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Delito de Opinião

Unhappy birthday, Mr. President

Pedro Correia, 22.01.26

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Um ano de Donald Trump: balanço calamitoso. «O ano da anarquia», como titula a Foreign Affairs. Com o mundo acelerando rumo a uma guerra global, à mercê dos amuos e das birras diárias do sucessor de Joe Biden.

A Casa Branca deslocou-se para Mar-a-Lago, com todo o seu patético simbolismo. O aliado torna-se inimigo, o adversário é acolhido com abraços fraternos - até tudo voltar a baralhar-se se novo ao impulso das madrugadas de insónia nas redes digitais. Com a jornada oficial do Presidente cada vez mais encolhida: começa em regra por volta do meio-dia e não costuma prolongar-se além das 17 horas.

 

A sua capacidade cognitiva vai sendo posta em causa, tanta é a incoerência do seu discurso, falado e escrito.

A missiva que endereçou no início da semana ao primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre - queixando-se pela enésima vez de não ter sido brindado com o Nobel da Paz, o que o deixa predisposto a desencadear guerras - funcionou como forte sinal de alarme. Nos últimos dias sucedem-se os artigos na imprensa norte-americana pondo em dúvida a sanidade mental de Trump.

«Decretos, perdões e golfe»: eis uma síntese deste ano, em versão benigna, difundida pela NBC, que fornece dados estatísticos. Em toda a história dos EUA, só Franklin Roosevelt o ultrapassou em número de decretos (381 contra 229, no seu terceiro mandato, marcado pelo envolvimento norte-americano na II Guerra Mundial). Trump visitou 13 países estrangeiros e fez 106 digressões por campos de golfe - uma das suas paixões, a par do consumo imoderado de coca-cola e de programas televisivos.

 

Nestes 367 dias, com ele no posto de comando, a ordem internacional transformou-se num barril de pólvora, cedendo terreno à semente totalitária.

Trump faz a apologia sem freio da lei da selva, do império absolutista assente na ponta das baionetas.

Rasga o direito internacional, proclama o primado do "eu" soberano todo-poderoso, renega os princípios republicanos que funcionaram como alicerces dos Estados Unidos da América.

 

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A carta ao PM da Noruega com queixinhas e ameaçando fazer birrinha

 

Esbulhou o Nobel da Paz de Maria Corina Machado, a corajosa líder da oposição venezuelana, que durante anos correu sério risco de vida no seu próprio país e liderou o admirável levantamento popular de 2024, afogado em sangue pela camarilha bolivariana. Autorizou a remoção do ditador Maduro mas manteve intacta a ditadura, que lhe faculta o acesso aos combustíveis. Nada mais lhe interessa.

Encorajou os jovens iranianos a saírem à rua em protesto contra a tenebrosa tirania dos talibãs, implantada há 47 anos, prometendo-lhes auxílio norte-americano. Quando os cadáveres se amontavam um pouco por toda a parte, com mais de cinco mil mortos contabilizados, virou as costas e optou por nada fazer. Traiu quem confiou nele.

Contemporiza com o ditador russo, implacável agressor da Ucrânia desde 2014, e estendeu-lhe até a passadeira vermelha no Alasca, comportando-se a seu lado como se fossem almas gémeas. Enquanto enxovalhava o herói da resistência ucraniana, Volodomir Zelenski, tratando-o como se ele tivesse peste ao recebê-lo pela primeira vez na Sala Oval. A guerra, a que prometeu pôr fim em poucos dias, prossegue. Mais acesa e mortífera que nunca.

 

Recentemente, apoderou-se dele a obsessão de invadir a Gronelândia, território sob tutela dinamarquesa, assim reconhecido pelo direito internacional. Alega motivos de segurança dos EUA para anexar a maior ilha do globo, como se o Reino da Dinamarca não fosse um país amigo dos EUA, seu aliado na NATO e parceiro leal em todas as circunstâncias, como se comprovou na sequência dos dramáticos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, única ocasião na história da Aliança Atlântica em que foi accionado o célebre artigo 5.º que mobiliza todos os Estados membros num pacto de solidariedade automática.

Pacto que Trump dá todos os sinais de querer rasgar, indiferente às vozes críticas do próprio Partido Republicano, como a de Mike Pence, seu vice-presidente no primeiro mandato.

 

E que mais?

Insulta o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, a propósito da cedência da soberania do arquipélago Chagos à Maurícia, no Oceano Índico - decisão de Londres que ele próprio havia aplaudido em Maio do ano passado. Agora classifica-a de «enorme estupidez» e reclama a posse das ilhas - talvez para lá implantar os resorts que ainda não conseguiu edificar em Gaza. Enquanto declara guerra tarifária ao Reino Unido, com aparente intenção de quebrar a economia do país, há longas décadas o principal aliado geoestratégico de Washington.

Divulga mensagens pessoais que lhe chegaram de personalidades como o seu homólogo francês, Emmanuel Macron, e o secretário-geral da NATO, Mark Rutte. Algo absolutamente indigno no campo das relações internacionais. Algo incompatível com a mais elementar decência cívica.

Ontem, no Fórum de Davos, confessou ter sentido a tentação de recorrer à «força excessiva» para se apoderar da Gronelândia, como um bucaneiro do século XVIII nas Caraíbas.

Cada vez que ele abre a boca, seja a bordo do avião presidencial seja nas desvairadas conferências de imprensa em Washington cada vez com menos jornalistas realmente dignos desse nome, o secretário de Estado Marco Rubio deve tremer: a instabilidade mental do chefe do Executivo dinamita todas as normas e todas as regras.

 

Os tantans bélicos do bilionário de Mar-a-Lago já prenunciam um quadro orwelliano com a sua "ministra do interior" a justificar a execução de civis desarmados nos EUA pela polícia migratória de gatilho fácil, já embriagada também ela pelos tambores da guerra, em nome do combate ao "terrorismo doméstico".

No plano externo Trump estilhaçou a ordem internacional que os EUA construiram em 1945-1949. No plano interno o trumpismo conduz os EUA a uma guerra civil larvar, cada vez mais ostensiva. O país nunca esteve tão perto de se fracturar desde 1860.

Enfim, uma distopia ao vivo.

Questiono-me se este mandato será levado até ao fim. A cada dia que passa, sinto mais dúvidas. Já se fala sem reservas na possibilidade de Trump vir a ser removido, com base na 25.ª adenda à Constituição. Quanto tempo poderá o botão nuclear permanecer à mercê dele?

Unhappy birthday, Mr. President.

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