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Tem estado bem Paulo Rangel, e o PSD, no acompanhamento desde há meses no Parlamento Europeu da situação em Moçambique relativa à guerra no Cabo Delgado. E fez ontem uma boa intervenção, adequada àquela instituição, fundamentada e ponderada.

Deixo também aqui a Resolução do Parlamento Europeu, de 17 de setembro de 2020, sobre a Situação Humanitária em Moçambique (2020/2784(RSP) [basta aceder: Resolução PE Moçambique.pdf], que sistematiza a preocupação com a situação militar e humanitária e explicita a inadmissibilidade das gravíssimas violações de direitos humanos consagrados nas convenções internacionais (convém sublinhar isto, pois vou lendo gente em Moçambique defendendo que em guerra, em particular com estes "insurgentes", vale tudo ...).

Realço a pertinência do ponto Z. desta Resolução: "Considerando que, apesar da brutalidade e da perda terrível de vidas, a situação em Cabo Delgado não conseguiu atrair a atenção internacional, o que significa que se perdeu tempo precioso para resolver o problema mais cedo".

Mas não deixo de notar e muito lamentar o clamoroso erro, do ponto Z. 22. "Recorda que a população de Moçambique, tanto da fé cristã como muçulmana, vive há muito em coexistência pacífica e manifesta convicção de que este modelo de tolerância e de solidariedade prevalecerá ...". Um reducionismo inadmissível, pois é mais do que exigível que políticos e seus assessores percebam um pouco mais sobre as realidade sobre as quais elaboram. Mera questão de cultura. 

(Lateralmente: ao ver esta intervenção interrogo-me sobre a imagem que o Parlamento Europeu transmite para o seu eleitorado. Ou seja, sobre a total cegueira e surdez face aos efeitos das dimensões representacionais dos órgãos políticos. Pois, e se é certo que o funcionamento do Parlamento Europeu não presume que a sala esteja cheia, dado que há múltiplas tarefas dos deputados, assistir a uma comunicação relevante - e esta é-o particularmente - feita numa sala vazia constrói a imagem de um parlamento relapso. 

E se é para falar nas dinâmicas de representação, da imagem que os políticos dão às populações do seu comportamento e o das suas instituições, alguém poderia dizer ao deputado luxemburguês Charles Goerens que é simbolicamente letal, sendo ele o único atrás de um colega de bancada que aborda uma situação dramática, estar, sossegadamente, esparramado na cadeira, só lhe faltando coçar a micose. Um verdadeiro "morcon", como se dirá em francês ...)

Assassinato em Cabo Delgado

por jpt, em 14.09.20

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De Maputo recebo uma série de mensagens com um filme telefónico. É de uma violência desmesurada e por isso não o partilho.

Na estrada asfaltada uma mulher nua caminha, trôpega. Perseguida por um grupo de soldados, e é um deles que filma. Rodeiam-na, aos gritos, ela cambaleia desnorteada. Ainda é jovem, deve ser uma camponesa, depreendo pelo seu cabelo, e é uma mãe, anunciam-no as mamas pendentes. Os soldados espancam-na com um varapau, ela defeca em pé, apavorada. Um dos homens dispara junto à sua cabeça, um único tiro e ela, em pânico, corre, cambaleando alguns metros no asfalto. Um outro soldado avança e abate-a com uma rajada. Outros disparam várias rajadas, 20 ou 30 tiros. Gritam, exultantes, "matámos o Al-Shabab", coisas dessas, filmam-se, até de cara à mostra, ufanos, com "V"s de vitória.

Não posso afiançar que os assassinos sejam da tropa regular, ainda que os seus uniformes o indiciem, e não sei o suficiente para retirar ilações sobre o seu armamento. Um deles tem uma t-shirt vermelha e outro tem uma mochila também dessa cor, um verdadeiro contra-senso em termos de acção de combate, e disso cada um poderá inferir o que pretender - que são guerrilheiros fingindo-se soldados mas ainda usando material avulso, em acção de contra-informação, pois a tropa regular não aceita esse vestuário civil; ou que são militares regulares, em tropa mal equipada e com frágeis e desatentas cadeias de comando. Mas percebo que os militares falam entre si em português, e que pelo menos um deles tem um sotaque que me soa a macua (os "érres" muito enrolados, viçosos). E que praguejam muito em português - "porra", "foda-se", "puta" -, o que me faz pensar que terão sido recrutados em contextos urbanos ou periurbanos, onde o uso do vernáculo em português é mais comum. Algo que me conduz a pensar que serão oriundos de áreas a sul daquele extremo nortenho, onde o português é mais superficial. Enfim, parecem-me tropas regulares. Mas poderão ser - como decerto alguns argumentarão - guerrilheiros em acção de contra-informação. Mas se é disto que se trata é muito bem feita, pois realmente parece o contrário.

Este tétrico assassinato não é apreensível para se falar de outras coisas, para avaliar os males do mundo, para comparar com outros fenómenos ou aquilatar das posturas próprias ou alheias. Pois este assassinato à beira da estrada, a mãe nua defecando em pavor face à matilha das feras humanas, é o mal absoluto.

E urge fazer alguma coisa, realmente efectiva! E terminar o estupor que o país e os países, vizinhos e/ou amigos, mantêm diante desta enorme desgraça no Cabo Delgado. Num Moçambique trôpego, cambaleando à beira da estrada, abocanhado pela matilha das feras.

(Bianca Catasfiore - The Jewel Song)

"Ah je ris de me voir si belle en ce miroir..." [Ah, rio de me ver tão bela neste espelho] é o lendário refrão ... Desde 2015, feito torna-viagem, que quase todos os dias me lembro deste cume de Hergé. Pois um dos grandes problemas culturais de Portugal (o maior?) é mesmo o catasfiorismo dominante, a turba em ademanes, nos lavabos roncando trinados desafinados, cantarolando a perspicácia própria diante dos espelhos - em vez de retirarem os cabelos e pelos púbicos dos imundos ralos sobre os quais patinam.

