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Delito de Opinião

Fui à bola

jpt, 26.11.21

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Esta semana fui à bola, algo que não fazia há anos, desde bem antes do advento do Covidoceno. Sobre isso botei uma memória agradada (no colectivo sportinguista  És a Nossa Fé e no meu recôndito Nenhures). Acontece que não me ocorre nada para aqui deixar dedicado ao fim-de-semana, pois "já me falta o rancor" para arengar sobre sondagens - a semana passada diziam o PS com maioria absoluta e o PSD de Rio quase abaixo daquela hecatombe do PS de Almeida Santos, esta semana afinal o PSD já empatado com o PS, desde que vá com Rio, claro, um verdadeiro teorema Pitagórico que se me escapa... Nem se me puxam as teclas para resmungar sobre as medidas relativas ao covid-19 promovidas por um desaustinado governo, prisioneiro do manto diáfano de propaganda que venera,  nem sobre as reacções avessas dos liberalóides, cuja guincharia em prol de uns quaisquer direitos individuais que estarão a ser assaltados cada vez mais se afirmam como um gorjeio proudly queer (lamento o estrangeirismo mas lembro que a minha irmã e a minha filha me vetaram o uso do vernáculo adequado a estes doutores adamados). Enfim, é certo que poderia botar um postal sobre a Super-Marta, que dá sempre pano para mangas. Mas é sexta-feira, vou tratar de uns papéis e depois irei jantar à tasca operária cá do bairro.

Por isso deixo abaixo, para quem tenha interesse e tempo livre, a croniqueta que meti a propósito da futebolada (tem um pequeno linguajar atrevido, adequado à bancada, mas como é uma auto-citação julgo que a família perdoará):

 

Olivais & Loures

jpt, 21.11.21

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Nos últimos tempos fui botando sobre os Olivais - onde resido - e a sua peculiar Junta de Freguesia. Referi (aqui e aqui) o seu inaceitável e desavergonhado comportamento durante o dia de eleições, com o pessoal contratado pela Junta para acompanhar as votações a envergar vestes propagandísticas da lista do PS. Pouco antes antes aludira (por exemplo aqui e aqui -  para além de textos bem anteriores) a essa mediocridade caciquista dos elementos PS que ali dominam desde há décadas. E depois das eleições sublinhei como as perdas de votação do PS naquela freguesia - e que muito se deveram às manigâncias e arrogâncias da sua presidente face aos interesses da população - foram, por si só, suficientes para a derrota da candidatura de Medina à câmara (aqui, aqui, aqui).

Tal insistência minha poderá parecer demasiada a quem não conheça o "bairro" e não possa assim perceber a intensidade do baixo nível daqueles eleitos para a Junta, a indigência intelectual da abrasiva demagogia, o exercício pessoalizado do poder autárquico - histriónico no caso da presidente da junta. E, acima de tudo, o efectivo desrespeito pelos fregueses, patente na forma altaneira e paternalista de exercício de funções. De facto, uma atitude anacrónica, já excêntrica pois situada no centro da capital. E a qual foi, repito, bastante punida nas últimas eleições, ainda que a lista do PS tenha mantido a Junta apesar dessas grandes perdas de votos - insisto, faltou aos restantes partidos a tempestiva apresentação de candidaturas informadas e preparadas para este exercício.

O que é interessante - e tão denotativo da prática política dominante, do modus operandi socialista - é que a nossa presidente da Junta e colunista do prestigiado jornal "Público", Rute Lima, após este percurso na gestão da freguesia, irá acumular o seu posto com um outro cargo remunerado na câmara de Loures, recentemente ganha pelo PS, isto independentemente de futuros "concursos" para os postos públicos, ascensão ancorada na "amizade" entre os políticos locais. "Nada de ilegal", diz a autarca e colunista do "Público". Não é ilegal, é imoral, como se refere neste artigo de jornal. Bem sublinhando que estas "contratações" (ainda por cima em acumulação de funções) "em regime de substituição" servem para aplainar o terreno, de molde a que estes contratados a "prazo" possam garantir os lugares nas futuras encenações de concursos públicos...

E assim tudo isto, este conúbio entre o PS de Loures e o PS dos Olivais, será apenas aquilo constante do les beaux esprits se rencontrent. E é notório: os anos passam e as pessoas do PS não aprendem, não mudam, nunca melhorarão. Estão lá para isto mesmo. Aquele partido, feito desta gente, é irreformável. Há os maviosos "parolos" a la Santos Silva, disfarçados do "não sei nada" E há os quem nem de "parolos" se mascaram, a la Carlos César...

Enfim, os meus desejos de boa sorte para os vizinhos de Loures. Que bem precisarão. Tal como nós, sofrendo estas Rutes Limas e estes Ricardos Leões. Desde o topo do governo até cá abaixo, até à mais ínfima e recôndita das caves da coisa pública...

