem do Elefante", que nunca li. Mas agora deixei-o empilhado, devido ao que me diz o meu pai, o Camarada Pimentel, comunista militante, admirador do Saramago ideólogo, do Saramago anticlerical e do Saramago escritor - do qual comprou toda a obra, que vim a herdar. Diz-me o meu pai, cerca dos seus 85 anos, ainda a uns anos da morte, eu vindo de férias a Portugal, que anda a reler os portugueses, algumas coisas da sua juventude até... "Ferreira de Castro", "a sério?", surpreendi-me eu, "não era um grande escritor mas tem coisas muitos interessantes...", afiança-me, e eu depreendo-lhe o apreço por aquelas sagas de emigrantes, desvalidos e laboriosos... "E Saramago também, umas coisas que não lera. E reli o Levantado...", e mais sorrio eu num mudo "Claro!". "Mas sabes", continua ele, "grande escritor mesmo é o Aquilino!", e está enfático no folhear de um dos livros do mestre.
 
E por isso, nesta memória, pego neste "Quando os Lobos Uivam", e recomeço a releitura, não fosse ter perdido o fio à meada nestes meses de interrupção. E na alvorada leio o extraordinário 1º capítulo, o regresso de Manuel Louvadeus à sua casa aldeã depois de longas andanças no Brasil. E nesse entretanto a apresentação do ambiente, das gentes - que é livro com personagens e não apenas "temáticas" ou "sensações" - e da trama., essa dos baldios do povo serrano que "Lisboa" quer abarcar para deles fazer "pinhal" e chamar-lhe "natureza". Tudo numa escrita esplêndida, riquíssima - tanto assim que pejada de pepitas que já nem conhecemos - e tão rija como as pessoas que retrata.
 
E livro tão actual, pois fazendo falar quem de onde "O solo era negro e sujava as mãos. A gente boa sumia-se na emigração. O que sobrenadava era o rebotalho. Pudera, tanto o lavradorzinho da arada como o cabaneiro viviam frigidos com tributos, mais escravos que os negros. Davam de comer à cáfila toda. Sustentavam o fidalgo, o ministro, o doutor, o escrivão, o padre; sustentavam o pedinte, o citote, o ladrão; desfaziam-se em maná, e ficavam nus e viviam nus que nem castanheiros depois de abanados." (29). E livro ainda mais actual, pois agora em país de tantas lérias sobre "combate ao fogo florestal" e sussurros sobre "minas de lítio". E está quase tudo no enorme Aquilino.
 
Leio apenas este capítulo, pois lerei apenas um por dia, forma de saborear. Bebo a malga de café e regresso ao único livro que tenho de João Barrento, o recente Prémio Camões, este "O Espinho de Sócrates", já de 1987 - tão recuado assim não será a melhor forma de lhe conhecer o pensamento. 4 artigos sobre temas literários, não é a minha área de interesses nem conhecimento, salto-os. Mas leio o último, o breve "Para uma sociologia das vanguardas: entre o guetto e o museu", algo mais abrangente e interessante para quem queira reflectir sobre produção artística-literária e sua recepção. Eu quis, em tempos recuados, mas já não - devia ter lido isto há muitos anos...
 
E sigo ao "Tristia" de António Cabrita, "Um Díptico e Meio" avisa o poeta ser este monumento em livro (Húmus, 2021). Que posso dizer a sua espécie de Odisseia interna por Moçambique, se bem que o Cabrita decerto arranjará outras, e várias, formas míticas para se recobrir. Avanço assim pelo que refez da sua "Piripiri Suite", provocatório título (para quem não saiba Piripiri é como se a Portugália de Maputo). E logo atento nele, retratando-se professor universitário, num "Zoologia dos fluxos: os marcadores de feltro / não chiam no quadro, enquanto a respiração / nas minhas costas me soa demasiado compassada. / No fito de os acordar deito a vasa: "hoje, o catolicismo / está para o cristianismo como eu para o Brad Pitt!".
 
Rio-me, com gargalhada solitária, como se estivesse eu diante do Cabrita em Maputo, de uísque na mão.... E digo-lhe, "vale isto mais isto, este naco, do que o Caim, porra...". Ele também se ri, vejo. Mas nisto perdi o embalo, fraco leitor de poesia que sou. E troco o volume, bojudo, por coisa que me é mais acessível, este "A Promessa da Política" de Hannah Arendt, e avanço no seu primeiro artigo, "Sócrates" - luminoso, garantem-me os meus gatafunhos e sublinhados, feitos em tempos de leitura profissional, mas do qual não tenho quaisquer notas. E vou fazê-las, ainda que saiba que agora me serão já inúteis.

