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Delito de Opinião

Portugal às Avessas

jpt, 13.04.21

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(Fotografia de Pedro Sá da Bandeira)

Muito concordo com o que Zélia Parreira, na sua sofrida sageza de bibliotecária, disse, alertando-nos para o infindável rol de monos impublicáveis que vão sendo ... publicados, e nisso provocando trabalheira insana e inútil. Eu blogo desde 2003 e dessa verdadeira mania de perorar resultou uma enorme quantidade de textos, e a alguns desses ainda lhes encontro sentido. Mas, e até para não incrementar a ira dos nossos bibliotecários, em vez de fazer caros monos de papel sossego-me produzindo gratuitos (no duplo sentido do termo) monos pdfs. Antes fiz 5 colectâneas de postais, as quais coloquei na minha conta da rede Academia.edu

Agora acabei outra, esta "Portugal às Avessas". São 42 postais no blog ma-schamba, escritos entre 2004 e 2014, quando vivia em Moçambique. Neles fui deixando o meu crescente desconforto diante do que desde lá longe ia assistindo em Portugal. Pois emigrado num país com tantas dificuldades e no qual o debate desenvolvimentista me era constante – pessoal e profissionalmente -, o que reforçava o meu espanto, que se foi fazendo ira até à desesperança, face ao desvario do rumo português e ao paupérrimo debate nacional durante o pérfido período socratista e a crise financeira subsequente. Julguei apropriado concluir este apanhado, neste momento em que o engenheiro Sócrates quase resssuscita e os seus apaniguados aplaudem e as apaniguadas gargalham. A fotografia da capa é do meu amigo Pedro Sá da Bandeira. Um belo momento diante de um edifício que ficou icónico do desperdiçar português deste início de XXI.

Quem tiver interesse e paciência só precisa de "clicar" neste Portugal às Avessas. e gravar. Se encontrar interesse em algum texto isso ser-me-á recompensador. 

Videirinhos & Rousseff, Lda.

jpt, 12.04.21

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Na passada sexta-feira não ouvi o juiz Rosa. Li breve sinopse do que ele proferiu. Peço que me corrijam se o incompreendi: Rosa constatou que o antigo PM e ex-secretário-geral do PS é culpado de crimes de corrupção já prescritos e enviou-o para tribunal como réu devido a crimes económicos cometidos enquanto Primeiro-Ministro. Isto é uma verdadeira bomba, um escândalo!

Os agentes do socratismo, os videirinhos a la blog Jugular, atrevem-se agora a gargalhar na internet e a clamar que se desmontou uma incompetente cabala. E até as raríssimas vozes socialistas então menos atreitas a Sócrates limitam-se a criticar a Justiça. Elidem, totalmente, este escândalo. E a cumplicidade do seu partido, de militantes e dirigentes, e dos inúmeros opinadores públicos (académicos e jornalistas em especial) com aquele miserável período. Pois em termos estruturais o pior nem foi a corrupção instalada no poder - algo recorrente em qualquer regime. Mas sim a penosa corrupção do espaço público, feita de cumplicidade e de conivência. Instalada, repito, na Academia e na Imprensa. E estas sonsas reacções mostram como isso não mudou, como essa gente, moles de dependentes, está "pronta para outra"...

Tudo isto é doloroso. Mas temos que sofrer estes nossos compatriotas. Têm o direito de assim serem, por miseráveis que sejam. Mas já diferente é aceitar que uma estadista estrangeira, ex-presidente de um país aliado, se venha intrometer na nossa vida nacional apoiando um réu de tamanho calibre. Que escumalha esta Rousseff.

O sexo e a EMEL

jpt, 09.04.21

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Descubro este "Inquérito aos Hábitos de Mobilidade em Lisboa". Presumo que tenha algo a ver com isto das bicicletas, e é feito pela EMEL, aquela empresa predatória dos rendimentos dos cidadãos. Leio esta pergunta sobre se "o sexo [dos hipotéticos ciclistas lisboetas] atribuído à nascença coincide ou não com a identidade de género" e, para além de outras questões menores, surge-me uma memória recente.
 
Na quinta onde estava, há algumas semanas acolhi uma jovem gatinha, algo desamparada, miando naqueles hectares pejados de simpáticos mastins. Acolhi-a, resguardei-a. E dada a sua atitude lânguida e mimosa, nomeei-a - inscrevendo-a sob os meus ancestrais - com a graça de Flávia. No que foi um evidente reflexo de "machismo estrutural", como fui recentemente denunciado por uma bloguista sportinguista. E logo a anunciei aos vizinhos - e, depois, nas "redes sociais", o que foi modo de lhe arranjar lar apropriado (aqui narrei o caso). Lá na quinta a primeira pergunta que os vizinhos me fizeram foi "é gato ou gata?". Ao que eu respondi "sei lá!". Então o dono da quinta, meu amigo, que é professor (e nisso excelente) foi até ela, pegou-lhe, virou-a e disse "é gata". E explicou-me que há diferenças entre gatos e gatas, e quais são elas e como se detectam. E eu aprendi. As tais diferenças de sexo.
 
Agora o meu problema é ideológico. Pois há uma empresa municipal (o Estado) que nos pergunta "se o sexo que foi atribuído à nascença corresponde...". Ora, que pergunta é esta? O sexo foi "atribuído" por quem? Que entidade atribui sexo? Entenda-se bem, Portugal é um Estado laico. Não é um Estado secular, nem confessional, é laico. E como tal não é legítimo que uma empresa pública (sob Medina ou qualquer outro) ande, de modo vicioso, a aludir a entidades metafísicas. A liberdade de culto é um bem fundamental, um direito inalienável. Mas o proselitismo metafísico, uni ou multilateral, está vedado aos órgãos estatais.
 
Ou seja, isto tem que ser já retirado. E algum responsável, seja lá de que género for, tem que ser demitido.

A esplanada

jpt, 06.04.21

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(Postal de ontem, aqui)
 
Ainda que algo decadente, devido a recente mudança de proprietários e também dado o acentuado envelhecimento da clientela, esta é a "minha" esplanada lisboeta. Tem uma boa "imperial". E um bom ambiente: gente educada e gentil no serviço (uma tradição de décadas que une as quatro gerências que lhe conheci). E onde encontro amigos e (ex-)vizinhos que vêm da primária, do liceu, da adolescência. E também da juventude adulta. E até, imagine-se, feitos nesta era cinquentenária. Ali se fala de tudo: de trabalho, do ânimo - nosso e dos outros-, de política, de futebol, da saúde própria e alheia, do rame-rame, dos nossos queridos, de gastronomia e culinária, de livros, das memórias e até ainda dos anseios, e (hélas, já não) de mulheres. E durante tudo isso bebe-se...
 
Porque hoje reabriram as esplanadas li neste rossio facebook vários desvalorizando o nosso afã convivencial. Aos que aqui assim noto sei-os afectos a esse constante cerzir da pobre manta de retalhos que associa "direita" a "enfado" com o povoléu, o eunuco blaseísmo "lisboeta". Lembro então que George Steiner, que não era "marxista cultural", definiu a "Europa" como um espaço onde há ... cafés.
 
Por isso, porque sou europeu - e, matizadamente, europeísta - hoje ao fim da tarde, cruzado o Tejo irei até ao "Arcadas". Para uma ou outra imperial. E, talvez, uma abaladiça em formato uísque. Espero que estejas lá.

Fim da vaga

jpt, 05.04.21

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Finda a quarentena filial e a clausura concelhia deixaremos hoje esta enseada atlântica, norteando-nos rumo às cercanias das águas do Trancão...
 
Desde os tempos universitários que aqui não pernoitava. Velho vou mas então a vilória já não era este pitoresco feito da miséria da faina a remos e da "natureza" amanhada a enxada. Noto agora que se veio a tornar viçoso bairro social, de kebabarias e pizarias, alumínios e marquises. Antes assim!, direi realista. Porquê assim?, respondo crente, neste meu diálogo de hoje, vendo chegar a neblina matinal, enregelando a até entusiástica reabertura da esplanada fronteira ao mar, nisto da bica ainda obtida ao postigo mais o jornal "Record" para me legitimar o assento.
 
Agora? Camioneta rumo à urbe. Pois nova era, fim de vaga. E cinquentão decidido a recomeçar vida, que mo permita o Covid! Que nos permita o Covid!

Terrorismo em África e no Cabo Delgado

jpt, 31.03.21

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De Palma, capital do distrito a nordeste do Cabo Delgado, sede das grandes unidades de exploração de recursos combustíveis, chegam imagens do rescaldo em curso após o violento ataque da passada semana, já reclamado pelo "Estado Islâmico" da África Central. Evito mostrar as mais duras. Fica esta, como ilustração do que vem acontecendo.

No sábado passado participei num debate sobre a expansão do terrorismo em África, com particular enfoque na situação moçambicana - algo ainda mais sublinhado pelo ataque a Palma. Foi uma conversa entre Cátia Moreira de Carvalho, Paulo Baptista Ramos, eu jpt, Luís Bernardino e moderada por Miguel Ferreira da Silva, numa organização da Africa Sessions. Aqui deixo a gravação da sessão, para quem tiver alguma curiosidade sobre o fenómeno no continente e, em especial, em Moçambique.

Eleições autárquicas em Lisboa

jpt, 29.03.21

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Está ao rubro a corrida para o município de Lisboa: o futuro PM Medina recandidatar-se-á, PSD/CDS reuniram-se em torno do antigo Comissário Europeu Moedas, o Chega já se chegou à frente com um coriáceo que quer matar quase tudo e quase todos, a IL na pressa até se enganou no candidato e depois lá arranjou outro, o BE  seguiu o parecer de Fernando Rosas, sempre crente nas "nossas meninas", e aproveitou para se vingar do atarantado Rui Tavares jogando, fulminante, a "carta étnica" (como agora está na moda dizer). E, finalmente, o PCP apresenta como candidato o príncipe Charles, o qual continua bem apessoado. 

