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Delito de Opinião

Velhas revistas

jpt, 05.10.22

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Sempre fui fraco leitor de revistas, generalistas, especializadas ou mesmo profissionais - excepto das de banda desenhada, que tanto me moldaram gosto e ser. Razões para tal nem as tenho claras, pois de algumas delas até gosto, será mesmo um qualquer infundamentado desconforto com o molde, uma parva embirração. Mas de uma coisa gosto, isto de folhear as revistas antigas que se amontoaram em casa, as herdadas e as que fui comprando - tantas destas para apenas as entreabrir, até com fastio, apesar do interesse imediato ao vê-las, feito compulsão compradora (quando dessa maleita podia sofrer) -, soslaios que permitem um sorridente aquilatar da realidade das "novidades" ou "dramas" que foram apregoados, com mais ou menos veemência...

Neste Verão já findo recebi os dois últimos caixotes de livros (e revistas) vindos da minha mãe, as partilhas familiares da pequena biblioteca que a acompanhou nos últimos anos na "residência" (o lar de terceira idade). Nesse conjunto vieram mais algumas revistas, das que restaram, "sobreviventes" à habitual partilha deste tipo de leituras. E que me fazem, saudoso, lembrar de quando após um almoço familiar levámos a nossa mãe (e avó) à papelaria vizinha, a qual abastecia diariamente a residência do inevitável duo Correio da Manhã e Público. E do (genuíno) encanto da proprietária diante daquela já nonagenária ainda arguta e, ainda por cima, francófona e anglófona. E logo ali se combinou que providenciasse ela a entrega diária de revistas e jornais que julgasse apropriadas ao gosto e interesses da minha mãe, que a gente pagaria mensalmente... Para alguns meses depois resmungar eu - já então a sopesar os custos do rancho e a racionar o Amber Leaf e o Queen Margot - a "conta calada" daquilo tudo, que do "Paris-Match" e "Hola!" britânica até à "Magazine Littéraire" tudo lhe ia chegando, e do meu murmurado e miserável ataque de sovinice, eu leitor diário do "Record" a criticar "raisparta, a mãe nunca leu estas tralhas ao longo da vida, para quê comprá-las agora?", as revistas "sociais", entenda-se, como se matar o tempo não fosse o fundamental, não seja o fundamental, antes da morte que se nos aproxima...

Enfim, divago, pois o que queria trazer a este postal é esta revista "Estante" que algum de nós lhe levou e que me chegou agora. De 2018, o número 17 desta simpática iniciativa - uma revista literária bem conseguida, no grafismo e no conteúdo, num registo adequadamente "leve" mas não superficial. 10 000 exemplares distribuídos gratuitamente pelos clientes da FNAC - e serve agora para memória (talvez surpreendente para as gerações mais novas) de uma longínqua época em que a cadeia FNAC vendia livros, uma era já finda na história económica.

E o que me apelou a recuperar este exemplar é um dos seus artigos, no qual os jornalistas Carolina Morais e Tiago Matos indagaram a sete escritores e editores "quem merecia o Nobel da Literatura de 2018?", pergunta bem adequada a este tipo de revista, muito mais tendente à divulgação literária do que a  uma reflexão crítica sobre pertinência das premiações e dos seus critérios e, ainda menos, às dinâmicas estruturantes do(s) "campo(s) literário(s)". E ler o resultado dessa demanda promove agora um sorriso, algo entristecido. Pois Ana Teresa Pereira, Carlos Vaz Marques, Francisco Vale, Hélia Correia, Isabel Lucas, Manuel Alberto Valente e Pedro Mexia (o grupo inquirido) deram, obviamente, várias pistas. Mas no final o escritor que sobressaiu como desejável premiado em 2018 foi Javier Marías. Pois, a Academia Sueca atrasou-se, irremediavelmente...

(Nem de propósito, eu a esquiçar este postal e a encontrar o Pedro Correia a inaugurar uma, ambiciosa, série...).

Em defesa de Chagas Freitas

jpt, 04.10.22

São patéticos (para não dizer patetas) toda aqueles que foram lestos a criticarem a representação de Portugal na UE (a REPER, o célebre acrónimo) por ter recomendado a leitura do curandeiro Chagas Freitas num qualquer "concurso" internacional, e depois se desunham a partilhar (e "gostar") as pungentes, de inenarráveis, "crónicas" de Luís Osório. É inadjectivável o sucesso que aquela tralha tem...

Homenagem à Banda Desenhada Portuguesa

jpt, 04.10.22

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Já está disponível este "Variantes, Uma Homenagem à Banda Desenhada Portuguesa" - será apresentado amanhã, 5.10, em Coimbra, às 16 horas na Livraria Dr. Kartoon, e no dia 8 haverá uma sessão em Lisboa. Edição de A Seita (72 páginas, capa dura, 17 euros - para um produto destes é um preço pré-Guerra da Ucrânia). 

Trata-se de um passeio por 24 obras da BD no país ao longo da história, desde XIX até ao final de XX. Autores actuais (ditos "jovens", nesta ditadura contemporânea da "eterna juventude", gente sub-40) fazem vénias (sob formato de pranchas e desenhos inéditos), desde à considerada como primeira BD portuguesa,  Apontamentos de Raphael Bordallo Pinheiro Sobre a Picaresca Viagem do Imperador do Rasilb Pela Europa  (1872), até ao Tu És a Mulher da Minha Vida, Ela a Mulher dos Meus Sonhos, de João Fazenda e Pedro Brito (2000). Nisso passando por Victor Mesquita (1975, Eternus 9 - publicado na célebre e saudosa "Visão") Relvas (1978, Espião Acácio), Louro/Simões (1985, Jim del Monaco), Saraiva/Pinto (1994, Filosofia de Ponta), e outros, como é óbvio.

O rol dos autores é rico : André Caetano; André Pereira; Daniela Duarte; Fábio Veras; Francisco Nunes; Gonçalo Varanda; Jorge Coelho; José Smith Vargas; Madalena Abreu aka Hada; Marco Mendes; Marta Teives; Paula Cabral; Ricardo Baptista; Rita Alfaiate, Sofia Neto. E ainda Álvaro, Fernando Relvas e Pedro Burgos.

A capa é do Pedro Morais. Companheiro, mostrou-me a ilustração completa....

