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Quando te digo para não cederes ao politicamente correcto não estou a ser o tal pai apenas velho e reaccionário, que decerto pareço. E não, não estou a ser apenas o tal pai que despreza, visceralmente, a turba de demagogos - quantos deles meu colegas antropólogos ou similares - sequiosos dos financiamentos socratistas ou quejandos, viçosos na estufa do "Choupal até à Lapa", de Telheiras ao Bairro Alto, e tão loquazes na defesa da "tolerância" e no ataque a nós-todos, "brancos" "ocidentais" (excepto eles próprios, porque homossexuais aka gays, guevaristas, "genderistas" ou tralhas semelhantes).

Quando te digo para não cederes ao politicamente correcto é para que possas pensar o mundo, nele actuar ou apoiar. Com sentido crítico. O que implica tino, imenso tino. E independência dos financiadores, burocratas estatais quase sempre.
 
E digo-te isto, comovido e até um pouco aflito - apesar do mim-mesmo que se vê rude pois experimentado, nada atreito a histerismos, mas pai -, ao ler esta notícia, a mostrar como aí nas universidades onde andas também vigora esta mentalidade, do medíocre e torpe "correctismo":
 
 
Minha querida, o problema não é o "Boris", goste-se ou não dele. O verdadeiro problema, horrível, é esta gente, vizinha, colega (até amiga) que faz por incompreender e esconder - por interesse, para ter ganhos económicos e estatutários, nos meneios e trejeitos em que se anima - que "tolerância" é sinónimo de "segurança". Urge afastar-nos deles. Que as polícias, em democracia, cuidem dos escassos guerrilheiros terroristas. E que nós, cidadãos, nos afastemos, combatendo-os, destes colaboracionistas "intelectuais".
 
Um beijo, muitas saudades.

Eu Sou o Desconforto!

por jpt, em 30.11.19

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"Eu sou o desconforto" (falta ao título jornalístico o óbvio ponto de exclamação) não é apenas o catasfioresco trinado "rio-me de me ver tão bela neste espelho". É mesmo uma proclamação bíblica, a sublinhar uma desmesurada autopercepção.

Desde Bruno de Carvalho que o país não tinha uma personagem destas. A imprensa delira, as redes sociais fervilham. Alguns demagogos (ainda) rejubilam. Vem aí o Natal. Depois o delírio continuará. Até (nos) cansar.

 

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A história é simples: a Câmara de Lisboa decidiu instalar a EMEL na freguesia de Olivais. Escolhendo um modelo todo desatento às características urbanísticas (espaciais e sociológicas) do "bairro". A presidente da Junta (PS) desde há anos garantira que sob sua presidência a EMEL nunca seria instalada, e disso também fez argumento de campanha eleitoral. Tudo isso foi varrido, e aí já está o processo de instalação do parqueamento pago. Com efeitos brutais na mobilidade/sociabilidade dos habitantes de tão peculiar freguesia. Para se justificar diz a presidente Rute Lima (entretanto candidata à AR por Lisboa) que os opositores à EMEL são "comunistas", e assim segue ufana no desdizer-se.
 
Não se trata apenas da rapina económica (impostos e taxas) estatal. Nem só do alijar das responsabilidades camarárias na situação automóvel - nas últimas três décadas a construção imobiliária, de estações de metro, e o crescimento do aeroporto, nunca foram conjugados com o do estacionamento (parques ou silos).
 
É pior ainda: pois as instâncias camarárias foram forçadas a aprovar a realização de um referendo aos fregueses para decisão sobre a instalação da EMEL. E estão a protelar a sua realização enquanto vão instalando o parqueamento pago. Ou seja, não é pura irresponsabilidade camarária, não é pura demagogia dos políticos. É mesmo violação dos procedimentos legais democráticos. O partido do poder, no centro de Lisboa, a comportar-se assim. E o (empobrecido) cidadão que pague, cada vez mais. Sem qualquer racionalidade, sem considerações do impacto social destas medidas punitivas, sem procurar desenhar modalidades menos agressivas.
 
Hoje, sexta-feira, depois do horário de trabalho, às 19 horas, é de ir até ali à Encarnação/Olivais Norte, diante da sede da Junta. Para exigir a realização do referendo. E depois que a população freguesa diga do seu entender: se sim, se não, e como. Mas, acima de tudo, para recusar que o poder político continue a tentar fintar o povo. Demagogicamente.
 
Por isso clamo: "De pé, ó vítimas da fome"! E lá estarei, ombreando com o "sal da terra". Contra esta gente.

A rábula

por jpt, em 25.10.19

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A rábula na Assembleia da República mostra mesmo o estado da criatura do eixo Barnabé/Jugular: está deslumbrada. Vai ser uma orgia demagoga. Ao princípio divertirá os beatos daquela sacristia. Depois até a esses cansará. Entretanto estes joanasamaraisdias distribuirão alguns financiamentos. E aparecerão na tv.

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Um meu antigo colega de turma, que cumpriu relevantes funções políticas, referia ontem, no seu mural de FB, a enorme e continuada redução de votantes nas eleições destes últimos 20 anos, apelando a um estudo sociológico do fenómeno - algo que vá para além do mero opinar. Logo alguns dos seus comentadores referiram a falta de atenção mediática sobre a política (o que é factualmente falso) ou a escassez da "oferta" de alternativas políticas (algo rebatível pela proliferação de partidos).

Eu não tenho quaisquer contributos interpretativos que vão para além da minha "história de vida", a de alguém medianamente informado e algo democrata. Avanço-a: um tipo tenta escolher e participar, votando nas propostas que não se afastem do seu quadro intelectual. Às vezes vota nos grandes partidos (antes ditos "arco do poder"), ainda que estafado com as suas derivas patrimonialistas e mesmo cleptocráticas, portanto anti-institucionalistas (e assim anti-democráticas): a "bpnização" do PSD; a "socratização" agora "litiozação" do PS; a impunidade autárquica (lembrai-vos dos cerca de 50 mortos numa enxurrada no desvairado Funchal jardinesco, das décadas do 2M de Braga, por exemplos?).