Vai ser interessante.

 

Malvada história de maldita gente

jpt, 14.03.21

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Amiga envia-me ligação para programa radiofónico: o vice-presidente da Associação de Professores de Português e um antigo secretário de Estado da Cultura, antigo director de jornal e reconhecido romancista dialogam sobre o "racismo no "Os Maias" de Eça de Queirós", contestando as recentes acusações de uma doutoranda estrangeira pertencente à universidade norte-americana classificada em 217º lugar no rol universitário daquele país. Esta gente tem a cabeça onde? 

Amigo-FB envia-me ligação para um artigo de investigadora anglo-portuguesa, denunciando o silêncio português sobre a história nacional e a manutenção daquilo que considera ser a visão imperialista emanada do fascismo - implicitando a inexistência de historiografia posterior e da sua difusão pública e pedagógica durante os últimos 30-40 anos, e denunciando mesmo que há um centro comercial "Vasco da Gama" - e clamando sobre a necessidade de dar visibilidade ao comércio de escravos. O texto é publicado num canal público do Catar. Esta gente não tem pingo de vergonha. 

(Em cima, retrato de D. Afonso Henriques - figura a ser "desconstruída" e "intervencionada" - em quadro de Eduardo Malta - pintor a ser vituperado -, feito para a Exposição de 1940 - acontecimento a ser denunciado)

A culpa é de Passos Coelho

jpt, 12.03.21

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Estes são dados do Observatório da Emigração. Aproveito para recordar um postal - "O Milagre das Rosas" - de 2010, no qual ecoei um artigo do Libération (o qual deixou de estar disponível). Portugal fora na década então finda o 3º país mundial com menor crescimento económico e tinha 350 mil emigrantes naquele quinquénio. E para não deixar resumir isto da estrutural emigração portuguesa a dichotes advindos das querelas partidárias, recomendo este artigo de 2019, "Portuguese emigration today", do sociólogo Rui Pena Pires. O qual será insuspeito de simpatias pela "direita".

Há muito a reflectir e mais ainda a fazer para obstar a este constante (e histórico) drenar. Mas há algo mais imediato que poderia ser feito, para melhorar essa necessária actuação. Há um mês aqui deixei nota sobre a execrável afirmação televisiva de Ana Drago, no afã de salvaguardar o actual governo: a disseminação do Covid-19 após o Natal deveu-se às visitas dos emigrantes em Inglaterra, fluxo acontecido durante o governo de Passos Coelho. Os números, consabidos, mostram bem a indecência da formulação. Drago nem sequer é (por enquanto) militante do PS, a vil patacoada não foi uma fidelidade conjugal mas apenas um episódio de prostituição política. 

A questão é a da expressão pública televisiva e sua influência. Já nem falo desta pantomina de haver políticos no activo a fazerem de comentadores, em contextos que lhes encenam poses algo "neutrais", como se autónomos dos seus partidos - o caso mais risível é o da secretária-geral adjunta Mendes, ali ombreando com os aparentes "senadores flanantes" Pacheco Pereira e Lobo Xavier. Ou este Medina, que nos cabe como presidente de Lisboa, também "comentador" a tempo parcial, como se não estivesse a "full-time" em campanha. Mas a questão é para além disso, que pelo menos esses os espectadores reconhecem de imediato como "a voz do partido". A questão é a da pertinência das televisões se encherem destes Drago, simulando "olhares distanciados", analíticos e mesmo críticos. E que nada mais são do que "vozes de dono", cartilheiros.

E este caso, constante, da utilização da emigração portuguesa como invectiva a um governo - que geriu, mal ou bem, uma situação herdada - é um exemplo típico do aldrabismo de gente que é paga para nos "fazer a cabeça". Para baixar a emigração será melhor começar por melhorar a locução. Expugar-nos de cartilheiros, venham de onde vierem. E depois fazer o resto...

O centenário do PCP

jpt, 09.03.21
 

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O meu pai foi militante comunista até morrer, inabalável nisso. Há nove anos, na cama do hospital, a última coisa que nos disse foi uma resposta a uma das minhas sobrinhas, que ele adorava. Ela, carinhosa, quis animá-lo num "avô, hoje estás com melhor aspecto, mais rosadinho". E ele, ali tão pequeno de mirrado, quase translúcido, murmurou a sua última ironia: "rosa por fora mas vermelho por dentro". Morreu horas depois.
 
Cresci a discutir política com ele. Um dia, ainda na minha adolescência, o debate terá aquecido em demasia. Logo a minha avó materna - que tinha memória adolescente do 6 de Outubro de 1910 em Bragança, e que detestava Mário Soares pois considerava-o igualzinho a Afonso Costa, recordo-o para a enquadrar ideologicamente - chamou-me de parte para me dizer "Zé, o teu pai é comunista. Mas é muito bom homem". E tinha ela toda a razão. De facto, o camarada Pimentel foi um bom homem. Tanto que um dia, bem mais tarde, lhe perguntei porque tinha ele chegado até ali: "Esqueces-te que cresci na guerra de Espanha! E depois veio a segunda guerra mundial", na qual a URSS foi determinante e Estaline "pai dos povos" foi símbolo. Mas mais do que isso, mais do que o crescer, foi o viver depois décadas no medíocre e tétrico Portugal salazarento. Vi-o chorar apenas uma vez na vida: no 25 de Abril. Só aos 51 anos se viu livre daquela abjecção! E se me irrito eu, e de que maneira, com estes Sócrates e seus bajuladores - dos Galambas do Jugular aos Fernandes da "Super-Marta" de agora mesmo - bem que posso imaginar o desesperante daquela época, tão pior que era.
 
Mas sobre os comunistas há algo mais do que esta compreensão contextual, tornada simpatia, alargando-a do meu pai até aos seus correligionários contemporâneos. E nisso também podendo entender a adesão comunista entre operários rurais e urbanos explorados de modo indecoroso no Portugal dos Pequenitos CUF, Champallimaud e belas herdades - e continuo a pensar que o episódio mais belo do pós-25 de Abril foi quando comeram o cavalo de João Núncio, uma equideofagia ritual bem apropriada ao fim de uma malvada era.
 
Pois o relevante é que essas gerações de comunistas acreditavam mesmo na bondade da URSS e seus aliados (protectorados, de facto), assumindo-a irrefutável. Até um homem viajado e lido como o meu pai cria, genuinamente, que as críticas e denúncias daqueles regimes eram mera propaganda americana. No caso dele, um verdadeiro "ortodoxo" como então se dizia, não era falta de informação: bem antes de 1974 estudara e viajava no estrangeiro, de onde vinha com revistas e livros - para a minha formação foi interessante crescer entre estantes com os Basil Davidson, Mondlane, Cabral, etc. em livros de bolso ingleses, e é um carinho tê-los herdado. E também Marx, Engels, Lenine e o resto do panteão - agora encaixados em segundas filas atrás das canónicas "Obras Escolhidas" da Avante -, até mesmo Mao, a maioria em versões francesas, bem como os (algo dúbios) franceses, desde o primeiro Garaudy e tantos outros até já Hue. Mas sempre notei que, ainda que bem vasculhadas essas prateleiras, nada ali estava do que desde há décadas na Europa Ocidental se ia desvendando do terror comunista.
 
Depois do 25 de Abril nenhuma dúvida sobre a justeza comunista era aceite, tudo isso era convictamente reduzido a manobras do capitalismo. Portugueses antigos militantes como Silva Marques, Chico da CUF, Cândida Ventura eram ditos traidores, "comprados". E, com óbvias diferenças, também grassava o desconforto com gente como Berlinguer e Carrillo, e até mesmo com Marchais. Internamente também assim era, sopro de suspeição de mero "eurocomunismo" que fosse em qualquer "camarada ou amigo" era razão para imediata desconfiança. E já bem dentro dos anos 1980s era muito mal visto que algum comunista escrevesse na "imprensa burguesa" - mesmo que fosse para apresentar as posições oficiais do PCP de Cunhal. A URSS era o bem, o caminho correcto, o socialismo virtuoso - pois bondoso mas, acima de tudo, com as potencialidades (aquilo da "aretê") devidas à construção do comunismo. O socialismo era já uma realidade histórica benéfica e o comunismo, a tal "sociedade de lazer" - concepção pouco apelativa para o meu pai, frugal e industrialista que era, e que a remetia para uma mera retórica "filosófica" do teórico - viria como normal continuidade do rumo soviético. O XX Congresso apenas enunciara desmandos causados pelos efeitos internos das agressões imperialistas, na Guerra Civil pós-1918 e na II Guerra Mundial. Dores de parto, por assim dizer. E tudo isso era realçado através de inúmeras publicações, desde a patusca (e deliciosa, afianço) "Vida Soviética" - assinada por deveres de militância mas que lá em casa só eu é que (entre)lia, para recortes iconoclastas -, até aos livros de intelectuais "do partido", Urbano Rodrigues, Tavares Rodrigues, Alexandre Babo (nomeio-os de memória, pois estou longe das estantes), etc. que narravam, em reportagens e livros, os esplendores do mundo socialista. Nisso refutando as mentiras da "Voice of America" e quejandos.
 
Com o descalabro da URSS vingou, em particular nas páginas do "Diário" da "verdade a que temos direito", a peculiar teoria explicativa daquele processo, a dos "erros e desvios". E nisso nenhuma autocrítica sistémica nem, muito menos, sombra de dúvida sobre a correcção do ideário. Nessa altura, já adulto e com o "meu Marx", resmungava-lhe que convocar "erros e desvios" não era uma leitura marxista do processo histórico. Mas pouco interessou isso. Foi uma estrondosa derrota histórica, e alguma coisa tinha que ser dita às "massas" para explicar o acontecido. E restou a crença num reinício a breve prazo, algo muito segurado pela espantosa robustez da personalidade de Cunhal. 
 