 

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"É Economia, Estúpido!"

jpt, 02.10.22

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Alguns dos meus familiares mais próximos e dos meus melhores amigos são benfiquistas, uns mais entusiastas outros menos. Têm andado com as suas costelas benfiquistas (aqueles que de facto as têm, pois vários deles de facto estão-se um bocado nas tintas) muito aprumadas. Pois os cabeçalhos do jornal "A Bola" e inúmeros painéis futeboleiros televisivos louvam-lhes a equipa de futebol. O que já vi foi uma equipa atrapalhada a ganhar com muita dificuldade a clubes do fim da tabela e a ganhar a uma decadente Juventus (eu a alguns previra-lhes ser provável que ganhassem: há anos, em 17/18 o Sporting de Jesus apanhou a Juve no seu zénite e foi bem superior, e o clube italiano entretanto degenerou).
 
Enfim, coisas da bola que pouco importam, o relevante é que os amigos andam contentes, e nisso até pagam uma ou outra rodada, e mesmo um famous grouse se é chegada a hora... E daqui a uns meses serão campeões, gozarão com os vizinhos, comigo também, de peito feito e queixo empinado. E mais rodadas pagarão. É porreiro, a bola é para isto mesmo.
 
Agora, aqui entre nós, caramba, podiam não ficar contentes com tamanha roubalheira, como esta de hoje (vê-se em detalhe no filme aqui). Um bocadinho de pudor não faz mal. É que não vale dizer mal do Sócrates, do Cavaco, do Medina dos russos e do Salgado dos prédios, dos ciganos que ciganam, dos médicos que não medicam, dos professores que metem baixas, dos polícias que (não) batem, do secretário Galamba imaginamos nós porquê, dos juízes que para aí andam, dos tipos da TAP e dos dos aeroportos (que não são os mesmos, já agora), do marido da ministra chorona, do sócio chinês dele e dela própria, e por aí afora, qu'a gente para dizer mal tem um ror para meter no rol. E depois, comprovada a seriedade do cidadão através das inúmeras invectivas, toca a festejar roubalheiras destas. É só bola? Não, lê bem as minhas letras, "é economia, estúpido".

A imprensa e o "Terceiro Mundo"

jpt, 01.10.22

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Há dias houve (mais) dois episódios bem denotativos do ambiente, muito induzido, vigente nos espectáculos desportivos, que vai passando incólume diante da opinião pública  - que continua a considerar muito normal a "oposição" entre adeptos - e do Estado, apesar dos sucessivos governos produzirem declarações de boas intenções e, até, criarem "organismos" destinados à vigilância e pacificação desses espectáculos. Agora as coisas vieram mais para os escaparates dado que havia crianças envolvidas nos dislates, primeiro em Famalicão, depois no Estoril (como a fotografia ilustra). 
 
A ausência de repressão sobre a ralé clubista é notória, bem como o seu acarinhar, tanto pelas "instituições de utilidade pública" que são os clubes desportivos como pela imprensa, que se desdobra em mesuras e atenções para os "dirigentes" e actividades dessas faunas. E nisso há uma inculta incompreensão sobre as características (repito, muito induzidas) destes processos. 
 
Por isso tanto me chamou a atenção um postal do escritor moçambicano Luís José Loforte), que resume bem a ignorância da imprensa portuguesa que aflora o assunto. Pois há dias disse Loforte: "Nos jogos [de futebol] em Moçambique tenho notado que cada um vai com a camiseta do clube da sua predilecção e senta onde bem lhe apetece, ou onde a sua carteira lhe permitir, sem problemas e onde quer que seja. Foi pungente a imagem do menino português, adepto do Benfica, obrigado a assistir o jogo de tronco nu apenas porque estava entre adeptos do Famalicão. Mais triste ainda foi um jornalista [televisivo] a dizer: "Até parece um país do terceiro mundo!". E quando li tamanha burrice, conclui: como Moçambique, por exemplo!"
 
Não haja dúvida, uma imprensa do "Terceiro Mundo". E uma tutela estatal sobre o desporto que é do "Terceiro Mundo". Isto para se falar de forma a que esta ignorante gente perceba...

Com o Irão?

jpt, 28.09.22

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Há dias aqui deixei ligação à minha análise do Chéquia-Portugal (0-4): na qual me limitei a expressar a minha estupefacção pela ausência de uma acção simbólica dos jogadores em solidariedade para com Mahsa Amini, a iraniana assassinada pela polícia por não cobrir devidamente os cabelos, e para com os inúmeros iranianos entretanto assassinados nos protestos subsequentes. Tal como referi algum espanto pelo silêncio do jornal da SONAE, carregado de identitaristas activistas, bem como dos sempre tão solidários em causas anti-americanas BE e LIVRE, que não se aprestaram à mobilização de arruadas contra estes factos. Em parte é compreensível, consabida que é a soez hipocrisia destes esquerdistas de "campus" e avenças... Mas o mesmo não se esperaria dos nossos jogadores, lestos a ajoelhar-se por uma morte masculina americana, mas agora prontos a encolher os ombros diante de inúmeras mortes iranianas. Por isso titulei o postal com um "O Futebol Não É Para Mulheres!".
 
Fica agora a notícia que os jogadores da selecção do Irão têm a coragem de afrontar a sua vil ditadura, simbolicamente usando casacos negros sobre o equipamento. Está dado o mote - não a@s esquerdalh@s lus@s, que continuam algo silenciosos face a estas ocorrências, encerrados na sua vilania de prosápia identitarista. Mas sim aos jogadores da bola... 

A propósito da condenação de Seixas da Costa

jpt, 27.09.22

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Seixas da Costa, à esquerda, e seu advogado no início do julgamento no Tribunal do Bolhão a 11 de março, fotografia de Artur Machado / Global Imagens

O antigo diplomata - e também bloguista - Francisco Seixas da Costa foi agora condenado por "difamação agravada" ao treinador de futebol Sérgio Conceição. É um tema interessante, que me toca bem de perto, o que me leva a este postal.  Em primeiro lugar, friso que nenhuma simpatia tenho pelo agora condenado: uma das minhas grandes amigas, hoje em dia já embaixadora, trabalhou sob a sua direcção e tece-lhe os maiores encómios, pessoais e profissionais. Mas não esqueço que ele foi um enérgico activista do socratismo, o que considero ser uma nódoa indelével na pessoa pública. Quanto ao queixoso, e por mais que me irritem os seus modos e, talvez acima de tudo, os seus sucessos, a minha costela futebolística impede-me de esquecer a enorme alegria que um dia ele me proporcionou, algo pelo qual ainda lhe estou reconhecido. Mas o que me convoca a atenção não é o que penso (ou sinto) sobre os intervenientes. É sobre o fundo da questão, e também sobre os trechos de retórica jurídica que os jornais ecoam. E pelo que me aviva a experiência própria.