Outras vezes um tipo irrita-se com o "fartar vilanagem", por isso é dito "populista" pelos amigos mais dados às redes sociais, ou "ressentido"/"ressabiado"/"invejoso" pelos actuais cultores do pensamento bolchevique (que entendeu o "dissidente" como psicótico). E vai à procura, entre a tal "oferta", de alternativas. Se dado a ecologias, e mesmo que encolhendo os ombros, é capaz de botar PAN, mas depois percebe o só que aquilo é. Mas a vida corre e mais tarde vê estes novos liberais, com alguma pertinência discursiva, e bota IL, e gosta de uma nova linha eleita.

Depois, logo logo depois, vê este LP optar por começar a exposição pública da sua nova condição parlamentar no puro entretenimento, até clamando amores pela "namorada de Portugal" (de facto "divorcée de Portugal"). E resmunga, se é para isto antes venha uma "caldeirada de peixe", com mais ou menos galambas no tempero. Amaldiçoa o voto que deu à tal Iniciativa Liberal, que com isto mostra já o "poucochinho" a que vem, afinal apenas mais do mesmo, só um "aparelhista" bem-posto. Nada de novo sob este (medíocre) Sol.

E com este cardápio, mais tarde ou mais cedo, mais cedo do que mais tarde, abstém-se. Depois haverá quem o faça objecto de estudo, membro do "universo abstencionista" ...

O Corredor

por jpt, em 14.10.19

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Passou já um quarto de século! Em 1994 trabalhei uns meses na preparação das eleições na África do Sul, aquelas nas quais Mandela e o ANC ascenderam ao poder. Foi o histórico e esfuziante fim do apartheid. E para nós, estrangeiros, também sublinhava a época, essa da crença num futuro ainda assim melhor, o da imperfeição democrática, derrubados que haviam sido os fascismos sul-americanos e os comunismos europeus, chegados os BRICS asiáticos mais desempoeirados e abanadas as ditaduras africanas, naquilo do "ajustamento estrutural", não tão santo assim, mas isso só o viríamos a perceber depois ...

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Integrei um pequeno grupo de observadores colocado no Cabo Oriental, num corredor a que então chamavam "Border", encastrado entre os bantustões Ciskei e Transkei, nominalmente independentes, um naco de terra fértil, coroado com a maravilhosa Hogsback, da qual se diz ter Tolkien retirado inspiração para criar o seu universo ficcional, e culminado com East London, rica cidade pois melhor porto índico do país. Entre o pequeno grupo de colegas logo a maioria se acomodou naquela plácida cidade, congregando-se numa até modorrenta sucessão de visitas às actividades pré-eleitorais decorridas nas suas imediatas ... imediações. E, sendo franco, pois tanto tempo já passado, na fruição das aprazíveis instalações de veraneio que East London tinha.

Nestas missões trabalha-se em pares. Tive a sorte de me ter calhado como parceiro um enérgico francês, vindo de uma missão de dois anos na guerra na Jugoslávia, na qual trabalhara para a Cruz Vermelha. D. e eu logo fizemos para nos baldarmos a esse remanso, tão desejado pelos tais colegas. Assim, e para contentamento de toda a equipa, ficámos encarregues de acompanhar o que se passava nas "townships" circundantes, e também no Ciskei e no sul do Transkei. As distâncias eram grandes, as jornadas decorriam em ritmo frenético. A experiência foi fabulosa.

Éramos jovens, bebíamos muito, dormíamos quase nada.  Deitávamo-nos tardíssimo, madrugávamos de noite, mata-bichávamos bifes tártaros, com o ovo cru, e partíamos no nosso pequeno VW Citi 1800, voando até, pois isentos de limites de velocidade por sermos observadores eleitorais. Lembro-me de dizer a D. ser ele o homem em quem mais confiava no mundo, pois adormecia no "lugar do morto" a mais de 180 kms/h naquele carrito. Pois se eu guiava depressa, ele fazia-o ainda mais. Assim, e sem exagero, "íamos a todas".

Assistíamos a reuniões políticas, era essa a nossa função, o de "mostrar a bandeira", a da U.E., nisso a todos confirmando estar a "comunidade internacional" presente, para assegurar uma eleição "livre e justa", sem incidentes nem violências. Foram centenas naqueles trepidantes três meses: vi Mandela no Ciskei, um dia maravilhoso, Mbeki e Ramaphosa, os dois anunciados vices, FW, Winnie - que mulher!, que carisma ... Holomisa, o homem do Transkei, e a queda de Gkozo, o homem do Ciskei (bloguei pequenas memórias disso aqui). E imensas outras, pequenas, de cariz local. A logística era sempre igual: na véspera sabíamos as reuniões (comícios ou afins - ninguém dizia "arruada" naquele tempo) previstas e seguíamos desde a madrugada. À chegada éramos aguardados por "comités locais de paz", gente de organizações não-governamentais que nos enquadravam, tanto para questões da nossa segurança como para nos servirem de intérpretes. Claro, nem sempre existiam esses "comités", mas sempre alguém nos acolhia.

Nessas manifestações as únicas verdadeiramente difíceis eram as do Pan-African Congress. Histórico movimento de resistência anti-colonos e anti-apartheid, o partido estava então submerso à enorme vaga Mandela/ANC, como os resultados eleitorais vieram a mostrar. Tratava-se de um partido m-l radicalizadíssimo, profundamente racista e, ainda que na época isso não fosse assunto de agenda, visceralmente homofóbico  - sob a tese muito espalhada de que a homossexualidade é excêntrica aos africanos, entenda-se pretos, e uma maleita dos brancos, a extirpar. Os seus comícios, nos quais nunca havia qualquer "comité" de acompanhamento, decorriam nas paupérrimas "townships" e nos tétricos "informal settlements", tinham sempre escassos participantes, estes nada amistosos, para não dizer mais, com os brancos estrangeiros que ali apareciam. O partido tinha dois motes muito peculiares: mantinha o cântico/slogan "one settler, one bullet", a convocatória ao assassinato de todos os brancos no território, o que nos fazia algo desconfortáveis, e defendia a mudança do nome do país para Azânia. Enfim, se visitar sozinhos essas paupérrimas áreas residenciais era já bastante enervante, tanto nos avisavam dos perigos que corríamos e nos desaconselhavam a fazê-lo, entrar naqueles comícios e enfrentar a rudeza dos aglomerados era algo custoso. Íamos, dávamos uma volta, mostrávamos que ali estávamos, calculávamos os participantes e outros itens requeridos para os relatórios, e logo partíamos, sempre bastante desconfortados. Para não dizer outra coisa.