Esta cena, minudência, da disciplina da Educação para a Cidadania e Desenvolvimento é mais um exemplo. Agora um coro de 500 cantores, mais a plebe ululante na plateia, vem guinchar que são belos nas suas doutas opiniões - entre os quais, no palco e em aplausos, um punhado de Catasfiores que eu conheço. Entretanto, agora mesmo, 7.9.2020, no final do telejornal da TVI (abençoado zapping) David Justino explicou pausada e competentemente tudo aquilo que é preciso pensar sobre o assunto - a reportagem sobre a matéria começa à 1.03.20 e a intervenção do antigo ministro da Educação começa à 1.05.40. E fê-lo apesar de repetidamente interrompido, em registo morcão, por Sousa Tavares.

De pouco servirá, as patetas e os patetas continuarão, em trinados, ciosos do que julgam sageza. Mas não é, é apenas o pouco que são.

Haddock, O Captain! My Captain ...

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(Festa do Avante, 2020: ninguém para lhe dizer "ó camarada!, toma lá uma T-shirt que não parece bem estares assim vestido ...")

 

O comentador Pacheco Pereira, conhecido do "grande público" pela participação num programa televisivo de comentário político reinstalado após pressão do secretário-geral do PS, no qual agora ombreia com a adjunta deste, apresentado numa estação propriedade de um conjunto de empresas portuguesas (e de figuras gradas dos espectáculos populares, como Cristina Ferreira, Pedro Abrunhosa e Tony Carreira), publicou em 5.9.2020, no "Público", jornal propriedade do grupo SONAE, este naco: "Mas a fúria actual com a Festa do Avante! é tudo menos inocente. Tem uma clara motivação política, longe de qualquer preocupação com a pandemia ( ...) 

No recinto [da Festa] são comuns formas de reconhecimento tribal entre “camaradas”, quer através das bancas de comida, objectos, artesanato local, quer inclusive com as delegações estrangeiras de outros partidos comunistas e movimentos revolucionários. A Festa é ao mesmo tempo provinciana e cosmopolita, e transmite aos que a visitam esse sentimento de que fazem parte de uma comunidade nacional e de um movimento internacional, com amigos e inimigos. (...) 

[A raiva contra a Festa do Avante] insere-se numa clara deslocação para um radicalismo de direita que se tem vindo a acentuar em várias áreas da sociedade portuguesa, e de que o Chega é apenas a ala populista mais visível, e as redes sociais o viveiro do ódio, mas que encontra expressão numa elite que está órfã do poder, apoiada em think tanks, subsidiados por grupos empresariais, com um peso crescente na comunicação social. Repetirei de novo que uma parte importante desta deriva vem da impotência, mas com o tempo essa impotência transforma-se em raiva. A vida política portuguesa vai ser crescentemente perigosa, num caminho que encontra em Trump um inspirador não nomeado por vergonha, mas real.  ( ...)".

Há três décadas o comentador foi meu professor, e muito bom nisso. Há uma dúzia de anos esteve em Maputo, onde, gratuitamente e apenas por respeito, fiz o possível por ajudar a organização que ali o levara a enquadrá-lo o melhor possível. Espero agora nunca mais me cruzar com o traste que lhe ocupou o corpo. E a mente.

 

Adenda: há meses um holigão fez a saudação fascista num comício do prof. Ventura (sobre isso escrevi isto). Mas não apreciar os javardos que se passeiam com o Estaline na pança já é ser adepto do Trump, jpp dixit ... 

 

Solidário com André Ventura

por jpt, em 03.09.20

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Nas redes sociais crescem os ataques ao Prof. André Ventura, algo que mostra o estado a que chegou a sociedade portuguesa. Não há nem parcimónia nem respeito no debate político. É óbvio que Ventura está, como esteve o ex-presidente sportinguista Bruno de Carvalho, basto afectado. E, tal como aconteceu no ocaso de Carvalho, em vez de solidariedade, compaixão mesmo, erguem-se as vozes avessas. Cruéis.

Proposta de leitura

por jpt, em 03.09.20

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Um excelente, mesmo imperdível, texto do co-bloguista José Meireles Graça, publicado no "Observador": "Nada de Novo". 

 

Educação para a Cidadania

por jpt, em 02.09.20

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Há uma polémica sobre a disciplina Educação para a Cidadania. Como a minha filha não estudou em Portugal não conheço o programa e a prática (ela teve, no currículo da Escola Europeia de Bruxelas, disciplinas congéneres excelentemente leccionadas que muito contribuiram para a fazer uma jovem muito informada e com uma consciência bem densa).

Assim, e por curiosidade, fui ver o programa disciplinar, esse que sustenta toda esta polémica. O portal da DGE está em baixo (oops, início de Setembro ainda por cima ...). Como tal restrinjo-me aos dados da televisão pública, RTP Ensina.

A primeira coisa que se percebe é que a disciplina veicula um conjunto de considerações que se esperam constitutivos dos valores estruturantes da prática individual. Ou seja, é mesmo uma espécie da velha "Religião e Moral" do Estado Novo, um seu sucedâneo. Não estou a dizer que é a mesma coisa. Mas que cumpre a mesma função pedagógica: explicitamente formar (formatar, como se diz agora) os valores dos indivíduos-cidadãos. Os que negam esta homologia apenas assentam os seus argumentos num "tem que ser", num dever-ser dos valores que são agora transmitidos. Concorda-se com os conteúdos transmitidos? Ok. Mas não podem chamar hereges, demoníacos, imorais ou mesmo até, e pior, ateus, aos que os recusam. E tal como eu, e outros, pude acabar o ensino secundário isento das aulas de Religião e Moral (dado o saudável e iluminado ateísmo do Senhor meu pai) sem que isso prejudicasse o meu desempenho em Ciências e Letras, também os de agora o poderão fazer - ficando um bocadinho mais morcões em alguns assuntos, presumo eu, mas paciência ...