Nas duas décadas seguintes decerto que houve alguma reconfiguração do PCP, e também dos seus imãs simbólicos. Mas isso pouco acompanhei. Nem em leituras. E as conversas com o meu pai foram muito mudando de temas, dada a vida, a minha emigração, e as tantas coisas que iam acontecendo. Mas também o não querer eu "mexer na ferida". Mas nunca o ouvi, nem disso registo bibliográfico restou em casa, professar qualquer apagamento da cisão advinda do velho conflito sino-soviético. Como tal algo me surpreendi quando, já neste milénio, lá de Moçambique ia percebendo a junção da retórica do "Partido" aos interesses chineses. Quando o Dalai Lama veio a Portugal o PCP botou um texto violentíssimo, com uma verve qual anos 1930s ou similar, nisso sufragando a ocupação colonial do Tibete. Foi o último texto do velho dirigente Aboim Inglez, que morreria pouco depois. Eu viria a resmungar com o meu pai sobre isso e ele encolheu os ombros, num indito "é o que nos resta", mas não secundou a vil arenga. E quando o então jovem Bernardino Soares meteu os pés pelas mãos por causa da Coreia do Norte, nem sequer me respondeu ao remoque. A adesão, por algo distante que pareça, do PCP às ditaduras orientais - avatares modernos do velho "modo de produção asiático", atirava-lhe eu há 30 e tal anos - era-lhe desconfortável. Intelectualmente desconfortável. Mesmo para um "ortodoxo", pois nunca o deixou de ser.
 
O meu pai morreu. O PCP continuou no mesmo rumo simbólico e ideológico. Em 2014 votou contra uma condenação dos crimes do inenarrável regime norte-coreano. Em 2019 o seu secretário-geral tornou a negar uma denúncia da Coreia do Norte, explicitando a sua diferente concepção do que é "democracia" - em termos que seriam escandalosos se tudo aquilo não tivesse decorrido no medíocre, de culturalmente atávico, Portugal geringôncico. Nestes vinte anos de acelerada extroversão do imperalismo chinês nem uma vez o PCP expressou distâncias. Enfim, durante décadas, desde o 25 de Abril, nunca o PCP sinalizou qualquer afastamento às concepções e práticas que comandaram o regime soviético. E persegue agora num patético seguidismo às remanescentes ditaduras do antigo espectro comunista - ainda que a China tenha uma organização económica capitalista o PCP atrai-se pela aparente "superestrutura" política. 
 
Não se trata de acreditar eu que os militantes comunistas actuais queiram tornar Lisboa numa Pyongyang atlântica. Ou de exterminar pela fome as famílias dos bloguistas menos "amigos" e nada "camaradas". Trata-se sim de ter consciência de duas coisas: a primeira é relativa aos comunistas, que seguem neste magma simbólico e ideológico. A sua visão do mundo é, acima de tudo, meramente anti-americana (no que não vão sozinhos..., basta ir até à universidade do Mondego para lhes encontrar congéneres). E ainda que se afirmem defensores dos "direitos" e "liberdades" não têm vínculo, moral ou de ideário, e acima de tudo afectivo, com a liberdade, individual e colectiva. Dela são inimigos, porque a entendem avessa ao futuro que almejam. E ao exercício político do presente. E comprazem-se na memória, e no sonho projectivo, de contextos históricos de atroz esmagamento dessas liberdades. 
 
A segunda questão é-lhes externa. Pois a forma como se entende o PCP é demonstrativa da forma como se entende e actua face ao social. Que muitos locutores auto-percepcionados como de "esquerda" (e até "centristas") surjam agora louvando o PCP será mais do domínio do tacticismo de Costa, que anima este ambiente. Mas há algo de mais profundo, de sociológico. E que melhor exemplo disso do que o do jornalismo de "referência"? Nos últimos anos o jornal "Público" desencadeou uma campanha pelo revisionismo da história portuguesa, muito decalcada de correntes norte-americanas, contando para isso com apoio de alguns académicos portugueses (e, ocasionalmente, de "lusófonos" bem integrados). O "Público" de Manuel Carvalho, e o feixe de académicos e jornalistas que isso vai animando, dizem-nos constantemente que temos de abjurar do respeito por personagens como Diogo Cão ou Duarte Barbosa, devido às formas como pensavam e actuavam. Que temos de nos expurgar desses legados, os quais serão mitos poluentes, factores da construção de uma errónea "identidade" nacional. Da admiração por esses vultos dever-nos-emos autocriticar, desculpabilizar, pois o que os de antanho fizeram - ou escreveram, como António Vieira e Eça de Queirós - moldam-nos as injustas formas de pensar e actuar. E devido a estarmos impregnados de tanto preconceito anterior estamos atreitos a reproduzir, ou a refractar, as injustiças quinhentistas, setecentistas, oitocentistas...
 
E depois, no intervalo desses paleios de activistas missionárias e de intelectuais esfuziantes, o mesmo "Público" faz um número quase-dedicado ao centenário comunista. E dizendo-os - aos nossos compatriotas contemporâneos, agentes políticos empenhados, produtores de textos actuais, influenciadores das práticas e concepções -, como se cândidos utópicos fossem, "em busca de uma sociedade que ainda não existiu". Ou seja, estes comunistas não têm categorias intelectuais ou preconceitos herdados de que se precisem depurar. Apenas procuram o bem. Trata-se do Padroado, por assim dizer. 
 
Se o meu pai fosse vivo no passado domingo eu teria atravessado as fronteiras concelhias para o ir saudar no centenário do "Partido". Teríamos bebido rum - cubano, claro -, ele ter-me-ia dito "calma, bebe mais devagar". Provavelmente teria resmungado mais uma vez "está na altura de deixares de fumar" - ainda que o tenha deixado de fazer apenas aos 77 anos. E eu ter-me-ia defendido agitando o "Público" do dia e resmungando-lhe isto que acabei de botar. E ele ter-me-ia sumarizado: "esses tipos são uns pantomineiros". E eu servir-me-ia de mais um rum.

A vender o meu peixe

jpt, 07.03.21

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(Em Inhambane, há já alguns anos)

Blogo desde 2003. Há alguns anos um comentador, desagradado com algo que eu escrevera, deixou-me: “cada um diz o que lhe apetece. Poucos lêem, quem lê esquece e o autor fez o gosto ao dedo e divertiu-se". A intenção era de crítica até malévola mas nisso falhou, pois é mesmo esse o espírito da escrita blogal. Assim desinteressada. Fútil e catártica.
 
Desse rol de postais nestes confinamentos do Covidoceno já organizei 4 grupos. Agora fiz mais um, o "Um Imigrante Português em Moçambique". São textos opinativos, de blog e jornal. São sobre ser imigrante naquele país durante o início de XXI. E, porque fui um dos últimos "cooperantes" portugueses, agreguei também algo sobre "Cooperação" (Ajuda Pública ao Desenvolvimento). Claro que nesse âmbito juntei resmungos sobre a incompetente "Lusofonia" e seu insuportável sucedâneo Acordo Ortográfico.
 
Sobre estes temas fui deixando ao longo dos anos vários postais. Guardo agora na minha conta da rede Academia.edu este conjunto composto pelos que serão menos abrasivos. Com excepção de um todos são breves, e com nenhum quis mais do que ilustrar o que ia vivendo. Se alguém neles encontrar algo que lhe for interessante para mim será um prazer. Enfim, quem quiser gravar o documento pdf bastar-lhe-á "clicar" neste título: "Um Imigrante Português em Moçambique".
 
Já agora, e para quem tenha alguma curiosidade sobre os outros conjuntos, aqui deixo as ligações para o acesso: 1) Ao Balcão da Cantina (50 crónicas sobre vivências e viagens em Moçambique); 2) A Oeste do Canal (41 textos sobre temáticas culturais moçambicanas); 3) Torna-Viagem (35 textos de memórias); 4) Leituras Sem Consequências (32 textos sobre livros e artistas).
 
Finalmente, sobre a fotografia que encima o postal: "Vasco da Gama" é um termo usualmente atribuído, por moçambicanos e por portugueses residentes (às vezes há bem pouco tempo) para nomear os portugueses que chegam a Moçambique. Sobre esta minha utilização que cada um faça a interpretação que lhe aprouver.

 

A história do bloguismo em Portugal

jpt, 06.03.21

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Atento amigo avisou-me da publicação deste "A Blogosfera Portuguesa: Da Coluna Infame ao ocaso de uma era", de Sérgio Barreto Costa, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, sob o aprazível preço de 3,15 euros. E convocou-me para a conversa promocional, anunciada com o (desagradável) título "Os blogues morreram. E ninguém os avisou?". Muito me interessou a publicação.  E também a sessão pública, a qual encetei, um debate telemático com a presença do autor, de Araújo Pereira e de Vasco M. Barreto, o qual ostenta o oficioso e prestigiado título de Bloguista-Mor olivalense (distinção que aqui explicito pois ciente da prévia permissão concordante do ínclito Apenas Mais Um). 

Se parti com interesse devido ao tema do livro, mais rápido ele floresceu dado que a moderadora, Catarina Carvalho, apresentou a obra como uma "antropologia moderna" sobre o bloguismo. Como  bem compreenderão os amistosos leitores - e mesmo os alguns caústicos comentadores - sendo bloguista veterano, assim um verdadeiro zombie à luz do ali anunciado, e antropólogo (outro avatar de zombie, diga-se, ainda que este académico), não pude resistir e decidi adquirir a obra.

