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Pensamento da semana

por Catarina Duarte, em 07.04.20

Sugiro que deixemos de lado a interpretação que fazemos constantemente das intenções e, talvez ainda pior, da forma como se dirigem a nós, dos modos de expressar de cada um. Como alternativa, proponho que passemos o foco para o conteúdo.

É um jogo difícil, este que vos falo, porque a forma, tal como a roupa que trazermos vestida, determina a imagem do que pretendemos transmitir. Mas não está certo – não pode estar certo – perder uma ideia, uma opinião, outra forma de analisar, apenas por não se gostar das calças que a pessoa que está a nossa frente traz vestidas.

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana.

Aquilo de que te vais lembrar.

por Catarina Duarte, em 04.01.20

Aquilo de que te vais lembrar, dos teus 14 anos, vai estar rodeado de névoa.

 

Vais recordar-te, vagamente, do teu melhor amigo. E, vagamente também, te recordarás do nome dele. Mas não terás a certeza.

 

Vais lembrar-te da tua escola, das suas secretárias e das suas cadeiras. Tens a vaga ideia de serem desconfortáveis e de serem castanhas, da cor da madeira. Mas também podiam ser pretas. Ou, algumas delas, castanhas; outras, pretas.

 

Vais também recordar-te da cor do vestido que usaste no casamento do teu primo. E vais referir que ficou um espanto com aquela pochete emprestada pela tua mãe. Terá sido um conjunto em tons de azul, aquele que fez furor e suscitou comentários, quase todos elogiosos.

 

Mas, no dia em que o voltares a ver, bem acondicionado num plástico direitinho da lavandaria, vais pensar: “que estranho, não tinha a ideia do azul ser tão aberto."

 

Vai haver também um dia em que vais recordar-te da amizade do teu melhor amigo, aquele que, aos 14 anos, te ajudou a compreender melhor os teus pais e vais - juro - agarrar-te sempre ao amor que sentiste no casamento do teu primo, aquele onde usaste o vestido azul de tom mais aberto, e de como dançaram até ao amanhecer, de como se abraçaram, de como se beijaram e de como, em cima das mesas, foram brindando ao amor, ao amor e ao amor.

 

Podes não ter a certeza da cor das cadeiras da tua escola, nem, tão-pouco, se eram confortáveis mas, para sempre te vais lembrar, do professor que, no final de uma aula de fim de período, te chamou à parte, para te dizer que devias escrever mais pois, se o fizesses, muita coisa boa iria acontecer.

 

Há poucas coisas que têm a importância devida para serem recordadas, ano após ano. E a nossa memória, nesse sentido, dá-nos uma grande ajuda, peneirando as que interessam abraçar e connosco morrer.

Um Bom Ano para todos. Cheio de recordações fáceis do tempo fazer permanecer. São sempre as que verdadeiramente importam.

A importância dos pequenos partidos.

por Catarina Duarte, em 09.12.19

Julgo que falo por todos, quando digo que estamos cansados do mesmo poder político de sempre, aquele que gira sempre entre as mesmas duas grandes forças, que faz deambular sempre os mesmos rabos que circulam sempre entre as mesmas cadeiras, sempre vestidos nos mesmos fatos cinzentos, sempre o mesmo cinzento, sempre os mesmos.

Parece-me que posso arriscar mais um pouco e dizer que estamos todos fartos das mesmas políticas e politiquices, dos cargos que se criam para dar lugar a mais um tio, das inaugurações que se fazem quando a obra ainda não começou e dos impostos que se baixam para aumentar outros, aqueles mais escondidos, aqueles que nos criam a ilusão de estarmos com mais dinheiro no bolso quando, na verdade, estamos apenas perante uma das maiores cargas fiscais de sempre.

Ora ligeiramente mais para a direita, ora mais a cair para a esquerda, a verdade é que está tudo minado de jogos e jogatanas feitos por quem está dentro do circuito há muitos, muitos anos, e tem a habilidade de tornar sempre tudo meio transparente aos olhos daqueles que pagam e não piam e que, em óptimo rigor, somos todos nós.

Ainda muito antes de ler este texto, cuja leitura recomendo, já era da opinião que hoje partilho: é muito bom haver outros partidos com assento parlamentar. À esquerda, à direita, ao centro, não interessa onde. Quanto mais diversificada for a bancada, melhor: mais conversa e mais debate. O que interessa é que estes partidos vêm mexer no sistema, agitar as águas, levantar as lebres e, talvez mais importante, enervar os mesmos de sempre, os que estão completamente acomodados ao cargo, com a cadeira já completamente moldada ao formato do rabo que nela se senta.

Vêm, finalmente, fazer uma oposição diferente, que toca na ferida e que deixa, os partidos de poder, desconfortáveis. Sempre soube qual era a razão pela qual as contribuições sociais pagas pela empresa não aparecem nos recibos de vencimento mas agora está lá alguém a perguntar, a questionar e a deixar todos meio incomodados com uma pergunta tão simples. Porque, na verdade, não há uma boa razão para não constar esta informação nos recibos.

Ideologias à parte, devíamos ser todos pelo dever da informação e da transparência e isto que a Iniciativa Liberal propõe, não é mais do que deixar preto no branco uma parte do que as empresas pagam por terem trabalhadores (porque faltam outras).