Pelo que leio Seixas da Costa foi condenado por no Twitter ter chamado "javardo" a Conceição. Alguns pontos iniciais isso me levanta. Leio agora que o tribunal considera negativo que o tenha feito "não (...) durante um jogo no estádio; escreveu-a por trás de um computador, quando tinha tempo para refle[c]tir". Isto é uma extraordinária demonstração da superficialidade do pensamento dos juristas envolvidos (espero que isto não seja passível da instauração de um processo), pois significa que consideram menos gravoso o insulto público - em estádio - quantas vezes em interacção pessoal directa, e ainda mais vezes potencialmente indutor de comportamentos colectivos agressivos. verbais e até físicos, do que uma mera interjeição proferida na efectivamente vácua "nuvem" internética, desprovida de qualquer dimensão potencialmente causal. E sobre a efectiva inadmissibilidade das agressões verbais nos estádios de futebol botei eu neste meu postal "Viva o treinador adjunto de Sérgio Conceição": defendendo veementemente o treinador portista e sua equipa técnica e invectivando os "javardos" adeptos do meu Sporting. No qual disse, explicitamente, "não é legítimo (legal) ir a um local de trabalho insultar os trabalhadores. Como um campo de futebol." Parece que para os juristas do tribunal do Bolhão será...

Um segundo ponto sobre a retórica e o ponderar que foi exarado. O jornal cita "É diferente dizer que é grosseiro ou que é javardo. Podia ter dito tudo o que disse sem ter usado a expressão em causa. Aqui mostra-se a linha que não se deve ultrapassar.". Ora isto é inaceitável. Por mais que isto possa parecer adequado ao senso comum, o culto de um "bom gosto", de uma "boa educação", não é ao Estado - e ao seu sistema jurídico - que compete estipular as "fronteiras" da semântica adequada - e até um feroz estatista como o socialista Seixas da Costa concordará com isto.

Ou seja, nós podemos e até devemos ser sancionados se caluniarmos alguém, se errada ou malevolamente atribuirmos atitudes ou intenções a outrem. Mas estas reclamações jurídicas relativas a injúrias ou aquela nebulosa "difamação" são meras sobrevivências de outros tempos. Pois a proclamada "honra" (esse velho e reaccionário valor nobiliárquico) que a justiça afirma defender com estas condenações, não se coloca acima da fundamental liberdade de expressão, por formato mais deselegante que esta possa assumir - até porque, mas não só por isso, por vezes os termos mais "pesados", um léxico mais plebeu (lá está, a âncora sociológica das punições jurídicas) representam exactamente aquilo que sentimos ou pensamos. E por isso mesmo os acusados de "difamação" ou de "injúrias" que têm recursos económicos e paciência recorrem das sentenças que os vetustos tribunais portugueses exaram, vão de estrado em estrado endógeno e, depois, até Haia. E ganham. Claro que após anos a fio e, repito, de pesados encargos económicos e morais.

Esta notícia tocou-me pessoalmente pois há algum tempo fui alvo de um processo similar instaurado por um correligionário de Seixas da Costa. Ao tomar conhecimento do processo fiquei estupefacto. A minha advogada disse-me ali ter encontrado apenas "liberdade de expressão" mas logo me avisou ser evidente que eu iria ser acusado e condenado. E que poderia recorrer, processo que levaria anos em curso. Aconselhando-me a aceitar a culpabilidade. Assim, desprovido de recursos económicos para sustentar assistência jurídica e - confesso a custo - de coragem moral para enfrentar anos de embate jurídico, ainda por cima face a um dos próceres do regime socialista, anuí (lembro que com ridículas lágrimas de raiva nos olhos) a uma suspensão do processo, em troca de um pagamento, que foi ponderado em 200 euros a doar a uma instituição à escolha do tribunal.

A causa dessa punção que sofri foi este meu postal. Aceito, um texto algo desabrido, com termos ríspidos desnecessários - até porque significaram que "dei o flanco". Mas também por outra razão, pessoal - há alguns anos a minha filha, então ainda adolescente, coligou-se com a minha irmã, exigindo-me a depuração lexical no bloguismo, e disse-me com uma total pertinência: "ó pai, um cavalheiro não fala assim!". Haverá melhor argumento censor do que esta filial imagem do seu pai? É certo que há termos que ajudam a resumir o que pensamos, que bem substituem um parágrafo inteiro. E como me dizem palavroso - e ainda agora vizinhos me disseram isso a propósito de um texto sobre o café do bairro - muitas vezes tendo a socorrer-me dessa bengala sulfurosa. Mas convém utilizá-la com parcimónia e, acima de tudo, "cautela e caldos de galinha" enquanto a Justiça portuguesa não se actualizar. Ou seja, continuo a dizer que quem exerce funções governativas com impertinência, quem no parlamento confunde artistas com terroristas assassinos, e quem é solidário até à última instância com o problemático José Sócrates, não é agregável ao topo da hierarquia jurídica nacional. Mas, e repito-me mais uma vez (palavroso, dizem-me), face às concepções vigentes na Justiça nacional há que doirar a pílula verbal, evitar a tal adjectivação ácida.

Finalmente, e em suma, algo concordo com Seixas da Costa (malgré tout): às vezes pedir desculpas é demais. Chapeau...

Chéquia - Portugal (0-4): o futebol não é para mulheres

jpt, 26.09.22

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Anteontem assisti ao Chéquia-Portugal, jogo não só importante para a qualificação à fase final da secundária Liga das Nações mas também muito relevante para se aquilatar das capacidades da "equipa de todos nós", quando se apresta a cumprir o Mundial, ao qual já há meses o seleccionador Fernando Santos se apresentou como candidato à vitória.