A segunda coisa que eu retiro desta visão sobre o programa de Educação para a Cidadania é que o Estado, através do seu "aparelho ideológico" Escola, impregna os jovens com a mistificação das relações laborais exploratórias do sistema capitalista, introduzindo-os ao famigerado "Empreendedorismo", esse ícone do individualismo assente na falácia da meritocracia. Fico estupefacto e até indignado com a audácia ideológica da Escola portuguesa, com esta reprodução da mundivisão capitalista. E ainda mais surpreso fico com a ausência de crítica a esta insidiosa prática pedagógica. Onde estão agora as Raquel Varela deste país?

A terceira coisa que retiro (repito, apenas baseado nos recursos partilhados pela RTP Ensina) é uma grande ênfase na homossexualidade e seu casamento, e nas dimensões violentas (físicas e psicológicas) das relações amorosas, neste caso significadas como heterossexuais. Há apenas um filminho sobre a sexualidade juvenil, passível de não ser considerada exclusivamente homossexual, cujo texto inicia atribuindo-a a fenómenos naturais (as hormonas que saltam, etc.). Ou seja, no até vasto manancial de recursos sobre amor, sexualidade, conjugalidade, não há um filminho que seja sobre a beleza do casamento heterossexual (o antes dito "canónico"), nada o erege como "valor". Nem há - num país que tem uma baixissima taxa de natalidade, por vezes a menor da Europa - um capítulo nesta "Educação para a Cidadania", e com um filmezito qualquer, sobre puericultura, sobre a beleza da pater/maternidade. Não estou a falar da reprodução do mito do "Presépio" familiar. Mas sobre o veicular da dimensão de reprodução biológica enquanto espaço de cidadania. Nada mesmo ... Porventura porque os ideólogos do Estado pensarão que não cumpre ao Estado orientar valores sobre sexualidade ou vida familiar e afectiva? Decerto que não, pois muito do resto que ensinam incide sobre isso. De facto, o que o quadro geral da disciplina deixa perceber é uma visão enviesada das temáticas sociais prementes, segundo a ideologia identitarista em voga.

Um último ponto, já não advindo da consulta à RTP Ensina. Especulo, mas julgo provável que muitos dos professores desta disciplina, provenham de licenciaturas mais retóricas, humanidades ou ciências sociais. Convirá perceber que, ao que fui ouvindo e deduzindo ao longo dos anos, algum desse ensino superior é muito doutrinário. E será assim normal que matérias socialmente algo sensíveis sejam, por vezes, leccionadas por gente que foi doutrinada na sua formação e tenda à doutrinação. Mas aí o problema não radica na disciplina. Nem no ministério da Educação.

Enfim, pode-se dizer que é estúpido não querer que os filhos aprendam o que ali se ensina. Porventura sê-lo-á. Mas temos o direito de ser estúpidos. De não crer. E de não querer. Se eu tivesse miúdos a estudar em Portugal em vez de subscrever abaixos-assinados paroquiais preferiria gastar algum tempo, no lugar de ver o "Preço Certo" do simpático Mendes ou a "Quadratura do Círculo" da isenta comentadora Mendes, dedicando-me a matizar junto desses filhos alguns exageros "identitaristas" veiculados por qualquer furibundo setôr ...

Uma cidadã, cuja aparência associa àqueles que os costumes lisboetas do lumpen-jornalístico sempre cuidam de desvalorizar intitulando-os como "popular" ou "mulher/homem", invectivou o presidente Sousa na Feira do Livro. Teve o surpreendente efeito de o fazer apelar ao voto anti-PS, coisa nunca ouvida até agora.

O interessante da cena é o compungido editorial do director do "Público", até indignado por assim se destituirem os políticos "da dignidade dos seus cargos e do estatuto das suas funções", dizendo o episódio um "prenúncio do que aí vem" de desvalorização dos políticos, não deixando de melifluamente aventar que se tratou "apenas [de um]a peça de uma engrenagem montada por um partido populista" e invectivando que se "perturbe a agenda do chefe de Estado", e que tal "tenha direito à glória nas televisões e mereça ainda aplauso de alguns que, dizendo-se defensores da democracia, aplaudem incidentes que a degradam".

É um editorial canino, aquilo da célebre "voz do dono" e espelha bem o que é este jornal, o mainstream PS e os acólitos (ex-)Livre. Apenas como ilustração deste seguidismo aqui deixo um filme de 2012, breve trecho da pantomina acontecida quando o PM Passos Coelho foi à Feira do Livro. Nem este plumitivo gemeu nem os seus adeptos leitores se indignaram ou sentiram o prenúncio do apoucamento democrático. Gente vil, nada mais do que isso.

O ataque ao Canal de Moçambique

por jpt, em 24.08.20

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Ontem, domingo, em Maputo a sede do jornal "Canal de Moçambique" foi atacada e as suas instalações totalmente queimadas. As descrições que leio anunciam que foram utilizadas bombas artesanais - presumo que os sempre chamados "cocktails molotov". E que depois foi o edifício regado com combustível, de seguida ateado. A reportagem que acabo de ver na estação moçambicana STV mostra os restos carbonizados da sede e dois recipientes desse combustível, calcinados. O ataque ocorreu no início da noite de domingo, ninguém estava a trabalhar, não há vítimas a lamentar. 

Cumpre-me dizer que às 11.21 de segunda-feira googlei e ainda não vi nenhum "lamento" das instâncias da corporação jornalística portuguesa. Nem do Estado português. Nem mesmo dos sempre loquazes "colunistas" que grassam no "achismo" luso. Sempre tão lestos noutras situações a expressarem "indignação"  ou "solidariedade" ou "preocupação" com acontecimentos alhures. Noto-o, saliento-o, e entristece-me.