Os meses passaram, as eleições correram, o PAC teve um resultado ínfimo. Mandela chegou ao poder. Após a contagem dos votos parti dali, fiz a Garden Route pela minha primeira vez e cheguei ao Cabo ainda a tempo de acompanhar o seu empossamento como Presidente da África do Sul. Glorioso momento.

Logo voltei a Portugal. Dois dias depois de chegar fui à universidade, pois estava então a fazer um mestrado e a preparar a minha partida para Moçambique para trabalho de campo, o qual adiara exactamente por causa desta missão. Logo no corredor de entrada encontrei um professor, homem conhecido e cidadão activista. De modo simpático, até enfático, dirigiu-se-me e disse "Flávio (que era o meu nome de escola), soube que estiveste na Azânia!". E lembro-me exactamente do que pensei: "Fogo, branco e homossexual eras o primeiro" (a ser abatido, entenda-se). Mas é óbvio que não lhe disse isso, para quê? Apenas lhe respondi "Não, estive na África do Sul ...". E segui à minha vida.

***

Partilho esta mera historieta, e já tão antiga, que me veio agora à memória. Decerto que pelos dias que correm e algumas pessoas que discorrem. Esta história não me serve de trampolim para tentar compreender a tão complexa África do Sul, nem fenómenos como Malema, as lutas de poder no país, o historial da propriedade fundiária ali ou nos países vizinhos, ou tantos outros assuntos, e muito menos para a decalcar para o resto do mundo. É mesmo só uma memória pessoal, talvez pouco significante. Mas partilho-a, agora, um quarto de século passado, porque me ocorre algo bem diverso: é óbvio que se podem tirar as pessoas do corredor. Mas a algumas pessoas não se lhes tira o corredor. Pois este é muito confortável.

Demagogia

por jpt, em 14.10.19

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Leio num jornal que provavelmente a actual ministra da justiça sairá do governo e irá para o Tribunal Constitucional, sendo previsível que passará a presidi-lo daqui a algum tempo.

Entretanto, nestes últimos dias, continuo a ler um enorme chorrilho de patacoadas sobre o extraordinário significado da ascensão ao parlamento de gentes oriundas do bloguismo mais demagógico do início dos 2000s. Uma verdadeira orgia de jargão, um frenesim orgástico. E, espertalhões que são, as pessoas dão-lhes atenção. 

Handke

por jpt, em 10.10.19

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Logo que a guerra acabou fui trabalhar na Bósnia-Herzegovina, colocado em Tesanj. Na Europa muito difícil será encontrar um contexto fisicamente duro, e ali não o foi. Mas, e ainda que apenas tenha sido um mês, foi -me moralmente muito duro. Pois deu para perceber a inacreditável razia que ali acontecera, demoníaca. Anos depois escrevi um textinho, balbuciadas memórias sobre isso, a modos que catarse. E lembro também, já questões pessoais, do meu horrível regresso a Lisboa, um domingo de manhã, abatido pois comovido com tudo aquilo que vira e ouvira, e o chegar a casa para sofrer uma separação totalmente inesperada, por espúrias e até patéticas razões, uma verdadeira crueldade que me derrubou. Isso são outras contas, é certo, mas nunca me lembro da Bósnia sem elas virem ao de cima. Mas o que agora conta é que muito me irrito cada vez que vejo gente a defender os sérvios - e esse é um discurso muito presente nos (ex)comunistas portugueses, ocamente reduzidos a uma eslavofilia. Mesmo sabendo da enorme complexidade daquela guerra jugoslava, do verdadeiro pan-demónio que ali grassou.

Isso é uma coisa. A outra coisa é ver agora as reacções na imprensa, nacional e estrangeira, ao Nobel atribuído a Handke. Li um punhado dos seus livros, autor que esteve em voga. Muito provavelmente o primeiro terá sido este "A Hora da Sensação Verdadeira", uma das primeiras capas - e bem bonita - do meu amigo Emílio Vilar - mais ou menos contemporânea da belíssima linha gráfica que então ele criou para a muito boa colecção "Memória e Sociedade" também da Difel. Lembro-me bem disso, e que foi ele que me deu um dos exemplares que tinha. Depois li o tal punhado de Handke. E marcou-me, em particular o "Para Uma Abordagem da Fadiga" (vou relê-lo agora, como reagirei 25 anos depois?). 

Mas antes fico só com uma questão, que a mim próprio responderei. Pois, e mesmo que nada goste dos defensores dos sérvios, tão malvados que estes então foram, interrogo-me: que gente é esta que avalia os escritores principalmente (ou mesmo somente) pelas suas opiniões políticas? Imprestável. Vizinhos imprestáveis.

Então e o PAN?

por jpt, em 08.10.19

Na azáfama dos resultados eleitorais o PAN, apesar de crescer bastante, perdeu alguma visibilidade. As pessoas discutem o comentador Ventura do CHEGA (João Pedro George mostrou impressivos trechos do seu romance), a não-única nem primeira deputada negra do LIVRE (Alexandre Pomar é proto-lapidado por se incomodar com a sua gaguez, Paulo Pedroso saúda a sua proposta de uma nova lei de nacionalidade - o desvelo do PS com o PEV, perdão, com o LIVRE é notório) e há vários encomiásticos perfis biográficos do deputado Cotrim de Figueiredo, do IL, para além de inúmeras notas sobre as minudências dos partidos maiores.

Nisso esquece-se o PAN. E só agora percebo que em Setúbal os eleitores elegeram esta Cristina Figueiredo. No passado 30.9 partilhei no meu mural de Facebook este trecho de entrevista, espantado com a impreparação, o vácuo e a arrogância desta candidata, denotativos do pobre partido em que havia surgido. Mas nunca me passou pela cabeça que viesse a ser eleita. E foi! Os eleitores de Setúbal puseram esta mulher no parlamento. E ela não vem das "juventudes" nem é familiar de algum poderoso dos aparelhos dos grandes partidos que a houvesse colocado num qualquer lugar laboral, como tão costume vem sendo. É um rosto de um novo partido.

Que catastróficos plantéis, pessoais e intelectuais, dos partidos tradicionais para que a "novidade" atractiva seja esta. Patética.