Fiquei verdadeiramente surpreendido. Pois, ao invés do que se tornara hábito, antes do apito inicial os jogadores não se ajoelharam em gesto solidário. Como não o tinham feito durante a execução do hino nacional ou mesmo na realização do fotografia protocolar. Nenhuma atitude simbólica.

Ora há dias a iraniana Mahsa Amini foi assassinada pela polícia iraniana, devido a ter sido considerado incorrecta a forma como expôs os cabelos. Tal atitude das autoridades estatais provocou manifestações de repúdio naquele país, e até ao dia deste nosso jogo de futebol já haviam sido mortos pelo menos 36 pessoas pela polícia iraniana. E os nossos jogadores, que se vinham habituando a usar os jogos da selecção para saudavelmente exprimirem opiniões políticas de solidariedade internacional, deixaram-se mudos e quedos. Não há qualquer dúvida do sentido daquilo que os nossos campeões quiseram significar: "o futebol não é para mulheres!".

De qualquer forma, logo nesse início do jogo, fiquei mais capaz de compreender outras posições semelhantes. Pois ficara surprendido com a ausência de manifestações solidárias com Mahsa Amini, sua família e sua "comunidade", convocadas por instituições mais tendentes a estas causas solidárias, como os partidos LIVRE e BE. Tal como, talvez distraído e nisso relapso no folhear, notara a inexistência de textos veementes, e apelando à mobilização geral para esta "causa", publicados no jornal do grupo SONAE, este muito vinculado ao sempre solidário Bloco de Esquerda. E ainda me surpreendera por não ter visto ecos nas redes sociais - às quais ando um pouco alheado, dado um incómodo ciático que me acometeu e que tanto me impacienta - das habituais geniquentas feministas, da abissal Coimbra e não só, sempre lestas a contestar o heteropatriarcado normativo do explorador capitalismo ocidental. Enfim, de tudo isto retiro a confirmação da tal velha máxima: "o futebol não é para mulheres!".

Enfim, após aquela reflexão sobre questões de "género", lá vi os seguintes 89 minutos (+ tempo de compensação) do jogo da selecção. Esta está bem e recomenda-se. Espero que assim se mantenha, feita de homens talentosos, de barba rija e de máscula organização.

Pastelaria Nova Arcadas

jpt, 21.09.22

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Ficou célebre a definição que é descrição feita por George Steiner, que hoje ainda mais actual surge: “A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa, frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos Cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter­-se-á um dos marcadores essenciais da ideia de Europa”. Atrevo-me a deixar adenda ao dito do sábio, é esta "civilização" Europa - esse eixo de Lisboa a Odessa, da Sicília a Copenhaga - o local dos cafés individuais, cada um com seu dono, configuração única, estilo próprio e clientela particular, assim conteúdo específico, "personalidade" por assim dizer, e não dessas cadeias americanófilas, Starbucks ou quejandas "padarias portuguesas"...
 
E se isso é para Lisboa, cuja biografia pode ser traçada em levas de "cafés", "leitarias" e "tascas", com suas nomenklaturas e seu lumpen, por maioria de razão o digo para os Olivais, esse meu bairro onde cresci e, agora, me aquiesço nas vésperas do forno. Uma grande extensão construída nos 1960s, abarcando a anterior Encarnação, orlada pelo vetusto Olivais Velhos, costas viradas ao Tejo, tornou-se o bairro "a maior freguesia da Europa", gabávamo-nos sem preocupações de rigor, povoada por casais jovens carregados de filhos, como era então costume. Uma enorme população, que Salazar mandara ser multiclassista, nisso saudavelmente desprovida de "condomínios" securitários e fronteiras finórias. População essa, a juvenil e respectivas parentelas, que se associava em torno dos cafés pelos quais cada grupo optava, por motivos de vizinhança, classe, estrato, estilo ou consumos... Do "Gordo" ao "Modesto", do "Tosta" à "Nanu", entre tantos e tantos outros - de tal forma que décadas depois ao conhecer-se alguém que tenha crescido nos Olivais logo se impõe a sacramental pergunta "onde é que paravas?", como quem pergunta "quem és tu?".
 
Eu "era" do "Tó" - na Cidade do Lobito -, nome que marcava o estabelecimento do (óbvio) Senhor António, que o deteve durante décadas, pastelaria com ares de "classe média" (como então não se dizia), algo excêntrica no tal caldeirão interclassista da azáfama do bairro. As décadas passaram, eu parti (tal como quase todos os do bairro), o "Tó" foi trespassado, assumiu o nome "Arcadas" e foi prosseguido em boas mãos conjugais, o sempre "Senhor" João e a "Dona" Júlia , a propiciarem o bom ambiente necessário.
 
Nestas décadas as formas de convívio muito foram mudando. Nesse entretanto o bairro envelheceu, e nisso empobreceu. Os indígenas partiram, em múltiplas direcções. Novas levas de habitantes foram chegando, muito menos atreitas ao "estarmos juntos" e encapsuladas pelos efeitos do paradigma "centro comercial" que se instalou. Como é óbvio, o espectro de "cafés" foi-se atrofiando e os ambientes respectivos unificaram-se, no primado de uma rudeza vigente, atrofiadora de qualquer vislumbre de tertúlia.
 
A tudo isso foi resistindo o "Arcadas", como o comprovei quando regressei aos Olivais, 25 anos depois de ter partido. Ainda albergando a terceira idade original e, mais do que tudo, ponto de encontro da nossa "Velha Guarda" quando em visita ao bairro. Ali havia uma boa "imperial". E um bom ambiente: gente educada e gentil no serviço - uma tradição de décadas que unia as gerências que lhe conheci -, que assim moldava (e filtrava) a clientela. E onde encontrava eu amigos e (ex-)vizinhos que vêm da primária, do liceu, da adolescência. E também da juventude adulta. E até, imagine-se, feitos nesta era cinquentenária. Ali se falava de quase tudo: talvez não de Kierkegaard mas decerto que de Babel ou Steiner... De trabalho, do ânimo - nosso e dos outros-, de política, de futebol, da saúde própria e alheia, do rame-rame, dos nossos queridos, de gastronomia e culinária, de livros, das memórias e até ainda dos anseios, e (hélas, já não) de mulheres. E durante tudo isso bebia-se..
 