 

Rio Strikes Again

jpt, 21.11.21

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Ontem almocei uma magnífico cozido à portuguesa, emanado das mãos de mago de um grande amigo. Éramos seis à mesa. Acoplados à prolongada e cuidada mastigação vários assuntos vieram à baila, alguns deles relevantes para todos nós, alguns outros nem tanto. Apesar da máscula companhia não foram abordadas "questões de saias", de negócios ou de futebóis. Mas apesar da vigência desses implícitos critérios  convivenciais aflorou-se um pouco a outra questão sempre aziaga, isso da coisa pública, tendo sido abordada a actual necrose da geringonça e os paliativos que urgem. E nesse âmbito, ainda que à mesa inexistissem militantes ou até meros eleitores do PSD, urdiram-se argumentos sobre a actual contenda social-democrata e proferiram-se preferências sobre os assuntos internos daquela agremiação.

E nisso ouvi algumas vozes, nada esquerdistas, defendendo, ainda que com pouco ênfase, a preferência pela continuidade de Rio. Pois homem sério e decidido, e com o património pessoal de ter presidido à câmara do Porto com sucesso. Sobre a matéria nada ajuizei, não só porque me sinto excêntrico ao debate mas, acima de tudo, devido à já referida excelência do repasto, que muito monopolizava a minha atenção - acompanhado de um adequado tinto "Cara a Cara", robusto o q.b. para este tipo de comezaina e suave o necessário no seu custo.

Hoje à noite, após a derrota do United diante do Ranieri, da grande vitória tangencial, conseguida in extremis, da Inglaterra sobre os Springboks, e enquanto via pela primeira - e decerto que última - vez o pastelão insuportável "Blade Runner 2049", jantei uma feijoada de coelho caseira, daquelas de trás da orelha, coadjuvada por um não muito excitante tinto "Guarda Rios" - o qual, verdade seja dita, se justifica por se apresentar ao consumidor sob um preço que o torna apetecível. Após esta labuta recolhi aos aposentos para o sono do justo, antecedido por uma breve excursão pelos jornais desportivos, em azáfama de fim-de-semana.

E é neste entretanto, na diagonal sobre a imprensa, que reparo ter o presidente do PSD - o qual há dias anunciara não realizar campanha para as eleições internas do seu partido - lançado mais esta farpa ao seu competidor. Ou seja, anunciou ao país que o seu concorrente almeja o poder para distribuir postos estatais pelos amigalhaços e apoiantes. E também, como é óbvio, explicita-nos que o seu partido tem imensas dinâmicas que querem o mesmo, tanto que catapultaram este seu concorrente, prenhe dos tais ímpios desígnios, como hipótese viável para presidente do PSD.

Dou uma gargalhada, adio o leito, sirvo-me de um dedal do "Queen Margot", boto o postal. Apenas para avisar os meus convivas do repasto da véspera. Pode Rio ter as características e o passado que lhe reconhecem. Mas, aqui entre nós, que ninguém nos ouve, vai agora sem qualquer tino. Pois isto não é coisa que um  homem na sua posição possa dizer de um correligionário concorrente. Mesmo que seja verdade...

Onde estará a tenista?

jpt, 20.11.21

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A "L' Equipe" de hoje tem esta primeira página, associando-se à preocupação global - muito catapultada pelas declarações alarmadas de várias das suas colegas - sobre o paradeiro da conhecida tenista chinesa Peng Shuai, desaparecida há cerca de vinte dias após a sua denúncia de ter sido violada por um ex-vice-primeiro-ministro chinês.

Mais do que tirar conclusões sobre o nosso ambiente discursivo e as hierarquias das preocupações que nele vigoram - por exemplo, imagine-se o que iria por esta imprensa nacional e pelas nossas redes sociais se uma tenista negra tivesse sido alvo num "court" de uma "boca" ordinária de um qualquer caucasiano, ou se uma tenista "transgenderada" tivesse visto posta em causa a sua condição atlética feminina -, ou grandes elaborações sobre o sistema político chinês, o que será de desejar é que a campeã chinesa logo se anuncie de boa saúde, saída de um qualquer retiro, destinado a fortalecimento psicológico, recuperação de qualquer lesão, ou treino físico peculiar. Ou de meras férias em recanto exótico. Esperemos isso. Ainda que o costume chinês de fazer desaparecer figuras gradas por razões do seu desalinhamento com o "Bom Senso" governamental faça temer que não se trata apenas disso.

Adenda: a tenista reapareceu. Independentemente de outras considerações isso é o fundamental.

Uma colecção de postais

jpt, 16.11.21

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(cerca de Matola-Rio, 2000, reprodução de fotografia de Luís Abélard)

Os textos de blog são de ocasião. Mesmo assim vou seleccionando alguns aos quais ainda encontro sentido. Para uma memória do que fui pensando e vivendo. E que colijo, acima de tudo para que a minha filha um dia os possa “folhear” (em scroll down, claro) para saber o que o velho pai ia resmungando. Mas se em alguns destes textos outrem neles ainda encontrar motivos de interesse isso será um prazer para mim.

