Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

30 metros quadrados

João Sousa, 14.01.26

«Às sete horas da manhã, Allen Purcell, o jovem e optimista presidente da agência de pesquisa mais recente e mais criativa, ficou sem o quarto de dormir. Mas em troca ficou com uma cozinha. O processo era automático, controlado por uma fita impregnada de óxido de ferro e escondida na parede. Allen não tinha autoridade sobre ela, mas a transfiguração ocorrida era agradável para ele; já se sentia desperto e estava pronto a levantar-se.

Bocejando e piscando os olhos, mas já de pé, ele tacteou à procura do botão que fazia aparecer o fogão. Como de costume, o fogão estava meio escondido na parede, só parte dele era visível do quarto. Porém, bastava que o botão fosse premido com firmeza. Allen premiu-o e, com um suave zumbido, o fogão emergiu completamente da parede. (...)

O fogão, devidamente desdobrado, transformou-se também em lava-louça, em mesa e em tabuleiro. Ainda rodaram para fora de todo este equipamento duas cadeiras, e por debaixo dos mantimentos armazenados podiam ver-se os pratos.»

Philip K. Dick, O Profanador

 

Vejo alguns, lá atrás, esbracejarem contra os 30m2 definidos pelo candidato Correia. Vocês não percebem: o homem já está a viver no futuro.

De dilação em dilação até à prescrição final

João Sousa, 13.01.26


[foto: Miguel A. Lopes - Lusa]

José Preto deixa de ser advogado de Sócrates.

Quando soube da rabulazinha de renúncia de Pedro Delille, recordo-me de pensar que estaríamos no início de uma nova técnica dilatória. Não fui, claro, só eu a pensá-lo. A própria juíza presidente do colectivo, no despacho em que concedeu 20 dias para Sócrates nomear outro advogado, alertou:

«Em tese, a interrupção da audiência de julgamento permite que, no futuro, o Mandatário constituído no processo possa novamente renunciar, e assim sucessivamente, com outros mandatários, produzindo um efeito dilatório intolerável para a boa administração da justiça que cabe aos Tribunais assegurar, com valor constitucional, porquanto é garante do estado de Direito democrático».

Em menos de dois meses, já tivemos: José Preto ser o novo advogado de Sócrates; José Preto ser internado no Santa Maria com uma pneumonia, ter alta ao fim de doze dias e ir para casa "cozer" uma virose contraída durante o internamento; Inês Louro, advogada oficiosa nomeada para acompanhar Sócrates durante a ausência do seu advogado, recusar-se invocando "objecção de consciência" por ser militante do Chega e antiga militante do PS; Ana Velho, segunda advogada oficiosa, pedir dispensa devido à "dimensão e complexidade do processo"; José Preto deixar de ser advogado de Sócrates. Seguramente que não fui exaustivo.

E agora, o que se segue? Agora, aproveitando acasos e fazendo encenações, receio que será, nas palavras da juíza: "... e assim sucessivamente".

Seixal 2025

João Sousa, 10.10.25

Lembrei-me desta cena do clássico Aeroplano quando, na manhã de quarta-feira, tentei atravessar a estação da Fertagus no Fogueteiro. Em distribuição de folhetos de propaganda,  gente do PS, AD e Bloco (e penso ter visto também um elemento da IL) empatava a vida dos passageiros. O PS, com precisão militar, chegou a colocar batalhões nas duas saídas laterais para evitar tentativas de evasão. Do Chega não vi ninguém, mas creio que há algumas semanas que anda por ali um carro de campanha (considerando que vou àquela estação um par de vezes por semana, faço esta extrapolação com bastante confiança).

A única força política que não vi lá com folhetos - foi a CDU. Nem tenho visto muitos "meios humanos" aplicados pela CDU nestas autárquicas. Por exemplo, ao contrário do que é habitual, não ouvi nenhum carro de campanha aqui no bairro. Pelo que vejo nos sítios que frequento (entre o Seixal e Fernão Ferro), a CDU tem-se limitado a uma campanha bastante conservadora: cartazes nas ruas e folhetos no correio, mas pouco mais além disso. Podem especular se a CDU não estará a gastar pouco por ter confiança na vitória. Eu acredito no contrário: que a CDU está, isso sim, a considerar a câmara do Seixal como muito provavelmente perdida, e por isso evita enterrar aqui muito dinheiro.

(Por conversas que tenho tido com pessoas próximas do PCP, também Setúbal e Palmela são autarquias que o partido encara com bastante apreensão).

Já em 2021 especulei que o PS investira muito em propaganda por sentir que tinha uma forte possibilidade de ganhar a Câmara do Seixal. Acabou por ficar em segundo, com menos 7% (cerca de 4000 votos de diferença). Este ano, voltou a investir fortemente, começando logo em Fevereiro com uma campanha "teaser":

teaser de campanha

Mas talvez a confiança do PS tenha sido prematura...

Depois daquele arranque de campanha, aconteceram as legislativas que chocaram tantos com a vitória do Chega no concelho do Seixal. É verdade que a distância entre o Chega e o PS foi inferior a 0,5%, mas a vitória do Chega em Fernão Ferro foi mais do que clara, tendo o PS (que até ficou em terceiro, atrás da AD) menos quase 10% dos votos. Fernão Ferro é uma freguesia que tem crescido em população, e muita dessa população vem de Lisboa e arredores. Vindo de fora, muito desse eleitorado não tem a "fidelidade autárquica" das outras freguesias, limitando-se a transferir para essas eleições o seu voto legislativo: não será por acaso que, desde 2017, a freguesia de Fernão Ferro é socialista (a única do concelho).