Há dois anos o casal proprietário entendeu, merecidamente, ter chegado o momento da reforma e trespassou o café. Passado a uma dessas "cadeias". O descalabro foi imediato. E ficou o bairro completamente desprovido de uma esplanada com um mínimo de elegância, nisso indutora de convívio apetecível, de ponto de encontro.
 
Enfim, agora, dois anos depois, hoje mesmo, o (Senhor) João e a (Dona) Júlia reabrem o café, a por tantos de nós, habitantes e ex-habitantes, ansiada Pastelaria "Nova Arcadas". De lá um amigo logo me enviou um efusivo "Já abriu!!!" com esta fotografia. Eu estou alhures, em nenhures. Mas exulto, e amanhã aproximar-me-ei do Trancão, irei ali à cidade do Lobito, para um imperial ou até mais. Espero uma mesa composta. Apaziguada até, pela felicidade de nos podermos encontrar no nosso sítio. Aprazível. E com aquele leve travo, tão precioso, da alguma elegância. Apenas a q.b., sem ademanes. Como sempre ali foi.

A Coelha Acácia

jpt, 20.09.22

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Longe vão os tempos em que quis usar blogs (ou "redes") para questiúnculas políticas, acima de tudo devido a, então quarentão, me ter deparado com a conivência e cumplicidade dos letrados lisboetas com o tétrico socratismo. Sigo agora neste aqui digital, já proto-sexagenário, entre algumas comezainas, um ou outro livro para o qual ainda me consigo concentrar, o meu Sporting, qualquer novidade moçambicana (lá de onde ficou o que de mim terá prestado). E, é certo, o revisitar da filmografia da Julia Roberts.
 
Ainda assim hoje atrevo-me a ir à política, mas agora sem acinte, pois na sageza etária resumo-me a que que cada um tenha as suas opiniões e as defenda com lisura. Mas, raisparta, tenho de me solidarizar com todos aqueles que anseiam por um líder coriáceo, até mesmo qual "capo", que venha a reengrandecer o Portugal pátrio, firme expurgando-o das aleivosias e estranhezas. E depois sai-lhes este tipo, a lamuriar-se em público, e mesmo num "até sempre", com a morte de um coelho! Isto só visto, pois tamanho cúmulo de ridículo se apenas contado ninguém acreditaria.

O Funeral da Rainha e o Futuro

jpt, 19.09.22

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Sentei-me a ver o funeral "da" rainha. Zapping - estações árabes (Aljazeera), "europeias" (Euronews), espanholas, francesas, britânicas (claro), norte-americanas, alemãs, portuguesas, italianas e decerto que tantas outras, às quais não tenho acesso, mundo afora a transmitirem o funeral em directo. Quando a rainha nasceu a Grã-Bretanha era o maior império do mundo e quase ainda se poderia dizer a "Rule Britannia, (Royal Navy) rule the waves". Não é o caso agora, o país e sua "armada" algo secundários - mas menos do que poderá parecer aos distraídos, mostra-o o espantoso impacto mundial do dia de hoje.
 
Impressiona-me a enormidade e o rigor de todo este aparato mortuário, uma riqueza simbólica cuja miríade de detalhes, decerto que desejavelmente significantes, me escapam. Uma monumentalidade faraónica, exclamo sem o mínimo menosprezo, nesta atenção longamente planeada pela transição para um Além. Um Além que é, crenças religiosas à parte, o Futuro, este pensado como corolário de uma continuidade, transportada em marcha lenta mas nunca imóvel.
 
Quem se recusa a entender isto, entrincheirado em questões de "regime" ou em atoardas politiqueiras, nada entende de política. E de cidadania. Li há dias que um pobre "mestre de pensamento" português, de extracção enverhoxista ou quejanda, clamou ser ter sido mais influente e frutífero Godard do que Isabel II. Como é que há gente que ainda lê e ouve este tipo de argumentação? Somos nós filhos/netos de Darwin, Dickens, Stuart Mill, Turner ou de Vitória? Isto será questão a colocar por quem pense política, História ou, pura e simplesmente, a vida? Então para quê aturar esta encenação? Não a da realeza. Mas sim a pobre encenação de um pensamento crítico...

Blogue da semana

jpt, 18.09.22

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Tenho deixado no Facebook, e por vezes em blog, alguns ecos de passeatas gastronómicas que me acontecem. E, com franqueza, até me surpreende o apreço com que são recebidos esses postais, muito maior do que que quando me ponho a perorar sobre assuntos sobre os quais julgo ("presunção e água benta...") ter muito mais pertinência. Pois nada sou especialista na matéria. Não só sou frugal nos "comes" (nos "bebes" por vezes alonga-se-me o apetite), até avesso às comezainas, como - e isso é que é o fundamental - não sou "gourmet" pois demasiado distraído (entenda-se, inculto) para aquilatar das verdadeiras qualidades do que vou comendo, da miríade dos seus condimentos, dos modos da sua maturação e das genealogias do que enfrento. Enfim, aprecio o convívio à mesa, mesmo que este apenas comigo mesmo quando sigo algo andarilho, e é só disso que por vezes falo, da comida como pretexto...
 
Algo muito diferente, sabedor e refinado, é o que se passa neste belíssimo blog Gastronautas. Feito a meias por Filipe Gill-Pedro (que se apresenta no seu inglês natal) e por Luís Neves (que segue lusófono). Textos concisos e bem escritos - o que implica que ali não se emulam os mestres Alfredo Saramago ou José Quitério, como ainda é tão cansativo hábito nas páginas sobre estas matérias -, e com bonita apresentação.
 
No Gastronautas discorre-se sobre os modos típicos da cozinha portuguesa - para inglês ver, literalmente falando, mas que muito faz falta aos nacionais vítimas da cozinha globalizada. Surgem textos sobre alimentos, recônditos e até excêntricos aos urbanos. Fala-se de alguns restaurantes e seus cozinheiros, sem a prosápia de distribuir estrelas, pneus ou consagrar os gentrificados "chefs". Desvendam-se daqueles agricultores que renovam o cardápio dos condimentos a que temos acesso, ou mesmo os ressuscitam. Em tudo isso, e mais, fala-se acima de tudo do manuseio do tempo, no civilizado primado do devagar.
 
