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Delito de Opinião

Eraser

João Sousa, 09.04.21

À mesmíssima hora em que o juiz Ivo Rosa falava ao país, o canal Hollywood transmitia este filme:

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Isto não se inventa!

(Eraser é um título esquecível da filmografia schwarzeneggeriana. Tecnicamente competente mas sem grande rasgo e com apenas um par de one-liners razoáveis, penso que o filme já evidenciava o esgotamento de uma fórmula que tão bem funcionara durante anos. Apesar disso, ficção por ficção, preferi ficar a assistir à do bom velho Arnie.)

Fluido não newtoniano

João Sousa, 01.04.21

"Lei é Lei e a Constituição é a Lei Suprema, que é nosso dever cumprir e fazer cumprir", diz Costa a propósito dos diplomas sobre apoios sociais. Curiosamente, este é o mesmo Costa que dizia, há relativamente pouco tempo, que "confinamento é para manter diga o que disser a Constituição". A Constituição, conforme a conveniência para Costa, parece ser ora os Mandamentos escritos em pedra, ora um conjunto de preceitos vagos passíveis de interpretação caso a caso. E vários dos comentadores que enxameiam as televisões parecem, em diferentes alturas, alternar de modo quase esquizofrénico entre pensarem que não se pode ter uma leitura "artística" da Constituição sob pena de vir aí o caos e a escuridão, e acharem que não se pode ter uma interpretação tão fundamentalista da Constituição que impeça a resolução de problemas criados por circunstâncias extraordinárias. E esta plasticidade de discurso tão chico-esperta é, como dizia o outro, uma coisa que me chateia, pá!

Ponto zero

João Sousa, 09.02.21

Ouviu-se há dias um leve rumor de indignação (e gozo) por um gráfico tuitado (e entretanto apagado) por uma das centrais de propaganda do PS:

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Uma tempestade num cálice de licor, é o que vos digo. Em vez de censurarmos a falta de vergonha do partido, louvemos a sua contenção por não ter publicado algo assim:

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Nota: àqueles que sintam a tentação de justificar com habilidades semelhantes feitas pelo PSD, CDS, BE ou até pelo Clube de Chinquilho de Freixo de Espada à Cinta, respondo antecipadamente que as canalhices não se anulam - somam-se.

Prognósticos só no fim do jogo

João Sousa, 03.02.21

Quando, no início da pandemia em Portugal, pessoas que me são próximas apontavam para a desgraça que assolava países civilizados e papagueavam o "milagre português" titulado pela comunicação social e propagandeado por responsáveis(?) políticos, eu respondia, cauteloso, com um "prognósticos só no fim do jogo" e recordava-os de que, há anos, o Sporting foi ao estádio da Luz ganhar 3-0 na primeira volta - e depois foi o que se viu. É o que se vê: por milhão de habitantes, o Covid já matou mais em Portugal do que em Espanha. O Reino Unido e a Itália, como a Espanha destacados desde o início, ainda estão desconfortáveis na liderança mas, se mantivermos este sprint, a Itália está perfeitamente ao nosso alcance.

O contexto

João Sousa, 30.01.21

O jornal Sol publicou isto na primeira página de hoje:

sócrates censura ou elogio

O que temos aqui é um dos mais óbvios exemplos do problema de titular entrevistas com frases fora do contexto: José Sócrates disse aquilo como censura - ou como elogio? Assim pendurada no ar, a frase até parece sugerir a primeira hipótese. Contudo, conhecendo nós o historial de Sócrates como o conhecemos, só é possível interpretá-la como um arrebatado elogio.

(Agora a sério: se é de uma enorme cara-de-pau Sócrates criticar, com tal argumento, este PS que o renegou quando caiu nas redes da Justiça, também foi de uma enorme cara-de-pau a demarcação por este PS que "nunca viu nada" nos anos em que o aclamava.)