Aos meus 50 anos, e após duas décadas em Moçambique, inesperadas razões pessoais fizeram-me regressar a Portugal. Por um lado, quase nem notei que havia estado ausente, pois logo fui abarcado com veemência pelo velho núcleo de amigos. Mas, por outro lado menos pessoal, após os primeiros tempos de estada - e apesar de sempre ter mantido o contacto com o país - fui ficando espantado com o ambiente geral, com a discussão pública, numa sensação de irrealidade. Levei algum tempo a recentrar-me, a olhar para o que os outros olham, essa que é a melhor forma do mortal comum viver em algum sítio. Nesse período de aclimatação fui blogando. Juntei agora um conjunto de 38 postais a recordar essa quase reaprendizagem do país, e chamei-lhe o meu "Ocaso Boreal" - quem tiver paciência e interesse bastar-lhe-á "clicar" no título e gravar o pdf. Na capa coloquei-lhe esta fotografia, feita pelo meu amigo Luís Abélard, de quem tenho saudades.

(E para quem tiver curiosidade sobre outras colecções que já fiz sobre o que venho perorando em blogs desde 2003, elas estão arroladas aqui.)

 

Um café (sem uísque)

jpt, 15.11.21

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O José Navarro de Andrade (nosso bloguista no Delito de Opinião e meu [e não só] co-bloguista no sportinguista És a Nossa Fé) estreou a semana passada o seu programa de entrevistas "Vamos Beber Um Café..." - que passa na RTP2 mas pode ser visto ad aeternum na RTP Play. O Navarro tem a coisa (muito) boa de ser um entrevistador que interpela os seus entrevistados, assim evitando a conversa mole e as proclamações autorais, até pomposas (estas muito em especial habituais nos consagrados). Vi durante este fim-de-semana o primeiro programa: tem uma entrevista muito interessante com a escritora Djaimilia Pereira de Almeida (que acaba de publicar o romance "Maremoto"), a qual nunca li mas que decerto irei ler depois de a ver aqui. Pois é uma entrevistada como deve ser, sem poses, sem "atitudes", e cheia de pertinência e entusiasmo a falar do seu livro e da sua escrita. Segue-se uma entrevista com o escritor Jaime Rocha, a propósito da sua peça versão da "Filoctetes" de Sófocles - e de repente um tipo pode ver uma interessante e animada conversa sobre tragédia grega e sua refracção actual. Coisa rara e preciosa nos tempos actuais.

Deixo as entrevistas para quem tenha vagar...

(Vamos Beber Um Café..., episódio 1: entrevista a Djaimilia Pereira de Almeida)

(Vamos Beber Um Café..., episódio 1: entrevista a Jaime Rocha)

Recursos Desumanos

jpt, 15.11.21

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Uma amiga telefonou-me a chamar a atenção para este folhetim televisivo, num "lembrei-me de ti, pareces o protagonista...", em risonho sarcasmo a embrulhar, percebo-a, o seu carinho diante do fingimento do desespero que deveras desespera...
 
Sorri, acedi clandestino à Netflix, e vi. O Grande Eric Cantona é o tal rústico protagonista e segue excelente! E recomendo a historieta, tudo aquilo muito bem conseguido.
 

(Bande annonce de Dérapages (Série ARTE, Mandarin Télévision 2020) - ARTE, Netflix)

As sondagens eleitorais

jpt, 13.11.21

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As sondagens eleitorais valem o que valem, e de quando em vez falham rotundamente. Outras vezes... não falham rotundamente. Ontem foram apresentados os resultados de uma sondagem SIC/Expresso [ligo a notícia da Renascença mas nela há um incompetência grave, com erros nos números relativos a 2019 que são usados para comparação. Os correctos das últimas legislativas foram estes].

Ao que diz esta sondagem terá o PS 40% de intenções de voto, assim resvés a maioria absoluta no parlamento. Seguir-se-á o fraticida PSD um "poucochinho" abaixo do que conseguiu há 4 anos mas ainda assim algo acima do que Almeida Santos conseguiu in illo tempore. Depois surge a voluntariosa agremiação do prof. Ventura, a qual se aprestará a quintuplicar a percentagem das eleições transactas, decerto que devido às coisas que o seu líder vai proclamando, por mais que estas pareçam (e sejam) inanes e descabidas. Ao que também consta o sólido PCP resistirá a estes seis anos de "compromisso histórico" com a, de facto, direita, mais ou menos mantendo a votação obtida há dois anos - e isto não contando com o já tradicional viés de serem os resultados eleitorais do "Partido" melhores daqueles que as sondagens costumam prever. A seguir, ao que parece, virá - em esgarçado processo de degenerescência - o partido social-democrata do prof., comentador televisivo e conselheiro Louçã. Entretanto, consta que atrás, no terceiro pelotão, seguem os neófitos liberais, os quais se presume dobrarem a percentagem de 2019, algo desiludindo os apostadores que neles previam "the next big thing". E, para surpresa geral numa actualidade em que grassam as preocupações ecológicas, parece que algo se afundará o partido animalista. Bem lá mais para trás, em notório esforço e com o carro-vassoura mesmo nas suas traseiras, seguem os simpáticos e habituais concorrentes CDS e PPM. Esclareço ainda que reli a notícia do "Expresso" com atenção interessada, mas não encontrei referência ao "único partido de esquerda que não vem do marxismo", o celebrizado LIVRE do prof. Tavares e do causídico Sá Fernandes, uma desilusão talvez devida a ter sido desprovido do ariete Katar Moreira e do respectivo assessor transvestido.

Enfim, é apenas uma sondagem, a dois meses e meio das eleições (essas sendo a verdadeira sondagem, dizem os cautelosos, aqueles do "prognósticos só depois dos jogos"). E muitos (des)crentes nestas previsões referirão o que aconteceu nas recentes sondagens em Lisboa, com todos a achincalharem a candidatura de Moedas ("it's the economy, stupid", dirá quem percebe daquilo dos subsídios estatais e camarários à imprensa e aos colunistas opinadores políticos...), para depois ficarem de cara à banda naquele festivo domingo. Outros, mais "analíticos", denunciarão que quem realizou esta sondagem foi uma associação dos pérfidos ICS/ISCTE, ninhos de "marxismo cultural", sempre prontos a apoiarem o actual poder. Mas, por mais que "conspirações" sondageiras sejam invocadas, e por mais pontito para cima, pontito para baixo que venham a obter os partidos do 2º grupo (CHEGA, PCP, BE e, vá lá, IL), o quadro final não deverá ser muito distinto do que aqui vem escarrapachado. 

Diante disto restam-me duas perguntas:

1) dado que, grosso modo, anunciei isto no meu já recuado postal "Prognósticos (antes do jogo)", não haverá alguém (empresa privada, organização não-governamental benfazeja, instituição pública, cooperativa de produtores ou de consumidores, mecenas pessoal) que me queira contratar como áugure? Anuncio disponibilidade imediata, preferencialmente para oficiar sob regime de avença mas colectada fiscalmente como "direitos de autor". Agradeço que os interessados me contactem por mensagem privada, através do meu endereço electrónico

2) parece óbvio que o PS virá a governar sozinho. E talvez mesmo com maioria absoluta, o que será uma verdadeira serendipidade promovida pelo mau jogador de poker que é o presidente Sousa. Independentemente das simpatias que possamos ter convirá pensar no que aí vem, uma crise global, entre a ressaca pandémica, a temida (ou esperada) debacle financeira chinesa, a inflacção nos combustíveis. E, ainda por cima, tudo isso (e  mais o que vier) será vivido face a um BCE que não será eterno hiperprotector. E numa União Europeia finalmente pós-Brexit (pois já pós-COVID), enfronhada na sua crise económico-demográfica estrutural, cheia de fissuras ideológicas e, talvez acima de tudo, vivendo a neblina pós-Merkel - ainda que esta estadista tão relevante para a estabilidade e continuidade da "Europa" fosse para alguns, como o político e comentador social-democrata Pacheco Pereira, entendida como uma inimiga da democracia.

Ou seja, o PS apresta-se a governar sozinho - porventura apenas precisando do voto de um qualquer deputado único animalista e da abstenção pontual de alguns sociais-democratas, sejam dos da sua direita ou dos da sua esquerda. Ou dos das Ilhas Adjacentes, como antes se chamavam. E neste contexto gravíssimo que aí vem será de perguntar se terá o PS energias para a empresa. Conseguirá apartar-se do pântano que fez medrar? Pois não há outra solução, vai ter que arrepiar caminho... E honestamente, com estes nenúfares que vem mostrando, não irá lá. Não iremos, nós portugueses. E ser-nos-á imensamente doloroso.

 

Rio & Rangel

jpt, 11.11.21

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Está o PSD em compita interna, a menos de 3 meses de eleições legislativas. Talvez não seja o melhor momento para tal iniciativa, mas dever-se-á às ondas de choque provocadas pela derrota dos partidos de esquerda nas recentes autárquicas e à imposição (apressada?) do presidente da República. A decisão sobre o próximo presidente do PSD compete aos seus militantes mas, como é óbvio, acaba por nos interessar a todos, se acreditarmos - como será normal - que algo influenciará os próximos resultados eleitorais e a próxima configuração de poder governamental. Já o botei aqui, independentemente das virtudes políticas (e pessoais) que Rui Rio tenha não encontro, nem no círculo dos meus conhecimentos nem no amplexo imprensa/redes sociais, locutores que exprimam entusiasmo pela sua actuação. Algo que não será razão suficiente para nele descrer - até porque depende exclusivamente deste meu pessoal ponto de (tomada) de vista - mas que será um pouco descoroçoante para quem espere uma "vaga de fundo" eleitoral. Enfim, para mim - que nem sequer votei PSD nas últimas legislativas - parece-me que ao longo destes anos Rio não conseguiu afirmar-se individualmente como líder de uma alternativa à governação de António Costa, nem terá conseguido catapultar o seu partido como alternativa colectiva - quem são as actuais figuras gradas daquele partido, que políticas sectoriais ali se defende, que documentos (abrangentes e súmulas) têm publicado, que "seminários/colóquios/congressos" temáticos têm desenvolvido, etc? Com que forças sociais (também ditos "grupos de pressão") têm abertamente debatido? Que reformas propõem, que status quo entendem inamovível? Em suma, que projecto substantivo para o país defendem (para além do "patois" para cabeçalhos de imprensa) que justifique a mudança governativa, para além daquilo que o eleitor comum possa presumir, na sua desinformada candura? Dito isto, também sobre Rangel não se pode dizer que se saiba muito mais - para além da já referida presumível expectativa assente nos historiais dos partidos. É certo que não lidera um partido há um punhado de anos, como Rio, e que há quase uma década está algo afastado da política interna, dado o seu cargo de eurodeputado, o que justificará muito mais do que em Rio o desconhecer-se-lhe tanto um discurso individual abrangente como a inexistência de um trabalho de coordenação (e até de liderança) de uma colectiva reflexão sobre o país. Para mais, e no meu caso, não tenho acompanhado a sua carreira política - como referi notei-o com atenção apenas há cerca de um ano e meio quando teve um conjunto de declarações e acções parlamentares muito pertinentes e aquilatadas sobre o conflito no Cabo Delgado, em Moçambique.

Botei este longo intróito para justificar o meu cenho franzido, e algo distraído, diante da actual situação do maior partido da oposição. Atitude que nem será de espantar, dado não ser nem militante, nem simpatizante nem mesmo eleitor habitual do PSD (partido no qual votei em 1999. E no qual teria votado em 2001, 2009 e 2011 se não fosse então epígono do actual presidente da República, inscrito numa cidade e residindo numa outra, no meu caso bem longínqua, cerca de 11 000 kms). Espero apenas que possam os militantes do PSD escolher o melhor possível para a participação optimizada desse grande partido democrático no processo político português, ainda para mais quando se anuncia uma crise económica internacional, que talvez venha a depauperar o nosso algo distraído país.

Nesse sentido fico estupefacto quando leio as recentes declarações de Rio. Anunciara há dois ou três dias que não fará campanha interna na corrida eleitoral do partido. E agora, julgo que ontem, a apenas dois meses e meio das eleições legislativas, afirma ao país que o seu opositor Rangel "não está preparado para ser primeiro-ministro", algo que num partido com aspirações governamentais é um evidente "depois de mim, o dilúvio". Para além de contradizerem completamente o tal anúncio de inexistência de campanha interna que Rio fez na véspera, estas declarações feitas num partido da dimensão do PSD são letais, demonstram uma total falta de solidariedade interna, de conjugação partidária. E vêm do seu próprio presidente! Diante de uma coisa destas, do minar do caminho do próprio partido, não consigo perceber como é que haverá militantes do PSD que se conjuguem com Rio, tão "despreparado para ser presidente de partido" assim se mostra. Mas também o digo, diante disto, destas declarações entre gente que se conhece, e muito, não percebo como é que nós, eleitores comuns fora dos partidos, poderemos confiar em tais gentes, embrenhados em tal forma de fazer política. Como confiar em Rangel se o seu próprio presidente dele diz isto? Enfim, se Rio assim, tão rasteiro, e se Rangel assim tão "impreparado", o melhor é mesmo elegermos deputados de outros partidos... Está aí um cardápio à disposição, a cada um como cada qual...

O Regresso da Educação para a Cidadania

jpt, 08.11.21

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Devido a recente decisão jurídica voltou à berlinda o caso dos irmãos Rafael e Tiago Mesquita Guimarães - cujos encarregados de educação impedem de frequentar a disciplina liceal "Educação para a Cidadania" e que por isso se deparam com o intuito estatal de os reprovar. Em tempos já muito se escreveu sobre o assunto e não será necessário repetir argumentos [eu botei aqui o que penso sobre a algo desajustada disciplina]. Em relação às (improváveis) sanções que os alunos poderão sofrer julgo muito certeiro o que diz Henrique Pereira dos Santos no Corta-Fitas: se cumpre aos encarregados de educação prover à conclusão da escolaridade obrigatória (esta entendida como um direito inviolável das crianças) então essas hipotéticas sanções deveriam incidir sobre estes pais e não sobre os alunos que cumprem os ditames dos seus progenitores. Um pouco à imagem - salvaguardadas as óbvias diferenças - do que acontece em casos de precoce abandono escolar ou em casos de denúncias do corpo docente de indevidas práticas paternais que impeçam a consecução escolar. Mas julgo (e espero) que este é um novelo em que o Estado acabará por se retirar, cedendo a esta idiossincrasia familiar. Com a qual pouco simpatizo, independentemente do que penso da disciplina curricular em causa, pois muito me parece um finca-pé algo histriónico.

 

 

O fim das medidas sanitárias excepcionais

jpt, 02.11.21

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[Adenda: muito agradeço ao comentador anónimo que deixou explícito que esta preocupação era infundamentada ao deixar ligação para o DR que explicita a continuação do estado de alerta]

Telefona-me uma amiga jurista e diz-me "este país está louco!". Não duvido disso mas pergunto-lhe da razão do diagnóstico: "ouves alguém falar de que deixámos de estar em estado de alerta? Desde 31 de Outubro". E continua ela, "decerto que se esqueceram do assunto". Logo respondo "mas isso é o fim das restrições sanitárias? não terei que usar máscara no metro, no centro comercial?". "Claro", diz ela. "Acabou", pois já não há enquadramento legal para tal, vai explicando entre risadas. 

Calamidade, emergência, contingência, alerta, etc. Foram os "estados" em que vivemos. Acabaram, entrámos finalmente em "estado de normalidade". O que tem implicações jurídicas quanto às atitudes sanitárias, diz-me a amiga (que vinha de encontro entre juristas, já agora, onde todos comentavam o assunto). 

Estão correctos os ilustres causídicos a que aludo? E se assim é alguém fala do assunto? Será mesmo que "este país está louco"? E nisso seguem adormecidos governo, administração pública e imprensa?

Um terrorista no poder

jpt, 01.11.21

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Quando há meses morreu o coronel Carvalho, antigo dirigente do movimento terrorista FP-25 que assombrou o país nos anos 80s, bloguei (1, 2) - e recordei um recuado texto sobre o otelismo - uns textos resmungando contra o vil culto que alguns lhe prestavam. Há menos tempo repeti o resmungo, face à falsificação da história feita por um professor de Coimbra, colunista habitual do boletim "Público", que surgiu a invectivar de antidemocratas os que não louvam o líder da organização assassina. Numa abjecta manipulação da história, que colhe o silêncio cúmplice da corporação a que pertence. Claro que um tipo bota coisas destas e é logo dito "fascista"...
 
Mas note-se esta notícia: Soares Neves, o "TóZé" dirigente terrorista das FP-25, condenado a 15 anos de prisão, pena que não cumpriu ["não pagou a dívida à sociedade", na vox populi] devido à amnistia promovida devido ao perverso imbróglio jurídico daquele processo, tem integrado júris no Centro de Estudos Judiciários nos concursos de acesso à magistratura. E é agora subdirector do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE (uma universidade pública), e ainda director do diretor do Observatório Português das Atividades Culturais do ISCTE [que faz avaliações das políticas governamentais].
 
 
 

Prognósticos (antes do jogo)

jpt, 31.10.21

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Lá vamos a eleições. O clássico CDS, que há dois anos se reduzira a transporte Bolt, está em estertor de cisões e resmunguices. O também clássico PSD, após anos de verdadeira catalepsia oposicionista, apresta-se a refrega interna - sem que os contendores digam, com concisão mas substrato, ao que realmente vão, ficando assim aquela refrega coisa algo mole mesmo que venha a ser tonitruante. O antepassado PCP segue imóvel face à erosão das marés e ventanias, mais pedregulho ribanceira abaixo menos pedregulho ribanceira abaixo. O também já clássico - que a idade não perdoa - BE vem-se esboroando a olhos vistos, entre dichotes divertidos e dislates invertidos. Na rapaziada mais nova o PAN - que há dois anos se quadruplicou de passe social a táxi, ainda que boletins "Público" e quejandos e as Quadraturas do Mal não lhe tenham ligado - viu sair o líder, zangarem-se os deputados e estuda o convívio humano com as gaivotas, e nisso não será de lhe augurar ascensão a Rodoviária Nacional. O avatar do MES desapareceu, fundido nas listas de assessores governamentais. A deputada Moreira seguirá a O(N)Gs basto financiadas, que não acredito que ascenda às listas do poder.

Resta-nos a juvenil IL que, apesar da tendência para o piadismo própria da idade do armário, irá cobrar dividendos da relativa coerência do que vem dizendo. Tal como o prof. Ventura, que lucrará os dividendos de tanta patega atenção alheia, e que ainda terá um momento extra para se vitimizar, pois obrigado pelo Tribunal a refazer um congresso, no qual dirá, decerto, "aquilo que é preciso dizer e mais ninguém tem coragem para o fazer".

E nisto tudo, lá para Janeiro, o idoso PS, trapalhão e exausto, vácuo de clientelista e patrimonialista, pejado de figuras inanes e de projectos insanos, sairá reforçado.

Um tipo entristece. Ou rejuvenesce.

Limianos

jpt, 26.10.21

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Paulo Portas, que desta poda muito sabe, já avisara. Os deputados PSD da Madeira poderão de "modo autónomo" (ou seja, em acordo partidário esconso) viabilizar o orçamento, coisa que o seu dirigente já veio confirmar.

Convirá recordar que numa época de "vacas gordas" (apesar do então celebrizado "discurso da tanga") o PS de Guterrres fez um acordo parlamentar esconso com o CDS de Portas, através do manuseio de deputado Campelo, que aparentemente tudo trocou pelo queijo Limiano. O presidente Sampaio muito hesitou em aceitar tal solução. Os seus conselheiros dividiram-se na opinião. Mas acabou por aceitar tal opção - que de facto foi uma violação do espírito da constituição e, como tal, um perjúrio presidencial. Morreu, em paz, sem que tivesse sido efectivamente escrutinado por tal cedência.

O arranjo "limiano" - cujo vero conteúdo se comprovou, para quem pudesse ter dúvidas, quando o deputado Campelo, apesar de ter sido temporariamente sancionado pelo seu partido, veio a ser chamado para o governo quando Portas a ele acedeu - foi pestífero. Provocou um bamboleio tal que o governo caiu dois anos depois, apesar do PS ter exactamente metade dos deputados. Nesse trambolhão promoveu ao poder uma inconsequente direcção do PSD e causou uma atrapalhada sucessão no PS que desembocou numa incompetente direcção que logo se veio a desagregar, em rumo espúrio. Disto tudo brotou o longo consulado do pérfido José Sócrates - que as pessoas das lideranças políticas já bem conheciam, por mais vestais que se queiram continuar a afirmar. 

Toda aquela marosca, repito, foi no tempo "das vacas (europeístas) gordas". E teve o deletério efeito de longo prazo que teve. Agora, neste estado endividado, (quase) pós-pandémico e diante da crise internacional anunciada, não há espaço para tais artimanhas. E temos o pior presidente da república da história do regime, o mais volúvel e superficial, homem desprovido da gravitas que Sampaio tinha. Incapaz de pensar o país para além da sua vácua vaidade. Só podemos exigir a Rui Rio que não se ponha com brincadeiras destas. E a Costa que tenha tino. E vice-versa.

 

O fim da geringonça

jpt, 26.10.21

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Parece que a "geringonça" termina. Talvez desabe agora. Ou talvez ainda sobreviva, algo desarranjada, por mais um ano, se o orçamento for aprovado in extremis. Ou, menos provável, se vier a governar sob a entidade "Duodécimos", com navegação de cabotagem feita de bolinas lei-a-lei. Mas, nesse caso, muito provavelmente não sobreviverá mais do que um ano.

Quando em 2015 o poder se estabeleceu nesta "geringonça" muitos clamaram contra, apontando a sua ilegitimidade. Porque não havia sido anunciada, porque o PS não ganhara as eleições. Ora Costa anunciara a sua disponibilidade para tal (dissera nunca aprovar um governo PSD/CDS minoritário, não ter disponibilidade para se coligar com a direita, e propunha-se como governante. Só não percebeu quem não quis. Ou quem é, apesar de ganhar a vida como comentador político, manifestamente incompetente). E, mais do que tudo, as eleições legislativas não são mais do que a constituição de um parlamento do qual deverá emanar um governo, monopartidário ou de coligação. E é até aconselhável que as coligações governamentais não sejam pré-definidas mas que nasçam de um parlamento eleito, com a correlação de forças (de número de deputados e de apoio eleitoral às propostas partidárias) estabelecidas de fresco. Ou seja, esta solução teve todo o cabimento, político e ético. Foi até uma boa lição sobre a democracia, num país onde eleitorado abúlico e imprensa distraída tendiam a pensar as eleições legislativas como um concurso para primeiro-ministro (de preferência entre comentadores televisivos mais bem-falantes e melhor apessoados).

 

 

A peanha de Gagarin em Oeiras

jpt, 25.10.21

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Vai polémica com este monumento aos 60 anos de Yuri Gagarin no espaço, colocado num jardim de Oeiras. O representante do Taguspark responde, decerto que algo enfastiado, que o monumento se insere num museu que se quer "disruptivo" e instalado num "ecossistema com empresas dedicadas à aeronáutica". Eu resmungo com esta "apropriação cultural" do termo "ecossistema" pois se é certo que não é uma total incorrecção - em última análise as empresas de facto pertencem ao tal ecossistema -, a utilização do conceito é uma analogia típica do economês obscurantista. Quanto ao resto, se o Taguspark fosse um "ecossistema" integrando empresas cinematográfricas colocaria no seu "disruptivo" museu um monumento a Leni Riefenstahl, em cima de uma peanha decorada com a bandeira do III Reich? Ou, sendo menos radical, será que neste tétrico actual ambiente "woke" onde tantos intelectuais e docentes, para além dos jornalistas a la "Público", clamam a necessidade de retirar ou "contextualizar" obras de autores como Mark Twain, Eça de Queirós, Goscinny, entre tantos outros, devido às malevolências ideológicas que terão propagandeado ao longos das suas ocidentais (e portanto pérfidas) obras, neste ambiente, dizia, não será de exigir uma "contextualização" ao lado daquele monumento, explicitando aos incautos passantes o que foi a URSS e o movimento comunista em XX? Ou será que as pessoas se tornam traficantes de escravos, frades inquisitoriais e genocidas das alteridades ao cruzarem o pequeno mamarracho feito a António Vieira, lerem o "O Escudo de Arverne" ou o "Huck Finn", mas nada são influenciados quando lhes espetam no parque onde vão namorar, piquenicar ou fumar uns charros, a bandeira do feroz regime soviético?

 

 

O Prémio Camões vai para Moçambique

jpt, 21.10.21

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Alguns patrícios perguntam-me a opinião sobre o Prémio Camões atribuído hoje à moçambicana Paulina Chiziane. Repito-lhes aquilo que sempre digo sobre este prémio:
 
1) trata-se de um produto político, que procura através da premiação anual sedimentar uma comunidade internacional assente na partilha linguística. Não vem grande mal ao mundo por isso, mas subalterniza critérios literários;
 
2) o costume de alternar a premiação entre Portugal e Brasil - polvilhando o ritmo com algumas atribuições a escritores africanos - sublinha essa secundarização de considerações literárias (porque não sucessivos prémios dados a escritores da mesma nacionalidade, por exemplo?).
 
Para além disso há as minhas inclinações pessoais:
 
 
 

Não é Mário Soares quem o quer ser

jpt, 20.10.21

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Consta que o presidente da câmara de Sintra, o candidato do Partido Socialista Basílio Horta - e antigo presidente do AICEP durante o consulado de José Sócrates - está muito incomodado com um recente oponente eleitoral, Ricardo Baptista Leite, tendo-se agora recusado a cumprimentá-lo numa sessão pública, alegando algumas deselegâncias que aquele terá proferido a seu respeito durante a última campanha autárquica. 

(Basílio Horta vs Mário Soares, arquivo RTP, 4'46'') (Debate completo I, II)

A cena, até patusca, foi filmada e corre na imprensa. E tamanha reacção ofendida devida a ataques políticos logo me fez lembrar uma antiga campanha presidencial, ocorrida no milénio passado. Então o candidato presidencial do Centro Democrático Social, Basílio Horta de seu nome, disse do seu oponente e então presidente Mário Soares pior do que aquilo que os talibãs afegãos dizem das mulheres que estudam. A cena ofendeu Soares e terá originado um corte de relações, o qual - ao que lembro de ter lido na imprensa - veio a ser ultrapassado anos depois, através de benemérita intervenção conjugal.

Agora, 30 anos depois, e seja lá qual for a memória que se tenha daqueles algo desbragados tempos da integração europeia, do cavaquismo e administração soarista de Macau, ocorre-me um até nostálgico "não é Mário Soares quem o quer ser". Principalmente, muito principalmente, quem cruza a vida em tamanhas piruetas políticas.

Efemérides Sangrentas

jpt, 19.10.21

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Dia de efemérides. Passam hoje 35 anos sobre o incidente de Mbuzini, no qual morreu o presidente Machel e quase toda a sua comitiva. Vários amigos e conhecidos moçambicanos assinalam o facto nos seus murais de Facebook - alguns usando imagens do impressionante monumento idealizado pelo arquitecto José Forjaz para colocação no fatídico local. Acidente ou atentado?, continuam as dúvidas, as versões, as crenças, num processo de interpretação da história algo similar ao acontecido com a morte de Sá Carneiro e comitiva.
 
Por cá cumpre-se hoje o centenário do assassinato do primeiro-ministro António Granjo e de vários vultos da instauração da República, a dita "Noite Sangrenta", um dos momentos maiores do terrorismo político durante a I República, perpetrado pelo que se poderá dizer, sob anacronismo limitado, a "extrema-esquerda" terrorista de então. O Pedro Correia aqui no Delito de Opinião convoca o assunto.
 
O resto da sociedade, a corporação historiadora, os colunistas avençados, os "quadros" da função pública? Seguem fiéis militantes da higienização da I República, da produção da "amnésia organizada" sobre esse directo ascendente (republicano e maçónico) do poder socialista de hoje.
 
Nisso não só vigora o silêncio na imprensa. Mas também o popular, pois poucos (se alguns) se lembram de convocar o assunto nos seus murais. Há que preservar o mito da I República benfazeja. E para isso que faz o Estado, os seus oficiais mais importantes? Usa o dia do centenário deste brutal e tão significativo episódio para se congregar, sob o datado e anacrónico molde panteónico, em homenagem a Aristides de Sousa Mendes, morto há 67 anos, nascido a 19 de Julho e falecido a 3 de Abril. Ou seja, nem sequer há um qualquer vínculo simbólico quase inultrapassável para que a cerimónia decorra hoje.
 
Julgo que nunca tinha assistido a tão descarada manipulação da história política portuguesa. Agora venham-me dizer que é preciso derrubar a estátua do João Gonçalves Zarco. E fazer "introduções contextualizadoras" ao Frei João dos Santos...