Ide espreitar, sff. Espero que possais desfrutar tanto estas leituras como eu o tenho feito...

O Pai de Famalicão

jpt, 17.09.22

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A notícia correu durante a semana, no Famalicão-Benfica um rapaz de 10 anos foi obrigado pela segurança do estádio a tirar a camisola do Benfica que envergava e viu o jogo em tronco nu, tendo até chorado durante a discussão que conduziu a tal corolário. Os motivos apresentados eram cristalinos, ele e seu pai tinham lugares na bancada de sócios do clube caseiro onde é "proibido" (assim mesmo) usar sinais de apreço por outros clubes. E isto é considerado tão normal, aceitável, que após o secretário de Estado dos Desportos e o presidente da Liga de Futebol - entidade que organiza a competição em causa - terem censurado a situação ainda veio a direcção do clube famalicense, muito ciosa de si mesma, contestar essas censuras e exigir desculpas. Isto mostra bem o estado aviltante em que segue o mundo do dirigismo futebolístico mas também dos seus participantes - e, já agora, o da imprensa que acompanha a bola, no seu paradigma guerrilheiro, entre os constantes comentadores furibundos e a glorificação de indivíduos infrequentáveis (como a celebração das artimanhas daquele dito "macaco", líder da claque portista, entre outros).

Benfica 3 Sporting 2 de 1979/1980

É certo que no caldeirão passional do futebol os adeptos têm de aprender desde miúdos a "comportarem-se", a perceber que em determinados contextos é necessário "entrar mudo e sair calado", arte que lhes virá a ser bem útil em outros palcos alheios às coisas da bola. Ainda me lembro das minhas incursões ao velho estádio da Luz, galgando a segunda circular e entrando bancadas adentro, manhoso no velho truque - então possível naquelas desorganizadas bancadas populares, ainda que eu já espigadote nos meus 15 anos  - do "ó vizinho, dá para entrar consigo?" aplicado ao adepto sénior e solitário de ar mais entusiástico ou simpático, algo que tinha aprendido desde bem mais cedo ali ao campo Branca Lucas, sede do popular Sport Lisboa e Olivais, então clube mais que veterano da III Divisão, zona sul. Atrevimentos esses que me conduziam ao célebre "Terceiro Anel" pejado de viscerais adeptos benfiquistas, e que me advinham do entusiasmo sportinguista daquela época, encetada sob o comando do professor Rodrigues Dias e seguida com Fernando Mendes, que culminaria com o almejado título após um longo jejum de 5 anos sem que o clube ganhasse o campeonato.

E bem me lembro de que no início do Benfica-Sporting (que os da casa venceriam através das costumeiras "fintas" de Chalana, mestre que era nos saltos para a piscina) lá me levantei, entusiasmado com um qualquer lance perigoso do ataque sportinguista. Para logo receber um coro de invectivas e reprimendas que me fez baixar a grimpa, caladinho que nem um rato até ao apito final. Tal como caladinho estive, ainda que esfuziante de alegria sarcástica, no magnífico Benfica 1 - Boavista 2, um delicioso jogo em que o genial e tão peculiar Vítor Baptista - que havia sido dispensado do Benfica, dada a sua consabida irresponsabilidade profissional - estraçalhou a sua antiga equipa, de forma tão flagrante que foi imensamente aplaudido pelos adeptos da casa.

Enfim, ficou-me a memória para sempre, e nisso alguma simpatia pelo adepto minoritário em casa alheia, sempre a torcer-se para não dar sinal de que é dos "outros". É raro ir ao futebol, espectáculo demasiado caro para as minhas posses, mas quando me acontece ir a Alvalade - ou porque levo algum sobrinho-neto, noblesse oblige, ou porque algum amigo me convida -, lá está sempre (e às vezes acompanhando-me) um qualquer não-sportinguista, ao qual desejo que se saiba "comportar", para assim evitar os grunhos, esses omnipresentes no mundo da bola. Há pouco, julgo que na época passada, um amigo teve a caridade bem-intencionada de me convidar para um Sporting-Benfica (como de boas intenções está o inferno cheio os de Carnide foram ganhar, raisparta). E mesmo à minha frente, nos bancos imediatamente abaixo, estavam três jovens no final da sua adolescência, num buço talvez já universitário. Um deles, logo de início ali se mostrando, no menear e no gemer, dado a benfiquismos - e logo lhe dei o aviso, sorridente, de mais-velho "olha que é capaz de ser melhor controlares-te", que estávamos em pleno covil do leão, o reduto dos lugares cativos (aqueles que agora, devido a qualquer imbecil decisão, se chamam "gamebox"). O rapaz atrapalhou-se, pediu desculpa, coisa que lhe disse ser inútil, pelo menos para mim, mas que evitasse ele que alguém o viesse a chatear. Pois, repito-me, os grunhos são omnipresentes no mundo da bola, sejam lá quais forem as cores com que se disfarçam. No fim, sacaninha, lá saía ele com os seus amigos, com um ricto meio sorridente meio atrapalhado, e lá me despedi com um "parabéns, raisparta!".

Enfim, tudo isto é o perorar memorialista, coisa comum nos velhos solitários. Mas é o preâmbulo da questão que me parece ser a única realmente relevante face ao acontecido na semana passada no estádio do Famalicão: que merda de pai é que vendo o seu filho de 10 anos ser obrigado a despir-se fica no estádio a ver a bola?

Luto nacional por Isabel II

jpt, 16.09.22

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Leio nas "redes sociais" que há gente ofendida por o governo ter proclamado luto nacional pela morte da rainha Isabel II. E há gente surpreendida. Entre os militantes do resmunguismo, os republicanos fundamentalistas, os ainda ressentidos com o ultimatum e os combatentes anticoloniais, pois há um pouco de tudo nesta amálgama "contestatária".
 