Assim, e desenfiando-me da querida comunidade co-confinada, numa alvorada escapei-me do intra-muros militante que nos vem protegendo das intempéries virais. E avancei até ao Pingo Doce vizinho deste ermo Nenhures em que me acoito, convicto de que ali se vendem os livros publicados pela fundação da empresa. A diligente, simpática (e bem apessoada) funcionária com a qual me lamentei da minha incapacidade senil de encontrar o adequado escaparate logo se dirigiu ao armazém. Do qual regressou abraçando uma caixa de livros, lamentando-se pois "não há nada novo", "não temos recebido nenhuns..." e até desculpando-se "os livros estavam ali desde que foi proibido vendê-los". E assim continuou, demonstrando até agrado com este belo geronte (eu mesmo, jpt) que perguntava por tais produtos, mania aparentemente inédita na clientela regular. Enfim, não só compreendi como bem aceitei a situação, consciente da distância que aparta este Nenhures da capital dos ex-bloguistas cultos e leitores - para cima de uns árduos 40 kms de alcatrão liso... e plano.

Regressei ao cercado, resignado a que lerei o livro quando as restrições vigentes forem amansadas e então me for possível, mesmo exigível, avançar até à capital - urbe onde é até aceitável encontrar livros à venda. E assim, neste por enquanto, fiquei restrito a esta introdução do livro sobre o bloguismo luso. Enfim, "a ler vamos", com toda a certeza. E desejo que os afortunados da "cidade grande" possam comprar e, até, ler o livro (mas não o esgotem antes do desconfinamento, por favor).

Entretanto, pois impregnado de presunção e água-benta, e porque a obra aborda a história do bloguismo em Portugal, lembrei-me do meu primeiro texto no Delito de Opinião. O qual foi um voo de pássaro sobre este assunto, escrito em 2010 (!) quando vivia em Moçambique e de lá algo estupefacto olhava para este tudo isto pátrio - e assim continuo, afianço. E que aqui botei como convidado, numa bela série de convites a bloguistas que o Pedro Correia animou. Repito-o, até porque é fim-de-semana (ainda de confinamento):

The Clash

Agradecer ao Pedro Correia este convite para escrever para o Delito de Opinião não é protocolo. É contexto do que se segue. Pois mesmo que blogo-veterano isto de meter algo num grão-blog, como o DO se tornou - o único dessa mole que consumo diariamente -, levanta logo aquela velha questão, até de algum stress, do "o que dizer a estes tipos?" - os muitos, e nisso louváveis, aqui leitores.

Pois nisto do blogar, botar algo de modo quase quotidiano, treme o emigrado. Deverei procurar um requebro semitropical?, uma ponte intercontinental?, um daqui "estamos juntos"? um voo rasante sobre o onde vivo? Ou restrinjo-me à parca política lusa? E nesta hesitação, até pobreza, pessoal e mental, é o cidadão que vou convocando, sai-me texto sobre o aí Portugal, o aí da política, tanta “espuma dos dias”, tanta mera baba, espúria, na volúpia do opinar. Esse aí de que há anos vou sabendo, maioritariamente, por via dos blogs - se exceptuando a fértil actividade futebolística. Por isso boto hoje sobre blogs, esse "espelho da nação", pelo menos para alguns.

Longe vão os anos 2003-4, quando a gente apareceu desatinada a botar opiniões, frenética nas teclas, cada um pontapeando ou beijando o que lhe ia na alma, tempos de afirmação de alguns manitus da opinião livre, desassombrada - idólatra que sou fiquei-me romeiro do jaquinzinho jcd, Lucky Luke do bloguismo, genial na demonstração dos tiques do então emergente Bloco de Esquerda. Os tempos vêm passando e o colectivismo impôs-se no bloguismo, pois as grandes congregações bloguistas, com plantéis, targets e até missais, tornaram-se um must, na dita "esquerda" e na agora (re)dita "direita".

Mas nesse já recuado antes o motor dessa congregação blogal chamava-se blogómetro, pois os sonhos de teclistas lisboetas - e, vá lá, também portuenses - eram os de destronar, abruptamente, José Pacheco Pereira (jpp) do papado bloguista, ferreamente exercido com a sobranceria da crença da sua infalibilidade no loquaz Abrupto. Nisso se formaram e reformaram ene blogs evangelistas, de porta em porta, arengando no proselitismo dos respectivos profetas. E quantos deles clamando Anticristo esse demoníaco Papa.

Tudo isso era engraçado, e mais ainda pois visto de longe. E naveguei então nesse encapelado mar de links, sentindo-me em casa. Entenda-se, vivo em Moçambique, cuja grande revolução actual é a monoteísta, são omnipresentes os profetas e profetismos, as igrejas e correntes "africanas", a evangelização e a coranização - coisas de que não se fala na RTP-África, mas do que se poderia esperar daquela modorra de funcionalismo público? Assim, logo que chegado a casa, no remanso do escritório, já in-blogs, era quase como estar na rua, nos distritos daqui (“no mato”, dizem os de fora), ouvindo o "alá é grande" "deus nosso senhor tudo pode" e essas coisas. Algo diferente, claro, pois no luso blogal eram Zizek ou Hayek os profetas ministrados, ainda que uma minoria - os congéneres desta burguesia de cá que vive nas vilórias, libertada do jugo das machambas e já em casas de alvenaria -, arengasse sobre Blair como reencarnação do Bem.

Entretanto o Paulo Querido vendeu a plataforma bloguística weblog.com.pt e o blogómetro perdeu algum panache. Pior ainda, ninguém - nem mesmo os jornalistas lisboetas, frutos do caldeirão Frágil-Jamaica/Tokyo  - conseguia deitar abaixo o jpp do pedestal quantitativo, do ambicionado topo do blogómetro. Adivinhava-se a crise, um desgaste do ânimo. Mas alguma blogo-esperança renasceu quando Vasco Pulido Valente e Constança Cunha e Sá irromperam, imperiais até, no bloguismo, através do seu O Espectro. Para se retirarem, desistindo de blogar - num dos mais (ou mesmo "o mais"?) ridículos episódios dos anos 00 lusos, uma pequenez medonha -, no dia seguinte a terem ultrapassado o sitemeter abruptal. Mas, pelo menos, teve esse feito o efeito de apear o “top blogal” como meta-mor dos grão-bloguistas.

A partir daí, e enquanto o próprio país ia deslizando, e talvez também por isso, algo foi mudando.  Alguns raros individuais encanecidos continuaram, adaptando-se ao tom da época, cada vez mais beligerantes ao serviço da "sua majestade" de cada qual. Os super-blogs mantiveram-se, algo voláteis pois mutantes de nome, com transferências até sonantes qual mundo da bola e, amiúde, entre-zangas prenhes de inter-links, cheias de subtextos e private angers, discerníveis por quem fosse do(s) meio(s), aqueles “lisboa” e “porto”, tudo isso em crescendo de alinhamento pois no meio cada vez mais soava e suava o agendismo.

O bloguismo-punk morrera há muito, o blogo-rock envelhecia em espasmos e fomos nós, incautos (?!) leitores, sendo encerrados no top of the pops. Com os ciclos eleitorais a indústria desceu à rua e tomou, definitivamente, conta do assunto e no pacote de gabinetes do pró e do contra se foi formando um regime profissionalizado, penteado, no qual ao clic-clic de entrada já se sabe o que esperar, se vai à missa in-blog para se reafirmar as certezas, os blogs tornados quais escalfetas. O actual Festival da Eurovisão blogal parece não perder audiências - fui ver o velho blogómetro antes de botar isto, confere, as audiências aguentam-se e até crescem... - mas é óbvio que os maestros, cantores e jurados despercebem que a obesidade, os números de leitores, advém via google search: pois quanto mais "arquivos" têm os blogs mais leitores incautos lhes chegam ao engano, na demanda de outras coisas, e é este o verdadeiro teorema bloguístico.

E assim ficou um mundo de gente trabalhando in-blog, uns de cara destapada outros nem tanto, não lhes vão cair os patrões na lama, tão rasteiras as coisas que vão botando. Dos pacotes de assessores ou não, proto ou ex, brotaram alguns. Assim feitos "lisboa" muitos discutem, veementes, quem é quem, de onde vêm, com quem jantam - "eu jantei com A, ele existe" "eu ensinei X a blogar, e em minha casa" e, um must, "eu tirei esta foto a Y, o qual por acaso mal se percebe na foto, mas - estão a ver? - ele existe", como gozam connosco os jornalistas e académicos do Jugular socratista, quando o povo se questiona sobre um blog anónimo ao serviço do governo.

Trata-se de um "quem" "são" "esses" "alguns" que é forma, ladainha, de ir tentando comprovar que o tudo isso, a tal "lisboa", sempre vai existindo. No fundo, no debate pró ou contra a nomeação, a assinatura dos textos, julgam-se nomenclatura. Entretanto, lá longe, a gente da internet, essa que em tempos alimentou via clic-clic a quantidade de blogs que foram florindo, já lá não está. Pois encontra-se, noite fora, nestes nossos pós-bloguismos do youtube e facebook, gente com nome e de fotografia espetada no "perfil". Enquanto o tal pacote "convicto" não imigra para cá, trazendo o "remoquismo" que lhe é alma, andamos noutra, a "gostarmos" uns dos outros,  Uns a ler. A ver. A ouvir. Outros a botar.

The Clash, hoje:

 

(London Calling, The Clash; Capitol Theater New Jersey 1980: um filme precioso dedicado aos premiados dos prémios Gandula Blog 2004 e 2005)

José Pimentel Teixeira

Os ricos que paguem a crise!

jpt, 04.03.21

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Leio que a professora Peralta - que, ao que diz a "Sábado", segue agora grã-"influencer" -, propõe com ênfase na última edição "Visão" um aumento de impostos e a recuperação do imposto sucessório. Diz a muito louvada (e, pelos vistos, disputada pelas revistas "sérias") académica:  "Tem de se arranjar maneira de pôr os ricos a pagar a crise."
 