Ainda estou a páginas vintes e almoço, cedo, uma maravilhosa, até poética, açorda de bacalhau, os salvados do festivo jantar de ontem. Caiu-me tão bem que vou dar uma vista de olhos pelos jornais, que o Sporting jogará e hoje há o Inglaterra-África do Sul e tenho de estar actualizado. Nesse entretanto encontro este belo artigo sobre o impacto mundial das redes sociais, e dos dísticos #booktok e #bookstagram, na leitura. E ocorre-me que será preciosa leitura para alguma gente, mais convicta de si-mesma e sempre nisso muito crítica das leituras alheias, inscrita no enorme grupo-FB Mostra o que estás a ler... Nem que seja para lerem o cabeçalho: "As redes sociais vieram tornar a leitura mais acessível e mais afastada daquela ideia académica de que o livro tem de ser uma fonte de educação em detrimento de uma fonte de entretenimento." E nisso se valorizando o fundamental, a acção de leitura, a suspensão do circundante, uma atitude - intelectual e física. E, já agora, a crença, o pacto com a plausibilidade e/ou relevância do que se enfrenta.

E tanto gosto do texto, do que ele enuncia, que venho blogar.

O Estoicismo Moçambicano

jpt, 19.10.23

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(Mutarara, 2007: composição iconográfica que julguei exemplar do processo moçambicano)

O "Observador" publicou ontem este meu texto

O Estoicismo Moçambicano

As eleições autárquicas em Moçambique da passada semana logo se tornaram um cúmulo de desconchavo. No processo de municipalização do país, 65 dos seus 154 distritos são já municípios – há um quarto de século eram apenas 33. E é nesses órgãos eleitos que tem vigorado a efectiva partilha de poder - a realidade democrática -, dada a gradual conquista de vários conselhos municipais pelos partidos da oposição.

 

 

No Metropolitano de Lisboa

jpt, 17.10.23

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Nos Restauradores entro no Metro, desço ao cais e fico estuporado pois - ainda que soando algo baixo - reconheço acordes dos Doors, a L.A. Women logo julgo. Sai-me palavrão, peludo - e ainda pior, logo de seguida, ao ouvir a canção interrompida com anúncio a um qualquer cartão ("Viajante"?). São-me palavrões mudos, para mim mesmo, isto de ver os velhos Doors resumidos a "música de metropolitano", que nem de hotel.... E lembro-me, eu puto, do programa musical de António Victorino de Almeida, dizendo que a população de Viena (Viena!!!!, sim, Viena...) votara contra a música ambiente no metro...

Fogo!, que menosprezo, os velhos Doors metidos a música ambiente do Metro lisboeta... Que desplante, o da empresa... Não os ouço há quanto tempo?!, nem nas minhas fileiras do spotify, dizendo-os desengraçados, ao Morrison um histriónico até piroso e - até mais do que tudo - nestes meus já 59 anos não tocando naqueles seus produtos há para aí 40 anos, vade retro, satanás, disse mesmo que ateu, avesso àqueles químicos, depois descrente do vegetal psicotrópico.

Agora, é já noite, e deparo-me comigo, nas mãos tenho este "Uma Oração Americana e Outros Escritos", editado pela Assírio e Alvim (ainda assim escrita), que comprei em Dezembro de 1981... Já tocou, bem alto, e eu cantei, o "Everybody loves my baby, everybody loves my baby, she get high, she get high, she get high, she get high, yeah"!

Agora toca, e eu leio, "As pessoas são estranhas quando nós o somos, / feias são as caras quando nos vemos só. / Toda a mulher que nos rejeita nos parece perversa, / as ruas são tortuosas quando estamos em baixo. / Quando nos sentimos estranhos, surgem-nos caras através da chuva, / quando nos sentimos estranhos, ninguém se lembra do nosso nome, / quando nos sentimos estranhos, quando nos sentimos estranhos, / quando nos sentimos estranhos." (Tradução de Manuel João Gomes). Pois é assim mesmo...

Enfim, afinal... obrigado Metropolitano de Lisboa. E, já agora, alguém por aqui tem aí alguma coisa...?