Enfim, nesta era digital é necessário cuidado com a informação a que se acede. Por exemplo, a wikipedia não é "editada", a informação ali colocada não é totalmente fiável. Mas ainda assim serve para balizar as nossas dúvidas iniciais, e amainar irritações. Aqui deixo ligação à página dedicada aos "lutos nacionais" declarados em Portugal - e será de atentar em dois factos:
 
- o primeiro é que a proclamação de "luto nacional" pela morte de alguém vem em crescendo nos últimos 12 anos, vulgarizando a medida e nisso apoucando-lhe o conteúdo simbólico (já de si pequeno, pois este "luto" não se acompanha de quaisquer medidas efectivas);
 
- o segundo é que desde a implantação deste regime já foram declarados "lutos nacionais" em homenagem a vários chefes de Estado estrangeiros (Sadat, Samora Machel, Hirohito, Hassan II, João Paulo II).
 
Assim sendo, não será muito relevante discutir esta "vénia estatal" que é a declaração de "luto nacional". Mas se se quer discuti-la então que se faça com termos (quais os critérios, que pertinência, que medidas associadas, etc.). E não só este resmunguismo, insuportável (digo eu, resmungão encartado).
 
Ou seja, e com esta me calo, pelo menos vão ler a wikipedia. Pelo menos isso.

Rui Mateus Pereira

jpt, 16.09.22

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A última edição da revista Etnográfica inclui um In Memoriam dedicado a Rui Mateus Pereira, morto em 2020 - com textos de Adolfo Yáñez Casal, Ana Isabel Afonso, Frederico Delgado Rosa e Laura Almodôvar, colegas que lhe foram próximos e que com ele constituiram amizades. Tive com o autor um relacionamento muito mais distante e esparso. Mas, e até porque a nossa interacção não se enquadrou no espaço universitário, aqui deixo a minha memória. Na qual, e porque escrita em blog próprio, não tenho o espartilho dos limites de caracteres - comum em publicações institucionais - nem prescindo do exclusivo tom de memória pessoal.

 

 

Dia de Bocage

jpt, 15.09.22

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Como adenda à tão simpática série, verdadeiro almanaque, que Maria Dulce Fernandes vem aqui animando quotidianamente, aqui deixo informação que me chega da vizinha e ciosa capital sadina: hoje é o dia de Bocage, pois o do seu nascimento, e nisso feriado setubalense. 

Leigo que sou nessas coisas literárias ainda assim me parece que o poeta segue destratado. Nem tanto esquecido, pois é ícone dos brejeiros literatos. Será mais poeta reduzido, espartilhado pelo tom pícaro das memórias que se lhe dedicam. Enfim, não serei eu a fazer-lhe justiça, deixo apenas dois dos seus poemas de que muito gosto:

 

O Ciúme

Entre as tartáreas forjas, sempre acesas,

Jaz aos pés do tremendo, estígio nume,

O carrancudo, o rábido Ciúme,

Ensanguentadas as corruptas presas.

 

Traçando o plano de cruéis empresas,

Fervendo em ondas de sulfúreo lume,

Vibra das fauces o letal cardume

De hórridos males, de hórridas tristezas.

 

Pelas terríveis Fúrias instigado,

Lá sai do Inferno, e para mim se avança

O negro monstro, de áspides toucado.

 

Olhos em brasa de revés me lança;

Oh dor! Oh raiva! Oh morte!... Ei-lo a meu lado

Ferrando as garras na vipérea trança.

 

******


Vós, crédulos mortais, alucinados
de sonhos, de quimeras, de aparências
colheis por uso erradas consequências
dos acontecimentos desastrados.

Se à perdição correis precipitados
por cegas, por fogosas, impaciências,
indo a cair, gritais que são violências
de inexoráveis céus, de negros fados.

Se um celeste poder tirano e duro
às vezes extorquisse as liberdades,
que prestava, ó Razão, teu lume puro?

Não forçam corações as divindades,
fado amigo não há nem fado escuro:
fados são as paixões, são as vontades.

Racismo?

jpt, 10.09.22

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A insistência que alguns sectores políticos vêm tendo na questão do "racismo" e da "xenofobia" marcam a mentalidade dominante, numa visão cada vez mais polarizada entre aqueles que negam a existência de quaisquer sintomas desses fenómenos e aqueles que peneiram quaisquer assuntos neles sempre encontrando a vilania racista e/ou xenófoba. Nisso torna-se o assunto da discriminação negativa um tópico omnipresente, o que poderá ter efeitos positivos na sua condenação e evitamento. Mas também negativos, numa confusão abrasiva que tornará muitos insensíveis a essas malevolências e, acima de tudo, incapazes de reconherem os reais processos.

Ontem deixei aqui uma breve piada - que encontrara no mural de Facebook de um dos grandes (ex-)bloguistas portugueses. Este blog não é dedicado a futebol mas não é vedado que se aborde o tema. E assim aludi à polémica futebolística que vem correndo no país, sobre a tendência teatral do ponta-de-lança portista, Taremi. A encenação de faltas sofridas nas grandes-áreas, promovendo os célebres e ambicionados "penalties", é um assunto constante na história e na mitografia do futebol. Eu, sportinguista, cresci sob o constante debate, até irado, entre os justos que condenavam o pérfido Nené por simular "penalties" e os falsários pagãos que invectivavam o codicioso Manuel Fernandes por lhe, erradamente, atribuírem essas práticas. Pouco depois celebrizou-se em Carnide o extremo-esquerdo Chalana (sobre quem aqui recentemente escrevi), um mestre no mergulho na área (aqui memória do penalty mais saboroso da história do futebol português, que ele literalmente "arrancou"), e logo a seguir o extraordinário Futre, que tinha um enorme talento em "cavar"  "penalties" (até o reconhecia à imprensa, naquele seu simpático jeito dessassombrado). Isto não acontece só em Portugal e lembro-me do grande avançado alemão Klinsman, que quando foi jogar para Inglaterra foi acusado de simular quedas nas grandes-áreas, recebendo o cognome de "mergulhador" - ao que ele respondeu, deliciosamente, passando a celebrar os seus (muitos) golos com mergulhos deslizantes para os relvados, gesto que se disseminou até hoje.

Os tempos mudaram e o jogo também. Os árbitros de futebol receberam instruções para punir os simuladores (advertências ou expulsões). E depois instalou-se o controlo audiovisual dos lances (o VAR), o que torna mais difícil a aldrabice. Mas não impossível, claro. E é evidente que Taremi é um desses mergulhadores, facto que vai passando algo impune devido à importância do seu clube no futebol nacional (por isso o jogador sofre mais em jogos internacionais). Será menos simulador do que reclamam os sportinguistas e benfiquistas, mas será mais do que dizem os portistas. Pois é assim o futebol, é assim o adeptismo.

Ora no breve postal que coloquei, a tal deliciosa piada, recebo um comentário denotativo deste ambiente geral a que aludi no início do postal. Um anónimo (claro) que se traveste com o nome "camaradas" acusa-me de xenofobia e racismo, numa patacoada assim "Tanta xenofobia, bem piores outros mas esses são mais brancos". E é exactamente isto, esta histriónica e pateta mania de em tudo encontrar o racismo, a xenofobia, fruto dsta até abjecta senda "identitarista" promovida por "activistas" e jornalistas.

Enfim, a minha cara aparece no meu perfil da SAPO e no "avatar" que acompanha os meus comentários. E já aqui fiz algumas ligações ao meu mural no Facebook (quando replico textos que lá coloquei em função de algum debate que por lá se tenha passado), no qual também aparecem as minhas feições (trombas, se preferirem). Olho para o jogador Taremi - o homem tem menos 30 anos do que eu. E é mais bem apessoado, justiça lhe seja feita. Mas será que um tipo com o meu fenotipo pode olhar para o Taremi e criticá-lo  em função de "ser menos branco"? Será que é o racismo que me faz saltar na bancada ou entornar a cerveja no sofá quando grito impropérios vendo-o atirar-se para o relvado?

E é isto que este histriónico discurso "identitarista", o "activismo" das "boas causas" promove: as invectivas estúpidas, o desconhecimento dos processos. Vindas dos anónimos, apatetados na internet, ou dos locutores, alcandorados a figuras públicas. Nada mais do que isso.

Isabel II em Maputo

jpt, 09.09.22

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Em Novembro de 1999 Isabel II visitou Maputo (aqui uma breve descrição no The Guardian), uma breve estada de umas horas, que culminava uma viagem a África enquanto cabecilha da Commonwealth. Esta passagem por Moçambique foi recebida como facto de grande relevância política, e era fruto da grande competência diplomática existente durante a presidência de Joaquim Chissano. Pois não só aquela viagem ao continente tinha apenas três escalas - o simbólico Gana, a primeira colónia africana que se tornara independente, e a então simbólica e tão poderosa África do Sul de Mandela eram as outras - mas também porque o país vivia um agitado processo eleitoral, então já em rescaldo. Enfim, a presença de Isabel II era um triunfo diplomático e um trunfo político.

Para mim tinha o interesse acrescentado de ver as reacções apatetadas de algum funcionalismo lisboeta - friso o "algum", pois o sentimento não era universal - e da rústica imprensa que atentava sobre África, pequenos universos onde então eclodiu um ridículo sentimento de verdadeira indignação sussurrada, como se Portugal sofresse ali um segundo "ultimatum"... De facto, Moçambique aderira quatro  anos antes à Commonwealth, passo então inédito pois tratou-se do primeiro país que não fora colónia britânica a integrar aquela organização - o que se veio a tornar algo habitual, pois pelo  menos Ruanda, Gabão e Togo vieram a aderir -, em mais uma mostra da sageza diplomática de Chissano. Mas para aquela alguma "lisboa" funcionária e para a desengonçada imprensa, em plena era de constituição da CPLP (formalizada em 1995) e do propagandear da "comunhão" assente na "lusofonia", então muito em voga, a adesão do país à Commonwealth e, depois, esta inusitada visita da monarca britânica eram sentidas como uma perda... "Vai Moçambique optar pelo inglês como língua oficial?", perguntavam-me amiúde - enfim, o Ruanda viria a dar esse passo uma década depois, mas uma opção política devida a um contexto muito diferente.

Daquela visita só tenho uma memória. Não posso afiançar que seja verdadeira, apenas ecoarei o que então me foi contado alguns dias depois por um diplomata britânico durante a inauguração de uma exposição. E é não só muito plausível como denotativa da mundividência da casa real britânica, por isso aqui a reproduzo, com um sorriso... E crente de que "se non è vero, è ben trovato"..

A visita foi muito curta, verdadeiramente de carácter simbólico. Isabel II e sua comitiva iam a Maputo almoçar e seguiriam de imediato, a meio da tarde, rumo a Londres. Aterraram em Maputo cerca do meio-dia, provenientes de Joanesburgo (um vôo de 45 minutos). Em Mavalane tiveram uma breve cerimónia de recepção, seguiram para o Hotel Polana (ex-libris da cidade e edifício que tinha ainda traços do "british colonial" - os quais posteriormente foram sendo algo apaquistanados). Aí a rainha mudou de traje (nota-se nas fotografias), numa brevíssima estada. Entretanto a comitiva esperava no hall, pois seguiriam para um banquete oferecido por Chissano no palácio da Ponta Vermelha, a cerca de um quilómetro. Os carros da comitiva estavam enfileirados na parque de estacionamento da entrada do hotel e estacionado mesmo à porta estava, obviamente, o veículo que transportaria a rainha e o príncipe de Edimburgo, Filipe. Logo atrás o carro onde viajava o meu narrador... À frente, estava o "batalhão" de guardas motorizados, a escolta sempre presente nas comitivas presidenciais, destinada à segurança e a fazer abrir alas no trânsito.

Às treze horas exactas, como estava planeado, Isabel II e Filipe saíram dos seus aposentos e entraram no carro para seguirem à Ponta Vermelha, e toda a restante comitiva o fez também, consoante as precedências e regras securitárias. Mas a escolta policial não tinha ainda ordens radiofónicas para avançar, havia um qualquer atraso. E ali ficaram todos esperando que o protocolo moçambicano comunicasse a autorização de marcha. E assim continuaram. De súbito o príncipe Filipe saiu do carro, "muito alto, magro, de dedo em riste, irado" dizia o diplomata narrador, passados dias ainda angustiado - talvez até temendo os custos que aquilo viria a ter no seu futuro a curto e médio prazo - avançando para os polícias e suas motos e clamando: "ou avançamos já ou seguimos directos para o aeroporto". E de imediato houve a ordem para avançar.

A espera tinha sido de... dois minutos!, concluía o diplomata, pondo a mão na testa e meneando a cabeça. E nós sorríamos...