Podemos até não ter votado Iniciativa Liberal, Chega ou Livre mas não podemos acreditar que, com a entrada deles, vai ficar tudo na mesma. Porque não vai. E ainda bem.

O negro é bom porque é negro.

por Catarina Duarte, em 27.11.19

Se, para além de mulher, eu fosse negra, e se, devido ao meu trabalho e dedicação, eu conseguisse alcançar um lugar de destaque na nossa sociedade, nada me poderia deixar mais triste do que a injustiça de associarem o meu mérito ao meu género ou à minha cor da pele.

Fala-se imenso da importância, em sociedade, de se forçar determinados comportamentos para que eles depois saiam de forma natural. Um exemplo disso é a definição de quotas nas empresas, impondo a contratação de mulheres ou de negros, com as quais eu não concordo pois, e falando sobre as quotas em particular, mais não são do que formas de discriminar e de valorizar algo que não tem que ser valorizado – deve ser motivo de igualdade e não de desigualdade.

Para além disso, não acho piada relevar características óbvias de determinada pessoa, quando se fala em determinados feitos ou posições, como se essas características definissem essa mesma pessoa: é a primeira mulher negra a fazer aquilo; quantas mulheres tens como ministras? Claro que é importante falar disso!; é a primeira vez que se contrata um gago para aquele cargo; já viste que até se contratou um homossexual?.

No meu mundo e, agora com algum conhecimento de causa, até posso dizer “na minha casa”, devíamos educar pela igualdade e não pela diferença e, na igualdade, não há espaço para valorizar determinado acontecimento associando-o a uma característica pessoal outrora alvo de dedos apontados.

Quando o fazemos, ainda que com a melhor das intenções, estamos a dar um mau exemplo, estamos a dizer, a quem pretendemos educar, que essas características nos ajudam a atingir objectivos, que são pontos fundamentais para a nossa progressão. Podemos estar, no limite, a valorizá-las tanto que as colocamos acima do que é realmente importante e, na maior parte dos casos, o importante mesmo é o trabalho, o mérito e o trabalho e o mérito. Não falamos de homens, de mulheres, de pessoas negras, brancas, gordas, magras, homossexuais, bissexuais ou transsexuais. Falamos de trabalho e mérito.

Posto isto, se somos pela justiça e pela igualdade, temos mesmo que continuar a valorizar aquilo que menos depende de nós, como as nossas características inatas e físicas, em vez de valorizarmos o trabalho e o mérito, que, em última análise, é aquilo que realmente nos define?

Devemos legislar a ética e o bom senso?

por Catarina Duarte, em 10.04.19

A ética é um conceito assim tão difícil de definir? Será que o que é considerado como “comportamento ético” difere assim tanto de uma pessoa para outra? Ou, quando falamos de uma situação, falamos apenas de algo que, no limite, nem seria falado devido à sua imaterialidade na ocorrência mas que, quando falamos em cinco, dez ou quinze situações, já estamos a falar de um caso, de algo relevante e importante que merece ser investigado?

 

Não nomear uma filha de um ministro para um cargo ministerial, apesar da sua (alegada) elevada competência, por ser filha desse mesmo ministro, não me parece um comportamento muito ético. A pergunta é: esta situação isolada faz um caso? Para mim, a resposta é simples: não, não faz. Mas esta situação teria sido abordada, caso não existissem todas as outras ligações que se descobriram? Maridos, mulheres, filhos, filhas, primos e primas e voltamos a focar-nos no mesmo: um caso é diferente de cinco casos? E quando falamos de cinco casos, falamos de algo diferente de quinze casos? E serão todos reflexo de uma enorme falta de ética, com muita falta de bom senso à mistura, ou só alguns?

 

Num artigo do Jornal Público:

“O Presidente da República sublinhou que “a lei já existe”, não sendo portanto preciso um novo diploma. Esse diploma é o Código do Procedimento Administrativo, que foi aprovado em 1991, alterado em 2016, mas que mantém há 28 anos a norma (agora no artigo 69.º) que estabelece que um titular de um órgão ou agente da Administração Pública não pode intervir em acto em que tenha interesse um parente ou afim na linha recta ou até ao 2.º grau na linha colateral (irmão ou cunhado)…” 

 

A questão é: a pequena alteração da lei que o Presidente da República propõe resolve o problema? De repente, olhamos para um lado e o que vemos são regras e leis e mais regras e mais leis, sinais de proibido e sinais de obrigatório e, do nada, vivemos num mundo de orientações concretas, de linhas bem definidas, onde tudo está perfeitamente delineado.

 

Mas, depois, olhamos para o outro lado, e verificamos todas as outras nomeações que não obedeceram propriamente a graus de parentesco mas antes a níveis de amizade íntimos, e verificamos que, no final do dia, do que falamos é de um grave problema de falta de ética e de uma enorme ausência de bom senso e que se começarmos a legislar e a legislar algo que deveria estar bem definido na cabeça de quem decide, não vamos resolver o problema na sua origem; vamos antes criar graves entraves ao avanço da democracia, podendo criar, inclusive, algumas injustiças, proibindo, por exemplo, que pessoas com (alegada) elevada competência não ocupem cargos para os quais se fartaram de trabalhar para merecer.

 

Pensem bem: do que falamos, afinal, aqui?


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