Sobre esta abordagem socioeconómica - que tem "pedigree" social-democrata, como demonstro na referência bibliográfica que acima deixo, e que segue viçosa, como bem sentimos, nós pobres, remediados ou classe média bem-posta -, disse o economista polaco Korzeniowski: "recordo ainda a mocidade que eu tinha e que nunca mais voltei a sentir... de poder viver sempre, sobreviver ao mar, ao céu e aos homens; a sensação enganosa que nos arrasta às alegrias, aos perigos, ao amor, ao esforço inútil... à morte; a convicção triunfante de termos força, o calor da vida numa mão cheia de pó, aquela chama do coração que ano após esmorece, esfria, encolhe até se apagar de todo... e apagar cedo, muito cedo... antes da própria vida".

A carta aberta às televisões e o sindicato dos jornalistas

jpt, 26.02.21

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Será, até estatisticamente, pacífico dizer que as estratégias estatais para enfrentar o Covid-19 neste corrente Inverno foram um fracasso. Estamos confinados, com os custos económicos e sociais gigantescos presentes e futuros. Mas andámos qual "ilha no topo do mundo" devastado pela doença. E isto depois do "milagre que é Portugal", o sucesso (enfim...) da Primavera passada. Um caso óbvio de "tarde piaram" os possidentes. Nesse âmbito o que acontece? Um conjunto de "cidadãos muito respeitáveis" (como são definidos num editorial algo incomodado de um jornal de "referência"), um feixe da "nobreza de toga", por assim dizer, faz uma "Carta Aberta" insurgindo-se contra: a) a extensão dos telejornais (matéria bem antiga, inscrita na concorrência por audiências, como todos sabem); b) o estilo confrontacional dos entrevistadores televisivos (bem, pelo menos já José Sócrates, aquele político que nenhum destes "cidadãos respeitáveis" criticou em carta pública, manipulava pressões políticas, financiamentos públicos e empresariais para afastar alguns destes "confrontacionistas"); c) a tendência para criticar governo e administração pública, que vem sendo dita antipatriótica. E terminam com: d) a denúncia de agendas políticas subterrâneas e inditas, quais "mão invisível", ligadas ao capital privado mas capazes de poluir o serviço estatal, manipuladoras do jornalismo.

Não elaborarei muito sobre este documento. Pois cada cabeça sua sentença. Mas lembrou-me que, em 2018, o peculiar presidente do Sporting Clube de Portugal, dr. Bruno de Carvalho, na efervescência de uma Assembleia-Geral do clube, lançou o repto a associados e adeptos (o agora dito "Universo Sporting") para que não comprassem jornais nem vissem as televisões (ou seja, não lhes consumissem a publicidade). As reacções foram indignadas, em particular da "classe" (ou "corporação") jornalística. O próprio Sindicato de Jornalistas contestou as declarações desse presidente de uma colectividade desportiva considerada instituição de utilidade, dizendo-as um atentado à liberdade de imprensa. Entenda-se bem, o presidente de um clube disse: "não vejam as estações generalistas, não comprem jornais". E o sindicato notou um atentado à liberdade de imprensa. Isabel Nery, da revista Visão e dirigente sindical, anunciou que o Sindicato recorreria às entidades tutelares em defesa dos profissionais do sector, até mesmo juridicamente, soube-se depois. Explicitando que essa é uma posição estrutural do sindicato pois "estamos a falar de desporto mas se estivéssemos a falar de outra coisa qualquer a posição do sindicato seria idêntica".

Passaram três anos. Surge esta posição intrusiva sobre o jornalismo, que intenta cercear e moldar o espírito crítico, de forma muito mais aguda do que fez o peculiar Carvalho havia feito, e até explicitando serem os jornalistas agentes de agendas inditas, falhos de deontologia. Gente galardoada (Carvalho e Horta são prémio APE, Alice Vieira - viúva de Mário Castrim, caramba, a prestar-se a uma coisa destas! - já tem escola com seu nome, Lourenço é oficial superior e Benavente foi governante, como exemplos). Mas muito mais significativo que isso, alguns dos signatários dirigem actualmente instituições estatais ou articuladas com o Estado - que eu saiba pelo menos Bebiano, Silva, Rodrigues e a "directora do Museu do Aljube que não sabe o que é o Gulag", Rato. Ou seja, altos quadros da administração pública e da sociedade civil convocam alterações no livre-arbítrio jornalístico e explicitamente põem em causa deontologia de largos sectores da classe. E exigem a cessação de críticas ao Governo e à Administração Pública. Enquanto especulam sobre interesses clandestinos aos quais os jornalistas estarão algemados.

E que diz o Sindicato dos Jornalistas sobre estas acusações? Nada! Pois o respeitinho pelo governo é muito bonito. Mesmo...

Remover Padrão e afins...

jpt, 24.02.21

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Vem aí a Primavera. E a bazooka financeira europeia, cujas virtudes indutoras não nos vão sendo aventadas, enquanto a sua fiscalização alhures foi já algo acautelada. A prevenção invernosa da epidemia foi uma catástrofe. O início da vacinação foi algo atrapalhado, com uns mariolas do poder a palmarem umas doses para uso próprio. Sob uma ministra da saúde que tende a considerar criminosos os que se lhe opõem, as críticas a tal desatino são consideradas antipatrióticas. Com tudo isso concorda um punhado de intelectuais, ditos antifascistas, que, ao consagrado estilo de José Sócrates, se erguem contra "as perguntas do Correio da Manhã", apelando ao controlo dos meios de informação e ao descarado expurgar de críticas ao governo - entre outros surgem escritores (atrás de minha casa a escola chama-se Alice Vieira, estamos a formar crianças no respeito a uma censora e isto vem pacífico à sociedade); académicos (notória a presença do abissal CES nesse painel de patrióticos censores), ou o antigo e a actual directores do Museu do Aljube (estes dois militantes do PCP nem têm o pudor de tentar fazer esquecer o execrável vínculo  nepotista que manusearam na conquista daquele lugar na administração pública). Entretanto outras coisas menores vão acontecendo: a TAP intervencionada soçobra, com o autoproclamado "corajoso" Pedro Nuno Santos aos comandos da aeronave; ninguém atenta enquanto o engenheiro Sócrates jagoza sem acusações que se vejam; e o banqueiro do regime constata, decerto que aliviado, que nunca será Fouquet. O ministro da Educação incumpre sonantes e repetidas promessas. Os profissionais do sector cultural, na maioria de mundivisões "à esquerda", constatam - talvez antipatrioticamente - o tipo de ministra que lhes coube em tutela. E, lá bem no fundo, até pouco relevante, a economia nacional é uma "devastada armada" e mesmo que o infame Passos Coelho nos mande emigrar não há, agora, quem e onde nos acolham...

No meio de todo este deserto de problemáticas, a actualíssima "questão colonial" veio congregar atenções, catapultadas pela investida do codicioso dr. Ba, que o demonstra poderoso ariete do "team" governamental, qual Ibrahimović (eu preferiria dizer Lukaku, até pelo seu extraordinário desempenho no último derby milanês, corolário do recente conflito pessoal entre os dois magníficos avançados. Mas decerto que, face às sensibilidades actuais, alguns diriam "racista" essa minha analogia), capaz de driblar atenções e preocupações da "moldura humana", em épocas transactas dita, e temida, "eleitorado volátil".

É no âmbito desta "operação racial" que a remoção do Padrão dos Descobrimentos lisboeta acaba de ser colocada a debate público pelo Partido Socialista, por intermédio de um dos seus deputados à Assembleia da República. Passada uma semana dessa proposta o carácter partidário - e não meramente pessoal - desta iniciativa torna-se notório, mesmo evidente, face ao silêncio (sempre ele anuência) que colheu da direcção do PS e, também, do presidente da Câmara de Lisboa, até porque este figura grada do partido e sempre dito putativo seu futuro líder. Para confirmar a dimensão partidária deste novo conflito político - e não meramente "questão cultural", como alguns resumem - logo de seguida o PAN, um dos partidos que sustentam o actual governo, propôs a remoção de pinturas da Assembleia da República, devido aos motivos históricos que nelas constam. Pois dirá o dr. Costa, e seus fiéis correligionários, antes discutam a "Pátria" de antanho do que façam críticas antipatrióticas actuais. Ou seja, que digam mal do governo, como é timbre desta plebe viciosa e desrespeitosa.

Enfim, desabafo feito, digo ao que venho. Será curial mas não muito elegante aproveitar este blog para chamar a atenção para textos no meu blog pessoal, o discreto Nenhures. Mas faço-o hoje. Pois a propósito deste "bota-abaixo o Padrão" o meu amigo Tiago Matos Fernandes - que conheci há décadas em Moçambique, onde trabalhou como voluntário e depois investigou para a sua excelente tese de mestrado -, botou um belíssimo texto no facebook, "o mundo num postal de facebook" como lhe disse. O Tiago pouco ou nada concordará com o ditirambo que eu aqui acima coloquei. Mas ainda assim deixou-me colocá-lo lá no Nenhures. Não o coloco aqui pois é algo longo para um blog colectivo e generalista. Mas muito o recomendo e por isso convido os leitores do DO a lerem-no: Enquanto Vasco da Gama dormia.