A campanha minimal

João Sousa, 21.01.21

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A comunicação social publicitou que Marcelo Rebelo de Sousa seria o candidato, após Vitorino Silva, com orçamento de campanha mais reduzido. Além disso, Marcelo prescindiu dos tempos de antena e só planeou fazer "campanha de rua" durante quatro dias por, veja-se lá, D. Marcelo I "O Justo" pretender "evitar expôr uma disparidade entre as imagens da sua história recente como Chefe de Estado e as dos outros candidatos".

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Campanha minimal? O que foi o primeiro mandato de Marcelo senão uma longa e dispendiosa campanha eleitoral?

A realidade agora a cores

João Sousa, 20.01.21

Os números preocupam e as imagens transtornam. Urgências entupidas, filas de ambulâncias à porta, médicos e enfermeiros exaustos, assim nos mostra a comunicação social o caos provocado pelo Covid no SNS.

Só que há exactamente um ano, ainda a senhora das orquídeas descansava-nos com a improbabilidade do vírus chegar cá e a semanas da ministra da agricultura via na epidemia (que já se fazia à estrada) oportunidades para os nossos agricultores, a mesma comunicação social relatava-nos urgências entupidas, filas de ambulâncias, médicos e enfermeiros exaustos. E em 2019, muitos meses antes de ficarmos a conhecer o comércio de caça nos mercados chineses, a comunicação social mostrava-nos urgências, ambulâncias, médicos e enfermeiros. E em 2018. E em 2017. E recuasse eu mais, mais encontraria.

Sim, os números preocupam e as imagens consternam. Mas a base da nossa tragédia é isto: o SNS não precisa do Covid para entrar em colapso com a chegada destes frios de Janeiro - tem conseguido fazê-lo muito bem sozinho.

Plausible deniability

João Sousa, 06.01.21


"A polémica da escolha de José Guerra para procurador europeu não foi discutida entre Charles Michel e António Costa, nem vai afetar a presidência da União Europeia. A garantia foi deixada pelo primeiro-ministro português e pelo presidente do Conselho Europeu que estiveram esta tarde reunidos num encontro que marca o início oficial da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia durante os primeiros seis meses do ano."
(Excerto de uma notícia publicada ontem no portal da RTP:)


É por isto que a fotografia publicada hoje na primeira página do Público me parece tão apropriada

lavar as mãos como pilatos

por parecer estarem ambos a lavar as mãos - como dois Pilatos.

Coincidências

João Sousa, 05.01.21

Há dias, Catarina Martins lamentou, a propósito da polémica que está a rodear o procurador José Guerra, que "informações falsas em currículos sejam situações comuns de mais em Portugal". Catarina Martins surpreendeu-me: talvez com a sua acutilância ainda tolhida pela digestão das pesadas ceias natalícias, ela, que tantas vezes no passado se mostrou rápida e sinuosa nos saltos de lógica, escolheu agora um simples "informações falsas em currículos são demasiado comuns em Portugal" para se lamentar.

Acontece que Catarina Martins, muito cirurgicamente, está a cometer um erro de análise.

O que aqui está em causa, ao contrário do que ela diz, não é o frequente (na nossa política) embelezamento do  próprio currículo. O que aconteceu não foi um político anunciar-se engenheiro quando não passa de um licenciado, fazer exames por fax, completar licenciaturas com equivalências, conseguir o canudo dias antes de ser nomeado para cargos públicos que o exigem, ou fazer cursos de qualidade manhosa. O próprio José Guerra já declarou não ter tido nada que ver com a tal carta enviada pelo Estado português. O que aconteceu, e que já está a ser discutido na Europa civilizada, foi o Estado português ter enviado, como justificação da sua não aceitação da escolha feita pelo comité europeu de selecção, uma carta onde embelezou o currículo do "seu" nomeado.

Admito que tenho atravessado esta polémica com alguma indiferença - não por achar que não tem importância, mas por já não me conseguir surpreender com o que é "apenas mais uma" questão mal explicada. Contudo, movido pela curiosidade, fui pesquisar o que já foi publicado sobre estes personagens. Fosse eu pessoa maldosa ou desconfiada, ficaria preocupado. Não o sendo, presumo tratar-se apenas de um imenso rol de coincidências.