O "Canal de Moçambique" é um jornal de oposição, que não exactamente "da" oposição. Critica, por vezes de forma  muito abrasiva, o Estado, o governo, a justiça. A democracia precisa disso, e o seu desenvolvimento precisa disso. E tem, ou deve der, instâncias jurídicas e instrumentos de controlo deontológico que enfrentem hipotéticas vias infundamentadas na imprensa. 

Eu tenho um particular carinho pelo "Canal de Moçambique". Sou amigo do Fernando Veloso, seu primeiro director. Ainda que pense de forma diferente da dele, tanto sobre Moçambique como sobre o resto do mundo. Os homens podem ser amigos, não apenas "conhecidos", nas suas diferenças. Talvez até mais em Moçambique, onde as agruras do processo nacional e as dificuldades da vida sedimentam companheirismos pessoais, do que neste Portugal, pejado de pequeno-burguesotes muito ciosos dos seus "clubes" e redes de auto-protecção. Sabedores dessa amizade muitas vezes outros se me dirigiam criticando Veloso e seus jornais - conheci-o como editor do Mediafax, cargo no qual sucedera a Carlos Cardoso que veio a ser assassinado, lembro-me dele depois numa breve estada no Zambeze - como se que para lhe mandar recados por meu intermédio. Nunca lho terei dito,pois  também não aceitaria que se intrometesse ele na minha docência ou nos meus textos profissionais. 

Depois, um dia, partilhávamos nós uma mesa no Piripiri e disse-me que ia abrir um jornal. Estava ainda a pensar no nome e tinha algumas hipóteses. E ali se fez um  pequeno "brainstorming", uma avaliação dessas suas hipóteses. Bem-disposto, entre 2M's, propus-lhe o nome "Canal de Moçambique", óbvia ambivalência. Veio a aceitar essa minha proposta e eu fiquei ufano, muito mesmo. Anos depois, na mesma esplanada, e dado que eu continuava com a mania de blogar - então no ma-schamba -, perguntou-me a razão de não escrever eu na imprensa. "Porque não me convidam" ripostei. "Ok, então convido-te eu!", contra-atacou, e passei a ter uma página semanal no jornal. À qual chamei "Ao Balcão da Cantina", numa alusão à cantina presente no magnífico "Nós Matámos o Cão Tinhoso" de Luís Bernardo Honwana, forma de eu me situar, de mostrar onde estava no registo convivencial de escrita. Nunca ali falei de política, mas do queijo do Chimoio, encontros universitários, a música de Stewart, pintura, piripiris, arqueologia, etc, num verdadeiro sortido. Um dia as hostilidades armadas entre a Renamo e o Estado reiniciaram-se. Eu não gostei da abordagem do jornal, que me pareceu conjugar uma compreensão sociológica do fenómeno a uma aceitação da inevitabilidade do conflito. E sem resmungar parei de escrever - voltei apenas uma vez, para bramir, devastado com o assassinato do meu amigo, o escultor Alexandria, linchado pela população, esta crente num fantasmático grupo de violadores que assolaria Maputo.

Lembro esta minha ligação pessoal ao jornal para sublinhar a necessidade da imprensa livre, mesmo que discordemos do seu conteúdo. E de que a discordância não impede a colaboração nem impede os ganhos mútuos (prazerosos ou outros). E não implica estes ataques. Soezes, na pérfida violência. No país de quando em vez há jornalistas ou activistas que sofrem atentados, que desaparecem (há jornalistas desaparecidos), que são assassinados. É certo que a longo prazo estaremos todos mortos, mas a médio prazo (a única escala humana relevante) nada se ganha com estas violências. A conflitualidade interna ao bloco de poder e a existente entre diferentes grandes grupos de interesses originam estas explosões de violência, censória, na vertigem rapace. 

O desenvolvimento é um Processo de Democratização em Curso, para glosar a nossa velha expressão. Mesmo que muitas vezes subordinado ao lema "Um passo em frente, dois passos atrás", como Lenine consagrava. E não é uma "apropriação primitiva de capital" feita de forma bárbara. Queimar o "Canal de Moçambique" é, goste-se ou não do jornal, queimar o futuro do país, queimar o desenvolvimento. É a expressão, desesperada, do ganância dos interesseiros.

(E deveria ser também uma lição para os intelectuais nacionais que continuam a seguir adeptos das ditaduras imperialistas. Mas isso é outra conversa, mais demorada).

A carta dos escritores

por jpt, em 20.08.20

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186 escritores e uma instituição privada assinaram uma carta aberta contra "racismo, populismo, xenofobia, homofobia, emoções induzidas", o "ataque à democracia, ao multiculturalismo, à justiça social, à tolerância, à inclusão, à igualdade entre géneros, à liberdade de expressão e ao debate aberto". Entre eles vieram em nosso socorro 4 moçambicanos, mais alguns angolanos (3?) e vários brasileiros. Uns quantos também são bloguistas. Há autores que já li, de outros nunca ouvira falar, de uns pouco ou nada gosto e a outros muito aprecio. A alguns conheço, e até há quem me seja muito próximo. O grupo é grande, muito heterogéneo, e assim é espúrio vasculhar nomes para contestar o documento (mas apetece ...) ou louvá-lo. Mas há alguns pontos do documento, dois pormenores e o fenómeno da sua recepção pública, que quero abordar. Como conversa com quem me é próximo e aquilo assinou.

1. Nesta campanha sobre "racismo" muito foi propagandeada a vigência do racismo sistémico português e do racismo de Estado (institucionalizado). Um dos documentos que mais é brandido para o afirmar é um estudo (cíclico) sobre as "representações raciais" no país - que nunca é esmiuçado pelos demagogos da "causa". E um dos factores dessas "representações racistas" (da "racialização" alheia, como agora sói dizer-se) é o "racismo cultural", curiosa expressão que firma como racista (e presumivelmente "populista, xenófobo, homofóbico, emotivo induzido" e quejandas falhas e malevolências) aqueles que julgam haver culturas melhores do que outras. Como tal vivemos num apartheid, segundo Miguel Vale de Almeida, o intelectual orgânico mais conhecido deste movimento. Só não reconhecido pelos "intelectualmente preguiçosos", como consagrou.

Com efeito, ao ler esta "carta aberta" reconheço-o, a esse "racismo cultural", vigente entre tão ilustre e empenhada comunidade. Pois quando se profere "Tais são as nossas grandes riquezas: a diversidade e a tolerância. Como o expressa a língua portuguesa, feita de aglutinação, inclusão e aceitação da diferença", é óbvio o implícito: ainda que não usando a estafada noção "lusofonia" o texto proclama uma qualquer superioridade da nossa língua, e assim da "cultura", dado que mais dada "à inclusão e aceitação da diferença" do que outras. Pois, se assim não fosse, se não houvesse essa graduação, para quê incluir este argumento? Ou seja, pode-se tirar o escritor do lusotropicalismo, mas não se tira o lusotropicalismo do escritor ... Por mais meneios retóricos a que o grupo recorra. E vão ufanos com o textito, e com a "atitude" de o terem assinado.

2. O segundo pormenor textual - e pormaior ideológico - é este melífluo naco "apelamos ... aos órgãos de justiça, que investiguem, processem e condenem os interesses económico-financeiros que se servem dos novos populismos para, a coberto da raiva e da intolerância, acentuarem as desigualdades de que sempre se sustentaram". Não fosse a desfaçatez de quem botou isto, e a "insensibilidade" (o atrevimento?) de quem o assinou, nem deveria ser necessário grande elaboração, bastaria citar para apupar. Ou seja, num país em que o Estado foi atravessado - colonizado - pelos interesses privados, em que as sucessivas crises demonstram a patrimonialização do Estado, a influência das redes nepotistas (também muito vigentes no pequeno funcionalismo, do qual tantos destes escritores são [semi-]dependentes), e em que os obstáculos ao escrutínio judicial destes processos são conduzidos pelas elites políticas, o que afirmam os escritores portugueses e os seus colegas estrangeiros? Que "os interesses económico-financeiros" se servem dos "novos populismos", assim deixando de fora a efectiva perversão do regime democrático levada a cabo por partidos e políticos do quais tantos deles (escritores) são apoiantes. É preciso lata ... [já te estou a imaginar, "não é isso que queremos dizer!". E eu respondo-te: mas é isso que dizes!]. 

3. Nas últimas eleições o partido Livre elegeu uma deputada em Lisboa, com votos nas freguesias da burguesia. O partido Chega elegeu um outro deputado, muito assente no facto do candidato ser painelista da bola, e do Benfica. Teve menos votos do que a lotação do estádio da Luz. E o Livre menos do que a de Alvalade, já agora. No último ano tem sido um festival de demagogia. E os dois núcleos demagogos, num vil frenesim, ocuparam a cena política. Alimentam-se mutuamente. 

Há cerca de dois anos o Brasil teve o advento de Bolsonaro. Muitas causas existiram para tamanha mudança no cenário político - partidário e eleitoral - naquele país. Mas vários foram avisando, e depois constatando, que a diabolização do "capitão" e a pantominização "identitarista", no folclorismo demagógico que campeia, foram o estrume que alimentou aquela eleição. 

É certo que um escritor não é, obrigatoriamente, alguém dotado de dotes para análises políticas. Muitos terão apreço por "posições", "atitudes". Mas são demiurgos (quando o conseguem ser) apenas nos seus textos, na refracção do mundo (quando a tal conseguem ascender, pois a maioria apenas o reflecte). Do resto pouco mais perceberão. E assim não entendem que nesta "carta aberta", tão a jeito do "estado da arte", só animam aquilo que julgam enfrentar, lambuzando-se no frisson da "atitude colectiva". O "Público", a "SIC" e tantos outros recebem esta novidade e difundem-na com punhos negros cerrados (o símbolo do "poder negro", da potenciação [do empoderamento, como dizem os ignorantes, servis ao jargão sem o compreender] dos negros). Punho esse que neste país é lido como articulado com o comunismo. E que nas suas diferentes aparições agora agitará o "perigo negro". E assim reduzindo os debates políticos, sobre o sistema político, sobre a organização social e políticas, a este "branco" vs "preto" que tanto jeito dá aos mariolas, de agenda bem óbvia. 

Os escritores, na sua insuficiência intelectual, seguem contentes (tu também, claro, e vales muito mais do que isto, porra). E os demagogos da "causa" rejubilam. Não pela carta, mas pelas reacções a estes "punhos negros".

Ou seja, vai à merda.

Emmanuelle

por jpt, em 17.08.20

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Anteontem fiz um zapping para acompanhar o cigarro antes de me deitar. E dei com este "Emmanuelle" a começar na CMTV. Nunca o vira e não pude resistir. Assim, nestes meus 56 anos estreei-me a ver o mítico filme. E logo nesta mesma sala, casa onde cresci, assim a ainda mais me lembrar quando há 45 anos meus pais e seus amigos debatiam o filme - ao qual agregavam o então célebre "La Grande Bouffe", coisa diferente é certo, mas mesclável nos debates naqueles tempos pós-censura.

Enfim. Só para dizer que ainda bem que fiquei a ver, até às 4 da manhã!!! É que este "Emmanuelle" é (e decerto que já o era na época) muito mau. Mesmo muito mau, e sob todos os pontos por que se lhe queira pegar. Pior, bastante pior, do que eu imaginava.

É quase inacreditável o impacto que teve, que tenha havido tempos e gentes tão cândidos (e não falo de sexualidade) na geração anterior. É mesmo quase tão inacreditável como haja hoje quem pense da mesma maneira, na adoração do "espantar o burguesote" ou de uma qualquer "pureza moral". Mas, de facto, nesta terra de grupelhos e abespinhados não faltam motivos para que os nossos filhos se venham a rir de nós, como sorri eu a estas minha memórias. Daqui a uns anitos, quando virem o mundo.

Adenda (intimista): reajo ao "Emmanuelle" e constato (mais uma vez) que estou igualzinho ao meu pai António. Mas ele, seu mérito, logo naquela altura.

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O futuro

por jpt, em 15.08.20

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(Sob o mote "culpa e castigo" foi agora publicado o nº 5 da revista "Mordaz", o fanzine digital iniciado durante o período do confinamento. Traz textos de Francisco Segurado Silva, Pedro Baptista-Bastos,Ricardo Silveirinha, Afonso de Melo, José Pimentel Teixeira, Artur Guilherme, Carvalho, Jorge Arriaga, Luis Soares de Oliveira, Sara Sampaio Simões, Olga Delgado Ortega, Philmore Stevens, Elsa Bettencourt. Quem tiver interesse em ler a revista bastar-lhe-á "clicar" na ligação ao documento (em pdf) e "folheá-lo" ou gravá-lo.

Eu escrevi sobre racismo. Ecoando uma pequena memória minha. Em si mesmo pouco relevante. Apenas forma de me demarcar do obscurantismo demagógico dos "bem-pensantes" deste Portugal.)

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Sexta-feira, são para aí 2 de manhã, subo a Guerra Popular vindo do Kampfumo, viro à direita, e sigo já na 25 de Setembro, e toca-me o telefone, surpreende-me a esta hora, até em quase susto, mas vejo que é um camarada, encosto para atender mas já (sub)entendi pois acabei de cruzar o África-Bar de esplanada apinhada e decerto que alguém ali me terá visto passar neste meu vetusto e rejubilante Ssangyong, o rino Musso. E assim é, ele, até parente, num "mais-velho, estamos aqui, e à tua espera ...". E logo salto do arção, avanço para esse tal ali, tanta gente que o gang da antropologia se refugiara no átrio do Cine-África, tudo de 2M na mão, eu vindo dos uísques lá dos CFM e assim um pouco desarmado mas algum mais-novo logo me traz companhia, durante as risadas do "onde andavas tu, mais-velho?" enquanto eu junto a boca ao gargalo recém-chegado, e a vida é assim, corre, afinal sou o único quarentão no círculo, onde abundam ex-alunos agora, e até desde há já muito, colegas.

Festiva a noite continua entre conversas flanantes, festa ombreada. E alguém chega, de todos eles conhecido, jovem trintão, um palmo maior do que eu, para cima e de ombros, que não de barriga, e ali colhe grande e geral agrado, rodada de abraços, daqueles das palmadas nas costas. Diante de mim aperta-me a mão olhando para o quem do lado, e eu, o tal mais-velho, na noctívaga variante bem-disposta, digo-lhe em sorriso jocoso "pá, olha para mim quando me apertas a mão!". O que fui eu dizer!, o tipo investe "que é que tu queres branco de merda!" e por aí em diante, sempre para pior ... Estanco, de tão surpreso, deste modo nunca vira isto nesta terra! Racismo aqui? Sentira-o, muitíssimo, nos tempos em que aportara, mas cuspido por moçambicanos brancos, invectivando-nos "tugas" como se peçonhentos, algo execrável mas contextualizável, daquela tribo sentida como desamada, mas assim nunca ... E tranco, enquanto ele é logo afastado, rodeado num "então, calma, é o Teixeira, o nosso mais-velho!". 

Tiram-no do átrio, esse que em tempos anteriores foi vivido como foyer, e planta-se ele no passeio ainda desabrido. A mim não só me amornou como azedou a 2M, e pergunto(-me) "que é isto? quem é este gajo?", e um dos meus mais-novos esclarece, "é nosso colega, de Economia, fez o mestrado em Portugal e diz que lá sofreu muita merda", e eu disparo, "e o que é eu tenho a ver com isso, caralho?!", filhodaputa, professor universitário ainda por cima …

Mas o tipo não se cala, sonoro nas invectivas, e forçam-no a recuar até ao separador das vias, apinhado de carros pois tantos os clientes que enchem a rua. Ali encontra pedras e paus, que brande em gritaria, ameaçando-me, que já estou na breve escadaria da entrada. E nisso, sem que eu o esperasse, algo se me quebra, perco a cabeça como nunca me acontecera, pois uma merda destas eu não aceito, não posso aceitar ... E avanço para ele, a passo cruzo o passeio e a rua, só depois imaginarei o que toda aquela multidão terá pensado do maluco daquele "branco" ou "tuga", nestas condições assim ali quase-único, ou mesmo "velho", que já estou encanecido, a avançar para um louco aos gritos com pedras na mão num "atira lá, meu cabrão!". A meu lado, logo, C., que é, sempre eu o disse, como se um príncipe, e o mais influente da sua geração, num "calma, Teixeira, calma, mais-velho", e o sacaninha, cobarde, nos gritos a atirar as pedras e paus, às minhas nove horas e às três horas, e depois às sete e às cinco, e eu avanço-me, no passo a passo descerebral, e é ele rodeado, enfiam-no num carro e lá segue à vida.

Semanas passam, surge o jantar final do ano lectivo, em casa de colega, um tipo porreiro. Connosco alguns dos finalistas, agora novos doutores também. E de súbito entra o tipo, com a mulher, afinal é ali família. Fico estupefacto, numa amálgama de sentimentos, é certo não poder desatinar pois sou convidado e a anfitriã está presente, e dever-me-ei retirar, ofendido?, mas não deixo de pensar, "oops, agora, sem aquela adrenalina toda, o sacaninha parte-me todo", e até penso que ele virá dizer-me, mentindo claro, "professor ou teixeira, desculpe lá, havia bebido demais". Mas nada disso, ele apenas me fita, com sarcasmo, em injúria altaneira, supremacista ... 

Janto, converso, rio, pois é festa e também minha. Entretanto o casalinho sairá. Nisto fui fumando na varanda, olhando a Drenagem. Sem deixar de pensar, entre outras coisas, que aqueles meus queridos amigos não sentem nem percebem o quão inadmissível é juntarem-me com aquilo. E, pior, o conviverem eles com aquilo. Porque isto não é apenas o passado. É o futuro, compõe-no.

Não tenho culpa. Nem aceito castigo. E, aqui, agora, para o negar podem chamar os demagogos, letrados, atrevidos. Esta pobreza da gente da "petty-corruption".  Que eu avançarei, na mesma. Passo a passo. Desde que, claro, perca a cabeça.

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Esta (magnífica) capa de hoje do célebre "L'Équipe" está a correr no Facebook.

Aposto o meu bilhete para a final que daqui a poucas horas o Padrão dos Descobrimentos estará "intervencionado" com dizeres "identitaristas" Que logo serão saudados pelos obscurantistas de jargão aguçado.

A degenerescência de Belém

por jpt, em 09.08.20

Cada um terá a sua perspectiva sobre a política portuguesa e sobre o actual PR. A este nunca apreciei, e entendo o seu projecto como o da despolitização da sociedade.  Assente num frenético exercício de relações públicas mimoso, centrado na sua "imagem". Trata-se de uma mimetização daquilo que seu pai fez, com garbo e dignidade mas num outro cenário e, portanto, com outra fundamentação política, quando foi governador-geral de Moçambique. Procura uma despolitização que é também uma "despartidarização", no reforço do esvaziar do conteúdo dos partidos. Estes estão em modo autofágico mas a pessoalização presidencial impulsiona essa decadência. Sousa pode aparecer sorridente - quem o conhece sabe que é um maledicente compulsivo, pouco fiável e assim o inverso desta simpática "personalidade" pública - mas é, de facto, apenas um populista antidemocrático.

Num país estruturalmente amarfanhado, como os grandes indicadores socioeconómicos deste XXI o mostram, que vive uma crise enorme potenciada pelo Covid-19, e diante de decisões fundamentais a tratar no quadro do macro-financiamento europeu, é assustador o estado do regime. O velho CDS inane, sem quadros nem roque, e o PSD também sem quadros e com um presidente totalmente desadequado, ambos debatendo a pertinência de uma aproximação a um partido com um deputado, 60000 votos e sem programa - a rábula do programa eleitoral do CHEGA deveria encher de vergonha a direitalhada que se meneia com o prof. Ventura. O PCP insepulto, o BE a perder votos e influência urbana (a rapaziada cresce ...). O PS a gerir o poder de modo patrimonialista, e impregnado de figuras absurdas - a tontice do ex-ministro da defesa, esta ministra que quer as universidades a controlar a opinião pública, a outra ministra que chama "criminosos" a grevistas, um Galamba com extrema relevância no condução de parte substancial do recente pacote de financiamentos europeus ... 45 anos de democracia e o regime não está nada bem, nem se recomenda. E segue neste momento sob este "compromisso histórico", o PS e o PR coligados para preservar o regime do ataque judicial ao execrável "estado da arte".

No topo disto este Sousa, num bamboleio histriónico. A degenerescência do exercício presidencial, a sua abstenção substantiva, é notória. E a médio prazo também é letal a imagem do que é a política, desprovida de qualquer densidade (gravitas), a qual não obriga a uma postura hierática mas não se compadece com este abandalhamento. Muito deste disparatado percurso advirá de questões psicológicas, não pode haver só outras explicações. E muito também de um autocentramento, avesso a quaisquer assessorias críticas. 

Mas este rumo proto-demencial, e tão prejudicial ao país, é potenciado pela abstenção crítica. Um dia, há 25 anos, Cavaco Silva afrontou a imprensa comendo bolo-rei. Foi zurzido e a imagem persegue-o até hoje. Este Sousa faz um show-off patético, constante. Muda de calções em público, passeia-se nas praias, toma sol de máscara, fala com sotaque brasileiro - como neste segundo filme que partilho? Ninguém, à esquerda ou à direita, o abocanha neste desvario. Principalmente à esquerda, pois bem sabem qual a agenda prioritária de Sousa. 

E agora, no reality show em que transformou as suas férias, trinca um bolo e depois reparte-o, manualmente, pelos petizes circundantes, e isto em plena era de cuidados sanitários. Tudo ao invés do que as instituições de saúde nos dizem. Nem pensa!, o homem já nem pensa, encerrado no seu papel, o qual julga ser um monólogo. Esta "bola de Berlim de Sousa" será brandida e celebrizada como o foi o "bolo-rei de Cavaco"? Não. Não porque Sousa seja simpático. Mas porque a amálgama Salgado, Sócrates e magma circundante tem que ser preservada. Porque e plurisbus unum ...

75 anos após Hiroshima

por jpt, em 06.08.20

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Hoje passam 75 anos após Hiroshima, o advento do horror da guerra nuclear. Na amnésia estruturada que apreende a história muitos esqueceram, e os mais-novos nem vislumbram, o sentimento das gerações que cresceram no pavor da hecatombe nuclear, o constante daquela "guerra fria".

Mas para quem se lembre disso, e saiba um mínimo de história contemporânea, poderá hoje também lembrar esta fotografia, e constatar o execrável presidente que nos preside, aqui mimando um arauto da agressão nuclear.  Para além disto há os guevaristas, gente-miúda. Mas, acima de tudo, há este homem. Que segue assim.

O socratismo nunca existiu!

por jpt, em 05.08.20

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A desfaçatez desta "boca" é espantosa. Mas apenas porque espalha-brasas, avessa ao silêncio que foi sendo imposto. De facto, foi isto que aconteceu. O socratismo nunca existiu! Governantes de pastas relevantes foram-no antes com Sócrates, como se isso nada fosse, e destes últimos alguns deixaram as famílias suceder-lhes no poder. Rodrigues reclamou-o como inspiração e foi a presidente da AR. Na justiça os processos marinam, sendo depurados até à inacção. E decerto que ninguém seguirá para a Tunísia. O Jugular Galamba avançou para os recursos minerais e encolhemos os ombros. Vara cumpre por todos, por uma qualquer minudência, sairá algo acabrunhado para a sua vida. E também vinha de baixo, e "lisboa" até vê com algum prazer o apertão nos arrivistas. Nada se passou, como se poderia saber algo desse nada? Nada se passou, o socratismo nunca existiu! Que raio de país ...

Para quando a abaladiça?

por jpt, em 30.07.20

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Muitos criticam a ministra da Cultura por convidar os jornalistas para beberem um drinque. Respeito essas opiniões mas prefiro essa abordagem conceptual à da ministra da Saúde que não nos quer a mamar copos.

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Os beiços de Fausto

por jpt, em 26.07.20

Tenhamos esperança: Jagger, os beiços de Fausto, faz hoje 77 anos.

O Parlamento e o Primeiro-Ministro

por jpt, em 24.07.20

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O fim dos debates quinzenais com o primeiro-ministro, aprovado pelo conluio entre PS e PSD, é interessante e surpreendente. Interessante porque mostra que há 40 deputados dos dois partidos que, ao votarem ao invés das indicações das suas chefias, conseguem mostrar restos de existência. É também de interesse psicanalítico, mostrando como a identificação com Costa de que Rio padece se torna, cada vez mais, um caso patológico. Digamos que nesse processo o homem se amenina, de Rio regride a Rui.

É certo que a vida, e como tal a própria acção governativa, muito mudou desde o (re)início da nossa democracia parlamentar. Mais que não fosse porque os primeiros-ministros viajam mais, feitos andarilhos europeus. Isso até poderia suportar o argumento da "falta de tempo" para os "encontros" parlamentares quinzenais. Mas não é preciso grande militância teleespectadora para se perceber que os primeiros-ministros também têm uma preenchida agenda de visitas "para eleitor ver", por vezes até trepidante. Não lhes faltará tempo para isso? 

Também se pode dizer que muito do que se passa nesses debates quinzenais é irrelevante, com uma troca de picardias mais ou menos sonoras, em busca de sonoridade mediática, a mostrar um autocentramento parlamentar, uma mera busca do "porreiro, pá!" entre colegas de bancada ou mesmo da palmada no ombro vinda de outras bancadas, claro que dada nos passos perdidos dos bastidores. Denotando a inconsciência, essa sim grave, da relativa irrelevância de todo aquele bramir, pois o debate político se deslocou para fora do parlamento, principalmente para a imprensa - esta muito untada e ungida por fundos estatais e para-estatais.

Mas ainda assim esta redução do debate entre a assembleia e o governo que dela emana é bastante surpreendente. Acima de tudo por duas razões, parece que esquecidas: o governo é minoritário - ainda que, de facto, não o pareça, tamanha a placidez com que segue, algemados os parceiros da esquerda, esclerosados os à direita. E porque exactamente nesta semana foi aprovada pela União Europeia uma (inédita) gigantesca modalidade de apoio ao país, a ser conduzida pelo governo, algo verdadeiramente relevante para enfrentar a enorme crise económica e social em que vive(re)mos.

Assim, escolher exactamente este momento para reduzir - e de forma tão marcante - a presença do primeiro-ministro no parlamento é mais do que tudo símbolo de uma aversão à democracia parlamentar, um fastio face à sua cultura. Algo que é muito mais do que um tique pois denota bem o estado de alma, a mundivisão, das direcções dos dois partidos centrais. Saúdem-se os 35 tipos das suas bancadas que votaram contra. E confortem-se os 5 que se abstiveram, mostre-se-lhes que estão no bom caminho, com um bocadinho mais de compostura ainda arribarão. E aos outros diga-se-lhes, também, o que são ... 

 

Blogue da semana

por jpt, em 20.07.20

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O Abencerragem. Um veterano, sobrevivente daqueles tempos que foram ditos de "blogosfera" e que muito nos faz lembrar a essência do que ela foi. Um verdadeiro diário de interesses e opiniões que segue numa rotina desde 2005, no mesmo formato ("template") e no mesmo sistema (o velho blogspot, mais do que suficiente), no mesmo tom, culto sem ademanes nem bramidos. Ao longo desta década e meia todos os dias "o RAA" - ou seja, Ricardo António Alves - partilha algo que nos pode iluminar ou acalentar: o postal diário poderá conter música (erudita ou moderna popular), citações que considera significantes, fotografias, reproduções de obras de artes plásticas, retratos de artistas, etc. A tudo isto junta as ligações para os seus textos no jornal "i" sobre banda desenhada, a coluna "Leitor de BD". E, de vez em quando, ainda coloca as suas opiniões sobre "a espuma dos dias", as quais vêm sempre concisas e sem quaisquer grandiloquências histriónicas. Trazendo, ainda por cima, lucidez. Como aqui exemplifico: "Touradas. Um espectáculo soberbo, o motivo é fútil. Confine-se. Mas antes, a caça e a pesca desportiva. Tiros só em batidas às pragas."


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