É claro que resultados de legislativas não são extrapoláveis para autárquicas (o próprio André Ventura o disse recentemente). Mas o resultado das legislativas aqui no concelho, a maneira como ele foi obtido, e o facto de a candidata do Chega no Seixal ser uma das suas vice-presidentes, faz-me crer que André Ventura está a investir bastante aqui nas autárquicas. E seria irónico que, após tantos anos de tentativas, o PS visse, finalmente, a CDU perder a câmara do Seixal - mas para o Chega.

Livros de cabeceira (14) - série II

João Sousa, 26.10.24

panorâmica

Ler na cama é um desporto do qual estou reformado: com a velhice, nem o pescoço nem os olhos se prestam já a tais acrobacias. A mesa de cabeceira limita-se agora a ser... mesa de cabeceira, tendo a sua tarefa literária sido herdada por uma (também) velha mesa que reside no meu quarto.

A fotografia supra pode levar algum visitante mais precipitado a deduzir a balbúrdia. Não é verdade: há ali um método e muito fácil de descrever. A pilha da esquerda está reservada a livros e revistas cujo formato facilita o seu transporte na mochila: são estes os que viajarão entre o Seixal e Lisboa. Para o meio, vão as revistas ainda por ler com dimensões que desaconselham o seu consumo fora de casa. Na pilha da direita, enquanto não descobrir forma de as arquivar com dignidade (nesta casa, arrumar as papeladas tornou-se um nível avançado de Tetris), vão-se depositando as revistas lidas.

Não vou ser exaustivo na descrição deste centro-direita. A última revista que li, comprei-a porque, sendo eu um miníaco, padeço também de alfismo. Antes desta, uma velha revista cultural brasileira do início dos anos 80, resgatada ao fundo do inventário de um alfarrabista, que contém uma longa entrevista a Jorge Amado, uma (menos longa) entrevista a Wendy Carlos, um texto de Dick Gregory sobre a sua viagem ao Irão durante a crise dos reféns americanos, duas análises a fenómenos pop brasileiros daquela época, e um par de contos vagamente psicadélicos.

livros

Na coluna dos livros (e revistas alivradas), os primeiros três são releituras planeadas para o Verão - e proteladas para o Outono. Depois, um livro sobre Albufeira publicado pela Arandis, uma editora algarvia. A Máquina Mágica é uma colectânea de textos publicados pelo autor numa coluna de "passatempos computacionais". O livro do Carlos Fiolhais, comprei-o por ser de quem é. Seguir-se-ão um par de edições da Crítica XXI; uma colectânea de entrevistas da Paris Review; e o primeiro número da Granta portuguesa, que comprei há anos em promoção na feira do Livro e nunca cheguei a ler.

Pelo menos, é este o plano. Nada garante que, entretanto, a ordem não seja refeita por um qualquer capricho, ou que um novo livro não tenha entrada directa para o meio da pilha ao invés de ir para o fim.

Ironias deste mundo

João Sousa, 18.06.24

"Foi um desfecho imprevisível já que, até ao final da tarde de ontem, Ursula von der Leyen, António Costa, Roberta Metsola e Kaja Kallas eram dados como (quase) certos para liderar a Comissão Europeia (CE), o Conselho Europeu (EUCO), o Parlamento Europeu e representar a política externa da UE ao mais alto nível, respetivamente. A surpresa chegou momentos antes do arranque do encontro informal entre os líderes, em Bruxelas, quando os sociais-democratas pediram a rotação da presidência do EUCO entre os socialistas e o PPE, dois anos e meio para cada um. Uma proposta que não terá agradado aos socialistas dentro da sala, que esperavam que o primeiro, e um eventual segundo mandato (que tipicamente é garantido), ficasse para António Costa." - Eco, 18-06-2024.

 

Tão giro, ver os socialistas europeus abespinhados por lhes estar a ser imposto um "compromisso" semelhante ao que os socialistas portugueses impuseram para a presidência da Assembleia da República.

Quem nunca...?

João Sousa, 17.06.24

«O antigo chefe de gabinete de António Costa, Vítor Escária, que tinha 75.800 euros em “dinheiro vivo” numa estante, disse ao procurador Rosário Teixeira (que liderou as buscas da Operação Influencer à residência oficial do primeiro-ministro) que não se lembrava de ali ter aquele dinheiro." - Observador, 17/06/2024.


Quem nunca encontrou, ao virar as almofadas do sofá ou quando esvazia a mochila, uns trocos há muito esquecidos?

Os amigos de Alex

João Sousa, 12.11.23

Foi-me impossível ouvir o comício de ontem de António Costa sem recordar o texto que João Gonçalves publicou na terça-feira, um par de horas antes de Costa anunciar a sua demissão:

«Apresentar a ou b como “melhor amigo” de António Costa é uma contradição nos termos. Costa não tem amigos, “melhores” ou “piores”. Tem, e deixa de ter, pessoas que servem objectivos. Uma vez alcançado, ou não, o objectivo é cada um por si e Costa por Costa.»

E agora, o nosso momento zen

João Sousa, 12.11.23

«Vítor Escária não sabia “muito bem o que fazer” ao dinheiro, afirma o seu advogado.

O advogado de Vítor Escária, Tiago Rodrigues Bastos, falou aos jornalistas no Campus da Justiça em Lisboa, afirmando que “Vítor Escária foi confrontado com uma quantia avultada e que efetivamente não sabia muito bem o que lhe fazer, era uma questão que ele estava a ponderar como fazer”.»

Jornal Económico, 11/11/2023