É coincidência, seguramente, que o irmão de José Guerra tenha sido quem viabilizou, enquanto presidente do Instituto de Conservação da Natureza, a construção do Freeport.

É coincidência, de certeza, que José Guerra tenha sido nomeado pelo governo de José Sócrates para o Eurojust quando "já decorriam investigações à viabilização e implantação do outlet em Alcochete".

É coincidência que um dos seus colegas no Eurojust tenha sido José Lopes da Mota, suspenso por 30 dias em 2009 por pressões exercidas sobre os procuradores que investigavam em Portugal o caso Freeport.

Só pode ser coincidência, estou seguro, que Van Dunem tenha sido, em 2009, "o único elemento do órgão disciplinar do Ministério Público a votar contra a penalização de José Luís Lopes da Mota" (e nomeou-o, há seis meses, para seu conselheiro com a missão de "apoiar a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia").

É coincidência, só pode ser, que o júri constituído dentro do Conselho Superior do Ministério Público (CSMP) para avaliar as candidaturas a este cargo de procurador europeu apenas tenha definido o valor de cada um dos critérios de avaliação depois de saber quem eram os candidatos. E só pode ser coincidência que um desses critérios fosse interpretado de forma suficiente livre  para dar vantagem a José Guerra: "(...) os conselheiros decidiram que, para o concurso de procurador nacional na Procuradoria Europeia, o critério da "experiência como magistrado do Ministério Público" seria interpretado no sentido da "antiguidade na magistratura". Ou seja, por exemplo, um procurador com 20 anos de carreira, mesmo que 15 fossem passados nos Tribunais de Família e Menores, seria considerado como tendo mais experiência do que outro com 10 anos de serviço, nem que todo este tempo fosse a investigar fraudes com fundos europeus. Curiosamente, esta interpretação foi ao encontro do candidato José Guerra, que ocupa a 21ª posição na lista de antiguidade, enquanto Ana Carla Almeida está na 22ª."

Só pode ser coincidência que o júri europeu tenha ignorado a classificação dada pelo júri do CSMP e tenha escolhido, para um organismo destinado a investigar crimes económicos no espaço europeu, a procuradora Ana Carla Almeida por causa da sua maior experiência em... investigação de crimes económicos.

E que outra coisa pode ser senão coincidência que Ana Carla Almeida, tão energicamente (e atabalhoadamente) preterida pelo governo português em favor do seu special one José Guerra, seja a procuradora que, em Setembro de 2019, avançou com buscas à ANPC e ao MAI por suspeitas de favorecimento a uma empresa do marido de uma autarca do PS no caso das "golas da Protecção Civil", e seja também a procuradora do processo que envolve suspeitas de fraude em fundos europeus relacionado com a empresa Go Big or Go Home, que pertenceu a um antigo secretário de estado socialista?

Sim, tudo isto são coincidências. Que outra coisa havia de ser? Alguns, encostados a um certo poder, serem protegidos e premiados - e outros, que se metem com ele, levarem? Não: recuso-me a acreditar nisso. Afinal, estamos num Estado de Direito e somos um país da Europa, não é?

Pensamento da semana

João Sousa, 20.12.20

Em tantos blogues de gente voluntariosa que lê freneticamente, e nas secções de livros que ainda vão sobrevivendo nos jornais, é raríssimo eu ver uma crítica a um livro de divulgação científica. A falar verdade, não me recordo da última vez que vi alguém, num transporte público, a ler um livro de divulgação científica. Não estou a sugerir que ande toda a gente a ler o Mundos Paralelos de Michio Kaku, menos ainda o Breve História do Tempo de Stephen Hawking, por vezes algo herméticos para os não-iniciados. Mas é que nem vejo o Cosmos de Carl Sagan, que se lê como um romance, nem sequer uma das para-autobiografias de Richard Feynman que se lêem como uma comédia.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana