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Delito de Opinião

Mulher com Altifalante

jpt, 13.09.21

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(Mulher com Altifalante, Escola de Vermeer, c. 2010-2020)

Sobre estes anti-vacinas já aqui botei o que me é suficiente, resmungando a histeria ignorante que os imobiliza, seja nisto do Covid-19 seja nas restantes doenças. E  muito me indignei quando antes do processo de vacinação surgiram alguns patetas a propagandearem contra a participação nesse passo sanitário - a primeira pessoa que vi nesse disparate foi Maria José Morgado na tv. Mas, mesmo considerando estes anti-vacinas um coro de coirões, entendo que é muito diferente discutir a vacinação da população em geral ou a das crianças, o que não significa que acredite eu que a Pfizer e congéneres sejam os Herodes actuais.
 
Dito isto, leio muita gente muito ofendida porque 30 ou 40 desses maluquinhos anti-vacinas, em estado de histeria aguda, foram ontem à porta do restaurante onde comia Ferro Rodrigues. E ali se fartaram de emitir perdigotos e de gritar impropérios, com altifalante ou a plenos pulmões, ao actual Presidente da A.R.
 
 
 
(Pedro Passos Coelho, protestos na Feira do Livro em 2012)
 
Face a isso as pessoas "bem-pensantes" ofendem-se, clamam a inadmissibilidade desta "arruada", dos insultos e da agressividade. E a partir dela reafirmam o perigo iminente do fascismo. Porventura detectam a insidiosa mão do prof. Ventura. E presumo que até reconhecerão o espírito de Steve Bannon, conluiado com o de Farage, já para não falar do halo magiar, e mais demónios que haja.
 
Enfim, eu lembro-me destes agora ofendidos a saudarem outras pequenas arruadas "espontâneas", dos seus perdigotos e insultos, perfeitamente descabidos. Como esta, na simpática Feira do Livro lisboeta. Nesses momentos os tais aos quais agora doem os joanetes encontravam virtuosas aquelas acções genuinamente populares, denotativas do sentir das boas e sofridas gentes. E já nem falo de ver centenas ou milhares de manifestantes carregarem sobre a Assembleia da República, em pancadaria com a polícia ali convocada para defender a sede da democracia. Com as gentes da "esquerda" saudando o vigor e rigor democráticos que brotavam daquelas "acções populares".
 
Ou seja, toda esta hipócrita incoerência dos patetas que por andam a clamar a inadmissibilidade de se incomodar o presidente da AR é muito mais grave do uma velha gorda aos gritos num alto-falante. Ou então tudo se resume a ser virtuosa a gritaria contra o PSD (o Demónio) e malévola a contra o PS (o Espírito Santo). 

Jorge Sampaio em Moçambique

jpt, 11.09.21

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[Fotografia de Jorge Brilhante]

Votei três vezes em Jorge Sampaio, uma para presidente de Lisboa e duas para presidente de Portugal. E pude assistir à sua visita a Moçambique em Abril de 1997, e aqui o recordo nessa época, muito justificadamente condecorando a tão saudosa Maria Inês Nogueira da Costa, excepcional directora do Arquivo Histórico de Moçambique, na presença do embaixador Ruy Brito e Cunha (encoberto) e do então jovem Mia Couto, ladeando pinturas de Malangatana e Noel Langa.
 
Essa visita foi um verdadeiro sucesso, promovendo um efectivo "degelo" nas relações entre os dois países. Algo que, como é evidente, correspondeu à postura de Chissano. Mas também muito se deveu a ele próprio, pelo empenho e cuidada afabilidade e também pela excelente equipa de assessores que organizara em Belém, a qual muito bem soube gizar o que então era fundamental. Sampaio voltaria a Maputo em 2001, então para uma cimeira da CPLP, um cenário multilateral que lhe dava uma agenda menos pressionante sendo então óbvio que ali se sentia imensamente bem, num afectivo "em casa".
 
Morreu ontem, aos 81 anos. Quaisquer críticas a algumas das suas decisões políticas suspendem-se agora. Que é o curial quando morre um homem probo.
 

José Magalhães, o javardo

jpt, 07.09.21

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Como é sabido Paulo Rangel - estando a ser alvo de uma campanha na imprensa com alusões à sua vida privada - enunciou publicamente a sua homossexualidade. À esquerda criticam-no. Acusam-no de duas coisas: de preparar uma recandidatura à presidência do seu partido. E de não ter participado há uma década na luta por alteração legislativa favorecedora de aspirações do movimento homossexual, como tal não tendo cumprido preceitos considerados necessários à dita "identidade". Sonantes nisso são vários membros da "identidade" socratista, esses que na referida época tudo faziam para defender o poder PS das acusações da evidente roubalheira que acontecia, o enorme ataque às instituições democráticas e seus gigantescos efeitos nas finanças públicas e na economia nacional. Essa gente - entre a qual muito soa o velho eixo do blog "Jugular" e seus sequazes - tem essa "incoerência" e "hipocrisia". Pois dizem-se de "identidade" democrática mas foram (e decerto que o são) cúmplices ou coniventes com a corrupção, integrando a evidente "identidade" ladroagem. Ou seja, em termos de "coerência" com os preceitos de alguma identidade é caso para sobre eles clamar agora "dizem os rotos ao nu". E é lamentável que gente dessa laia seja presença habitual como "comentadores" na imprensa estatal e ocupe postos públicos de incidência política.

Ainda mais denotativo do ambiente intelectual dessa abjecta mole é a reacção às inaceitáveis declarações de ontem do deputado socialista José Magalhães. Autor da recente Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital foi então basto criticado. Mas logo sufragado pela imprensa do Estado, através de um inenarrável servilismo da apresentadora Cautela, em programa em horário nobre, que culminou com ela roçando-se no veterano político. Mas mais o defenderam e, entre outros apoios, recordo que no muito activo mural de FB de um ex-bloguista surgiu o deputado Sérgio Sousa Pinto - antigo inventor do mote "causas fracturantes" e mudo durante a década de paixão socratista mas que, por estuporada amnésia colectiva, se tornou agora o xuxu do centro-direita porque faz algumas "críticas" ao PS - afirmando-o "grande deputado", elevando-o acima das fundamentadíssimas críticas a uma lei excessiva. Nesse fluxo Magalhães, e a sua iniciativa legislativa, saiu reforçado aos olhos da plácida opinião pública. 

Pouco depois o deputado solidarizou-se com um autarca do PCP que propunha o espancamento dos militantes e simpatizantes do PSD do seu concelho. E aconselhou, explicitamente, o uso de armas para esse efeito. A amálgama de identitaristas calou-se diante do despautério. E agora Magalhães atinge o "grau zero", fazendo insinuações sobre a vida sexual de Paulo Rangel, atingindo - que me lembre - o ponto mais baixo da refrega política em Portugal. De novo se calam os identitaristas, paladinos do movimento homossexual. Silêncio também nas lideranças do PS: nem o seu presidente, nem o seu líder parlamentar, nem o seu secretário-geral falam, distanciando-se desse modus operandi político. Nem a sua secretária-geral adjunta, de quem até por razões pessoais se poderia esperar mais atenção a este tipo de argumentação. Pois é - ou foi - casada com Paulo Pedroso, também ele em tempos alvo de acusações por práticas sexuais. Já agora também este ex-ministro socialista, ainda que tendo sido lesto a criticar Rangel pela sua ausência na luta pelos "direitos dos homossexuais" não encontrou vagar ou motivo para se distanciar da aleivosia de Magalhães. Como também o presidente da Assembleia da República não o fez, nem o grupo de eurodeputados do PS. Nada, o silêncio total das estruturas partidárias do PS diante desta execrável atitude José Magalhães. O javardo. No fundo mostrando que eles partilham, de facto, uma identidade: esse javardismo.

Certo, haverá quem diga que muitos se calam por receio da influência maçónica de Magalhães. É possível. Serão então javardos medrosos.

Termino  com uma proposta para os tempos de lazer. Vejam (ou revejam) a série "Billions". Poderão perceber melhor este javardismo. E constatar que, por si só, não tem grande sucesso.

A cantora Ágata regressa às candidaturas autárquicas

jpt, 06.09.21

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A cantora Ágata, após o seu trajecto autárquico na democracia-cristã, integra agora a lista do PS para a Junta dos Olivais, em Lisboa. Aqui deixo ligação para a efusiva celebração dessa participação eleitoral, pronunciada pela nossa Presidente Rute Lima, também colunista do prestigiado boletim "Público".

No texto presidencial não deixo de notar uma justificação pela inflexão ideológica da reconhecida cantora e activista social: "[Ágata] Sabe e defende que todos nós procuramos aprender com a vida que temos… procurando evoluir com aqueles que mostram alguma sabedoria.", decerto que por isso tendo transitado das involuídas trevas demo-cristãs para as luzes socialistas. E nesse venturoso trajecto da nossa Ágata ei-la agora: "Apoia a candidatura #maislisboa, #fernandomedina e #rutelima e integra a lista de candidatos à Assembleia de Freguesia dos Olivais como independente".

Enfim, nós por cá (para além do vale de Chelas, por assim dizer) todos bem...

A propósito de Paulo Rangel

jpt, 06.09.21

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Desde há cerca de um ano que aprendi a ter algum apreço pelo eurodeputado Paulo Rangel. Pois considero que no Parlamento Europeu teve posições muito ponderadas relativamente à situação do Cabo Delgado (e sobre isso aqui botei). Terão sido algo tardias. Mas o que é certo que os outros agentes políticos meus compatriotas (e não só) não foram mais céleres. Nem tão eficientes.

Enfim, por outras razões desde há algum tempo Rangel foi alvo de ataques soezes. Na imprensa instituída e nesta imprensa popular que são as "redes sociais". Senti-me solidário com o político, não só pela crença na necessidade de manter a distinção entre o "público" e o "privado". Mas também por um empatia enfatizada, dado que partilho algumas das características biográficas de Rangel que então foram propaladas. E aviltadas. E digo-o sem qualquer "drunk pride", mas apenas assumindo que também já me aconteceu perder a capacidade de traçar azimutes.

Rangel veio agora confirmar algumas dessas suas características. Imediatamente lhe soam em cima os urros de trabalhadores intelectuais - leio um feixe de sociólogos, historiadores, antropólogos, políticos, etc. - e letrados (pois dispõem bem as letras, mesmo no gutural twiterismo) que o acusam de hipocrisia. E assim consideram um homem "como ele" hipócrita pois, dizem-no, tem "ambições". Algo que qualquer bom católico do Antigo Regime (não do "anterior" mas do "Antigo", sublinho) considerará um pecado... pois violando a ordem natural das coisas, a ordenação divina. E nisso dizem-no também "incoerente", dado não partilhar as opiniões políticas que esses intelectuais/letrados têm. As quais consideram obrigatórias para determinadas "espécies".

De facto, essas pessoas - alguns conhecidos académicos, políticos, no activo ou retirados, jornalistas - reagem a la Fernando Rosas, quando veio gozar o político do CDS que "assumiu" (esse termo semanticamente tétrico) alguns traços da sua personalidade. Todos eles, repito, apoucam, repudiam, até insultam, a "incoerência", a "hipocrisia" de Rangel.

Enfim, pouco haverá para dizer. Apenas que é preciso ser mesmo muito ordinário para um tipo se dizer de esquerda e apoiar um bandalho que denuncia os activistas pró-palestianos à Embaixada de Israel. E depois vir - como se nada fosse - clamar contra a hipocrisia e a incoerência alheia. Sobre este tipo de gente quando eu era jovem usava-se um expressão: "dão o cu e cinco tostões". Para proteger o partido que lhes dá acesso aos tais "cinco tostões". E não têm pingo de vergonha.

Na Feira do Livro

jpt, 30.08.21

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Como já disse, fui ontem à Feira do Livro. Atrevi-me a isso tanto para seguir a sugestão do Pedro Correia como para assistir à sessão de apresentação de um livro de amigo meu. Encontrei o recinto bastante animado, apinhado de gentes que espero terem sido (estarem a ser) boas clientes. A sessão a que assisti foi simpática, e nela encontrei algumas pessoas que não via há décadas e outras que não tenho o costume de ver. Depois percorri uma das alas da feira. Jurara que não compraria livros, pois vivo sob a pressão de uma tripla escassez: espaço nas estantes, capacidade de concentração e, sobretudo, papel-moeda. Como tal nada vasculhei, de facto deixando distraídos soslaios aos pavilhões e nada ansiosas grandes angulares sobre a mole humana: mas apenas reconheci um afamado ex-bloguista, com o qual convivi em Maputo. Mas, não tendo nada para dizer, eximi-me a ir cumprimentá-lo: é destes recolhimentos, silêncios, que é feita a velhice, já me dizia o meu pai António. Chamava-lhes, lembro-me bem, "falta de paciência". E nada louvava isso, ainda que o praticasse sem rebuço.

Ainda assim não resisti ao velho hábito de comprar livros, e disso deixo registo. Já perto do final da ala, em sentido descendente, atentei numa banca de monos - as que sempre mais atraíam quando era cliente habitual da Feira. E, ao preço de um euro cada, de lá trouxe estes três volumes da colecção ABC da Cozinha, editada por Bárbara Palla e Carmo (Abril/Controljornal Editora, 1999): Tudo Sobre Arroz, Tudo Sobre Peixe, Tudo Sobre Vitela.

Quando regressado a casa percebi que voltara contente.

Sair da Estrada, de Paulo Dentinho

jpt, 29.08.21

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(Paulo Dentinho, Sair da Estrada, Caminho, 2021)

Deste Sair da Estrada deixo apenas as minhas impressões, nada procurando fazer-lhe uma recensão. Nele está como se uma autobiografia do Paulo Dentinho, 30 anos mundo afora com recordações de reportagens em 13 países, algumas sendo trabalhos únicos, outras com visitas sequenciadas e ainda as resultantes de estadas prolongadas, como correspondente da RTP. Nestas 400 páginas ficou um retrato do mundo das últimas décadas, do qual algumas memórias tão significantes se vão esfumando dado o constante turbilhão noticioso: a atenção às guerras e seus efeitos nas nossas antigas colónias (Angola, Moçambique, Timor-Leste), ao início da que viria a ser a maior guerra africana (actual Congo), aos conflitos do sul europeu, com a crise grega, a dissolução da Jugoslávia e o já esquecido projecto de agregação da Turquia à União Europeia. E, claro, no omnipresente conflito do Médio Oriente (Israel, Líbano), nas ondas de choque pós-2001 (Paquistão, França), e nas refracções da que foi chamada "Primavera Árabe" (Síria, Líbia). 

Realço três dimensões que muito me agradam no livro. Conheci o Paulo Dentinho em Moçambique, e ali muito interagimos. Foi-lhe uma estada difícil, tendo saído do país sob uma incessante corrente de ameaças de morte (e recordei isso neste postal). Recordo-me muito bem desse período e afianço que o capítulo agora dedicado a essa época é mesmo fidedigno, diria mesmo que "sem tirar nem pôr". Mais, muito me lembro da ida em 1997 do Paulo ao então Zaire - logo após o frenesim profissional que ambos vivêramos na visita de Jorge Sampaio ao país - e de como ele a contava quando regressado a Maputo. Narrativa que está agora, ressuscitada, no livro. Presumo pois que nos outros 11 capítulos seja também assim, uma colecção de memórias sem quaisquer adornos, reconstruções embelezadoras ou engrandecedoras do autor ou das situações. 

Outro agrado é forma como o Dentinho apresenta breves enquadramentos das situações em cada país. Pois em nenhum momento se deixa tentar pelo diabo ensaístico, nessas habituais resenhas históricas com intuitos explicativos ou nas recorrentes deambulações sobre um qualquer fio condutor que explique a miríade de males do mundo, qual filosofia de história de pacotilha ou atrevido estipular de cadeias de causas-efeitos, esse pobre efeito sob verniz intelectual que nada mais é do que reflexo das agendas das causas em voga. Pelo contrário, ele dá-nos ágeis contextos do que se passava, bem inscritos no que lhe é fundamental: como trabalhou. Pois este é um livro sobre jornalismo. E nisso - e é este o meu terceiro agrado imediato - o Dentinho, profissional do audiovisual, veio, e sem qualquer "escritor-fantasma", com uma escrita lesta e veemente,  a prender-nos. 

O livro traz-nos o modo de trabalho em "grande reportagem". O Sair da Estrada, escapar-se aos hotéis internacionais onde pululam as informações padronizadas, oficiais e oficiosas, fugir ao asfalto (mais ou menos) seguro, arriscando-se, muito mesmo, nas vielas e subúrbios, pelas veredas e picadas. E nessas andanças encontrar o rumo das notícias, essas de abertura televisiva ou primeira página de jornal, mas também quem lá está, exulta ou sofre. E é muito desses que o livro fala, os que cruzaram o repórter e lhe possibilitaram o trabalho, vários intérpretes ou motoristas, quantas vezes quais pisteiros, colegas, alguns já tombados em acção, bem como uma ou outra colega mais cativante cujos vislumbres acalentaram dias difíceis e excitantes, até combatentes ou meros passantes. E tudo isso sem requebros de romance de correspondente de guerra mas num muito mais relevante "é assim!". E, acima de tudo, traz-nos os seus camaradas de percurso, os homens da câmara, sempre invisíveis no ecrã e treslidos no genérico, correndo os mesmos riscos - até mais, pois mais visíveis -, sofrendo as mesmas ansiedades, co-autores das reportagens. 

E nisto o livro torna-se não apenas uma memória para "contar aos netos" - para que os filhos o venham a ler, como se justifica o autor em entrevista. Mas um verdadeiro livro de cabeceira para futuros jornalistas - pois se a indústria está em crise, a reconfigurar-se, a vocação jornalística estará em crescendo. Nele não poderão os aprendizes receber o "como fazer" manualesco mas avisarem-se da necessidade do improviso, de seguir a intuição própria e perseguir o risco. O trejeito próprio. Com os quais o Paulo Dentinho seguiu ao longo das décadas, conseguindo belas reportagens - ainda me lembro de o ver com José Mattoso nas montanhas de Timor e rir-me num "só este gajo para tornar aventurosa uma pesquisa arquivística", episódio que aflora agora no livro. E entre elas algumas reportagens de eco mundial, raríssimos feitos na imprensa portuguesa, de facto no país apenas comparáveis em eco internacional a algumas conquistas no mundo do futebol, do atletismo ou, em modo mais discreto, da diplomacia.

Mas há um outro país presente ao longo do livro, o nosso, pois subjacente capítulo a capítulo. São várias as notas sobre a radical incompreensão, mesmo desrespeito, que os repórteres de terreno (e que terrenos!) vão sofrendo pelos colegas e administrações, estes apoucando (até desperdiçando) notícias e peças, desvalorizando riscos, efeitos do peso do "modo funcionário" que vigora. O que se traduz em coisas inenarráveis, por vezes fruto de ignorância mas outras sendo mera pesporrência: a equipa detida por milícias em sítio ermo, o repórter telefonando para a RTP identificando o líder da  patrulha que os prende e deste lado recebendo um enfastiado "que é que queres que eu faça com isso?"; ou a equipa preparada para o sacrossanto "directo" no telejornal das 8, sita em local fustigado por fogo algo errático e esperando que decorra a cinzenta agenda dos "passos perdidos" (ouvir, sob fogo há meia hora, "aguenta mais um bocadinho, que o Jorge Lacão está a falar" é de bradar aos céus!), entre tantos outros desaforos e até malevolências. Um contexto laboral que leva o autor a desabafar, entre outros trechos similares (e dolorosos de ler): "Apetece-me vociferar contra estes tipos que construíram as carreiras quase sem fazer uma única reportagem. O único risco deles é gerir favores, fazer salamaleques aos poderes para se irem mantendo de direcção em direcção. Pobre país o meu." (62).

O livro termina no 2015 parisiense, no ataque ao Charlie Hebdo e subsequente captura dos terroristas, emotivamente narrado. Dentinho associa-o, como tem de ser, à perseguição ao dinamarquês Jylland-Posten em 2006, numa total defesa, sem rodeios nem escusas, da liberdade de imprensa, do humor, da blasfémia, dos que fazem "a provocação sistemática de tudo e todos, da extrema-direita aos meios católicos, dos políticos em geral aos jornalistas. "Rire, bordel de Dieu!" contra a apregoada "razão de Estado", agora dita multiculturalista pois respeitadora, sempre desejosa de controlar a imprensa, de facto "uma engrenagem em que a primeira etapa é a autocensura e a última a capitulação" (399). Gosto muito deste final, de cabeça erguida no meio do terror fanático e do censório "democrata". E ainda mais porque vem do Paulo Dentinho, homem de esquerda neste nosso país em que essa tal esquerda no último ano apoiou para Presidente da República uma candidata que reiteradamente atacou essa liberdade, apoucando de modo até soez as vítimas do terrorismo fanático. Esquerda essa que também propôs para o Tribunal Constitucional um candidato que segue a mesma mundivisão, dizendo serem iguais os fundamentalistas terroristas e os artistas/jornalistas democratas. Sem que tal cause qualquer repúdio, mero sobressalto que seja, no seio do tal "modo funcionário" de pensar e actuar, tão dominante este segue.

Os últimos anos já não surgem no livro. Dentinho foi director de informação da RTP [repito-me, escrevo sobre ele e esse processo excêntrico neste postal]. Os postos de chefia não são eternos e ele foi substituído - disse-se que por desconforto da comunidade futebolística devido a um postal seu no Facebook. Mas ninguém disse na época que o desconforto da malta do futebol, de Lisboa e Porto até La Valleta, advinha da sua imediata oposição a outras futebolices. Enfim, ele seguiu o seu rumo, menos agitado desde então. Com o seu renome ainda conseguiu um "furo" (como antes se dizia), uma entrevista a Lula da Silva, então preso. Lá foi, mas privado de um homem de câmara, e para in loco se deparar que lhe tinha sido atribuído um material de recolha audio e visual... danificado. Enfim, o tal "modo funcionário" mau demais, sempre capaz de surpreender pela... negativa.

Ou seja, se o Dentinho passou 30 anos a Sair da Estrada está agora fora da estrada, emprateleirado. Tem o programa "Mundo sem Muros", convenientemente alojado na noite longa da RTP3 (e na RTP Play, claro). Nele se fala sobre o mundo. Ali ele não entrevista políticos no activo, travestidos de "comentadores", nem ex-políticos feitos correias de transmissão de órgãos de soberania, partidos políticos ou grupos de interesse, nem tão pouco académicos catedráticos de "Tudologia". Pois ali o Paulo Dentinho aborda as situações do mundo, sentando-se com .... outros colegas, correspondentes. Faz jornalismo, com jornalistas, como jornalista. E, acima de tudo, como um homem livre.

Paulo, o livro ficou bom. Espero que os teus filhos o venham a ler, como desejas. E que a minha filha o faça. E que os jovens jornalistas e os ainda aprendizes o leiam, inebriando-se até, se possível. E sonho que alguns dos da nossa geração o façam. Entusiasmando-se com o teu meneio nas letras. Divertindo-se com as memórias das nossas vidas que nos trazes. E, ainda mais, que um ou outro de nós te possamos ler, homem livre que seguiste e continuas, concluindo: "como acabei assim?!". E que nisso, nessa amargura, possamos melhorar um bocadito, fazer por aligeirar a nossa canga. Graças a ti.

Enfim, Dente tens estado bem. E no livro estiveste mesmo bem. Abraço.

Eleições autárquicas nos Olivais, Lisboa

jpt, 27.08.21

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Nas próximas eleições autárquicas para a Câmara Municipal de Lisboa votarei na coligação "Novos Tempos", encabeçada por Carlos Moedas: pois o seu líder é homem de grande competência, razão não suficiente mas simpática, e a lista surge depurada da tropa PSD mais dada à politiquice; e porque é necessária outra concepção do concelho, uma diferente prática camarária e um corte no monstro autárquico clientelar. E porque o actual presidente não é politicamente aceitável.
 
Dito isto tenho uma outra opção para fazer: o voto na minha freguesia, Olivais. Gerida há um ror de tempo pelo PS, e há cerca de uma década com uma inenarrável presidente, Rute Lima, um arquétipo de caciquismo paternalista e imobilista (e, muito significativamente, também colunista do boletim "Público"). E é importante mudar isto. Em quem votar?
 
Notei hoje na lista da "Novos Tempos" (PSD et al) para a Junta dos Olivais, na qual estava predisposto a votar. Andam agora a visitar a esquadra, a igreja católica, os bombeiros, os mercados. E dizem (vou ser ríspido, balbuciam) que é "muito interessante". A um mês das eleições! Os dois partidos clássicos de centro-direita não conseguem apresentar, para uma freguesia lisboeta com 32 mil eleitores e tamanha especificidade socio-laboral, um documento reflexivo sobre a situação e uma súmula de medidas necessárias, inflexões possíveis, anseios a médio prazo. Apenas um "vamos fazer melhor". Inaceitável, de pobre que é. Votarei na lista de Moedas para Lisboa mas não nos Olivais.
 
Então em quem votar? No CHEGA não voto por razões higiénicas, nem leio. No BE não voto por razões médicas - independentemente de hipotéticos méritos -, pois se o fizesse não só me rebentariam as úlceras como seria assomado por uma septicemia letal.
 
Decidi então, há uma hora, votar no PCP - muito me lembrando que nos anos 80s o havia feito. O meu pai, o camarada Pimentel, foi candidato da (julgo que ainda) APU, num lugar inelegível, no fundo dos suplentes, e eu claro que votei na lista dele. Agora decidi-me pela reprise. E fui ler a documentação do PC sobre esta candidatura - velho hábito, de quem vive numa casa que poderia ser um polo olivalense do "EPHEMERA", tanta a livralhada e documentação "avulsa" do "partido" que aqui se acumulou. Para que não me acusem de reaccionário, agente das "redes sociais burguesas", aviso que fui à página da DORL do PCP procurando o que dizem sobre os Olivais. Também umas fotos simpáticas e um único documento (a um mês das eleições): um folheto, florido, lamentando a não realização dos Santos Populares, afirmando que o preço médio das habitações em Lisboa é de 590 mil euros (estamos a falar dos Olivais?), e que nos transportes públicos as pessoas têm de usar máscaras e de as pagar (é notório que o PCP teve uma enorme dificuldade em pensar este período pandémico). Enfim, uma candidatura vácua - e falta-me (sempre, mas hoje ainda mais) o camarada Pimentel para resmungar isso. Ou seja, também não vou votar nisto.
 
Sobra-me a IL, com a qual ando de candeias às avessas apesar de neles ter votado para a AR, dado a minha alergia ao "engraçadismo" que os comanda, e também à avidez desta sua candidatura lisboeta - pois Delenda est Medina, o que eles não ponderam na sua excitação de caloiros. E, resmungando, volto ao motor de busca: "Iniciativa Liberal, Olivais". Nada... Nada, mesmo.
 
Uma freguesia lisboeta com 32 mil eleitores, hoje em dia algo central em termos geográficos. Onde o PS ganha a Junta com 50 e tal por cento mas tem 30 e tal por cento nas legislativas - ou seja, uma mudança de voto autárquico aqui poderia ter forte impacto nos resultados camarários. E é este vazio, intelectual e político. A péssima presidente da Junta decerto que continuará a solo. Mas isso até é o menos, pois acima de tudo isto mostra como os partidos estão em colapso.

Os nossos tradutores no Afeganistão

jpt, 25.08.21

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Nunca quis botar sobre o Ministério da Defesa, é uma área de que nada sei e algo opaca (e assim o deve ser). E sobre a saída do Afeganistão nada digo, pois também nada sei, apenas lamento o processo. Mas ouço na televisão que o governo português se prepara para trazer alguns afegãos que trabalharam com o destacamento português (são referidos tradutores, mas possivelmente haverá outros). E cada um terá o direito de vir acompanhado pela esposa. Sendo explicitado que por "apenas uma esposa", no caso de serem indivíduos em casamentos poligínicos. Ou seja, terão que optar por uma delas. E pelos respectivos filhos, decerto.
 
Ora esta decisão extravasa completamente os assuntos da tutela e são totalmente inaceitáveis. Presumo que virá a ser acolhida pelo silêncio do mundo dos "identitaristas", os que cultuam as Filomenas Cautelas e quejandas. Mas que fique bem explícito para os socratistas, os do governo português e os intelectuais genderísticos, sempre ávidos de usarem "identidades" para sacarem recursos do Estado e nisso incapazes de criticar os santos do PS: diante da poliginia a única posição legítima é defender a total igualdade de direitos de todas as esposas e das suas proles. E esta decisão do governo português - independentemente da sua efectividade -, é uma barbárie (uso o termo de modo consciente), uma sobrevivência ignorante do pior da evangelização de séculos atrás. Em pleno 2021 um paroquialismo de sacristia. Uma vergonha.

Cidade Suspensa

jpt, 23.08.21

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo, Lisboa 2020)

No início de Março de 2020, mesmo que nos poderes fácticos ruminassem ainda os flâneurs flanantes, muitos de nós - angustiados com o que se passava nos países vizinhos - nos apressámos a retirar os petizes das escolas e a encerrá-los em casa, enquanto começávamos a evitar os avoengos. Em meados do mês o governo cedeu à evidência e declarou o confinamento - enfim, o Primeiro-Ministro haveria depois de proclamar que isso nunca existira mas essa sua proposta de "narrativa" não teve sucesso.

Fechámo-nos então todos em casa - com as consabidas excepções laborais -, desvanecendo o bulício de cidades e vilas. E logo no dia seguinte saiu à rua o Miguel Valle de Figueiredo, diariamente a fotografar o vácuo humano que o circundava. Calcorreou Lisboa e fez este "Cidade Suspensa", grande livro em formato de bolso, colecção de fotos a preto-e-branco, essa cor do silêncio. Guardou assim a memória da confinada Baixa monumental, do seu Tejo então desguarnecido, com vislumbres das míticas colinas e laivos dos bairros antigos ainda de tez popular, aquilo que sempre nos surge como o identitário da grande Lisboa e do vetusto alfacinha. E a das avenidas em tempos "novas", esse restos sempre apreciados do Estado Novo, tal como a da marca d'água desta II República, as fileiras de edifícios de serviços e as plataformas de transportes. Todos esses sedimentos da cidade unidos pela escassez de gente, tal como os diferentes templos, estes numa ecuménica solidão. Mas também aos lisboetas o fotógrafo perseguiu, mostrando-nos que não estavam eles desaparecidos, devastados, mas apenas acoitados, assomando às varandas, resistindo sarcásticos (decerto que ficará lendária a sua fotografia do lençol pendurado clamando "My husband is for sale"). Demorando-se, cruzou os parcos transeuntes nos seus inadiáveis, submersos nestas máscaras sanitárias, então polémicas, feitas veros cabrestos das almas. Bem como as restantes crianças ainda assim brincando. E, porque de saúde tanto se falava, fixou alguns desportistas a solo. Trouxe ainda médicos e enfermeiros afadigados, esconsos pois no securitário exigido, além de trabalhadores avulsos num desapoiado vai-e-vem pedonal, ainda mais exaustos do que no antes desta toda angústia. Foi assim em Março e Abril de 2020, durante a unânime suspensão. E termina o livro no 1º Maio, na visão da encenação pública da Alameda, pobre festa que tão resmungada foi, quando a tal momentânea congregação se cindiu.

Passou já um ano e meio sobre este início. E naquela época não se esperaria que tudo isto demorasse tanto tempo. Foi uma cesura, no tempo. Mas, mais do que tudo, nos ritmos. Nas nossas mentes, até bem mais do que nos hábitos, e quanto estes mudaram... Cesura que tanto perdura. Releio este livro, refolheio-o. E diante do preto-e-branco, de todo aquele silêncio que ecoa nas páginas, parece-me que urge cerzir o tão esgarçado. Pois, de facto, e por muito que o tenhamos alvitrado ou mesmo sonhado, nada de épico aconteceu.

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Cidade Suspensa: Lisboa em Estado de Emergência, Miguel Valle de Figueiredo (fotografias), Bruno Vieira Amaral (texto), Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2020.

 

 

 

 

(Com este postal comecei no  meu blog uma série sobre os meus "livros do covid". Como vem aí a Feira do Livro deixarei também aqui no DO alguns desses postais, que nada mais serão do que "apelos à leitura" desses livros com os quais dialoguei sobre esta era).

O "Público" despublica

jpt, 20.08.21

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Em Abril de 2020 estávamos confinados, e a maioria muito ansiosa com o Covid-19. Nisso muito se lia e debatia sobre o assunto. No dia 15 o epidemologista Pedro Caetano publicou no "Observador" um texto veementemente crítico dos discursos dominantes em Portugal, manuseando os dados estatísticos para afirmar que se escondia uma situação gravíssima. 

Foi um clamor generalizado, e nesse dia o texto foi mais pontapeado do que defendido, com enorme arreganho, coisas do ambiente tenso que então se vivia. E muitos atacaram o jornal por o ter publicado - lembro-me de ter lido um jornalista (que fora o mais activo nos blogs entre o jornalismo português) defender que o "Observador" não deveria ter autorização para... existir. E do meu nojo diante de tal afirmação vinda de um jornalista, mas percebendo-a denotativa da mundivisão socratista, linha essa em que esse se perfilhou sob o capuz de "independente". Em suma, foi um dia em que muito se bateu no cientista e no jornal, este dito de "extrema-direita" e, como amiúde implicita Pacheco Pereira, mero instrumento de grupos económicos. 

No dia seguinte o "Observador" publicou um artigo do biólogo João Correia. Também ele manuseando os dados estatísticos (e uma bela ironia, já agora) opôs-se explicitamente ao artigo da véspera, dando uma visão bastante diferente da situação sanitária do país. E, claro, também esse texto foi bastante discutido na imprensa, blogs e no eixo FB/Twitter (e muito louvado, diga-se, pois também terá servido um pouco de paliativo para as nossas angústias de então). Ainda assim eu não li um elogio que fosse à estratégia editorial do jornal de apor visões tão opostas sobre assunto tão candente. Mas pelo menos nesse dia não vi apelos ao seu encerramento e alusões à sua esconsa agenda fascizante. 

Ontem o jornal "Público" publicou um artigo do médico Pedro Girão. Avesso à vacinação dos menores - o que é uma posição legítima -, e clamando a falta de comprovação científica das vacinas - o que sendo uma atoarda é legítimo de ser dito, pois não viola deontologia nem é calúnia. É certo que o "Público" tem todo o direito ao seu critério de selecção editorial, mas este texto foi publicado. Assim, e se afinal contrariada, a direcção do jornal poderia ter vindo afirmar a sua discordância com o seu conteúdo. Ou poderia ter escrito ou induzido a escrita de um texto mais informativo de teor inverso, até explicitamente crítico. Mas não, o jornal "Público" sob o director Manuel Carvalho, pura e simplesmente apagou o texto ("despublicou-o", neste falsário jargão de agora). 

Convoco o exemplo de Abril de 2020 (também sobre o tema Covid) para, na comparação, ilustrar como este episódio de ontem tanto demonstra um jornal a bater no fundo, e com estrondo. E esclarece bem o tipo de mentalidade dos seus leitores, que isto aceitam. Pior ainda, mostra o teor colaboracionista dos seus "colaboradores" - pois se os jornalistas da casa têm de ganhar o salário já os "colaboradores" não têm qualquer desculpa para pactuar com coisas destas. Quanto ao "grupo económico" por detrás do "Público", isso já é matéria para as elaborações de Pacheco Pereira.

A Alimentação Escolar

jpt, 19.08.21

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Quando aos 18 anos tirei a carta de condução herdei o Fiat 600 (DI-51-56) da minha mãe. O carro não tinha cintos de segurança, nem isso era obrigatório pois já algo antigo. Antes eu, como tantos outros, crescera a andar no banco da frente - e lembro-me de um magnífico volante de plástico, com manete de mudanças e ventosa para colar ao tablier, que tive cerca dos meus 8 anos. Pois até isso era costume. Só anos depois de eu conduzir é que começou o controlo do consumo alcoólico aos condutores - e de início apenas se os procurava sensibilizar (e aos polícias) para o assunto. Entretanto perdi alguns amigos no asfalto. E, para ser honesto, tantos de nós estamos aqui apenas porque "ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo". Lembro-me bem que todas essas alterações e as campanhas que as acompanharam foram acompanhadas dos exaltados dislates de muitos - clamando contra o Estado totalitário, fascista/comunista, a intrometer-se nas questões da liberdade individual, etc. 

Agora o governo decidiu proibir a venda nas escolas de uma série de produtos alimentares prejudiciais. É consabido que há um crescendo de obesidade infantil/juvenil, principalmente entre os mais pobres. E de imediato, de novo, surge o mesmo tipo de gente aos gritos, defendendo o que julgam ser as tais liberdades individuais. Ora o Estado existe para isto, não para termos um primeiro-ministro corrupto, um ministro de negócios estrangeiros "parolo" conivente com essa corrupção, ou um secretário de estado também conivente com essa roubalheira e que depois vai para presidente da câmara denunciar cidadãos a países estrangeiros. Isso é que são os inaceitáveis ataques às liberdades individuais. Ao contrário, regulamentar algo racionalmente a dieta que se vende nas escolas é o necessário exercício estatal. 

Os pretensos inteligentes dirão que estes meus exemplos, a segurança rodoviária e a alimentação escolar, são diferentes coisas. São, claro, mas não seja por isso: há cerca de uma década o governo regulamentou o nível máximo de sal a incluir na produção panificadora. Instaurou-se o fascismo? O comunismo? Fomos acorrentados a uma hidra dietética?

Sobre o Afeganistão

jpt, 18.08.21

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Sobre esta coisa do Afeganistão deparo-me com vários conhecedores da situação. Desde um ex-deputado e agora candidato em Loures pelo BE que surge no reflexo típico de culpabilizar o Ocidente, cujos governos "bombardeiam (...) governos progressistas". Para outros - decerto que "progressistas" - aquilo é ab ovo culpa dos EUA, pois descobrem que estes apoiaram a guerrilha anti-soviética [note-se que há um já velho filme sobre isso, "Charlie Wilson's War" (Jogos do Poder) com o actual Jimmy Stewart, o grande Philip Seymour Hoffman e a divindade Julia Roberts, não estando assim estes investigadores a dar-nos grandes novidades]. Mas nenhum desses aborda os motivos da invasão soviética, decerto que por os considerarem irrelevantes.
 
Muitos, até não interseccionalistas, lamentam o destino das mulheres afegãs - mas poucos (não leio sequer um) se preocupa com a gente afegã qual eu. Outros, mais interseccionalistas e nisso paladinos da etnicização de Portugal e restante pérfido Ocidente, anunciam que o decadente governo afegão pró-ocidental descurou uma etnia (os pastós), deixando assim entender que a etnicidade é algo problemática, mas estarão certos que apenas nos longínquos vitimizados transeuropeus. Outros ainda, que leio há anos defendendo o status quo luso, apontam que a derrocada do poder de Cabul se prendeu a ter sido muito corrupto, assim anunciando que - decerto que apenas fora de Portugal - a corrupção estatal enfraquece as vias democráticas. E outros ainda, de recorte mais intelectual, concluem que os ocidentais nada percebem sobre o Afeganistão.
 
Continuo a crer que está (quase) tudo nos livros, e só lamento não ter a militância, a disciplina e, acima de tudo, a inteligência para ler o que me falta e, acima de tudo, reler o que me fez. Enfim, daquilo que me passou pela frente deixo um aviso e uma memória: o aviso, superficial, é sobre o que virá aí naquelas bandas. Será de ler "As Novas Rotas da Seda" do Frankopan. Quem o ler poderá fazer postais no FB, e nos blogs. E, alguns, até irão à TV botar faladura.
 
A memória, que é a coisa importante: está tudo no "O Americano Tranquilo" (há várias edições portuguesas) de Graham Greene (1955). Li-o aos 16 anos e descobri-me Thomas Fowler. Não como alter ego, como acontece nas leituras juvenis. Mas como reconhecimento, num "eu sou este gajo". Ainda hoje me surpreendo como me conheci tão cedo. Reli-o três vezes até aos 25 anos e não mudei de ideias. Depois aos 40s e sorri, na comprovação desse reconhecimento. Quando for à capital, às estantes do meu pai, relerei de novo, agora quase aos 60, usando este exemplar paterno, aquele com o qual descobri Fowler (jpt). Não me dará para postais de FB ou de blog. Mas, claro, e como sempre, dá-me para encolher os ombros diante dos convictos a la carte.

A "Cancel Culture" Contra o Xadrez

jpt, 15.08.21

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Recebo várias mensagens com uma denúncia do Xadrez, devido ao seu conteúdo racista, machista, antropocentrista e capitalista. São dislates de quem nem o joga nem lhe compreende os sentidos implícitos. Pois o Xadrez é o jogo mais consentâneo com os bons valores actuais: é a apologia do matriarcado, sendo também memória dessa era histórica, pois nele domina a Mulher-rainha, que tudo e todos come, protegendo o frágil Homem-rei, eunuco passivo, encastrado num quase imobilismo. É, e muito, a expressão da verdade decolonial, pois todos os jogos demonstram a agressão dos brancos face a bem ordenadas e pacíficas sociedades dos negros, condenados à resiliência em estratégias defensivas consagradas. É também expressão do sentir ecológico, na afirmação da irredutível riqueza da Natureza, demonstrada na criatividade única dos rebeldes movimentos do Animal-cavalo. E, finalmente, afixa os direitos de género, não só ao consagrar a elegância arguta do cruising gay, nesses "Bispos" em lestas diagonais debicando meros peões, marujos e magalas das forças adversas. Mas mais ainda na sua proposta filosófica até radical, anunciando o transgenderismo como óptimo existencial, pois tudo estrategizando para promover a cinzenta peonagem em exultantes e ariscas Rainhas.
 
Parai pois com essas afrontas ao iluminado Xadrez. Jogai-o. Apreendei-o.

Voltaren

jpt, 15.08.21

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Na sempre aziaga sexta-feira 13 tombei, inopinadamente, sob a urgência dos unguentos. Acabrunhado pelo império da radiculite fiquei à mercê de mãos caridosas, as quais me aspergiram com a última edição da "Visão", boletim que nunca leio - à excepção da sua excelente (fora-de-)série "Visão História", que sempre recomendo.
 
Assim sendo, neste meu imobilismo desalentado, deparei-me com uma entrevista a José Pacheco Pereira (publicitando um novo livro, o que não sendo soez é característica...), cuja retorcida argumentação muito acalentou os sintomas dos meus "bicos de papagaio". Mas tenho de ser justo, ali deparei também com uma belíssima crónica, "O avô António e um restaurante à beira da estrada" de Dulce Maria Cardoso, uma pérola rara nos periódicos nacionais, um verdadeiro Voltaren moral adequado os meus actuais padecimentos. Se não encontrardes a revista acorrei à pirataria pdf e lede o texto...
 
Madrugo hoje, insone de incómodo, e noto que no pavilhão vacinatório de Odivelas a turba rodeou o vice-almirante Gouveia e Melo, apupando-o e apodando-o de "assassino". Uma vera feira medieval, moles ululantes feitas de corcundas, raquíticos, alguns leprosos camuflados, desembarcados das "naves de loucos", suplicantes, um ou outro escravo eslavo, bruxas, pernetas, prostitutas e manetas, "endireitas" agitadores, pajens pernósticos, frades demoníacos, agentes de Castela e Aragão, mendigos ladinos e quantos mais, e isto enquanto os israelitas se escapavam, lestos, desde logo sabendo que a procissão irá sobrar sobre eles... É assim na capital do Reino.
 
Por cá, na vila a Sul do Tejo, narram-me o que se passa na vacinação. Inoculadas que foram todas as gerações mais velhas, sem preocupações nem incidentes, chegou agora a vez dos jovens, os dezoitonários, mancebos e mancebas... Que vêm acompanhados das mães, pedem apoio qual recobro sofrido, neste chegam a desmaiar, e é tamanha a histeria que - e só agora, apenas para esta leva júnior - se instalaram colchões no chão do pavilhão para que recuperem da "agressão" vacinatória.
 
De todas estas desvairadas coisas logo se soube alhures. Ao largo da costa aprestam-se os barcos bárbaros, velame já visível desde o promontório, e da raia chegam novas de que se agitam os berberes. D'El-Rei nada se espera, cirandando como sempre...
 
E eu, amarfanhado por este grifo que me acomete, feneço. Pois, afinal, não há Voltaren a dar-lhe.

Um Poço sem fundo

jpt, 12.08.21

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Anda para aí (quase) tudo entusiasmado com esta campanha autárquica de Oeiras - há décadas dominada pelo cacique que o PSD lá colocou e manteve até ser preso por más práticas, o qual depois renasceu como presidente "independente". Agora surge este jovem, presidente jotinha, brincando ao 007 - porventura será bem apessoado, disso ajuizarão as senhoras e alguns outros "géneros", pelo menos o suficiente para que possa aguentar a pantomina.
 
Para justificar estes propósitos diz o moço Poço que quer provar não serem os políticos todos iguais. Haveria outro caminho para isso, claro: identificar problemas, apresentar soluções realistas, pois plausíveis e sustentáveis.
 
Mas o jotinha prefere assim. Torna-se óbvio, é um Poço sem fundo. E disso se rirá o veterano, o tal que o povo sufraga no malvado "rouba, mas faz".

Os grafitos no Padrão dos Descobrimentos

jpt, 11.08.21

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Alguém foi-se ao Padrão dos Descobrimentos e escreveu uma qualquer tralha. Caiu "o Carmo e a Trindade". Gente "saiu à rua" (hoje em dia é "aos teclados") arrepenhando os cabelos, rasgando as vestes, acorrendo à honra pátria, a Câmara aprestou-se a limpar a ofensa aos ancestrais, a célere Polícia Judiciária pôs-se em campo e logo desvendou ser o crime uma agressão estrangeira, assim sossegando-nos por não se tratar de uma sempre temível traição.
 
Todo este disparate dá-me vontade de... também bramir. Desde há imensos anos que está Lisboa (e não só) carregada dos tais grafitos. Boçais e imundos. Dizeres estapafúrdios, desenhos indigentes, rabiscos, miríades de "bastos" de todos os tamanhos e posições. Toda essa tralha amadora e morcona de facto legitimada e potenciada pela consagração - pela academia, pelas instituições estatais, pelo "gosto informado", agora até pelos construtores civis - da "street art" (de facto, uma mera "street curio"), que nada mais é do que o piroso desta era - a patética Pasionaria da Graça, os "Pierrot com lágrima" a louvar os profissionais de saúde ditos a "linha da frente" contra o Covid, etc. No fundo, tudo isto seguindo a coberto pelo culto da "intervenção".
 
E agora todo este "ó da Guarda!", "Aqui-d'el-rei!"? Recordo que há uns tempos o jornal "Público" (claro) publicou um artigo de 4 universitários sitos em universidades americanas. Portugueses, brancos, de meia-idade, e de nome compósito. Defendiam a prática espontânea da "intervenção" "decolonial" sobre os monumentos. E desvalorizavam os críticos dessa festança como meros "homens, velhos, brancos e de certa classe social" [burgueses, entenda-se. Ou seja, os que tendem a assinar com nomes compósitos, para quem não perceba]. Alguém deu porrada nesse "paper curio"? Nada, que ninguém se vira a esta gente dos ademanes.
 
Enfim, vai um ror de disparates. E nisso lembrei-me de um texto que escrevi há sete anos quando encontrei uma "intervenção" "decolonial" no ex-libris colonial em Bruxelas. Para quem tiver paciência aqui deixo a ligação.