O meu rescaldo das eleições

por jpt, em 07.10.19

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1. Antes de tudo os dois vencedores: o PS; António Costa. A ordem é arbitrária. Os que, como eu, não gostam bem que podem botar o rol de coisas que consideram criticáveis: o controlo da justiça; e o da comunicação social, a estatal e a privada; a rede familiar no aparelho político; a (indi)gestão dos fogos rurais; a continuidade da austeridade; a perene inexistência de um verdadeiro desenvolvimento nacional; as constantes diatribes governamentais, a errática política africana, etc. Mas o que é certo é que a população votante aprecia. São as pessoas alienadas e ignorantes, ou vice-versa? Essa explicação pulidovalentesca, por mais que atractiva em dias de irritação, é vácua. A força sociológica do PS não é conjuntural e é fortíssima. E um "partido" não é uma "frente" ou um "movimento", é um "partido" mesmo que tenha uma retórica "nacional". O PS, tal como os outros, é um partido, portanto ligado a interesses preferenciais, e está imensamente ancorado no país. Lapaliçada? Talvez, mas há muitos que o esquecem. E Costa é muito hábil. Competente. Reproduz e engrandece essa base sociológica. Está para durar, excepto se houver um "arrefecimento global" económico-financeiro.

2. Foi um straight flush: PSD atarantado - já o estava e Rio sublinhou-o no penoso discurso final, exactamente igual ao de Jerónimo de Sousa, feito antes: disse ele que o PSD foi alvo de campanha da imprensa, de difamação até; que o PSD apresentou propostas detalhadas em todas as áreas temáticas (como se isso não fosse o trivial num partido daquela dimensão); que o PSD divulgou essas propostas em campanha; e que as profecias da hecatombe do PSD foram exageradas. A efectiva similitude com o discurso do secretário-geral do PCP foi mais que patética, pareceu mesmo plágio. CDS esmagado. PCP amarfanhado. BE reduzido - por mais que anunciem vitória os resultados não foram os que esperavam, e perderam 60 mil eleitores, uma boa quantidade desses para o rival mais próximo, agora neo-parlamentar. E nenhum dos pequenos partidos ficou imprescindível para futuras negociações.

Melhor para o PS/Costa seria mesmo muito difícil. E o óptimo é inimigo da ... maioria absoluta.

3.  A comunicação social trata o BE com cuidados inexcedíveis. Até quando? Vi a noite eleitoral na estatal RTP.  Ali José Rodrigues dos Santos, que tanta esquerda apoda de reaccionário (ou mesmo "fascista") várias vezes falou do resultado daquele partido, afirmando que não tinha crescido. Mas não foi capaz de dizer que o Bloco de Esquerda perdeu cerca de 60 mil votos. E na intervenção final do painel de comentadores Marisa Matias conseguiu dizer que "não há crescimento", sendo que o jornalista (do Estado) não a fez enfrentar os resultados. 

Mas isso são as coisas que todos viram. Deixo também os meus apontamentos pessoais, para quem tenha paciência/interesse:

4. Fui votar bem cedo, aqui na vizinhança onde cresci e agora vivo, na escola onde votavam os meus pais e eu sempre votei. Faltava gente nas mesas de voto - isto no centro de Lisboa, freguesia Olivais -, e vizinhos conhecidos convocaram-me para ajudar. Não tive "lata" para dizer que não - ainda para mais já tendo feito várias eleições no estrangeiro. E assim passei o dia numa mesa de voto, integrando uma simpática e funcional equipa de verdadeiros veteranos desta actividade - gente com 30 anos ou mais disto, entenda-se. Por eles vim a saber que este trabalho, afinal, é remunerado. Ou seja, ganh(ar)ei cerca de 50 euros pela missão cívica. E nisso percebi porque faltavam pessoas na alvorada eleitoral: pois a junta de freguesia pagara o trabalho feito nas eleições europeias apenas na sexta-feira anterior ... Cá se fazem, cá se pagam, diz o povo na sua infinita sageza.

Fiquei como escrutinador na mesa dos "Manuel" e das "Maria" - e saí impressionado com a dimensão do voto geronte. A freguesia é muito envelhecida, e isso nota-se à vista desarmada (Há quase uma década, quando vivia em Moçambique, cá viemos de férias e a minha filha, com cerca de 7/8 anos, perguntou-me, impressionada, "pai, porque é que há tantos velhos em Portugal?"). Entenda-se, saí do dia naquela mesa de "Manuel" e "Maria" (mas também de "Marco" abstencionistas) impressionado com a dignidade de tanta gente já tão frágil que não se dobra, e vai botar a sua opção. Numa taxa de abstenção bem abaixo da nacional, menos de 35% numa mesa de 940 eleitores. Impressionado também com a minha extrapolação, a do conservadorismo óbvio que um eleitorado assim composto transportará em termos nacionais, mas isso é outra conversa.

5. Eu anunciara em quem iria votar. Fi--lo no meu blog, sem o reproduzir aqui pois não me parece curial usar um blog colectivo para algo que poderia ser considerado como campanha política. No fim do dia eleitoral pude perguntar-me sobre se vale a pena que aqueles que não têm actividade política explícita escrevam sobre política. E confirmei que vale, mesmo: eu havia blogado que votaria no Aliança, pela chã razão de que tenho apreço pelo "panache" do Santana Lopes, na sua óbvia crónica de uma morte política. Fui assim até à mesa de voto, boletim já na mão. Hesitei. E mudei. Por influência do João Caetano Dias, o enorme bloguista do saudoso "Jaquinzinhos", em particular deste seu texto. Não sou grande fã dos hiper-liberais, nem nunca li com apreço os grandes blogs liberais, tamanho o desvario de muitos dos seus escribas - de facto reaccionários nada liberais. E a divertida campanha do Iniciativa Liberal fez-me desconfiar, pareceu-me uma espécie de Bloco de Direita, se nos lembrarmos dos tempos iniciais do BE.

Mas o país precisa de mudanças. Redução do estatismo, económico e cultural. Combate ao clientelismo. E à verdadeira criminalização do Estado, que o PS praticou neste XXI e procura apagar (e talvez reproduzir). A chegada de uma geração mais nova, apesar de tiques nada liberais ("aumento das penas de prisão" para quê, num país com a tipologia e a incidência de criminalidade que Portugal tem?), com ideias que afrontam o Bloco Central, herdeiro do corporativismo do Estado Novo, é salutar.

Ou seja, já com a sebenta Bic na mão desviei o voto. E no ínfimo do meu voto colaborei nesta inovação. Obrigado, grande jcd, desde sempre um dos meus dois bloguistas preferidos, pela provocação intelectual. Agora é ver o que esta nova via pode influenciar.

6. Chegado a casa, algo cansado, comi uma febra reaquecida (que viera na antevéspera num doggy bag). E vi o que todos já sabem: que os partidos racistas CHEGA e LIVRE elegeram cada um o seu deputado. O que anuncia que as suas pérfidas agendas virão a ser agregadas por outros partidos competidores: em particular o BE que já viu parte do eleitorado deslocar-se para esta eleição - algo decerto maquinado pelo PS, tal era a ironia de Costa saudando o novo partido parlamentar -, e o CDS, que procurará disputar a direita conservadora. A ascensão destes racismos à assembleia é a grande derrota da democracia portuguesa. E que cada um de nós, democratas, escreva o que puder, resmungue o que entender, contra essas excrecências. Pois, como digo acima, nem que seja apenas para "convencer" um compatriota justifica-se tomar posições.

 

Cancro da Mama

por jpt, em 03.10.19

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[Cartaz da exposição* que decorre desde anteontem, 1.10, no Instituto Português de Oncologia do Porto. Página no Facebook, com as fotografias e os textos da exposição, estes últimos da autoria de artistas musicais e escritores. Grupo no Facebook aberto a quem queira escrever sobre as fotografias, sob o mote "movimento de empatia"]

No átrio da ala do cancro da mama, no I.P.O. do Porto, estão expostas dúzia e meia de fotografias. Os modelos são homem e mulheres que disso padecem. Sem rebuços, surgem com as suas amputações, como agora vão, mostrando-se na sua beleza, a de cada um, o quinhão dela que a cada um de nós coube, maior ou menor consoante quem nos vê e como nos olha. E na formosura da imensidão da força que denotam e da esperança com que nos reconfortam.

Propõe o projecto que cada um faça o seu "exercício de empatia" escrevendo algo - ou pensando algo, presumo eu. Hesito, procuro o tom, esse que poderá parecer adequado, o do sentimento, fraterno/amoroso, talvez aposto em vestes de requebros poéticos, abraçando com palavras o camarada homem, e sendo algo mais caloroso, até aprisionado pelo atrevimento próprio àquela toxicidade que agora vem sendo denunciável, com as camaradas mulheres. Assim louvando-lhes a coragem, celebrando-lhes a beleza, nada idealizada mas sim esta, óbvia, do tal qual estamos neste agora. Talvez até, distraindo-me, elevando uma ou outra, ou mesmo o conjunto, a arquétipo. Esse que falso, é óbvio, pois ali estão apenas indivíduos. Belos, corajosos. Desejáveis. Seguiria eu então para um ensaio (antropológico) sobre a constituição do desejo?, um poemaço romântico? uma narrativa erótica?, uma qualquer-coisa assim ficcionando sentimentos?

Mas eu não sou esse tipo. Pois vejo as fotografias e vivo outras histórias, menos poetizáveis, até menos narráveis. E é essa minha empatia, rude, descelebratória, que me ocorre. Pois surge-me Sousa, o cidadão presidente, no seu constante "somos os melhores do mundo". E concordo. Pois, dizem-me, somos nós, portugueses, os campeões europeus do divórcio com as mulheres com cancro da mama. Seguimos nº 1 do ranking,  mais de 60% ... Implacáveis seguimos, nisso competentes. Vem o cancro às nossas mulheres? Partimos para outras. Tratamentos? As unhas macilentas, quebradiços os dentes, corpos engordados com os químicos, ancas alargadas, nem um pêlo para amostra, da vagina à cabeça, que aos de abaixo pouco prezamos, olhos baços, e nem falo do medo, quantas vezes até desespero, dos padeceres que nem imagino, dos temores de desacompanhar os filhos, quando os há, tudo isso tão pouco apelativo? E ainda por cima cortam-lhes as nossas tão queridas mamas, a uma ou mesmo às duas? E ainda para mais arrancam-lhes o útero? Nisso tudo durante tempo mulheres sem desejos, vontades? Não foi isto que contratualizámos. Ficou danificada?, vamos para outras. Nisso, nessa mobilidade, nesse verdadeiro empreendedorismo, seguimos "Os melhores da Europa", competentes. E isto vai assim em todos os estratos, "acontece nas melhores famílias". E há bónus, não acaba aqui. Que há quem não se separe, que isto do divórcio empobrece - e de que maneira, como o afiançará quem por ele passa. E assim, conta quem sabe, tantas são as mulheres do cancro da mama, essas durante temporadas menos atreitas ao sexo, menos belas, e, se calhar pior do que tudo, menos airosas como fadas do lar, que às mágoas da doenças juntam as marcas das agressões, as dos "apenas" dichotes e as das verdadeiras pancadas dos extremosos maridos. E isto já não entra para o "ranking".

É esta a minha "empatia". Antipatizando, imenso, com o meu à volta. Compatriota.

*Fotografados / Textos: Telma Feio / Samuel Úria; Susana Neto / Fernando Ribeiro (Moonspell); Susana Cunha / The Legendary Tigerman; Sandra Gil / João Gil; Rute Vieira /  Rita Redshoes; Lourdes Pereira / Ricardo Ramos, Beatriz Rodrigues (The Dirty Coal Train); Paula Pereira / Jorge Benvinda, Nuno Figueiredo (Virgem Suta); Maria Maria / Olavo Bilac; Lucinda Maria Almeida / Jorge Palma; Ivete Oliveira / José Cid; Cristina Filipe Nogueira / António Bizarro; Carla Sofia Henriques / Alice Vieira; Ana Bee / Suzi Silva; Joana Barros / Ana Isabel Pereira; Agostinho Branco / Lena d'Água

 

Aquecimento global

por jpt, em 29.09.19

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Comecei anteontem a reler "A Vida e Opiniões de Tristam Shandy", que li, a correr, há 21 anos (!). Sterne começou a publicar em 1759 (releiam também, em 1759) este livro. A epígrafe é do grego Epicteto: "Não são as próprias coisas, mas as opiniões acerca das coisas o que atormenta os homens".

Neste final de domingo correram as cervejas na esplanada. Entre vizinhos. Na proximidade eleitoral falou-se de política. Um "dos tempos" perorou, diante do fastio amigável, em prol deste execrável costismo kamovista. Aportou um outro, daqueles que se diz da direita, dos que agitam o "marxismo cultural". Encetou o ditirambo contra a miúda Greta, pois terá lido aqui no FB os "mestres do dispensar" nesse rumo.

Resmungo-lhe: voltei de Maputo em 2015. Este vizinho imenso escrevia contra o estado dos espaços verdes dos Olivais. Geridos por uma patética presidente da Junta da Freguesia, mulher atroz agora candidata a deputada pelo PS. Para mim os Olivais pareciam Maputo, pois lixo por todo o lado, relva toda queimada, incompetência e desleixo dos serviços públicos, sobre isso bloguei. Também ele o fez, irado. E um tipo tão sensível que se revolta contra os jardins da vizinhança, que diz face ao descalabro ecológico global? Vem à esplanada gritar contra a miúda Greta ...

Mimetiza estes patetas, bloguistas e facebuquistas, doutores personalidades públicas. Esses que sigo há década ou mais, nos blogs, jornais ou FBs. Esses a quem nunca li nada sobre ecologia, sobre desflorestação, sobre aquecimento ou não, sobre degelo. Nunca botaram sobre isso. Monopolizados pelos requebros, meneios, acenos, a pequenez dos interesses daqui. Mas tanto se desdobram agora sobre a miúda Greta, tão enfadados vão, tão preocupados estão, tão "fascista" é ela. Tão rebolados nestes abespinhamentos, tão mariconços nos arreganhos ...

Um gajo lê um Sterne, de há 250 anos, e um Epictetus de há 2000 anos, já então, cada um a seu tempo, a demonstrarem, anunciando-a, a mediocridade desta gente. E, tal como digo a este vizinho, sentado à minha mesa, entrepagando-nos imperiais e uísques, e apesar da minha filha não gostar que eu escreva assim: estes gajos não valem a ponta de um corno. Flácidos, imbecis, impotentes. Umas bestas. E tão armados em inteligentes. Gente nada, doutores nada. A merda "lisboa". 

Fim-de-semana

por jpt, em 29.09.19

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Enquanto decorre a campanha eleitoral e o secretário-geral Jerónimo de Sousa defende o governo minoritário do PS, proclamando que o PSD ataca o "affaire" Tancos à falta de outros argumentos contra ... o governo minoritário do PS (o que diria o camarada Pimentel deste clamoroso e desnorteado "desvio de direita" do Partido....!?)

convirá recordar - naquele anglicismo do "shame on you" - as hostes socialistas (e, face ao acima exposto, também os "camaradas e amigos" do PCP) de que neste último sábado se cumpriu exactamente um ano que o juiz Ivo Rosa foi "sorteado" - como os trabalhadores judiciais bem sabiam que iria "acontecer" - para abafar, perdão, julgar o processo de José Sócrates.

O regime protegeu-se e prossegue, kamoviano. O PCP aplaude. Os socratico-costistas suspiram, aliviados. Os BEs saracoteiam.

E o povo vota.

 

Bettel e Boris

por jpt, em 18.09.19

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Luxemburgo tem a fama (e terá o proveito) de ser um paraíso fiscal. Ontem o seu primeiro-ministro teve uma atitude inadmissível para o PM britânico, Boris Johnson. Estúpida, pois só reforça as posições brexitianas na GB, contrariamente ao pretendido por Bettel (é o nome do menino). Anti-democrática, apesar da retórica, pois totalmente avessa àquilo do voto, o britânico. Com um enorme desplante organizou uma conferência de imprensa a 10 metros de manifestantes anti-Boris/Brexit. E como aquele recusou participar na conferência de imprensa naquelas condições, falou sozinho e gozou com o PM britânico. De modo estúpido e arrogante. Imbecil.

Acredito que muita gente concordará com ele. Principalmente à esquerda, subitamente toda europeísta. Portanto organizem-se lá: quando o morcão cá vier vão lá a S. Bento, ou ao CCB. E peçam ao Costa para abancarem a 10 metros dele. E gritem-lhe os impropérios devidos a um tipo que governa um recanto corrupto de evasão fiscal. Ou é a este tipo de escroques que apreciam? Ainda para mais porque mui romântico, com o seu primeiro-damo, meneio que o imunizará às críticas mais que merecidas?

80 anos de Sampaio no Público

por jpt, em 16.09.19

Homenagem Sampaio Final090465.jpg

O antigo presidente Jorge Sampaio cumpre 80 anos e o jornal "Público" dedicou-lhe bastante espaço. Grande entrevista, artigo encomiástico de um seu colaborador, inúmeros depoimentos de personalidades conhecidas. Eu simpatizo com Sampaio: esteve duas vezes em Moçambique, com elegância e competência. É um grande sportinguista (condição não suficiente mas que me impulsiona o apreço). Mas não é sobre ele que boto. É sobre o jornal. E sobre quem lá trabalha.

No café acabo de folhear o "Público". Leio em vigorosa diagonal as várias páginas sobre o antigo presidente da república, antigo presidente da câmara de Lisboa e antigo secretário-geral do PS. Não há uma única alusão ao momento crucial da sua presidência. Quando - no exercício dos seus legítimos poderes - demitiu um governo maioritário e abriu caminho à ascensão ao poder do seu sucessor no PS, José Sócrates. Não há uma única alusão a isso, repito. Nem uma única reflexão sobre o processo subsequente, de degenerescência do poder político. E da degenerescência do próprio PS, e da esmagadora maioria dos seus apoiantes (alguns dos quais são meus amigos reais e devem ler isto, sabendo, claro, do quanto os desprezo apesar da entristecida amizade que ainda lhes dedico), reduzidos a apoiantes nada envergonhados da roubalheira. A qual continua, neste incessante esforço de esconder e fazer esquecer a cumplicidade de todo o aparelho socialista e dos seus "companheiros de estrada" (e dos prostitutos a la Jugular) com a criminalização do Estado.

E o que temos agora, nas vésperas de mais umas eleições, controlado que já está o aparelho judicial, calados que estão os pequenos núcleos contestatários ou meramente analíticos na imprensa estatal (vejam o que aconteceu ao "Sexta às 9" na RTP, suspenso no período eleitoral pela nova direcção de informação, ali colocada - exactamente como Sócrates fazia com a imprensa toda - para controlar os danos da ladroagem do aparelho socialista)? O que temos agora? O jornal "Público" a fazer o frete ao PS, a produzir "amnésia organizada", a reforçá-la.