 

A semana do Império

jpt, 23.02.21

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(Metangula)

 
A morte de Marcelino da Mata reanimou a discussão sobre a memória imperial e seus efeitos actuais, e tornou a semana passada numa verdadeira semana do Império. Muita coisa oca foi escrita. O assunto serve para o jogo político. Nesta matéria desde 2019 que eram notórias as tácticas do PS, utilizando-a para minar a influência do BE na esquerda urbana. Algo que agora se tornou explícito, nas patacoadas de deputados socialistas (derrube do Padrão dos Descobrimentos, lamento pela relativa placidez do 25 de Abril, apagamento ou elisão de pinturas alusivas às navegações portuguesas) cavalgando a agenda dos activistas identitaristas. Ou seja, à promoção socialista do Livre e à posterior cooptação da sua ex-deputada, sucede-se o rapto do radicalismo discursivo desta "causa". Em futebolês dir-se-ia que o PS adoptou agora a "pressão alta". Não tanto sobre os resquícios materiais e intelectuais do colonialismo mas sim sobre os codiciosos arietes identaristas ainda sitos no plantel do BE.
 
Para muitos académicos e afins é agora necessário, meio século depois do fim do Portugal colonial, afrontar os resquícios do Estado Novo, materiais e intelectuais. E nisso refutar o "lusotropicalismo", essa síntese enviesada feita após 1950 por Gilberto Freyre e intelectuais portugueses, justificativa do colonialismo, e a memória das navegações de XV-XVI, dos "Descobrimentos".
 
Ora nós podemos perfeitamente viver com parcelas do legado cultural (e propagandístico) do Estado Novo. Como muito bem acaba de lembrar Helena Ferro de Gouveia o Castelo de São Jorge (e tantos outros castelos) que conhecemos são reconstruções - propagandísticas, construtoras de "identidade nacional" - do Estado Novo. Vamos (re)arruiná-los, para nos purgarmos da mundivisão salazarista? E podemos perfeitamente louvar os extraordinários feitos quatrocentistas e quinhentistas, e considerá-los parte fundamental da construção do país - todos os países têm um discurso mais ou menos dominante sobre si mesmos. Não uso qualquer sarcasmo, mas que diríamos se a Ordem dos Dentistas viesse questionar a celebração das navegações devido ao escorbuto que grassava entre as equipagens? Afirmando que tal é um atentado à higiene bucal, de efeitos perniciosos à actual saúde pública? Não se pode respeitar os espantosos feitos científicos e técnicos e a fibra dos participantes enquanto se lavam os dentes e se tem alimentação apropriada?
 
A grande questão é outra, não é afrontar os discursos de até há meio século, o tal "lusotropicalismo" do Estado Novo. Mas sim reflectir nos discursos que esta II República promoveu sobre o país, sua realidade e seu futuro. Ou seja, que discurso sobre si-mesmo produz o país, para além do corolário europeu e do gemido lusófono? Estruturante foi a produção da visão da "Lusofonia" como enquadradora do país. A qual reflecte e refracta o tal "lusotropicalismo" mas a isso não se restringe. É um produção dos intelectuais actuais, em particular dos ligados ao Partido Socialista finissecular, herdeiros do republicanismo. Na ânsia de se proclamarem "antifascistas" os intelectuais de hoje elidem isso, e fogem à crítica radical da produção actual. E os políticos ainda mais: tem algum sentido um mariola deputado propôr o derrube do Padrão dos Descobrimentos e esquecer-se de propor a renomeação da Ponte Vasco da Gama? Não, é apenas uma boçal demagogia. Mas também simboliza a ausência de questionamento do ambiente intelectual actual.
 
Acabo de reler um pequeno livro, "Este País Não Existe", colectânea de textos de jornal, com autores insuspeitos de lusotropicalices, com Bethencourt, Ramada Curto, Castro Henriques, entre outros. E no qual está um artigo de 2007 de Alfredo Margarido (do qual ainda tenho o recorte do original), devastador do discurso da lusofonia. E é significativo dos limites da análise crítica (re)ver que um dos organizadores, Nuno Domingos (que trabalhou sobre Moçambique), reduz as críticas ao Acordo Ortográfico a um irredentismo saudosista da "gesta" pátria. E que nessa colectânea, que abrange textos sobre variadíssimos temas ligados às representações sobre o país e sobre a memória colonial, ninguém tenha abordado esse AO 90. O que denota a incapacidade (ou a falta de vontade) de olhar para como a II República, em particular os intelectuais de extracção republicana e sediados no PS, pegaram no projecto explícito de Salazar de compor um comunidade de língua e sentimentos - a reforçar e perpetuar por uma homografia. E continuaram-no.
 
Ou seja, a questão não é discutir o tal Estado Novo, findo em 1974. Mas sim a II República, vigente. Não é discutir o "lusotropicalismo". Mas sim a "Lusofonia". E nisso não só debater os seus conteúdos programáticos. Mas também as suas práticas. E os arranjos estatais em seu torno: e nisso perceber que muita gente se afixa avessa ao "lusotropicalismo" mas produz, reproduz e recebe (d)a lusofonia.
 
Enfim, vou buscar a minha memória. Contactei com ("levei com", no jargão) o arrivismo ignaro e a pesporrência da administração cultural socialista lusófona. Antes ainda dos textos de fins de XX de Margarido ou Lourenço, devastadores da ideologia lusófona. Quando Castelo publicou o seu estudo tornado canónico sobre o lusotropicalismo. Bloguei no ma-schamba durante 12 anos: tenho aí 167 postais com a etiqueta "lusofonia", quase uma monomonia. Sobre a ignorância, a patetice, o atrevimento da administração estatal, da imprensa, da academia. Lusófonas.
 
Não me venham assim criticar o defunto Estado Novo. Mas sim ser verdadeiramente analíticos: do presente. Da chamada intelectualidade de esquerda - há três décadas a viver de lusofonices. (E não me chamem "ressentido": fui eu que saí desse gravy train. Apeando-me de uma carruagem de primeira classe).
 
Para ilustrar tudo isso, deixo ligação a dois textos antigos do ma-schamba, neste postal e num seguinte. Sobre as lusofonices. De 2002. Forma palavrosa de mandar à merda estes deputadozecos socialistas. Mais as professorazinhas que vão à TVI dar-me e dar-nos lições de literacia, para cobrir de elogios "o Mamadu". O primeiro escrevi-o em Mandimba, na primeira vez que fui ao Niassa.
 
 

"On disputa um peu sur la multiplicité des langues, et on convint que, sans l'aventure de la tour de Babel, toute la terre aurait parlé le français (...) car [on] supposait qu'un homme qui n'était pas né en France n'avait pas le sens commun

                                                                                                                                              (VoltaireL´Ingénu, 1767)

Noite! Finda a semana de chuvadas junto a exaustão do burguês envelhecido, que já se desconforta no mato, ao vazio que me esperaria nas ruas lamacentas da vila. Rôo a galinha do jantar e logo me afundo diante da RTP-África, ali deixada como respeitosa simpatia para comigo. A ela não me nego, pois aos outros sempre parece estranho aquele que recusa um pouco da sua longínqua terra, como se a ela devesse algo e não quisesse que lho recordassem.

Assim acomodado deparo com o inesperado símbolo do Instituto Camões, patrocinando um qualquer programa que aí vem. Apenas alguns segundos, mas anormalmente longos em TV. E quão estranha é a nossa mente, aqui junto ao Malawi e à vista dum antigo patrão de imediato se me associam ideias, mais rápidas do que o dizê-las. Sinto como o mundo muda, como se me mudou, eis-me agora, ainda que por alguma preguiça arredia ao “banho macua”, sujo, enlameado e, para mais, pouco abonado. Também um bocado liberto, é certo, mas não entrei em valorações. Apenas sensações.

Ao mesmo tempo a surpresa do inédito leva-me a um abrupto e mudo resmungo, um “que raio é isto? Só podem ser coisas da lusofonia …!”, logo confirmado nas imagens. Já estou a sorrir quando surge, como não podia deixar de ser, algo chamado “Contos Tradicionais da Lusofonia”, e hoje nem de propósito é um “Conto Tradicional Tsonga”. Iberos de Gaza, presumo eu!

E bem acondicionado se apresenta o dito, ali adaptado por um “poeta laureado”, antigo nome daqueles que depois, e até há pouco, se tornaram em desejados “intelectuais orgânicos”. Títulos aos quais, no entanto, continuo a preferir o de “escravo grego”, o cujo sempre me aparece com a cara do James Mason, sem que eu perceba bem porquê! Ainda para mais porque é imagem nada condizente com a figura incomodada e algo desalinhada que conheci em tempos a este ilustre autor e adaptador. Mas como criticá-lo, eu que já andei a organizar festivais da Francofonia? Puta fina ele, de esquina serei eu próprio.

Adianto-me e venho cá para fora fumar, a noite não será estrelada mas pelo menos não chove, e fico-me a matutar neste lusófono absurdo. Que é um absurdo desejado, procurado, planificado. Não será ele tão evidente que baste narrá-lo para afirmá-lo? Ou será assim tão subtil que outros não o vejam como tal? Enquanto se me acaba o cigarro ocorrem-me fragmentos passados de lusofonia, que deixo correr sem requebros de formas, para não contrapôr a essa hipotética subtileza uma qualquer outra.

Há uns anos foram publicados em Portugal os resultados do censo moçambicano. Logo me telefonou para Maputo uma angustiada jornalista inquirindo a minha opinião sobre o facto de apenas, e sublinhava o apenas, 6% das pessoas afirmarem o português como língua primeira. Fui-lhe dizendo que tal me custava a acreditar, palavras que a sossegaram lá no outro bocal, breve calmaria antecâmara do espanto quando fui continuando, que talvez fossem exagerados os números, porventura alguns teriam reclamado o português como natal sem o terem, como um bem de prestígio social. Timbre alterado, tendendo então para o agudo, murmurou, aflita, a radiofónica voz “Então em que língua falam as pessoas? Em inglês?”. Ah, uma menina que nem nos antigos gregos, ouvindo de soslaio o brabrabra dos bárbaros vizinhos. Adiante.

Passado um ano, o já referido Camões editou uma revista dedicada à cultura moçambicana, a qual aqui foi lançada com grande pompa, no seio de grande iniciativa e de inúmeras personalidades autorais, uma imperial embaixada de lusófonos inteligentes. Para nela ser incluída encomendou uma entrevista alusiva ao então Ministro da Cultura local, o qual logo aproveitou para reafirmar, com veemência de ministro, a bantofonia do seu país e da(s) cultura(s) que o gera(m) e vive(m). A afirmação, em si mesmo óbvia – analisemos depois em que consiste a bantofonia, s.f.f. – assumiu, no entanto, estatuto de indizível em lusas terras. Decerto que devido a esse atrevimento, e apesar da sacrossanta democracia, volatizou-se a citada entrevista. Censura? No nosso Estado?Adiante.

Passou-se mais um ano. Como manda a tradição, uma Universidade moçambicana organizou na abertura do seu ano lectivo uma Oração de Sapiência, da qual se encarregou um eminente catedrático brasileiro. Este, aproveitando a sala repleta, lançou-se numa violenta catilinária contra o capitalismo globalo-americano e seu economicista fascismo social, e, satisfeito, terminou sublinhando o seu enorme reconforto pela esperança na resistência moçambicana. Dela estava já seguro pois nessas 24 horas de estadia tinha encontrado em Maputo uma “vigorosa latinidade”. Ninguém se riu. Adiante.

Mais um ano a correr e eis que me estreei no noroeste do país, este Niassa sempre visto como longínquo, desértico e quase inacessível, coisas da mitologia nacional. Recebido com uma hospitalidade notável, não demorei a cruzar o enorme planalto, um mato verdejante polvilhado de montanhas encimadas por cofiós brumosos, quilómetros de arvoredo e machambas, o verde castanho destas a entranhar-se no azul ameaçador de um céu carregado, um deslumbre único, um mundo a reclamar poetas que o digam. Súbito entra-se na terra batida, em contínua descida, cada vez mais curvilínea e deserta. Breves horas passadas, num cotovelo apertado, íngreme e pedregoso, todo eu estanco à primeira visão do Lago, e ali camuflado por estas montanhas um todo de água a perder de vista, abandonado numa calmaria como se fosse eterna. Ficamos parados, não sou o primeiro que o anfitrião, orgulhoso do belo no seu país, desvirginda de Lago, ele sabe bem o efeito! Depois, bem depois, reparo que lá em baixo há praia, e uma enseada, surpreendida ao fim de todo este caminho, desenhada por uma ligeira península que é vila: Metangula…

Arrancamos com vagares, e para sair do espanto pergunto o que já sei, “ali havia uma base da marinha portuguesa, não é?”, a guerra no paraíso. À óbvia confirmação adianta o meu companheiro que “diz-se por aí que vão instalar lá o centro de treinos dos fuzileiros dos PALOP!”. E eu, mau-feitio, logo a contestar “Nada!, aqui?, não acredito, neste ermo?”, mas ele resiste-me “Não sei, mas olha que se tem falado bastante, deve haver ideias para isso”. Entreolhando-o, ele de cara plácida mas agora algo distante, procuro rematar “Hum, devem ser alguns saudosistas portugueses…”. Com isto estamos já na contracurva e aí, sem qualquer pré-aviso, abandonamo-nos numa enorme gargalhada. A minha, entrecortada, demorou até à vila, e eis que regressa hoje, solitária, debaixo deste céu. Adiantar mais? Ou consigo fazer-me entender?

Mandimba, 2002

Sobre o funeral de Marcelino da Mata

jpt, 20.02.21

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É certo que um antigo disse que nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio. Mas outro escreveu que nada há de novo sob este Sol. E assim o problema de se blogar há já 18 anos é que, quase certamente, já se botou algo sobre a maioria das coisas que vão acontecendo.

A morte do tenente-coronel Marcelino da Mata provocou polémica - decerto que incrementada pela generalizada inactividade neste Covidoceno. E que foi muito potenciada pela presença do Presidente da República no seu funeral. Várias vezes já aqui invectivei o histriónico exercício presidencial de Sousa, forma de preencher a vacuidade do seu projecto político, apenas pessoalista - anacronicamente  mimetizando o modus faciendi tardo-imperial do seu digníssimo pai, aquando Governador-Geral de Moçambique. Cabota desprovido de gravitas, minando a auctoritas da função, a esta esvaziando, reduzindo-a a influência dependente das fragilidades conjunturais dos outros órgãos de soberania. O eleitorado (também conhecido por "povo") gosta e vota. E Sousa recompensa-se nisso. E o país deficita. Para não dizer definha.

Nesta ocasião isso é evidente. Alimentando uma situação em que - apesar deste contexto de crise gravíssima e de urgentes decisões estratégicas- , o país mediático está de novo - como o vem estando desde há quase dois anos - encerrado no confronto das minorias demagógicas, os ultramontanos saudosistas face aos revanchistas identitaristas, estes acalentados pelo Partido Socialista no âmbito da sua estratégia de dominação dos diversos feixes da esquerda urbana. Serve isto para articiosamente acirrar campos, nada mais.

Sobre este assunto é certo que há algumas vozes ponderadas, mas são escassas: o texto "Memórias de Sangue" do socialista Sérgio Sousa Pinto é um exemplo de sageza. Mas que ficará dele retido quando no mesmo dia um seu correligionário, o deputado Ascenso Simões, estuporadamente lamenta não ter havido mais mortos no 25 de Abril (bem mais agressivo e incompreensível do que o activista Mamadou Ba quando na academia, citando Fanon, convocou a "morte do homem branco" - da mundivisão dominante)? Propondo ainda Ascenso Simões, a coberto do revisionismo patrimonial, que se derrube o Padrão dos Descobrimentos?

Mas enfim, o que me convoca aqui é esta continuada incontinência do Presidente Sousa, a sua imponderação. Durante esta semana, diante deste despautério - repito, potenciado pela sua presença no funeral do tenente-coronel Mata, símbolo da africanização das tropas portuguesas - recordei-me de um texto que botei em 12 de Julho de 2004. Sobre a ausência do então Presidente Jorge Sampaio do funeral de Maria de Lurdes Pintassilgo - de quem ele era, pelo menos ideologicamente, bem próximo. A demonstrar que há outras formas de exercer o poder. E que são melhores, mais sagazes. Mais competentes. Mesmo que discordemos politicamente dos agentes políticos. E mesmo que menos beijoqueiras. Aqui reproduzo o texto:

O Poder e a Morte

"A ausência de Jorge Sampaio foi muito notada mas um dos seus assessores lembrou que o Presidente "nunca vai a funerais." (no "Público", em notícia a propósito da morte de Maria de Lurdes Pintassilgo, falecida a 10 de Julho desse ano). Notam, reparam, no sagrado do poder? O do rei sagrado, chefe tradicional, ungido pelos deuses, actual antepassado, centro da sociedade, ponto meridiano do cosmos, descendente e representante do passado, garante da continuidade, aquele que faz chuva, que ordena as estações, que faz frutificar, aquele que nos leva até ao futuro, o que dá vida. Esse nunca, mas nunca, vai a funerais, não se conspurca com a morte. Não periga a fertilidade de que é representante, garantia, "banco", "carteiro". Não a periga com a poluição do fim. Da morte infértil, caótica.

Nada critico, pelo contrário. Fico surpreendido, e deliciado, ao saber que a instituição política mais importante de Portugal, dotada de mais simbolismo [mais alto (magistrado), comandante em chefe, garante, árbitro, etc], concebido como figura central do sistema político português, pelo que da própria sociedade, cumpre um tabu (e sai termo vulgar), o tabu da morte, que é recorrente numa pluralidade de outras sociedades. Algo do simbólico do poder que eu nunca tinha percebido no meu país. Excelente. A mostrar continuidades no nosso Portugal moderno, racionalista. Até laico. Pois esta arquitectura da função presidencial não deriva de dificuldades com o "sobrecarregar de agendas" ou de "critérios optativos". Mas sim de avisadas continuidades do não-dito. Tantas vezes do não-pensado. O ritual do poder, assim sua essência.

O próximo texto sobre a matéria será quando vir um PR presente num funeral. Pois isso significará algo. E não será para o criticar, mas sim para tentar perceber as causas de tamanha inflexão.

ADENDA:  Comentadores referem-me que o PR frequenta funerais dos seus pares estrangeiros: mas essas são mortes estrangeiras, forasteiras, no exterior, não poluem a nossa ordem fértil, não perigam a nossa saúde. 

Os arranjos florais da Praça do Império

jpt, 18.02.21

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Estas saídas maximalistas valem o que valem, mas ainda assim não é escandaloso aventar que Francisco Bethencourt será a figura portuguesa mais relevante das gerações activas nas áreas de ciências sociais/humanidades. Acaba de deixar um interessante texto sobre a polémica dos arranjos florais com brasões municipais coloniais na zona ribeirinha lisboeta.
 
Nele mostra o historial desse ajardinamento (que a maioria desconhece - tal como desconhece os próprios arranjos, já agora). E urge-se contra as petições que o defendem: uma das quais assinei. Tal como botei em tempos um texto em sua defesa.
 
Do texto de Bethencourt retiro: 1) uma ideia central; 2) uma atenção (encetada); 3) uma proposta.
 
1) Aquele arranjo, patrimonial, é datado e foi obra propagandística de um regime colonial injusto e exploratório - e então mobilizador de esforço de guerra. Concordo, sem qualquer dúvida.
 
Poder-se-á dizer que todo o património é datado, que (quase) todo o monumental foi produzido, preservado, reabilitado e, acima de tudo, assim classificado por processos de propaganda dos meios possidentes. Isso é saber básico (dessacralizador), pois necessário, sobre estas questões.
 
Mas sobre isto há dois pontos: nas imediações há um Museu de Arte Popular, construído um pouco antes pelo mesmo poder (injusto e exploratório) e ideologia. Cuja destruição foi há anos impedida, exactamente por ser ele-próprio, o Museu enquanto tal, considerado um património demonstrativo de determinada época. Tal como este jardim é um dado e assim poderá ser apresentado. Não por estagiários de comissários políticos, graduados em doutrina, mas como objecto de época, em si mesmo. Ora a questão aqui tem contornos diferentes pois estes arranjos são apresentados (pela própria Câmara) como "ofensivos". Ofendem quem? Alguns tonitruantes actuais? Francamente...
 
2) Bethencourt enceta a atenção sobre um ponto central neste episódio, o toponímico. Como também o referi, ele lembra que os arranjos florais estão sitos na "Praça do Império". Ora o arreganho (da edilidade, dos activistas, dos académicos) contra tais brasões associado ao silêncio sobre esta toponímia mostra mesmo a superficialidade destas críticas, a sua propensão para o mero "show-off". Felizmente que alguém com o peso de Bethencourt o refere. Pois como contestar a minudência e esquecer o pormaior simbólico?
 
Mas recordo que na exacta era em que o Estado Novo tardio, já beligerante, instalou estes brasões municipais coloniais também edificou em Lisboa um bairro multiclassista, os Olivais, que é um explícito "bairro colonial", e no mesmo eixo de conteúdos - nomeou os arruamentos com todos os municípios e localidades coloniais e com os soldados portugueses mortos em África. Ora a "ofensa" com estes brasões fronteiros aos Jerónimos coexiste com o silêncio diante da toponímia afro-colonial de um (ex-)subúrbio lisboeta, propaganda que reconstruía (divulgava, impregnava) o Império e consagrava os seus defensores - e isso, repito, numa urbanização que se pretendia, e foi, habitada por várias classes/estratos. Também nisto se mostra a superficialidade argumentativa protestatória destas críticas, o tal "show-off".
 
A qual também denota outro vector superficializador: uma visão urbanística restrita ao "turístico" vigente, a preocupação com o simbólico patente numa zona "nobre", "histórica" e assim "patrimonial" e a desatenção pela cidade habitada. Vivida, se se quiser ser radical. No fundo, trata-se de uma mescla do "épater le bourgeois" com o "para inglês [de facto "americano" de campus] ver".
 
(Não que eu defenda a reforma toponímica dos bairros lisboetas. Sim a sua vivificação, se para isso houver agentes culturais. E não a defendo pois não acredito que os transeuntes que cruzem o popular "Bairro das Colónias" - como ainda patente nas placas camarárias - e partam da Praça das "Novas Nações", sempre dita das "Colónias", e cruzem da rua do Zaire até à de Moçambique, antes de ascenderem até à rua Newton ou à Poeta Milton, antes de chegarem às ruas de Liverpool e de Manchester, se sintam empolgados na defesa do Mapa Cor-de-Rosa e gritem, patriotas imperialistas, "contra os bretões marchar, marchar").
 
3. Atento à questão toponómica, como englobante do tema floral, Bethencourt propõe a mudança de nome daquela praça face aos Jerónimos. O que tem pertinência total para quem refute aqueles brasões. Mas é tão interessante a sua proposta. Pois a esta vetusta "Praça do Império", símbolo do mau antes, propõe que se suceda uma "Praça da Amizade", decerto para simbolizar o bem hoje e amanhã.
 
Ora esta "amizade" é o eco, até inconsciente, do ideário da "Lusofonia", essa proclamação acrítica da amizade/"comunhão de sentimentos" que une povos do ex-império injusto. De facto, trata-se do mero aggiornamento pós-Abril do lusotropicalismo, o reviver da comunidade de língua e sentimentos já proposta pelo tardo-salazarismo. Isto apesar de ser Bethencourt insuspeito de haver propagandeado qualquer lusofonice ao longo dos anos. Ou seja, isso é o que veicula apesar dele-próprio. Sinal do peso, subreptício, das ideologias. Mesmo num intelectual deste quilate.
 
4. É necessário purgar o património para enfrentarmos a história e melhorarmos o actual? Ok. Arranquem-se os tais floreados colonialistas. E mude-se o nome da praça tão simbólica, cartão de visita lisboeta. Substitua-se por "Praça da Diplomacia", simbolizando uma nova era de negociações constantes entre iguais, confrontando interesses múltiplos, divergentes, contrastantes, conflituantes, convergentes, belicosos e, por vezes até, amistosos. Ou seja, depuremo-nos. Dos trinados estatais, veiculados pelos seus contratados. E, acima de tudo, reconheçamos a realidade e coloquemo-la inscrita na toponímia, se esta necessariamente "iluminista".
 
5. E mais, bem para além desse grande intelectual que é Francisco Bethencourt: deixemo-nos de mimetizar os EUA. Nos quais as "relações raciais" (velho epíteto, a la Boxer) entre "negros" e "brancos" (e até "latinos") advieram historicamente do comércio de escravaturas e da forma como estas foram sendo codificadas e perpetuadas em XVII e XVIII. E percebamos que as nossas "relações raciais" ("negros"/"brancos") foram fundamentalmente matrizadas não no comércio escravista mas desde o finalíssimo XIX, num extremar de desvalorização racial de negros e mestiços. Concepções e práticas que foram então alteradas, sistematizadas e divulgadas via progressiva generalização do ensino e, depois, popularizadas pela efectiva colonização demográfica. Ou seja, em XX. Entenda-se, I República e Estado Novo.
 
Assim sendo, quer-se afrontar a memória histórica do que constituiu o racismo colonial e suas actuais refracções através de "intervenções" progagandísticas sobre o "património"? Tão extirpada foi após 1974 a toponímia e a monumentália dedicada ao Estado Novo que o caminho fácil é "intervencionar" os parcos resquícios das Comemorações Henriquinas de 1960 e afins.
 
Eu diria o contrário. Mais vale deixar em paz os bustos dos Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e semelhantes. Pois são apenas anacronicamente atacáveis e, de facto, não foram constitutivos das práticas e concepções vigentes no colonialismo. Para isso dediquem-se a derrubar as evocações desses grandes agentes racializadores e colonizadores, os Afonso Costa e seus congéneres e seguidores, já que de Salazar e seus pouco resta.
 
Mas isso, "intervencionar" os grandes vultos da colonialista e racista I República, invectivar os "pais fundadores" deste regime actual e, em especial, os ascendentes do nosso Partido Socialista? Nem pensar. Pois isso não colheria simpatia estatal, não dá postos de trabalho. Nem dinheiro. E sempre são, para já, 15 milhões. O que não é pouco.

A propósito de Marcelino da Mata

jpt, 16.02.21

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"Não escreves sobre isto do Marcelino da Mata?", perguntam-me provocam-me. E nisso um tipo percebe que os amigos lhe dão estatuto de perorante. Nada, defendo-me. Pois nada sei de especial sobre a Guiné-Bissau actual ou passada, pouquíssimo sobre a sua guerra de independência. E nada sobre o agora falecido. Sei um pouco sobre as 3 guerras coloniais portuguesas - em particular a moçambicana. E sobre o recrutamento massivo de tropas locais. Questão silenciada nas histórias dos novos Estados-Nação - pois avessa às mitografias oficiais, às "imaginações das nações". Questão algo esquecida na história portuguesa - até porque tem componentes nada lustrosas. (Como, por exemplo, a infecta forma como o Estado português passou duas décadas e meias a fugir às responsabilidades com os deficientes das forças armadas em Moçambique. Sim, naturais de Moçambique, negros para quem não perceba bem, que optaram pela nacionalidade portuguesa após a independência e que o Estado fez por esquecer até mais não poder ...).
 
Mas também questão agora agora a ser escondida, como o mostra o bramir atrevido do dr. Ba sobre este falecimento e o coro de elogios que recolhe dos intelectuais do regime, pois difícil de integrar no mito racialista muito em voga. Ou, dito de outra forma, questão difícil, pois complexa, de integrar na discussão "do colonialismo" do modo básico como os intelectuais das "causas" surgem agora, anacrónicos ainda por cima... Pois invectivar o falecido é também forma de vetar referências às múltiplas formas de participação nas guerras por parte de soldados africanos. E ao facto disso denotar - e até explicitar - distinções internas nessas sociedades coloniais. Bem como elidir as formas como isso se refractou nessas sociedades. E como os diferentes poderes nacionais vieram a tratar disso - os execráveis guineenses, criminosos de guerra (coisas que os excitados antropólogos, estudiosos culturais, historiadores, sociólogos e etc. que abraçam o dr. Ba nunca dirão); os pragmáticos angolanos; os peculiares moçambicanos.
 
Enfim, haveria coisas muito interessantes para falar sobre isto. Alguém que o faça, se tiver paciência, bem para além de invectivar Marcelino da Mata ou afirmá-lo qual "Infante Santo". Interessante, pois denotativo do ambiente boçal actual, é o facto de que - ao que consta - a imprensa (pelo menos a audiovisual) não ter comparecido no funeral do mítico militar. Apesar do Presidente Sousa (ele que até a banhos de mar leva as equipas de reportagem) lá ter estado. Ou seja, a lumpen-intelectualidade portuguesa (imprensa e academia precarizada) não sabe que fazer com a história recente do país. E prefere - em busca dos milhões de euros que o PS dará para quem minar o Bloco de Esquerda - menear-se com Katar&Ba. O resto pouco importa...
 
Sobre o demagogo Ba (que até faz umas resenhas escolares no jornal "Público") um amigo acaba de me lembrar um texto que lhe dediquei, há já dois anos. Já nem me lembrava disto. Aqui deixo a ligação: nem sobre o dr. Ba nem sobre o lumpen intelectual que tanto o saúda mudei de opinião.