A propósito de Sampaio tudo o que haveria para saber sobre o "Público" e seus profissionais, e colaboradores cúmplices, está dito.

 

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Luís Serpa é veterano confrade bloguista, no Don Vivo. "Conhecemo-nos" pois cresceu em Moçambique e lia o ma-schamba, onde eu escrevia. Depois conhecemo-nos mesmo, ele foi gentil e apareceu na apresentação do livro do Zé Cabral, produzido por Alexandre Pomar, e ainda bebemos um vinho. E, hoje em dia, não me é um "amigo-FB" mas sim aqui companheiro por lá, em laiques e deslaiques, comentários "sim, senhor" ou "não tens razão nenhuma", forma de conversa continuada.

O homem é navegador, anda por esse mundo afora. Agora coligiu textos e vai publicar este livro. Fá-lo através da BookBuilders. Uma boa editora que produz belos livros - e que também editou o do nosso Delito de Opinião.

Para quem não conheça o método da BookBuilders aqui deixo resenha: o livro é proposto, e será publicado se houver um determinado número de compradores prévios durante um determinado período, que paguem os custos da edição. Caso não se consiga esse número o dinheiro é devolvido. Tudo via internet. Nada a ver com aquelas pérfidas "editoras" que abutram os pobres candidatos a autor, cobrando-lhes os custos da sua vontade, "demasiado humana?", em publicar. Por exemplo, no caso deste "Avenida da Liberdade, nº 1" do Luís Serpa, o custo antecipado do livro é de 13,90 euros. Para a sua publicação seria necessário haver 277 aquisições (e já houve 54 compradores).

Mas neste caso, especial, a edição já está assegurada. Em finais de Outubro o livro estará disponível, enviado por via postal para os compradores e apresentado nas livrarias. Ainda assim, e em vez de uma apresentação pública a posteriori, como é costume nestas coisas de livros, o inventivo autor organiza uma Sessão de promoção do livro «Avenida da Liberdade, n.º 1», para divulgação e "mobilização" de compra adiantada. E, decerto, para convívio. Será na próxima quinta-feira, dia 19 de Setembro, às 19 horas, no restaurante TodoMundo (Av. Duque de Loulé, 3, Lisboa - basta pressionar no nome que se obtêm todas as indicações, colocadas na página FB do local). Haverá leitura de textos, música. Há bar (e depois pode-se jantar no andar de cima, informa).

Estarei lá. Porque ele é confrade blogal. E porque é uma "personagem", mostra-o nos caminhos próprios que vem mostrando in-blog há década e meia. Porque tem uma boa prosa. Convido-vos. Para aparecerem (cultor que sou do convívio com um copo na mão). E/ou para comprarem/divulgarem o livro no descanso do vosso computador/lar.

Entretanto, e para aqueles que até têm algum interesse nestas iniciativas mas que acabam por "deixar passar", entre a azáfama da vida, o fastio da imensas solicitações e, para alguns (eu decerto), a fragilidade da conta bancária, deixo um argumento que julgo crucial: um tipo que envia um convite para uma iniciativa destas (ver abaixo), e em vez do horrível, ignorante e pateta termo "crowdfunding", que se disseminou qual pandemia de cretinismo, utiliza "financiamento colectivo" merece todo o nosso apoio. E, bem mais do que isso, toda a nossa curiosidade. Pois mostra que "temos homem".

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(E, falando comigo mesmo, raisparta, não deixo de ter inveja dele, pelo espírito de iniciativa que assim mostra. Resmungo-me que, in illo tempore, devia ter tentado a mesma coisa lá com aquelas coisas do ma-schamba ...).

Até quinta ..

 

 

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(Reproduzo um postal que coloquei em Março de 2004.)

Nesse 11 de Setembro tínhamos imensa gente em casa para jantar. O motivo do repasto era a visualização de um documentário sobre Nacala, feito pela Joana Pereira Leite. Lá se jantou, os convivas nervosos, estupefactos. No fim mais ou menos votou-se o vídeo em detrimento da CNN e lá se seguimos para as memórias da Joana. Claro que num dia desses tudo terminou em grande discussão, sobre méritos e deméritos do vídeo, seu sub-texto e etc. Serviu de catarse.

Já noite longa e terminados os contra-argumentos levei alguns dos convidados, os portugueses, ao hotel. Fiquei-me só, bastante acelerado, de tudo o que se tinha visto quase em directo, do jantar meio louco, da discussão que se seguiu, e do cocktail de cervejas, gin, vodka, tinto e whisky que tinha acompanhado o dia.

Não me imaginei na cama e segui à Bagamoyo, meio vazia estava, dia de semana e tão especial. Porta a porta entrei no Luso, onde o balcão pode ser recatado em troca de uma ou outra Reds, ofertada à menina que servirá de biombo. Também a matar a noite por lá estava o André, um italiano meu conhecido e há muito aqui residente. Lá nos juntámos, o assunto era óbvio. O horror, o espectáculo, o futuro. Tudo dito e redito. Até que começou ele com a arenga que os americanos estavam mesmo a pedi-las, tinham que levar com situações destas, tanta a sua arrogância, o imperialismo. E tudo quanto fazem pelo mundo afora.

Tentei interrompê-lo, a puxar-lhe pela manga, até numa concordância que muita violência fazem e patrocinam os EUA. Mas caramba, aquilo tinha sido horrível - "viste aqueles tipos a saltar lá de cima?" - e ele nada, nada mesmo, que era tempo dos americanos sentirem em casa a violência, não tinha pena nenhuma. Bem, que me restava fazer? Concordei com ele. Que tinha razão. Realmente o poder americano é violentíssimo, usa a agressão constantemente e capeia-a. E fui adiantando que ao olhar para trás também saudava todos os italianos mortos durante a II Guerra Mundial. Não é que os sacanas tinham apoiado o Mussolini?

Não percebi bem porquê mas ficou irado, insultou-me. A conversa morreu ali mesmo, e desde então cada vez que me vê - e já lá vão quase três anos - limita-se a um aceno, tão breve quanto possível. Nos dias seguintes fartei-me de ouvir gente a dizer o mesmo que ele. Que tinha sido horrível, é certo. Mas que estava na altura de eles apanharem em casa. E nem todos os que falavam eram italianos. E eu sem saber o que lhes dizer.

Daquilo do dia contra a depressão

por jpt, em 11.09.19

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(Transcrevo um postal meu no Facebook, ainda que sabendo ser o ambiente aqui, pejado de anónimos comentadores, muito mais hostil do que o do meu mural no FB).

***

Neste chato calendário laico, pelo qual se substituiu o santo do dia pela boa causa diária, ontem foi o dia mundial contra o suicídio, também dito "contra a depressão". Vejo por aqui-FB muita gente a partilhar os tradicionais dísticos, estandartes contra isso. Como sempre, nestas coisas, não serve para nada.

O estado depressivo é tramado. Homem que se preze nunca o reconhece em público. É até pior do que anunciar a disfunção eréctil. E é quase tão mau, quase, quase, como reconhecer que se tem hemorróidas (o maior tabu dos homens tóxicos, como agora sói dizer-se).

Há alguns anos, em Maputo, botei este texto "A Sair do Armário", e há dois dias recoloquei-o no (novo) blog. É sobre isso mesmo.

Mas como há este dia "contra a depressão" vou adiantar algo mais, a ver se tendes a paciência para ir ler o textinho do blog:

Está(s) deprimido? Deixe-se/deixa-te de coisas, vá(ai) ao médico. Quando dói a dentuça não corre(s) ao dentista? Médico e pílulas, pronto. Siga a marinha ...

É(s) daqueles que não vai ao médico? Deprimido como o c...... mas forte o suficiente para aguentar sozinho? Um gajo rijo, "tóxico", como antigamente havia, material do tempo da guerra? Conheço o estilo, dá cá um abraço camarada. És novo nisto, ou algo recente pelo menos? Então leva três avisos, de um mais-antigo na coisa, veterano do vai-e-vem:

1 - quando deprimido um tipo não bebe. Bebe, muito ou pouco, quando quiseres. Mas não quando deprimido, nunca assim. Sabe mal ...

2 - sentes-te miserável (de facto a gente diz "uma merda" mas parece mal escrever isso)? Não acredites quando te dizem que te enganas nisso. És uma merda, estás deprimido por isso mesmo. Mas lê o Eça, pelo menos. Apanha o Palma Cavalão, o Acácio, o Dâmaso (e até os protagonistas). E olha à tua volta. Está cheio de gente assim e até pior. Andam aí, viçosos e sorridentes - pudera, tantos deles carregados de antidepressivos. Ok, és uma merda. Mas isto está cheio de gente assim, até pior do que tu. Não te preocupes, és um homem, vales pouco. Mas mais que tantos, desses videirinhos, e assim não se justifica o teu choradinho.

3- só há uma cura. O sorriso de uma mulher. Não de qualquer uma, claro. Mas não precisa de ser a Princesa Encantada. Uma mulher sarar-te-á. Mas o problema é que andando deprimido poucas te sorrirão, assim, desse tal modo. E o pior é que, ainda por cima, tu estás tão estuporado que nem repararás quando (e se) isso acontecer. Pois estás ... grunho.

Portanto, larga a atitude. Deixa os alguns mais-antigos seguirem este nosso caminho, quais lone rangers de nós mesmos, relíquias que somos. Estás triste? És estúpido, pá?, deixa-te de coisas, vai ao médico!

E se este escrito te serviu para algo, ó pateta, clica na ligação e vai ler o meu texto no blog. Sim, este A Sair do Armário. Pois mitiga-me a tristeza saber que as minhas patetices são lidas.

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Um texto inadmissível na imprensa portuguesa, pois um verdadeiro apelo ao canibalismo. Pois se o critério para a inclusão na dieta vier a ser a inteligência do comestível que acontecerá, que nos restará? A chanfana de socialista?, a cataplana de holigões?, tatuados à Lagareiro?, filetes de bolsonaristas?, o fricassé de indignista?

 

O incorrectismo

por jpt, em 09.09.19

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Vivemos uma época de combate aos preconceitos apoucadores. Alguns movimentos sociais, e nisso também alguns intelectuais, têm vindo a traçar rumos, tentando expurgar as culturas dominantes de estereótipos discriminatórios e nisso transformar as práticas sociais com estes articuladas. Mas há sempre quem resista, constituindo aquilo a que em tempos de chamou "forças de bloqueio". Muitas destas surgem sonoras no campo da comunicação social e seus adjacentes. Mas talvez as mais empedernidas habitem no mundo económico, controladas por um empresariado voraz na busca de lucros, suportado por esse meio letrado, semi-intelectual, constituído por profissionais da comercialização (dita "marketing", em estrangeiro para adquirir prestígio) e da publicidade. 

Deparei-me agora com este ataque aos homossexuais masculinos. É certo que na actualidade já alguns dos mais prestigiados intelectuais portugueses os defendem, lutando contra preconceitos que ainda os desvalorizam, até compondo e aderindo a uma muito justa teoria antropológica que - finalmente - estipula os quatro grupos existentes na História da Humanidade. De facto, sabe-se agora que existem três grupos vítimas da violência radical, devastadora, escravizadora e assassina: Crianças, Mulheres, "Gays, Queers e Outros Assim" (sigo a conceptualização do consagrado Frederico Lourenço). E um grupo agente da tal malevolência, assassina, escravizadora, estupradora: os Outros. Estes são os Homens Heterossexuais, cujas malevolências contínuas são puro reflexo da sua  masculinidade tóxica, da qual seguem escravos militantes. 

Mas ainda assim é nesta actualidade, na qual o conhecimento histórico e antropológico já nos permite assumir esta compreensão da evolução humana, que uma empresa, na sua insana demanda de lucro fácil, continua a produzir este tipo de insultos, jocosos e ridicularizadores, àquela parte boa da Humanidade.

Mas não vai sozinha neste cruel e alienante rumo. Ao lado daquele insensível produtor alcoólico encontro este outro, desrespeitando os cidadãos séniores, tanto na imagem decadente que deles apresenta, como utilizando epítetos apoucadores, até vis, como se lhes retirando a integridade - no sentido amplo e assim ainda mais perverso, o da redução da sua totalidade e da sua dignidade. 

Urge olhar para estas práticas e alterá-las. O caminho será difícil e longo. Mas necessário.

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